A Universidade Federal do Piauí (UFPI) participa, pela segunda vez, do Global Media Monitoring Project (GMMP) Brasil 2025. O evento, realizado totalmente de forma on-line nos dias 30 e 31 de março, apresenta os resultados de uma pesquisa dedicada a monitorar a representação de gênero na mídia jornalística em âmbito mundial. A iniciativa busca ampliar o debate sobre diversidade, igualdade de gênero e representação no jornalismo, além de estimular reflexões sobre os desafios da cobertura midiática no país.
Professor da UFPI, Paulo Fernando de Carvalho Lopes
O professor do Departamento de Comunicação da UFPI, Paulo Fernando de Carvalho Lopes, coordenou a pesquisa na região Nordeste, em parceria com a professora Kenia Maia, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), além de outros docentes e discentes da UFPI e da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). A pesquisa é coordenada nacionalmente pela professora Elizângela Carvalho e pela professora Cláudia Lago, da Universidade de São Paulo (USP).
Realizada a cada cinco anos desde 1995, em mais de 100 países, a pesquisa do GMMP analisa como mulheres e homens aparecem, ou deixam de aparecer, no noticiário. No Brasil, a edição de 2025 examinou 683 notícias de 38 veículos jornalísticos, incluindo 10 jornais impressos, 12 sites, oito emissoras de rádio e oito de televisão. O levantamento oferece um panorama atualizado sobre as desigualdades de gênero na mídia brasileira.
Para o professor Paulo Fernando, esta edição teve maior abrangência no Brasil, alcançando todas as regiões, o que representa um avanço significativo e servirá de base para seminários e futuras publicações.
“A diferença desta edição em relação à de 2020-2021 é a maior capilaridade no Brasil, que conseguiu alcançar todas as regiões. Como a amostra cresceu bastante, foi necessário, em algumas regiões, haver duas coordenações, especialmente no Nordeste, que reúne nove estados. Foi muito positivo dividir essa coordenação com a professora Kenia, com quem formamos um subgrupo. Mesmo que nem todos os dados da região tenham sido totalmente aproveitados no relatório final, devido ao grande volume produzido, eles serão utilizados em seminários, publicações e outros desdobramentos ao longo dos próximos anos. Trata-se de uma pesquisa de grande escala, com um amplo alcance mundial”, destaca.
O professor também chama atenção para o aumento dos casos de violência contra as mulheres e para a baixa representatividade feminina na mídia, ressaltando a necessidade de ampliar o debate, inclusive no campo das políticas públicas.
“Estamos observando o aumento dos casos de violência contra as mulheres, incluindo o feminicídio, e essa baixa representatividade na mídia precisa ser analisada. Em temas como políticas públicas, por exemplo, embora haja forte participação feminina, os homens ainda são mais ouvidos como fontes. Também é fundamental pautar mais temas relacionados às mulheres na mídia, inclusive nas universidades. Em comparação ao relatório anterior, houve uma redução significativa da presença feminina no noticiário, o que é bastante preocupante diante do cenário atual”, afirma.
Paulo Fernando acrescenta que o estudo tem potencial para impulsionar pesquisas locais sobre a representatividade de gênero nos noticiários do Piauí, envolvendo estudantes de jornalismo na produção de artigos e debates.
“Realizamos um monitoramento específico no Piauí, com foco na mídia de Teresina. A partir do lançamento dos dados globais, pretendemos desenvolver um olhar mais local, com a participação de 12 alunas, seis da UESPI e seis da UFPI, para produção de artigos, realização de oficinas e diálogo com cursos de graduação. Essa reflexão passa, necessariamente, pela formação de novos jornalistas e pela importância de incluir temas como esse nas pautas, promovendo maior diversidade na abordagem e na construção das matérias”, finaliza.
Estudante do 7º período em Jornalismo, Antônia Bispo
Já a estudante do 7º período de Jornalismo da UFPI, Antônia Bispo, comenta que sua participação no projeto consistiu na coleta de material de importantes telejornais locais e nacionais durante o mês de maio, com o objetivo de identificar quais notícias abordavam a temática das mulheres e, em equipe, transformar esse conteúdo em dados. “Fiz parte de um dos grupos locais e também colaborei com uma equipe de Portugal, que contava com a participação da coordenadora geral do projeto, professora Elizangela Noronha. Foi uma experiência muito importante para conhecer, na prática, os processos de pesquisa, uma área da Universidade com a qual sempre quis trabalhar. Foi uma troca de conhecimentos bastante enriquecedora. No grupo de Portugal, por exemplo, eles foram muito solícitos ao esclarecer minhas dúvidas sobre a categorização das notícias para a transformação em dados”, enfatiza.
Antônia Bispo complementa que participar de uma pesquisa de caráter internacional e discutir a questão de gênero contribuiu significativamente para sua formação acadêmica e profissional. “Pude aprender sobre coleta de material, organização de prazos, categorização de dados e todos os processos que envolvem uma pesquisa. Além disso, foi gratificante contribuir para um projeto de grande relevância como o GMMP”, conclui.
GMMP Brasil 2025 - O evento é aberto ao público e voltado a pesquisadores(as), estudantes, profissionais da comunicação, organizações da sociedade civil e demais interessados no debate sobre mídia e igualdade de gênero. Além da divulgação dos dados nacionais da pesquisa, a programação inclui mesas de debate sobre gênero e equidade nas notícias.
Os dados do GMMP apontam que a presença feminina diminuiu em todas as funções analisadas nas notícias. A participação das mulheres no noticiário brasileiro continua desigual e, em vez de avançar, apresentou queda no último monitoramento. Na categoria de sujeito da reportagem, as mulheres aparecem em apenas 19% dos casos, enquanto os homens representam 81%. A presença feminina também é reduzida em temas centrais do debate público: nas notícias sobre política, economia e crime ou violência, as mulheres aparecem em apenas 22% dos casos; no esporte, esse percentual cai para 8%.
A programação será transmitida pelo canal no YouTube @DiversidadenaECA.