Sacmis
| Sacmis | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| deusa da vingança, da guerra e medicina | |||||
Sekhmet com cabeça de leoa, com um disco solar e um uraeus na cabeça. | |||||
| Nome nativo | |||||
| Local de culto | Mênfis | ||||
| Genealogia | |||||
| Cônjuge(s) | Ptá | ||||
| Pais | Rá | ||||
| Filho(s) | Nefertum e Maahes | ||||
Sequemete (Sekhmet; (/ˈsɛkˌmɛt/) ou Sacmis (/ˈsækmɪs/; no Antigo Egito 𓌂𓐍𓏏𓁐, romanizado Saḫmat; cóptico Ⲥⲁⲭⲙⲓ, romanizado : Sakhmi), na mitologia egípcia, é a deusa da vingança, da guerra e medicina do Antigo Egito. Sekhmet é também uma divindade solar, alguma vezes chamada de "o olho de Rá", sendo frequentemente associada às deusas Hator e Bastet.
Atribuições
[editar | editar código]Sekhmet é filha do deus do sol, Rá, e figura entre as deusas mais importantes do panteão egípcio. Ela atuava como a manifestação vingativa do poder de Rá: o Olho de Rá. Diz-se que Sekhmet soprava fogo, e os ventos quentes do deserto eram comparados à sua respiração. Acredita-se também que ela causava pragas (descritas como suas servas ou mensageiras), embora também fosse invocada para afastar doenças e curar os enfermos.
Em um mito sobre o fim do reinado de Rá na Terra, o deus envia a deusa Hathor, na forma de Sekhmet, para destruir os mortais que conspiraram contra ele. No mito, a sede de sangue de Sekhmet não foi saciada ao final da batalha, levando-a a uma carnificina sangrenta que devastou o Egito e quase destruiu toda a humanidade. Para detê-la, Rá e os outros deuses elaboraram um plano: derramaram um lago de cerveja tingida com ocre vermelho para que se assemelhasse a sangue. Confundindo a cerveja com sangue, Sekhmet bebeu tudo e ficou tão embriagada que desistiu do massacre e retornou pacificamente a Rá. Esse mesmo mito também foi descrito nos textos de prognóstico do "Calendário de Dias de Sorte e Azar" do Papiro Cairo 86637.[1][2]
Em outras versões dessa história, Sekhmet irritou-se com o estratagema e deixou o Egito, reduzindo o poder do sol. Isso ameaçou o poder e a segurança do mundo; assim, ela foi persuadida pelo deus Thoth a retornar e restaurar o sol à sua glória plena. Os atributos felinos e a iconografia de Sekhmet, por vezes, dificultam distingui-la de outras deusas felinas, principalmente Bastet.[3]
Sekhmet era considerada esposa do deus Ptah e mãe de seu filho, Nefertum. Dizia-se também que ela era mãe de Maahes, o deus da guerra com cabeça de leão. Além disso, era considerada irmã da deusa-gata Bastet. A deusa de cabeça de leão Sekhmet é a divindade mais representada na maioria das coleções egípcias ao redor do mundo. Muitos amuletos retratam sua imagem, e suas inúmeras estátuas são abundantes na arte egípcia. Muitas de suas estátuas podem ser encontradas em museus e sítios arqueológicos, e sua presença atesta a importância histórica e cultural dessa deusa.[4]
Adoração
[editar | editar código]Durante um festival anual realizado no início do ano, um festival marcado pela embriaguez, os egípcios dançavam e tocavam música para acalmar a natureza selvagem da deusa, além de consumirem grandes quantidades de cerveja e vinho em um ritual que imitava a embriaguez extrema responsável por aplacar a ira da deusa, ocasião em que ela quase destruiu a humanidade.
Em 2006, Betsy Bryan, arqueóloga da Universidade Johns Hopkins que realizava escavações no templo de Mut em Luxor (Tebas), apresentou suas descobertas sobre o festival; elas incluíam ilustrações de sacerdotisas sendo servidas em excesso e recebendo cuidados de assistentes do templo para tratar os efeitos adversos dessa embriaguez. A participação no festival era intensa, envolvendo tanto as sacerdotisas quanto a população em geral; existem registros históricos indicando a presença de dezenas de milhares de pessoas no evento. Essas descobertas ocorreram no templo de Mut porque, à medida que Tebas ganhava maior destaque, a divindade Mut absorveu algumas características de Sekhmet. As escavações em Luxor revelaram um "pórtico da embriaguez", anexado ao templo pela faraó Hatshepsut durante o auge de seu reinado de 20 anos.[5]
Origens
[editar | editar código]A primeira referência inequívoca conhecida a Sekhmet foi encontrada no complexo funerário de Raturés, da Quinta Dinastia do Egito.[6] Ela parece ter sido uma figura de importância relativamente menor durante o Império Antigo, tornando-se muito mais significativa no Império Novo. Cerca de 700 estátuas de Sekhmet (ou talvez um número significativamente maior) foram confeccionadas para o Templo Funerário de Amenófis III durante o Império Novo.[7]
Sekhmet é cultuada por alguns pagãos modernos, particularmente aqueles que seguem a espiritualidade centrada na Deusa. O culto pode envolver tanto estátuas modernas de Sekhmet quanto aquelas que integram coleções de museus.[7]
Estudos comparados
[editar | editar código]Na década de 1960, argumentou-se que a deusa hindu Kālī, cuja primeira menção documentada remonta ao século VII d.C., compartilha certas características com deusas antigas do Oriente Próximo, como o uso de um colar de cabeças e um cinturão de mãos decepadas (semelhante a Anat) e o hábito de beber sangue (como a deusa egípcia Sekhmet), sugerindo que sua natureza pode ter sido influenciada por essas divindades. Um mito descreve como Kali, tomada pelo êxtase da batalha e da matança enquanto eliminava demônios, recusou-se a parar até ser pacificada por seu consorte, Shiva, que se lançou sob os pés dela.[8]
Em 1977, Marvin H. Pope escreveu que esse mito apresenta paralelos com a lenda egípcia na qual Sekhmet foi enviada por Rá para destruir os humanos que conspiravam contra ele; a deusa, porém, deixou-se dominar tanto pela sede de sangue que não parava de matar, mesmo quando o próprio Rá, angustiado, desejava o fim da carnificina. Ela só foi detida graças a um estratagema: uma planície foi inundada com cerveja tingida de vermelho, líquido que Sekhmet confundiu com sangue e bebeu até ficar embriagada demais para continuar matando, salvando assim a humanidade da destruição.[9]
Galeria
[editar | editar código]- Relevos de Ramsés II, Ptah e Sekhmet.
- Detalhe de uma escultura de Sekhmet, The Children's Museum of Indianapolis
- Estátua de Sekhmet em Villa Melzi d'Eril, Bellagio, Itália
- Estátua da deusa Sequemete, granodiorito; Museo Egizio, Turim (C. 251).
- Relevo de Sekhmet, acervo Casa Museu Eva Klabin.
- Relevo do santuário do Templo de Khonsu, no recinto de Amon-Rá do complexo de templos de Karnak, representando Sekhmet.
- Sekhmet atrás de Khnum, no templo deste último em Esna.
- Estátua de Sekhmet no Museu de Turim, Itália
Referências
- ↑ Lichtheim, Miriam (2006). Ancient Egyptian Literature, Volume Two: The New Kingdom. Berkeley: University of California Press. p. 197–199. ISBN 978-0520248434
- ↑ Jetsu, L.; Porceddu, S. (2015). «Shifting Milestones of Natural Sciences: The Ancient Egyptian Discovery of Algol's Period Confirmed». PLOS ONE. 10 (12): e.0144140 (23pp). Bibcode:2015PLoSO..1044140J. PMC 4683080
. PMID 26679699. arXiv:1601.06990
. doi:10.1371/journal.pone.0144140 - ↑ Strudwick, Helen (2006). The Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Sterling Publishing Co., Inc. 135 páginas. ISBN 978-1-4351-4654-9
- 1 2 Wilkinson, Richard H. (2003). The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. Londres: Thames & Hudson. p. 178, 181. ISBN 978-0500051207
- ↑ Galán, José M.; Bryan, Betsy Morrell; Galán, José M., eds. (2014). «Hatshepsut and Cultic Revelries in the New Kingdom». Creativity and innovation in the reign of Hatshepsut: papers from the Theban Workshop 2010. Col: Occasional proceedings of the Theban Workshop. Chicago, Illinois: The Oriental Institute of the University of Chicago. pp. 93–123. ISBN 978-1-61491-024-4
- ↑ Lange-Athinodorou, Eva (2016). «The Lioness Goddess in the Old Kingdom Nile Delta: A Study in Local Cult Topography». Sapientia Felicitas Festschrift für Günter Vittmann. [S.l.]: Les Cahiers Égypte Nilotique et Méditérranéenne. pp. 303–305
- 1 2 Ciaccia, Olivia (6 de abril de 2022). «Seeking Sekhmet: The veneration of Sekhmet Statues in contemporary museums». Pomegranate. 23 (1–2). ISSN 1743-1735. doi:10.1558/pome.18653
- ↑ Pope 1977, pp. 608.
- ↑ Pope 1977, pp. 607-608.
- ↑ Agence France-Presse (3 de dezembro de 2017). «Encontradas no Egito 27 estátuas da deusa Sekhmet». Isto É - Cultura, edição Nº2574. Consultado em 26 de abril de 2019
Bibliografia
[editar | editar código]- Germond, Philippe (1981). Sekhmet et la protection du monde (em francês). [S.l.]: Editions de Belles-Lettres
- Hoenes, Sigrid-Eike (1978). Untersuchungen zu Wesen und Kult der Göttin Sachmet (em alemão). [S.l.]: R. Habelt Verlag
- Pope, Marvin H.; Röllig, Wolfgang (1965). «Syrien: Die Mythologie der Ugariter und Phönizier» [Syria: The Mythology of the Ugarites and Phoenicians]. In: Haussig, Hans Wilhelm. Götter und Mythen im Vorderen Orient [Gods and Myths in the Middle East] (em alemão). Stuttgart: Ernst Klett Verlag. pp. 217–312
- Loprieno, Antonio (1995). Ancient Egyptian: A Linguistic Introduction. Cambridge, United Kingdom; New York City, United States: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-44384-5
- Pope, Marvin H. (1977). Song of Songs. Col: Anchor Bible Series. 7C. New York: Doubleday. ISBN 978-0-385-00569-2
- von Känel, Frédérique (1984). Les prêtres-ouâb de Sekhmet et les conjurateurs de Serket (em francês). [S.l.]: Presses Universitaires de France
- Vycichl, Werner (1983). Dictionnaire Étymologique de la Langue Copte [Etymological Dictionary of the Coptic Language] (em francês). Leuven, Belgium: Peeters Publishers. ISBN 978-2-801-70197-3

