Rita Lee
| Rita Lee | |
|---|---|
| OMC · ORB | |
Rita Lee em 2010 | |
| Nome completo | Rita Lee Jones de Carvalho |
| Conhecido(a) por | Rainha do Rock Brasileiro · Rainha do Pop |
| Nascimento | Rita Lee Jones |
| Morte | São Paulo, SP, Brasil |
| Causa da morte | câncer de pulmão |
| Cônjuge |
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| Filho(a)(s) | 3, incluindo Beto |
| Educação | |
| Ocupação |
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| Prêmios | lista completa |
| Carreira musical | |
| Período musical | 1963–2023 |
| Gênero(s) | |
| Extensão vocal | mezzosoprano |
| Instrumento(s) | |
| Gravadora(s) | |
| Afiliações | |
| Assinatura | |
Rita Lee Jones de Carvalho (nascida Rita Lee Jones; São Paulo, 31 de dezembro de 1947 – São Paulo, 8 de maio de 2023) foi uma cantora, compositora, escritora, atriz e apresentadora brasileira. Conhecida como a "Rainha do Rock Brasileiro",[n 1] destacou-se como uma das figuras de maior influência na música popular do país, com sua obra sendo caracterizada pela reinvenção e versatilidade na produção musical e audiovisual. Pioneira tanto do rock quanto da música pop no Brasil, explorou diversos gêneros e promoveu um hibridismo entre estilos internacionais e nacionais. Suas composições e interpretações abordavam o prazer e o protagonismo feminino, o que a tornou uma figura de resistência artística durante a ditadura militar e uma influência citada por diferentes gerações de artistas, especialmente mulheres.
Nascida e criada em São Paulo, iniciou sua trajetória musical em 1963, apresentando-se no Tulio's Trio e, posteriormente, no Teenage Singers — agrupamento que viria a se tornar Os Seis. Após projetar-se nacionalmente como vocalista e instrumentista do grupo tropicalista Os Mutantes, consolidou sua carreira solo com o álbum Fruto Proibido (1975). Gravado com a banda Tutti Frutti, o disco é listado como um marco do rock nacional. Nos anos seguintes, sua popularidade cresceu com o lançamento de uma série de álbuns que ajudaram a popularizar a música pop no país, sendo a maioria concebida em parceria com o seu marido, o guitarrista e pianista Roberto de Carvalho, com quem coescreveu grande parte de seu repertório. Entre os álbuns de maior vendagem no período estão Rita Lee (1979), Rita Lee (1980), Saúde (1981) e Rita Lee e Roberto de Carvalho (1982) — este último figurando entre os discos mais vendidos da história da música brasileira. Ao todo, sua obra inclui mais de 300 composições registradas, com diversas canções mantendo presença nas paradas musicais.
A visibilidade de Rita Lee expandiu-se com seu trabalho na televisão, no cinema e na literatura. Na TV Globo, protagonizou especiais de fim de ano distintos — como Rita Lee Jones (1980), Rita Lee Jones (1981), O Circo (1982), Rita Lee e Roberto de Carvalho (1985) e Rita Lee Especial (1995). Atuou também como apresentadora nos programas TVLeezão (1991), na MTV Brasil, e Saia Justa (2002) e Madame Lee (2005), ambos no canal GNT. Como atriz de filmes e séries e locutora de rádio, recebeu distinções como o prêmio de Melhor Intérprete Masculino no Rio Cine Festival, pelo curta-metragem Tanta Estrela por Aí… (1992), e o Troféu Calunga de Melhor Atriz Coadjuvante, pelo longa-metragem animado Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll (2006). Na literatura, publicou 11 livros em vida e dois póstumos; sua primeira autobiografia vendeu 70 vezes a tiragem média de um livro no Brasil durante o primeiro ano de lançamento. Adepta do veganismo, utilizava suas plataformas para defender os direitos dos animais, a igualdade de gênero e a comunidade LGBT.
Com mais de 55 milhões de obras musicais comercializadas, Rita Lee é a cantora brasileira com o maior número de discos vendidos na história do país. Obteve alcance internacional na América hispânica e na Europa latina, principalmente em países de língua francesa, realizando apresentações em nações como Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Estados Unidos, Portugal, França, Inglaterra, Suíça, Bélgica e Alemanha. Pioneira em turnês nacionais de grande porte, foi a primeira artista do Brasil a realizar uma excursão por ginásios e estádios, reunindo 500 mil espectadores na Tour Brasil 83, marca semelhante à obtida na Tour 87/88. Suas distinções incluem 12 Prêmios da Música Brasileira, quatro prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), três Troféus Imprensa, dois Grammys Latinos, o Prêmio Shell de Música e o prêmio honorário da União Brasileira de Compositores (UBC). Foi ainda listada pela Rolling Stone Brasil entre as melhores vozes e artistas brasileiros de todos os tempos.
Vida pública e carreira
[editar | editar código]Infância e início na música
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Nascida na véspera de Ano-Novo, em uma família de classe média paulistana, Rita é a filha mais nova do dentista Charles Fenley Jones (1904–1983), paulista descendente de imigrantes norte-americanos confederados do Alabama e do Tennessee, estabelecidos em Santa Bárbara d'Oeste,[7] e de Romilda Padula, apelidada Chesa (1904–1986), também paulista, filha de imigrantes italianos da região do Molise, no sul da Itália.[8] Seus pais tinham outras duas filhas: Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. Lee é um nome composto com que o pai quis registrar todas as filhas, em homenagem ao general Robert E. Lee, do exército confederado norte-americano.[9] Originalmente, seu primeiro nome era planejado para ser Bárbara, em homenagem à santa, mas na hora do batizado resolveram homenagear a avó materna, que se chamava Clorinda, mas tinha o apelido de Rita.[10]
Ela nasceu e cresceu no bairro da Vila Mariana, onde viveu até o nascimento de seu primeiro filho. Em entrevistas, revelou que esse bairro lhe era especial, já que lá tem uma grande parte de todas as melhores lembranças de sua vida.[11] A artista foi educada no colégio franco-brasileiro Liceu Pasteur; era poliglota e falava fluentemente português, inglês, francês, castelhano e italiano. Chegou a ingressar no curso de Comunicação Social na Universidade de São Paulo, em 1968, na mesma turma da atriz Regina Duarte.[12] Assim como Regina, abandonou o curso no ano seguinte.[13]
Durante a infância teve aulas de piano com a musicista clássica Magda Tagliaferro. Não pensava em ser cantora de rock, mas em ser atriz de cinema, veterinária ou a profissão que seu pai queria, dentista.[14] Suas primeiras influências musicais foram Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka, Peter, Paul and Mary, Beatles, Rolling Stones, mas também escutava música brasileira como Cauby Peixoto, Angela Maria, Tito Madi, João Gilberto, Emilinha Borba, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira e Maysa por influência dos pais.[15]
Na adolescência passou a se interessar por música e compôs suas primeiras canções. Junto de alguns amigos começou a se apresentar em clubes da região como componente do Tulio's Trio.[16] Em 1963 formou um conjunto musical com mais duas garotas, as Teenage Singers, que faziam pequenos shows em festas colegiais. No ano seguinte elas conheceram o trio masculino Wooden Faces. Nesse mesmo ano, fez sua primeira gravação nos vocais para um álbum de Prini Lorez.[17] Teenage Singers e Wooden Faces juntaram-se, formando o Six Sided Rockers, banda que depois passou a se chamar "Os Seis" e que chegou a gravar um disco compacto, com duas músicas.[15]
Depois da saída de três componentes, sobraram Rita e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista. O trio passou a se chamar Os Bruxos. Entretanto, o trio não estava satisfeito com esse nome e queriam mudá-lo, antes da apresentação do grupo, na estreia do programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record (1966). Segundo Carlos Calado,[18] a ideia do nome "Os Mutantes" veio de uma brincadeira irônica de Alberto Helena Júnior, produtor do programa, com Ronnie Von, que, na época, estava lendo O Império dos Mutantes, de Stefan Wul, e não falava de outro assunto. "Vocês ainda estão procurando um nome para o conjunto dos meninos? Por que não Os Mutantes?" Ronnie Von gostou da ideia de Alberto Helena e levou-a ao grupo, que a aprovou imediatamente.[19]
1966–72: Os Mutantes e primeiros álbuns solo
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Por um período de seis anos, Lee foi, com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, integrante da banda Os Mutantes, cantando, tocando flauta e percussão, além de performances bissextas no sintetizador, no banjo e manipulando bizarrices como um gravador portátil (como na música "Caminhante Noturno"), uma bomba de dedetização (em "Le Premier Bonheur du Jour") e sendo letrista. Em 1967, a banda acompanhou Gilberto Gil no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, na apresentação da canção "Domingo no Parque".
Foram gravados seis álbuns, tendo o primeiro, de 1968, como uns dos mais importantes da história da música brasileira e que deram origem a sucessos como "A Minha Menina", "Dom Quixote", "Balada do Louco", "2001 (Dois Mil e Um)" e "Ando Meio Desligado". De 1968 e 1972 foi casada com o companheiro de banda, Arnaldo. Ela declararia que ambos já não namoravam juntos há muito tempo, mas se uniram no cartório para acalmar relatos a respeito dela sempre estar indo para a casa dos Baptista na Serra da Cantareira. O divórcio foi assinado somente em 1977.[20][21]
Acompanhada dos componentes dos Mutantes, gravou dois discos solo. O primeiro foi Build Up (1970) — contendo algumas canções em parceria com Arnaldo — que, originalmente, era o repertório de um show feito exclusivamente para um evento empresarial (a Fenit, em São Paulo). Desse disco saiu seu primeiro compacto, "José" (uma versão de Nara Leão para a canção francesa "Joseph", de Georges Moustaki). O segundo disco, Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972), foi gravado com o seu nome, pois a banda já havia lançado um álbum naquele ano e, nos termos do contrato com a gravadora, não lhe era permitido outro lançamento. Com isso, Os Mutantes gravaram, mas só Lee aparece nos créditos.[20]
Em decorrência do fim de seu casamento e de discordâncias com os rumos que a banda estava tomando, a cantora foi expulsa dos Mutantes pelo próprio Arnaldo. Dentre distintas histórias e controvérsias, ela alega que seus companheiros achavam que ela não tinha o virtuosismo requerido pelo rock progressivo, novo interesse da banda. A informação de Lee acabou por se gerar uma grande discussão. Alguns diziam que ela teria saído do grupo. Entretanto, em 2007, Arnaldo admitiu, em entrevista: "Mandei a Rita embora dos Mutantes".[22] No livro Rita Lee: uma autobiografia, de 2016, ela contou em detalhes como se deu a notícia de sua saída:[23]
"Minha saída do grupo aconteceu bem nos moldes de 'o noivo é o último a saber', no caso, a noiva. Depois de passar o dia fora, chego ao ensaio e me deparo com um clima tenso/denso. Era um tal de um desviar a cara pra lá, o outro olhar para o teto, firular instrumento e coisa e tal. Até que Arnaldo quebra o gelo, toma a palavra e me comunica, não nessas palavras, mas o sentido era o mesmo, que naquele velório o defunto era eu. 'A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes porque nós resolvemos seguir na linha progressiva-virtuose e você não tem calibre como instrumentista'. Uma escarrada na cara seria menos humilhante. Em vez de me atirar de joelhos chorando e pedindo perdão por ter nascido mulher, fiz a silenciosa elegante. Me retirei da sala em clima dramático, fiz a mala, peguei Danny (a cachorra) e adiós".
1973–78: Tutti Frutti e consagração nacional
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Em 1973, Rita Lee formou a dupla folk rock Cilibrinas do Éden ao lado da guitarrista Lúcia Turnbull. A dupla fez apenas uma apresentação no festival Phono 73 e logo foi dissolvida.[24] Lee então integrou a banda Lisergia, composta pelo guitarrista Luis Sérgio Carlini, o baixista Lee Marcucci, o baterista Paulinho Braga e a própria Turnbull. Além dos vocais principais, ela também tocava piano, sintetizador, harmônica e guitarra.[20] Em agosto, a banda estreou o espetáculo Tutti Frutti, primeiro show solo da cantora, no porão do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, com direção de Antônio Bivar. O sucesso junto ao público de rock fez as apresentações crescerem rapidamente para cerca de 200 pessoas por noite, o que acabou batizando o novo nome do grupo.[25] Contratados pela Philips, gravaram um primeiro álbum, que foi retido pela gravadora por ser considerado excessivamente alternativo e por questões de censura. Obrigados por contrato a retornar ao estúdio, o grupo lançou Atrás do Porto Tem uma Cidade em 1974.[26] O produtor Marco Mazzola, contratado sem a aprovação da banda, alterou substancialmente os arranjos, gerando insatisfação entre os integrantes. Durante uma reunião na Phonogram, após um relatório interno que apontava insucesso comercial apesar da divulgação, Lee dirigiu insultos aos executivos e acabou expulsa da gravadora.[27]
Fruto Proibido chegou às lojas em junho de 1975 pela Som Livre, fundindo hard rock, blues e glam rock. O álbum foi posteriormente reconhecido como uma obra-prima de Lee e um marco fundamental do rock brasileiro.[28][29] A revista estadunidense Paste o elegeu o 12.º melhor disco de 1975,[30] enquanto a Rolling Stone Brasil o descreveu como "o primeiro álbum do rock brasileiro que não soava [como uma] versão da matriz inglesa" e o posicionou como o 16.º melhor álbum da história da música brasileira.[31] Sucesso comercial, tornou-se o primeiro disco de rock brasileiro a alcançar alta vendagem,[32] ocupando a sexta posição entre discos na lista anual do NOPEM; estima-se que, nos dias atuais, mais de 700 mil réplicas da obra já foram adquiridas.[33][34] Quatro faixas de trabalho ganharam videoclipes no programa Fantástico, da TV Globo — "Ovelha Negra", "Agora Só Falta Você", "Esse Tal de Roque Enrow" e "Dançar pra Não Dançar" —, o que ajudou as três primeiras a se tornarem grandes sucessos.[35][28] O desempenho do trabalho viabilizou a primeira turnê de rock do país, que percorreu capitais do Norte ao Sul.[36] O espetáculo se destacou pela inovação, com qualidade cênica e figurinos marcantes usados pela cantora.[37]

Em 1976, a banda lançou Entradas e Bandeiras, seu terceiro trabalho, produzido por Pena Schmidt e que rendeu as músicas de divulgação "Coisas da Vida" e "Corista de Rock". Com Lee ausente durante a mixagem, o álbum ganhou forte predominância das guitarras de Carlini, o que desagradou a cantora.[20] Ao compor a canção "Bandido Corazón" para Ney Matogrosso, Lee conheceu o guitarrista Roberto de Carvalho, com quem iniciou um relacionamento afetivo e profissional, incorporando-o ao Tutti Frutti.[38] Em agosto daquele ano, grávida de seu primeiro filho, Beto Lee, foi detida por posse de maconha junto com a empresária e músicos da banda — episódio visto como uma manobra da ditadura militar para dar exemplo à juventude. Lee alegou ter interrompido o uso de entorpecentes devido à gestação e afirmou que as substâncias haviam sido plantadas pela polícia.[39][40] Transferida para o presídio feminino do Hipódromo, recebeu a visita de Elis Regina, que exigiu atendimento médico para complicações gestacionais e permaneceu ao seu lado até o sangramento ser estancado.[41] Após cerca de um mês e meio detida, foi condenada a um ano de prisão domiciliar e multa.[42] Cumpriu a pena na casa dos pais, em Vila Mariana, com autorização apenas para apresentações noturnas.[39] Ao retornar aos palcos, no Ginásio do Palmeiras, usou um figurino caricatural de presidiária inspirado nos Irmãos Metralha e recebeu apoio entusiástico do público jovem.[43][44]
A prisão domiciliar levou o cancelamento da turnê nacional do Entradas & Bandeiras, gerando dívidas com os patrocinadores em razão dos prejuízos financeiros pela quebra de contrato. Abalada e endividada, Rita lançou em março de 1977 a música "Arrombou a Festa", música composta em parceria com Paulo Coelho e que criticava o cenário da MPB da época. O compacto vendeu mais de 250 mil cópias, chegando ao topo das paradas e provocando polêmica, tendo havido, inclusive, pichações nas ruas do Rio de Janeiro com os dizeres "Fora Rita Lee", "Abaixo a Gringa".[45]
"Elis não representava uma person of interest da ditadura, ao contrário, era reconhecida como a rainha do Olimpo musical e nenhum generaleco se atreveria a mexer com ela. Ficou lá de plantão até eu ser medicada e o sangramento estancado. Ainda mandou vir comidinha de um restaurante porque me achou magrela demais para uma grávida".
— Lee em relato sobre sua prisão na obra Rita Lee: uma autobiografia.[41]
Encerrada a prisão domiciliar, Lee participou do show Refestança, ao lado de Gilberto Gil, que percorreu oito capitais e terminou no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, onde o cenário desabou; um álbum ao vivo registrou a colaboração.[46] Em 1978, foi lançado Babilônia, quarto e último disco de Rita Lee & Tutti Frutti, que produziu os sucessos "Jardins da Babilônia", "Eu e Meu Gato" e "Miss Brasil 2000" e vendeu 150 mil cópias.[47][48] Divergências internas levaram à dissolução do grupo. Insatisfeito com seu papel reduzido na banda que cofundara, Carlini retirou-se, levando consigo o registro do nome Tutti Frutti. Os membros remanescentes continuaram com Lee,[47] que rebatizou o conjunto como Rita Lee & Cães e Gatos para a turnê promocional do álbum.[43][49]
1979–83: Início da fase pop e parceria com Roberto de Carvalho
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Em 1979, após o término da banda Tutti Frutti, Rita Lee estabeleceu uma parceria musical e cênica com Roberto de Carvalho, formando uma "dupla dinâmica".[50] Essa colaboração marcou uma pausa estratégica para a transição definitiva do rock à música pop de apelo comercial.[38][51] Em agosto do mesmo ano, a artista lançou o homônimo Rita Lee, primeiro álbum de estúdio da nova fase, produzido durante a gestação de seu segundo filho, João Lee.[52][53] O disco comercializou 800 mil cópias, consolidando-a como a primeira superestrela pop do Brasil.[51] A faixa de trabalho "Mania de Você" obteve amplo sucesso nacional ao figurar em um comercial da marca de roupas Ellus,[54][55] enquanto "Chega Mais" destacou-se como tema de abertura da telenovela de mesmo nome — na época, um importante veículo de promoção musical.[56] Ainda em 1979, Lee integrou o elenco do especial Mulher 80, transmitido pela TV Globo, dedicado às maiores intérpretes femininas do país.[57]
A popularidade da cantora continuou a crescer com a liberação de seu álbum seguinte, também intitulado Rita Lee, em setembro de 1980.[52] O projeto marcou sua primeira projeção internacional de destaque, atingindo as 10 primeiras posições nas paradas musicais da Suíça, Bélgica e França — onde vendeu mais de 60 mil unidades.[58][59] O trabalho também obteve êxito na Argentina, alcançando o sétimo lugar e 30 mil exemplares comercializados,[60][61] enquanto no Brasil as vendas superaram a marca de um milhão.[62] Ao final de 1981, Lee estampou a capa da revista Exame por superar a crise da indústria fonográfica brasileira, sendo reconhecida como a artista feminina de maior sucesso comercial e a única a dobrar sua vendagem naquele período.[48] O disco recebeu certificação de platina dupla pela Pro-Música Brasil (PMB) e posicionou-se como o terceiro mais adquirido na lista anual do NOPEM.[63][33] A música de divulgação "Lança Perfume" foi um grande sucesso internacional, liderando a parada musical da França e alcançando as três primeiras posições na Argentina e no Uruguai.[64][65][66] A canção também ingressou nas listagens da Espanha e na parada Disco Top 80 da publicação estadunidense Billboard,[67][68] consagrando-se como a música brasileira mais popular daquele ano,[69] com regravações por diversos artistas em cinco idiomas (espanhol, francês, italiano, hebraico e alemão).[70] "Baila Comigo" figurou como outro grande êxito, servindo de tema para a telenovela homônima, e as demais faixas dominaram a programação das rádios.[71] A TV Globo exibiu o especial Rita Lee Jones como parte da série Grandes Nomes.[72] Na 17.ª edição do Troféu Imprensa, a artista venceu nas categorias de Melhor Cantora e Melhor Música ("Lança Perfume"),[73] enquanto a excursão promocional do disco foi eleita o Melhor Show de 1980 pelo Prêmio APCA de Música Popular.[74]
No final de 1981, período estratégico para as vendas natalinas[48] — padrão que seria mantido nos lançamentos seguintes —, foi disponibilizado Saúde, o primeiro material oficialmente creditado à dupla Rita Lee & Roberto de Carvalho. O projeto enfrentou censura federal devido às suas letras, consideradas contrárias aos "bons costumes", e recebeu críticas pela mixagem em Nova Iorque e pela inclusão de baterias eletrônicas.[75] Gravado durante a gestação de Antônio Lee,[76] o disco gerou sucessos em território nacional, como a faixa-título e "Banho de Espuma" — esta última entre as canções mais executadas no Brasil naquele período —,[77] consolidando a cantora como a principal figura do pop brasileiro na época e rendendo-lhe novamente o Troféu Imprensa de Melhor Cantora.[78][79] Apesar da distribuição inicial de 400 mil cópias e do especial de fim de ano Rita Lee Jones na série Grandes Nomes,[48][72] o desempenho comercial ficou abaixo das expectativas da gravadora, somando apenas 30 mil vendas adicionais até outubro de 1982.[80] Ainda assim, a obra conquistou o certificado de platina,[81] figurou na parada de álbuns do Uruguai e alcançou as cinco primeiras posições em Portugal.[82][83] A artista atribuiu a recepção de público inferior à do disco anterior à falta de uma extensa turnê promocional, afirmando: "[…] eu adoeci e não pude percorrer as capitais divulgando-o nos shows".[84]
Em 1982, a dupla lançou seu segundo projeto de estúdio conjunto, o homônimo Rita Lee e Roberto de Carvalho. As faixas de trabalho alcançaram êxito imediato: "Flagra" integrou a abertura da telenovela Final Feliz, e "Cor-de-Rosa Choque" foi encomendada para o programa TV Mulher.[77][85] O álbum obteve desempenho comercial extremamente favorável, conquistando platina dupla no Brasil e prata pelo Grupo Português de Produtores de Fonogramas e Videogramas (GPPFV) por 30 mil exemplares comercializados em Portugal.[86][87] Ao todo, comercializou duas milhões de unidades,[88] tornando-se um dos discos mais adquiridos da história do Brasil e o vice-líder de vendas em 1983.[89][33] O feito consolidou Lee como a segunda maior vendedora de discos do país — atrás apenas de Roberto Carlos — e a artista mais bem paga por exemplar, com lucros de 15%.[90] Ao final de 1982, a dupla apresentou uma prévia da turnê subsequente em dois espetáculos no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, gravados para o especial de fim de ano O Circo, da TV Globo.[91] Em seguida, estreou a Tour Brasil 83, a primeira digressão nacional realizada inteiramente em ginásios e estádios. A excursão popularizou o formato no país e atraiu um público recorde de 500 mil espectadores em três meses. As apresentações contaram com cenografia sofisticada e múltiplas trocas de figurino, configurando o maior espetáculo brasileiro realizado até então;[90][92] para a revista Veja, o jornalista Okky de Souza afirmou que "com sua turnê, [Lee] inaugurou a era em que os artistas se apresentam apenas para grandes platéias, em ginásios ou estádios".[90] Em virtude do elevado investimento na estrutura, o faturamento final foi considerado um fracasso,[93] totalizando aproximadamente 80 milhões de cruzeiros.[94] Paralelamente, em abril de 1983, foi liberado o álbum internacional Baila Conmigo, composto por releituras em espanhol. O material vendeu 80 mil cópias no México em seu primeiro mês de lançamento e atingiu a oitava colocação na Argentina.[90][95] A faixa-título do disco figurou entre as cinco mais consumidas em território argentino e também alcançou as 10 primeiras posições na Espanha,[96][67] impulsionada por um videoclipe gravado exclusivamente para divulgação no exterior.[97]
1983–90: Pós-auge comercial e desgaste da dupla
[editar | editar código]Após o término da turnê anterior, Rita Lee e Roberto de Carvalho lançaram o terceiro álbum da dupla, Bombom, em 1983. Gravado com a participação de Steve Lukather e Mike Porcaro, membros da banda Toto, o disco trouxe conteúdo explícito que provocou censura do regime militar brasileiro: nas prensagens iniciais em vinil, duas faixas foram riscadas com lâmina para impedir sua reprodução, apresentações públicas e transmissões radiofônicas foram proibidas, e a venda foi vetada a menores de 18 anos.[98][99] Apesar de mal recebido pelo próprio casal e pela crítica, que o considerou um fiasco,[100] o álbum obteve certificação de platina dupla em menos de quatro meses.[101] Segundo a cantora, o trabalho havia sido gravado "num esquema muito impessoal, de linha de montagem", com grande parte do repertório a cargo de músicos de Los Angeles, além do brasileiro Paulinho da Costa.[71] Em meio à recepção negativa, Lee anunciou que não lançaria um novo álbum de inéditas em 1984, decisão incomum para a época.[102] Para evitar um hiato, a gravadora lançou Rita Hits, um disco de remixes.[103] Ao final do ano, com o objetivo de divulgar sua música internacionalmente, a cantora viajou à Itália, onde concedeu entrevistas e se apresentou nos programas Te lo do io il Brasile, da RAI, e Un Millione al Segundo, da Rete 4, este último em horário nobre.[104] Em 1985, a dupla fez duas apresentações avulsas: no Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, no Chile, onde receberam a Tocha de Prata,[105] e na primeira edição do Rock in Rio. Lee aceitou participar deste último apenas para desmentir boatos de que estaria com leucemia.[106] A apresentação foi marcada por polêmicas, como o tratamento diferenciado entre artistas estrangeiros e brasileiros — as atrações nacionais serviram, segundo ela, como cobaias para testes de som e iluminação, sem ensaios adequados —,[107] o roubo de sua guitarra Fender Telecaster nos bastidores e seu próprio desempenho, que atribuiu a uma ressaca após uma noite de comemoração com Carvalho no Copacabana Palace.[108][106] Ela recusou-se a participar do segundo fim de semana do festival.[107]
Após o falecimento de seu pai e um período de dificuldades pessoais ligadas ao consumo de álcool e drogas, Lee adotou um tom mais sombrio e cinematográfico no álbum Rita e Roberto, lançado em setembro de 1985.[103][100] Em vez de promover o disco com a gravação tradicional de um especial ao vivo para a televisão, ela foi precursora no Brasil ao conceber um álbum integralmente acompanhado de vídeos musicais. Os clipes foram exibidos no especial de fim de ano Rita Lee e Roberto de Carvalho na TV Globo, onde a cantora interpretava personagens tragicômicos em uma superprodução narrativa.[109][110] Embora o conceito tenha sido melhor recebido pela crítica do que Bombom, o trabalho interrompeu a sequência de sucessos radiofônicos da dupla e vendeu pouco mais de 500 mil cópias, número inferior aos anteriores.[110] Uma década depois, a faixa "Vítima" ganhou nova notoriedade como tema de abertura da telenovela A Próxima Vítima.[103] No primeiro semestre de 1985, Lee ainda havia participado das gravações de "Chega de Mágoa", canção lançada no projeto Nordeste Já em prol das vítimas de enchentes na região. Segundo o fotógrafo Carlos Horcades, seu desempenho causou fascínio entre os artistas presentes, ao ponto de "na hora que ela começou a cantar, parou tudo".[111] Com o fim do contrato com a Som Livre em 1986, ela passou a apresentar o programa Radioamador na 89 FM A Rádio Rock, em parceria com Antônio Bivar. Sob o pseudônimo Lita Ree, escrevia os roteiros e interpretava diversos personagens.[112] No mesmo período, ao perceber a escassez de materiais infantis sobre aquecimento global, defesa dos animais e riscos da mineração, iniciou sua carreira literária com Dr. Alex, primeiro volume de uma quadrilogia sobre o tema.[113]

Após assinar com a EMI, a dupla lançou Flerte Fatal em maio de 1987.[114] O álbum teve desempenho comercial superior ao antecessor, vendendo 500 mil cópias e recebendo certificação de platina nos primeiros meses,[115][116] recolocando Lee entre os maiores vendedores de discos do Brasil.[117] A música de divulgação "Pega Rapaz" obteve alta rotação nacional e internacional, ajudando a artista a reconquistar espaço nas rádios.[103][118] Depois que o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma crítica sugerindo que ela estaria em "menopausa criativa", Lee rompeu relações com a imprensa e parou de conceder entrevistas por um período.[119] Para dedicar-se a outras áreas, como cinema e literatura infantil,[120] ela e Carvalho empreenderam uma turnê de despedida dos grandes ginásios, que atraiu mais de 250 mil espectadores pagantes.[121][122] A excursão foi registrada em um especial da Rede Manchete, com direção de Nelson Motta, gravado diante de 20 mil pessoas no Maracanãzinho.[123] Durante o show, duas faixas com os dizeres "Camisinha já" e "Diretas ontem" desciam do teto ao palco.[124] Na reta final da turnê, Lee apresentou-se no programa Martes 13, do Canal 13, no Chile, para promover o disco.[125]
Em 1988, Lee publicou seu segundo livro infantil, Dr. Alex e os Reis de Angra, que tratava da destruição ambiental provocada pela construção de usinas nucleares.[113] Na música, a dupla lançou Zona Zen em dezembro, com 130 mil exemplares encomendados antecipadamente.[126] O álbum recebeu críticas negativas, marcando um período de desgaste na parceria e fazendo as vendas retornarem aos níveis anteriores a 1979.[28][127] A própria cantora declarou mais tarde não se orgulhar do disco e afirmou que preferiria não tê-lo gravado, em razão de uma fase conturbada em sua vida pessoal.[128] Apesar do declínio comercial, o trabalho rendeu-lhe o primeiro Prêmio Sharp de Música, na categoria de Melhor Cantora Pop/Rock.[129] A divulgação ocorreu por meio de programas de televisão e rádio, além da exibição de três videoclipes no Fantástico.[127] Em 1989, ela contribuiu para a trilha sonora do filme Dias Melhores Virão, interpretando a faixa homônima, o que lhe rendeu um Prêmio Sharp de Melhor Trilha Sonora.[130][131] No mesmo ano, participou da telenovela Top Model, interpretando Maria Regina, personagem que entrava e saía da trama a bordo de um disco voador.[132] Em 1990, publicou o terceiro livro da série, Dr. Alex na Amazônia, sobre as queimadas e seus impactos nos povos indígenas.[113] Para cumprir as obrigações contratuais com a gravadora, a dupla lançou o álbum Rita Lee e Roberto de Carvalho em novembro, com as músicas de trabalho "Perto do Fogo", coescrita com Cazuza, e "La Miranda", que venceu o Prêmio Sharp de Melhor Música Pop/Rock e integrou a abertura da telenovela Lua Cheia de Amor.[77][131][133]
1991–03: Retorno de Carvalho e aclamação crítica
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Em 1991, Rita Lee interrompeu temporariamente a parceria profissional com Roberto de Carvalho: enquanto este viajou a Londres para estudos de astrologia e cabala, ela permaneceu em São Paulo dedicando-se ao violão. Convidada pelo radialista Tutti Maravilha para integrar um espetáculo em tributo a Elis Regina, em Belo Horizonte, aprovou o resultado e deu início ao show acústico Bossa 'n Roll. Iniciada em pequenas casas de espetáculos, a digressão expandiu-se para ginásios e alcançou palcos internacionais, incluindo o Festival de Jazz de Montreux, na Suíça.[134] Durante a excursão, os problemas de alcoolismo, já manifestos no âmbito familiar, intensificaram-se. Advertida por Carvalho de que tal conduta não seria tolerada na presença dos filhos, mudou-se para um apartamento em Pinheiros e aprofundou o vício, recebendo apoio do filho primogênito, Beto — recém-concluinte do ensino médio —, que passou a residir com ela para prestar cuidados.[135] Gravado ao vivo em Campinas,[134] o álbum homônimo constituiu um dos primeiros registros desplugados de grande sucesso no Brasil, antecipando em vários anos o fenômeno Acústico MTV.[136] O disco comercializou 400 mil cópias,[137] ocupou a quinta posição entre os mais vendidos no país em 1992 e conferiu a Lee os Prêmios Sharp de Melhor Cantora e Disco na categoria Pop/Rock,[33][138] além do Prêmio APCA de Música Popular na categoria Melhor Show.[139] Ainda durante a turnê, em junho de 1991, Lee assinou contrato com a MTV Brasil para apresentar semanalmente o programa TVLeezão, em parceria com Antônio Bivar. A produção levava à televisão os personagens do antigo programa de rádio Radioamador, combinando exibição de vídeos musicais, esquetes e entrevistas. Uma das personagens, Lita Ree — descrita como "uma versão ainda mais sincera" de Lee —, chegou a integrar um capítulo da telenovela Vamp. O programa encerrou-se em setembro do mesmo ano, em decorrência de um incêndio que atingiu o estúdio.[140] Em 1992, Lee interpretou Raul Seixas no curta-metragem Tanta Estrela por Aí…, dirigido por Tadeu Knudsen, desempenho pelo qual recebeu seu primeiro prêmio de atuação: o de Melhor Intérprete Masculino na 10.ª edição do Rio Cine Festival.[141]
Retornando à Som Livre, a artista regressou ao rock and roll com o álbum homônimo de 1993, conhecido popularmente como Todas as Mulheres do Mundo. O trabalho rendeu-lhe o Prêmio Sharp de Melhor Cantora Pop/Rock; na cerimônia, foi ovacionada e destacou-se como a personalidade mais comentada da edição.[142][143] Por três meses, atuou ainda como colunista do Jornal da Tarde, do Grupo Estadão.[144] Em 1995, para abrir os espetáculos dos Rolling Stones no Hollywood Rock, foi submetida a internação emergencial para desintoxicação. Durante a apresentação no Rio de Janeiro, vestiu-se como Nossa Senhora e entoou uma ave-maria ao interpretar a faixa-título, em homenagem à estreia da banda no Brasil. O gesto gerou controvérsia nacional pela utilização de iconografia católica em uma composição dedicada à valorização feminina, motivando condenação da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que o classificou como afronta aos sentimentos religiosos da população.[145][146] Ainda naquele ano, retomou a colaboração com Carvalho no show A Marca da Zorra, o primeiro grande espetáculo da dupla desde o final da década de 1980.[147] Em 1996, conquistou três Prêmios Sharp em uma única noite — Melhor Cantora e Disco Pop/Rock —, referentes ao registro ao vivo da excursão anterior, além de Melhor Show. À imprensa, declarou: "No fundo, para mim que sempre tive meu trabalho muito criticado, é muito bom estar sendo finalmente reconhecida".[148] Tornou-se, ademais, a primeira mulher a receber o Prêmio Shell de Música em 16 anos de história da premiação.[149] Uma apresentação prevista na cerimônia foi cancelada em virtude de uma grave fratura no côndilo mandibular direito, provocada por queda da varanda de seu sítio em Caucaia do Alto, sob efeito de álcool.[150] O quadro foi superado por meio de uma cirurgia com inserção de pinos de titânio no maxilar e aplicação de silicone nos lábios, procedimento que inicialmente comprometeu a fala, colocou em risco a capacidade vocal e resultou na perda de 40% da audição no ouvido direito. Em consequência do acidente, o casal oficializou o casamento civil; Lee passou a assinar Rita Lee Jones de Carvalho e posou com os filhos e o marido na capa da revista Caras.[20][151]

Em 1997, foi a principal homenageada da 10.ª edição do Prêmio Sharp — ao lado de Fernanda Montenegro no Shell de Teatro —, em tributo que contou com interpretações de Fernanda Abreu, Zélia Duncan, Gilberto Gil, Raimundos, Ney Matogrosso, Caetano Veloso e Joyce, esta última autora da composição inédita "Minha Gata Rita Lee".[152] O álbum Santa Rita de Sampa marcou um dos retornos mais aguardados da década de 1990;[153] o título derivou da autodesignação da cantora como "padroeira de coisas incomuns, consideradas muitas vezes profanas".[154] O videoclipe de "Obrigado Não" provocou polêmica ao exibir o primeiro beijo homoafetivo transmitido em rede nacional, veiculado na MTV e no Fantástico, a despeito de tentativas de restrição de horário.[155] Lee recebeu novamente o Prêmio Sharp de Melhor Cantora Pop/Rock.[156]
Em setembro de 1998, lançou o terceiro álbum ao vivo, Acústico MTV, contendo releituras de sucessos anteriores e duas faixas inéditas. Certificado platina em CD e DVD,[157] com 650 mil unidades vendidas,[158] foi considerado um dos melhores da série.[159][160] A divulgação incluiu participações em programas como Programa Livre e Hebe,[161][162] além da turnê Meio Desligada, realizada em diversos estados e encerrada em maio de 1999 com apresentação para 100 mil espectadores no Parque Ibirapuera, em São Paulo.[163]
3001 (2000), com colaborações de Tom Zé e Itamar Assumpção,[20] conquistou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Alternativo em Língua Portuguesa.[164] A excursão promocional do disco foi exibida como especial na Rede Bandeirantes, com convidados como Caetano Veloso, Zélia Duncan, Paula Toller e Pato Fu.[165] Lee gravou versões de músicas dos Beatles para Aqui, Ali, em Qualquer Lugar (2001; lançado internacionalmente como Bossa 'n Beatles), misturando bossa nova, rock e forró. O disco liderou a parada de álbuns na Argentina, recebendo certificado de platina e culminando num show com ingressos esgotados no Luna Park, em Buenos Aires, considerado sua consagração definitiva no país.[166][167]
Seguiram-se os álbuns de compilação Para Sempre e Novelas (2001–2002), este último reunindo suas músicas de trilha de telenovela.[133] Balacobaco (2003) vendeu 550 mil cópias impulsionado pelo sucesso "Amor e Sexo" e marcou o retorno da artista ao grande êxito comercial com material totalmente inédito.[168][169] Como parte da turnê promocional do disco, em janeiro de 2004, Lee apresentou-se para mais de 200 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, durante as comemorações dos 450 anos da cidade.[170]
2010–2019: Aposentadoria de shows, Reza e carreira literária
[editar | editar código]Em outubro de 2010, Rita Lee estreou o show ETC..., que teve sua primeira apresentação em Belo Horizonte e resgatou diversos sucessos há muito ausentes de seu repertório. A turnê passou por várias cidades brasileiras e chegou à Argentina e ao Uruguai, onde apresentou-se pela primeira vez na capital deste último, Montevidéu.[171][172][173][174] Nesse período, ao receber um celular de presente de um dos filhos, começou a usar diariamente o Twitter, onde chegou a acumular cerca de 670 mil seguidores. Suas publicações de tom ácido e humorístico fizeram com que a imprensa a chamasse de "a louca do Twitter".[175][176] Após uma polêmica publicação criticando a Arena Corinthians, deixou a plataforma após receber ameaças de torcedores, declarando: "O medo de acontecer algo comigo e com minha família é real".[177] Em janeiro de 2012, durante uma apresentação da turnê no Circo Voador, no Rio de Janeiro, Lee anunciou sua aposentadoria dos shows ao vivo, citando fragilidade física.[178] Questionada sobre a decisão, esclareceu: "Foram 47 anos non stop na estrada, mereço vagabundar […]".[179] O show de despedida ocorreu na semana seguinte, no festival Projeto Verão, em Aracaju. Durante a apresentação, a cantora criticou publicamente a polícia militar pela forma agressiva de lidar com o público. Acusada de desacato à autoridade, foi detida brevemente após o show para prestar depoimento, mas logo foi liberada.[180][181] Mais tarde, em entrevista ao Fantástico, Lee revelou ter sido diagnosticada com transtorno bipolar. Roberto de Carvalho ainda afirmou que a doença, ainda sem tratamento adequado na época, contribuiu para o incidente na cidade, explicando que "era uma fase em que o medicamento estava sendo buscado".[182]

Após nove anos sem lançar material inédito em estúdio — seu último álbum havia sido Balacobaco (2003) —, Lee divulgou o álbum Reza em abril de 2012.[179] O disco recebeu recepção modesta da crítica especializada;[183][28] a revista O Grito! comentou que "a Rita de Mutantes, Tutti-Frutti e dos anos 80 já não existe, mas a lenda viva de cabelos vermelhos tem história, talento e fãs para trabalhos melhores".[184] Comercialmente, porém, o álbum foi bem-sucedido: a faixa-título superou rapidamente "Ai, Se Eu Te Pego", de Michel Teló, como a mais vendida na iTunes Store brasileira, integrou a trilha sonora da telenovela Avenida Brasil e figurou entre os discos mais consumidos no país naquele ano.[185][186][77] Em novembro, Lee retornou aos palcos para uma apresentação única no Green Move Festival, em Belo Horizonte, onde baixou brevemente as calças e virou-se para o público, gerando grande controvérsia.[187] Seu último show ocorreu no início de 2013, diante de cerca de 35 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em comemoração ao 459.º aniversário da cidade.[188] Ainda em 2013, participou da canção "Purabossanova", de Sérgio Britto, que lhe rendeu o Prêmio Contigo! de Música na categoria Melhor Música.[189] A partir desse ano, passou a dedicar-se prioritariamente à produção literária. Para celebrar os 50 anos de carreira, lançou Storynhas pela Companhia das Letras, em parceria com a cartunista Laerte Coutinho. O livro reunia 76 breves histórias inspiradas em suas publicações no Twitter.[176] Durante o evento de autógrafos no Shopping Iguatemi, em São Paulo, surpreendeu o público ao aparecer com o cabelo repicado e fios grisalhos, abandonando a tintura vermelha que marcava sua imagem, justificando que estava "adorando ser dona de casa" e desejava "ficar anônima".[190]
Em 2016, pela Globo Livros, lançou sua primeira autobiografia, Rita Lee: uma autobiografia, que vendeu mais de 200 mil exemplares — cerca de setenta vezes a tiragem média de um livro no Brasil. A obra recebeu elogios unânimes da crítica e conquistou o Prêmio APCA de Literatura na categoria Biografia/Autobiografia/Memória.[191][192] Pela mesma instituição, Lee foi agraciada com o Grande Prêmio da Crítica no segmento de Música Popular, pelo conjunto de sua trajetória.[192] Ao todo, o livro ultrapassou 350 mil unidades vendidas.[193] Em 2017, publicou a coletânea infantojuvenil Dropz, com 61 narrativas ilustradas sobre diversos temas. Segundo ela, o livro foi escrito em apenas três meses, sem pressão ou rotina pré-estabelecida.[194] Em 2018, lançou FavoRita, em coautoria com Guilherme Samora, reunindo fotos raras, documentos de músicas vetadas pela ditadura militar, destaques de moda e um novo ensaio fotográfico na capa.[195] Posteriormente, retornou à literatura infantil 27 anos após Dr. Alex e o Oráculo de Quartz (1992), com o lançamento de Amiga ursa: uma história triste, mas com final feliz (2019).[193]
2020–2023: Últimos anos
[editar | editar código]Em maio de 2020, uma participação especial prevista no espetáculo de seu filho Beto, em São Paulo, foi cancelada devido às restrições sanitárias impostas pela pandemia de COVID-19. Nesse intervalo, Lee dedicou-se intensamente à composição e anunciou planos para um novo álbum de estúdio — o primeiro desde Reza (2012) —, que incluiria a faixa punk-rock "Vírus do Horror", inspirada no contexto pandêmico.[196] O projeto, no entanto, não se materializou, embora ela tivesse manifestado novamente a intenção de gravar um disco, afirmando que seria "uma boa ideia".[197] Em 2021, a dupla Anavitória incluiu em seu álbum Cor a canção "Amarelo, Azul e Branco", com participação de Lee na recitação de um trecho de Simone de Beauvoir.[198] Em maio, aos 73 anos, a cantora realizou um exame de saúde de rotina e foi diagnosticada com um tumor primário no pulmão esquerdo,[199] com os médicos prevendo inicialmente uma sobrevida de três a quatro meses. Ao longo do tratamento, o câncer entrou em processo de metástase e Lee teve de iniciar quimioterapia.

Ainda em 2021, seu filho João Lee curou três volumes do projeto Rita Lee & Roberto – Classix Remix, reunindo 42 faixas remixadas por diversos DJs a partir do repertório original, com os volumes lançados entre abril e junho daquele ano.[200][201] Nesse mesmo período, lançou a canção "Change", em colaboração com Roberto de Carvalho e o produtor eletrônico Gui Boratto — que também havia trabalhado no projeto anterior —, que mais tarde foi integrada à trilha sonora da telenovela Um Lugar ao Sol.[200][202] Sobre o lançamento pop dançante cantado em inglês e francês após um hiato de nove anos, Lee comentou: "[…] chega de sofrência, a hora é de botar as asinhas pra fora e atrair alegria".[203]
No início de 2022, Lee deu continuidade à sua série literária infantil Dr. Alex com o livro Dr. Alex & Vovó Ritinha: uma aventura no espaço, que abordou temas de religiosidade e a importância do planeta, marcando a quinta obra da saga. Após 11 meses de tratamento, que incluíram mais de 30 sessões de radioterapia e quimioterapia, novos exames realizados em abril indicaram a ausência de um dos tumores, apelidado por ela de "Jair", em referência ao então presidente Jair Bolsonaro, do qual ela era crítica.[204] Na ocasião, foi divulgado que Lee estava escrevendo Rita Lee: outra autobiografia, segundo volume autobiográfico no qual narrava sua vida durante a pandemia e o tratamento do câncer. Após esse período, Lee aparecia publicamente apenas por pequenas aparições nas redes sociais, por meio de fotos publicadas por seu marido e filhos e de interações com fãs.[205][206][197]
Em novembro de 2022, recebeu o Prêmio à Excelência Musical na 23.ª edição do Grammy Latino, com tributos prestados por Luísa Sonza, Giulia Be, Paula Lima e Manu Gavassi;[207] por recomendações médicas, a cantora não compareceu à cerimônia.[208] Em comemoração, foi capa da edição digital da Rolling Stone Brasil naquele mês, com ensaio fotográfico exclusivo de Samora, além de uma entrevista inédita na qual afirmou: "Gosto mais de ser chamada de 'padroeira da liberdade' do que 'rainha do rock', que acho um tanto cafona".[209] Em fevereiro de 2023, Lee foi internada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Algumas horas após a divulgação da informação, Carvalho afirmou em suas redes sociais que a internação seria para exames e avaliações e pediu privacidade. Lee obteve alta no mês seguinte e passou a receber cuidados paliativos, acompanhada por duas enfermeiras; nesse ponto, havia perdido a capacidade de andar e permanecia instalada em um quarto hospitalar adaptado em seu apartamento na capital paulista.[210][211][212] Foi então anunciado para 22 de maio o lançamento de Rita Lee: outra autobiografia, pela Globo Livros, obra na qual a cantora relata com detalhes o tratamento contra o câncer. A última aparição pública de Lee pelas redes sociais ocorreu em abril, quando seu marido e o filho João publicaram registros da cantora assistindo à sua homenagem no programa Altas Horas, batizada de "Palco Rita Lee", que contou com apresentações de variados artistas, como Céu, Paulo Ricardo, Tiago Iorc e Zezé Motta, além de seu filho Beto.[213]
Morte
[editar | editar código]Por volta da noite de 8 de maio de 2023, o quadro de Rita Lee agravou-se novamente, e ela faleceu cercada pela família, em sua residência, aos 75 anos, vítima de câncer de pulmão. Na manhã seguinte, a família confirmou publicamente o óbito.[212]
Após a divulgação da notícia, diversos artistas prestaram tributos à cantora, entre eles Pitty, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Fafá de Belém, Carlinhos Brown e Fito Páez.[214] O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias, declarando em nota: "Uma artista à frente do seu tempo. Julgava inapropriado o título de rainha do rock, mas o apelido faz jus à sua trajetória".[215] A morte impulsionou o retorno de seus discos e livros às paradas de vendas.[216][217] O velório ocorreu em 10 de maio de 2023, no Planetário Professor Aristóteles Orsini, no Parque Ibirapuera — local que simbolizava a ligação histórica da artista com o espaço, tornando-se a primeira pessoa a ser velada ali.[218] A despedida foi planejada pela própria Lee, que definiu o local, a decoração, o caráter aberto ao público e a cor de sua vestimenta.[219] Familiares, amigos próximos e personalidades como Xuxa, Serginho Groisman, Pedro Bial e Maria Rita prestaram condolências no local. O evento atraiu aproximadamente seis mil fãs, que formaram fila para prestar a última homenagem pessoalmente, muitos portando adereços que remetiam à artista, como discos de vinil e livros de sua autoria.[220][221] Durante o traslado do corpo para a cremação, já na noite daquele dia, os admiradores entoavam gritos de "Rita, eu te amo" e cantavam o clássico "Ovelha Negra" em despedida.[222]
Lee desejava que seu corpo fosse cremado e as cinzas lançadas em sua horta. Carvalho optou, contudo, por não cumprir integralmente esse pedido durante sua vida, com o intuito de que as cinzas dos dois fossem misturadas conjuntamente; atualmente, encontram-se depositadas na residência do casal, em uma urna de formato esférico posicionada sobre uma espécie de santuário doméstico.[223]
Uma profecia registrada pela própria artista na página final de sua primeira autobiografia chamou atenção dos meios de comunicação:
"Quando eu morrer, posso imaginar as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá, colegas dirão que farei falta no mundo da música, quem sabe até deem meu nome para uma rua sem saída. Os fãs, esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão 'Ovelha Negra', as tvs já devem ter na manga um resumo da minha trajetória para exibir no telejornal do dia e uma notinha no obituário de algumas revistas há de sair. Nas redes virtuais, alguns dirão: 'Ué, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk'. Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus: 'Thank you Lord, finally sedated'".[224]
De acordo com o jornal Correio Braziliense, Lee deixou uma herança estimada em cerca de 30 milhões de reais, composta por patrimônio que gera direitos autorais, além de negócios, imóveis e diversos investimentos.[225]
Repercussão
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A morte de Rita Lee repercutiu internacionalmente, com cobertura em grandes jornais de língua inglesa, espanhola, francesa e alemã,[227] e provocou um expressivo aumento na procura pelos seus materiais discográficos e literários.[216][217] No dia do anúncio do falecimento, a artista foi a personalidade mais buscada globalmente na plataforma de vídeos YouTube, com interesse notável em Portugal, Uruguai, Paraguai e Argentina.[228] No dia subsequente — 10 de maio —, posicionou-se como a quarta mais escutada no Brasil e a sexta em Portugal por usuários no Spotify,[229][230] com doze faixas incluídas no top 50 da parada brasileira diária de músicas virais da plataforma. A canção "Ovelha Negra" atingiu a sexta posição — estabelecendo a melhor colocação de uma faixa de Lee na tabela —, seguida, em ordem decrescente, por "Mania de Você", "Coisas da Vida", "Desculpe o Auê", "Minha Vida", "Saúde", "Agora Só Falta Você", "Lança Perfume", "Doce Vampiro", "Reza" e "Coisas da Vida (ao Vivo)".[231] Na semana de 5 a 11 de maio, quatro álbuns da discografia ingressaram na parada brasileira de álbuns do Spotify: a coletânea Lança Perfume e Outras Manias (1992) liderou na 17.ª posição, seguida por Rita Lee (1979) no 39.° lugar, enquanto Acústico MTV (1998) e Fruto Proibido (1975) integraram o top 200.[232]
No âmbito editorial, Rita Lee: uma autobiografia (2016) tornou-se o livro mais adquirido no Brasil entre 8 e 14 de maio de 2023, conforme dados da empresa BookInfo. A obra liderou igualmente a lista geral da Amazon — principal plataforma de varejo de livros no país — e a categoria de não ficção da Veja, com FavoRita (2018) posicionado no top 10. Na lista da PublishNews — que contabiliza exclusivamente as vendas em livrarias físicas —, o volume de 2016 alcançou o primeiro lugar na semana de 15 a 21 de maio. Em 22 de maio de 2023, a Globo Livros publicou Rita Lee: outra autobiografia, que, ainda em pré-venda, alcançou a quinta posição entre os títulos mais vendidos na Amazon, ascendendo ao topo da lista geral em apenas três dias de divulgação.[217][233][234] Na retrospectiva anual da Veja referente àquele ano, o volume encabeçou a lista de livros de não ficção mais vendidos do ano, ao passo que a autobiografia anterior ocupou a sexta colocação. Ao todo, as obras literárias da artista acumulam mais de um milhão de exemplares vendidos.[235]
Lançamentos póstumos
[editar | editar código]Em janeiro de 2011 — um ano antes de anunciar sua aposentadoria dos palcos — Rita Lee começou a trabalhar no álbum Bossa 'n Movies. Previsto como sequência do álbum ao vivo Bossa 'n Roll (1991), o projeto incluiria versões em português, escritas pela própria cantora, de famosos temas de filmes reinterpretados no estilo bossa nova. No entanto, ela priorizou o álbum de inéditas Reza (2012) e deixou o trabalho de lado após gravar vocais para apenas duas faixas. Uma delas, "Voando" — versão em português da canção italiana "Volare", de Domenico Modugno e Franco Migliacci — foi exibida em primeira mão pelo Fantástico, em 9 de junho de 2024, treze anos após a gravação. A faixa foi lançada no dia seguinte, creditada também a Carvalho, que atuou como produtor musical, arranjador e único instrumentista (no violão, baixo, programação e teclados).[236] "Voando" venceu o Prêmio da Música Brasileira na categoria Projeto Audiovisual.[237] No mês seguinte, a editora Globo Livros publicou o segundo livro póstumo de Lee, O mito do mito. Iniciado pela autora em 2005 e finalizado em 2019, a obra foi editada conforme desejado por ela. Lee solicitou que Carvalho e Guilherme Samora não fizessem declarações em entrevistas ou coletivas, de modo a preservar o mistério e a veracidade dos contos. A foto da capa, bem como aspectos gráficos, foram curados pela própria autora.[238] Ainda em 2024, chegou às plataformas digitais o álbum ao vivo Uma Noite no Luna Park, disco que registra o espetáculo realizado pela cantora em novembro de 2002 na arena Luna Park, em Buenos Aires, com repertório composto majoritariamente por reinterpretações dos Beatles e participação especial de Charly García.[239]
Em 8 de maio de 2025, dois anos após o falecimento de Lee, estreou na plataforma Max o documentário Rita Lee: Mania de Você. Dirigido pelo argentino Guido Goldberg e produzido pela Mandarina Contenidos,[240] o filme traça um retrato íntimo da vida e da carreira da cantora por meio de entrevistas exclusivas, material de arquivo e depoimentos de familiares, músicos e personalidades, entre os quais Gilberto Gil e Ney Matogrosso. Um dos destaques é a leitura de uma carta que a artista escreveu para sua família pouco antes de morrer, na qual reflete sobre sua trajetória e legado.[241][242] Menos de duas semanas depois, em 22 de maio — dia de Santa Rita de Cássia, data que Lee adotara simbolicamente como seu "novo aniversário" e que São Paulo oficializara como o Dia de Rita Lee —, chegou aos cinemas brasileiros o documentário Ritas.[243] Dirigido por Oswaldo Santana e codirigido por Karen Harley, o longa dispensa entrevistas com celebridades e narração biográfica, priorizando a voz da própria artista, extraída de entrevistas ao longo de sua carreira e de vídeos caseiros gravados por ela. A obra oferece um vislumbre pessoal de seus anos mais reclusos, mostrando seu jardim, coleção de miniaturas, pinturas, saguis de estimação, cachorro e gatos.[242][244] Ritas tornou-se, em pouco tempo, o documentário brasileiro mais assistido nos cinemas em 2025, ultrapassando a marca de 50 mil ingressos vendidos.[245]
Estilo musical e composição
[editar | editar código]A obra musical de Rita Lee tem sido objeto de muitas análises e trabalhos da crítica especializada. A artista destacou-se por abordar temas do cotidiano e da natureza que dialogavam diretamente com a juventude e o público feminino,[246] consolidando-se como uma das compositoras de maior sucesso da música brasileira.[247][248] Embora tenha iniciado a carreira no rock, sua trajetória foi uma experimentação contínua com diferentes sonoridades, explorando psicodelia, música pop, pop rock, disco, new wave, bossa nova e música eletrônica, o que promoveu um hibridismo pioneiro entre gêneros nacionais e internacionais.[249][250] Além disso, várias de suas composições citam ou fazem referência direta a locais e à atmosfera da cidade de São Paulo,[154] transformando a cantora em um dos símbolos da capital paulista.[251] O músico Caetano Veloso expressou essa ligação na canção "Sampa" (1978), ao descrevê-la como "a mais completa tradução" da metrópole. Guilherme Genestreti, escrevendo para a Folha de S.Paulo, observou que a artista "talvez associasse sua condição de ponto fora da curva na MPB à posição sui generis de sua cidade natal dentro dos clichês dos símbolos nacionais".[252]
Ao longo de sua carreira, Lee esteve envolvida na composição e produção da maior parte de sua própria obra, registrando mais de 300 músicas na União Brasileira de Compositores (UBC),[253] incluindo 32 canções nunca lançadas em sua voz e gravadas por outros artistas.[254] Suas habilidades composicionais foram aprimoradas no início dos anos 1970, mas alcançaram plena liberdade em 1974, após a saída dos Mutantes e a formação da banda Tutti Frutti. A Rolling Stone Brasil destaca que, livre das restrições do grupo anterior, o álbum Atrás do Porto Tem Uma Cidade (1974) revelou seu lado mais pop.[255] Suas canções frequentemente combinavam uma ironia ácida com reivindicações de independência feminina, exibindo um tom bem-humorado com críticas sutis à moralidade e aos papéis de gênero — características que se tornariam marcas registradas de seu trabalho. A fase solo pós-Mutantes iniciou-se com um rock brasileiro vigoroso, influenciado pelo subgênero glam, em contraste com o tropicalismo experimental de outrora.[71][256] O amadurecimento artístico dessa fase ficou visível em Fruto Proibido (1975), considerado pela crítica um marco do rock nacional, impulsionado por uma pegada hard rock, glam e blues, além de letras marcadas pelo não conformismo.[28][246] Em Entradas e Bandeiras (1976), o som tornou-se mais denso e complexo, embora ainda efervescente.[257][255] Com o objetivo de popularizar sua música, Babilônia (1978) antecipou tendências de seus discos posteriores, trazendo melodias acessíveis e forte apelo radiofônico numa fusão de rock e disco.[71] Anteriormente, a cantora havia justificado sua busca pelo grande público: "Os grupos de rock […] têm horror em ser comerciais, acham que é baixar o nível. Eu acho que é subir de nível. É chegar às pessoas, vender, não é pra isso que se fazem discos?".[257]
A parceria criativa e afetiva com Roberto de Carvalho marcou uma importante virada pop que revolucionou a música brasileira,[250] permitindo que Lee deixasse o circuito alternativo das décadas anteriores e conquistasse amplo êxito comercial com baladas românticas no final dos anos 1970 e ao longo da década de 1980.[54][258] No álbum Rita Lee (1979), as guitarras cederam lugar aos teclados,[255] com letras que exploravam o erotismo e o prazer feminino de forma desinibida, numa sonoridade que variava de soft rock a baladas. O segundo disco em parceria com Carvalho, também homônimo (1980), consolidou o sucesso ao misturar pop dançante e new wave. Diante de críticos que viram sua guinada pop como uma rendição comercial, Lee declarou que "sempre vão existir as tais 'viúvas' cobrando o defunto a voltar à vida", concluindo que, na verdade, ela é quem havia "comprado o sistema pop".[259] Essa fase prosseguiu em Saúde (1981), no qual inovou ao combinar marchinhas carnavalescas, disco e new wave com intensos arranjos eletrônicos,[255][75] e em Rita Lee e Roberto de Carvalho (1982), que introduziu influências de bossa nova e jazz por meio de um lirismo romântico e direto.[80] A versatilidade da dupla foi explorada em Bombom (1983), cujas letras ganharam um tom político-satírico explícito,[98] adotando sonoridades próximas ao pop rock da época,[71] o qual a cantora criticava por ser "de boutique, descartável" e feito para o "esquemão das gravadoras".[114] Rita e Roberto (1985) aprofundou o pop adulto com um tom mais sombrio e elementos de synth-pop,[255][103] enquanto Flerte Fatal (1987) retomou o pop carnavalesco radiofônico.[114] Já Zona Zen (1988) e Rita Lee e Roberto de Carvalho (1990) foram descritos como trabalhos menos entusiásticos da dupla; o primeiro denso, melancólico e paulistano, e o segundo pautado por um pop rock mais cru e intimista.
Na década de 1990, Lee voltou a explorar suas raízes sonoras no álbum Rita Lee (1993), um trabalho puramente rock and roll que infundiu batidas pesadas com letras de cunho feminista, marcado por uma produção totalmente solo e pela ausência de Carvalho.[260][261] A típica ironia da cantora continuou a guiar suas composições em Santa Rita de Sampa (1997), um disco eclético que promoveu a mistura rítmica com gêneros da América Latina.[262] Seguindo as tendências contemporâneas de fusão no Brasil, 3001 (2000) mesclou música eletrônica, rock e pop numa execução sonora futurista, apresentando letras que abordavam o amor, a paixão e críticas sociais.[263][264] A artista experimentou mais vertentes acústicas e tradicionais em Aqui, Ali, em Qualquer Lugar (2001), que consistiu em reinterpretações de músicas dos Beatles tendo a bossa nova como sonoridade predominante. Posteriormente, foi possível observar um resgate do pop dançante oitentista da cantora no álbum Balacobaco (2003).[265] Por fim, em Reza (2012), a artista focou em grande parte no retorno ao rock, embora ainda abraçasse os elementos de música eletrônica e pop que permearam boa parte de sua discografia.[266]
Legado
[editar | editar código]"Ao não se prender no rock e passear também por outros ritmos como samba, pop e até a disco music, Rita ampliou os horizontes de seu gênero de origem e seu próprio alcance popular, compondo canções incontornáveis da música brasileira que ajudaram a revolucionar o cenário do pop nacional. Foram inúmeras pérolas com arranjos e letras sofisticadas, mas acessíveis o bastante para cair no gosto do povão. […] A maior ironia é que a transgressiva Rita já não provocava medo ou ira, mas empolgação geral: atraía na plateia desde a vovozinha até o netinho. A conquista foi além. Ela foi contratada pela Som Livre e, coincidindo com o período áureo das novelas, suas músicas ganharam espaço em praticamente todas as produções da Globo.
— Avaliação de Felipe Branco Cruz, da revista Veja, sobre o impacto de Rita Lee.[250]
Vários jornalistas especializados em música contemporânea, teóricos e autores notaram o legado de Rita Lee e a consideraram uma das artistas brasileiras femininas mais influentes e bem-sucedidas de todos os tempos.[88][267][250] Manuel Abud, presidente e diretor executivo da Academia Latina da Gravação, afirmou que a cantora era "uma artista visionária, cuja identidade sonora singular mescla sua veia roqueira e psicodélica com pop, carnaval, bossa nova e latinidades. […] Sua música transcende gerações e é uma inspiração para criadores de música em todo o mundo".[268] Thales de Menezes, da Folha de S.Paulo, escreveu que "ela foi fundamental no desenvolvimento do gênero [rock] no país", ao surgir em cena "num período atribulado", quando o estilo era considerado um "vilão cultural" por nomes importantes da música e das artes brasileiras.[269] Editores do blog Ao Redor avaliaram que "o rock encontrou em Lee uma voz que ecoa liberdade, inovação e resistência", enriquecendo o cenário com suas próprias influências e perspectivas.[270] Alexandre Figueirôa, da revista O Grito!, contrapôs-se ao apelido de "Rainha do Rock", afirmando: "[…] era justamente o oposto. Era o próprio 'roque enrow', era a ovelha negra da família, rebelde, irreverente, e que nunca deixava por menos quando tinha a chance de soltar farpas certeiras contra a caretice".[271] Pedro Ibarra, do Correio Braziliense, resumiu que a cantora "não apenas iluminou o rock nacional, mas a todo cenário musical, filosófico e comportamental do país" e que sua obra fica como referência eterna para as gerações influenciadas pela militância feminina.[272]
No cenário da música pop, Isabela Pétala, da Billboard Brasil, descreveu Lee como a "primeira popstar do Brasil", creditando o gênero como o responsável para que ela "atingisse um tipo de público que antes não tolerava sua existência". Destacou ainda que a parceria com Roberto de Carvalho apresentou o estilo ao país, executando-o com maestria nos moldes internacionais.[54] Amauri Arrais, da BBC News Brasil, comentou:
"O fim da prisão domiciliar e da Tutti Frutti, pouco depois, fizeram o casal dar início à parceria que consagrou a cantora como artista popular, emendando um sucesso após o outro, ao borrar de vez as fronteiras entre o rock e o pop".[273]

Como recordado por André Barcinski no livro Pavões misteriosos 1974–1983 (2014), inicialmente Lee "não vendia discos nem com os Mutantes [...] Ela era considerada uma artista alternativa".[54] A professora Naira Marcatto observou que o seu trabalho seguiu quase incólume ao tempo, pois "ainda hoje, artistas muito jovens, recém-saídos da adolescência, ouvem, cantam, tocam e estudam essa obra com uma identificação imensa".[254] Leonardo Torres, do POPline, classificou-a como a "cantora favorita do pop feminino", com atitudes e letras que ecoam na geração Z.[274] Veteranas como Marina Lima, Paula Toller, Marisa Monte e Cássia Eller,[275] além de artistas mais novas como Ana Caetano, Duda Beat, Luísa Sonza e Manu Gavassi, a citam como forte referência.[276] A cantora também influenciou líderes do rock masculino como Renato Russo (Legião Urbana) e Cazuza (Barão Vermelho), que lhe dedicaram, respectivamente, as composições "Para Rita Lee ou Made in Brazil" e "Perto do Fogo".[277][278] A vasta lista de artistas diretamente influenciados inclui Anitta,[279] Iza,[280] Daniela Mercury,[281] Adriana Calcanhoto,[282] Paula Lima,[283] Preta Gil,[284] Ana Carolina,[285] Maria Rita,[285] Zezé Motta,[286] Claudia Leitte,[287] Wanessa Camargo,[288] Julia Mestre,[289] Fernanda Takai,[290] Kell Smith,[276] Badi Assad,[276] Larissa Manoela,[276] Érika Martins,[291] Paulo Ricardo,[292] Filipe Catto,[276] Dinho Ouro Preto,[280] Titãs e Chitãozinho e Xororó.[293][294]

O lirismo autêntico e a postura emancipatória de Lee beneficiaram sua carreira e catalisaram o discurso público sobre a sexualidade feminina no Brasil. Como documenta Jéssica R. A. Cunha no artigo A importância da produção musical de Rita Lee (2010), suas canções demonstram que "o sexo pode ser buscado pela mulher com o objetivo do prazer, já que na sociedade brasileira ainda pairava — e paira — sobre o ar, certa moralidade relacionada ao sexo e a mulher".[295] José Antônio Barbosa explica que através da faixa "Mania de Você" (1979), "enuncia-se um discurso sobre o amor, a relação conjugal e o desejo sexual de forma despojada e nunca antes explicitamente tratada na canção de uma compositora e cantora feminina".[296] Valéria de Oliveira Gomes assinala que as canções introduziram o ponto de vista da mulher sobre assuntos variados, "antes restritos ao universo masculino".[297] Para a acadêmica feminista Ana Karla Marcelino, a artista foi "uma notável representante musical da luta contra a ideologia patriarcal dominante", escrevendo músicas que criticam os estereótipos atribuídos às mulheres. Ela cita a figura de Elvira Pagã como um claro exemplo de "mulheres por ela homenageadas" que "representam a quebra de paradigmas e uma crítica aos estereótipos femininos".[298]
As opiniões e contribuições sociais de Lee tiveram impacto direto e transformador na sociedade brasileira.[299][300][272] Estudos acadêmicos mostram que seu trabalho não seguia uma cartilha moral ou ideológica fixa, mas surgia da sintonia profunda com o clima político da época — respondendo com irreverência e deboche à repressão e censura dos anos 1970 e ajudando a expressar o desejo coletivo de liberdade durante o processo de redemocratização.[301][302][303] Lee mobilizou amplos segmentos de pessoas marginalizadas, especialmente as mulheres e o público LGBTQIA+, contribuindo sistematicamente para o combate ao conservadorismo e ao machismo na música e promovendo a independência comportamental.[304][305][306] Mayra Pelissari, da revista Meer, avaliou que sua obra "foi capaz de desafiar normas sociais, políticas e de gênero", revelando, por meio de metáforas e ironias, "uma contestação profunda".[307] Da mesma forma, Rico Vasconcelos, da VivaBem, destacou o pioneirismo da cantora na desmitificação do vírus do HIV: "Enquanto muitos compositores e intérpretes se dedicaram a produzir um extenso acervo de música brasileira abordando a redemocratização, foram apenas alguns os que perceberam a importância daquela epidemia incipiente para a humanidade". Vasconcelos concluiu apontando que Lee sabia, tanto na temática da Aids quanto em outras áreas, "que como sociedade precisávamos falar de nossas dificuldades, ainda que esses fossem assuntos espinhosos".[304]
Teatro
[editar | editar código]Quase um ano após o falecimento da cantora, estreou no palco do Teatro Porto, em São Paulo, o espetáculo Rita Lee: Uma Autobiografia Musical. Dirigida por Márcio Macena e Debora Dubois, a montagem teve Mel Lisboa no papel principal, reprisando a interpretação de Rita Lee que a atriz já havia realizado em 2014 no musical Rita Lee Mora ao Lado e na minissérie Elis - Viver é Melhor que Sonhar, transmitida pela TV Globo.[308] A produção permaneceu em cartaz por pouco mais de um ano no mesmo teatro e, logo em seguida, empreendeu uma turnê que visitou diversas capitais brasileiras.[309][310] Assinado pelo jornalista e editor Guilherme Samora, o roteiro teve como ponto de partida a autobiografia oficial publicada por Rita Lee em 2016.[308]
Além de Mel Lisboa, o elenco contou com Bruno Fraga interpretando Roberto de Carvalho, Fabiano Augusto como Ney Matogrosso, Flávia Strongolli como Elis Regina, Yael Pecarovich como Gal Costa, Gustavo Rezende como Raul Seixas e Roquildes Junior como Gilberto Gil. Completaram a formação Carol Portes, Antonio Vanfill, Lui Vizotto e Priscila Esteves, responsáveis por diversos personagens.[311] Débora Reis, que integrou a banda de Rita Lee como vocal de apoio durante doze anos, reprisou o papel da apresentadora Hebe Camargo, personagem que já havia interpretado nos musicais Rita Lee Mora ao Lado e Hebe - O Musical.[312]
Previsto para estrear em abril de 2026, em São Paulo, o monólogo Balada da Louca terá Lília Cabral no papel de Rita Lee, retratando os últimos dias da cantora. A obra baseia-se no livro Outra autobiografia. O roteiro é novamente de Guilherme Samora e a direção cabe a Beatriz Barros.[313]
Enredo de Carnaval
[editar | editar código]Fã do Carnaval, Rita já havia desfilado na avenida quando a Águia de Ouro homenageou o Tropicalismo em 2012. Em 2026, a escola carioca Mocidade Independente de Padre Miguel prestou uma homenagem à memória da cantora, contando sua história na Marquês de Sapucaí com o enredo Rita Lee: Padroeira da Liberdade. Com samba composto por Jefinho Rodrigues, Diego Nicolau, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Lauro Silva, Cleiton Roberto, Cabeça do Ajax e interpretado por Igor Vianna, Rita Lee: Padroeira da Liberdade foi a primeira homenagem que a cantora recebeu no Carnaval carioca.[314]
Conquistas
[editar | editar código]Ao longo de sua carreira, Rita Lee angariou uma série de condecorações e reconhecimentos, acumulando 12 Prêmios da Música Brasileira,[315] três Prêmios APCA de Música Popular,[139] um de Literatura,[192] dois Grammys Latinos e três Troféus Imprensa,[209][73][79] além do Prêmio Shell de Música, pelo qual se tornou a primeira cantora a receber a honraria.[149] Adiciona-se a isso o apelido de "Rainha do Rock Brasileiro" e sua posição como a artista feminina brasileira com vendas mais altas de todos os tempos, acumulando um total de mais de 55 milhões de unidades comercializadas mundialmente. Essa marca a situou em quarto lugar na lista geral de recordistas nacionais, atrás apenas de Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e Tonico & Tinoco.[88][267][250] Nas paradas radiofônicas, sua canção "Arrombou a Festa" integrou a lista das 100 mais executadas da década de 1970.[316] Já na década de 1980, ela se destacou como um dos sete artistas mais reproduzidos no país — ao lado de Gal Costa, as únicas artistas femininas da lista —,[317] com as faixas "Baila Comigo", "Banho de Espuma", "Saúde" e "Lança Perfume" — nesta ordem — entre as 100 mais tocadas daquela década.[316] Adicionalmente, ela é o ato que detém o recorde de participações em trilhas sonoras de telenovelas brasileiras, contabilizando quase 100 ocorrências, incluindo 15 lideranças como temas de abertura.[250]

No âmbito governamental e de honrarias institucionais, o Estado brasileiro a condecorou com as ordens do Mérito Cultural, em 2003, e de Rio Branco, em 2023, ambas no grau de Comendador.[318][319] Tal reconhecimento oficial expandiu-se para o plano municipal quando, em 2024, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou e o prefeito Ricardo Nunes sancionou a lei que renomeou a antiga Praça da Paz, no Parque Ibirapuera, para "Praça da Paz – Rita Lee", ao passo que a Casa Legislativa instituiu, por meio da Lei n.º 18.151, o Dia de Rita Lee, celebrado em 22 de maio.[320] Homenagens semelhantes ocorreram na cidade de Jandira, na Grande São Paulo, onde uma rua no bairro Altos de Jandira recebeu o seu nome.[321] Da mesma forma, no Rio de Janeiro — município onde foi condecorada com o título de Cidadã Honorária do Rio pela Câmara de Vereadores —,[322] o Parque Rita Lee, localizado na Barra da Tijuca e integrado ao Parque Olímpico, foi inaugurado em sua homenagem.[323] Demonstrando pioneirismo em suas apresentações ao vivo e capacidade de mobilização popular, Lee tornou-se a primeira artista nacional a conceber e realizar uma turnê de grandes dimensões no país, estruturando espetáculos inteiramente sediados em ginásios e estádios.[90]
Em termos de aclamação editorial, o álbum Fruto Proibido (1975) foi incluído na 16.ª posição entre os 100 maiores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil, além de figurar no 41.º posto entre os melhores do rock latino-americano pela edição estadunidense da revista.[31][324] Na mesma publicação, Lee foi posicionada no 15.° lugar entre os 100 maiores artistas da música brasileira, sendo a segunda entre artistas femininas (atrás apenas de Elis Regina) — colocação semelhante à obtida na lista dos 31 maiores artistas brasileiros de todos os tempos da Revista Bula.[315][325] A Rolling Stone Brasil também a inseriu na seleção das 100 maiores vozes do país,[326] enquanto "Ovelha Negra" apareceu entre as 100 maiores músicas brasileiras; nessa mesma compilação, Lee assina a composição de outras três faixas lançadas durante sua passagem pelos Mutantes: "Ando Meio Desligado", "Balada do Louco" e "2001".[327] No catálogo das 100 melhores canções brasileiras do jornal O Globo, figuram as duas primeiras músicas, ao lado de "Agora Só Falta Você" e "Mania de Você" — esta última na 24.ª colocação, situando-se como a sua faixa autoral mais bem posicionada.[328] Em geral, por suas realizações artísticas e ativistas, ela figurou como a principal homenageada em premiações como o Video Music Brasil (VMB),[329] Prêmio Sharp de Música,[152] Prêmio Multishow de Música Brasileira,[330] Woman's Music Event Awards (WME),[331] Melhores do Ano e o Prêmio Papagaio de Comunicação Social.[332][333]
Em 2016, Lee recebeu o Grande Prêmio da Crítica do Prêmio APCA de Música Popular, em reconhecimento à sua trajetória,[192] vindo a ser agraciada em 2022 com o Prêmio à Excelência Musical no Grammy Latino.[207] Em 2024, um ano após sua morte, a dupla formada com Roberto de Carvalho recebeu o prêmio honorário da União Brasileira de Compositores (UBC) pelo conjunto da obra, em celebração à sua relevância musical e pela forma como a carreira de ambos impactou o cenário ao longo de três décadas desde o lançamento de seu álbum homônimo de 1979. Na ocasião, Carvalho discursou sobre o legado compartilhado e dedicou a honraria à cantora, discursando que "em cada pequeno fragmento do universo existe um pequeno pedaço de Rita, em todos nós e em tudo".[334]
Discografia
[editar | editar código]- Build Up (1970)
- Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972)
- Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974; com Tutti Frutti)
- Fruto Proibido (1975; com Tutti Frutti)
- Entradas e Bandeiras (1976; com Tutti Frutti)
- Babilônia (1978; com Tutti Frutti)
- Rita Lee (1979)
- Rita Lee (1980)
- Saúde (1981)
- Rita Lee e Roberto de Carvalho (1982)
- Bombom (1983)
- Rita e Roberto (1985)
- Flerte Fatal (1987)
- Zona Zen (1988)
- Rita Lee e Roberto de Carvalho (1990)
- Rita Lee (1993)
- Santa Rita de Sampa (1997)
- 3001 (2000)
- Aqui, Ali, em Qualquer Lugar (2001)
- Balacobaco (2003)
- Reza (2012)
Filmografia
[editar | editar código]- As Amorosas (1969)
- Fogo e Paixão (1988)
- Dias Melhores Virão (1989)
- Tanta Estrela por Aí… (1992)
- Durval Discos (2002)
- Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll (2006)
- Uma Noite em 67 (2010)
- Tropicália (2012)
- Minhocas (2013)
- A Primeira Missa ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum (2014)
Obras
[editar | editar código]- Dr. Alex (1986)
- Dr. Alex e os Reis de Angra (1988)
- Dr. Alex na Amazônia (1990)
- Dr. Alex e o Oráculo de Quartz (1992)
- Rita Lírica (1996)
- Storynhas (2013)
- Rita Lee: uma autobiografia (2016)
- Dropz (2017)
- FavoRita (2018)
- Amiga ursa: uma história triste, mas com final feliz (2019)
- Dr. Alex & Vovó Ritinha: uma aventura no espaço (2022)
- Rita Lee: outra autobiografia (2023)
- O mito do mito (2024)
Turnês
[editar | editar código]- Tutti Frutti (1973–1974; com Tutti Frutti)
- Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974–1975; com Tutti Frutti)
- Fruto Proibido (1975–1976; com Tutti Frutti)
- Entradas e Bandeiras (1976–1977; com Tutti Frutti)
- Refestança (1977; com Gilberto Gil)
- Babilônia (1978; com Tutti Frutti)
- Mania de Você (1979–1980)
- Lança Perfume (1980–1981)
- Saúde (1981)
- Rita Lee e Roberto Tour Brasil 83 (1983)
- Rita Lee e Roberto Tour 87/88 (1987–1988)
- Bossa 'n Roll (1991–1992)
- Rita Lee & Banda (1994–1995)
- A Marca da Zorra (1995–1996)
- Santa Rita de Sampa (1997–1998)
- Meio Desleegada (1998–1999)
- 3001 (2000–2001)
- Yê Yê Yê de Bamba (2002–2003)
- Balacobaco (2004–2005)
- Rita Lee (2006–2007)
- PicNic (2008–2010)
- ETC... (2010–2012)
Ver também
[editar | editar código]Notas de rodapé
Referências
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Bibliografia
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Ligações externas
[editar | editar código]- Página oficial no Wayback Machine (arquivado em 24 de abril de 2023)
- Rita Lee no Facebook
- Rita Lee no Instagram
- Rita Lee no TikTok
- Rita Lee no IMDb

- «Rita Lee». no Spotify
- Canal de Rita Lee no YouTube
- «Página oficial na gravadora Biscoito Fino»
- Nascidos em 1947
- Mortos em 2023
- Naturais da cidade de São Paulo
- Mortos na cidade de São Paulo
- Cantores do estado de São Paulo
- Cantores de língua inglesa do Brasil
- Cantores de língua espanhola do Brasil
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- Guitarristas do estado de São Paulo
- Guitarristas rítmicos
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- Cantoras de música pop do Brasil
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- Cantores de pop rock do Brasil
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