ANEMIAS
PMSUS 6
Por
Renata Barreto
OMS: redução da concentração
de hemoglobina no sangue
OBJETIVOS DO ENCONTRO
• Discutir a epidemiologia das anemias
• Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as manifestações clínicas.
• Dominar a classificação das anemias (microcíticas, normocíticas, macrocíticas) e suas
causas.
• Saber interpretar exames laboratoriais como hemograma completo e contagem de
reticulócitos.
• Saber conduzir o diagnóstico e tratamento das anemias mais prevalentes.
• Entender as anemias por insuficiência da medula óssea, anemia megaloblástica, anemia
ferropriva e anemias hemolíticas.
Anemias – Epidemiologia
• Anemia mais prevalente no Brasil e no mundo: anemia por deficiência de ferro
(anemia ferropriva)
• Estimativa:
• 25% das crianças menores de 5 anos
• 20% das gestantes
• Mais de 30% das mulheres em idade fértil
• Problema de saúde pública: elevada prevalência e impacto sobre o desenvolvimento infantil,
rendimento escolar, saúde materno-fetal e capacidade laboral
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Anemia por Deficiência de Ferro do Ministério da Saúde (2023)
Anemias – Epidemiologia
Principais tipos de anemias no contexto brasileiro
a) Anemia ferropriva: mais b) Anemia falciforme: maior c) Anemias associadas a
prevalente no Brasil prevalência em pessoas negras/ distúrbios da coagulação:
Causa: deficiência de ferro, Norte, nordeste e sudeste hemofilia/ 13 mil pessoas com
geralmente por ingestão Doença genética autossômica hemofilia (2020)
inadequada, perdas crônicas recessiva. Triagem neonatal. Hemofilia A e B não são causas
(menstruação, parasitoses Estimativa: 1 em cada 1.000 diretas de anemia, mas
intestinais) ou aumento da nascidos vivos no Brasil tem a pacientes hemofílicos têm
demanda (gestação, crescimento). forma homozigótica (SS). risco aumentado de
Alta incidência: precariedade 3,5% da população brasileira é sangramentos, o que pode
alimentar e diminuído acesso a portadora do traço falciforme levar a anemia secundária à
serviços de saúde. (AS) perda sanguínea.
FBH (2020), TeleCondutas da UFRGS (2023)
Caso clínico 1
Mulher com 48 anos de idade procurou assistência médica devido à sua
palidez e fadiga aos menores esforços. O exame clínico revelou anemia
e o médico solicitou os seguintes exames laboratoriais:
1. Como você faria a interpretação
dos resultados laboratoriais?
2. Como você explicaria as causas da
anemia?
Caso clínico 1 – Resposta
1. Hb, HCM, VCM, ferritina: baixos: anemia microcítica e hipocrômica,
com deficiência de ferro
TBIC, plaquetas: alto: elevação da capacidade de transporte (CTLFe ou
TIBC), plaquetose sangramento ativo
2. mulheres período reprodutivo: menorragia.
mulheres ou homens com idade superior a 40 anos: deficiência
alimentar sendo excluídas, deve-se pesquisar a presença de tumores no
trato gastrointestinal por meio de sangue oculto nas fezes. Endoscopia
e endoscopia (mais refinados)
Caso clínico 2
Mulher com 55 anos de idade é portadora de hipertensão essencial,
com pressão arterial constantemente elevada apesar do uso de quatro
drogas diferentes para o tratamento. Há poucas semanas, o médico
iniciou o tratamento com metildopa, porém, ontem, ela teve que
procurar a emergência, pois não estava se sentindo bem. Foram
solicitados vários exames laboratoriais, cujos resultados foram os
seguintes:
Urobilinogênio urinário, contagem de reticulócitos e
teste de Coombs (antiglobulina direta) foram
solicitados posteriormente.
1. Interprete os resultados.
2. Qual é o diagnóstico referendado pelos
resultados dos exames e história da paciente?
Caso clínico 2 – Resposta
1. anemia normocítica e normocrômica, com perfil de ferro normal,
valores de folato e vit. B12 também normais. Elevação da
bilirrubina, urobilinogênio positivo e reticulocitose sugerem anemia
hemolítica. O teste de Coombs direto positivo indica que há
anticorpos envolvendo os eritrócitos.
2. O diagnóstico obtido pelo conjunto das informações é de anemia
hemolítica autoimune, que foi induzida pelo tratamento com
metildopa.
Caso clínico 3
Homem com 35 anos de idade e há 15 anos diagnosticado como
portador de Doença de Crohn foi submetido a várias cirurgias nos
últimos dez anos. Sua mais recente cirurgia envolveu a ressecção e
anastomose do intestino delgado. Os exames realizados recentemente
mostraram os seguintes resultados:
1. Como você interpreta esses
resultados?
2. Qual a fisiopatologia desta
anemia?
Caso clínico 3 – Resposta
1. Anemia normocítica e normocrômica. O RDW elevado indica que há
aniso-poiquilocitose. Ele tem deficiência de ferro, vit. B12 e folatos.
2. A doença de Crohn : inflamação do intestino : prejudica a absorção
de ferro, folatos e vitamina B12. Deficiências de ferro, folatos e
vitamina B12 os índices hematimétricos (VCM e HCM) se
apresentaram normais. É importante lembrar que na deficiência de
ferro o HCM e VCM diminuem, e na deficiência de B12 e folatos o
VCM aumenta e o HCM permanece normal.
Caso clínico 4
Menino de três anos de idade, com diagnóstico de anemia falciforme desde os 6 meses de vida,
começou a apresentar tosse seca e rinorreia hialina há dois dias. Evoluiu com febre (T 38,6ºC), sem
sudorese noturna ou calafrios, associada a dor de forte intensidade em membros inferiores
(acompanhante relata que as queixas eram principalmente na região entre joelhos e tornozelos)
sem edema ou sinais flogísticos na região, além de mudança do padrão da tosse que se tornou
produtiva com secreção esverdeada. Nega falta de ar, dor torácica ou abdominal. Faz uso de ácido
fólico, hidroxiureia e penicilina V em casa. Procurou então atendimento médico em serviço de
emergência pediátrica. Ao exame: estado geral regular, fases de dor, febril ao toque, hipocorado
(2+/4+), desidratado, paciente irritado e choroso durante o exame. FR: 44 irpm; FC: 115 bpm;
normotensa; SatO2 95%. Ritmo cardíaco regular taquicárdico em dois tempos, com bulhas
normofonéticas e sem sopros. Murmúrios vesiculares universalmente presentes, mas rudes; com
presença de crepitações e roncos em hemitórax direito. Presença de tiragem de fúrcula. Abdome:
plano, sem presença de lesões cutâneas ou abaulamentos, ruídos hidroaéreos presentes.
Timpânico à percussão. À palpação, abdome tenso, mas indolor, sem massas ou visceromegalias
palpáveis. Pulsos periféricos palpáveis e simétricos, tempo de enchimento capilar menor que 3
segundos e sem edema.
• PCR: 14,65.
• Exames para avaliação da função renal e hepática normais.
• Raio-x de tórax: presença de consolidação em terço médio de
pulmão direito.
1. Quais as complicações agudas da anemia falciforme
presentes nesse paciente?
2. Qual é a fisiopatologia associada às manifestações do
paciente em questão?
3. Como deve ser feito o manejo de pacientes com Anemia
Falciforme no departamento de emergência?
Caso clínico 4 – Resposta
Doença falciforme: condição genética Hemoglobina S (HbS). Herança autossômico recessivo homozigóticos
portadores de Anemia Falciforme (AF).
Quando desoxigenada, a HbS se polimeriza e se torna insolúvel, alterando o formato e a estrutura da membrana
celular eritróide, o que diminui a meia-vida da hemácia, caracterizando a anemia hemolítica crônica.
Crise álgica: fenômenos vasoclusivos, que causam hipóxia e isquemia. Dor em costas e/ou em extremidades,
contínua e progressiva.
Causas: desidratação, infecções, frio, estresse físico e mental ou podem ocorrer sem causa aparente.
Outras manifestações clínicas: febre, taquipneia, crepitações, tosse, e a presença de uma consolidação no Raio-
X, o que fecha os critérios necessário para uma Síndrome Torácica Aguda (STA)
Patogênese da STA : multifatorial / considerar infecção associada, sendo os principais germes causadores o
pneumococo e as bactérias atípicas (Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae).
Caso clínico 4 – Resposta
Tratamento : antibioticoterapia que cubra os principais germes
associados à STA, sendo um dos esquemas mais indicados a
associação de uma cefalosporina de 3ª geração com um
macrolídeo. Além disso, deve ser feita uma analgesia com
opioides e medicações adjuvantes, como paracetamol,
dipirona ou AINE (ressaltando-se que o nível de evidência com
relação aos AINEs é moderado), buscando cessar as dores do
paciente, bem como manter uma hidratação adequada, uma
vez que é um dos fatores desencadeantes de crises álgicas e o
paciente em questão se encontrava desidratado. Vale ressaltar
que os pacientes com AF decido ao asplenismo que ocorre
com a progressão da doença são mais susceptíveis às
infecções, sendo de grande relevância manter o calendário
vacinal adequado (atentar principalmente para vacina do
pneumococo, meningococo e Haemophilus influenzae) e
realizar a antibioticoprofilaxia com penicilina V, que está
indicada para os pacientes menores de cinco anos.
Caso clínico 5
Criança, idade quatro anos, sexo masculino, chega ao PSF de seu bairro, acompanhada da mãe, com
história de trauma no pé direito quando jogava futebol com os amigos. O paciente foi previamente
cuidado por medidas locais pelos pais e, devido à não melhora do quadro, procurou auxílio no PSF,
onde realizaram limpeza e esterilização local, curativo e o receitaram o uso de cefalexina domiciliar.
Dois dias após, os sintomas persistiram, buscando ajuda, agora, na Santa Casa da Misericórdia de
Sobral, com sangramento e hematoma no pé direito persistentes, onde foi realizado desbridamento e
hemostasia local. Após melhora, recebeu alta. Dois dias depois, o paciente retornou ao hospital com
aumento do hematoma no pé, necessitando da realização de dois novos desbridamentos e iniciado
investigação laboratorial. Resultados significativos:
• Fator VIII - 4.4% (VR: 70 a 150%) e tempo de trombina diminuído.
1. Qual a hipótese diagnóstica?
2. Qual é a importância do sexo em relação a esta doença?
3. Qual a conduta neste caso?
Caso clínico 5 – Resposta
1. As hemofilias são distúrbios da coagulação que advêm da deficiência de fator VIII (hemofilia A) ou de
fator IX (hemofilia B) da coagulação, devido a mutações nos genes que codificam os fatores VIII ou IX,
respectivamente. A hemofilia A é mais comum que a hemofilia B e representa cerca de 80% dos casos. A
gravidade e frequência dos episódios hemorrágicos está relacionada ao nível residual de atividade de
fator VIII ou IX presente no plasma e este relaciona-se ao tipo de mutação associada à doença.
Os pacientes cursam com sangramentos intra-articulares (hemartroses), hemorragias musculares ou em
outros tecidos ou cavidades. As hemartroses afetam mais frequentemente as articulações do joelho,
tornozelo, cotovelo, ombro e coxofemoral. Os episódios hemorrágicos podem surgir espontaneamente ou
após traumas, e persistem por um tempo bem mais elevado em relação às crianças sadias.
2. As hemofilias são transmitidas quase que exclusivamente a indivíduos do sexo masculino por mães
portadoras da mutação (cerca de 70% dos casos). Porém, em cerca de 30% dos casos, a doença origina-se a
partir de uma mutação de novo, fenômeno que pode ocorrer na mãe ou no feto.
Filhas de homem com hemofilia serão portadoras obrigatórias. Apesar de muito rara, a hemofilia pode ocorrer
em mulheres, em decorrência da união de homem com hemofilia e mulher portadora.
Caso clínico 5 – Resposta
3. tratamento: reposição do fator anti-hemofílico. Paciente com hemofilia A recebe a molécula do
fator VIII, e com hemofilia B, a molécula do fator IX. Os hemocentros distribuem gratuitamente essa
medicação que é fornecida pelo Ministério da Saúde. Quanto mais cedo o diagnóstico e, por
conseguinte, o tratamento, menores serão as consequências negativas que deixarão os
sangramentos. Dessa forma, hoje, é preconizada a chamada profilaxia primária, isto é, a infusão do
fator de coagulação a partir do primeiro sangramento, de duas a três vezes por semana para a
prevenção de hemorragias posteriores. Assim se evita a lesão articular. Mesmo para quem
apresenta alguma sequela articular, o uso frequente do fator, profilaxia secundária ou terciária, irá
ajudar a melhorar a qualidade osteomolecular e evitar sangramentos.
Devemos orientar a partica de exercícios físicos específicos e aconselhamento genetico
ANEMIAS
PMSUS 6
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia: concentração de hemoglobina (Hb) no sangue está abaixo
dos valores de referência para idade, sexo e condições fisiológicas
(ex.: gestação). A fisiopatologia depende do tipo de anemia.
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia Ferropriva
• Causa: deficiência de
ferro → ↓ produção de
Hb → ↓ transporte de
O₂
• Manifestações: palidez,
fadiga, taquicardia,
glossite, unhas em
colher
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia Falciforme
• Causa: mutação
genética na Hb → HbS
→ hemólise crônica +
vaso-oclusão
• Manifestações: dor,
icterícia, crises vaso-
oclusivas, AVC
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia por
Hemorragia ou
Hemofilia
• Causa: perda aguda ou
crônica de sangue → ↓
massa eritrocitária
• Manifestações:
hipotensão, palidez,
queda de Hb rápida
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia Megaloblástica
(B12/ácido fólico)
• Causa: falha na síntese
de DNA → eritropoiese
ineficaz
• Manifestações: glossite,
parestesias, ataxia
(quando B12 ↓)
Compreender a fisiopatologia das anemias e sua relação com as
manifestações clínicas.
• Anemia por insuficiência
medular (ex: aplasia)
• Causa: falência da medula
óssea → ↓ produção de
células sanguíneas
• Manifestações: anemia +
leucopenia +
plaquetopenia
(pancitopenia)
Dominar a classificação das anemias (microcíticas,
normocíticas, macrocíticas) e suas causas.
Tipo de Anemia VCM (fL) Causas principais
Anemia ferropriva, talassemias,
Microcítica < 80
intoxicação por chumbo
Doença crônica, hemorragia aguda,
Normocítica 80–100
hemolítica, aplasia medular
Deficiência de B12/ácido fólico,
Macrocítica > 100
hepatopatia, hipotireoidismo
Saber interpretar exames laboratoriais como
hemograma completo e contagem de reticulócitos.
Saber interpretar exames laboratoriais como
hemograma completo, perfil do ferro e contagem
de reticulócitos.
Parâmetro Ferropriva Megaloblástica Falciforme
Hemácias ↓ ↓ ↓ ou normal
Hemoglobina ↓↓↓ ↓↓ ↓
Hematócrito ↓↓↓ ↓↓ ↓
VCM ↓ (microcitose) ↑ (macrocitose) normal ou ↑
HCM ↓ (hipocromia) normal ou ↑ normal
CHCM ↓ normal normal
RDW ↑ (alta variação) ↑ ↑
Reticulócitos ↓ ou normal ↓ ↑ (hiperprodução)
Perfil do Ferro
•Ferro sérico
•Capacidade Total de Ligação do
Ferro (CTLF ou TIBC)
•Índice de Saturação da Transferrina
•Ferritina
[ANEMIA FERROPRIVA]
|
----------------------------------------------------------------------------------------
| | | |
[⚖️
Ferro sérico] [ Ferritina] [🔗 TIBC/CTLF] [⚖️ Saturação da Transferrina]
↓ ↓↓ ↑↑ ↓↓
Pouco ferro Estoque esgotado Transferrina aumenta <15% de saturação
circulante (baixo valor é tentando captar mais (muito baixa)
diagnóstico) ferro disponível
Saber conduzir o diagnóstico e tratamento
das anemias mais prevalentes
• Anemia Ferropriva
• Diagnóstico: Hb ↓, VCM ↓, ferritina ↓, saturação de transferrina ↓
• Tratamento: sulfato ferroso via oral por 3 a 6 meses + tratar causa base
• Anemia Falciforme
• Diagnóstico: eletroforese de Hb (HbSS)
• Tratamento: hidratação, analgésicos, hidroxiureia, vacinação, transplante
• Anemia por hemorragia (ex.: hemofilia)
• Diagnóstico: histórico + coagulograma (TTPA ↑ na hemofilia A/B)
• Tratamento: reposição de fatores (FVIII/FIX), cuidados com sangramentos
Entender as anemias por insuficiência da medula
óssea, anemia megaloblástica, anemia ferropriva e
anemias hemolíticas.
• Anemia Ferropriva
• Causa mais comum no Brasil (MS, 2023)
• Ferro ↓ → Hb ↓
• Diagnóstico: ferritina ↓
• Tratamento: ferro oral ou IV, fortificação alimentar (política pública)
• Anemia Megaloblástica
• Deficiência de B12 ou ácido fólico
• Sinais: anemia + alterações neurológicas (B12)
• Diagnóstico: VCM ↑, hipersegmentação de neutrófilos
• Tratamento: reposição IM (B12) ou VO (ácido fólico)
Entender as anemias por insuficiência da medula
óssea, anemia megaloblástica, anemia ferropriva e
anemias hemolíticas.
• Anemias Hemolíticas
• Hemólise → reticulocitose + bilirrubina indireta ↑
• Causas: autoimune, falciforme, talassemia, infecções
• Diagnóstico: teste de Coombs
• Tratamento: depende da causa (imunossupressores, transfusão,
esplenectomia)
• Anemias por Insuficiência Medular
• Pancitopenia + reticulocitopenia
• Ex.: aplasia medular, leucemias, mielodisplasias
• Tratamento: transplante de medula, imunossupressão