REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
Ministério da Saúde
Curso de Técnicos de Medicina Geral
III- Semestre Ano Lectivo 2025
Disciplina de Clinica Medica
SISTEMA ENDOCRINO
Diabetes Mellitus
Docente: Dr. Fernando L. da Fonseca 1
(Médico de Clinica Geral)
Disciplina Clínica Médica N° da Aula 9
Tópico Sistema Endócrino Tipo Teórica
Conteúdos Diabetes Mellitus Duração 2h
Objectivos de Aprendizagem
Até ao fim da aula os alunos devem ser capazes de:
• Definir pré-diabetes, a Diabetes Mellitus tipo 1 e a tipo 2
• Fazer a classificação, segundo os critérios da OMS e AAD, da Diabetes Mellitus.
• Descrever a epidemiologia da diabetes mellitus tipo 1 e tipo 2
• Descrever as causas e os factores de risco Diabetes Mellitus tipo 1 e 2.
• Descrever a fisiopatologia da Diabetes Mellitus tipo 1, 2 e gestacional.
• Descrever a apresentação clínica da fase inicial da Diabetes Mellitus tipo 1, 2 e gestacional.
• Descrever a fisiopatologia, os factores desencadeantes e as principais manifestações clínicas das complicações:
• Agudas da Diabetes Mellitus (Cetoacidose Diabética, Coma Hiperosmolar Hiperglicémico e Coma Hipoglicémico): serão
tratadas na Aula 12 de Emergências Endócrinas;
• Ccrónicas (microangiopatia e macroangiopatia) a nível ocular, renal, neurológico, e cardiovascular da Diabetes Mellitus;
• Identificar os meios auxiliares para o diagnóstico da Diabetes Mellitus e elaborar do diagnóstico diferencial para a doença.
• Descrever em linhas gerais o tratamento farmacológico (insulina injectável, hipoglicemizantes orais) e não farmacológico (dieta,
exercício físico) para o tratamento das diferentes formas de diabetes mellitus (fase inicial e crónica).
• Descrever os efeitos colaterais da terapia com insulina e/ou hipoglicemizantes orais.
• Fazer o seguimento do plano de tratamento do paciente com diabetes mellitus incluindo:
• Anamnese e exame físico de seguimento;
• Controlo da adesão à terapia farmacológica e do estilo de vida;
• Avaliação pontual da resposta à terapia (clínica e laboratorial);
• Educação do paciente sobre a autogestão da condição crónica;
• Prevenção e diagnóstico precoce das complicações agudas e crónicas nos diferentes aparelhos;
• Efeitos secundários aos medicamentos e identificação de critérios de referência ou transferência.
• Explicar a importância do rastreio da pré-diabetes nas pessoas com factores de risco para diabetes mellitus.
• Explicar o impacto positivo da modificação do estilo de vida na prevenção da diabetes mellitus e das suas complicações
2
DIABETES MELLITUS
DEFINIÇÃO,
CLASSIFICAÇÃO,
EPIDEMIOLOGIA,
CAUSAS E FACTORES DE RISCO
Definições
Pré-diabetes é um estado metabólico intermediário entre a
homeostase normal da glicose e a diabetes mellitus
manifesta.
Na pré-diabetes as pessoas apresentam valores da glicose
no sangue acima do normal, mas não suficientemente
3
elevados para definir a patologia de diabetes.
Diabetes Mellitus (DM)
É uma doença crónica, multissistémica,
caracterizada pelos distúrbios no metabolismo dos
carbohidratos, dos lípidos e das proteínas com
presença de níveis altos de glicose no sangue.
É causada pela ausência ou deficiência na
secreção de insulina e/ou por graus variáveis de
resistência à mesma.
Resistência à insulina: significa que a insulina é pouco
eficiente na promoção da absorção de glicose pelas células
dos músculos. Para além disso a insulina, no fígado, inibe a
produção de mais glicose e a degradação do glicogénio.
Consequentemente a resistência à insulina causa
hiperglicémia. 4
Classificação
A classificação da DM recomendada pela
Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela
Associação Americana de Diabetes (AAD) é feita
com base nos critérios clínicos e na etiologia da
doença.
Divide-se em quatro grupos clínicos conforme
apresentado na Tabela 1.
5
Classificação Etiológica
Diabetes Tipo 1
Auto-imune
Idiopática
Diabetes Tipo 2
Obesos
Não obesos
Diabetes Mellitus Gestacional (Abordada na disciplina SSR II )
Pre-Diabetes
Intolerância à glicose
Hiperglicémia em jejum
“Outros” Tipos Específicos de Diabetes Mellitus
Doenças do pâncreas: pancreatite, neoplasias
Doenças endócrinas: Síndrome de Cushing
Medicamentos: Corticóides
Defeitos congénitos: diabetes do jovem com início na maturidade ou MODY 6
Classificação
A pré-diabetes apresenta-se com duas formas clínicas:
• A pré-diabetes em que existe a intolerância à glicose
É detectada através do teste tolerância oral à glicose a 2ª
hora (Vide PA 3, Tabela 1).
Neste tipo de pré-diabetes não existe hiperglicémia nos
períodos de jejum.
• A pré-diabetes com hiperglicémia em jejum
Refere-se às concentrações de glicemia em jejum mais
elevadas do que os valores normais, mas inferiores ao
critério diagnóstico para a diabetes mellitus declarada.
Qualquer uma delas aumentam significativamente o
risco da diabetes mellitus e muitas vezes faz parte da
história natural da diabetes Mellitus. 7
Epidemiologia: Incidência e Prevalência
Segundo a OMS uma epidemia de diabetes mellitus está em curso
em todo o mundo, pois:
• É uma das principais causas de mortalidade e incapacidade,
estando a ocorrer na maior parte dos países em desenvolvimento.
• Hoje calcula-se que mais de 220 milhões de adultos padeçam
desta doença e este número vai aumentar com os anos.
E apesar dos dois tipos estarem a aumentar, a tipo 2 esta a
aumentar mais rapidamente devido a aumento da obesidade e
redução da actividade física.
• A DM é mais frequente nos homens, a tipo 1 é mais frequente nas
crianças e adultos jovens e a tipo 2 é mais frequente após os 45
anos de idade.
• Em Moçambique, em 2003, calculava-se a prevalência da
diabetes era de 3,1%. (Associação Moçambicana de diabetes
AMODIA) 8
Causas
(i) A Diabetes Mellitus tipo 1 (DM 1)
É causada pela destruição das células beta do
pâncreas, levando a deficiência absoluta de insulina.
Esta forma pode ser subdivida em 2 formas, a saber:
Auto-imune : quando a causa é mediada por um
mecanismo auto-imune,
Idiopática ou de causa desconhecida.
(ii) A Diabetes Mellitus tipo 2 (DM 2)
É caracterizados por defeitos variáveis na secreção ou
acção da insulina ou por uma maior produção de
9
glicose.
Factores de Risco
Os factores de risco para o DM tipo 1 são:
• Genéticos
• Ambientais, não totalmente esclarecidos mas
poderiam ser infecções por vírus (papeira, rubéola
congénita - a serem abordada nas aulas de Pediatria)
• Condição de pré-diabetes
Os factores de risco para a DM tipo 2 são:
• Genéticos: se os pais sofrerem de DM tipo 2 há 40%
mais de probabilidade dos filhos virem a sofrer de DM
tipo 2
10
Os factores de risco para a DM tipo 2 são: (cont)
• Obesidade: sobretudo a central.
• Síndrome metabólica: o risco aumenta entre 3 a 5 vezes
respeito a população normal; estima-se que 75% dos
pacientes com DM tipo 2 ou com intolerância à glicose tem
síndrome metabólica.
• Pacientes com pré-diabetes
• Estilo de vida ocidental: com dieta rica em gorduras e
pobre em carbohidratos e fibras, alto nível de stress e
pouco exercício físico
• Estilo de vida sedentário
• Mulheres que tiveram DM gestacional: têm um risco
adicional de cerca de 40 a 60%
11
FISIOPATOLOGIA E MANIFESTAÇÕES
CLÍNICAS
Fisiopatologia
Qualquer que seja a causa, a DM abrange um
grupo de distúrbios que envolvem mecanismos
distintos, onde o denominador comum é a
hiperglicémia.
A hiperglicémia é motivada pela resistência
periférica à insulina (ver definição) em agir
efectivamente sobre os tecidos alvos, ou pela
deficiência ou pela falta de secreção de insulina
pelo pâncreas endócrino.
12
Fisiopatologia da DM tipo 1
A DM tipo 1 na maioria dos casos é uma doença auto-
imune desencadeada por vários factores genéticos e
virais (ver acima) cuja interacção provoca respostas
auto-imunes surgindo uma inflamação do tipo auto-
imune com destruição das células beta das ilhotas de
Langerhans.
De facto a maior parte dos doentes com DM tipo 1 têm
anticorpos contra as células beta.
O que acontece é que estas células são infiltradas por
linfócitos T, num processo chamado insulite tornando as
células atróficas e incapazes de produzir insulina.
A sintomatologia ocorre somente quando se destroem13
Fisiopatologia da DM tipo 2
Ainda não está completamente claro qual é o
mecanismo real que desencadeia a DM tipo 2,
contudo a resistência à insulina e a secreção
anormal de insulina são essenciais para o
surgimento da doença.
Para além da resistência à insulina, existe
produção aumentada da glicose pelo fígado e
um metabolismo anormal das gorduras na DM 2.
14
Manifestações Clínicas na Fase Inicial
Na diabetes mellitus tipo 1
Existe pouca ou nenhuma capacidade do pâncreas secretar
insulina, por isso os sintomas surgem em dias ou semanas,
em crianças ou adultos jovens.
• Os sintomas mais comuns nos paciente com DM tipo
1, todos eles devido à hiperglicémia, são:
Poliúria
Polidipsia ou sede excessiva
Polifagia,
Astenia, fraqueza muscular, cãibras,
Perda de peso,
Náuseas
Alterações da visão (visão embaciada). 15
Manifestações Clínicas na Fase Inicial
Estas manifestações podem ter sido precedidas de uma
infecção, geralmente virais das vias aéreas ou
gastrointestinal.
No exame físico os sinais que o paciente com DM 1
apresenta são:
• TA baixa devido a hipovolêmia e hipotensão ortostática
• Doente pode estar emagrecido devido ao estado
catabólico com redução do glicogénio, proteínas e
triglicéridos dependendo do início das manifestações.
• Nos casos em que o paciente se apresente com
cetoacidose diabética: alterações da consciência,
náuseas e vómito. 16
Manifestações Clínicas na Fase Inicial
A diabetes mellitus tipo 2,
No período inicial, é praticamente assintomática,
permanecendo não diagnosticada por muitos meses ou
anos.
• Os sintomas mais comuns podem ser insidiosos e leves
podendo ser toleradas por anos antes do paciente
procurar por cuidados médicos, são:
Fadiga, fraqueza.
Tonturas.
Visão embaciada.
17
Manifestações Clínicas na Fase Inicial
No exame físico os sinais são:
• Na fase inicial o quadro clínico não é muito
específico, o paciente pode ser sobre-peso ou
obeso.
• Na fase avançada o paciente apresenta sinais
das manifestações das complicações
crónicas, que serão abordadas a seguir.
18
COMPLICAÇÕES AGUDAS E CRÓNICAS
Complicações Agudas
As complicações agudas da DM são emergências
médicas endócrinas que serão abordadas na aula
de “Emergências Endócrinas” desta disciplina e,
mais tarde, serão estudadas pormenorizadamente
no 5º Semestres na “Disciplina de Traumas e
Emergências”.
Nesta aula iremos somente listar as complicações
agudas:
19
Complicações Agudas
As complicações agudas da DM são descompensações
metabólicas que podem ser classificadas em dois (2) grandes
síndromes clínicas a saber:
Cetoacidose Diabética (CAD):
É a acidose provocada pela presença de ácidos cetónicos
levando a cetose; ocorre em geral em doentes com DM tipo1.
Síndrome Hiperosmolar Hiperglicémico (SHH)
É uma descompensação metabólica caracterizada por um valor
muito elevado de glicémia; ocorre em geral em doentes com DM
tipo 2.
No SHH a cetose (e acetose) podem estar presentes em grau
variável e não são tão graves como na CAD.
20
Complicações Crónicas
As complicações crónicas da DM afectam muitos
sistemas do organismo e são responsáveis pela
maior parte da morbilidade e mortalidades desta
doença.
Podem ser divididas em:
o vasculares
(i) Microangiopatias
(ii) Macroangiopatias e
o não-vasculares.
21
complicações vasculares:
(i) Microangiopatias,
quando afectam vasos de pequeno calibre, e atingem
predominantemente os sistemas:
• Ocular causando a retinopatia diabética – que é a
principal causa de cegueira entre os 30 e 65 anos
• Renal causando a nefropatia diabética – mais
frequente na DM tipo 1 do que na DM tipo 2
• Neurológico causando neuropatia diabética – que
afecta 50% dos paciente com diabetes causando várias
alterações neuropáticas como as úlceras neuropáticas,
situação conhecida como pé diabético. 22
complicações vasculares:
(ii) Macroangiopatias,
quando afectam vasos de grande e médio calibre;
As alterações consistem em arteriosclerose e
atingem sobretudo as:
• Artérias coronárias causando a doença coronária
• Artérias periféricas, sobretudo membros
inferiores, causando úlceras diabéticas (vide A-10
da disciplina de músculo-esquelético)
• Artérias cerebrais causando a doença vascular
cerebral
• Artéria renal causando insuficiência renal 23
Outras complicações incluem as seguintes:
• Problemas gástricos, causando gastroparesias e
diarreia
• Problemas urinários
• Disfunção sexual
• Maior susceptibilidade as infecções
• Alterações cutâneas
• Perda da audição
• Catarata.
Figura 1. Necrose diabética e gangrena 24
DIAGNÓSTICO DA DIABETES
Exames auxiliares e diagnóstico
(i). O diagnóstico de diabetes mellitus é evidente
quando presentes:
Sintomas clássicos de diabetes (poliúria, polidipsia, polifagia e
perda de peso inexplicável)
+
Concentração aleatória (casual) de glicose plasmática de ≥ 200mg/dL
(≥11,1 mmol/L)
Ou
Concentração de glicose plasmática em jejum de pelo menos 8h ≥ 126mg/dL
(≥7 mmol/L)
Ou
Concentração de glicose plasmática pós-carga ≥ 200mg/dL
(≥11,1 mmol/L) durante um teste de tolerância à glicose 25
Exames auxiliares e diagnóstico (cont)
A glicosúria e cetonúria apoiam no diagnóstico da
DM.
Os corpos cetónicos são importantes no
diagnóstico da CAD.
A detecção da proteinúria, da ureia e creatinina
no sangue são testes importantes para verificar a
função renal, e servem de parâmetros para avaliar
a evolução e complicações da diabetes.
26
Diagnóstico Diferencial
O diagnostico diferencial deve ser feito em:
• Patologias de outros órgãos como fígado,
sistema muscular e tecidos gordos
• Outras doenças endócrinas: Doença de
Addison, de Graves, tiroidite de Hashimoto
• Medicamentos: fenitoína, glicocorticóides
• Pancreatite crónica
• Glicosúria de outras causas como as renais,
onde a glicemia no sangue é está normal.
27
Conduta
A DM é uma patologia crónica e complexa de ser manejada,
pois instituir um tratamento que mantenha os níveis glicémia
aceitáveis num paciente diabético é um desafio para o clínico.
Tratamento não medicamentoso
Dieta
A nutrição é parte integrante do manejo adequado da diabetes
Mellitus.
As finalidades do controle da nutrição são:
• Alcançar e manter os níveis óptimos de glicémia
• Reduzir os factores de risco cardiovascular incluindo a
dislipidemia e a hipertensão
• Providenciar uma dieta balanceada e nutritiva 28
Tratamento não medicamentoso
Controle do peso – recomenda-se uma perda de
peso de pelo menos 5 a 10% do peso corporal em 3
a 6 meses.
Carbohidratos – estes devem providenciar 50 a
55% do total do aporte energético.
As refeições devem conter carbohidratos ricos em
fibra como: vegetais, legumes, cereais integrais e
frutas.
Evitar o consumo de açucares refinados, subistituir o
açucar por adoçantes.
Comer três refeições por dia de forma a distribuir o
aporte dos carbohidratos. 29
Tratamento não medicamentoso
Gorduras – devem providenciar menos de 30% do
total do aporte energético.
Evitar ou limitar o consumo das seguintes gorduras:
carnes gordas, produtos lácteos com gordura,
óleos de coco ou palma e alimentos processados.
Proteínas – estas devem providenciar cerca de 15
a 20% do total de aporte energético.
As fontes de proteínas são: o peixe, mariscos,
carne magra, frango, produtos com baixo teor de
gorduras (leite, iogurte magro), amêndoas e
legumes. 30
Tratamento não medicamentoso
Álcool – restringir o consumo de álcool para não
mais de 1 a 2 bebidas padrão por dia. Exemplo de
bebida padrão: uma cerveja (285ml ou 375ml light),
100ml de vinho, 30ml de bebidas com maior teor de
álcool.
O álcool pode causar hipogicemia em doentes
tratados com insulina ou sulfonilureias.
Sal – restringir o consumo de sal para menos de
6g/dia, particularmente em pessoas com
hipertensão arterial.
31
Tratamento não medicamentoso
Exercício físico
• A actividade física tem um importante papel no
manejo da DM em particular do tipo 2.
• Ela melhora a sensibilidade à insulina e na
redução do peso.
• Os programas de actividade física devem ser
apropriados para a idade da pessoa e o seu status
social, físico, económica e cultural.
• Isto inclui actividades como: caminhar, andar de
bicicleta, trabalhar no jardim, fazer actividades
domésticas, usar escadas em vez de
32
elevadores, etc.
Tratamento medicamentoso
Visa, fundamentalmente, repor a insulina cuja secreção foi
perdida e baixar a glicose aumentada na circulação
sanguínea nos doentes diabéticos.
O tratamento difere dependendo do tipo da diabetes, usa-
se a insulina ou hipoglicemiantes orais também chamados
de anti-diabéticos orais (ADO’s).
Tendo em conta que muitos dos exames laboratoriais não
podem ser feitos a nível do TMG recomenda-se que os
pacientes a quem se faça o diagnóstico pela primeira vez,
tanto de DM tipo 1 como do e tipo 2, sejam encaminhados
imediatamente para o nível superior assim que as
primeiras medidas terapêuticas necessárias compensar o
paciente tiverem sido instituídas. 33
Insulinoterapia
A insulina é o tratamento de eleição para pessoas com DM
1, que não têm insulina, e de muitas pessoas com diabetes
tipo 2, que não respondem à dietaterapia e ao exercício ou
aos ADO’s.
A insulinoterapia consiste em imitar a secreção fisiológica
da mesma no organismo humano.
As insulinas disponíveis no mercado podem ser de origem:
• Animal: bovina e a porcina
• Humana: denominada semi-sintética
• Bio-sintéticas: que são as mais recentes, menos
complexa e economicamente mais viável; são conhecidas
como análogos e que são produzidas pela Escherichia
34
Coli
Insulinoterapia
Qualquer que seja a sua origem os preparados insulínicos
são divididos por classes, consoante o tipo de acção, inicio
e duração dessa acção.
Pelo que se classificam em:
• Insulina de Acção Curta, que podem ser:
Rápida
Ultra-rápida
• Insulina de acção intermediária
• Insulina de acção prolongada
Para o nível do TMG os tipos de insulina que podem ser
usados por eles são:
• Insulina de Acção Curta (Rápida)
35
• Insulina de Acção Intermédia.
A Tabela 1 mostra os preparados insulínicos (que estão no nível de
prescrição do TMG) que constam no Formulário Nacional de
Medicamentos (FNM) e de acordo com início, pico e duração da
acção.
Tabela 1: Preparados Insulínicos do FNM
Classe Preparado Via Início Pico Duração Indicação Código
Preparação Fr. 10ml de do do do do
100 U.I. de Administra Efeito Efeito Efeito FNM
insulina/ml ção (min/h) (min/h) (h)
Acção Manuten-
Intermédia ção:
DM1;
Susp. neutra de
DM2 não (2)
Insulina isofane
S.C 2 - 4h 4 - 10h 14 - 18 controlada
(NPH) humana
por dieta, 3-B9
(NPH ou lenta)
exercício
e máxima
de ADO’s
Sol. Estéril de Insulina
Acção Humana
Curta Emergências
hiperglicémica
RápiA Tabela 1 mostra os s;
preparados insulínicos (que Tratamento de
estão no nível de prescrição IM/EV: DM1;
do TMG) que constam no Emergência Tratamento de
Formulário Nacional de s DM2 não (2)
Medicamentos (FNM) e de < 15’ 30 - 90’ <5h controlada
acordo com início, pico e S.C: com dieta, 3-B7
duração da acção. Manutençã exercício e
o dose máxima
da de ADO’s;
(Lispro) Hiperglicémia
no Pré e Pós-
operatório
Mesmas 10 - Mesmas que (2)
(Aspart) 1 - 3h 3 - 5h
que anterior 20’ anterior 3-B7
Mesmas 30’ - Mesmas que (2)
(Glulisina) 10 -15’ <3h
que anterior 1.5h anterior
3-B7
Fonte: Formulário Nacional de Medicamento; Harrison, Medicina Interna. 17ª Edição. Brasil:
Mc Graw Hill Koogan; 2009; Cecil, Medicina. 23ª Edição. Brasil: Elservier; 2009.
Cálculo da Dose
A maior parte dos doentes adultos necessita entre 20 - 60
U.I. de insulina/dia.
Contudo deve-se calcular a dose diária com base no peso
e altura do doente.
De acordo com o FNM para se calcular a dose de insulina
é preciso calcular-se o Índice de Massa Corporal (IMC) a
Dose Diária Total (DDT) que se calcula do seguinte modo:
Índice de Massa Corporal: IMC= Peso (em kg)
h2
DDT = 1 U.I. de insulina S.C. por cada unidade do IMC
OU
0.5 U.I./kg/dia 38
Cálculo da Dose
Exemplo: Um paciente com 70 kg e 1,75 m de
altura teria
IMC=70kg = 23 U.I. de
insulina/dia
(1,75)2
OU
70kgx0.5 U.I/dia = 35 U.I.
Portanto para o paciente do exemplo a dose
indicada varia de entre 23 a 35 U.I./dia por via
39
Hipoglicemiantes ou Anti-diabéticos
Orais (ADO’s)
Para o tratamento de DM 2 são usados agentes orais
redutores de glicose os ADO’s cujo efeito hipoglicemiante
consegue-se por diferentes mecanismos de acção, a
saber:
• Aqueles que aumentam a secreção de insulina,
denominadas Sulfoniluréias, como por ex: a
Glibenclamida.
• Aqueles que reduzem a produção de glicose,
denominadas Biguanidas, como por ex: a Metformina.
• Aqueles que aumentam a sensibilidade à insulina,
denominadas Tiazolidinedionas, como por ex: a
Rosiglitazona. 40
Hipoglicemiantes ou Anti-diabéticos
Orais (ADO’s)
Apenas a Glibenclamida pode e está no nível de
prescrição do TMG, para o uso de qualquer um dos outros
regimes, o TMG deve referir ou para o médico.
Os objectivos da terapia para DM tipo 2, são semelhantes
aos da DM tipo 1 ou seja o controlo da hiperglicémia.
Na DM tipo 2, deve-se também incluir a devida atenção ao
tratamento das condições associadas a esta patologia,
sobretudo a:
• Obesidade
• HTA
• Dislipidemia
• Doenças cardiovasculares a nível renal, neurológico,
41
cutâneo e dos tecidos moles como as úlceras.
Hipoglicemiantes ou Anti-diabéticos
Orais (ADO’s)
Glibenclamida, Comp. 5mg por via oral: indicada
em doentes diabéticos sem/com excesso de peso
nos quais a metformina é mal tolerada ou
contraindicada.
Doses: Iniciar com 2,5 a 5 mg/dia ao pequeno-
almoço e aumentar progressivamente esta dose
em intervalos de 5-7 dias, até se conseguir o
controlo de glicemia ou até se atingir um máximo
de 15 mg/dia.
42
Efeitos Colaterais do Tratamento
Farmacológico
Insulina como dos ADO’s mais frequentes são:
• Hipoglicémia: se manifesta principalmente por palidez,
taquicardia, hipersudorese, tremores, irritabilidade.
• Aumento de peso: acompanhado de aumento do
colesterol LDL e da tensão arterial.
Estes efeitos contribuem para o aumento do risco da
patologia cardiovascular que já é elevada nos diabéticos.
• Lipoatrofia: redução de gordura, no local das injecções
S.C, de insulina
• Outros efeitos ligeiros, e pouco frequentes, incluem
distúrbios gastrointestinais tais como: náusea, vómitos,
diarreia ou obstipação. 43
Seguimento do Paciente Diabético e Prevenção
das complicações agudas e crónicas
O plano de seguimento deve ter em conta que a
doença é crónica, mas que pode também
produzir complicações agudas devidas a
hiperglicémia.
As complicações crónicas começam a surgir na
segunda década da doença.
Nos casos dos doentes com DM tipo 2 não
diagnosticada numa fase precoce podem
apresentar complicações crónicas na altura do
diagnóstico.
44
Seguimento do Paciente Diabético e Prevenção
das complicações agudas e crónicas
Para um bom plano de seguimento é necessário, a cada
consulta, questionar o paciente sobre as seguintes
questões:
• Evolução e alterações do peso
• Dieta
• Exercício físico
• Tipo de terapia que esta a fazer: Insulinoterapia, ADO ou
mista e questiona-lo sobre a regularidade da auto medição
• Controlar os valores de auto medição da glicémia
• Controlar os valores da glicémia
• Crises anteriores de hipoglicémia
• Avaliação dos conhecimentos que o paciente tem em
45
relação à doença, dieta e exercício.
Seguimento do Paciente Diabético e Prevenção
das complicações agudas e crónicas
No exame físico, o clínico deve avaliar os
seguintes aspectos:
• Medição do peso, obesidade, IMC, circunferência
abdominal (CA) e comparação com os valores das
consultas anteriores: o ideal é manter o IMC < 25
Kg/m2 e CA < que 80 na mulheres e < 95 nos
homens.
• Medição da TA, onde >130/80mmHg é considerado
elevado em diabéticos
• Avaliação da pele nos locais de injecção para
avaliação das lipoatrofias,
46
Seguimento do Paciente Diabético e Prevenção
das complicações agudas e crónicas
• Exame dos pés para determinar o fluxo
sanguíneo, eventuais feridas, úlceras.
• Identificar, infecções fúngicas, doença ungueal,
unhas encravadas, e possíveis úlceras
plantares para instituição de tratamento precoce
e adequado.
• Identificar possíveis neuropatias periféricas com
exames neurológicos de sensibilidade e dos
reflexos.
47
Seguimento do Paciente Diabético e Prevenção
das complicações agudas e crónicas
• Pesquisar a presença de deformidades podálicas,
tais como artelhos em martelo ou garra.
• Deve-se observar as gengivas e dentes pois neste
pacientes a doença periodontal é muito frequente.
• Controlar a retina para eventuais sinais de
retinopatia: consulta com oftalmologista
• Medição da TA para decidir se são necessários
medicamentos anti-hipertensivos de maneira a
prevenir as complicações cardiovasculares
• Medição da proteinúria na urina para avaliar
eventuais complicações renais
48
Educação do paciente sobre a autogestão
da condição crónica
Cada consulta é uma oportunidade para educar na
gestão da sua patologia e o clínico nunca deve deixar
de falar sobre os aspectos essenciais que cada
paciente com DM deve saber para uma correcta
autogestão da sua condição.
A autogestão tem duas vertentes importantes a saber:
Por um lado a componente da compressão e
aceitação da doença e os desafios nas mudanças que
o paciente irá operar na sua rotina de vida;
Por outro lado tem que aprender a controlar e
monitorar a glicose sanguínea. 49
Fazem parte das medidas educativas os seguintes:
(i). Avaliar que tipo de dieta o paciente está a consumir
e propor mudanças de acordo com os problemas
detectados.
Uma recomendação a ser dada baseia-se na terapia
nutricional médica que tem 3 objectivos:
• Garantir o aporte calórico no paciente diabético que
está em tratamento para evitar as crises de
hipoglicémia
• Reduzir o peso sobretudo do paciente com DM tipo 2
idoso
• Retardar o aparecimento das complicações, tais
como doença vascular ou nefropatias, ligadas a uma 50
Fazem parte das medidas educativas os
seguintes:
(ii). Avaliar se faz exercício físico regular.
É aconselhável um exercício aeróbico leve a
moderado, caminhadas e natação por exemplo, de
acordo com situação cardiovascular do paciente, pelo
menos 3 vezes por semana.
O paciente deve saber que isto traz muitos benefícios
a saber:
• Redução da glicemia e aumento da sensibilidade a
insulina na DM tipo 1
• Redução do risco de doença cardiovascular
• Redução da TA
• Manutenção da massa muscular e do peso 51
Fazem parte das medidas educativas os
seguintes:
(iii). Informar os pacientes com DM tipo 1 que
durante o exercício são propensos a hiperglicémia
e a hipoglicémia, dependente da glicemia antes do
início do exercício, e recomenda-se que meçam a
glicemia antes, durante e após o exercício.
Se a glicemia for > 14mmol/l (250mg/dl) adiar o
exercício.
Se for <5,6mmol/l (100mg/dl) ingerir carbohidratos
antes do exercício.
52
Fazem parte das medidas educativas os
seguintes:
(iv). Aconselhar de evitar o consumo de álcool ou
uso de tabaco.
(v). Avaliar a adesão terapêutica: o clínico ensina
como ter um registo da terapêutica, e glicémia,
que ajuda, a tomar melhor a sua medicação, e o
profissional de saúde para avaliar o cumprimento
e a adesão da mesma.
53
Critérios de transferência/referência dos
pacientes em seguimento incluem:
• Paciente que refere estar a ter dificuldades em
dosear correctamente a insulina e verificação, no
livro de registo de medições de valores de glicemia
baixa.
• Presença de proteínas no exame de urina com
tiras-teste.
• Aumento de peso.
• Surgimento de HTA
• Surgimento de infecções da pele e úlceras
plantares
• Queixas de disfunção eréctil 54
RASTREIO E PREVENÇÃO DA DIABETES
MELLITUS
Rastreio
O rastreio da DM é feito controlando a glicémia em
jejum e deve ser feito em indivíduos
assintomáticos com mais de 45 anos.
Se os resultados forem normais devem ser
repetidos de 3 em 3 anos.
Os testes devem ser considerados em pessoas
mais jovens nas seguintes condições:
Obesos com IMC >27kg/m2 ou CA > 80 nas
mulheres > 95 nos homens 55
Rastreio
Os testes devem ser considerados em pessoas mais jovens
nas seguintes condições: (cont)
Se tem parentes de primeiro grau com diabetes
Mulheres que tiveram Diabetes Gestacional
Mulheres que tiveram bebés com mais de 4,5kg
Pacientes com HTA >140/90mmHg
Pacientes com Colesterol HDL abaixo de
35mg/dl ou triglicéridos acima de 250mg/dl
Em teste anterior intolerância á glicose ou
intolerância à glicose em jejum 56
Prevenção
Tendo em conta que a DM tipo 2 representa entre
90 a 95% dos casos e está relacionada com os
hábitos de vida, isso significa que existem medidas
que devem ser tomadas ao nível de políticas de
saúde dos países, ao nível das comunidades onde
as pessoas estão inseridas e o estilo de vida das
famílias.
O papel das escolas é muito importante na
transmissão das informações, já que a diabetes
tipo 2 está a surgir cada vez mais em grupos
jovens no que diz respeito à:
57
Prevenção
(i). Promoção de uma adopção de uma dieta
equilibrada e saudável, que compreende:
Dieta balanceada de proteínas, carbohidratos e
gorduras
Dieta rica em verduras, vegetais, fibras e fruta
Dieta pobre em gordura
Reduzir a ingestão de alimentos e bebidas
açucaradas
Ingestão de grandes quantidades de água
Adoptar prática de refeições em família e à mesa
58
Prevenção
(ii). Introdução de desporto nas escolas desde a primária
até ao ensino superior.
(iii). Na comunidade a adopção de práticas de exercício
físico, de modo a manter o peso, que pode ser adoptado
de forma rotineira fazendo exercícios diários que podem
ser:
Caminhadas ou corridas
Prática de um desporto que seja do agrado do jovem
Evitar ver de televisão e uso de computador por mais de
2 horas por dia nos jovens sobretudo nas zonas
urbanas
Evitar comer em frente a televisão
59
PONTOS-CHAVE
• A diabetes mellitus é uma doença crónica multissistémica causada pela ausência ou deficiência na
secreção de insulina ou por resistência a mesma que determina presença de níveis altos de glicose no
sangue, que se denomina hiperglicémia.
• As DM tipo 1 e 2 são causadas por uma série de factores: genéticos e infecções virais (DM 1),
genéticos e ambientais como o estilo de vida ligados a dieta inadequada e pouco saudável, obesidade
e inactividade física (DM 2)
• O início do DM 1 é caracterizado por os seguintes sintomas, devidos à hiperglicémia e incapacidade
de utilização da glicose: poliúria, polidipsia, polifagia, astenia, fraqueza muscular, cãibras, perda de
peso, náuseas, dores abdominais.
• O início do DM 2 é caracterizado por sintomas específicos como fadiga, fraqueza, tonturas, visão
embaciada, mas pode também iniciar com a síndrome hiperosmolar hiperglicémica (SHH) que é uma
descompensação metabólica caracterizada por um valor muito elevado de glicemia, que determina
poliúria, alterações do estado de consciência até o coma.
• A diabetes apresenta várias complicações que afectam os olhos causando a retinopatia, os rins
causando uma insuficiência renal, o sistema neurológico causando neuropatias periféricas e
autónomas, o sistema genito-urinários causando alterações das funções sexuais o sistema
cardiovascular causando aterosclerose em várias artérias e HTA.
• Os objectivos do tratamento do DM é o de se repor a insulina cuja secreção foi perdida e o de baixar a
glicémia e prevenir as complicações.
• O tratamento medicamentoso da DM é feito com insulina ou hipoglicemiantes orais também chamados
de anti-diabéticos orais (ADO’s), sendo a insulina é o tratamento de eleição para pessoas com DM 1 e
muitas pessoas com DM 2.
• O tratamento com ADO’s na DM 2 é aconselhado nos casos em que não se tenha obtido controlo da
DM 2 após pelo menos 1 mês de tratamento não medicamentoso.
• O rastreio para a DM em pessoas com mais de 45 anos deve ser feito de 3 em 3 anos ou em pessoas
mais jovens que tem factores de riscos de desenvolver DM como os obesos, hipertensos, pessoas
com familiares com DM. 60
• A prevenção da DM tipo 2 requer a adopção de hábitos de vida mais saudáveis, como por exemplo
Bibliografia
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prática da medicina. 21ª Edição. Churchill Livingstone;
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Elservier; 2009.
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Koogan, Brasil; 2009.
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Guanabara Koogan,Brasil; 1990.
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Mellitus. 1ª edição. Sanofi Aventis, Maputo; 2009
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