0% acharam este documento útil (0 voto)
8 visualizações134 páginas

A Engenharia Do Texto - Data Show

O documento discute a importância da escrita e da produção textual, destacando a necessidade de habilidades práticas em vez de apenas conhecimento gramatical para professores de Língua Portuguesa. Além disso, aborda conceitos como textualidade, intertextualidade e polifonia, enfatizando que escrever é uma habilidade que deve ser desenvolvida através da prática e do estudo. Por fim, critica a ideia de que escrever é um dom ou um ato espontâneo, defendendo que é uma competência essencial no mundo moderno.

Enviado por

cabecaqueimando
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PPT, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
8 visualizações134 páginas

A Engenharia Do Texto - Data Show

O documento discute a importância da escrita e da produção textual, destacando a necessidade de habilidades práticas em vez de apenas conhecimento gramatical para professores de Língua Portuguesa. Além disso, aborda conceitos como textualidade, intertextualidade e polifonia, enfatizando que escrever é uma habilidade que deve ser desenvolvida através da prática e do estudo. Por fim, critica a ideia de que escrever é um dom ou um ato espontâneo, defendendo que é uma competência essencial no mundo moderno.

Enviado por

cabecaqueimando
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PPT, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

A engenharia do

texto
“...a escrita trazProfessor
conseqüências Odenildosociais,Sena
culturais, políticas, econômicas, cognitivas,
lingüísticas, quer para o grupo social em que
seja introduzida, quer para o indivíduo que
aprenda a usá-la”. (Magda Soares. Letramento – um tema em três
gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p.17)
Introdução
Texto e textualidade
 “Em conversa recente com um bom e velho amigo professor,
dizia eu a ele da minha preocupação com a baixa qualidade e a
pouca exigência dos concursos públicos destinados a selecionar
professores de Língua Portuguesa para as escolas públicas.
Espanta-me, por exemplo, que dos candidatos não se exija uma
demonstração de como lidam com o desafio de produzir bons
textos. Há de se supor que a sua boa performance teria
repercussão direta no desempenho dos alunos. Causa-me
indignação a insistência em se avaliar o professor apenas pelo
conhecimento que ele possa ter das regras gramaticais, em
detrimento do efetivo desempenho em sua língua de cultura.
Causa-me, também, estranheza que não se tenha, pelo menos, um
pequeno recorte da habilidade didático-pedagógica dos candidatos,
aferindo-lhes a desenvoltura diante do surpreendente e complexo
espaço pedagógico que é a sala de aula. São exigências que,
apagadas, não somente banalizam os mecanismos de seleção
como também contribuem para o comprometimento da formação de
milhares de estudantes”. (O. S. Diário do Amazonas, 10.08.2004, p. 7)
O que é um texto?

 “É uma unidade lingüística


comunicativa básica, já que o que as
pessoas têm para dizer umas às outras
não são palavras nem frases isoladas, são
textos”.

 Pode-se, então, definir texto ou


discurso “como ocorrência lingüística
falada ou escrita, de qualquer extensão,
dotada de unidade sociocomunicativa,
semântica e formal”. (COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e
textualidade, p. 3)
O que são essas unidades
sociocomunicativa (1), semântica (2) e formal
(3)?
 (1) Na produção e recepção textuais tem papel predominante
“uma série de fatores pragmáticos que contribuem para a
construção de seu sentido e possibilitam que seja
reconhecido como um emprego normal da língua”.

 (2) “Uma unidade lingüística, para ser texto, precisa ser


percebida pelo recebedor como um todo significativo”.

 (3) Os constituintes lingüísticos de um texto “devem se


mostrar reconhecidamente integrados, de modo a permitir
que ele seja percebido como um todo coeso”. (COSTA VAZ, Maria da
Graça. Redação e textualidade, p. 4)
As unidades sociocomunicativa, semântica
e formal definem o que se chama
textualidade.
 Observemos o “texto” a seguir:

 “Coari é uma bela cidade, encantadora por suas belezas


naturais, destacando-se na Amazônia através do seu
desenvolvimento econômico e social. Limita-se ao poder político
corrupto do município, que, por necessidade, acaba por
manipular boa parte da população. Mas, falar de Coari é
expressar orgulho. E quem não deseja visitá-la?” (Texto de
aluno)

 Estamos diante de fragmentos que não formam um


texto, pois lhes falta textualidade – “conjunto de
características que fazem com que um texto seja um
texto, e não apenas uma seqüência de frases”. (COSTA VAZ, Maria
da Graça. Redação e textualidade, p. 4)
Observemos, agora, o texto seguinte:

 “Cruzamento qualquer. Sinal verde. Motorista acelera


para avançar. Freada súbita. Susto. Um outro tranqüilo
motorista avançara o vermelho. Indignação. Mãe ofendida.
Para o primeiro, uma estupidez. Para o segundo, fato
corriqueiro. Afinal, estamos na cidade de Manaus. O rigoroso
Código Brasileiro de Trânsito ainda não entrou em vigor. O
que vale e se respeita é uma estranha convenção de rua.
Como se tivesse força de lei. Daí a necessidade de se
oficializar o que teria como sigla CMT – Código Manauense
de Trânsito”. (O. S. Diário do Amazonas, 12.06.2004)

 Estamos, agora, diante de um texto com


textualidade!
Ao lado da textualidade, o que vem a ser a
intertextualidade?
 Pasmem! Apesar da Lei de Diretrizes e Bases, de 1996, pregar o
“pluralismo de idéias” e o “apreço à tolerância”, algumas escolas
brasileiras remam contra a correnteza. Crianças que vivem em
assentamentos do MST, no Rio Grande do Sul e outros estados, são tolhidas
desses direitos. Como num internato comunista e de posse de uma cartilha
ideológica própria do Movimento, ensina-se o ódio, a intolerância, o dever de
defender o comunismo e o “desenvolver da consciência
revolucionária”. Datas cívicas, como 7 de Setembro, deram lugar a outras
celebrações: a revolução chinesa de Ho Chi Minh, a da Nicarágua, a morte
de Che Guevara e o nascimento de Karl Marx. Nas salas de aula e pátios, a
bandeira do Brasil deu lugar à bandeira vermelha do Movimento. As músicas
do be-a-bá são seguidas do grito de guerra “Sem-terrinha em ação, pra
fazer a revolução!”. Para Silvia Gaspariam Colello, da Universidade de São
Paulo, “Essas escolas estão aprisionando as crianças num modelo
único de pensamento”. O pior é que seus professores, pagos com o
dinheiro do contribuinte, nem ao menos concluíram o Ensino Fundamental.
As Secretarias Estaduais e Municipais de Educação sentem dificuldades em
fazer com que professores que não pertencem ao movimento sejam aceitos
nas salas de aula. “O MST torna a vida do educador que vem de fora
um inferno”, relata Gislaine do Amaral Ribeiro, coordenadora estadual das
escolas de assentamento da região de Bagé, no Rio Grande do Sul. E assim,
as escolas desses assentamentos continuam remando contra a maré. (Texto de
aluno)
Ao lado da textualidade e da intertextualidade, o
que vem a ser a polifonia?

 “Por dever de ofício, sou um atento observador do cenário de


acusações que envolvem pais, professores e pedagogos com a
resistência dos nossos alunos à leitura. Dizem os primeiros
que a escola não tem conseguido estimular a formação de
leitores, e nisso estaria a principal causa desse fracasso.
Denunciam os segundos que as crianças são magnetizadas
pela TV, e nisso estaria a razão do seu desinteresse pelos livros.
Propagam os terceiros que os pais não acompanham a vida
escolar dos filhos, e nisso estaria um importante componente a
contribuir com a aversão à leitura. Profetizam outros que os
brasileiros são chegados a um certo estado de ócio, e nisso
estaria a explicação para o fato. E, nesse cipoal de
generalizações e poucas verdades, espalham outros tantos
que nossas crianças simplesmente não gosta de ler. Acredito
que o tema envolve aspectos que estão aquém e além das
acusações em si”. (O.S. Diário do Amazonas, 10.07.2004, p.7)
A desconstrução dos mitos que cercam
o ato de escrever
 Escrever é um dom, e não uma habilidade que pode
ser desenvolvida;
 Escrever é um fenômeno espontâneo, e não um ato
que exige empenho e trabalho;
 Escrever é uma competência que se forma com
algumas “dicas”, e não uma prática que exige
estudo sério e exaustivo;
 Escrever é uma competência que depende do bom
leitor, e não de uma prática constante e efetiva
 Escrever é pouco importante no mundo moderno, e
não algo que tenha a ver com prática sociais e com
a própria ascensão social.
“Escrever é um dom, e não uma habilidade
que pode ser desenvolvida.”

 É preciso discutirmos como aprendemos a


escrever;
 Qual a importância do texto escrito para nós
e para nosso grupo social?
 Qual a intensidade do nosso convívio com o
texto escrito?
 Com que freqüência escrevemos?
“Escrever é um fenômeno espontâneo, e
não um ato que exige empenho e trabalho.”

 Escrever é uma das habilidades mais complexas


que o ser humano pode realizar;
 Escrever é fazer rigorosas exigências à memória e
ao raciocínio;
 Escrever é acionar conhecimentos de natureza
diversa para que o texto tome forma;
 Escrever exige cuidados na seleção das idéias
ligadas ao assunto, na escolha do gênero
adequado, na situação em que o texto é produzido,
no público alvo, no uso da língua e suas
possibilidades estilísticas.
“Escrever é uma competência que se forma
com algumas “dicas”, e não uma prática que
exige estudo sério e exaustivo.”
 Fórmulas pré-fabricadas e “dicas” só
contribuem para dificultar a prática da
produção escrita;
 Escrever bem é o resultado de um percurso
constituído de muita prática, muita reflexão e
muita leitura;
 É, também, uma ação que envolve o sujeito
de forma total com sua bagagem de
conhecimentos e experiências sobre o
mundo e a linguagem.
“Escrever é uma competência que
depende do bom leitor, e não de uma
prática
 Um bomconstante e efetiva.”
leitor tem grandes
desenvoltura;
possibilidades de escrever com

 A leitura permite assimilarmos as estruturas próprias da língua escrita;

 Diferentemente da comunicação oral, a escrita tem suas


especificidades e suas exigências, que são muitas;

 Na escrita, o tratamento dispensado à sintaxe, ao vocabulário e à


organização do discurso é diferente;

 A atenta convivência com textos escritos de diversos gêneros faz com


que incorporemos às nossas habilidades um efetivo conhecimento da
escrita;

 A leitura é uma das formas mais eficientes de acesso à informação, de


construção da análise, da reflexão e da crítica.
“Escrever é pouco importante no mundo
moderno, e não algo que tenha a ver com
práticas
 sociais
O complexo mundo e com
contemporâneo está cadaa
vez própria ascensão
mais exigente em relação à escrita.
social.”
 Tudo o que somos, temos, realizamos ou desejamos realizar deve estar legitimado
pela palavra escrita.

 Mesmo com os recursos modernos, como a informática, exige-se um convívio especial


com a escrita.

 Não se escreve por escrever. A escrita tem um sentido e uma função.

 Pela escrita estamos atuando no mundo e nos constituindo como autores, como
sujeitos de uma voz.

 Escrever implica marcar o sujeito em relação ao que ele pensa, no que ele acredita,
defende e quer compartilhar ou expor ao outro como forma de interação.

 Escrever vai muito além da demonstração de habilidades gramaticais.

 Escrever é compartilhar práticas sociais de diversas naturezas.


O resgate da unidade básica de construção do
texto
1. O retorno ao parágrafo dito padrão
“A impunidade no Brasil ainda está vencendo a
competição por um placar elástico, mas a cidadania marcou um
golaço na semana passada. Em São Paulo, um vereador e um
deputado estadual acusados de chefiar uma máfia de fiscais corruptos
na capital tiveram o mandato parlamentar cassado ao cabo de uma CPI
feita pela Câmara dos Vereadores. No Rio Grande do Sul, chega a dez
o número de prefeitos que perderam o mandato por ordem judicial, a
maioria acusada de desviar dinheiro público. Outros oitenta já se
sentaram no banco dos réus. E o Congresso Nacional dava sinais de
que um deputado, Hildebrando Pascoal (PFL-AC), envolvido até o nariz
com denúncias de tráfico de drogas, não vai ficar por muito tempo
ocupando uma vaga no Parlamento. Deve ser cassado também. Esses
casos podem ser tidos como iniciativas isoladas de bom
funcionamento do poder público, e os pessimistas podem
argumentar que se trata de um acidente de percurso. Mas tudo
indica que não. “A política e os políticos deram um salto de
qualidade. Aos poucos, os valores estão mesmo se modificando”,
afirma o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox
Populi.” (VEJA, 07.07.99., p.51)
Texto (2)

 “O conhecimento nasceu como uma


extensão do corpo, para ajudá-lo a viver. O
corpo sentiu dor, e a dor fê-lo usar a
inteligência a fim de encontrar uma receita
para por fim à dor. O corpo sentiu prazer, e o
prazer fê-lo usar a inteligência a fim de
encontrar uma receita para repetir a
experiência de prazer. Esse é o início do
conhecimento. Foi assim que nasceu a
ciência.” (RUBEM ALVES. Folha de S. Paulo, 12.09.99.)
Texto (3)
 “Washington patrocinou dois encontros de
presidentes das Américas, nos anos 90, para discutir
uma ‘estratégia de conjunto’ de combate ao
narcotráfico. O primeiro aconteceu em Cartagena, no litoral
da Colômbia, em 15 de janeiro de 1990, reunindo Estados
Unidos, Bolívia, Peru e Colômbia. O segundo, realizado em
San Antonio, no Texas, em 26 e 27 de fevereiro de 1992,
reuniu Estados Unidos, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador,
México e Venezuela. Foram encontros patéticos, em que
se multiplicaram os discursos moralistas, mas tendo
como pano de fundo, de um lado, a arrogância
americana e, de outro, a miséria latino-americana.” (ARBEX
JR., José. Caros Amigos, setembro de 1999, pp.36-37)
Texto (4)
“O laboratório Schering não está apenas interessado
em produzir medicamentos, mas também em ajudar a
construir uma sociedade melhor e mais saudável. Isso é
fácil de ser percebido quando se levam em conta todas as
ações de conscientização e apoio que a Schering realiza
junto à comunidade. Entre as mais importantes, está o
programa de educação sexual nas escolas, que através de
uma equipe especializada já beneficiou mais de 550 mil
adolescentes nos últimos 5 anos. Esse tipo de trabalho
também é estendido para outras áreas, como por exemplo
o apoio a entidades de planejamento familiar,
esclarecimentos a delegacias de ensino, parcerias com
ONGS e patrocínios de congressos e simpósios médicos.
Na visão da Schering, tudo isso é uma obrigação que
coincide com sua filosofia, aqui no Brasil e em
qualquer lugar do mundo em que ela esteja.” (Informe
publicitário divulgado em VEJA, 27.10.99., p.117)
Texto (5)
 “Comentou-se, no Brasil, um editorial do “Financial Times”, em que
se dizia o governo FHC haver realizado em quatro anos o que Margareth
Thatcher só pudera fazer em 20. Pode-se supor que fosse um elogio. Visto
de perto, porém, o editorial nos obriga a indagar por que foi esse o caso.
A resposta não é difícil. Em primeiro lugar, Thatcher encontrou um Estado de
Bem-Estar solidamente implantado e precisou de 20 anos para destruí-lo; em
contrapartida, FHC encontrou um pequeno número de direitos sociais mal-e-
mal respeitados e que puderam ser desmanchados numa penada. Em segundo
lugar, Thatcher encontrou uma sociedade civil altamente organizada e cuja
oposição teve que ser respeitada por ela durante 20 anos; em compensação,
FHC conseguiu que a mística do real e do franguinho desmoralizasse os
movimentos sociais e montou um discurso de desqualificação de todas as
manifestações de oposição (caipiras, arcaicas, violentas, golpistas). Em terceiro
lugar, Thatcher enfrentou partidos de oposição e precisou de 20 anos para
vencê-los até ser por eles derrotada; em vez disso, FHC sempre teve a maioria
no Congresso, o recurso das medidas provisórias, o apoio das oligarquias
regionais e a paródia de um legislativo que opera com o preceito “é dando que
se recebe”. Sob essa perspectiva, podemos até mesmo considerar
espantoso que, detendo condições privilegiadas de controle social e
político, o governo FHC tenha dado tantos tiros no próprio pé que a
impressão reinante seja a de que não há governo no país.” (CHAUÍ, Marilena.
Folha de S. Paulo, 07.11.99.)
Texto (6)

 “O governador Joaquim Roriz cometeu dois graves erros em relação à


operação policial que resultou na morte de um jardineiro, deixou outros
dois trabalhadores cegos e 36 feridos durante uma manifestação de
funcionários da Novacap, uma empresa pública de Brasília. O primeiro foi a
omissão. Numa situação de tal gravidade, esperava-se que ele assumisse a
responsabilidade como chefe do governo e mandasse apurar os fatos
imediatamente, abrindo um processo de punição dos culpados. O governador
preferiu o silêncio. Agiu como se a morte do jardineiro José Ferreira da Silva e o
ferimento dos outros participantes do protesto tivessem ocorrido no Arizona.
Roriz só se pronunciou sobre o assunto três dias depois, pressionado pela
cobrança da opinião pública. Ao fazê-lo, cometeu o segundo erro. Para se livrar
do problema, chegou a levantar a suspeita de que o tiro de espingarda que
matou o jardineiro poderia ser obra de algum partido político interessado em
prejudicar seu governo. Tentou com isso inverter o problema. Sem afirmá-lo
textualmente, mas deixando perfeitamente claro nas entrelinhas, o governador
lançou a culpa no partido que apóia protestos, o PT de seu antecessor. Dessa
forma, agiu de má fé. A morte de uma pessoa durante uma manifestação
política, sindical ou qualquer que seja sua motivação é um ato criminoso e
é assim que deve ser tratado.” (POLICARPO JÚNIOR. Veja, 15.12.99., p.46)
Texto (7)
 “Tornou-se moda, nestes últimos anos do século, o
perdão, a ponto de se banalizar. Bill Clinton pediu perdão aos
familiares de dezenas de famílias de negros norte-americanos
que foram submetidos a cruéis experimentos médicos, deixados
sem tratamento diante da hepatite, para ver como o organismo
reagiria. Tiveram uma morte horrível, depois de sofrimentos
intermináveis e brutais. Tony Blair pediu perdão aos irlandeses
pela fome provocada naquele país, que matou centenas de
milhares de pessoas. O Papa pediu desculpas aos judeus pela
atitude da igreja católica diante dos planos de extermínio
nazista. Pede-se perdão, demonstra-se um gesto de
generosidade, apaga-se tudo e dorme-se bem. Nenhuma
indenização, nenhuma condenação, nenhuma
compensação. O espetáculo garantido na mídia, volta-se ao
cotidiano injusto, cruel, sem misericórdia com as vítimas.”
(EMIR SADER)
Texto (8)
 “A criatividade não tem limite quando o objetivo é desviar
recursos da educação. Em Nossa Senhora dos Remédios, no Piauí,
cidade com apenas 1600 estudantes, o prefeito Ronaldo Lages iniciou
o ano anunciando a compra de 60 000 cadernos – quase quarenta por
criança. Descobriu-se que a fatura era de uma empresa fantasma. No
mesmo Estado, o prefeito da cidade de Picos comprou 49 000
tabuadas – sete por aluno. “Aqui no estado o negócio é escandaloso”,
diz Robert Magalhães, superintendente da Polícia Federal no Piauí.
Dos 226 municípios piauienses, 186 estão sob suspeita e três prefeitos
perderam o mandato. Em Umirim, no Ceará, uma pessoa tida como
especialista em questões pedagógicas foi contratada para dar cursos
de capacitação a professores. No recibo de pagamento, a tal
especialista deixou a marca de seu polegar. Era analfabeta. No mesmo
Estado, o promotor Erionaldo Cruz pediu intervenção em 22 prefeituras.
“São casos escabrosos”, diz o promotor. Na Bahia, por outro lado, o
Ministério Público investiga 78 cidades. E isso é só o começo.” (VEJA,
03.05.2000., p.52. Adaptação )
Texto (9)
 “O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Marco Aurélio Mello, tem estimulado
barulhos além das fronteiras. Já no dia da posse,
ouviu com a placidez de um espectador sem
compromissos o discurso do presidente da Ordem
dos Advogados do Brasil, Rubens Approbato, repleto
de ataques ao presidente da República, presente à
cerimônia. Depois do Executivo, foi a vez do
Legislativo: o chefe do STF pediu ao Senado que
agisse com rapidez no julgamento das denúncias
contra o presidente Jader Barbalho. Na semana
passada, Mello começou a tratar de outras
instituições nacionais. Reivindicou publicamente que
a Seleção Brasileira voltasse a usar a camisa
amarela. O presidente do Judiciário ainda não
se manifestou sobre o Carnaval.” (Revista Época, 23.07.01.,
p.31)
Texto (10)

 “Dois fatos divulgados pela Folha de S. Paulo desmoralizam


toda a tentativa dos serviçais políticos do governo de inventar
justificativas para a ação ilegal do comitê de campanha do
presidente. Não consta da prestação de contas feita à Justiça Eleitoral,
em nome de Fernando Henrique, a elevada doação feita pela Atlântica
Empreendimentos Imobiliários e da qual a empresária Kati Almeida
Braga tem o recibo comprovador da lisura com que agiu. Logo,
comprovador, também, do desvio ilegal feito pela contabilidade do
comitê a cargo de Luiz Carlos Bresser Pereira. Em prática da mesma
natureza, a prestação de contas ao TSE omitiu a alta doação da também
empresária Nely Jafet, que narra havê-la feito sob a condição de não
figurar na contabilidade oficial das doações. Logo, o comitê transgrediu a
lei ao receber doação não registrada. São dois casos irrefutáveis.
Deles há documentos comprovadores e reconhecimento explícito
de participantes.” (FREITAS, Jânio de. Folha de S. Paulo, 16.11.2000)
Texto (11)
“Mais de cinqüenta anos escrevendo sem parar não podiam dar
em coisa diferente: a prosa de Nelson Rodrigues atinge números
praticamente impossíveis de calcular. Só de contos para a sua coluna
‘A vida como ela é...’, publicada no jornal Última Hora, foram perto de dois
mil; produziu outras cinco mil crônicas para ‘À sombra das chuteiras
imortais’, sua coluna esportiva em O Globo; além de cerca de 1.800
Confissões aparecidas no mesmo O Globo, nas quais se dedicava a
comentar os fatos políticos e culturais de sem tempo. Acrescente-se a isso
suas outras colaborações em, pelo menos, mais uma dezena de
publicações, como os jornais cariocas Correio da Manhã (no qual
escreveu, de fevereiro a maio de 1967, oitenta ‘memórias’, suas
reminiscências ‘do passado, do presente, do futuro e alucinações’) e
Jornal dos Sports, os paulistanos Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo,
além de semanários e revistas, como as famosas O Cruzeiro e Manchete,
sem contar seus oitos folhetins e seu único romance feito diretamente para
ser editado em livro, O casamento. Aí já se tem uma idéia aproximada
do que Nelson produziu em termos de prosa.” (GUEDES, Aleixo S. Revista Cult,
dezembro/2000, p.52)
Texto (12)
 O ministro da Educação, Tarso Genro, passa hoje e amanhã
no Rio, deflagrando uma maratona de debates não apenas
sobre a reforma universitária, mas também sobre as novas
metas do MEC, com vistas a uma reforma mais ampla da
política educacional. Estão agora resumidas a quatro. Para
implantação em médio prazo, a reforma universitária, precedida do
necessário debate e participação dos setores pertinentes; e, para
implantação mais imediata, outras três mudanças: a criação do
Fundab, com vistas ao financiamento e fortalecimento de todo o
ensino básico, em substituição ao Fundef, que já garantiu avanços
no ensino fundamental; o programa Universidade para Todos, que
já no segundo semestre deste ano poderá abrir as “vagas públicas”
em faculdades particulares para alunos de baixa renda; e, agora,
reunidos numa mesma secretaria do MEC, os programas de
combate ao analfabetismo e inclusão, via adoção da política de
cotas. São metas ousadas. Espera-se que saltem do papel para
a prática. (CRUVINEL, Tereza. A crítica. 4.03.2004, p. A-2 Adaptação)
Texto (13)

 “O Universo parece conspirar contra o secretário de


Segurança Pública, Júlio Pinheiro. Desde que retornou ao
cargo, de onde esteve afastado por questões de saúde, o crime
tem assustado a cidade. Primeiro foi o assassinato da menina
Dayanne, de apenas 10 anos, mês passado, que até hoje não se
sabe quem é o assassino. Depois foi a vez da agente de viagem
Léia, grávida de dois meses, ser morta a tiros em assalto à agência
em que trabalhava. Em seguida foi a morte da menina Francimara,
de apenas 6 anos, que também ninguém sabe quem matou e
violentou. Na seqüência foi a morte do pedreiro Adriano, o
“Quarentinha”, que a família acusa ter sido morto dentro de uma
viatura da Polícia Civil. Depois, ainda, foram as mortes de dois
suspeitos de assalto durante a colisão do carro em que eles
estavam, com um ônibus, durante perseguição policial. Detalhe:
nunca se soube onde seria o assalto que a polícia afirma que eles
fariam. Agora foi o assalto a uma joalheria, em pleno centro da
cidade, estimado em R$ 1 milhão. Isso é que é um agosto
precoce”. (Diário do Amazonas, Manaus, 6.08.2004, p.6. Adaptação)
Texto (14)

 “Castelo Branco vacilara, mas no fim de seu mandato


construíra-se uma tentativa de constitucionalização do
regime. Apesar da anarquia e da indisciplina que o
atazanaram, seu governo foi o que mais contribuiu para a
profissionalização das Forças Armadas brasileiras em toda
a história do país. Acabou com a patente de marechal. Com
mais de cem, o Brasil tinha mais militares com essa patente do
que os exércitos da França e da Inglaterra, ao longo de todas as
guerras do século. Conteve também o sistema de promoções
cumulativas que levava um coronel como Golbery a passar para
a reserva como general-de-divisão, promovido à segunda estrela
pelo simples fato de ter saído da ativa e à terceira por ter
participado da FEB. Finalmente, mudou a estrutura da cúpula
militar brasileira, alterando-lhe o sistema de cálculo para a
aposentadoria compulsória. Essa foi sua maior obra.
Modificou para sempre a essência e a amplitude da
participação dos militares na política”. (Elio Gaspari. A ditadura envergonhada. São
Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 138)
Texto (15)
 É extremamente preocupante a péssima qualidade das provas
aplicadas pela Fundação Cesgranrio aos candidatos que participaram
do concurso da SEDUC. Tome-se como exemplo específico aquelas
destinadas a selecionar professores de Língua Portuguesa para o
ensino fundamental e médio. Em lugar de se priorizar o desempenho dos
candidatos no uso da variedade padrão da língua, optou-se pela surrada
cobrança de ridículas questiúnculas gramaticais, como a classificação de
orações subordinadas substantivas e adjetivas. Em lugar de se dar
relevância a reflexões que dizem respeito à complexidade da prática
pedagógica, evidenciou-se simplesmente a cobrança da transcrição de
trechos da LDB. Em lugar de se problematizar o extraordinário avanço dos
PCN no que diz respeito à necessidade de formação lingüística do professor,
limitou-se o tema a uma pueril questão de decoreba. Em lugar de se explorar
o nível de letramento dos candidatos, no que tange à prática social da leitura
e da escrita, reduziu-se a primeira à literalidade e a segunda a um exercício
sem a menor importância, uma vez que não foi exigido sequer a produção de
um parágrafo, para aferir o uso das operações intelectuais que envolvem o
desafio de se construir um texto. Isso tudo sem contar com a defasada
indicação bibliográfica que deixou de fora o que há de mais recente no
campo das pesquisas lingüísticas voltadas para uma moderna metodologia
do ensino da língua. Falou alto, mais uma vez, o espírito colonizado de
que aquilo que vem de fora é melhor. (Odenildo Sena. A crítica. 13.11.2003. Seção
Cartas)
Texto (16)
 Em 1986, o cineasta canadense Denys Arcand lançou o
que parecia ser uma provocação. Em O declínio do império
americano, ele mostrava dois grupos, de quatro homens e quatro
mulheres, que trocavam histórias sexuais, e reflexões sobre elas,
enquanto se preparavam para se reunir num jantar numa bela casa,
à beira de um belo lago, nas proximidades de Montreal. Todos eram
intelectuais e amigos de longa data, mas com visões diversas sobre
amor, continuidade, fidelidade, família e, naturalmente, sexo. Cada
um deles, porém, ilustrava um aspecto da proposição provocativa
de Arcand: quando um império atinge seu auge e o declínio então
se anuncia, seus integrantes se entregam com afinco redobrado à
busca do prazer pessoal. O bem comum deixa de ser uma
prioridade, o egoísmo aumenta, a taxa de natalidade diminui, o
hedonismo se torna a filosofia dominante. É viver como se não
houvesse amanhã. Assim, ainda que se acreditassem agentes de
seu tempo, os amigos, com sua busca pela beleza e pela
gratificação, eram um legítimo produto dele. Agora, no belíssimo
As invasões bárbaras (Les invasions barbares,
Canadá/França, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país,
Arcand retoma seus personagens – interpretados pelos
mesmos atores de dezessete anos atrás – e o paralelo entre
as circunstâncias pessoais e histórias, mas com
profundidade também redobrada. (Isabela Boscov. Revista Veja, 29.10.2003, p.
128. Adaptação)
Texto (17)
 A diferença entre alfabetização e letramento fica clara
também na área das pesquisas em Educação, em
História, em Sociologia, em Antropologia. As pesquisas
que se voltam para o estudo do número de alfabetizados e
analfabetos e sua distribuição (por região, por sexo, por idade,
por época, por etnia, por nível sócio-econômico, entre outras
variáveis), ou que se voltam para o número de crianças que a
escola consegue levar à aprendizagem da leitura e da escrita,
na série inicial, são pesquisas sobre alfabetização; as
pesquisas que buscam identificar os usos e práticas sociais de
leitura e escrita em determinado grupo social (por exemplo, em
comunidades de nível socioeconômico desfavorecido, ou entre
crianças, ou entre adolescentes), ou buscam recuperar, com
base em documentos e outras fontes, as práticas de leitura e
escrita no passado (em diferentes épocas, em diferentes
regiões, em diferentes grupos sociais) são pesquisas sobre
letramento. Isso aponta a importância e necessidade de
se partir, nos processos educativos de ensino e
aprendizagem da leitura e da escrita voltados seja para
crianças, seja para adultos, de uma clara concepção
desses fenômenos e de suas diferenças e relações. (Magda
Soares. Letramento – um tema em três gêneros. Belo Horizonte (MG): Autêntica, 2003, p. 23.
Adaptação)
Texto (18)
 A TV Câmara mostrou por mais de dez horas, na
terça-feira última, cenas de cinismo explícitas que
devem ter deixado muitos brasileiros estarrecidos e
politicamente descrentes. De um lado, a escancarada
convicção de parlamentares do Partido dos Trabalhadores
defendendo a reforma da previdência com os mesmos e
surrados chavões do PSDB e do PFL: “Sem a reforma o país
vai quebrar”; “A reforma vai permitir investimentos na área
social”; “A reforma dará garantia aos futuros servidores
aposentados”; “A reforma visa à busca de justiça social”;
“O governo não abre mão da taxação dos inativos” etc. De
outro lado, a espantosa convicção de parlamentares do
PSDB e do PFL posicionando-se contra a reforma com os
mesmos e surrados chavões do Partido dos Trabalhadores:
“O servidor público não é culpado pela má administração
da previdência”; “O servidor público merece o nosso
respeito”; “Taxar os inativos é injusto e perverso”; “Sempre
estivemos e sempre estaremos ao lado dos trabalhadores”;
“Isso não é reforma, é um arremedo” etc. Por essas e
outras, os autênticos petistas, pessedebistas e
pefelistas têm motivos de sobra para estarem
envergonhados. (O. S. A crítica. Seção Cartas. 7.08.2003)
Texto (19)
 São múltiplas as teorias sobre idade
feminina. Citarei algumas: 1) As mulheres
têm a idade que parecem ter. 2) Há tantas
idades na mulher quantos os vestidos que ela
põe ou despe. 3) Idade e maquilagem são uma
coisa só. 4) Mulher está sempre começando a
contar de novo a mesma idade. 5) O tempo
não existe, e a prova é dada pelas mulheres.
6) Mulher nenhuma tem idade alguma. Etc. Eu
envelheceria ainda mais, se fosse anotar
aqui todos os conceitos alusivos a essa
matéria. Enquanto isso, as mulheres
ficariam cada vez mais jovens. (Carlos Drummond de
Andrade. Boca de Luar. R. de Janeiro: Record, 1984. Adaptação)
Texto (20)
 Nunca foram poupados esforços para evitar
a vitória de Lula. Lembra da Miriam Cordeiro? Ex-
mulher de Lula, ela foi um dos principais cabos
eleitorais de Fernando Collor de Mello quando
apareceu na TV dizendo que o candidato do PT teria
oferecido dinheiro para que fizesse um aborto. Isso
às vésperas do segundo turno da eleição de 1989.
Mas esse não foi um fato isolado. Na mesma época,
os seqüestradores do empresário Abílio Diniz
apareceram presos vestindo camisas do PT. Alguns
jornais não titubearam e estamparam a manchete:
‘PT seqüestra Abílio Diniz’. Depois, provou-se que
haviam vestido os criminosos dessa forma para
prejudicar Lula. Alguém foi punido? Mas esses
esforços não pararam por aí. Em 1994, a hoje mais
tranqüila Igreja Universal trabalhava fortemente
contra o petista. Como já havia feito em 1989, por
sinal, quando Edir Macedo disse que Lula era o
candidato do demônio e perseguiria os evangélicos
se eleito. Pelo jeito, nessas eleições não vai ser
diferente. (Revista Fórum, n. 6, 2002, p. 4. Adaptação)
Texto (21)
 Aos 22 anos, o Partido dos Trabalhadores,
reconhecido até pelos antagonistas como a agremiação
política mais orgânica de que o país dispõe, submeteu-
se a duas provas eleitorais – e Lula ao protagonismo
das mais emocionantes. Em 1982, saído das greves do
ABCD paulista, o sindicalista debutou melancolicamente na
disputa ao governo do Estado. Chegou em quarto lugar. Já em
1986, foi o deputado constituinte mais votado. Em 1989,
perdeu a Presidência para Fernando Collor num tumultuado
segundo turno. Em 1994, foi engolido por uma equação
imbatível, moldada por Fernando Henrique Cardoso: o Brasil
preferiu o candidato de perfil progressista, apoiado por
conservadores. Quatro anos depois, deu FHC outra vez. O país
estava quebrado, mas a Casa Branca de Bill Clinton trabalhou
nos bastidores de Washingnton pela concessão de um
empréstimo monstro de US$ 40 bilhões. O Brasil só soube do
rombo após a contagem dos votos. Agora, a duas semanas
do primeiro turno, Lula visita o patamar dos 44% das
intenções de voto, com chances reais de vencer,
inclusive no primeiro turno. (Revista Época, n. 226, 16.9.2002, pp.19-
20. Adaptação)
2. O processo de construção do parágrafo
Exemplo 1

 Tema: A corrupção
 Proposta de delimitação: 1) A corrupção no
Brasil 2) A corrupção na cidade de São Paulo
3) Os casos de corrupção envolvendo o ex-
prefeito Celso Pitta
 Estabelecimento do objetivo: Identificar e
comentar os casos mais graves de corrupção
envolvendo o ex-prefeito Celso Pitta.
Frase-núcleo:

 Muitos são os casos de corrupção envolvendo o ex-


prefeito de São Celso Pitta, mas alguns se revestem
de maior gravidade.

 Plano de desenvolvimento:

 Casos mais graves de corrupção envolvendo o ex-prefeito:


 (a) 1996 – emissão de 3,2 bilhões em títulos;
 (b) 1997 – o caso conhecido como frangogate;
 (c) 1999 – descumprimento da Lei Orgânica do Município.
Desenvolvimento:

 Em 1996, por exemplo, a emissão de R$ 3,2 bilhões em títulos


para pagar dívidas de R$ 1,9 bilhão, com desvio da diferença
para outros fins, representa uma situação limite, uma vez que fere
frontalmente o que determina a Constituição. Já em 1997, o caso
que ficou conhecido como frangogate, em que a prefeitura de S.
Paulo comprava frangos de uma empresa pertencente à mulher
do ex-prefeito Paulo Maluf, diz muito bem da falta de lisura e do
favorecimento envolvendo recursos públicos. Não fica para trás,
por sua vez, a descoberta feita em 1999 de que a prefeitura
descumpria sistematicamente a Lei Orgânica do Município, que
estipula em 30% o percentual a ser aplicado em educação, fato
que gerou prejuízos irreversíveis, principalmente para a
população mais carente.
Frase conclusiva:

 Os casos aqui arrolados, entretanto,


representam apenas a ponta de um iceberg
que esconde o verdadeiro perfil de alguns
homens que administram a coisa pública
em nosso país.
O parágrafo na sua forma integral

 Muitos são os casos de corrupção envolvendo o ex-


prefeito de São Paulo Celso Pitta, mas alguns se revestem de
maior gravidade. Em 1996, por exemplo, a emissão de R$ 3,2
bilhões em títulos para pagar dívidas de R$ 1,9 bilhão, com
desvio da diferença para outros fins, representa uma situação
limite, uma vez que fere frontalmente o que determina a
Constituição. Já em 1997, o caso que ficou conhecido como
frangogate, em que a prefeitura de S. Paulo comprava frangos de
uma empresa pertencente à mulher do ex-prefeito Paulo Maluf,
diz muito bem da falta de lisura e do favorecimento envolvendo
recursos públicos. Não fica para trás, por sua vez, a descoberta
feita em 1999 de que a prefeitura descumpria sistematicamente a
Lei Orgânica do Município, que estipula em 30% o percentual a
ser aplicado em educação, fato que gerou prejuízos irreversíveis,
principalmente para a população mais carente. Os casos aqui
arrolados, entretanto, representam apenas a ponta de um
iceberg que esconde o verdadeiro perfil de alguns homens
que administram a coisa pública em nosso país.
O processo de construção do parágrafo
Exemplo 2
 Tema: O governo

 Proposta de delimitação: 1) O governo brasileiro 2)


O governo de FHC 3) Os escândalos do governo
FHC 4) A compra de votos e o grampo no BNDES

 Estabelecimento do objetivo: Evidenciar a


indiferença do presidente diante da gravidade dos
escândalos da compra de votos e do grampo no
BNDES ocorridos no seu governo.
Frase-núcleo:

 Em meio a tantos outros, os escândalos da compra


de votos e do grampo no BNDES revelam a indiferença do
presidente da República face à gravidade das denúncias
que pesam contra ele.

 Plano de desenvolvimento das idéias:

 Os escândalos:
 (a) a compra de votos para a reeleição;
 (b) o grampo no BNDES.
Desenvolvimento:

 Para quem não se lembra, dias antes da votação da emenda


constitucional que iria permitir a possibilidade de reeleição do
presidente, a imprensa divulgou gravações telefônicas que
comprometiam políticos da base governista envolvidos com a
oferta da compra de votos para que o referido projeto fosse
aprovado. O preço chegava a duzentos mil reais e envolvia
figuras de peso, como o falecido ministro Sérgio Mota. Mais
recentemente, o episódio que ficou conhecido como “o grampo no
BNDES” trouxe à tona conversas telefônicas que evidenciavam
articulações de Fernando Henrique Cardoso com o presidente
daquela instituição com vistas a interferir no leilão de privatização
de uma parte da Telebrás. Um dos trechos das gravações
mostrava o presidente autorizando o uso de seu nome para
mudar os rumos da venda da estatal.
Frase conclusiva:

 Apesar de ambos os casos envolverem


funcionários públicos de sua estrita confiança e
a sua própria pessoa, todos os
pronunciamentos do presidente da República
acerca das denúncias foram no sentido de
desqualificá-las, tratando-as como episódios
corriqueiros e sem a menor importância.
O parágrafo na sua forma integral:


Em meio a tantos outros, os escândalos da compra de votos e do
grampo no BNDES revelam a indiferença do presidente da República
face à gravidade das denúncias que pesam contra ele. Para quem não se
lembra, dias antes da votação da emenda constitucional que iria permitir a
possibilidade de reeleição do presidente, a imprensa divulgou gravações
telefônicas que comprometiam políticos da base governista envolvidos com a
oferta da compra de votos para que o referido projeto fosse aprovado. O
preço chegava a duzentos mil reais e envolvia figuras de peso, como o
falecido ministro Sérgio Mota. Mais recentemente, o episódio que ficou
conhecido como “o grampo no BNDES” trouxe à tona conversas telefônicas
que evidenciavam articulações de Fernando Henrique Cardoso com o
presidente daquela instituição com vistas a interferir no leilão de privatização
de uma parte da Telebrás. Um dos trechos das gravações mostrava o
presidente autorizando o uso de seu nome para mudar os rumos da venda
da estatal. Apesar de ambos os casos envolverem funcionários públicos
de sua estrita confiança e a sua própria pessoa, todos os
pronunciamentos do presidente da República acerca das denúncias
foram no sentido de desqualificá-las, tratando-as como episódios
corriqueiros e sem a menor importância.
O processo de construção do parágrafo
Exemplo 3

 Tema: A linguagem

 Proposta de delimitação: A linguagem do corpo

 Estabelecimento do objetivo: Demonstrar que a


linguagem do corpo é sensual, engraçada e sensível.
Frase-núcleo:

 Ela pode ser sensual, engraçada e sensível.


Calma...não é a mulher ideal, é a linguagem do
corpo.

Plano de desenvolvimento das idéias:


A linguagem do corpo é:
(a) sensual;
(b) engraçada;
(c) sensível.
Desenvolvimento:

 É sensual quando em um encontro, por exemplo,


um casal utiliza olhares intensos, gestos
calculados e expressões corporais atrevidas para
expressar suas emoções. É engraçada quando um
humorista, para dar o correto tom de sua piada, faz
caretas, imitações e até mímicas com o intuito de
fazer o espectador rir. É, finalmente, sensível
quando um ator, ao final do espetáculo, curva-se
diante do público para agradecer os aplausos, que
também identificam a sensibilidade do público para
afirmar que está satisfeito com a apresentação.
Frase conclusiva:

Tais exemplos de linguagem corporal nos


levam à conclusão de que as palavras são
dispensáveis quando o corpo consegue
supri-las.
O parágrafo na sua forma integral:
 Ela pode ser sensual, engraçada e sensível.
Calma... não é a mulher ideal, é a linguagem do
corpo. É sensual quando em um encontro, por
exemplo, um casal utiliza olhares intensos, gestos
calculados e expressões corporais atrevidas para
expressar suas emoções. É engraçada quando um
humorista, para dar o correto tom de sua piada, faz
caretas, imitações e até mímicas com o intuito de fazer
o espectador rir. É, finalmente, sensível quando um
ator, ao final do espetáculo, curva-se diante do público
para agradecer os aplausos, que também identificam a
sensibilidade do público para afirmar que está satisfeito
com a apresentação. Tais exemplos de linguagem
corporal nos levam à conclusão de que as palavras
são dispensáveis quando o corpo consegue supri-
las. (Lisieux Ribeiro Lima. Curso de Letras/UFAM)
3. A prática da unidade, da coesão e da
coerência no parágrafo

 “A correção gramatical é, sem dúvida, uma das mais


importantes qualidades do estilo. Mas nem sempre a mais
importante: uma composição pode estar absolutamente
correta do ponto de vista gramatical e revelar-se
absolutamente inaproveitável. (...) É verdade que erros
grosseiros podem invalidar outras qualidades do estilo. Mas a
experiência nos ensina que os defeitos mais graves nas
redações de alunos do curso fundamental – e até superior –
decorrem menos dos deslizes gramaticais que das falhas de
estruturação da frase, da incoerência das idéias, da falta de
unidade, da ausência de realce. Quando o estudante aprende
a concatenar idéias, a estabelecer suas relações de
dependência, expondo seu pensamento de modo claro,
coerente e objetivo, a forma gramatical vem com um mínimo
de erros que não chegam a invalidar a redação. Esse mínimo
de erros se consegue evitar com um mínimo de ‘regrinhas’
gramaticais.” (Othon M. Garcia. Comunicação em prosa moderna. R. de Janeiro: FGV, 1988,
p.253)
3.1 Uma qualidade chamada unidade

(Texto 1)

 A família é a célula onde se forma o grande


corpo chamado sociedade, sendo assim a unidade
básica para a formação de pessoas que possam
relacionar-se harmonicamente entre si. O mais
importante – a desestruturação de várias famílias
tem provocado uma quebra nas relações entre os
indivíduos, devido a má formação da personalidade
e do caráter do ser humano. A luta pela
sobrevivência das famílias não está fácil hoje em
dia. (Texto de aluno)
(Texto 2)

 Os brasileiros sentem-se cercados por autoridades corruptas


prontas a delinqüir em troca de uma propina. O motorista encosta o
carro no posto de gasolina e se pergunta: isso aí é gasolina pura ou é
batizada com solvente? Afinal, onde está o fiscal que permite a venda
de um combustível que destrói o motor do carro? O morador do prédio
assaltado por uma quadrilha equipada com comunicadores de rádio e
armas de mira infravermelha descobre pelos jornais que a grande
tecnologia dos ladrões era outra. Na verdade, o sucesso da gangue se
devia ao suborno do delegado do bairro para que a polícia nada fizesse
enquanto eles limpavam os apartamentos. As mães de uma
maternidade pública carioca e os pacientes renais de um laboratório de
diálise em São Paulo descobrem que a alta taxa de mortalidade das
clínicas que os acolheram se devia ao uso de material de baixa
qualidade comprado como se fosse de primeira para os chefes
embolsarem a diferença. As situações descritas acima não são
exemplos fictícios. São fatos tirados de notícias de jornal nas
últimas semanas. (Veja, 12.04.2000, p.43-44)
(Texto 3)

 Na vida do País, não foram poucos os vices que


governaram, quase sempre em momentos dramáticos da
nossa história.
 O vice-presidente Delfim Moreira assumiu no lugar do falecido
Rodrigues Alves, que não conseguiu empossar-se para um
segundo mandato.
 Café Filho chegou ao poder com o suicídio de Getúlio, mas a
seguir foi deposto. Aliou-se aos inimigos de Vargas e passava o
tempo tramando contra o notável líder gaúcho.
 João Goulart sentou-se na cadeira presidencial após a renúncia
de Jânio Quadros, em meio a uma crise que levou ao
parlamentarismo, depois revogado em plebiscito.
 Muito mais tarde, Tancredo Neves seria substituído por José
Sarney, em situação semelhante.
 Em tempos mais recentes, Itamar sucedeu a Collor e todos
ainda recordam em que circunstâncias.
 Isso tudo, apesar de, no Brasil, ninguém votar em vice.
Elege-se o titular. (FIGUEIREDO, Paulo. A crítica, 19.06.2003, p. a-4. Adaptação)
(Texto 3.1)

 Na vida do País, não foram poucos os vices que


governaram, quase sempre em momentos dramáticos da
nossa história. O vice-presidente Delfim Moreira assumiu
no lugar do falecido Rodrigues Alves, que não conseguiu
empossar-se para um segundo mandato. Café Filho chegou
ao poder com o suicídio de Getúlio, mas a seguir foi deposto.
Aliou-se aos inimigos de Vargas e passava o tempo
tramando contra o notável líder gaúcho. João Goulart
sentou-se na cadeira presidencial após a renúncia de Jânio
Quadros, em meio a uma crise que levou ao
parlamentarismo, depois revogado em plebiscito. Muito mais
tarde, Tancredo Neves seria substituído por José Sarney, em
situação semelhante. Em tempos mais recentes, Itamar
sucedeu a Collor e todos ainda recordam em que
circunstâncias. Isso tudo, apesar de, no Brasil, ninguém
votar em vice. Elege-se o titular. (FIGUEIREDO, Paulo. A crítica,
19.06.2003, p. a-4. Adaptação)
(Texto 4)

 Subjacentes a essas definições (de letramento) estão as duas


principais dimensões do letramento: a dimensão individual e a
dimensão social.
 Quando o foco é posto na dimensão individual, o letramento é visto
como um atributo pessoal, parecendo referir-se, como afirma Wagner
(1983, p. 5) à “simples posse individual das tecnologias mentais
complementares de ler e escrever”.
 Quando o foco se desloca para a dimensão social, o letramento é
visto como um fenômeno cultural, um conjunto de atividades sociais
que envolvem a língua escrita, e de exigências sociais de uso da
língua escrita.
 Na maioria das definições atuais de letramento, uma ou outra
dessas duas dimensões é priorizada: põe-se ênfase ou nas
habilidades individuais de ler e escrever, ou nos usos, funções e
propósitos da língua escrita no contexto social. (SOARES, Magda.
Letramento – um tema em três gêneros. Belo Horizonte (MG): Autêntica, 2003, p.66)
(Texto 4.1)

 Subjacentes a essas definições (de letramento) estão


as duas principais dimensões do letramento: a dimensão
individual e a dimensão social. Quando o foco é posto na
dimensão individual, o letramento é visto como um atributo
pessoal, parecendo referir-se, como afirma Wagner (1983, p.
5) à “simples posse individual das tecnologias mentais
complementares de ler e escrever”. Quando o foco se desloca
para a dimensão social, o letramento é visto como um
fenômeno cultural, um conjunto de atividades sociais que
envolvem a língua escrita, e de exigências sociais de uso da
língua escrita. Na maioria das definições atuais de
letramento, uma ou outra dessas duas dimensões é
priorizada: põe-se ênfase ou nas habilidades individuais
de ler e escrever, ou nos usos, funções e propósitos da
língua escrita no contexto social. (SOARES, Magda. Letramento – um tema em três
gêneros. Belo Horizonte (MG): Autêntica, 2003, p.66)
Algumas características da UNIDADE

 Consiste em dizer uma coisa de cada vez,


deixando-se de lado o que nada tem a ver
com a idéia predominante no parágrafo;

 Consiste em manter-se fiel ao objetivo


representado no parágrafo pela frase-núcleo;

 Consiste em evitar digressões impertinentes


e manter objetividade nas relações entre a
idéia principal e as secundárias.
3.2 Uma qualidade chamada coerência
(Texto 1)

 Um dos mais belos e importantes


patrimônios históricos de Manaus é o Teatro
Amazonas. Na época áurea da extração da
borracha, a fartura imperava de tal modo que,
segundo contam os historiadores, chegava-se
à extravagância de se acender charutos com
o papel moeda que circulava na época.
Manaus era conhecida como a Paris dos
Trópicos. (texto de aluno)
(Texto 2)

Conhecer os lugares históricos de Manaus remete-nos a


uma longa retrospectiva cultural. Seus prédios, de
arquitetura colonial e, às vezes, com elementos da ‘art
nouveau’, refletem o gosto dos antigos barões pelos valores
estéticos da Europa do século XIX. O Palácio Rio Negro, por
exemplo, provoca-nos instantaneamente, como se o passado
fosse algo vivo em suas estruturas, uma volta imaginária ao
cotidiano dos políticos, intelectuais e militares que
administravam a ‘Paris dos trópicos’ na época áurea da
borracha. Já o Teatro Amazonas, por sua visão suntuosa,
remete-nos à lembrança do tempo em que as peças teatrais
retratavam o glamour, o requinte e o poder econômico da
burguesia manauara da segunda metade do século XIX. Para
se viver um pouco dessa viagem, basta um giro pelo
centro velho da cidade. (Marcos Gomes Silva. Aluno do Curso de Letras/UFAM)
(Texto 3)

 Carlito Mers (PT) é um dos mais antigos


representantes do PT na Comissão Mista de
Orçamento. Esta semana, pediu afastamento. Está
revoltado com as concessões que seu partido anda
fazendo aos senadores para garantir a aprovação das
reformas. Primeiro o PMDB exigiu a relatoria mais
importante, de Infra-estrutura, que reúne Transportes,
Minas e Energia e Comunicações. Pela regra, caberia ao
maior partido, o PT. Depois, o governo concordou com a
apresentação individual de emendas pelos senadores. E,
por fim, entregou a relatoria de Saúde ao senador petebista
Fernando Bezerra (RN), empresário pouco afinado com os
problemas da saúde pública. Diz Carlito: “Sair foi a
melhor colaboração que pude dar”. (CRUVINEL, Tereza. A crítica.
19.11.2003, p.a2)
(Texto 4)

 A TV Câmara mostrou por mais de dez horas, na terça-feira


última, cenas de cinismo explícitas que devem ter deixado muitos
brasileiros estarrecidos e politicamente descrentes. De um lado, a
escancarada convicção de parlamentares do Partido dos Trabalhadores
defendendo a reforma da previdência com os mesmos e surrados
chavões do PSDB e do PFL: “Sem a reforma o país vai quebrar”; “A
reforma vai permitir investimentos na área social”; “A reforma dará
garantia aos futuros servidores aposentados”; “A reforma visa à busca de
justiça social”; “O governo não abre mão da taxação dos inativos” etc. De
outro lado, a espantosa convicção de parlamentares do PSDB e do PFL
posicionando-se contra a reforma com os mesmos e surrados chavões do
Partido dos Trabalhadores: “O servidor público não é culpado pela má
administração da previdência”; “O servidor público merece o nosso
respeito”; “Taxar os inativos é injusto e perverso”; “Sempre estivemos e
sempre estaremos ao lado dos trabalhadores”; “Isso não é reforma, é um
arremedo” etc. Os autênticos petistas, pessedebistas e pefelistas têm
motivos de sobra para estarem envergonhados.
Algumas características da COERÊNCIA

 “Resulta da configuração que assumem os conceitos e relações


subjacentes à superfície textual. (...) É responsável pelo sentido
do texto.” (Maria da Graça C. Val. Redação e textualidade. S. Paulo: Martins Fontes, 1999, p.5)
 Representa a articulação do nexo entre os conceitos;

 Consiste na interligação das idéias de maneira clara e lógica;

 Depende de uma ordem adequada ao desenvolvimento;

 É auxiliada pelo emprego de expressões de transição;

 Depende da relação entre a idéia predominante e as


secundárias;

 Sem coerência pode-se comprometer a unidade do parágrafo;

 Ordem e transição são características fundamentais para se


manter coerência.
3.3 Uma qualidade chamada coesão
(Texto 1)

 Tivemos de ampliar as instalações do prédio. Fomos obrigados a


admitir novos professores. A Lei de Diretrizes e Bases tornou
possível a reorganização dos currículos. O colégio passou por
transformações radicais. Todas as atividades prosseguiram
normalmente.* (Adaptado de Othon Garcia, 1988, p.278)

 Para atender ao crescente número de pedidos de matrícula, tivemos de


ampliar as instalações do prédio. Também, pela mesma razão, fomos
obrigados a admitir novos professores. Por outro lado, a Lei de
Diretrizes e Bases tornou possível a reorganização dos currículos. Em
virtude desses fatores, o colégio passou por transformações radicais.
Não obstante, todas as atividades prosseguiram normalmente.
(Texto 2)

 Você quer aprender a elaborar um parágrafo padrão? Se


sua resposta for sim, primeiro escolha um tema sobre
qualquer assunto; depois, delimite esse tema, isto é, vá
desdobrando-o em partes menores até chegar naquela que você
domina, conhece profundamente. Então, estabeleça um
objetivo. Nele deve estar inserido o motivo que o levou a redigir
o parágrafo. Agora, sim, elabore uma frase bem interessante
sobre o assunto delimitado, daquelas frases misteriosas que
estimulam a curiosidade e a sensibilidade das pessoas. Em
seguida, explique claramente os seus pontos de vista e os seus
conhecimentos, sempre orientado pelo objetivo. Finalmente,
conclua o seu parágrafo traçando uma opinião sucinta que
lembre ao leitor o seu tema e o seu objetivo. Dessa forma, é
praticamente impossível não chegar à elaboração de um
parágrafo que possa ser tomado como padrão. (Elen Mara dos
Santos. Aluna do Curso de Letras/UFAM)
(Texto 3)

 Num plano de análise mais imediato, o governo Lula


receberá uma herança do governo FHC com elevado potencial
desestabilizador. Um Estado abalado pelo crescimento monumental
de suas dívidas interna e externa; um orçamento que no primeiro
ano deixará o Executivo praticamente manietado; o aprisionamento
do governo brasileiro pelo FMI; o aprofundamento da dependência
da economia e do Estado brasileiro em relação ao ingresso de
poupança externa; o problema da balança de pagamentos que tem
favorecido ações especulativas contra o câmbio; a liquidação de um
rico patrimônio público efetuada pelas privatizações; uma taxa de
desemprego elevada; um possível retorno da inflação, que, sem o
estabelecimento da indexação de preços e salários, poderá
despertar conflitos distributivos de grande intensidade; e, enfim, a
permanência de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de
pobreza. Considerando essas dificuldades, qual seria a
probabilidade de uma crise de governabilidade no governo
Lula? (YAMAUTI, Nilson Nobuaki. Caros Amigos, ano VI, n. 71, p.40)
(Texto 4)

 O ministro da Educação, Tarso Genro, passa hoje e


amanhã no Rio, deflagrando uma maratona de debates não
apenas sobre a reforma universitária, mas também sobre as
novas metas do MEC, com vistas a uma reforma mais ampla
da política educacional. Estão agora resumidas a quatro. Para
implantação em médio prazo, a reforma universitária, precedida do
necessário debate e participação dos setores pertinentes; e, para
implantação mais imediata, outras três mudanças: a criação do
Fundab, com vistas ao financiamento e fortalecimento de todo o
ensino básico, em substituição ao Fundef, que já garantiu avanços
no ensino fundamental; o programa Universidade para Todos, que
já no segundo semestre deste ano poderá abrir as “vagas
públicas” em faculdades particulares para alunos de baixa renda;
e, agora, reunidos numa mesma secretaria do MEC, os programas
de combate ao analfabetismo e inclusão, via adoção da política de
cotas. São metas ousadas. Espera-se que saltem do papel
para a realidade. (CRUVINEL, Tereza. A crítica. 4.03.2004, p. A-2 Adaptação)
Algumas características da COESÃO

 É a manifestação lingüística da coerência;

 Trata-se da maneira como os conceitos e


relações subjacentes são expressos na superfície
textual;

 É expressa através de mecanismos gramaticais


(expressões de transição) e lexicais (palavras de
referência);

 O nexo nem sempre precisa estar explícito na


superfície do texto por um mecanismo de coesão.
4. A prática argumentativa, dissertativa e
descritiva no parágrafo-padrão
4.1 A prática argumentativa
(Texto 1)

 “Qualquer cidadão manauense de boa memória é capaz de encontrar


profundas diferenças entre a crise energética vivida pelo país e a que
assolou Manaus em 1997. A primeira delas diz respeito aos alertas feitos à
população. Na crise atual, o presidente da República fez um pronunciamento em
rede nacional para comunicar o começo do plano de racionamento, já em 97 a
população de Manaus só recebeu um comunicado oficial quando o
racionamento já era realidade há meses. A segunda diz respeito à cobertura
feita pelos meios de comunicação. A crise anunciada por FHC é considerada um
verdadeiro escândalo e é manchete de todas as formas. Por outro lado, a de 97
passou em branco, afinal, quase nada foi publicado sobre a falta de luz na
época. A terceira, e mais grave, diz respeito aos cortes. As populações afetadas
atualmente só terão suas luzes apagadas se ultrapassarem o limite imposto pelo
governo, já a população manauense sofria cortes de pelo menos quatro horas
diárias no fornecimento. Todas as diferenças aqui listadas demonstram que
a crise vivida por Manaus em 97 foi muito mais escandalosa do que a que
o Brasil vive hoje, só que, afora os manauenses, ninguém mais ficou
sabendo.” (Rodrigo Peixoto de Abreu. Aluno do Curso de Letras/UFAM)
Argumentação
(Texto 2)

 “O poder das novelas globais é tão grande, que chega a


mudar e moldar o comportamento de muitos
telespectadores. Certa manhã, na hora do café, minha irmã mais
nova de doze anos desceu as escadas com uma roupa estranha
e de cor preta, com brincos aqui e ali, batom preto nos lábios, uns
fios de cabelo vermelhos, e uns brincos no nariz. Perguntei,
muito assustada, o que estava acontecendo e ela respondeu que
não era da minha conta e que a sua amiga Vilminha se vestia
assim e era ‘chocante’. Mais tarde, ainda mais aterrorizada que
eu com a recente mudança no comportamento da minha não
mais doce, responsável e obediente irmã, minha mãe explicou
que Vilminha era uma rebelde sem causa da novela das seis. Na
realidade, as novelas globais são capazes de deformar o
comportamento do telespectador.” (Cynthia Maria Teixeira. Aluna do Curso
de Letras/UFAM)
Argumentação
(Texto 3)

 “Quando a sua empresa disca 23, você sempre


sai ganhando. Além de cobertura nacional e
internacional, a Intelig tem a melhor tabela de preços
do horário em que a sua empresa mais usa o telefone:
o horário comercial. Os interurbanos nacionais de
qualquer capital para qualquer capital do Brasil, por
exemplo, são de 6% a 18% mais baratos neste horário
– de segunda a sexta, das 9h às 12h e das 14h às 18h.
Ligue para a Central de Atendimento da Intelig
(0800-34-2023) e veja como melhorar ainda mais a
telefonia da sua empresa.” (Informe publicitário publicado na revista Isto é,
26.07.2000)
Argumentação
(Texto 4)

 “Gregório de Mattos Guerra (Bahia, 1636 – Recife, 1713?)


é provavelmente o poeta mais problemático, polêmico e
prismático da literatura brasileira. Problemático porque, sob a
etiqueta Gregório de Mattos, palpitam dúvidas autorais e textuais
de difícil resolução, em razão do caráter apógrafo da obra,
espalhada em cerca de uma vintena de códices, com variações a
que somente uma sonhada edição crítica poria término. Polêmico
porque ainda hoje há quem discuta sua originalidade e quem a
reafirme. Prismático porque o escritor baiano seria dono de uma
obra multifacetada, barrocamente contraditória. De todo modo,
tornou-se ele, no dizer de Aderaldo Castello, uma figura-
síntese do seu século na poesia e, ao lado do Padre Antônio
Vieira, na prosa.” (Adriano Espínola. Revista Cult, dezembro/2000, p. 23)
Principais características de um texto
relevantemente argumentativo:

 Há unidade na construção do texto;


 Há o propósito explícito de convencer, persuadir e influenciar o leitor;
 Há preocupação em formar a opinião do leitor;
 Procura evidenciar que a verdade está com o autor do texto;
 Reforça a tese defendida com a citação de outros textos autorizados;
 Lança mão do argumento de autoridade;
 Usa o raciocínio ou a razão para estabelecer correlações lógicas entre
as partes do texto;
 Confirma com exemplos adequados as afirmações feitas (dados da
realidade observável);
 Refuta argumentos contrários;
 Conta com procedimentos argumentativos, como a exemplificação, a
explicitação, a enumeração, a comparação, o testemunho, os dados
estatísticos.
4.2 A prática dissertativa
(Texto 1)

 “O livro de Otoni Mesquita – Manaus – história


e arquitetura (1852-1910) – faz parte de um
conjunto de textos escritos com o objetivo de
resgatar a memória de uma cidade que jazia no
esquecimento – Manaus. A obra é um amplo painel
sobre a história regional, contada a partir das
transformações vividas pela cidade nos planos
urbano e arquitetônico. Com o trabalho, Otoni fixa
através da escrita uma época importante de nosso
passado histórico. Por tudo isso, trata-se de um
livro de leitura obrigatória.” (Renan Freitas Pinto)
(Texto 2)

 “O poder das novelas globais é tão grande,


que chega a mudar e moldar o comportamento de
muitos telespectadores. O que os leva a essa
mudança de comportamento é a semelhança que as
novelas têm com a realidade. Muitos
telespectadores, principalmente as crianças, não têm
uma estrutura psicológica firme para distinguir a
ficção da realidade. Então, o que ocorre geralmente é
a alteração do modo de agir e pensar desses
telespectadores. Contudo, o ideal é saber se tais
mudanças estão contribuindo ou prejudicando a
relação desses indivíduos com os fatos reais.”
(Kézia da S. Maia. Aluna do Curso de Letras/UFAM)
(Texto 3)

 “As discussões travadas nos dias 13, 14 e 15 no campus


universitário, da Universidade do Amazonas, sobre a
criação de uma rede de pesquisa de pós-graduação, no
âmbito das universidades da Amazônia Ocidental, serviram
também para explicitar uma das nossas velhas feridas nesta
área. Referimo-nos àquela que caracteriza a enorme
desigualdade com que a política de produção científica do País
vem sendo, há décadas, praticada, estabelecendo reserva de
mercado às regiões econômica e politicamente mais fortes.
Produzir conhecimento, de acordo com a espinha dorsal dessa
política, não é um direito e nem deve ser objeto de preocupação
dos pesquisadores do Norte e do Nordeste. Caberia a essas
regiões um papel secundário dentro deste mundo. E é assim
que as ações vêm sendo conduzidas.” (Ivânia Vieira, A Crítica, 16.07.99.).
(Texto 4)

“Os trabalhos de destruição da subjetividade moderna são


realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso
econômico e abolir o conflito. As ciências humanas e sociais
contemporâneas exprimem essas necessidades da sociedade
capitalista, ou seja, desse sujeito abstrato, mediante duas visões: a
universalidade naturalista, deduzida de disciplinas sérias como as
neurociências ou a genética, e a diversidade do culturalismo empírico.
Para os primeiros, os males do mundo podem ser solucionados com doses
maciças de Prozac ou de qualquer substância química capaz de aliviar o
sofrimento dos ‘aparelhos biológicos’; para os outros, os do culturalismo, o
melhor é abandonar as dores que acompanham a constituição de um
saber universal e eternamente inacabado, refugiando-se na completude do
mundo mítico e mágico das verdades particulares e supostamente
originárias. As duas visões do sujeito, aparentemente antiéticas, têm
em comum o horror ao Outro, engendrado por formas de
sociabilidade que o transformaram num inimigo-competidor, do qual
é proibido falar.” (Luiz G. Beluzzo, Carta Capital, 24.05.2000, p.8)
Principais características de um texto
relevantemente dissertativo:

 Interpreta e analisa, através de conceitos abstratos,


os dados concretos da realidade;
 Os dados concretos funcionam apenas como
recursos de confirmação ou exemplificação das
idéias abstratas que estão sendo discutidas;
 A abordagem é abstrata, própria de textos críticos,
teses;
 Engloba um conjunto de juízos sobre um dado
assunto.
Principais características de um texto
relevantemente dissertativo:

 Apresenta observações, reflexões, análise,


avaliação crítica sobre dado assunto, envolvendo
sempre opiniões;
 Não se atem a fatos concretos;
 Não se esgota na descrição ou no relato de fatos
concretos;
 Apesar de se basear em fatos concretos, não se
desvia da discussão de caráter genérico a que se
propõe;
 O enunciador do texto manifesta sua opinião ou seu
julgamento usando conceitos abstratos.
4.3 A prática descritiva
(Texto 1)
 “A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o
resto da cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento
comercial. Em todas as direções cruzavam-se homens esbofados e rubros;
cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na
rua; avultavam os paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e
nos sovacos por grandes manchas de suor. Os corretores de escravos
examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser
vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas
sobre perguntas, batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas
coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a
comprar cavalos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas
dos armazéns, entre pilhas de caixões de cebolas e batatas portuguesas,
discutiam-se o câmbio, o preço do algodão, a taxa do açúcar, a tarifa dos
gêneros nacionais; volumosos comendadores resolviam negócios, faziam
transações, perdiam, ganhavam tratavam de embarrilar uns aos outros, com
muita manha de gente de negócios, falando numa gíria só deles, trocando
chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leiloeiros cantavam
em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais;
diziam ‘Mal-rais’ em vez de mil-réis. À porta dos leilões aglomeravam-se os que
queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro
zunzum de feira.” (Aluísio Azevedo, O mulato, p.34)
(Texto 2)

 “Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço


entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se
alargando até a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no
alto; tingia os cabelos que duma orelha à outra faziam colar por
trás da nuca – e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais
brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto e
caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as
lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas
grandes muito despegadas do crânio.” (Eça de Queirós, O primo Basílio, p.40)
(Texto 3)

 “A cidade de São Paulo acaba de ganhar uma das melhores


salas de concertos do mundo – a Sala São Paulo – instalada, por
iniciativa do Governador Mário Covas, na antiga Estação Júlio
Prestes. Além da beleza arquitetônica do prédio inteiramente restaurado,
a Sala São Paulo oferece qualidade acústica excepcional e os mais
modernos recursos para a realização de grandes apresentações.
Acomodando 1.509 espectadores, possui um forro móvel de altura
variável que adaptará as condições acústicas às diversas obras
executadas. O palco é apropriado para uma grande orquestra e um coral
com até 200 vozes. Salas de ensaio e todas as facilidades modernas
completam o complexo, que conta ainda com estacionamento para 600
veículos. Os profissionais e as empresas que executaram este
projeto se orgulham de ter devolvido à cidade um patrimônio que o
tempo vinha destruindo e que permitirá que as futuras gerações
possam usufruir de um espaço cultural privilegiado”. (Informe publicitário,
Revista Veja, 21.07.99. – adaptação).
(Texto 4)

 “O jardim era de uma extraordinária beleza. Na entrada


tinha um anãozinho de gesso segurando uma espada. Atrás dele,
à sua direita, tinha um chafariz, era um menino com as vergonhas
de fora, de onde saíam águas cristalinas.Na sua esquerda tinha
um rio de flores de várias espécies: margaridas, cravos, copos-
de-leite, violetas, crisântemos e, é claro, rosas. O jardim era todo
fechado com palmeiras imperiais, onde os passarinhos faziam
seus ninhos. As borboletas eram tantas que não se podiam
contar. Era lindo, extremamente lindo o jardim com que
sonhei noite passada”. (Vívian Kramer Rosas. Aluna do Curso de Letras/UFAM)
Principais características de um texto
relevantemente descritivo:

 Os enunciados relatam ocorrências


simultâneas;
 Não há preocupação cronológica com os
enunciados;
 As ações apresentam-se preferencialmente no
presente, não havendo transformação de
estado;
Principais características de um texto
relevantemente descritivo:

 Relata as características de uma pessoa, de um objeto ou de


uma situação qualquer, inscritos num certo momento do tempo;

 Aos invés de mudanças de estado, relata as propriedades e


aspectos de dados elementos num certo estado, considerando
como se estivessem parados no tempo;

 Não se considera a relação temporal de anterioridade e


posterioridade entre os enunciados;

 O enunciador, pelos aspectos que seleciona, pela adjetivação


escolhida e outros recursos, vai transmitindo uma imagem
negativa ou positiva daquilo que descreve.
Da estrutura do parágrafo ao texto pleno
1. Conjunto de operações intelectuais que
envolvem o ato de escrever:
 Delimitar o assunto;

 Formular o objetivo que deve orientar o ato de escrever;

 Traduzir o objetivo em forma de frase-núcleo/introdução;

 Desdobrar a frase-núcleo/introdução em frases ou parágrafos de


desenvolvimento, organizados por algum critério de ordenação;

 Reorganizar as frases ou parágrafos de desenvolvimento em


forma de conclusão.
2. Características desse conjunto unitário a
que se dá o nome de texto:

 Pode-se constituir de um só ou de vários parágrafos;

 As mesmas operações intelectuais usadas para a construção do


parágrafo-padrão podem ser transferidas para a construção de
textos constituídos de vários parágrafos;

 Estrutura-se em mais de um parágrafo sempre que em torno de


uma idéia central – o assunto, tal como tenha sido delimitado –
desenvolve-se um conjunto mais ou menos amplo e complexo
de idéias associadas;

 A transição entre os parágrafos deve ser adequada, quer pelas


relações implícitas entre eles, quer pelo uso de palavras de
referência ou expressões de transição.
3. Características importantes na
produção de um texto padrão envolvendo
vários parágrafos:
 (a) Organização

 Há uma idéia central que orienta todo o texto;

 Ele se compõe de introdução, desenvolvimento e


conclusão;

 As idéias se estruturam segundo um critério de


ordenação ou uma combinação adequada de
critérios de ordenação.
Características importantes na produção
de um texto padrão envolvendo vários
parágrafos:
 (b) Unidade
 Todas as idéias são relevantes para a idéia central e com ela se
relacionam;

 A divisão de parágrafos é adequada: não há fragmentação da


mesma idéia em vários parágrafos nem apresentação de
diferentes idéias num só parágrafo.

 (c) Clareza e concisão


 Não há pormenores excessivos, explicações desnecessárias;

 Não há redundâncias.
5. Da estrutura do parágrafo ao texto pleno
Primeiro momento: a desconstrução do texto

 (1) Sabe-se que o ensino, em qualquer um de seus níveis, - o fundamental, o médio e o


superior – pode ser considerado como uma doação do saber do professor ao aluno ou como um
proposta de participação de professores e alunos na busca da compreensão da realidade.
 (2) No primeiro caso, a verdade e o conhecimento são considerados um fim em si mesmo e têm
um sentido absoluto tanto para os que ensinam quanto para os que aprendem. O saber codificado é
passado do professor para o aluno sem se fazer perguntas a esse saber e ao que se passa na realidade
em que professor e aluno vivem. No segundo caso, o saber é um meio para se entender a realidade e tem
um sentido relativo tanto para os professores quanto para os alunos. O saber é discutido entre eles e
relacionado com a realidade vivida por ambos.
 (3) Inevitavelmente, as duas opções de ensino pressupõem diferentes modos de apropriação do
saber para os membros da comunidade escolar. Na pedagogia da doação, alguns privilegiados têm acesso
aos instrumentos e aos recursos para dominar os conteúdos do saber, enquanto à maioria dos não
privilegiados são negados os instrumentos e os recursos para a apropriação do saber. A prática de ensino
resume-se à transmissão do saber dos iniciados aos não iniciados. Na pedagogia da participação, os
instrumentos e os recursos para aquisição e apropriação do conhecimento são colocados à disposição de
professores e estudantes igualmente. A prática de ensino é entendida como uma prática de estudo para
professores e estudantes.
 (4) As conseqüências das duas opções numa sociedade dividida em classes serão
marcadamente diferenciadas. Na pedagogia da doação, o saber, visto como um conjunto de
conhecimentos guardados numa redoma, de propriedade de poucos e carinhosamente mantido longe das
questões do dia-adia da maioria dos seres mortais, permanece eqüidistante dos interesses e problemas da
comunidade. Na pedagogia da participação, o saber, visto como meio para se compreender a realidade em
que vivem professores e alunos, é utilizado para debater e buscar soluções para as questões que
interessam à comunidade.
 (5) Nesse sentido, todo projeto educacional voltado para reflexão do contexto histórico e
social em que educandos e professores vivem e compromissado em conscientizá-los no
engajamento das questões que interessam à sua comunidade tem, necessariamente, de fornecer
instrumentos, técnicas e recursos de estudos que permitam a eles trabalhar o saber de sua área de
especialização em benefício dos interesses da maioria dos membros da sua comunidade. (LEWIS, Isaac.
A questão social do ensino. Jornal do Comércio, Manaus, 04.05.1986)
Processo de desconstrução do texto

 Tema: A questão social do ensino (corresponde ao


título atribuído ao texto)

 Delimitação: A pedagogia da doação e a pedagogia


da participação

 Objetivo: Demonstrar que todo projeto educacional


socialmente engajado deve estar a serviço da
maioria dos membros da comunidade.
Estrutura de organização do texto:

 Primeiro parágrafo: apresentação do tema – ensino


como doação e ensino como participação
(introdução);
 Segundo parágrafo: Como se dá cada uma das
formas de ensino;
 Terceiro parágrafo: Modos de apropriação do saber
em cada uma das duas formas de ensino;
 Quarto parágrafo: Conseqüências de cada uma das
formas de ensino numa sociedade de classes;
 Quinto parágrafo: Opção do autor pela forma de
ensino como participação (conclusão).
Segundo momento: a construção do
texto
Plano inicial
 Tema: A redação

 Delimitação: A redação e o vestibular na


Universidade Federal do Amazonas

 Objetivo: Tecer críticas à decisão da Comvest de


reduzir o valor atribuído à prova de redação e
eliminar essa exigência da segunda fase para os
candidatos de Exatas e Biológicas.
A introdução

 Para algumas pessoas, não parece fácil


entender o conceito de contramão da história.
É o caso dos membros da Comissão do
Concurso Vestibular da Universidade do
Amazonas, que, em recente e polêmica
decisão, acharam por bem não só alterar para
menos o valor atribuído à prova de redação
mas também eliminar esse mecanismo da
segunda fase para os candidatos das áreas
de Exatas e Biológicas. O fato merece
algumas reflexões.
O plano de desenvolvimento das idéias

 Primeiro parágrafo: abordar a importância do


domínio do ato de redigir;

 Segundo parágrafo: tecer comentários sobre a


iniciativa dos professores do Curso de Letras acerca
do aperfeiçoamento do domínio da redação;

 Terceiro parágrafo: explorar as questões que


envolvem a decisão da Comvest em relação ao
vestibular.
Primeiro parágrafo de desenvolvimento
 Inicialmente, é bom que se diga que o domínio da produção
escrita revela no desempenho do falante complexas
características que estão muito além e aquém da simples
representação gráfica da língua oral. Escrever bem, por exemplo,
implica ter ciência da lógica de organização do pensamento e,
conseqüência disso, registrar no papel ou na tela do computador
a expressão das idéias marcada pela unidade, pela coesão, pela
coerência, pela clareza e pela ênfase. Quando dominadas, tais
características, muito mais do que adornos proclamados em
cursos de redação, garantem maior segurança no exercício da
crítica, maior autonomia no entendimento das entrelinhas do
dizer, maior compreensão dos fatos que articulam a construção
do mundo e, sobretudo pela conquista do direito à palavra, maior
espaço de interferência no jogo de poder que articula as sempre
tensas relações sociais. Sem falar no mais aperfeiçoado
exercício da cidadania e na repercussão desses fatores no
desempenho verbal do falante. Ilude-se, portanto, quem acha
que o domínio da escrita resume-se à representação gráfica do
código lingüístico referendada pelas normas gramaticais.
Segundo parágrafo de desenvolvimento

 Cientes disso, os professores do Departamento de Língua e


Literatura Portuguesa da Universidade do Amazonas iniciaram, há
algumas semanas, discussões em torno da construção de uma
proposta que tem como objetivo maior oferecer condições para
que os alunos do curso de Letras fortaleçam essa forma de
compreensão do fenômeno lingüístico. O princípio básico da
proposta tem como referência a constatação de que, mesmo com
as atuais exigências do vestibular, na sua maioria os candidatos
chegam à universidade com enormes dificuldades na sua prática
de produção escrita. Diante do fato, entre deixar a situação como
está ou buscar saída para o impasse, os professores do curso de
Letras sensatamente abraçaram a segunda opção. Ou seja, além
das diversas outras alterações, nos dois primeiros períodos os
alunos terão à sua disposição um trabalho voltado exclusivamente
para a prática da boa redação. Trata-se de uma medida de bom
senso cujo mote, se abraçado por quaisquer outros cursos, trará
saudáveis benefícios para os seus acadêmicos.
Terceiro parágrafo de desenvolvimento

 Mas não é assim que pensam os senhores membros da


Comvest. Em lugar de buscar mecanismos de aperfeiçoamento no
trato da avaliação das redações no exame vestibular, com vistas à
sua valorização, como já vêm fazendo respeitadas universidades no
país, eles estranhamente optaram pelo caminho mais cômodo:
redução de 30 para 20% do seu peso para os candidatos da área de
humanas e total eliminação da exigência para os candidatos das
áreas de Exatas e Biológicas. Os argumentos para tal decisão, a se
considerar as matérias publicadas nos jornais, chegam a ser risíveis.
Sem contar com o fato de que o senhor coordenador da comissão,
que por sinal é da área de exatas, sequer teve a gentileza de
consultar quem, na Universidade do Amazonas, tem autoridade e
competência no assunto: o Departamento de Língua e Literatura
Portuguesa. Ora, justamente num momento em que a palavra de
ordem é a qualidade no desempenho profissional e essa qualidade
passa necessariamente pela habilidade discursiva do falante, seja ele
de qualquer área, no mínimo soa esquisito a esquisita decisão da
Comvest.
A conclusão

 Aí está um didático exemplo que serve de


ilustração para aqueles que têm dificuldades
de entender o conceito de contramão da
história.
O texto completo
 (1) Para algumas pessoas, não parece fácil entender o conceito de
contramão da história. É o caso dos membros da Comissão do Concurso
Vestibular da Universidade do Amazonas, que, em recente e polêmica
decisão, acharam por bem não só alterar para menos o valor atribuído à
prova de redação mas também eliminar esse mecanismo da segunda fase
para os candidatos das áreas de Exatas e Biológicas. O fato merece
algumas reflexões.
 (2) Inicialmente, é bom que se diga que o domínio da produção escrita
revela no desempenho do falante complexas características que estão muito
além e aquém da simples representação gráfica da língua oral. Escrever bem,
por exemplo, implica ter ciência da lógica de organização do pensamento e,
conseqüência disso, registrar no papel ou na tela do computador a expressão
das idéias marcada pela unidade, pela coesão, pela coerência, pela clareza e
pela ênfase. Quando dominadas, tais características, muito mais do que
adornos proclamados em cursos de redação, garantem maior segurança no
exercício da crítica, maior autonomia no entendimento das entrelinhas do dizer,
maior compreensão dos fatos que articulam a construção do mundo e,
sobretudo pela conquista do direito à palavra, maior espaço de interferência no
jogo de poder que articula as sempre tensas relações sociais. Sem falar no
mais aperfeiçoado exercício da cidadania e na repercussão desses fatores no
desempenho verbal do falante. Ilude-se, portanto, quem acha que o domínio da
escrita resume-se à representação gráfica do código lingüístico referendada
pelas normais gramaticais.
Continuação
 (3) Cientes disso, os professores do Departamento de Língua e Literatura Portuguesa da
Universidade do Amazonas iniciaram, há algumas semanas, discussões em torno da construção de
uma proposta que tem como objetivo maior oferecer condições para que os alunos do curso de
Letras fortaleçam essa forma de compreensão do fenômeno lingüístico. O princípio básico da
proposta tem como referência a constatação de que, mesmo com as atuais exigências do
vestibular, na sua maioria os candidatos chegam à universidade com enormes dificuldades na sua
prática de produção escrita. Diante do fato, entre deixar a situação como está ou buscar saída para
o impasse, os professores do curso de Letras sensatamente abraçaram a segunda opção. Ou seja,
além das diversas outras alterações, nos dois primeiros períodos os alunos terão à sua disposição
um trabalho voltado exclusivamente para a prática da boa redação. Trata-se de uma medida de
bom senso cujo mote, se abraçado por quaisquer outros cursos, trará saudáveis benefícios para os
seus acadêmicos.
 (4) Mas não é assim que pensam os senhores membros da Comvest. Em lugar de buscar
mecanismos de aperfeiçoamento no trato da avaliação das redações no exame vestibular, com
vistas à sua valorização, como já vêm fazendo respeitadas universidades no país, eles
estranhamente optaram pelo caminho mais cômodo: redução de 30 para 20% do seu peso para os
candidatos da área de humanas e total eliminação da exigência para os candidatos das áreas de
Exatas e Biológicas. Os argumentos para tal decisão, a se considerar as matérias publicadas nos
jornais, chegam a ser risíveis. Sem contar com o fato de que o senhor coordenador da comissão,
que por sinal é da área de exatas, sequer teve a gentileza de consultar quem, na Universidade do
Amazonas, tem autoridade e competência no assunto: o Departamento de Língua e Literatura
Portuguesa. Ora, justamente num momento em que a palavra de ordem é a qualidade no
desempenho profissional e essa qualidade passa necessariamente pela habilidade discursiva do
falante, seja ele de qualquer área, no mínimo soa esquisito a esquisita decisão da Comvest.
 (5) Aí está um didático exemplo que serve de ilustração para aqueles que têm
dificuldades de entender o conceito de contramão da história. (A Comvest, a redação, o bom senso e o
contra-senso. Gazeta Mercantil. Manaus/12.08.99.)
Terceiro momento: o texto pronto

 (1) Há nesta cidade uma reunião de ideólogos e


jacobinos, que, com o nome de Centro Comercial de
Molhadistas, está simplesmente afrontando a consciência
humana.
 (2) Que os membros desse clube de perversos jurem
vender vinho puro e legítimo, vá; é um ato de virtude e
lealdade, que lhes merecerá a estima pública, além de ser
um direito amparado pela Constituição.
 (3) Mas não fica aí o Centro. Quer mais; quer impor a
todos os que vendem vinhos a obrigação de os vender
puros e verdadeiros, chegando ao excesso de divulgar os
lugares em que os há falsificados, com todas as
indicações de rua e número.
Continuação

 (4) Filosoficamente, o ato do Centro é um absurdo. É axioma de


metafísica que nenhuma coisa considerada em si mesma é boa ou
má; só o pode ser comparada com outra. Ora, se todos os vinhos
de uma loja forem de uma certa qualidade, antipática ao Centro,
não se pode dizer que sejam falsificados ou impuros. Para isso
seria preciso que a loja vendesse outros vinhos, dos que o Centro
chama puros, e é isto o que ele, em alguns casos, não poderá
provar.
 (5) Juridicamente, é um atentado. O direito de vender vinho puro
implica o de vendê-lo falsificado. Não é um princípio abstrato, está
nos códigos modernos, e verifica-se em todas as ordens da
atividade humana. Os livros são o vinho do espírito, e ninguém se
lembraria de estabelecer que só se escrevessem livros bons.
Quando um tenor canta mal, tenho o direito de não voltar ao teatro,
mas não o de impedir que o tenor cante no dia seguinte.: 1º ,
porque ele tem o direito de cantar mal; 2º , porque o meu vizinho
tem o direito de ouvi-lo.
Continuação

 (6) Moralmente, é uma obra odiosa e vã. Há para a virtude a


mesma escala que para o frio e o calor. A alma humana, e
implicitamente a comercial, é uma sucessão de temperaturas.
Assim, por exemplo, o mesmo homem pode vender vinhos
falsificados e zurrapas verdadeiros; porque exigir dele que
também os vinhos sejam verdadeiros? Virtudes inteiriças são
raras. E quando não fosse baldado exigir de todos o mesmo grau
de virtude, seria certamente odioso e maometano: - crê ou morre.
Se para ganhar o céu, não exige Cristo sacrifício, como o exigirá o
Centro para ganhar quatro patacas, que, afinal, valem menos que
o céu? É ser mais papista que o papa.
 (7) Socialmente, é um perigo, e gravíssimo. No dia em que
cada classe se lembrar de indagar o que é que todos os seus
membros vendem, chegaremos à guerra social. Por enquanto, só
vejo este uso nos vinhos e na política; fiquemos nisto.
Continuação
 (8) Economicamente, é uma injustiça. Quem vende vinhos falsificados,
não os vende a troco de ouro, mas de papel moeda, que é moeda de
convenção, simples promessa de dinheiro; donde resulta que há um contrato
perfeito e igual em todas as suas partes. Creio até que dos dois objetos
permutados, o vinho é ainda o mais valioso, porquanto o papel,
representando a palavra da sociedade, representa implicitamente um certo
número de velhacos que toda a sociedade não pode deixar de ter em si, ao
passo que o vinho pode ser obra de um honesto cavalheiro, esmerado e
transparente em todas as outras coisas da vida.
 (9) Teologicamente, é uma tríplice heresia: 1º , porque é dos livros, que o
que se salva é a fé, não as obras, e uma vez que o inculpado creia nas
verdades morais e eternas, nada estará perdido; 2º , porque é também dos
livros, que há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que
por um justo, e a perseguição aos inculpados tira-lhes a possibilidade do
arrependimento; 3o, porque é ainda dos livros, que Deus permitiu a
existência de heresias, e se o vinho falsificado é uma heresia, é
provavelmente permitido por Deus, e destinado a afinar o valor dos vinhos
puros, e dos que se dão ao mister de os vender.
 (10) Por todas estas razões e por outras que omito, e não são menos
concludentes, proponho a extirpação do sobredito Centro, como uma
invenção do diabo, fator de desordens, iniqüidades e abominações. (Maria
Helena Paiva de Luca (organizadora). Balas de estalo de Machado de Assis, S. Paulo: Annablume, 1998.)
Outros textos (1)
 Relação entre produtor e leitor: uma preocupação constante

 (1) Para que obtenha sucesso ao produzir um texto, o produtor deve


tomar vários cuidados, principalmente no que se refere à sintonia entre o
interlocutor e o receptor. Maria Costa Val, em seu livro ‘Redação e textualidade’,
estabelece alguns critérios para que um texto não seja apenas um amontoado de
frases, ou seja, possua textualidade. Vale ressaltar que a autora citada não se
preocupa apenas com os aspectos internos do texto, mas também com os
externos, como o contexto e o leitor.

 (2) Costa Val ressalta a importância da coerência e da coesão, que estão


relacionadas aos aspectos conceituais e lingüísticos do texto respectivamente. A
coerência, como se sabe, é o que faz com que um texto tenha sentido ou não.
Segundo a autora, um texto coerente deve ter continuidade, que é a retomada de
idéias mencionadas anteriormente, a fim de reforçar o que está sendo dito; progressão,
que faz o texto fluir, promovendo a interação das idéias secundárias com a principal; a
não contradição, que pode ser tanto interna (quando não se afirma algo com sentido
oposto), quanto externa (quando o texto condiz com a realidade); e, por último, deve ter
articulação, que é a responsável, como o próprio nome diz, pela articulação entre as
idéias defendidas pelo produtor. A coesão, por sua vez, não é a responsável pelo
sentido do texto, mas sua ausência pode comprometê-lo, se não contar com os
mesmos requisitos da coerência, no aspecto lingüístico. Essas são apenas duas das
muitas preocupações com a parte interna de um texto que o produtor deve ter, a fim de
que seu leitor tenha, no mínimo, condições de compreendê-lo.
Continuação
 (3) A autora trabalha, também, conceitos relacionados com a
pragmaticidade do texto no aspecto sócio-comunicativo:
intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade e informatividade. O
primeiro está relacionado com o objetivo do produtor ao elaborar seu
texto. O segundo, aceitabilidade, refere-se à possível aceitação do
texto por parte do leitor. O terceiro, situacionalidade, tem a ver com o
contexto no qual produtor e recebedor estão incluídos. O quarto e
último, informatividade, refere-se à validade das informações contidas
em um texto, de acordo com o público alvo. Seguindo esses
cuidados, mais voltados para o leitor, certamente o produtor traçará
facilmente o caminho a ser tomado antes de iniciar a produção de um
texto e, conseqüentemente, atingirá seu objetivo.
 (4) Após essa breve explanação acerca dos conceitos
trabalhados por Val, é possível perceber a constante
preocupação com a sintonia entre o produtor e o leitor. Quem
escreve deve não apenas se preocupar com os aspectos
internos do texto, mas também ter sempre em mente para quem
está escrevendo e sob qual contexto. Essas preocupações são
naturais e compreensíveis, visto que, com raríssimas exceções,
alguém escreve para si mesmo. (Lorena Maria Nobre Tomás. Esp. 2002)
Outros textos (2)

 O ensino do português

 (1) Apesar do protesto de vários alunos e de alguns


professores, o ensino do português padrão deveria ser o
objetivo primeiro do ensino de Língua Portuguesa. Para
tanto, pelos menos dois momentos devem ser levados em
conta.
 (2) De um lado, o objetivo de se aprender o português
padrão deve ficar claro. Devemos dominá-lo não com o intuito de
escrever nos moldes de Machado de Assis, mas de conhecê-lo,
para nos tornarmos bons falantes e leitores de nossa língua
materna e, assim, sabermos nos portar em diversas situações.
Logo, passaríamos a ser poliglotas em nossa própria língua, ou
seja, possuindo o domínio da mesma, saberíamos falar, por
exemplo, com o padeiro e o ministro.
Continuação


(3) De outro, deve ser relevante o modo como se ensina o português.
Portanto, falaremos da leitura, que parece ser o meio mais abrangente. No
livro O texto na sala de aula, Lílian Lopes nos chama a atenção para os livros
adotados pelos professores para os alunos do ensino fundamental. Esses
livros, muitas vezes, são clássicos da literatura que não despertam o
interesse do aluno, ao passo que autores contemporâneos tratam temas mais
próximos da realidade desses mesmos alunos e poderiam ser perfeitamente
utilizados, ao menos nesta primeira leitura. Depois de acostumados,
passariam aos clássicos. Portanto, o modo como se ensina deve ser levado
em conta com o intuito de facilitar a aprendizagem do português, que,
infelizmente, é tido como disciplina difícil.
 (4) Em suma, devemos partir do pressuposto de que o ensino
de português deveria ser tão somente o padrão. A partir de então, nós
estaríamos aptos a ler com mais freqüência, a falar e a escrever
corretamente. No entanto, nos sentiríamos à vontade para dizer “Tu foi
ao cinema ontem?”, numa conversa informal com amigos, não por
desconhecermos as regras, mas por nos sentirmos melhor assim em
nosso grupo. Porém, em uma prova, certamente marcaríamos como
opção correta “Tu foste ao cinema ontem?” (Ana Paula Pinheiro de Cristo. Esp. 2002)
Outros textos (3)

 Discurso: individual? Coletivo?

 (1) Os estudos lingüísticos têm-se voltado,


recentemente, para o discurso, uma das dimensões da
linguagem. Ele é definido genericamente como um
instrumento usado pelos indivíduos para expressar, de forma
oral ou escrita, os seus sentimentos e opiniões sobre o
mundo. Porém, mesmo sendo a expressão do sujeito, o
discurso não é individual. Ele é coletivo.
 (2) O indivíduo vive em sociedade e está exposto às
coerções sociais nela existentes. Não só suas noções de certo e
errado, mas também pensamentos e atitudes são ditados pelo
grupo social com que convive. Sendo assim, não é o indivíduo
quem determina sua vida, apesar das idéias de liberdade e
autonomia reafirmadas constantemente.
Continuação
 (3) Ora, se o indivíduo é determinado pelo meio social, seu
discurso nada mais é que a expressão daquilo que ele apreendeu
nesse meio, que é comum a sua comunidade. Isso se dá através
das ideologias dominantes apropriadas por ele durante toda a sua
vida. Sendo assim, o discurso é coletivo, pois as mesmas idéias
estão presentes no discurso de um grande número de pessoas,
determinando-o.
 (4) A despeito disso, muitos ainda consideram o discurso
individual. Essa posição se deve ao fato de que cada pessoa se
expressa de um modo diferente, peculiar. Mas isso é o que se vê na
aparência. Na verdade, o conteúdo, independentemente da forma,
acaba sendo o mesmo.
 (5) Liberdade e autonomia não encontram grande
espaço no campo do discurso, porque são genuinamente
individuais. Nem o espírito é totalmente livre para lidar com as
idéias, nem o discurso é tão autônomo para expressá-las.
(Claudiana Nair Narzetti. Esp.2002)
Outros textos (4)

 O ensino da língua padrão: problemas e possibilidades

 (1) O ensino da língua constrói-se, indubitavelmente,


sobre dois pilares: o primeiro contempla o ensino irrestrito
do idioma, o segundo arquiteta-se sobre seu aspecto
lingüístico e prático. Lançar mão de uma dessas posturas é
uma tarefa que merece reflexões prévias.
 (2) Em princípio, a abordagem taxativa da língua padrão
é, em geral, contrária à prática. Isso é algo que se percebe
quando do uso indiscriminado da gramática, sem levar em conta
suas incoerências e abordagens superficiais. Transmitir a idéia
de que o sujeito e o predicado são essenciais à estrutura
oracional ou de que um texto constitui-se de extrema formalidade
é desconsiderar a verdade da oração sem sujeito e do texto
criativo. Afora isso, o ensino pragmático da língua oficial não
registra o fato de que o padrão, hoje, é outro. Dar as costas a
essa ‘nova ordem’ é, sem dúvida, ensinar a língua pela metade.
Continuação

 (3) Quanto ao ensino dentro da perspectiva lingüística, nota-


se em sua essência uma preocupação fundamental: a
associação da gramática oficial às novas estruturas
observadas seja no campo da fonética, da morfologia ou da
sintaxe. Nesta perspectiva, o ensino da língua parece mais
completo e abrangente, não se limitando a transmitir um
amontoado de regras e exceções, mas colocá-las em oposição
à língua que praticamos diariamente.
 (4) Sendo assim, optar pela prática tradicional ou
pela abordagem lingüística é decidir, também, por um
ensino ligado a estruturas ultrapassadas e estáticas ou
valorizar a língua na sua amplitude e variações. Eis o
grande prefácio na construção do ensino de um idioma.
(Antônio José da Silva. Esp.2002)
Outros textos (5)

 (1) Pesquisa realizada por entidade idônea, no Rio de


Janeiro, e publicada na revista Época, revela uma preocupante
descrença dos jovens nos políticos e nas instituições.
 (2) Dentre as pessoas ouvidas na faixa etária de 15 a 20
anos, nada menos de 91% afirmaram não confiar nos políticos
porque os consideram desonestos. Pìor ainda é saber que 21% dos
adolescentes mais pobres consideram a ditadura o melhor regime,
enquanto 42% se confessaram indiferentes ou ignorantes em
relação ao assunto. Apenas 35% se declararam partidários
convictos da democracia.
 (3) Sendo o Rio de Janeiro a segunda maior cidade
brasileira, ex-capital da República e o maior centro cultural do País,
é lícito supor que ali exista um microcosmo do Brasil. Se assim for,
a postura dos nossos jovens está a merecer a reflexão de todos os
brasileiros adultos, porque mostra um risco para o futuro do país.
Que está acontecendo com a nossa juventude?
 (4) Creio que não precisa muita argúcia para se concluir que
um conjunto de fatores contribui para essa postura negativista dos
nossos jovens.
Continuação

 (5) Em primeiro lugar, o comportamento da maioria da classe política, que


não é de inspirar respeito a ninguém. O baixo nível ético, a ausência de
idealismo, as práticas demagógicas, o oportunismo, a falta de coerência, o
caráter interesseiro das ações, o auto-elogio, a propaganda enganosa, tudo,
enfim, contribui para a imagem ruim dos nossos homens públicos. Infelizmente,
não serve de paradigma, como deveriam.
 (6) Em segundo lugar, concorre seguramente a desagregação familiar.
Por causas diferentes, em todos os níveis sociais, o lar, no sentido autêntico da
palavra, vai deixando de existir. Aos poucos, a casa se torna apenas o lugar
onde as pessoas dormem, ou nem isso. Desgraçadamente, o núcleo familiar
deixa de ser o recinto sagrado e seguro, cimentado pela solidariedade e pelo
respeito mútuo, no qual os filhos modelavam sua personalidade, embebendo-se
de valores, com os pais tomados como referência. Se isso não existe, os jovens
se sentem desamparados, desorientados e confusos.
 (7) Por último, há que contabilizar a situação socioeconômica do País,
agravada agora pela insegurança decorrente do desaparecimento do emprego
estável, que deixa os jovens sem perspectiva, mergulhados na desesperança.
 (8) Por tudo isso, os números da pesquisa não me surpreendem, mas
me assustam. E, longe de me desanimar, me dão alento para continuar na
vida pública, fazendo a minha parte, minúscula que seja, para melhorar este
país. Quando nada, pelo exemplo. É o mínimo que posso fazer.

(PERES, Jefferson. A descrença dos jovens. A crítica, 13.6.99., p.a4)
Outros textos (6)

(1) A pregação contra a pobreza foi intensa e o vulcão da
corrupção soltou fumaça forte esta semana. Na Europa, o presidente
ensaiou críticas à globalização e advogou um Estado socialmente mais
justo. A esquerda culpou o neoliberalismo por nossa calamidade e fez
suas propostas. Só o que se soube agora ter sido tomado ao Estado
daria para aumentar sua agressividade social. Pobreza e corrupção no
Brasil andam juntas porque os gastos sociais nunca chegam ao seu
destino. O que historicamente as elites e a corrupção tiraram do Estado
desafiaria os matemáticos.
 (2) Mas, esquecendo-se o que se passou do Império à
República de 30, que bancou a acumulação de capital de uma
burguesia nacional incipiente, e todos os escândalos das últimas
décadas, passando por PC, pelos anões do Orçamento e por todas as
obras superfaturadas, sem calculadora é possível somar o que as três
CPI em funcionamento descobriram em matéria de assalto aos cofres.
 (3) A CPI dos Bancos constatou que o Banco Central torrou R$ 1,57
bilhão para salvar os bancos Marka e Fonte-Cindam e para honrar alguns
contratos cambiais do Banco do Brasil. O Proer fica fora da conta, numa
concessão ao argumento do governo de que sem ele teria havido uma séria
crise bancária quando a crise externa bateu aqui. Diz-se na CPI que há mais
surpresas em matéria de dádivas do BC no relatório que virá à luz na quarta-
feira.
Continuação
 (4) A CPI do Judiciário, descontadas as irregularidades de menor vulto,
constatou que R$ 169 milhões foram desviados da obra do Fórum
Trabalhista de São Paulo. Esse dinheiro passeou pelas contas da Incal,
Ikal, Grupo OK, enriqueceu o juiz Nicolau e ainda sobrou algum para as
empresas que participaram da concorrência, garantindo a vitória do grupo
Monteiro de Barros.
 (5) A CPI do Narcotráfico, ainda destrinchando uma conexão
criminosa nacional, já apurou que mais de R$ 100 milhões de recursos
federais repassados às prefeituras foram parar nas mãos dos mafiosos que
forneciam notas fiscais e comissão aos prefeitos. A apuração no Piauí
avançou e o esquema parece espalhar-se por outros estados. É o mesmo
que estaria tomando verba do Fundef, o que de melhor se fez para
melhorar a educação neste governo, em várias prefeituras do Nordeste.
 (6) Só nessas brincadeiras, são quase R$ 2 bilhões, um número
certamente inocente diante do insondável mundo da corrupção. Para
não repetir aquelas contas batidas sobre o que dava para fazer com
isso (como quase 500 mil casinhas de R$ 4 mil, dessas que a CEF
promete financiar), pode-se dizer que estaria aí um bom começo para
o fundo de combate à pobreza proposto pela comissão especial criada
pelo senador Antônio Carlos.

(CRUVINEL,Tereza. Pobreza e corrupção. A crítica, 20.9.99., p.a5)
Outros textos (7)

 (1) É cientificamente estimulante, para um estudioso da


linguagem, apreciar o salto das teorias do discurso para a
prática discursiva dos sujeitos. Recupero essa constatação a
propósito da força hegemônica do discurso do presidente da
República sobre algumas pessoas que, malhadas nas
trincheiras mais à esquerda da academia, curiosamente acabam
incorporando com enorme facilidade a sua estratégia de
construção do dizer. Explico-me: o sociólogo usa e abusa da
heterogeneidade da linguagem como um maestro que, por força
do puro capricho, trabalha e destaca os instrumentos conforme a
sua conveniência. Isso tem tudo a ver com a esquisita defesa de
que a Universidade do Amazonas, hoje, tem um só corpo e duas
cabeças: uma que atende os interesses do ensino público e
outra do ensino privado.
Continuação
 (2) Para os defensores da passiva existência desse monstrengo,
a greve nas universidades federais deve envolver apenas as
atividades docentes que dizem respeito ao que se rotulou de ensino
público, sem que isso comprometa o funcionamento da outra cabeça,
aquela que articula as atividades docentes remuneradas “por fora”.
Ao amparo dessa lógica, deve-se, de um lado, ser intransigente
quanto ao não funcionamento dos cursos de graduação e de pós-
graduação oferecidos “gratuitamente” pela universidade; de outro,
manter a mesma intransigência, só que em prol do funcionamento
dos mesmos cursos, desde que sua existência decorra de repasses
de verbas do Fundef, através dos governos estadual ou municipal ou,
ainda, sejam pagos diretamente pelos alunos. Disso decorre a
compreensão de que a estranha criatura mantém, no mesmo corpo,
uma cabeça que está a prêmio, em conseqüência do desleixo do
poder público, e outra que vai muito bem, obrigado, graças ao
amparo dos trinta dinheiros do Fundef e às mensalidades em dinheiro
vivo pagas pelos interessados nos vários cursos de especialização.
Continuação

 (3) Sujeitos ainda a discussões, a princípio nada tenho contra


tais cursos, mas me dou o direito de discordar dos argumentos que,
perigosamente, sustentam esse divisor de águas e atendem os
interesses do atual governo e fragilizam a força do movimento
docente em prol da defesa da sobrevivência da universidade
pública.
 (4) Em primeiro lugar, vejo como estigmatizadora e, no mínimo,
preconceituosa a separação que vem ganhando força entre alunos
regulares e alunos do Fundef. Os cursos oferecidos são os mesmos
para ambos os grupos, as grades curriculares são as mesmas, os
mesmos são as ementas e os programas e o compromisso com a
qualidade deve, rigorosamente, ser o mesmo. A única
excepcionalidade fica por conta, em alguns casos, da intensividade,
variável que já acontece há anos com os cursos oferecidos no
interior do Estado. Além disso, eles são sustentados por recursos
públicos que, em sendo repassados à universidade pública, não
perdem essa característica. Essas e outras razões, portanto,
representam motivos suficientes para entendermos que todos,
indiscriminadamente, são alunos da Universidade do Amazonas.
Continuação
 (5) Em segundo lugar, não são apenas os recursos
repassados à universidade que viabilizam o atendimento dessas
novas turmas. É inegável que a sua implementação se deve à já
consolidada estrutura administrativa e acadêmica da UA. Nada
disso seria possível sem a existência dos cursos já reconhecidos
pelo MEC, sem os planejadores, sem o envolvimento dos
servidores administrativos, sem a qualificação e experiência dos
docentes, sem a ocupação de parte do seu tempo correspondente
à dedicação exclusiva, isso tudo sem contar com a estrutura física
dos departamentos e demais dependências da instituição postos à
disposição das citadas turmas. Em especial no caso dos
docentes, note-se que a sua qualificação em nível de pós-
graduação se deve a investimentos públicos, depreendendo-se
daí que, enquanto estiverem vinculados à UA, seu compromisso
deve ser com o ensino público. Considerar, portanto, que as
atividades desses novos alunos nada têm a ver com a greve dos
servidores administrativos e professores das instituições federais
de ensino é, no mínimo, não ter noção da fronteira que separa o
público do privado.
Continuação

 (6) Em terceiro lugar, é simplista e simplório o argumento


daqueles que semeiam a ameaça de que, se a UA não der
continuidade aos cursos em questão, os governos estadual e
municipal romperão os convênios, passando a atuar junto às
faculdades privadas. Ora, a universidade pública, além das
condições de atender à enorme demanda posta, conta com o que,
apesar dos pesares, continua sendo o seu maior trunfo: a
qualidade, impossível de deixar de ser reconhecida até pelo seu
maior adversário, o Ministro da Educação. É justamente pela
preservação e ampliação da qualidade do ensino público e gratuito,
posta em risco pelo atual governo, que professores e servidores
administrativos tiveram a coragem de deflagrar a greve. Considerar,
portanto, que as atividades dessas novas turmas devam assumir
caráter de excepcionalidade é estar egoisticamente de olho em
interesses circunstanciais e abrir mão de pavimentar a estrada que
poderá assegurar uma universidade pública e de qualidade para as
gerações futuras.
Continuação

 (7) Em quarto lugar, é preciso não perder de vista que os


cursos de especialização e especiais, ainda que pagos
diretamente pelos alunos interessados, enquadram-se em
condições semelhantes às anteriormente postas. Além disso,
parece-me plausível o raciocínio de que, se recursos oriundos
de particulares são repassados à universidade para que ela
retribua sob forma de prestação de serviços, tais valores
ganham imediatamente status de recurso público, uma vez que
os serviços prestados se dão no âmbito e sob a égide da
instituição pública. Essa é a mesma lógica do recolhimento de
tributos. Defender, portanto, a oferta de tais cursos como
particulares na esfera da universidade pública é tentar imiscuir,
mais uma vez, a atividade privada em lugar que não lhe cabe
espaço.
Continuação
 (8) De todo o exposto, uma das inferências possíveis aponta
para a compreensão de que os defensores da universidade
representada por essa espécie de mula de duas cabeças exercitam
a habilidade de acender uma vela para Deus e outra para o Diabo.
Ou seja, são revolucionários inflamados que ostentam a bandeira
da universidade pública mas que não hesitam, por conveniência,
em deixá-la de lado para amealhar os trinta dinheiros, ainda que
essa atitude contribua para o asfixiamento do já tão ameaçado e
combalido ensino superior público, gratuito e de qualidade. Na
esteira da mesma compreensão, parece estarmos diante de uma
nova casta que arregimenta e amplia os propósitos privatista do
governo do professor-presidente. São os novos coveiros da
universidade pública, o que nos deve alertar para o fato de que os
grandes inimigos não estão apenas nos gabinetes da burocracia
brasiliense, mas convivem diariamente conosco, dividindo sua
dedicação exclusiva entre as duas cabeças do monstrengo que
eles estão gestando.
 (SENA, Odenildo. Os novos coveiros da universidade pública. Jornal do Comércio/Manaus, 10.7.2000)
Outros textos (8)

 (1) A distinção, por sinal muito feliz, entre comunicação e informação nos
faz retomar algumas questões de caráter ideológico que envolvem a prática
pedagógica do professor de Língua Portuguesa. Antes, porém, é prudente
esclarecermos essa distinção.

 (2) No caso da comunicação, temos a transmissão intencional de


informações por meio de sinais estabelecidos ou, ainda, a transmissão
intencional de informações factuais ou de proposições. Dessa forma, um sinal
comunicativo é aquele que expressa o propósito do locutor de tornar o receptor
consciente do que, até então, ele desconhecia. O comunicativo será aquilo que
é significativo para o locutor. Por outro lado, a informação corresponde a um
sinal que, independentemente do propósito do locutor, torna o receptor
consciente daquilo que ele não sabia. Assim, o informativo é aquilo que é
significativo para o receptor. Podemos, então, dizer que o significado para o
locutor envolve a noção de intenção e o significado para o receptor envolve a
noção de valor. É preciso lembrar, ainda, que o componente comunicativo não
deve ser supervalorizado em detrimento do informativo, que tem uma importante
participação na interação social. Além disso, todo enunciado traz em seu bojo
informações que não foram intencionalmente elaboradas pelo emissor, o que
leva o receptor a reagir de uma forma ou de outra a esse tipo de informação.
Continuação

 (3) Transportando esse princípio para o espaço de sala de aula, podemos


verificar que uma prática pedagógica falha e ideologicamente suspeita consiste
em fazer com que o aluno se contente com a comunicação que lhe é feita pelo
professor. De forma mais objetiva, isso acontece quando o professor, movido
pela insegurança, pelo autoritarismo ou mesmo pela má fé, faz o possível para
que a comunicação processada coincida exatamente com a informação que o
aluno abstrai do seu discurso, ou seja, a informação simplesmente tem a mesma
natureza da comunicação.

 (4) É fácil constatarmos isso na prática. É notória, por exemplo, a existência


de professores que partem do princípio de que ao aluno cabe apenas escutar,
anotar e decorar. Há até aqueles mais ortodoxos que não admitem sequer a
paráfrase. Em suma, o espaço dado ao aluno em sala de aula é tão restrito, que
não lhe permite vôos além daqueles programados pela visão estreita e
maniqueísta desse tipo de professor. Nesse caso, é fácil verificarmos não
somente a verdadeira circularidade na qual está envolvido o aluno, como
também a suspeita qualidade da sua formação. A comunicação pela
comunicação, no processo pedagógico, se configura numa autêntica fábrica de
bonecos, criados e programados à semelhança dos professores que se acham
donos exclusivos da verdade.
Continuação

 (5) No caso específico do ensino da Língua Portuguesa, como se dá essa


suspeita prática pedagógica?

 (6) Retomando reflexões outras feitas em diversas oportunidades, diríamos


que, num primeiro plano, de forma mais flagrante, está o fato de que o aluno,
falante nativo da língua, é convencido pelo professor de que não sabe
português, como se, ao passar da soleira da porta da escola, fosse obrigado a
se despir de todo o conhecimento lingüístico adquirido pacientemente como
produto de sua práxis no contexto social e cultural no qual está inserido. Num
outro plano, entra a gramatiquice, oportunidade em que o aluno será submetido
a uma verdadeira lavagem gramatical com o propósito de aprender português,
como se, ao decorar as regras determinadas pela gramática normativa,
fatalmente passasse a melhorar seu desempenho no uso da norma lingüística
exigida pela escola.

 (7) Já no que diz respeito à leitura e ao estudo de texto, o que se vê é a


leitura pela leitura e a preocupação de que a chamada interpretação se restrinja
tão somente à transcrição e à paráfrase (quando muito), como se, ao fazer uma
leitura linear ou ao transcrever partes do texto lido para o seu caderno, o aluno
estivesse empreendendo uma verdadeira aprendizagem.
Continuação
 (8) Em síntese, como podemos perceber, dentro dos parâmetros acima, a
comunicação se processa de tal modo a coincidir com a informação captada pelo
aluno, já que a ele não é dada a oportunidade de divergir nem de questionar as
contradições, muito menos de subverter o pacote que lhe é imposto. Nessas alturas,
não é difícil entender que um trabalho nesses moldes está a serviço da alienação, do
conformismo e de uma prática ideológica que limita a visão de mundo do aluno a um
estreito corredor.

 (9) De que maneira, então, ainda no caso específico do ensino da Língua


Portuguesa, é possível uma prática pedagógica que não só inquiete o aluno diante da
comunicação do professor mas também o faça identificar, nas entrelinhas desse
discurso, informações preciosas que poderão levá-lo a uma prática mais consciente
diante da realidade histórica na qual está inserido?

 (10) Inicialmente, para que isso aconteça é necessário que o professor de Língua
Portuguesa tome consciência de que o aluno, seja do primeiro, segundo ou terceiro
grau, ao chegar à escola ou à universidade já traz consigo todo um domínio das
estruturas básicas da sua língua, o que lhe permite, bem ou mal, resolver todos os
pequenos e grandes problemas ligados ao seu mundo ou a sua realidade. Não se pode
duvidar de que esse aluno, face às exigências da norma culta da língua, é passível de
deslizes. Essa constatação, a nosso ver, se mostra como uma excelente oportunidade
para que o professor faça o aluno daí abstrair a informação de que a língua é
extremamente preconceituosa ou, como afirma Barthes (1978), não é nem reacionária,
nem progressista; ela é simplesmente fascista, pois o fascismo não é impedir de dizer,
é obrigar a dizer.
Continuação
 (11) A comprovação disso está na própria escola. Afinal, o aluno ali está
para tentar aprender a norma culta, que não é a dele, aquela aprendida e
internalizada na autêntica práxis lingüística. Essa dissonância, por sua vez,
resulta numa oportunidade ímpar para que o professor encaminhe o aluno à
percepção de que a língua é o retrato perfeito da sociedade em que ele vive.
Afinal de contas, aí estão, saltitando pelo mundo lingüístico, as diversas variantes
lingüísticas perfeitamente associadas aos diversos segmentos que marcam a
divisão de classes em nossa sociedade. Isso quer dizer que, numa sociedade
selvagemente capitalista como a nossa, a língua passa a representar um capital
lingüístico de grande rentabilidade.

 (12) Toda essa reflexão oportuniza, ainda, ao professor politicamente


informado demonstrar duas coisas: a) o poder, salvo raríssimas exceções, é
privilégio de quem domina com habilidade a norma culta da língua. Num país
como o nosso, onde a educação sempre esteve num plano vergonhosamente
deplorável, a despeito dos mobrais e das novas universidades, não é difícil de se
perceber que a poucos tem sido dada essa oportunidade; b) a melhor maneira de
abrir caminho para uma aprendizagem politicamente consciente da norma culta
da língua é respeitar a variante de que o aluno é portador, identificando, aí, o
ponto de partida para os necessários acréscimos e ajustes, responsáveis pela
sua admissão no exclusivo grupo dos cultores da norma culta.
Continuação

 (13) Além disso, nessa prática pedagógica


que se propõe a extrair o máximo de informações
das comunicações feitas, é imprescindível que o
aluno não se sinta violentamente despojado da
sua variante, o que coincide com a afirmação de
Bechara (1985), para quem a grande missão do
professor de língua materna é transformar seu
aluno num poliglota dentro de sua própria língua,
possibilitando-lhe escolher a língua funcional
adequada a cada momento de criação e
evitando, assim, a imposição unilateral da norma
culta, que, na realidade, é apenas uma
privilegiada variante a mais.
Continuação
 (14) Não devemos nos esquecer, por outro lado, de que a gramatiquice, mal
que assola grande parte de nossos professores, é uma questão que precisa ser
resolvida de uma vez por todas. Dentro do princípio de que ao aluno deve ser
dado espaço suficiente, a fim de poder extrair o máximo de informações das
comunicações efetivadas, é mister que o professor veja na gramática apenas um
instrumento de uniformização a serviço da norma culta da língua. A visão
contrária, do ensino da gramática pela gramática ou da língua a reboque da
gramática, tem demonstrado resultados desastrosos, com prejuízos às vezes
irreversíveis para o aluno, que acaba sendo preparado para resolver os mais
estapafúrdios quesitos de gramática, mas se mostra incapaz de redigir um
parágrafo coerente com cinco ou dez linhas. Ora, quem estuda gramática aprende
gramática. A prática tem demonstrado que os grandes escritores nem sempre
conhecem as minúcias gramaticais exigidas dos alunos de Língua Portuguesa.
Recentemente, perguntei ao nosso escritor Milton Hatoum se era capaz de
classificar uma oração subordinada substantiva objetiva indireta reduzida de
infinitivo. A resposta foi não. Isso não o impediu, entretanto de ter escrito o
premiado romance Relato de um certo oriente e de já ter trazido a público um
segundo, chamado Dois irmãos. A propósito, ao longo da nossa experiência de
sala de aula, já tivemos oportunidade de nos defrontar com alunos que,
lamentavelmente, tinham sido reprovados várias vezes em gramática, mas que,
surpreendentemente, eram capazes de produzir trabalhos escritos com aceitável
clareza, coerência e concisão. Quer dizer, tinham sido reprovados em gramática,
não em Língua Portuguesa, numa clara comprovação de que a gramatiquice tem
feito inúmeras vítimas.
Continuação

 (15) O agravante, nessa situação, é que, quando se centraliza o ensino


da língua apenas nas questiúnculas gramaticais, deixa-se num plano inferior
questões relevantes, dentre as quais a prática consciente e estruturada do
discurso oral. Num processo pedagógico onde predomina apenas a
comunicação, o aluno não salta da sala de aula para a vida.

 (16) Geralmente, o professor gramatiqueiro pressupõe que, se ao longo


do semestre forem fornecidas aos alunos as peças de que se constitui a
gramática, ao final daquele semestre eles serão capazes de produzir
excelentes trabalhos escritos. Ledo engano. Quem estuda gramática, como
já o dissemos, habilita-se em gramática. Analogicamente, consideramos
como difícil a possibilidade de alguém montar a máquina de um Volkswagen
entrando em contato diariamente e de forma fragmentada com as suas
peças. Ao final do processo, ainda que essa pessoa disponha de todas as
peças, terá diante de si um difícil quebra-cabeças. Diferentemente será,
acreditamos, se essa mesma pessoa acompanhar o desmonte da máquina à
sua frente e, depois, for solicitada a remontá-la. Assim, consideramos o
processo dedutivo como ideal para se estudar a língua, diferente do ensino
da gramática em detrimento das demais habilidades que deveriam ser
desenvolvidas simultaneamente e com maior prioridade. Enfim, devemos
colocar a gramática a serviço da língua.
Continuação

 (17) Finalmente, não podemos deixar de, à luz do conceito de


comunicação e informação, fazer rápida apreciação da leitura e estudo de
texto dentro de uma prática pedagógica que envolva essas exigências.

 (18) Um estudo de texto deve ter como objetivo último o seu cotejo com
a realidade histórico-social na qual está inserido o aluno. Para que isso
aconteça, é imprescindível que se supere o plano da comunicação, ou seja, a
proposta de estudo precisa estar embasada em questionamentos que
permitam ao aluno sair do texto para a realidade, buscando informações nas
entrelinhas e preenchendo os espaços deixados pelo autor no próprio texto.
Isso vai implicar, por vezes, a apreensão das contradições das idéias face à
realidade e dar margem a que a própria ideologia embutida no texto seja
desvelada e questionada. O que nós observamos, entretanto, nos livros
didáticos em geral, são estudos de texto que visam tão somente à ratificação
das idéias do autor, como se fossem verdades absolutas e das quais não se
possam levantar suspeitas, o que se afina muito bem com os propósitos de
uma pedagogia alienante e favorável ao conformismo. Ao contrário desse
estado de coisas, o que reivindicamos é um estudo de texto que supere o
plano linear, inquiete o aluno e o leve a tomar real consciência da realidade
em que vive.
Continuação

 (19) Tudo isso nos mostra que a prática pedagógica do


ensino de Língua Portuguesa, que deve ser entendida
como prática política, será realmente libertadora quando
extrapolar os limites da comunicação do discurso
pedagógico oficial e privilegiar a busca da informação,
predispondo professores e alunos a uma luta constante
contra a alienação. O contrário será o círculo vicioso da
comunicação pela comunicação, da gramática pela
gramática, da leitura pela leitura, do ensino pelo ensino,
propósitos que tornam abusivamente estreitos os objetivos
do ensino da língua.
 (SENA, Odenildo. Ideologia e ensino da língua. In: Palavra, poder e ensino da língua. Manaus: Editora
Valer, 2001, p. 49-55)

Você também pode gostar