Memórias de Martha
Júlia Lopes de Almeida
1889
Júlia Lopes de Almeida
(1862 – 1933)
Uma voz feminina silenciada no cânone brasileiro
Principais
obras
• Memórias de Marta, 1889
• A família Medeiros, 1892
• A viúva Simões, 1897
• A falência, 1901
• A intrusa, 1915
Protagonistas
femininas
“Desde os primeiros textos publicados em
Campinas, Júlia se preocupa com o conflito
entre a então inquestionável formação da
mulher apenas para o lar, o marido e os
filhos e o problema da subsistência da
mulher só, a quem falta um apoio
masculino. A solução apontada seria o
viver para o outro, para a família ou para a
prática da caridade.”
(Sylvia P. Paixão. In:
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)
Sucesso Editorial
“[...] a literatura, com todos os seus triunfos e
louvores, era o feudo da escritora Júlia Lopes de
Almeida – não apenas por receber grandes nomes na
sua casa, mas pelo que saía desta em matéria de
produção literária. Ela era um fenômeno de sucesso
editorial. Desde sua estreia em 1886, aos 23 anos,
publicará mais de quarenta livros, incluindo nove
romances, cinco livros de contos, um de novelas, outro
para criança e cinco peças de teatro, além de livros de
viagem, jardinagem, memórias, conselhos para noivas e
outros gêneros.”
(Ruy Castro, Metrópole à beira-mar)
Progressista
“Por trás de sua postura de grande dama, sempre
fora contestadora – republicana, abolicionista e
anticlerical. Suas crônicas nos jornais falavam de
educação, violência policial, desmatamento ,
greves, desigualdades social. [...] Júlia despertara
cedo para a situação da mulher. Seu pai, médico,
professor e dono de colégio; a mãe, diplomada em
canto, piano e composição. Em sua casa, as
discussões sobre os assuntos da atualidade
envolviam adultos e crianças. O primeiro homem
com quem dançou, aos quinze anos, num baile de
debutantes, fora... Machado de Assis, amigo de
seu pai. E, quando se casou, em 1888, com o
poeta Filinto de Almeida, já era escritora
publicada.”
(Ruy Castro, Metrópole à beira-mar)
Jornalista lúcida
“Antes dele [do jornalismo], não havia bem uma
literatura. O jornalismo criou a profissão, fez trabalhar,
aclarou o espírito da língua, deu ao Brasil os seus
melhores prosadores. Não é, em geral, um fator bom
para a arte literária, e talvez, no Brasil, não o seja muito
em breve. Mas já foi e ainda o é.” (Julia Lopes de
Almeida)
Feminista
“Em 1919, aos 57 anos, já de
cabelos brancos, tornou-se
presidente da Liga para a
Emancipação Intelectual da
Mulher, uma organização que
visava fundir as diversas correntes
feministas no país, em choque
desde o início do século.”
(Ruy Castro, Metrópole à beira-mar)
A obra Memórias de
Martha
Publicação
Enredo
Capítulo 1
• PRIMEIRA INFÂNCIA: vaga lembrança da casa onde Martha nasceu e viveu até cinco anos, quando seu pai
morreu e ela e a mãe foram expulsas, já que a casa foi expropriada como pagamento de dívidas. É o fim de
uma vida de conforto.
• CORTIÇO EM SÃO CRISTÓVÃO: A mãe engomava roupas para garantir o sustento das duas e protegia a filha
franzina perto das outras crianças do cortiço.
• HUMILHAÇÕES: Certo dia, presenciou a surra que Carolina, a filha mais velha da vizinha - “ilhoa, que batia
nos filhos e injuriava o marido”- levou da mãe por ter-lhe oferecido sua porção de carne com farinha. Desde
então, ela passou a acompanhar a mãe nas entregas de roupas. Um dia, na rua, a mãe se esconde de uma
elegante senhora, velha conhecida, que se aproximava delas, constrangida de ser vista em condição de
miséria. Na casa de uma freguesa, Martha é humilhada por Lucinda, filha mais velha da dona da casa, que
repara em sua aparência desgrenhada. A freguesa doa-lhe um vestido que não servia mais a Lucinda,
deixando Martha ainda mais constrangida. Com o tempo, ela já não se incomodava tanto com as doações.
Com as roupas novas, poderá frequentar a escola. No cortiço, Martha exibe-se contando detalhes da casa
elegante da freguesa para as crianças: Carolina, seus irmãos, Maneco, de 8 anos, e Rita, de 5 anos, filhos da
ilhoa, além de Lucas, “um mulatinho”, “muito sujo, que passava a vida a mentir”.
Capítulo 2
• ESCOLA PÚBLICA: Martha ostenta seu vestido vermelho diante das
crianças do cortiço quando vai para a escola pela primeira vez. Com
os dias, faz amizade com Mathilde, “menina mulata”, que a ajudava
com as lições, mas que, após ser acusada de roubar pertences das
outras meninas, passou a ser rejeitada pelas colegas. Tornou-se
raivosa e agressiva, até que foi expulsa da escola. Martha faz
amizade com Clara Sylvestre, menina bonita que sonhava em ter uma
vida luxuosa, o que estimulava Martha a provocar-lhe inveja com a
descrição da casa da freguesa Mlle. Rosa. Dois anos após ingressar na
escola, Martha realiza os exames e tem ótimo desempenho.
• FÉRIAS NO CORTIÇO: Martha adoece quando volta a passar os dias na
“alcova úmida e escura”. Passava as tardes brincando com Rita e
Maneco, o qual se tornava viciado em bebida oferecida por Seu
Joaquim, vendeiro da esquina. Carolina, como sempre, trabalhava.
Um dia, a ilhoa, que sempre agira de modo bruto, chama as crianças a
fim de lhes oferecer doces. Maneco surge para pegar sua porção
bêbado, e leva uma surra de socos da mãe. Carolina conduz o irmão
para a cama, enquanto a mãe chora. Mais tarde, já em seu quarto,
Martha escuta a discussão entre a ilhoa e o marido, na casa da
vizinha.
Capítulo 3
• EPIDEMIA NO CORTIÇO: Martha contrai difteria e sarampo ao final das férias. A
mãe cerca a filha de cuidados e mimos; Martha, cheia de desejos inacessíveis,
revolta-se com a mãe que lhe compra uma boneca inferior à de Lucinda.
• RETORNO ÀS AULAS: Martha volta à escola acompanhada agora de Rita. Seu
êxito nos estudos faz com que se torne predileta das mestras. Mais tarde, porém,
a mãe julga que ela já não necessita de mais instrução e, com 11 anos, já pode
ajudá-la nas tarefas da casa. Sua inabilidade logo leva a mãe a desistir dessa ideia
e Martha retorna aos estudos. Um dia, após ouvir uma conversa entre uma
auxiliar e a mestra sobre como era bom ter um emprego, Martha motiva-se a
seguir a carreira de professora. Dedicada, ganhava prêmios na escola que a mãe
guardava.
• MANECO: A ilhoa passa uma noite na prisão, após agredir Seu
Joaquim, culpando-o pela constatação feita por um médico de que
Maneco não tinha cura, morreria em breve. Cabe, como sempre, a
Carolina cuidar dos irmãos mais novos. A mãe de Martha é a única
que a questiona sobre inchaço nas pernas.
Capítulo 4
• MORADORES DO CORTIÇO: Melhorias superficiais que o carroceiro português,
proprietário do cortiço, realiza no espaço e a necessidade financeira fazem
Martha e a mãe adiarem os planos de se mudarem. Lá moram também Eulália,
uma “mulata gorda” que, aos sábados, bebia demais e se tornava alvo de
desrespeito de todos, e, às segundas, voltava a procurar trabalho de lavadeira;
uma família galega que trabalhava numa fábrica de chinelos; havia ainda tio
Bernardo, “idiota velho que o carroceiro sustentava” em troca de tarefas no
estabelecimento, e que, como o menino Lucas, vivia de restos de comida. Por fim,
havia dois rapazes tiroleses, o carpinteiro Túlio e Giovanni, que dividiam o
mesmo cômodo até Giovanni matar o companheiro, causando alarde no cortiço.
Martha passa dias muito abalada com o episódio.
• SOBRE O PAI: Um dia, enquanto trabalhavam engomando as roupas,
a mãe contou a história de como conhecera o pai de Martha, quando
ainda moravam em Minas. A mãe recebera pouca instrução, casou-se
mesmo com a objeção do avô de Martha, que em breve morreria
cheio de dívidas de jogo. O casal mudou-se então para o Rio de
Janeiro onde levava uma vida com modesto conforto e o pai, para
juntar o dote que deixaria à filha, pôs-se a trabalhar como caixeiro
viajante. Em uma das viagens, roubaram-lhe o dinheiro dos patrões e
não suportando as acusações, suicidou-se. Aquela foi a primeira vez
que Martha chorou a morte do pai.
Capítulo 5
• NOTÍCIAS BOAS E RUINS: Martha torna-se nervosa, irritadiça, sempre
temendo alguma tragédia. Nessa época, morre o menino Maneco, o
que deixa todo o cortiço triste. Martha, porém, recebe na escola a
boa nova de que será contratada. Assim que conta para a mãe,
ambas decidem procurar uma casinha para alugar, próxima ao
colégio. O valor, contudo, consumiria todo o ordenado de Martha,
mas a vergonha de ser vista no cortiço por um rapaz que parecia estar
olhando para ela durante uma aula na Escola Normal faz com que se
decida pela mudança. Ela nunca mais veria o rapaz que,
provavelmente estaria olhando para a sua professora e não para ela.
Capítulo 6
• MUDANÇA: Para se manterem na nova casa, a mãe de Martha trabalha com mais
afinco do que antes, Martha, por sua vez, dedica-se seriamente aos estudos e ao
trabalho na escola. Chega aos 20 anos, sem experiências da vida social e tomada
de amor pelo rapaz desconhecido. A pedido da mãe, a mestra a convida para a
comemoração de aniversário do seu marido. Constrangida diante da casa
elegante da professora e da espontaneidade dos convidados, Martha, após
dançar desajeitadamente com um senhor que estava mais interessado na mesa
de jogos. Durante o chá, percebe-se alvo de olhares dos rapazes, quando guarda
pastilhas na bolsa para compartilhar com a mãe. Finalmente, percebe estar muito
atrasada para encontrar a mãe que a aguardaria na frente da casa. Sai sem se
despedir, mas percebe, no dia seguinte, que a mestra sequer notara sua
desaparição.
Capítulo 7
• FÉRIAS NO CAMPO: Uma “tosse cruel e uma febrinha impertinente”,
vertigens e mau humor levaram o médico a indicar casamento a
Martha, que estaria sofrendo de histerismo. Viagens e distrações
também serviriam. Assim, mais uma vez a pedido da mãe, a mestra
leva-a para passar um mês de férias em uma casa de campo em
Palmeiras da Serra. Lá conhece um primo da mestra, Luiz, jovem
sedutor que encanta Martha.
Capítulo 8
• DECEPÇÃO AMOROSA: Os dias no campo fazem Martha e Luiz
ficarem muito próximos. Uma outra hóspede, porém, jovem
americana que acompanhava o pai, atrai a atenção do rapaz. No dia
em que a família da mestra se prepara para retornar, Martha flagra o
rapaz trocando juras de amor com a moça. Entristecida, volta para
casa e não fala com a mãe sobre a decepção. A mãe, por sua vez, tece
elogios a um freguês, Miranda, que lhe adiantara o pagamento para
que Martha pudesse fazer a viagem.
Capítulo 9
• DESTINOS DIFERENTES: O temperamento irregular de Martha torna-se mais
evidente, fazendo-a oscilar entre momentos de silêncio e outros de choro e
irritabilidade, a ponto de, às vezes, precisar faltar às aulas e, por isso, sofrer
descontos em seu ordenado. A mãe, zelosa, trabalha ainda mais para garantir à
filha banhos de mar que o médico recomendara. Um domingo, passeando pelo
Engenho Novo, deixa sua mãe descansando da caminhada e se afasta um pouco.
Enquanto observava as casas pobres da região, surpreende-se ao reconhecer
Clara Sylvestre, agora uma extravagante mulher de vestido justo, cabelos loiros e
chapéu de plumas. Ambas ficam constrangidas; Clara diz estar ali para amparar a
filha de uma criada sua que falecera, mas, imediatamente, em seguida, rapazes
passam chamando-a intimamente por “Clarinha”. Ela parte dizendo que não
merece a amizade de Martha.
• A professora comenta, um dia, que Luiz se casará com sua sobrinha,
Leonor. Entristecida, Martha dedica-se aos estudos. Logo depois,
anuncia-se a data do concurso para professoras das escolas públicas,
tão ansiado por Martha e sua mãe. Miranda, o mesmo que
emprestara dinheiro necessário para a viagem até Palmeiras, é quem
lhes trouxera o jornal contendo o anúncio.
Capítulo 10
• PERDA DOS SONHOS: Miranda, que assistira ao concurso, conta à
mãe que Martha saíra-se bem. Sua nomeação como professora sai
no dia do casamento de Luiz. Logo depois a mãe anuncia que
Miranda pedira a mão da jovem em casamento. Havia se apaixonado
por ela depois de ler as cartas enviadas à mãe durante suas férias no
campo. Martha diz que não planejava se casar, preferia preservar a
autonomia conquistada com sua profissão. A mãe a alerta para os
riscos que uma mulher só enfrenta. Martha revolta-se com a
impossibilidade de realizar seus sonhos e decide casar-se como forma
de vingança contra sua “imaginação de moça”.
Capítulo 11
• O NOIVO: Miranda revela-se um homem simples, honesto, mas não
desperta nenhum interesse em Martha, que apenas observa à mãe
sua linguagem despreocupada, com “pequenos erros de pronúncia ou
de gramática, muito vulgares”. A mãe responde que “nem sempre os
maridos mais ilustrados eram os melhores”. Segundo ela, o homem
inteligente, se não encontra na esposa alguém que entenda suas
ideias, desiste de compartilhar com ela seus projetos, anulando-a. Já
uma esposa mais inteligente que o marido deve ser perspicaz para
nivelar-se a ele, que compartilhará sem temor suas confidências.
• NOVIDADES: Martha prepara-se para assumir o cargo em uma escola
do Engenho Novo e organiza seu enxoval de casamento. Um dia, na
estação de trem, ela e a mãe encontram com a ilhoa, antiga vizinha
do cortiço. Ficam sabendo que Carolina casara-se com um marido
violento que a explorava e morava em outro cortiço; Rita estava para
se casar com um barbeiro de mau gênio; o marido perdera as pernas
após ser atropelado por uma carroça.
• Na véspera do casamento, Martha encontra uma carta com versos de
Luiz e a queima junto com outros papéis.
Capítulo XII
• CASAMENTO: Após a celebração modesta, a vida de casada se mostra
tranquila, respeitosa, mas sem manifestações apaixonadas. A mãe de
Martha adoece 8 dias depois do casamento e foi desenganada pelo
médico que a examinou. Depois de alguns dias de agonia, dá um beijo
em Martha e pede que ela saia do quarto. Ao retornar, Martha
encontra a mãe já sem vida.
Personagens
Família: declínio, resiliência e
honra
• Mãe: chama-se Martha, como a filha. Órfã de mãe aos 3 anos, foi criada sem demonstrações de
carinho pelo pai, viciado em jogos de azar. Aprendeu a ler e escrever precariamente. Conheceu o
futuro marido em um baile. Seu pai foi contrário ao casamento por ser o rapaz um jovem pobre.
Ainda assim o casamento ocorreu. Quando seu pai morreu, falido por causa do vício, mudaram-se
para o Rio de Janeiro, mas ficou viúva quando a filha ainda era pequena. Mãe extremamente
dedicada, trabalha exaustivamente tentando proteger a filha. Resignada com a vida de
sofrimento, jamais reclamava ou impacientava-se. Após a viuvez e a perda da casa, mudou-se
com a filha para um cortiço e garantiu o sustento modesto engomando roupas. Aceitava
passivamente sua condição e depositava suas esperanças na felicidade da filha. Morreu, com
problemas no coração, dias depois de vê-la casada.
• Pai: no Rio de Janeiro, conseguiu várias escriturações comerciais que forneceu algum conforto à
família. Quando a filha nasceu, querendo deixar-lhe um dote, fez-se caixeiro viajante, empregado
de comércio que viaja por conta de uma firma, função que indica a origem burguesa de Martha.
Numa das viagens, teve o dinheiro dos patrões roubado e foi ameaçado de prisão, o que o levou
ao suicídio.
Cortiço de São Cristóvão:
vergonha
• Ilhoa (natural de Madeira ou Açores, em Portugal): vizinha que costumava receber Martha quando a
mãe saía a fazer entregas. Bruta, batia nos filhos, discutia com o marido. Anos mais tarde, Martha e
mãe a reencontram na estação de trem: “O seu cabelo encaracolado e negro, agora branco, o rosto
denegrido, descaído em quatro rugas fundas: das narinas ao queixo, dos lacrimais às faces."
• Carolina: filha mais velha da vizinha. Bondosa, altruísta, dedica-se às tarefas da casa e aos cuidados dos
irmãos. Terminará casada com um homem violento, dois filhos, morando em um cortiço na Gamboa.
• Maneco: filho da ilhoa, “tinha oito anos, era magro, orelhudo e pálido; cheirava sempre a cachaça e
vivia fumando as pontas de cigarro encontradas no chão”. Levado ao vício pelo dono da quitanda,
morrerá em pouco tempo.
• Rita: filha mais nova da ilhoa, que, com cinco anos, era “dona de um vasto vocabulário de insultos. De
resto, bonita, morena e engraçada. Começará a frequentar a escola com Martha. Anos depois, estará
prestes a se casar com um barbeiro de personalidade forte, segundo a mãe.
• Marido da ilhoa: saía de madrugada para o trabalho e voltava apenas à noite.
• Lucas: “mulatinho” mais novo que Martha, mentiroso, sujo.
• Seu Joaquim: vendeiro cuja quitanda fica na esquina próxima ao cortiço. Diverte-
se dando álcool para crianças.
• Proprietário do cortiço: um carroceiro português, morava com a família na
estalagem.
• Eulália: “mulata gorda”, lavadeira, dada a bebedeiras.
• Família galega: mulher, marido e duas filhas moças, operários de uma fábrica de
chinelos, “iam todos os domingos para a casa de um tio no subúrbio e fechavam-
se às horas da comida para não repartirem os restos [...]”
• Tio Bernardo: “idiota velho”, “demente, negro velho e hidrópico”, que varria a
calçada e lavava os esgotos em troca do sustento fornecido pelo proprietário.
• Túlio: carpinteiro esforçado, economizava para buscar a noiva que deixara na
Itália. Será morto pelo amigo Giovanni.
• Giovanni: amigo que morava com Túlio e que o mata para roubar suas
economias
Fregueses da mãe: doações,
humilhações, casamento
• Mãe de Lucinda: doa roupas da filha para Martha; é ela quem dá a ideia à mãe de
mandar a menina para a escola.
• Lucinda: filha mais nova da freguesa; exibe-se com sua boneca, Mlle. Rosa, seus
brinquedos e sua aparência, constrangendo Martha.
• Filha mais velha da freguesa: Mais gentil, despede-se com um beijo no rosto de Martha.
• Miranda: Solicitador (exerce a função de advogado, sem ter diploma), freguês antigo da
mãe, tem cerca de 40 anos. Adiantou-lhe dinheiro para que Martha pudesse passar as
férias no campo com a família de D. Anninha. Tempos depois, levou para elas o jornal em
que se anunciava o concurso para professoras nas escolas públicas. Acompanhou o
desempenho de Martha no concurso e, em seguida, pediu à sua mãe autorização para
casar-se com a jovem. Era um bom homem, mas não despertava a afeição de Martha,
que reparava ainda nos descuidos com a linguagem.
Escola: convívio social e projeto de
vida
• Mathilde: doze anos, “mulatinha”, frequentava a escola há três anos, mas “Era pouco
inteligente e não passava do Segundo livro de leitura por mais esforços que a professora
fizesse”. Foi a primeira amiga de Martha nas aulas e a ajudava nas primeiras lições.
Acusada de furto, passou a ser marginalizada; passa a reagir com agressividade e
termina expulsa da escola.
• Clara Sylvestre: amiga que se tornará nova companhia de Martha. “era alegre, bonita e
forte; repartia comigo sua merenda [...] Era uma das meninas mais asseadas do colégio, a
mais instintivamente coquete”. Sonhava em ter muito luxo. Martha a reencontrará anos
depois em um bairro de subúrbio. Tenta disfarçar sua condição de miséria, dizendo que
está ali para ajudar a filha de uma criada, mas é desmentida por rapazes que a chamam
pelo nome. Ela parte com eles, dizendo não ser digna da amizade de Martha. Suas
roupas extravagantes e seu comportamento sugerem que ela se prostitui.
• D. Anninha: professora que percebe a inteligência de Martha e muitas
vezes a colocava como ajudante. Dará a notícia de que a jovem
passaria a receber salário pela ajuda nas aulas. Acompanhava Martha
na aula da Escola Normal quando surgiu o rapaz por quem Martha se
encantou e que depois pareceu seguir as duas quando iam para casa.
Martha, depois, suspeitará que o interesse do jovem deveria ser pela
professora e não por ela. Mostrava admiração pela inteligência de
Martha e a auxiliou a seguir carreira. A pedido da mãe, convidou-a
um dia para o aniversário do marido, Sr. Jeronymo de Andrade, em
sua casa. Em outra ocasião, levou-a para as férias no campo. Também
esteve presente no casamento de Martha.
• Adjunta: Assistente da professora que comenta a felicidade de ter
uma profissão e um ordenado.
Frustração amorosa
• Luiz: estudante de medicina, primo de D. Anninha, que flerta com Martha durante as
férias no campo, mas depois envolve-se com outra hóspede. Rapaz de “rosto oval,
grande bigode castanho, olhos maliciosos e ternos a um só tempo, cabelo ondeado e
sedoso, mãos finas, esguias e brancas.” Casa-se, mais tarde, com Leonor, sobrinha da
professora.
Espaço Rua Direita, no Rio de Janeiro, em pintura de Félix Taunay
(1795-1881)
Espaço
degradante: o
cortiço de São
Cristóvão
“Políticas de controle e limpeza das habitações coletivas e dos espaços "imundos"
das cidades foram alvos das batalhas dos poderes públicos, os quais recorriam aos
ideais de racionalidade científica, "ordem" e "progresso" para justificarem sua
intervenção, a despeito das diferenças sociais e das lutas de classes. Apontando
para a necessidade de higienizar e sanear, vacinar, construir diques e lavadouros,
habitações salubres, edifícios, escolas e colégios etc., os higienistas, médicos e
demais dirigentes imperiaisintentavam não apenas transformar e modernizar as
cidades, mas atingir os costumes e hábitos da população. “
(SCHUELER. Crianças e escolas na passagem do Império para a República. São Paulo: Rev. bras.
Hist. vol.19 n.37. Sept.1999)
Espaço iluminado:
as novas
perspectivas na
escola pública
Tempo na
narrativa
Memória: avaliação do passado
Tempo da enunciação Tempo do enunciado
• Martha adulta, perspectiva • Martha em processo de
madura. formação: da infância até o
• Avaliação de fatos e casamento.
comportamentos possibilitada • Sem registro precisamente
pelo distanciamento temporal. datado.
• Formação de cortiços e de
escolas públicas remetem à
realidade contemporânea ao
período da publicação.
Estilo
literário
“Júlia Lopes de Almeida […], utilizando os
modelos convencionais masculinos, apresenta
uma ficção feminina que reúne os movimentos
literários e ideologias sociais e científicas de sua
época adaptando-as a um feminismo que não é
confrontante com os padrões vigentes, mas
também certamente não se enquadra nos
‘bastidores’ do patriarcado brasileiro
(Eisenhart, “Primeira-Dama Tropical: a cidade e o corpo
feminino na ficção de Júlia Lopes de Almeida”. Revista Mester
, V. XXXV. 2006, pág. 50).
Entre Romantismo e Realismo-
Naturalismo
ROMANTISMO REALISMO-NATURALISMO
• linguagem elevada, poética, • imagens grotescas e zoomorfização.
metafórica. • representação objetiva da pobreza,
• valorização do esforço do da desigualdade social, do
preconceito, do casamento como
indivíduo, meritocracia exigência social; análise determinista.
burguesa.
• Abordagem positivista sobre o papel
• representação idealizada da da mulher na sociedade.
figura materna, do sacrifício • protagonista com desvios de
resiliente e do sentimento conduta, sem idealização.
amoroso.
Principais
temas
Condição da mulher no século
XIX
Acesso à educação no final do
Segundo Império
“A formação educacional era de
fato uma maneira eficaz de
distinção social. De acordo com o
censo de 1872, a taxa de Constituição Reforma do Reforma
de 1824: Ensino
analfabetismo no país era de gratuidade de
eleitoral de
primário e 1882: mantém
82,3% para pessoas de cinco anos instrução secundário na critério de
ou mais, situação que se mantém primária aos Corte: acesso alfabetização
cidadãos. às escolas à
bastante inalterada até o segundo para pleno
população exercício de
censo, realizado em 1890 (82,6%), livre e direitos
já no início da República.” vacinada. políticos.
(SCHWARCZ, L. Lima Barreto: triste visionário)
Educação: distinção de gênero e de
classe
“O suposto geral era que o ensino
primário seria suficiente para as Década de 1870: crescimento do número de escolas
camadas pobres. Já o ensino públicas na corte (de 45 para 95). Surgimento de
prédios educacionais com arquitetura adequada
secundário não era obrigatório [...]. para atender até 600 crianças.
Tanto o curso secundário como o
superior, aqueles que facultavam a
entrada para atividades intelectuais Escolas primárias especializadas por gênero.
mais prestigiosas e para os cargos
públicos, ficavam nas mãos das classes
senhoriais, sendo que o restante da
população deveria contentar-se com a Currículo para meninas: restrições nos conteúdos de
álgebra, geometria, gramática, história e geografia.
dedicação aos trabalhos manuais.”
(SCHWARCZ, L. Lima Barreto: triste visionário)
“Não sejamos excêntricos
e singulares. Deus deu
barbas ao homem, não à
mulher”*
* Visconde de Cairu (1756-1835)
“[...] para as garotas que frequentavam o
ensino primário, a doutrina cristã, a leitura, a
escrita e o cálculo mais elementar pareciam
suficientes, justamente com as aulas de
bordado e costura. A formação das meninas
visava à vida do lar, cosméstica, sendo a pública
reservada aos homens. Por isso, os poucos
casos que alcançavam o secundário eram
geralmente direcionados para o magistério
feminino, sobretudo a partir de 1870”
SCHWARCZ, L. Lima Barreto: triste visionário
Educação para
meninas
LEI GERAL DE 1827, primeira lei educacional do país
Abordagem positivista
na representação da
mulher
Magistério
“Em 1920, o Código Civil brasileiro ainda negava à
esposa o direito ao domicílio, à prole, ao alimento, à
dignidade e à vida. Um homem “insatisfeito” no
casamento podia impor castigos físicos à mulher,
expulsá-la de casa, tomar-lhe os filhos, privá-la de
sustento, substituí-la por outra mulher e, em caso de
adultério, com ou sem provas, matá-la – o júri o
absolveria.”
Casamento:
exigência social “À mulher desquitada só restavam três opções: voltar para
a casa dos pais, onde seria mal recebida e criticada pelo
fracasso de seu casamento; a prostituição, pela mesquinhez
do mercado de trabalho e por ela não er nenhum preparo
profissional; e a união com um novo homem que ela viesse
a amar, mas sabendo que teria o repúdio da sociedade por
‘não ser casada’ – e não poderia se casar de novo enquanto
seu ex-marido fosse vivo. Havia uma quarta opção,
raramente considerada: o convento”.
CASTRO, R. Metrópole à Beira-mar
Mulheres
que
marcaram a
educação
brasileira