SABER CUIDAR: A ÉTICA DO
HUMANO
LEONARDO BOFF
Disciplina: Ética em Psicologia
LEONARDO BOFF
Teólogo,escritor e
professor universitário
brasileiro, expoente da
Teologia da Libertação .
• No Brasil e conhecido
internacionalment
e por sua defesa
dos direitos dos
pobres e excluídos
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Introdução à reflexão
• A porta de entrada não pode ser a razão calculatória,
analítica e objetivista.
• Só nós humanos podemos sentar-nos à mesa com o
amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro,
tomar com ele um copo de cerveja e trazer-lhe
consolação e esperança.
• o dado originário não é o logos, a razão e as
estruturas de compreensão, mas o pathos, o
sentimento, a capacidade de simpatia e empatia, a
dedicação, o cuidado e a comunhão com o diferente.
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• “E com o coração
(sentimento) que se
vê corretamente; o
essencial é invisível
aos olhos”.
Antoine de Saint Exupéry
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• A reflexão contemporânea resgatou a
centralidade dos sentimentos, a importância
da ternura, da compaixão e do cuidado,
especialmente a partir da psicologia profunda
de Freud, Jung, Adler, Rogers e Hillman, e
hodiernamente a partir da biologia genética e
das implicações antropológicas da física
quântica la Niels Bohr (1885-1962) la Werner
Heisenberg (1901-1976).
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• Foi com cuidado que “Cuidado” moldou o ser
humano. empenhou aí dedicação, ternura,
devoção, sentimento e coração.
• “Nossa situação é a seguinte: na atual confusão de
episódios racionalistas e técnicos perdemos de
vista e nos despreocupamos do ser humano;
precisamos agora voltar humildemente ao simples
cuidado... é o mito do cuidado – e creio, muitas
vezes, somente ele – que nos permite resistir ao
cinismo e à apatia que são as doenças psicológicas
do nosso tempo.” (May, psicanalista).
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Desafio
• O que nossa civilização precisa é superar a
ditadura do modo-de-ser-trabalho-produção-
dominação. Ela nos mantém reféns de uma
lógica que hoje se mostra destrutiva da Terra e
de seus recursos, das relações entre os povos,
das interações entre capital e trabalho, de
espiritualidade e de nosso sentido de pertença
a um destino comum.
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Importa colocar cuidado em tudo
• Para isso urge dimensão desenvolver a
dimensão que está em nós. Isso significa:
conceder a cidadania à nossa capacidade de
sentir o outro, de ter compaixão com todos os
seres que sofrem, humanos e não humanos,
de obedecer mais à lógica do coração, da
cordialidade e da gentileza do que à lógica da
conquista e do uso utilitário das coisas.
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Centralidade ao cuidado
• Significa renunciar à vontade de poder que
reduz tudo a objetos, desconectados da
subjetividade humana.
• Este é o modo-de-ser que resgata a nossa
humanidade mais essencial.
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1.Cuidado com nosso único planeta
• Para cuidar do planeta precisamos todos passar pela
alfabetização ecológica e rever nossos hábitos de consumo.
Importa desenvolver uma ética do cuidado.
1. Construir uma sociedade sustentável.
2. Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos.
3. Melhorar a qualidade da vida humana.
4. Conservar a vitalidade e a diversidade do planeta.
5. Permanecer nos limites da capacidade de suporte Terra.
6. Modificar atitudes e práticas pessoais.
7. Permitir que as comunidades cuidem de seu próprio meio-
ambiente.
8. Gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e
conservação.
9. Constituir uma aliança global.
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2. Cuidado com o próprio nicho ecológico
• Cada pessoa precisa descobrir-se como parte do
ecossistema local e da comunidade biótica, seja em
seu aspecto natureza, seja em sua dimensão de
cultura.
• O que vale para o indivíduo vale também para a
comunidade local.
• Esse cuidado com o nicho ecológico só será efetivo
se houver um processo coletivo de educação, em
que a maioria participe, tenha acesso a
informações e faça “partilha de saberes”
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3. Cuidado com a sociedade sustentável
• Não se trata somente de impor “Limites ao
Crescimento”, mas de mudar o tipo de
desenvolvimento.
• Na prática a sociedade deve mostrar-se capaz
de assumir novos hábitos e de projetar tipo de
desenvolvimento que cultive o cuidado com
os equilíbrios ecológicos e funcione dentro
dos limites impostos pela natureza.
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Declaração sobre o direito dos povos
• Numa conhecida declaração sobre o Direito dos
Povos ao Desenvolvimento outubro de 1993,
declarou a Comissão dos Direitos da ONU: “O
desenvolvimento é um processo econômico, social,
cultural e político abrangente, que visa o constante
melhoramento do bem-estar de toda a população e
de cada pessoa, na base de sua participação ativa,
livre e significativa e na justa distribuição dos
benefícios resultantes dele”. Nós acrescentaríamos
ainda, no sentido da integralidade, a dimensão
psicológica e espiritual do ser humano.
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Compromisso coletivo
• Tais valores somente se alcançam se há um
cuidado na construção coletiva do social, se há
convivialidade entre as diferenças,
cordialidade nas relações sociais, compaixão
com todos aqueles que sofrem ou se sentem à
margem...
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4. Cuidado com o outro, animus e anima
• Não há só a rede de relações sociais. Existem as
pessoas concretas, homens e mulheres. O ser
humano é, na essência, alguém de relações
ilimitadas.
• O eu somente se constitui mediante a dialogação
com o tu.
• O rosto possui um olhar e uma irradiação da qual
ninguém pode subtrair-se. O rosto e o olhar lançam
sempre uma pro-posta em busca de uma res-posta.
Nasce assim a res-ponsabilidade, a obrigatoriedade
de dar res-postas.
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Visão psicológica
• Na linguagem cunhada por C. Jung cada um
possui dentro de si o animus (a dimensão do
masculino) e a ânima (a dimensão do
feminino). O homem desperta na mulher sua
dimensão expressa culturalmente pelo modo-
de-ser-trabalho; a mulher evoca no homem
sua dimensão feminina, concretizada
historicamente pelo modo-de-ser-cuidado.
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Quebra de paradigmas
• Cuidar do outro animus-anima implica um esforço
ingente de superar a dominação dos sexos,
desmontar o patriarcalismo e o machismo, por um
lado, e o matriarcalismo e o feminismo por outro.
Exige inventar relações que propiciem a manifestação
das diferenças não mais entendidas como
desigualdades, mas como riqueza da única e
complexa substância humana. Essa convergência na
diversidade cria espaço para uma experiência mais
global e integrada de nossa própria humanidade, uma
maneira mais cuidada de ser.
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5. Cuidado com os pobres, oprimidos e
excluídos
• Um dos maiores desafios lançados à política
orientada pela ética e ao modo-de-se-cuidado
é indubitavelmente o dos milhões e milhões
de pobres, oprimidos e excluídos de nossa
sociedade.
• Nada agride mais o modo-de-ser-cuidado do
que a crueldade para com os próprios
semelhantes.
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6. Cuidado com nosso corpo na saúde e na
doença
• Corpo seria uma parte do ser humano e não sua
totalidade.
• O corpo é aquela porção do universo que nós animamos,
informamos, conscientizamos e personalizamos.
• Corpo é um ecossistema vivo que se articula com outros
sistemas mais abrangentes.
• Pertencemos à espécie homo que pertence ao sistema
Terra, que pertence ao sistema galáctico e ao sistema
cósmico.
• Nele funciona um sistema interno de regulação de frio e
de calor, de sono e de vigília, dos fenômenos da digestão,
da respiração, das batidas cardíacas, entre outros.
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7. Cuidado com a cura íntegra do ser humano
• Nas grandes tradições terapêuticas da
humanidade sempre houve a percepção de
que a cura é um processo global, envolvendo a
totalidade do ser apenas e não a parte
enferma.
• A cura acontece quando se cria um novo
equilíbrio humano. Então o pecado-doença dá
lugar à graça-cura.
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8. Cuidado com a nossa alma, anjos e os demônios
interiores
• A alma, a semelhança do corpo, representa a totalidade do ser
humano na medida em que ele é um ser vivo com
interioridade e subjetividade (anima em latim significa ser
vivo, donde deriva animal).
• Mas o ser humano é portador de liberdade e de
responsabilidade. A liberdade lhe é dada como capacidade de
modelar essa matéria ancestral e o mundo ao seu redor.
• A liberdade lhe é dada como possibilidade para decidir se
cultiva os anjos bons ou os demônios interiores.
• A ele cabe criar uma medida justa de equilíbrio, tirando partido
da energia dos anjos e dos demônios e colocando-a a serviço de
um projeto que se afina com a sinergia e a cooperação do
universo. É sua chance de felicidade ou de tragédia.
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Reflexão...
• Como domesticar tais forças para que sejam
construtivas e não destrutivas?
• Em que sentido de vida ordenamos todas
estas dimensões?
• O cuidado é o caminho e oferece uma direção
certa.
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9. Cuidado com o nosso espírito, os grandes sonhos e
Deus
• O ser humano-corpo-alma tem uma singularidade: pode sentir-se parte
do universo e com ele conectado; pode entender-se como filho e filha da
Terra, um ser de interrogações derradeiras, de responsabilidade por seus
atos e pelo futuro comum com a Terra.
• Ele não pode furtar-se a perguntas que lhe surgem ineludivelmente: *
1. Quem sou eu?
2.Qual é meu lugar dentro desta miríade de seres?
3.O que significa ser jogado nesse minúsculo planeta Terra?
4.Donde provém o inteiro universo?
5.Quem se esconde atrás do curso das estrelas?
6. O que podemos esperar além da vida e da morte?
7.Por que choramos a morte dos nossos parentes e amigos e a sentimos
como um drama sem retorno?
* de que não se pode esquivar ou furtar
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10. Cuidado com a grande travessia, a morte
• A entropia se manifesta em toda parte e também no tecido
de nossa vida até consumir todo o nosso capital energético.
então morremos. É o termo do homem-corpo.
• E o que acontece com o homem-alma-espírito? Qual é seu
destino? Ele tem outro percurso. Ao imergir neste mundo
começa a nascer, vai nascendo cada dia mais, até acabar de
nascer.
• O que significa a morte? Para o homem-corpo representa o
termo de uma caminhada por esse mundo espaço-temporal.
• Na morte se dá, então, o verdadeiro nascimento do ser
humano. Ele implode e explode para dentro de sua plena
identidade.
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Referência
• BOFF, Leonardo .
Saber cuidar: ética do humano, compaixão pel
a terra
. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. 199p.
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