Anticoncepção não
hormonal
Ana Júlia Sampaio e Laura Ferraz
INTERNATO DE SAÚDE DA MULHER - 2025
Introdução:
Exercer a atividade sexual e planejar o número de filhos é um direito
de todos. Neste contexto, a Lei 9.263 de 12/01/1996 define o
planejamento familiar como “conjunto de ações de regulação da
fecundidade que garanta direitos iguais de constituição, limitação ou
aumento da prole pela mulher, pelo homem ou pelo casal”.
Atualmente, há uma grande e crescente variedade de métodos
efetivos para controle da fertilidade.
A disponibilidade é essencial para atenção à saúde da mulher na
prevenção de gestações indesejadas.
Para isso, o estudo da efetividade dos contraceptivos com base nas
orientações dos critérios clínicos de elegibilidade da Organização
Mundial de Saúde (OMS) são essenciais.
Conceitos:
Eficácia: índice de Pearl → quanto menor o índice, maior a eficácia.
Segurança: avalia efeitos indesejáveis e possíveis complicações.
Escolha do método: critério mais importante, corresponde a escolha
da usuária ponderada pelo médico.
Critérios de elegibilidade:
A: sem contraindicação
B: benefícios > riscos
C: riscos > benefícios (contraindicação relativa)
D: contraindicação absoluta
1. Eficácia
Os métodos com maior eficácia possuem índice menor do que 1.
OMS recomenda índice de falha menor que 4 gestações por 100
mulheres/ano.
2. Segurança
Potencial do método contraceptivo causar riscos à saúde de quem o
utiliza.
É avaliado pelos efeitos indesejáveis e possíveis complicações.
Quanto maior a segurança, menor a chance qualquer tipo de
problema à saúde de quem faz seu uso.
3. Escolha do método
O critério mais importante para a escolha de um método
anticoncepcional é a opção feita pela paciente sempre privilegiar
essa opção e considerá-la prioritária.
Entretanto, o método escolhido nem sempre poderá ser usado, tendo
em vista características clínicas que podem contraindicar seu uso.
4. Critérios de elegibilidade
Métodos:
Reversíveis:
1. Métodos de barreira
2. DIU de cobre
3. Comportamentais
Definitivos:
4. Vasectomia
5. Ligadura tubária
Métodos de barreira:
Impedem a ascensão dos espermatozoides do trato genital inferior
para a cavidade uterina por meio de ações mecânicas e/ou químicas.
São eles:
1. Preservativos: protegem contra IST, baixo custo, fácil acesso, risco
de ruptura se uso inadequado.
2. Espermicidas: substâncias químicas associadas a base de creme
introduzidas na vagina que agem dissolvendo a membrana do
espermatozoide.
3. Diafragma: deve ser usado junto com espermicida, dura de 3-5
anos, a vagina deve ser medida por um profissional para uso.
4. Esponjas: irritação, não protege contra HIV, HPV, herpes, leucorreia.
Preservativos
Os preservativos masculinos, seguidos dos femininos, são os mais
utilizados atualmente - independe de prescrição médica.
Dois tipos de matéria prima: borracha natural (látex) e borracha
sintética (“plástico”).
Proteção contra gravidez e IST.
Recomendado usar em todas as relações sexuais, independente da
utilização de outro método.
Preservativo masculino
Restrição ao uso: alergia ao látex nitrilo, poli-isopreno e poliuretano.
Taxa de falha de 2 a 15% no primeiro ano (uso perfeito x típico) não
utilização correta pelo usuário e ruptura.
Vantagens:
- Protege contra IST’s.
- Fácil acesso.
- Gratuito – SUS.
- Baixo custo.
Desvantagens:
- Perda de ereção no ato.
- Ruptura.
- Não utilizar simultâneo a outro preservativo.
Preservativo feminino
Formato de tubo de
poliuretano com dois anéis
flexíveis nas extremidades.
Anel fechado fica no fundo
da vagina e o anel aberto é
posicionada na fenda vulvar
e a recobre parcialmente.
Taxas de falha: 5% a 21%,
podendo vir a 2,6% com o
uso correto.
Mais eficaz com
espermicidas.
Contraindicações: prolapsos
vaginais.
Vantagens:
- Protege contra IST.
- Sem efeito sistêmico.
- Inserção fora do intercurso sexual (8h).
- Menos reação alérgica.
- Não precisa ser retirado pós ejaculação.
- Maior resistência.
- Pode ser associado a lubrificantes espermicidas.
Desvantagens:
- Uso incorreto.
- Invaginação.
- Desvio de direção.
- Roturas.
- Proteção parcial herpes e HPV.
- Alto custo.
- Desconforto devido aos anéis.
- Microlesões na mucosa
Diafragma
Circular flexível, capuz macio
de borracha, côncavo, cobre a
parede vaginal anterior e o
colo uterino taxa de
gravidez de 6% a 21%.
São reutilizáveis.
Brasil tamanho 70 a 85mm
de diâmetro e validade 3 anos.
Deve ser usado com
espermicida para potencializar
a eficácia.
Inserir antes da ejaculação e
retirar após 6 horas, não
permanecer por mais de 24h.
Vantagens:
- Inserção fora do intercurso sexual.
- Não precisa ser retirado pós ejaculação (6h).
Desvantagens:
- Depende do médico para avaliar o tamanho adequado do diafragma e forma
de utilização.
- Riscos de alterar a flora vaginal, infecções urinárias.
- Não protege contra HIV, HPV, herpes genital.
Capuz cervical
Dispositivo de borracha ou látex menor que o
diafragma, côncavo, que recobre e adere ao
colo do útero por sucção.
Taxa semelhante ao diafragma.
É usado com espermicida.
No Brasil não é prescrito como método
contraceptivo.
Vantagens:
- Pode permanecer no canal vaginal por 48 a
72h.
- Pode ser usado no prolapso.
Desvantagens:
- Infecção.
- Síndrome do choque tóxico.
- Não usar em HIV ou alto risco.
Espermicida
Substâncias introduzidas na vagina, no máximo 1 hora antes da
penetração vaginal.
Método de barreira química destrói a membrana celular dos
espermatozoides (são efetivos por 2 horas).
Nonoxinol, octocinol, menfegol ou cloreto de benzalcônio.
Apresentação: gelatinas, cremes e espumas, películas, supositórios,
comprimidos e supositórios de espumas. Podem ser usados isolados
ou com condom, diafragma e capuz cervical.
A taxa de gravidez é de 18 a 29%.
Risco de irritação, lesões e infecções.
Esponja
Dispositivos pequenos, macios
e circulares de poliuretano que
contém espermicida (nonoxinol-
9), colocado no fundo da vagina
e recobre o colo uterino.
Umedecer com água filtrada e
espermicida antes da
introdução.
A taxa de gravidez é de 12% a
24%.
Eficaz por 24 horas. Após
ejaculação permanecer por 6
horas.
DIU de cobre
(T380A):
Disponível no SUS.
Longa duração: 10 anos.
Mecanismo: o cobre provoca reação
de inflamação local, tornando o
endométrio hostil para os
espermatozoides, impedindo a
ascensão de tais, além de alterar a
motilidade dos espermatozoides
devido alteração do muco cervical
→ ação inflamatória no endométrio
+ ação espermicida + diminuição
da sobrevida do óvulo.
Reversível, sem efeitos sistêmicos,
permite amamentação.
Contraindicação: gravidez,
sangramento, infecção pélvica,
alteração uterina, câncer
ginecológico, violência sexual.
Riscos: perfuração uterina,
infecção, expulsão, falha
contraceptiva, gravidez ectópica.
Momento para inserção: qualquer período do ciclo, uma vez excluída
a gestação.
Realizar exame ginecológico completo antes da inserção: toque
bimanual e exame especular.
USG não é obrigatório.
Contracepção imediata.
Efeitos colaterais: sangramento irregular ou aumento na quantidade
de sangramento menstrual, dor e aumento na dismenorreia.
Métodos comportamentais
Os métodos comportamentais são opções alternativas de
planejamento familiar para as pacientes que, motivadas por uma
opção religiosa, sociocultural ou filosófica, se interessam por um
método mais "natural" de anticoncepção, independentemente das
maiores taxas de falhas em relação aos métodos atuais, reversíveis,
disponíveis no mercado.
Identificação do período fértil e abstinência sexual nesse período em
mulheres que possuem ciclo menstrual regular.
Barato, sem efeitos colaterais.
Baixa eficácia.
Não protegem contra IST’s.
Períodos de abstinência.
Pontos positivos:
1. Não há necessidade de investimento financeiro.
2. Métodos aceitos pelos seguimentos religiosos.
São eles:
3. Tabelinha: monitoramento do ciclo por 06 meses, abstinência entre o primeiro
e último dia fértil.
4. Billings (muco cervical): avalia as características do muco. Estrogênio deixa o
muco fluído e fino. Progesterona deixa o muco opaco e espesso. Abstinência:
primeiro dia de muco filante até o quarto dia após percepção máxima.
5. Método da temperatura basal: identifica a fase lútea do ciclo menstrual com
base na temperatura corporal → progesterona causa elevação da temperatura
(ovulação). Abstinência: primeiro dia do ciclo menstrual até 03 dias após
elevação da temperatura basal.
6. Método sintotérmico: calendário + sintomas, abstinência do primeiro dia da
menstruação até o quarto dia após o pico das secreções cervicais ou quarto
dia após elevação da temperatura.
7. Coito interrompido.
8. Amenorreia lactacional: suspensão da ovulação durante período de
amamentação exclusiva (critérios: 06m de vida, amenorreia, aleitamento
exclusivo).
1. Tabelinha
(método Ogino-
Knaus)
Abster do coito vaginal entre o primeiro
e o último dia fértil (3 a 4 dias antes da
data da ovulação e até 3 dias depois).
O ciclo menstrual normal tem uma
duração de 21 a 35 dias, sendo padrão o
ciclo de 28 dias.
A ovulação ocorre cerca de 12 a 16 dias
antes da menstruação.
Registrar a duração do ciclo menstrual
por, pelo menos, seis meses, e, a partir
daí, deve ser calculada a diferença entre
o ciclo mais longo e o ciclo mais curto.
Caso a diferença seja superior a seis
dias, o método não deve ser usado.
COMO É FEITO?
1 - Registrar a duração dos ciclos por 6 meses (dia 1 = primeiro dia
da menstruação / último dia = dia anterior à próxima menstruação).
2 - A diferença entre o ciclo mais curto e o mais longo deve ser no
máximo de 6 dias.
3 - Subtrair 18 do ciclo mais curto e 11 do ciclo mais longo.
Ex.:
Ciclo mais curto - 26 / ciclo mais longo - 30
26 - 18 = 8 início do período fértil = 8º dia
30 - 11 = 19 término do período fértil = 19º dia
Evitar relações entre o 8º e o 19º dias do ciclo.
2. Billings
Avaliação do muco cervical
- Período seco: 1º ao 7-10º dia do ciclo (pré-
ovulatório).
- Período úmido: início - muco escasso,
opaco e viscoso.
- Dia ápice - claro, transparente e elástico
(clara de ovo) evitar relação sexual por
3 dias.
- Após ovulação - diminui quantidade e
perde elasticidade.
Obs.: evitar relação quando fluxo menstrual
intenso; evitar relação por 2 dias seguidos.
3. Método da temperatura corporal
basal
- Logo após a ovulação, a progesterona liberada pelo corpo
lúteo causa elevação da temperatura corporal em 0,2 a 0,5
graus. Na maioria das mulheres isso ocorre no meio do ciclo
menstrual.
Verificar temperatura diariamente, no mesmo horário
(manhã), da mesma forma, antes de levantar da cama ou se
alimentar.
Após 3 dias da elevação da temperatura, o casal pode ter
relações livremente.
Período de abstinência: dia 1 do ciclo até 3 dias após a
elevação da temperatura.
Eficácia: 1/100 – 6/100.
Limitações: fatores que elevam a temperatura corporal:
estresse, ansiedade, infecções..
4. Método sintotérmico
Combinação dos métodos da temperatura basal e da ovulação, além
da observação de sinais e sintomas (ingurgitamento mamário, dor
pélvica, mudanças de humor).
Abstinência sexual desde o dia 1 do ciclo até o 4º dia após o pico das
secreções cervicais ou o 3º dia inteiro após a elevação da
temperatura.
Ocorrendo um destes fatores, deverá esperar a ocorrência do
segundo para que possa ter relação vaginal desprotegida.
5. Coito
interrompido
• Interrupção sexual antes da
ejaculação, há ejaculação
extravaginal.
• Desvantagens:
- Exige controle ejaculatório.
- - Presença de
espermatozoides no líquido
pré-ejaculatório.
- Interfere no ato sexual do
casal.
• ALTO ÍNDICE DE FALHA! As
taxas de falha são maiores que
20% em 1 ano.
6. Amenorreia lactacional
Este método fundamenta-se na hiperprolactinemia existente em resposta ao
estímulo da sucção durante a amamentação e, consequentemente, níveis de
FSH e de LH insuficientes para estimular o desenvolvimento dos folículos
ovarianos.
Critérios:
1- O bebê deve ter até os SEIS MESES de vida.
2- A nutriz deve estar em AMENORREIA.
3- O ALEITAMENTO deve ser EXCLUSIVO (dia e noite), sem grandes intervalos entre
as mamadas.
É um método de alta eficácia, sendo o índice de falha de 0,5 a 2% em seis meses.
No entanto, a eficácia depende da usuária: em uso rotineiro, ocorre maior risco de
gravidez (2%) e quando usado de forma correta, ocorre menos de 1% de gravidez.
Métodos definitivos:
Mulheres e homens com 21 anos e capacidade civil plena.
Mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e ato cirúrgico.
NÃO precisa do consentimento de ambos os cônjuges.
Presença de cesarianas anteriores não é mais requisito.
Métodos:
1. Laqueadura tubária: interrupção da permeabilidade tubária.
2. Vasectomia: esterilização masculina, interrompe o trajeto do canal
deferente causando oclusão permanente.
Laqueadura tubária
Aconselhamento e orientação SEMPRE!
• Interrupção da permeabilidade tubárea, interrompendo o transporte do
espermatozoide até a região ampular.
• Não interfere na libido.
Vasectomia
• Método de esterilização masculina definitiva.
• Interrompe o trajeto do canal deferente causando uma oclusão
permanente.
• A vasectomia só é eficaz quando todos os espermatozoides são
eliminados do sistema genital, o que pode exigir 20 ejaculações ou 3
meses.
- Metade das gestações pós vasectomia ocorrem nesse intervalo.
Referências bibliográficas
Ministério da Saúde - Brasil. Protocólos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas:
Planejamento Familiar. 2016.
Silva, L.C., Anticoncepção não hormonal: revisão de métodos disponíveis e seu
impacto na saúde reprodutiva. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.
2018.
Santos, M.S. et al. Métodos anticoncepcionais não hormonais: análise da
adesão em um serviço público de saúde. Revista Brasileira de Saúde Materno
Infantil. 2015.
BEREK, Jonathan S. Berek e Novak. Tratado de ginecologia. 16ªedição. Rio de
Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2019.
FEBRASGO. MANUAL DE ANTICONCEPÇÃO. 2015
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia(FEBRASGO).
Tratado de ginecologia. 1 ed. Rio de Janeiro: Elsevier,2019
Obrigada!