Feridas Cirúrgicas:
Definição, Classificação e
Manejo
Apresentação desenvolvida para profissionais de saúde que aborda
de forma completa o processo de cicatrização e complicações de
feridas cirúrgicas.
Baseada em diretrizes clínicas atualizadas para oferecer
informações precisas e relevantes para a prática clínica.
Definição de Ferida Cirúrgica
Ruptura Intencional Corte Instrumental
Quebra planejada da Incisão precisa realizada
integridade da pele e com instrumento cirúrgico
estruturas subjacentes para específico em ambiente
fins terapêuticos. controlado.
Justaposição de Bordas
Planejada para posterior aproximação das bordas, facilitando o
processo de cicatrização primária.
Características Principais
das Feridas Cirúrgicas
Planejamento Prévio Técnica Precisa
Feridas agudas realizadas Provocadas por
em ambiente controlado instrumentos cirúrgicos
com finalidade com cortes limpos e
terapêutica específica. bordas regulares.
Cicatrização Previsível
Tendência à regressão espontânea e completa por primeira intenção
Classificação da Ferida Cirúrgica: Tipos
Determinação de Protocolos
Orienta condutas pós-operatórias
Avaliação de Qualidade
Base para mensuração de cuidados
Previsão de Riscos
Antecipa potenciais complicações
Potencial de Contaminação
Fundamento da classificação
Ferida Cirúrgica Limpa
(Classe 1)
Eletiva e Não-Traumática
Cirurgia planejada sem trauma prévio nos tecidos envolvidos.
Sem Penetração em Tratos
Não há entrada nos sistemas digestivo, respiratório ou geniturinário.
Técnica Asséptica Rigorosa
Manutenção da assepsia durante todo o procedimento cirúrgico.
Ferida Cirúrgica Limpa-Contaminada (Classe 2)
Contaminação Limitada
Penetração Controlada
1 2
Exposição a microorganismos sem
Acesso aos tratos respiratório,
contaminação significativa do campo
digestivo ou geniturinário sob
operatório.
condições controladas.
Ausência de Infecção Procedimentos Comuns
Não há presença de infecção Cirurgias de vias biliares, apêndice e
4 3
estabelecida previamente à vagina são exemplos típicos desta
intervenção cirúrgica. classe.
Ferida Cirúrgica Contaminada (Classe 3)
Violação técnica
Quebra importante da técnica estéril durante procedimento
Trauma recente
Feridas traumáticas com intervenção cirúrgica imediata
Derrame gastrointestinal
Exposição significativa ao conteúdo do trato digestivo
Inflamação aguda
Presença de processo inflamatório não purulento
Ferida Cirúrgica Suja ou
Infectada (Classe 4)
Microrganismos Pré-existentes
Campo operatório já contaminado antes da intervenção cirúrgica.
Infecção clínica estabelecida previamente à cirurgia.
Tecido Desvitalizado
Presença de tecido necrótico ou com baixa viabilidade.
Feridas traumáticas antigas com contaminação prolongada.
Perfuração Visceral
Ruptura de órgãos ocos com extravasamento de conteúdo
contaminado.
Alta carga bacteriana no campo operatório.
Processo de Cicatrização
das Feridas Cirúrgicas
1 Hemostasia
Formação imediata de coágulo para controle do sangramento.
2 Aproximação
Sutura ou grampeamento para justaposição das bordas da ferida.
3 Migração Celular
Células epiteliais migram em 24-48 horas após o reparo.
4 Cicatrização Primária
Processo de reparo com mínima formação de tecido cicatricial.
Fase Inflamatória da
Cicatrização
4-5 24h
Dias de Duração Início dos Sinais
Período inicial crítico para o Manifestação dos sinais clássicos
processo de reparo tecidual. de inflamação após a cirurgia.
48h
Pico Inflamatório
Momento de máxima atividade
celular inflamatória no local da
ferida.
Fase Proliferativa da
Cicatrização
Angiogênese
Formação de novos vasos sanguíneos para nutrir o tecido em
regeneração. Ocorre a partir do 3º dia.
Granulação
Desenvolvimento de tecido conjuntivo frouxo com
capilares. Apresenta-se com coloração avermelhada
característica.
Contração e Reepitelização
Redução do tamanho da ferida e cobertura por novo
epitélio. Aumenta progressivamente a força tênsil.
Fase de Maturação da Cicatrização
Tempo de Cicatrização das Feridas Cirúrgicas
24-48 horas 2 semanas
Cicatrização inicial da epiderme Cicatrização completa em
com início da migração celular condições ideais com cuidados
adequados
12 meses 4-6 semanas
Maturação completa da cicatriz Reabsorção completa de suturas
com resistência máxima do tecido internas absorvíveis
Complicações das Feridas Cirúrgicas
Seroma Hematoma Infecção
Acúmulo de líquido seroso entre as Coleção localizada de sangue no Invasão e multiplicação de
camadas teciduais após o espaço subcutâneo ou mais microrganismos no sítio cirúrgico
procedimento cirúrgico. profundo. com resposta inflamatória
exacerbada.
Seroma como Complicação
Definição Acúmulo de líquido seroso
entre planos teciduais
Incidência Frequente em cirurgias com
grande descolamento (10-
15%)
Sinais Abaulamento, flutuação e
desconforto local
Diagnóstico Clínico, ultrassonografia
quando necessário
Manejo Drenagem por punção,
compressão, curativos
Prevenção Drenos cirúrgicos,
compressão pós-operatória
Hematoma como Complicação
O hematoma é caracterizado pelo acúmulo de sangue no espaço subcutâneo ou profundo. Resulta de hemostasia
inadequada ou distúrbios de coagulação.
Manifesta-se com equimose extensa, dor e aumento de volume local. Requer observação ou drenagem conforme a extensão
Infecção do Sítio Cirúrgico
Sinais e Sintomas Fatores de Risco
• Eritema progressivo além das • Diabetes mellitus descompensado
bordas • Obesidade (IMC > 30)
• Aumento do exsudato purulento • Tabagismo ativo
• Edema e dor desproporcionais • Imunodeficiências
• Febre e mal-estar sistêmico • Procedimentos prolongados Tratamento
Surgimento típico entre 5-7 dias
• Antibioticoterapia específica
após a cirurgia.
• Drenagem de coleções
• Desbridamento se necessário
• Culturas para direcionamento
Deiscência da Ferida Cirúrgica
Definição e Causas
Separação das camadas teciduais previamente aproximadas. Ocorre por tensão
excessiva, técnica inadequada ou infecção.
Classificação
• Superficial: apenas pele
• Parcial: até tecido subcutâneo
• Completa: todas as camadas
Manejo Terapêutico
Varia desde curativos especiais até reabordagem cirúrgica completa, dependendo da
profundidade e extensão.
Prevenção
• Técnica cirúrgica apropriada
• Controle de comorbidades
• Suporte nutricional adequado
Avaliação do Paciente com
Ferida Cirúrgica Complexa
Anamnese Detalhada
Histórico médico, comorbidades, medicações em uso, alergias e
antecedentes cirúrgicos relevantes.
Exame Físico Sistemático
Avaliação das características da ferida: bordas, leito, exsudato, coloração
e tecidos adjacentes.
Avaliação de Sinais Vitais
Monitoramento de temperatura, frequência cardíaca e outros parâmetros
indicativos de processo infeccioso.
Exames Complementares
Cultura de secreções, hemograma, marcadores inflamatórios e exames de
imagem quando indicados.
Curso Fisiológico da Cicatrização da Ferida
Cirúrgica Simples
24-48 horas 1
Rubor e edema periincisional discretos. Início da
migração de células epiteliais.
2 3-5 dias
Diminuição progressiva dos sinais inflamatórios.
Formação inicial de tecido de granulação.
7-10 dias 3
Momento ideal para retirada de pontos ou grampos.
Cicatriz ainda imatura mas resistente.
4 14 dias
Epitelização completa em condições ideais. Cicatriz
com coloração rosada.
12 meses 5
Maturação final da cicatriz. Atingimento da resistência
máxima (80% do tecido original).
Manejo do Paciente
com Ferida Cirúrgica
Bem-vindo à apresentação sobre o manejo adequado de feridas
cirúrgicas. Abordaremos técnicas essenciais de cuidado, tipos de
drenos e enxertos cutâneos.
Nosso foco será a prevenção de infecções e complicações pós-
operatórias, garantindo recuperação mais rápida e eficaz dos
pacientes.
Avaliação do Paciente e
Preparação do Curativo
Avaliação Clínica Fatores de Risco
Verificar sinais vitais e Identificar diabetes,
histórico médico completo imunossupressão e
do paciente. Atentar para desnutrição. Estes fatores
comorbidades que afetam comprometem
a cicatrização. significativamente o
processo de cicatrização.
Preparação
Reunir materiais estéreis necessários. Garantir ambiente limpo
e bem iluminado para o procedimento.
Técnicas de Limpeza e
Preparação da Ferida
Higienização das Mãos
Realizar lavagem rigorosa das mãos com sabão
antisséptico. Utilizar técnica adequada por no mínimo 40
segundos.
Irrigação com Solução Fisiológica
Aplicar solução 0,9% em jato suave. Remover detritos
sem traumatizar o tecido saudável.
Antissepsia
Utilizar clorexidina ou PVPI conforme protocolo
institucional. Aplicar do centro para as bordas.
Tipos de Curativos para Feridas Cirúrgicas
Curativos Semi-Oclusivos Curativos Oclusivos Curativos Especiais
Permitem troca gasosa e saída de Criam ambiente úmido e isolado. Tecnologias avançadas para casos
exsudato. Ideais para feridas com Promovem cicatrização em feridas complexos. Indicados para feridas
drenagem moderada. limpas com pouca drenagem. de difícil cicatrização.
• Gazes não aderentes • Hidrocolóides • Alginatos
• Filmes semipermeáveis • Filmes transparentes • Espumas
Utilização de Antibióticos e Anestesia
Analgesia Preventiva Antibióticos Tópicos Antibióticos Sistêmicos
Administrar medicação 30 minutos Aplicar em feridas com sinais Reservados para infecções
antes do procedimento. Considerar iniciais de infecção. Evitar uso confirmadas. Prescrever após coleta
escala de dor para escolha prolongado para prevenir de material para cultura.
apropriada. resistência bacteriana.
• Sulfadiazina de prata • Cefalosporinas
• Dipirona ou paracetamol para • •
Neomicina Quinolonas
dor leve
• Opioides para dor intensa
Cuidados com o Dreno em
Feridas Cirúrgicas
Dreno de Penrose Dreno Jackson-PrattDreno Hemovac
Tubo flexível de látex. Sistema fechado com Alta capacidade de
Funciona por bulbo compressível. sucção. Utilizado em
capilaridade, sem sucção Mantém pressão negativa cirurgias com grande
ativa. Indicado para contínua. Ideal para volume de drenagem.
drenagem superficial. cavidades profundas. Confortável para
mobilidade.
Dreno Tubular
Drenos rígidos de silicone
ou plástico. Utilizados
para drenagem torácica
ou abdominal.
Cuidados com a
Integridade Cutânea ao
Redor do Dreno
Limpeza Periférica
Limpar cuidadosamente a pele ao redor com gaze e solução
fisiológica. Movimentos suaves do centro para fora evitam
contaminação.
Proteção da Pele
Aplicar barreira protetora ou película transparente. Prevenir
irritação causada por exsudatos ou adesivos repetidos.
Fixação Segura
Utilizar técnica de fixação em "gravata" com esparadrapo.
Evitar tração direta no local de inserção do dreno.
Enxerto Cutâneo como Opção de Tratamento
Enxerto Autólogo Enxerto Homólogo
Pele retirada do próprio paciente. Pele de doador humano. Útil como
Maior taxa de sucesso por não cobertura temporária em grandes
haver rejeição imunológica. queimados.
Substitutos Cutâneos Enxerto Xenólogo
Materiais sintéticos ou cultivados Origem animal, geralmente suína.
em laboratório. Alternativas Serve como matriz para
modernas para casos complexos. crescimento celular do paciente.
Vantagens e Desvantagens
do Enxerto Cutâneo
Tipo de Enxerto Vantagens Desvantagens
Autólogo Sem rejeição Cria ferida adicional no
imunológica, local doador,
integração permanente disponibilidade limitada
Homólogo Disponibilidade Risco de rejeição,
imediata, não cria nova cobertura temporária
ferida no paciente apenas
Xenólogo Fácil obtenção, baixo Maior risco de rejeição,
custo relativo resultados estéticos
inferiores
Substitutos sintéticos Disponibilidade Alto custo, técnica
imediata, sem complexa de aplicação
necessidade de área
doadora
Exemplos Práticos de Enxertos Cutâneos
Enxerto em Membro Inferior Enxerto em Mão Enxerto Facial
Paciente de 45 anos com ferida pós- Criança com queimadura de 3º grau. Homem de 60 anos após ressecção
traumática em perna. Enxerto em Enxerto de espessura parcial aplicado de carcinoma. Técnica especial de
malha utilizado para adaptação ao para preservar funcionalidade dos enxerto para resultado estético
contorno irregular. dedos. otimizado.
Prevenção de Complicações em Feridas Cirú
Vigilância ativa
Monitorar sinais de infecção: rubor, calor, edema e dor.
Controle térmico
Verificar temperatura diariamente. Febre pode indicar infecção profunda.
Coleta de cultura
Realizar swab ou aspirado ao primeiro sinal de infecção.
Intervenção precoce
Iniciar tratamento imediato conforme resultados
microbiológicos.
Monitoramento Pós-Cirúrgico
e Rotina do Paciente
Primeiras 24-48 horas
Manter curativo original intacto. Verificar sinais de sangramento excessivo.
Observar drenagem se presente.
Dias 3-5
Primeiro banho conforme orientação médica. Evitar molhar ferida diretamente.
Trocar curativo após higiene.
Dias 7-10
Retomada gradual de atividades. Evitar esforços na área operada. Avaliar
cicatrização para remoção de pontos.
Dias 14-30
Retorno para avaliação completa. Verificar cicatrização final. Orientar sobre
cuidados com cicatriz.
Importância do Desbridamento e
Limpeza Continuada
Desbridamento
Identificação
Remover tecido inviável com
Reconhecer tecido necrótico ou
técnica adequada. Escolher entre
desvitalizado. Distinguir entre
método cirúrgico, enzimático ou
tecido viável e não viável.
autolítico.
Limpeza
Reavaliação
Irrigar ferida com solução
Monitorar evolução e resposta ao
fisiológica. Remover resíduos e
tratamento. Ajustar abordagem
biofilme que prejudicam
conforme progresso observado.
cicatrização.
Colaboração entre Equipes de Saúde
Comunicação eficaz
Troca de informações clara entre profissionais envolvidos.
Protocolos unificados
Padronização de condutas baseadas em evidências.
Trabalho multidisciplinar
Integração entre cirurgiões, enfermeiros e nutricionistas.
Monitoramento conjunto
Análise colaborativa da evolução das feridas.
Educação continuada
Atualização constante sobre novas técnicas e produtos.
Conclusão: Boas Práticas no Manejo de
Feridas Cirúrgicas
O manejo adequado de feridas cirúrgicas é essencial para recuperação plena do paciente. Técnicas modernas de curativo,
seleção apropriada de drenos e enxertos cutâneos são pilares deste cuidado.
A abordagem multidisciplinar garante melhores resultados. Novas tecnologias como curativos bioativos e terapia por
pressão negativa representam o futuro deste campo.
SUGESTOES DE REFERENCIAS:
1-Feridas: Como Tratar, 3ª Edição 2024
Eline Lima Borges, Vera Lúcia de Araújo Nogueira
2-Almeida, J. P., & Costa, R. S. (2024). Avanços no Tratamento de Feridas Crônicas. Porto Alegre: Artmed. Uma
análise detalhada sobre os avanços recentes no tratamento de feridas crônicas
3-Silva, R. C. L., & Figueiredo, N. M. A. (2020). Feridas: Fundamentos e Atualizações em Enfermagem. São Caetano
do Sul: Yendis.
4-Borges, E. L., & Carvalho, V. F. (2021). Cuidado com Feridas: Abordagem Multidisciplinar. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan.
5-Oliveira, A. C., & Santos, M. C. (2023). Tratamento de Feridas: Teoria e Prática para Enfermeiros. São Paulo:
Atheneu.