Kant (1724 a 1804) – Crítica da
Razão Pura
• Empiristas x Racionalistas
• Conhecimento que acessamos pela razão (a priori): demonstração que um
número elevado a zero é igual a 1; fórmula de Pitágoras etc.
• Conhecimento que acessamos pela experiência (a posteriori): Godó é bonito,
existem animais e plantas; Lula é o presidente do Brasil em 2024 etc.
• Lembrem-se da divisão platônica entre objetos (coisas específicas ou particulares)
e conceitos. Dica: objeto é tudo aquilo que tem ou poderia ter nome próprio, já
um conceito se refere a vários objetos (verde, cadeira, pato etc.)
• Critérios de classificação do conhecimento (juízos)
A) A priori x A posteriori (critério epistemológico)
B) Analítico x Sintético (critério lógico)
• Note-se que até aqui o conhecimento analítico é sempre a priori enquanto que o
conhecimento sintético é sempre a posteriori.
• Conhecimento analítico é sempre trivial, então Kant afirma que o conhecimento
mais importante é o conhecimento sintético. Entretanto, o conhecimento a
posteriori é casuístico (fulana está grávida, cicrano está doente etc.) e o objetivo
da ciência é descobrir proposições universais. Assim, a filosofia que Kant
desenvolve na crítica da razão pura é para demonstrar a possibilidade do
conhecimento sintético a priori. Acrescenta-se conhecimento novo, mas sua
verdade pode ser estabelecida apenas raciocinando. Isso garante sua
universalidade.
• Porém, antes de entrarmos nesse mérito, convém lembrar que os racionalistas
defendiam que existem ideias inatas independente do ser humano (como o fato
de que os quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa). O
conhecimento se constrói a partir de deduções dessas ideias. As percepções que
extraímos a partir da experiência são subjetivas e relativas. Então, como passar
da ideia para a realidade? Esse é um problema fundamental para os racionalistas.
• Por outro lado, os empiristas afirmavam que somente a partir da experiência é que
se pode universalizar o conhecimento. Soltar um caderno no ar implicará sua queda
no chão. Como isso ocorre sempre, então, pelo princípio indutivo, nós
universalizamos, mas não há uma ideia inata por meio do qual seja possível explicar
esse fenômeno. Mesmo apelar para a gravidade não será suficiente, uma vez que
não há garantia que as leis da gravidade continuem a funcionar sempre assim.
Assim, o grande problema para os empiristas é o mesmo problema que acomete o
princípio indutivo: se o conhecimento apenas provém da experiência como é
possível sua universalização?
• Vejamos agora como Kant sintetiza essas duas noções. Para ele, nós conhecemos
através da experiência, mas não as coisas em si mesmas e sim o fenômeno, ou seja,
conhecemos o modo de apresentação de um objeto, o modo como ele se
apresenta aos nossos sentidos
• Se as coisas se apresentassem a nós, mas não tivéssemos estruturas de
pensamento suficientes para entendê-las, não seria possível o conhecimento delas.
Animais não entendem astrofísica, por exemplo; não escutamos determinadas
frequências de sons, como o apito de cachorro; não vemos determinadas coisas,
• Assim, diz Alysson Mascaro: “O fenômeno, a aparência das coisas para conosco, é
a relação que o sujeito do conhecimento tem com a experiência. Mais importante
do que a coisa que é vista, para Kant é o sujeito que vê. É o sujeito que vê que
transforma o fenômeno em um objeto para o pensamento”.
• Para Kant, não é possível falar de uma coisa objetiva, afinal, não temos acesso à
coisa, apenas ao fenômeno. Para ele, também não existem ideias inatas. A
universalização do conhecimento é possível apenas porque os indivíduos
possuem as condições de racionalidade, ou seja, as mesmas ferramentas da
sensibilidade e do entendimento.
• Nesse sentido, diz Otfried Höffe: “A revolução copernicana de Kant significa que
os objetos do conhecimento objetivo não aparecem por si mesmos, mas eles
devem ser trazidos à luz pelo sujeito (transcendental). Por isso eles não podem
mais ser considerados como coisas que existem em si, mas como fenômenos.
Com a mudança do fundamento da objetividade, a teoria do objeto, a ontologia,
passa a depender de uma teoria do sujeito, de modo que não pode mais haver
uma ontologia autônoma”
• Portanto, para Kant, o conhecimento pode ser universalizado não porque a coisa
estudada é a mesma, mas porque os sujeitos possuem a mesma estrutura
cognitiva, ou seja, observamos os fenômenos a partir das mesmas ferramentas.
Kant chama essa estrutura de categorias do conhecimento
• “A apreensão dos fenômenos só é racional porque há no sujeito estruturas
prévias, chamadas então por a priori, que possibilitam perfazer o conhecimento.
Qualquer fenômeno que seja percebido só o será porque há essas estruturas
apriorísticas no sujeito do conhecimento”
• As estruturas que viabilizam o nosso conhecimento Kant chama de
transcendentais. Essas estruturas são formas que tanto possibilitam a percepção
empírica, sensível, quanto a elaboração de conhecimento intelectivo advindo
dessas próprias percepções.
• Lembre-se que a percepção empírica está ligada às sensações (sensibilidade); às
coisas que conhecemos por meio da experiência, enquanto que o entendimento
está ligado ao intelecto, às coisas que conhecemos mediante a razão. A cognição
humana é sempre sensação e intelecto.
• Sobre as estruturas que viabilizam o entendimento e pertencem ao sujeito, Kant as
divide em 2:
a) formas da sensibilidade (estética transcendental) : possibilitam o conhecimento
empírico direto. São elas o tempo e o espaço. Vejamos o que Kant afirma sobre tais
estruturas: “O espaço de modo algum representa uma propriedade de coisas em si,
nem tampouco estes em suas relações recíprocas. [...] O tempo não é algo que
subsista por si mesmo ou que adere às coisas como determinação objetiva. [...]
Tempo e espaço são, portanto, duas fontes de conhecimento das quais se pode tirar
a priori diferentes conhecimentos sintéticos”
b) Categorias apriorísticas (lógica analítica transcendental): possibilitam o
conhecimento intelectivo. São ferramentas que propiciam o entendimento,
organizando o conteúdo advindo da percepção. Tais categorias são também
estruturas universais e necessárias, de sorte que, diante dos mesmos fenômenos,
sucederá o mesmo entendimento (através dessas categorias). Exemplo: quantidade,
qualidade (realidade e negação), relação (causalidade, predicação etc.) e
modalidade (existência, possibilidade, necessidade). Assim, quando
experimentamos qualquer objeto, já o classificamos e o ordenamos em conceitos e
juízos através dessas categorias.
• Todas as línguas possuem estruturas similares: divisão entre sujeito e predicado,
palavras para indicar modalidade, quantificadores etc.
• Sobre a relação dessas duas categorias Kant afirma: “Como introdução ou
advertência parece necessário dizer apenas que há dois troncos do conhecimento
humano que talvez brotem de uma raiz comum, mas desconhecida de nós, a
saber, sensibilidade e entendimento: pela primeira os objetos são-nos dados, mas
pelo segundo são pensados”
• Nesse sentido, diz Mascaro: “O conhecimento, assim, não é só a apreensão
sensível dos fenômenos, é também um pensar a respeito deles. Quando se
apreende um fenômeno, é necessário que sua compreensão envolva categorias
como a de quantidade ou causalidade. São as categorias a priori que possibilitam
uma intelecção universal e necessária dos fenômenos percebidos. Para Kant, essa
intelecção é um ato de julgamento da empiria por meio de categorias. Por isso,
todo pensamento, para Kant, é na verdade um julgamento, é um juízo”
• Tipos de Juízo. Juízo analítico: deduzido a partir da definição, ou seja, nega-lo
seria contraditório. Exemplo: Todo solteiro não é casado; se é verde é colorido;
Givalda está ou não está grávida; Todo homem calvo é um homem etc. Kant não
vê importância para ciência ou filosofia nesse tipo de juízo. Nesse juízo, o
predicado nada acrescenta ao sujeito.
• Juízo sintético a posteriori: qualquer conhecimento que aprendemos após o fato
“se toparmos naquela planta ela fecha”; “fulano se casou novamente” etc. No
juízo sintético o predicado acrescenta informação ao sujeito, gerando
conhecimento. No entanto, o conhecimento é individual, contingente
• Juízo sintético a priori: aqueles que ocorrem na própria percepção do fenômeno.
Crianças e animais conseguem captar a causalidade, por exemplo. Ao ver o objeto
no ar, já se espera que ele caia. Kant acredita que a matemática se baseia em
intuições desse tipo. Como é próprio do juízo sintético, o predicado acrescenta
informação ao sujeito, mas não por um fato percebido e sim devido a relações
universais e necessárias. Toda a matemática, a lógica e a geometria representam
conhecimento desse tipo para Kant.
• Assim arremata Mascaro: “Como os indivíduos, sozinhos, podem conhecer de
modo igual, universal? A resposta tradicional diria isso ser possível ou porque
todos nasceriam com as mesmas ideias inatas – racionalistas – ou porque o
objeto é em si o mesmo para todos – empiristas. Contra essas débeis respostas,
Kant propugnou que não se nasce com as ideias inatas, nem que se consegue
alcançar as coisas em si. Em face de tal dilema, propõe Kant que o conhecimento
é universal porque as ferramentas do conhecimento são universais a todo sujeito
do conhecimento. Os juízos sintéticos a priori são universais”.
• Assim, um juízo pode ser sintético (acrescenta conhecimento) e a priori (antes da
experiência) porque é fenomênico, isto é, ele passa por determinados filtros que
são os mesmos em todos. Assim, podemos deduzir determinadas coisas, ligadas
ao entendimento de como esses filtros funcionam. Exemplo: “Quando alguém diz
que a sala de aula tem a cor branca, fez um juízo sintético a posteriori. Foi à sala,
viu a cor de sua parede, e então depois (a posteriori) atribuiu uma propriedade a
um objeto (a parede é branca).
• (...)
• Quando se diz que toda parede pintada assim o é porque recebeu a ação de um
pintor, que a toda ação corresponde uma reação, trata-se de um juízo sobre a
causalidade necessária dos fenômenos. Não é preciso ver a parede em si para
saber que houve a ação de um pintor com tintas para que ela esteja pintada. A
categoria da causalidade é uma ferramenta que se apresenta de modo
necessário, antes da própria experiência de ver o fenômeno da parede pintada”.
• Essas categorias a priori tanto da sensibilidade tanto do entendimento são
apenas formas, a experiência é que fornece o conteúdo sensível.
• Perceba que apenas conhecemos o fenômeno e não a coisa em si (númeno).
Entretanto, muitas vezes tentamos conhecer coisas que estão fora do fenômeno.
Fazemos isso por intuição intelectual, mas intuições intelectuais nada podem
significar. Elas estão fora do nosso limite de conhecimento. Exemplo: o mundo
(universo) é finito ou infinito? A matéria possui um núcleo indivisível ou é divisível
infinitamente? Somos livres ou obedecemos a lei da causalidade?
• Deus, a alma, o mundo, o livre-arbítrio etc. são ideias desse tipo. Elas não são
como as categorias a priori afinal possuem conteúdo, entretanto, não são coisas
empíricas. Lembre-se: o intelecto não intui validamente, ele apenas organiza o
que foi intuído pela sensibilidade