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João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa, nascido em 1908 em Minas Gerais, é considerado um dos maiores escritores brasileiros do século XX, destacando-se pelo uso inovador da linguagem e pelo regionalismo em suas obras. Sua carreira literária começou com 'Sagarana' em 1946, e ele explorou temas universais através do sertão brasileiro, refletindo sobre a condição humana e as dualidades da vida. Rosa também teve uma carreira diplomática significativa, sendo patrono da Academia Brasileira de Letras até sua morte em 1967.

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João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa, nascido em 1908 em Minas Gerais, é considerado um dos maiores escritores brasileiros do século XX, destacando-se pelo uso inovador da linguagem e pelo regionalismo em suas obras. Sua carreira literária começou com 'Sagarana' em 1946, e ele explorou temas universais através do sertão brasileiro, refletindo sobre a condição humana e as dualidades da vida. Rosa também teve uma carreira diplomática significativa, sendo patrono da Academia Brasileira de Letras até sua morte em 1967.

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João Guimarães

Rosa
• Considerado por muitos como o maior criador, em prosa, do século
XX no Brasil e um dos maiores da cultura ocidental moderna, João
Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908.
• Guimarães Rosa foi um dos principais representantes do
regionalismo brasileiro, característica da terceira fase do
modernismo. Com uma linguagem fiel à popular, o escritor
conseguiu inovar a literatura.
• Guimarães Rosa fez parte da terceira geração do modernismo, com
fortes características regionalistas. João Cabral de Melo Neto e
Clarice Lispector podem ser colocados na mesma geração do
movimento.
Biografia
• João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, no dia 27 de
junho de 1908.
• Desde pequeno, Rosa estudou línguas (francês, alemão, holandês, inglês,
espanhol, italiano, esperanto, russo, latim e grego). Por conseguinte,
cursou os estudos secundários num colégio alemão em Belo Horizonte .
• Pouco antes de entrar para a Universidade, em 1929, Guimarães já
anuncia sua maestria com as letras, onde começa a escrever seus
primeiros contos.
• Em 1930, com apenas 22 anos, formou-se pela Faculdade de Medicina da
Universidade de Minas Gerais, ano que casa-se com Lígia Cabral Penna,
com quem teve duas filhas.
• Foi Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, quando em 1934, ingressa para a
carreira diplomática, no Itamaraty.
• Guimarães Rosa exerceu outras funções além da escrita literária:
• De 1938 a 1942 — Cônsul em Hamburgo, Alemanha, durante a Segunda Guerra
Mundial.
• De 1942 a 1944 — Secretário de embaixada em Bogotá.
• Em 1946 e 1951 — Chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura.
• Em 1948 — Secretário da Delegação do Brasil à Conferência da Paz e representante
do Brasil na Sessão Extraordinária da Conferência da Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Paris.
• De 1948 a 1951 — Primeiro-secretário e conselheiro de embaixada em Paris.
• Em 1949 — Delegado do Brasil à IV Sessão da Conferência Geral da UNESCO, em
Paris.
• Em 1953 — Chefe de Divisão de Orçamento.
• Em 1962 — Chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.
• Guimarães Rosa foi Patrono da cadeira nº 2 na Academia Brasileira de
Letras, tomando posse três dias antes de morrer, no dia 16 de
novembro de 1967.
• No auge da carreira de escritor e diplomata, Guimarães Rosa, com
apenas 59 anos, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, dia 19 de
novembro de 1967, vítima de infarto.
• Em vida, foi homenageado com os seguintes prêmios:
Prêmio Filipe d’Oliveira (1946).
Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956).
Prêmio Paula Brito (1957).
Prêmio Machado de Assis (1961).
Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).
Obras
• Sagarana (1946): contos
• Corpo de baile (1956): novelas
• Grande sertão: veredas (1956): romance
• Primeiras estórias (1962): contos
• Manuelzão e Miguilim (1964): novelas
• Campo geral (1964): novela
• No Urubuquaquá, no Pinhém (1965): novelas
• Noites do sertão (1965): novelas
• Tutameia — terceiras estórias (1967): contos
• Estas estórias (1969): contos
• Ave, palavra (1970): diversos
• Magma (1997): poesias
Aspectos literários
• Uso de termos arcaicos.
• Linguagem poética.
• Narrativas mais reflexivas e menos dinâmicas.
• Experimentalismo: neologismos, estrutura narrativa peculiar e anticonvencional.
• Regionalismo: os termos e elementos da cultura regional mesclam-se com
temáticas universais.
• Inexistência de certezas: no campo social, político, econômico e estético.
• Prosa intimista: conflito existencial e fluxo de consciência (monólogo interior).
• Fragmentação: ruptura com a narrativa cronológica tradicional.
• Temáticas universais: morte, ódio, amor, medo, violência, misticismo.
• Oposições: bem e mal, velho e novo, rural e urbano, oral e escrito, local e universal.
Rosa e o Modernismo

• O início da carreira literária de Guimarães Rosa aconteceu oficialmente em 1946, com a publicação do livro
de contos Sagarana, ao qual se sucederam a reportagem “Com o vaqueiro Mariano”, em 1952, (incluída
depois em Estas Estórias), o volume de novelas Corpo de Baile e o romance Grande Sertão: Veredas, em
1956; Primeiras Estórias, em 1962, Tutaméia (Terceiras Estórias), em 1967.
• Em 1969, após a morte do escritor, foram publicados os contos de Estas Estórias, que ele vinha preparando
antes de morrer. Em 1970, foram reunidos em Ave, Palavra, textos de diversas naturezas (crônicas, discursos
etc) escritos durante toda a sua vida. O livro Corpo de Baile é publicado atualmente em três volumes
independentes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.
• Como já visto, a obra de Guimarães Rosa tem início na terceira fase do Modernismo e se impõe como um
marco na evolução da literatura brasileira. Os textos regionalistas até então costumavam abordar os
problemas brasileiros de uma maneira superficial, transportando para a literatura diversos preconceitos.
Nesse aspecto, além de Guimarães Rosa, são também exceções Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
• O regionalismo de Guimarães Rosa deixa de dar ênfase à paisagem para focalizar o ser humano em conflito
com o ambiente e consigo próprio. Dessa maneira, as personagens revelam tanto suas particularidades
regionais como sua dimensão universal, ou seja, o que elas têm em comum com o restante da humanidade.
• A valorização da cultura sertaneja num momento histórico em que
predominava um discurso desenvolvimentista coloca o escritor na
contramão da literatura brasileira que, praticamente desde seu início,
defendeu a modernização do país. Por trás da atitude de Guimarães
Rosa está a percepção de que o progresso condenaria ao silêncio o
mundo dos contadores de histórias.
“Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom
para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando
as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também
nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma
lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narrar estórias corre por
nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão
é a alma de seus homens.”
• É possível comparar as diferentes relações que Guimarães Rosa e
Graciliano Ramos têm com suas personagens e com o ambiente que
elas habitam. Graciliano Ramos aparece como uma consciência
crítica, ajudando as personagens a enxergar a miséria de sua condição
material e a exploração a que estão sujeitas. Guimarães Rosa tem
uma relação de simpatia e identificação com as personagens e a
paisagem.
• Na obra de Guimarães Rosa, as dualidades e antíteses são comuns
para que o conflito do sentimento seja enfatizado. Desse modo,
homem e mundo, realidade e devaneio, mundano e divino aparecem
sempre em contraste e nos colocam diante de muita angústia, aridez
e ceticismo; mas a poesia que perpassa tal obra nos remete a
momentos do próprio mundo interior daquelas personagens que, por
vezes, retratam nosso desejo de lutas, perdas e glórias.
O sertão e o mundo

• Os contos e romances escritos por João Guimarães Rosa ambientam-se


quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se sobretudo
pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares
populares e regionais. Tudo isso, unindo à sua erudição, permitiu a criação
de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares,
invenções e intervenções semânticas e sintáticas.
• Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão, uma
religiosidade quase medieval, baseada apenas nos dois extremos e marcada
pelo medo, pelo pavor, em que há até mesmo a preocupação de não
invocar o demo, para que ele não “forme forma”; daí o diabo ser tratado
por “o que não existe” ou “o que não é mas finge ser” e expressões
semelhantes.
• Assim é o sertão de Rosa: ora particular, pequeno e próximo; ora universal e
infinito, pois “o sertão é o mundo” ou, melhor ainda, “o sertão é dentro da
gente”. Por isso, logo na abertura de Grande sertão: veredas, o autor nos situa
diante do problema:
“O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é
por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas,
demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é
dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos
carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa
de morador; e onde criminoso vive seu cristo Jesus, arredado do arrocho de
autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele,
tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as
vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda
virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho.
Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de
opiniões… O sertão está em toda a parte.”
• O sertão aparece como um lugar político e econômico, mas também
como um lugar metafórico e metafísico, refletindo as perturbações
interiores das personagens e seus grandes questionamentos. Mais do
que um lugar no espaço, entretanto, o sertão rosiano é uma região
criada na linguagem, como observou o crítico Antonio Candido.

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos […] O


gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o
que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães…
O sertão está em toda parte.”
• Em Guimarães Rosa, os elementos próprios do sertão são apenas
condutores para uma abordagem dos grandes problemas do homem.
Suas estórias extraem do regional a elaboração de temas universais,
revelando uma visão global da existência: indagações sobre o destino,
o significado da vida e da morte, a existência ou não de Deus etc.
• As disputas de terra, a utilização de mão-de-obra escrava ou semi-
escrava, as gritantes diferenças sócio-econômicas e culturais
permeiam toda a obra de Rosa, contemporânea a questões sobretudo
relativas a meio-ambiente e sustentabilidade. Em Grande sertão:
veredas, Riobaldo, narrador do romance, explica a seu entrevistador
que, se ele foi conhecer as potencialidades ambientais e culturais do
sertão, havia chegado tarde, pois, naquele momento, tudo já se
achava em estado de degradação, em vias de desaparecimento.
Revolução na linguagem
• “A música da linguagem deve expressar o que a lógica da linguagem obriga a crer […]. O
melhor dos conteúdos de nada vale, se a linguagem não lhe faz justiça.”
• A maior inovação nos livros de Guimarães Rosa é a linguagem: criativa, que explora a
sonoridade das palavras, incorpora a fala regional, cria termos adaptando expressões de
outras línguas. Essa novidade obriga o leitor a refletir sobre o significado das palavras para
compreender a nova dimensão dada a conteúdos já conhecidos.
• Sobre esse aspecto da obra de Rosa, o professor Eduardo Coutinho, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, esclarece: “Como tudo na vida, as formas da linguagem também
envelhecem e se tornam completamente inexpressivas após uso prolongado: palavras
perdem o seu significado originário, expressões se tornam obsoletas, construções
sintáticas inteiras caem em desuso e são substituídas por outras. Cabe, então, ao escritor,
consciente de sua missão, refletir sobre cada palavra ou construção que utiliza e fazê-la
recobrar sua energia primitiva, desgastada pelo uso. Em outras palavras, ele tem que
revitalizar a linguagem”.
• A fala do povo é utilizada na obra de Guimarães Rosa como linguagem
literária, aparecendo não só na fala do sertanejo, mas na própria voz
do narrador. Assim, o autor rompe com a tradição em que o narrador
escreve “certo” e as personagens falam “errado”.

“Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma


português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo,
enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros
idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um estilo próprio,
meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática
e dos dicionários dos outros.”
• A princípio, percebe-se uma revalorização da linguagem; a seguir, a
universalização do regional. O valor da linguagem particular de
Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras no uso de
arcaísmos, mas sim nos neologismos, na recriação, na invenção das
palavras, sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos, suas
expressões, suas particularidades. Com isso, as palavras recriadas ganham
força e significado novos, como afirma o crítico português Oscar Lopes:
“As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem
um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o
significado corrente. A gente lê, por exemplo, que `o sabiá veio molhar o
pio no poço, que é bom ressoador’, e não fica apenas com uma admirável
vocação acústica; as palavras `molhar’ e `poço’ descongelam-se, libertam-
se da sua hibernação dicionarística ou corrente, e perturbam como um
reachado todavia surpreendente.”
• O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no
crítico lusitano, podemos perceber em passagens como:

“Joãozinho Bem-Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia


poderosa, e ele nesse ponto era bem-assistido, sabendo prever a viragem dos
climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. Mas Teófilo Sussuarana era
bronco excessivamente bronco, e caminhou para cima de Nhô Augusto. Na sua
voz:
– Êpa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe,
que chegou minha vez! …
E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas, escurecida à fumaça
dos tiros, com os cabras saltando e miando de maracajás, e Nhô Augusto
gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.
– O gostosura de fim-de-mundo!…”
• Críticos como Antônio Cândido, Cavalcanti Proença e Benedito Nunes perceberam, desde
as primeiras publicações de Rosa, a exuberante e inovadadora riqueza temática, lingüística
e estrutural das obras do escritor. Em Grande sertão: veredas, a narrativa radicalmente
inovadora se estrutura como um grande diálogo resultante da entrevista concedida pelo
ex-jagunço Riobaldo a um homem culto que vem de fora para saber notícias do sertão no
tempo da jagunçagem, de suas guerras geradas pelas truculentas disputas de poder e
terras. Trata-se de diálogo, ou monodiálogo, em que se houve apenas a voz do
entrevistado, como se essa fosse a hora e a vez de um sujeito subalterno pronunciar sua
versão da história.
• Do ponto de vista linguístico, Guimarães Rosa operou grandes transformações na sintaxe,
na morfologia, nos usos literários em geral, tendo em vista a forma como tais padrões
eram empregados até então na literatura brasileira. Além de fragmentar a linearidade das
frases para, por exemplo, sugerir a descontinuidade do tempo ou da linguagem oral, ele
cria neologismos ou recupera arcaísmos já esquecidos da língua portuguesa. Vale-se,
ainda, de construções de palavras que implicam a aglutinação de dois ou mais idiomas no
sentido de obrigar sua língua literária a dizer e significar mais do que o habitual, de criar
situações inusitadas, de instituir uma espécie de princípio, de inteligibilidade universal,
não apenas para sua língua, mas também para os espaços e contextos em que
personagens estrangeiros conseguem interagir.

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