ABERTURA: FALA INICIAL Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Não posso mover meus passos Na frente dos oratórios, Que a sede de ouro é sem cura,
Por esse atroz labirinto que vale mais a oração? E, por ela subjugados,
De esquecimento e cegueira Vale a voz do Brigadeiro Os homens matam-se e morrem,
Em que amores e ódios vão: sobre o povo e sobre a tropa, Ficam mortos, mas não fartos
– pois sinto bater os sinos, louvando a augusta Rainha, (Ai, Ouro Preto, Ouro Preto,
Percebo o roçar das rezas, – já louca e fora do trono – E assim foste revelado!)
Vejo o arrepio da morte, na sua proclamação.
À voz da condenação;
– avisto a negra masmorra Ó meio-dia confuso,
E a sombra do carcereiro ó vinte-e-um de abril sinistro,
Que transita sobre angústias, que intrigas de ouro e de sonho
Com chaves no coração; houve em tua formação?
– descubro as altas madeiras Quem ordena, julga e pune?
Do excessivo cadafalso Quem é culpado e inocente?
E, por muros e janelas, Na mesma cova do tempo
O pasmo da multidão. cai o castigo e o perdão.
(...) Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados…
– liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Cenário Romance I
Da revelação do ouro
Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado Nos sertões americanos,
pascer nas solidões esmeraldinas. Anda um povo desgrenhado:
Gritam pássaros em fuga E, atrás deles, filhos, netos,
Largos rios de corpo sossegado Sobre fugitivos riachos; seguindo os antepassados,
dormiam sobre a tarde, imensamente, Desenrolam-se os novelos vêm deixar a sua vida,
- e eram sonhos sem fim, de cada lado. Das cobras sarapintados; caindo nos mesmos laços,
Espreitam, de olhos luzentes, perdidos na mesma sede,
Entre nuvens, colinas e torrente, Os satíricos macacos. teimosos, desesperados,
uma angústia de amor estremecia por minas de prata e de ouro
a deserta amplidão na minha frente. Súbito, brilha uma chão de ouro: curtindo destino ingrato,
(...) Corre-se – é luz sobre um charco emaranhando seus nomes
(...) para a glória e o desbarato,
Minha sorte se inclina junto àquelas quando, dos perigos de hoje,
vagas sombras da triste madrugada, outros nascerem, mais altos.
fluidos perfis de donas e donzelas. Que a sede de ouro é sem cura,
e, por ela subjugados,
Tudo em redor é tanta coisa e é nada: os homens matam-se e morrem,
Nise, Anarda, Marília...- quem procuro? ficam mortos, mas não fartos.
Quem responde a essa póstuma chamada?
(...) (Ai, Ouro Preto, Ouro Preto,
e assim foste revelado!)
Romance VII ou do negro nas catas ROMANCE XXI OU DAS IDÉIAS
(...) Doces invenções da Arcádia!
Já se ouve cantar o negro, Banquetes. Gamão. Notícias. Delicada primavera:
Mas inda vem de longe o dia. Livros. Gazetas. Querelas. pastoras, sonetos, liras,
Será pela estrela d’alva, Alvarás. Decretos. Cartas. — entre as ameaças austeras
Com seus raios de alegria? A Europa a ferver em guerras. de mais impostos e taxas
Será por algum diamante Portugal todo de luto: que uns protelam e outros negam.
a arder, na aurora tão fria? triste Rainha o governa! Casamentos impossíveis.
Ouro! Ouro! Pedem mais ouro! Calúnias. Sátiras. Essa
(...) E sugestões indiscretas: paixão da mediocridade
Já se ouve cantar o negro. Tão longe o trono se encontra! que na sombra se exaspera.
Chora neblina, a alvorada. Quem no Brasil o tivera! E os versos de asas douradas,
Pedra miúda não vale: Ah, se D. José II que amor trazem e amor levam ...
Liberdade é pedra grada... põe a coroa na testa! Anarda. Nise. Marília ...
(A terra toda mexida, Uns poucos de americanos, As verdades e as quimeras.
A água toda revirada... por umas praias desertas, Outras leis, outras pessoas.
Deus do céu, como é possível já libertaram seu povo Novo mundo que começa.
Penar tanto e não ter nada! da prepotente Inglaterra! Nova raça. Outro destino.
Washington. Jefferson. Franklin Plano de melhores eras.
(Palpita a noite, repleta E os inimigos atentos,
de fantasmas, de presságios...) que, de olhos sinistros, velam.
E as idéias. E os aleives. E as denúncias.
E as idéias.
Romance XIV ou da Chica da Silva
Que andor se atavia Escravas, mordomos
naquela varanda? seguem, como um rio,
É a Chica da Silva: a dona do dono
é a Chica-que-manda! do Serro do Frio.
(...)
Cara cor da noite olhos
cor de estrela. Nem Santa Ifigênia,
Vem gente de longe toda em festa acesa,
para conhecê-la. brilha mais que a negra,
na sua riqueza.
(Por baixo da cabeleira,
tinha a cabeça rapada Contremplai, branquinhas,
e até dizem que era feia.) na sua varanda,
a Chica da Silva,
Vestida de tisso, a Chica-que-manda!
de raso e de holanda
- é a Chica da Silva: (Coisa igual nunca se viu.
- é a Chica-que-manda! Dom João Quinto, rei famoso,
não teve mulher assim!)
ROMANCE XXIV OU DA BANDEIRA DA
INCONFIDÊNCIA
(...) Através de grossas portas, E a vizinhança não dorme:
Atrás de portas fechadas, sentem-se luzes acesas, murmura, imagina, inventa.
à luz de velas acesas, — e há indagações minuciosas Não fica bandeira escrita,
entre sigilo e espionagem, dentro das casas fronteiras. mas fica escrita a sentença.
acontece a Inconfidência. "Que estão fazendo, tão tarde?
E diz o Vigário ao Poeta: Que escrevem, conversam, pensam?
"Escreva-me aquela letra Mostram livros proibidos?
do versinho de Virgílio ... " Lêem notícias nas Gazetas?
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário, Terão recebido cartas
com dramática prudência: de potências estrangeiras?
"Tenha meus dedos cortados, (Antiguidades de Nîmes
antes que tal verso escrevam ... " em Vila Rica suspensas!
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE, Cavalo de La Fayette
ouve-se em redor da mesa. saltando vastas fronteiras!
E a bandeira já está viva, Ó vitórias, festas, flores
e sobe, na noite imensa. das lutas da Independência!
E os seus tristes inventores Liberdade — essa palavra
já são réus — pois se atreveram que o sonho humano alimenta:
a falar em Liberdade que não há ninguém que explique,
(que ninguém sabe o que seja). e ninguém que não entenda!)
Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério
Melhor negócio que Judas Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério: fazes tu, Joaquim Silvério!
que ele traiu Jesus Cristo, Pois ele encontra remorso,
tu trais um simples Alferes. coisa que não te acomete.
Recebeu trinta dinheiros.. Ele topa uma figueira,
- e tu muitas coisas pedes: tu calmamente envelheces,
pensão para toda a vida, orgulhoso e impenitente,
perdão para quanto deves, com teus sombrios mistérios.
comenda para o pescoço, (Pelos caminhos do mundo,
honras, glórias, privilégios. nenhum destino se perde:
E andas tão bem na cobrança Há os grandes sonhos dos homens,
que quase tudo recebes! e a surda força dos vermes.)
Romance XLIX ou de Cláudio Manuel da Costa
[...]
– Não creio que fosse morto
por um atilho encarnado,
nem por veneno trazido,
nem por punhal enterrado.
Nem creio que houvesse dito
o que lhe fora imputado.
Sempre há um malvado que escreva
o que dite outro malvado,
e por baixo ponha o nome
que se quer ver acusado...
Entre esta porta e esta ponte,
fica o mistério parado.
Aqui, Glauceste Satúrnio,
morto, ou vivo disfarçado,
deixou de existir no mundo,
em fábula arrebatado,
como árcade ultramarino
em mil amores enleado.
ROMANCE LXV OU DO MALDIZENTES
- Ouves no papel a pena?
Agora, acumula embargos - Tanto impou de namorado!
à sentença que o condena E agora, quando se mira,
o que outrora, em altos cargos, vê-se um mísero coitado...
pelo mais breve conceito (lá como diz numa lira)
as rendas do Real Erário - Se nas águas se mirasse,
revestia em seu proveito! veria ralo o cabelo
e murcha e pálida, a face.
- Assim o destino é vario!
Grande fim para habitantes Falta-lhe aquele desvelo
de um país imaginário, da sua pastora terna...
que falam por consoantes... - Deveria socorrê-lo...
- E que usam nomes fingidos - ... a quem dará glória eterna!
(Aquilo havia mistério - Ai, que ricos libertinos!
nas letras dos apelidos...) Tudo era Inglaterra e França,
e, em redor, versos latinos...
- Tanto ler o tal Voltério... (...)
- E se não fosse o ladino
Capitão Joaquim Silvério!
- Assim é vário, o destino:
negro, porém, é o desterro,
e há de arranjar palavreado
com que lhe escuse o erro.
ROMANCE LXXIII OU DA
INCONFORMADA MARÍLIA
Pungia a Marília, a bela,
Negro sonho atormentado:
Voava seu corpo longe,
Longe, por alheio prado.
Procurava o amor perdido,
A antiga fala do amado.
Mas o oráculo dos sonhos
Dizia a seu corpo alado:
“Ah, volta, volta, Marília,
Tira-te desse cuidado,
Que teu pastor não se lembra
De nenhum tempo passado.”
E ela, dormindo, gemia:
“Só se estivesse alienado!”
Fala aos Inconfidentes mortos
Treva da noite, rodando soltos, Quais os que tombam,
Lanosa capa com sua rude em crime exaustos,
Nos ombros curvos miséria exposta ... quais os que sobem,
Dos altos montes purificados?
Aglomerados... Parada noite,
Agora, tudo suspensa em bruma:
Jaz em silêncio: não, não se avistam
Amor, inveja, os fundos leitos ...
Ódio, inocência, Mas, no horizonte
No imenso tempo do que é memória
Se estão lavando... da eternidade,
referve o embate
Grosso cascalho de antigas horas,
da humana vida ... de antigos fatos,
Negros orgulhos, de homens antigos.
ingênua audácia,
e fingimentos E aqui ficamos
e covardias todos contritos,
(e covardias!) a ouvir na névoa
vão dando voltas o desconforme,
no imenso tempo submerso curso
– à água implacável dessa torrente
do tempo imenso, do purgatório ...
“Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora…
– e estais no bico das penas,
– e estais na tinta que as molha,
– e estais nas mãos dos juízes,
– e sois o ferro que arrocha,
– e sois o barco para o exílio,
– e sois Moçambique e Angola!”
(“Romance III ou das Palavras Aéreas”)
01-(UFES)Cecília Meireles, nesse trecho de uma composição inserida no “Romanceiro da Inconfidência, dirige-se
às palavras através de:
a) processo anafórico/ catacrese/ versos isométricos.
b) processo metafórico/ antonomásia/ versos heterométricos.
c) processo anafórico/ metonímia/ versos isométricos.
d) processo metafórico/ alegoria/ versos heterométricos.
e) processo anafórico/ símbolo/ versos isométricos.
Ai, palavras, ai, palavras 04-(Enem) O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da
Que estranha potência a vossa! Independência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da
Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais
Todo o sentido da vida ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:
Principia a vossa porta: a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo
O mel do amor cristaliza poder corrosivo das palavras.
Seu perfume em vossa rosa; b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio
Sois o sonho e sois a audácia, vinculado aos significados das palavras.
Calúnia, fúria, derrota... c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a
grandeza da luta do homem pela vida.
A liberdade das almas, d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações
ai! Com letras se elabora... perpetuar seus valores e suas crenças.
e dos venenos humanos e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance
sois a mais fina retorta: limitado pelas intenções e gestos.
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
Ó meio-dia confuso, 05-(Enem) O poema de Cecília Meireles tem como ponto de partida
ó vinte-e-um de abril sinistro, um fato da história nacional, a Inconfidência Mineira. Nesse poema, a
que intrigas de ouro e de sonho relação entre texto literário e contexto histórico indica que a produção
houve em tua formação? literária é sempre uma recriação da realidade, mesmo quando faz
Quem ordena, julga e pune? referência a um fato histórico determinado. No poema de Cecília
Quem é culpado e inocente? Meireles, a recriação se concretiza por meio
Na mesma cova do tempo a) do questionamento da ocorrência do próprio fato, que, recriado,
cai o castigo e o perdão. passa a existir como forma poética desassociada da história nacional.
Morre a tinta das sentenças b) da descrição idealizada e fantasiosa do fato histórico, transformado
e o sangue dos enforcados... em batalha épica que exalta a força dos ideais dos Inconfidentes.
— liras, espadas e cruzes c) da recusa da autora de inserir nos versos o desfecho histórico do
pura cinza agora são. movimento da Inconfidência: a derrota, a prisão e a morte dos
Na mesma cova, as palavras, Inconfidentes.
o secreto pensamento, d) do distanciamento entre o tempo da escrita e o da Inconfidência,
as coroas e os machados, que, questionada poeticamente, alcança sua dimensão histórica mais
mentira e verdade estão. profunda.
[...] e) do caráter trágico, que, mesmo sem corresponder à realidade, foi
MEIRELES, C. Romanceiro da Inconfidência. atribuído ao fato histórico pela autora, a fim de exaltar o heroísmo dos
Rio de Janeiro: Aguilar, 1972. (fragmento) Inconfidentes.