A “NOVA” LEI DE
PMA
PATRÍCIA GONÇALVES 03-11-2016
O alargamento dos beneficiários e a gestação de substituição
Infertilidade: conceito e números
incapacidade de engravidar após 12 meses de
relações sexuais regulares sem uso de
contraceptivos
Entre 8% e 15% dos casais tem problemas de infertilidade, dos quais aproximadamente
10% são infertilidade idiopática (ainda não são clinicamente explicáveis).*
60 a 80 milhões de casais no mundo.
Cerca de 115 000 casais em Portugal.
* OMS
Técnicas de PMA
A IIU é uma técnica que consiste na colocação do esperma no útero da mulher
através de um pequeno cateter introduzido pelo colo do útero. Esta solução permite
uma selecção do esperma de melhor qualidade e a sua introdução no útero da mulher
no período mais fértil, ou seja, na ovulação. A fecundação ocorre depois, dentro do
corpo da mulher, dando origem ao embrião e, consequentemente, à futura criança.
A FIV é na realidade um dos passos da técnica, aquele em que se verifica a
fertilização com esperma dos ovócitos previamente recolhidos, em ambiente
laboratorial (in vitro). Os óvulos fertilizados desenvolvem-se em meios de cultura e
em estufas de incubação apropriadas, dando origem ao embrião, que será depois
implantado no útero da mulher.
A ICSI é uma técnica em que a fertilização é conseguida através da injecção de um
único espermatozoide num ovócito. Os ovócitos são obtidos de forma análoga à que
ocorre na FIV e o processo de incubação e transferência é também idêntico.
Lei 32/2006: técnicas de procriação medicamente
assistida (PMA)
Lei 17/2016 Lei 25/2016
alarga o âmbito dos acesso à gestação
beneficiários das de substituição
técnicas de PMA
Lei 32/2006 vs Lei 17/2016
Lei 32/2006 Lei 17/2016
art. 4º - condições art. 4º - condições
admissibilidade admissibilidade
1. As técnicas de PMA são um 1. (...)
método subsidiário e não 2. (...)
alternativo de procriação. 3. As técnicas de PMA podem ainda
2. A utilização de técnicas de PMA ser utilizadas por todas as
só pode verificar-se mediante mulheres independentemente do
diagnóstico de infertilidade (...). diagnóstico de infertilidade.
Artigo 4º - condições admissibilidade
(actual redacção)
1. As técnicas de PMA são um método subsidiário e não
alternativo de procriação.
2. A utilização de técnicas de PMA só pode verificar-se
mediante diagnóstico de infertilidade (...).
3. As técnicas de PMA podem ainda ser utilizadas por todas as
mulheres independentemente do diagnóstico de
infertilidade.
Lei 32/2006 vs Lei 17/2016
Lei 32/2006 Lei 17/2016
artigo 6º - beneficiários artigo 6º - beneficiários
1. Só as pessoas casadas que não se 1. Podem recorrer às técnicas de PMA os
encontrem separadas de pessoas e casais de sexo diferente ou os casais de
bens ou separadas de facto ou as mulheres, respectivamente casados ou
que, sendo de sexo diferente, vivam casadas, ou que vivam em condições
análogas às dos cônjuges, bem como
em condições análogas às dos
todas as mulheres independentemente do
cônjuges há pelo menos dois anos
estado civil e da respectiva orientação
podem recorrer às técnicas de PMA.
sexual.
2. As técnicas de PMA só podem ser 2. As técnicas de PMA só podem ser
utilizadas em benefício de quem utilizadas em benefício de quem tenha,
tenha, pelo menos, 18 anos e não se pelo menos, 18 anos e não se encontre
encontre interdito ou inabilitado por interdito ou inabilitado por anomalia
anomalia psíquica. psíquica.
Lei 17/2016 de 20/06
Todas as mulheres independentemente de estado civil e
orientação sexual
SNS tem responsabilidade de providenciar, gratuitamente,
técnica de PMA a mulher que o requeira e seja casada, mas
que alegue não querer engravidar por via sexual?
Quer isto dizer que uma mulher casada pode beneficiar
livremente do acesso a técnicas de PMA com outro parceiro
que não o seu marido?
Que papel fica reservado à adopção?
Esta questão não foi inicialmente discutida porque a PMA se iniciou em países
desenvolvidos com baixa taxa de natalidade.
Artigo 36º nº 7 da CRP + 12º alínea e) da LPMA
Será que liberdade fundamental de recorrer à PMA encontra limite na
consagração constitucional de protecção da adopção?
Adopção: quem pode adoptar?
Duas pessoas casadas há mais de quatro anos se ambas tiverem mais de 25 anos.
Quem tiver mais de 30 anos ou , se o adoptando for filho do cônjuge do
adoptante, mais de 25 anos.
Quem não tiver mais de 60 anos à data em que a criança lhe tenha sido confiada.
CONSENTIMENTO
Do adoptando maior de 12 anos;
Do cônjuge do adoptante;
Dos pais do adoptando;
Do ascendente, do colateral até 3º grau ou do tutor quando tenham falecido os
pais do adoptando;
Dos adoptantes.
Fertilização in Vitro
Princípio Geral (art. 24º nº 2)
O número de ovócitos a inseminar em cada processo deve ter em conta a
situação clínica do casal e a indicação geral de prevenção da gravidez múltipla.
Recurso à PMA (art. 4º nº 3)
As técnicas de PMA podem ainda ser utilizadas por todas as mulheres
independentemente do diagnóstico de infertilidade.
Beneficiários (art. 6º nº 1)
Podem recorrer às técnicas de PMA (…), bem como todas as mulheres
independentemente de estado civil e da respectiva orientação sexual.
Fertilização in Vitro
Quer isto dizer que as mulheres sem parceiro ou parceira apenas
podem aceder a técnicas de PMA que não envolvam inseminação de
ovócitos externa no seu corpo, i.e, só podem aceder à inseminação
artificial ficando as restantes apenas ao alcance de casais
heterossexuais ou compostos por duas mulheres?
ONDE SE LÊ “DO CASAL” DEVE LER-SE “DA
PESSOA OU PESSOAS BENEFICIÁRIAS”
Gestação de substituição: definição
Entende-se por 'gestação de substituição' qualquer situação em que a mulher
se disponha a suportar uma gravidez por conta de outrem e a entregar a criança
após o parto, renunciando aos poderes e deveres próprios da maternidade.
Entende-se por “maternidade de substituição” qualquer situação em que a
mulher se disponha a suportar uma gravidez por conta de outrem e a entregar a
criança após o parto, renunciando aos poderes próprios da maternidade.
Condições de possibilidade da gestação de
substituição
2. A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição só é
possível a título excecional e com natureza gratuita, nos casos de ausência de
útero, de lesão ou de doença deste órgão que impeça de forma absoluta e
definitiva a gravidez da mulher ou em situações clínicas que o justifiquem.
I. Ausência de útero: os homens não têm útero…
II. Não há formas absolutas e definitivas em medicina.
III. Quais as situações clínicas que o justificam? Quem decide?
IV. Que contrato será este comodato? Prestação de serviços? Compra e
venda?
Gestação de substituição: gâmetas e ovócitos
3. A gestação de substituição só pode ser autorizada através de uma técnica
de procriação medicamente assistida com recurso aos gâmetas de, pelo
menos, um dos respetivos beneficiários, não podendo a gestante de
substituição, em caso algum, ser a dadora de qualquer ovócito usado no
concreto procedimento em que é participante.
Em Espanha é possível num casal de lésbicas um dos elementos ser o doador
de ovócito e a outra a gestante. Em Portugal optou-se por não permitir essa
situação que representaria a existência de duas mães biológicas do nascituro.
Gestação de substituição: remuneração
5. É proibido qualquer tipo de pagamento ou a doação de qualquer bem ou
quantia dos beneficiários à gestante de substituição pela gestação da criança,
exceto o valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de
saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes, desde que devidamente
tituladas em documento próprio.
Gestação de substituição: filiação
7.A criança que nascer através do recurso à gestação de substituição
é tida como filha dos respetivos beneficiários.
12.São nulos os negócios jurídicos, gratuitos ou onerosos, de
gestação de substituição que não respeitem o disposto nos números
anteriores.
Como estabelecer a paternidade e a maternidade
nestas situações?
Gestação de substituição: IVG e comportamentos de risco
10. A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição é feita através de contrato
escrito, estabelecido entre as partes, supervisionado pelo Conselho Nacional de Procriação
Medicamente Assistida, onde devem constar obrigatoriamente, em conformidade com a
legislação em vigor, as disposições a observar em caso de ocorrência de malformações ou
doenças fetais e em caso de eventual interrupção voluntária da gravidez.
11.O contrato referido no número anterior não pode impor restrições de comportamentos à
gestante de substituição, nem impor normas que atentem contra os seus direitos, liberdade e
dignidade.
I. Mas poderemos verdadeiramente impor à gestante um aborto que a mesma não consinta?
II. Como compatibilizar o regime da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas com o
regime do consentimento do artigo 14º nº 4?
III. Por outro lado, não será legítimo, desde que previamente acordado, que os beneficiários exijam
à gestante que se abstenha de comportamentos de risco, nomeadamente, de comportamentos
aditivos?
Mais algumas dúvidas…
Quem gozará a licença de maternidade? As leis do trabalho estão
preparadas para esta nova realidade?
Qual o papel, se é que algum, que fica reservado ao marido da mulher que
decida celebrar um contrato de gestação de substituição na qualidade de
gestante? Tem de consentir ou… tem de aceitar? Como fica a presunção
de paternidade legalmente estabelecida para o marido da mãe?
O registo civil está preparado para esta nova realidade?
Existe, ou deveria existir, uma idade máxima para ser gestante de
substituição?
Não poderão os casais homossexuais masculinos alegar que são vítimas
de discriminação?
Last, but not least...
Os custos da PMA em Portugal
SECTOR PRIVADO:
FIV:
ICSI:
Custo total por ciclo de tratamentos:
SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE
Custo para o utente: € 0
MAS:
Lista de espera para 1ª Consulta CHLN: cerca de 1 ano
Lista de espera para técnicas de 2ª linha CHLN: um ano e meio/dois anos
Limite máximo de idade:
SNS
O recurso às técnicas de PMA no âmbito
do SNS é suportado nas condições que
vierem a ser definidas em diploma próprio
tendo em conta o parecer do Conselho
Nacional de Procriação Medicamente
Assistida
Teremos capacidade humana e logística para responder a uma
procura acrescida?
Quais serão os critérios de prioridade, ou de equidade, no acesso a
técnicas de PMA no SNS?
O avanço da “procreática”
Transformação das técnicas de PMA em
instrumentos ao serviço do arbitrariedade
reprodutiva
Pastora norte americana, solteira e virgem, recorreu a esperma de dador
para se tornar mãe virgem.
Casal de lésbicas, surdas-mudas, recorreu a IIU para com a utilização de
esperma de um amigo, também surdo, conseguirem um filho surdo. Veio a
acontecer.
Clínicas norte-americanas praticam inseminação artificial com esperma
de distintos cientistas o vencedores de prémios nobel com o objectivo de