Queimaduras
Fernanda Quintero
Residente do 2° ano de Pediatria
Hospital Universitário de Londrina
Introdução
As queimaduras são lesões decorrentes de agentes
(capazes de produzir calor excessivo que danifica os
tecidos corporais e acarreta a morte celular
Constituem um importante problema de saúde pública,
representando a segunda causa de morte na infância não
só nos Estados Unidos como também no Brasil
Estima-se que, no Brasil, ocorram em torno de 1.000.000
de acidentes com queimaduras por ano. Destes, 100.000
pacientes procurarão atendimento hospitalar e cerca de
2.500 irão falecer direta ou indiretamente de suas lesões
O Sistema Único de Saúde (SUS), no período entre 2013 e
2014, registrou mais de 15 mil casos de internações por
queimadura em crianças com idade entre 0 e 10 anos
(CRUZ et al, 2012 / MS, 2012 /Data SU
Causas
ESCALDAMENTO - principal causa nos primeiros 3
anos de vida
Fogo
Substâncias químicas
Contato direto com materiais aquecidos
Elétrica de baixa e de alta voltagem (> 1.000
volts)
Radiação
Queimaduras por cigarro, contato com ferro de
passar roupa quente, queimaduras com líquido
escaldante e imersão (limites bem definidos na
extremidade) e lesões envolvendo períneo
sugerem lesões intencionais e devem ser
notificadas.
Classificação - Profundidade
1º grau: 1° GRAU
Limita-se ao epitélio
2° GRAU
Eritema, calor e dor
Não há bolhas
Não causam agressão fisiológica
Geralmente melhoram em 3 a 6 dias
2º grau:
Destruição da epiderme e parte da derme
Anexos cutâneos em geral são poupados
Há formação de bolhas.
São subclassificadas em espessura: superficial ou profunda
As superficiais, protegidas das infecções, cicatrizam-se em até
21 dias
Nas profundas a cicatrização demora mais que 3 semanas e
costuma deixas cicatrizes (SBP, 2017 / SBQ)
Classificação - Profundidade
3° GRAU
3º grau:
Toda a derme é destruída, incluindo folículos pilosos
e terminações nervosas
São indolores
A resolução ocorre por crescimento do epitélio a
partir das margens da ferida ou por enxerto de pele
4º grau:
Estende-se à gordura subcutânea, fáscia muscular,
músculo ou osso
Associadas com queimaduras elétricas (alta
voltagem)
(SBP, 2017 / SBQ)
Avaliação da Superfície Corpórea
Queimada (SCQ)
Regra dos 9
Avaliação da Superfície Corpórea
Queimada (SCQ)
(Diagrama de Lund-Browder)
Classificação - Extensão
Pequeno Queimado
Queimaduras de primeiro grau em
qualquer extensão, em qualquer idade
e/ou;
Queimaduras de segundo grau com área
corporal atingida até 5% em crianças
menores de 12 anos, ou;
Queimaduras de segundo grau com área
corporal atingida até 10% em maiores
de 12 anos. (SBCP, 2008)
Classificação - Extensão
Média Queimado
Queimaduras de 2° grau com área corporal atingida
entre 5% a 15% em menores de 12 anos, ou;
Queimaduras de 2° grau com área corporal atingida
entre 10% a 20% em maiores de 12 anos, ou;
Qualquer queimadura de 2° grau envolvendo mão ou pé
ou face ou pescoço ou axila ou grande articulação (axila
ou cotovelo ou punho ou coxofemoral ou joelho ou
tornozelo), em qualquer idade;
Queimaduras que não envolvam face ou mão ou períneo
ou pé, de 3° grau com até 5% da área corporal atingida
em crianças até 12 anos, ou;
Queimaduras que não envolvam face ou mão ou períneo
ou pé, de 3° grau com até 10% da área corporal atingida
em maiores de 12 anos (SBCP, 2008)
Classificação
Lesão inalatória - Extensão
Politrauma
Fratura óssea em qualquer localização
Grande Queimado
Trauma craniano
Queimaduras de 2°
Insuficiência com área corporal atingida maior do
renal
que
15% em menores
Insuficiência de 12 anos, ou;
cardíaca
Insuficiência
Queimaduras de 2°com
hepáticaárea corporal atingida maior do
20%
que em maiores de 12 anos, ou;
Diabetes
Distúrbiosde
Queimaduras da3°
coagulação e hemostasia
grau com área corporal atingida
Embolia
maior do quepulmonar
5% em menores de 12 anos, ou;
Infarto agudo do miocárdio
Queimaduras de 3° grau com área corporal atingida
Quadros infecciosos graves decorrentes ou
maior do que 10% em maiores de 12 anos, ou;
não da queimadura
Queimaduras de 2° ou 3° grau atingindo o períneo, em
Síndrome compartimental ou do túnel do
qualquer
carpo,idade, ou; ou não à queimadura
associada
Queimaduras de 3° grau atingindo
Doenças consuptivas, ou mão ou pé ou face
ou
pescoço
Qualquerou outra
axila,afecção
em qualquer idade,
que possa ou;
ser fator
de complicação
Queimaduras à lesãoelétrica.
por corrente ou ao quadro clínico
(SBCP, 2008)
da queimadura.
Fisiopatologia
↑CORTISOL
↑ CITOCINAS
radicais livres de oxigênio
metabólitos do ácido aracdônico
complemento
HIPOVOLÊMIC
O
DISTRIBUTIV
O
Resposta Metabólica
As respostas metabólicas do grande queimado são
imediatas
Primeiramente há uma diminuição acentuada da
velocidade do metabolismo e o débito cardíaco cai entre
50 e 60% dos valores basais
Alguns dias após o processo inicial, com eficiente
processo de reanimação cardiocirculatória com fluidos, a
taxa metabólica reinicia seu crescimento, atingindo sua
maior velocidade entre o 7º e o 12º dia após a
queimadura
HIPERMETABOLISMO - aumento da temperatura corporal,
aumento do consumo de glicose e oxigênio, aumento da
formação de CO2, glicogenólise, lipólise e proteólise
CATECOLAMINAS - níveis de noradrenalina atingem de 2
a 10 vezes os níveis normais na proporção da área
queimada, com forte influência na falência de (LIMA et al, 2004)
múltiplos
órgãos e na mortalidade
Enquanto pacientes com peritonites têm suas taxas
metabólicas elevadas de 5% a 25%, trauma severo
aumenta de 30% a 70%, o grande queimado tem seu
metabolismo aumentado em até 200%
Ocorre diminuição desde a fase mais precoce da
queimadura nas taxas de testosterona, que perduram
por meses depois de iniciado o tratamento, que tem
interferência no anabolismo protéico
Ocorre interessantemente, que o peptídeo intestinal
vasoativo (VIP), que aumenta nos grandes traumas, no
queimado permanece inalterado, fato que pode facilitar
a cicatrização da ferida por efeito citoprotetor na
mucosa intestinal do VIP, bloqueando a liberação do
óxido nítrico nos tecidos afetados pelas queimaduras
(LIMA et al, 2004)
Abordagem Inicial
Tratamento imediato de emergência
Interrompa o processo de queimadura.
Remova roupas, joias, anéis, piercings e próteses.
Cubra as lesões com tecido limpo.
Indique intubação orotraqueal quando:
• a escala de coma Glasgow for menor
Tratamento na sala de emergência: do que 8;
A. Vias aéreas • a PaO2 for menor do que 60;
• a PaCO2 for maior do que 55 na
B. Respiração
gasometria;
Aspire as vias aéreas superiores, se necessário
• oximetria <90%;
Administre oxigênio a 100% (máscara umidificada) e, na
• houver edema importante de face e
suspeita de intoxicação por monóxido
[Link] carbono, mantenha
a oxigenação por três horas.
Suspeita de lesão inalatória: queimadura em ambiente
fechado com acometimento da face, presença de rouquidão,
estridor, escarro carbonáceo, dispneia, queimadura das
vibrissas, insuficiência respiratória (MS, 2012)
Mantenha a cabeceira elevada (30°)
C. Circulação
Avalie se há queimaduras circulares no tórax, nos
membros superiores e inferiores e verifique a
perfusão distal
D. Avalie traumas associados, doenças prévias ou
outras incapacidades e adote providências
imediatas.
E. Exponha a área queimada.
F. Acesso venoso
G. Instale sonda vesical de demora para o controle
da diurese nas queimaduras em área corporal
superior a 20% em adultos e 10% em crianças.
(MS, 2012)
Reposição Volêmica
Fórmula de Parkland - 2 a 4ml x % SCQ x peso (kg)
Idosos, portadores de insuficiência renal e de
insuficiência cardíaca congestiva (ICC) devem ter seu
tratamento iniciado com 2 a 3ml/kg/%SCQ e necessitam
de observação mais criteriosa quanto ao resultado da
diurese
Soluções cristaloides (ringer com lactato)
50% do volume nas primeiras 8 horas e 50% nas 16
horas seguintes
Considere as horas a partir da hora da queimadura
Diurese entre 0,5 a 1ml/kg/h
Trauma elétrico - 1,5ml/kg/hora ou até o clareamento
da urina
Observe a glicemia nas crianças, nos diabéticos e
(MS, 2012)
sempre que necessário
Analgesia
Dipirona
Adultos: 500mg a 1g EV
Crianças: 15 a 25mg/kg EV
Morfina
0,05 a 1mg/kg de peso EV
A Associação Americana de queimados
recomenda que uma vez que o acesso
venoso é garantido e a ressuscitação
volêmica é iniciada, opioides intravenosos
devem ser administrados. (LATENSER,
2009) (MS, 2012)
Cuidados com a Ferida
Limpeza: água e clorexidina desgermante a 2%.
Toxoide tetânico para profilaxia/ reforço antitétano.
Bloqueador receptor de H2 para profilaxia da úlcera de
estresse.
Heparina subcutânea para profilaxia do
tromboembolismo.
Sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico.
Curativo exposto na face e no períneo
Curativo oclusivo em quatro camadas
Antibiótico sistêmico profilático apenas se potencialmente
colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica
Evitar o uso indiscriminado de corticosteroides por
qualquer via
Pode ser necessária escarotomia
(MS, 2012)
Indicações de UTI
20% de superfície lesada e profundidade de 2° grau
10% de superfície corporal com profundidade de 3°
grau
Crianças pequenas e lactentes com queimaduras em
torno de 15% podem evoluir também com grandes
perdas hídricas e instabilidade hemodinâmica e
necessitar de cuidados e monitoração intensiva
Queimaduras de vias aéreas, elétricas e químicas
Pacientes com complicações
Nutrição
A via de administração preferida para a maioria dos
pacientes grandes queimados é a nutrição enteral
(NE) porque mantém o trofismo do tubo
gastrointestinal e estimula a liberação dos
hormônios tróficos gastrointestinais
O início da administração da NE durante as
primeiras 6 horas após injúria é relatado como
seguro e efetivo, revertendo mais rapidamente
várias das mais importantes alterações metabólicas
e hormonais que ocorrem nas queimaduras
JEJUM – relacionado a um aumento da probabilidade
de translocação bacteriana e, consequentemente,
de sepse e resposta inflamatória sistêmica
(STEIN et al, 2013)
O aumento do gasto energético contribui
significativamente para a instalação de
desnutrição proteico-calórica e exige que
todos pacientes com mais de 20% de SCQ
recebam suporte nutricional específico e
individualizado
A nutrição parenteral pode opção,
acompanhando a excisão precoce e
enxerto, para evitar frequentes
interrupções na NE que são impostas
durante a anestesia
(STEIN et al, 2013)
Proteínas
A quantidade de proteína que o paciente
queimado pode variar de 1 a 2 g/kg/dia, até
3 a 4 g/kg/dia se a queimadura for extensa
Carboidratos
A taxa ideal da oferta de carboidrato é 50% a 60%, podendo
chegar até a 70% do valor calórico total do dia
A hiperglicemia, prejudica a fagocitose, a função dos
leucócitos e a quimiotaxia, aumentando a incidência de
infecções, estimulando a lipogênese e à esteatose hepática
O controle rigoroso da glicemia reduz a mortalidade em 34%
dos casos
(STEIN et al, 2013)
Lipídeos
Não devem ultrapassar 30% do total de calorias;
no entanto, um mínimo de 4% é necessário para
fornecer os ácidos graxos essenciais
Vitamina A
Utilizada para manutenção da epiderme
normal e para síntese de glicoproteínas e
prostaglandinas
Sua carência retarda a reepitelização de
feridas, prejudica a síntese de colágeno e
função imunológica
A suplementação de vitamina A (1,5 mg/1.000
(STEIN et al, 2013)
kcal) via NE faz parte do protocolo de muitas
Vitamina C
A suplementação em doses de 500 mg 2x ao dia é
necessária para acelerar a cura dos ferimentos,
devido a sua grande ação antioxidante, contribuindo
positivamente na cicatrização das ferida
Vitamina E
Previne a oxidação das membranas, protege a
função dos neutrófilos auxilia na aceleração da
cicatrização
Recomendação sugerida é de pelo menos 100
mg/dia
(STEIN et al, 2013)
Selênio
Ross Tilley Centro de Queimadura - pacientes
queimados (≥ 20% SCQ) que receberam
suplementação de selênio apresentaram um
tempo de permanência significativamente mais
curto na unidade de terapia intensiva (2012)
Zinco
O zinco é necessário para a síntese de
colágeno, acelera o processo de cicatrização
das feridas e também é utilizado na produção
de anticorpos
A recomendação sugerida é de 45 mg a 50 mg
de zinco/dia (STEIN et al, 2013)
Complicações Infeciosas
Cerca de 63% dos pacientes têm o primeiro episódio de
infecção dentro da primeira semana de internação
As principais bactérias colonizadoras da infecção na ferida da
queimadura são S. aureus, P. aeruginosa, Acinetobacter
baumannii
As principais bactérias causadoras de infecção da corrente
sanguínea são Staphylococcus sp., Acinetobacter sp.,
Pseudomonas aeruginosa e Enterobacter cloacae
Candida sp. é um fungo saprófito inofensivo quando está
colonizando a ferida, mas, quando invade os tecidos viáveis
ou a corrente sanguínea, pode levar a uma taxa de letalidade
acima de 50%
A pneumonia representa 4,2% dos episódios infecciosos nos
pacientes queimados, podendo acometer 14,4% dos
pacientes internados
(MACEDO, 2006)
Referências
CRUZ, B.F.; CORDOVIL, P.B.L.; BATISTA, K.N.M. Perfil
epidemiológico de pacientes que sofreram
queimaduras no Brasil: revisão de literatura.
Revista brasileira de Queimaduras, v. 11, n, 4,
pp. 246-250, 2012.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção
à Saúde. Departamento de Atenção Especializada.
Cartilha para tratamento de Emergência das
Queimaduras. Brasília, DF, 2012.
GUIMARÂES, F.M.F.; ABRAMOVICI, S. Queimaduras.
In: SBP. Tratado de Pediatria. São Paulo: Manole,
2017, p. 150-163.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento
LATENSER, B.A. Critical care of the burn patient: The first
48 hours. Crit Care Med, v. 37, n, 10, 2009.
LIMA, O.S.; LIMAVERDE, F.S.; LIMA FILHO, O.S. Queimados:
alterações metabólicas, fisiopatologia, classificação
e interseções com o tempo de jejum. Disponível em:
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Acesso em 08 ago. 2017.
STEIN, M.H.S.; BETTINELLI, [Link].; VIEIRA, M.V. Terapia
nutricional em pacientes grandes queimados - uma revisão
bibliográfica. Revista Brasileira de Quimaduras, v. 12,
n. 4, 2013.
MACEDO, J.L.S.; SANTOS, J.B. Complicações infecciosas em
pacientes queimados. Revista da Sociedade Brasileira
de Cir. Plástica, v. 21, n. 2, p. 108-111, 2016.