GEOPOLÍTICA ,
REGIONALIZ AÇÃO
E INTEGRAÇÃO
PROFESSOR: ANDRÉ LUIZ DO AMARAL FERREIRA.
PRECEDENTES
HISTÓRICOS DAS
TEORIAS DAS
RELAÇÕES
INTERNACIONAIS
Na história da civilização ocidental, é
possível observar que as relações entre
comunidades distintas, envolvendo o uso da
força, existem desde os primórdios entre os
diferentes povos e estão nas origens política e
econômica da sociedade moderna.
Entretanto, referente às relações entre
comunidades distintas, tem-se que:
[...] até o século XVII não havia um
sistema de entidades políticas (estados)
exercendo autoridade suprema sobre
territórios e detentoras do monopólio
sobre assuntos de guerra, o exercício
da diplomacia e a celebração de
tratados (CASTRO, 2001, p. 7).
Anterior ao surgimento do Estado nacional,
as unidades governamentais existiam em
diferentes épocas sob a forma de comunas,
cidades-estados e feudos, ao passo que “as
unidades econômicas formaram nesta
ordem: a família, o feudo, a comunidade da
vila, a cidade e a liga das cidades” (DIAS,
2004, p. 25).
Até então, a política se estruturava por meios
totalmente independentes do território, tais como laço
sanguíneo e comunhão de valores religiosos, ao passo
que, na Idade Média, a presença de uma comunidade
em um dado território não representava a existência
de uma autoridade exercida sobre uma área
geograficamente circunscrita. À época, não havia a
distinção entre as dimensões de autoridade interna e
externa ou de público e privado.
Assim, embora aparentassem, as relações entre imperadores,
papas, reis, barões, cidades e outros agentes das diferentes
comunidades não caracterizavam relações internacionais no
sentido moderno, pois elas não se davam entre estados
soberanos territoriais, se tratava apenas de relações entre
pessoas e instituições.
Com efeito, o que antecedeu o estudo das relações
internacionais como disciplina orientada para determinar o
fundamento político das relações entre pessoas de
comunidades distintas foi o direto das gentes (jus gentium)
Desde a Roma Antiga até o século XVII, os
relacionamentos entre os povos eram
estabelecidos a partir do direito das gentes ou
do direito das nações. Esse direito se
desenvolveu nesse mesmo período e era
constituído por um conjunto de práticas e
métodos intelectuais que se ocupou em gerar
materiais constitutivos do exercício da
autoridade referente a tais relacionamentos.
Conforme Castro (2001), em Roma o
chamado jus civile (direito civil) aplicava-
se somente aos romanos, não a estrangeiros.
Na medida que o Império Romano
expandia-se comercial e geograficamente,
os problemas para solucionar disputas entre
estrangeiros e entre estes e os cidadãos
romanos surgiam.
Com a finalidade de estabelecer parâmetros de
mediação nas regiões sob o auspício de Roma,
foi instituído em 242 a.C. o praetor peregrinus.
Em sua atuação, o praetor peregrinus lançava
mão de partes do direito romano e de normas
estrangeiras (principalmente gregas). Essa
fusão foi baseada nos princípios de equidade.
Esse modelo ficou conhecido como jus gentium, ou
direito das gentes, pois, em todo o período no qual “o
direito romano que é apropriado e adaptado, e que se
torna dominante, adquire caráter universalista, de
vocação “supranacional” e associado a valores
cristãos, sendo aplicável a toda cristandade”
(CASTRO, 2001, p. 9-10), ele esteve voltado tão
somente para as relações entre pessoas, uma vez que
não se tratava ainda de relações entre estados
soberanos.
A partir do direito das gentes, materiais
normativos que regulavam os
relacionamentos estabelecidos entre os
distintos povos e sociedades foram
desenvolvidos. Esses materiais
abordavam tópicos como o uso da força,
as relações comerciais, entre outros.
Holzgriffe (1989 apud CASTRO, 2001) ainda acrescenta que:
O direito mercantil e marítimo medieval, por exemplo, regulava o
comportamento de mercadores marítimos individuais, enquanto
costumes feudais relativos ao desafio formal, ao tratamento de
arautos e prisioneiros, à captura e resgate de reféns, à intimação
de cidades e à observação de tréguas aplicavam-se a cavaleiros
individuais. O direito eclesiástico sobre a santidade dos
contratos, a imunidade de agentes diplomáticos, a proibição de
armas perigosas, o tratamento de prisioneiros cristãos, a guerra
justa e a “trégua de Deus” aplicava-se a cristãos individuais. As
normas baseadas nos preceitos do direito romano aplicavam-se
aos membros individuais das comunidades que as aceitavam
Dentro dessa de organização social, a existência das
organizações internacionais não era possível pelo
fato de sua existência pressupor um acordo entre
Estados iguais dispostos a renunciar a alguns de seus
diretos em prol da organização. Segundo Araújo,
isso “era impossível naquela época em que as
guerras de conquista se sucediam e impérios se
formavam e desapareciam na voragem do tempo e
ao entrechoque das ambições” (ARAÚJO, 2002, p.
5).
Já nos séculos XVI e XVII, começa a tomar corpo
uma nova configuração institucional, resultado de
dinâmicas políticas e econômicas estabelecidas entre
grupos sociais na Europa a partir do renascimento do
comércio no século XI e da competição política e
econômica que se estabeleceu desde então entre
diversas possíveis trajetórias de desenvolvimento
institucional, tais como ligas urbanas, cidades-
estados e estados soberanos.
A política passou então a ser determinada
pelo território e institucionalizada de forma
a ser possível distinguir entre o direito
interno – unidades políticas nas quais os
príncipes adquiriram autonomia política
para adotar leis, princípios religiosos etc. –
e o direito vigente entre unidades políticas
distintas.
Na segunda metade do século XVII, com a chamada Paz de
Westphalia, o direito das gentes se modificou para atender as
novas realidades correspondentes ao surgimento dos estados
territoriais soberanos: ele assumiu a condição de direito
internacional.
A Paz de Westphalia é resultado de um conjunto de tratados
diplomáticos firmados em 1648 entre as principais potências
europeias, que colocaram fim à Guerra dos Trinta Anos (1618-
1648). Esta última consistiu num conflito generalizado entre
países europeus (católicos versus protestantes) no qual razões de
ordem religiosa se misturavam com motivações políticas.
As potências católicas, especialmente a Espanha e a
Áustria, governadas pela dinastia Habsburgo, apoiavam o
Sacro Império (também pertencente à dinastia) e tentavam
estabelecer uma hegemonia na Europa, criando um
Império Supranacional. De outro lado, as potências
protestantes escandinavas apoiavam as cidades
comerciais e principados protestantes. Na iminência da
vitória do campo católico, a França, também católica,
mas ferrenha inimiga dos Habsburgos, entrou no conflito
em apoio aos protestantes, salvando-os (VIZENTINI,
2002a).
O desastre da Primeira Guerra Mundial, o
conflito mais destruidor até então, esboçou
mudanças na condução da política
internacional. Um conjunto de propostas para
adoção de várias iniciativas e medidas
cooperativas destinadas a prevenir a guerra e
manter a paz foram apresentadas em 1918 pelo
presidente estadunidense Woodrow Wilson.
Ao tentarem estabelecer novas bases para a política
internacional em busca de um mundo ideal, as
propostas de Wilson emergem como uma provável saída
para as conflituosas e obscuras relações dos países
europeus. Assim, nascia o idealismo, que mais tarde
viria a compor o primeiro grande debate das relações
internacionais como campo científico, cabendo aqui,
portanto, somente mencionar sua importância para a
evolução das relações internacionais.
O mundo do século
XX e as teorias das
relações
Internacionais.
O século XX foi marcado pelas duas maiores
conflagrações mundiais, pelo conflito ideológico
(capitalismo versus socialismos), por revoluções e
crises de todas as ordens, pela extraordinária
expansão econômica, por profundas transformações
sociais, por impérios e hegemonias, entre outros
relevantes acontecimentos, como o vultuoso
desenvolvimento tecnológico percebido desde a
Primeira Guerra Mundial.
Somado ao encurtamento das
distâncias , esse desenvolvimento
tecnológico abriu as portas para uma
crescente transnacionalização das relações
econômicas, sociais, políticas e culturais
que ocorreu no mundo e acabou por tornar
indefinidas as fronteiras das políticas
interna e externa dos Estados.
O conhecimento acumulado das relações
internacionais até o início do século XX deu
sustentação para que novas proposições, agora
com um caráter científico, fossem elaboradas na
medida que a política internacional dava rumos
ao mundo mediante velhos e novos
acontecimentos e se exigia, portanto,
explicações mais consistentes da realidade.
A teoria das relações internacionais se consolida
tendo como objeto de estudo a política internacional.
Esta, por sua vez, se define como um conjunto de
práticas que frequentemente envolvem o uso da
força efetiva ou ameaçada, forças estas por meio das
quais os Estados se relacionam.
Em relação ao que podemos considerar como
política internacional por meio da história, Castro
(2001) acrescenta que:
[...] é preciso considerar que esta
expressão se refere a uma forma específica
de institucionalização da política, que se
tornou preponderante a partir do século
XVII na Europa, propagando-se para
praticamente todo o mundo
subsequentemente, e que hoje passa por
transformações importantes (CASTRO,
Como resultado da evolução acadêmica,
podemos perceber a definição de algumas
subáreas de estudo dentro das relações
internacionais, como política externa dos
Estados, economia política internacional,
segurança internacional, proliferação e
controle de armamentos, regimes e
organizações internacionais, integração
regional, entre outras.
No entanto, somente o conjunto de agentes e as
questões que compõem a estrutura do estudo de
relações internacionais abordados até aqui não
dão conta de explicar a evolução das teorias das
relações internacionais. É necessário considerar
também que a análise do conjunto de agentes e
suas interações se processam por meio de
teorias.
De acordo com Rocha (2002),
as teorias resultam dos esforços
intelectuais em produzir interpretações
científicas da realidade a partir da
reflexão sistemática sobre agentes e
processos no contexto das relações
internacionais.
Considerando a complexidade inerente ao
sistema internacional, nenhuma teoria interpreta
individualmente e de forma cabal a realidade
internacional, podendo, portanto, as teorias
serem consideradas “imperfeitas no sentido de
que raramente são consideradas, mesmo por
seus autores, feitas, completas e acabadas”
(ROCHA, 2002, p. 40)
Dito isso, podemos acrescentar que o campo de
estudo das relações internacionais se caracteriza
por um pluralismo teórico, o que significa dizer
que ele aceita a coexistência de vários discursos
teóricos nem sempre antagônicos, mas em sua
grande maioria complementares, nos
permitindo, assim, conferir análises mais
inteligíveis da realidade internacional.