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Aula de Filosofia

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Introdução à Filosofia

Texto: “Que é o filosofar?”, por André Comte-Sponville

Filosofar é pensar por conta própria; mas só se consegue fazer isso de um


modo válido apoiando-se primeiro no pensamento dos outros, em especial
dos grandes filósofos do passado. A filosofia não é apenas uma aventura;
também é um trabalho, que requer esforços, leituras, ferramentas. Os
primeiros passos costumam ser rebarbativos, e já desanimaram mais de um.
O que é a filosofia? Já me expliquei muitas vezes a esse respeito, e faço-o
mais uma vez. A filosofia não é uma ciência, nem mesmo um conhecimento;
não é um saber a mais: é uma reflexão sobre os saberes disponíveis. É por
isso que não se pode aprender filosofia, dizia Kant: só se pode aprender a
filosofar. Como? Filosofando por conta própria: interrogando-se sobre seu
próprio pensamento, sobre o pensamento dos outros, sobre o mundo, sobre
a sociedade, sobre o que a experiência nos ensina, sobre o que ela nos deixa
ignorar…
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Encontrar no caminho as obras deste ou daquele filósofo profissional, é
o que se deve desejar. Com isso pensaremos melhor, mais intensamente,
mais profundamente. Iremos mais longe e mais depressa. Mas esse
autor, acrescentava Kant “não deve ser considerado o modelo do juízo,
mas simplesmente uma ocasião de se fazer um juízo sobre ele, até
mesmo contra ele”. Ninguém pode filosofar em nosso lugar. É evidente
que a filosofia tem seus especialistas, seus profissionais, seus
professores. Mas ela não é uma especialidade, nem uma profissão, nem
uma disciplina universitária: ela é uma dimensão constitutiva da
existência humana. Uma vez que somos dotados de vida e de razão,
coloca-se para todos nós, inevitavelmente, a questão de articular uma à
outra essas duas faculdades. É claro que podemos raciocinar sem
filosofar (por exemplo, nas ciências), viver sem filosofar (por exemplo, na
tolice ou na paixão). Mas não podemos, sem filosofar, pensar nossa vida
e viver nosso pensamento: já que isso é a própria filosofia. 3
A biologia nunca dirá a um biólogo como se deve viver nem se se
deve, nem mesmo se se deve fazer biologia. As ciências humanas
nunca dirão o que a humanidade vale, nem o que elas mesmas
valem. Por isso é necessário filosofar: porque é necessário refletir
sobre o que sabemos, sobre o que vivemos, sobre o que queremos,
e porque nenhum saber basta para empreender essa reflexão nem
nos dispensa dela. A arte? A religião? A política? São grandes coisas,
mas também devem ser interrogadas. Ora, a partir do momento em
que as interrogamos, ou nos interrogamos sobre elas um pouco
profundamente, saímos delas, pelo menos em parte: já damos um
passo para dentro da filosofia. Nenhum filósofo contestará que esta,
por sua vez, tenha de ser interrogada. Mas interrogar a filosofia não
é sair dela, é entrar nela.
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Por que caminho? Segui aqui o único que conheço de fato, o da
filosofia ocidental. O que não quer dizer que não haja outros.
Filosofar é viver com a razão, que é universal. Como a filosofia
poderia ser reservada a alguém? Ninguém ignora que há,
especialmente no Oriente, outras tradições especulativas e
espirituais. Mas não dá para falar de tudo e seria ridículo, de minha
parte, pretender apresentar pensamentos orientais que só conheço,
na maioria, de segunda mão. Não creio que a filosofia seja
exclusivamente grega e ocidental. Mas, evidentemente, como todo
o mundo, estou convencido de que há no Ocidente, desde os
gregos, uma imensa tradição filosófica, que é a nossa, e é para ela, é
nela, que gostaria de guiar o leitor.

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Viver com a razão, dizia eu. Isso indica uma direção, que é a da filosofia, mas
não poderia esgotar seu conteúdo. A filosofia é questionamento radical,
busca da verdade global ou última (e não, como nas ciências, desta ou
daquela verdade particular), criação e utilização de conceitos (mesmo que
isso também se faça em outras disciplinas), reflexividade (volta do espírito ou
da razão para si mesmo: pensamento do pensamento), meditação sobre sua
própria história e sobre a história da humanidade, busca da maior coerência
possível, da maior racionalidade possível (é a arte da razão, por assim dizer,
mas que desembocaria numa arte de viver), construção, às vezes, de
sistemas, elaboração, sempre, de teses, de argumentos, de teorias… Mas
também é, e talvez antes de mais nada, crítica das ilusões, dos preconceitos,
das ideologias. Toda filosofia é um combate. Sua arma? A razão. Seus
inimigos? A tolice, o fanatismo, o obscurantismo. Seus aliados? As ciências.
Seu objeto? O todo, com o homem dentro. Ou o homem, mas no todo. Sua
finalidade? A sabedoria: a felicidade, mas na verdade.
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Tem pano para muita manga, como se diz; ainda bem, porque os
filósofos gostam de arregaçá-las! Na prática, os objetos da filosofia são
incontáveis: nada do que é humano ou verdadeiro lhe é estranho. Isso
não significa que todos tenham a mesma importância. Kant, numa
passagem célebre da sua Lógica, resumia o domínio da filosofia em
quatro questões: Que posso saber? Que devo fazer? O que me é
permitido esperar? O que é o homem? “As três primeiras questões
remetem à última”, observava Kant. Mas as quatro desembocam, eu
acrescentaria, numa quinta, que é sem dúvida, filosófica e
humanamente, a questão principal: Como viver? A partir do momento
em que tentamos responder a essa pergunta de modo inteligente,
fazemos filosofia. E, como não se pode evitar de formulá-la, é forçoso
concluir que só se escapa da filosofia por tolice ou obscurantismo.

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Deve-se fazer filosofia? Uma vez que fazemos essa pergunta, em
todo caso, uma vez que tentamos responder a ela seriamente, já
estamos fazendo filosofia. Isso não quer dizer que a filosofia se
reduza à sua própria interrogação, menos ainda à sua auto
justificação. Porque também fazemos filosofia, pouco ou muito, bem
ou mal, quando nos interrogamos (de maneira ao mesmo tempo
racional e radical) sobre o mundo, sobre a humanidade, sobre a
felicidade, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a morte, sobre
Deus, sobre o conhecimento… E quem poderia renunciar a fazê-lo?
O ser humano é um animal filosofante: só pode renunciar à filosofia
renunciando a uma parte da sua humanidade.

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É preciso filosofar, portanto: pensar tão longe quanto pudermos, e mais longe
do que sabemos. Com que finalidade? Uma vida mais humana, mais lúcida,
mais serena mais razoável, mais feliz, mais livre… É o que se chama
tradicionalmente de sabedoria, que seria uma felicidade sem ilusões nem
mentiras. Podemos alcançá-la? Nunca totalmente, sem dúvida. Mas isso não
nos impede de tender a ela, nem de nos aproximar dela. “A filosofia”, escreve
Kant, “é para o homem esforço em direção à sabedoria, esforço sempre não
consumado.” Mais uma razão para empreender esse esforço sem mais tardar.
Trata-se de pensar melhor para viver melhor. A filosofia é esse trabalho; a
sabedoria, esse repouso. O que é a filosofia? As respostas são tão numerosas,
ou quase, quantos os filósofos. O que não impede, todavia, que elas se cruzem
ou convirjam para o essencial. No que me diz respeito, tenho um fraco, desde
os meus anos de estudo, pela resposta de Epicuro: “A filosofia é uma atividade
que, por discursos e raciocínios, nos proporciona a vida feliz.” É definir a
filosofia por seu maior êxito (a sabedoria, a beatitude), o que, mesmo que o
êxito nunca seja total, é melhor do que encerrá-la em seus fracassos. A
felicidade é a meta; a filosofia, o caminho. Boa viagem a todos! 9
Referências
COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da Filosofia. Martins Fontes: São Paulo,
2002. p. 11-16.

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A Experiência Filosófica
• Filosofia de Vida x Filosofia do Especialista;
• Um Conceito de Filosofia: Segundo o filósofo brasileiro Dermeval Saviani “a
filosofia é uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre os problemas
apresentados pela realidade”;
• Diferença entre filosofia, ciência e religião, quanto ao objeto, método e objetivo:
Objeto Método Objetivo
Filosofia Todo Racional Compreender
melhor a realidade.
Ciência Parte Racional Compreender
melhor a realidade.
Religião Todo Fé-Imaginação Compreender
melhor a realidade.

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