Capacidade e Incapacidade Jurídicas
Capacidade e Incapacidade Jurídicas
1. Generalidades:
- É a medida de direitos e vinculações de que uma pessoa não pode ser titular e a que
não pode estar adstrita.
(a) Genérica: verifica-se quando uma pessoa, em regra, não é titular da generalidade
de direitos e não está adstrita à generalidade de vinculações, reconhecidos pela ordem
jurídica, ou seja, a generalidade de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem
jurídica, de que uma pessoa não pode ser titular e a que não pode estar adstrita.
(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa não é titular de certas categorias ou
espécies de direitos e não está está adstrita à certas categorias ou espécies de
vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, ou seja, determinadas categorias ou
espécies de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, de que uma
pessoa não é titular e a que não pode estar adstrita.
(c) Particular: trata-se de averiguar se uma pessoa não pode ser titular de um certo
direito e não pode estar adstrita a uma certa vinculação, concretamente considerados.
- Capacidade de Exercício (Capacidade de Agir):
- É a medida de direitos e vinculações que uma pessoa pode exercer e cumprir por si,
pessoal e livremente (isto é, sem intermediação de um representante legal ou o
consentimento de um assistente). A capacidade de exercício diz respeito à actuação no
plano jurídico; está em causa saber como certa pessoa é admitida a exercer os direitos e
a cumprir as vinculações que, de facto, lhe estão previamente atribuídos ou a que está
adstrita. Também, a Capacidade de Exercício pode graduar-se em: (a) Genérica:
verifica-se quando uma pessoa é, em regra, capaz de, por is só, pessoal e livremente,
exercer a generalidade de direitos e cumprir a generalidades de vinculações,
reconhecidos pela ordem jurídica (ex: nos indivíduos maiores – artigo 139º do CC).
(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa só é capaz de, por si só, pessoal e
livremente, exercer certas categorias ou espécies de direitos ecumprir certas categorias
ou espécies de vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica -(ex: os
inabilitados,quando a sentença judicial abranja apenas, na sua incapacidade, actos de
disposição – artigo 158º, nº 1 do CC).
(c) Particular: verifica-se quando a uma pessoa é admitida a, por si só, pessoal e livremente, exercer um certo direito
ou cumprir uma determinada certa vinculação; nota: esta capacidade jurídica é aferida por referência a um
(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa nao é capaz de, por si só, pessoal e
livremente, exercer certas categorias ou espécies de direitos ecumprir certas categorias
ou espécies de vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, ou seja, determinadas
categorias ou espécies de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, que
uma pessoa não pode exercer e cumprir por si só, pessoal e livremente (ex: os
inabilitados, quando a sentença judicial abranja apenas, na sua incapacidade, actos de
disposição – artigo 158º, nº 1 do CC).
(c) Particular: verifica-se quando a uma pessoa nao é admitida a, por si só, pessoal e
livremente, exercer um certo direito ou cumprir uma determinada certa vinculação;
nota: esta incapacidade capacidade jurídica é também aferida por referência a um
determinado direito ou vinculação concretamente considerados.
- Relações entre a capacidade de gozo e capacidade de exercício
- Uma pessoa pode ter capacidade de gozo e não ter capacidade de exercício;
- Uma pessoa pode ter capacidade de gozo particular e não ter capacidade de
exercício particular, por carecer de autorização (ex. o menor de 17 anos que
pretende casar-se);
- Não é admissível uma incapacidade de gozo absoluta por isso significar a negação
da própria personalidade jurídica;
- Não pode coexistir uma situação de capacidade de gozo genérica com uma situação
de incapacidade de gozo genérica;
- Não pode coexistir uma situação de capacidade de exercício genérica com uma
situação de incapacidade genérica de exercício.
AS INCAPACIDADES JURÍDICAS
- Hoje, nem todos esses elementos têm relevância, já que, houve uma evolução social e
jurídica secular que retirou a algumas deles o sentido e significado que tinham
outrora, funcionando como verdadeiras limitações à capacidade ou causas de
incapacidade jurídica. Assim, não estudaremos a nacionalidade, o sexo e as chamadas
“incapacidades conjugais” que a doutrina mais recente considera como situações de
ilegitimidades.
- A lei faz coincidir a aquisição da capacidade de exercício, não com o nascimento, mas sim com
a maturidade (maioridade). O Direito Romano mais antigo a capacidade de exercício dependia da
puberdade e era declarada caso a caso pelo «pater famílias» após uma «inspectio corporis». A
evolução foi no sentido de uma determinação genérica, que se consumou com Justiniano que
fixou a puberdade aos 14 anos para os rapazes e 12 para a as raparigas.
- Actualmente a grande maioria das ordens jurídicas segue o sistema de fixação normativa da
maioridade: Hoje 18 anos. Tradicionalmente eram 21 anos de idade. Em Portugal até a reforma
de 1977 eram 21 anos e com essa reforma baixou para 18 anos.
- A idade constitui um dos elementos naturais da capacidade, uma vez que envolve a
consideração de aspectos de natureza física ou psíquicas inerentes à condição humana.
- Na 1ª fase da vida, as pessoas singulares têm uma natural debilidade física e mental e menor
conhecimento da realidade e dos problemas do comportamento em sociedade, o que as torna
menos aptos a ocupar-se dos seus interesses.
- Ora, o Direito Civil pressupõe que as pessoas sejam livres e esclarecidas e que, ao agirem em
Direito, o façam com liberdade e esclarecimento (não de pessoas superdotadas e de elites
culturais, mas de pessoas comuns). Mas, o DC não pode ignorar pessoas com padrões de
liberdade e esclarecimento abaixo do normal (homem comum), devido a circunstâncias várias
(idade, deficiências, orignárias ou adquiridas ou desvios de carácter ou comportamento, etc). Ou
seja, o DC exige que a pessoa atinja certa maturidade, para um agir juridicamente válido.
- Suprimentos da Incapacidade (artigo 137º do CC):
- Noção de suprimento: é um sistema organizado pelo Direito com vista a permitir o exercício de
direitos e o cumprimento de vinculações de um incapaz (uma série de expedientes técnico-jurídicos
dirigidos ao afastamento das consequências das limitações de actuação pessoal ou livre da pessoa
que sofre de incapacidade).
- Meios de Suprimento: são situações jurídicas organizadas pelo direito para fazer face aos
problemas suscitados pela impossibilidade de o titular do direito ou o adstrito a vinculação de agir
por si exercendo-o ou cumprindo-o. Ou seja, são situações jurídicas que permitem resolver os
problemas técnico-jurídicos emergentes de incapacidade. São realidades estáticas.
- Formas de Suprimento: são modos de agir para o exercício lícito de direitos e cumprimento lícito
de vinculações por quem não pode fazer pessoal e livremente. Ou seja, são modos de actuação
estabelecidos pelo direito em vista do efectivo exercício dos direitos e cumprimentos das vinculações
do incapaz. São realidades dinâmicas.
- São formas de suprimento de incapacidade: (i) representação [se fazer praticar o acto por
outrem – forma normal de suprimento de incapacidade; dá-se um fenómeno de substituição da
vontade] (ii) assistência [se fazer ajudar na prática do acto – forma excepcional de suprimento de
incapacidade, já que só se usa nos casos previstos na lei].
- Representação legal: quando os poderes representativos são conferidos por lei; há uma pessoa
que, por determinação da lei, e com poderes por ela atribuídos, vai agir em substituição do incapaz,
como se fosse este, em nome e no interesse dele. Materialmente o acto é praticado pelo
representante, mas juridicamente os seus efeitos produzem-se na esfera jurídica do representado,
como acto dele – artigo 258º do CC.
Natureza: C. Mendes: é uma situação jurídica complexa (não um direito subjectivo) que abrange uma séria de
faculdades (poderes funcionais e simples deveres) - artigo 1814º CC. Irrenunciabilidade (artigo 1.816º CC)
Conteúdo: 1815º do CC
Projecção (no plano pessoal – artigos 1819º a 1827º Cfr. artigos 119º a 132º - e patrimonial dos filhos – artigos
1828º a 18141º - e casos especiais – artigos 1842º a 1844º): No plano pessoal: poder de comando, correcção e
de representação. No plano patrimonial: poder de administração e dever de alimentos.
Início (artigo 1746º do CC): com o estabelecimento da filiação (maternidade e paternidade): reconhecimento
jurídico da relação biológica ou natural entre o filho e a mãe e o filho e o pai). No caso da mãe: declaração no
registo civil. No caso do pai: o filho nascido de mãe casada funciona a presunção legal (artigo 1745º, nº 2 do
CC); filho nascido de mãe não casada: reconhecimento (perfilhação ou decisão judicial em acção de
investigação de paternidade).
Inibição [suspensão] (artigos 1846º a 1856º do CC): casos de abandono, crueldade, corrupção, etc.
Cessação – artigo 1845º: (i) maioridade ou emancipação, (ii) morte dos pais ou do filho (iii) e adopção.
Irreversibilidade.
- Tutela (artigos 1867º a 1910º do CC):
É um meio sucedâneo do poder paternal. Tutor verso pupilo. Nota: o legislador usa o termo tutor quando está em causa o
lado pessoal só ou simultaneamente com o patrimonial e curador quando apenas está em causa o lado patrimonial (tutor
datur personae, curator rei)
Classificação clássica: (i) tutela testamentária [a designação do tutor é feita pelos pais ou um deles, na maioria dos casos
em testamento, mas por vezes em acto diverso; (ii) tutela legítima [a designação do tutor é feita por lei]; (iii) tutela dativa
(a designação do tutor é feita pelo tribunal].
Órgãos da tutela: No poder paternal a lei confia plenamente no afecto natural dos pais em como cumprirão a sua missão e
só intervém em casos de desacordo. Na tutela essa confiança não é igual. Por isso, cria, para a defesa do menor, vários
órgãos: (i) Conselho de Família (artigos 1898º a 1907º do CC): compete vigiar o modo como o tutor exerce as suas funções;
mas é também o órgão consultivo do próprio tutor; (ii) Protutor (artigos 1902º a 1907º): é um dos vogais do Conselho de
Família que tem como função fiscalizar de forma permanente a acção do tutor e exercer as outras previstas no artigo
1903º do CC).
Nunca existe isoladamente, coexiste sempre com outro meio de suprimento de incapacidade (o poder paternal ou a tutela)
Pressupostos (artigo 1857º): (i) violação culposa dos deveres dos pais para com os filhos, de que resulte grave
perigo para a sua saúde, segurança, formação e educação ou (ii) os pais são inexperientes ou se encontrem
com enfermidade ou ausentes, não se mostrem em condições de cumprir os seus deveres para com os filhos;
(iii) não seja o caso de aplicação de inibição plena do exercício do poder paternal, nem de instauração da
tutela; (iv) os pais conservam o poder paternal em tudo o que não for incompatível com a delegação (artigo
1859º, nº 1 do CC)
o Aspectos do regime de delegação: (i) Possibilidade de haver regime de visitas aos pais [artigo 1859º, nº 2
do CC] (ii) possibilidade de prestação de contas e de informações entre o modo do cumprimento das
providências decretadas que determinem, se necessário, a prestação de caução (artigo 1859º, nº 3 do CC).
o Pressupostos: artigo 1861º do CC – (i) acordo dos pais, (ii) com relação a filhos
menores de dezasseis anos; (iii) delegação parcial (guarda, sustento ou
educação); (iv) existência de motivos ponderosos que lhes impede de exercer
pessoal e eficazmente os seus deveres.
o Cessação: O artigo 1866º do CC (i) termo do prazo; (ii) revogação por decisão
judicial; (iii) revogação pelo delegante, por notificação judicial avulsa, (iv)
denúncia do delegado, por notificação judicial avulsa, mas só produz efeitos 60
dias depois de conhecida pelo delegante.
Intervenção do MP: Exs: (i) Preside o Conselho de Família, (ii) vide o artigo 1.850º
CC.
Incapacidade de menores (artigo 133º e ss do CC)
A incapacidade por menoridade começa com o nascimento da pessoa; quando é que termina e
qual é o critério? (i) critério casuístico: analise-se as pessoas caso a caso, com vista a apurar se
estão ou não aptas a reger convenientemente as suas pessoas e bens no momento em que
praticam determinado acto; críticas: complexo, cria situações de incerteza e insegurança, pois, só
apos a celebração do acto é possível apurar a capacidade; e dificuldade do apuramento da
incapacidade, já que é duplamente casuístico: teria de respeitar a cada pessoa de per si, mas
também a cada acto em concreto (ou pelo menos uma categoria de actos) que essa pessoa praticar;
(ii) critério genérico ou fixo (fixa uma idade até a qual a pessoa é incapaz), que comporta duas
modalidades: (a) sistema rígido (define-se uma idade que funciona como fronteira inultrapassável
entre a capacidade e incapacidade e a pessoa é incapaz enquanto não perfizer a idade definida,
mesmo que, em concreto, certo individuo se revele antes disso perfeitamente capaz de reger a sua
pessoa e os seus bens; atingindo a idade definida a pessoa passa a ser capaz, mesmo que em
concreto, não tenha maturidade exigida pela lei para uma válida actuação jurídica); (b) sistema
gradativo (assenta na ideia da diminuição gradativa da incapacidade e o correspondente
alargamento da capacidade, à medida da alteração da idade da pessoa; a passagem da situação de
incapacidade para a de capacidade opera-se não num determinado momento, mas sim, por fases
ou escalões); vantagens: maior adequação à realidade, sendo certo que o desenvolvimento físico e psíquico,
pressuposto da capacidade, não se adquire de um momento para outro, mas é o resultado de uma evolução
combinada do desenvolvimento físico e mental, da educação e experiência adquirida na vida social.
- Embora não previsto no CC, C. Fernandes, aponta 3 momentos ou
fases da vida do menor com relevância na sua situação de
incapacidade: 7 anos (termo da presunção da inimputabilidade –
artigo 488º, nº 2 do CC), 12 anos (relevância da vontade do menor
na resolução de assuntos do seu interesse – v. g. artigos 1.818º, nº
7, 1.925º - al. b) e 1.928º, nº 1 do CC) e 16 anos (alargamento da
capacidade de gozo – artigos 1564ºç – al. a), 1.775º, nº 1, 1.822º, a
contrario sensu, - e alargamento da capacidade de exercício – artigos
135º - al c) – podendo adquirir capacidade genérica de exercício
mediante emancipação – artigos 141º e 142º do CC – e cessa a
inimputabilidade penal).
Causas da cessação da incapacidade por menoridade (artigo 138º do CC): (i)
maioridade (causa normal do termo da incapacidade e atinge-se aos 18 anos – artigo
139º [cfr. também o artigo 133º e 279 – al. c)] do CC -; a condição de maior ou menor
prova-se pelo registo de nascimento e por simples cálculo aritmético) (ii) emancipação
(apenas tem como facto constitutivo o casamento e para produzir efeitos o casamento
tem de ser regular; nos termos do artigo 1.564 – al. a) o menor de 16 anos tem
capacidade para casar, mas não pode fazer livremente, já deve obter o consentimento
dos pais (havendo poder paternal) ou do tutor ou, então, o suprimento desse
consentimento – Cfr. CRC. O meio processual vem regulado no CRC; Efeitos da
emancipação artigo 142º do CC; porém, a emancipação não torna o menor em
maior; o menor emancipado não é uma pessoa maior; não há, assim, coincidência
entre o estado civil de maior e o de menor emancipado. Como também não há
coincidência necessária entre a capacidade jurídica do maior e a capacidade jurídica
do menor emancipado (exs: artigo 2.198º do CC e situações em que o legislador atribui
direitos às pessoas em função da idade em si mesma, podendo coincidir com a
maioridade ou não).
Âmbito da incapacidade dos menores:
(a) Casamento irregular do menor: No caso do artigo 1.607º do CC (só se refere à administração
de bens). E quanto aos actos de disposição? C. Fernandes: O princípio segundo o qual a lei que
proíbe o menos proíbe o mais poderia ter levado à conclusão da extensão do regime similar para
os actos de disposição, por estes envolverem mais poderes do que os actos de administração.
Porém, alerta para o facto de ser necessário demonstrar que os actos de disposição têm, em sede
do direito positivo, um regime mais restritivo do que o dos actos de administração; não é o que
resulta, por ex., do regime da incapacidade dos inabilitados para os actos de administração e
actos de disposição. Tendo presente os fins e a natureza da norma, sustenta que se deve
entender que o legislador só pretendeu no artigo 1.607º do CC colocar restrições a uma
situação de capacidade que, sem essas restrições, seria genérica, pelo que tais restrições
devem ser limitadas ao necessário e adequadas a esse fim. Acrescenta que a referida norma
tem nítida natureza sancionatória (cfr a epígrafe), justificando assim essa interpretação
literal ou mesmo restritiva. O autor está ciente do argumento (crítica), segundo o qual, a tese
defendida facilita a fraude ao preceito em tela, já que permite ao menor dispor de bens que não
pode administrar. Deve atender-se ao facto de os bens por ventura adquiridos por efeito do ato de
disposição ficarem sujeitos à administração dos representantes legais do menor.
Qual então o regime jurídico do artigo 1.607º do CC?
Se o casamento for irregular o cônjuge menor não
adquire capacidade genérica de exercício, não podendo,
ainda administrar os bens que leve para o casal ou
posteriormente venha a adquirir a título gratuito até
atingir a maioridade. A administração desses bens
continua entregue aos representantes legais do cônjuge
menor à data do casamento, não podendo nunca caber
ao outro cônjuge durante a menoridade. Trata-se aqui de
proteger o cônjuge menor em relação ao outro.
(b) Actos praticados no âmbito da incapacidade de gozo: A lei não fixa um
regime geral e regula esporadicamente alguns casos: (a) casamento –
anulabilidade (artigos 1.590 – al. a) e 1.564º - al. a) do CC); (b) perfilhação –
anulabilidade – artigo 1.785º, nº 1 do CC; (c) testamento nulidade – artigo
2.115º do CC. A solução genericamente defendida pela doutrina é a de
que o disposto no artigo 2.115º, conjugado com o disposto no artigo 294º do
CC, constitui o afloramento do princípio geral nesta matéria, ou seja, a
sanção para actos de menores em sede da incapacidade de gozo, é a
nulidade, salvo disposição legal em contrário (v. g. os regimes especiais e
esporadicamente fixados pelo legislador e acima enunciados). Assim, a
técnica é a seguinte: primeiro é preciso averiguar se, num caso de
incapacidade de gozo, a lei não fixa um regime sancionatório especial; não o
fixando, aplica-se o regime da nulidade.
(c) Actos praticados no âmbito da incapacidade de exercício: Aqui
o legislador adoptou um regime genérico, regime regra, da
anulabilidade (artigo 136º do CC). O regime geral de anulabilidade
dos negócios jurídicos está previsto no artigo 287º e ss. do CC. O
regime da anulabilidade dos actos dos menores apresenta alguns
desvios a esse regime geral. Legitimidade: (i) os pais, o tutor ou
administrador de bens, consoante os casos, [seria mais correcto o
legislador estipular – representante legal do menor]; (ii) o próprio
menor, (iii) qualquer herdeiro do menor. Estando em causa defesa
dos interesses do menor, tal como no regime geral, não é concedida
legitimidade à parte contrária que negoceia com o menor. A actuação
do menor e dos seus herdeiros está condicionada à actuação do representante
legal do menor (que pode abster-se de agir, agir, pedindo a anulação ou
confirmar o acto, quando pudesse praticar o ato em nome do menor); Só
quando o representante legal do menor se abstiver de pedir a anulação
ou não tiver confirmado o ato, é que o menor e, posteriormente os seus
herdeiros, pode (m) pedir a anulação.
Hoster defende que, havendo abstenção do
representante legal do menor, este e os
seus herdeiros não poderão vir a pedir a
anulação do ato viciado. C. Fernandes
entende que o menor tem um direito
próprio e originário, discordando, portanto
daquela posição. O herdeiro do menor só
pode pedir a anulação do acto viciado, se
nem o menor e nem o seu representante
legal tiverem pedido a anulação ou se não o
tiverem confirmado; porém, se o herdeiro
suceder no direito do menor e este tiver
caducado, já não pode pedir a anulação do
acto viciado.
Prazo de arguição: Considerando o estabelecido no nº 2
do artigo 287º, por remissão do artigo 136º, nº 1, há que
previamente averiguar se o negócio que se pretende
anular está cumprido ou não. (a) se o acto não estiver
cumprido: não se aplica plenamente o regime de prazos
previsto no artigo 136º do CC, funcionando neste caso o
disposto no número 2 do artigo 287º do CC, ou seja, a
anulação do acto pode ser pedida sem dependência de
prazo por via de acção, quer por via de excepção. Mas, a
interferência do disposto no nº 2 do artigo 287º do CC
apenas diz respeito aos prazos de um ano referidos no
artigo 136º do CC, não ficando afectados os prazos limites
para os pais, da maioridade ou emancipação dos filhos.
(b) Se o acto estiver cumprido: aplica-se plenamente o artigo 136º do CC;
Nesta situação levantam-se algumas dúvidas na doutrina. Assim:
Nota: Do artigo 136º não resulta a validade do acto praticado pelo menor, mas apenas que
continua inválido (anulável), ou seja, os efeitos da anulabilidade ficam paralisados, não podendo
ser invocados perante o outro contraente.
Deficiências físicas e mentais e hábitos de vida
A capacidade das pessoas pode sofrer limitações por factores de ordem natural ou adquiridos, os quais interferem
com formação livre e discernida da sua vontade e que as impeçam de reger convenientemente a sua pessoa e bens,
Tais factores podem traduzir em deficiências de natureza física ou em determinados hábitos de vida e assumir graus
mais ou menos graves. Por isso, o legislador estabelece regimes especiais de protecção, consoante a relevância e
gravidade desses factores incapacitantes que, em cada caso, se manifestam nas pessoas.
Os elementos de incapacidade, nesses casos, não valem de per si, como no caso da idade, pois, requerem a
intervenção dos tribunais, a quem cabe definir e fixar a incapacidade, a sua modalidade e intensidade.
Os factores acima referidos se revelam sobretudo no domínio da capacidade de exercício, mas, por vezes, no da
capacidade de gozo. Com maior ou menor intensidade.
O CC, neste domínio, regula os regimes de interdição e de inabilitação, esta última para casos de menor relevância
das deficiências físicas e mentais.
Assim, pode se estabelecer o seguinte quadro de incapacidades originárias em deficiências físicas ou psíquicas ou em
certos hábitos de vida:
interdição;
inabilitação;
incapacidade de facto.
Incapacidades dos interditos (artigos 143º a 156º do CC):
- Alcançada a maioridade as pessoas atingem a plenitude da sua capacidade jurídica (artigo 139º do CC),
porém, as pessoas maiores podem sofrer limitações mais ou menos amplas à sua capacidade, em
consequência de deficiências de ordem física ou psíquica que as afectem e que sejam suficientemente graves
para justificar regimes especiais de protecção: interdição e a inabilitação.
- As interdições (e também as inabilitações) só são aplicáveis a maiores e resulta sempre de uma decisão
judicial que verifica as ocorrência, em relação a certa pessoa, de alguma das suas causa (artigo 143º, nºs 2 e
3 e 161º do CC), embora possa ser requeridas no ano anterior à maioridade para produzir efeitos a partir da
maioridade. Contudo, estando acção de interdição ou inabilitação pendente contra o menor, ao atingir a
maioridade, manter-se-á o poder paternal ou a tutela até ao trânsito em julgado da respectiva sentença (artigo
140º do CC). Trata-se de uma medida cautelar que visa evitar que o menor venha a adquirir a plenitude da sua
capacidade durante a pendência da acção, para a vir a perder logo de seguida com a sentença.
- Fundamentos da interdição (artigo 143º, nº 1 do CC): (i) anomalia psíquica de qualquer tipo [demência], (ii)
surdez-mudez, (iii) cegueira, em qualquer caso, de tal modo graves e profundas que impeça o interdito de governar a
sua pessoa e reger os seus bens. Ou seja, os factos que fundamentam a interdição devem ser cumulativamente (i)
incapacitantes (quando sejam de tal modo graves que tornem a pessoa inapta para reger ela própria e aos seus bens) (ii)
actuais [não passadas ou previsíveis] (existirem no momento em que se pretende interditar a pessoa) e (iii) permanentes
e duradouras, embora não tenham que ser incuráveis.
- Como se decreta a interdição
Através de um processo judicial - (artigos 814º a 824º do CPC) - processo psíquico, somático e comportamental
dos indivíduos (fazer a súmula das fases de tramitação processual).
Legitimidade passiva (contra quem): o processo só pode ser instaurado contra maiores, em regra;
excepcionalmente pode ser instaurado contra menores, no ano anterior à maioridade (podendo até a sentença
judicial ser proferida durante a menoridade), mas para produzir efeitos a partir da maioridade (artigo 143º, nº 2 do
CC). A pessoa contra quem é instaurado o processo é designada de interdicendo ou interditando ou, do ponto de
vista processual, requerido.
Legitimidade activa (quem pode requerer): o cônjuge do interditando, o tutor ou curador do interditando, o
parente sucessível do interditando e MP (artigo 146º do CC). Se o interditando estiver sob o regime do poder
paternal, só tem legitimidade activa o pai ou a mãe que exercer plenamente aquele poder e o MP (artigo 146º nº 2
do CC). NOTA IMPORTANTE: O novo CPC veio introduzir uma ordem decrescente de pessoas com legitimidade
activa (cfr. artigo 815º do CPC): o cônjuge ou convivente de união de facto legalmente reconhecível e os sucessíveis
e, neste caso de sucessíveis, havendo vários, sendo todos pertencentes à mesma estirpe, a legitimidade activa é
atribuída a qualquer deles. O MP só tem legitimidade quando estiver em causa o interesse público. Como
compatibilizar o artigo 146º do CC e o artigo 815º do CPC? Entendo que o artigo 815º do CPC apenas teve a
preocupação de estabelecer a ordem de legitimidade e não limitar o limitar o número de pessoas com
legitimidade activa; assim, equipara o convivente de união de facto ao cônjuge (aplicável apenas nos casos
em que não existe casamento mas há uma união de facto reconhecível nos termos do artigo 1.712º do CC); o
curador ou tutor continua a ter prioridade antes do sucessível, já que são instituídos como meios de
suprimento da incapacidade.
A sentença judicial que decreta a interdição está sujeita a registo civil (cfr. CRC).
Âmbito da interdição
estão inibidos de pleno direito do exercício do poder paternal [artigo 1848º - al. b)
do CC].
(b) a interdição por surde-mudez ou cegueira: é mais restrito:
O regime de invalidade beneficia, em certos aspectos, do regime dos actos dos menores, por
analogia; porém, em vários pontos, a legislador estabeleceu particularidades do regime decorrentes
da própria natureza do instituto da interdição.
(a) Relativamente aos actos dos interditos praticados em sede da incapacidade de gozo: aplica-se o
regime previsto para a incapacidade de gozo dos menores.
(b) Quanto aos actos dos interditos praticados em sede da incapacidade de exercício, há que
distinguir o seguinte: (i) actos praticados antes do anúncio da acção (artigo 155º do CC) – é
aplicável o regime da incapacidade acidental previsto no artigo 257º do CC; tais actos são
anuláveis, se forem preenchidos os requisitos previstos nesse preceito legal [cfr. adiante o regime
da incapacidade acidental] (o tutor tem legitimidade para pedir a anulação desses actos,
contando-se o prazo, se não for aplicável o nº 2 do artigo 287º, a partir do conhecimento
desses actos pelo tutor). Note-se que este regime só faz sentido em relação à pessoa que praticou
o acto antes do anúncio da acção e mais tarde veio a ser declarada interdita pelo tribunal. Se a
pessoa não for decreta interdita aplica-se o regime do artigo 257º, mas directamente e não por via
da remissão do artigo 155º do CC; (ii) actos praticados entre o anúncio da acção e o registo da
sentença (artigo 154º do CC) – a partir do anúncio da acção cria-se a presunção da incapacidade,
baseada na possibilidade que terceiros têm de a conhecer.
Os actos praticados nesse período são anuláveis, se:
a) - não forem aqueles que o interdito pode praticar, por si, pessoal e livremente.
b) o interditando vier a ser definitivamente decretado interdito (afastam-se aqui os casos de interdição
provisória);
c) os actos praticados tiverem causado prejuízo ao interdito (valem aqui razões de segurança jurídica e falta
de interesse em anular os actos que não prejudicam o incapaz);
Mas qual o momento relevante para apreciar a existência do prejuízo? O momento da prática do acto ou o
momento da decisão de anulação? Mota Pinto, Castro Mendes, Horster e Carvalho Fernandes: Entendem que
se deve relevar o momento da prática do acto, posição essa fundamentada, quer na letra do preceito onde se diz
“causou prejuízo”, quer na ratio legis, “pois a exigência do requisito prejuízo visa evitar que, à volta dos
interdicendos, se forme um vácuo, que estes sejam postos como que em quarentena pelos restantes indivíduos” …
por outro lado, se os actos posteriores à ação pudessem ser anulados sem mais, ninguém quereria fazer negócios
com os interdidentos, o que os dificultaria gravemente na gestão dos seus interesses.
Mas quando há prejuízo para os interdicendos? Nos negócios onerosos, a resposta deve ser negativa se, nas
mesmas circunstâncias, uma pessoa de diligência normal praticaria o mesmo acto. Quanto aos negócios gratuitos
(v.g. doações), deve entender-se (C. Fernandes e Mota Pinto) que na doação há sempre prejuízo, pois, qualquer
que seja o seu fundamento moral, a mesma importa sempre e irremediavelmente um empobrecimento imediato do
doador, podendo, eventualmente, por força de ulteriores vicissitudes, causar-lhe grave dano.
Quanto à legitimidade: o tutor tem legitimidade e quanto ao prazo há ter em conta o disposto no
artigo 287º, nº 2 do CC, consoante o negócio esteja ou não cumprido. Se a anulação depender de
prazo, este é de um ano a contar do conhecimento do acto do interdito, mas em caso algum, esse
prazo começa a correr antes da data do registo da sentença que decretou a interdição (artigo 154º,
nº 2 do CC). A razão deste preceito tem a ver com o facto de só a partir desse momento o tutor
começa a exercer as suas funções. (iii) actos praticados após o registo da sentença (artigo
153º do CC) – são anuláveis sem a exigência de quaisquer outros requisitos e é quanto a esses
que existe maior analogia com o regime dos actos praticados pelos menores, já que, em rigor, só
esses são actos dos interditos.
NOTA: Sobre a legitimidade para requerer a anulabidade dos actos vide o artigo 822º, nº 2
do CPC.
- A inabilitação está regulada no CC para cobrir as situações de deficiência física ou psíquicas com menor
influência na capacidade das pessoas do que aquelas que determinam a interdição ou situações de hábitos de vida
que não levem á interdição. Por isso, em, alguns aspectos, é aplicável à inabilitação o regime jurídico da interdição
(Cfr. artigo 161º do CC).
- Fundamentos comuns (aos da interdição) (artigo 157º do CC): (i) anomalia psíquica, (ii) surdez-mudez, (iii)
cegueira, embora permanente e duradouros, não seja de tal modo grave que justifique a interdição [se a
afectação for temporária ou acidental há lugar ao regime da incapacidade acidental previsto no artigo 257º do CC]
- Fundamentos específicos (da inabilitação): (i) prodigalidade habitual [propensão a que um a pessoa tem para
habitualmente não resiste para efectuar despesas ruinosas e injustificadas, v.g. despesas de jogo; não se trata
apenas de despesas elevadas, mas despesas exageradas em relação aos rendimentos, injustificáveis e reprováveis,
por forma a implicar a dissipação ou a possibilidade de perda do próprio capital ou dos bens de que provêm os
rendimentos, ou seja despesas desproporcionais em relação aos meios patrimoniais da pessoa; não basta que das
despesas sejam elevadas, se não consomem o rendimento da pessoa; pode ocorrer a realização de despesas não
avultadas mas que esgotem todo o património da pessoa e, neste caso, há prodigalidade]; A prodigalidade não é
uma situação mental ou física, mas sim um estado hábito de vida, uma anomalia de comportamento, (ii) abuso de
bebidas alcoólicas [alcoolismo], (iii) abuso de estupefacientes (toxicomania], se mostrem incapazes de reger
convenientemente o seu património.
- As duas últimas causas específicas consistem no uso imoderado de bebidas
alcoólicas e estupefacientes e outros produtos semelhantes, tais como as diversas
drogas. As causas específicas resultem de hábitos de vida considerados geralmente
reprováveis no consenso social, mas sobretudo por afectarem a vontade livre e
discernida da pessoa.
- A pessoa a quem a inabilitação diz respeita designa-se por inabilitando ou, do ponto
de vista processual, requerido.
- O juiz, tal como na interdição, pode na sentença decretar inabilitação provisória (Cfr.
artigo 820º do CPC). Também, em função do grau de incapacidade, nada impede que o
juiz, face a um pedido de interdição decrete a inabilitação ou face a um pedido de
inabilitação decrete a interdição, claro está, nas situações em que ocorrem causas ou
fundamentos comuns aos dois institutos.
Legitimidade passiva e activa (cfr. artigos 146º e 161º do CC) (cfr. o exposto quanto
ao regime da interdição – por remissão do artigo 161º do CC).
Âmbito da inabilitação
Se não for inabilitado por prodigalidade, não pode ser nomeado tutor [artigos
1875º e 1876º, nº 1 – al. a) do CC);
(ii) Se for um inabilitado por outras causas que não seja a anomalia psíquica:
o inabilitado fica inibido de pleno direito do representar o filho (artigos 1849º e 1851º do CC);
(iii) Se for um inabilitado por anomalia psíquica a inabilitação, além das incapacidades do inabilitado em
geral:
não pode perfilhar, se no momento da perfilhação, estiver notoriamente demente [artigo 1775º, nºs 1 e 2 do
CC].
o inabilitado pode ser nomeado tutor [artigos 1875º e 1876º, nº 2 do CC), só estando impedido de, nessas
funções, ter a administração de bens do pupilo (artigo 1914º - al a) – 1ª parte do CC)];
o inabilitado não podem, como protutor, praticar os actos abrangidos pela administração de bens (artigos
1876º, nº 2 e 1900º, nº 1 do CC);
o inabilitado não podem ser administrador de bens (artigo 1914º - al. a) do CC.
(b) No plano da capacidade de exercício: os efeitos atingem a esfera patrimonial do
inabilitado. A sentença deve especificar. Porém, há distinguir:
(i) actos de disposição de bens entre vivos ou outros que a sentença a eles
assimile
da sentença pode resultar três regimes: (a) liberdade para a prática do acto, de
forma pessoal e livre, se a sentença for omissa neste particular; (b) assistência,
mediante autorização do curador (todos ou alguns dos actos) (c) e representação,
no caso previsto no artigo 159º do CC.
Meio de suprimento (artigo 158º do CC):
(i) para actos de disposição inter vivos ou outros que a sentença a eles assimile: É a curatela.
Trata-se assistência, por intermédio de um curador, [podendo haver um Conselho de Família e um
Subcurador - cfr. o artigo 158º, nº 2 e 820º, nº 1 do CPC), a cuja autorização (suprível
judicialmente) estão sujeitos os actos de disposição de bens entre vivos e todos os que, atendendo
às circunstâncias de cada caso, forem especificados na sentença.
(i) para actos de administração, quando o inabilitado não tenha capacidade para os praticar:
há que distinguir: (i) se a sentença estabelecer o regime do artigo 158º, nº 1 do CC, tais actos ficam
sujeito à curatela, nos termos acima expostos. (ii) a sentença pode atribuir, no todo ou em parte, a
administração ao curador, nos termos do artigo 169º, nº 1 do CC e, neste caso o meio de
suprimento é a representação, passando o curador a agir em nome e representação do inabilitado;
Cfr. também artigo 159º, nº 2 do CC
- A quem incumbe a curatela (artigos 148º e 161º do CC): às mesmas pessoas que podem ser tutores.
Levantamento ou cessação da inabilitação (artigo 160º do CC): idêntico ao da interdição, com a especificidade do
artigo 160º do CC. Ter também em conta o disposto no artigo 824º do CPC
Notas comparativas ou distintivas com (de) o regime de interdição ou: (i) nos fundamentos: os três primeiros
são fundamentos comuns do regime de interdição, os três últimos são fundamentos específicos do regime de
inabilitação, (ii) em ambos os institutos os fundamentos têm de ser permanentes e duradouros, mas a deficiência
da interdição é mais grave do que a da inabilitação (residual); (iii) a interdição é decretada sempre a causa seja de
molde a impedir a pessoa afectada de governar a sua pessoa e os seus bens [a pessoa não consegue de todo
cuidar da sua pessoa e dos seus bens], a inabilitação apenas quando a causa impede a pessoa afectada de
governar convenientemente o seu património [a pessoa não consegue cuidar convenientemente dos seus bens,
mas não precisa de auxílio para cuidar da sua pessoa]; (iv) ao interdito é nomeado um tutor (a incapacidade é suprida por
representação legal) e ao inabilitado é nomeado um curador que lhe assiste na prática de actos (artigo 158º do CC) (a
incapacidade é suprida por assistência); (v) na interdição todo o património do interdito é entregue à administração do tutor,
na inabilitação há mais maleabilidade, já que o juiz pode decretar a entrega total ou parcial do património do inabilitado (artigo
159º do CC), semelhante ao regime de administração dos bens dos menores, dando lugar à constituição de um conselho de
família, à designação de um sub-curador e à prestação de contas; (vi) a interdição implica a incapacidade geral de exercício, a
inabilitação implica uma incapacidade específica (todos os actos de disposição de bens entre vivos e todos os actos de administração
que, em atenção ao caso concreto, forem especificados na sentença, ou seja, em regra não a capacidade do inabilitado relativamente à
prática de actos de administração de bens).
Incapacidade «sui generis» do artigo 140º CC -vd artigo 143º, nº 2
O poder paternal ou a tutela não cessam se o menor, ao atingir a
maioridade, tiver pendente contra si acção de interdição ou
inabilitação (pese embora o regime de interdição e de inabilitação ser
aplicável só maiores, a lei permite a instauração da acção no ano
anterior à maioridade [a interdição por anomalia psíquica pode ser
requerida e decretada a partir dos 16 anos de idade do menor] para
produzir efeitos na data desta – artigos 143º, nºs 2 e 3). Pode
acontecer que, por razões diversas, nomeadamente morosidade
processual ou instauração da acção muito próxima da data da
maioridade, a acção não esteja ainda decidida à data da maioridade.
O legislador entendeu levar em conta a futura incapacitação do
maior, recusou-se a criar um hiato no seu estado de incapacidade
para o tempo que decorre entre a maioridade e a decisão judicial
sobre a interdição ou inabilitação.
Qual é o regime dessa incapacidade? Ou seja, devem ser tratados como
menores? Ou como interditos ou inabilitados? Ou como interdicendos
ou inabilitandos? Qual a natureza do poder paternal (ou da eventual
tutela) a que se refere o artigo 140 do CC? Carvalho Fernandes: Se o
maior fosse tratado com interdicendo ou inabilitando, bastaria a solução
prevista no artigo 154º do CC (por aplicação directa ou por remissão do artigo
161º), sendo então inútil o artigo 140º do CC; ou ainda em rigor se aplicaria a
solução do artigo 155º, quando a acção tivesse sido interposto tão próximo do
limite da menoridade, que não tivesse ainda anunciada. O referido autor
pugna pelo entendimento da equiparação do maior a menor, por três ordens
de razões: (i) pela letra da lei que manda subsistir o poder paternal ou a
tutela (sendo o regime de suprimento verdadeiros casos de poder paternal ou
tutela, tal como desenhados para os menores); de resto o artigo 140º surge
como uma restrição à aquisição da capacidade definida no artigo 139º como
resulta não só da sequência dos preceitos, mas também da adversativa
porém; (ii) se o legislador quisesse antecipar os efeitos da interdição ou
inabilitação teria meios para o fazer através da aplicação do regime provisório
dessas incapacidades; (iii) a incapacidade dos menores funciona como modelo
geral das incapacidades das pessoas singulares.
Assim, as pessoas maiores abrangidas pelo artigo 140º do CC sofrem de
incapacidade especial, que deve ser moldada sobre a incapacidade dos menores.
Oliveira Ascensão fala de prorrogação da incapacidade, não obstante a
maioridade. Quando é que termina essa incapcidade? Carvalho Fernandes: com o
trânsito em julgado da sentença, se não for decretada a incapacidade (interdição ou
inabilitação) ou com o registo da sentença, se for decretada a incapacitação.