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Capacidade e Incapacidade Jurídicas

O documento discute os conceitos de capacidade jurídica e incapacidade jurídica, incluindo capacidade de gozo e capacidade de exercício. Aborda como a capacidade pode ser genérica, específica ou particular e como a incapacidade pode assumir diferentes graus. Também discute as relações entre capacidade de gozo e capacidade de exercício.

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Capacidade e Incapacidade Jurídicas

O documento discute os conceitos de capacidade jurídica e incapacidade jurídica, incluindo capacidade de gozo e capacidade de exercício. Aborda como a capacidade pode ser genérica, específica ou particular e como a incapacidade pode assumir diferentes graus. Também discute as relações entre capacidade de gozo e capacidade de exercício.

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CAPACIDADE E INCAPACIDADE JURÍDICAS

1. Generalidades:

- Noção de Capacidade Jurídica: Está-se perante um conceito quantitativo (pode


ser mais ou menos ampla, implicando, pois, uma ideia de medida).

- Assim, a capacidade jurídica é a medida de direitos e vinculações de que uma


pessoa é susceptível (de ser titular e exercer e a que pode estar está adstrita e
cumprir, por si só, pessoal e livremente) (Nota: esta noção serve para distinguir a
capacidade da personalidade jurídica, mas esta noção não é um género do qual
derivam a capacidade de gozo e a capacidade de exercício).

- Noção de Incapacidade Jurídica: É a medida de direitos e vinculações de que uma


pessoa não é susceptível (de ser titular e exercer e a que nao pode estar está adstrita
e cumprir, por si só, pessoal e livremente).

- A capacidade e incapacidade jurídicas podem ser analisadas sob duas perspectivas:


(i) a simples imputação ou não imputação de direitos e vinculações (temos
capacidade ou incapacidade de gozo) (ii) e a actuação ou não actuação jurídica que os
direitos e vinculações envolvem para terem sentido (temos capacidade ou
incapacidade de exercício). Assim, temos:
- Capacidade de Gozo:

É a medida de direitos e vinculações de que uma pessoa pode ser


titular e a que pode estar adstrita, ou seja, a susceptibilidade de ser
sujeito (activo e passivo) de quaisquer relações jurídicas não
exceptuadas por lei.

- A capacidade diz respeito à titularidade de direitos e adstrição


de deveres em si mesmos e é irrenunciável; está em causa saber
quais os direitos e vinculações que a certa pessoa podem caber;
coloca-se no plano abstracto da titularidade e da adstrição de
situações jurídicas. (cfr. artigos 65º do CC - pessoas singulares – e
165º do CC – pessoas colectivas)
- A Capacidade de Gozo, pode graduar-se em:

(a) Genérica: verifica-se quando uma pessoa, em regra, é titular da


generalidade de direitos e está adstrita à generalidade de vinculações,
reconhecidos pela ordem jurídica (ex: nos indivíduos maiores – artigo 65º,
nº 1 do CC).

(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa só é titular de certas


categorias ou espécies de direitos e só está adstrita à certas categorias ou
espécies de vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica (ex: pessoas
colectivas – artigo 165º, nº 1 do CC).

(c) Particular: trata-se de averiguar se uma pessoa pode ser titular de um


certo direito e estar adstrita a uma certa vinculação, concretamente
considerados (ex: quando se afirma que o menor de 17 anos pode casar-se
– artigo 1564º - al. a), a contrario -, está-se a referir-se à sua capacidade de
gozo particular)
- Incapacidade Jurídica de Gozo:

- É a medida de direitos e vinculações de que uma pessoa não pode ser titular e a que
não pode estar adstrita.

- A Incapacidade de Gozo pode comportar os seguintes graus:

(a) Genérica: verifica-se quando uma pessoa, em regra, não é titular da generalidade
de direitos e não está adstrita à generalidade de vinculações, reconhecidos pela ordem
jurídica, ou seja, a generalidade de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem
jurídica, de que uma pessoa não pode ser titular e a que não pode estar adstrita.

(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa não é titular de certas categorias ou
espécies de direitos e não está está adstrita à certas categorias ou espécies de
vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, ou seja, determinadas categorias ou
espécies de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, de que uma
pessoa não é titular e a que não pode estar adstrita.

(c) Particular: trata-se de averiguar se uma pessoa não pode ser titular de um certo
direito e não pode estar adstrita a uma certa vinculação, concretamente considerados.
- Capacidade de Exercício (Capacidade de Agir):

- É a medida de direitos e vinculações que uma pessoa pode exercer e cumprir por si,
pessoal e livremente (isto é, sem intermediação de um representante legal ou o
consentimento de um assistente). A capacidade de exercício diz respeito à actuação no
plano jurídico; está em causa saber como certa pessoa é admitida a exercer os direitos e
a cumprir as vinculações que, de facto, lhe estão previamente atribuídos ou a que está
adstrita. Também, a Capacidade de Exercício pode graduar-se em: (a) Genérica:
verifica-se quando uma pessoa é, em regra, capaz de, por is só, pessoal e livremente,
exercer a generalidade de direitos e cumprir a generalidades de vinculações,
reconhecidos pela ordem jurídica (ex: nos indivíduos maiores – artigo 139º do CC).

(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa só é capaz de, por si só, pessoal e
livremente, exercer certas categorias ou espécies de direitos ecumprir certas categorias
ou espécies de vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica -(ex: os
inabilitados,quando a sentença judicial abranja apenas, na sua incapacidade, actos de
disposição – artigo 158º, nº 1 do CC).

(c) Particular: verifica-se quando a uma pessoa é admitida a, por si só, pessoal e livremente, exercer um certo direito
ou cumprir uma determinada certa vinculação; nota: esta capacidade jurídica é aferida por referência a um

determinado direito ou vinculação concretamente considerados .


- Incapacidade Jurídica de Exercício: É a medida de direitos e vinculações que uma
pessoa não pode exercer e cumprir por si, pessoal e livremente.

- A Incapacidade de Exercício também pode comportar os seguintes graus: (a)


Genérica: verifica-se quando uma pessoa é, em regra, incapaz de, por si só, pessoal e
livremente, exercer a generalidade de direitos e cumprir a generalidades de vinculações,
reconhecidos pela ordem jurídica (ex: nos menores – artigo 134º do CC).

(b) Específica: verifica-se quando uma pessoa nao é capaz de, por si só, pessoal e
livremente, exercer certas categorias ou espécies de direitos ecumprir certas categorias
ou espécies de vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, ou seja, determinadas
categorias ou espécies de direitos e vinculações, reconhecidos pela ordem jurídica, que
uma pessoa não pode exercer e cumprir por si só, pessoal e livremente (ex: os
inabilitados, quando a sentença judicial abranja apenas, na sua incapacidade, actos de
disposição – artigo 158º, nº 1 do CC).

(c) Particular: verifica-se quando a uma pessoa nao é admitida a, por si só, pessoal e
livremente, exercer um certo direito ou cumprir uma determinada certa vinculação;
nota: esta incapacidade capacidade jurídica é também aferida por referência a um
determinado direito ou vinculação concretamente considerados.
- Relações entre a capacidade de gozo e capacidade de exercício

- Uma pessoa pode ter capacidade de gozo e não ter capacidade de exercício;

- Uma pessoa pode ter capacidade de gozo genérica e sofrer de incapacidade de


exercício genérica (ex: os menores);

- Uma pessoa pode ter capacidade de gozo particular e não ter capacidade de
exercício particular, por carecer de autorização (ex. o menor de 17 anos que
pretende casar-se);

- Uma pessoa pode sofrer de incapacidade genérica de gozo ou de exercício e ter


capacidade específica de gozo ou de exercício ou vice-versa (exs. os inabilitados e os
menores)

- Não é admissível uma incapacidade de gozo absoluta por isso significar a negação
da própria personalidade jurídica;

- Não pode coexistir uma situação de capacidade de gozo genérica com uma situação
de incapacidade de gozo genérica;

- Não pode coexistir uma situação de capacidade de exercício genérica com uma
situação de incapacidade genérica de exercício.
AS INCAPACIDADES JURÍDICAS

- As pessoas singulares têm capacidade de gozo genérica (artigo 67º, nº 1 do CC) e os


indivíduos maiores de 18 anos têm capacidade genérica de exercício (artigo 139º do
CC).

- As limitações à capacidade das pessoas singulares, numa ordenação clássica,


têm a ver com (i) a nacionalidade, (ii) o sexo (feminino), (iii) a posição familiar (iv) a
idade (menoridade), (v) certas deficiências físicas ou mentais (interdição e inabilitação),
(vi) certos hábitos de vida (inabilitação por prodigalidade e abuso de bebidas alcoólicas)
e (vii) insuficiência patrimonial (falência e insolvência).

- Hoje, nem todos esses elementos têm relevância, já que, houve uma evolução social e
jurídica secular que retirou a algumas deles o sentido e significado que tinham
outrora, funcionando como verdadeiras limitações à capacidade ou causas de
incapacidade jurídica. Assim, não estudaremos a nacionalidade, o sexo e as chamadas
“incapacidades conjugais” que a doutrina mais recente considera como situações de
ilegitimidades.
- A lei faz coincidir a aquisição da capacidade de exercício, não com o nascimento, mas sim com
a maturidade (maioridade). O Direito Romano mais antigo a capacidade de exercício dependia da
puberdade e era declarada caso a caso pelo «pater famílias» após uma «inspectio corporis». A
evolução foi no sentido de uma determinação genérica, que se consumou com Justiniano que
fixou a puberdade aos 14 anos para os rapazes e 12 para a as raparigas.

- Actualmente a grande maioria das ordens jurídicas segue o sistema de fixação normativa da
maioridade: Hoje 18 anos. Tradicionalmente eram 21 anos de idade. Em Portugal até a reforma
de 1977 eram 21 anos e com essa reforma baixou para 18 anos.

- A idade constitui um dos elementos naturais da capacidade, uma vez que envolve a
consideração de aspectos de natureza física ou psíquicas inerentes à condição humana.

- Na 1ª fase da vida, as pessoas singulares têm uma natural debilidade física e mental e menor
conhecimento da realidade e dos problemas do comportamento em sociedade, o que as torna
menos aptos a ocupar-se dos seus interesses.

- Ora, o Direito Civil pressupõe que as pessoas sejam livres e esclarecidas e que, ao agirem em
Direito, o façam com liberdade e esclarecimento (não de pessoas superdotadas e de elites
culturais, mas de pessoas comuns). Mas, o DC não pode ignorar pessoas com padrões de
liberdade e esclarecimento abaixo do normal (homem comum), devido a circunstâncias várias
(idade, deficiências, orignárias ou adquiridas ou desvios de carácter ou comportamento, etc). Ou
seja, o DC exige que a pessoa atinja certa maturidade, para um agir juridicamente válido.
- Suprimentos da Incapacidade (artigo 137º do CC):

- As limitações à capacidade de exercício trazem importantes consequências


no plano de actuação jurídica, quer esteja em causa a incapciade de gozo,
quer de exercício.

- No primeiro caso por a pessoa poder ver-se privada da titularidade e


adstrição de direitos e vinculações e, no segundo caso, por não poder
actuar, por si, pessoa e livremente.

- Surge assim a questão de se saber se existem meios de obviar tais


inconvenientes. Fala-se então de Suprimento da incapacidade.

- Nesta matéria vale o seguinte princípio: a incapacidade de gozo não


admite suprimento (esta incapacidade reporta-se à titularidade de direitos
e adstrição a vinculações, por isso, não é viável suprir a impossibilidade de
ser titular de um direito e de estar adstrito a uma vinculação; o suprimento
traduzir-se-ia na atribuição da titularidade e adstrição de direito e
vinculações, o que constituiria uma negação da própria incapacidade).
- Mas a incapacidade de exercício é suprível. Assim, a ideia de suprimento é inerente à
própria incapacidade de exercício e por ela imposta (a impossibilidade de exercer um direito e
ou de cumprir um dever causaria danos e, no caso de direitos, seria a negação do próprio direito,
retirando-lhe qualquer consistência prática e mesmo jurídica; e no caso de vinculações implicaria
consequências desfavoráveis inerentes ao seu não cumprimemto, atingindo situações e posições
jurídicas de terceiros).

- Noção de suprimento: é um sistema organizado pelo Direito com vista a permitir o exercício de
direitos e o cumprimento de vinculações de um incapaz (uma série de expedientes técnico-jurídicos
dirigidos ao afastamento das consequências das limitações de actuação pessoal ou livre da pessoa
que sofre de incapacidade).

- Este sistema desenvolve-se em dois aspectos distintos:

- Meios de Suprimento: são situações jurídicas organizadas pelo direito para fazer face aos
problemas suscitados pela impossibilidade de o titular do direito ou o adstrito a vinculação de agir
por si exercendo-o ou cumprindo-o. Ou seja, são situações jurídicas que permitem resolver os
problemas técnico-jurídicos emergentes de incapacidade. São realidades estáticas.

- Formas de Suprimento: são modos de agir para o exercício lícito de direitos e cumprimento lícito
de vinculações por quem não pode fazer pessoal e livremente. Ou seja, são modos de actuação
estabelecidos pelo direito em vista do efectivo exercício dos direitos e cumprimentos das vinculações
do incapaz. São realidades dinâmicas.
- São formas de suprimento de incapacidade: (i) representação [se fazer praticar o acto por
outrem – forma normal de suprimento de incapacidade; dá-se um fenómeno de substituição da
vontade] (ii) assistência [se fazer ajudar na prática do acto – forma excepcional de suprimento de
incapacidade, já que só se usa nos casos previstos na lei].

- Representação legal: quando os poderes representativos são conferidos por lei; há uma pessoa
que, por determinação da lei, e com poderes por ela atribuídos, vai agir em substituição do incapaz,
como se fosse este, em nome e no interesse dele. Materialmente o acto é praticado pelo
representante, mas juridicamente os seus efeitos produzem-se na esfera jurídica do representado,
como acto dele – artigo 258º do CC.

- Representação voluntária: quando os poderes representativos são conferidos por negócio


jurídico.

- Na assistência: há um reforço ou integração (conjugação) da vontade do incapaz pela vontade de


outra pessoa (assistente), que o ajuda ou o auxilia na prática do acto, de forma a haver mais
garantias de este sair conforme e adequado aos interesses em jogo. O assistente apenas colabora
com o incapaz, que também intervém no acto; dá-se o fenómeno de conjugação ou concurso de
vontades - o incapaz é admitido a agir pessoalmente, mas não livremente;
- A assistência pode ocorrer em três modalidades: (i)
autorização (dada antes ou no momento da prática do
acto; ex. incapacidade dos inabilitados no artigo 158º, nº
1 do CC); (ii) comparticipação (na prática do acto, se o
assistente tiver nele interesse; Exs: actos que dependem
do consentimento de ambos os cônjuges – artigo 1.639º
do CC); (iii) confirmação ou ratificação ou aprovação
(posterior à prática do acto).
- Aspectos de terminologia: (i) quando se fala de capaz
ou capacidade está a se a referir à capacidade de gozo;
(ii) quando se fala de incapaz e incapacidade está se a
pensar na incapacidade e incapacidade de exercício
- São Meios de suprimento de incapacidade (artigo 137º do CC): (a) Meio principal (i) poder paternal – artigos
1814º a 1856º do CC; (b) Meios subsidiários de suprimento da incapacidade por menoridade ou meios de
supressão do poder paternal: (i) tutela – artigos 1867º a 1910º do CC -, (ii) regime de administração de bens –
artigos 1867º a 1873º e 1911º a 1916º do CC - (iii) e delegação do poder paternal, que pode ser voluntária ou
judicial (artigos 1.857º a 1.866º do CC) (iv) e intervenção do MP.

- Poder paternal (artigos 1.814º 1.856º do CC):

 Natureza: C. Mendes: é uma situação jurídica complexa (não um direito subjectivo) que abrange uma séria de
faculdades (poderes funcionais e simples deveres) - artigo 1814º CC. Irrenunciabilidade (artigo 1.816º CC)

 Conteúdo: 1815º do CC

 Projecção (no plano pessoal – artigos 1819º a 1827º Cfr. artigos 119º a 132º - e patrimonial dos filhos – artigos
1828º a 18141º - e casos especiais – artigos 1842º a 1844º): No plano pessoal: poder de comando, correcção e
de representação. No plano patrimonial: poder de administração e dever de alimentos.

 Início (artigo 1746º do CC): com o estabelecimento da filiação (maternidade e paternidade): reconhecimento
jurídico da relação biológica ou natural entre o filho e a mãe e o filho e o pai). No caso da mãe: declaração no
registo civil. No caso do pai: o filho nascido de mãe casada funciona a presunção legal (artigo 1745º, nº 2 do
CC); filho nascido de mãe não casada: reconhecimento (perfilhação ou decisão judicial em acção de
investigação de paternidade).

 Inibição [suspensão] (artigos 1846º a 1856º do CC): casos de abandono, crueldade, corrupção, etc.

 Cessação – artigo 1845º: (i) maioridade ou emancipação, (ii) morte dos pais ou do filho (iii) e adopção.
Irreversibilidade.
- Tutela (artigos 1867º a 1910º do CC):

 É um meio sucedâneo do poder paternal. Tutor verso pupilo. Nota: o legislador usa o termo tutor quando está em causa o
lado pessoal só ou simultaneamente com o patrimonial e curador quando apenas está em causa o lado patrimonial (tutor
datur personae, curator rei)

 Classificação clássica: (i) tutela testamentária [a designação do tutor é feita pelos pais ou um deles, na maioria dos casos
em testamento, mas por vezes em acto diverso; (ii) tutela legítima [a designação do tutor é feita por lei]; (iii) tutela dativa
(a designação do tutor é feita pelo tribunal].

 Casos de sujeição (artigo 1867º do CC)

 Órgãos da tutela: No poder paternal a lei confia plenamente no afecto natural dos pais em como cumprirão a sua missão e
só intervém em casos de desacordo. Na tutela essa confiança não é igual. Por isso, cria, para a defesa do menor, vários
órgãos: (i) Conselho de Família (artigos 1898º a 1907º do CC): compete vigiar o modo como o tutor exerce as suas funções;
mas é também o órgão consultivo do próprio tutor; (ii) Protutor (artigos 1902º a 1907º): é um dos vogais do Conselho de
Família que tem como função fiscalizar de forma permanente a acção do tutor e exercer as outras previstas no artigo
1903º do CC).

 Termo da tutela: (artigo 1908º do CC)

- Administração de bens (artigos 1867º a 1873º e 191º a 1916º do CC):

 Nunca existe isoladamente, coexiste sempre com outro meio de suprimento de incapacidade (o poder paternal ou a tutela)

 Casos de sujeição (artigo 1869º do CC)

 Remissão: para o regime da tutela (artigo 1911º do CC)


- Delegação do Poder Paternal (artigos 1857º a 1866º do CC)

 Pressupostos (artigo 1857º): (i) violação culposa dos deveres dos pais para com os filhos, de que resulte grave
perigo para a sua saúde, segurança, formação e educação ou (ii) os pais são inexperientes ou se encontrem
com enfermidade ou ausentes, não se mostrem em condições de cumprir os seus deveres para com os filhos;
(iii) não seja o caso de aplicação de inibição plena do exercício do poder paternal, nem de instauração da
tutela; (iv) os pais conservam o poder paternal em tudo o que não for incompatível com a delegação (artigo
1859º, nº 1 do CC)

 Âmbito: vide o artigo 1858º do CC

 Classificação: voluntária e judicial, total e parcial

 (i) Delegação Judicial

o Legitimidade: as pessoas previstas no nº 1 do artigo 1857º do CC.

o Quem pode ser delegado: as pessoas do número 2 do artigo 1857º do CC.

o Aspectos do regime de delegação: (i) Possibilidade de haver regime de visitas aos pais [artigo 1859º, nº 2
do CC] (ii) possibilidade de prestação de contas e de informações entre o modo do cumprimento das
providências decretadas que determinem, se necessário, a prestação de caução (artigo 1859º, nº 3 do CC).

o Revogação da delegação: artigo 1860º do CC.


 (ii) Delegação voluntária (artigos 1861º a 1866º do CC):

o Pressupostos: artigo 1861º do CC – (i) acordo dos pais, (ii) com relação a filhos
menores de dezasseis anos; (iii) delegação parcial (guarda, sustento ou
educação); (iv) existência de motivos ponderosos que lhes impede de exercer
pessoal e eficazmente os seus deveres.

o Conteúdo da delegação: artigo 1863º do CC (discriminação precisa das


faculdades do poder paternal que são delegadas, a sua duração e os encargos
inerentes para o delegado)

o Processo: artigos 1862º e 1864º do CC.

o Efeitos da delegação: artigo 1865º do CC

o Cessação: O artigo 1866º do CC (i) termo do prazo; (ii) revogação por decisão
judicial; (iii) revogação pelo delegante, por notificação judicial avulsa, (iv)
denúncia do delegado, por notificação judicial avulsa, mas só produz efeitos 60
dias depois de conhecida pelo delegante.

 Intervenção do MP: Exs: (i) Preside o Conselho de Família, (ii) vide o artigo 1.850º
CC.
Incapacidade de menores (artigo 133º e ss do CC)

A incapacidade por menoridade começa com o nascimento da pessoa; quando é que termina e
qual é o critério? (i) critério casuístico: analise-se as pessoas caso a caso, com vista a apurar se
estão ou não aptas a reger convenientemente as suas pessoas e bens no momento em que
praticam determinado acto; críticas: complexo, cria situações de incerteza e insegurança, pois, só
apos a celebração do acto é possível apurar a capacidade; e dificuldade do apuramento da
incapacidade, já que é duplamente casuístico: teria de respeitar a cada pessoa de per si, mas
também a cada acto em concreto (ou pelo menos uma categoria de actos) que essa pessoa praticar;
(ii) critério genérico ou fixo (fixa uma idade até a qual a pessoa é incapaz), que comporta duas
modalidades: (a) sistema rígido (define-se uma idade que funciona como fronteira inultrapassável
entre a capacidade e incapacidade e a pessoa é incapaz enquanto não perfizer a idade definida,
mesmo que, em concreto, certo individuo se revele antes disso perfeitamente capaz de reger a sua
pessoa e os seus bens; atingindo a idade definida a pessoa passa a ser capaz, mesmo que em
concreto, não tenha maturidade exigida pela lei para uma válida actuação jurídica); (b) sistema
gradativo (assenta na ideia da diminuição gradativa da incapacidade e o correspondente
alargamento da capacidade, à medida da alteração da idade da pessoa; a passagem da situação de
incapacidade para a de capacidade opera-se não num determinado momento, mas sim, por fases
ou escalões); vantagens: maior adequação à realidade, sendo certo que o desenvolvimento físico e psíquico,
pressuposto da capacidade, não se adquire de um momento para outro, mas é o resultado de uma evolução
combinada do desenvolvimento físico e mental, da educação e experiência adquirida na vida social.
- Embora não previsto no CC, C. Fernandes, aponta 3 momentos ou
fases da vida do menor com relevância na sua situação de
incapacidade: 7 anos (termo da presunção da inimputabilidade –
artigo 488º, nº 2 do CC), 12 anos (relevância da vontade do menor
na resolução de assuntos do seu interesse – v. g. artigos 1.818º, nº
7, 1.925º - al. b) e 1.928º, nº 1 do CC) e 16 anos (alargamento da
capacidade de gozo – artigos 1564ºç – al. a), 1.775º, nº 1, 1.822º, a
contrario sensu, - e alargamento da capacidade de exercício – artigos
135º - al c) – podendo adquirir capacidade genérica de exercício
mediante emancipação – artigos 141º e 142º do CC – e cessa a
inimputabilidade penal).
Causas da cessação da incapacidade por menoridade (artigo 138º do CC): (i)
maioridade (causa normal do termo da incapacidade e atinge-se aos 18 anos – artigo
139º [cfr. também o artigo 133º e 279 – al. c)] do CC -; a condição de maior ou menor
prova-se pelo registo de nascimento e por simples cálculo aritmético) (ii) emancipação
(apenas tem como facto constitutivo o casamento e para produzir efeitos o casamento
tem de ser regular; nos termos do artigo 1.564 – al. a) o menor de 16 anos tem
capacidade para casar, mas não pode fazer livremente, já deve obter o consentimento
dos pais (havendo poder paternal) ou do tutor ou, então, o suprimento desse
consentimento – Cfr. CRC. O meio processual vem regulado no CRC; Efeitos da
emancipação artigo 142º do CC; porém, a emancipação não torna o menor em
maior; o menor emancipado não é uma pessoa maior; não há, assim, coincidência
entre o estado civil de maior e o de menor emancipado. Como também não há
coincidência necessária entre a capacidade jurídica do maior e a capacidade jurídica
do menor emancipado (exs: artigo 2.198º do CC e situações em que o legislador atribui
direitos às pessoas em função da idade em si mesma, podendo coincidir com a
maioridade ou não).
Âmbito da incapacidade dos menores:

- No plano da capacidade de gozo: O menor tem capacidade genérica de


gozo (artigo 65ºcdo CC), porém sofre limitações à capacidade de gozo,
sobretudo no plano não patrimonial (i) incapacidade para casar: o menor de
idade inferior a 16 anos não pode casar-se – artigo 1.564º- al. a) do CC -, nem
pessoalmente, nem representado ou assistido; (ii) incapacidade para testar:
artigo 2.114º - al. a) do CC – o menor de idade inferior a 18 anos não pode
testar; (iii) incapacidade para perfilhar: 1775º, nº 1 do CC – o menor de 16
anos não pode perfilhar); (iv) incapacidade para representar o filho: artigo
1.849º do CC (v) incapacidade para administrar os bens dos filhos: artigo
1.849º do CC. Nestes casos não há sequer a titularidade.

- No plano da capacidade de exercício

É ao nível da capacidade de exercício que os efeitos da menoridade se fazem


sentir de forma mais significativa, já que o artigo 134º do CC (cfr. artigos
135º e 138º do CC) fixa o regime de incapacidade genérica de exercício (e não
Excepções à incapacidade de exercício: (i) direitos não patrimoniais que só admitem o exercício
pessoal (ii) artigo 135º, nºs 2 e 3 (1ºgrupo - negócios próprios da vida corrente do menor –
artigo 135º, nº 2 – al. a) do CC - [aqueles que a globalidade das pessoas normalmente celebra para
a satisfação das exigências normais e correntes da vida em sociedade, v.g. contratos de
transporte; são actos que pela sua simplicidade e habitualidade se acham ao alcance da
capacidade natural do menor e, por isso mesmo, não justificam o recurso à representação legal;
não é pois, para todos os actos da vida corrente que o menor tem capacidade de exercício, mas só
para aqueles que estejam ao alcance da sua capacidade natural e envolvam despesas ou
disposições de bens de pequena importância (avaliados em si mesmos e não em função do
património do menor, ou seja, em termos objectivos];

2º grupo – actos praticados no exercício da sua profissão – artigo 135º, nº 2 – als b) e c) -


[actos de administração ou de disposição de bens adquridos pelo trabalho e o exercício do direito
do menor de trabalhar, vg, contrato de trabalho de menores – cfr. o CLaboral – artigos 260 a
268º]; 3º grupo – actos relativos à essa profissão artigo 135º, nº 2 – al. d) do CC [actos relativos
à profissão autorizados, desde que estejam ao alcance da alcance da sua capacidade natural e
envolvam despesas ou disposições de bens de pequena importância]; (iii) artigo 263º - o menor
pode ser procurador em negócios que estejam ao alcance da sua capacidade de entender e querer;
(iv) artigo 1775º, nºs 1 e 2 a contrario - o menor pode perfilhar a partir dos 16 anos de idade;
(v) artigo 1.849º - o menor poder exercer o poder paternal em tudo que não envolva a
representação do filho e a administração dos bens deste.
Imputabilidade ou capacidade delitual (civil) dos
menores: é a susceptibilidade do menor responder (ver
imputados a si), a título de dolo ou negligência, pelos (os)
actos que comete contrários à lei e danos provocados -
artigos 488º. 489º e 491º do CC); a presunção do artigo
488º, nº 2 é ilidível por prova em contrário; a partir dos 7
anos a imputabilidade dos menores depende das
circunstâncias do caso, devendo averiguar-se se o menor
se a sua incapacidade natural envolve a incapacidade de
entender ou querer a que se refere o nº 1 do artigo 488º
do CC.
Valor dos actos praticados por menores (artigo 136º do CC)

(a) Casamento irregular do menor: No caso do artigo 1.607º do CC (só se refere à administração
de bens). E quanto aos actos de disposição? C. Fernandes: O princípio segundo o qual a lei que
proíbe o menos proíbe o mais poderia ter levado à conclusão da extensão do regime similar para
os actos de disposição, por estes envolverem mais poderes do que os actos de administração.
Porém, alerta para o facto de ser necessário demonstrar que os actos de disposição têm, em sede
do direito positivo, um regime mais restritivo do que o dos actos de administração; não é o que
resulta, por ex., do regime da incapacidade dos inabilitados para os actos de administração e
actos de disposição. Tendo presente os fins e a natureza da norma, sustenta que se deve
entender que o legislador só pretendeu no artigo 1.607º do CC colocar restrições a uma
situação de capacidade que, sem essas restrições, seria genérica, pelo que tais restrições
devem ser limitadas ao necessário e adequadas a esse fim. Acrescenta que a referida norma
tem nítida natureza sancionatória (cfr a epígrafe), justificando assim essa interpretação
literal ou mesmo restritiva. O autor está ciente do argumento (crítica), segundo o qual, a tese
defendida facilita a fraude ao preceito em tela, já que permite ao menor dispor de bens que não
pode administrar. Deve atender-se ao facto de os bens por ventura adquiridos por efeito do ato de
disposição ficarem sujeitos à administração dos representantes legais do menor.
Qual então o regime jurídico do artigo 1.607º do CC?
Se o casamento for irregular o cônjuge menor não
adquire capacidade genérica de exercício, não podendo,
ainda administrar os bens que leve para o casal ou
posteriormente venha a adquirir a título gratuito até
atingir a maioridade. A administração desses bens
continua entregue aos representantes legais do cônjuge
menor à data do casamento, não podendo nunca caber
ao outro cônjuge durante a menoridade. Trata-se aqui de
proteger o cônjuge menor em relação ao outro.
(b) Actos praticados no âmbito da incapacidade de gozo: A lei não fixa um
regime geral e regula esporadicamente alguns casos: (a) casamento –
anulabilidade (artigos 1.590 – al. a) e 1.564º - al. a) do CC); (b) perfilhação –
anulabilidade – artigo 1.785º, nº 1 do CC; (c) testamento nulidade – artigo
2.115º do CC. A solução genericamente defendida pela doutrina é a de
que o disposto no artigo 2.115º, conjugado com o disposto no artigo 294º do
CC, constitui o afloramento do princípio geral nesta matéria, ou seja, a
sanção para actos de menores em sede da incapacidade de gozo, é a
nulidade, salvo disposição legal em contrário (v. g. os regimes especiais e
esporadicamente fixados pelo legislador e acima enunciados). Assim, a
técnica é a seguinte: primeiro é preciso averiguar se, num caso de
incapacidade de gozo, a lei não fixa um regime sancionatório especial; não o
fixando, aplica-se o regime da nulidade.
(c) Actos praticados no âmbito da incapacidade de exercício: Aqui
o legislador adoptou um regime genérico, regime regra, da
anulabilidade (artigo 136º do CC). O regime geral de anulabilidade
dos negócios jurídicos está previsto no artigo 287º e ss. do CC. O
regime da anulabilidade dos actos dos menores apresenta alguns
desvios a esse regime geral. Legitimidade: (i) os pais, o tutor ou
administrador de bens, consoante os casos, [seria mais correcto o
legislador estipular – representante legal do menor]; (ii) o próprio
menor, (iii) qualquer herdeiro do menor. Estando em causa defesa
dos interesses do menor, tal como no regime geral, não é concedida
legitimidade à parte contrária que negoceia com o menor. A actuação
do menor e dos seus herdeiros está condicionada à actuação do representante
legal do menor (que pode abster-se de agir, agir, pedindo a anulação ou
confirmar o acto, quando pudesse praticar o ato em nome do menor); Só
quando o representante legal do menor se abstiver de pedir a anulação
ou não tiver confirmado o ato, é que o menor e, posteriormente os seus
herdeiros, pode (m) pedir a anulação.
Hoster defende que, havendo abstenção do
representante legal do menor, este e os
seus herdeiros não poderão vir a pedir a
anulação do ato viciado. C. Fernandes
entende que o menor tem um direito
próprio e originário, discordando, portanto
daquela posição. O herdeiro do menor só
pode pedir a anulação do acto viciado, se
nem o menor e nem o seu representante
legal tiverem pedido a anulação ou se não o
tiverem confirmado; porém, se o herdeiro
suceder no direito do menor e este tiver
caducado, já não pode pedir a anulação do
acto viciado.
Prazo de arguição: Considerando o estabelecido no nº 2
do artigo 287º, por remissão do artigo 136º, nº 1, há que
previamente averiguar se o negócio que se pretende
anular está cumprido ou não. (a) se o acto não estiver
cumprido: não se aplica plenamente o regime de prazos
previsto no artigo 136º do CC, funcionando neste caso o
disposto no número 2 do artigo 287º do CC, ou seja, a
anulação do acto pode ser pedida sem dependência de
prazo por via de acção, quer por via de excepção. Mas, a
interferência do disposto no nº 2 do artigo 287º do CC
apenas diz respeito aos prazos de um ano referidos no
artigo 136º do CC, não ficando afectados os prazos limites
para os pais, da maioridade ou emancipação dos filhos.
(b) Se o acto estiver cumprido: aplica-se plenamente o artigo 136º do CC;
Nesta situação levantam-se algumas dúvidas na doutrina. Assim:

 se a anulação for pedida pelo representante legal do menor (artigo


136º, nº 1 - al. a) do CC), fica condicionado (a) por qualquer das causas
da cessação da incapacidade (maioridade ou emancipação) do menor, ou
seja, só pode pedir a anulação até à data em que o menor atinja a
maioridade ou seja emancipado, com ressalva do disposto no artigo 140º
(situação em que o menor tenha pendente contra si uma acção de
interdição ou inabilitação ao atingir a maioridade, caso em que se
mantêm o poder paternal) e (b) só pode pedir a anulação dentro do prazo
de um ano a contar do conhecimento do acto inválido do menor;

 se a anulação for pedida pelo menor (artigo 136º, nº 1 – al. b): no


prazo de um ano a contar da maioridade ou emancipação (devia se
ressalvar também o artigo 140º do CC)
 se a anulação for pedida pelos herdeiros do menor (artigo 136º, nº 1 – al. c) do CC). Este
regime suscita mais polémica doutrinária. (i) Em primeiro lugar aplica-se a ressalva se
ocorrer a situação do artigo 140º do CC. (ii) Segundo C. Fernandes: A redacção do artigo
sugere a possibilidade de se pedir a anulação, caso a morte do menor tenha ocorrido numa
data localizada dentro do período de um ano a contar da sua maioridade ou emancipação, ou
seja, o herdeiro do menor só pode pedir a anulação do ato inválido do menor (falecido
depois da ter atingido a maioridade ou emancipação) no prazo de um ano a contar da
morte do menor. E se a morte do menor ocorrer antes de ter atingido a maioridade ou
emancipação? C. Fernandes entende que, por paridade de razões, se deve aplicar o mesmo
regime, podendo inclusive admitir-se que a hipótese se enquadre no texto da norma
interpretando-a extensivamente (fundamentos: (i) o legislador fixa um regime que estabilize
rapidamente a precariedade de actos anuláveis dos menores, uma vez ocorrido o termo da
incapacidade (daí o prazo de um ano); (ii) também pretendeu dar igual solução para os casos
da morte do menor; por isso, também, concedeu o prazo de um ano ao herdeiro para pedir a
anulação; (iii) ademais, o direito de anulação pertence ao menor (que, entretanto, não o pôde
exercer) e, admitindo a lei a transmissão por morte deste, não vê razão para distinguir
conforme a morte ocorra antes ou depois do menor ter atingido a maioridade ou estar
emancipado. O direito de anular (do menor) se transmite aos seus herdeiros, se a morte
do menor ocorrer até ao momento em que o próprio podia pedir a anulação.
Forma de arguição: o artigo 136º do
CC é omisso. Há, pois, quem se
recorre ao regime geral do artigo 287º
do CC. C. Fernandes entende que a
arguição pode ser feita judicialmente
por via acção ou excepção ou por
acordo das partes (artigo 291º do CC).
Inoponibilidade da anulabilidade (artigo 136º, nº 3 do CC) – Dolo do
Menor: Nota Prévia – a simples declaração ou que inculca a ideia da
maioridade ou emancipação não é suficiente para caracterizar o dolo
(Parágrafo único do artigo 299º do CSeabra). Sobre o dolo vide o artigo 253º,
nº 1 do CC. Havendo dolo do menor, além deste há outras pessoas com
legitimidade para pedir a anulação do ato inválido?
(i) Entendimento literal do preceito (segundo Cfernandes não tem
defensores): Os pais do menor e os herdeiros do menor podem. Só o
menor é que não pode pedir a anulação.
(ii) (ii) Alguns autores (Pires de Lima e Antunes Varela, Oliveira
Ascensão, Pais de Sousa e Horster) entendem que o menor e os
herdeiros não podem pedir a anulação do ato inválido, mas os
representantes legais do menor (v.g. os pais) podem pedir a
anulação. Argumentam que os herdeiros do menor, por serem
“continuadores do “de cujus”, a legitimidade deles deve ser pautada pela
legitimidade deste e, como sucessores, não podendo ter melhor direito
do que o direito do menor falecido. Por isso, em caso de dolo do menor,
também, os herdeiros não podem pedir a anulação. Contudo, entendem
que já os representantes legais do menor podem pedir a anulação
em caso de dolo do menor, porque são titulares de um direito
autónomo de anular.
(iii) Outros autores (Mário de Brito e Mota Pinto) entendem, pelo contrário que, além do menor,
todas as restantes pessoas, incluindo os representantes legais, ficam impedidos de pedir a
anulação em caso de actuação dolosa do menor, porque agem como representantes deste.

(iv) C. Fernandes: Recorre ao elemento racional da interpretação, faz a interpretação extensiva do


preceito, no sentido de ficarem impedidos de pedir a anulação todos os que teriam legitimidade
para invocar a anulabilidade. Fundamentos: (i) o legislador quis proteger o interesse do outro
contraente (a pessoa que negociou com o menor), que deve prevalecer sobre os interesses deste e
esta finalidade ficaria frustrada se se permitisse que as outras pessoas com legitimidade possam
vir pedir a anulação do acto doloso; (ii) em rigor, só o menor tem originariamente o direito de
anulação, sendo certo que os herdeiros adquirem-no por sucessão, valendo aqui o princípio de que
os sucessores não podem ter melhor direito do que o do de cujus; (iii) relativamente aos
representantes legais, o problema resolve-se segundo as regras próprias da legitimidade e não da
titularidade, ou seja, os representantes legais do menor, nessa qualidade, exercem o direito de
anular que cabe ao menor, pelo que, se o direito do menor ficar paralisado, não há razão para que
o seu representante o possa vir a exercer;

Nota: Do artigo 136º não resulta a validade do acto praticado pelo menor, mas apenas que
continua inválido (anulável), ou seja, os efeitos da anulabilidade ficam paralisados, não podendo
ser invocados perante o outro contraente.
Deficiências físicas e mentais e hábitos de vida

A capacidade das pessoas pode sofrer limitações por factores de ordem natural ou adquiridos, os quais interferem
com formação livre e discernida da sua vontade e que as impeçam de reger convenientemente a sua pessoa e bens,

Tais factores podem traduzir em deficiências de natureza física ou em determinados hábitos de vida e assumir graus
mais ou menos graves. Por isso, o legislador estabelece regimes especiais de protecção, consoante a relevância e
gravidade desses factores incapacitantes que, em cada caso, se manifestam nas pessoas.

Os elementos de incapacidade, nesses casos, não valem de per si, como no caso da idade, pois, requerem a
intervenção dos tribunais, a quem cabe definir e fixar a incapacidade, a sua modalidade e intensidade.

Os factores acima referidos se revelam sobretudo no domínio da capacidade de exercício, mas, por vezes, no da
capacidade de gozo. Com maior ou menor intensidade.

O CC, neste domínio, regula os regimes de interdição e de inabilitação, esta última para casos de menor relevância
das deficiências físicas e mentais.

Assim, pode se estabelecer o seguinte quadro de incapacidades originárias em deficiências físicas ou psíquicas ou em
certos hábitos de vida:

 interdição;

 inabilitação;

 incapacidade do artigo 140º;

 incapacidade de facto.
Incapacidades dos interditos (artigos 143º a 156º do CC):

- Alcançada a maioridade as pessoas atingem a plenitude da sua capacidade jurídica (artigo 139º do CC),
porém, as pessoas maiores podem sofrer limitações mais ou menos amplas à sua capacidade, em
consequência de deficiências de ordem física ou psíquica que as afectem e que sejam suficientemente graves
para justificar regimes especiais de protecção: interdição e a inabilitação.

- As interdições (e também as inabilitações) só são aplicáveis a maiores e resulta sempre de uma decisão
judicial que verifica as ocorrência, em relação a certa pessoa, de alguma das suas causa (artigo 143º, nºs 2 e
3 e 161º do CC), embora possa ser requeridas no ano anterior à maioridade para produzir efeitos a partir da
maioridade. Contudo, estando acção de interdição ou inabilitação pendente contra o menor, ao atingir a
maioridade, manter-se-á o poder paternal ou a tutela até ao trânsito em julgado da respectiva sentença (artigo
140º do CC). Trata-se de uma medida cautelar que visa evitar que o menor venha a adquirir a plenitude da sua
capacidade durante a pendência da acção, para a vir a perder logo de seguida com a sentença.

- Fundamentos da interdição (artigo 143º, nº 1 do CC): (i) anomalia psíquica de qualquer tipo [demência], (ii)
surdez-mudez, (iii) cegueira, em qualquer caso, de tal modo graves e profundas que impeça o interdito de governar a
sua pessoa e reger os seus bens. Ou seja, os factos que fundamentam a interdição devem ser cumulativamente (i)
incapacitantes (quando sejam de tal modo graves que tornem a pessoa inapta para reger ela própria e aos seus bens) (ii)
actuais [não passadas ou previsíveis] (existirem no momento em que se pretende interditar a pessoa) e (iii) permanentes
e duradouras, embora não tenham que ser incuráveis.
- Como se decreta a interdição

Através de um processo judicial - (artigos 814º a 824º do CPC) - processo psíquico, somático e comportamental
dos indivíduos (fazer a súmula das fases de tramitação processual).

Legitimidade passiva (contra quem): o processo só pode ser instaurado contra maiores, em regra;
excepcionalmente pode ser instaurado contra menores, no ano anterior à maioridade (podendo até a sentença
judicial ser proferida durante a menoridade), mas para produzir efeitos a partir da maioridade (artigo 143º, nº 2 do
CC). A pessoa contra quem é instaurado o processo é designada de interdicendo ou interditando ou, do ponto de
vista processual, requerido.

Legitimidade activa (quem pode requerer): o cônjuge do interditando, o tutor ou curador do interditando, o
parente sucessível do interditando e MP (artigo 146º do CC). Se o interditando estiver sob o regime do poder
paternal, só tem legitimidade activa o pai ou a mãe que exercer plenamente aquele poder e o MP (artigo 146º nº 2
do CC). NOTA IMPORTANTE: O novo CPC veio introduzir uma ordem decrescente de pessoas com legitimidade
activa (cfr. artigo 815º do CPC): o cônjuge ou convivente de união de facto legalmente reconhecível e os sucessíveis
e, neste caso de sucessíveis, havendo vários, sendo todos pertencentes à mesma estirpe, a legitimidade activa é
atribuída a qualquer deles. O MP só tem legitimidade quando estiver em causa o interesse público. Como
compatibilizar o artigo 146º do CC e o artigo 815º do CPC? Entendo que o artigo 815º do CPC apenas teve a
preocupação de estabelecer a ordem de legitimidade e não limitar o limitar o número de pessoas com
legitimidade activa; assim, equipara o convivente de união de facto ao cônjuge (aplicável apenas nos casos
em que não existe casamento mas há uma união de facto reconhecível nos termos do artigo 1.712º do CC); o
curador ou tutor continua a ter prioridade antes do sucessível, já que são instituídos como meios de
suprimento da incapacidade.

A sentença judicial que decreta a interdição está sujeita a registo civil (cfr. CRC).
Âmbito da interdição

A incapacidade do interdito é fixa e é moldada à semelhança da incapacidade dos


menores (artigo 144º do CC) (embora em sede da capacidade de exercício pode exceder
a incapacidade dos menores), ressalvando todos os direitos inerentes à personalidade
que, por serem de exercício necessariamente pessoal, ficam excluídos.

Efeitos da interdição: o interdito é equiparado a menor (artigo 144º do CC), o que


significa que sofre de uma incapacidade geral de exercício (mas não necessariamente
absoluta) e de incapacidade específica de gozo. (i) No plano da capacidade de gozo,
há que distinguir o seguinte: (a) a interdição por anomalia psíquica: é mais lata,
atingindo mesmo a capacidade de gozo:

[não podem casar – artigo 1564º - b) do CC];

 não podem perfilhar [artigo 1775º, nº 1 do CC];

 não podem testar [artigo 2114º - al. b) do CC];

 estão inibidos de pleno direito do exercício do poder paternal [artigo 1848º - al. b)
do CC].
(b) a interdição por surde-mudez ou cegueira: é mais restrito:

 [podem casar sem autorização do tutor – artigo 1564º b), a


contrario];

 podem perfilhar sem autorização de curadores, tutores ou pais –


artigo 1775º, nº 2 do CC]

(c) a interdição por qualquer causa:

 não podem ser tutores [artigo 1876º, nº 1 – al. a) do CC];

 não podem ser vogais do Conselho de Família [artigos 1876º, nº 1


- al. a) ex vi artigo 1900º, nº 1 do CC];

 não podem ser administradores de bens [artigos 1914º do CC].


(ii) No plano da capacidade de exercício: O interdito sofre de uma incapacidade geral
de exercício (mas não necessariamente absoluta). Coloca-se, agora, o problema de saber
se esta incapacidade comporta excepções como acontece no caso de menores (artigo
135º, nº 2 do CC). A resposta deve ser positiva, embora, com adaptações à natureza do
instituto de interdição. Admite-se, também, que no caso de interdição por anomalia
psíquica (casos mais graves) o alcance da aplicação subsidiária do artigo 135º, nº 2 do
CC é quase nulo.

Meio de suprimento da incapacidade por interdição: É a tutela (tutor), que tem a


sua representação legal do interdito.

- A quem incumbe a tutela (artigo 148º do CC).

- Poderes do tutor (artigos 149º e 150º do CC)

- Escusa e exoneração do tutor (artigo 151º do CC).


Regime de invalidade dos actos praticados pelo interdito (artigos 153º a 155º do CC).

O regime de invalidade beneficia, em certos aspectos, do regime dos actos dos menores, por
analogia; porém, em vários pontos, a legislador estabeleceu particularidades do regime decorrentes
da própria natureza do instituto da interdição.

(a) Relativamente aos actos dos interditos praticados em sede da incapacidade de gozo: aplica-se o
regime previsto para a incapacidade de gozo dos menores.
(b) Quanto aos actos dos interditos praticados em sede da incapacidade de exercício, há que
distinguir o seguinte: (i) actos praticados antes do anúncio da acção (artigo 155º do CC) – é
aplicável o regime da incapacidade acidental previsto no artigo 257º do CC; tais actos são
anuláveis, se forem preenchidos os requisitos previstos nesse preceito legal [cfr. adiante o regime
da incapacidade acidental] (o tutor tem legitimidade para pedir a anulação desses actos,
contando-se o prazo, se não for aplicável o nº 2 do artigo 287º, a partir do conhecimento
desses actos pelo tutor). Note-se que este regime só faz sentido em relação à pessoa que praticou
o acto antes do anúncio da acção e mais tarde veio a ser declarada interdita pelo tribunal. Se a
pessoa não for decreta interdita aplica-se o regime do artigo 257º, mas directamente e não por via
da remissão do artigo 155º do CC; (ii) actos praticados entre o anúncio da acção e o registo da
sentença (artigo 154º do CC) – a partir do anúncio da acção cria-se a presunção da incapacidade,
baseada na possibilidade que terceiros têm de a conhecer.
Os actos praticados nesse período são anuláveis, se:
a) - não forem aqueles que o interdito pode praticar, por si, pessoal e livremente.
b) o interditando vier a ser definitivamente decretado interdito (afastam-se aqui os casos de interdição
provisória);
c) os actos praticados tiverem causado prejuízo ao interdito (valem aqui razões de segurança jurídica e falta
de interesse em anular os actos que não prejudicam o incapaz);
Mas qual o momento relevante para apreciar a existência do prejuízo? O momento da prática do acto ou o
momento da decisão de anulação? Mota Pinto, Castro Mendes, Horster e Carvalho Fernandes: Entendem que
se deve relevar o momento da prática do acto, posição essa fundamentada, quer na letra do preceito onde se diz
“causou prejuízo”, quer na ratio legis, “pois a exigência do requisito prejuízo visa evitar que, à volta dos
interdicendos, se forme um vácuo, que estes sejam postos como que em quarentena pelos restantes indivíduos” …
por outro lado, se os actos posteriores à ação pudessem ser anulados sem mais, ninguém quereria fazer negócios
com os interdidentos, o que os dificultaria gravemente na gestão dos seus interesses.
Mas quando há prejuízo para os interdicendos? Nos negócios onerosos, a resposta deve ser negativa se, nas
mesmas circunstâncias, uma pessoa de diligência normal praticaria o mesmo acto. Quanto aos negócios gratuitos
(v.g. doações), deve entender-se (C. Fernandes e Mota Pinto) que na doação há sempre prejuízo, pois, qualquer
que seja o seu fundamento moral, a mesma importa sempre e irremediavelmente um empobrecimento imediato do
doador, podendo, eventualmente, por força de ulteriores vicissitudes, causar-lhe grave dano.
Quanto à legitimidade: o tutor tem legitimidade e quanto ao prazo há ter em conta o disposto no
artigo 287º, nº 2 do CC, consoante o negócio esteja ou não cumprido. Se a anulação depender de
prazo, este é de um ano a contar do conhecimento do acto do interdito, mas em caso algum, esse
prazo começa a correr antes da data do registo da sentença que decretou a interdição (artigo 154º,
nº 2 do CC). A razão deste preceito tem a ver com o facto de só a partir desse momento o tutor
começa a exercer as suas funções. (iii) actos praticados após o registo da sentença (artigo
153º do CC) – são anuláveis sem a exigência de quaisquer outros requisitos e é quanto a esses
que existe maior analogia com o regime dos actos praticados pelos menores, já que, em rigor, só
esses são actos dos interditos.

NOTA: Sobre a legitimidade para requerer a anulabidade dos actos vide o artigo 822º, nº 2
do CPC.

Levantamento (cessação) da interdição (artigo 156º do CC e artigo 824º do CPC)

Admite-se a conversão em inabilitação, por decisão, obviamente, judicial.


Incapacidades dos inabilitados (artigos 157º a 161º do CC):

- A inabilitação está regulada no CC para cobrir as situações de deficiência física ou psíquicas com menor
influência na capacidade das pessoas do que aquelas que determinam a interdição ou situações de hábitos de vida
que não levem á interdição. Por isso, em, alguns aspectos, é aplicável à inabilitação o regime jurídico da interdição
(Cfr. artigo 161º do CC).

- Fundamentos comuns (aos da interdição) (artigo 157º do CC): (i) anomalia psíquica, (ii) surdez-mudez, (iii)
cegueira, embora permanente e duradouros, não seja de tal modo grave que justifique a interdição [se a
afectação for temporária ou acidental há lugar ao regime da incapacidade acidental previsto no artigo 257º do CC]

- Fundamentos específicos (da inabilitação): (i) prodigalidade habitual [propensão a que um a pessoa tem para
habitualmente não resiste para efectuar despesas ruinosas e injustificadas, v.g. despesas de jogo; não se trata
apenas de despesas elevadas, mas despesas exageradas em relação aos rendimentos, injustificáveis e reprováveis,
por forma a implicar a dissipação ou a possibilidade de perda do próprio capital ou dos bens de que provêm os
rendimentos, ou seja despesas desproporcionais em relação aos meios patrimoniais da pessoa; não basta que das
despesas sejam elevadas, se não consomem o rendimento da pessoa; pode ocorrer a realização de despesas não
avultadas mas que esgotem todo o património da pessoa e, neste caso, há prodigalidade]; A prodigalidade não é
uma situação mental ou física, mas sim um estado hábito de vida, uma anomalia de comportamento, (ii) abuso de
bebidas alcoólicas [alcoolismo], (iii) abuso de estupefacientes (toxicomania], se mostrem incapazes de reger
convenientemente o seu património.
- As duas últimas causas específicas consistem no uso imoderado de bebidas
alcoólicas e estupefacientes e outros produtos semelhantes, tais como as diversas
drogas. As causas específicas resultem de hábitos de vida considerados geralmente
reprováveis no consenso social, mas sobretudo por afectarem a vontade livre e
discernida da pessoa.

- Os fundamentos, tanto comuns como específicos, só levam á interdição se


preencherem as seguintes características: (i) prejudicialidade (por contraposição com
a característica “incapacitante” na interdição, significa que os fundamentos são
prejudiciais quando deles resulta para a pessoa a incapacidade para reger
convenientemente o seu património – cfr. artigo 157º, in fine do CC –, ou seja, a
pessoa não fica tão limitada na sua actuação livre e discernida como acontece na
causas incapacitantes da interdição e que impedem-na, quer de governar a sua
pessoa, quer de reger o seu património), (ii) actualidade (o fundamento ou a causa
tem de existir no momento em que se pretende inabilitar a pessoa, ou seja, não podem ser
passadas ou previsíveis) (iii) e permanência (os fundamentos têm de ser duradouros).
Como se decreta a inabilitação:

- Através de um processo judicial - (artigos 814º a 824º do CPC) - processo psíquico,


somático e comportamental dos indivíduos (fazer a súmula das fases de
tramitação processual), o mesmo para a interdição.

- A pessoa a quem a inabilitação diz respeita designa-se por inabilitando ou, do ponto
de vista processual, requerido.

- O juiz, tal como na interdição, pode na sentença decretar inabilitação provisória (Cfr.
artigo 820º do CPC). Também, em função do grau de incapacidade, nada impede que o
juiz, face a um pedido de interdição decrete a inabilitação ou face a um pedido de
inabilitação decrete a interdição, claro está, nas situações em que ocorrem causas ou
fundamentos comuns aos dois institutos.

Legitimidade passiva e activa (cfr. artigos 146º e 161º do CC) (cfr. o exposto quanto
ao regime da interdição – por remissão do artigo 161º do CC).
Âmbito da inabilitação

Em termos da incapacidade de exercício, contrariamente à interdição, a inabilitação não tem um


âmbito fixo, já que cabe ao juiz fixar na sentença esse âmbito (artigos 158º, nº 1, in fine e 159º do
CC e artigo 820º, nº 1 do CPC). Relativamente à incapacidade de gozo, o âmbito é o fixado na lei,
sendo certo que é mais limitado do que na interdição.

Discute-se se a inabilitação abrange apenas os actos de conteúdo patrimonial ou também os actos


não patrimoniais. A letra do artigo 157º, in fine do CC (quando refere à regência do património do
inabilitado) dá a entender que apenas estão abrangidos os actos do conteúdo patrimonial;
contudo, C. FERNANDES entende que, pelo menos no que respeita á capacidade de gozo, a lei
comtempla expressamente limitações relativas a direitos pessoais; ademais o artigo 158º, nº 1 do
CC refere a todos os actos, “em atenção às circunstâncias de cada caso, forem especificados na
sentença”, expressão esse suficientemente ampla para abranger actos de conteúdo não
patrimonial, se o juiz assim o entender, face ao tipo de gravidade da causa em presença (cfr.
também artigo 820º, nº 1 do CPC). Porém, a maior da incapacidade projecção se concentra no
plano patrimonial do inabilitado.
Efeitos da inabilitação:

Dependem do teor da sentença. Porém, há que distinguir o seguinte:

(a) No plano da capacidade de gozo: os efeitos são limitados, quando comparados


com o regime da interdição. Os efeitos atingem somente a esfera pessoal do
inabilitado. Para melhor, compreensão há que distinguir o seguinte:

(i) Se for um inabilitado em geral:

 a inabilitação, em princípio, não afecta a esfera pessoal do inabilitado [em


princípio, salvo se na sentença judicial, o tribunal entender limitar a capacidade
do inabilitado para a prática de certos actos da sua espera pessoal].

 Se não for inabilitado por prodigalidade, não pode ser nomeado tutor [artigos
1875º e 1876º, nº 1 – al. a) do CC);
(ii) Se for um inabilitado por outras causas que não seja a anomalia psíquica:

 o inabilitado fica inibido de pleno direito do representar o filho (artigos 1849º e 1851º do CC);

 o inabilitado de administrar os bens do filho (artigos 1840º 1 1851º do CC).

(iii) Se for um inabilitado por anomalia psíquica a inabilitação, além das incapacidades do inabilitado em
geral:

 o inabilitado não pode casar [artigo 1564º b) do CC];

 o inabilitado não pode exercer o poder paternal [artigo 1848º - al b) do CC];

 não pode perfilhar, se no momento da perfilhação, estiver notoriamente demente [artigo 1775º, nºs 1 e 2 do
CC].

(iv) Se for um inabilitado por prodigalidade:

 o inabilitado pode ser nomeado tutor [artigos 1875º e 1876º, nº 2 do CC), só estando impedido de, nessas
funções, ter a administração de bens do pupilo (artigo 1914º - al a) – 1ª parte do CC)];

 o inabilitado não podem, como protutor, praticar os actos abrangidos pela administração de bens (artigos
1876º, nº 2 e 1900º, nº 1 do CC);

 o inabilitado não podem ser administrador de bens (artigo 1914º - al. a) do CC.
(b) No plano da capacidade de exercício: os efeitos atingem a esfera patrimonial do
inabilitado. A sentença deve especificar. Porém, há distinguir:

(i) actos de disposição de bens entre vivos ou outros que a sentença a eles
assimile

 são praticados em regime de assistência (do curador) – artigo 158º, nº 1 do CCº - ou


seja, mediante autorização, que pode ser suprida pelo tribunal.

(ii) actos de administração:

 da sentença pode resultar três regimes: (a) liberdade para a prática do acto, de
forma pessoal e livre, se a sentença for omissa neste particular; (b) assistência,
mediante autorização do curador (todos ou alguns dos actos) (c) e representação,
no caso previsto no artigo 159º do CC.
Meio de suprimento (artigo 158º do CC):

(i) para actos de disposição inter vivos ou outros que a sentença a eles assimile: É a curatela.
Trata-se assistência, por intermédio de um curador, [podendo haver um Conselho de Família e um
Subcurador - cfr. o artigo 158º, nº 2 e 820º, nº 1 do CPC), a cuja autorização (suprível
judicialmente) estão sujeitos os actos de disposição de bens entre vivos e todos os que, atendendo
às circunstâncias de cada caso, forem especificados na sentença.

(i) para actos de administração, quando o inabilitado não tenha capacidade para os praticar:
há que distinguir: (i) se a sentença estabelecer o regime do artigo 158º, nº 1 do CC, tais actos ficam
sujeito à curatela, nos termos acima expostos. (ii) a sentença pode atribuir, no todo ou em parte, a
administração ao curador, nos termos do artigo 169º, nº 1 do CC e, neste caso o meio de
suprimento é a representação, passando o curador a agir em nome e representação do inabilitado;
Cfr. também artigo 159º, nº 2 do CC

- A quem incumbe a curatela (artigos 148º e 161º do CC): às mesmas pessoas que podem ser tutores.

- Poderes do curador (artigos 158º e 159º do CC)

- Escusa e exoneração do curador (artigo 151º e 161º do


Regime de invalidade de actos dos inabilitados (artigos 153º, 154º e 161º do CC): idêntico ao da interdição.

Levantamento ou cessação da inabilitação (artigo 160º do CC): idêntico ao da interdição, com a especificidade do
artigo 160º do CC. Ter também em conta o disposto no artigo 824º do CPC

Notas comparativas ou distintivas com (de) o regime de interdição ou: (i) nos fundamentos: os três primeiros
são fundamentos comuns do regime de interdição, os três últimos são fundamentos específicos do regime de
inabilitação, (ii) em ambos os institutos os fundamentos têm de ser permanentes e duradouros, mas a deficiência
da interdição é mais grave do que a da inabilitação (residual); (iii) a interdição é decretada sempre a causa seja de
molde a impedir a pessoa afectada de governar a sua pessoa e os seus bens [a pessoa não consegue de todo
cuidar da sua pessoa e dos seus bens], a inabilitação apenas quando a causa impede a pessoa afectada de
governar convenientemente o seu património [a pessoa não consegue cuidar convenientemente dos seus bens,
mas não precisa de auxílio para cuidar da sua pessoa]; (iv) ao interdito é nomeado um tutor (a incapacidade é suprida por
representação legal) e ao inabilitado é nomeado um curador que lhe assiste na prática de actos (artigo 158º do CC) (a
incapacidade é suprida por assistência); (v) na interdição todo o património do interdito é entregue à administração do tutor,
na inabilitação há mais maleabilidade, já que o juiz pode decretar a entrega total ou parcial do património do inabilitado (artigo
159º do CC), semelhante ao regime de administração dos bens dos menores, dando lugar à constituição de um conselho de
família, à designação de um sub-curador e à prestação de contas; (vi) a interdição implica a incapacidade geral de exercício, a
inabilitação implica uma incapacidade específica (todos os actos de disposição de bens entre vivos e todos os actos de administração
que, em atenção ao caso concreto, forem especificados na sentença, ou seja, em regra não a capacidade do inabilitado relativamente à
prática de actos de administração de bens).
Incapacidade «sui generis» do artigo 140º CC -vd artigo 143º, nº 2
O poder paternal ou a tutela não cessam se o menor, ao atingir a
maioridade, tiver pendente contra si acção de interdição ou
inabilitação (pese embora o regime de interdição e de inabilitação ser
aplicável só maiores, a lei permite a instauração da acção no ano
anterior à maioridade [a interdição por anomalia psíquica pode ser
requerida e decretada a partir dos 16 anos de idade do menor] para
produzir efeitos na data desta – artigos 143º, nºs 2 e 3). Pode
acontecer que, por razões diversas, nomeadamente morosidade
processual ou instauração da acção muito próxima da data da
maioridade, a acção não esteja ainda decidida à data da maioridade.
O legislador entendeu levar em conta a futura incapacitação do
maior, recusou-se a criar um hiato no seu estado de incapacidade
para o tempo que decorre entre a maioridade e a decisão judicial
sobre a interdição ou inabilitação.
Qual é o regime dessa incapacidade? Ou seja, devem ser tratados como
menores? Ou como interditos ou inabilitados? Ou como interdicendos
ou inabilitandos? Qual a natureza do poder paternal (ou da eventual
tutela) a que se refere o artigo 140 do CC? Carvalho Fernandes: Se o
maior fosse tratado com interdicendo ou inabilitando, bastaria a solução
prevista no artigo 154º do CC (por aplicação directa ou por remissão do artigo
161º), sendo então inútil o artigo 140º do CC; ou ainda em rigor se aplicaria a
solução do artigo 155º, quando a acção tivesse sido interposto tão próximo do
limite da menoridade, que não tivesse ainda anunciada. O referido autor
pugna pelo entendimento da equiparação do maior a menor, por três ordens
de razões: (i) pela letra da lei que manda subsistir o poder paternal ou a
tutela (sendo o regime de suprimento verdadeiros casos de poder paternal ou
tutela, tal como desenhados para os menores); de resto o artigo 140º surge
como uma restrição à aquisição da capacidade definida no artigo 139º como
resulta não só da sequência dos preceitos, mas também da adversativa
porém; (ii) se o legislador quisesse antecipar os efeitos da interdição ou
inabilitação teria meios para o fazer através da aplicação do regime provisório
dessas incapacidades; (iii) a incapacidade dos menores funciona como modelo
geral das incapacidades das pessoas singulares.
Assim, as pessoas maiores abrangidas pelo artigo 140º do CC sofrem de
incapacidade especial, que deve ser moldada sobre a incapacidade dos menores.
Oliveira Ascensão fala de prorrogação da incapacidade, não obstante a
maioridade. Quando é que termina essa incapcidade? Carvalho Fernandes: com o
trânsito em julgado da sentença, se não for decretada a incapacidade (interdição ou
inabilitação) ou com o registo da sentença, se for decretada a incapacitação.

Meios de suprimento: o poder paternal, a tutela e a administração de bens (quando


esteja instituída à data da maioridade) próprio dos menores. Argumentos:(i) razões do
texto e de sistematização supra referidas; (ii) o artigo 1908 – al a) não manda cessar a
tutela nos casos em que estiver pendente a acção contra o menor ao atingir a
maioridade (embora a lei não tenha feito o mesmo em relação à cessão do poder
paternal no artigo 1845º do CC.
Críticas ao regime do artigo 140º em Carvalho Fernandes, pág.
365 e 366: o legislador podia proteger os interesses dos menores
através de outros meios (os preceitos aplicáveis aos actos praticados
na pendência da acção de interdição ou inabilitação, meios
processuais como a interdição ou inabilitação provisória quando tal
se justificasse, a nomeação de tutor ou curador provisórios). A
solução do artigo 140º pode em certos casos ser gravoso para o maior
(sujeição a uma incapacidade mais gravosa do que vier a resultar da
sentença, implicando a anulação de actos que seriam válidos, mesmo por
aplicação dos próprios preceitos relativos a actos praticados na pendência
da acção).
Incapacidade de facto:
O regime das incapacidades jurídicas ou de direito é
insuficiente, por várias razões: (i) salvo a menoridade, as
causas da incapacidade não valem por si, já que carecem
de verificação e confirmação judicial; (ii) nem sempre as
afecções do tipo dessas incapacidades revestem as
características próprias da interdição ou inabilitação
(caso em que as causas não são permanentes v.g., o
abuso pontual de bebidas alcoólicas numa festa; As
incapacidades de facto são situações do estado físico,
psíquico ou comportamental das pessoas singulares no
determinado momento da prática de um ou mais actos
jurídicos atendíveis para invalidação desses mesmos
actos;
As incapacidades de facto abrangem uma multiplicidade de
situações, abrindo caminho a regimes jurídicos diversos e não
unitários. Contudo é possível reconduzi-las a dois grupos: (a)
Incapacidade de facto como situação estável: Num Primeiro Plano
- nestes casos existe uma certa similitude com o da incapacidade
jurídica, nomeadamente nos seus efeitos quanto à incapacidade de
gozo. Nestes casos é possível a incapacidade de facto, como situação
estável, é considerada relevante para julgar da validade de certas
categorias de actos jurídicos praticados pelo incapaz, sem a
necessidade averiguar, caso a caso, ou seja, acto por acto, em
concreto, se no momento da sua celebração o seu autor se encontrava
ou não em condições de formar e manifestar convenientemente a sua
vontade (Exs: situações de demência notória [na celebração do
casamento - artigo 1564º, al. b) do CC – no momento da perfilhação –
artigo 1775º, nº 1, in fine do CC – na tutela – artigo 1876º, nº 1 – al.
b) do CC – na nomeação do Conselho de Família – artigos 1876º, nº 1
ex vi artigo 1900º do CC – na administração de bens – artigos 1876º,
nº 1 ex vi artigo 1914º – corpo do CC]).
Num Outro Plano: encontramos situações de incapacidade de facto,
cujo tratamento jurídico se aproxima do previsto para certas causas
específicas da interdição ou inabilitação, como é o caso de certos
maus hábitos de vida (na tutela – artigo 1876º, nº 1 – al. c) do CC
[as pessoas de mau procedimento ou que não tenham modo de vida
conhecido] – na nomeação do Conselho de Família (e ao Protutor) –
artigo 1876º, nº 1 – al. c) ex vi artigo 1900º do CC - na
administração de bens – artigo 1786º, nº 1 – al. c) ex vi artigo 1914º
do CC). Num Outro Plano Ainda: A incapacidade de facto como
situação estável noutros casos, por causas diversas: (a situação do
procurador de pessoa que se ausentou – artigo 86º, nº 2 do CC) – a
situação de cônjuge administrador – artigo 1635º, nºs 2 – al. f) e 3
do CC – a situação de um ou de ambos os progenitores no exercício
do poder paternal – artigos 1818º, nº 4, in fine, 1868º - al. c), 1870º,
nº 2 do CC- a situação do tutor – artigo 1903º al. b) do CC).
(b) Incapacidade de facto como situação atomística:
nesta modalidade a lei dá relevância à incapacidade de
facto de forma casuística, isto é, em relação a cada acto
praticado pelo incapaz. Tem de se apurar em cada acto
concreto se no momento da sua celebração o seu autor se
encontrava ou não em condições de entender e querer a
declaração emitida. O legislador norteou-se por duas
ordens de preocupações:(i) evitar a prática de actos por
incapazes de facto, impondo medidas preventivas (Ex: o
dever do notário recusar a celebração de actos se tiver
dúvidas sobre a integridade das faculdades mentais dos
intervenientes - artigo 155º, nº 1 – al c) do CNotariado);
(ii)Caso as medidas preventivas se revelarem ineficazes,
permite intervenção reparativa.
Outros casos de incapacidade de facto casuístico: (i) incapacidade acidental (artigo 257º do
CC): Para além dos casos previstos no artigo 155º do CC, o artigo 257ºaplica-se fundamentalmente
aos actos praticados por maiores não interditos, nem inabilitados e nem abrangidos pelo artigo
140º do CC, bem como a actos praticados por menores emancipados ou não emancipados, a
interditos ou inabilitados e a incapazes do artigo 140º do CC, nestas últimas quatro hipóteses
quando estejam em causa actos que, a título excepcional, essas pessoas possam praticar pessoal e
livremente. Requisitos comuns: (i) é necessário que no momento da prática do acto a autor se
mostre incapaz de entender o sentido da sua declaração ou de formar livremente a sua vontade;
embora a lei refere a «acidentalmente incapacitado» o artigo 257º do CC aplica-se quer a causa da
incapacitação seja temporária ou permanente (acto praticado por alguém momentaneamente
embriagado ou por um demente [não interdito, nem habilitado]; (ii) é necessário que os elementos
integradores da incapacidade sejam conhecidos do declaratário [declaratário real, concreto, ou
seja, a pessoa com quem o incapacitado pratica o acto ou a quem o acto se dirige] ou notórios (vide
o artigo 257º, nº 2 do CC) – aqui não se trata do declaratário real mas sim o declaratário ideal, ou
seja, o bonus pater familiae. A sanção prevista é a anulabilidade, não fixando o artigo 257º o
regime. Deve-se, pois, socorrer-se do artigo 287º do CC. Assim, pode requerer a anulabilidade o
próprio incapaz, cessando a incapacidade, ou o seu representante, se o houver, Prazo de arguição
(vide artigo 287º, nºs 1 e 2, conforme o negócio tenha sido cumprido ou não).
(ii) a inimputabilidade, no campo da responsabilidade civil, do artigo
488º, nº 1 do CC.
Em suma, a incapacidade acidental não é uma situação de incapacidade
geral (a pessoa é normalmente capaz), mas deve ser visto sempre
relacionado com um acto específico, embora possa abranger todos os
singulares actos específicos praticados sucessivamente.

Figuras afins da incapacidade de facto: (i) deficiência (física ou psíquica):


os deficientes podem ter capacidade para reger a sua pessoa e os seus bens
ou não; o inabilitado por prodigalidade não pode ser considerado física ou
mentalmente deficiente. (ii) velhice ou terceira idade (não releva
directamente para a capacidade ou incapacidade).

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