Lutos e perdas
A perda de uma pessoa amada é uma das experiências mais
intensamente dolorosas que o ser humano pode sofrer.
BOWLBY
• Perdas podem surgir com o fim da infância, da juventude, a saída de
um filho de casa para estudar, o fim de um relacionamento, a perda
da saúde, a morte de um ente querido, o fim de uma amizade especial
ou de uma ideia que não foi concretizada.
• A dor será proporcional ao significado da perda e dependerá da
ligação afetiva construída em um relacionamento amoroso, com um
objeto, com um animal de estimação ou uma pessoa que já morreu.
Apego
• Quanto ao apego, Bowlby (1990) se refere a ele como um
comportamento instintivo, decorrente da busca constante de
proteção, segurança e sobrevivência da espécie. Apegar-se pode ser
definido como o ato de: prender-se, aderir-se, apegar-se a algo ou
alguém.
• O apego não deve ser confundido com dependência. Segundo
Bowlby, ao nascer, o bebê depende da mãe para sobreviver e,
conforme cresce, adquire independência.
• O apego, portanto, constrói -se com confiança, segurança e amor.
• Saber desapegar lentamente é necessário para evitar um sofrimento
maior, quando acontecer a perda ou separação do objeto de amor. O
desapego com amor possibilita a aceitação da perda.
Perda
O pesar pela morte de uma pessoa amada dependerá da formação de
apego, do vínculo afetivo construído no decorrer da vida.
Pesar é a reação emocional à perda, sentida em seus primeiros
momentos. Pode assumir muitas formas, que vão da negação da perda
ao sentimento de raiva da pessoa morta.
“Se você verdadeiramente quer aprender e crescer, é preciso
compreender que o universo o matriculou no programa de pós -
graduação da vida, que se chama perda”. - (Kübler-Ross, 2004)
A dor e a perda são experiências das quais não falamos o bastante,
sendo a recuperação mais difícil quando reprimimos os sentimentos,
por pensarmos que há algo errado com reações perfeitamente naturais.
O melhor apoio costuma vir de outras pessoas que, como nós, tenham sentido
a dor da perda.
Ouvir histórias daqueles que passaram pelos mesmos processos e superaram a
dor é importante para percebermos que também vamos sobreviver.
Nem mesmo a pior das perdas representa o fim da vida.
Lembre -se: se essas pessoas estão sobrevivendo a todas essas perdas, você
também sobreviverá.
Luto
• A palavra “luto” (bereavement) se refere ao estado emocional de estar
bereft, palavra cuja raiz significa “ser despojado de” ou “ser rasgado”.
• Sentir-se “rasgado”, despedaçado, como se a dor jamais fosse passar,
é uma emoção frequentemente encontrada em indivíduos que perdem
entes queridos.
• O luto é um processo doloroso, porém normal, pelo qual precisamos
passar para recomeçar uma nova vida.
WORDEN (1998) AFIRMA QUE o luto é considerado um processo e
não um estado. Ou seja, trata -se de uma fase de transição, que não vai
durar para sempre.
É importante ressaltar que o processo de restauração tem avanços e
recuos. Ele é cheio de altos e baixos.
A recuperação demanda tempo, atenção e esforço.
O Luto Normal é um processo multidimensional e de causas
multifatoriais, tornando difícil prever de que modo é que o enlutado vai
viver esta sua experiência ou, também, quais os mecanismos adaptativos
aos quais o mesmo vai recorrer para lidar com a própria experiência.
Habitualmente, após sofrerem uma perda, sobretudo se se tratar de um
ente próximo, os enlutados passam por um período emocionalmente
intenso (Bousquet J, Jeffery PK, Buse WW, Of, & Art, 2006)
O Luto Normal pode tornar-se Patológico quando existe uma má
adaptação ao processo normal do mesmo ou quando as circunstâncias
e/ou consequências da perda não são normais (M. K. Shear, Ghesquiere,
& Glickman, 2014)
As características mais fortemente associadas a um quadro de Luto
Patológico são a saudade intensa, a descrença relativamente à perda, a
raiva, a tristeza e solidão e a preocupação pela pessoa falecida (K.
Shear, Frank, Houck, & Iii, 2005; M. K. Shear, 2015).
A preocupação e a dormência emocional pela própria perda e a
dificuldade em aceitar a realidade da morte afetam muito a vivência do
enlutado (Horowitz et al., 1997), pois o mesmo pode desenvolver um
quadro de imagens e pensamentos intrusivos relacionados com a pessoa
falecida (M. K. Shear, 2015).
O Luto Patológico é uma condição extremamente limitante e é quase
impossível para os indivíduos que passam por um Luto Patológico
continuarem a executar as tarefas do dia-a-dia, tornando-se solitários ao
evitarem o contacto com pessoas que o rodeiam.
DSMV
DSMV
Fatores de risco
Os fatores que existem antes da perda são idade, o género, o estatuto
socioeconómico, a raça, a existência ou não de perturbação psiquiátrica
prévia e o tipo de relação que existia entre o enlutado e o falecido.
Os fatores relacionados com a própria perda referem-se às
circunstâncias em que a mesma se sucedeu. Os indivíduos que tenham
perdido um ente querido por uma morte inesperada ou violenta, tais
como um acidente, homicídio ou suicídio, estão mais em risco de
desenvolver um Luto Patológico.
Capacidade emocional que o enlutado tem para lidar com a perda e
também com o tipo de resposta que desenvolve à mesma.
Existe evidência de que problemas relacionados com ligações
emocionais podem predispor o individuo ao desenvolvimento de um
quadro de Luto Patológico aquando uma perda, sendo ligações
inseguras, dependência conjugal e história de relação abusiva por parte
dos progenitores as que mais influenciam o individuo enlutado
(Prigerson et al., 2009).
Reações comuns do luto
REAÇÕES FÍSICAS
Respiração curta e falta de ar, boca seca, dor física, gemidos, tensão
muscular, menor resistência a enfermidades, hipertensão arterial, alteração
do sono (falta ou excesso), mudança de apetite (perda ou ganho de peso) e
perda da força física.
“Sinto -me fraco, qualquer coisa me cansa”; “Eu engordei muito” ou “Perdi
muitos quilos”; ou ainda “Eu tinha uma excelente saúde” e “Fui ao médico
e meus exames estão todos alterados”.
REAÇÕES EMOCIONAIS
Choque, negação, desespero, tristeza, sensação de estar perdido, falta de
paz interior, confusão, culpa, falta de esperança, raiva, irritação, euforia,
sensação de abandono, vingança, rancor, ressentimento. Os enlutados
também comentam sentir inveja daqueles que não estão vivenciando o
luto.
A mãe que perdeu a filha adolescente e foi convidada para a festa de 15
anos da filha de uma amiga comentou: “É inveja mesmo, não tem outro
nome para isso”.
REAÇÕES COMPORTAMENTAIS
Busca constante da pessoa morta, falta de concentração, desorientação,
preocupação, busca de solidão, apatia, choro, agitação e esquecimento de
fatos corriqueiros.
Palavras de enlutados: “Me esqueço de tudo, como chave, documentos,
anotações importantes e compromissos”.
Segundo Deits (2001), o luto se assemelha a um curto -circuito no
organismo. Para o autor, trata -se de um mecanismo protetor que permite
que nossos recursos emocionais se fortaleçam para a difícil tarefa que é a
recuperação
REAÇÕES SOCIAIS
Isolamento social, isto é, afastamento das pessoas (amigos, colegas de
trabalho, parentes), dificuldade de interagir com o outro e perda de
interesse pelo mundo externo – como recusar convites para festas.
É muito comum os enlutados nos dizerem que, quando aceitam algum
convite apenas para agradar os outros, em geral sentem fadiga, tensão e
irritação, só se sentindo melhor quando retornam para casa.
REAÇÕES ESPIRITUAIS
Alguns enlutados manifestam perda da fé (afastamento da religião) ou,
ao contrário, aproximação de Deus (busca constante dele para tentar
compreender a perda).
Entre as falas mais comuns de enlutados estão:
“Encontrei conforto na religião” e “Perdi a fé em Deus”. Várias dessas
reações estão descritas na literatura e, segundo Worden (1998),
obviamente variam de pessoa para pessoa
As fases do luto
É FUNDAMENTAL QUE OS profissionais que lidam com a morte
identifiquem as fases do luto para dar assistência necessária e adequada
aos enlutados.
Bowlby (1993) observou que os enlutados em geral passam por quatro
fases, nem sempre bem delineadas: entorpecimento; anseio;
desorganização e desespero; e reorganização.
Primeira fase: entorpecimento
É quando a pessoa nega -se a entender o que aconteceu, vivendo em
torpor (aparência de não ter sido afetada) e descrença. Trata -se de um
estado de choque que dura de algumas horas a semanas. Essa reação
pode ser interrompida por crises de raiva ou desespero.
São comuns frases como: “Parece um sonho” e “Não posso acreditar”.
Podem ocorrer sintomas somáticos como rigidez no pescoço, sensação
de vazio no estômago, ânsia de vômito e outros.
Segunda fase: anseio
O comportamento de anseio é o momento da busca da pessoa perdida.
Essa fase dura alguns meses e, por vezes, anos. As pessoas confundem
desconhecidos com o falecido, mos tram -se retraídas e inativas e sentem
bastante raiva. Estão presentes fortes emoções e agitação física.
O enlutado percorre a casa o tempo todo buscando o falecido; lembra -se dele
sem cessar; fica sensível a qualquer barulho que lembra a pessoa morta, ouvindo
passos e chamados; volta a atenção para lugares que a pessoa gostava de
frequentar; chama por ela. Uma frase comum desse estágio é: “Estou vendo
o falecido andando nas ruas!”
Terceira fase: desorganização e desespero
O sentimento de desorganização e desespero surge quando a realidade é
assimilada. A pessoa sente apatia e depressão, como se o mundo
estivesse fora de contexto. Deixa de procurar pela pessoa morta, pois
compreende que ela não mais vai voltar.
Essa é considerada a fase mais difícil. O enlutado se afasta das pessoas e
perde o interesse por qualquer atividade, apresentando ainda dificuldade
de concentração e dores de cabeça, no corpo, na nuca e outros sintomas
somáticos.
Quarta fase: reorganização
Dá -se quando o falecido passa a ser lembrado saudosamente e o
enlutado retoma suas atividades diárias. O sofrimento da perda já
diminuiu, o que permite novas relações afetivas, e a sociabilidade
melhora, sendo possível reinvestir energia em outros projetos: “Estou
namorando e vou me casar!”
Quarta fase: reorganização
A quarta fase se inicia com o processo de recuperação. Os sentimentos
se tornam mais positivos e menos devastadores. Fica mais fácil aceitar
mudanças e pode surgir uma nova identidade.
O enlutado busca reatar laços antigos e fazer novas amizades. Por outro
lado, a recorrência dos sintomas é comum, pois o processo de
reorganização ainda está em andamento. Os sintomas aparecem em
datas especiais. Por isso, o fenômeno é conhecido como “reação de
aniversário”.
FASES DO LUTO
O Luto foi pela primeira vez dividido em cinco fases em 1969 pela
Psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, no livro “On Death and Dying”, tendo
em conta doentes diagnosticados com uma doença grave em estadio
terminal.
As cinco fases definidas são Negação, Raiva, Negociação, Depressão e
Aceitação.
Contudo, e apesar das cinco fases se encontrarem descritas por ordem
sequencial lógica,
Negação
O entorpecimento emocional está mais presente.
O enlutado sente-se em choque, sem saber de que modo conseguirá viver a sua vida
sem a
pessoa querida que acabou de perder. É nesta fase que o enlutado suprime todas as
emoções, que pode vir eventualmente a sentir nas fases seguintes, como forma de lidar
com a nova realidade.
Por exemplo, no caso de um doente a quem foi diagnosticado uma doença terminal este
pensará que poderá ter ocorrido um erro de diagnóstico e que terá muitos anos para
viver. É a negação da situação atual que leva a experienciar todas as emoções que se
seguem de uma forma mais gradual do que se a fase supracitada não existisse (Kubler-
Ross, 1971)
Raiva
Uma vez passada a negação, o enlutado começa a aperceber-se da
verdadeira realidade levando a que sensações, tais como a revolta,
descrença ou incompreensão, o levem a dirigir toda a sua raiva para
alguém ou alguma coisa (Kubler-Ross, 1971)
Negociação,
O enlutado se culpa pela perda e tenta, a todo o custo, arranjar factos
que pudessem ter evitado a morte do ente querido.
O enlutado tenta negociar algo com Deus, ou com algo ou alguém que o
mesmo reconheça como uma força superior, para desfazer a morte do
ente querido (KublerRoss, 1971).
Normalmente, realizam-se promessas para reverter a situação de forma a
que esta possa voltar a ser o que era antes da perda se ter sucedido
Depressão
É nela que o enlutado se convence finalmente de que a perda é algo
irreversível e entrega-se à sensação de vazio. É nesta fase que residem
todas as emoções mais profundas do ser, tais como a tristeza, a sensação
de impotência e a dor emocional (Kubler-Ross, 1971).
É aqui que o individuo deixa de ter forças para questionar o que
aconteceu ou para lutar contra isso e, por isso, tem tendência a evitar
comunicar com os outros.
Aceitação
Não significa que o enlutado se sente bem relativamente à perda que
sofreu. Significa, no entanto, que aceitou o que aconteceu como uma
nova realidade que não pode ser alterada. O individuo começa, então, a
ganhar responsabilidade sobre a própria vida e tenta retomar algumas
atividades que abandonou na altura em que a perda se sucedeu (Kubler-
Ross, 1971)
Cuidados necessários
Tanto os enlutados quanto seus amigos e parentes precisam entender
que a perda provoca uma vasta gama de reações, que são consideradas
naturais.
É bom lembrar: nenhuma reação é melhor ou pior. Uma pessoa não é
mais fraca porque chorou demais, e se chorou pouco não significa que
sentiu menos a perda. Cada um tem uma maneira de expressar a dor.
Não há sentimentos certos ou errados.
Cuidados necessários
Aceite todos os seus sentimentos para ficar bem consigo mesmo.
Pare e olhe para dentro de si.
Se você está passando por um luto recente, tente se lembrar: como você
estava no dia em que recebeu a notícia da perda?
E no dia seguinte?
E uma semana ou um mês depois de saber?
Como você está hoje?
A mente das pessoas em luto recente fica tal qual uma torneirinha
estragada, exemplo que costumamos dar aos enlutados que
acompanhamos. A torneirinha estragada pinga água ininterruptamente, e
ouvir esse gotejar é perturbador. Aquele que acaba de vivenciar a perda
passa 24 horas por dia pensando no ente querido que se foi ou naquilo
que perdeu.
Você NÃO está enlouquecendo, isso é considerado natural. Vai passar!
É importante entrar em contato com a sua dor, mesmo que
familiares e amigos exijam uma recuperação rápida, com colocações do
tipo: “Já passou tanto tempo, reaja! Outras pessoas do seu convívio
precisam de você!”
Não apresse a sua recuperação somente porque as pessoas querem.
Quanto mais significativa for a sua perda, maior será a sua dor.
Deits (2001, p. 79) cita quatro premissas essenciais que podem ajudar os
enlutados a controlar sua dor:
• A melhor forma de sair da dor é ultrapassando -a.
• O pior tipo de dor é a sua.
• A dor é um trabalho difícil.
• Trabalhar eficazmente a dor é algo que não se deve fazer sozinho
Não esconda dos outros suas lágrimas, pois elas não são sinal de
fraqueza.
É necessário receber ajuda para identificar o significado das lágrimas,
significado esse que mudará no decorrer do processo do luto.
Pesquisadores da Universidade de Minnesota que estudam o choro nos adultos
descobriram dois importantes neurotransmissores nas lágrimas que indicam que chorar
pode ser um escape químico para reduzir o estresse emocional. Em geral, as pessoas
sentem -se melhor após chorar.
Existem de fato indícios de ativação diferenciada de atividade simpática durante o
choro e parassimpática após o choro. Chorar faz aumentar a profundidade da respiração
e parece diminuir os níveis de cortisol no sangue (hormônio indicativo de estresse).
É muito comum atendermos enlutados que afirmam:
• “Não choro mais perto das pessoas; quando sinto vontade de chorar,
seguro o pranto ou me isolo para chorar sozinho.”
• “Incomodo as pessoas com o meu choro, não choro mais perto delas.”
• “Se não choro, fico pior, começo a ter dores no corpo, uma sensação de
aperto no peito.”
• “Acho que não chorei o bastante porque as pessoas não me deixavam
chorar. Deram -me remédio e ele parece abafar o choro.”
• “Parece que o remédio não deixa a gente chorar, eu sinto aquela angústia,
um aperto, e quando choro melhora um pouco.
É preciso medicação para me recuperar?
Se os sintomas de depressão persistirem, é preciso consultar um
especialista para avaliar se psicofármacos se fazem necessários. O
psiquiatra é o profissional mais qualificado para fazer essa avaliação
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
• Pensamentos suicidas persistentes por mais de dois meses após uma
perda significativa.
• Abuso de substâncias – de calmantes ou comprimidos para dormir a
álcool e outras drogas.
• Depressão constante, histórico de depressão ou de qualquer outro
transtorno de saúde mental.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
• Sentimentos excessivos de culpa e raiva, persistência de luto intenso,
sempre descontrolado ou tenso, e negação contínua da realidade da
perda.
• Perdas consecutivas.
• Apoio familiar nulo ou insuficiente.
• Episódios de pânico.
• Sintomas físicos de duração prolongada.
Onde procurar ajuda?
• Psiquiatras
• Psicólogos
• Grupos de apoio
O luto termina quando
• Você consegue falar da perda sem que as emoções sejam exageradas.
• A perda tem significado de mudança.
• É possível falar da pessoa morta sem dor nem mágoa.
• O morto é lembrado com saudade, mas sem dor.
• O sobrevivente reencontra a paz, sente vontade de reconstruir sua vida,
faz projetos e reconhece o crescimento pes soal que a perda provocou.
Como ajudar os enlutados
Se você quiser ajudar um amigo enlutado, evite frases como:
• “Ele agora está com os seus.”
• “Seja forte.”
• “Ele está melhor do que nós.”
• “Não chore.”
• “Deus quis assim, era a hora dele.”
• “Ele era de Deus.”
• “Ele foi só emprestado por Deus.”
• “Foi melhor assim, ele estava sofrendo muito.”
Se você não sabe o que dizer a um amigo ou familiar que está sofrendo
por uma perda, dê-lhe um abraço forte, um aperto de mão, fique a seu
lado sem pronunciar nenhuma palavra. Tais gestos serão suficientes para
que a pessoa compreenda que você está com ele na sua dor. O que
importa, nesse momento, não é o que falar, mas a presença
Uma das maiores necessidades dos enlutados é encontrar alguém com
quem compartilhar seus sentimentos, falar de suas tristezas, frustrações,
lembranças e dores. Precisam de alguém que lhes dê espaço e tempo para
elaborar a perda.
Porém, muitas vezes esse tempo não lhes é dado. Eles relatam que ficam
muito tristes quando as pessoas dizem: “Já passou tanto tempo e você
ainda não superou a perda? Você tem de melhorar”; “Você tem de se
acostumar”; “Você tem de dar conta de reagir”; “Você tem de ser forte”.
O dia do funeral
O FUNERAL É A cerimônia que oficializa a
realidade da perda. O enterro cumpre várias funções:
• é um ritual de despedida;
• consolida a realidade da morte;
• facilita a expressão de apoio, amor e solidariedade
para os enlutados; e
• cumpre a função de separar o morto dos vivos.
Longaker (1998) salienta que o luto nunca terminará se nem começar.
Para isso, devemos primeiro aceitar o fato de que a morte aconteceu.
Quando não temos uma experiência física e tangível da realidade da
morte, podemos suprimir a nossa dor negando a morte.
É por isso que ver o corpo no hospital, em casa ou no funeral nos ajuda a
aceitar e a nos acostumar com a realidade da perda
A sociedade de hoje exige do sobrevivente um controle de suas
emoções.
O ideal é que as pessoas deixem os enlutados agirem da maneira que
acharem melhor. Não há forma certa ou errada de agir.
Não é errado tocar no corpo, chorar sobre o morto; não é inadequado
gritar, lamentar. Ruim mesmo é não exprimir a dor. Só os enlutados
podem saber o que é melhor para eles
O luto da criança: as crianças e o funeral
Não existe regra fácil e rápida para determinar se as crianças devem ou
não comparecer a funerais, embora essa seja uma dúvida comum.
Participar da cerimônia, ao contrário, faz que a criança elabore a perda de
forma mais positiva e verdadeira.
É importante dar informações prévias: o que vai acontecer no velório,
como será o ambiente e, se possível, mostrar a ela a imagem de um caixão.
Também é preciso descrever a aparência do corpo, caso o morto tenha
marcas, feridas, ataduras etc. Descreva a situação da forma o mais clara
possível (Kaplan et al., 1997).
Após o funeral, é essencial que o parente mais próximo – como um dos
pais ou avós –, em quem a criança confia e o qual respeita, ajude -a a
trabalhar a perda.
É importante falar sobre o assunto com ela, mostrar fotos e utilizar
sempre uma linguagem simples e verdadeira, respeitando a vontade da
criança, seu desenvolvimento cognitivo e intelectual. Não
detalhe como se deu a morte, o que pode gerar mensagens mórbidas.
Crianças com menos de 3 anos sentem saudades quando são afastadas de
seus responsáveis ou de um bichinho de estimação. Sentem dó quando
perdem um objeto ou ente querido. Estão na fase de incompreensão total,
não tendo ainda desenvolvido o conceito de morte.
Segundo Raimbault (1979), sintomas comuns nessa faixa etária podem se
manifestar, como perda de apetite, enurese, dificuldade para dormir, choro
excessivo, regressão de alguns comportamentos já apreendidos, apatia e
aumento da dependência.
Entre 3 e 5 anos, as crianças conceituam a morte como uma separação
provisória. Elas pensam que seu ente querido morto vai voltar a
qualquer momento e, por não compreenderem a complexidade da perda,
creem ser a morte reversível. Nessa fase, as crianças se sentem culpadas
pelos acontecimentos (Mazorra, 2001).
É comum as crianças verbalizarem:
• “Estou com saudades do meu pai. Que dia ele vai chegar?”
• “Quero ir para o céu ver minha mãe.”
• “Acorda ele, manda ele viver.”
• “Quando vovó vai voltar?
As crianças em idade escolar (6 a 12 anos) compreendem que a morte é
um caminho sem volta, mas creem que somente morrerão os idosos
(vovô, vovó), as pessoas hospitalizadas ou as vítimas de acidentes.
Se um indivíduo jovem morrer, elas poderão até compreender a situação,
caso conheçam e entendam a causa da morte, porém sua dor será maior
que a manifestada por crianças mais novas.
Quando a perda é significativa, a criança pode desenvolver distúrbio de
atenção, distúrbio de fala, ansiedade – como fobia, rituais, tique e apatia
–, medo da solidão, do escuro e de estranhos
Depois dos 12 anos, as crianças já estão mais realistas diante dos fatos e
a maior parte delas já aceita que algum dia também vai morrer,
compreendendo a morte como a parada de todas as funções biológicas.
Desaparecem preocupações de que o falecido está sentindo frio e/ou
está molhado pela chuva (Chiattone, 2003)
Elas expressam sentimentos de tristeza mais pelo comportamento do
que com palavras.
Manifestam medo de abandono, desamparo, desespero, ansiedade ou
raiva de forma mais grave e agressiva devido à dificuldade de se
expressar verbalmente. Elas conceituam a morte como ameaça pessoal,
encarando -a como definitiva e permanente.
Sentimentos deprimidos, queixas somáticas, comportamentos
delinquentes, promiscuidade e tentativas de suicídio são frequentes
nessa idade.
Como ajudar as crianças a lidar com a perda?
É PRECISO CONVERSAR SOBRE morte de forma esclarecedora.
Explique -lhes que a morte é definitiva, que todos nós morreremos um
dia. Diga que se trata de um processo natural, inerente à vida, assim
como as estações do ano, dia e noite, frio e calor.
Como ajudar as crianças a lidar com a perda?
Se possível, mencione processos como a germinação
das sementes e a metamorfose da borboleta. Deixe claro
que nascer e morrer refletem uma alternância natural.
Para ajudar as crianças após a perda, é preciso oferecer
carinho, compreensão, amor, respeito, acolhimento e
escuta.
Como ajudar as crianças a lidar com a perda?
A escola deve oferecer o apoio e a assistência necessários e adequados
quando a criança retornar às aulas. Deve também trabalhar o tema morte
contando histórias, exibindo filmes, incentivando que os colegas da criança
enlutada – em especial seu melhor amigo – lhe escrevam cartas de estímulo.
Esse é o momento de transmitir informações concretas para as crianças,
dando -lhes a oportunidade de tirar dúvidas e de falar sobre o assunto. Essas
conversas às vezes duram meses
REFERÊNCIAS
• Soares, Edirrah Gorett Bucar Conversando sobre o luto / Edirrah
Gorett Bucar Soares, Maria Aparecida de Assis Gaudereto Mautoni. –
São Paulo : Ágora, 2013.
• Kubler-Ross, E. (1971). On Death and Dying. Southern Medical
Journal, 64(5), 641.
• Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5 (5th
ed.). (2013). Washington, DC: American Psychiatric Publishing.
• Marques, Joana Filipa Pedro. Luto Patológico – Revisão baseada na
melhor evidência. Dissertação de mestrado - orientada por Diogo
Telles Correia - Universidade de Lisboa, 2018.