ARCADISMO
Alunas: Andreia Lima e Larissa Ketellen
CONTEXT0 HISTÓRICO
• O arcadismo foi um movimento literário europeu do século XVIII.
Caracterizou-se por retomar as temáticas da Antiguidade greco-latina e pela
ênfase em descrições bucólicas da natureza. O nome dessa escola estética
refere-se à Arcádia, região campestre da Grécia Antiga onde viviam pastores
e poetas.
• O século XVIII é também conhecido como século das luzes ou século da
filosofia. Foi durante esse período que aconteceu o iluminismo, movimento
intelectual que deu origem às ideias de revolução, liberalismo, cidadania,
Direitos Humanos, bem como impulsionou a busca pelo conhecimento em
áreas diversas. Os pensadores iluministas baseavam-se no princípio
da racionalidade: a razão humana é que deveria conduzir o desenvolvimento
das ciências, da política e da vida cotidiana das pessoas, iluminando-as do
obscurantismo da ignorância e do desconhecimento.
Ninfa adormecida guardada por um pastor, de Angelika Kauffmann,
ilustrando o bucolismo árcade.
Características do arcadismo
• Embora tenha surgido em um período de rupturas e muita agitação política e
intelectual, os escritores árcades faziam textos amenos, contemplativos.
Em busca do equilíbrio e da restauração do caos reinante na escola barroca, o
arcadismo recorria ao bucolismo, aos temas pastoris, aos elementos
da natureza. Era comum que os poetas árcades assinassem seus versos em
pseudônimos com nomes de pastores gregos e romanos.
• Temática e estilo greco-latino são, aliás, recorrentes, seja pelo uso das formas
helenísticas de poesia (ode, epicédio, canto etc.), seja pela presença de figuras
que compõem o imaginário da Grécia Antiga, como as ninfas, as musas, os
deuses e os pastores. Por isso, o arcadismo é também chamado neoclassicismo,
ou seja, a retomada de elementos da Antiguidade Clássica. Tanto é que os
principais temas árcades podem ser resumidos em expressões latinas muito
populares na época:
• Fugere urbem, ou seja, “fuga da cidade”. A ordem natural dos ciclos
da terra e do fluxo das águas devolve o equilíbrio do espírito humano.
• Locus amoenus, “local ameno”, para onde o poeta deve dirigir-se.
• Aurea mediocritas, “o meio-termo é de ouro”: em oposição aos
excessos do barroco, o arcadismo procura o equilíbrio.
• Inutilia truncat, “eliminar o supérfluo”: a linguagem deve ser simples,
objetiva, clara e racional, sem adornos.
Principais autores do arcadismo
• Manuel Maria Barbosa du Bocage
• Nascido em Setúbal, Portugal, em 1765, Bocage é considerado um dos
principais autores do arcadismo português. Foi também marinheiro e,
aos 21 anos, embarcou para a Índia. Ao ser promovido tenente,
desertou. Viveu em Macau até 1790, quando retornou a Portugal e
associou-se à Segunda Arcádia portuguesa, adotando o pseudônimo
Elmano Sadino.
• Em 1797, foi preso pela Inquisição pelo conteúdo antiabsolutista e
blasfemo dos versos “Pavorosa Ilusão da Eternidade”.
Encarcerado, traduziu obras de poetas latinos e franceses. Foi
libertado apenas ao se mostrar conformado com as tradições morais
e religiosas da época. Continuou seu trabalho de tradução e escrita
até sua morte, em Lisboa, em 1805.
• A obra de Bocage tem duas fases. A
Bocage foi um grande primeira é composta de temas satíricos,
nome do arcadismo. permeada de erotismo e humor profano. A
segunda corresponde a um período lírico,
quando adotou o procedimento literário do
arcadismo, sendo equiparado aos principais
nomes da poesia portuguesa.
• A poesia de Bocage elegeu principalmente
as temáticas do amor e da desilusão
amorosa, permeada por dramas
existenciais, cenas noturnas, apreço pelo
mistério e certa sentimentalidade que
transcenderam as convenções árcades. Por
isso, é também considerado um autor pré-
romântico.
Exemplo de poema de Bocage
Olha Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como são cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros* brincar por entre as flores?
Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes
As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares sussurrando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara.
Zéfiro é um deus grego que personifica o vento oeste.
Diferenças entre barroco e arcadismo
• O arcadismo surgiu como escola estética que se opôs
ao barroco. Enquanto os versos barrocos eram gestados
no conflito da existência dual (carne e espírito, céu e
terra, teocentrismo e antropocentrismo), nas
contradições da existência humana, o arcadismo
procurou reestabelecer o equilíbrio à luz da razão, da
racionalidade natural.
• Se o barroco tinha por tema transversal o temor pela
fugacidade das coisas, ansioso com o fato de que tudo
se transforma e se dissolve, o arcadismo, por sua
vez, abraçou o eterno devir: já que tudo é instável e
fugaz, deve-se viver cada momento com tranquilidade e
Tomás Antônio Gonzaga • Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
LTomás Antônio Gonzaga utilizava o pseudônimo
Dirceu.