SIMONE DE BEAUVOIR
“RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO”
GÊNERO
O SEPTUAGENÁRIO DE “O SEGUNDO
SEXO”
Marlise Matos
DCP/UFMG
Junho 2020
Simone de Beauvoir:
razões da liberdade de gênero
Simone de Beauvoir (1908-1986)
Filósofa, professora, escritora, intelectual e
feminista francesa. Integrante do movimento
existencialista francês e considerada como
importante teórica do feminismo, é autora de
obras que contribuíram no campo dos estudos
sobre o feminismo e na luta da igualdade de
gênero.
VIDA E CARREIRA
Nascida em Paris, no dia 9 de janeiro de
1908, Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de
Beauvoir, ou apenas Simone de Beauvoir, desde
pequena demostrou certa tendência para a
literatura.
Simone de Beauvoir (1908-1986)
VIDA E CARREIRA (CONT.)
Foi educada em instituições católicas.
Frequentou o Institute Adeline Désir, uma escola
católica para meninas, em seguida, cursou
matemática do Instituto Católico de Paris, depois deu
início ao curso de literatura e línguas no Institute
Saint-Marie.
Mais tarde, ingressou no CURSO DE FILOSOFIA na
Universidade de SORBONNE.
Nesse período, entrou em contato com outros
jovens intelectuais como René Maheu e Jean-Paul
Sartre, com quem manteve um relacionamento
durante quase cinquenta anos.
Simone de Beauvoir (1908-1986)
VIDA E CARREIRA (CONT.)
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre mantiveram uma relação
conjugal bem diferente do habitual no século XX. Eram parceiros
intelectuais, mantinham um relacionamento aberto, nunca se
casaram ou tiveram filhos, o que gerava certa polêmica na época.
O par BEAUVOIR-SARTRE viveu a época das Primeira e Segunda
Guerras Mundiais e combateu a crueldade humana com uma
filosofia de entendimento de si mesmo e de compreensão mútua.
Para ambos, todo ser humano é igual, e não faz sentido
pronunciar frases acusatórias, do tipo: "o inferno são os outros".
VIDA E CARREIRA (CONT.)
Apesar de pertencer a família católica, a jovem optou
pelo ateísmo. Para ela “era-me mais fácil imaginar um mundo sem
criador do que um criador carregado com todas as contradições
do mundo”.
Em 1929, concluiu o curso de Filosofia. No mesmo ano, Beauvoir
foi aprovada no exame da agrégation, um concurso para admissão
de novos professores no sistema público de ensino da França,
tornando-se a pessoa mais jovem e a nona mulher a obter este
grau.
Entre 1930 e 1940, Simone de Beauvoir lecionou em diversas
instituições incluindo a Universidade de Marseille, onde
permaneceu até 1932. Mais tarde, passou por Ruen e pelo Lycée
Molière.
Durante a ocupação da França pela Alemanha nazista, a filósofa
fugiu do país e só retornou ao final do conflito. Ao lado de Sartre,
era frequentadora de encontros filosóficos junto a outros
importantes pensadores da época, como Merleau-
Ponty e Raymnond Aron.
VIDA E CARREIRA (CONT.)
Os quatro, inclusive, fundam a revista “Os Tempos
Modernos” (Les Temps Modernes), um importante veículo para
a exposição de suas ideias.
Simone de Beauvoir carregava uma paixão por livros desde
sua infância. Foi através de suas obras que a filósofa explorou
sua visão social, abordando questões da filosofia
existencialista, além de suas análises políticas e
autobiografias.
Sua vida também foi marcada por sua atuação em
movimentos sociais. Junto a seu companheiro, viajou por
países como o Brasil, Cuba e China, além da União Soviética.
Beauvoir foi uma ativista política e feminista.
VIDA E CARREIRA (CONT.)
Na década de 1970, a filósofa tornou-se ativa no movimento
de libertação das mulheres francesas. Embora não se
considerasse uma filósofa, teve uma influência significativa
tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista.
Simone de Beauvoir faleceu no dia 14 de abril de 1986, aos
78 anos de idade, vítima de pneumonia.
Foi enterrada no Cemitério de Montparnasse, em Paris, no
mesmo túmulo de seu companheiro Jean-Paul Sartre.
AS PRINCIPAIS OBRAS
PRINCIPAIS OBRAS
Escreveu romances, ensaios, biografias e autobiografia
sobre filosofia, política e questões sociais.
Fez parte do círculo filosófico que conferiam ao
existencialismo um aspecto literário, trazendo-os para suas
obras.
Defendia radicalmente a autonomia da mulher, de modo em
que cada uma tivesse a liberdade de construir sua própria
personalidade, através de suas escolhas. Deixava claro seu
posicionamento em relação ao casamento e a maternidade:
o casamento é como uma instituição problemática e falida
da sociedade moderna, não funcionando como uma
determinação de amor, mas sim como uma obrigação onde a
mulher dedica toda sua vida a um marido.
a maternidade seria uma espécie de “escravidão”, pois a
mulher renuncia sua vida tendo para cumprir a obrigação de
casar, ter filhos e cuidar da casa.
PRINCIPAIS OBRAS
Dentre alguns títulos de destaque na sua obra estão:
“O Segundo Sexo” (1949);
“A Convidada” (1943);
“O Sangue dos Outros” (1945);
“Os Mandarins” (1954);
“Memórias de uma moça bem-comportada” (1958);
“A Mulher Desiludida” (1967);
“A Velhice” (1970);
“Tudo Dito e Feito” (1972) e;
“A Cerimônia do Adeus” (1981).
RAZÕES DA
LIBERDADE DE GÊNERO
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Depois de Beauvoir as mulheres de todo o mundo
passaram a ter melhores referências para se orientar na
busca de esclarecimento quanto à sua condição e à
diferença que sua condição implica.
Como modelo de vida, ora recebia aplausos ora
restrições, dependendo da oportunidade e da companhia.
Foi alvo de ataques cruéis em seu país; mas se não fosse
ela, nem saberíamos que certos assuntos que nos
preocupam eram dignos de reflexão.
Soube abrir um caminho próprio e original mesmo no seio
de outros intelectuais brilhantes da turma da Revistas
Temps Modernes.
Foi indiscutivelmente a precursora do feminismo dos anos
70, MAS a sua obra extrapola estes limites.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Ao longo das três décadas que se seguiram ao fim da Segunda
Guerra Mundial, uma intensa mobilização voltada para a ação
coletiva e para a afirmação de setores subalternizados
encontrou-se no centro das mudanças processadas dentro das
sociedades centrais, localizadas nos países mais
industrializados do mundo capitalista, e das suas imediatas
periferias.
Novos equilíbrios começaram a ser produzidos, no domínio da
redefinição identitária desses grupos, mas também no que
respeitava à proeminência da sua voz.
Sartre e Beauvoir foram testemunhas ativas, protagonistas do
“Breve Séc. XX”: “o século mais assassino de que temos
registro, tanto na escala, frequência e extensão da guerra que
o precedeu, mal cessando por um momento na década de 1920,
como também pelo volume único das catástrofes humanas que
produziu, desde as maiores fomes da história até o genocídio
sistemático” (Hobsbawm, 1994:22).
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Mas estes também foram momentos de afirmação
progressiva dos direitos das etnias e das confissões
minoritárias, das nacionalidades marginalizadas, das
mulheres, dos jovens, dos homossexuais – ou, de uma
forma mais geral, de todos aqueles que, por serem aberta
ou veladamente excluídos, oprimidos ou subalternizados
não ocupavam um lugar central na organização dos
poderes.
Tais experiências vieram acompanhadas do crescimento
fulgurante da intervenção e manifestação de setores que
anteriormente se encontravam confinados a uma situação
de dependência e haviam permanecido nos bastidores da
mudança.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Os movimentos que estes “novos” atores foram capazes de
corporizar e protagonizar não se limitaram, porém, a colocar
em palco com nova roupagem os conflitos já vividos, novas
formas distintas de participação ou problemas estranhos à
tradição das lutas que já haviam marcado a era da afirmação
do capitalismo industrial.
Foram bastante mais longe, destacando e fazendo ganhar
vulto a crescente inadequação das formas tradicionais de
organização e de representação política, para, com isso,
fornecerem respostas face a um conjunto de questões
emergentes em sociedades cada vez mais complexas e
comunicantes.
Diante do diagnóstico da “desintegração de velhos padrões de
relacionamento social humano, e com ela, a quebra dos elos
entre as gerações, entre passado e
presente”(Hobsbawm,1994:24); onde predominaram os valores
de um individualismo associal absoluto, Sartre e Beauvoir
visaram construir e reinventar os vínculos.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
A partir dos anos 50, o engajamento
político de Sartre e Beauvoir se
acentua. Beauvoir publica O Segundo
Sexo em 1949, fazendo crítica contumaz
à subordinação das mulheres e
influenciando o feminismo mundial. Em
1960, Sartre publica a Crítica da Razão
Dialética, no qual tenta conciliar o
existencialismo e o marxismo. Ambos
também denunciam o colonialismo
francês na Argélia (Sartre escreve,
inclusive, Os Seqüestrados de Altona).
Esse interesse pelo problema argelino
liga o casal às questões do Terceiro
Mundo. E eles viajam a Cuba e ao Brasil,
em 1961. Em 1967, ele visita o Egito e
Israel com o objetivo de tentar abrir o
diálogo entre os intelectuais dos dois
países.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Também será a partir dos anos cinqüenta, que vamos
presenciar a partição masculino-feminino tornar-se objeto
de uma alteração rápida e profunda, vivida intensamente
em ambientes urbanos marcados pelo ensaio de
formulações éticas e processos de representação do
mundo amplamente renovados.
O espaço ocupado pelas mulheres sobretudo (mas
também por outras experiências identificatórias de
gênero) foi, neste âmbito, rapidamente destacado e
integrado em ambientes de permanente tensão, aos quais
corresponderam importantes alterações na redefinição do
papel que ocupavam na família, no trabalho e nas
atividades cívicas, bem como no domínio das práticas
culturais, da vida cotidiana e da sexualidade.
Beauvoir e Sartre se incumbiram, inclusive, de
performatizar tudo isso em suas próprias existências.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Beauvoir e Sartre sofreram discriminações até mesmo
quando vieram ao Brasil: segundo Garcia (1999:79) teriam
desistido de uma visita a Porto Alegre por causa de
“razões morais” (o suposto “mal exemplo” que eles esta-
Riam nos dando) onde professores universitários
“conservadores, clericais e integralistas” se escandali-
zaram com a simples possibilidade de suas presenças.
O Brasil vivia um período de grande efervescência política
e intelectual.
Estava claro, portanto, que em Sartre, assim como em
Beauvoir, política e moral pareciam associadas e ambas
se refletiam tanto nos escritos filosóficos quanto literários.
O VALOR DA LIBERDADE na obra destes dois autores nos
convida, até HOJE, a estruturar um novo paradigma ético,
moral e político.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Beauvoir rejeitava a imagem tradicional e onipresente de
feminilidade” submissa e caricaturada, produzida pela
subordinação histórica aos homens/masculino, reivindicando ao
mesmo tempo a supressão das discriminações e lutando pela
igualdade de direitos.
Beauvoir produz DUAS VIAS de sentido para a condição das
mulheres, em larga medida opostas: uma afirmava a premência
de uma utopia de igualdade entre os indivíduos, fazendo da
diferença dos sexos um aspecto de certa forma secundário
(versão igualitarista), enquanto a outra reclamava a absoluta
especificidade do feminino e um lugar para a afirmação matricial
da sua voz (versão diferencialista).
A primeira destas estratégias, de pendor igualitarista, insistia
basicamente nos pontos de vista sobre a construção social da
diferença avançados por Simone de Beauvoir no imediato pós-
guerra. Em O Segundo Sexo, aparecido em 1949, ela considerara
como uma necessidade a afirmação da identidade feminina,
colocando um axioma – “não se nasce mulher, torna-se mulher” –
como ponto de partida da reflexão em volta do tema.
O SEGUNDO SEXO (1949)
Volume 1. Fatos e Mitos
Volume 1. Fatos e Mitos O SEGUNDO SEXO
“Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida
especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza
feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender
as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de
se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua
integridade.”
- O livro tenta desmistificar e desnaturalizar a construção da feminilidade.
- Ser mulher não é algo naturalmente dado, é algo ensinado/aprendido nos
processos de socialização e é transmitido por gerações.
- Tenta entender a supremacia masculina e compreender a importância da
construção social, histórica e cultural na construção da identidade de
gênero, nesse livro não é uma tarefa árdua, uma vez que a autora expõe
suas ideias de maneira muito clara, sem rodeios nem eufemismos.
- “La QUERELLE DE FEMMES” = originalmente se referia a um amplo debate
entre as décadas de 1400 e 1700 na Europa sobre a natureza das mulheres,
suas capacidades e se deveriam estudar, escrever ou governar da mesma
maneira que os homens. Tanto na esfera acadêmica quanto na popular, os
autores criticaram e elogiaram a natureza das mulheres, argumentando a
favor ou contra sua capacidade de ser educado da mesma maneira que os
homens. Como o aristotelismo clássico sustentava que as mulheres são
incapazes de raciocinar, muitos argumentavam que a natureza das
mulheres os impedia de aprender mais.
O SEGUNDO SEXO
Volume 1. Fatos e Mitos – SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE - DESTINO
CAPÍTULO I — Os dados da biologia
CAPÍTULO II — O ponto de vista psicanalítico
CAPÍTULO III — O ponto de vista do materialismo histórico
SEGUNDA PARTE - HISTÓRIA
I
II
III
IV
V
TERCEIRA PARTE - OS MITOS
CAPÍTULO I
CAPÍTULO II
I — Montherlant ou o pão do nojo
II — D. H. Lawrence ou o orgulho fálico
III — Claudel e a serva do Senhor
IV — Breton ou a poesia
V — Stendhal ou o romanesco do verdadeiro
VI —
CAPÍTULO III
VOLUME 1. Fatos e Mitos
Primeira página
Volume 1. Fatos e Mitos O SEGUNDO SEXO
A mulher tem lutado em busca dos direitos e da igualdade que lhe foram
tiradas ao longo da historia, sempre foi assim.
A mulher foi tratada como um “erro”, o “símbolo do pecado” como
representado na historia mística da serpente, foi considerada “versão
fracassada do homem” e “culpada pelos males da sociedade”. Ela não
tem história, não tem passado e tem vivido em razão de decisões
masculinas de forma condescendente, e viver dessa maneira, sem refletir
nem lutar, tornou a mulher o SEGUNDO SEXO.
O livro é uma profunda viagem em torno da história da mulher, dos mitos,
fatos e experiências vividas por elas, qual o papel que elas
desempenharam, e ainda apresenta soluções que buscam igualdade entre
os seres humanos.
Ela reúne mitos, lendas e fatos históricos acerca da mulher, o que nos faz
entender uma boa parte do porquê o feminino é visto como inferior.
Ela mostrou que sua própria concepção de feminilidade era uma criação
de homens e tinham como intenção a autolimitação d as mulheres,
queriam impedi-las de lutar pelo espaço que é seu por direito.
Enfim ela insistia que as mulheres precisavam superar o eterno feminino
e formar o seu próprio ser, escolher seu destino, se libertando de ideias
pré estabelecidas e das algemas da alienação na qual viviam e
infelizmente ainda vivemos.
Volume 2. A Experiência Vivida – SUMÁRIO
O SEGUNDO SEXO
INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE - FORMAÇÃO
CAPÍTULO I — Infância
CAPÍTULO II — A moça
CAPÍTULO III — A Iniciação Sexual
CAPÍTULO IV – A Lésbica
SEGUNDA PARTE - SITUAÇÃO
CAPÍTULO I – A Mulher Casada
CAPÍTULO II - A Mãe
CAPÍTULO III – A Vida Social
CAPÍTULO IV – Prostitutas e Hetairas
CAPÍTULO V - Da Maturidade à Velhice
CAPÍTULO VI – Situação e Caráter da Mulher
TERCEIRA PARTE - JUSTIFICAÇÕES
CAPÍTULO I – A Narcisista
CAPÍTULO II – A Amorosa
CAPÍTULO III – A Mística
QUARTA PARTE – A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO
CAPÍTULO I – A Mulher Independente
CONCLUSÃO
VOLUME 2. A experiência vivida
Primeira página
O SEGUNDO SEXO
Volume 2. a Experiência Vivida
Analisa a condição feminina nas esferas sexual, psicológica, social e
política.
Simone de Beauvoir procura mostrar o absurdo da afirmação de que as
mulheres nascem “femininas” e devem ajustar-se ao que esse conceito
supõe, em seu tempo e sua cultura.
Por meio da análise dos papéis de esposa, mãe e prostituta, ela mostra
como as mulheres, em vez de realizar-se por meio do trabalho e da
criatividade, são obrigadas a seguir vidas monótonas, tendo filhos,
cuidando da casa ou sendo meros receptáculos da libido do homem.
A pensadora propõe uma série de demandas para conseguir a
emancipação feminina.
A mais importante é que se permita, à mulher, realizar-se por meio de
projetos próprios, com todos os perigos e incertezas que eles possam
acarretar.
É inegável a influência de Simone de Beauvoir como precursora do
feminismo na filosofia política.
O SEGUNDO SEXO (1949)
CRÍTICAS À OBRA
CRÍTICAS RESENHADAS POR Joana Maria Pedro (2007), nas Coletâneas
de Comemoração dos 50 anos de publicação do livro, na França:
“As mais fortes críticas ao texto são em relação às fontes. As analistas
citam:
1)a sua pobreza, ou seja, haveria muito mais informações disponíveis na
época e que não foram usadas. É o que sugerem Hazel E. Barnes e Elisabeth
Badinter;
2)não cita e nem critica a historiografia que usa, como informa Claudia
Opitz;
3)quando cita, não faz a crítica da fonte devidamente, reproduzindo mitos,
como argumentam Pauline Schmitt Pantel e Beate Wagner-Hasel;
4)cita frases de autores famosos, sem mencionar a fonte, com o agravante
de que se desconhece a existência dessas frases nas publicações desses
autores. Esta é a crítica de Margarete Zimmermann em relação a uma
citação atribuída a Pitágoras; uma outra, apontada por Margarete
Mitscherlich, é atribuída a Nietsche;
5)não apresenta informações corretas sobre as obras citadas, constatam
Anne-Marie Sohn e Françoise Collin;
6)comete equívocos ao colocar o título das obras que cita, afirma Marie-
Andrée Charbonneau.
Ou seja, as analistas constatam a despreocupação com o rigor das fontes.
Entretanto, concordo com Françoise Héritier: não era comum, na década de
40, o rigor exigido hoje nas citações em trabalho científico. Entretanto, esta
parece ser uma questão que incomodou muito as autoras da coletânea”.
CRÍTICAS RESENHADAS POR Joana Maria Pedro (2007), nas Coletâneas
de Comemoração dos 50 anos de publicação do livro, na França:
“Convém, ainda, salientar o que as autoras dizem sobre o caráter
inovador do livro. Para as historiadoras Pauline Schmitt Pantel e
Beate Wagner-Hasel, a obra é inspiração e não fonte
historiográfica para se conhecer a história da mulher na
antiguidade. Outra historiadora, Claudia Opitz, afirma que a noção
de história de Beauvoir é a-histórica e, por isso, as historiadoras
resistiram tanto ao livro. Personagens importantes para a História
das Mulheres, como Michelle Perrot, por exemplo, não a citava.
Entretanto, Elizabeth Fallaize e Annette Lavers referem-se ao
método de análise literária de Beauvoir como inovador, e que a
autora não tem sido devidamente reconhecida como tal; a
segunda analista aponta, inclusive, que O Segundo Sexo
antecedeu e influenciou a metodologia de Barthes. Ainda, Susan
Rubin Suleiman afirma que criou um método crítico – uma
hermenêutica literária totalmente nova, nem sempre reconhecida
pelas herdeiras de Beauvoir. Pergunta o porquê dessa
"ingratidão". Conclui que a força de uma idéia é atestada pelo fato
de que se costuma esquecer a origem dela. Crê que foi isto que
ocorreu”.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Já para Beauvoir, o ato de criar,
criar é um ato de “conferir ao mundo uma
necessidade”
necessidade (Beauvoir, 1960/1984, p. 43-44).
Isto significa que o artista introduz a necessidade (um encadeamento,
uma significação que se impõe quase que como uma fatalidade) onde só
havia liberdade (plano da vivência onde tudo ou qualquer coisa é
possível).
A fatalidade, como condição inerente à arte, nada mais é do que uma das
formas que o sujeito tem de fazer com que o som e o silêncio aconteçam no
mundo.
Para o casal Beauvoir-Sartre, por exemplo, o ato de criação é vivido
essencialmente como uma necessidade.
É necessário refundar a liberdade: com razão e/ou desrazão, é o que ambos
– Beauvoir e Sartre - fazem com sua própria vivência e existência amorosa:
incômodas reinvenções para muitos e muitas...
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
CONTINGÊNCIAS HISTÓRICAS
Considerada uma mulher corajosa e íntegra, Simone de Beauvoir, apesar
de TODOS os preconceitos, viveu de acordo com sua própria tese de que
as opções básicas de um indivíduo devem ser feitas sobre a premissa e
uma vocação igual para o homem e a mulher fundadas na estrutura comum
de seus seres, independentemente de sua sexualidade.
A perspectiva de Beauvoir, muito difundida na década seguinte dentro dos
ambientes próximos do existencialismo sartreano, de algumas
heterodoxias da esquerda e de parte significativa da juventude
universitária, destacava a modelação social da atitude feminina e da sua
dimensão de alteridade em relação ao arquétipo masculino.
Denunciava os papéis impostos no contexto das relações sociais,
produtoras da divisão dos sexos e da bipartição dos indivíduos, insistindo,
ao mesmo tempo, na unidade do gênero humano e na liberdade, que cada
uma das suas partes deveria deter, para produzir uma especificidade
situada fora dos estereótipos e alheia à hierarquia vigente.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
REINVENTANDO-SE VÍNCULOS AMOROSOS...
O relacionamento entre Sartre e Beauvoir foi bastante polêmico:
apesar de passarem quase meio século juntos, eles nunca
habitaram a mesma casa. Além disso, mantinham um romance
“aberto”: durante muito tempo, ambos tiveram amantes.
A origem da lenda – hoje suavizada, mas que resistiu algumas
décadas com grande fulgor – do amor “emancipado”, “livre”, do
par Sartre-Beauvoir, residiu em larga medida na aparente
materialização, que a sua relação pessoal parecia definir, dessa
mesma proposta.
Gostemos ou não, aprovemos ou não, a autoridade do modelo de
aliança/vínculo amoroso entre Beauvoir e Sartre refletia uma
outra conjuntura de casal: relacionamento baseado em respeito
mútuo, com o mínimo de mentiras e hipocrisias, espontaneidade
e liberdade. AMOR REINVENTADO.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Neste sentido, a experiência amorosa e a sua
reestruturação/reinvenção revelam igualmente que a instituição
da FAMÍLIA pode também ser algo MAIS ALÉM do que um mero
aparato ideológico de manutenção do status quo e das forças
dominantes, um instrumento de mera “unidimensionalização
puilsional” ou de configuração e reprodução da
“heterossexualidade compulsória”, para instituir e possibilitar
também dinâmicas e vivências múltiplas, sejam tradicionais
sejam destradicionalizadas, da interação e vinculação conjugal,
familiar e amorosa.
Sem dúvida o par BEAUVOIR-SARTRE protagonizaram
experiências de estilização e estetização da existência amorosa
e conjugal, que deixaram incomodados muitos outros pares e não
pares; mas e sobretudo o fizeram sob o pano de fundo da criação
de uma via para a transformação e mudança tendo como foco
relações intersubjetivas mais solidárias e, certamente, mais
democráticas.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
O GÊNERO e o campo no qual este se insere - o das relações de
gênero - se constitui em um desnaturalizador potencialmente
poderoso não apenas do SEXO, mas também de dinâmicas
perpetradas entre o plano identificatório e cultural
A reinvenção amorosa proposta pelo par SARTRE-BEAUVOIR (não
foram eles, claro, os únicos...) descortinam o sistema familiar e
amoroso como algo poroso, instável, aberto às transformações
crescentes do mundo.
Chamei estas reinvenções de “alternativas de estabilidade
conjugal” (Matos, 2000), espaços dinâmicos onde o que parece
estar em jogo é um novo plano de negociação democrática: novos
trajetórias de negociação afetiva e cognitiva que forjam, na
modernidade tardia, algo da ordem de uma “democracia das
emoções”.
Podemos CONSIDERAR BEAUVOIR COMO PRECURSORA DO
CONCEITO DE GÊNERO QUE, POR SUA VEZ, SÓ IRÁ SURGIR NA
DÉCADA DE 80, com Gayle Rubin (1984) e Joan Scott (1989).
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
As experiência conjugal refere-se a uma forma possível de gestão
compartilhada da sexualidade e dos afetos, onde ideologias e
práticas diversas de amor conjugal e de gênero se expressam e
se realizam positivamente.
São “cenas” ou locus onde se situam as trocas afetivas,
sexuais e cognitivas entre os gêneros
Se “viver a dois é uma arte”, a reinvenção amorosa significa
certamente um passo criativo e original na recondução da vida
amorosa; significa também o colorido das nossas vidas a partir
de elementos tonais de algo como uma “reflexividade estética’
que visa drenar novas formas de amor e de (se) amar, por sua sua
vez, bem mais democráticas.
Gostemos ou não, SARTRE e BEAUVOIR protagonizaram isso.
Simone de Beauvoir:
RAZÕES DA LIBERDADE DE GÊNERO
Gostaria de demarcar aqui que Simone de Beauvoir e sua
obra “O Segundo Sexo”, que neste ano de 2019 completa
70 anos, na minha opinião é a obra divisora de águas de
passagem da Primeira (um movimento de mulheres
marcado por forças UNIVERSALISTAS: sufragismo e lutas
trabalhistas) para a Segunda Onda dos feminismos
ocidentais (oriundos do norte global).
Na Segunda Onda dos Feminismos, as lutas foram
fundamentalmente PLURALIZADAS e marcadas pelas
DIFERENÇAS: feminismo negro, lésbico, radical etc. e as
relações de questionamento e confronto entre as próprias
feministas (assim como entre as feministas e os homens)
passaram a se dar.
Na Terceira Onda há uma confluência entre as forças de
profissionalização, especialização, onguização (fora do
Estado) com o reforço das lutas transnacionais promovidas
pelas Conferências da ONU sobre DH das mulheres.
ONDA/Características Período Conceitos Relação com o Estado - Economia Cultura
Política
PRIMEIRA Século Sufragismo (luta Modernidade iluminista
19 pelo sufrágio
FEMINISMO CONTRA O Luta por incorporação Lutas Operárias Colonialismo
universal)
CAPITALISMO ESTATAL das mulheres COMO
Socialismo, TRADIÇÃO MODERNA
Escolarização das SUJEITOS/AS
Marxismo
mulheres
Luta por incorporação de
Direitos civis e direitos
políticos
Conceitos-fronteira SÉCULO 20 - Feminismo/Experiência/Opressão/ Simone de Beauvoir
SEGUNDA Anos “Não se nasce CONFRONTO Globalização
50/60/70 mulher, torna-se
FEMINISMO CONTRA O Afastamento e repúdio Economia liberal Reforço do
mulher”...
CAPITALISMO Colonialismo
Lutas anti-militarização, Globalização
MILITARIZADO E Estudos de
contra a Ditadura Militar econômica CONTRA-CULTURA
DITATORIAL DA Mulheres e
diante do
AMÉRICA LATINA Feministas Liberalismo
AUTORITARISMO
Surgem novos MILITARIZADO E
feminismos: negro, ESTATAL
lésbico etc.
Conceitos-fronteira SÉCULO 21 - Relações de Gênero/Performativos e transperformativos de gênero
TERCEIRA Anos CONFLITO Anti-colonialismo
80/90
FEMINISMO E O “NOVO Estudos de gênero, Profissionalização, Neo-Liberalismo Anti-militarismo
ESPÍRITO DO relações de gênero especialização,
ANTI-
CAPITALISMO”: onguização fora do
Feminismos plurais: NEOLIBERALISMO
REDEMOCRATIZAÇÃO E Estado
CRISE FISCAL DO -negros; POSCOLONIALISMO
Lutas pela
ESTADO/NEOLI-
-lésbicos redemocratização
BERALISMO
ONDA/Característic Período Conceitos Relação com o Economia Cultura
as Estado – Política
Conceitos-fronteira Redes/Interseccionalidades/Campos feministas transversalizados
QUARTA Campo crítico- CONTESTAÇÃO Decolonialismo
emancipatório
Aproximação tensa e DESCOLONIZAÇÃO
das diferenças
disputa e + Decolonialismo
Pós-
FEMINISMO E Institucionalização
neoliberalismo
ULTRALIBERALIS estatal = “feminismo
Campo discursivo
MO/ estatal” / MIMs e DESPATRIARCALI
de ação (Alavrez,
Planos Nacionais de ZAÇÃO/DESRACIA
ESTATAL E 2016)
PPs para Mulheres LIZAÇÃO/DES-
SOCIAL Anos Feminismo Ultraliberalismo HETERONORMATI
Disputas acirradas
2000 Estatal ZAÇÃO
contra políticas
+ expansionistas de
BACKLASH NEO- desenvolvimento
Feminismos Anti- PLURALISMO
capitalista colonial,
CONSERVADOR radicalmente AGONÍSTICO
predatório capitalismo
pluralizados
NEOCONSERVADO-
RISMO RADICALIZAÇÃO
Ativismos
DESDEMOCRATIZA- DEMOCRÁTICA
Interseccionais
ÇÃO
Feministas
Democracia radical
feminista antirracista
FIM - OBRIGADA !
Marlise Matos
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