AÇÕES DE ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO
DAS LEPTOSPIROSES
Prof. Ms. Iací Proença Palmeira
Sinonímia
Doença de Weil, síndrome de Weil, febre dos
pântanos, febre dos arrozais, doença dos canaviais,
febre outonal, doença dos porqueiros, tifo canino,
doença das enchentes e outras.
Descrição
Doença infecciosa febril de início abrupto, podendo
variar desde um processo inaparente até formas
graves. É uma zoonose de grande importância
social e econômica por apresentar elevada
incidência em determinadas áreas, alto custo
hospitalar e perdas de dias de trabalho, bem como
por sua letalidade, que pode chegar a até 40% dos
casos mais graves.
Agente Etiológico
Bactéria helicoidal (espiroqueta) aeróbica
obrigatória do gênero Leptospira, do qual se
conhecem atualmente sete espécies patogênicas,
sendo a mais importante a L. interrogans.
Reservatórios
Os animais sinantrópicos, domésticos e selvagens
são os reservatórios essenciais para a persistência
dos focos da infecção. Os seres humanos são
apenas hospedeiros acidentais e terminais dentro
da cadeia de transmissão.
O principal reservatório é constituído pelos
roedores sinantrópicos (domésticos) das espécies:
Rattus norvegicus (ratazana ou rato de esgoto),
Rattus rattus (rato de telhado ou rato preto)
Mus musculus (camundongo ou catita).
Ao se infectarem, não desenvolvem a doença e
tornam-se portadores, albergando a leptospira nos
rins e eliminando-a viva no meio ambiente,
contaminando, desta forma, água, solo e alimentos.
O Rattus norvegicus é o principal portador da
Leptospira icterohaemorraghiae, uma das mais
patogênicas para o homem. Outros reservatórios de
importância são caninos, suínos, bovinos, eqüinos,
ovinos e caprinos.
Modo de transmissão
-Exposição direta ou indireta à urina de animais
infectados. A penetração do microrganismo dá-se
através da pele lesada ou das mucosas da boca,
narinas e olhos. Pode também ocorrer através da
pele íntegra quando imersa em água por longo
tempo. O contato com água e lama contaminadas
mostra a importância do elo hídrico na transmissão
da doença ao homem.
Outras formas de transmissão relatadas, porém
menos freqüentes: contato com sangue, tecidos e
órgãos de animais infectados, transmissão acidental
em laboratórios e ingestão de água ou alimentos
Período de Incubação:
Varia de 1 a 30 dias (média entre 7 e 14 dias).
Período de Transmissibilidade
Os animais infectados podem eliminar a leptospira
através da urina durante meses, anos ou por toda a
vida, segundo a espécie animal e o sorovar
envolvido. A transmissão inter-humana é muito rara,
podendo ocorrer pelo contato com urina, sangue,
secreções e tecidos de pessoas infectadas.
Susceptibilidade e imunidade
A susceptibilidade no homem é geral. A imunidade
adquirida pós-infecção é sorovarespecífica,
podendo um mesmo indivíduo ter a doença mais de
uma vez, sendo que o agente causal de cada
episódio pertencerá a um sorovar diferente do(s)
anterior(es).
A Doença
Muitas vezes, a leptospirose é
confundida com doenças como gripe e,
principalmente, hepatite.
A bactéria Leptospira pode atingir:
rins (1);
fígado (2);
musculatura (3).
Patogenia e Patologia
Penetração das leptospiras na pele e/ou mucosas
Corrente sanguínea Vasculite
Fígado Coração Rins Músculo Pele
Esquelético
Hepatomegalia Miocardites Necrose Icterícia
Mialgias e
Tubular atrofia muscular Rubínica
Aumento da permeabilidade vascular com
extravasamento de plasma e hemácias para a luz
alveolar, gerando as pneumonites.
Sintomas
A leptospirose tem inicio súbito. Os sintomas são
parecidos com os da gripe. Dor de cabeça, dor
muscular, febre alta, mal-estar. Normalmente,
quando curada, a doença não deixa seqüelas.
Um sintoma capaz de diferenciar a leptospirose de
outras doenças é a insuportável dor na panturrilha.
Muitas vezes, o doente não agüenta ficar de pé.
Em alguns casos, o doente pode ter icterícia. A
leptospirose também provoca alterações no volume
e na cor da urina, causando, muitas vezes, colúria.
Manifestações Clínicas
A infecção pode ser assintomática, subclínica ou
ocasionar quadros clínicos leves, moderados ou
graves com alta letalidade.
Tem duas formas clínicas:
1-Anictérica - (quadro de infecção gripal e
meningítica);
2- ictérica - (forma hepatorrenal: ictero-hemorrágica,
que constituem a síndrome de Weil).
1-Forma anictérica (leve, moderada ou grave)
1.1- Síndrome Gripal ou Virose- a doença pode ser
discreta, de início súbito com febre, cefaléia, dores
musculares, anorexia, náuseas e vômitos. Tende a
curar em poucos dias sem deixar seqüelas. Uma
história de exposição direta ou indireta a coleções
hídricas (incluídas água ou lama de enchentes) ou a
outros materiais passíveis de contaminação por
leptospiras pode servir como alerta.
Fase Septicêmica
1.2- Doença Febril Bifásica:
Fase Imune
1.2.1- Primeira Fase, “Septicêmica” ou
“Leptospirêmica”, inicia-se abruptamente com febre
alta, calafrios, cefaléia intensa, dores musculares e
prostração. As mialgias envolvem
caracteristicamente os músculos das panturrilhas,
mas podem afetar também coxas, regiões
paravertebrais e abdome, podendo simular um
abdome agudo cirúrgico. Apresenta os seguintes
sintomas:
-Anorexia, náuseas, vômitos;
-Obstipação ou diarréia
-Artralgias e mialgias;
-Hiperemia ou hemorragia conjuntival, fotofobia e dor ocular;
-Hepatomegalia e, algumas vezes, hemorragia digestiva
(melena, enterorragia), esplenomegalia e pancreatite.
-Epistaxe, dor torácica, tosse seca ou com expectoração
hemoptóica, dispnéia e cianose. A hemoptise franca denota
extrema gravidade e pode ocorrer de forma súbita, levando
ao óbito por asfixia.
A “fase septicêmica” dura de 4 a 7 dias, após a qual o
paciente pode curar-se ou evoluir com recrudescimento da
febre e sintomas gerais, com ou sem agravamento.
1.2.2- Fase Imune- As manifestações clínicas
iniciam-se geralmente na segunda semana da
doença e desaparecem em 1 a 3 semanas. Nesta
fase, as manifestações neurológicas freqüentemente
apresentam um quadro de meningite:
-Cefalalgia, vômitos e sinais de irritação meníngea
-Pode ocorrer encefalite, paralisias focais, espasticidade,
convulsões, distúrbios visuais de origem central, neurite
periférica, paralisia de nervos cranianos, radiculite, síndrome
de Guillain Barré e mielite.
2-Forma ictérica – Doença de Weil
Em alguns pacientes a “fase septicêmica” evolui
como uma doença ictérica grave com disfunção
renal, fenômenos hemorrágicos, alterações
hemodinâmicas, cardíacas, pulmonares e de
consciência (doença de Weil). O curso bifásico é
raro e os sintomas e sinais que precedem a icterícia
são mais intensos, destacando-se:
-As mialgias, sobretudo nas panturrilhas.
-A icterícia, de tonalidade alaranjada (icterícia
rubínica) bastante intensa e característica, inicia
entre o 3º e 7º dia da doença.
-A disfunção hepática é associada a maior
incidência de complicações e a maior mortalidade,.
-Os fenômenos hemorrágicos são freqüentes,
podendo ocorrer na pele, nas mucosas ou nos
órgãos internos, sob a forma de petéquias,
equimoses e sangramento nos locais de
venopunção, e também em qualquer estrutura
orgânica, inclusive no sistema nervoso central.
As hemorragias gastrointestinais e pulmonares são
os principais mecanismos implicados com o óbito
dos pacientes.
A Doença no Animal
Existem três formas distintas de desenvolvimento
desta doença:
-Hemorrágica, que se inicia com febre alta, apatia e
total perda de apetite, observam-se pequenas
hemorragias, diarreia sanguinolenta e vómitos;
-Ictérica, que se inicia da mesma forma que a
hemorrágica, embora se possa observar também a
palidez das membranas mucosas;
-Falha Renal, que se caracteriza especialmente pelo
mau hálito e ulceração da língua. Esta forma pode
ser fatal ou tornar-se crónica.
Diagnóstico diferencial
Forma anictérica – “virose”, dengue, influenza,
hantavirose, arboviroses, apendicite aguda, sepse,
febre tifóide, pneumonias da comunidade, malária,
pielonefrite aguda, riquetsioses, toxoplasmose,
meningites e outras.
Forma ictérica – sepse com icterícia, hepatites virais
agudas, febre tifóide com icterícia, febre amarela,
malária grave (principalmente por P. falciparum),
riquetsioses, colangite, colecistite aguda,
coledocolitíase, síndrome hemolítico-urêmico grave
com icterícia, síndrome hepatorrenal, esteatose
aguda da gravidez e outras.
Medidas terapêuticas de suporte
Constituem aspectos da maior relevância no
atendimento de casos moderados e graves e devem
ser iniciadas precocemente na tentativa de evitar
complicações da doença, principalmente as renais:
reposição hidreletrolítica, assistência
cardiorrespiratória, transfusões de sangue e
derivados, nutrição enteral ou parenteral, proteção
gástrica, etc. O acompanhamento do volume
urinário e da função renal são fundamentais para se
indicar a instalação de diálise peritoneal precoce, o
que reduz o dano renal e a letalidade da doença.
Aspectos Epidemiológicos
-É uma doença endêmica, tornando-se epidêmica
em períodos chuvosos, principalmente nas capitais
e áreas metropolitanas, devido às enchentes
associadas à aglomeração populacional de baixa
renda em condições inadequadas de saneamento e
à alta infestação de roedores infectados.
-Certas profissões facilitam o contato com as
leptospiras, como trabalhadores em limpeza de
esgotos, garis, catadores de lixo, agricultores,
veterinários, tratadores de animais, magarefes,
militares e bombeiros, dentre outras. Porém, a maior
parte dos casos ocorre entre pessoas que habitam
ou trabalham em locais com más condições de
saneamento e expostos à urina de roedores.
Vigilância Epidemiológica
1-Definição de Caso
1.1- Suspeito
-pessoa com febre de início súbito, mialgias,
cefaléia, mal-estar e/ou prostração, associados a um
ou mais dos seguintes sinais e/ou sintomas:
náuseas, conjuntivite, e/ou vômitos, calafrios,
alterações do volume urinário, icterícia, fenômeno
hemorrágico e/ou alterações hepáticas, renais e
vasculares compatíveis com leptospirose ictérica
(síndrome de Weil) ou anictérica grave.
ou
Vigilância Epidemiológica
1.1- Suspeito
- sinais e sintomas de processo infeccioso
inespecífico com antecedentes epidemiológicos
sugestivos nos últimos 30 dias anteriores à data de
início dos primeiros sintomas.
São considerados como antecedentes
epidemiológicos sugestivos:
• exposição a enchentes, lama ou coleções hídricas
potencialmente contaminadas;
• exposição a esgoto e fossas;
• atividades que envolvam risco ocupacional, como
coleta de lixo, limpeza de córregos, trabalho em
água ou esgoto, manejo de animais e agricultura em
áreas alagadas, dentre outras;
• presença de animais infectados (roedores, cães,
bovinos, etc.) em locais freqüentados pelo paciente.
Proteção da população
-Orientar e adotar as medidas de prevenção da
doença, particularmente antes e durante o período
das grandes chuvas.
-Alertar a população para que realize as medidas de
desinfecção de domicílios após as enchentes e evite
entrar ou permanecer desnecessariamente em áreas
alagadas ou enlameadas sem a devida proteção
individual.
-Ações de educação em saúde deverão ser feitas no
sentido de repassar à população informações
relativas às formas de transmissão, reservatórios
animais envolvidos e situações de risco.
Proteção da população
-Descartar os alimentos que entraram em contato
com águas contaminadas, bem como verificar se o
tratamento da água de uso doméstico está
adequado.
-Medidas de desratização são indicadas,
principalmente em áreas endêmicas sujeitas a
inundações.