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Quintana: Poesia e Reflexões Poéticas

1) O documento apresenta poemas e reflexões de Mário Quintana sobre a poesia, o tempo e a vida. 2) Quintana descreve a poesia como rios, pássaros e naves que tocam o leitor de forma sutil e profunda. 3) Ele também reflete sobre envelhecimento, memória e a fuga do tempo, destacando que a vida é feita de deveres a serem cumpridos.

Enviado por

Niki Álves
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Quintana: Poesia e Reflexões Poéticas

1) O documento apresenta poemas e reflexões de Mário Quintana sobre a poesia, o tempo e a vida. 2) Quintana descreve a poesia como rios, pássaros e naves que tocam o leitor de forma sutil e profunda. 3) Ele também reflete sobre envelhecimento, memória e a fuga do tempo, destacando que a vida é feita de deveres a serem cumpridos.

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Esconderijo do tempo

Mário Quintana
“Jamais compreendereis a terrível simplicidade
das minhas palavras porque elas não
são palavras: são rios, pássaros, naves...”
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio
que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora
pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu
sempre achei que toda confissão não transfigurada
pela arte é indecente. Minha vida está nos meus
poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca
escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.
Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas,
fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade.
Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste
último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a
Eternidade.
Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem
que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso
que acho que nunca escrevi algo à minha altura.
Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-
superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem
que sou tímido. Nada disso! sou é caladão,
introspectivo. Não sei porque sujeitam os
introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser
chatos como os outros? Exatamente por execrar a
chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese.
Outro elemento da poesia é a busca da forma (não
da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra
para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de
farmácia durante cinco anos. Note-se que é o
mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de
Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem
sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as
palavras.
O Modernismo de Quintana
e o Neo-Simbolismo
"Mario Quintana é o mais simples dos poetas brasileiros do século XX,
e um dos mais difíceis. Dá a impressão de dizer as coisas mais
comuns, as coisas que todo o mundo imagina que é capaz de dizer. Só
que Quintana as diz como ninguém é capaz de dizê-las. Usa uma
música verbal e um ritmo tão fino que não se percebe. A sua poesia é
endovenosa. Quando o indivíduo nota, a poesia já entrou nele,
penetrando-lhe o coração e a mente. É poeta tão simples que sua
genialidade só é descoberta - como a luz das estrelas - muitos anos
depois de ter brilhado!" (Armindo Trevisan, poeta e ensaísta gaúcho).

Características:

• individualismo . nostalgia da infância


• pureza . simplicidade
• profundo humanismo . simplicidade
• finíssimo senso de humor . liberdade poética
• poesia epigramática . cromatismo
• musicalidade
• intimismo
A Obra – os Símbolos
• 50 poemas publicados em 1980. O livro
Esconderijos do Tempo é visto como o livro mais
maduro do poeta, pois aprofunda as iluminações
de Quintana sobre a memória, a velhice, a morte e
a própria poesia.
• Poemas breves e de versos livres ou em prosa
poética, havendo apenas um soneto. Quintana
praticamente se utiliza de todos os metros, das
redondilhas menores e maiores aos versos
longuíssimos.
• Temas: a valorização da imaginação, o sonho, a
fantasia, a humanidade, a existência, o carinho,
o aconchego, a pureza, o mundo infantil
(escapismo da realidade) e a própria poesia.
Poemas:
Os poemas
 
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

* Metapoesia, interação leitor X poema


• As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis


sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,


essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,


vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
 que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...
• Comentário:

1 – Quintana refere-se a uma experiência concreta, o


aspecto físico dos mãos de seu pai, as veias azuis e
grossas sobre um fundo de manchas cor de terra,
sugestão de velhice de desgaste do cotidiano.
2 – Agora o poeta chama atenção para a funcionalidade das
mãos, veículo de trabalho, amor e defesa.
3 – O entardecer é uma referencia ao cansaço, a
necessidade de repouso, de final de lida (pode muito
bem estar se referindo a existência).
4 – A solidão mencionada pelo poeta evidencia que mesmo
só seu pai luta pra permanecer vivo, uma luta árdua:
“acender gravetos contra o vento”
5 – Concluímos que as mãos do pai do eu lírico
milagrosamente consegue fazer arder, fulgir,
transcender a vida...
Vida

Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado, extintas


as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de
imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado


ou
uma nuvem perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


• Comentário:

1 – Quintana reanima a paisagem apreendida em sua


memória para buscar as marcas que o fizeram recordar,
com as árvores, as esquinas, elementos da paisagem
familiar e tão dele, coisas que eram parte da sua vida.
2 – O tempo revela-se desde o 4. verso, quando a retina do
poeta registra a imagem da árvore para retê-la pra
sempre, depois quando da sua morte ele destaca ao
pedirem documentos do outro lado da vida.
3 – Nos versos 6 e 7 a memória que resta ao poeta, como
documento, são as imagens dos elementos do mundo,
cada um pertencente a uma instancia da natureza:
Pedra, o reino mineral duradouro e resistente; o cavalo
representa o mundo animal, com um tempo devida
determinado, ainda que mais resistente que o homem; a
nuvem elemento fugaz de formação breve.
Se o poeta falar num gato

Se o poeta falar num gato, numa flor,


num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo
que morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!

* metapoesia, liberdade poética, mistério, reflexões


sobre o fazer poético.
SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em


casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ªfeira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente …
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das
horas.

* Carpe diem, novamente a transitoriedade do tempo


A Casa Grande

...mas eu queria ter nascido numa dessas casas de


meia-água.
com o telhado descendo logo após as fachadas
só de porta e janela
e que tinham, no século, o carinhoso apelido
de cachorros sentados.
Porém nasci em um solar de leões.
(... escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso...)
Não pude ser um menino da rua...
Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá
fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje
- mesmo depois que destruíram a casa grande -
até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...
O silêncio

Há um grande silêncio que está sempre à escuta...

E a gente se põe a dizer inquietantemente qualquer


coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não
chove hoje
até tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala,


fala
o silêncio escuta...
e cala.

Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio


da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor.
Este não quer saber de terceiros, n ão quer que
interpretem, que cantem, que dancem um poema. O
verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...
Surpresa

Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores.


Nada de flores mortas como estas inertes sempre vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados
malmequeres
Ou bravias como as pequenas rosas silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não tem anéis,


Sua virgem nudez não comporta o peso da jóia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,


Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!
Música da Morte
( Cruz e Sousa)

A música da Morte, a nebulosa,


Estranha, imensa musica sombria,
Passa a tremer pela minh’alma e fria
Gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,


Letes sinistro e torvo da agonia,
Recresce a lancinante sinfonia,
Sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,


Tremenda, absurda, imponderada e larga,
De pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,


Como um Ópio letal, vertiginando,
Os meus nervos, letárgica, fascina...
XXXXXXXXX

Quem disse que a poesia é apenas


agreste avena?
A poesia é a eterna Tomada da Bastilha
o eterno quebra-quebra
o enforcar de Judas, executivos e catedráticos em
todas as esquinas e, a um ruflar poderoso de asas,
entre cortinas
incendiadas, os Anjos do Senhor estuprando as mais belas
filhas
dos mortais...

Deles, nascem os poetas.


Não todos...Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Poe, um Cruz e Souza...
(Rege-os, misteriosamente, o décimo terceiro signo do

Zodíaco).

Esconderijo do tempo
Mário Quintana
“Jamais compreendereis a terrível simplicidade
das minhas palavras porque elas não
são pa
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio 
que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora 
pedem-me que fale sobr
Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem 
que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso 
que acho que nunca e
O Modernismo de Quintana
e o Neo-Simbolismo 
Características: 
• individualismo 
               . nostalgia da infância
•  pu
A Obra – os Símbolos
•
50 
poemas 
publicados 
em 
1980. 
O 
 
livro 
 
Esconderijos  do  Tempo é  visto  como  o  livro  mai
Poemas: 
Os poemas
  
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro,
•
As Mãos do Meu Pai
As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são be
• Comentário:
1 – Quintana refere-se a uma experiência concreta, o 
aspecto físico dos mãos de seu pai, as veias azuis e 
gro
Vida
 
Não sei 
o que querem de mim essas árvores 
essas velhas esquinas 
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.
• Comentário:
1 – Quintana reanima a paisagem apreendida em sua 
memória para buscar as marcas que o fizeram recordar, 
com a

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