C.E.
PROFª MARIA LUIZA
Anexo povoado Cassimiro
O HUMANISMO
Prof. José Arnaldo da Silva
Telefones: (98)3664-2231 ou (98) 99157-2274
e-mails:
[email protected] [email protected] O HOMEM EM BUSCA DA LIBERDADE
O homem volta-se para si mesmo readquirindo a consciência de que
é uma força criadora capaz de dominar o universo e transformá-lo.
Conscientiza-se que é necessário o saber, busca o conhecimento
junto da ação.
Monalisa
Leonardo da Vinci, 1503.
“O homem é
a medida de
todas as
coisas”
O Homem Vitruviano
(Leonardo Da Vinci - 1490)
O QUE É O HUMANISMO?
Concepção filosófica: o objetivo da existência humana é a plena
realização das capacidades do homem, o que equivale à sua felicidade;
para ser feliz, o ser humano depende apenas de si mesmo
(antropocentrismo).
Historicamente, o Humanismo
corresponde a uma fase de profundas
transformações sociais: o desenvolvimento do
comércio, o surgimento da burguesia e das
cidades, a aliança entre o rei e a burguesia HOMEM
(fermento das monarquias nacionais), o
aparecimento da imprensa, a divulgação da
cultura clássica e as Grandes Navegações.
O homem como centro e medida de todas as coisas – posição já
sustentada por Protágoras (séc. V, a.C.) e reforçada por Sócrates ao
considerar o homem como agente do conhecimento.
• Movimento intelectual: volta aos valores da Antiguidade Clássica.
• Movimento literário: iniciado na Itália com Dante Alighieri (1265-1321),
Francesco Petrarca (1304-1374) e Giovanni Bocaccio (1313-1375),
resgata os autores da Antigüidade greco-latina e fazem uma transição
entre a visão medieval (teocêntrica) e a visão renascentista
(antropocêntrica).
Cronologia:Início: 1434 – Fernão Lopes é nomeado cronista-mor do
Reino.
Término: 1527 – Francisco de Sá de Miranda inicia o Renascimento
em Portugal.
Leonardo da Vinci Petrarca Dante Alighieri Giovanni Bocaccio
MOMENTO HISTÓRICO DO HUMANISMO
Política, Economia, Sociedade e Vida Cultural
(Bifrontismo)
Idade Média x Renascimento;
Feudalismo x Capitalismo (Ascensão do
comércio e da burguesia);
Nobreza x Burguesia;
Cavalaria x Marinha;
Religião x Ciência (Crises internas da Igreja);
Espiritismo x Materialismo;
Teocentrismo x Antropocentrismo;
Invenção da imprensa; Página da Bíblia de
Gutenberg
Peste Negra.
As classes sociais no Humanismo
Trovadorismo Humanismo
Nobreza Nobreza
Clero Clero
Povo Burguesia
Povo
Observações:
Durante o Humanismo, surgiu uma nova classe social, a
burguesia, que era composta por comerciantes oriundos do
povo. Sua importância em fins do século XV foi tão grande
que o próprio Cristóvão Colombo só conseguiu as caravelas
para descobrir as Américas porque foi financiado pela
burguesia.
MOMENTO HISTÓRICO EM PORTUGAL
• Formação do Estado Nacional Português;
• Batalha de Aljubarrota contra os nobres galegos
e castelhanos;
• Substituição da dinastia de Borgonha (ligada à
Espanha) pela de Avis;
• Início das grandes navegações (Tomada de
Ceuta);
• Diferenciação entre o galego e o português;
• Mercenarismo oficial: patrocínio das ciências e
das artes.
D. João I, da
Dinastia de
Avis
MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS DO HUMANISMO
EM PORTUGAL
• Poesia palaciana (Cancioneiro Geral, de Garcia
de Resende);
• A prosa no período humanista;
• Teatro de Gil Vicente.
Poesia Palaciana
Foi chamada palaciana por ser feita por nobres e para a
nobreza, retratando usos e costumes da Corte. A
principal modificação apresentada por essa poesia é a
separação entre a musica e o texto, o que resultou em
um maior apuro formal: apresentava rítmo e melodia
próprios, obtidos a partir da métrica, da rima, das
sílabas tônicas e átonas. Desenvolveram-se as
redondilhas, tanto a maior (verso de sete sílabas
poéticas) quanto a menor (verso de cinco sílabas
poéticas).
Características da Poesia Palaciana
• Compilada no Cancioneiro Geral, por Garcia de Resende, 1516;
• Realizada na corte, destinava-se ao entretenimento da
nobreza;
• Poesia frívola, afetada e circunstancial;
• Poesia para ler (separada da música);
• O trovador é substituído pelo poeta.
• A espontaneidade das cantigas medievais é substituída pelo
uso dos versos redondilhos: 5 sílabas (redondilha menor) e 7
sílabas poéticas (redondilha maior).
• Composições de mote glosado: o poeta compõe o poema com
base em um mote (tema), sobre o qual desenvolve a sua glosa,
constituída de voltas (estrofes) que retomam o tema um ou
mais versos do mote.
• Tema principal: o lirismo amoroso.
• O amor na poesia palaciana: cortês, idealizado e sofrido (coyta)
como nas cantigas de amor; repleto de paradoxos e conflitos
espirituais (influência da poesia de Petrarca).
A métrica da poesia palaciana
Uma característica marcante na poesia palaciana é a
utilização de versos curtos de 5 sílabas e de 7 sílabas, chamados
versos redondilhas.
Exemplos:
Redondilha menor- 5 sílabas. Redondilha maior-7 sílabas
Ri/bei/ras/ do /mar,/ Se/ nho/ra,/ par/tem/ tão/ tris/tes
que/ tem/des/ mu/dan/ças, meus/ o/lhos / por /vós,/ meu /bem,/
as/ min/has/ lem/bran/ças que /nun/ca /tão/ tris/tes /vis/tes
dei/xai/-as/ pas/sar./ ou/tros /ne/nhuns /por /nin/guém/
Francisco de Sousa (Séc. XV) João Ruiz de Castelo Branco
Principais autores:
Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, João Ruiz de Castelo Branco, Luiz Vaz
de Camões.
Cantiga sua partindo-se
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
João Ruiz de Castelo Branco
- Cancioneiro Geral, III, p.
134.
Prosa do período humanista
Época de transição, o período humanista caracteriza-se pelo progressivo
abandono da mentalidade teocêntrica medieval, preparando o advento
do Renascimento. O desenvolvimento da prosa literária denuncia esse
movimento.
A historiografia de Fernão Lopes
•Fernão Lopes: nomeado por D. João I de Avis a Guarda-Mor da Torre do
Tombo (1418 – início do Humanismo em Portugal). Encarregado de
contar a história dos reis de Portugal;
•Autor de 3 crônicas:
– Crônica de El-Rei D. Pedro;
– Crônica de El-Rei D. Fernando;
– Crônica de El-Rei D. João.
Fernão Lopes
Observação:
Crônica: na Idade Média, era a narração dos feitos da nobreza.
Características das crônicas de Fernão Lopes
imparcialidade, pesquisa, investigação, espírito crítico;
visão de conjunto da sociedade portuguesa da época, ao invés de
exaltar a figura individual dos monarcas;
critica a corrupção e as intrigas palacianas;
nacionalismo;
linguagem sóbria, cuidada;
apresentação vibrante dos fatos, plasticidade
cinematográfica das descrições; 1.ª página da
Chronica del Rey D.
Pedro I
densidade dos retratos psicológicos dos vultos do passado;
escrita caudalosa (seguida de perto hoje por José Saramago);
Primeiro grande prosador da Língua Portuguesa.
Crônica de El-Rei D. Pedro (fragmento)
A Portugal foram trazidos Álvaro Gonçalves e Pero Coelho. Chegaram a Santarém
onde estava el-rei D. Pedro, e este com prazer de sua vinda, embora irritado porque Diego
Lopes fugira, saiu fora a recebê-los. E sa-nha cruel sem piedade lhes fez pela sua mão meter
a tormento, querendo que lhe confessassem quem e que participara na morte de D. Inês, e
que é que o seu pai tratava contra ele quando andavam desavindos por causa da morte
dela. Nenhum deles respondeu a tais perguntas cousa que agradasse a el-rei, e dizem que
ele ressentido deu um açoite no rosto a Pero Coelho. Este soltou-se então em desonestas e
feias palavras contra el-rei, chaman-do-lhe traidor, perjuro, algoz e carniceiro dos homens.
El-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola e vinagre para o coelho, enfadou-se deles e
mandou-os matar.
A maneira da morte deles dita pelo miúdo seria muito estranha e crua de contar,
porque a Pero Coelho mandou arrancar o coração pelo peito, e a Álvaro Gonçalves, pelas
espáduas. E tudo o que se passou seria cousa dolorosa de ouvir. Finalmente el-rei mandou-
os queimar. E tudo feito diante dos paços em que ele estava, de maneira que, enquanto
comia, olhava o que mandava fazer.
Muito perdeu el-rei de sua boa fama por tal troca como esta, a qual foi tida em
Portugal e em Castela por muito grande mal, dizendo todos os bons que a ouviam, que os
reis erraram muito, faltando à sua verdade, visto que estes cavaleiros estavam açoitados
em seus reinos com garantia.
(As Crônicas de Fernão Lopes, selecionadas e transpostas em português moderno.
Antônio José Saraiva, Lisboa, Gradiva, 3- edição, 1993, p. 52)
O teatro de Gil Vicente
• O teatro na Idade Média era dividido em encenações
litúrgicas (voltadas para a catequese) e profanas (realizadas
na corte ou nas grandes festas populares).
• O teatro litúrgico era chamado com o nome genérico de auto,
podendo apresentar a dramatização de passagens da Bíblia
(mistérios), da vida dos santos (milagres) ou a denúncia de
comportamentos pecaminosos (moralidades).
• O teatro profano era representado sobretudo pela farsa,
espécie de comédia repleta de personagens caricaturescas,
exageradas, envolvidas e situações ridículas e desastrosas.
Gil Vicente
Gil Vicente foi um poeta e
dramaturgo português. É
considerado, por muitos
estudiosos, como o pioneiro do
teatro português. Sua obra mais
conhecida é " A farsa de Inês
Pereira". Suas obras marcam a
fase histórica da passagem da
Idade Média para o
Renascimento (século XVI).
Gil Vicente
Sobre o teatro de Gil Vicente
Gil Vicente serviu-se dos dois principais gêneros teatrais de seu
tempo: o auto (litúrgico) e a farsa (profana, cômica).
•Dois tipos de peças:
– peças de ação fragmentária: sem ligação entre as cenas
(Auto da barca do inferno);
– peças de enredo: desenvolvem uma trama (Farsa de Inês
Pereira).
•Dois tipos de personagens:
– Personagens-tipo: representam toda uma classe social (o
Fidalgo, o Frade, o Juiz, o Cavaleiro,... do (Auto da barca do
inferno);
– Personagens alegóricas: personificam ideias ou instituições
(Todo-o-Mundo, Ninguém, do Auto da Lusitânia);
Características do teatro vicentino
• Suas peças revelam o bifrontismo humanista: fortes resíduos
medievais somados a antecipações renascentistas;
• Uma visão teocêntrica e conservadora da sociedade aliada a
uma aguçado espírito crítico, que não poupa os excessos do
clero da época;
• As críticas de seu teatro não se dirigem às instituições
(Monarquia, Nobreza, Igreja, Clero), mas contra os indivíduos
que as corrompiam;
• Convivência de figuras bíblicas com divindades mitológicas
greco-romanas;
• Toda a sociedade portuguesa do século XV encontra-se
retratada nas peças gilvicentinas: reis, bispos, mendigos,
beberrões, nobres orgulhosos, judeus, ciganos, mouros,
negros, soldados, comerciantes, artesãos, agiotas, camponesas
ingênuas, damas da corte, esposas infiéis,...
A linguagem gilvicentina
• Sincretismo: mistura a fala coloquial com a culta,
formas mais antigas com outras mais modernas
(escritor de transição);
• Textos com trechos em português, castelhano, latim
e no dialeto saiaguês (o “caipira” de Portugal);
• Falas das personagens em versos redondilhos,
agrupados em estrofes rimadas → Teatro poético.
Auto da Barca do Inferno
FIDALGO Esta barca onde vai ora, FIDALGO Que leixo na outra vida
que assi está apercebida? quem reze sempre por mi.
DIABO Vai pera a ilha perdida, DIABO Quem reze sempre por ti?!..
e há-de partir logo ess'ora. Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
FIDALGO Pera lá vai a senhora? E tu viveste a teu prazer,
DIABO Senhor, a vosso serviço. cuidando cá guarecer
FIDALGO Parece-me isso cortiço... por que rezam lá por ti?!...
DIABO Porque a vedes lá de fora. Embarca - ou embarcai...
FIDALGO Porém, a que terra passais? que haveis de ir à derradeira!
DIABO Pera o inferno, senhor. Mandai meter a cadeira,
FIDALGO Terra é bem sem-sabor. que assi passou vosso pai.
DIABO Quê?... E também cá zombais? FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
FIDALGO E passageiros achais DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
pera tal habitação? Segundo lá escolhestes,
DIABO Vejo-vos eu em feição assi cá vos contentai.
pera ir ao nosso cais... Pois que já a morte passastes,
FIDALGO Parece-te a ti assi!... haveis de passar o rio.
DIABO Em que esperas ter guarida? FIDALGO Não há aqui outro navio?
Farsa de Inês Pereira
LATÃO Cala-te! LATÃO Leixo, não quero falar
VIDAL Não queres que diga? VIDAL Buscámo-lo...
Não fui eu também contigo? LATÃO Demo foi logo!
Tu e eu não somos eu? Crede que o vosso rogo
Tu judeu e eu judeu, Vencerá o Tejo e o mar
Não somos massa dum trigo? Eu cuido que falo e calo...
LATÃO Leixa-me falar. Calo eu agora ou não?
VIDAL Já calo. Ou falo se vem à mão?
Senhora, fomos... agora falo, Não digas que não te falo.
Ou falas tu? INÊS Jesu! Guarde-me ora Deus!
LATÃO Dize, que dizias? Não falará um de vós?
Que foste, que fomos, que ias Já queria saber isso...
Buscá-lo, esgravatá-lo... MÃE Que siso, Inês, que siso
VIDAL Vós, amor, quereis marido Tens debaixo desses véus...
Mui discreto, e de viola? INÊS Diz o exemplo da velha:
LATÃO Esta moça não é tola, «O que não haveis de comer
Que quer casar per sentido... Leixai-o a outrem mexer».
VIDAL Judeu, queres-me leixar?
Auto da Lusitânia
CORTESÃO Vosso pai é cá senhora? LEDIÇA Minha mãe tem no seu cofre
LEDIÇA Que lhe quereis vós dizê? duas voltas de corais.
CORTESÃO Pregunto a vossa mercê. CORTESÃO Senhora sam cortesão
LEDIÇA Per i saiu ele fora e da linagem de Eneas
arrecadar nam sei quê. e por vossa inclinação
Quereis-lhe algũa coisa? folgara de ser de Abraão
Havei-lo mester senhor? sangue de minhas veas.
CORTESÃO Tem ele muito lavor? Mas vosso e nam de ninguém
LEDIÇA De ventura nam repoisa é tudo o que está comigo
nem sossega o pecador. e quero-vos grande bem.
CORTESÃO Vossa mãe é também LEDIÇA Bem vos queira Deos amém
fora? quereis oitra coisa amigo?
LEDIÇA Mas em cima está cosendo CORTESÃO Temo muito que me leixe
e eu ando isto fazendo. vosso amor pobre coitado
CORTESÃO Nam devia tal senhora de favor com que me queixe.
como vós d’andar LEDIÇA Lançai na sisa do peixe
varrendo e logo sões remediado.
senam infiar aljofre
CORTESÃO Nam falo senhora disso LEDIÇA Assi ũas primas minhas
porque eu me queimo e e toda esta vizinhança
arso todos tem amor comigo.
com dores de coração. Dom Izagaa Barabanel
LEDIÇA Muitas vezes tenho eu isso e rabi Abrão Çacuto
diz Mestr’Aires que é do baço e Donegal Coronel
e reina mais no Verão. e dona Luna de Cosiel
CORTESÃO Mas senhora por amar e todos me querem muito.
fiz minha sorte sojeita CORTESÃO Senhora por piedade
e perdi a mais andar. que entendais minha rezão
LEDIÇA Crede senhor que o jogar entendei minha verdade
poicas vezes aproveita. entendei minha vontade
Dom Donegal saborido e mudareis a tenção.
que tinha tanta fazenda Entendei bem minha dor
por jogar está perdido e mil maleitas quartãs
que nam tem o dolorido que por vós me hão de matar.
nem que compre nem que venda. LEDIÇA Assi é meu pai senhor
CORTESÃO Ó doce frol antre espinhas que tem dores d’almorrãs
crede o amor sem mudança que é coisa d’apiadar.
que vos tenho e que vos digo.
Imagens doTeatro de Gil Vicente
– Auto da Índia
Auto da Barca do Inferno
Auto da Lusitânia
O HOMEM MEDIEVAL
Ser inferior, Toda a sua
dependente vida é Tudo é obra
da vontade comandada de Deus
de Deus pela Igreja
TEOCENTRISMO
O HOMEM RENASCENTISTA
Criação divina: Interesse pela Tudo pode
Símbolo máximo cultura greco- conhecer e
da perfeição romana/valorização explicar
do homem
ANTROPOCENTRISMO