Textos Aula 03 10
Textos Aula 03 10
A centralidade/capitalidade econômica
de Salvador no século XVIII
1 Paul Alliès, L’invention du territoire. Grenoble, Presses Universitaires de Grenoble, 1980, p. 92.
2 Catarina Madeira Santos, Goa é a chave de toda a Índia. Perfil político da capital do Estado da Índia (1505-1570).
Lisboa: CNCDP, 1999, p. 23.
3 Anthony J. R. Russell-Wood, “Centros e periferias no mundo luso-brasileiro, 1500-1808”, Revista Brasilei-
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 101
8 Ver neste volume o estudo de Guida Marques sobre Salvador como cabeça do Estado do Brasil no século XVII.
9 Thomas Lindley, Narrativa de uma viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Brasiliana, 1969,
p. 160.
10 O “se” decorre do fato de, ao que parece, Salvador ter continuado a exercer o papel de metrópole colonial.
O Marquês de Lavradio, ao ser nomeado vice-rei do Estado do Brasil, em 1769, queixava-se de ter que ir da
Bahia, onde exercia, até então, o posto de governador-geral da capitania, para o Rio de Janeiro, a nova capital.
Em seus lamentos estava a alegação de que, para o governador do Rio de Janeiro, “passou só o título de vice-rei
[...]” “porque tudo o mais que é de honrosas e proveito ficou na Bahia [...]”. Luís de Almeida Soares Portugal La-
vradio. Cartas da Bahia (1768-1769). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional/Ministério de Justiça, 1972, p. 244-246.
Carta escrita a Joaquim Inácio da Cruz em 29 de julho de 1769.
11 Pinto de Aguiar (Ed.), Aspectos da economia colonial. Salvador: Progresso, 1957, p. 6; José Jobson de Andrade Ar-
ruda, O Brasil no comércio colonial. São Paulo: Ática, 1980, p. 191.
12 Anthony J. R. Russell-Wood, “A projeção da Bahia no Império Ultramarino português”. In: Anais do IV Congresso
de História da Bahia. Salvador: Instituto Histórico e Geográfico da Bahia; Fundação Gregório de Mattos, 2001.
13 Lindley, op. cit., p. 170-171.
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14 Luis dos Santos Vilhena, A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, 1969, p. 59.
15 Arquivo Histórico Ultramarino [AHU] - Conselho Ultramarino [CU], Bahia, Castro Almeida [CA], cx. 13, docs.
2320-2321; cx. 52, docs. 9724-9725 e 9730-9731; cx. 68, docs. 13.037-13059; cx. 68, docs. 13144-13146.
16 José Antônio Caldas, Notícia geral de toda esta capitania da Bahia desde o seu descobrimento até o presente ano de
1759. Salvador: Beneditina, 1951, p. 220.
17 AHU-CU, Bahia, CA, cx. 94, docs. 18296-18315 e cx. 105, docs. 20521-20526.
18 Anthony J. R. Russell-Wood, Um mundo em movimento: os portugueses na África, Ásia e América (1415-1808).
Lisboa: Difel, 1998, p. 194.
19 Pierre Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos (dos séculos
XVI a XIX). São Paulo: Corrupio, 1987, p. 24-25.
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Pyrard de Laval, as pessoas eram muito ávidas de ferro e de toda sorte de quinquilha-
rias –20 mais de doze embarcações, carregadas de fazendas, da Índia e da Europa, de
aguardente e de outros gêneros da terra. No retorno, traziam escravos e cera. Mui-
tos negociantes, em determinadas transações comerciais, costumavam fazer o registro
público da carga de suas embarcações, a exemplo de Manoel Álvares Pereira, que, em
1720, fez o registro de uma carga contendo 250 escravos; Pedro Mendes Monteiro, que,
em 1734, registrou 180 negros “vindos da Costa”; Manoel Rodrigues, João Batista Go-
mes, José Francisco da Cunha, Miguel Francisco, Domingos Álvares Viana, que decla-
raram mercadorias enviadas para Angola, Costa da Mina e Benin, entre 1667-1733.21 Em
um manuscrito anônimo, provavelmente de fins do século XVIII, seu autor, em capítu-
lo intitulado “Do comércio ativo e passivo daquela dita comarca e cidade do Salvador”,
fazendo alusão ao comércio Bahia/África, refere-se, inclusive, a uma entrecortada re-
lação comercial entre Salvador e Moçambique, registrando licenças reais, de 1750 a
1760, em 1764, 1773, 1774 e 1785, concedidas por solicitação de certos comerciantes que
venderam lá toda a sua carga e retornaram à Bahia com escravos, búzios e caril, sendo
que este último gênero teve pouca aceitação na Bahia.22
Ao longo de todo o século XVIII, inúmeras foram as referências, por parte de cro-
nistas e viajantes, acerca do dinamismo e da vultuosidade das atividades comerciais e
produtivas da capitania da Bahia e de sua capital.23 Ainda que a intenção desses indi-
víduos fosse registrar outros aspectos da vida da cidade, não lhes passava despercebi-
do o seu caráter de centro mercantil e nem a sua predominância em relação a outros
espaços urbanos.24 De fato, como assinala Amaral Lapa,25 a expansão colonial portu-
guesa teve, na cidade de Salvador, lugar estratégico, central. “O mercado de trocas, a
nível internacional, [dominava] de longe todas as atividades comerciais e financeiras
26 Katia M. de Queirós Mattoso, Bahia: a cidade de Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo: Hucitec; Salva-
dor: Secretaria Municipal de Cultura, 1978, p. 239-240.
27 Citado por Cristiana Ferreira Lyrio Ximenes, Bahia e Angola: redes comerciais e o tráfico de escravos (1750-1808).
Tese (Doutorado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2012, p. 64.
28 Luis Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000, p. 29.
29 Ana Paula de Albuquerque Silva. “A lavoura fumageira do Recôncavo da Bahia: uma tentativa de caracterização
(1773-1831).” Disponível em: <http://www2.ufrb.edu.br/reconcavos/index.php/quarto-seminario-estudantil-
-de-pesquisas-cahl>. Acesso em: 5 mar. 2015.
30 Mattoso, Bahia..., p. 26.
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31 André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, Brasília, INL, 1976, p. 140.
32 Sylvio C. Bandeira de Mello Silva et al., Urbanização e metropolização no Estado da Bahia: evolução e dinâmica.
Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989, p. 87-88.
33 Alexandre Vieira Ribeiro, A cidade de Salvador: estrutura econômica, comércio de escravos, grupo mercantil (c. 1750-
1800). Tese (Doutorado em História Social) – IFCS-UFRJ, Rio de Janeiro, 2009, p. 49-62.
34 Silva et al, op. cit., p. 87.
35 Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras,
1988, p. 91-93.
36 Ibid., p. 85.
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[...] costas e rios de Itaparica, Jaguaripe, Estiva, Aldeia, Nazaré, Jacoruna, Ca-
panema, Maragogipe, Cachoeira, Iguape, Saubara, Santo Amaro, São Fran-
cisco, Goiba, Paraguaí Mirim, Loreto, Madre de Deus, Santo Estevão, Passé,
Maré, Cotegipe, e outros em tal forma que seguramente se podem contar mais
de cem transportes por semana que de todos esses portos chegam aos cais da
Cidade de todos de Barra adentro com caixas de açúcar, rolos de tabaco, toda
qualidade de víveres, louça vermelha e vidrada, telha, tijolo, madeiras, piaça-
bas, e outros muitos gêneros da primeira necessidade e de comércio interior,
formando um todo de muitos centos de mil cruzados qua a cidade lhe retri-
bui em mercadorias de Portugal que vai fazer um segundo e terceiro comércio
41 AHU-CU, Bahia, CA, cx. 94, doc. 18305 - Relação dos navios e transportes que entraram e sahiram no porto da
Bahia no anno de 1797. Datada de 10 de maio de 1798. Apud Ximenes, op. cit., p. 79.
42 Silva et al., Urbanização..., p. 91.
43 Marcelo Henrique Dias, Economia, sociedade e paisagens da capitania de Ilhéus no período colonial. Tese (Douto-
rado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2007.
44 AHU-CA, Bahia, CA, cx. 94, doc. 18305 - Relação dos navios e transportes que entraram e sahiram no porto da
Bahia no anno de 1797. Datada 10 de maio de 1798. Apud Ximenes, A Bahia e Angola..., p. 79.
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capitania, onde ocupava os vales dos principais rios, sobretudo do São Francisco.45 A pe-
cuária, assim como a mineração, foi a responsável pela abertura e consolidação de vários
caminhos que ligavam os sertões ao litoral e às áreas mineradoras das Gerais.46 É através
do gado que Salvador se conecta com áreas descontínuas e distantes de sua hinterlândia,
na condição de principal consumidora da carne. Era da Câmara de Salvador que emana-
vam as mais importantes leis acerca da comercialização do produto, bem como o sistema
de tributação que lhe era devido.47
Distante cerca de cinco léguas da cidade de Salvador, ficava a Feira de Capuame,
onde eram comercializadas as inúmeras cabeças de gado que abasteciam a cidade e o
Recôncavo, como alimento e nos engenhos movidos a tração animal.48 Havia, ainda,
próximo a Salvador, a importante Feira de Mata de São João, em terras também per-
tencentes à Casa da Torre de Garcia D’Ávila.49 O gado percorria longo caminho e pas-
sava por vários registros antes de chegar ao matadouro da capital. Os superintenden-
tes destes registros se encarregavam de fazer a contagem e aplicar a devida tributação
sobre o comércio da mercadoria. A primeira de tantas outras que ainda incidiriam so-
bre o produto final. A cidade demandava grande quantidade de carne, que era vendida
nos vários açougues e talhos. A média anual de consumo, entre 1715 e 1750, era de 6 a 10
mil cabeças, número que, entre 1791 e 1811, elevou-se a mais de 18 mil cabeças e, mesmo
assim, a falta do produto nos açougues traduzia-se em uma das principais queixas da
população às autoridades locais.50
Em Salvador, o couro, “a partir da década de 1720, passou a representar um dos
principais gêneros de exportação na balança comercial baiana”.51 Os vários curtumes
espalhados pelo entorno da cidade tratavam, processavam e conservavam o couro que
seria enviado para a Europa e a ser utilizado para embalar os rolos de tabaco exporta-
dos. A quantidade de couro consumida para tal finalidade era de difícil mensuração,
mas o custo para embalar cada rolo ficava em torno de 1.300 réis.52
Na Bahia, a bovinocultura foi a principal responsável pela abertura e consolidação
de vários caminhos e estradas, ligando o litoral aos sertões. Entretanto, as atividades
auríferas e mineradoras também ocasionaram a abertura de estradas de conexões in-
ternas e externas à capitania. Com estes caminhos por terra, viu-se, por um lado, o in-
cremento das relações com as zonas pastoris e com Salvador, o que facilitou o ir e vir
da população e a circulação e comercialização de produtos. Por outro, as cabeceiras
do rio de Contas acabaram por tornar-se o principal ponto de bifurcação das vias de
comunicação para a capitania de Minas Gerais e, internamente, para Jacobina, Vale de
São Francisco e Salvador.53
Assim como a carne verde, o pescado constituía-se alimento de idêntica importância
para a dieta alimentar da população da cidade de Salvador, sendo parte da atividade pes-
queira da capitania direcionada a complementar a demanda da capital. Por conta disso,
das vilas do sul, como Porto Seguro e Ilhéus, chegavam semanalmente a Salvador mais
de vinte embarcações trazendo toda sorte de peixes, como garoupas e meros salgados.54
As áreas de mineração formavam territórios geográficos restritos, porém, eco-
nomicamente concentrados. Os dois únicos núcleos mineradores da Bahia, Jacobina e
Rio de Contas, situavam-se na encosta e na parte meridional da Chapada Diamantina,
respectivamente. As minas existentes nestas localidades produziram, de fins do sécu-
lo XVII a meados do XVIII, quantidade significativa de ouro. A existência, por volta
de 1725, de 700 bateias em Jacobina e 830 em Rio de Contas, e a criação, no ano subse-
quente, de duas Casas de Fundição nas referidas vilas, testemunham o peso econômico
das jazidas ali encontradas para as receitas metropolitanas, embora não tivessem parâ-
metro com a produção das Minas Gerais. A produção aurífera dessas localidades era
enviada para Salvador e, de lá, exportada para o reino. Das bateias de Jacobina e do Rio
das Contas, foram exportadas para o reino, entre 1729 e 1732, através da Casa da Moeda
da Bahia, cerca de 75 mil oitavas de ouro.
Das mais diversas atividades comerciais desenvolvidas em Salvador, a de maior peso
foi certamente o comércio de escravos, oriundo das relações comerciais externas com
o continente africano, ou seja, o tráfico transatlântico de escravos, e não apenas pelo
52 Thales de Azevedo, Povoamento da cidade de Salvador, Salvador, Itapuã, 1969, p. 158; AMS, Atas da Câmara,
1641-1749, fl. 115, 330.
53 Silva et al., Urbanização..., p. 90.
54 Documentos Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [DH]. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1928- ...,
v. 54, p. 71.
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montante de capitais envolvido, mas, ainda, pelo fato do seu produto, o escravo, ser in-
dispensável à organização econômica colonial: da economia de exportação à economia
interna. No final do século XVIII, quando a economia baiana estava bastante aquecida,
o comércio entre Salvador e a costa africana alcançou o montante de 720:000$000 (se-
tecentos e vinte contos de réis). Cerca de 92% desse total relacionava-se ao tráfico de
escravos.55 A reprodução de parte de uma tabela feita por Ribeiro56 nos dá uma noção do
volume de escravos desembarcados em Salvador no século XVIII:
Fontes: Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 1995, p. 283; Luís Viana Filho, O negro na Bahia: um ensaio clássico sobre a escravidão. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1988, p. 155 e 157; Maurício Goulart, Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico.
São Paulo: Alfa-Ômega, 1975, p. 215, 216 e 272; Pierre Verger, Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o Golfo do
Benin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987, p. 661-663; Patrick Manning, “The
slave trade in the Bight of Benin, 16401890”. In: Henry A. Geremy; Jan S. Hogendorn (Eds.), The uncommon market.
Essays in the economic history of the Atlantic slave trade. New York: Academic Press, 1979, p. 136-138; David Eltis, “The
Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade: A Reassessment.” In: The William and Mary Quarterly, v. 58, Is-
sue 1, 2001, p. 36; Corcino Medeiros dos Santos, “A Bahia no comércio português da Costa da Mina e a concordância
estrangeira”. In: Maria Beatriz Nizza da Silva (Org.), Brasil – colonização e escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2000, p. 236-237; Alexandre Ribeiro, O tráfico de escravos e a Praça mercantil de Salvador (c. 1680c. 1830). Dissertação
(Mestrado em História Social) – PPGHIS-UFRJ, Rio de Janeiro, 2005, anexo 2, p. 114-118.
57 Ibid., p. 69-72.
58 Sousa, A Bahia no século XVIII..., p. 139.
59 APEB. Câmaras do Interior. (1766-1799).
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66 Wanderley Pinho, História de um engenho no Recôncavo. São Paulo: Editora Nacional; Brasília: INL, 1982, p. 349;
Anna Amélia Vieira Nascimento, Letras de risco e carregações no comércio colonial da Bahia, 1660-1730, Salvador,
Centros de Estudos Baianos, 1997, p. 34; Corcino M. dos Santos, Relações comerciais do Rio de Janeiro com Lisboa
(1763-1808), Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980, p. 58; AHU-CU, Bahia, CA, cx. 105, docs. 20521-20526.
67 Nascimento, Letras de risco..., p. 39; Vilhena, A Bahia..., p. 57; AHU-CU, Bahia, CA, cx. 105, docs. 20521-20526;
BNRJ, II, 33, 29, 54.
68 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 80.
69 Vilhena, A Bahia..., p. 58; APEB. Livro de Notas, nº 39, fl. 210; nº 46, fl. 188; nº 57, fl. 290; DH, v.40, p.129; v. 42,
p. 223-224.
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São Francisco e seus afluentes –, para onde eram enviados gêneros alimentícios, teci-
dos, objetos e artigos de luxo, móveis de jacarandá, ferramentas e, sobretudo, escravos
e gado.70 Pela rota conhecida como “Caminho dos Currais do Sertão”, que, confor-
me alerta Santos,71 “não era uma rota apenas, mas como o próprio nome sugeria, era
um emaranhado de estradas, atalhos e picadas, que convergiam em direção ao rio São
Francisco, tanto na sua parte baiana, quanto na mineira”, transportavam-se tais merca-
dorias em um percurso “efetuado pelas margens do rio São Francisco até o entronca-
mento com o rio das Velhas, de onde se seguia para Sabará”.72 Da margem esquerda do
Rio das Velhas podia-se chegar ao Sertão do rio Pardo, na Bahia, através de um cami-
nho construído por João Gonçalves do Prado. A partir daí, pela margem direita do Rio
Paraguaçu, se chegava mais rápido a Cachoeira, no Recôncavo baiano.73
O Regimento das Minas, de 1702, proibira o comércio direto da Bahia com aquela
região mineradora, facultando-o apenas à comercialização de gado. Sem efetivo efei-
to, pois, de acordo com Zamela,74 “contraria as leis naturais que regem as trocas eco-
nômicas”, Salvador continuara a usufruir dos rendimentos do “duplo tráfico de gado e
ouro”, como afirma Katia Mattoso,75 por longo período, ao mesmo tempo em que man-
tinha a relação de poder econômico sobre outros núcleos urbanos coloniais.
Os caminhos que ligavam a Bahia às Gerais eram antigos, mas relativamente bem
estruturados para o comércio; não havia parte despovoada nem deserta: havia água
em abundância, mantimentos de toda espécie, gado muar para condução e casas para
hospedagem.76 Segundo Boxer, as proibições de comércio pelos caminhos dos sertões
baianos privavam os moradores das minas de mercadorias fundamentais, pois
[...] escravos, sal, farinha, ferramentas e outras coisas necessárias à vida, fica-
vam mais baratas se importadas da Bahia do que de São Paulo e Rio de Janei-
ro, não só por ser mais fácil a viagem pela estrada do rio [São Francisco] como
70 Mafalda P. Zamela, O abastecimento da capitania das Minas gerais no século XVIII. São Paulo: Hucitec, 1990,
p. 69-81.
71 Raphael Freitas Santos, Minas com Bahia: mercados e negócios em um circuito mercantil setecentista. Tese (Douto-
rado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2013, p. 64.
72 Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes. Mercadores das Minas setecentistas. São Paulo: Anablu-
me, 1999, p. 83.
73 Santos, Minas com Bahia..., p. 74.
74 Zamela, O abastecimento..., p. 71.
75 Mattoso, Bahia..., p. 110-111.
76 Santos, op. cit., p. 80-81. O autor refere-se aqui às informações de autor anônimo, em 1705.
116 avanete pereira sousa
77 Charles R. Boxer, A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1969, p. 67.
78 Manolo Florentino, Alexandre Vieira Ribeiro e Daniel Domingues da Silva, “Aspectos comparativos do tráfico
de africanos para o Brasil (séculos XVIII e XIX)”. Afro-Ásia, 31, 2004, p. 83.
79 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 76.
80 Santos, Minas com Bahia..., p. 107.
81 Florentino, Ribeiro e Silva, “Aspectos comparativos..., p. 90.
82 Ribeiro, A cidade de Salvador..., p. 51
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 117
Ainda segundo o autor, “a diminuição desse fluxo [...] estava atrelada à redução
da produção de minérios”. Entretanto, o desenvolvimento da economia interna minei-
ra continuou a demandar cativos.83 Assim, a Bahia passou, então, a exercer “um papel
complementar para o atendimento da demanda do interior do Brasil”, posto que:
parte dos cativos remetidos de Salvador para Minas Gerais acabavam nas vilas,
fazendas e veios de Goiás e Mato Grosso onde, entre fins do século XVIII e as
primeiras décadas do século XIX, os escravos provenientes da África Ociden-
tal eram maioria entre os africanos.84
83 Ibid., p. 52.
84 Florentino, Ribeiro e Silva, op. cit., p. 91.
85 Ibid., loc. cit.
86 Ibid., p. 91-92.
87 Schwartz, Segredos internos..., p. 78.
88 Vilhena, A Bahia..., p. 57; APEB. Livro de Notas, nº 39, fl. 210; nº 46, fl. 188; nº 57, fl. 290; DH, v. 40, p. 129; v. 42,
p. 223-224..
89 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 80-81.
118 avanete pereira sousa
90 Vilhena, A Bahia..., p. 58; DH, v. 87, p. 216-217. Sobre o comércio de carne seca no Ceará, cf.: Almir Leal Olivei-
ra “O comércio das carnes ecas do Ceará no século XVIII: as dinâmicas do mercado colonial” In: Moura, Denise
Aparecida Soares; Carvalho, Margarida Maria de; Lopes, Maria Aparecida (Org.). Consumo e abastecimento na
história. São Paulo: Alameda, 2011, p. 167-188.
91 Rogério Haesbaert, Territórios alternativos. São Paulo: Contexto, 2002.
92 Lahuerta, Geografias em movimento..., p. 131.
93 Esta foi a forma à qual Iara Lis Franco Schiavinatto, Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (1780-
1831). São Paulo: Unesp, 1999, p. 210, referiu-se à cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, perfeitamente apli-
cável à cidade de Salvador no século XVIII.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 119
Enfim, para o império português, Boxer aponta a diversidade das formas de arre-
cadação de receitas, conformando-se em tributações como:
[...] monopólios das especiarias asiáticas; impostos sobre escravos, açúcar e sal;
os quintos reais na produção do ouro; o monopólio da exploração das minas de
diamantes brasileiras; a cobrança de dízimos eclesiásticos em Minas Gerais; os
contratos de pesca da baleia na Baía e no Rio de Janeiro; o corte de madeiras com
substâncias corantes e das árvores utilizadas para a construção naval; a venda de
certos cargos, como, por exemplo, o posto de capitão de uma fortaleza e cargos
administrativos e legais de menor importância, como o de notário nos sertões
brasileiros. Mesmo coisas tão banais como travessias fluviais dos rios e as taxas,
pagas pelos lavradores de minério, trabalhadores dos fornos de cal e pescadores
eram frequentemente arrendadas pela Coroa ou pelos seus representantes [...].97
94 Sérgio Vasques “Origem e finalidade dos impostos especiais de consumo”, Revista fórum de Direito Tributário,
Belo Horizonte, ano 3, n. 17, set/out, 2005, p. 55.
95 Mauro de Albuquerque, Letrados, fidalgos e contratadores de tributos no Brasil colonial. Brasília: Coopermídia/
Unafisco/Sindifisco, 1993, p. 99.
96 Fernand Braudel, Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII: os jogos das trocas. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 1998, p. 489.
97 Charles R. Boxer, O império marítimo português, 1415-1825, Lisboa, Edições 70, s.d., p. 310-311.
120 avanete pereira sousa
100 Sousa, A Bahia..., p. 178. Aos comissários de embarcações e donos de armazéns, por exemplo, só era permitido
o uso de meia arroba de pesos em miúdo. Para comercializar qualquer produto que pesasse mais, teriam que
recorrer à Balança pública. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742.
101 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v
102 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v
103 Schwartz, Segredos internos..., p.146-169.
104 Ibid.
105 Vera Lúcia Amaral Ferlini, Terra, trabalho e poder: o mundo dos engenhos no nordeste colonial. São Paulo: Brasilien-
se, 1988, p. 87.
106 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v.
122 avanete pereira sousa
dizer, de boa parte do império, reside no fato desta conformação econômico-fiscal re-
sultar em avultadas receitas para os cofres municipais e, consequentemente, fazer dela
um espaço central, mercado de convergências econômicas diversas.
Em linhas gerais, eram essas as características e dinâmica da política econômico-
-fiscal da cidade de Salvador, no século XVIII, que lhe conferiam primazia frente a
outras vilas e cidades, colocando-a em posição central no interior do império. Esta po-
sição estava pautada em uma hierarquia urbana assimétrica, marcada pelas diferenças
que naturalmente definem o centro e suas periferias. Salvador era o principal nó de
uma rede urbana que ia além da outra margem da Baía de Todos os Santos. Era o centro
de lugares dispersos, de múltiplas territorialidades, de um sistema fluvial e marítimo
que articulava zonas produtivas e de consumo, hinterlândias mercantis totalmente de-
pendentes da sua condição de capitalidade.
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Diz-se, e tem-se escrito muitas vezes, que Salvador nasceu capital, lembrando que
Tomé de Sousa tinha por missão de erguer “uma cidade que fosse como coração no
meio do corpo, donde todas [as capitanias] se socorressem e fossem governadas”.3 Na
verdade, o regimento do primeiro governador determinava que fossem construídas
“uma fortaleza e uma povoação grande e forte, em local conveniente, para a partir dali
ajudar os outros povoamentos e administrar justiça”.4 A metáfora do “coração”, usa-
da por Frei Vicente do Salvador, já no princípio do século XVII, vinha assim realçar a
especificidade jurídica e administrativa da cidade de Salvador, enquanto sede das ins-
tituições régias. E a sua criação, conjuntamente com o governo-geral, conferia-lhe, de
1 Este estudo foi realizado no âmbito de um projeto de investigação individual de pós-doutoramento, financia-
do pela FCT [SFRH/BPD/64610/2009]. Integra igualmente o projeto coletivo Bahia 16-19 [Marie Curie Actions
PIRSES-GA-2012-318988].
2 N. do E. Definiu-se pela preservação das normas textuais e bibliográficas adotadas no país de origem do texto.
3 A citação é de Frei Vicente do Salvador, História do Brasil [1627]. 7ª ed. São Paulo: Itatiaia, 1982, p. 143.
4 Regimento Tomé de Sousa, 17.12.1548. In: Marcos Carneiro de Mendonça, Raízes da formação administrativa
do Brasil. Rio de Janeiro: IHGB, 1972, v. 1, p. 35-51.
18 guida marques
5 Pedro Puntoni, “‘Como coração no meio do corpo’: Salvador, capital do Estado do Brasil”. In: Laura de Mello
e Souza, Júnia Furtado e Fernanda Bicalho (Org.), O Governo dos Povos. São Paulo: Alameda Editorial, 2009,
p. 371-387.
6 Augustin Redondo (Dir.), Le corps comme métaphore dans l’Espagne des XVIe et XVIIe siècles. Paris: Publications de
la Sorbonne/Presses de la Sorbonne Nouvelle, 1992; Gianluca Briguglia, “Langages politiques, modèles et mé-
taphores corporelles. Propositions historiographiques”. L’Atelier du Centre de Recherches Historiques. Disponível
em: <http://acrh.revues.org/318>. Acesso em: 15 de jan. 2008.
7 Puntoni, op. cit., p. 380.
8 Catarina Madeira Santos, “Goa é a chave de toda a Índia”. Perfil político da capital do Estado da Índia (1505-1570).
Lisboa: CNCDP, 1999, p. 34.
9 Michel Foucault, Sécurité, Territoire, Population. Cours au Collège de France. 1977-1978. Paris: Hautes Etudes/
Gallimard/Seuil, 2004, p. 15-16.
10 Guida Marques, “De um governo ultramarino. A institucionalização da América Portuguesa no tempo da união
das coroas (1580-1640)”. In: Pedro Cardim, Leonor Freire Costa e Mafalda Soares da Cunha (Org.), Portugal na
Monarquia Hispânica. Dinâmicas de integração e conflito. Lisboa: CHAM, 2013, p. 231-252.
11 Importa observar que a palavra “capital” não aparece na documentação portuguesa dos séculos XVI e XVII.
Por “Bahia”, refiro aqui a própria cidade de Salvador, sendo designada pelos contemporâneos por “cidade da
Bahia”.
“por ser cabeça do estado do brasil” 19
12 Stuart B. Schwartz, Segredos Internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras,
1999.
13 Roger Chartier, “Le monde comme représentation”. Annales ESC, 44, 6, p. 1505-1520, 1989; Louis Marin, De la
Représentation. Paris: Hautes Etudes/Gallimard/Seuil, 1994 ; Sandra Jatahy Pesavento, “Muito além do espaço:
por uma história cultural do urbano”. Estudos Históricos. Rio de Janeiro. v. 8, n. 16, p. 219-231, 1995.
14 Conforme ao quadro de reflexão proposto por Hansen, para abordar as representações luso-brasileiras do sé-
culo XVII, entende-se por representação: “1. O uso particular, em situação, de signos no lugar de outra coisa; 2.
A aparência ou a presença da coisa ausente produzida na substituição; 3. A forma retórico-poética da presença
da ausência; 4.A posição hierárquica encenada na forma como tensão e conflitos de representações”. Cf. João
Adolfo Hansen, “Barroco, neobarroco e outras ruínas”. Floema Especial-Ano II, n .2, p. 15-84, 2006.
15 Stuart B. Schwartz, “Cities of empire: Mexico and Bahia in the sixteenth century”, Journal of Inter-American Stu-
dies, v. 11, op. 4, p. 616-637, 1969.
20 guida marques
enquanto sede das instituições régias.16 A criação dum Bispado, em 1551, também fez
dela o centro da administração religiosa da América Portuguesa.17 Se parecia mais uma
aldeia, no final do século, contudo, Salvador surge essencialmente como uma cidade
régia.18 Descrevendo a Bahia em 1583, Fernão Cardim declarava que “a Bahia é cidade
del-rei e a corte do Brasil, nela residem os senhores bispo, governador, ouvidor geral
com outros oficiais de justiça de sua majestade”.19 Por seu turno, Gabriel Soares de
Sousa pretendia mostrar, no seu memorial de 1587, “o muito que ha que dizer da Bahia
de Todos os Santos, cabeça do Estado do Brasil”.20 Desde então, e cada vez mais ao lon-
go do século XVII, a cidade de São Salvador vem sendo referida como “cabeça de todo
o Estado”.21
Os eventos da Bahia, quando da tomada da cidade pelos Holandeses, em 1624,
contribuíram muito para difundir tal designação.22 A sua recuperação vitoriosa, no
ano seguinte, pelas forças luso-castelhanas suscitou, com efeito, uma produção escrita
considerável, levando conjuntamente à projeção imperial da cidade da Bahia, enquan-
to cenário principal dos eventos, e à afirmação do seu estatuto político, como “cabe-
ça de Estado do Brasil”.23 Abundantemente descrita, os superlativos não faltaram para
descrevê-la. A cidade da Bahia surge, em todas essas relações, como a “parte la mejor
mas util y de mayor importancia de todas”; o “principal lugar de todo o Estado do Brasil”,
16 Determinada pelo rei no regimento atribuído ao governador Tomé de Sousa, em 1548, a fundação de Salvador
foi orientada localmente por Luís Dias, “mestre das obras da fortaleza e cidade do Salvador”, com base nas tra-
ças levadas de Lisboa. Cf. Nestor Goulart Reis Filho, Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil (1500-
1720). São Paulo: Pioneira, 1968; Rafael Moreira, “O arquitecto Miguel de Arruda e o Primeiro Projecto para
Salvador”. Cadernos de Pesquisa do Lap, 37, p. 35-50, 2003.
17 Bruno Feitler e Evergton Sales Souza (Org.), A Igreja no Brasil. Normas e práticas durante a vigência das Constitui-
ções Primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: FAP-UNIFESP, 2011. No que diz respeito à dimensão religiosa
da cidade da Bahia, remetemos para o estudo de Evergton Sales Souza e Bruno Feitler neste volume.
18 Theodoro Sampaio, História da fundação da cidade do Salvador. Bahia: Tipografia Beneditina, 1949.
19 Fernão Cardim, Tratado da terra e gente do Brasil [1583]. São Paulo: Edusp, 1980. Anchieta não realça tanto essa
distinção na sua Informação do Brasil de 1584, lembrando somente que “a Baía e Rio de Janeiro são del-Rei e
cidades e todas as mais capitanias são de senhorios e vilas”. José de Anchieta, Informação do Brasil e de suas
capitanias [1584]. In: id., Cartas, Fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
20 Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000, p. 258.
21 Simão de Vasconcelos, Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil [1663]. Lisboa: CNCDP, 2001, p. 61.
22 Charles R. Boxer, The Dutch in Brazil. Oxford: Clarendon Press, 1957; Stuart B. Schwartz, “The Voyage of the
Vassals. Royal power, noble obligations and merchant capital before Portuguese restoration of independence
(1624-1640)”. American Historical Review, 96, 3, p. 735-762, 1991.
23 Guida Marques, “As ressonâncias da restauração da Bahia (1625) e a inserção da América Portuguesa a União
ibérica”. In: Santiago Martínez Hernández (Dir.), Governo, Política e Representações do Poder no Portugal Habsbur-
go e nos seus Territórios Ultramarinos (1581-1640). Lisboa: CHAM, 2011, p. 121-146.
“por ser cabeça do estado do brasil” 21
24 O que vem, aliás, refletido nas plantas da cidade da Bahia do século XVII. Cf. Marin, “La ville dans sa carte et son
portrait. Propositions de recherche”. In: Id., De la représentation..., p. 204-218.
25 Carta do Padre Domingos Coelho de 24.10.1624. In: Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio
de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1945, v. V, p. 35-48. Este mesmo paralelo é desenvolvido, anos mais tar-
de, por António Vieira no seu Sermão de Santo António proferido em 1638.
26 Santos, ‘Goa é a chave de toda a Índia’...
27 Na representação teológico-política da América Portuguesa oferecida então por Vieira, a cidade da Bahia de-
sempenha uma função fulcral, sendo claramente distinta do resto do Brasil. Comentando o ataque holandês
contra a Bahia em 1638, Vieira declarava que “o animo com que vinha o inimigo era de que a Baía se lhe entre-
gasse [...] e por consequência se lhe rendesse o resto do Brasil”, reiterando a mesma consideração no Sermão
da Visitação de Nossa Senhora Santa Isabel no mesmo ano. No Sermão de Santo António, igualmente de 1638,
Vieira evocava o “inimigo, assim como tem dominado em grande parte os membros deste vastíssimo Estado,
assim se atreveu a vir combater e quis conquistar a cabeça”. Cf. Guida Marques, “António Vieira, de Salvador
da Bahia à São Luis do Maranhão. Les représentations de l’Amérique portugaise et les tensions de l’empire au
XVIIe siècle”. In: Pierre-Antoine Fabre, Ilda Mendes dos Santos, Carlos Zeron (coord.), António Vieira (1608-
1697). Perspectives de la recherche actuelle. Paris: Champion (no prelo).
28 Guida Marques, L’invention du Brésil entre deux monarchies. Gouvernement et pratiques politiques de l’Amérique
portugaise dans l’union ibérique (1580-1640). Tese (Doutorado em História) – EHESS, Paris, 2009.
29 Fátima Gouvêa, “Poder político e administração na formação do complexo atlântico português (1645-1808)”.
In: João Fragoso, Fátima Gouvêa, Fernanda Bicalho (Org.), O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial por-
tuguesa (séc. XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 285-315; Marques, “De um governo ultra-
marino...”, p. 231-252.
22 guida marques
30 Stuart B. Schwartz, Burocracia e sociedade no Brasil colonial. A suprema Corte da Bahia e seus Juízes (1609-1751).
São Paulo: Editora Perspectiva, 1979; Pedro Puntoni, “Bernardo Vieira Ravasco, secretário do Estado do Brasil:
poder e elites na Bahia do século XVII”. In: Vera Ferlini; Fernanda Bicalho (Org.), Modos de Governar: idéias e prá-
ticas políticas no império português, séculos XVI a XIX. São Paulo: Alameda, 2005, p. 34-65.
31 Os conflitos entre a câmara de Salvador e a Relação nomeadamente, mas também com o próprio governador-
-geral são recorrentes ao longo do século. AHU-CU, Bahia, Luiza da Fonseca [LF], cx. 15, doc. 1749; cx. 10, doc.
1126-1127. Cf. Schwartz, Burocracia e sociedade..., p. 210 ss.
32 Affonso Ruy, História da Câmara Municipal da Cidade do Salvador. Salvador: Câmara Municipal de Salvador,
1953; Puntoni, “‘Como coração no meio do corpo’...”, p. 371-387; Avanete Pereira Sousa, A Bahia no século
XVIII. Poder político local e atividades económicas. São Paulo: Alameda, 2012.
33 Documentos Históricos do Arquivo Municipal: Atas da Câmara [AC]. Salvador, Prefeitura Municipal, 1951, v.
6, p. 254: termo de rezulução e asento que se tomou com os eleitos nomeados no termo atras para elege-
rem o meio em que se an de por os 10 mil cruzados que pede smgde para a nova colonia, 24.07.1694. Cf.
Guida Marques, “O Estado do Brasil na União ibérica: dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de
Portugal”, Penélope, 27, 2002, p. 7-36; Wolfgang Lenk, Guerra e pacto colonial: a Bahia contra o Brasil holandês,
1624-1654. São Paulo: Alameda, 2013.
34 Documentos Históricos [DH], Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, v. III, p. 183: Carta do governador-geral a câ-
mara de Salvador referindo o papel “que contem as clausulas com que esse tribunal toma a sua conta o susten-
to ordinario da infantaria desta praça”, 1652.
“por ser cabeça do estado do brasil” 23
35 O papel desempenhado pela câmara da Bahia na repartição da contribuição para o dote da Rainha da Inglaterra
e a paz de Holanda deve ser sublinhado. Cf. Leticia dos Santos Ferreira, “É Pedido, não Tributo”. O donativo para
o casamento de Catarina de Bragança e a paz de Holanda (Portugal e Brasil, c. 1660-c. 1725). Tese (Doutorado em
História) – PPGH/UFF, Niterói, 2014. Sendo assim, as funções particulares de administração e de fiscalidade
desempenhadas por Salvador aproximam esta cidade das principais cidades europeias. Cf. Emmanuel Le Roy
Ladurie (Dir.), La ville des temps modernes de la Renaissance aux Révolutions. Paris: Seuil, 1998.
36 Charles R. Boxer, Portuguese society in the Tropics. The Municipal councils of Goa, Macao, Bahia and Luanda, 1510-
1800. Madison: The University of Wisconsin Press, 1965.
37 Tal foi o caso da notícia da deposição do governador de Angola, Tristão da Cunha, que é conhecida em Lisboa
a partir da Bahia. Arquivo Histórico Ultramarino [AHU], Conselho Ultramarino [CU], Angola, cx. 9, doc. 95.
38 António Vieira, Cartas do Brasil. Organização: João Adolfo Hansen. São Paulo: Hedra, 2003.
39 AC, v. 2, p. 12, onde se alude ao registro das provisões régias anteriores a 1625.
40 Documentos Históricos do Arquivo Municipal: Cartas do Senado [CS]. Salvador, Prefeitura Municipal, 1951, v. 1,
p. 12, treslado da carta que os oficiais da câmara desta cidade da Bahia mandarão as capitanias do sul.
41 AC, v. 2 [1641-1649], p. 204: treslado e registro de huma portaria do senhor governador sobre as festas do se-
renissimo infante Dom Afonso coando nasceo, 1643.
24 guida marques
morte do rei D. João IV;42 das festas que se fizeram para a rainha de Grã Bretanha, pela
vitória alcançada junto de Estremoz, ou ainda pela paz de Holanda.43
No entanto, a relação da cidade da Bahia, enquanto “cabeça”, com o mesmo Es-
tado do Brasil revela-se ambígua. Praça mercantil, a cidade da Bahia afirma-se, du-
rante o século XVII, como metrópole comercial, desempenhando rapidamen-
te um papel essencial na exportação de açúcar, fumo e algodão, bem como no rea-
bastecimento de géneros alimentícios, na redistribuição de produtos, e no forne-
cimento de mão de obra escrava.44 Apesar da sua importância económica, a sua
dominação sobre o Estado do Brasil não parece tão evidente. É certo que o poder
da Bahia sobre o Recôncavo se fortalece durante o século XVII.45 Visando garan-
tir nomeadamente o abastecimento da cidade, mas também das frotas que desem-
barcavam na Bahia, a câmara de Salvador exerce sua influência política sobre o in-
terior, estendendo, por vezes abusivamente, a sua jurisdição sobre as vilas da re-
gião. Assim, o chamado conchavo da farinha, estabelecido com as principais vilas
do Recôncavo, não deixa de ser uma fonte de tensão e de relações conflituosas.46
No entanto, a situação é bem diferente no que diz respeito às outras capitanias, as mais
importantes sendo as do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Se a presença do tribunal da
Relação na cidade da Bahia garante-lhe uma função central na coordenação e comuni-
cação com a Coroa, a preeminência política da cidade permanece confusa.47 De certa
maneira, a relação da Bahia com o Estado do Brasil acaba por refletir as dificuldades do
próprio governador-geral para impor-se frente aos governadores das capitanias mais
importantes. Basta aqui lembrar os reiterados conflitos de jurisdição referentes aos
poderes do governador-geral sobre Pernambuco e Rio de Janeiro, tantas vezes con-
testados ao longo do século.48 Mais profundamente, importa ter em conta a relação
dialógica mantida por cada cidade da América Portuguesa com a Coroa, contrariando
a hierarquização do território.49 A ambiguidade do estatuto da Bahia aparece final-
mente no que diz respeito aos chamados “procuradores do Estado do Brasil”. Quando,
em 1653, os moradores do Brasil pediram para ter representação nas Cortes, D. João IV
concedeu à câmara da Bahia, por ser “metrópole do Brasil”, que pudesse nomear duas
pessoas para participar nas Cortes.50 No entanto, a documentação revela uma cons-
tante oscilação na expressão usada para designar o procurador da Bahia, representan-
do quer o conjunto do Estado do Brasil quer somente a cidade de Salvador.51
Esta confusão sugere afinal uma distinção política precisando ser constantemen-
te reatualizada, levando a cidade da Bahia e, nomeadamente, a câmara de Salvador, a
explorar não só a sua relação particular com a Coroa, por ser cidade del-rei e sede das
instituições régias, mas também a sua dimensão atlântica e imperial.
49 Marques, “O Estado do Brasil na União ibérica...”, p. 7-36; Annick Lempérière, Entre Dieu et le Roi, la République.
Mexico, XVIe-XIXe siècles. Paris: Les Belles Lettres, 2004.
50 AHU-CU, Bahia, LF , cx. 12, doc. 1527. Da mesma maneira, os pedidos desses procuradores incidiam sobre in-
teresses muito locais ou, pelo contrário, diziam respeito ao conjunto da América Portuguesa.
51 Para um estudo pormenorizado da ação dos procuradores da Bahia em Lisboa, reenviamos para a contribuição
de Pedro Cardim e Thiago Krause neste volume.
52 Boxer, Portuguese society in the Tropics...
53 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 10, doc. 1176-1177.
54 Fernanda Bicalho, “As câmaras ultramarinas e o governo do Império”. In: Fragoso, Gouvêa, Bicalho (Org.), O
Antigo Regime nos Trópicos..., p. 189-221; Fernanda Bicalho, João Fragoso e Fátima Gouvêa, “Uma leitura do Bra-
sil colonial”, Penélope, 23, p. 67-88, 2000.
26 guida marques
em defender estes privilégios e procurar outros tantos junto à Coroa revela não só a
importância do quadro imperial, como também o papel dos discursos e das imagens
produzidas para construir esta cidade enquanto “cabeça”.55
Na verdade, a presença do governador-geral na cidade da Bahia não deixa de fa-
vorecer tais interações, contribuindo, por seu turno, para afirmar e realçar o estatuto
de “cabeça” da cidade de Salvador. É precisamente o que faz o vice-rei, marquês de
Montalvão, ao dirigir-se aos oficiais da câmara de Salvador, em 1640, lembrando-lhes
os deveres da Bahia enquanto “cabeça de Estado”. Ele declarava assim que
esta tam entendida a importancia deste estado [...] e da defesa desta praça de
que depende tudo o que hoje nelle se conserve [...] e assim vossas mercês pelo
que devem ao lugar em que Deos os poz para acodirem ao remedio desta repu-
blica de que são cabeças [...]56
porquanto convem ao serviço de sua Magestade que a camera desta cidade tenha
entendido as obrigações da cidade de Lisboa quando se tratam de prevenções de
guerra para que ordene esta camara que a sua imitação se faça o mesmo nesta ci-
dade ha de se advertir que a camara de Lisboa tem a seu cargo o reparo dos muros
o concerto das portas delles cujas chaves nas ocasiões de guerra se entregam aos
cidadoes que a camera nomeia [...] e porque he razão que nesta cidade se uze o
mesmo que em Lisboa pois as ocasioens aqui sam mais certas e a guerra viva en-
tendendo a camara que lhe corem estas obrigações e reparo do muro [...]58
Interiorizando esse papel, a câmara de Salvador projetava-se, por seu turno, como
um dos principais lugares em que assentava o poder político da Coroa na cidade. E
afirmava-se, enquanto “cabeça de Estado”, ao reivindicar o seu papel de conselho jun-
to ao governador-geral e, portanto, ao próprio monarca. Informações e propostas
de reforma, emanando da câmara de Salvador, são profusas durante todo o século, e
59 Entre os temas mais recorrentes encontra-se a questão da reforma dos terços da infantaria da Bahia. AHU-CU,
Bahia, LF, cx. 15, docs. 1736 e 1780; cx. 16, doc. 1903.
60 DH, v. 3, p. 180.
61 DH, v. 88, p. 153: Consulta conselho ultramarino, 12.12.1678.
62 AC, v. 2, p. 247 e 289-290; CS, v. 2, p. 91.
63 Ibid., v. 5, p. 143.
64 Ibid., v. 6, p. 312.
65 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 13, doc. 1554; cx. 14, docs. 1654 e 1690; cx. 17, doc. 1947.
66 João Adolfo Hansen, A Sátira e o Engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Ateliê Edito-
rial, 2004.
67 CS, v. 1, p. 12: treslado da carta que os oficiaes da camara desta cidade da Bahia mandarão as capitanias do sul,
12.02.1641.
28 guida marques
com a Coroa, lembrando “que por cabeça deste Estado deve ser mais honrada”.68 Este seu
estatuto é, aliás, a razão invocada por Sebastião da Rocha Pitta para justificar a reins-
talação de um tribunal da Relação na Bahia, em 1652, lembrando que “atendendo o Se-
nhor rey D. João IV a tantos inconvenientes e a que a Cabeça de hum Estado tão vas-
to não devia estar sem este tão grande como preciso tribunal, o restituihio a Bahia”.69
O “ser cabeça” justificava igualmente os pedidos da câmara de Salvador referente à
criação de novos ofícios tocantes à sua jurisdição, devido ao crescimento das funções
administrativas assumidas pela cidade da Bahia, nomeadamente na segunda metade do
século XVII.70 Tal representação da cidade legitimava finalmente os pedidos de privi-
légios da câmara da Bahia para os seus cidadãos. Assim, quando, em 1658, requeria ao
rei “queira fazer merce a este Estado e principalmente a esta cidade cabeça deste Es-
tado conceder-lhe privilegio real para que seia Universidade”.71 Sem sucesso, porém.72
Ou quando solicitava licença do rei para a instalação dum mosteiro de freiras na cida-
de.73 Justificado “para crédito de nossa pátria e maior honra de Deos”, demorou várias
décadas antes de ser atendido favoravelmente pela Coroa.74 Não por acaso, a sua con-
cessão acaba por intervir na esteira da contribuição para o dote da Rainha de Inglater-
ra.75 Importa observar, de facto, a relativa relutância da Coroa na concessão de alguns
dos privilégios requeridos pela câmara da Bahia, e as demoradas negociações a que
deram lugar.76 É ainda preciso ter em conta a pressão acrescida da Coroa sobre a Amé-
rica Portuguesa nesse mesmo período, solicitando cada vez mais o seu apoio financeiro.
A afirmação do estatuto de “cabeça de Estado” integrava, assim, as estratégias de legiti-
mação da cidade da Bahia e dos pedidos da câmara, justificados quer pelos seus serviços
valiosos à Coroa, quer, por fim, pelo respeito da hierarquia e dos privilégios inerentes
à cultura política de Antigo Regime.77 Afirmando o seu estatuto privilegiado frente às
exigências sempre maiores da Coroa portuguesa, a câmara de Salvador empenhava-se
em reverter a obediência dos fiéis vassalos da Bahia em benefício da cidade.
Assim, ao procurar estes privilégios, a câmara de Salvador não deixa de tecer uma
relação estreita entre a cidade enquanto “cabeça” de Estado e os seus próprios oficiais.
Estes podiam alegar que a Bahia é “autorizada com uma relação que tem regimento da casa
da suplicação e um arcebispo metropolitano de todo o estado” e concluir que os vereadores
deviam estar à altura de tanta importância.78 A dignidade da cidade contribuía, dessa
maneira, para a dignidade dos próprios oficiais da câmara de Salvador.79 E o interesse
da gente da governança da Bahia na construção e reprodução dessa mesma relação, in-
vestindo na representação da cidade tanto como “cabeça do Estado do Brasil”, quanto
como parte valiosa do império, revela o seu esforço para defender a sua distinção, e
obter o seu reconhecimento junto à Coroa.80 Assim, para além de reivindicar-se como
cidade régia, a cidade da Bahia “capitaliza” claramente a sua dimensão imperial.
Se voltarmos brevemente os olhos para Goa, veremos como “a representação da
cidade complexifica-se à medida que se constitui como centro do Estado da Índia e se
cria consciência desse mesmo papel. Ao lado dos símbolos camarários, reclama-se a in-
tegração de atributos ligados ao domínio político, institucional, militar e eclesiástico do
império, dilatando, assim, a identidade da cidade”.81 Tal processo encontra-se igualmen-
te em movimento na Bahia da segunda metade do século XVII. Essa projeção imperial
da cidade da Bahia aparece na emulação com a cidade de Goa, revelando não só a pre-
tensão da Bahia enquanto “cabeça do Estado do Brasil”, como também a importância re-
vestida pela representação política no âmbito do império. Tal emulação surge nomeada-
76 O papel dos procuradores da Bahia em Lisboa não deixa de ser muitas vezes determinante, como no caso do
mosteiro de freiras solicitado pela câmara da Bahia. Cf. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 17, doc. 1940 e cx. 23, doc. 2689.
77 Hansen, “Barroco, neobarroco e outras ruínas...”, p. 67.
78 Cartas do Senado, v. 4, p. 76-77.
79 Legitimando por exemplo o pedido dos oficiais referente às propinas que pretendiam. CS, v. 2, p. 11.
80 A interdependência da “cabeça do Estado do Brasil” com a Coroa portuguesa desdobra-se assim na relação es-
treita entre esta construção do laço politico com o rei e a hierarquização da sociedade local, legitimando por
fim a dominação da gente da governança da Bahia.
81 Santos, Goa é a chave de toda a Índia..., p. 280 ss. No caso de Goa, fica ressaltado o recurso a tópicos que eram
usados para descrever a cidade de Lisboa, isto com o intuito de distingui-la relativamente às demais.
30 guida marques
mente na questão do lugar dos procuradores da Bahia nas Cortes. Ela vem desenvolvida
numa carta do Senado para D. Pedro II sobre o lugar pretendido no primeiro banco de
Cortes. Referindo as cortes passadas de 1668, os oficiais da câmara lembram que
[...] se deu assento a esta cidade da Bahia no segundo banco e nos achamos obri-
gados a pedir a Vossa Alteza seja servido fazer-lhe mercê de que tenha seu lugar
no primeiro e nos mais actos que se celebrarem pois concorrem nella todas as
razoens de merecimento para esta honra que podem pedirse e não serem maio-
res as da cidade de Goa a quem se concedeo porque este estado do Brazil he da
grandeza e importância ao serviço de vossa alteza e esta cidade cabeça delle e
lealdade tão nascida de seu amor [...] demais de todas estas razoens e que so per-
sistem todo o merecimento ha a de Vossa Alteza se immortular Principe do Bra-
zil que parece obriga Vossa Alteza a que o honre com maior lugar que a que pe-
dimos e mais tendo esta cidade do Porto que nas cortes tem o primeiro banco.82
82 CS, v. 1, p. 118.
83 CS, v. 1, p. 119.
84 CS, v. 1, p. 113.
85 CS, v. 2, p. 53-54; AC, v. 5, p. 238.
86 CS, v. 2, p. 52.
87 François Froger, Relation d’un voyage fait en 1695, 1696 et 1697 aux côtes d’Afrique, détroit de Magellan, Brésil,
Cayenne et isles Antilles, par une escadre des vaisseaux du roy commandée par M. de Gennes par le sieur Froger. Pa-
ris: M. Brunet, 1698, p. 135. Trata-se, com certeza, de uma moeda cunhada em 1695. Cf. Pedro Puntoni, “O mal
do Estado brasilico: a Bahia na crise final do século XVII”. In: id., O Estado do Brasil. Poder e política na Bahia colo-
nial (1548-1700). Tese (Livre-Docência em História do Brasil colonial) – FFLCH-USP, São Paulo: 2010.
“por ser cabeça do estado do brasil” 31
seu turno, a essa mesma emulação imperial. Encontramos, assim, argumentos seme-
lhantes, alguns anos antes, na “petição dos procuradores gerais deste reino da câmara
da cidade de Goa” para obter um melhor lugar nas Cortes, referindo, por sua parte, o
exemplo de Angra.88 O que nos deixa entrever as interações existentes no seio do es-
paço imperial português.
É, aliás, nessa mesma perspetiva que se pode encarar a escolha, por parte da câ-
mara de Salvador, do Apóstolo das Índias, S. Francisco Xavier, como novo padroeiro
da cidade.89 Em 1686, na esteira do mal da “bicha” que assolava então a região, a câ-
mara de Salvador invocou esse Santo para aliviar a cidade da epidemia. Na verdade,
outros santos foram então igualmente chamados para intercessores. Pouco resultou.
Mas a câmara decidiu eleger S. Francisco Xavier por protetor da cidade da Bahia. Em
troca da sua intercessão, “foi feito assento de o tomar por nosso protector por toda
a vida, de fazer-lhe em todos os anos huma festa aos 10 de maio com missa cantada
e sermão”, na igreja do colégio dos Jesuítas, além de uma “prociçam pella cidade á
custa do conselho”.90 Seguiu uma petição ao rei nesse sentido.91 E cumpridas todas as
exigências da cúria romana, o Apóstolo do Oriente tornou-se definitivamente o pa-
droeiro de Salvador, em 1689.92 Evergton Sales Souza sublinhou a falta de referência
88 AHU-CU, Consultas da Índia, cód. 211, fl. 94v. A câmara de Goa argumentava assim “como em rezão daquela
cidade ser metropoly da India e os moradores della tão benemeritos do serviço desta coroa nas ocasiões que
se offerecerão de poderem mostrar seu zelo e lialdade seria muito justo e devido que seus procuradores nas
cortes que Vmgde celebrassem tivessem voto e o assento que se lhes devia e porque não o tendo de antes a
cidade de Angra cabeça das ilhas dos Açores dandosse por sua parte petição foi Vmgde servido nas cortes de
15.09.1642 de admetir nella seus procuradores. Com muitos fundamentos devem ser admetidos os da câmara
de Goa por sere a principal e corte de hum estado tão dilatado opulente e nobre por cujo meyo esta coroa se
fez poderosa e devulgou sua fama pelo universo fazendo glorioso o nome portuguez em toda a parte com os
famosos feitos que no Oriente obrarão em serviço de Deus e dos senhores Reis antecessores de Vmgde. Pe-
dem que em consideração do referido e dos grandes e particulares merecimentos da cidade de Goa e ao exem-
plo do que em semelhante pertenção se consedeo a cidade de Angra seia Vmgde servido que tenhão voto e
mandar lhes signalar lugar no primeiro banco das cortes para que se sentem [...]”.
89 Evergton Sales Souza, “S. Francisco Xavier, padroeiro de Salvador: génese de uma devoção impopular”. Brote-
ria, 163, p. 653-669, 2006.
90 Arquivo Municipal de Salvador, Cartas de Eclesiásticos: Registo da carta que o senado escreveo ao P. Reytor do
colégio desta cidade sobre o melhor modo e forma que se avia de tomar na eleição de ser S. Francisco Xavier
Protector desta cidade, 10.05.1686, citado por Sales Souza, op. cit.
91 CS, v. 3, p. 25-26.
92 Essa escolha imposta pela câmara parece ter suscitado no entanto alguma dúvida, sendo requerido, em 1689,
novo voto. “Requeria a ditos oficiaes mandasse vir nesta casa da câmara e nobreza e povo e sendo convoca-
dos e juntos votasen en votos secretos se convinha reteficar o voto que os oficiaes da camara nobreza e povo
fizerão publicamento nas igrejas do colegio no anno de 686 os ditos ofiiciaes rezolverão que logo se fizesse”.
Cf. AC, v. 6, p. 123.
32 guida marques
93 AC, v. 6, p. 125. Cf. Evergton Sales Souza, “Entre vênias e velas: disputa politica e construção da memoria do
padroeiro de Salvador (1686-1760)”, Revista de História, 162, 131-150, 2010.
94 Além de ter expandido o império português e cristão, no reinado de D. João III, por meio da conversão das al-
mas no Oriente, S. Francisco Xavier teria igualmente patrocinado a Restauração portuguesa em 1640. Cf. João
Francisco Marques, A parenética portuguesa e a Restauração. Porto: Centro de História da Universidade; Lisboa:
INIC, 1989, 2 v.; Luís Filipe Silvério Lima, O império dos sonhos. Narrativas proféticas, sebastianismo e messianismo
brigantino. São Paulo: Alameda, 2010.
95 Luis Filipe Silvério Lima, Padre Vieira: sonhos proféticos, profecias oníricas. O tempo do Quinto império nos sermões
de Xavier Dormindo. Tese (Mestrado em História Social) – FFLCH-USP, São Paulo, 2000. Lima refere assim vá-
rias edições (em 1645, 1664 e 1686) do sermão pregado por Ribeiro, em 1644, em torno de um sonho profé-
tico de Xavier.
96 Sendo o principal lugar de formação das elites da Bahia. Cf. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Bra-
sil, v. V, capitulo IV. Faltam estudos específicos sobre esta convivência local. No entanto, sabemos, por exem-
plo, que a Quinta do Tanque dos Jesuitas servia de lugar de reunião para os letrados da Bahia. Cf. Marcello Mo-
reira, Critica Textualis in Caelum Revocata: Prolegômenos para uma edição critica do corpus poético colonial seiscen-
tista e setecentista atribuido a Gregório de Matos e Guerra. Tese (Doutorado), FFLCH-USP, São Paulo, 2001.
97 Inés Zupanov, “‘A História do Futuro’. Profecias jesuítas móveis de Nápoles para a Índia e para o Brasil (século
XVII)”. Cultura. Revista de Historia e Teoria das Ideias, v. 24, IIª Série, p. 119-154, 2007.
98 Importa observar semelhante uso imperial do Apóstolo do Oriente na própria cidade de Goa, por ocasião da
procissão comemorativa do centenário do nascimento de S. Francisco Xavier em 1624. Cf. Santos, Goa é a cha-
ve de toda a Índia..., p. 285.
“por ser cabeça do estado do brasil” 33
chamados bárbaros, e dos abusos contra as missões presentes no sertão, nos quais fi-
caram claramente envolvidos os homens bons da Bahia.99
A projeção imperial investida pela câmara da Bahia, numa estratégia de enalteci-
mento da cidade, prolonga-se, por fim, no âmbito da escrita da história promovida por
ela na segunda metade do século XVII. Em 1655, os procuradores do Estado do Brasil
requeriam da Coroa a concessão da instituição de um cronista oficial para a América
Portuguesa.100 Foi assim nomeado, em 1661, Diogo Gomes Carneiro, “encarregado de
escrever a história do Brasil com 200 000 reis de ordenado a pedido dos procuradores
daquele estado”.101 Pouco resultou então. E será preciso esperar ainda algumas décadas
para vir à luz a primeira história da América Portuguesa, escrita por Sebastião da Ro-
cha Pitta, natural da Bahia.102 No entanto, temos aqui, bem antes dos exercícios literá-
rios praticados pelas Academias dos Esquecidos e dos Renascidos, uma clara aposta,
por parte da câmara de Salvador, na vocação imperial da cidade da Bahia.103
Finalmente, as representações da cidade promovidas pela câmara andam profun-
damente ligadas aos processos de identificação da gente da governança da Bahia e à
sua própria busca de distinção. A representação do laço político privilegiado da cidade
com a Coroa visava à afirmação de sua dimensão imperial, reforçando ao mesmo tem-
po a sua dominação local.104 Condição, por fim, da sua benevolência com os pedidos
cada vez maiores da Coroa.105
99 Cf. Pedro Puntoni, A guerra dos Bárbaros. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720.
São Paulo: Hucitec, 2002; Cristina Pompa, Religião como tradução. Missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial.
São Paulo: EDUSC, 2003; Márcio Roberto Alves dos Santos, Fronteiras do sertão baiano: 1640-1750. Tese (Dou-
torado), FFLCH-USP, São Paulo, 2010.
100 Virgínia Rau (ed.), Os Manuscritos da Casa de Cadaval respeitantes ao Brasil, v.1, Coimbra: Imprensa da Universi-
dade, 1956, p. 169.
101 Ele devia ser pago pelas câmaras da Bahia e Pernambuco, o que foi causa de queixa do mesmo Diogo Gomes
Carneiro junto ao rei desde 1663. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 20, doc. 2316. AC, v. 5, p. 112.
102 Importa observar o lugar importante que ocupa a cidade da Bahia na História da America Portugueza de Rocha
Pitta, onde ficou, aliás, consagrado o seu estatuto de “cabeça do Estado do Brasil”.
103 No século XVIII, tal investimento aparece claramente na atividade das Academias e, mais particularmente, na
sua invocação da tópica da Translatio imperii, dando lugar a várias disputas poéticas entre as cidades de Goa e
de Bahia, desdobrando, de facto, essa mesma emulação imperial de que falamos. Cf. Iris Kantor, “As academias
brasílicas e a transmissão da cultura letrada: os Esquecidos e os Renascidos (1729-1759)”. In: Ronaldo Vainfas;
Rodrigo Bentes Monteiro (Org.), Império de Várias faces. São Paulo: Alameda, 2009, p. 273-286.
104 Esta relação das “elites” da Bahia com a Coroa não deixa de lembrar o modelo do império romano. Cf. Gary
B. Miles, “Roman and modern imperialism: A reassessment”. Comparative Studies in Society and History, 32-4,
p. 629-59, 1990; Frederick Cooper; Jane Burbank, Empires. Paris: Fayard, 2011.
105 Importa observar aqui que a América Portuguesa foi até 1640 pouco “carregada” pela Coroa, e os impostos no
açucar moderados. A mudança desta relação é por mais evidente na segunda metade do século XVII.
34 guida marques
dos vinhos para obras de urbanismo, pedindo ao rei “seja servido se nos concedam
para este efeito e outras obras publicas desta cidade de Vossa Magestade que por ca-
beça deste estado deve ser mais honrada alem de outros particulares deste tribunal”.114
Várias medidas foram tomadas, visando o alinhamento das casas, arruação e calçadas,
assim como a serventia pública. Aliás, é nesse período que aparece na documentação
da câmara o ofício de engenheiro e medidor desta cidade,115 igualmente referido como en-
genheiro e mestre das obras deste senado,116 ou ainda medidor e arruador do conselho.117 Muitas
ruas novas foram então construídas,118 sendo estas logo calçadas.119 Este empreendi-
mento obrigou por vezes a câmara a comprar casas de particulares para poder con-
tinuar com as obras.120 Confrontada com o crescimento da população e o desenvol-
vimento da cidade, a câmara teve que cuidar mais particularmente do abastecimento
em água, preocupando-se nomeadamente com a falta de fontes.121 Foram assim cons-
truídas novas fontes em vários sítios da cidade, na segunda metade do século XVII.122
Outra preocupação, ligada ao aumento da população e à salubridade da cidade, dizia
respeito à criação, em Salvador, de “almotacés de limpeza”, que deviam igualmente
cuidar da qualidade do abastecimento da cidade em carne.123 A câmara invocou na oca-
sião o modelo das cidades europeias, e nomeadamente de Lisboa.124 Pois,
pelas câmaras no urbanismo, cf. Claudia Damasceno Fonseca, “Do Arraial à cidade: a trajectória de Mariana no
contexto do urbanismo colonial português”. In: Universo Urbanístico português, 1415-1822. Colectânea de estudos.
Lisboa: CNCDP, 1998, p. 269-301.
114 CS, v. 1, p. 54; AHU-CU, Bahia, LF, cx. 14, doc. 1699; cx. 16, doc. 1759 e cx. 18, doc. 2075.
115 AC, v. 5, p. 253.
116 Ibid., v. 5, p. 261.
117 Ibid., v. 6, p. 33.
118 Ibid., v. 6, p. 240.
119 Ibid., v. 6, p. 188, 193 e 301.
120 Ibid., v. 6, p. 33 e 227.
121 Ibid., v. 5, p. 79.
122 Ibid., v. 5, p. 78, 93 e 376.
123 Ibid., v. 5, p. 78 e 93. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2524.
124 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2537. No seu Livro das grandezas de Lisboa (1620), Nicolau de Oliveira se refere
à nova divisão da cidade em seis bairros, cada um a cargo dum almotacé da limpeza.
36 guida marques
modo na praia desta cidade hu do corpo da guarda della the Santa Theresa, e
outro the o forte de São Francisco.125
por ter entre mãos as obras da Santa Sé desta cidade e as obras do convento das
religiosas de Santa Clara e outrosi as obras das religiosas de Santa Theresa e do
convento do Patriarca São bento que todas hua e outras se fazem com esmolas,
o qual tambem sustenta quatro mosteiros de religiosos capuchos nesta cidade
e seu termo.127
1682, onde se lembrava “que la ville capitale n’est pas seulement en possession de l’utile mais
aussi de l’honnête non seulement des richesses: mais aussi du rang et de la gloire”.132 Tem-se su-
blinhado a coincidência entre a crise económica que conheceu a Bahia durante esses
anos e o esforço urbanístico desempenhado pela cidade, evocando-se um processo de
compensação simbólica.133 Na verdade, a situação afigura-se mais complexa, envolven-
do processos distintos. As fortificações, as igrejas, os palácios pautam os mapas da
cidade da Bahia como as suas descrições, representando, por seu turno, um discurso
sobre a cidade. A arquitetura urbana vinha assim totalizar e hierarquizar a topografia,
um espaço político e uma dinâmica económica, sugerindo ainda a circularidade da re-
presentação com a norma.134
E é da mesma maneira que a Bahia de Seiscentos representava-se a si própria.
A importância do conceito de representação para o século XVII, o papel da cultura
visual e da espacialização da hierarquia nas sociedades ibéricas de Antigo Regime
são temas hoje bem conhecidos. 135 Assim, na América Portuguesa, como já foi am-
plamente demonstrado, a festa não é só um conjunto de imagens, mas uma relação
social entre participantes mediadas por imagens. 136 Procissões e entradas estabele-
cem uma legibilidade própria da cidade e a disposição espaço-temporal significa e
redistribui os valores da hierarquia, representando e ordenando hierarquicamente
no seu seio os grupos sociais. Operavam, segundo os termos de João Hansen, como
encenação teológico-política, reiterando de maneira espetacular a hierarquia assim
visível, natural, necessária, reafirmando por esse meio que as instituições existentes
não são só legais mas sobretudo legítimas, enquanto expressão visível da lei natural
da graça. 137 No fundo, as representações da câmara da Bahia prolongam e desdobram
esta ostentação das festas e procissões, espacializando a hierarquia de Antigo Regi-
me, e, sendo saturadas pela gente da governança, não dizem mais do que esta norma.
132 Alexandre Le Maître, La Métropolitée, ou De l’établissement des villes Capitales, de leur Utilité passive; active, de
l’Union de leurs parties; de leur anatomie, de leur commerce, etc. Amsterdam: B. Boekholt, 1682, chap. IV, p. 11-12.
133 Goulart Filho, “Notas sobre o urbanismo...”, p. 495.
134 Marin, “La ville dans sa carte et son portrait...” p. 204-218.
135 Fernando Bouza, Portugal no tempo dos Filipes. Política, Cultura, Representações (1580-1668). Lisboa: Cosmos,
2000; Id., Palabra e imagen en la Corte. Cultural oral y visual de la nobleza en el Siglo de Oro. Madrid: Abada, 2003;
Hansen, “A categoria “representação” nas festas coloniais dos séculos XVII e XVIII”. In: István Jancsó e Iris Kan-
tor (Org.), Festa. Cultura e sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec, 2001, v. 2, p. 735-755.
136 Jancsó; Kantor (Org.), op. cit.
137 Hansen, A Sátira e o Engenho... Entradas e procissões que não deixavam, no entanto, de ser também o lugar de
conflitos. Cf. igualmente Schwartz, “Ceremonies of Public Authority...”, p. 177-205.
38 guida marques
Sendo assim, o “ser cabeça do Estado do Brasil” mal permite outras representações
da cidade, deixando no escuro o movimento opaco da cidade habitada.138
Os discursos e as imagens da cidade, emanadas da câmara de Salvador, impõem,
pelo contrário, não-representações que merecem, no entanto, ser aqui desvendadas,
por serem, de facto, também determinadas e de algum modo estruturantes. Assim,
não podemos deixar de lembrar, por fim, que a cidade da Bahia contava então com
portugueses, índios da terra e negros da Guiné.139 E o importante crescimento da po-
pulação na segunda metade do século XVII, referido várias vezes pela câmara, incluía
uma forte proporção de escravos africanos.140 Na verdade, a população urbana é pou-
co evocada nos papéis da câmara, aparecendo de maneira genérica sob o vocábulo de
“povo”, cuja murmuração é temida.141 “Povo”, no entanto, que não parece incluir nem
os Índios nem os Africanos. Sabemos, porém, que a população estava organizada por
confrarias e corporações, que participavam devidamente nas procissões organizadas
pela câmara.142 Que já estavam igualmente constituídas irmandades negras.143 O fluxo
de escravos chegando a Salvador, a sua função de redistribuição, sem dúvida reforçou
a centralidade económica da cidade, contribuindo para fazer dela uma metrópole co-
mercial pujante ou, como se dizia então, um empório universal.144 Mas essa escravidão
não só alimentou os engenhos do Recôncavo como também moldou a própria cidade
e a sua morfologia. Como lembrava a própria câmara, “esta cidade hera muito popu-
losa e o serviço della se fazia todo por escravos”.145 Escravos domésticos, ou ainda em-
pregados nos trabalhos de fortificação e de urbanismo da cidade. Assim, projetando a
construção de novas fontes, a câmara obrigou “pera isso os donos da terra em primeiro
lugar e das ortas que por ali ha a que dem escravos pera o trabalho e também ao povo
os que forem mais necessários”.146 E, como bem observou François Froger, “comme la
138 Michel de Certeau, L’invention du quotidien. 1. arts de faire. Paris: Gallimard, 1990, p. 139 ss.
139 Theodoro Sampaio, História da fundação da cidade do Salvador. Bahia: Tipografia Beneditina, 1949.
140 Pierre Verger, Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo:
Corrupio, 1987.
141 Hansen, op. cit.
142 AC, v. 5, p. 114.
143 Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, a devoção ao Rosario pelos negros na Sé Catedral surgiu em data an-
terior a 1604. A irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho encontra-se formalmente instituída no ano
de 1685. Cf. Lucilene Reginaldo, Os Rosários dos Angolas: irmandades negras, experiências escravas e identidades
africanas na Bahia setecentista, São Paulo: Alameda, 2011, assim como o seu estudo apresentado neste mesmo
volume.
144 Schwartz, Segredos internos... Ver também o texto de Avanete Pereira Sousa, no presente volume.
145 AC, v. 5, p. 78.
146 Ibid., loc. cit.
“por ser cabeça do estado do brasil” 39
ville est haute et basse et que par conséquent les voitures y sont impraticables, les esclaves y font
la fonction de chevaux et transportent d’un lieu à un autre les marchandises les plus lourdes ; c’est
aussi pour cette même raison que l’usage du palanquin est fort ordinaire”.147 Enquanto as capi-
tais europeias eram caracterizadas por um presença importante de domésticos, a pró-
pria cidade da Bahia, e não somente o Recôncavo, bem podia clamar a sua dependência
em relação aos escravos.148
Perante o papel inegável da escravidão na construção da cidade de Salvador, e a
presença maciça de escravos índios e negros dentro dos seus muros, a sua ausência da
cidade representada, como da ordem de Antigo Regime, não deixa de ser significativa.
De facto, eles eram indignos de representação. E é interessante lembrar aqui o que ob-
servou João Hansen no seu estudo dos poemas atribuídos a Gregório de Matos e Guer-
ra, ou seja, a baixa frequência nesse corpus de sátiras contra negros e índios, e, “quando
descritos ou narrados, a sátira os faz vistos e ditos como aquilo que é indigno de ver e
de dizer”.149 Da mesma maneira, é somente como fonte de desordem que aparecem re-
feridos nas Atas da câmara de Salvador, não como sujeitos políticos ou vassalos del-rei,
mas meramente como corpos, quase sempre perigosos. A preocupação com a ordem
pública justifica assim várias providências contra os escravos armados e/ou bêbedos.150
A câmara da Bahia tentou igualmente proibir o vinho de mel, “a respeito do damno pú-
blico que se padecia com as vendas do dito vinho de mel, a cujas casas acodião de ordinario de
noite e de dia os escravos com os furtos que fazião a seos senhores e nelas se matavão
ou com brigas ou com peçonha”.151 Poucos anos depois, discutia-se ainda a extinção das
tabernas em que se vendiam aguardente e vinho de mel, por virem a elas os negros do
mocambo contratar e levar de dentro da cidade muitos escravos.152 A nominação do
“capitão do campo”, ofício tocante à jurisdição da câmara de Salvador, que era encarre-
gado da caça aos escravos fugidos em redor da cidade, vem finalmente lembrar que a ci-
dade da Bahia é também fronteira, permanecendo conjuntamente símbolo de imperium
e instrumento de colonização.153 No fundo, se índios e africanos permanecem como in-
mandados logo fora “em nossa Senhora da Vitória extramuros da cidade”, oferece outra
representação da própria cidade de Salvador, enquanto símbolo de imperium.159 Afinal, o
investimento imperial da Bahia implicava algures algum bárbaro. A guerra empreendida
contra o gentio não deixou, assim, de contribuir para a construção dos “nobres brasi-
lienses” invocados por Juan Lopes Sierra, e a quem se dirigia, de facto, este panegírico160.
Nesta narração, a conquista do sertão baiano torna-se um rito de colonização, reatuali-
zando a relação desses “nobilissimos brasilienses” com o seu rei, e reivindicando a cidade
da Bahia como fragmento de império.161
A esta imagem dos índios vencidos pela cidade conquistadora devemos acrescen-
tar a celebração, pela cidade da Bahia, da conquista de Palmares, em 1694.162 Era pois o
felice sucesso das nossas armas vencedores contra os negros dos Palmares o
qual se avia destruido com mortes e prezioneiros [...] e por tão particular servi-
ço em que Deus foi servido fazer aquelles moradores e ainda as desta cidade e
seu reconcavo que esprementavão a perda de alguns negros que lhe fugião de
suas casas e lavouras e sahião matar em ditos mocambos dos Palmares fazen-
dosse salteadores com os mais.163
Cincoenta anos antes, a câmara da Bahia tinha recusado com força a proposta do
vice-rei, marquês de Montalvão, de negociação com os negros do mocambo, ao decla-
rar que “por nenhum modo convinha tratar de concertos nem dar lugar aos escravos
a que consiliassem sobre este negocio e o que convinha somente hera extinguilos e
conquistallos”.164 Nestas representações da Bahia, índios e africanos surgem, não me-
ramente silenciados, mas conquistados e vencidos.
159 Richard M. Morse, « Somes characteristics of Latin American Urban History”. The American Historical Review,
v. 67, n. 2, p. 317-338, 1962.
160 Schwartz; Pécora (Org.), op. cit., p. 11. O autor dirigia-se assim ao “nobre eclesiástico e secular cabido, insigne
e real magistrado da justiça, cavaleiros e homens bons desta praça”.
161 Isto vem também lembrar o papel da conquista nos processos de identificação da “nobreza da terra” da Amé-
rica Portuguesa. Cf. Fernanda Bicalho, “Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas. História e
historiografia”. In: Nuno Monteiro, Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (Org.), Optima Pars. Elites Ibero-
-Americanas do Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005, p. 73-97.
162 Edison Carneiro, O quilombo de Palmares. São Paulo: Martins Fontes, 2011 [1958]; Silvia Hunold Lara, “Marro-
nage et pouvoir colonial. Palmares, Cucaú et les frontières de la liberté au Pernambouc à la fin du XVIIe siècle”.
Annales HSS, v. 67, 3, p. 639-662, 2007.
163 AC, v. 6, p. 239.
164 Ibid., v. 1, p. 477.
42 guida marques
Chegando aqui, vale a pena lembrar que as sociedades nunca são o que dizem que
são.165 E não podemos deixar de lembrar a distância entre estas representações da ci-
dade da Bahia e as relações de viajantes, referindo a presença maciça de africanos em
Salvador, impressionados ou horrorizados com os seus corpos dançando nas procis-
sões, considerando, finalmente, a cidade da Bahia como “uma nova Guiné”.166 Ou seja,
levando-nos muito longe da representação da cidade promovida pela câmara da Bahia.
Porém, neste final do século XVII, surge uma nova preocupação na documentação da
câmara, onde os corpos dos escravos aparecem perigosos de uma outra maneira, como
corpos doentes e contagiosos. As prevenções da câmara contra as epidemias, ligadas,
segundo ela, à população escrava que chegava à Bahia, acabam por levantar o proble-
ma da gestão dessa população silenciada.167
Andamos por atalhos, tentando esclarecer as várias significações das representa-
ções da cidade da Bahia de Seiscentos. Ao examinar esse “ser cabeça do Estado do Bra-
sil” ao longo do século XVII, pudemos considerar as interações que envolvem o rela-
cionamento institucional da cidade da Bahia com a Coroa portuguesa durante esse pe-
ríodo, a importância dos discursos e das imagens da (e sobre) a cidade, e a sua relação
com os processos de identificação movimentados na Bahia de Seiscentos. Pudemos,
afinal, aproximar o que articula a construção da cidade.
Assim, se a cidade da Bahia era já a mais útil, ainda era preciso juntar ao útil a gló-
ria. Nesse processo, não podemos deixar de realçar o empenho da câmara de Sal-
168
165 Georges Balandier, “La situation coloniale. Approche théorique”. Cahiers Internationaux de Sociologie, 110, 1,
p. 9-29, 2001.
166 Amédée François Frézier, Relation du Voyage de la mer du Sud aux cotes du Chili, du Pérou et du Brésil fait pendant
les années 1712, 1713 et 1714. Paris: Chez Jean-Geoffroy Nyon, Etienne Ganeau, Jacque Quillau, 1716, p. 532.
167 AC, v. 6, p. 22, no “termo da vistoria e rezolução que se tomou sobre a chegada da Nau Santa Marta vinda de
Angolla com os negros com bexiga”, feito em 22 de maio de 1685, lê-se: “foi requerido aos ditos oficiaes que a
nau embarcação Sta Marta de que he capitão Antonio Gonçalves da Rocha inda do reino de Angola venha com
a escravaria que trazia e he a de bexiga mal tão contagio do que representava per perda e que a experiência das
farinhas das ruinas passadas são empremidas [...] pello miseravel estado em que se vio este povo com a mor-
tandade de seus moradores”. Ibid., v. 6, p. 29 e 237.
168 André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Introdução e comentário crítico por
Andrée Mansuy Diniz Silva. Lisboa: CNCDP, 2001, p. 334: “Pelo que temos dito até agora não haverá quem
possa duvidar de ser hoje o Brasil a melhor e mais útil conquista assim para a fazenda real como para o bem
público”.
169 No final do século, designava-se a si mesma, pela voz do juiz do povo, como “Nobilíssima cidade da Bahia, me-
trópole do estado do Brasil”. AC, v. 6, p. 202.
“por ser cabeça do estado do brasil” 43
era menos uma necessidade perante as várias exigências da Coroa. Os “leais e muito
obedientes vassalos” da Bahia deviam ser também “nobres brasilienses”.
Ao estreitar a sua relação com o império, a cidade da Bahia demonstrou ainda o
seu uso consciente da cidade enquanto símbolo de imperium.170 Procurando a sua legi-
timidade e os seus princípios de visão na cultura de Antigo Regime, ela não deixava de
ser uma cidade em território colonizado, e enquanto tal, um instrumento de coloni-
zação. A disjunção entre a sua representação enquanto “cabeça de Estado”, e o quo-
tidiano de uma cidade lidando com a sua natureza colonial, ou seja, com a presença
de outros, índios e africanos, vem lembrar que uma cidade comporta muitas outras.171
No entanto, este estudo não deixa de esclarecer as tensões de tal situação, permitindo
aproximar os silenciamentos que a constituíram e as linhas de fronteira movimentadas
nesse período.172 Finalmente, a Bahia só podia ser, então, uma cidade cosmopolita à sua
revelia, lugar de reconfigurações mais amplas, mas ainda sem representação possível.
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PEDRO CARDIM
THIAGO KRAUSE
A 12 de Agosto de 1688 a câmara de Salvador endereçou mais uma carta ao seu pro-
curador em Lisboa, o capitão Manoel de Carvalho. Tal como já tinha acontecido nas
missivas anteriores, esta carta era toda ela dedicada ao peso da fiscalidade que se ti-
nha abatido sobre a cidade de Salvador. No entanto, essa missiva tem um tom quase
desesperado e nela o Senado instruía o seu procurador na corte a explicar ao rei e aos
seus ministros que, na Bahia, a situação económica era cada vez mais difícil devido à
crise nas exportações do açúcar. A municipalidade sugeria, por isso, que o procurador
fizesse ver às autoridades de Lisboa que as exações fiscais que estavam a pagar ultra-
passavam aquilo que era razoável, exortando-o, por isso, a fazer tudo o que estives-
se ao seu alcance para convencer as autoridades régias a aliviarem o povo da Bahia,
1 Trabalho realizado no âmbito dos seguintes projectos: Bahia 16-19 – Salvador da Bahia: American, European and
African forging of a colonial capital city, Marie Curie Actions, IRSES, GA-2012-318988 (CHAM - FCSH/NOVA-
-UAc; EHESS; UFBA); A comunicação política na monarquia pluricontinental portuguesa (1580-1808): Reino, Atlânti-
co e Brasil (Fundação para a Ciência e a Tecnologia: PTDC/HHIS-HIS/098928/2008). João Fragoso e Maria Fernan-
da Bicalho leram e criticaram uma primeira versão deste estudo. Para eles vai o nosso sincero agradecimento.
2 N. do E. Definiu-se pela preservação das normas textuais e bibliográficas adotadas no país de origem do texto.