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Textos Aula 03 10

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AVANETE PEREIRA SOUSA

A centralidade/capitalidade econômica
de Salvador no século XVIII

O objetivo deste texto é demonstrar a condição de centralidade/capitalidade econô-


mica da cidade de Salvador ao longo do século XVIII.
O século XVIII é tido pela historiografia como a idade de ouro da Bahia. Do ponto
de vista político, configura-se como momento de pleno desenvolvimento das institui-
ções centrais e periféricas da monarquia portuguesa em território local. No que se re-
fere à questão econômica, assiste-se à total consolidação dos circuitos produtivos e co-
merciais internos e externos à capitania, que tinham em Salvador o ponto de convergên-
cia por excelência. É também o momento de consubstanciação de um sistema financeiro
local, a partir do incremento da capacidade de arrecadação da cidade. De outro modo,
há uma clara expansão da rede urbana em toda a América Portuguesa, o que permite
constatar a posição cimeira da cidade de Salvador em uma estrutura urbana visivelmen-
te hierarquizada.
Em essência, reportaremos à relação entre a ideia ou o conceito de centralidade/
capitalidade e a função efetiva da cidade de Salvador ao longo do século XVIII. Se fo-
rem observadas outras cidades/sede, no interior do império português e da própria
América Portuguesa, Salvador apresenta aspectos econômicos e políticos peculiares
que lhe impõem tal condição. Importa, assim, demonstrar como esta centralidade foi
se forjando ao longo do século a ponto de alcançar amplitude geopolítica.
100 avanete pereira sousa

Uma cidade/capital tem papel e importância ímpares. Afinal, conforme definição


de Alliés,1 uma capital se diferencia do espaço geográfico urbano que ocupa, posto
preencher, devido ao papel de gestão e de dominação assumido, dupla função: por um
lado, tutela a própria cidade sob a qual está assentada e, por outro, influencia, ainda, as
cidades cujos aparelhos político-administrativo e econômico encontram-se a ela sub-
metidos. Apoiada sobre o território de uma cidade, a capital desdobra suas funções e
as difunde num espaço estatal, de tal maneira a selecionar as redes de vilas mercantis e
a decompor o seu policentrismo.
É assim que a decisão política não parece suficiente para o estabelecimento e a
afirmação de uma capital, mas é ainda necessário sustentar sua centralidade e, para
tanto, as formas de organização e representação do poder tornam-se fundamentais na
definição do grau e nível de capitalidade de determinado centro urbano. Mesmo por-
que, conforme afirma Catarina Madeira Santos, o conceito de capitalidade traz em si
diferentes dimensões e, assim, só é possível

[...] falar de capitalidade na condição de este centro chegar a repercutir a sua


influência num determinado espaço, ou seja, sobre um Estado, independemen-
te da configuração que este assuma. Há, portanto, a considerar uma vertente
dinâmica, expressa na capacidade que o centro tem de estruturar e estabelecer
hierarquias no interior de um território e com ele sustentar ligações. Trata-se,
afinal, de analisar a rede sobre a qual se realiza a articulação entre o centro e
suas periferias.2

Nessa perspectiva, a capitalidade estaria expressa em representação política que


se materializava em estratégias de controle e espraiamento por ampla área geográfi-
ca e abarcaria várias escalas. Talvez assim se pudesse recorrer a alguns termos do ar-
senal conceitual da geografia, utilizados por Russel-Wood ao tratar das “periferias”,
levando-se em consideração que o conceito de periferia reporta-se, imediatamente,
ao de centro ou núcleo central. O autor evoca os termos umland (área imediatamente
adjacente a um núcleo); hinterland (área mais distante, ampla. Lugares ligados de forma
econômica e cultural ao centro principal); e vorland (“localidades que não têm conti-
nuidade territorial com o núcleo, mas em relação às quais o núcleo tem uma intensa co-
nexão”) na tentativa de explicar as relações entre os núcleos centrais constituídos e
suas possíveis áreas de influência.3

1 Paul Alliès, L’invention du territoire. Grenoble, Presses Universitaires de Grenoble, 1980, p. 92.
2 Catarina Madeira Santos, Goa é a chave de toda a Índia. Perfil político da capital do Estado da Índia (1505-1570).
Lisboa: CNCDP, 1999, p. 23.
3 Anthony J. R. Russell-Wood, “Centros e periferias no mundo luso-brasileiro, 1500-1808”, Revista Brasilei-
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 101

Esses conceitos são interessantes e nos ajudam a explicar a centralidade econômi-


ca da cidade de Salvador, pois permitem refletir sobre as áreas de influência contíguas
territorialmente (umland e hinterland), mas também sobre as áreas que não apresentam
contiguidade com o centro da rede (vorland), como, por exemplo, os portos africanos
que negociavam intensamente com Salvador.
A centralidade pode também ser vista como a combinação, em determinado mo-
mento, das atividades econômicas, das funções políticas e administrativas, da prática
social, da representação coletiva, que contribui para o controle e a regulação do con-
junto da estrutura da cidade,4 pois:

“[...] é na cidade que se encontram os fluxos das redes (econômicos, políticos e


culturais) que sustentam sua centralidade enquanto lugar de troca, comunida-
de política, ponto de importância simbólica”.5

Levando-se em consideração as diversas teorias acerca da centralidade urbana, o


que importa é procurar apreender o que possibilita melhor explicar o nosso objeto.
Nesse caso, todas elas apresentam aspectos a serem considerados no estudo da centra-
lidade/capitalidade econômica da cidade de Salvador no século XVIII. Entretanto, en-
fatizaremos a teoria dos lugares centrais (definição que foi proposta, em 1933, por W.
Christaller) – concebida para tentar explicar as cidades contemporâneas, mas que se
encaixa bem na explicitação do nosso objeto de estudo –, que se refere à relação entre
capital e interior numa perspectiva espacial e hierarquizada. Hierarquia, sobretudo,
econômica, determinada pela lógica da condição econômico-financeira e fiscal e pelas
necessidades de circulação mercantil. Os lugares centrais de Cristaller6 são definidos
pela abrangência da hinterlândia mercantil, sobre a qual se tem domínio e poder, bem
como se estabelece um tipo de relação baseada na regra da diferença e em que os pa-
péis específicos de cada localidade acabavam por definir quem era centro e quem era
periferia. Com base nessa teoria, poderíamos, então, afirmar, a partir de uma releitura
de Sposito,7 que a centralidade de Salvador estaria, sobretudo, na condição de ponto

ra de História, São Paulo, v. 18, n. 36, 1998, p. 4. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_


arttext&pid=S0102-01881998000200010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 13 abr. 2015.
4 Manuel Castells, A questão urbana. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2000.
5 Flora Medeiros Lahuerta, Geografias em movimento: território e centralidade no Rio de Janeiro Joanino (1808-
1821). Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) FFLCH-USP, São Paulo, 2009.
6 Walter Christaller, Central places in Southern Germany. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1966.
7 Maria Encarnação B. Sposito, “O centro e as formas de expressão da centralidade urbana”. Revista de Geografia.
São Paulo: UNESP, p. 1-18, 1991.
102 avanete pereira sousa

de convergência/divergência, de nó do sistema de circulação econômica, de lugar para


onde todos se deslocavam para a interação destas atividades.

A cidade de Salvador: “Cabeça de Estado”


e “Empório do Universo”
“Cabeça de Estado”. Era assim que os documentos da época, século XVIII, referiam-se
à cidade de Salvador, indicando, de partida, a centralidade que a cidade exercia no in-
terior da capitania da Bahia, da colônia e do império, sendo tal terminologia associada
a comando, poder e controle.8 “Empório do Universo”. Foi assim que o viajante inglês
Thomas Lindley9 a denominou um século depois, fato, dentre tantos outros, que nos
leva a afirmar que, se10 houve alguma perda de importância com a transferência da ca-
pital para o Rio de Janeiro, em 1763, esta não alterou a condição de centralidade/capi-
talidade econômica da cidade.
De fato, local de encontro de rotas comerciais internas e externas à capitania; en-
treposto fundamental na redistribuição de produtos importados para outras capita-
nias e na saída de produtos locais para o exterior, Salvador configurava-se como por-
to centralizador, possuidor de múltiplas faces.11 Uma face atlântica, que contemplava
desde o comércio com a Europa, África e Ásia, como dizia Russell-Wood,12 a uma na-
vegação interna, como atestou Lindley,13 em 1802, e uma face terrestre, interiorizada
através da agricultura de subsistência em diferentes espaços de sua umland e hinterland,
com os quais mantinha relações comerciais e influência política.

8 Ver neste volume o estudo de Guida Marques sobre Salvador como cabeça do Estado do Brasil no século XVII.
9 Thomas Lindley, Narrativa de uma viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Brasiliana, 1969,
p. 160.
10 O “se” decorre do fato de, ao que parece, Salvador ter continuado a exercer o papel de metrópole colonial.
O Marquês de Lavradio, ao ser nomeado vice-rei do Estado do Brasil, em 1769, queixava-se de ter que ir da
Bahia, onde exercia, até então, o posto de governador-geral da capitania, para o Rio de Janeiro, a nova capital.
Em seus lamentos estava a alegação de que, para o governador do Rio de Janeiro, “passou só o título de vice-rei
[...]” “porque tudo o mais que é de honrosas e proveito ficou na Bahia [...]”. Luís de Almeida Soares Portugal La-
vradio. Cartas da Bahia (1768-1769). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional/Ministério de Justiça, 1972, p. 244-246.
Carta escrita a Joaquim Inácio da Cruz em 29 de julho de 1769.
11 Pinto de Aguiar (Ed.), Aspectos da economia colonial. Salvador: Progresso, 1957, p. 6; José Jobson de Andrade Ar-
ruda, O Brasil no comércio colonial. São Paulo: Ática, 1980, p. 191.
12 Anthony J. R. Russell-Wood, “A projeção da Bahia no Império Ultramarino português”. In: Anais do IV Congresso
de História da Bahia. Salvador: Instituto Histórico e Geográfico da Bahia; Fundação Gregório de Mattos, 2001.
13 Lindley, op. cit., p. 170-171.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 103

Salvador e sua Baía de Todos os Santos tornaram-se estratégicas no interior do im-


pério atlântico português. A cidade mantivera-se, ao longo dos séculos XVIII e XIX,
como espaço urbano fundamental nas relações comerciais que envolviam o Brasil, a
Europa e a África, além de, isoladamente, articular uma rede atlântica de comércio que
excluía a Europa e englobava territórios portugueses na África e nas Ilhas Atlânticas.
Conforme informa Vilhena, no final do século XVIII, o comércio entre Salvador e as
Ilhas dos Açores e Madeira era bem expressivo e consistia na “importação de vinho,
aguardente, louça inglesa de pó de pedra, algum pano de linho curado, linhas e pouca
carne de porco” e na “exportação de açúcar e aguardente de cana”.14
Ao tempo em que, de Salvador, se exportavam mercadorias como o açúcar, o ta-
baco, couro, a aguardente, o melado, o algodão, o arroz, o cacau, o café, a madeira e o
azeite de baleia,15 de Portugal, importavam-se gêneros manufaturados, como tecidos,
louças, ferragens, pólvora, chumbo, alcatrão, farinha de trigo, vinho, vinagre e azeite
de oliva; da Índia, tecidos e especiarias e, da África, escravos e cera.16 Muito antes das
incursões ultramarinas, a coroa portuguesa já apoiava o comércio internacional, fa-
zendo com que, para Portugal, convergissem mercadorias de diversas partes. Lisboa
tornara-se centro de uma rede de redistribuição de gêneros oriundos de toda a Eu-
ropa, bem como “de empórios orientais como o golfo Pérsico, a Índia, a Indonésia, a
China e o Japão”.17 As descobertas marítimas antes marcaram um tempo caracterizado
pelo aumento do volume, de disponibilidade, de variedade e de menor custo de tais
mercadorias do que, propriamente, inauguraram uma nova era de afluxo de produtos
totalmente desconhecidos para os portugueses.18
Gêneros europeus e, principalmente, subprodutos da agricultura americana, como
o tabaco e a cachaça, movimentavam o comércio direto e específico entre a Bahia e
a África, principalmente a partir da entrada gradual, porém definitiva, no decorrer
do século XVIII, de comerciantes baianos e portugueses, fixados na Bahia, no tráfico
de escravos.19 Da Bahia, saíam anualmente para a África – onde, segundo Francisco

14 Luis dos Santos Vilhena, A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, 1969, p. 59.
15 Arquivo Histórico Ultramarino [AHU] - Conselho Ultramarino [CU], Bahia, Castro Almeida [CA], cx. 13, docs.
2320-2321; cx. 52, docs. 9724-9725 e 9730-9731; cx. 68, docs. 13.037-13059; cx. 68, docs. 13144-13146.
16 José Antônio Caldas, Notícia geral de toda esta capitania da Bahia desde o seu descobrimento até o presente ano de
1759. Salvador: Beneditina, 1951, p. 220.
17 AHU-CU, Bahia, CA, cx. 94, docs. 18296-18315 e cx. 105, docs. 20521-20526.
18 Anthony J. R. Russell-Wood, Um mundo em movimento: os portugueses na África, Ásia e América (1415-1808).
Lisboa: Difel, 1998, p. 194.
19 Pierre Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos (dos séculos
XVI a XIX). São Paulo: Corrupio, 1987, p. 24-25.
104 avanete pereira sousa

Pyrard de Laval, as pessoas eram muito ávidas de ferro e de toda sorte de quinquilha-
rias –20 mais de doze embarcações, carregadas de fazendas, da Índia e da Europa, de
aguardente e de outros gêneros da terra. No retorno, traziam escravos e cera. Mui-
tos negociantes, em determinadas transações comerciais, costumavam fazer o registro
público da carga de suas embarcações, a exemplo de Manoel Álvares Pereira, que, em
1720, fez o registro de uma carga contendo 250 escravos; Pedro Mendes Monteiro, que,
em 1734, registrou 180 negros “vindos da Costa”; Manoel Rodrigues, João Batista Go-
mes, José Francisco da Cunha, Miguel Francisco, Domingos Álvares Viana, que decla-
raram mercadorias enviadas para Angola, Costa da Mina e Benin, entre 1667-1733.21 Em
um manuscrito anônimo, provavelmente de fins do século XVIII, seu autor, em capítu-
lo intitulado “Do comércio ativo e passivo daquela dita comarca e cidade do Salvador”,
fazendo alusão ao comércio Bahia/África, refere-se, inclusive, a uma entrecortada re-
lação comercial entre Salvador e Moçambique, registrando licenças reais, de 1750 a
1760, em 1764, 1773, 1774 e 1785, concedidas por solicitação de certos comerciantes que
venderam lá toda a sua carga e retornaram à Bahia com escravos, búzios e caril, sendo
que este último gênero teve pouca aceitação na Bahia.22
Ao longo de todo o século XVIII, inúmeras foram as referências, por parte de cro-
nistas e viajantes, acerca do dinamismo e da vultuosidade das atividades comerciais e
produtivas da capitania da Bahia e de sua capital.23 Ainda que a intenção desses indi-
víduos fosse registrar outros aspectos da vida da cidade, não lhes passava despercebi-
do o seu caráter de centro mercantil e nem a sua predominância em relação a outros
espaços urbanos.24 De fato, como assinala Amaral Lapa,25 a expansão colonial portu-
guesa teve, na cidade de Salvador, lugar estratégico, central. “O mercado de trocas, a
nível internacional, [dominava] de longe todas as atividades comerciais e financeiras

20 Francisco P. de Laval, Viagem. Porto: Livraria Civilização, 1944, v. 2, p. 225.


21 Caldas, Notícia..., p. 229; Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Livro de Notas, nº 39, fl. 3v, 26v, 210; nº 41,
fl. 12, 13, 62v, 175v, 182v; nº 46, fl.188; nº 50, fl. 6v; nº 52, fl. 175.
22 “Discurso preliminar, histórico, introdutivo com natureza de descrição econômica da comarca e cidade do Sal-
vador”. In: Manoel Pinto de Aguiar, Aspectos da economia colonial. Salvador: Progresso Editora, 1957, p. 145-
147; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (BNRJ), II, 33, 29, 60.
23 Moema Parente Augel, Visitantes estrangeiros na Bahia oitocentista. São Paulo: Cultrix, 1980, p. 3-26.
24 Ver correspondência entre José da Silva Lisboa, futuro visconde de Cairú, e Domingos Vandelli, diretor do Real
Jardim Botânico de Lisboa, em 1781. Em extensa carta, Silva Lisboa dizia ser “[...] o comércio na Bahia [...] am-
plo e variado, tanto o interior, como o exterior. É uma coisa bela ver aportar ao cais da Bahia mais de 40 embar-
cações pequenas cada dia, carregadas de víveres e de tudo o necessário para o uso da cidade [...]”. AHU-CU,
Bahia, CA, cx. 57, doc. 10.907.
25 José Roberto do Amaral Lapa, A Bahia e a carreira da Índia. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Editora da
Universidade de São Paulo, 1968, p. 1.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 105

da Bahia”, viabilizando lá fora o consumo de produtos primários e trazendo “para o


mercado consumidor interno bens aqui não produzidos, quer seja manufaturados ou
mesmo alimentício”.26 E, talvez, seja essa característica de “amplo mercado” que sus-
tentou e manteve, durante séculos, a condição de centralidade/capitalidade da cidade
de Salvador.

Elementos da centralidade econômica local


Sem sombra de dúvidas, Salvador polarizava sua hinterlândia e exercia, em relação a esta,
efetivamente, funções econômicas centrais. Ao mesmo tempo, inseria-se numa intrinca-
da rede de articulações em diferentes escalas espaciais. O que significa dizer que sua in-
fluência como “espaço central” alcançava áreas e territórios longínquos e descontínuos.
A relação da cidade com sua área mais contígua, ou seja, com o Recôncavo, assen-
tava-se de maneira primordial na produção de açúcar e de tabaco e, de forma menos
sistemática, na cultura de gêneros de subsistência.
De fato, a produção de gêneros tropicais para exportação foi elemento funda-
mental para a ocupação e o povoamento das terras conquistadas pelos portugueses na
América. O açúcar e o fumo constituíam, como afirmara Silva Lisboa, “a base sólida
do comércio da Bahia”27 e a força motriz de sua economia. O açúcar, naquele momen-
to, supriu a falta de um excedente regular que pudesse ser prontamente incorporado
às atividades comerciais até então desenvolvidas pela coroa,28 enquanto o fumo logo
passara a figurar no cenário internacional, atingindo os mercados europeus e asiáti-
cos, mas foi na condição de moeda de troca no tráfico transatlântico de escravos que
se consolidou entre os principais produtos de exportação29. Enfim, a cidade de Salva-
dor tornou-se o principal núcleo articulador de multifacetada política econômica que
tinha como base a produção de açúcar e de tabaco, tendo no Recôncavo a região agrí-
cola mais significativa.30

26 Katia M. de Queirós Mattoso, Bahia: a cidade de Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo: Hucitec; Salva-
dor: Secretaria Municipal de Cultura, 1978, p. 239-240.
27 Citado por Cristiana Ferreira Lyrio Ximenes, Bahia e Angola: redes comerciais e o tráfico de escravos (1750-1808).
Tese (Doutorado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2012, p. 64.
28 Luis Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000, p. 29.
29 Ana Paula de Albuquerque Silva. “A lavoura fumageira do Recôncavo da Bahia: uma tentativa de caracterização
(1773-1831).” Disponível em: <http://www2.ufrb.edu.br/reconcavos/index.php/quarto-seminario-estudantil-
-de-pesquisas-cahl>. Acesso em: 5 mar. 2015.
30 Mattoso, Bahia..., p. 26.
106 avanete pereira sousa

O açúcar era cultivado e produzido em diferentes localidades no Recôncavo da


Bahia e no próprio termo de Salvador, a exemplo de Pirajá, Matoim, Cotegipe, Itapari-
ca e Paripe, e de vilas como São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, Mara-
gojipe, Muritiba e, já no final do XVIII, Nazaré. Nestas localidades, funcionavam, em
1710, 146 engenhos de vários tipos. No final desta década, o volume de açúcar remeti-
do do porto de Salvador para o reino era de cerca de 507.500 arrobas/ano.31 Em 1720,
a produção caiu para 420.000 arrobas/ano. Entre 1736 e 1766, foram 173 mil caixas de
açúcar, numa média de 5,7 mil caixas/ano e, entre 1778-1789, 144 mil caixas, o que equi-
valia a cerca de 12 mil caixas/ano.32 Durante um período de trinta anos, há uma clara
conjuntura de crise da produção açucareira, superada em momento posterior, como
atestam os estudos de Ribeiro. Segundo este autor, na década de 1770, a exportação
de açúcar na Bahia era de 10 mil caixas/ano, cerca de 440.000 mil arrobas, que subiu
para 480 mil no decênio seguinte e para 760 mil, em finais de 1790.33 Em 1817, o número
de engenhos em operação na capitania chegou à casa de 400.34 A produção de açúcar
se espraiara por outras capitanias próximas à capitania da Bahia, como Ilhéus e Por-
to Seguro, mais ao sul, além da capitania de Sergipe, ao norte. O reflexo da condição
central de Salvador em relação a essas localidades demonstrava-se no cômputo de tal
produção como parte da produção baiana. Havia um claro atrelamento dessas capita-
nias à cidade de Salvador, não apenas, como já é sabido, político-administrativo, mas,
ainda, econômico.35
As plantações de tabaco espalhavam-se por outros lugares da capitania, por qua-
se todo o agreste baiano, cuja produção seguia para Cachoeira e, de lá, para Salvador.
Mas o destino final do fumo seria ainda Portugal e África, onde era apreciadíssimo.36
No próprio termo da vila de Cachoeira, havia uma grande concentração da cultura do
fumo. Estimava-se que, na primeira década do século XVIII, 1.500 fazendas eram as res-
ponsáveis pela produção de 35 mil rolos/ano. Entre 1750 e 1766, as exportações anuais de
fumo alcançaram 320 mil arrobas, chegando a 615 mil na década de 1780. Ao que pare-
ce, na década de 1790, os preços do tabaco atingiram o patamar mais elevado do século,

31 André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, Brasília, INL, 1976, p. 140.
32 Sylvio C. Bandeira de Mello Silva et al., Urbanização e metropolização no Estado da Bahia: evolução e dinâmica.
Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989, p. 87-88.
33 Alexandre Vieira Ribeiro, A cidade de Salvador: estrutura econômica, comércio de escravos, grupo mercantil (c. 1750-
1800). Tese (Doutorado em História Social) – IFCS-UFRJ, Rio de Janeiro, 2009, p. 49-62.
34 Silva et al, op. cit., p. 87.
35 Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras,
1988, p. 91-93.
36 Ibid., p. 85.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 107

reação ao incremento do tráfico negreiro naquele período com o crescente fluxo de


embarcações que partiam do porto de Salvador em direção à Costa da Mina. Enquanto
na década de 1750 a média anual de navios para aquele território africano era de 10 em-
barcações, na última década do Setecentos essa média sobe para 18 navios, que carrega-
vam sempre grande quantidade de fumo.37
Em síntese, em finais do século XVIII, a capitania da Bahia produzia anualmente
cerca de 1.750 toneladas de açúcar, o que correspondia a uma média de vinte mil cai-
xas e 6.600 toneladas de tabaco, mais ou menos trinta mil rolos. Os subprodutos da
cana, aguardentes e melaços, também eram aproveitados e, não raras vezes, exporta-
dos, bem como consumidos localmente.38
A produção para exportação não ocupava toda a atividade agrícola do rico en-
torno da Baía de Todos os Santos e da hinterlândia da cidade de Salvador. Localidades
mais próximas como Jaguaripe, Maragojipe, Campinhos, Saubara, Capanema e Na-
zaré especializaram-se na produção de farinha de mandioca, comercializada nas pró-
prias vilas e, principalmente, destinada a suprir a demanda da capital que, nos dois úl-
timos decênios do século XVIII, possuía cerca de 50 mil habitantes, e cujas estimativas
apontam para um consumo anual de mais de um milhão de alqueires,39 o que corres-
ponderia a quase 14 milhões de litros. De acordo com Barickman,40 a farinha represen-
tava cerca de 88% de todos os gêneros que entraram no Celeiro Público, entre 1785, ano
em que tal instituição fora criada, e 1850, enquanto que outros grãos como feijão, ar-
roz e milho, correspondiam a apenas 12%. De um “dilatado recôncavo”, como o deno-
minou Agostinho José Bernardes, funcionário régio, saíam provimentos oriundos das

[...] costas e rios de Itaparica, Jaguaripe, Estiva, Aldeia, Nazaré, Jacoruna, Ca-
panema, Maragogipe, Cachoeira, Iguape, Saubara, Santo Amaro, São Fran-
cisco, Goiba, Paraguaí Mirim, Loreto, Madre de Deus, Santo Estevão, Passé,
Maré, Cotegipe, e outros em tal forma que seguramente se podem contar mais
de cem transportes por semana que de todos esses portos chegam aos cais da
Cidade de todos de Barra adentro com caixas de açúcar, rolos de tabaco, toda
qualidade de víveres, louça vermelha e vidrada, telha, tijolo, madeiras, piaça-
bas, e outros muitos gêneros da primeira necessidade e de comércio interior,
formando um todo de muitos centos de mil cruzados qua a cidade lhe retri-
bui em mercadorias de Portugal que vai fazer um segundo e terceiro comércio

37 Ribeiro, A cidade de Salvador, p. 55.


38 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 64-65.
39 Ibid., p. 65.
40 B. J. Barickman, Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 91.
108 avanete pereira sousa

pelas Vilas e Povoações do Continente, e em moeda corrente para balancear a


exportação com a importação.41

Gêneros de subsistência, como a mandioca, o arroz, o feijão, o milho e, bem de-


pois, também produtos de exportação, como café e cacau, passaram a vir, uns e outros,
do oeste e sul do Recôncavo, bem como de outros lugares mais distantes, como Cama-
mú, Cairú, Boipeba, Porto Seguro e Rio de Contas, transformadas em núcleos de abas-
tecimento de Salvador e das zonas açucareiras.42
Nas capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro, outra atividade se destacava: a explo-
ração de madeira de lei, empregada, de forma especial, na construção naval. Também
nessa esfera, reinava o comércio com a cidade de Salvador, para onde se destinava a
maior parte da madeira que abastecia ribeiras como Itapagipe e Preguiça, de proprie-
dade privada, e, sobretudo, os arsenais da Marinha em Salvador, de onde também era
enviada para o Arsenal da Marinha, em Lisboa.43
Concretamente, o comércio de alimentos provenientes de “barra adentro”, ou
seja, de localidades situadas no interior da própria capitania, dominava, de longe, o
tráfego de embarcações no porto de Salvador. Conforme continuou a registrar, em
1797, mais detalhadamente, o já citado funcionário régio:

Estes transportes se reduzem a Chalupas, Sumacas, Barcos e Lanchas, dos Por-


tos de Inhambupe, Itapicuru, Itapoan, Morro, Cahirú, Jequiriçá, Una, Boipeba,
Camamú, Rio de Contas, Ilhéus, Patiju, Santa Cruz, Porto seguro [...] (que) [...]
conduzem caixas de açúcar, farinha de mandioca, arroz, feijão, milho, peixes
salgados, madeiras de todas as qualidades, mastreações para navios, casca de
mangue para curtumes, cabos e betas de Ambé, algodões, café, e outros gêne-
ros que abundam na População. Esta importação se balanceia com a exportação
de mercadorias que vem de Portugal, com obras dos artesãos da cidade, com
gêneros do País [...].44

As atividades econômicas de exportação e o comércio de alimentos para a subsis-


tência eram complementados pela criação de gado bovino proveniente dos sertões da

41 AHU-CU, Bahia, CA, cx. 94, doc. 18305 - Relação dos navios e transportes que entraram e sahiram no porto da
Bahia no anno de 1797. Datada de 10 de maio de 1798. Apud Ximenes, op. cit., p. 79.
42 Silva et al., Urbanização..., p. 91.
43 Marcelo Henrique Dias, Economia, sociedade e paisagens da capitania de Ilhéus no período colonial. Tese (Douto-
rado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2007.
44 AHU-CA, Bahia, CA, cx. 94, doc. 18305 - Relação dos navios e transportes que entraram e sahiram no porto da
Bahia no anno de 1797. Datada 10 de maio de 1798. Apud Ximenes, A Bahia e Angola..., p. 79.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 109

capitania, onde ocupava os vales dos principais rios, sobretudo do São Francisco.45 A pe-
cuária, assim como a mineração, foi a responsável pela abertura e consolidação de vários
caminhos que ligavam os sertões ao litoral e às áreas mineradoras das Gerais.46 É através
do gado que Salvador se conecta com áreas descontínuas e distantes de sua hinterlândia,
na condição de principal consumidora da carne. Era da Câmara de Salvador que emana-
vam as mais importantes leis acerca da comercialização do produto, bem como o sistema
de tributação que lhe era devido.47
Distante cerca de cinco léguas da cidade de Salvador, ficava a Feira de Capuame,
onde eram comercializadas as inúmeras cabeças de gado que abasteciam a cidade e o
Recôncavo, como alimento e nos engenhos movidos a tração animal.48 Havia, ainda,
próximo a Salvador, a importante Feira de Mata de São João, em terras também per-
tencentes à Casa da Torre de Garcia D’Ávila.49 O gado percorria longo caminho e pas-
sava por vários registros antes de chegar ao matadouro da capital. Os superintenden-
tes destes registros se encarregavam de fazer a contagem e aplicar a devida tributação
sobre o comércio da mercadoria. A primeira de tantas outras que ainda incidiriam so-
bre o produto final. A cidade demandava grande quantidade de carne, que era vendida
nos vários açougues e talhos. A média anual de consumo, entre 1715 e 1750, era de 6 a 10
mil cabeças, número que, entre 1791 e 1811, elevou-se a mais de 18 mil cabeças e, mesmo
assim, a falta do produto nos açougues traduzia-se em uma das principais queixas da
população às autoridades locais.50
Em Salvador, o couro, “a partir da década de 1720, passou a representar um dos
principais gêneros de exportação na balança comercial baiana”.51 Os vários curtumes
espalhados pelo entorno da cidade tratavam, processavam e conservavam o couro que

45 Antonil, Cultura e opulência..., p. 199.


46 Silva et al., op. cit., p. 91.
47 Avanete Pereira Sousa, A Bahia no século XVIII: poder político local e atividades econômicas. São Paulo: Alameda,
2012.
48 Luiz R. B. Mott, “Subsídio à história do pequeno comércio no Brasil”. Revista de História. São Paulo: USP, 1976,
v. LIII. nº 105, p. 88. Sobre a Feira de Capuame ver Juliana da Silva Henrique, A Feira de Capuame: pecuária, ter-
ritorialização e abastecimento (Bahia, século XVIII). Dissertação (Mestrado em História) – FFLCH-USP, São Paulo,
2014.
49 Angelo Emílio da Silva, As ruínas da tradição: a Casa da Torre de Garcia D’Ávila – família e propriedade no nordeste
colonial, Tese (Doutorado em História Social) – FFLCH-USP, São Paulo, 2003, p. 168.
50 Arquivo Municipal de Salvador [AMS]. Livro de Ofícios ao Governo, 1710- 1760, fl. 45; Livro de Registro da Ren-
da e Despesa do Matadouro, 1791-1811, fl. 63ss.
51 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 68. A autora se refere a uma estimativa feita por Oliveira Mendes que indicava
que a cidade de Salvador exportava anualmente para Portugal cerca de 16 mil vaquetas, o que rendia um total
de doze contos e oitocentos mil réis.
110 avanete pereira sousa

seria enviado para a Europa e a ser utilizado para embalar os rolos de tabaco exporta-
dos. A quantidade de couro consumida para tal finalidade era de difícil mensuração,
mas o custo para embalar cada rolo ficava em torno de 1.300 réis.52
Na Bahia, a bovinocultura foi a principal responsável pela abertura e consolidação
de vários caminhos e estradas, ligando o litoral aos sertões. Entretanto, as atividades
auríferas e mineradoras também ocasionaram a abertura de estradas de conexões in-
ternas e externas à capitania. Com estes caminhos por terra, viu-se, por um lado, o in-
cremento das relações com as zonas pastoris e com Salvador, o que facilitou o ir e vir
da população e a circulação e comercialização de produtos. Por outro, as cabeceiras
do rio de Contas acabaram por tornar-se o principal ponto de bifurcação das vias de
comunicação para a capitania de Minas Gerais e, internamente, para Jacobina, Vale de
São Francisco e Salvador.53
Assim como a carne verde, o pescado constituía-se alimento de idêntica importância
para a dieta alimentar da população da cidade de Salvador, sendo parte da atividade pes-
queira da capitania direcionada a complementar a demanda da capital. Por conta disso,
das vilas do sul, como Porto Seguro e Ilhéus, chegavam semanalmente a Salvador mais
de vinte embarcações trazendo toda sorte de peixes, como garoupas e meros salgados.54
As áreas de mineração formavam territórios geográficos restritos, porém, eco-
nomicamente concentrados. Os dois únicos núcleos mineradores da Bahia, Jacobina e
Rio de Contas, situavam-se na encosta e na parte meridional da Chapada Diamantina,
respectivamente. As minas existentes nestas localidades produziram, de fins do sécu-
lo XVII a meados do XVIII, quantidade significativa de ouro. A existência, por volta
de 1725, de 700 bateias em Jacobina e 830 em Rio de Contas, e a criação, no ano subse-
quente, de duas Casas de Fundição nas referidas vilas, testemunham o peso econômico
das jazidas ali encontradas para as receitas metropolitanas, embora não tivessem parâ-
metro com a produção das Minas Gerais. A produção aurífera dessas localidades era
enviada para Salvador e, de lá, exportada para o reino. Das bateias de Jacobina e do Rio
das Contas, foram exportadas para o reino, entre 1729 e 1732, através da Casa da Moeda
da Bahia, cerca de 75 mil oitavas de ouro.
Das mais diversas atividades comerciais desenvolvidas em Salvador, a de maior peso
foi certamente o comércio de escravos, oriundo das relações comerciais externas com
o continente africano, ou seja, o tráfico transatlântico de escravos, e não apenas pelo

52 Thales de Azevedo, Povoamento da cidade de Salvador, Salvador, Itapuã, 1969, p. 158; AMS, Atas da Câmara,
1641-1749, fl. 115, 330.
53 Silva et al., Urbanização..., p. 90.
54 Documentos Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [DH]. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1928- ...,
v. 54, p. 71.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 111

montante de capitais envolvido, mas, ainda, pelo fato do seu produto, o escravo, ser in-
dispensável à organização econômica colonial: da economia de exportação à economia
interna. No final do século XVIII, quando a economia baiana estava bastante aquecida,
o comércio entre Salvador e a costa africana alcançou o montante de 720:000$000 (se-
tecentos e vinte contos de réis). Cerca de 92% desse total relacionava-se ao tráfico de
escravos.55 A reprodução de parte de uma tabela feita por Ribeiro56 nos dá uma noção do
volume de escravos desembarcados em Salvador no século XVIII:

Quadro 1: Estimativas do volume de escravos desembarcados em Salvador (1710-1800)


Ano Alden Viana Goulart Verger1 Manning Eltis Santos Ribeiro

1701-10 70.000 86.400 76.868 53.303

1711-20 70.000 67.200 85.993 67.240

1721-30 66.256 14.250 63.400 69.451 53.207

1731-40 47.520 47.500 49.000 32.712 38.517

1741-50 46.016 41.468 39.200 39.160 46.795

1751-60 63.500 38.416 24.615 34.400 33.913 36.421

1761-70 29.500 41.446 19.267 36.000 43.852 50.522

1771-80 31.500 29.816 15.554 30.000 34.506 47.032 57.435

1781-90 24.000 20.233 12.234 32.700 34.918 50.933 56.796

1791-1800 39.000 63.850 62.301 40.842 53.100 59.689 74.524 69.406

Fontes: Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 1995, p. 283; Luís Viana Filho, O negro na Bahia: um ensaio clássico sobre a escravidão. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1988, p. 155 e 157; Maurício Goulart, Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico.
São Paulo: Alfa-Ômega, 1975, p. 215, 216 e 272; Pierre Verger, Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o Golfo do
Benin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987, p. 661-663; Patrick Manning, “The
slave trade in the Bight of Benin, 16401890”. In: Henry A. Geremy; Jan S. Hogendorn (Eds.), The uncommon market.
Essays in the economic history of the Atlantic slave trade. New York: Academic Press, 1979, p. 136-138; David Eltis, “The
Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade: A Reassessment.” In: The William and Mary Quarterly, v. 58, Is-
sue 1, 2001, p. 36; Corcino Medeiros dos Santos, “A Bahia no comércio português da Costa da Mina e a concordância
estrangeira”. In: Maria Beatriz Nizza da Silva (Org.), Brasil – colonização e escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2000, p. 236-237; Alexandre Ribeiro, O tráfico de escravos e a Praça mercantil de Salvador (c. 1680c. 1830). Dissertação
(Mestrado em História Social) – PPGHIS-UFRJ, Rio de Janeiro, 2005, anexo 2, p. 114-118.

55 Ribeiro, A cidade de Salvador..., p. 63


56 Ibid., p. 68
112 avanete pereira sousa

Embora cada autor tenha utilizado metodologia diferente na computação desses


dados, eles demonstram que o fluxo comercial de escravos da África para Salvador foi
intenso e contínuo, embora tenha tido períodos de menor expressividade, motivados
por conjunturas adversas. Segundo Ribeiro,57 outros estudos demonstram que, do sé-
culo XVI até meados do XIX, Salvador recebeu 1.349.724 escravos africanos, cifra que
representa cerca de um terço de todo o contingente desembarcado no Brasil nesse pe-
ríodo. O que nos permite concluir pela centralidade econômica dessa praça mercantil
no comércio internacional de escravos.
Em síntese, pode-se concluir que havia uma clara dependência econômica da
umland e da hinterland em relação à cidade de Salvador – para onde se destinava a pro-
dução, quer de subsistência, quer de exportação, a ser escoada, bem como fluxos co-
merciais diversos. Essa relação de influência, controle e poder econômicos, por um
lado, dinamizava e dava fôlego às atividades produtivas e comerciais dessas áreas, mas,
por outro, submetiam-nas a um exclusivismo comercial que causava certo desconfor-
to aos habitantes e setores produtivos de várias vilas – obrigados a enviar os produtos
de sua subsistência para o mercado da capital –, posto privar-lhes da liberdade de con-
sumo e de comércio.58
Das principais vilas produtoras de farinha e outros gêneros de subsistência, por
exemplo, como as vilas de Camamú, Cairu, Boipeba, Maragojipe, Jaguaripe, Santo
Amaro e Rio de Contas, brotavam questões relativas à falta de liberdade na escolha
do produto a ser cultivado, definição que obedecia à necessidade de provimento do
núcleo urbano central, ou seja, de Salvador, bem como em sua comercialização, so-
bretudo a obrigatoriedade de se comercializar “barra a dentro”, o que significava, na
maioria das vezes, exportar apenas para Salvador. Reclamações compartilhadas pela
população das vilas de Barra do Rio das Contas, Barcelos e Maraú, na capitania de
Ilhéus, bem como em Alcobaça, Prado e Caravelas, na capitania de Porto Seguro. Es-
sas queixas frequentemente se transformavam em requerimentos às câmaras dessas
vilas, instrumento através do qual se cobravam ações das municipalidades no sentido
de minorar as interferências econômico-fiscais dos poderes da capital.59
Movimento semelhante ocorria com criadores de gado das vilas de Cachoeira,
Abrantes, São Francisco do Conde e, sobretudo, de vilas do sertão, Água Fria, Uru-
bu, Itapicuru de Cima e Jacobina, em que a reivindicação central, expressa em di-
versos documentos, consistia no fim da obrigatoriedade de respeitar as regras do
monopólio da carne verde, impostas pela Câmara de Salvador, que os condicionava

57 Ibid., p. 69-72.
58 Sousa, A Bahia no século XVIII..., p. 139.
59 APEB. Câmaras do Interior. (1766-1799).
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 113

a vender, por preço tabelado, exclusivamente para os marchantes registrados na ci-


dade. Estes, por seu turno, demandavam normas mais flexíveis e mais vantajosas na
comercialização do produto.60
Dos pequenos comerciantes, dos quatro cantos da capitania, surgiam críticas à
preponderância da cidade de Salvador, sobretudo no que dizia respeito à tributação
excessiva e à imposição de preços, pesos e medidas61. Sobre estes, advém a grande par-
te das referências documentais abrangendo tanto a capital como o recôncavo e ser-
tões. Para a Câmara da capital, seguiu a maior parte das correspondências de grandes,
médios e pequenos comerciantes. A partir de 1785, com a criação do Celeiro Público,
cuja administração ficava a cargo do governo da capitania, a venda dos chamados “ce-
reais da terra” (farinha, milho, arroz e feijão) centralizou-se nesse órgão62 e, conse-
quentemente, em Salvador, contrariando o interesse das câmaras das diversas vilas da
capitania. Assim, o lugar das manifestações e queixas dos agentes econômicos passa a
ser outro. O Espaço de mediatização/negociação, relativamente amplo e flexível com
as câmaras, torna-se restrito e, portanto, mais conflituoso.63
Tal dinâmica mercantil e comercial expressava a existência de um “espaço perifé-
rico” no interior do sistema colonial e da capitania da Bahia; espaço este que, ao lon-
go do século XVIII, havia transformado Salvador no epicentro mercantil de produ-
tos de subsistência, para além de sua importância e centralidade nas relações comer-
ciais com outras capitanias, bem como nas transações comerciais de larga escala com
a metrópole.64

Elementos da centralidade econômica inter-regional


Não há dúvidas quanto à extensão do comércio interno de Salvador com outras capi-
tanias. As trocas inter-regionais, feitas com mercadorias importadas, sobretudo es-
cravos, que chegavam através do porto de Salvador, empregavam navios e outras em-
barcações em número superior aos que faziam conexão com Lisboa.65 Para a capitania

60 APEB. Ouvidoria Geral do Cível. 1746-1800.


61 APEB, Cartas do Senado a Sua Majestade, 1742-1822, fls. 161-164v. Vide ainda requerimentos de produtores
e comerciantes de diversas vilas do Recôncavo às suas respectivas câmaras, solicitando não serem tributados
pela câmara de Salvador na comercialização de suas mercadorias no porto, posto já terem pago as taxas devi-
das em suas localidades. APEB. Câmaras do Interior. (1766-1799). Doc. 18 e 20.
62 Afrânio Simões Filho, Política de abastecimento na economia mercantil: o Celeiro Público da Bahia (1785-1860),
Tese (Doutorado em História) – PPGH-UFBA, Salvador, 2011.
63 APEB, Governo da Capitania. Celeiro Público. 1785.
64 Barickman, Um contraponto baiano..., p. 131.
65 Arruda, O Brasil..., p. 191. AHU-CU, Bahia, CA, cx. 105, docs. 20521-20526.
114 avanete pereira sousa

do Rio de Janeiro, circulavam, anualmente, mais de 40 embarcações, levando tabaco,


escravos e tecidos da Índia e retornando com gêneros de subsistência, como farinha,
milho, feijão, arroz e toucinho, para complementar o abastecimento da população de
Salvador, sempre deficitário.66
Ao longo do século XVIII, o comércio entre a Bahia e a capitania do Rio Gran-
de de São Pedro do Sul tornara-se um dos mais significativos. Salvador enviava para
aquela capitania produtos importados da Europa e outros de origem local, como rou-
pas, tecidos, sal, açúcar, doces e escravos e recebia em troca farinha de trigo, courama,
queijos, sebo, velas, milho e, principalmente, carnes seca e salgada. Uma média 40 a 50
embarcações, vindas do Rio Grande, frequentavam anualmente o porto de Salvador.67
De acordo com Ximenes,68 o Rio Grande era a principal capitania no comércio com
Salvador, sendo responsável pelo envio de 17,9% das embarcações que aportaram na
Bahia em 1797, percentagem que, naquele ano, ultrapassou a dos navios vindos de Por-
tugal em cerca de 3%.
Com outras capitanias do centro-sul, o volume de comércio realizado era tam-
bém expressivo. De Salvador, seguiam para São Paulo, além de escravos, roupas, te-
cidos e objetos de prata, trocados por farinha de trigo, milho, toucinho e legumes di-
versos. Da região do rio da Prata e da Nova Colônia do Sacramento, Salvador impor-
tava prata e couros e exportava tabaco, tecidos, ferragens, ferramentas e madeira.69
Com a capitania de Minas Gerais foi, talvez, realizado o maior volume de trocas,
para a época, não obstante as intervenções régias no sentido de estabelecer a quanti-
dade de escravos transportados pelas estradas da Bahia em direção às áreas minera-
doras. A abertura do “Caminho Novo” (concluído em 1725), que ligou o Rio de Janeiro
às Minas, constituiu-se, também, em obstáculo às transações comerciais com aquela
localidade. De fato, a exploração do ouro, a partir do final do século XVII e, um pouco
depois, de diamantes naquela capitania, acompanhada do aumento demográfico em
toda a Chapada Diamantina, potencializa o papel fundamental da Bahia, sobretudo de
sua capital, como natural mercado abastecedor das Gerais – condição advinda da sua
posição geográfica, da facilidade de comunicações terrestres e, ainda, fluviais com o

66 Wanderley Pinho, História de um engenho no Recôncavo. São Paulo: Editora Nacional; Brasília: INL, 1982, p. 349;
Anna Amélia Vieira Nascimento, Letras de risco e carregações no comércio colonial da Bahia, 1660-1730, Salvador,
Centros de Estudos Baianos, 1997, p. 34; Corcino M. dos Santos, Relações comerciais do Rio de Janeiro com Lisboa
(1763-1808), Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980, p. 58; AHU-CU, Bahia, CA, cx. 105, docs. 20521-20526.
67 Nascimento, Letras de risco..., p. 39; Vilhena, A Bahia..., p. 57; AHU-CU, Bahia, CA, cx. 105, docs. 20521-20526;
BNRJ, II, 33, 29, 54.
68 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 80.
69 Vilhena, A Bahia..., p. 58; APEB. Livro de Notas, nº 39, fl. 210; nº 46, fl. 188; nº 57, fl. 290; DH, v.40, p.129; v. 42,
p. 223-224.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 115

São Francisco e seus afluentes –, para onde eram enviados gêneros alimentícios, teci-
dos, objetos e artigos de luxo, móveis de jacarandá, ferramentas e, sobretudo, escravos
e gado.70 Pela rota conhecida como “Caminho dos Currais do Sertão”, que, confor-
me alerta Santos,71 “não era uma rota apenas, mas como o próprio nome sugeria, era
um emaranhado de estradas, atalhos e picadas, que convergiam em direção ao rio São
Francisco, tanto na sua parte baiana, quanto na mineira”, transportavam-se tais merca-
dorias em um percurso “efetuado pelas margens do rio São Francisco até o entronca-
mento com o rio das Velhas, de onde se seguia para Sabará”.72 Da margem esquerda do
Rio das Velhas podia-se chegar ao Sertão do rio Pardo, na Bahia, através de um cami-
nho construído por João Gonçalves do Prado. A partir daí, pela margem direita do Rio
Paraguaçu, se chegava mais rápido a Cachoeira, no Recôncavo baiano.73
O Regimento das Minas, de 1702, proibira o comércio direto da Bahia com aquela
região mineradora, facultando-o apenas à comercialização de gado. Sem efetivo efei-
to, pois, de acordo com Zamela,74 “contraria as leis naturais que regem as trocas eco-
nômicas”, Salvador continuara a usufruir dos rendimentos do “duplo tráfico de gado e
ouro”, como afirma Katia Mattoso,75 por longo período, ao mesmo tempo em que man-
tinha a relação de poder econômico sobre outros núcleos urbanos coloniais.
Os caminhos que ligavam a Bahia às Gerais eram antigos, mas relativamente bem
estruturados para o comércio; não havia parte despovoada nem deserta: havia água
em abundância, mantimentos de toda espécie, gado muar para condução e casas para
hospedagem.76 Segundo Boxer, as proibições de comércio pelos caminhos dos sertões
baianos privavam os moradores das minas de mercadorias fundamentais, pois

[...] escravos, sal, farinha, ferramentas e outras coisas necessárias à vida, fica-
vam mais baratas se importadas da Bahia do que de São Paulo e Rio de Janei-
ro, não só por ser mais fácil a viagem pela estrada do rio [São Francisco] como

70 Mafalda P. Zamela, O abastecimento da capitania das Minas gerais no século XVIII. São Paulo: Hucitec, 1990,
p. 69-81.
71 Raphael Freitas Santos, Minas com Bahia: mercados e negócios em um circuito mercantil setecentista. Tese (Douto-
rado em História) – PPGH-UFF, Niterói, 2013, p. 64.
72 Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes. Mercadores das Minas setecentistas. São Paulo: Anablu-
me, 1999, p. 83.
73 Santos, Minas com Bahia..., p. 74.
74 Zamela, O abastecimento..., p. 71.
75 Mattoso, Bahia..., p. 110-111.
76 Santos, op. cit., p. 80-81. O autor refere-se aqui às informações de autor anônimo, em 1705.
116 avanete pereira sousa

por produzirem as capitanias do Sul o escassamente necessário à sua própria


subsistência.77

Se a lavoura canavieira do Recôncavo, por si só, dinamizava o tráfico de africa-


nos, o fluxo de escravos da Bahia, através do Porto de Salvador, para a capitania de
Minas Gerais, constituiu-se algo à parte. A descoberta de ouro pelos paulistas naquela
região, entre 1693 e 1695, impulsionou a demanda por escravos e enriqueceu os trafi-
cantes baianos, que obtinham, com essa mercadoria, o triplo do que lhe rendia o provi-
mento das áreas canavieiras.78 Ao longo do século XVIII, a Costa da Mina constituiu-
-se na região de origem dos escravos que aportavam na cidade da Bahia, embora não
se possa desconsiderar, como apontam os estudos de Cristiana Ximenes, a parcela de
importância que o comércio entre Bahia e Angola foi alcançando, não se comerciali-
zando apenas escravos e fumo, mas, também, produtos diversos vindos de Portugal.
Segundo a autora, em 1796, a importação de escravos de Angola pela Bahia foi da or-
dem de 46:400$000 (quarenta e seis contos e quatrocentos mil réis), e a exportação de
mercadorias portuguesas foi de 11:200$000 (onze contos e duzentos mil réis).79
Ainda que o tráfico de escravos para as Minas tenha entrado em declínio, não su-
cumbiu completamente. Ao que parece, até a década de 1720, o porto do Rio de Janeiro
ainda não havia suplantado o da Bahia em termos de suprimento de escravos para as
Minas. De Salvador, foram remetidos, entre 1716 e 1717, 772 cativos para aquela região,
suplantando em quase três vezes o número enviado pelo porto do Rio de Janeiro no
mesmo período.80 Para Florentino, “levas menores de negreiros ainda aportavam em
Salvador [mesmo no período de crise], e parte de seus escravos continuava a ser re-
metida para as Minas sempre ávidas por mão-de-obra”.81 Ribeiro traduz em números
essa conjuntura:

Na década de 1739-1759, a Bahia enviou aproximadamente 2.100 cativos por


ano para a capitania mineira [...]. na década de 1760, foram enviados para Minas
Gerais cerca de 60% dos escravos despachados em Salvador (cerca de 920 por
ano), fazendo de Minas o destino preferencial dessas remessas.82

77 Charles R. Boxer, A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1969, p. 67.
78 Manolo Florentino, Alexandre Vieira Ribeiro e Daniel Domingues da Silva, “Aspectos comparativos do tráfico
de africanos para o Brasil (séculos XVIII e XIX)”. Afro-Ásia, 31, 2004, p. 83.
79 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 76.
80 Santos, Minas com Bahia..., p. 107.
81 Florentino, Ribeiro e Silva, “Aspectos comparativos..., p. 90.
82 Ribeiro, A cidade de Salvador..., p. 51
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 117

Ainda segundo o autor, “a diminuição desse fluxo [...] estava atrelada à redução
da produção de minérios”. Entretanto, o desenvolvimento da economia interna minei-
ra continuou a demandar cativos.83 Assim, a Bahia passou, então, a exercer “um papel
complementar para o atendimento da demanda do interior do Brasil”, posto que:

parte dos cativos remetidos de Salvador para Minas Gerais acabavam nas vilas,
fazendas e veios de Goiás e Mato Grosso onde, entre fins do século XVIII e as
primeiras décadas do século XIX, os escravos provenientes da África Ociden-
tal eram maioria entre os africanos.84

Os estudos de Florentino demonstram que houve mesmo, efetivamente, a partir


de 1780, “a recuperação do tráfico entre Brasil e Costa da Mina”, na esteira dos “de-
sembarques em Salvador e, secundariamente, no porto do Recife”, motivada por fato-
res como a instabilidade europeia nesse final de século (Revolução Francesa, abando-
no de colônias europeias no Caribe, decadência da Companhia Holandesa das Índias
Ocidentais etc.) 85 Ademais, no que diz respeito ao Brasil, “a ascensão de Pombal per-
mitiu à América Portuguesa experimentar reformas que objetivavam a recuperação da
economia colonial”, sendo a Bahia, e sua capital, Salvador, beneficiadas, a longo pra-
zo, com tais reformas, uma vez que ajustes e reenquadramento do tráfico levaram ao
“reflorescimento da atividade agrícola e pecuária” com o incremento da “produção de
cana-de-açúcar”, “mas também a de fumo e couro”. 86
Para Stuart Schwartz,87 o período compreendido entre 1780 e 1830 foi de recupera-
ção da agricultura baiana, nomeadamente, da produção açucareira. De 10 mil caixas/ano
de açúcar, em 1770, passou-se a uma média de 16.300, entre 1796 e 1811, fato que deman-
dou a intensificação do tráfico de escravos, que passou de dez navios que saíam, anual-
mente, de Salvador para a África, para dezessete, e chegou a trinta, entre 1808 e 1812.
Com regiões mais próximas, como Alagoas e Sergipe, Salvador mantinha relações
comerciais através da revenda de mercadorias europeias e da compra de farinha, fei-
jão, arroz, legumes, porcos e galinhas.88 Em 1797, segundo estudos de Ximenes,89 da
Continguiba, principal porto da capitania de Sergipe D’ El Rey, saíram trinta e cinco

83 Ibid., p. 52.
84 Florentino, Ribeiro e Silva, op. cit., p. 91.
85 Ibid., loc. cit.
86 Ibid., p. 91-92.
87 Schwartz, Segredos internos..., p. 78.
88 Vilhena, A Bahia..., p. 57; APEB. Livro de Notas, nº 39, fl. 210; nº 46, fl. 188; nº 57, fl. 290; DH, v. 40, p. 129; v. 42,
p. 223-224..
89 Ximenes, Bahia e Angola..., p. 80-81.
118 avanete pereira sousa

embarcações para o porto de Salvador, número equivalente a 13,9% de todas as embar-


cações que entraram no porto da Bahia naquele ano. A capitania do Ceará foi, durante
muito tempo, a principal abastecedora de carne seca à capital baiana, de onde o produ-
to seguia para outras localidades. Tal posição, entretanto, passou a ser secundária em
função das constantes secas naquela região. Do Ceará, seguia, ainda, para Salvador,
farinha, couro e algodão, que eram trocados por mercadorias manufaturadas como
fazendas brancas e de cor, ferragens, pólvora, chumbo e breu.90
A relação de Salvador com outras capitanias, pautada no comércio de importação
e exportação de gêneros diversos, é um indicativo de que a sua centralidade estava
definida pela concentração de elementos, sobretudo do ponto de vista econômico, ne-
cessários à dinamização de extenso território. Podemos mesmo arriscar a dizer que a
sua centralidade era o elemento fundante, estruturante, consolidador e hierarquizante
das articulações entre estes diferentes espaços. Nesse caso, talvez possamos ainda fa-
lar em centralidade territorial, inserindo Salvador no conceito de território-rede, de
que nos fala Rogério Haesbaert,91 ou seja, como espaço de exercício de um poder (po-
lítico, econômico e social) fluido, móvel, sustentado por redes, também elas fluidas,
flexíveis, móveis. Mesmo sendo um conceito a ser aplicado ao mundo contemporâneo,
segundo Lahuerta,92 se refletirmos sobre o sentido da territorialidade no Antigo Regi-
me, veremos a existência de redes, e estas, mesmo fluidas, sustentavam a coesão.
Espaço central de uma extensa rede, a centralidade de Salvador comunicava-se
“com diferentes territórios e localidades, numa espécie de atributo universal produzia
relações de dominação e presumia [...]”93 certa tenacidade para manter a sua capitali-
dade. Sem sombra de dúvida, no período em foco, a conectividade de Salvador com
diferentes espaços se dava, decisivamente, no campo econômico.

Elementos da centralidade econômico-fiscal


Os privilégios e monopólios se tornaram o elemento mais peculiar na história fiscal
portuguesa, e foi este o sistema aplicado no ultramar. Nesta modalidade, “o Estado

90 Vilhena, A Bahia..., p. 58; DH, v. 87, p. 216-217. Sobre o comércio de carne seca no Ceará, cf.: Almir Leal Olivei-
ra “O comércio das carnes ecas do Ceará no século XVIII: as dinâmicas do mercado colonial” In: Moura, Denise
Aparecida Soares; Carvalho, Margarida Maria de; Lopes, Maria Aparecida (Org.). Consumo e abastecimento na
história. São Paulo: Alameda, 2011, p. 167-188.
91 Rogério Haesbaert, Territórios alternativos. São Paulo: Contexto, 2002.
92 Lahuerta, Geografias em movimento..., p. 131.
93 Esta foi a forma à qual Iara Lis Franco Schiavinatto, Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (1780-
1831). São Paulo: Unesp, 1999, p. 210, referiu-se à cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, perfeitamente apli-
cável à cidade de Salvador no século XVIII.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 119

sujeita a produção ou comércio de certo bem a monopólio, explorando-o diretamente


ou concedendo-o a particulares a troco de uma renda fixa”, caso em que a coroa não
despendia de recursos na estruturação de aparelho fiscal e ainda ficava imune às insatis-
fações da população, uma vez que, nesse modelo, “o imposto desaparece formalmente,
sendo absorvido pelo preço de monopólio – passa a operar como um imposto implícito”. 94
Outro mecanismo utilizado pela coroa portuguesa em terras coloniais foi o ar-
rendamento, a particulares, do direito de cobrança de tributos: marco da colonização
ibero-americana.95 Mas não apenas. Na França, no princípio do século XVIII, Braudel
afirma que o sistema de arrendamentos e contratação foi, gradativamente, se consoli-
dando, e também se institucionalizando, gerando grupos de capitalistas encarregados
de arrecadar conjuntos de impostos. Com o estabelecimento do Arrendamento Geral,
a partir de 1726, o arrendatário passou a pagar

antecipado ao rei montante previsto no contrato [...]. Terminada a operação,


uma parte fantástica da riqueza do país ficava nas mãos dos arrendatários, ar-
recadada do sal, do tabaco, do trigo, de importações e exportações de toda a
espécie. Evidentemente, o Estado aumentava as suas pretensões de contrato em
contrato [...]. A margem de lucro, porém, mantinha-se enorme.96

Enfim, para o império português, Boxer aponta a diversidade das formas de arre-
cadação de receitas, conformando-se em tributações como:

[...] monopólios das especiarias asiáticas; impostos sobre escravos, açúcar e sal;
os quintos reais na produção do ouro; o monopólio da exploração das minas de
diamantes brasileiras; a cobrança de dízimos eclesiásticos em Minas Gerais; os
contratos de pesca da baleia na Baía e no Rio de Janeiro; o corte de madeiras com
substâncias corantes e das árvores utilizadas para a construção naval; a venda de
certos cargos, como, por exemplo, o posto de capitão de uma fortaleza e cargos
administrativos e legais de menor importância, como o de notário nos sertões
brasileiros. Mesmo coisas tão banais como travessias fluviais dos rios e as taxas,
pagas pelos lavradores de minério, trabalhadores dos fornos de cal e pescadores
eram frequentemente arrendadas pela Coroa ou pelos seus representantes [...].97

94 Sérgio Vasques “Origem e finalidade dos impostos especiais de consumo”, Revista fórum de Direito Tributário,
Belo Horizonte, ano 3, n. 17, set/out, 2005, p. 55.
95 Mauro de Albuquerque, Letrados, fidalgos e contratadores de tributos no Brasil colonial. Brasília: Coopermídia/
Unafisco/Sindifisco, 1993, p. 99.
96 Fernand Braudel, Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII: os jogos das trocas. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 1998, p. 489.
97 Charles R. Boxer, O império marítimo português, 1415-1825, Lisboa, Edições 70, s.d., p. 310-311.
120 avanete pereira sousa

Na capitania da Bahia, no século XVIII, a incidência da carga tributária e os rendi-


mentos oriundos de concessões comerciais foram numericamente significativos. Des-
tes, os que incidiam sobre o açúcar e o tabaco eram, talvez, os mais relevantes, devido
à capacidade produtiva da capitania. À medida que aumentavam as exigências fiscais
por parte da metrópole, a cidade de Salvador, cada vez mais portadora de instâncias e
agentes especializados, tornava-se uma espécie de “aparato fiscal” da coroa portugue-
sa em território americano, centralizando, em torno de sua Câmara Municipal, fun-
ções econômicas e fiscais mais amplas, bem como potencializando os instrumentos
necessários a uma maior eficácia no controle da arrecadação dos tributos locais a pon-
to de tornar-se, em termos de arrecadação municipal, a terceira cidade que mais arre-
cadava no império português, atrás apenas de Lisboa e do Porto.98
A importância da cidade de Salvador e o exercício de sua centralidade fiscal estão
diretamente relacionados ao poder tributário de sua Câmara, que exercia o “governo
econômico” da cidade, a partir do previsto em seu código de posturas, representando
um bom exemplo da ação das municipalidades no que diz respeito às questões econô-
mico-fiscais e ao controle do espaço urbano e de seus habitantes.
A agricultura e o comércio eram os setores da vida econômica da cidade e arredo-
res em que mais se fazia sentir o poder tributário camarário. Sobre os dois principais
produtos da agricultura de exportação, o açúcar e o tabaco, incorreram impostos e ta-
xações diversas – como, por exemplo, as taxas sobre a aguardente e vinho de mel (es-
tabelecidas em torno de 1628) e a dízima do tabaco, aguardente e mais gêneros da terra
(1652) 99 – e, à Câmara de Salvador, coube diferentes papéis, quer o de cobrar e adminis-
trar as imposições oriundas da coroa, quer o de estabelecer suas próprias imposições.
Ou seja, direta ou indiretamente, a cidade de Salvador não ficou imune aos sabores e
dissabores das duas mais importantes culturas de seu entorno.
Outro conjunto homogêneo de ingressos aos cofres públicos municipais, só que de
forma direta, também tinha na produção e comércio de açúcar e de tabaco, elemento
determinante. Refiro-me às rendas das Balanças Públicas, melhor dizendo, especifica-
mente, de duas Balanças Públicas: a “da Praia” e a “do Peso Real do Tabaco”. Tratava-se
de receitas decorrentes da cobrança de taxas por serviços oferecidos pela Câmara à
população, sobretudo àqueles que viviam do comércio dos produtos mencionados. Es-
sas balanças ficavam situadas em lugares estratégicos, geralmente nos pontos de carga
e descarga de mercadorias, para serem utilizadas por todos aqueles que efetuavam o

98 Sousa, A Bahia..., p. 131.


99 Wolfgang Lenk, Guerra e pacto colonial: a Bahia contra o Brasil holandês, 1624-1654. São Paulo: Alameda, 2013,
p. 351-352.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 121

comércio de seus produtos, sobretudo do açúcar e do tabaco, dentro e fora da cidade,


mediante pagamento de determinada taxa.100
Ao longo do século XVIII, a arrematação das Balanças da Praia e do Peso Real
rendeu à municipalidade montante significativo para a época101. Era o tipo de receita
que melhor expressava a dinâmica comercial interna e externa à cidade, bem como o
seu papel de centro intermediador de trocas regionais e exportador de matéria-prima.
De 1708 a 1767, anos para os quais se tem dados relativamente seriados, o valor do
contrato da Balança da Praia ficou entre 333$000 (trezentos e trinta e três mil réis) e
2:570$000 (dois contos, quinhentos e setenta mil réis). As flutuações ocorridas duran-
te esses anos podem ser explicadas com base nos ciclos conjunturais do desempenho
da produção açucareira e de tabaco, – mas não apenas a esses fatores – ora restringin-
do, ora estimulando as exportações baianas e, consequentemente, influenciando no
fluxo comercial interno. De 1708 até 1714, a Balança da Praia foi sempre arrematada
pelo valor de 500 a 1 conto de réis, com pequena baixa para o ano de 1713.102 A estabili-
dade desses valores pode ser explicada pelo crescimento da demanda do açúcar, após
drástica baixa de preços na década de 1680, como assegura Schwartz.103 De 1715 a 1720,
o valor não ultrapassou a casa dos 333 mil réis, com breve interregno entre 1720 e 1723,
período em que os contratos voltaram ao patamar de 500 mil réis, ou um pouco mais.104
A estagnação da produção açucareira, entre as décadas de 1720 e 1730, conforme atesta
Ferlini,105 devido a motivos diversos, como o êxodo dos lavradores para as Minas, a paz
na Europa, com o fim da guerra de sucessão espanhola, etc., teve reflexos diretos na ar-
rematação da Balança da Praia, que só voltou a ser bem avaliada em meados da década
de 1740, quando ultrapassou a casa dos 2 contos de réis, estabilizando-se em torno de
1 conto de réis nos dois próximos decênios.106 De acordo com Ferlini, pode-se afirmar
que o preço do açúcar permaneceu estável até 1768 e, a partir daí, as exportações cres-

100 Sousa, A Bahia..., p. 178. Aos comissários de embarcações e donos de armazéns, por exemplo, só era permitido
o uso de meia arroba de pesos em miúdo. Para comercializar qualquer produto que pesasse mais, teriam que
recorrer à Balança pública. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742.
101 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v
102 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v
103 Schwartz, Segredos internos..., p.146-169.
104 Ibid.
105 Vera Lúcia Amaral Ferlini, Terra, trabalho e poder: o mundo dos engenhos no nordeste colonial. São Paulo: Brasilien-
se, 1988, p. 87.
106 AMS, Atas da Câmara, 1644-1649, fl. 25. AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 206, doc. 14742; AMS, Arrematações das
Rendas da Câmara, 1768-1774, sn/fl; Portarias, 1710-1725, fls. 151v.
122 avanete pereira sousa

ceram sensivelmente, acompanhadas do aumento dos preços. De fato, o maior valor


já lançado pela renda da Balança da Praia foi entre 1774 e 1783, quando ultrapassou os 2
dois contos e 500 mil réis. 107
O valor lançado, entre 1768 e 1800, pelo contrato da balança do Peso Real foi me-
nos oscilante que o da Balança da Praia, em anos anteriores; também não chegou a al-
cançar valores tão elevados, embora não tivesse sido nada insignificante. O montante
contratado no decurso dos 32 anos investigados girava em torno de 892$290 réis anu-
ais. A referida renda chegou a ser arrematada por 400$000 (quatrocentos mil réis),
entre 1768 e 1780, e por 1:304$000 (um conto, trezentos e quatro mil réis), entre 1795
e 1800. Entre 1780 e 1795, o contrato estabilizou-se em 1 conto e 200 mil réis devido à
criação de balanças específicas nos próprios trapiches.108
Ao longo do século XVIII, a arrematação dessas duas Balanças compunha a segun-
da fonte de renda mais importante da municipalidade: 16,57% da receita camarária sub-
metida a contrato. Perdia apenas para a renda dos talhos, proveniente das imposições
sobre o direito de abastecimento dos açougues da cidade, que representava 71,89%.109
Concretamente, a observação mais cuidadosa das funções econômico-fiscais da
Câmara de Salvador, além de traçar um panorama da centralidade fiscal-tributária da
cidade, revela o peso da cultura do açúcar e do tabaco na composição de suas receitas,
indicando que, para além de conformarem-se como fator de acumulação externa de
capitais, esses produtos permeavam todos os aspectos da vida da cidade, moldando-
-lhe o seu cotidiano.
As receitas originadas da tributação indireta representavam a maior parte dos ren-
dimentos da Câmara de Salvador e estavam na base de sua centralidade fiscal que, em
síntese, decorria da robustez socioeconômica de Salvador, imanente da sua condição
de centralidade/capitalidade, de aglomerado urbano que concentrava funções econô-
micas diversas, que permitiam gerar certo grau de riqueza, de onde saíam os tributos
cobrados pelo poder local, quer seus próprios tributos, quer os de caráter régio. A dife-
rença entre Salvador e as demais vilas e cidades da América Portuguesa e, porque não

107 AMS, Arrematações das Rendas da Câmara, 1774-1783.


108 De 1710 a 1740, verificou-se o declínio do preço do açúcar da Bahia no mercado internacional, sobretudo pela
perda da qualidade, seguido por uma escassez de gêneros de subsistência na capitania, registrada e alardeada
pela própria municipalidade. Cf. APEB, Ordens Régias, M. 23, doc. 124. De 1740 a 1749, há uma retomada dos
preços até 1750, quando sofrem ligeira queda, mas tenderam a permanecer estáveis. A partir da década de
1770, a produção açucareira do nordeste volta a crescer, motivada pelo aumento gradual dos preços, impulsio-
nando outras culturas, dinamizando a economia como um todo. Na Bahia, é notável o incremento do comércio
urbano, apoiado no aumento da produção interna e do consumo. Sobre conjunturas coloniais, ver, especifica-
mente, Ferlini, op. cit., p. 84-95. Vide, ainda, Schwartz, Segredos internos..., p. 146-169 e 342-343.
109 Sousa, A Bahia..., p. 162.
a centralidade/capitalidade econômica de salvador no século xviii 123

dizer, de boa parte do império, reside no fato desta conformação econômico-fiscal re-
sultar em avultadas receitas para os cofres municipais e, consequentemente, fazer dela
um espaço central, mercado de convergências econômicas diversas.
Em linhas gerais, eram essas as características e dinâmica da política econômico-
-fiscal da cidade de Salvador, no século XVIII, que lhe conferiam primazia frente a
outras vilas e cidades, colocando-a em posição central no interior do império. Esta po-
sição estava pautada em uma hierarquia urbana assimétrica, marcada pelas diferenças
que naturalmente definem o centro e suas periferias. Salvador era o principal nó de
uma rede urbana que ia além da outra margem da Baía de Todos os Santos. Era o centro
de lugares dispersos, de múltiplas territorialidades, de um sistema fluvial e marítimo
que articulava zonas produtivas e de consumo, hinterlândias mercantis totalmente de-
pendentes da sua condição de capitalidade.

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Acesso em: 13 abr. 2015.
GUIDA MARQUES

“Por ser cabeça do Estado do Brasil”.


As representações da cidade da Bahia
no século XVII1,2

Diz-se, e tem-se escrito muitas vezes, que Salvador nasceu capital, lembrando que
Tomé de Sousa tinha por missão de erguer “uma cidade que fosse como coração no
meio do corpo, donde todas [as capitanias] se socorressem e fossem governadas”.3 Na
verdade, o regimento do primeiro governador determinava que fossem construídas
“uma fortaleza e uma povoação grande e forte, em local conveniente, para a partir dali
ajudar os outros povoamentos e administrar justiça”.4 A metáfora do “coração”, usa-
da por Frei Vicente do Salvador, já no princípio do século XVII, vinha assim realçar a
especificidade jurídica e administrativa da cidade de Salvador, enquanto sede das ins-
tituições régias. E a sua criação, conjuntamente com o governo-geral, conferia-lhe, de

1 Este estudo foi realizado no âmbito de um projeto de investigação individual de pós-doutoramento, financia-
do pela FCT [SFRH/BPD/64610/2009]. Integra igualmente o projeto coletivo Bahia 16-19 [Marie Curie Actions
PIRSES-GA-2012-318988].
2 N. do E. Definiu-se pela preservação das normas textuais e bibliográficas adotadas no país de origem do texto.
3 A citação é de Frei Vicente do Salvador, História do Brasil [1627]. 7ª ed. São Paulo: Itatiaia, 1982, p. 143.
4 Regimento Tomé de Sousa, 17.12.1548. In: Marcos Carneiro de Mendonça, Raízes da formação administrativa
do Brasil. Rio de Janeiro: IHGB, 1972, v. 1, p. 35-51.
18 guida marques

facto, um papel diferenciado.5 No entanto, é sobretudo como “cabeça” que aparece


referida ao longo do século XVII, tornando-se então claramente a “cabeça do Estado
do Brasil”. Tais imagens são usuais, e a linguagem política desse período testemunha
amplamente a influência da metáfora corporal.6 Entretanto, se as imagens de “cora-
ção” e de “cabeça” remetem uma e outra para funções essenciais do corpo político, a
primeira sugere mais a ideia de circulação, enquanto a segunda reenvia precisamente
para a de hierarquia. Talvez esse matiz não seja indiferente, e surge como um indício
do processo que pretendemos abordar aqui.
Assim, se “o fato de Salvador ser reconhecida como cabeça deste povo e Estado
[...] é decisivo na compreensão do papel que desempenhou”, esse próprio facto resul-
ta, na verdade, de um processo lento e complexo que merece ser considerado.7 Tendo-
-se analisado o caso de Goa no século XVI, ficou demonstrado que a sua capitalidade
“relaciona-se directamente com a génese de todo o aparelho burocrático associado à
figura do rei”.8 É certo que a soberania capitaliza um território.9 E, com certeza, no que
diz respeito a Salvador, o tornar-se “cabeça” foi acompanhando a institucionalização
do próprio Estado do Brasil, que ganha corpo, justamente, ao longo do século XVII.10
No entanto, é preciso notar que tal processo vinha sendo igualmente construído por
outros elementos. Trata-se, portanto, de questionar a “capitalidade” da Bahia, ou me-
lhor a sua “capitalização”, durante o século XVII.11
Para além da presença das instituições régias que vêm caracterizando a cida-
de da Bahia, deve-se ter em conta o seu papel económico e o crescimento da sua

5 Pedro Puntoni, “‘Como coração no meio do corpo’: Salvador, capital do Estado do Brasil”. In: Laura de Mello
e Souza, Júnia Furtado e Fernanda Bicalho (Org.), O Governo dos Povos. São Paulo: Alameda Editorial, 2009,
p. 371-387.
6 Augustin Redondo (Dir.), Le corps comme métaphore dans l’Espagne des XVIe et XVIIe siècles. Paris: Publications de
la Sorbonne/Presses de la Sorbonne Nouvelle, 1992; Gianluca Briguglia, “Langages politiques, modèles et mé-
taphores corporelles. Propositions historiographiques”. L’Atelier du Centre de Recherches Historiques. Disponível
em: <http://acrh.revues.org/318>. Acesso em: 15 de jan. 2008.
7 Puntoni, op. cit., p. 380.
8 Catarina Madeira Santos, “Goa é a chave de toda a Índia”. Perfil político da capital do Estado da Índia (1505-1570).
Lisboa: CNCDP, 1999, p. 34.
9 Michel Foucault, Sécurité, Territoire, Population. Cours au Collège de France. 1977-1978. Paris: Hautes Etudes/
Gallimard/Seuil, 2004, p. 15-16.
10 Guida Marques, “De um governo ultramarino. A institucionalização da América Portuguesa no tempo da união
das coroas (1580-1640)”. In: Pedro Cardim, Leonor Freire Costa e Mafalda Soares da Cunha (Org.), Portugal na
Monarquia Hispânica. Dinâmicas de integração e conflito. Lisboa: CHAM, 2013, p. 231-252.
11 Importa observar que a palavra “capital” não aparece na documentação portuguesa dos séculos XVI e XVII.
Por “Bahia”, refiro aqui a própria cidade de Salvador, sendo designada pelos contemporâneos por “cidade da
Bahia”.
“por ser cabeça do estado do brasil”   19

população, ambos evidentes ao longo do século XVII, o seu relacionamento com a


Coroa portuguesa nesse decurso, bem como a sua relação não só com o Recôncavo,
mas também com o sertão. 12 É ainda preciso olhar para a própria evolução urbana
e contemplar os discursos e as imagens que construíram a cidade durante esse pe-
ríodo, contribuindo, por seu turno, para o reconhecimento do estatuto peculiar de
Salvador. 13 Procuraremos, assim, abordar a construção da cidade da Bahia, enquanto
“cabeça do Estado do Brasil”, numa perspetiva alargada, seguindo o fio das suas re-
presentações.14 Tal abordagem poderá esclarecer como a própria distinção política
da Bahia vai sendo construída ao longo do século XVII, como a interação com as di-
nâmicas imperiais e o papel da câmara de Salvador vão determinando esse processo.
Focando os discursos da cidade, e sobre a cidade, importa ainda considerar como
tais representações vão articulando instituições e práticas sociais, e questioná-las
antes de mais como lugares de tensão.
Conjuntamente porto colonial e cidade de Antigo Regime, a “cabeça do Estado do
Brasil” continua sendo, no século XVII, um símbolo de imperium e um instrumento de
colonização.15 Trata-se, afinal, de desvelar os vários tópicos e espaços envolvidos nas
representações da cidade da Bahia ao longo do século XVII, e considerar as suas várias
significações. Ao examinar os seus usos e apropriações, mas também as suas faltas e
os seus excessos, poderemos ainda aproximar a relação da cidade seja com os Índios,
seja com os Africanos, e abordar de outra maneira o seu papel na construção da pró-
pria cidade da Bahia.

A distinção política da cidade da Bahia


A vontade do rei determinou a criação da cidade da Bahia, em 1549, atribuindo-lhe
logo uma especificidade jurídica e administrativa que a isolou dos outros espaços,

12 Stuart B. Schwartz, Segredos Internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras,
1999.
13 Roger Chartier, “Le monde comme représentation”. Annales ESC, 44, 6, p. 1505-1520, 1989; Louis Marin, De la
Représentation. Paris: Hautes Etudes/Gallimard/Seuil, 1994 ; Sandra Jatahy Pesavento, “Muito além do espaço:
por uma história cultural do urbano”. Estudos Históricos. Rio de Janeiro. v. 8, n. 16, p. 219-231, 1995.
14 Conforme ao quadro de reflexão proposto por Hansen, para abordar as representações luso-brasileiras do sé-
culo XVII, entende-se por representação: “1. O uso particular, em situação, de signos no lugar de outra coisa; 2.
A aparência ou a presença da coisa ausente produzida na substituição; 3. A forma retórico-poética da presença
da ausência; 4.A posição hierárquica encenada na forma como tensão e conflitos de representações”. Cf. João
Adolfo Hansen, “Barroco, neobarroco e outras ruínas”. Floema Especial-Ano II, n .2, p. 15-84, 2006.
15 Stuart B. Schwartz, “Cities of empire: Mexico and Bahia in the sixteenth century”, Journal of Inter-American Stu-
dies, v. 11, op. 4, p. 616-637, 1969.
20 guida marques

enquanto sede das instituições régias.16 A criação dum Bispado, em 1551, também fez
dela o centro da administração religiosa da América Portuguesa.17 Se parecia mais uma
aldeia, no final do século, contudo, Salvador surge essencialmente como uma cidade
régia.18 Descrevendo a Bahia em 1583, Fernão Cardim declarava que “a Bahia é cidade
del-rei e a corte do Brasil, nela residem os senhores bispo, governador, ouvidor geral
com outros oficiais de justiça de sua majestade”.19 Por seu turno, Gabriel Soares de
Sousa pretendia mostrar, no seu memorial de 1587, “o muito que ha que dizer da Bahia
de Todos os Santos, cabeça do Estado do Brasil”.20 Desde então, e cada vez mais ao lon-
go do século XVII, a cidade de São Salvador vem sendo referida como “cabeça de todo
o Estado”.21
Os eventos da Bahia, quando da tomada da cidade pelos Holandeses, em 1624,
contribuíram muito para difundir tal designação.22 A sua recuperação vitoriosa, no
ano seguinte, pelas forças luso-castelhanas suscitou, com efeito, uma produção escrita
considerável, levando conjuntamente à projeção imperial da cidade da Bahia, enquan-
to cenário principal dos eventos, e à afirmação do seu estatuto político, como “cabe-
ça de Estado do Brasil”.23 Abundantemente descrita, os superlativos não faltaram para
descrevê-la. A cidade da Bahia surge, em todas essas relações, como a “parte la mejor
mas util y de mayor importancia de todas”; o “principal lugar de todo o Estado do Brasil”,

16 Determinada pelo rei no regimento atribuído ao governador Tomé de Sousa, em 1548, a fundação de Salvador
foi orientada localmente por Luís Dias, “mestre das obras da fortaleza e cidade do Salvador”, com base nas tra-
ças levadas de Lisboa. Cf. Nestor Goulart Reis Filho, Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil (1500-
1720). São Paulo: Pioneira, 1968; Rafael Moreira, “O arquitecto Miguel de Arruda e o Primeiro Projecto para
Salvador”. Cadernos de Pesquisa do Lap, 37, p. 35-50, 2003.
17 Bruno Feitler e Evergton Sales Souza (Org.), A Igreja no Brasil. Normas e práticas durante a vigência das Constitui-
ções Primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: FAP-UNIFESP, 2011. No que diz respeito à dimensão religiosa
da cidade da Bahia, remetemos para o estudo de Evergton Sales Souza e Bruno Feitler neste volume.
18 Theodoro Sampaio, História da fundação da cidade do Salvador. Bahia: Tipografia Beneditina, 1949.
19 Fernão Cardim, Tratado da terra e gente do Brasil [1583]. São Paulo: Edusp, 1980. Anchieta não realça tanto essa
distinção na sua Informação do Brasil de 1584, lembrando somente que “a Baía e Rio de Janeiro são del-Rei e
cidades e todas as mais capitanias são de senhorios e vilas”. José de Anchieta, Informação do Brasil e de suas
capitanias [1584]. In: id., Cartas, Fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
20 Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000, p. 258.
21 Simão de Vasconcelos, Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil [1663]. Lisboa: CNCDP, 2001, p. 61.
22 Charles R. Boxer, The Dutch in Brazil. Oxford: Clarendon Press, 1957; Stuart B. Schwartz, “The Voyage of the
Vassals. Royal power, noble obligations and merchant capital before Portuguese restoration of independence
(1624-1640)”. American Historical Review, 96, 3, p. 735-762, 1991.
23 Guida Marques, “As ressonâncias da restauração da Bahia (1625) e a inserção da América Portuguesa a União
ibérica”. In: Santiago Martínez Hernández (Dir.), Governo, Política e Representações do Poder no Portugal Habsbur-
go e nos seus Territórios Ultramarinos (1581-1640). Lisboa: CHAM, 2011, p. 121-146.
“por ser cabeça do estado do brasil”   21

a “Metropoli de toda la Provincia”, a “cabeça de todo o Estado”. Constantemente designa-


da como sede das instituições régias, a cidade vê-se revestida de uma dimensão pro-
fundamente política. Sendo referida como “assento dos governadores, Bispos e Re-
lação da justiça que nela ordinariamente residem”, a sua descrição fica determinada
pelos monumentos oficiais e religiosos, que hierarquizavam claramente a arquitetura
urbana.24 O jesuíta Domingos Coelho veio juntar-lhe uma outra perspetiva, fazendo
de Salvador um duplo de Lisboa, ao partilhar com ela o mesmo patrono Santo Antó-
nio.25 E como Goa para o Estado da Índia, a Bahia tornou-se então a chave do Brasil.26
Na esteira destes eventos, tanto as relações dedicadas à América Portuguesa quanto
os sermões pregados pelo padre António Vieira durante essa década vêm confirmar a
função eminente da cidade da Bahia.27 Esta visão de Salvador, igualmente expressa nos
papéis de governo da época, ligava assim estreitamente a cidade à Coroa portuguesa.28
Tal representação da cidade da Bahia converge com o processo de institucionali-
zação vivido pela América Portuguesa durante e depois da união dinástica das coroas
de Portugal e de Castela.29 A estrutura do governo-geral torna-se mais complexa ao
longo do século XVII. A densificação da rede dos oficiais régios, a criação da Rela-
ção da Bahia, em 1609, e novamente em 1652, a formalização do ofício de secretário do
Estado do Brasil, a instauração de novas instituições administrativas, assim como de

24 O que vem, aliás, refletido nas plantas da cidade da Bahia do século XVII. Cf. Marin, “La ville dans sa carte et son
portrait. Propositions de recherche”. In: Id., De la représentation..., p. 204-218.
25 Carta do Padre Domingos Coelho de 24.10.1624. In: Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio
de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1945, v. V, p. 35-48. Este mesmo paralelo é desenvolvido, anos mais tar-
de, por António Vieira no seu Sermão de Santo António proferido em 1638.
26 Santos, ‘Goa é a chave de toda a Índia’...
27 Na representação teológico-política da América Portuguesa oferecida então por Vieira, a cidade da Bahia de-
sempenha uma função fulcral, sendo claramente distinta do resto do Brasil. Comentando o ataque holandês
contra a Bahia em 1638, Vieira declarava que “o animo com que vinha o inimigo era de que a Baía se lhe entre-
gasse [...] e por consequência se lhe rendesse o resto do Brasil”, reiterando a mesma consideração no Sermão
da Visitação de Nossa Senhora Santa Isabel no mesmo ano. No Sermão de Santo António, igualmente de 1638,
Vieira evocava o “inimigo, assim como tem dominado em grande parte os membros deste vastíssimo Estado,
assim se atreveu a vir combater e quis conquistar a cabeça”. Cf. Guida Marques, “António Vieira, de Salvador
da Bahia à São Luis do Maranhão. Les représentations de l’Amérique portugaise et les tensions de l’empire au
XVIIe siècle”. In: Pierre-Antoine Fabre, Ilda Mendes dos Santos, Carlos Zeron (coord.), António Vieira (1608-
1697). Perspectives de la recherche actuelle. Paris: Champion (no prelo).
28 Guida Marques, L’invention du Brésil entre deux monarchies. Gouvernement et pratiques politiques de l’Amérique
portugaise dans l’union ibérique (1580-1640). Tese (Doutorado em História) – EHESS, Paris, 2009.
29 Fátima Gouvêa, “Poder político e administração na formação do complexo atlântico português (1645-1808)”.
In: João Fragoso, Fátima Gouvêa, Fernanda Bicalho (Org.), O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial por-
tuguesa (séc. XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 285-315; Marques, “De um governo ultra-
marino...”, p. 231-252.
22 guida marques

várias juntas governativas, ou ainda a elevação da cidade a Arcebispado, em 1676, e a


instalação dum Tribunal da Relação Eclesiástica testemunham amplamente o proces-
so movimentado.30 Essa evolução político-institucional do Estado do Brasil contribui
claramente para reforçar a importância da cidade da Bahia, não só no seio da Améri-
ca Portuguesa como no conjunto do próprio império. A ingerência da monarquia na
cidade não deixou de ser uma fonte de tensão sempre renovada ao longo do século
XVII, mas levou, de facto, a uma acrescida interdependência da cidade da Bahia com
a Coroa.31
Durante esse período, a articulação entre o poder monárquico, o governo-geral e
a câmara de Salvador fica cada vez mais evidente, conferindo à cidade da Bahia um pa-
pel importante no sistema político do Estado do Brasil.32 A participação financeira da
Bahia na conquista do Maranhão e nas fortificações da costa nas primeiras décadas de
Seiscentos, o seu empenho na guerra contra os Holandeses, como nos socorros envia-
dos para Angola e, mais tarde, para a colônia de Sacramento, dão conta do claro envol-
vimento da cidade da Bahia na defesa do Atlântico português.33 O sustento da nume-
rosa infantaria, presente no presídio da cidade, e assumido pela câmara de Salvador,
revela ainda mais a profunda relação entre a cidade e a Coroa.34 A relação da câmara
de Salvador com a Fazenda Real torna-se assim particularmente forte durante o século
XVII. A imbricação e, muitas vezes também, a confusão entre as rendas municipais e a
Fazenda Real, nomeadamente em torno da “administração dos donativos dos vinhos”

30 Stuart B. Schwartz, Burocracia e sociedade no Brasil colonial. A suprema Corte da Bahia e seus Juízes (1609-1751).
São Paulo: Editora Perspectiva, 1979; Pedro Puntoni, “Bernardo Vieira Ravasco, secretário do Estado do Brasil:
poder e elites na Bahia do século XVII”. In: Vera Ferlini; Fernanda Bicalho (Org.), Modos de Governar: idéias e prá-
ticas políticas no império português, séculos XVI a XIX. São Paulo: Alameda, 2005, p. 34-65.
31 Os conflitos entre a câmara de Salvador e a Relação nomeadamente, mas também com o próprio governador-
-geral são recorrentes ao longo do século. AHU-CU, Bahia, Luiza da Fonseca [LF], cx. 15, doc. 1749; cx. 10, doc.
1126-1127. Cf. Schwartz, Burocracia e sociedade..., p. 210 ss.
32 Affonso Ruy, História da Câmara Municipal da Cidade do Salvador. Salvador: Câmara Municipal de Salvador,
1953; Puntoni, “‘Como coração no meio do corpo’...”, p. 371-387; Avanete Pereira Sousa, A Bahia no século
XVIII. Poder político local e atividades económicas. São Paulo: Alameda, 2012.
33 Documentos Históricos do Arquivo Municipal: Atas da Câmara [AC]. Salvador, Prefeitura Municipal, 1951, v.
6, p. 254: termo de rezulução e asento que se tomou com os eleitos nomeados no termo atras para elege-
rem o meio em que se an de por os 10 mil cruzados que pede smgde para a nova colonia, 24.07.1694. Cf.
Guida Marques, “O Estado do Brasil na União ibérica: dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de
Portugal”, Penélope, 27, 2002, p. 7-36; Wolfgang Lenk, Guerra e pacto colonial: a Bahia contra o Brasil holandês,
1624-1654. São Paulo: Alameda, 2013.
34 Documentos Históricos [DH], Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, v. III, p. 183: Carta do governador-geral a câ-
mara de Salvador referindo o papel “que contem as clausulas com que esse tribunal toma a sua conta o susten-
to ordinario da infantaria desta praça”, 1652.
“por ser cabeça do estado do brasil”   23

para o sustento da infantaria, mas também de outras contribuições, seja na ocasião da


guerra do Brasil contra os Holandeses, seja quando do Dote da rainha da Inglaterra
e Paz de Holanda, reforçaram o laço político da cidade com a Coroa.35 De facto, e da
mesma maneira que por Goa em relação ao Estado da Índia, a cooperação da câmara
de Salvador torna-se essencial para o governo da América Portuguesa, sendo reco-
nhecido pela Coroa em várias ocasiões.36
A responsabilidade pela circulação da informação assumida pela cidade de Salva-
dor, apesar de algumas dificuldades na sua transmissão através do Atlântico ao longo
do século, também contribui para realçar sua particularidade. Favorecida por sua po-
sição estratégica no Atlântico, informações de Angola e de Goa transitam pela cidade
da Bahia antes de chegar a Lisboa.37 Aliás, a correspondência do padre António Vieira
na Bahia do final do século XVII revela a intensidade de tal circulação.38 Por outro lado,
o registro das provisões régias nos livros da própria câmara, e a conservação nos seus
cofres das “vias de sucessão do governo”, atesta a relação privilegiada entre a cidade
da Bahia e a Coroa.39 O papel da câmara de Salvador no reconhecimento da nova di-
nastia, em 1641, confirma esta sua função.40 A comunicação política mantida pela câ-
mara de Salvador com a Coroa prolonga-se na participação da cidade no corpo místi-
co da monarquia, com a celebração dos eventos metropolitanos. A exemplo das festas
organizadas pelo nascimento do infante Dom Afonso;41 das ações de sentimento pela

35 O papel desempenhado pela câmara da Bahia na repartição da contribuição para o dote da Rainha da Inglaterra
e a paz de Holanda deve ser sublinhado. Cf. Leticia dos Santos Ferreira, “É Pedido, não Tributo”. O donativo para
o casamento de Catarina de Bragança e a paz de Holanda (Portugal e Brasil, c. 1660-c. 1725). Tese (Doutorado em
História) – PPGH/UFF, Niterói, 2014. Sendo assim, as funções particulares de administração e de fiscalidade
desempenhadas por Salvador aproximam esta cidade das principais cidades europeias. Cf. Emmanuel Le Roy
Ladurie (Dir.), La ville des temps modernes de la Renaissance aux Révolutions. Paris: Seuil, 1998.
36 Charles R. Boxer, Portuguese society in the Tropics. The Municipal councils of Goa, Macao, Bahia and Luanda, 1510-
1800. Madison: The University of Wisconsin Press, 1965.
37 Tal foi o caso da notícia da deposição do governador de Angola, Tristão da Cunha, que é conhecida em Lisboa
a partir da Bahia. Arquivo Histórico Ultramarino [AHU], Conselho Ultramarino [CU], Angola, cx. 9, doc. 95.
38 António Vieira, Cartas do Brasil. Organização: João Adolfo Hansen. São Paulo: Hedra, 2003.
39 AC, v. 2, p. 12, onde se alude ao registro das provisões régias anteriores a 1625.
40 Documentos Históricos do Arquivo Municipal: Cartas do Senado [CS]. Salvador, Prefeitura Municipal, 1951, v. 1,
p. 12, treslado da carta que os oficiais da câmara desta cidade da Bahia mandarão as capitanias do sul.
41 AC, v. 2 [1641-1649], p. 204: treslado e registro de huma portaria do senhor governador sobre as festas do se-
renissimo infante Dom Afonso coando nasceo, 1643.
24 guida marques

morte do rei D. João IV;42 das festas que se fizeram para a rainha de Grã Bretanha, pela
vitória alcançada junto de Estremoz, ou ainda pela paz de Holanda.43
No entanto, a relação da cidade da Bahia, enquanto “cabeça”, com o mesmo Es-
tado do Brasil revela-se ambígua. Praça mercantil, a cidade da Bahia afirma-se, du-
rante o século XVII, como metrópole comercial, desempenhando rapidamen-
te um papel essencial na exportação de açúcar, fumo e algodão, bem como no rea-
bastecimento de géneros alimentícios, na redistribuição de produtos, e no forne-
cimento de mão de obra escrava.44 Apesar da sua importância económica, a sua
dominação sobre o Estado do Brasil não parece tão evidente. É certo que o poder
da Bahia sobre o Recôncavo se fortalece durante o século XVII.45 Visando garan-
tir nomeadamente o abastecimento da cidade, mas também das frotas que desem-
barcavam na Bahia, a câmara de Salvador exerce sua influência política sobre o in-
terior, estendendo, por vezes abusivamente, a sua jurisdição sobre as vilas da re-
gião. Assim, o chamado conchavo da farinha, estabelecido com as principais vilas
do Recôncavo, não deixa de ser uma fonte de tensão e de relações conflituosas.46
No entanto, a situação é bem diferente no que diz respeito às outras capitanias, as mais
importantes sendo as do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Se a presença do tribunal da
Relação na cidade da Bahia garante-lhe uma função central na coordenação e comuni-
cação com a Coroa, a preeminência política da cidade permanece confusa.47 De certa
maneira, a relação da Bahia com o Estado do Brasil acaba por refletir as dificuldades do
próprio governador-geral para impor-se frente aos governadores das capitanias mais
importantes. Basta aqui lembrar os reiterados conflitos de jurisdição referentes aos
poderes do governador-geral sobre Pernambuco e Rio de Janeiro, tantas vezes con-
testados ao longo do século.48 Mais profundamente, importa ter em conta a relação

42 AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 1, docs. 110 e 111.


43 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 16, doc. 1901; cx. 17, docs. 1948 e 1988. Cf. Stuart B. Schwartz, “Ceremonies of Public
Authority in a Colonial Capital. The King’s Processions and the hierarchies of Power in Seventeenth Century
Salvador”. In: Liam Matthew Brockey (Ed.), Portuguese colonial cities in the Early Modern World. Farnham: Ash-
gate, 2008, p. 177-205.
44 Schwartz, Segredos internos... Remetemos mais particularmente para o texto de Avanete Pereira Sousa no pre-
sente volume.
45 Avanete Pereira de Sousa, A Bahia no século XVIII. Poder político local e atividades econômicas, São Paulo: Alame-
da, 2012.
46 DH, v. 3, p. 216: Carta para os oficiais da câmara da vila de Boipeba, 1652. Ver, sobre o assunto, João Pedro Go-
mes, “Conflitos políticos em torno do pão de São Tomé: o provimento da cidade de Salvador em farinha de
mandioca (1685-1713)”, Anais de História de Além-Mar (no prelo).
47 AHU-CU, Bahia, LF , cx. 13, doc. 1620.
48 Guida Marques, L’invention du Brésil...
“por ser cabeça do estado do brasil”   25

dialógica mantida por cada cidade da América Portuguesa com a Coroa, contrariando
a hierarquização do território.49 A ambiguidade do estatuto da Bahia aparece final-
mente no que diz respeito aos chamados “procuradores do Estado do Brasil”. Quando,
em 1653, os moradores do Brasil pediram para ter representação nas Cortes, D. João IV
concedeu à câmara da Bahia, por ser “metrópole do Brasil”, que pudesse nomear duas
pessoas para participar nas Cortes.50 No entanto, a documentação revela uma cons-
tante oscilação na expressão usada para designar o procurador da Bahia, representan-
do quer o conjunto do Estado do Brasil quer somente a cidade de Salvador.51
Esta confusão sugere afinal uma distinção política precisando ser constantemen-
te reatualizada, levando a cidade da Bahia e, nomeadamente, a câmara de Salvador, a
explorar não só a sua relação particular com a Coroa, por ser cidade del-rei e sede das
instituições régias, mas também a sua dimensão atlântica e imperial.

O protagonismo da câmara de Salvador na capitalização da Bahia


Se o fundamento mercantil da Bahia nunca é negado, e vai servindo muitas vezes de
argumento político na correspondência da câmara de Salvador com a Coroa, a dig-
nidade da cidade permanece estreitamente ligada à simbólica régia, fundando tanto
a legitimidade quanto a realidade da cidade, e determinando, por fim, as suas repre-
sentações seiscentistas. No entanto, importa lembrar aqui que, ao contrário de outras
cidades do império como Goa ou Macau, a cidade da Bahia não se viu atribuir logo
o estatuto de Lisboa, Porto ou Évora, regulando-se meramente segundo as provisões
referentes aos municípios recolhidas nas Ordenações.52 De facto, é somente em 1646
que a cidade da Bahia acaba por obter os mesmos privilégios da cidade de Porto.53 A
importância de tais privilégios, trazendo prestígio e poder local, era reconhecida tan-
to no reino quanto no conjunto do espaço imperial.54 E o empenho da cidade da Bahia

49 Marques, “O Estado do Brasil na União ibérica...”, p. 7-36; Annick Lempérière, Entre Dieu et le Roi, la République.
Mexico, XVIe-XIXe siècles. Paris: Les Belles Lettres, 2004.
50 AHU-CU, Bahia, LF , cx. 12, doc. 1527. Da mesma maneira, os pedidos desses procuradores incidiam sobre in-
teresses muito locais ou, pelo contrário, diziam respeito ao conjunto da América Portuguesa.
51 Para um estudo pormenorizado da ação dos procuradores da Bahia em Lisboa, reenviamos para a contribuição
de Pedro Cardim e Thiago Krause neste volume.
52 Boxer, Portuguese society in the Tropics...
53 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 10, doc. 1176-1177.
54 Fernanda Bicalho, “As câmaras ultramarinas e o governo do Império”. In: Fragoso, Gouvêa, Bicalho (Org.), O
Antigo Regime nos Trópicos..., p. 189-221; Fernanda Bicalho, João Fragoso e Fátima Gouvêa, “Uma leitura do Bra-
sil colonial”, Penélope, 23, p. 67-88, 2000.
26 guida marques

em defender estes privilégios e procurar outros tantos junto à Coroa revela não só a
importância do quadro imperial, como também o papel dos discursos e das imagens
produzidas para construir esta cidade enquanto “cabeça”.55
Na verdade, a presença do governador-geral na cidade da Bahia não deixa de fa-
vorecer tais interações, contribuindo, por seu turno, para afirmar e realçar o estatuto
de “cabeça” da cidade de Salvador. É precisamente o que faz o vice-rei, marquês de
Montalvão, ao dirigir-se aos oficiais da câmara de Salvador, em 1640, lembrando-lhes
os deveres da Bahia enquanto “cabeça de Estado”. Ele declarava assim que

esta tam entendida a importancia deste estado [...] e da defesa desta praça de
que depende tudo o que hoje nelle se conserve [...] e assim vossas mercês pelo
que devem ao lugar em que Deos os poz para acodirem ao remedio desta repu-
blica de que são cabeças [...]56

E invocava expressamente o modelo de Lisboa para confiar as despesas de fortifi-


cação da Bahia ao município,57

porquanto convem ao serviço de sua Magestade que a camera desta cidade tenha
entendido as obrigações da cidade de Lisboa quando se tratam de prevenções de
guerra para que ordene esta camara que a sua imitação se faça o mesmo nesta ci-
dade ha de se advertir que a camara de Lisboa tem a seu cargo o reparo dos muros
o concerto das portas delles cujas chaves nas ocasiões de guerra se entregam aos
cidadoes que a camera nomeia [...] e porque he razão que nesta cidade se uze o
mesmo que em Lisboa pois as ocasioens aqui sam mais certas e a guerra viva en-
tendendo a camara que lhe corem estas obrigações e reparo do muro [...]58

Interiorizando esse papel, a câmara de Salvador projetava-se, por seu turno, como
um dos principais lugares em que assentava o poder político da Coroa na cidade. E
afirmava-se, enquanto “cabeça de Estado”, ao reivindicar o seu papel de conselho jun-
to ao governador-geral e, portanto, ao próprio monarca. Informações e propostas
de reforma, emanando da câmara de Salvador, são profusas durante todo o século, e

55 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 14, doc. 1632.


56 AC, v. 1, p. 451.
57 Ibid., v. 1, p. 436.
58 De outra maneira, mas contribuindo igualmente para realçar a dignidade da Bahia, era o pedido a Coroa feito
pelo vice-rei, Conde de Óbidos, em 1663 e 1664, recorrendo desta vez ao modelo do vice-rei do Estado da Ín-
dia, que ele tinha sido, para reivindicar os mesmos poderes de graça, e usá-los na Bahia. AHU, Bahia, LF, cx. 17,
doc. 1975: 29.11.1663; doc. 1989: 29.01.1664 e doc. 1990.
“por ser cabeça do estado do brasil”   27

incidem sobre vários aspectos.59 O governador-geral, Francisco Barreto, referia, com


alguma ironia, essa propensão da câmara de Salvador para opinar sobre o governo, ao
lembrar o “zello [dos oficiais da câmara] para os discursos e advertências sobre a Fa-
zenda Real”.60 Anos mais tarde, era com evidente irritação que reagia o Conselho Ul-
tramarino, ao declarar que “à câmara de Salvador se devia logo responder severamente de sor-
te que entendam aqueles vereadores que Vossa Alteza não tinha repartido com eles o cuidado de
como ha de governar a sua monarquia”.61 A intensidade da comunicação política entre a ci-
dade da Bahia e a Coroa, nomeadamente durante a segunda metade do século XVII, é
igualmente reveladora dessa pretensão da cidade. A defesa de sua distinção prolonga-
-se no empenho da câmara de Salvador em reforçar a sua representação junto à Corte.
Aqui, é preciso realçar a ação dos sucessivos procuradores da Bahia em Lisboa, as pro-
pinas pagas pela câmara de Salvador ao secretário do Conselho Ultramarino “per acu-
dir aos negocios desta câmara e povo”,62 e até a alguns dos próprios conselheiros, como
Feliciano Dourado, “pelo mesmo cuidado do procurador desta camara”,63 ou ainda o
envio de procuradores extraordinários.64 Tal preocupação desdobra-se de várias ma-
neiras, e as cartas dirigidas ao rei quando da chegada de um novo governador, agrade-
cendo a sua nomeação, ou ainda solicitando a prorrogação do seu tempo, não devem
ser consideradas como meramente formais, antes como verdadeiros actos discursivos
e representações.65 Finalmente, a consulta da documentação da câmara revela a crença
alimentada pelos vereadores acerca da legitimidade de seu exercício do governo polí-
tico do império, representando localmente a autoridade da Coroa.66 Com “a confiança
de ser esta terra cabeça deste Estado”.67
A reapropriação por parte da câmara de Salvador da representação da cidade en-
quanto “cabeça de estado” torna-se assim um argumento usado na sua correspondência

59 Entre os temas mais recorrentes encontra-se a questão da reforma dos terços da infantaria da Bahia. AHU-CU,
Bahia, LF, cx. 15, docs. 1736 e 1780; cx. 16, doc. 1903.
60 DH, v. 3, p. 180.
61 DH, v. 88, p. 153: Consulta conselho ultramarino, 12.12.1678.
62 AC, v. 2, p. 247 e 289-290; CS, v. 2, p. 91.
63 Ibid., v. 5, p. 143.
64 Ibid., v. 6, p. 312.
65 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 13, doc. 1554; cx. 14, docs. 1654 e 1690; cx. 17, doc. 1947.
66 João Adolfo Hansen, A Sátira e o Engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Ateliê Edito-
rial, 2004.
67 CS, v. 1, p. 12: treslado da carta que os oficiaes da camara desta cidade da Bahia mandarão as capitanias do sul,
12.02.1641.
28 guida marques

com a Coroa, lembrando “que por cabeça deste Estado deve ser mais honrada”.68 Este seu
estatuto é, aliás, a razão invocada por Sebastião da Rocha Pitta para justificar a reins-
talação de um tribunal da Relação na Bahia, em 1652, lembrando que “atendendo o Se-
nhor rey D. João IV a tantos inconvenientes e a que a Cabeça de hum Estado tão vas-
to não devia estar sem este tão grande como preciso tribunal, o restituihio a Bahia”.69
O “ser cabeça” justificava igualmente os pedidos da câmara de Salvador referente à
criação de novos ofícios tocantes à sua jurisdição, devido ao crescimento das funções
administrativas assumidas pela cidade da Bahia, nomeadamente na segunda metade do
século XVII.70 Tal representação da cidade legitimava finalmente os pedidos de privi-
légios da câmara da Bahia para os seus cidadãos. Assim, quando, em 1658, requeria ao
rei “queira fazer merce a este Estado e principalmente a esta cidade cabeça deste Es-
tado conceder-lhe privilegio real para que seia Universidade”.71 Sem sucesso, porém.72
Ou quando solicitava licença do rei para a instalação dum mosteiro de freiras na cida-
de.73 Justificado “para crédito de nossa pátria e maior honra de Deos”, demorou várias
décadas antes de ser atendido favoravelmente pela Coroa.74 Não por acaso, a sua con-
cessão acaba por intervir na esteira da contribuição para o dote da Rainha de Inglater-
ra.75 Importa observar, de facto, a relativa relutância da Coroa na concessão de alguns
dos privilégios requeridos pela câmara da Bahia, e as demoradas negociações a que

68 CS, v. 1, p. 54: 1656.


69 Sebastião da Rocha Pitta, Historia da America Portugueza, desde o anno de mil e quinhentos do seu descobrimento
até o de mil e setecentos e vinte e quatro. Lisboa Occidental: Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1730, p. 335.
70 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 15, docs. 1766 e 1777; cx. 16, doc. 1827; cx. 24, docs. 2945 e 2946.
71 AHU-CU, Bahia, LF, cx 15, doc. 1730, carta da câmara ao rei, pedindo que “nella se possam dar os graus de mes-
tre em artes e licenceados na filosofia e theologia e o grau de doutores completos os annos distinados pera isso
assy e da maneira que o tem a cidade de Evora e sua universidade pera que desta maneira se animem os pais e
estudem os filhos e aia sojeitos neste estado aonde se estuda no collegio de Jesus”.
72 A câmara da Bahia não deixou de reiterar várias vezes este pedido nos anos subsequentes. AHU-CU, Bahia, LF,
cx. 16, docs. 1856 e 1902; cx. 17, doc. 1955; cx. 24, doc. 3008.
73 AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 1, doc. 66, parecer datado de 1646.
74 AHU-CU, Bahia, avulsos, cx. 1, doc. 92 (1655); AHU-CU, Bahia, LF, cx. 17, doc. 1993 (1664); cx. 23, doc. 2689
(1675); CS, v. 2, p. 28 ss. Para comparação, cf. Francisco Bethencourt, “Os conventos femininos no império por-
tuguês. O caso do convento de Santa Mónica em Goa”. In: O rosto feminino da expansão portuguesa. Congresso
internacional realizado em Lisboa, Portugal 21-25 de novembro de 1994: Actas. Lisboa: Comissão para a Igual-
dade e para os Direitos das Mulheres, 1994, v. 2, p. 631-652.
75 Pelo menos tal é a ligação estabelecida pela própria câmara num dos seus reiterados pedidos. Cf. , carta do go-
vernador Francisco Barreto para Smgde sobre a contribuição para o dote de Inglaterra e o desejo dos morado-
res fundarem mosteiro de freiras para suas filhas e carta dos oficiais da câmara sobre o mesmo assunto de 20
de maio de 1662. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 16, docs. 1657-1658.
“por ser cabeça do estado do brasil”   29

deram lugar.76 É ainda preciso ter em conta a pressão acrescida da Coroa sobre a Amé-
rica Portuguesa nesse mesmo período, solicitando cada vez mais o seu apoio financeiro.
A afirmação do estatuto de “cabeça de Estado” integrava, assim, as estratégias de legiti-
mação da cidade da Bahia e dos pedidos da câmara, justificados quer pelos seus serviços
valiosos à Coroa, quer, por fim, pelo respeito da hierarquia e dos privilégios inerentes
à cultura política de Antigo Regime.77 Afirmando o seu estatuto privilegiado frente às
exigências sempre maiores da Coroa portuguesa, a câmara de Salvador empenhava-se
em reverter a obediência dos fiéis vassalos da Bahia em benefício da cidade.
Assim, ao procurar estes privilégios, a câmara de Salvador não deixa de tecer uma
relação estreita entre a cidade enquanto “cabeça” de Estado e os seus próprios oficiais.
Estes podiam alegar que a Bahia é “autorizada com uma relação que tem regimento da casa
da suplicação e um arcebispo metropolitano de todo o estado” e concluir que os vereadores
deviam estar à altura de tanta importância.78 A dignidade da cidade contribuía, dessa
maneira, para a dignidade dos próprios oficiais da câmara de Salvador.79 E o interesse
da gente da governança da Bahia na construção e reprodução dessa mesma relação, in-
vestindo na representação da cidade tanto como “cabeça do Estado do Brasil”, quanto
como parte valiosa do império, revela o seu esforço para defender a sua distinção, e
obter o seu reconhecimento junto à Coroa.80 Assim, para além de reivindicar-se como
cidade régia, a cidade da Bahia “capitaliza” claramente a sua dimensão imperial.
Se voltarmos brevemente os olhos para Goa, veremos como “a representação da
cidade complexifica-se à medida que se constitui como centro do Estado da Índia e se
cria consciência desse mesmo papel. Ao lado dos símbolos camarários, reclama-se a in-
tegração de atributos ligados ao domínio político, institucional, militar e eclesiástico do
império, dilatando, assim, a identidade da cidade”.81 Tal processo encontra-se igualmen-
te em movimento na Bahia da segunda metade do século XVII. Essa projeção imperial
da cidade da Bahia aparece na emulação com a cidade de Goa, revelando não só a pre-
tensão da Bahia enquanto “cabeça do Estado do Brasil”, como também a importância re-
vestida pela representação política no âmbito do império. Tal emulação surge nomeada-

76 O papel dos procuradores da Bahia em Lisboa não deixa de ser muitas vezes determinante, como no caso do
mosteiro de freiras solicitado pela câmara da Bahia. Cf. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 17, doc. 1940 e cx. 23, doc. 2689.
77 Hansen, “Barroco, neobarroco e outras ruínas...”, p. 67.
78 Cartas do Senado, v. 4, p. 76-77.
79 Legitimando por exemplo o pedido dos oficiais referente às propinas que pretendiam. CS, v. 2, p. 11.
80 A interdependência da “cabeça do Estado do Brasil” com a Coroa portuguesa desdobra-se assim na relação es-
treita entre esta construção do laço politico com o rei e a hierarquização da sociedade local, legitimando por
fim a dominação da gente da governança da Bahia.
81 Santos, Goa é a chave de toda a Índia..., p. 280 ss. No caso de Goa, fica ressaltado o recurso a tópicos que eram
usados para descrever a cidade de Lisboa, isto com o intuito de distingui-la relativamente às demais.
30 guida marques

mente na questão do lugar dos procuradores da Bahia nas Cortes. Ela vem desenvolvida
numa carta do Senado para D. Pedro II sobre o lugar pretendido no primeiro banco de
Cortes. Referindo as cortes passadas de 1668, os oficiais da câmara lembram que

[...] se deu assento a esta cidade da Bahia no segundo banco e nos achamos obri-
gados a pedir a Vossa Alteza seja servido fazer-lhe mercê de que tenha seu lugar
no primeiro e nos mais actos que se celebrarem pois concorrem nella todas as
razoens de merecimento para esta honra que podem pedirse e não serem maio-
res as da cidade de Goa a quem se concedeo porque este estado do Brazil he da
grandeza e importância ao serviço de vossa alteza e esta cidade cabeça delle e
lealdade tão nascida de seu amor [...] demais de todas estas razoens e que so per-
sistem todo o merecimento ha a de Vossa Alteza se immortular Principe do Bra-
zil que parece obriga Vossa Alteza a que o honre com maior lugar que a que pe-
dimos e mais tendo esta cidade do Porto que nas cortes tem o primeiro banco.82

As instruções para o procurador da câmara da Bahia insistem sobre essa preten-


são, instando o procurador para que ele requeira e peça “mercê a Sua Alteza lhe no-
meie lugar no primeiro banco como tem a cidade de Goa”.83 A equiparação com Goa
aparece de novo na carta da câmara de Salvador ao rei, de 1673, protestando contra a
criação naquela cidade do ofício de correio-mor, declarando que “se o Estado da India
mereceo ser izento deste tributo nam menos o merece o do Brazil”.84 Voltando a insis-
tir, em 1678, sobre “o damno irreparavel que recebe esta cidade com este novo oficio
e que não tendo este Estado feito menores serviços a vossa alteza do que tem feito os
estados da India ficarão elles izentos deste oficio”.85 O mesmo recurso é ainda usado
pela câmara de Salvador, em 1679, para justificar a criação de uma Casa da Moeda na
Bahia.86 Obtendo, finalmente, a sua instalação, a dimensão imperial, investida pela ci-
dade da Bahia, vem gravada na moeda cunhada: “dum lado as armas reaes de Portugal,
do outro, uma cruz carregada duma esfera com a inscrição Sub. Sign. Stabo”.87 Entre-
tanto, importa notar que outras câmaras usaram de tais equiparações, recorrendo, por

82 CS, v. 1, p. 118.
83 CS, v. 1, p. 119.
84 CS, v. 1, p. 113.
85 CS, v. 2, p. 53-54; AC, v. 5, p. 238.
86 CS, v. 2, p. 52.
87 François Froger, Relation d’un voyage fait en 1695, 1696 et 1697 aux côtes d’Afrique, détroit de Magellan, Brésil,
Cayenne et isles Antilles, par une escadre des vaisseaux du roy commandée par M. de Gennes par le sieur Froger. Pa-
ris: M. Brunet, 1698, p. 135. Trata-se, com certeza, de uma moeda cunhada em 1695. Cf. Pedro Puntoni, “O mal
do Estado brasilico: a Bahia na crise final do século XVII”. In: id., O Estado do Brasil. Poder e política na Bahia colo-
nial (1548-1700). Tese (Livre-Docência em História do Brasil colonial) – FFLCH-USP, São Paulo: 2010.
“por ser cabeça do estado do brasil”   31

seu turno, a essa mesma emulação imperial. Encontramos, assim, argumentos seme-
lhantes, alguns anos antes, na “petição dos procuradores gerais deste reino da câmara
da cidade de Goa” para obter um melhor lugar nas Cortes, referindo, por sua parte, o
exemplo de Angra.88 O que nos deixa entrever as interações existentes no seio do es-
paço imperial português.
É, aliás, nessa mesma perspetiva que se pode encarar a escolha, por parte da câ-
mara de Salvador, do Apóstolo das Índias, S. Francisco Xavier, como novo padroeiro
da cidade.89 Em 1686, na esteira do mal da “bicha” que assolava então a região, a câ-
mara de Salvador invocou esse Santo para aliviar a cidade da epidemia. Na verdade,
outros santos foram então igualmente chamados para intercessores. Pouco resultou.
Mas a câmara decidiu eleger S. Francisco Xavier por protetor da cidade da Bahia. Em
troca da sua intercessão, “foi feito assento de o tomar por nosso protector por toda
a vida, de fazer-lhe em todos os anos huma festa aos 10 de maio com missa cantada
e sermão”, na igreja do colégio dos Jesuítas, além de uma “prociçam pella cidade á
custa do conselho”.90 Seguiu uma petição ao rei nesse sentido.91 E cumpridas todas as
exigências da cúria romana, o Apóstolo do Oriente tornou-se definitivamente o pa-
droeiro de Salvador, em 1689.92 Evergton Sales Souza sublinhou a falta de referência

88 AHU-CU, Consultas da Índia, cód. 211, fl. 94v. A câmara de Goa argumentava assim “como em rezão daquela
cidade ser metropoly da India e os moradores della tão benemeritos do serviço desta coroa nas ocasiões que
se offerecerão de poderem mostrar seu zelo e lialdade seria muito justo e devido que seus procuradores nas
cortes que Vmgde celebrassem tivessem voto e o assento que se lhes devia e porque não o tendo de antes a
cidade de Angra cabeça das ilhas dos Açores dandosse por sua parte petição foi Vmgde servido nas cortes de
15.09.1642 de admetir nella seus procuradores. Com muitos fundamentos devem ser admetidos os da câmara
de Goa por sere a principal e corte de hum estado tão dilatado opulente e nobre por cujo meyo esta coroa se
fez poderosa e devulgou sua fama pelo universo fazendo glorioso o nome portuguez em toda a parte com os
famosos feitos que no Oriente obrarão em serviço de Deus e dos senhores Reis antecessores de Vmgde. Pe-
dem que em consideração do referido e dos grandes e particulares merecimentos da cidade de Goa e ao exem-
plo do que em semelhante pertenção se consedeo a cidade de Angra seia Vmgde servido que tenhão voto e
mandar lhes signalar lugar no primeiro banco das cortes para que se sentem [...]”.
89 Evergton Sales Souza, “S. Francisco Xavier, padroeiro de Salvador: génese de uma devoção impopular”. Brote-
ria, 163, p. 653-669, 2006.
90 Arquivo Municipal de Salvador, Cartas de Eclesiásticos: Registo da carta que o senado escreveo ao P. Reytor do
colégio desta cidade sobre o melhor modo e forma que se avia de tomar na eleição de ser S. Francisco Xavier
Protector desta cidade, 10.05.1686, citado por Sales Souza, op. cit.
91 CS, v. 3, p. 25-26.
92 Essa escolha imposta pela câmara parece ter suscitado no entanto alguma dúvida, sendo requerido, em 1689,
novo voto. “Requeria a ditos oficiaes mandasse vir nesta casa da câmara e nobreza e povo e sendo convoca-
dos e juntos votasen en votos secretos se convinha reteficar o voto que os oficiaes da camara nobreza e povo
fizerão publicamento nas igrejas do colegio no anno de 686 os ditos ofiiciaes rezolverão que logo se fizesse”.
Cf. AC, v. 6, p. 123.
32 guida marques

a milagre, ou intercessão do Apóstolo do Oriente naquele momento, e até a pouca


popularidade do Santo na América Portuguesa. No entanto, a festa foi organizada
pela câmara de Salvador com grandes despesas, tornando-se a festa com o segun-
do maior dispêndio atrás somente daquela do Corpo de Deus.93 Afinal, essa escolha
assumida pela câmara não deixa de ser sugestiva naquele momento, confirmando o
investimento imperial por parte da câmara, bem como as várias circulações que atra-
vessavam o espaço imperial português. Grande era, de facto, a reputação do Após-
tolo do Oriente em Portugal e no império.94 E a sua memória continuava viva na se-
gunda metade do século XVII, sendo obviamente favorecida pelos Jesuítas.95 Impor-
ta realçar, aqui, o importante papel do colégio dos Jesuítas na cidade da Bahia.96 E o
próprio António Vieira, de volta à Bahia em 1681, atesta essa circulação da imagem
do Apóstolo do Oriente até o Brasil, com os seus sermões sobre Xavier.97 A figura
do Santo encontrava-se, aliás, profundamente ligada ao seu pensamento do Quinto
império. Ocasião ou conjunção, a invocação da figura do Apóstolo do Oriente pela
câmara da Bahia, para conjurar a ira de Deus contra os pecados da Bahia, não dei-
xa de fazer sentido.98 E ressoa ainda de outra maneira se lembrarmos da conquista
contemporânea do sertão da Bahia, da violência institucionalizada contra os índios

93 AC, v. 6, p. 125. Cf. Evergton Sales Souza, “Entre vênias e velas: disputa politica e construção da memoria do
padroeiro de Salvador (1686-1760)”, Revista de História, 162, 131-150, 2010.
94 Além de ter expandido o império português e cristão, no reinado de D. João III, por meio da conversão das al-
mas no Oriente, S. Francisco Xavier teria igualmente patrocinado a Restauração portuguesa em 1640. Cf. João
Francisco Marques, A parenética portuguesa e a Restauração. Porto: Centro de História da Universidade; Lisboa:
INIC, 1989, 2 v.; Luís Filipe Silvério Lima, O império dos sonhos. Narrativas proféticas, sebastianismo e messianismo
brigantino. São Paulo: Alameda, 2010.
95 Luis Filipe Silvério Lima, Padre Vieira: sonhos proféticos, profecias oníricas. O tempo do Quinto império nos sermões
de Xavier Dormindo. Tese (Mestrado em História Social) – FFLCH-USP, São Paulo, 2000. Lima refere assim vá-
rias edições (em 1645, 1664 e 1686) do sermão pregado por Ribeiro, em 1644, em torno de um sonho profé-
tico de Xavier.
96 Sendo o principal lugar de formação das elites da Bahia. Cf. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Bra-
sil, v. V, capitulo IV. Faltam estudos específicos sobre esta convivência local. No entanto, sabemos, por exem-
plo, que a Quinta do Tanque dos Jesuitas servia de lugar de reunião para os letrados da Bahia. Cf. Marcello Mo-
reira, Critica Textualis in Caelum Revocata: Prolegômenos para uma edição critica do corpus poético colonial seiscen-
tista e setecentista atribuido a Gregório de Matos e Guerra. Tese (Doutorado), FFLCH-USP, São Paulo, 2001.
97 Inés Zupanov, “‘A História do Futuro’. Profecias jesuítas móveis de Nápoles para a Índia e para o Brasil (século
XVII)”. Cultura. Revista de Historia e Teoria das Ideias, v. 24, IIª Série, p. 119-154, 2007.
98 Importa observar semelhante uso imperial do Apóstolo do Oriente na própria cidade de Goa, por ocasião da
procissão comemorativa do centenário do nascimento de S. Francisco Xavier em 1624. Cf. Santos, Goa é a cha-
ve de toda a Índia..., p. 285.
“por ser cabeça do estado do brasil”   33

chamados bárbaros, e dos abusos contra as missões presentes no sertão, nos quais fi-
caram claramente envolvidos os homens bons da Bahia.99
A projeção imperial investida pela câmara da Bahia, numa estratégia de enalteci-
mento da cidade, prolonga-se, por fim, no âmbito da escrita da história promovida por
ela na segunda metade do século XVII. Em 1655, os procuradores do Estado do Brasil
requeriam da Coroa a concessão da instituição de um cronista oficial para a América
Portuguesa.100 Foi assim nomeado, em 1661, Diogo Gomes Carneiro, “encarregado de
escrever a história do Brasil com 200 000 reis de ordenado a pedido dos procuradores
daquele estado”.101 Pouco resultou então. E será preciso esperar ainda algumas décadas
para vir à luz a primeira história da América Portuguesa, escrita por Sebastião da Ro-
cha Pitta, natural da Bahia.102 No entanto, temos aqui, bem antes dos exercícios literá-
rios praticados pelas Academias dos Esquecidos e dos Renascidos, uma clara aposta,
por parte da câmara de Salvador, na vocação imperial da cidade da Bahia.103
Finalmente, as representações da cidade promovidas pela câmara andam profun-
damente ligadas aos processos de identificação da gente da governança da Bahia e à
sua própria busca de distinção. A representação do laço político privilegiado da cidade
com a Coroa visava à afirmação de sua dimensão imperial, reforçando ao mesmo tem-
po a sua dominação local.104 Condição, por fim, da sua benevolência com os pedidos
cada vez maiores da Coroa.105

99 Cf. Pedro Puntoni, A guerra dos Bárbaros. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720.
São Paulo: Hucitec, 2002; Cristina Pompa, Religião como tradução. Missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial.
São Paulo: EDUSC, 2003; Márcio Roberto Alves dos Santos, Fronteiras do sertão baiano: 1640-1750. Tese (Dou-
torado), FFLCH-USP, São Paulo, 2010.
100 Virgínia Rau (ed.), Os Manuscritos da Casa de Cadaval respeitantes ao Brasil, v.1, Coimbra: Imprensa da Universi-
dade, 1956, p. 169.
101 Ele devia ser pago pelas câmaras da Bahia e Pernambuco, o que foi causa de queixa do mesmo Diogo Gomes
Carneiro junto ao rei desde 1663. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 20, doc. 2316. AC, v. 5, p. 112.
102 Importa observar o lugar importante que ocupa a cidade da Bahia na História da America Portugueza de Rocha
Pitta, onde ficou, aliás, consagrado o seu estatuto de “cabeça do Estado do Brasil”.
103 No século XVIII, tal investimento aparece claramente na atividade das Academias e, mais particularmente, na
sua invocação da tópica da Translatio imperii, dando lugar a várias disputas poéticas entre as cidades de Goa e
de Bahia, desdobrando, de facto, essa mesma emulação imperial de que falamos. Cf. Iris Kantor, “As academias
brasílicas e a transmissão da cultura letrada: os Esquecidos e os Renascidos (1729-1759)”. In: Ronaldo Vainfas;
Rodrigo Bentes Monteiro (Org.), Império de Várias faces. São Paulo: Alameda, 2009, p. 273-286.
104 Esta relação das “elites” da Bahia com a Coroa não deixa de lembrar o modelo do império romano. Cf. Gary
B. Miles, “Roman and modern imperialism: A reassessment”. Comparative Studies in Society and History, 32-4,
p. 629-59, 1990; Frederick Cooper; Jane Burbank, Empires. Paris: Fayard, 2011.
105 Importa observar aqui que a América Portuguesa foi até 1640 pouco “carregada” pela Coroa, e os impostos no
açucar moderados. A mudança desta relação é por mais evidente na segunda metade do século XVII.
34 guida marques

Da cidade da Bahia como representação


As representações da cidade investidas pela câmara, e nomeadamente o seu “ser cabe-
ça do Estado do Brasil”, não podiam deixar de envolver o próprio desenho urbano. No
final do século XVII, estamos bem longe, de facto, da visão de “aldeia” evocada no iní-
cio. “La ville de S. Salvador, qui est située sur cette Baye est grande, bien bâtie et fort peuplée [...]
elle est la capitale du Brésil, le siège d’un archevêque et d’un viceroy. Elle est honorée d”un conseil
souverain et d’une cour des Monnayes”.106 Como François Froger, que passou por Salvador
em 1696, o viajante inglês William Dampier também considerava a cidade “the most con-
siderable town in Brazil, whether in respect of the beauty of its buildings, its bulk or its trade and
revenue”.107 Se os dados demográficos permanecem incertos, o aumento da população
não deixa de ser evidente, sendo então referido várias vezes pela própria câmara da
Bahia.108 No final do século XVII, a cidade da Bahia teria cerca de 20 mil habitantes.109
A sua extensão, para além do seu termo, levou a câmara a comprar “terras pera o con-
selho das que estão mais junto a esta cidade”, 110 bem como terrenos junto à praia “para
com elles ter mais embarcaçoens que vem a este porto [...] e se fazer melhor serventia
para e frete que este senado mandou fazer em Agoa de meninos”.111 A faixa portuária
foi assim aterrada e construída, constituindo-se a cidade Baixa com forma semelhante
a de Lisboa.112
A câmara de Salvador desempenhou, de facto, um papel importante na organiza-
ção do espaço urbano, com particular intensidade durante a segunda metade do século
XVII.113 Logo, em 1656, a câmara de Salvador reclamava parte do dinheiro da imposição

106 Froger, Relation d’un Voyage...


107 William Dampier, A new voyage round the world. Londres: J. Knapton, 1703, p. 49-50.
108 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2524; cx. 24, docs. 2946 e 2913, neste último documento lê-se: “os officiaes
da camara da Bahia em carta de 9 de julho deste anno referem que o numero de gente e cazas naquella cidade
tem crescido de sorte que ja dentro dos muros não ha terreno capaz em que fabriquem seus moradores [...]”.
109 Uma relação de 1706 do Arcebispo da Bahia contava 4296 fogos nas seis freguesias da cidade, aumentando
para 6719 em 1759. Cf. Charles R. Boxer, The golden age of Brazil. Growing Pains of a colonial society 1695-1750.
Manchester: Carcanet, 1995 [1° ed. 1962], p. 127.
110 AC, v. 5, p. 80 e Ibid., v. 6, p. 295, onde se lê: “[...] se rezolveo mais que para se evitar os danos e troturas das ruas
en que se fazem cazas ordinariamente nos arrabaldes senão fassão sem serem aruadas na forma da ordenação
e estillo e para constar de ditos aruamentos e servir no conhecimento de que fas caza com a aruação ou sem
ellas resolverão que se fizesse hum livro rubricado”.
111 Ibid., v. 5, p. 274.
112 Nestor Goulart Reis Filho, “Notas sobre o urbanismo no Brasil”. In: Universo urbanístico português, 1415-1822.
Colectânea de estudos. Lisboa: CNCDP, 1998, p. 483-506.
113 Antecedendo assim a intervenção mais marcada da Coroa, a partir de 1696. Cf. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno,
O Brasil dos engenheiros militares (1500-1822), São Paulo: Edusp, 2011. Sobre o papel importante desempenhado
“por ser cabeça do estado do brasil”   35

dos vinhos para obras de urbanismo, pedindo ao rei “seja servido se nos concedam
para este efeito e outras obras publicas desta cidade de Vossa Magestade que por ca-
beça deste estado deve ser mais honrada alem de outros particulares deste tribunal”.114
Várias medidas foram tomadas, visando o alinhamento das casas, arruação e calçadas,
assim como a serventia pública. Aliás, é nesse período que aparece na documentação
da câmara o ofício de engenheiro e medidor desta cidade,115 igualmente referido como en-
genheiro e mestre das obras deste senado,116 ou ainda medidor e arruador do conselho.117 Muitas
ruas novas foram então construídas,118 sendo estas logo calçadas.119 Este empreendi-
mento obrigou por vezes a câmara a comprar casas de particulares para poder con-
tinuar com as obras.120 Confrontada com o crescimento da população e o desenvol-
vimento da cidade, a câmara teve que cuidar mais particularmente do abastecimento
em água, preocupando-se nomeadamente com a falta de fontes.121 Foram assim cons-
truídas novas fontes em vários sítios da cidade, na segunda metade do século XVII.122
Outra preocupação, ligada ao aumento da população e à salubridade da cidade, dizia
respeito à criação, em Salvador, de “almotacés de limpeza”, que deviam igualmente
cuidar da qualidade do abastecimento da cidade em carne.123 A câmara invocou na oca-
sião o modelo das cidades europeias, e nomeadamente de Lisboa.124 Pois,

hera muito conveniente que se fisessem dois almotaseis de limpeza a exemplo


das cidades populosas do reino de Portugal [...] os quais se elegerão repartida-
mente, hum pera o Bairro de Sam Bento, e outro pera o do Carmo e do mesmo

pelas câmaras no urbanismo, cf. Claudia Damasceno Fonseca, “Do Arraial à cidade: a trajectória de Mariana no
contexto do urbanismo colonial português”. In: Universo Urbanístico português, 1415-1822. Colectânea de estudos.
Lisboa: CNCDP, 1998, p. 269-301.
114 CS, v. 1, p. 54; AHU-CU, Bahia, LF, cx. 14, doc. 1699; cx. 16, doc. 1759 e cx. 18, doc. 2075.
115 AC, v. 5, p. 253.
116 Ibid., v. 5, p. 261.
117 Ibid., v. 6, p. 33.
118 Ibid., v. 6, p. 240.
119 Ibid., v. 6, p. 188, 193 e 301.
120 Ibid., v. 6, p. 33 e 227.
121 Ibid., v. 5, p. 79.
122 Ibid., v. 5, p. 78, 93 e 376.
123 Ibid., v. 5, p. 78 e 93. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2524.
124 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2537. No seu Livro das grandezas de Lisboa (1620), Nicolau de Oliveira se refere
à nova divisão da cidade em seis bairros, cada um a cargo dum almotacé da limpeza.
36 guida marques

modo na praia desta cidade hu do corpo da guarda della the Santa Theresa, e
outro the o forte de São Francisco.125

Enquanto as fortificações da cidade continuam sendo uma preocupação, a segunda


metade do século XVII é igualmente marcada pela recuperação e construção de obras
monumentais destinadas às funções políticas, económicas e religiosas, manifestando,
por seu turno, as grandezas da cidade da Bahia. Se a nova Igreja dos Jesuítas foi cons-
truída entre 1657 e 1672, outras foram igualmente principiadas nesse período.126 O papel
da câmara deve ser aqui novamente sublinhado,

por ter entre mãos as obras da Santa Sé desta cidade e as obras do convento das
religiosas de Santa Clara e outrosi as obras das religiosas de Santa Theresa e do
convento do Patriarca São bento que todas hua e outras se fazem com esmolas,
o qual tambem sustenta quatro mosteiros de religiosos capuchos nesta cidade
e seu termo.127

Os edifícios da câmara e do palácio do governador-geral foram alvos de novas


obras, enquanto as casas de particulares foram também se multiplicando.128 Tal mo-
vimento não deixou de provocar conflitos em torno do próprio espaço urbano, con-
frontando a câmara não só com particulares129 como também com as ordens religiosas,
nomeadamente os Jesuítas e os Franciscanos.130
Mas esse importante envolvimento urbanístico contribuía, finalmente, para o
enaltecimento da cidade, em consonância com o seu estatuto de “cabeça de Estado”, re-
alçando de outra maneira a sua vocação imperial, ou seja, a projeção espacial e mate-
rial da representação pretendida pela Bahia, de cidade régia e imperial. O empenho da
cidade da Bahia em organizar o espaço urbano torna-se, assim, desígnio, ao dar a ver
a sua grandeza política e social. De facto, a sua preocupação em realçar a emblemá-
tica urbana revela-se conforme as imagens urbanas das cidades europeias de Antigo
Regime, sendo a visão monumental no centro das representações urbanas antigas.131
A dimensão simbólica da cidade capital, que devia ser como o ornamento do territó-
rio, era então ressaltada na Europa, no livro de Alexandre Le Maître, publicado em

125 AC, v. 5, p. 78.


126 Boxer, The golden age of Brazil...
127 AC, v. 5, p. 262.
128 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 16, doc. 1759. AC, v. 6, p. 31 e 192.
129 AHU-CU, Bahia, LF, cx. 22, doc. 2571. AC, v. 6, p. 137.
130 AC, v. 6 p. 132. AHU-CU, Bahia, LF, cx. 24, doc. 2913.
131 Bernard Lepetit, Les villes dans la France moderne. Paris: Albin Michel, 1988.
“por ser cabeça do estado do brasil”   37

1682, onde se lembrava “que la ville capitale n’est pas seulement en possession de l’utile mais
aussi de l’honnête non seulement des richesses: mais aussi du rang et de la gloire”.132 Tem-se su-
blinhado a coincidência entre a crise económica que conheceu a Bahia durante esses
anos e o esforço urbanístico desempenhado pela cidade, evocando-se um processo de
compensação simbólica.133 Na verdade, a situação afigura-se mais complexa, envolven-
do processos distintos. As fortificações, as igrejas, os palácios pautam os mapas da
cidade da Bahia como as suas descrições, representando, por seu turno, um discurso
sobre a cidade. A arquitetura urbana vinha assim totalizar e hierarquizar a topografia,
um espaço político e uma dinâmica económica, sugerindo ainda a circularidade da re-
presentação com a norma.134
E é da mesma maneira que a Bahia de Seiscentos representava-se a si própria.
A importância do conceito de representação para o século XVII, o papel da cultura
visual e da espacialização da hierarquia nas sociedades ibéricas de Antigo Regime
são temas hoje bem conhecidos. 135 Assim, na América Portuguesa, como já foi am-
plamente demonstrado, a festa não é só um conjunto de imagens, mas uma relação
social entre participantes mediadas por imagens. 136 Procissões e entradas estabele-
cem uma legibilidade própria da cidade e a disposição espaço-temporal significa e
redistribui os valores da hierarquia, representando e ordenando hierarquicamente
no seu seio os grupos sociais. Operavam, segundo os termos de João Hansen, como
encenação teológico-política, reiterando de maneira espetacular a hierarquia assim
visível, natural, necessária, reafirmando por esse meio que as instituições existentes
não são só legais mas sobretudo legítimas, enquanto expressão visível da lei natural
da graça. 137 No fundo, as representações da câmara da Bahia prolongam e desdobram
esta ostentação das festas e procissões, espacializando a hierarquia de Antigo Regi-
me, e, sendo saturadas pela gente da governança, não dizem mais do que esta norma.

132 Alexandre Le Maître, La Métropolitée, ou De l’établissement des villes Capitales, de leur Utilité passive; active, de
l’Union de leurs parties; de leur anatomie, de leur commerce, etc. Amsterdam: B. Boekholt, 1682, chap. IV, p. 11-12.
133 Goulart Filho, “Notas sobre o urbanismo...”, p. 495.
134 Marin, “La ville dans sa carte et son portrait...” p. 204-218.
135 Fernando Bouza, Portugal no tempo dos Filipes. Política, Cultura, Representações (1580-1668). Lisboa: Cosmos,
2000; Id., Palabra e imagen en la Corte. Cultural oral y visual de la nobleza en el Siglo de Oro. Madrid: Abada, 2003;
Hansen, “A categoria “representação” nas festas coloniais dos séculos XVII e XVIII”. In: István Jancsó e Iris Kan-
tor (Org.), Festa. Cultura e sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec, 2001, v. 2, p. 735-755.
136 Jancsó; Kantor (Org.), op. cit.
137 Hansen, A Sátira e o Engenho... Entradas e procissões que não deixavam, no entanto, de ser também o lugar de
conflitos. Cf. igualmente Schwartz, “Ceremonies of Public Authority...”, p. 177-205.
38 guida marques

Sendo assim, o “ser cabeça do Estado do Brasil” mal permite outras representações
da cidade, deixando no escuro o movimento opaco da cidade habitada.138
Os discursos e as imagens da cidade, emanadas da câmara de Salvador, impõem,
pelo contrário, não-representações que merecem, no entanto, ser aqui desvendadas,
por serem, de facto, também determinadas e de algum modo estruturantes. Assim,
não podemos deixar de lembrar, por fim, que a cidade da Bahia contava então com
portugueses, índios da terra e negros da Guiné.139 E o importante crescimento da po-
pulação na segunda metade do século XVII, referido várias vezes pela câmara, incluía
uma forte proporção de escravos africanos.140 Na verdade, a população urbana é pou-
co evocada nos papéis da câmara, aparecendo de maneira genérica sob o vocábulo de
“povo”, cuja murmuração é temida.141 “Povo”, no entanto, que não parece incluir nem
os Índios nem os Africanos. Sabemos, porém, que a população estava organizada por
confrarias e corporações, que participavam devidamente nas procissões organizadas
pela câmara.142 Que já estavam igualmente constituídas irmandades negras.143 O fluxo
de escravos chegando a Salvador, a sua função de redistribuição, sem dúvida reforçou
a centralidade económica da cidade, contribuindo para fazer dela uma metrópole co-
mercial pujante ou, como se dizia então, um empório universal.144 Mas essa escravidão
não só alimentou os engenhos do Recôncavo como também moldou a própria cidade
e a sua morfologia. Como lembrava a própria câmara, “esta cidade hera muito popu-
losa e o serviço della se fazia todo por escravos”.145 Escravos domésticos, ou ainda em-
pregados nos trabalhos de fortificação e de urbanismo da cidade. Assim, projetando a
construção de novas fontes, a câmara obrigou “pera isso os donos da terra em primeiro
lugar e das ortas que por ali ha a que dem escravos pera o trabalho e também ao povo
os que forem mais necessários”.146 E, como bem observou François Froger, “comme la

138 Michel de Certeau, L’invention du quotidien. 1. arts de faire. Paris: Gallimard, 1990, p. 139 ss.
139 Theodoro Sampaio, História da fundação da cidade do Salvador. Bahia: Tipografia Beneditina, 1949.
140 Pierre Verger, Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo:
Corrupio, 1987.
141 Hansen, op. cit.
142 AC, v. 5, p. 114.
143 Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, a devoção ao Rosario pelos negros na Sé Catedral surgiu em data an-
terior a 1604. A irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho encontra-se formalmente instituída no ano
de 1685. Cf. Lucilene Reginaldo, Os Rosários dos Angolas: irmandades negras, experiências escravas e identidades
africanas na Bahia setecentista, São Paulo: Alameda, 2011, assim como o seu estudo apresentado neste mesmo
volume.
144 Schwartz, Segredos internos... Ver também o texto de Avanete Pereira Sousa, no presente volume.
145 AC, v. 5, p. 78.
146 Ibid., loc. cit.
“por ser cabeça do estado do brasil”   39

ville est haute et basse et que par conséquent les voitures y sont impraticables, les esclaves y font
la fonction de chevaux et transportent d’un lieu à un autre les marchandises les plus lourdes ; c’est
aussi pour cette même raison que l’usage du palanquin est fort ordinaire”.147 Enquanto as capi-
tais europeias eram caracterizadas por um presença importante de domésticos, a pró-
pria cidade da Bahia, e não somente o Recôncavo, bem podia clamar a sua dependência
em relação aos escravos.148
Perante o papel inegável da escravidão na construção da cidade de Salvador, e a
presença maciça de escravos índios e negros dentro dos seus muros, a sua ausência da
cidade representada, como da ordem de Antigo Regime, não deixa de ser significativa.
De facto, eles eram indignos de representação. E é interessante lembrar aqui o que ob-
servou João Hansen no seu estudo dos poemas atribuídos a Gregório de Matos e Guer-
ra, ou seja, a baixa frequência nesse corpus de sátiras contra negros e índios, e, “quando
descritos ou narrados, a sátira os faz vistos e ditos como aquilo que é indigno de ver e
de dizer”.149 Da mesma maneira, é somente como fonte de desordem que aparecem re-
feridos nas Atas da câmara de Salvador, não como sujeitos políticos ou vassalos del-rei,
mas meramente como corpos, quase sempre perigosos. A preocupação com a ordem
pública justifica assim várias providências contra os escravos armados e/ou bêbedos.150
A câmara da Bahia tentou igualmente proibir o vinho de mel, “a respeito do damno pú-
blico que se padecia com as vendas do dito vinho de mel, a cujas casas acodião de ordinario de
noite e de dia os escravos com os furtos que fazião a seos senhores e nelas se matavão
ou com brigas ou com peçonha”.151 Poucos anos depois, discutia-se ainda a extinção das
tabernas em que se vendiam aguardente e vinho de mel, por virem a elas os negros do
mocambo contratar e levar de dentro da cidade muitos escravos.152 A nominação do
“capitão do campo”, ofício tocante à jurisdição da câmara de Salvador, que era encarre-
gado da caça aos escravos fugidos em redor da cidade, vem finalmente lembrar que a ci-
dade da Bahia é também fronteira, permanecendo conjuntamente símbolo de imperium
e instrumento de colonização.153 No fundo, se índios e africanos permanecem como in-

147 Froger, Relation d’un Voyage...


148 Le Roy Ladurie (Dir.), La ville moderne...
149 Hansen, A sátira e o engenho..., p. 220.
150 AC, v. 1, p. 33, vereação de 1º de abril de 1626: “se botou pregão que nenhum negro de qualquer nação que
seja traga nenhum de pao ou bordão nem faca ou arma com pena de 5 tostões [...]”. Ibid., v. 1, p. 103, vereação
de 20 de setembro de 1628: “sobre o damno desta cidade e dos moradores della trazerem os negros paos e
facas ao domingo pellas muitas brigas e mortes e ferimentos que havia”.
151 Ibid., v. 1, p. 281.
152 Ibid., v. 2, p. 321-326.
153 Ibid., v. 1, p. 4. Cf. Silvia Lara, “Do singular ao plural. Palmares, capitães-do-mato e o governo dos escravos”. In:
João Reis; Flavio Gomes (Org.), Liberdade por um fio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 81-109.
40 guida marques

visíveis, essa ausência aparece, todavia, de algum modo estruturante, encontrando-se


por todo o lado subjacente, reclamando a confirmação da hierarquia vigente requerida
pela gente da governança. Finalmente, quando representados pela cidade, os índios não
deixam de ser bárbaros e os africanos mocambos.
Assim, se os índios aparecem pouco na documentação da câmara, os que são re-
presentados na segunda metade do século XVII, surgem nos trajes de bárbaros, “es-
pecies de gentes inumeraveis, que vivem a modo de feras e como tais contentes com
o tosco das brenhas e solidão da penedia, desprezando todo o polido dos palacios,
cidades e grandezas de todas as mais partes do mundo”, ameaçando o bem comum
e a República. 154 De facto, várias entradas foram organizadas contra o índio gentio
do sertão durante a segunda metade do século XVII, desembocando na conquista do
interior baiano. 155 Este empreendimento contou com o forte envolvimento da câma-
ra de Salvador e da gente da governança, que teve então empenho em legitimar essa
guerra ao gentio.156 Ao evocar, não mais o “gentio vizinho daquele estado”, mas uns
bárbaros, inimigos da república, invadindo, roubando e matando, operava-se uma
redução semântica que era parte de uma estratégia discursiva procurando eficácia
política. Ao falar de bárbaros, a câmara designava o inimigo interior a ser combatido
e extinguido. E não deixava de conferir à guerra contra o índio gentio uma outra di-
mensão, projetando-a no próprio império.
É nessa perspetiva que vêem igualmente descritos no panegírico fúnebre escrito por
Juan Lopes Sierra, em 1676, por ocasião da morte do governador-geral D. Afonso Fur-
tado Mendonça.157 No relato da ação do herói, o tema da guerra ao gentio ocupa lugar
de destaque, sendo bastante desenvolvido por Juan Lopes Sierra. O seu texto, aliás, está
cheio de referências ao império romano e às suas invasões bárbaras. E desprende-se no-
meadamente da sua descrição da entrada dos tapuyas vencidos na cidade, que “desem-
barcados no cais dos Padres jesuitas subiram marchando as portas da cidade do Carmo
e delas fizeram sua entrada em Palacio”.158 A narração da marcha dos indígenas pela ci-
dade, corpos nus e pintados, ao som dos seus instrumentos “bárbaros”, antes de serem

154 Vasconcelos, Notícias curiosas..., p. 88.


155 Puntoni, A guerra dos Bárbaros...; Márcio Santos, Fronteiras do sertão baiano...
156 DH, v. V, p. 190, Carta do governador-geral sobre os gastos que fez a tropa que foi ao sertão, 1663, onde decla-
ra que “o estylo que nesta praça [Bahia] se observa nas ocasiões que se manda fazer guerra ao gentio barbaro,
é dar a câmara tudo o que se ha mister para a jornada e paga-lo o povo”. Cf. Guida Marques, “Do índio gentio
ao gentio bárbaro. Usos e deslizes da guerra justa na Bahia seiscentista”. Revista de Historia, São Paulo, n.171,
2014, p. 15-48.
157 Stuart B. Schwartz; Alcir Pécora (Org.), As excelências do governador. O panegírico fúnebre a D. Afonso Furtado, de
Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
158 Ibid., p. 78-79.
“por ser cabeça do estado do brasil”   41

mandados logo fora “em nossa Senhora da Vitória extramuros da cidade”, oferece outra
representação da própria cidade de Salvador, enquanto símbolo de imperium.159 Afinal, o
investimento imperial da Bahia implicava algures algum bárbaro. A guerra empreendida
contra o gentio não deixou, assim, de contribuir para a construção dos “nobres brasi-
lienses” invocados por Juan Lopes Sierra, e a quem se dirigia, de facto, este panegírico160.
Nesta narração, a conquista do sertão baiano torna-se um rito de colonização, reatuali-
zando a relação desses “nobilissimos brasilienses” com o seu rei, e reivindicando a cidade
da Bahia como fragmento de império.161
A esta imagem dos índios vencidos pela cidade conquistadora devemos acrescen-
tar a celebração, pela cidade da Bahia, da conquista de Palmares, em 1694.162 Era pois o

felice sucesso das nossas armas vencedores contra os negros dos Palmares o
qual se avia destruido com mortes e prezioneiros [...] e por tão particular servi-
ço em que Deus foi servido fazer aquelles moradores e ainda as desta cidade e
seu reconcavo que esprementavão a perda de alguns negros que lhe fugião de
suas casas e lavouras e sahião matar em ditos mocambos dos Palmares fazen-
dosse salteadores com os mais.163

Cincoenta anos antes, a câmara da Bahia tinha recusado com força a proposta do
vice-rei, marquês de Montalvão, de negociação com os negros do mocambo, ao decla-
rar que “por nenhum modo convinha tratar de concertos nem dar lugar aos escravos
a que consiliassem sobre este negocio e o que convinha somente hera extinguilos e
conquistallos”.164 Nestas representações da Bahia, índios e africanos surgem, não me-
ramente silenciados, mas conquistados e vencidos.

159 Richard M. Morse, « Somes characteristics of Latin American Urban History”. The American Historical Review,
v. 67, n. 2, p. 317-338, 1962.
160 Schwartz; Pécora (Org.), op. cit., p. 11. O autor dirigia-se assim ao “nobre eclesiástico e secular cabido, insigne
e real magistrado da justiça, cavaleiros e homens bons desta praça”.
161 Isto vem também lembrar o papel da conquista nos processos de identificação da “nobreza da terra” da Amé-
rica Portuguesa. Cf. Fernanda Bicalho, “Elites coloniais: a nobreza da terra e o governo das conquistas. História e
historiografia”. In: Nuno Monteiro, Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (Org.), Optima Pars. Elites Ibero-
-Americanas do Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005, p. 73-97.
162 Edison Carneiro, O quilombo de Palmares. São Paulo: Martins Fontes, 2011 [1958]; Silvia Hunold Lara, “Marro-
nage et pouvoir colonial. Palmares, Cucaú et les frontières de la liberté au Pernambouc à la fin du XVIIe siècle”.
Annales HSS, v. 67, 3, p. 639-662, 2007.
163 AC, v. 6, p. 239.
164 Ibid., v. 1, p. 477.
42 guida marques

Chegando aqui, vale a pena lembrar que as sociedades nunca são o que dizem que
são.165 E não podemos deixar de lembrar a distância entre estas representações da ci-
dade da Bahia e as relações de viajantes, referindo a presença maciça de africanos em
Salvador, impressionados ou horrorizados com os seus corpos dançando nas procis-
sões, considerando, finalmente, a cidade da Bahia como “uma nova Guiné”.166 Ou seja,
levando-nos muito longe da representação da cidade promovida pela câmara da Bahia.
Porém, neste final do século XVII, surge uma nova preocupação na documentação da
câmara, onde os corpos dos escravos aparecem perigosos de uma outra maneira, como
corpos doentes e contagiosos. As prevenções da câmara contra as epidemias, ligadas,
segundo ela, à população escrava que chegava à Bahia, acabam por levantar o proble-
ma da gestão dessa população silenciada.167
Andamos por atalhos, tentando esclarecer as várias significações das representa-
ções da cidade da Bahia de Seiscentos. Ao examinar esse “ser cabeça do Estado do Bra-
sil” ao longo do século XVII, pudemos considerar as interações que envolvem o rela-
cionamento institucional da cidade da Bahia com a Coroa portuguesa durante esse pe-
ríodo, a importância dos discursos e das imagens da (e sobre) a cidade, e a sua relação
com os processos de identificação movimentados na Bahia de Seiscentos. Pudemos,
afinal, aproximar o que articula a construção da cidade.
Assim, se a cidade da Bahia era já a mais útil, ainda era preciso juntar ao útil a gló-
ria. Nesse processo, não podemos deixar de realçar o empenho da câmara de Sal-
168

vador em aproveitar o estatuto particular da cidade, contribuindo, por suas práticas e


representações, para o reconhecimento da sua estatura de “cabeça de Estado” e ainda
para a sua projeção imperial.169 Afirmação de uma cidade de Antigo Regime que não

165 Georges Balandier, “La situation coloniale. Approche théorique”. Cahiers Internationaux de Sociologie, 110, 1,
p. 9-29, 2001.
166 Amédée François Frézier, Relation du Voyage de la mer du Sud aux cotes du Chili, du Pérou et du Brésil fait pendant
les années 1712, 1713 et 1714. Paris: Chez Jean-Geoffroy Nyon, Etienne Ganeau, Jacque Quillau, 1716, p. 532.
167 AC, v. 6, p. 22, no “termo da vistoria e rezolução que se tomou sobre a chegada da Nau Santa Marta vinda de
Angolla com os negros com bexiga”, feito em 22 de maio de 1685, lê-se: “foi requerido aos ditos oficiaes que a
nau embarcação Sta Marta de que he capitão Antonio Gonçalves da Rocha inda do reino de Angola venha com
a escravaria que trazia e he a de bexiga mal tão contagio do que representava per perda e que a experiência das
farinhas das ruinas passadas são empremidas [...] pello miseravel estado em que se vio este povo com a mor-
tandade de seus moradores”. Ibid., v. 6, p. 29 e 237.
168 André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Introdução e comentário crítico por
Andrée Mansuy Diniz Silva. Lisboa: CNCDP, 2001, p. 334: “Pelo que temos dito até agora não haverá quem
possa duvidar de ser hoje o Brasil a melhor e mais útil conquista assim para a fazenda real como para o bem
público”.
169 No final do século, designava-se a si mesma, pela voz do juiz do povo, como “Nobilíssima cidade da Bahia, me-
trópole do estado do Brasil”. AC, v. 6, p. 202.
“por ser cabeça do estado do brasil”   43

era menos uma necessidade perante as várias exigências da Coroa. Os “leais e muito
obedientes vassalos” da Bahia deviam ser também “nobres brasilienses”.
Ao estreitar a sua relação com o império, a cidade da Bahia demonstrou ainda o
seu uso consciente da cidade enquanto símbolo de imperium.170 Procurando a sua legi-
timidade e os seus princípios de visão na cultura de Antigo Regime, ela não deixava de
ser uma cidade em território colonizado, e enquanto tal, um instrumento de coloni-
zação. A disjunção entre a sua representação enquanto “cabeça de Estado”, e o quo-
tidiano de uma cidade lidando com a sua natureza colonial, ou seja, com a presença
de outros, índios e africanos, vem lembrar que uma cidade comporta muitas outras.171
No entanto, este estudo não deixa de esclarecer as tensões de tal situação, permitindo
aproximar os silenciamentos que a constituíram e as linhas de fronteira movimentadas
nesse período.172 Finalmente, a Bahia só podia ser, então, uma cidade cosmopolita à sua
revelia, lugar de reconfigurações mais amplas, mas ainda sem representação possível.

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170 Schwartz, Cities of Empire...


171 Se bem que em relação com esta, é de outra maneira que nos aparece a cidade da Bahia nos poemas atribuídos
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PEDRO CARDIM
THIAGO KRAUSE

A comunicação entre a câmara de Salvador


e os seus procuradores em Lisboa durante a
segunda metade do século XVII1, 2

A 12 de Agosto de 1688 a câmara de Salvador endereçou mais uma carta ao seu pro-
curador em Lisboa, o capitão Manoel de Carvalho. Tal como já tinha acontecido nas
missivas anteriores, esta carta era toda ela dedicada ao peso da fiscalidade que se ti-
nha abatido sobre a cidade de Salvador. No entanto, essa missiva tem um tom quase
desesperado e nela o Senado instruía o seu procurador na corte a explicar ao rei e aos
seus ministros que, na Bahia, a situação económica era cada vez mais difícil devido à
crise nas exportações do açúcar. A municipalidade sugeria, por isso, que o procurador
fizesse ver às autoridades de Lisboa que as exações fiscais que estavam a pagar ultra-
passavam aquilo que era razoável, exortando-o, por isso, a fazer tudo o que estives-
se ao seu alcance para convencer as autoridades régias a aliviarem o povo da Bahia,

1 Trabalho realizado no âmbito dos seguintes projectos: Bahia 16-19 – Salvador da Bahia: American, European and
African forging of a colonial capital city, Marie Curie Actions, IRSES, GA-2012-318988 (CHAM - FCSH/NOVA-
-UAc; EHESS; UFBA); A comunicação política na monarquia pluricontinental portuguesa (1580-1808): Reino, Atlânti-
co e Brasil (Fundação para a Ciência e a Tecnologia: PTDC/HHIS-HIS/098928/2008). João Fragoso e Maria Fernan-
da Bicalho leram e criticaram uma primeira versão deste estudo. Para eles vai o nosso sincero agradecimento.
2 N. do E. Definiu-se pela preservação das normas textuais e bibliográficas adotadas no país de origem do texto.

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