CIDADE DE VIDRO
A Cidade de Vidro surgia no horizonte como um colosso cristalino,
refletindo o céu em mil tonalidades que mudavam a cada batida do vento.
Construída sobre um lago congelado, ela era um monumento à harmonia
entre magia e engenharia. Porém, sob sua superfície brilhante, muitas
fissuras escondiam segredos perigosos.
Soren, um jovem cartógrafo, trabalhava registrando cada rua, torre e
túnel subterrâneo. Mas em suas explorações, ele encontrou algo proibido:
um mapa antigo gravado diretamente no gelo, revelando caminhos que não
deveriam existir. Caminhos que desciam muito além da cidade, em direção
ao coração do lago.
Contra as ordens do Conselho, Soren investigou. Quanto mais avançava,
mais o gelo parecia sussurrar como uma criatura viva. Até que encontrou
uma câmara esquecida, iluminada por cristais pulsantes. No centro dela,
adormecia uma entidade colossal, feita de puro vidro vivo, respirando
lentamente desde eras remotas.
O mapa era um aviso. A cidade não tinha sido construída sobre o lago…
ela era a prisão da criatura. E agora, as fissuras estavam se abrindo.
CÂNTICO DAS ERVAS
No coração da Floresta de Meralis, onde o vento carregava melodias que
ninguém sabia de onde vinham, vivia uma antiga herbalista chamada
Ysolde. Seu dom era único: ela conseguia ouvir o cântico das ervas, uma
linguagem natural feita de vibrações, aromas e pequenas variações na
luz.
Porém, certo dia, a floresta silenciou.
Assustada, Ysolde mergulhou mais fundo entre as árvores, buscando
entender o motivo do silêncio. Os troncos pareciam secar por dentro, o
solo se tornara frio, e as folhas tremiam como se temessem alguma
presença invisível. Após horas de caminhada, encontrou um círculo de
plantas completamente petrificadas — algo que jamais deveria existir
naquele lugar sagrado.
No centro do círculo havia uma semente negra pulsante.
Ao tocá-la, Ysolde ouviu o cântico de uma única voz, desesperada: a
própria floresta. Ela sussurrou que uma força desconhecida estava
devorando sua essência, consumindo memórias, espíritos e raízes.
Determinada a salvar o bosque, Ysolde levou a semente consigo. Mas cada
passo que dava a aproximava mais da entidade que havia silenciado o
cântico — uma criatura sem forma, que se alimentava de tudo aquilo que
tivesse vida, crescendo a cada momento de silêncio imposto ao mundo.