UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE TEORIA E HISTÓRIA DA ARTE
LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS
NOME DA DISCIPLINA: TEORIAS DA ARTE III - EXPERIÊNCIA / CORPO / SUBJETIVIDADE
PROFª: MICHELLE FARIAS SOMMER
NOME DE ALUNA: LOHANNE BRITO JOANNES (MATRÍCULA: 202210279411)
ATIVIDADE – FICHA DE LEITURA
Referência bibliográfica completa: KILOMBA, Grada, Memórias da plantação:
Episódios de racismo cotidiano, 1ª edição, editora Cobogó, 2019, p. 47-70..
Questão central do texto lido: RESUMO
(cerca de 8 linhas)
Palavras-chave do texto
Racismo, academia, pertencimento, resistência
Informações básicas sobre o autor
Grada nasceu em 1968 (57 anos) em Lisboa, Portugal. Formou-se em psicologia
clínica e psicanálise em Lisboa e fez doutorado em Filosofia pela Freie Universität de
Berlim. A autora se inspira em Frantz Fanon e Bell Hooks e trata de temas como a
desconstrução do pensamento colonial e do racismo estrutural.
Página Transcrição das citações mais importantes
49-50 Todo semestre, logo no primeiro dia do meu seminário, faço
algumas perguntas à turma, para lhes oferecer uma noção de
como o conhecimento e o poder racial se entrelaçam. Primeiro
nós contamos quantas pessoas há na sala. Então, começo fa-
zendo perguntas muito simples: O que foi a Conferência de
Berlim em 1884-85? Quais países africanos foram colonizados
pela Alemanha? Quantos anos durou a colonização alemã no
continente africano? E concluo com perguntas mais específi-
cas: Quem foi a Rainha Nzinga e que papel ela teve na luta con-
tra a colonização europeia? Quem escreveu Pele Negra, Más-
caras Brancas? Quem foi May Ayim?
Não surpreende que a maioria das/os estudantes brancas/
os na sala é incapaz de responder às perguntas, enquanto estu-
dantes negras/os respondem corretamente à maioria delas. De
repente, aquelas/es que, em geral, não são vistas/os tornam-
-se visíveis, enquanto aquelas/es sempre vistas/os tornam-se
invisíveis. Aquelas/es usualmente silenciosas/os começam a
falar, enquanto aquelas/es que sempre falam tornam-se silen-
ciosos. Silenciosos não porque não conseguem articular suas
vozes ou línguas, mas sim porque não possuem aquele conhe-
cimento. Quem sabe o quê? Quem não sabe? E por quê?
Esse exercício nos permite visualizar e compreender como
conceitos de conhecimento, erudição e ciência estão intrinse-
camente ligados ao poder e à autoridade racial. Qual conheci-
mento está sendo reconhecido como tal? E qual conhecimento
não o é? Qual conhecimento tem feito parte das agendas aca-
dêmicas? E qual conhecimento não? De quem é esse conhe-
cimento? Quem é reconhecida/o como alguém que possui
conhecimento? E quem não o é? Quem pode ensinar conhe-
cimento? E quem não pode? Quem está no centro? E quem
permanece fora, nas margens?
55-56 O primeiro é uma forma de advertência, que des-
creve o ponto de vista de uma mulher negra como uma distor-
ção da verdade, indicada aqui através da expressão "interpretar
demais". A colega branca estava me advertindo que eu estava
interpretando em demasia, extrapolando as normas da epis-
temologia tradicional e, portanto, produzindo conhecimento
inválido. Parece-me que a afirmação "interpretar demais" tem
a ver com a ideia de que a/o oprimida/o está vendo "algo" que
não deveria ser visto e a revelar "algo" que deveria permanecer
em silêncio, como um segredo.
Curiosamente, também nos discursos feministas, os ho-
mens tentam, de forma similar, irracionalizar o pensamento
de mulheres, como se as interpretações feministas não fossem
nada mais do que fabricação da realidade, de ilusão, talvez
até uma alucinação feminina. Nessa constelação, é a mulher
branca que irracionaliza meu pensamento e, ao fazê-lo, ela
define para uma mulher negra o que é o conhecimento "real"
e como ele deveria ser expressado. Isso revela as complexas
dinâmicas entre "raça", gênero e poder, e como a suposição de
um mundo dividido entre homens poderosos e mulheres su-
bordinadas não pode explicar o poder da mulher branca sobre
mulheres e homens negros.
De forma subjetiva, escreva por quê os trechos selecionados fazem sentido para
você e como.
1. O primeiro trecho descreve um exercício em sala de aula que inverte a dinâmica de
poder habitual.
Este trecho me impactou pois desvenda o que é o privilégio epistêmico: o luxo de
poder ignorar outras histórias e saberes sem que isso invalide sua posição como
"culta" ou "educada". A minha ignorância sobre a história africana não me penaliza
socialmente, enquanto o conhecimento que os estudantes negros possuem é
frequentemente considerado "de nicho" ou "ativista", e não um saber fundamental.
O exercício da professora expõe essa assimetria de forma brilhante. Ele demonstra
que o "conhecimento" não é um campo neutro; é um território disputado,
intrinsecamente ligado a quem detém o poder de definir o que é central e o que é
marginal. O "não saber" não é um vazio acidental, mas o resultado de um projeto de
poder que centra a branquitude e apaga o resto.
2. A Desqualificação como Ferramenta de Poder: "Interpretar Demais"
O segundo trecho aprofunda a análise, mostrando como o poder atua para manter
essa hierarquia do saber.
Esta passagem nomeia uma tática de silenciamento sutil e extremamente comum. A
acusação de "interpretar demais" ou de "ser muito sensível" é uma ferramenta
poderosa para deslegitimar uma perspectiva que desafia o status quo. Ela não ataca
o argumento em si, mas a credibilidade de quem o enuncia. A mensagem implícita é:
"Você está vendo coisas que não existem. A sua percepção, moldada pela sua
experiência de opressão, não é confiável. A minha percepção, a da norma, é a
realidade objetiva."
Como mulher, reconheço imediatamente essa tática, como a própria autora aponta,
frequentemente usada por homens para invalidar o pensamento feminista ("vocês
estão exagerando", "é só uma piada"). No entanto, o que torna este trecho tão
crucial para a reflexão é o fato de ser uma mulher branca exercendo esse poder sobre
uma mulher negra.
É fácil e confortável enxergar o mundo através de uma lente binária de opressão de
gênero: homens (opressores) vs. mulheres (oprimidas). Contudo, essa visão é
perigosamente incompleta. Este trecho força a reconhecer que, embora mulheres
brancas possam sofrer opressão por ser mulher,elas também carregam e se
beneficiam do privilégio da branquitude. E esse privilégio concede um poder que
uma mulher negra não possui.
A colega branca do texto, mesmo sendo parte de um grupo de gênero subordinado,
mobiliza seu poder racial para policiar o conhecimento da mulher negra. Ela se torna
a guardiã da "epistemologia tradicional" — uma epistemologia que, como vimos no
primeiro trecho, foi construída sobre a exclusão de saberes não-brancos. Um
feminismo que não reconhece as hierarquias de poder entre mulheres está fadado a
replicar as mesmas estruturas opressivas que diz combater. Ele mostra que a
"sororidade" não pode ser um conceito abstrato que apaga as diferenças de poder e
experiência. Ela precisa ser construída ativamente, e isso exige que mulheres brancas
reconheçam seu poder e aprendam a ceder espaço, a ouvir sem invalidar e a
desconfiar da própria tendência de se ver como a norma.