Em "A Corneta do Diabo":
Linguagem Satírica e Irónica: ridicularizar o jornalismo sensacionalista e a figura de Dâmaso
Salcede. A ͏ironia passa pela descrição do jornal e das suas ͏razões.
* Exemplo: A própria designação "A Corneta do Diabo" já tem uma carga irónica, sugerindo
um instrumento de propagação do mal e da discórdia, em vez de um veículo de informação
sério.
* Exemplo: A descrição dos artigos do jornal como "pasquins imundos" e a caracterização do
seu público como "leitores ávidos de escândalo" revelam a atitude crítica do autor através da
linguagem.
* Adjetivação Expressiva e Caricaturizante: A escolha de adjetivos é fundamental para criar um
retrato negativo e exagerado dos elementos criticados.
* Exemplo: Referências a Dâmaso como "indivíduo abjeto", "alma rasteira" e "figura grotesca"
intensificam a sua degradação moral e física através de uma linguagem forte e depreciativa.
* Exemplo: A descrição do estilo do jornal como "violento", "calunioso" e "destituído de
escrúpulos" enfatiza a sua natureza nociva.
* Vocabulário Denotativo e Conotativo: Eça escolhe palavras que não apenas informam, mas
também carregam conotações negativas, reforçando a crítica.
* Exemplo: O uso de termos como "imundície", "malícia" e "veneno" para descrever o
conteúdo do jornal.
Em "A Tarde":
* Linguagem da Retratação Forçada: A linguagem utilizada na carta de retratação de Dâmaso,
ditada por Ega, é marcada pela humilhação e pela submissão forçada.
* Exemplo: A escolha de palavras como "profundamente arrependido", "levado por um
impulso infeliz" e "apresento as minhas sinceras desculpas" revela a coação por trás da
declaração, contrastando com a linguagem agressiva dos artigos anteriores.
* Contraste de Estilos: O contraste entre a língua sensacionalista de "A Corneta do Diabo" e a
linguagem formal e subserviente da retratação em "A ͏Tarde" mostra a manipulação e͏ poder que
͏Ega exercia ͏sobre Dâmaso.
* Ironia Subjacente: Mesmo na formalidade da retratação, pode haver uma camada de ironia por
parte do narrador ao apresentar a situação, mostrando a hipocrisia e a falsidade das aparências.
Em suma, as marcas de linguagem nestes episódios são cruciais para a construção da crítica
social e para a caracterização das personagens. Eça de Queiroz utiliza uma variedade de
recursos estilísticos para envolver o leitor na sua visão satírica da sociedade portuguesa e do
jornalismo da época. A escolha de palavras, a estrutura das frases, o uso da ironia e do discurso
indireto livre são ferramentas poderosas que contribuem para a riqueza e a profundidade da
obra.