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Comparacao 2

As obras 'O Sermão de Santo António aos Peixes' de Padre António Vieira e 'O Retrato de Dorian Gray' de Oscar Wilde criticam a corrupção moral e a hipocrisia de suas sociedades, abordando a dicotomia entre aparência e essência. Enquanto Vieira utiliza a oratória religiosa e uma crítica direta ao colonialismo, Wilde emprega a ficção psicológica para explorar a superficialidade da estética vitoriana. Ambas as obras refletem sobre a responsabilidade individual e a teatralidade da identidade, desafiando o leitor a confrontar questões éticas e existenciais.
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Comparacao 2

As obras 'O Sermão de Santo António aos Peixes' de Padre António Vieira e 'O Retrato de Dorian Gray' de Oscar Wilde criticam a corrupção moral e a hipocrisia de suas sociedades, abordando a dicotomia entre aparência e essência. Enquanto Vieira utiliza a oratória religiosa e uma crítica direta ao colonialismo, Wilde emprega a ficção psicológica para explorar a superficialidade da estética vitoriana. Ambas as obras refletem sobre a responsabilidade individual e a teatralidade da identidade, desafiando o leitor a confrontar questões éticas e existenciais.
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comparação das obras.

As obras O Sermão de Santo António aos Peixes de Padre António Vieira e O


Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, ainda que oriundas de contextos
históricos, culturais e formais profundamente distintos, convergem numa crítica
incisiva à corrupção moral e à hipocrisia das sociedades a que pertencem. Ambas
propõem uma reflexão ética através de construções simbólicas densas e uma
textualidade sofisticada, mas diferem nos mecanismos com que abordam essa
crítica: Vieira pela oratória religiosa e retórica barroca; Wilde pela ficção
psicológica e esteticismo decadentista.
Do ponto de vista temático, ambas se debruçam sobre a dicotomia entre
aparência e essência. Vieira, com uma estrutura dual de louvor seguido de
censura, expõe o contraste entre a imagem cristã que os colonos portugueses
apresentam e as práticas de exploração e escravatura que protagonizam. Wilde,
por sua vez, encena esse mesmo conflito através do personagem Dorian Gray,
cuja beleza imutável encobre uma alma cada vez mais corrompida. Em ambas as
obras, a aparência funciona como uma ilusão que mascara a degradação moral, e
ambas apontam para a hipocrisia de sistemas que privilegiam o exterior, seja em
nome da fé ou da arte.
A corrupção moral é apresentada como um problema coletivo e estrutural. Em
Vieira, a crítica é direta e fortemente politizada: o sermão é uma intervenção
contra o abuso do poder colonial, contra a indiferença das autoridades religiosas
e contra a passividade da sociedade face à injustiça. Em Wilde, a crítica é mais
insidiosa, revelando como a sociedade vitoriana glorifica o estético enquanto
reprime o ético. Dorian é o produto de uma sociedade que valoriza a juventude e
a beleza como bens supremos, mesmo à custa da alma. Wilde, assim como Vieira,
denuncia um mundo onde os valores estão invertidos: o que deveria ser fonte de
verdade e iluminação (a fé, a arte) torna-se veículo de alienação e perdição.
O modo como a palavra ou a arte perde o seu poder transformador é também um
ponto de encontro. Vieira, pregando a peixes, ironiza a surdez moral dos homens.
O sermão é simultaneamente um ato de fé na palavra e um lamento da sua
falência. Wilde representa o mesmo desencanto através da figura do retrato: uma
obra de arte que deveria elevar, mas que acaba por aprisionar e condenar o

comparação das obras. 1


protagonista. Em ambos os casos, assiste-se à inutilidade do saber sem ação: os
colonos conhecem a doutrina, mas não a vivem; Dorian tem consciência da sua
queda, mas recusa-se a agir com base nela.
Os simbolismos são elementos estruturantes em ambas as obras. Vieira organiza
o sermão com base numa alegoria zoológica, onde diferentes peixes representam
tipos morais: o torpedo (paralisia da consciência), o polvo (hipocrisia e
dissimulação), o peixe-voador (ambição desmedida), entre outros. O seu
discurso, embora disfarçado de exortação religiosa, é uma crítica social
dissimulada mas feroz. Wilde utiliza um único símbolo central — o retrato — para
encapsular o conflito entre o ser e o parecer, funcionando como espelho da alma,
registo dos pecados e consciência silenciada. Ambos os autores usam os
símbolos para ultrapassar a censura e aceder a uma verdade que não pode ser
dita literalmente.
As diferenças formais entre as obras são significativas. Vieira escreve num estilo
barroco, com frases longas, paralelismos, quiasmos, figuras de repetição e
contraste, fazendo uso de uma linguagem retórica que pretende convencer e
converter. O texto é performativo e oral, concebido para ser ouvido. Já Wilde
escreve num estilo decadentista e esteticista, recorrendo ao paradoxo, à ironia, ao
aforismo e à intertextualidade. A sua prosa é lapidar e refinada, não para
convencer pela moral, mas para provocar pela beleza e pelas ambiguidades
morais que suscita. A teatralidade da linguagem é evidente em ambos: Vieira
constrói uma cena de tribunal espiritual; Wilde encena uma tragédia íntima e
silenciosa.
Outro contraste importante está na relação com a possibilidade de redenção.
Vieira, apesar do tom de desapontamento, ainda acredita na força da palavra e na
possibilidade de transformação. O sermão é uma forma de resistência à
decadência espiritual. Em Wilde, a possibilidade de redenção é ambígua e trágica:
quando Dorian tenta mudar, é demasiado tarde. O final do romance mostra que a
verdade sempre se impõe, mas a um custo extremo.
Ambas as obras também problematizam a questão da responsabilidade individual.
Vieira responsabiliza diretamente os líderes eclesiásticos e políticos pela
degradação moral do mundo colonial; Wilde mostra como Dorian se torna
cúmplice da sua própria corrupção ao escolher repetidamente ignorar as

comparação das obras. 2


consequências das suas ações. Em ambos os casos, a moralidade é construída
não como teoria, mas como escolha prática diante da vida.
Adicionalmente, as obras exploram a teatralidade da identidade. Dorian vive como
um ator da sua própria existência, moldando-se às expetativas e aos prazeres
alheios, encenando uma virtude que não possui. Vieira, por seu lado, mostra que
muitos líderes se escondem por trás da aparência de santidade, com discursos
que não correspondem à conduta. A crítica comum é que a identidade, quando
usada como performance vazia, trai o seu propósito ético.
Ambas as obras também operam como dispositivos metatextuais. O Sermão
reflete sobre a função do sermão e do pregador; Vieira interroga a utilidade do
seu ofício, questiona o poder da palavra e transforma o púlpito numa arena
política e moral. Dorian Gray, por sua vez, reflete sobre a arte e o papel do artista:
a pintura, o romance, a beleza e o prazer são discutidos não apenas como temas,
mas como veículos de questionamento moral e existencial. Ambas as obras
contêm uma dimensão autorreflexiva que as posiciona como textos críticos da
própria linguagem e da sua função social.
As duas obras também se distinguem na forma como integram o sobrenatural e o
maravilhoso. Em Vieira, o uso da alegoria dos peixes, embora simbólico, ancora-
se numa lógica moral cristã e numa visão providencial do mundo. Em Wilde, o
retrato assume uma dimensão sobrenatural que desafia as leis naturais,
funcionando como um pacto implícito com o mal. Essa dimensão gótica reforça a
crítica à degradação espiritual e serve como aviso contra os perigos do niilismo
moral.
Há ainda um contraste interessante quanto à função comunitária ou individual do
texto. O Sermão dirige-se a uma coletividade — o auditório colonial — com o
intuito de gerar mudança social. A sua dimensão é pública e institucional. Dorian
Gray, em contraste, é uma narrativa de introspeção e isolamento: o drama é vivido
no foro íntimo, e a queda moral dá-se de forma silenciosa, sem redentores nem
comunidade. Essa diferença revela dois modos de pensar o mal: como fenómeno
coletivo e político Vieira) ou como tragédia individual e existencial Wilde).
Ambas inserem-se em tradições literárias distintas — o barroco ibérico e o
esteticismo vitoriano — mas partilham o desejo comum de provocar o leitor, de o
obrigar a confrontar-se com o seu tempo, os seus valores e a sua consciência. A

comparação das obras. 3


articulação entre ética e estética, palavra e poder, aparência e essência é aquilo
que confere a ambas as obras a sua força duradoura.
Ambas as obras desafiam o leitor a refletir sobre a natureza do bem e do mal, da
consciência e da liberdade. O Sermão convida à ação justa a partir da doutrina
cristã, enquanto Dorian Gray obriga o leitor a confrontar-se com os limites da
liberdade individual e com as consequências da estetização do vício. Ambas, por
caminhos diferentes, propõem um mesmo gesto: o de colocar a corrupção moral
no centro da experiência humana e convidar à sua desmontagem, quer pela
palavra religiosa e política, quer pela arte e pelo desconforto filosófico.
Além disso, destaca-se o papel do silêncio como forma de resistência ou
denúncia. Em Vieira, os peixes representam um auditório simbólico que ouve sem
interromper, permitindo que a palavra se realize em plenitude — ainda que
simbolicamente. Esse silêncio contrasta com o ruído vazio dos “roncadoresˮ,
símbolo da vaidade e da arrogância. Já em Wilde, o silêncio é a estratégia de
ocultação de Dorian: ele esconde, dissimula, evita o confronto direto com a
verdade. Assim, o silêncio adquire duas funções distintas: enquanto em Vieira é a
condição ideal da escuta e do juízo, em Wilde torna-se instrumento de negação e
alienação.
Outro ponto de convergência é a crítica à instrumentalização da fé e da estética
como formas de dominação. Em Vieira, a religião é usada pelos colonos como
justificativa para a exploração e subjugação dos povos indígenas. Em Wilde, a
arte e a beleza são empregues como escudo moral, permitindo a Dorian justificar
os seus vícios em nome da experiência estética. Ambas as obras denunciam o
uso perverso de valores superiores — fé ou arte — para fins de manipulação,
prazer egoísta ou poder.
Adicionalmente, ambas as obras dialogam com o conceito de identidade
fraturada. O retrato de Dorian encarna a cisão entre aparência e essência, visível
e oculto, presente e passado. A imagem torna-se mais verdadeira do que o
próprio corpo. Em Vieira, os peixes dividem-se entre os bons e os maus, e essa
bipolaridade reflete a divisão do próprio ser humano, entre aquilo que prega e
aquilo que faz. Assim, ambos os autores constroem universos onde a identidade
está em crise — e onde a busca da verdade implica uma dolorosa confrontação
com a própria duplicidade.

comparação das obras. 4


Por fim, deve-se sublinhar o valor pedagógico implícito de cada obra. Vieira
pretende transformar o mundo através da palavra profética, corrigir os desvios
morais e religiosos da sociedade colonial. Wilde, embora não moralista no sentido
tradicional, alerta para os perigos do culto da estética e da alienação da
consciência. Ambas as obras ensinam, cada uma a seu modo: uma através da
retórica da fé e da justiça, outra através da sedução do belo e da revelação do
abismo ético. É essa tensão entre denúncia e sedução, entre religiosidade e
esteticismo, que torna ambas as obras tão ricas para análise literária e filosófica.

comparação das obras. 5


Dorian Grey – Temas e
Simbolismos

Temas Principais:
Aparência vs. Essência

Wilde explora intensamente a separação entre o que se vê e o


que se é. Dorian apresenta ao mundo uma aparência de beleza
e juventude eterna, mas no interior — representado
simbolicamente pelo retrato — torna-se cada vez mais
monstruoso. O autor constrói uma crítica à sociedade vitoriana,
que associa beleza à moralidade e aparência à verdade. No
universo do romance, a aparência física não apenas esconde a
corrupção, mas permite que ela floresça sem consequências
sociais imediatas.

Em O Retrato de Dorian Gray, a oposição entre aparência e essência constitui o


alicerce filosófico e narrativo da obra. Oscar Wilde questiona os valores da
sociedade vitoriana, que tendia a associar beleza a moralidade e juventude a
virtude. Através da personagem de Dorian Gray, Wilde desmascara essa ilusão,
mostrando que a aparência pode não apenas esconder a corrupção, mas permitir
que ela cresça, protegida pela máscara da perfeição.

Dorian Gray é introduzido como um jovem “extraordinariamente beloˮ, com um


rosto angelical que parece isentá-lo de qualquer suspeita. A sua beleza não é
apenas estética: Wilde faz dela um instrumento de poder social e psicológico.
Dorian torna-se admirado, desejado e invejado. A sociedade perdoa-lhe tudo —
porque a aparência atua como escudo ético. Esta crítica é diretamente dirigida à
hipocrisia vitoriana: Wilde mostra que a obsessão pela forma superficial anula
qualquer discernimento moral real.

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 1


O retrato pintado por Basil Hallward funciona como dispositivo literário e
simbólico que concretiza o conflito entre o ser e o parecer. Enquanto Dorian
permanece eternamente jovem, o retrato envelhece e se deforma, acumulando os
traços da sua alma corrompida. O quadro torna-se o duplo da consciência, um
espelho da degradação espiritual. A essência está deslocada para fora do corpo
— como se o romance dissesse que a verdade do ser já não pode habitar o
visível.
Wilde constrói uma ironia trágica: quanto mais horrível se torna o retrato (a
essência), mais belo permanece Dorian (a aparência). Esta inversão expõe uma
crítica profunda à sociedade do espetáculo, onde a forma é adorada mesmo que
esconda ruína interior. Dorian manipula a sua imagem com mestria, sabendo que a
beleza o protege de julgamentos. A personagem vive do que representa, não do
que é — e Wilde sugere que essa é a condição do homem moderno.

O tema adquire um tom particularmente ácido quando cruzado com o contexto da


Inglaterra vitoriana. A época era marcada por códigos rígidos de moralidade, mas
também por uma prática social extremamente hipócrita. Wilde denuncia essa
dicotomia: os mesmos que condenam pecados em público vivem de forma imoral
em privado. A beleza de Dorian é uma metáfora para o verniz da sociedade
vitoriana — brilhante por fora, podre por dentro.

A tentativa de Dorian de destruir o retrato representa o desejo de apagar a


verdade. No entanto, ao perfurar o quadro, Dorian destrói a si mesmo. Wilde
encerra o romance com uma conclusão simbólica poderosa: a essência triunfa
sobre a aparência. A verdade interior — por mais reprimida — não pode ser
eternamente negada. Quando o retrato volta ao seu estado original e Dorian surge
morto e deformado, o autor sentencia: ninguém escapa ao que realmente é.

O conflito entre aparência e essência, em Wilde, é mais do que um tema — é uma


crítica civilizacional. O romance propõe que o culto da forma e da beleza, quando
desvinculado de valores morais ou autênticos, conduz à alienação, à mentira e,
por fim, à morte espiritual. O que parece belo pode esconder o inferno — e o que
é verdadeiro, por mais terrível que seja, acabará por emergir.

Hedonismo e decadência moral

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 2


A filosofia que guia Dorian, ensinada por Lord Henry, é a do
hedonismo absoluto: a vida deve ser vivida para o prazer, sem
limitações impostas por normas morais ou religiosas. À medida
que Dorian se entrega aos prazeres sensoriais, Wilde mostra
como esta busca constante pelo prazer o desumaniza. O
retrato, que regista cada uma das suas faltas morais, torna-se
um registo físico da sua queda, ao passo que o próprio Dorian
permanece belo, mas vazio de ética.

O hedonismo, entendido como a filosofia que coloca o prazer como objetivo


supremo da vida, é o eixo ideológico da queda de Dorian Gray. Através da
influência de Lord Henry, Dorian adota um estilo de vida marcado pela busca
incessante de prazer, beleza, experiências sensoriais e transgressões — tudo
desligado de qualquer valor ético. Wilde, no entanto, não apresenta esta ideologia
como libertadora, mas como um caminho para a desumanização, o vazio e a
destruição interior.
Desde os primeiros capítulos, Lord Henry Wotton encarna o papel de “tentador
filosóficoˮ. Através de diálogos aforísticos, defende ideias como a futilidade da
moralidade, a hipocrisia da sociedade e a glória da juventude. Lord Henry não é
apenas uma personagem — é um veículo de ideias, uma espécie de
Mephistófeles vitoriano que seduz com palavras. O seu discurso estético e
provocador convence Dorian de que os impulsos e os prazeres devem ser
seguidos sem medo, arrependimento ou juízo.

A partir do momento em que Dorian ouve Lord Henry — e sobretudo após desejar
permanecer jovem para sempre, mesmo à custa da sua alma — a sua trajetória
moral altera-se drasticamente. A perda da inocência é rápida e total. Inicialmente
encantado com a beleza, Dorian passa a viver para a experiência, consumindo
tudo o que lhe provoca sensação: arte, drogas, sexualidade, luxo, poder. Wilde
constrói, assim, um retrato do homem que coloca o prazer acima de tudo, mas
que se desliga da compaixão, da responsabilidade e do amor verdadeiro.

O livro que Lord Henry oferece a Dorian — uma obra de estética decadente,
jamais nomeada diretamente — torna-se uma espécie de bíblia hedonista. Dorian
lê-o obsessivamente, ao longo de anos, e estrutura a sua vida à imagem das

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 3


personagens que contém. Wilde utiliza este livro como símbolo da ideologia que
corrompe, demonstrando como uma estética vazia pode funcionar como
substituto de uma filosofia de vida, conduzindo ao niilismo. É uma crítica ao
esteticismo que ignora a ética, que Wilde conhecia por dentro, mas também
questionava.

À medida que os anos passam, Dorian mergulha num estilo de vida feito de
excessos: ópio, festas noturnas, seduções destrutivas. Contudo, Wilde não
apresenta esta vida como prazerosa — o prazer torna-se hábito, o hábito torna-se
vazio, e o vazio torna-se insuportável. Dorian vive cercado de luxo, mas isolado
de significado. O prazer torna-se rotina narcótica, e a ausência de
arrependimento não é liberdade, mas apatia moral. É neste ponto que o
hedonismo mostra a sua face decadente: não como libertação, mas como
decadência espiritual.

A morte de Sybil Vane, a corrupção de Basil e a destruição de Alan Campbell


revelam o impacto do hedonismo de Dorian nas vidas alheias. Wilde mostra que
viver apenas para si não é apenas autodestrutivo — é também destrutivo para os
outros. A beleza de Dorian permite-lhe escapar a julgamento, mas Wilde não o
poupa ao castigo último: a solidão absoluta, o medo de si mesmo e, por fim, a
destruição. A busca do prazer sem limites conduz, inevitavelmente, à aniquilação
moral.

Embora Oscar Wilde fosse um esteta, O Retrato de Dorian Gray não é um panfleto
do hedonismo — é uma advertência contra a sua forma extrema e irresponsável.
Wilde parece dizer que o prazer, quando separado da consciência, perde o seu
valor humano. A estética sem ética não eleva — perverte. A experiência sem
sentido destrói. Ao dramatizar a ruína de Dorian, Wilde não condena o prazer em
si, mas sim o culto do prazer enquanto substituto do bem.

O hedonismo em O Retrato de Dorian Gray é apresentado como um ideal sedutor,


mas falacioso. A sua promessa de liberdade revela-se prisão, a sua celebração da
juventude transforma-se em maldição, e a sua recusa da moralidade acaba por
confirmar o poder inescapável da consciência. Wilde expõe os limites do prazer
como fundamento da vida e aponta para a necessidade de um equilíbrio entre
beleza, verdade e responsabilidade.

Influência e manipulação

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 4


A figura de Lord Henry representa o poder corruptor da
linguagem. Ele não comete atos imorais diretos, mas usa a sua
palavra para moldar Dorian como uma experiência. Através dos
seus aforismos e discursos sofisticados, Henry desmonta
conceitos como virtude, arrependimento e amor, substituindo-
os por uma filosofia estética. A influência das ideias é, assim,
mais destrutiva do que a ação direta, e Wilde usa esta dinâmica
para criticar o poder destrutivo das ideias quando não são
acompanhadas de responsabilidade.

Neste romance, Wilde explora a influência como força invisível, mas


profundamente destrutiva. A influência não é apenas social, mas intelectual,
estética e moral, exercida através da palavra, da presença e da admiração. A
relação entre Lord Henry e Dorian é construída como um exemplo extremo da
manipulação ideológica: Dorian é corrompido não por ações, mas por ideias.
Wilde questiona, com isso, o poder da linguagem e a responsabilidade de quem
pensa e fala.
Lord Henry Wotton é, desde a sua primeira aparição, uma figura sedutora. Com o
seu discurso irónico e aforístico, conquista o espaço e o ouvinte — primeiro Basil,
depois Dorian. Wilde constrói-o como um dândi intelectual, um esteta amoral que
vive para observar a vida, mas não para a transformar. A sua influência não se dá
pela força, mas pela autoridade do charme verbal. Ele apresenta-se como um
observador distante, mas, ao longo da narrativa, atua como o verdadeiro motor da
queda de Dorian.
Wilde mostra que o discurso tem o poder de reconfigurar o modo como uma
pessoa vê o mundo e a si mesma. Ao expor Dorian à sua filosofia hedonista, Lord
Henry reestrutura o seu imaginário: fá-lo ver a juventude como bem supremo, a
beleza como único valor, e a moralidade como prisão burguesa. A palavra, neste
contexto, não comunica — transforma. Wilde cria uma dinâmica pedagógica
invertida: Henry é um mentor tóxico, um educador da corrupção.
No início da obra, Dorian é descrito como alguém inocente, emotivo, quase
ingénuo. Lord Henry reconhece nele uma espécie de matéria-prima ideal para as

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 5


suas ideias. A beleza de Dorian não é apenas aparência — é também
vulnerabilidade simbólica. Ele é jovem, influenciável, impressionável. Wilde
compara-o a uma tela onde os outros — principalmente Henry — vão pintar com
palavras e ideias. A perda da autonomia moral de Dorian não é forçada, mas
induzida com precisão quase clínica.
Quando Lord Henry oferece a Dorian o famoso “livro amareloˮ, reforça-se a ideia
de que a influência não é episódica, mas prolongada e sistemática. O livro torna-
se uma espécie de mentor invisível, que guia a vida de Dorian durante quase duas
décadas. Trata-se de uma forma de colonização intelectual: as ideias de Henry
passam a habitar o interior de Dorian. O livro é, assim, símbolo da persistência da
influência — e da capacidade da linguagem de funcionar como vírus ideológico.
Importa sublinhar que Lord Henry nunca assume responsabilidade pelo que
provoca. Ele observa a queda de Dorian com fascínio estético, como se a vida do
jovem fosse um romance a ser lido ou um quadro a ser contemplado. Wilde, ao
construir esta atitude, critica a cultura vitoriana dos intelectuais e estetas que
jogam com ideias perigosas sem medir as consequências. A manipulação aqui
não é cruel nem cínica — é indiferente, e por isso mesmo, ainda mais
devastadora.

À medida que a narrativa avança, Dorian, ele próprio, começa a manipular os


outros. Corrompe Alan Campbell, seduz e destrói reputações, arrasta outros à
ruína. A influência absorvida torna-se padrão de ação. Wilde sugere que quem é
moldado por uma lógica de egoísmo e prazer sem limites acaba por reproduzir
esse modelo. O ciclo da manipulação torna-se hereditário, e a palavra venenosa
de Henry ecoa nos atos silenciosos e cruéis de Dorian.
Wilde interroga a função dos pensadores, artistas e oradores na formação moral
do outro. A influência não é neutra — tem peso, consequência e legado. Lord
Henry representa o sedutor que fala sem agir, mas que, ao moldar consciências,
altera destinos. Dorian representa a vítima que não resiste, mas também não
pensa criticamente. O romance não condena o pensamento estético, mas adverte:
quem pensa e influencia deve medir a força do que diz.

Culpa e repressão

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 6


Dorian não sente remorso de forma clara, mas vive sob o peso
daquilo que tenta ocultar. O retrato, que deveria ser apenas
uma obra de arte, transforma-se num espelho da consciência e
num registo dos seus crimes. Ao escondê-lo no sótão, Dorian
tenta apagar a sua culpa, mas Wilde deixa claro que a
repressão da verdade moral só leva à autodestruição. O clímax
da obra, com a destruição do retrato e a morte de Dorian,
simboliza a impossibilidade de viver eternamente fora das
consequências éticas.

A culpa é uma presença silenciosa mas constante ao longo de O Retrato de


Dorian Gray. Embora o protagonista não manifeste arrependimento convencional,
Wilde mostra como a consciência moral não desaparece — apenas se esconde,
reprime e transfere para outros símbolos, como o retrato. A repressão, nesse
sentido, é o mecanismo psicológico que permite a Dorian viver como se fosse
inocente, enquanto o peso dos seus crimes se acumula num lugar oculto. O
romance não trata a culpa como emoção passageira, mas como força espiritual
inevitável, que encontra sempre forma de reaparecer.

Desde o momento em que Dorian deseja permanecer eternamente jovem, o


retrato torna-se o portador da sua culpa. A cada ação cruel ou imoral — desde o
desprezo por Sybil Vane até ao assassinato de Basil — o quadro sofre alterações,
revelando o que Dorian recusa encarar. Wilde dá corpo físico à culpa, criando uma
imagem monstruosa que só o protagonista vê. Esta imagem funciona como
símbolo de repressão: quanto mais Dorian se distancia da verdade, mais horrível
se torna o retrato. A arte deixa de ser representação para se tornar confissão.

Apesar das evidências da sua degradação moral, Dorian recusa responsabilizar-


se. Wilde retrata a sua consciência como algo fragmentado: o protagonista
reconhece a fealdade do retrato, mas evita a introspeção. Tenta justificar os seus
atos com base na influência de Lord Henry, nas ideias do livro ou nas
circunstâncias. Esta negação ativa da culpa é um dos traços centrais da
personagem. Ao longo da narrativa, Dorian aprende a calar a sua consciência —
mas nunca a destrói. A repressão, aqui, é um processo de silenciamento
voluntário da verdade interior.

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 7


O lugar físico onde o retrato é escondido — o sótão — é uma poderosa metáfora
freudiana antes do tempo: representa o inconsciente, o lugar onde se guardam as
memórias, desejos e culpas que o sujeito não quer ver. Wilde atribui ao sótão um
peso simbólico: é sujo, escuro, esquecido, isolado do resto da casa. É onde
Dorian deposita a parte de si que renega. O espaço torna-se, assim, um
prolongamento da repressão interior — um compartimento da alma selado para
evitar confronto.

Apesar de tentar escapar à culpa, Dorian é constantemente reenviado à sua


verdade. O retrato, como espelho deformado da alma, impede o esquecimento.
Quando tenta “ser bomˮ, como no caso da jovem campónia Hetty Merton, o faz
não por verdadeiro arrependimento, mas como forma de reduzir as marcas no
retrato. Wilde mostra que a culpa não desaparece com boas intenções
superficiais — ela exige reconhecimento autêntico. A repressão parcial alimenta o
conflito interior, tornando-o insustentável.

A destruição final do retrato é, na verdade, a destruição do eu reprimido. Ao


apunhalar o quadro, Dorian tenta matar a culpa — mas, ironicamente, mata-se a si
mesmo. Wilde encerra o romance com uma inversão simbólica: o retrato recupera
a sua beleza original, e o corpo de Dorian aparece velho, disforme, horrendo. A
culpa, aqui, revela-se invencível. A essência reprimida não pode ser destruída —
apenas negada por tempo limitado. Quando a verdade emerge, fá-lo com
violência. A morte é o único ponto em que aparência e essência voltam a coincidir.

Em O Retrato de Dorian Gray, Wilde constrói uma crítica ao ideal do prazer sem
consequências, mostrando que a culpa é inescapável. Mesmo quando negada, ela
sobrevive como imagem, como espaço oculto, como sensação latente. A
repressão moral não é liberdade — é prisão interior. Dorian representa o indivíduo
moderno que tenta fugir da responsabilidade ética, mas que, no fim, é
confrontado com a verdade de que não há estética que redima uma alma
perdida. A culpa é o preço da consciência — e Wilde mostra que, no fundo, todos
pagam.

Simbolismo
O retrato é o símbolo central do romance: representa a alma, a consciência e a
passagem do tempo. A flor branca, frequentemente associada à pureza de Dorian
no início, torna-se símbolo da sua decadência estética e da sua perda de

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 8


inocência. O livro oferecido por Lord Henry é outro objeto simbólico de grande
importância: torna-se a bíblia do hedonismo que orienta a queda de Dorian. O
sótão onde o retrato é guardado simboliza a tentativa de esconder a verdade
moral da própria consciência.

Temas secundarios:
Crítica à misoginia e ao papel da mulher na sociedade vitoriana

A personagem de Sybil Vane representa a fragilidade da


mulher numa sociedade dominada pelo olhar masculino. Dorian
apaixona-se por ela enquanto atriz — isto é, enquanto
representação estética — mas perde o interesse assim que ela
revela emoções autênticas. O seu suicídio é tratado com frieza,
especialmente por Lord Henry, que descarta o sofrimento
feminino como melodrama. Wilde, embora não ofereça uma
crítica feminista explícita, expõe a forma como as mulheres são
consumidas, descartadas e desvalorizadas pelos ideais
estéticos e patriarcais do seu tempo.

Embora O Retrato de Dorian Gray se concentre nas experiências e conflitos


internos de personagens masculinos, Oscar Wilde introduz uma crítica sutil, mas
significativa, ao modo como a mulher é tratada na sociedade vitoriana. A
personagem de Sybil Vane é o principal veículo dessa crítica. O tratamento que
recebe por parte de Dorian — e a forma como a sua identidade é construída em
torno da função de musa e objeto de desejo — revela a estrutura patriarcal que
reduz a mulher a uma função decorativa, emocionalmente descartável.

Sybil é introduzida como uma jovem atriz talentosa e pura, que vive no mundo da
representação. Para Dorian, ela não é propriamente uma pessoa, mas uma
fantasia artística: o seu amor por ela é um amor por figuras  Julieta, Imogene,
Cordélia. Wilde mostra que Dorian projeta nela o seu ideal estético, tratando-a
como extensão da arte e não como sujeito real. Quando Sybil abandona a sua

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 9


teatralidade (atuando mal, porque está “possuída pelo amor verdadeiroˮ), Dorian
rejeita-a. O amor morre no instante em que ela se humaniza.
O momento em que Sybil se entrega a Dorian como mulher real — e não como
personagem idealizada — é também o momento em que ele perde o interesse.
Wilde expõe aqui a lógica perversa da misoginia vitoriana: o feminino só é
valorizado enquanto imagem, enquanto objeto de contemplação. A mulher
verdadeira, com emoção, fragilidade e profundidade, torna-se incômoda. Dorian
reage com desprezo e crueldade, tratando Sybil como descartável. Esta reação
ilustra como o feminino autêntico é reprimido, humilhado e silenciado.

A atitude de Lord Henry em relação às mulheres é marcada por cinismo e


desprezo. Ele descreve o casamento como uma convenção sem valor, ironiza os
sentimentos femininos e retrata a mulher como criatura inferior — guiada por
instinto, emoção e futilidade. Wilde dá-lhe este discurso para satirizar a misoginia
generalizada da elite vitoriana, onde a mulher era vista como incapaz de
pensamento racional e apenas útil como símbolo estético, procriadora ou
“inspiraçãoˮ masculina. Sybil é o exemplo trágico da mulher que não sobrevive a
esse sistema.

Após o suicídio de Sybil, esperava-se — num romance romântico convencional —


uma crise moral em Dorian. Mas Wilde rompe com essa expectativa: Lord Henry
relativiza o suicídio com sofismas artísticos, e Dorian é rapidamente convencido a
vê-lo como uma cena trágica bela, quase teatral. A morte de Sybil é convertida em
espetáculo estético. Esta reação demonstra o grau de insensibilidade emocional e
a completa objetificação da figura feminina no universo social e mental das
personagens.

Ao criar Sybil como atriz, Wilde reforça o seu papel simbólico. Ela representa
aquilo que a sociedade masculina espera da mulher: beleza, representação,
emoção superficial, sacrifício. Quando tenta agir como mulher real — abandonar a
atuação em nome do amor verdadeiro — falha, é punida e morre. Esta dinâmica
trágica serve para criticar a forma como a mulher era construída como
personagem social, e não como sujeito com agência. Sybil não tem espaço na
narrativa real; só é tolerada enquanto ilusão.

Wilde não escreve um manifesto feminista, mas denuncia de forma inteligente e


sutil o tratamento da mulher na sociedade patriarcal. Através da trajetória de Sybil
Vane, expõe a crueldade da idealização masculina, a violência da rejeição e a

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 10


frieza com que a dor feminina é estetizada. A crítica à misoginia está embutida na
estrutura narrativa: a mulher é permitida apenas como imagem, e paga com a
morte o gesto de se tornar pessoa. Wilde alerta para o custo trágico da
objetificação — tanto para quem é objetificado, como para quem destrói.

Homossociabilidade e homoerotismo reprimido

A ligação entre Dorian e Basil é claramente marcada por uma


paixão homoafetiva não nomeada, mas emocionalmente
intensa. A censura à versão original do romance removeu
várias passagens que sugeriam desejo homossexual. A própria
relação entre os três homens  Dorian, Basil e Lord Henry —
cria um triângulo em que o afeto, o fascínio e a manipulação
circulam fora das normas do afeto heteronormativo. Assim,
Wilde introduz uma crítica sutil à repressão sexual da Inglaterra
vitoriana, onde o desejo homoerótico era simultaneamente
praticado e condenado.

O Retrato de Dorian Gray é uma obra marcada por tensões e afetos que, embora
muitas vezes implícitos, sugerem um universo emocional homossocial e
homoerótico. Oscar Wilde, que viveu a sua sexualidade num contexto de
repressão legal e moral — tendo sido preso por “conduta indecenteˮ — inscreve
na obra os traços de uma paixão masculina não nomeada, mas claramente
presente. A censura da edição original e os cortes feitos para publicação reforçam
ainda mais a dimensão transgressora deste tema.
Desde o início, Basil Hallward descreve Dorian com uma linguagem de adoração
estética que ultrapassa os limites da amizade convencional. Refere-se ao jovem
como a sua “maior inspiraçãoˮ, como aquele que “trouxe nova vidaˮ à sua arte. No
entanto, há um subtexto emocional e físico latente: Basil não apenas admira
Dorian — ama-o. A intensidade com que fala dele, o ciúme que demonstra em
relação a Lord Henry e a obsessão com o retrato são marcas de um afeto
apaixonado. Wilde constrói Basil como uma figura trágica, cuja homossexualidade
reprimida se traduz em arte e sofrimento.

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 11


Embora Lord Henry tenha uma atitude cínica e quase científica em relação a
Dorian, também manifesta fascínio pela sua beleza e juventude. As conversas
entre ambos são carregadas de sedução intelectual e tensão subentendida. Henry
“formaˮ Dorian como alguém forma um amante — cultivando, moldando,
influenciando. A sua insistência em vê-lo, moldá-lo e observá-lo é sintoma de um
desejo não declarado. Wilde retrata aqui uma homossociabilidade carregada de
erotismo velado, típica das elites masculinas vitorianas — onde a intimidade entre
homens era permitida, desde que nunca assumida.
A primeira edição do romance 1890 sofreu censura explícita: várias passagens
em que Basil expressava sentimentos mais íntimos por Dorian foram suavizadas
ou eliminadas. A versão que chegou ao público era, assim, uma versão
domesticada de um desejo reprimido. No entanto, os leitores atentos percebem
os vestígios dessa codificação. Wilde, forçado a escrever dentro de um sistema
que criminalizava o desejo homoafetivo, utiliza metáforas estéticas, alusões
clássicas, e símbolos artísticos (o retrato, a beleza grega, a juventude imortal)
para contornar a repressão.

A estrutura relacional entre os três protagonistas pode ser lida como um triângulo
de desejo: Basil ama Dorian, Dorian é seduzido por Henry, e Henry manipula
ambos. Este triângulo não é apenas afetivo, mas simbólico: representa três modos
de viver a masculinidade homoafetiva. Basil é o sensível e reprimido; Henry, o
dândi cínico que manipula à distância; Dorian, o belo objeto de desejo que
transforma o afeto recebido em poder destrutivo. Esta configuração revela a
complexidade da homossexualidade no século XIX, marcada pela ocultação,
tensão e ausência de linguagem direta.
O próprio retrato pode ser lido como símbolo do desejo homossexual: é a imagem
intensamente adorada de um jovem belo, feita por um homem que o venera. A
obsessão de Basil com o retrato é mais do que estética — é erótica. Ao confessar
que colocou “demasiado de siˮ na obra, Basil revela que o retrato é tanto
expressão de desejo como de arte. Quando Dorian mata Basil diante do retrato,
Wilde dramatiza a destruição simbólica do amor não aceite — a violência contra
aquele que ousa amar de forma proibida.
O Retrato de Dorian Gray pode ser lido como uma narrativa de repressão sexual:
Dorian vive como figura pública desejável, mas guarda no sótão (literalmente
escondido) a verdade da sua alma. Esse retrato escondido pode ser interpretado

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 12


como símbolo do “armárioˮ — o espaço psicológico e físico onde se esconde a
sexualidade não aceitável socialmente. Wilde, ao estruturar o romance com essa
tensão entre o público e o secreto, expõe os mecanismos sociais que obrigam o
sujeito homoafetivo à dissimulação e à duplicidade.
A homossociabilidade e o homoerotismo em O Retrato de Dorian Gray não são
explícitos — mas estão entranhados na linguagem, na estrutura e na emoção do
texto. Wilde escreve a paixão entre homens num código simbólico, estético e
literário, revelando tanto a beleza como a dor de um desejo que não podia ser
nomeado. A obra denuncia, de forma sutil mas poderosa, uma sociedade que
reprime o amor entre iguais e que condena o afeto sincero ao silêncio, à arte ou à
tragédia.

O culto da arte e a noção de arte pela arte (lʼart pour lʼart)

Wilde, como esteta e dândi, está profundamente ligado ao


movimento estético que defendia a autonomia da arte em
relação à moralidade. Contudo, O Retrato de Dorian Gray
complica esta visão: embora celebre a beleza, o romance
também mostra como a adoração cega da estética pode
conduzir à ruína. O próprio Dorian justifica os seus pecados
como experiências artísticas. O romance, portanto, critica uma
leitura superficial do esteticismo e questiona se é possível
separar completamente a arte da ética.

Este é um dos temas mais sofisticados e autorreflexivos do romance. Oscar Wilde,


ele próprio figura central do movimento estético e defensor do princípio “arte pela
arteˮ (lʼart pour lʼart), problematiza essa mesma ideia em O Retrato de Dorian
Gray. A obra é, simultaneamente, uma defesa da arte enquanto experiência
estética autónoma e uma crítica aos riscos de separar completamente a estética
da ética. O romance oferece, assim, uma meditação ambígua e inquietante sobre
os limites do esteticismo.

Desde o prefácio da obra, Wilde provoca: “All art is quite useless.ˮ Esta
declaração, aparentemente paradoxal, é a base do esteticismo — a arte não

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 13


precisa de função moral, educativa ou social; deve ser apreciada pela sua beleza
e forma. Ao longo do romance, esta filosofia é encarnada por personagens como
Lord Henry, que considera que a estética é superior à moral, e por Dorian, que
transforma a sua vida num projeto artístico. O próprio retrato é o objeto mais puro
dessa visão: criado pela beleza, admirado como arte, separado da vida real.
O quadro de Dorian, pintado por Basil Hallward, é símbolo da arte perfeita — bela,
intocável, eterna. Inicialmente, é a expressão do ideal estético de Basil: capturar a
juventude, a perfeição e a sensibilidade do modelo. Contudo, à medida que o
retrato passa a refletir os pecados e a decadência moral de Dorian, torna-se
símbolo de um conflito profundo: a arte já não é apenas bela — é reflexo,
confissão, testemunho da verdade interior. Wilde mostra que a arte, mesmo sem
intenção moral, registra o real, e nesse processo, acaba por se tornar moralmente
significativa.

Dorian, influenciado por Lord Henry, adota a ideia de que a própria vida pode — e
deve — ser vivida como arte. Escolhe roupas, experiências, relações e mesmo
vícios com o cuidado de um curador. Mas Wilde revela o lado sombrio desse
projeto: ao tornar a vida num palco, Dorian aliena-se da autenticidade. Ele não
sente — interpreta. Não ama — representa. A sua busca pela estética total leva à
anulação do sujeito ético. Viver como arte, sem ética, converte-se num exercício
de narcisismo vazio e destrutivo.

O livro que Lord Henry oferece a Dorian, de conteúdo decadentista, simboliza o


esteticismo levado ao extremo. Dorian passa a viver segundo os modelos dessa
obra: imita os gostos, os gestos, os valores, como se estivesse a seguir um guião.
Wilde mostra que a arte, quando idolatrada como doutrina, pode tornar-se prisão.
O livro funciona como símbolo da arte corrompedora — não porque é arte, mas
porque é usada como desculpa para evitar a responsabilidade moral.
Basil representa uma visão mais íntima e espiritual da arte. Ao dizer que colocou
“demasiado de siˮ no retrato, revela que a arte não é apenas forma — é expressão
da alma. Para Basil, o retrato é confissão emocional, forma de amor. Wilde, aqui,
parece defender que a arte verdadeira está ligada à verdade emocional — não
apenas à superfície. É essa fusão entre sentimento e estética que torna Basil o
único artista genuíno da narrativa — e, ironicamente, a sua arte leva à sua morte,
mostrando o perigo de se expor num mundo que despreza a autenticidade.

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 14


Embora seja defensor do esteticismo, Wilde usa o romance para testar os seus
limites. Dorian acredita que a arte o salva da moral — mas Wilde mostra que é a
arte que o destrói. O retrato não é objeto neutro: acusa, denuncia, devolve-lhe o
que ele quis apagar. O romance parece, assim, contradizer o seu próprio prefácio:
se toda arte é inútil, por que é que o retrato mata? Wilde coloca o leitor num
terreno ambíguo — forçando-o a pensar que, mesmo que a arte seja criada sem
propósito moral, ela inevitavelmente produz efeitos morais.
O Retrato de Dorian Gray é, ao mesmo tempo, uma obra-prima do esteticismo e
uma advertência contra o seu radicalismo. Wilde celebra a arte como espaço de
beleza e imaginação, mas mostra que a recusa absoluta da ética leva ao vazio
existencial e à ruína moral. O romance não oferece uma resposta definitiva, mas
propõe uma tensão fértil: a arte pode ser livre da moral, mas o ser humano,
talvez, não possa. O retrato, ao fim, é inútil como arte — mas fatal como verdade.

Juventude e medo da morte

Dorian faz um pacto implícito para preservar a juventude a


qualquer custo. A obsessão pela aparência jovem é uma
metáfora para o medo da finitude, da decadência física e da
irrelevância. Wilde insinua que essa recusa do envelhecimento
— muito presente na elite inglesa — é não só vã, mas
destrutiva. A juventude eterna, em vez de liberdade, torna-se
prisão.

A juventude, em O Retrato de Dorian Gray, não é apenas um estado biológico — é


um ideal absoluto, quase divinizado. Para Dorian, envelhecer significa perder
valor, beleza e relevância. Influenciado por Lord Henry e pela sociedade vitoriana
que idolatra a juventude como símbolo de pureza, liberdade e poder, o
protagonista acaba por encarar o envelhecimento como declínio existencial. O
seu medo da velhice transforma-se numa obsessão estética e moral, que o leva à
ruína.
Desde o início do romance, a beleza de Dorian é descrita em termos quase
sagrados. A sua juventude encanta Basil, que o vê como uma revelação artística;
seduz Lord Henry, que o vê como uma experiência a ser moldada. Dorian

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 15


interioriza este olhar externo — passa a ver a juventude como o único bem real
que possui. Esta visão estetizante transforma a juventude num fetiche — não
apenas como tempo de vida, mas como símbolo de poder, adoração e distinção
social.
Em vez de vender a alma ao diabo por conhecimento ou riqueza, como no mito de
Fausto, Dorian vende-a — de forma implícita — pela juventude eterna. Ao desejar
que o retrato envelheça no seu lugar, Dorian aceita trocar a alma pela aparência.
Wilde subverte o pacto tradicional: aqui, a juventude é o objeto de desejo
supremo, e o preço é a condenação moral. O retrato torna-se o registo do tempo e
do pecado — e a beleza física, uma farsa imutável.

Dorian não verbaliza diretamente o medo da morte, mas todas as suas ações são
movidas por esse pânico silencioso. Envelhecer, para ele, é tornar-se irrelevante,
feio, invisível. Wilde mostra que a sociedade vitoriana alimentava esse medo ao
associar juventude à vida plena e velhice à decadência. O horror da morte, em
Dorian, aparece disfarçado de culto da juventude — uma recusa obsessiva do
tempo e da perda. O personagem não quer apenas viver — quer manter-se jovem
sem pagar o preço da passagem do tempo.

Ao contrário do que imagina, Dorian não se torna livre por ser eternamente jovem.
A sua juventude torna-se uma prisão: é obrigado a fingir, esconder, manter as
aparências. Enquanto o retrato carrega as marcas do tempo, Dorian vê-se
obrigado a viver numa performance permanente de vitalidade e frescura. A
juventude, em vez de liberdade, torna-se um disfarce sufocante. Wilde ironiza a
ideia de que manter-se jovem é viver melhor — no caso de Dorian, é viver isolado,
assombrado, incompleto.

O retrato, como símbolo físico do tempo que passa, torna-se o relógio moral da
narrativa. Dorian vive no presente, mas o retrato regista o tempo interior — o
tempo da alma, das escolhas e das consequências. A tensão entre o corpo jovem
e a alma envelhecida revela a incompatibilidade entre juventude eterna e
maturidade moral. Wilde propõe que o ser humano precisa da passagem do
tempo para se tornar íntegro; congelar-se na juventude é também impedir-se de
evoluir.

O clímax do romance é o momento em que Dorian tenta destruir o retrato — numa


tentativa desesperada de apagar os sinais do tempo e da culpa. No entanto, ao
perfurar o quadro, acaba por matar a si mesmo. Wilde conclui que não há forma

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 16


de escapar à morte, ao tempo ou à verdade. O corpo de Dorian, no final, aparece
velho, hediondo e irreconhecível. A juventude foi mantida artificialmente — mas a
mortalidade triunfa. O pacto é desfeito à força, e a verdade da condição humana
impõe-se.
Em O Retrato de Dorian Gray, a juventude é exaltada como ideal supremo, mas
desconstruída como ficção perigosa. Wilde denuncia uma sociedade obcecada
com a beleza e o prazer, que teme a passagem do tempo porque teme perder o
valor social. A juventude, quando preservada a qualquer custo, transforma-se em
maldição. O medo da morte não desaparece — apenas muda de forma. E a recusa
em envelhecer não salva: condena à estagnação, à mentira e, por fim, à morte
violenta.

A alienação do indivíduo moderno

Dorian representa o sujeito moderno que se afasta do coletivo


e mergulha numa existência egocentrada. Ao longo da
narrativa, isola-se emocional e fisicamente, evitando qualquer
relação autêntica. Wilde mostra como a obsessão pela estética,
aliada à ausência de um compromisso moral, leva à alienação
profunda do indivíduo, tornando-o incapaz de amar ou ser
amado. A sua solidão crescente culmina na rejeição do outro e,
por fim, de si mesmo.

O Retrato de Dorian Gray pode ser lido como uma parábola sobre o indivíduo
moderno em crise de identidade, alienado de si mesmo e dos outros. Oscar
Wilde, escrevendo no final do século XIX  momento de transição entre o
romantismo e a modernidade — capta com precisão o modo como a busca pela
autonomia estética e pela autoimagem leva, paradoxalmente, ao isolamento
psicológico, à superficialidade emocional e à fragmentação do eu.
À medida que o romance avança, Dorian deixa de ser um ser íntegro para se
tornar um personagem de si mesmo. Vive múltiplas vidas, cria máscaras sociais,
encena comportamentos e sentimentos. A sua juventude eterna transforma-o
numa figura suspensa no tempo — alguém que observa a própria existência como

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 17


um espetáculo. Wilde constrói Dorian como exemplo de uma alienação profunda:
quanto mais livre e belo ele é no exterior, mais dividido e ausente se torna no
interior.
O retrato, para além de representar a alma, torna-se a metáfora material da cisão
do sujeito moderno. Ao manter o retrato escondido, Dorian separa o eu público
(visível, belo, admirado) do eu privado (culpado, degradado, verdadeiro). Esta
separação radical entre aparência e essência transforma-o num ser alienado: não
se reconhece no que é e não controla o que aparenta. Wilde descreve um
indivíduo que já não é dono de si, mas funciona como uma projeção vazia de
expectativas e fantasias sociais.
Ao longo da narrativa, Dorian perde a capacidade de estabelecer relações
verdadeiras. Destrói Sybil Vane, afasta-se de Basil, manipula Alan Campbell. Tudo
e todos se tornam instrumentos ou ameaças. A sua alienação não é apenas
interna — é também social. Vive rodeado de gente, mas profundamente só. Wilde
dramatiza a lógica de um sujeito que, por estar centrado na própria imagem, se
torna incapaz de empatia, de entrega e de reconhecimento mútuo. O outro é
sempre reflexo ou perigo, nunca parceiro.
O culto da forma, da experiência e da beleza, que Dorian herda de Lord Henry, é
apresentado como um dos motores desta alienação. Ao rejeitar a moral e abraçar
o prazer como critério de vida, Dorian acaba por perder a profundidade da
experiência existencial. Vive na superfície das sensações e na repetição do
fascínio, mas não encontra sentido. Wilde sugere que a estética, sem conteúdo
ético, esvazia o sujeito. A alienação é, assim, o preço da vida estética radical.
Dorian vive fora da história — não envelhece, não muda de rosto, não carrega
cicatrizes. Mas essa estagnação é também a sua prisão. Ao recusar o tempo,
Dorian perde a narrativa da vida. Já não possui continuidade, nem identidade
estável. Wilde mostra que a alienação do indivíduo moderno também é temporal:
sem passado visível e sem futuro possível, Dorian vive num presente perpétuo e
vazio, onde a experiência já não constrói subjetividade, mas apenas repete
máscaras.
O momento em que Dorian destrói o retrato é também o momento em que tenta
recuperar a integridade — reencontrar-se com quem era ou poderia ter sido. No
entanto, o gesto é tardio: Wilde deixa claro que a alienação foi demasiado longa,
demasiado profunda. O reencontro com a essência só ocorre na morte — quando

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 18


aparência e alma, finalmente, coincidem. O eu real, monstruoso, emerge; e a
máscara bela desaparece. A morte, aqui, não é castigo apenas — é também
reintegração existencial.

A alienação em O Retrato de Dorian Gray é a condição existencial do homem


moderno, dividido entre o desejo de ser livre e a necessidade de ter identidade.
Wilde retrata um sujeito que tenta escapar às amarras do tempo, da moral e do
outro — mas que, ao fazê-lo, perde o vínculo consigo mesmo. A beleza, a
juventude e o prazer não salvam: isolam. Dorian torna-se símbolo do indivíduo
que, ao rejeitar os limites humanos, perde o sentido da própria humanidade.

A arte como poder destrutivo

O retrato, inicialmente símbolo da beleza e do dom artístico de


Basil, transforma-se numa maldição. A arte deixa de ser
contemplação para se tornar objeto de tormento. Wilde sugere
que a arte, quando idolatrada ou desligada de valores éticos,
pode ultrapassar o seu criador e gerar consequências
imprevisíveis. A pintura já não é apenas reflexo de Dorian, mas
também prisão da sua alma — e esse deslocamento simbólico
questiona o limite entre a estética e o horror.

O Retrato de Dorian Gray é uma obra que dialoga de forma complexa com o
estatuto da arte. Oscar Wilde, defensor da beleza como valor supremo, também
reconhece o seu potencial ambivalente: a arte pode elevar, mas também
perturbar; pode libertar, mas também aprisionar. Neste romance, a arte deixa de
ser um refúgio sublime e torna-se instrumento de verdade insuportável e
destruição espiritual. O retrato de Dorian, criado como expressão de admiração e
beleza, transforma-se num espelho do horror — uma obra de arte que acusa, vigia
e consome.
Basil Hallward pinta o retrato com uma carga emocional e simbólica que ele
próprio não compreende. Afirma ter posto “demasiado de siˮ na tela, revelando
que a obra nasceu da paixão e da adoração. Mas Wilde dramatiza o que acontece
quando uma criação artística ultrapassa o seu autor: o retrato torna-se entidade

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 19


independente, que escapa ao controlo de Basil. Assim, Wilde desmonta a ideia
romântica de que o artista domina a sua criação — aqui, é a obra que se impõe e,
tragicamente, leva à morte do próprio autor.
O retrato não é apenas uma imagem estética — é um espelho ético. Regista cada
pecado, cada crueldade, cada ato de egoísmo de Dorian. Esta função transforma-
o numa obra de arte moral, contra a ideia da “arte pela arteˮ. Ao retratar a alma de
Dorian em vez da sua aparência, a pintura assume o papel de juiz silencioso. A
arte, neste caso, não é neutra: ela denuncia, revela, castiga. E, justamente por
isso, torna-se insuportável para o sujeito que deseja apenas beleza e ilusão.
O retrato fixa, com brutal clareza, aquilo que Dorian tenta reprimir. É uma memória
viva, que não se apaga, não se corrompe, não perdoa. Wilde transforma a obra de
arte num registro incorruptível da verdade. A pintura torna-se mais viva que o
próprio Dorian — enquanto o corpo permanece jovem e belo, a imagem envelhece
e deforma-se com a alma. Esta inversão revela que a arte é, paradoxalmente,
mais humana e autêntica do que o próprio ser humano, que escolhe esquecer,
disfarçar e negar.
Dorian deseja a arte como proteção contra o tempo — e é justamente a arte que o
condena a confrontá-lo. O retrato, símbolo da beleza eterna, transforma-se no
documento da degradação ética. A estética, aqui, não protege — denuncia. A
arte deixa de ser prazer e torna-se punição. Wilde mostra que o desejo de
congelar a juventude através da arte é uma ilusão perigosa: a imagem pode
permanecer, mas não inocente. A arte preserva a verdade — e essa permanência
torna-se insuportável para quem deseja fugir dela.
No clímax do romance, Dorian decide destruir o retrato com uma faca. O gesto é
ambíguo: pretende eliminar o registo da sua alma ou libertar-se da culpa que
carrega. No entanto, ao matar a imagem, Dorian mata-se a si mesmo. Wilde
inverte aqui a lógica da arte como imortalizadora: a obra não prolonga a vida, mas
põe fim à ilusão de vida. A arte torna-se tão poderosa que desafia o criador e o
destrói. A destruição do quadro é, ao mesmo tempo, tentativa de silenciamento da
consciência e suicídio metafísico.
Ao longo do romance, Wilde opõe duas visões da arte: uma que a vê como deleite
formal (defendida por Lord Henry) e outra que a reconhece como linguagem do
real (encarnada pelo retrato). Dorian tenta viver segundo a primeira — mas é
constantemente confrontado pela segunda. Wilde demonstra que a arte, mesmo

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 20


sem intenção moral, acaba por revelar o que a vida tenta ocultar. O retrato não é
alegoria de beleza — é documento de verdade. E é precisamente isso que o torna
insuportável.

Wilde desafia o leitor a repensar o poder da arte. A beleza, neste romance, não é
apenas contemplação — é força ativa, capaz de transformar, acusar e destruir. O
retrato de Dorian Gray é uma obra de arte viva, mas não redentora. É um espelho
inclemente da alma, um aviso de que a estética, quando divorciada da ética, não
é libertação — é condenação. O romance propõe, assim, que a arte não é neutra:
pode ser encantadora ou devastadora — e, por vezes, é as duas coisas ao mesmo
tempo.

A juventude como mercadoria

A juventude é o bem mais valioso do mundo de Dorian, algo


que deve ser preservado a todo o custo. Wilde ironiza esta
obsessão social ao mostrar como a beleza física se converte
num bem de consumo, com valor quase monetário. A
juventude é constantemente associada a poder, desejo e
liberdade — mas, no caso de Dorian, o seu prolongamento
artificial resulta em vazio existencial. O culto da juventude é,
assim, criticado como forma de desumanização.

Em O Retrato de Dorian Gray, a juventude não é apenas uma fase da vida — é um


bem precioso, quase uma moeda simbólica. Oscar Wilde constrói um universo em
que a juventude e a beleza são os maiores capitais sociais. Neste contexto, Dorian
não deseja apenas permanecer jovem por vaidade, mas porque percebe — ou é
levado a acreditar — que a juventude é aquilo que lhe dá valor, poder e estatuto.
A obra oferece, assim, uma crítica à lógica da sociedade vitoriana — e, por
extensão, à nossa — que transforma corpos jovens em mercadoria de prestígio.

Desde o início da narrativa, Dorian é definido pelo impacto que a sua juventude e
beleza causam nos outros. Ele encanta Basil, fascina Lord Henry, seduz os
círculos sociais. Não é o que diz ou faz que o define, mas o que aparenta. A sua
imagem é um recurso social: abre portas, atrai atenção, impõe deferência. Wilde

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 21


mostra que a juventude não é apenas admirada — é usada como instrumento de
valorização pessoal. Tal como se exibe um quadro ou uma peça de coleção,
Dorian exibe-se a si mesmo.
Lord Henry, verdadeiro doutrinador estético de Dorian, fala da juventude em
termos de posse e escassez: é algo que se tem e se perde, que se deve consumir
antes que acabe. Ele chega a dizer que “a única tragédia real da vida é deixar de
ser jovem.ˮ Essa visão transforma a juventude num produto com prazo de
validade, que deve ser explorado antes de “expirarˮ. Wilde constrói, assim, uma
crítica à mercantilização do corpo e da imagem, onde o valor humano é associado
à sua frescura visual.
Quando Dorian deseja que o retrato envelheça no seu lugar, faz uma espécie de
contrato simbólico: troca a alma pela juventude eterna. Esse gesto é apresentado
por Wilde como uma transação comercial. A juventude é aquilo que se compra
com o preço mais alto — a essência moral. O retrato, ao assumir o
envelhecimento e a fealdade da alma, funciona como banco metafórico dessa
dívida. Dorian vive na juventude como quem vive num investimento — mas, como
em qualquer sistema de dívida, há um momento em que o custo se cobra.
Paradoxalmente, manter-se jovem torna-se um fardo. Dorian é constantemente
forçado a corresponder à imagem que projetou: bela, encantadora, inalterada.
Isso gera uma existência de performance permanente, onde ele não pode
envelhecer, cansar-se, fracassar, ou simplesmente mudar. Wilde mostra que o
ideal de juventude, quando absolutizado, aprisiona o sujeito. A juventude
mercantilizada torna-se um disfarce que precisa ser constantemente mantido,
mesmo à custa da verdade interior.
Ao longo do romance, a beleza de Dorian permanece, mas o seu valor real —
ético, emocional, existencial — decresce. Wilde ironiza esse desfasamento: aos
olhos do mundo, Dorian continua a ser um símbolo de perfeição; mas aos olhos
do leitor, é um produto defeituoso mantido em embalagem intocável. Quando
finalmente decide confrontar o retrato e destruí-lo, Dorian já não possui valor
como ser humano — é apenas a carcaça brilhante de um corpo que não sente,
não pensa, não ama.
Wilde constrói uma crítica ácida à sociedade que transforma o corpo, a juventude
e a beleza em mercadoria. Em vez de ser vivido como etapa natural, o “ser jovemˮ
torna-se ativo financeiro, fetiche social e critério de valor humano. Dorian,

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 22


símbolo dessa lógica, troca tudo — alma, ética, relações — para manter esse
capital. Mas o romance mostra que a juventude, quando tratada como mercadoria,
deixa de ser liberdade e torna-se escravidão. E que, no fim, o preço a pagar por
negar o tempo é a perda total de si.

A teatralidade da identidade

Dorian vive como ator da sua própria existência, encenando


emoções e relacionamentos conforme lhe convém. Wilde
constrói a narrativa como uma peça decadente, com Dorian
como protagonista e o mundo como público. O narcisismo do
personagem não é apenas vaidade, mas encenação constante
daquilo que os outros querem ver. A vida estética, quando
levada ao extremo, anula a autenticidade do sujeito, e
transforma o eu em espetáculo.

O Retrato de Dorian Gray é um romance profundamente consciente de que a


identidade não é estática nem natural — é construída, encenada, manipulada.
Wilde, mestre da ironia e da estética da aparência, mostra como Dorian
transforma a sua vida numa performance cuidadosamente coreografada. O eu
torna-se espetáculo, e a existência, um palco. Esta teatralidade da identidade
reflete não apenas a falsidade social da era vitoriana, mas também uma crítica
moderna à construção performativa do “euˮ como algo sujeito a expectativa,
olhar e máscara.
Dorian não é apenas um homem bonito — é uma personagem que interpreta, com
perfeição, o papel de homem belo, encantador, moralmente irrepreensível. A sua
juventude eterna permite-lhe sustentar essa performance ao longo dos anos.
Wilde apresenta-o como alguém que encena emoções, gestos e virtudes
conforme o momento exige. O seu comportamento no dia a dia não é guiado por
consciência interior, mas pela lógica da representação: o importante não é ser —
é parecer.
A própria estrutura da narrativa reforça esta ideia: os encontros sociais, os
jantares, as conversas de salão, os gestos de Dorian são descritos como cenas de

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 23


uma peça. Quando Basil o confronta, Dorian usa o tom melodramático; quando
está com Lord Henry, adota o cinismo. Wilde utiliza esta teatralização como forma
de mostrar que a identidade moderna, no contexto social, é sempre negociada
entre o que se é e o que se quer projetar. Dorian, no fundo, já não vive —
interpreta.
A ligação com Sybil Vane é reveladora. Dorian apaixona-se por ela enquanto atriz
— não pela mulher, mas pelas personagens que ela representa no palco. Quando
Sybil atua mal, revelando-se como pessoa verdadeira, Dorian perde o interesse.
Isto revela que o protagonista não é capaz de amar nada que não esteja
mascarado. Ama a performance, não a verdade. A rejeição de Sybil é também
uma rejeição da autenticidade — e o início do colapso moral de Dorian como
sujeito que prefere a ficção à vida.
Enquanto Dorian atua no mundo, o retrato guarda o que ele realmente é. Esta
duplicidade visualiza a cisão interior: um eu exterior teatral e um eu interior
oculto. Wilde constrói um sistema de identidade repartida — uma fachada para o
público e um segredo para o privado. O retrato é o que está fora de cena: o
backstage da alma. A performance social precisa de esconder o retrato, tal como
a personagem precisa de esconder o ator que vacila por trás do texto decorado.
A teatralidade da identidade não produz liberdade. Pelo contrário, torna-se prisão.
Dorian sente-se obrigado a manter a imagem de perfeição. Vive para os olhares,
para os comentários, para os rumores. Mesmo quando deseja mudar, não
consegue sair do papel. Wilde mostra que a performance repetida da identidade
acaba por substituir a autenticidade. A máscara cola-se à pele. O sujeito perde-
se entre as versões de si mesmo que representa. Ao fim, não há mais distinção
entre ator e personagem — resta apenas o vazio.
Este tema permite a Wilde explorar um dos dilemas centrais da modernidade:
quem somos para além daquilo que projetamos?. A sociedade exige que nos
comportemos como figuras coerentes, controladas, belas — e quem não se
adapta a esse teatro social é excluído ou destruído. Dorian adapta-se
perfeitamente — mas ao custo da alma. A identidade performativa, quando não
enraizada na verdade interior, torna-se espetáculo trágico. O palco brilha, mas o
camarim está vazio.
A teatralidade da identidade, em Wilde, não é apenas uma crítica à hipocrisia da
sociedade vitoriana — é um retrato visionário da existência moderna como

Dorian Grey  Temas e Simbolismos 24


espetáculo permanente. Dorian Gray não vive: representa. E quanto mais perfeita
é a sua atuação, mais se distancia de si. Wilde questiona se é possível manter
uma identidade verdadeira num mundo de olhares, expectativas e máscaras. A
resposta, trágica, é que a identidade encenada pode seduzir os outros — mas
destrói quem a encena.

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O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde

Contexto de produção:

• Publicada pela primeira vez em 1890, durante a Era Vitoriana no Reino Unido –
período marcado pelo avanço tecnológico e industrial mas também, pela
desigualdade social e repressão de comportamentos considerados imorais,
incluindo a repressão sexual.
• Neste contexto, Oscar Wilde escreveu um romance que desafiava as
convenções da época ao explorar temas como:
o Hedonismo – busca pelo prazer
o Busca pela juventude eterna
o Superficialidade da sociedade
o Dualidade entre aparência e moralidade
• A obra apresenta diversas referências homossexuais que, apesar de subtis,
foram censuradas por serem consideradas imorais. Oscar Wilde terá sido preso
por desafiar certas convenções socias e os valores da época.
• Em suma, O Retrato de Dorian Gray foi criado num contexto de repressão moral
e social, mas também de efervescência artística e cultural. A obra representa
uma crítica à hipocrisia da sociedade vitoriana, ao mesmo tempo que exalta a
beleza e a estética.

Sumário da obra:

Capítulo 1

• A ação decorre no atelier do artista Basil Hallward, em Londres.


• Lord Henry e Basil Hallward discutem sobre o retrato de um jovem de beleza
extraordinária - Dorian Gray.
• Lord Henry insiste que o retrato seja publicado mas o pintor recusa-se a expô-lo
por sentir que colocou demasiado de si mesmo nele, como se o quadro
revelasse os segredos da sua própria alma – os seus sentimentos secretos por
Dorian.
• Lord Henry fascina-se pelo retrato e expressa as suas ideias sobre a juventude,
a beleza e a importância de aproveitar a vida ao máximo.
• Lord Henry critica também as convenções matrimonias, refletindo sobre o
matrimónio como uma fachada.
• Basil demonstra-se perdidamente apaixonado por Dorian desde o primeiro
momento em que os seus olhares se cruzaram.
• Basil, tendo consciência da influência que Lord poderá exercer sobre Dorian,
pede-lhe para que não o tente afastar dele.

Capítulo 2

• Dorian Gray conhece Lord Henry e enfeitiça-se pelo seu discurso.


• Lord Henry expressa as suas ideias sobre a vida, a juventude, o prazer e a
beleza. Critica a sociedade governada pelo terror à sociedade e à religião – a
sociedade é baseada em aparências e fingimentos. Defende que a juventude é o
bem mais valioso que alguém pode ter, e que deve ser aproveitada ao máximo,
sem arrependimentos ou limitações morais. Para Lord, a busca do prazer e da
experiência é o verdadeiro sentido da vida.
• Lord revela o poder da sua beleza, até então inocentemente despercebido por
Dorian. Henry perturba Dorian, manipulando-o em relação à efemeridade da
beleza e da juventude, e traumatizando-o apresentado o envelhecimento como a
sua ruína.
• Dorian, inocente e influenciável, apercebe-se da sua beleza e deseja manter a
sua juventude para sempre – presságio trocar a sua alma pela juventude eterna.
• Basil apercebe-se da trasnformacao de Dorian, fruto da influência exercida por
Lord.

Capítulo 3
• Lord expressa a sua visão pessimista sobre o casamento, retratando-o como
uma mera forma de corresponder ás expectativas impostas pela sociedade.
• Desvalorização da mulher pelo ser valor “decorativo” – misoginia
• O impacto de Lord é visível nas atitudes de Dorian. O jovem procura
experiências nos lados mundanos da cidade.
• Dorian confessa a Lord que está apaixonado por Sybil Vane. Lord minimiza a
sua paixão por considerar as mulheres como indivíduos descartáveis e pouco
interessantes.
• Lord usa Dorian como um objeto de estudo – corrompe um ser puro de forma a
proceder com a sua investigação sobre a vida humana.
• Dorian começa a perder os seus traços inocentes, demonstra-se vaidoso e
procura o próprio prazer sem limitações morais.
• Dorian fica noivo de Sybil Vane.

Capítulo 4

• Lord Henry anuncia o noivado de Dorian a Basil.


• Dorian acredita estar mudado devido a Sybil e lamenta tudo o que Lord lhe
ensinou.
• Basil apercebe-se da mudança no comportamento de Dorian e teme que o
mesmo nunca mais volte a ser o mesmo.

Capítulo 5

• Lord e Basil revelam-se profundamente desapontados com a atuação de Sybil.


• Sybil atua de forma terrível em prol do amor que nutre por Dorian.
• Dorian mostra-se completamente indiferente ao sofrimento de Sybil e decide
abandoná-la no seu desespero.
• Dorian passa a noite nos locais mais reles da sociedade.
• Dorian apercebe-se da mudança no retrato, fruto do seu pecado, e decide pedir
perdão a Sybil Vane, prometendo nunca mais voltar a pecar.
Capítulo 6

• O retrato representa a corrupção da alma de Dorian.


• Dorian pretende corrigir os seus erros pelo terror que sente na mudança do
retrato.
• Dorian decide aliviar a própria consciência escrevendo uma carta de amor e
arrependimento a Sybil.
• Dorian reconhece a influência venenosa de Lord sobre o seus comportamentos.
• Lord anuncia a Dorian o falecimento de Sybil Vane e influencia-o de modo a
adotar um comportamento frívolo sobre o acontecimento trágico.
• Dorian aceita que o quadro se altere uma vez que a sua beleza será
conservada.

Capítulo 7

• Basil procura consolar Dorian consequentemente à morte de Sybil Vane.


• Basil reconhece a mudança de Dorian, fruto da influência de Lord, mas
assegura-se sobre a bondade de Dorian.
• Basil representa a réstia de consciência de Dorian, reanimando nele alguma
empatia. Dorian reconhece estar mudado, porem revela precisar de Basil.
• O discurso do jovem assemelha-se ao de Lord. Dorian exprime a sua obsessão
pela experiência e a sua paixão pelo material.
• Basil confessa o seu amor a Dorian. Dorian revela o seu caracter frívolo.

Capítulo 8

• Dorian decide esconder o retrato para que ninguém possa testemunhar à


corrupção da sua alma – sente vergonha por saber que a sua beleza física é
uma farsa e não revela a sua alma.
• Lord oferece um livro a Dorian do qual não se consegue libertar do fascínio
durante anos.

Capítulo 9

• Marca temporal revela a continua degradação da alma de Dorian – a continua


busca pelo prazer individual e pecado.
• Dorian vê na mudança do retrato a gratificação pelo pecado.
• Dorian adota um modo de vida caracterizado pelo luxo e ostentação.
• Dorian é alvo de critica pela sociedade devido aos rumores espalhados sobre os
seus costumes duvidosos.

Capítulo 10

• Dorian e Basil reencontram-se após um longo período de tempo sem se verem.


• Contraste sobre a perceção de Dorian pela sociedade. O jovem era visto como
um exemplo de perfeição e comportamento, sendo agora desprezado pelas suas
ações imorais. Dorian exerce uma influencia sobre todos em seu redor,
corrompendo as suas almas e levando-os à própria ruina.
• Basil demonstra a sua inocência por se recusar a acreditar nos rumores
espalhados.
• A beleza física de Dorian esconde a sua alma completamente degradada e
cruel.

Capítulo 11

• Dorian revela o retrato a Basil.


• Basil revela-se aterrorizado e procura a salvação de Dorian na oração. Dorian
revela ter perdido a esperança – entregara-se ao pecado à muito.
• Dorian assassina Basil, num momento de ódio, desapegando-se da figura mais
importante da sua vida. Justifica o seu ato culpando Basil por ter pintado o
retrato fatal a que se devia toda a sua desgraça.

Capítulo 12

• Dorian não demonstra sinais de arrependimento, apresenta uma certa


gratificação pelo pecado que cometeu.
• Dorian contacta Alan Campbell – uma das vitimas da sua atracão indecifrável
que terá sido corrompido.
• Dorian chantageia-o de forma a persuadi-lo a desfazer-se do corpo de Basil.
• A pureza, retratada através de Basil e Alan, enfurece Dorian por ter consciência
da sua mudança.

Capítulo 13

• Critica social no contraste entre a cidade, associada à cultural e à corrupção, e o


campo, simbolizando a pureza e a simplicidade.
• Dorian revela-se determinado em ser bom. Pede a Lord, que o desencoraja
totalmente, para que nunca mais empreste o livro que o envenenou durante
anos.
• Dorian reconhece os seus pecados e ilude-se, desculpabilizando-se dos seus
pecados mortais (morte de Basil e Alan), crendo na esperança de voltar a ser
puro. Dorian recusa-se a entregar-se e a ser condenado à morte pelos seus
pecados.
• De forma totalmente hipócrita, decide destruir o seu retrato por ser a única prova
que confessava os seus pecados. Dorian encara a destruição do retrato como a
destruição da sua consciência e consequentemente, a liberdade do seu
passado.
• A obra termina com a revelação da maldição do retrato. O retrato apresenta a
juventude e beleza do Dorian autora puro e inocente. No chão, com uma faca no
coração, está a reflexão da alma de Dorian, um ser monstruoso com uma cara
hedionda.

Caracterização das personagens principais:

Basil Hallward

• Basil Hallward apresenta-se como um artista talentoso profundamente


apaixonado por Dorian Gray.
• Hallward destaca-se na obra pelo seu carácter sensível, inseguro e submisso. O
pintor demonstra uma grande dependência emocional de Dorian, sendo incapaz
de confrontá-lo ou contrariá-lo. Basil aceita, sem resistência, os caprichos e a
frieza de Dorian, mesmo quando lhe causam sofrimento.
• Ao longo de toda a obra, Basil revela a sua ingenuidade e esperança na
bondade autora característica de Dorian.
• Basil, retratado como a personagem mais pura da obra, representa a última
réstia de bondade em Dorian Gray. A sua morte, pelas mãos de Dorian, marca
simbolicamente o momento da sua rendição total ao pecado e à corrupção,
revelando a destruição definitiva da influência do bem na sua vida.

Dorian Gray

• No início da obra, Dorian Gray é descrito como um jovem extremamente belo,


dotado de uma beleza quase angelical, ingénuo e inocente. Estas características
tornam Dorian um ser profundamente cativante, tanto pela atração física que
exerce sobre outros, como pela pureza da sua alma que se distingue numa
época marcada pela corrupção social, desmoralização e angústia.
• Esta combinação de atributos tornam-no uma figura fascinante para todos
aqueles que o rodeiam, nomeadamente Basil Hallward, que o encara como a
sua maior inspiração artística, e Lord Henry, que o vê como uma tela em branco
a ser moldada pelos seus ideais hedonistas.
• À medida que a narrativa avança, Dorian é gradualmente corrompido pela
influência manipuladora de Lord Henry, que o convence de que a beleza e o
prazer são os únicos valores verdadeiramente importantes.
• Dorian desenvolve uma obsessão pela beleza juvenil e experiências da vida. À
medida que se entrega ao vício, o jovem torna-se arrogante, vaidoso e malvado,
e o seu carácter autora puro e ingénuo é substituído pela frivolidade e impureza
mantendo, contudo, a ilusão exterior da inocência.

Lord Henry

• Lord Henry é apresentado como uma figura carismática e irónica, sendo a maior
força responsável pela transformação de Dorian Gray. Ao longo da obra, Lord
distingue-se pelos seus discursos provocadores que desafiam as convenções
morais da sociedade vitoriana.
• Lord defende uma filosofia de vida centrada no hedonismo – a busca pelo
prazer, e na efemeridade da beleza e da juventude. Henry defende que a vida
deve ser experienciada ao máximo sem as limitações morais impostas pela
sociedade, afirmando que "a única maneira de resistir a uma tentação é ceder-
lhe".
• Lord conduz Dorian à sua autodestruição, incentivando-o ao pecado e
observando a sua decadência moral como um objeto de estudo divertido.
• Lord Henry, personificado como um autêntico dândi - um homem que valoriza
mais a aparência do que a essência e despreza convenções sociais, é utilizado,
frequentemente, pelo autor, como meio para criticar a sociedade vitoriana.
• O seu carácter, simultaneamente fascinante e perigoso, faz dele uma crítica viva
à hipocrisia da aristocracia vitoriana: aparenta desprezar os padrões sociais,
mas vive confortavelmente dentro deles, sem nunca sofrer consequências reais
pelas ideias que propaganda.
Sermão de Santo António – Padre António
Vieira

Contextualização:

Quem foi o Padre António Vieira?


Padre António Vieira (1608–1697) nasceu em Lisboa e foi missionário jesuíta,
pregador, diplomata e escritor. Mudou-se em criança para o Brasil, onde se formou
no Colégio dos Jesuítas e ingressou na Companhia de Jesus aos 15 anos. Ganhou
destaque durante a Restauração da Independência, tornando-se conselheiro de D.
João IV e representante diplomático em várias cortes europeias. Como orador, os
seus sermões em Lisboa tornaram-se eventos de grande prestígio.

Defensor dos cristãos-novos e crítico da Inquisição, enfrentou perseguições e


chegou a ser preso. No entanto, manteve um papel ativo na vida política e religiosa,
deixando uma vasta obra composta por cerca de 200 sermões. Morreu em São
Salvador da Bahia, sendo mais tarde consagrado por Fernando Pessoa como o
“Imperador da Língua Portuguesa”.

Contexto da Obra:
O Sermão de Santo António aos Peixes foi proferido por Padre António Vieira a 13
de junho de 1654, dia de Santo António, na cidade de São Luís do Maranhão, no
Brasil colonial. O momento da sua enunciação é profundamente significativo: Vieira
encontrava-se prestes a regressar a Portugal, apenas três dias depois, após uma
estadia marcada por intensos conflitos com os colonos locais. O século XVII, e em
particular o contexto luso-brasileiro, era atravessado por tensões entre a missão
evangelizadora da Companhia de Jesus e os interesses econômicos dos senhores
de engenho.

Vieira, enquanto missionário jesuíta, lutava ativamente contra a escravização dos


povos indígenas, promovendo a sua catequização em liberdade. Essa posição
colocava-o em choque direto com os colonos do Maranhão, que viam na escravidão
indígena uma fonte de mão de obra indispensável. O conflito agravou-se ao ponto
de Vieira e os restantes jesuítas serem forçados a abandonar a região.

É neste cenário de rutura e despedida que surge o sermão: um discurso simbólico e


crítico, em que Viera, à semelhança de Santo António, decide pregar aos peixes —
alegoricamente, porque os homens não o escutaram. A peça revela-se assim uma
manobra retórica sofisticada: enquanto parece louvar as virtudes dos peixes,
desmascara os vícios e pecados dos homens, denunciando a ganância, a hipocrisia,
a injustiça e a arrogância dos colonos. O sermão é, portanto, tanto um gesto
teológico como um ato político e moral de resistência, inserido num contexto de
choque entre a fé cristã e a lógica colonial.

Estrutura Externa do Sermão:


O Sermão de Santo António aos Peixes obedece à estrutura clássica da pregação
sacra barroca, dividindo-se em exórdio, exposição, confirmação e peroração,
distribuídas ao longo dos seis capítulos que compõem o texto.

Exordio (Capítulo I):

Introduzir o tema, estabelecer o conceito predicável e justificar a escolha dos peixes


como auditório simbólico.

● Conceito predicável: “Vos estis sal terrae” – “Vós sois o sal da terra”
(Evangelho de São Mateus).

● Analogia alegórica: os pregadores são o sal que deveria preservar o mundo


da corrupção.

● Crítica implícita: o sal já não salga → pregadores corruptos e ouvintes


endurecidos → responsabilidade compartilhada entre oradores e ouvintes
pela decadência espiritual.

● Santo António é exaltado como modelo de pregador persistente, que prega


até aos peixes quando os homens recusam ouvir. Vieira segue esse exemplo.

● Finaliza com uma breve oração invocatória à Virgem Maria (Domina Maris),
justificando-a simbolicamente por se tratar de uma pregação feita “junto ao
mar”.

Exposição (Capítulo II,III,IV,V):

Capítulo II – Louvor dos Peixes em geral

Louvar genericamente os peixes pelas suas qualidades e traçar o início da alegoria:


os peixes simbolizam os homens.

● Os peixes são mais numerosos, foram criados primeiro, obedecem a Deus e


ouvem sem interromper.

● Características exaltadas:
○ Ouvem e não falam.

○ Vivem afastados da corrupção terrestre.

○ São independentes, não domesticáveis.

● Criação da alegoria: os peixes representam os homens ideais, atentos e


silenciosos, em contraste com os ouvintes reais (os colonos), arrogantes e
corruptos.

Capítulo III – Louvor dos Peixes em particular

Elogiar simbolicamente espécies específicas de peixes e associá-las a virtudes


humanas ou espirituais.

1. Peixe de Tobias: cura cegueiras, expulsa demónios → simboliza o poder


purificador da palavra divina.

2. Rémora: pequena, mas detém naus → representa a força da palavra moral


que trava os pecados e vícios.

3. Torpedo: provoca choque → representa a consciência moral que desperta o


pecador.

4. Quatro-olhos: vê em duas direções (superior e inferior) → símbolo da


prudência e do discernimento cristão (Céu vs Inferno).

Estes louvores funcionam como contra-exemplos dos vícios humanos.


A linguagem é ainda elogiosa, mas já prenuncia a viragem crítica.

Capítulo IV – Repreensão Geral dos Peixes

Inverter o tom e iniciar a crítica. A partir daqui, a alegoria inverte-se — os peixes


passam a representar os homens viciosos.

● Tema central: antropofagia simbólica – “os grandes comem os pequenos”.

● Crítica à injustiça social: corrupção, ambição, exploração e desigualdade.

● Exemplos:

○ Comem-se uns aos outros (violência e exploração).


○ Comem-se mesmo depois de mortos (ganância dos herdeiros).

○ Comem-se vivos (opressão judicial, social e política).

● Linguagem simbólica, mas claramente direcionada à realidade colonial


brasileira, especialmente à exploração dos povos indígenas.

Capítulo V – Repreensão em particular dos Peixes

Criticar vícios humanos através de espécies de peixes específicas.

● Roncadores → simbolizam a arrogância e vaidade dos que falam muito e


agem pouco.

● Pegadores → representam o oportunismo e parasitismo dos que dependem


dos poderosos.

● Peixes-voadores → ilustram a ambição desmedida e o desejo de ascensão


ilegítima.

● Polvo → encarna a hipocrisia, traição e dissimulação de quem aparenta


virtude, mas engana.

Os peixes funcionam como espelhos alegóricos dos vícios humanos —


especialmente dos colonos — e Vieira denuncia-os com ironia e contundência.

Peroração (VI)

Concluir o raciocínio, reforçar os principais argumentos e deixar uma mensagem


final.

● Reafirma a superioridade moral dos peixes sobre os homens: ouvem,


obedecem, não se corrompem.

● Denúncia amarga: a palavra do pregador não dá fruto entre os colonos → “os


homens ouvem, mas não se convertem”.

● Apelo final à conversão: exorta o auditório a abandonar os vícios criticados e


a seguir o modelo moral exemplificado pelos peixes e, sobretudo, por Santo
António.

● Inclui aforismos, conselhos, trocadilhos e paralelismos que visam marcar a


memória dos ouvintes e dar força à mensagem ética.
Exordio–Capítulo I:
O Exórdio do Sermão de Santo António aos Peixes abre com a apresentação
do conceito predicável, retirado da Bíblia: “Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13).
Este versículo serve como ponto de partida para uma crítica alegórica e moral,
sendo a base temática e simbólica sobre a qual Vieira constrói todo o sermão. O sal
representa a doutrina cristã e o papel dos pregadores: tal como o sal conserva e
purifica, os pregadores deveriam preservar o mundo da corrupção através da
palavra de Deus. Contudo, Vieira denuncia que esse sal já não cumpre a sua função
— ou seja, a palavra já não transforma, nem corrige, nem purifica.
A alegoria do sal permite a Vieira desenvolver um raciocínio lógico e retoricamente
eficaz. Se a terra (isto é, a sociedade) está corrompida, a culpa pode estar no sal
(os pregadores), por já não pregarem uma doutrina verdadeira, por serem
hipócritas, ou por se centrarem em si mesmos em vez de em Cristo. Mas também
pode estar na terra (os ouvintes), que recusam ouvir e imitar o que se prega. Com
esta estrutura binária, Vieira estabelece uma culpabilização dupla: tanto os que
pregam como os que ouvem são responsáveis pela decadência moral. Este
raciocínio é construído com frases simétricas e encadeadas, imprimindo ao sermão
um ritmo binário e envolvente, que facilita a assimilação da mensagem por parte do
auditório.
A este raciocínio bem estruturado, Vieira acrescenta uma forte componente
retórica. Recorre a interrogações retóricas, como “Que faria logo? Retirar-se-ia?
Calar-se-ia?”, que funcionam como quebra de tom e envolvem diretamente o
ouvinte no discurso. Esta sequência de perguntas curtas imprime dinamismo ao
texto e assegura uma interação constante com o público, fundamental num contexto
oral. Juntamente com essas interrogações, Vieira também utiliza exclamações e
interjeições emocionais — “Oh maravilhas do Altíssimo!” — que apelam ao coração
dos ouvintes, suscitando emoção e comoção. Estes recursos são típicos do estilo
barroco e contribuem para “mover” (movere) os ouvintes, ou seja, persuadi-los
emocionalmente.
Para legitimar ainda mais o seu discurso, Vieira recorre a um argumento de
autoridade, invocando as palavras do próprio Cristo como fonte da sua denúncia. A
citação bíblica, por ser reconhecida pelo auditório como infalível e sagrada, atribui
peso à argumentação. Em seguida, Vieira introduz o exemplo de Santo António, o
pregador que inspirou toda a estrutura simbólica do sermão. Faz-lhe um panegírico
laudatório, apresentando-o como modelo de perseverança e pureza. Santo António,
mesmo perante a recusa dos homens em escutar a verdade, não desistiu da missão
evangelizadora e decidiu pregar aos peixes. Vieira assume que segue o mesmo
caminho: como os homens do Maranhão não escutam, também ele pregará aos
peixes — o que inicia a transição alegórica.
No fecho do Exórdio, Vieira recorre a uma invocação divina, pedindo
inspiração a Maria, sob o título simbólico de Domina maris (“Senhora do Mar”). Esta
invocação cumpre duas funções retóricas: por um lado, assinala a humildade do
orador perante a grandeza da missão de pregar a criaturas não racionais; por outro,
reforça o vínculo entre o conteúdo e o contexto — a pregação é feita junto ao mar,
no Maranhão, e a simbologia marinha é apropriada e coerente. A oração finaliza o
exórdio com elevação espiritual e abre caminho para o início da alegoria.

Exposição–Capítulo II:Louvor dos Peixes em geral


O Capítulo II do Sermão de Santo António aos Peixes marca o início da
exposição da alegoria central da obra, a partir da qual toda a estrutura
argumentativa do sermão se desenvolve. Padre António Vieira parte do conceito
predicável “Vós sois o sal da terra”, retomando a metáfora do sal como elemento
regenerador e preservador, função essa que atribui aos pregadores e à sua
doutrina. Assim, tal como o sal conserva a terra da corrupção, também os
pregadores devem preservar os fiéis da degradação espiritual e moral. É neste
contexto que Vieira inicia a analogia com os peixes, os quais passarão a
representar, por metáfora, os comportamentos humanos. A estrutura do sermão é
então explicitada: louvar o bem (para o conservar) e repreender o mal (para o
purificar), como faria o sal com a carne.
Vieira inicia a alegoria de forma clara, propondo que, se os homens não
querem ouvir, falará aos peixes. Contudo, o objetivo é sempre atingir os primeiros.
Através dos louvores dirigidos aos peixes, Vieira constrói uma crítica subtil — mas
penetrante — à humanidade. O pregador afirma que os peixes possuem qualidades
raras nos homens: são ouvintes ideais, pois “ouvem e não falam”, obedecem à voz
de Deus, são devotos e atentos à palavra sagrada. Estão em silêncio e em escuta,
duas características que Vieira valoriza profundamente no auditório, pois são sinal
de humildade, recolhimento e abertura espiritual. Os homens, por contraste, são
ruidosos, obstinados e surdos à verdade evangélica, o que os torna inaptos à
conversão e à salvação.
Para além da obediência, Vieira destaca que os peixes foram os primeiros
seres criados por Deus, os primeiros nomeados, e que existem em maior número do
que os outros animais. A sua anterioridade e abundância servem para acentuar a
ideia de pureza primordial, anterior à corrupção moral do homem. Esta
superioridade simbólica dos peixes é um recurso estratégico que permite ao orador
amplificar a censura aos vícios humanos sem necessidade de os nomear de forma
direta. Mais ainda, os peixes vivem afastados do convívio humano, retirados do
mundo e das suas vaidades — o que lhes confere pureza e paz interior, atributos da
vida contemplativa e do ideal cristão de santidade.
Este afastamento é valorizado através de uma enumeração contrastiva em
que Vieira compara os peixes a outros animais domesticados, todos eles sujeitos à
manipulação humana: o rouxinol na gaiola, o papagaio na cadeia, o cão pela trela, o
cavalo sob a vara e a espora. Todos se submetem, enquanto os peixes não se
deixam domesticar — o que Vieira interpreta como sinal de inteligência e liberdade
espiritual. Os peixes tornam-se, assim, símbolo da resistência à corrupção do poder
e da ostentação. A crítica, embora velada, é profundamente política: ao elogiar a
independência dos peixes, Vieira censura os homens que se submetem a estruturas
de poder, à vaidade social, à ganância e à subserviência.
Outro momento retoricamente poderoso é a introdução da figura de estilo
conhecida como quiasmo: “os homens têm a razão sem o uso; os peixes o uso sem
a razão”. Esta construção serve para evidenciar a inversão da ordem natural. A
razão, que deveria tornar os homens superiores, é desperdiçada, enquanto os
peixes, mesmo irracionais, comportam-se de forma mais digna. Vieira intensifica
esta inversão com um paralelismo anafórico e contrastes acumulativos entre a
mansidão dos peixes e a fúria dos homens, que se mostram “furiosos e obstinados”,
incapazes de reconhecer a verdade. O exemplo de Jonas é usado para reforçar
esta oposição: enquanto os homens o lançam ao mar, o peixe acolhe-o e salva-o —
metáfora do acolhimento à palavra de Deus.
O capítulo culmina numa nota de desencanto. Vieira reconhece que, tal como
os homens, os peixes também não se convertem, o que lhe causa uma dor que já
se tornou habitual. Este desabafo expressa o cansaço do pregador que, apesar da
eloquência e do zelo, não vê os frutos do seu esforço espiritual. Trata-se de uma
crítica não só aos colonos do Maranhão — que rejeitam a missão evangelizadora de
Vieira — mas a toda uma humanidade endurecida na sua resistência à conversão.
Esta dor, no entanto, não anula o impulso pedagógico do sermão, que se prepara
agora para avançar para a segunda parte da estrutura: a repreensão.

Exposição–Capítulo III:Louvor dos Peixes em particular


No terceiro capítulo do sermão, Padre António Vieira aprofunda os louvores
dirigidos aos peixes, utilizando um conjunto de exemplos simbólicos para destacar
virtudes específicas, sempre com o objetivo implícito de criticar os defeitos
humanos. Os quatro peixes selecionados funcionam como alegorias: o peixe de
Tobias, a rêmora, o torpedo e o quatro-olhos. Cada um simboliza uma qualidade
espiritual ou moral que falta aos homens. Este recurso permite a Vieira desenvolver
uma crítica indireta mas eficaz, associando virtudes cristãs a seres do mundo
natural em oposição à decadência humana.
O peixe de Tobias representa o poder purificador da palavra de Deus. A sua
bílis foi usada para curar a cegueira e expulsar demónios, numa analogia direta com
a função regeneradora da doutrina cristã. Vieira sublinha que os homens, ao
contrário, rejeitam essa cura espiritual, recusando abrir os olhos à fé e purificar-se
da presença do mal. Trata-se de uma crítica direta à falta de fé e de humildade do
homem.
A rêmora simboliza a força controladora e orientadora da palavra do
pregador, capaz de “prender” e “amarrar” os pecadores, impedindo-os de prosseguir
no caminho do erro. A associação à língua de Santo António — com poder para
conter paixões como a soberba, a vingança, a cobiça e a sensualidade — reforça a
importância do uso responsável e virtuoso da palavra. Vieira lamenta que na terra
não haja alguém com força semelhante para desviar os homens das suas más
inclinações, fazendo aqui um paralelismo claro com a missão de evangelização.
O torpedo representa o poder de comoção da palavra divina. A sua descarga
elétrica faz tremer o braço do pescador, imagem metafórica do impacto que a
pregação pode ter nos pecadores. Vieira critica os “pescadores em terra” — homens
que não se deixam abalar pela mensagem de Deus — mas sublinha o exemplo de
22 pescadores que, ao ouvirem Santo António, tremeram e se converteram. Este
exemplo serve como argumento de autoridade e como prova empírica da eficácia da
palavra quando bem aplicada.
O quatro-olhos, por fim, simboliza a prudência e o discernimento moral. Este
peixe tem dois olhos voltados para cima e dois para baixo, representando a
vigilância espiritual: observa simultaneamente o Céu e o Inferno, ou seja, o bem e o
mal. Vieira conclui esta parte confessando que, com humildade, aprendeu com o
quatro-olhos a guiar as suas ações, mantendo consciência das consequências do
pecado e da necessidade de agir com retidão.
Na conclusão deste capítulo, Vieira sintetiza os principais ensinamentos: os
homens “pescam muito e tremem pouco”, faltando-lhes prudência e temor de Deus.
Afirma que, se existissem peixes com a língua de Santo António, haveria menos
naufrágios — uma metáfora para os desastres morais e espirituais da humanidade.
Reflete também sobre o papel social dos peixes: são sustento dos pobres, ajudam
na abstinência, e até figuram em celebrações cristãs como a Páscoa. Com isso,
reforça a ideia de que os peixes cumprem melhor a sua missão no mundo do que os
homens.
Do ponto de vista estilístico, destacam-se figuras como o trocadilho (“lavava”
– purificar), o paralelismo anafórico (sequência de agentes de pesca simbólicos) e o
discurso maniqueísta, que opõe binários como Céu vs. Inferno. A crítica aos
homens é sistemática e indireta, potenciada por uma comparação constante com os
peixes.

Exposição–Capítulo IV: Repreensões aos Peixes em geral


O Capítulo IV representa o ponto culminante do sermão, onde Padre António
Vieira, abandonando o tom laudatório dos capítulos anteriores, envereda por uma
crítica feroz e profundamente simbólica à condição humana. Através da alegoria dos
peixes — que agora simbolizam diretamente os vícios e os comportamentos
condenáveis dos homens — o orador denuncia a crueldade, a ganância, a injustiça
e a vaidade que imperam na sociedade. O centro da crítica é a antropofagia
simbólica, ou seja, o facto de os homens “se comerem” uns aos outros,
explorando-se mutuamente em prol de interesses egoístas.
Vieira recorre a uma sequência de imagens fortes e progressivamente mais
violentas, dividindo os primeiros parágrafos em diferentes formas de “comer o
outro”:
● Primeiro, os grandes comem os pequenos — uma metáfora social clara da
opressão dos poderosos sobre os vulneráveis.
● Depois, mostra como os homens andam sempre a procurar novas formas de
explorar os outros, revelando a persistência e criatividade do egoísmo
humano.

● Em seguida, acusa-os de se alimentarem até dos mortos, através da


exploração dos bens deixados pelos falecidos, como heranças e
testamentos.

● Finalmente, expõe a barbaridade de “comerem os vivos”, isto é, destruir a


vida de inocentes através da injustiça, como o caso de um réu comido por
quem devia julgá-lo imparcialmente.

Este discurso conduz a uma reflexão sobre a desumanização das relações


sociais: a metáfora do “comer” denuncia a instrumentalização do outro e revela
como a sociedade é estruturada por relações de dominação e vaidade. Vieira
reforça esta crítica com uma referência explícita à vaidade das aparências materiais,
dizendo que os homens se deixam levar por “dois pedaços de pano”, ou seja, pelas
roupas e títulos sociais. Para contrastar esta loucura mundana, apresenta o
exemplo do jovem Santo António, que abandonou os luxos e trocou as “galas do
mundo” pela humildade do hábito religioso — símbolo de renúncia e de
compromisso espiritual.
Vieira recorre ainda a recursos estilísticos poderosos. O paralelismo invertido
entre Santo Agostinho (que pregava aos homens, exemplificando com os peixes) e
ele próprio (que prega aos peixes, exemplificando com os homens), ironiza a
inversão dos tempos e intensifica a crítica moral. A polissemia da palavra “terra”,
que pode significar tanto o solo como a sociedade humana, permite a construção de
frases com duplo sentido: literal e metafórico. Por exemplo, a frase “o pobre defunto
ainda não comeu a terra, e a terra já o comeu” sugere que a sociedade,
representada por “terra”, devora os seus mortos — metáfora da corrupção e
ganância dos vivos.
A crítica é também cultural e histórica: Vieira denuncia a antropofagia social
dos brancos, comparando-a aos hábitos canibais dos povos indígenas (os Tápuias)
— uma inversão ousada para a época, que atribui aos europeus os traços de
selvajaria que lhes eram normalmente imputados aos povos colonizados. Ao afirmar
que “os homens são piores que os corvos”, Vieira acentua a natureza necrófaga e
implacável da humanidade: os corvos, animais tradicionalmente associados à morte,
são agora metáforas do comportamento predatório dos homens vivos.
Exposição–Capítulo V: Repreensões aos Peixes em
particular
No Capítulo V, Padre António Vieira retoma o eixo da repreensão,
aprofundando a crítica moral iniciada nos capítulos anteriores, agora com foco
particular em quatro espécies de peixes: Roncadores, Pegadores, Voadores e o
Polvo. Cada peixe simboliza um vício humano concreto e é associado a figuras
bíblicas ou históricas, numa construção alegórica que visa não os peixes em si, mas
os homens que eles representam. Através destas figuras animais, Vieira dá
continuidade à sátira da sociedade do seu tempo, atacando comportamentos
reprováveis com ironia cortante, imaginação simbólica e uma retórica altamente
sofisticada.
O primeiro peixe analisado é o Roncador, cujo nome já sugere a crítica:
trata-se de um peixe pequeno, mas que produz ruído exagerado — símbolo da
arrogância, da vaidade e da ostentação. Vieira aponta o paradoxo de seres frágeis
que tentam disfarçar a própria pequenez com alarde, sem reconhecerem os próprios
limites. Este tipo de peixe representa os homens que, seduzidos pelo saber e pelo
poder, falam demais e nada fazem — um contraste direto com Santo António, que,
pela sua humildade e silêncio, se tornou célebre. As figuras de Pedro, Golias, Caifás
e Pilatos são usadas como exemplificação: todos, à sua maneira, “roncavam” — uns
com força, outros com saber ou autoridade, mas todos sem verdadeira firmeza
espiritual.
Segue-se o Pegador, peixe que se agarra aos maiores para sobreviver —
metáfora mordaz para os bajuladores, parasitas sociais e políticos que se
aproveitam dos poderosos para garantir benefícios próprios. Vieira critica o
oportunismo, a dependência e a falta de iniciativa dos homens que preferem viver à
custa dos outros, como acontece frequentemente entre governantes rodeados de
aduladores. Herodes, os seus descendentes, Adão e Eva são invocados como
exemplos deste comportamento decadente: todos ligados, de uma forma ou de
outra, à irresponsabilidade moral, ao erro original ou à destruição provocada por
quem se deixa levar por outros em vez de assumir os próprios atos.
O terceiro peixe é o Voador, que tenta sair da sua natureza aquática para
voar, usando barbatanas como asas — símbolo da ambição desmedida, da
presunção e do capricho. São criaturas que procuram ir além do que lhes foi
destinado, acabando inevitavelmente por se perder. São pescadas como aves e
queimadas — castigo metafórico para os homens que, iludidos por sonhos de
grandeza, se esquecem da sua base e da moderação. Vieira ilustra essa crítica com
a figura de Simão Mago, que tentou comprar o dom divino, e São Máximo, que,
tentando subir ao céu antes de tempo, cai e quebra os pés. É uma lição contra os
que “querem asas para voar” sem sequer saberem andar.
Por fim, o Polvo recebe a crítica mais feroz e extensa. Representa a traição,
a dissimulação e o fingimento. Com aparência calma, bela e até santa, este peixe
engana os outros com a sua capacidade de mimetismo e camuflagem, preparando
traições sob uma capa de virtude. Vieira associa o polvo a Judas Iscariotes, que
também aparentava lealdade enquanto planeava a entrega de Cristo. A crítica aqui
é moral, mas também institucional — o polvo simboliza os hipócritas das esferas de
poder eclesiástico e político, aqueles que, sob uma fachada de santidade,
escondem intenções venenosas. O orador desenvolve ainda um episódio isolado
para o polvo, dividindo-o em introdução, desenvolvimento, conclusão e comparação,
onde destaca o oxímoro “hipocrisia tão santa”, sublinhando a tensão entre aparência
e essência.
Este capítulo também destaca o contraste entre os vícios dos peixes
criticados e as virtudes de Santo António. Ao contrário dos roncadores que
ostentam, Santo António teve saber e poder, mas não se vangloriou — calou, e por
isso “bradou”. Pegou-se com Cristo, não com os grandes. Tinha duas asas —
sabedoria natural e sobrenatural — mas não as usou para ambição. Foi modelo de
candura, sinceridade e verdade, nunca traindo, nem com “dolo, fingimento ou
engano”. É essa figura santa que Vieira propõe como antítese a todos os vícios
representados pelos peixes.
Retoricamente, Vieira enriquece o capítulo com várias figuras de estilo. Utiliza
aforismos (“Quem quer mais do que o que lhe convém, perde o que quer e o que
tem”), paralelismos anafóricos, discursos exortativos e um brilhante quiasmo (“Não
contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe”), reforçando o
tom moralizante e reflexivo do sermão. A crítica é profunda e abrangente,
apontando para uma sociedade moralmente doente, onde o fingimento se sobrepõe
à virtude e a aparência sufoca a verdade.

Peroração–Capítulo VI:
No Capítulo VI do Sermão de Santo António aos Peixes, correspondente à
peroração (ou epílogo), Padre António Vieira encerra o sermão com um tom
conclusivo e apelativo, assumindo uma postura de despedida: “Com esta
advertência vos despido”. A sua conclusão articula-se em torno de quatro eixos
principais: a superioridade moral dos peixes face aos outros animais, a
superioridade dos peixes face ao próprio pregador, um apelo direto ao auditório e
um hino de louvor final.
Vieira começa por afirmar que os peixes são superiores aos restantes
animais por não se deixarem domesticar, mantendo-se fiéis à sua natureza —
metáfora para os cristãos verdadeiros que se mantêm firmes na fé. Em seguida,
reforça a ideia de que até os peixes, alvo da sua pregação, são mais receptivos à
palavra de Deus do que os homens, incluindo ele próprio. Esta autocrítica, revestida
de humildade, intensifica a autoridade moral do pregador, que se coloca numa
posição de inferioridade face à doutrina que proclama.
O orador conclui com um apelo emotivo e exortativo aos ouvintes,
incentivando-os à mudança de conduta e à prática do bem. Este apelo é reforçado
com a repetição das ideias principais do sermão e com o uso de estratégias
retóricas clássicas da eloquência barroca: docere (ensinar com argumentos e
citações), delectare (cativar com estilo expressivo e figuras de retórica) e movere
(comover e persuadir o auditório à ação). O sermão encerra com um hino de louvor,
glorificando os peixes como exemplo moral e espiritual, e apelando à reflexão dos
ouvintes sobre a sua própria condição humana, corrompida pela vaidade, hipocrisia
e desvio da verdadeira fé.
O Sermão: Temas e Simbolismo

Tema 1: Hipocrisia e Corrupção Moral


A crítica à hipocrisia é uma das colunas vertebrais do Sermão de Santo António
aos Peixes. Padre António Vieira denuncia a profunda dissonância entre o
discurso religioso dos colonos e a prática real de dominação, escravidão e
ganância. Embora se apresentem como cristãos piedosos, os colonizadores
demonstram, nos seus atos, uma corrupção moral sistemática. Vieira, como
homem de fé e grande orador barroco, não se limita à censura ética: ele
desmonta a lógica da aparência como disfarce de uma essência corrompida.
Vieira inicia o sermão com um elogio às virtudes dos peixes — símbolo da pureza,
do silêncio e da obediência à ordem divina. Mas rapidamente esse louvor
transforma-se em ironia: os peixes que pareciam virtuosos acabam por manifestar
os mesmos vícios dos homens. Esta estrutura — do elogio à censura — é
tipicamente barroca e permite a Vieira desmontar, com elegância e precisão, a
hipocrisia dos seus ouvintes. O que se aparenta não é o que se é. E é justamente
essa falsidade que o autor ataca: a distância entre a fachada cristã e o conteúdo
pagão.
Ao atribuir os vícios humanos a espécies de peixes, Vieira contorna a censura
direta e ao mesmo tempo torna a crítica mais cortante. O polvo, por exemplo,
representa a dissimulação: ataca com tinta para esconder as suas ações — como
fazem os hipócritas religiosos e políticos, que usam a aparência de virtude para
ocultar o pecado. O peixe-voador representa a vaidade de quem tenta elevar-se
artificialmente. Estes símbolos não são neutros: são críticas dirigidas, através da
alegoria, a tipos sociais concretos — os poderosos que exploram, manipulam e
disfarçam o mal sob o manto da fé.
Vieira constrói o seu sermão como um espelho moral deformado. Em vez de
refletir o que os ouvintes querem ver — uma imagem idealizada de si mesmos —
mostra-lhes aquilo que eles mais temem reconhecer: a sua própria corrupção
interior. A máscara cristã é rasgada. E o mais grave, segundo Vieira, não é o
pecado em si, mas a mentira de o ocultar com palavras piedosas e gestos vazios.

O Sermão: Temas e Simbolismo 1


A hipocrisia transforma o cristão num pecador com consciência, mas sem
arrependimento, e isso, para o autor, é pior do que a ignorância do pagão.
A crítica à hipocrisia moral em Vieira é teológica, política e retórica. É uma
denúncia da falsa fé como instrumento de poder. Através da arte barroca da
alegoria, Vieira expõe os colonos como criaturas que se dizem salvas, mas vivem
como perdidos. O sermão, ao fazê-los ver-se nos peixes, obriga-os a confrontar a
verdade moral que negam — e revela que, no teatro da vida colonial, a religião
muitas vezes não é mais que um figurino.

Tema 2: Falência da Palavra


Um dos temas mais comoventes e complexos de O Sermão de Santo António aos
Peixes é a ideia de que a palavra — mesmo quando bela, verdadeira e inspirada —
já não tem eficácia moral. Vieira, o maior orador sacro da língua portuguesa,
confronta neste sermão a possibilidade de que a sua arte, e até a própria missão
de evangelização, já não tenha o poder de transformar corações. A metáfora
central da pregação dirigida aos peixes, seres que nem ouvem nem falam, é mais
do que recurso literário: é o retrato trágico de um mundo que perdeu a
capacidade de escutar.
O sermão parte da passagem bíblica “Vós sois o sal da terraˮ, dirigindo-se
originalmente aos pregadores, que deveriam preservar a fé e impedir a corrupção
da moral — tal como o sal conserva os alimentos. No entanto, Vieira denuncia que
esse “salˮ perdeu o sabor: a palavra já não conserva, já não cura, já não sacode
a consciência. A linguagem tornou-se inócua; os sermões, repetições formais; os
ouvintes, indiferentes. A alegoria bíblica serve como ponto de partida para uma
reflexão mais profunda sobre a crise de eficácia da palavra cristã na colónia.
Ao decidir pregar aos peixes, Vieira não está a fugir da missão — está a
denunciar os destinatários humanos dessa missão. Os homens, diz ele
implicitamente, tornaram-se mais surdos do que os peixes. É uma crítica dupla:
aos ouvintes, que não se deixam comover, e aos pregadores, que já não têm força
para abalar consciências. Pregar aos peixes — seres que não precisam de se
converter — torna-se menos frustrante do que pregar a homens que se fingem
cristãos mas vivem como pagãos.
Esta metáfora é profundamente barroca: irónica, paradoxal, dramática. Ao falar a
criaturas irracionais, Vieira faz ecoar a inutilidade da razão e da linguagem num

O Sermão: Temas e Simbolismo 2


mundo moralmente falido.
Vieira é o mestre da palavra, mas neste sermão confessa, por entre as
entrelinhas, o seu desespero diante da inutilidade da eloquência. A sua
linguagem é rica, sofisticada, envolvente — mas também ferida pela consciência
de que não produz o efeito desejado. Esse reconhecimento transforma o sermão
num ato quase existencial: o orador acredita na palavra, mas sabe que ela já não
salva.
É aqui que o sermão adquire uma dimensão quase trágica: é a arte do verbo
confrontada com a decadência da escuta. A surdez dos homens representa não
apenas a recusa do conteúdo da mensagem, mas o colapso da relação ética
entre quem fala e quem ouve.
Vieira diagnostica uma surdez que não é auditiva, mas espiritual. Os colonos
ouvem as missas, frequentam os sermões, participam dos ritos — mas não
escutam. A palavra sagrada tornou-se ruído, hábito, encenação. A surdez dos
ouvintes revela a banalização da fé e a ausência de conversão verdadeira. A
pregação perdeu a sua função transformadora — e tornou-se apenas um ritual
decorativo da religião colonial.
Esse diagnóstico é profundamente moderno: antecipa a crítica à alienação da
linguagem num sistema social onde tudo se diz e nada se vive. A falência da
palavra é, para Vieira, um sintoma da falência da própria fé institucionalizada.
E no entanto, Vieira prega. Mesmo diante do silêncio, da surdez, do cinismo, ele
insiste. Isso revela o núcleo ético do sermão: a palavra continua a ser necessária,
mesmo quando não transforma. O orador não prega porque espera um resultado
imediato — prega porque o silêncio seria cumplicidade. O sermão é, assim, um
ato de resistência: a última esperança de que a palavra, um dia, volte a ter efeito.
Neste ponto, o sermão transcende a esfera religiosa e torna-se manifesto moral e
político: dizer a verdade, mesmo quando ninguém quer ouvi-la, é dever do
homem justo.
A falência da palavra em Vieira não é resignação — é denúncia. O sermão é
simultaneamente confissão da impotência da linguagem e afirmação da sua
necessidade ética. Pregar aos peixes torna-se metáfora de um mundo onde a
verdade já não encontra eco, mas onde ainda assim é preciso falar. A palavra,
mesmo ferida, continua a ser o último recurso contra o silêncio da injustiça.

O Sermão: Temas e Simbolismo 3


Tema 3: Alegoria Moral e Crítica Social
Vieira, mestre da retórica barroca, recorre à alegoria como instrumento poderoso
de denúncia. Cada peixe mencionado no sermão encarna um tipo moral — um
vício humano transposto para o reino animal. O recurso não é decorativo nem
meramente literário: é uma estratégia retórica que lhe permite atacar
diretamente os comportamentos da elite colonial, evitando ao mesmo tempo
represálias diretas. A alegoria moral converte o sermão num espelho deformante,
mas revelador, onde o ouvinte é confrontado com o grotesco da sua própria
conduta.
A alegoria é construída com uma lógica minuciosa. Vieira seleciona diferentes
espécies de peixes e atribui-lhes características simbólicas que espelham
comportamentos humanos:

Peixe de Tobias: símbolo do bem. A sua bílis cura a cegueira do pai do


protagonista bíblico. Vieira associa-o à verdadeira pregação — aquela que
ilumina, desperta, regenera. É o modelo do que a palavra deveria ser: cura e
lucidez.

Rêmora: representa o poder discreto e eficaz da palavra. Trata-se de um


peixe pequeno que, segundo se acreditava, era capaz de travar navios. Vieira
usa-o para simbolizar o efeito que a boa pregação deveria ter: conter os
ímpetos do pecado, moderar a ambição, deter os abusos.

Torpedo: peixe que provoca choque e paralisia. Para Vieira, representa a


consciência: o sermão deve sacudir, despertar, perturbar quem o ouve. Mas,
paradoxalmente, os ouvintes de Vieira já não se deixam “paralisarˮ pelo
escândalo do pecado — estão anestesiados pela repetição e pela hipocrisia.

Depois do elogio inicial, Vieira introduz os peixes que encarnam vícios — e aqui a
crítica social torna-se explícita:

Roncadores: são os vaidosos que se exaltam a si mesmos com barulho e


ostentação. Representam os que falam muito e fazem pouco, os que usam a
palavra para se autopromover, sem conteúdo ético. Vieira critica tanto os
líderes políticos como os pregadores que se tornaram espetáculo vazio.

Pegadores: peixes que vivem agarrados a outros maiores. São os bajuladores


e oportunistas, que não sobrevivem por mérito próprio, mas pela

O Sermão: Temas e Simbolismo 4


dependência de poder alheio. Vieira ataca aqui a lógica da corte, da política
colonial e da Igreja que se estrutura por favores e conveniências.

Peixe-voador: símbolo da ambição desmedida. Ao tentar ultrapassar os


limites naturais da sua espécie, acaba por cair — como aqueles que
procuram ascensão social, religiosa ou política sem humildade nem justiça.
É uma crítica à vaidade de quem quer parecer mais santo, mais sábio ou mais
influente do que é.

Polvo: talvez o símbolo mais devastador do sermão. O polvo disfarça-se,


liberta tinta, camufla-se. Representa a hipocrisia refinada, a maldade
escondida sob aparência de bondade. Ataca pelas costas, tal como os falsos
cristãos que usam a fé para enganar. Vieira denuncia aqui a elite clerical e
política que simula virtude para manter o poder.

A escolha dos peixes permite a Vieira dizer o que não poderia dizer diretamente.
Numa sociedade colonial onde a crítica frontal podia custar caro — e vindo ele
próprio de dentro da Igreja — a alegoria é o disfarce da denúncia. Mas é também
a sua amplificação: ao transformar os homens em animais, Vieira reforça o
carácter desumano dos seus comportamentos. A linguagem simbólica protege o
orador, mas atinge com mais força o ouvinte.
Além disso, a alegoria permite abarcar não só indivíduos, mas estruturas sociais
inteiras: o bajulador, o hipócrita, o vaidoso — todos são tipos sociais, arquétipos
que organizam a crítica de Vieira como se fosse uma fábula moral com
consequências reais.
A alegoria moral em O Sermão de Santo António aos Peixes não é apenas uma
construção retórica barroca — é uma estratégia de subversão. Vieira, através da
descrição dos peixes, critica a sociedade colonial, religiosa e política do seu
tempo com uma sofisticação feroz. A linguagem simbólica permite-lhe transpor
os limites do púlpito e transformar o sermão num verdadeiro ato de denúncia e de
justiça poética. Os peixes não são animais: são espelhos. E cada ouvinte, ao
escutá-lo, é forçado a perguntar: qual destes peixes sou eu?

Tema 4: Reversão Simbólica da Civilização


Num gesto provocador e profundamente barroco, Vieira inverte as noções de
civilização e barbárie, razão e instinto, fé e paganismo. O que era tido como

O Sermão: Temas e Simbolismo 5


superior — o cristão, o europeu, o racional — é, no sermão, apresentado como
moralmente inferior. Os peixes, seres irracionais e não humanos, assumem
simbolicamente o papel de referência ética e espiritual. Esta reversão simbólica
serve para deslegitimar o discurso colonial de superioridade cristã e
civilizacional, revelando o profundo fracasso moral do projeto imperial português
no Brasil.
Vieira confronta os seus ouvintes com uma ironia perturbadora: os homens
possuem razão, mas não a utilizam com justiça; os peixes, sem razão, agem
com mais retidão. Este paradoxo surge de forma explícita no seu famoso
quiasmo:
Aqui, a razão — supostamente aquilo que distingue o ser humano do animal — é
retratada como instrumento falido, pois não conduz à moralidade, mas à
ganância, exploração, ambição e dissimulação. A racionalidade, em vez de
elevar o homem, torna-se cúmplice da sua queda. Esta crítica é de fundo
filosófico e cultural: o progresso técnico e político não tem valor se não for
acompanhado de virtude.
Na lógica de Vieira, os peixes revelam virtudes que os homens coloniais
perderam:

O silêncio (em contraste com a tagarelice vaidosa dos roncadores)

A humildade (em oposição ao voo arrogante dos ambiciosos)

A obediência à ordem natural (ao contrário da predação institucionalizada


pelos homens)

A ausência de hipocrisia (em contraste com os disfarces sociais e religiosos


do polvo)

Deste modo, os peixes não são apenas símbolos — são espelhos de uma
verdade desconcertante: os colonos, tão seguros da sua superioridade moral e
civilizacional, são eticamente inferiores aos próprios animais. A civilização, assim,
não é sinónimo de virtude, mas de disfarce.
Vieira desafia, de forma indireta mas poderosa, a retórica do colonialismo cristão
que justifica a conquista e a escravização como uma “missão civilizadoraˮ. Ao
mostrar que os ditos “selvagensˮ (representados metaforicamente pelos peixes)

O Sermão: Temas e Simbolismo 6


agem com mais ética e pureza que os “civilizadosˮ, invalida o discurso
legitimador da colonização.
Além disso, associa os pecados mais graves — hipocrisia, ambição, vaidade,
opressão — não aos indígenas, mas aos próprios colonos e autoridades
religiosas. A lógica do sermão é disruptiva: os opressores são moralmente
inferiores aos oprimidos, e a civilização europeia, longe de ser modelo, torna-se
caricatura grotesca do Evangelho que proclama.
Esta inversão entre natureza e civilização é uma das marcas do estilo barroco,
que ama o paradoxo, o contraste, o desequilíbrio. O sermão apresenta o mundo
como um palco distorcido, onde o inferior se revela superior e o que se exibe
como virtuoso é na verdade perverso. A ordem moral foi invertida, e Vieira tenta
restaurá-la com a palavra.
Assim, os peixes, que são inferiores na escala da criação, assumem no sermão a
função de mestres, juízes e exemplos. Os homens, que ocupam o topo da
hierarquia, revelam-se indignos dessa posição. A criação está moralmente de
pernas para o ar — e Vieira denuncia esse colapso ético com eloquência e
amargura.
A reversão simbólica da civilização é o gesto mais radical e iluminador de O
Sermão de Santo António aos Peixes. Ao conceder dignidade aos peixes e expor
a bestialidade dos homens, Vieira não apenas denuncia os abusos coloniais:
desmonta as fundações culturais e morais que os sustentam. O sermão propõe
uma revolução de valores: o verdadeiro civilizado não é quem tem poder ou
razão, mas quem age com justiça, humildade e verdade. E nesse critério, diz
Vieira, os homens falharam — os peixes, não.

Tema 5: A Inutilidade do Conhecimento sem Ação


Vieira posiciona-se firmemente contra o culto da teoria desligada da prática. O
saber, para ele, só tem valor se se traduzir em ação ética. Esta é uma crítica
tanto aos ouvintes do sermão — que acumulam doutrina sem se converterem —
como aos pregadores e autoridades eclesiásticas — que possuem conhecimento
teológico mas falham na prática cristã. Trata-se de uma denúncia feroz de uma
religiosidade meramente intelectual, incapaz de gerar transformação moral.

O Sermão: Temas e Simbolismo 7


O sermão expõe, através de metáforas e ironia, uma sociedade que se orgulha da
sua fé e do seu saber, mas permanece moralmente inerte. Os homens ouvem
sermões, citam as Escrituras, exibem os rituais — mas não se convertem. A
doutrina, embora conhecida, não gera fruto. Neste contexto, Vieira lembra que o
cristianismo não é uma filosofia teórica, mas um modo de vida. Conhecer o bem e
não o praticar é pior do que a ignorância, pois revela uma fé hipócrita.
A rêmora, símbolo da verdadeira pregação, é contraposta aos pregadores do
tempo de Vieira, que já não travam os pecados, não perturbam consciências,
não causam arrependimento. A palavra perdeu o seu efeito transformador — não
por ser falsa, mas por ser recebida com indiferença. Esta crítica vai além do
púlpito: atinge toda uma sociedade que idolatra o discurso, mas recusa a ação
justa.
Vieira proclama que fé sem obras é morta, e que conhecimento sem ética é
perverso. A inutilidade do saber sem ação é, no fundo, um apelo à coerência
moral: é preferível pouco saber com retidão do que muita teoria sem prática. O
verdadeiro cristão não é o que sabe, mas o que age — e neste critério, diz o
sermão, a colónia falha fragorosamente.

Tema 6: A Indiferença diante da Injustiça


Ao longo do sermão, Vieira constrói imagens marcantes de crueldade e opressão,
descrevendo um mundo em que a violência é banalizada. Os peixes que se
devoram mesmo depois de mortos representam uma sociedade moralmente
anestesiada, onde o sofrimento do outro já não desperta compaixão. A crítica não
se dirige apenas aos que praticam a injustiça, mas sobretudo aos que a toleram
em silêncio.
Vieira descreve um cenário de brutalidade diária: os grandes peixes devoram os
pequenos; os mortos continuam a ser mutilados. Esta alegoria exprime a lógica
colonial da exploração contínua dos mais fracos. No entanto, o que torna essa
lógica mais perversa é a indiferença social que a acompanha. Não há indignação,
não há empatia — há apenas o hábito da violência. Esta naturalização do mal é,
para Vieira, uma das formas mais graves de pecado coletivo.
A mensagem de Cristo é, acima de tudo, uma mensagem de amor e misericórdia.
No entanto, Vieira denuncia uma colónia cristã onde a compaixão desapareceu,
substituída pela lógica do lucro, da dominação e da insensibilidade. Esta crítica

O Sermão: Temas e Simbolismo 8


toca o coração do projeto missionário: como pode haver evangelização sem
piedade? Como pode haver fé autêntica onde reina a indiferença ao sofrimento
do outro?
A indiferença é, para Vieira, o pecado da omissão, o pecado dos cúmplices
silenciosos. O sermão não só denuncia a injustiça ativa, mas também a
passividade dos que fecham os olhos. Contra essa apatia moral, Vieira ergue a
sua voz — não apenas para condenar, mas para despertar.

Tema 7: A Crítica ao Abuso da Autoridade


A figura do polvo concentra a crítica mais feroz e estrutural de Vieira ao poder
político e eclesiástico. Com seus tentáculos e a capacidade de se disfarçar, o
polvo simboliza aqueles que usam a aparência de virtude para exercer poder de
forma insidiosa e manipuladora. Vieira denuncia a traição dos que deveriam guiar
e proteger, mas que usam a sua autoridade para oprimir.
O polvo não ataca de frente: envolve, confunde, camufla. Assim são, segundo
Vieira, os líderes que se apresentam como servidores, mas governam para si
próprios. A autoridade religiosa, em vez de iluminar, obscurece; em vez de
libertar, domina. A crítica é dupla: à política colonial que se serve da religião para
explorar, e à própria Igreja que, em muitos casos, abandonou a sua função
profética.
Vieira não denuncia apenas indivíduos: denuncia uma estrutura de poder
disfarçada de santidade. O abuso da autoridade é apresentado como uma
violação profunda da ordem divina: os que deviam ser sal (luz, justiça, guia)
tornaram-se tinta escura e veneno. É uma crítica ética e institucional — e, no
contexto da censura da época, uma das mais corajosas que se pode imaginar.
O polvo é símbolo da perversão da autoridade. Vieira transforma esse símbolo
num alerta: quando os líderes são os maiores traidores da moral, toda a
sociedade está em risco. O sermão é, aqui, um apelo ao discernimento: é preciso
desconfiar dos disfarces, separar aparência de essência, poder de serviço.
Porque não há fé autêntica onde há opressão disfarçada de virtude.

Tema 8: A Falência da Missão Espiritual na Colónia

O Sermão: Temas e Simbolismo 9


O sermão termina com um tom de despedida melancólica. Vieira reconhece que
os colonos não vão mudar, que a palavra já não toca os corações, que a missão
evangelizadora fracassou moralmente. A frustração do pregador transforma-se
numa espécie de testamento espiritual: não por falta de fé, mas porque o mundo
colonial está apodrecido demais para escutar.
Vieira não culpa a doutrina — culpa o mundo. O problema não está na mensagem
cristã, mas na corrupção estrutural da colónia: os interesses económicos
sobrepõem-se à fé, a ganância sufoca a caridade, e o hábito da injustiça tornou-
se mais forte do que a palavra de Deus. O pregador, consciente disso, fala não
por esperança de conversão, mas por dever de consciência.
A despedida de Vieira não é teatral: é profundamente ética. Ao declarar que os
peixes são melhores do que os homens, Vieira reconhece que a fé verdadeira já
não habita o mundo colonial. O sermão, assim, torna-se não só uma crítica, mas
uma confissão amarga de derrota espiritual — não da fé em si, mas da Igreja
enquanto instituição comprometida com um projeto imperial falhado.
A falência da missão espiritual na colónia é o reconhecimento mais doloroso de
Vieira: a verdade foi dita, mas ninguém quis escutá-la. O sermão torna-se um
testamento profético — não de esperança, mas de lucidez. Fica a palavra, como
último ato de resistência num mundo moralmente surdo.

O Sermão: Temas e Simbolismo 10

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