Clèrambault
Clèrambault
Juiz de Fora
2019
Marco Antonio Gasparetto
Juiz de Fora
2019
Ficha catalográfica elaborada através do programa de geração
automática da Biblioteca Universitária da UFJF,
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
Certamente se trata de uma tarefa bastante difícil tentar fazer chegar a minha gratidão a todos
aqueles que contribuíram, de maneira direta ou indireta, para a conclusão desse trabalho. No
entanto, é muito importante fazer justiça com algumas pessoas e instituições:
Ao Professor Dr. Richard Theisen Simanke, meu orientador, antes de tudo por ter aceito essa
função. Agradeço pelas suas condutas exemplar, ética, incentivadora, contumaz e em quem
encontrei a firmeza e a atenção necessária para a realização desse trabalho.
Aos Professores que aceitaram compor a presente banca: Dr. Mário Eduardo Costa Pereira,
Dr. José Roberto Barcos Martinez, Dra. Crístia Rosineiri Gonçalves Lopes Correa e, em
especial, ao Dr. Mário Sérgio Ribeiro, pela leitura atenta e de excelência, possibilitando uma
discussão rigorosa de cada item e de cada capítulo e que, certamente, com a sua ajuda, esse
trabalho ganhou em qualidade.
Às colegas mais próximas durante todo o curso do doutorado, Anna Rita Maciel Simião e
Jane Mara dos Santos Barbosa, pelo enriquecimento proporcionado nas mais variadas
discussões.
Aos amigos Éder Schmidt e Rubem Dario Cardoso Vale cujas palavras, presença e
contribuições certamente serviram para enriquecer o resultado final desse trabalho.
A Professora Walquíria Cardoso Vale, pela aulas de Francês que muito auxiliaram nas leituras
e traduções dos textos.
Gaëtan Gatian de Clérambault (1872-1934) was a French psychiatrist who worked over
his thirty professional years at the Special Infirmary of the Paris Police Prefecture. He
developed several important researches there – some even were considered as novelty at
that time – mainly concerning toxic psychoses, Erotomania and his concepts of Mental
Automatism. Although contemporary of Freud, Clérambault remained with his organicist
ideas influenced by mechanistic thinking, understanding hallucination as a mechanical
phenomenon upon which delusion is constituted. Clérambault was an obstinate
misogynist, a conservative person and hostile to Freudianism and Surrealism. Due to
these aspects, just after his tragic death his personal life became an object of greater public
interest than his own work. Initially considered as an anachronistic and marginal thinker
– essentially because his narrow constitutionalism – the interest in his academic works
has returned after references made by his former student Jacques Lacan. Thereafter,
Clérambault reached a relevant place in the psychoanalytic environment (predominantly
among Lacanians). This PhD Dissertation aims to reanalyse his work through a literature
review. The general assumption is that the rediscovery of his psychiatric work has been
strongly biased by Lacan’s idiosyncratic psychoanalytic thinking. Hence, the purpose of
this work is not only identifying the distortions that his works might have undergone, but
especially recapture the original principles of his thinking and prevent his valuable
contributions from being lost to contemporaneity. Clérambault’s works are used as
primary data sources, while publications regarding his works and his life are used as
secondary sources. As a result, this PhD Dissertation aims to show that those deviations
in the original Clérambault’s thinking did not decrease its relevance in the History of
Psychiatry.
Introdução ..................................................................................................................... 11
a) Clérambault, a psicanálise e a Whig history .............................................................. 14
b) Justificativa e metodologia ........................................................................................ 15
c) Estrutura do trabalho ............................................................................................... 17
1 Vida e Obra de Clérambault ........................................................................... 21
1.1 O mecanicismo na medicina e na psiquiatria ....................................................... 22
1.2 Clérambault: sua vida e sua formação profissional ............................................. 26
1.3 O médico e psiquiatra ........................................................................................... 27
1.4 Clínica e produção científica ................................................................................. 30
1.5 Experiências militares e a arte ............................................................................... 31
1.6 Os problemas da visão e as suas consequências ..................................................... 34
1.7 Repercussões de sua morte .................................................................................... 36
1.8 A redescoberta pela via da psicanálise ................................................................... 37
1.9 O Clérambault psicanalítico e a mitologia da doutrina ......................................... 40
1.10 Clérambault por Henri Ey: uma tentativa de salvar o organicismo ...................... 42
2 As Psicoses Tóxicas ........................................................................................... 44
2.1 Álcool .................................................................................................................. 45
2.1.1 Embriaguez Psíquica com Transformação da Personalidade .................................. 47
[Link] Tentativas de compreensão ..................................................................................... 52
[Link] Comparação com quadros similares ....................................................................... 53
[Link] Características das alucinações ............................................................................. 57
[Link] Características do delírio ...................................................................................... 58
[Link] Patogenia e diagnóstico diferencial ....................................................................... 60
2.1.2 Alcoolismo crônico e fugas prolongadas ............................................................... 64
[Link] Reflexões de Clérambault sobre o caso .................................................................. 67
[Link] Discussão clínica e conclusões ............................................................................... 69
2.1.3 Alcoolistas crônicos com múltiplas internações ...................................................... 71
2.1.4 Os casos de alcoolismo na França após tomada de medidas legais e administrativas .75
2.2 Cloral .................................................................................................................... 76
2.2.1 Paciente I ............................................................................................................... 77
[Link] Comparações entre os quadros de cloralismo e de cocainismo .................................. 81
[Link] Diferenças com outras substâncias .......................................................................... 83
[Link] Tabes ................................................................................................................... 84
2.2.2 Paciente II ............................................................................................................. 85
[Link] Alucinações visuais ................................................................................................ 88
[Link] Alucinações auditivas ............................................................................................. 90
[Link] Ansiedade e perturbações diversas .......................................................................... 91
2.2.3 Perturbações psíquicas encontradas como consequência do abuso de cloral ............ 92
[Link] Embriaguez clorálica ............................................................................................. 92
[Link] Coma clorálico ...................................................................................................... 93
[Link] Delírio clorálico agudo confusional ........................................................................ 94
[Link] Delírio clorálico agudo simples .............................................................................. 97
2.3 Éter ...................................................................................................................... 99
2.3.1 Embriaguez etérica ............................................................................................. 102
2.3.2 Eterismo crônico ................................................................................................ 102
2.3.3 Perturbações agudas no eterismo crônico ............................................................103
2.3.4 Ações provocadas pelo éter no organismo humano ............................................... 105
3 As Psicoses Passionais e a Erotomania ........................................................... 107
3.1 Primeiras abordagens de Clérambault sobre o tema .......................................... 107
3.2 A estruturação das psicoses passionais ............................................................... 111
3.3 O delírio erotomaníaco e a formalização do postulado ....................................... 113
3.4 O delírio erotomaníaco e a paranoia .................................................................. 114
3.5 Erotomania pura e Erotomania associada .......................................................... 116
3.6 As divergências entre Clérambault, Capgras e Mignard ..................................... 123
3.7 Concepções biológicas acerca do delírio erotomaníaco ....................................... 127
3.8 A hipocondria como psicose passional ................................................................ 131
3.9 Delírios passionais, Embriaguez Psíquica, caráter e emotividade ........................ 133
3.10 Prejuízo e despeito caracterizando quadros não passionais ................................ 134
3.11 Considerações finais ........................................................................................... 136
4 O Automatismo Mental .................................................................................. 137
4.1 Definição de automatismo mental ...................................................................... 138
4.2 Automatismo mental: o início ............................................................................ 141
4.3 O grande automatismo mental ........................................................................... 144
4.3.1 Automatismo sensitivo e sensorial ....................................................................... 145
4.3.2 Automatismo psicomotor ..................................................................................... 147
4.3.3 Automatismo ideoverbal ....................................................................................... 148
4.3.4 Automatismo afetivo, emotivo e volitivo ................................................................ 150
4.3.5 Automatismo visual .............................................................................................. 151
4.4 O eco do pensamento ........................................................................................... 152
4.5 Delírios e alucinações ........................................................................................... 154
4.6 Personalidade segunda ......................................................................................... 157
4.7 Patogenia ............................................................................................................. 158
5 Conclusão ........................................................................................................... 161
Referências .................................................................................................................. 167
11
Introdução
1
Esses documentos encontram-se organizados e listados sob a cota 84 W na seção Archives du service de la
Mémoire et des Affaires Culturelles de la Préfecture de Police – 25-27, rue Baudin au Pré-Saint-Gervais – Hoche
– Paris.
12
Na medida em que incluía entre os seus princípios a ideia de que os fenômenos vividos
e descritos pelos pacientes eram automáticos, mecânicos e deflagrados por uma lesão cerebral
e irritativa, Clérambault parecia tentar romper com os princípios da hereditariedade-
degenerescência de Morel, ao mesmo tempo em que se mantinha convicto e firme na sua
proposta organicista, tendo se tornado um dos poucos psiquiatras de sua geração a não acolher
e a não se deixar influenciar pela proposta freudiana. “A organização automática é um resultado
natural da própria constituição cerebral” (Clérambault, 1926/1942, p. 560, grifo do autor).
Com obstinação, defendia que todos os fenômenos apresentados e vividos pelos pacientes como
estranhos deveriam ser considerados como automáticos, mecânicos e consequentes a alguma
lesão cerebral irritativa. E acrescentou que essas lesões cerebrais produziam efeitos diferentes
de acordo com a idade na qual atingisse os indivíduos doentes. Essa afirmação possibilitou a
elaboração e a composição das clássicas leis da idade postuladas por Clérambault (Beauchesne,
1989).
Foi nessa perspectiva organicista da doença mental que ele desenvolveu o seu conceito
de Automatismo Mental, cuja síndrome era constituída por uma série de sintomas que surgiam
fora do campo da consciência do paciente e sobre os quais, mais tardiamente, iria se sobrepor
alguma espécie de delírio. Era, portanto, um fenômeno estranho ao sujeito o qual, uma vez
surgido de maneira brusca, seu psiquismo deveria se adaptar ou mesmo, reagir. Em sua Oeuvre
Psychiatrique, Clérambault afirmou que o Automatismo Mental era a base e a forma inicial de
todas as psicoses alucinatórias crônicas e que a sua causa era de ordem histológica. “A excitação
e o automatismo são então função de uma mesma causa histológica” (Clérambault, 1925/1942,
p. 536, grifo do autor).
O desenvolvimento do conceito de Automatismo Mental de Clérambault gerou e ainda
costuma gerar muita confusão com o conceito de Automatismo Psicológico de Pierre Janet
(1859-1947). De acordo com Roudinesco & Plon (1998), o automatismo de Janet foi
apresentado em sua obra intitulada O automatismo psicológico (1889) como sendo interno à
consciência e ter uma relação estreita com a história pessoal e com o estado psicológico do
paciente. Nessa obra, Janet utilizou-se da palavra inconsciente para fazer referência a uma
atividade que se localizava abaixo da consciência. Porém, quatro anos mais tarde, em État
mental des hystériques: Les stigmates mentaux (1893), ele a substituiu definitivamente pelo
termo subconsciente.
As discussões em torno dos conceitos de Automatismo Mental de Clérambault e
Automatismo Psicológico de Pierre Janet, apesar das inúmeras diferenças em suas concepções,
tenderam a açular ainda mais o debate na História da Psiquiatria, já antigo nos domínios da
história intelectual, entre as correntes ligadas à oposição Internalismo X Externalismo. A
distinção entre essas duas correntes não é tão complicada e difere, sobretudo, quanto a
suficiência da condição interna para a justificação. Ambas as correntes compartilham da ideia
quanto a importância dos fatores internos para a justificação. Entretanto, para os Internalistas,
a justificação é determinada por alguma condição interna do indivíduo. Para esses teóricos, os
fatores internos são suficientes e necessários para garantir a justificação do indivíduo. Ao
contrário, os Externalistas negam essa suficiência e afirmam que alguma coisa externa exerça
um papel preponderante para a justificação (Wallace & Gach, 2008).
Apesar de ter sido considerado como um clínico que tenha exercido influência sobre
vários psiquiatras de sua época, após a sua morte trágica em 1934, Clérambault, de certa forma,
caiu no esquecimento daqueles que imediatamente o sucederam, retornando de maneira mais
expressiva às citações do mundo acadêmico somente após ter sido reverenciado por Jacques
Lacan, em 1966, como seu único mestre em psiquiatria (Lacan, 1988b). Jacques Alain Miller,
14
história de suas contribuições pudesse se perder na contemporaneidade e muito menos que por
ela viesse a ser deturpada. Nessa perspectiva, empenhou-se para que nessa tese fosse mantido
o compromisso ético de trabalhar com os instrumentos que o guiavam em seu tempo, ou seja,
as concepções organicistas e mecanicistas utilizadas para a elucidação e a construção de sua
particular compreensão sobre a psicose. Estimulado pelas leituras atuais com os seus
presentismos, acreditou-se que essa via pudesse ser a melhor maneira de conhecer a natureza
de suas ideias e legitimá-las na história do saber psiquiátrico. “O método histórico preenche os
vazios dos fatos e acontecimentos, apoiando-se em um tempo, mesmo que artificialmente
reconstruído, que assegura a percepção da continuidade e do entrelaçamento dos fenômenos”
(Lakatos & Marconi, 2003, p. 107).
b) Justificativa e metodologia
2
Mesmo assim, um número razoável de registros pode ser acessado, desde que o interessado tenha
preenchido os formulários exigidos para a obtenção de uma autorização (dérogation) que será fornecida por
um profissional responsável pelos Arquivos da Prefeitura de Polícia. Para que essa autorização seja concedida,
além do preenchimento dos formulários com a identificação do interessado, a motivação de solicitação para o
acesso deve ser escrita de forma detalhada e comprovada. Na sala de acesso ao material – sala de leitura – só é
permitido portar folhas de papel, lápis e um notebook para a colheita dos dados contidos nos registros e é
terminantemente proibido fotografar quaisquer documentos e publicar os nomes dos pacientes.
17
c) Estrutura do trabalho
Considerando que vários aspectos de sua vida foram essenciais, não somente para que
a sua produção teórica, mas principalmente para que o nome de Clérambault não fosse
injustamente sepultado, o primeiro capítulo dessa tese será dedicado a tentativa de fazer um
inventário sobre seu estilo de vida e a influência que ele possa ter exercido sobre o seu trabalho.
18
3
Um estudo de Maurel (1993) revelou que era esperado encontrar uma variedade muito grande de
neologismos na obra deixada por Clérambault, entretanto, após a realização de um exame mais minucioso de
sua parte, ele se mostrou disposto a rever essa afirmação e que ele considerou como sendo um preconceito.
Nessa pesquisa, ele se dispôs a considerar os chamados neologismos legítimos. Seriam aqueles considerados
normais e comuns na linguagem científica. Citou, como exemplo, os termos hiphéphilie (que poderia ser
compreendido como uma busca erótica pelos tecidos) e aptophilie (o gozo pelo toque), ambos encontrados em
seu artigo Passion Érotique des Étoffes Chez la Femme, de 1908. Citou também o termo genérico délusion, que
era um termo utilizado pelos psiquiatras ingleses para descrever fenômenos que se assemelhassem à ilusão,
19
proporcionar uma maior deferência às suas observações. Em alguns casos e em situações muito
especiais, foram propostas traduções que estão aqui expostas através de notas de rodapé.
Sua Oeuvre Psychiatrique4, originalmente publicada em 1942, foi compilada em dois
volumes, contendo aproximadamente oitocentos e cinquenta páginas. Foi dividida em sete
partes composta de textos eminentemente psiquiátricos e, ao fim, uma publicação póstuma, In
Memoriam, correspondendo a um texto de sua autoria e intitulado Souvenirs d’un médecin
opéré de la catarate5. A primeira parte foi dedicada aos Delírios Coletivos e Associações dos
Alienados; a segunda, às Psicoses Tóxicas e os Transtornos Mentais nas Intoxicações Crônicas;
a terceira parte dedicada à Epilepsia; a quarta, às Psicoses Passionais; a quinta, ao Automatismo
Mental; a sexta às Questões Psiquiátricas Diversas e, a sétima, à Administração, Legislação e
Assistência.
No capítulo final, a título de conclusão, foram utilizados os elementos apresentados ao
longo dos capítulos anteriores em defesa da tese proposta. Questões como as que se seguem,
necessitarão de uma reflexão mais aprofundada para serem desveladas, tais como: o trabalho e
todo o empenho realizados por Clérambault teriam sido realmente relevantes para a História da
Psiquiatria? Por que durante um longo período após a sua morte as suas atividades fora do
campo da medicina e da psiquiatria geraram mais interesse e influenciaram de maneira mais
veemente a publicação de trabalhos sobre ele? Tendo sido ele um árduo defensor das
concepções organicistas, o que poderia ter feito Lacan, seu aluno, trinta anos mais tarde, tê-lo
referenciado como seu único mestre em psiquiatria, quando o mesmo já havia se decidido por
outras correntes de pensamento a respeito das origens da loucura? Os trabalhos que surgiram e
continuam a suscitar profundas discussões no campo psicanalítico sobre o Automatismo Mental
consistem, de fato, em desvios das ideias originais de Clérambault? Teria havido algum exagero
ou uma reação desproporcional ante o testemunho de Jacques Lacan sobre Clérambault e que
possa ter gerado essa avalanche de produções acadêmicas no campo lacaniano com os temas
abordados em sua obra?
“intermediário entre o simples distúrbio da percepção e a total alucinação”. Segundo Clérambault, esse termo
“tem a vantagem de não prejulgar nada quanto à natureza íntima do erro” (Clérambault, 1907/1942, p. 119).
Além dessas inovações, continua Maurel, outros neologismos “menos lícitos” e que não são encorados no
Littré, não deixaram de ser usados por Clérambault com objetivos de “colorir” os seus escritos. É o caso, por
exemplo, do termo pégétique (encontrado na página 568 de sua Oeuvre Psychiatrique) e que pode ter sido um
termo utilizado no início do século XX, nos quartos de plantão, para fazer referência aos portadores do
Treponema pallidum.
4
Publicada originalmente no singular e distribuída em dois volumes. Em 1998 houve uma reedição dessa obra
em um único volume e com o título no plural, Oeuvres Psychiatriques.
5
Lembranças de um médico operado de catarata.
20
Para que todas essas questões pudessem ser respondidas, tornou-se de fundamental
importância que o movimento de pesquisa à documentação original disponível a seu respeito
fosse realizado.
Certa vez, ao denunciar os desvios cometidos por uma geração de psicanalistas em
relação ao legado freudiano, Lacan propôs que fosse feito um retorno à Freud a partir da leitura
de seus originais, sobretudo na perspectiva de sua fundamentação ética (Lacan, 1988a). Diante
da possibilidade de ter ocorrido o mesmo em relação às leituras realizadas com a obra de
Clérambault, não seria pertinente que o mesmo movimento pudesse também ser feito aqui? A
terminologia por ele utilizada em seu tempo, expressada, muitas vezes, pelos termos
inconsciente, estrutura e superestrutura, deveria ser interpretada na mesma ótica de como
passou a ser efetivamente abordada pelo mundo acadêmico depois de sua morte? Ou essa leitura
poderia se constituir num absurdo, do ponto de vista historiográfico?
Todas essas questões, no seu conjunto, construíram o objeto dessa pesquisa e estarão, a
partir de agora, focalizadas nesse trabalho.
21
Roudinesco & Plon (1988) descreveram Clérambault como tendo sido um sujeito
“misógino obstinado, conservador, hostil ao freudismo e ao surrealismo, na condição de
médico-chefe da Enfermaria especial dos alienados da polícia de Paris, foi o guardião daquilo
que se chamava na época de constitucionalismo” (p. 120). Clérambault compreendia e defendia
que a origem da doença mental deveria ser sustentada por seu substrato orgânico sendo,
portanto, de natureza constitucional e hereditária. Apesar de suas posições, elas não o
impediram de se tornar uma referência para a psiquiatria francesa no período compreendido
entre as duas grandes guerras mundiais, período este que foi marcado pela ascensão e
acolhimento das formulações teóricas de Sigmund Freud (1856-1939) e de Eugen Bleuler
(1857-1939) nas áreas da psicologia e da psiquiatria.
Entre as várias referências encontradas a respeito do temperamento de Clérambault,
muitas vezes antagônicas e paradoxais, a palavra anacronismo, talvez seja uma daquelas que
mais se repete, não apenas relacionada ao seu perfil, mas também nas alusões feitas à sua obra,
registrada pelos trabalhos acadêmicos dos mais variados autores. Além de Bercherie, essa
caracterização pode ser identificada, por exemplo, quando citado por ter sido “anacrônico por
seu classicismo inveterado” (González, & Martínez, 1999, p. 457) ou ainda, para realçar as
convergências encontradas no homem e no profissional como “a de um curioso anacronismo, o
que foi apenas um ingrediente a mais do seu estilo excêntrico” (Barreto, 2012, p. 2).
Acreditamos que grande parte dessa silhueta lhe foi retratada pelas suas fortes posições
em defesa do mecanicismo num tempo em que essa teoria filosófica cedia espaço, cada vez
maior, para as teorias psicogênicas explicativas sobre o adoecer mental. Mesmo entre os
adeptos do organicismo, esse modelo já vinha recebendo críticas e sendo substituído por outras
correntes do pensamento como podemos constatar nessa passagem de Henri Ey:
O orgulho que sempre foi demonstrado por Clérambault em relação à sua descendência
direta da mãe de René Descartes (Barreto, 2012), talvez possa também tê-lo influenciado no
elo de fidelidade para com essa corrente do pensamento filosófico e, ao mesmo tempo, ser
22
estendida ao grau de importância que o seu ilustre ascendente conquistou. Afinal, René
Descartes foi considerado o fundador da modernidade filosófica e grande impulsionador do
mecanicismo (Caldeira, 2015).
O mecanicismo pode ser considerado tanto como tendo sido uma concepção filosófica do
mundo ou como um princípio diretivo da pesquisa científica. Como uma concepção filosófica,
fez referência a um sistema de corpos em movimento, ou seja, à existência de uma grande
máquina. Como método científico, foi aplicado tanto na física quanto em outras ciências. Na
física, consistiu na tese de que todos os fenômenos da natureza poderiam encontrar suas
explicações através das leis da mecânica, sendo que a mecânica, enquanto ciência, deva ser
considerada como uma criação relativamente recente. A partir do século XVIII, o mecanicismo
também foi aplicado, enquanto princípio, às outras ciências naturais, entre elas a biologia, a
psicologia e a sociologia, além da medicina. Fora da física, faz-se importante ressaltar que o
mecanicismo teve um caráter bem menos rigoroso, podendo até mesmo ser considerado como
uma aspiração genérica, uma tese filosófica ou ainda, muito mais como uma exigência genérica
de método do que um instrumento efetivo de explicação (Abbagnano, 1982).
René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês, talvez tenha sido um
dos pensadores que mais influências tenha exercido nos mais variados campos do saber
humano, incluindo-se a medicina. Na quinta parte de seu livro Discurso sobre o Método,
publicado em 1637, Descartes nos apresentou uma teoria sobre o funcionamento animal, mais
especificamente sobre o funcionamento do coração, fazendo uma diferenciação radical sobre
as naturezas do homem e do animal. Quanto ao homem, Descartes considerava que a mente e
o corpo eram elementos separados e que a alma estaria localizada na glândula pineal (Lobato,
& Lobato, 2011). Apesar de possuírem uma complexa engenharia mecânica, para ele os animais
eram autômatos e não possuíam alma como os homens, constatação feita, sobretudo, pela
ausência nos animais de uma linguagem como a humana. O corpo seria então uma máquina
construída por Deus e suas funções dependiam das funções dos órgãos, conforme escreveu,
O que não parecerá de modo algum estranho aos que, sabendo quantos
autômatos diferentes, ou máquinas que se movem, o engenho dos homens pode
fazer só empregando muito poucas peças, em comparação com a grande
quantidade de ossos, músculos, nervos, artérias, veias, e todas as demais partes
que há no corpo de cada animal, considerarão esse corpo uma máquina que, feita
23
prova que não o têm, é que é a natureza que neles opera de acordo com a
disposição de seus órgãos, assim como se vê que um relógio, composto apenas
de rodas e de molas, pode contar as horas e medir o tempo com muito mais
exatidão que nós, com toda a nossa prudência. (Descartes, 1637/2001, pp. 65-
66).
Suponho que o corpo não seja outra coisa que não uma estátua ou uma máquina
de terra que Deus forma deliberadamente para torná-la o mais semelhante
possível a nós; de modo que ele lhe dá exteriormente a cor e a configuração de
nossos membros, mas também coloca em seu exterior as peças que são
necessárias para fazer com que ela ande, coma, respire e, enfim, imite todas as
nossas funções que se imaginam proceder da matéria e só dependa da disposição
dos órgãos (Descartes, 1648/2002, p. 4).
Assim, na perspectiva cartesiana, o homem seria composto por duas substâncias, o res
cogitans, ou seja, a mente, e pelo res extensa, a matéria – o corpo – que possui extensão. Era a
partir da substância pensante – res cogitans – que surgiam a consciência, a moral e a própria
imortalidade. O res extensa era, para Descartes, o conjunto de órgãos que interagiriam entre si
6
Ernst Haeckel (1834-1919), médico e filósofo alemão, em 1904, compreendeu e justificou essa concepção
dualista de Descartes, considerando que o mesmo tenha sido aluno dos jesuítas, entretanto, fez severas críticas
aos fisiologistas e psiquiatras que ainda a defenderam em sua época. (Haeckel, 1904, p. 17, apud Frezzatti Jr.,
2003, pp. 448-449)
24
de forma mecânica, sendo por isso uma máquina autônoma e da qual o cérebro faria parte. Esse
dualismo fundamentava a tradição mecanicista e submetia às leis da causa-efeito, não apenas o
corpo, mas também a vida mental. Como doutrina herdeira do mecanicismo cartesiano, surgiu
o Naturalismo, segundo o qual a saúde seria definida de acordo com os seus critérios objetivos,
mensuráveis e previsíveis estabelecidos pelas ciências da natureza. Nessa perspectiva
naturalista, ser saudável significaria estar dentro dos valores biológicos padronizados. O
desenvolvimento do Naturalismo dominou as ciências da mente, sobretudo no século XX e
nesse contexto a medicina começou a validar e a agrupar os sinais patognomônicos com suas
características mecanicistas, para somente mais tarde realizar sua transposição para as
explicações psíquicas. Nesse contexto, surgiu a obra de Julien de La Mettrie7 (1709-1751)
intitulada O homem-máquina (1748) que representou e organizou toda a epistemologia
naturalista da modernidade. Nela, a ideia fundamental era a de que o homem – corpo e espírito
– pudesse ser explicado de acordo com o mecanicismo material (Caldeira, 2015).
Durante um episódio febril, La Mettrie observou que o seu próprio corpo sofria um
aumento da circulação. Essa observação o levou a concluir que os efeitos psíquicos poderiam
ser explicados pelas alterações orgânicas no cérebro e no sistema nervoso, contrariando a crença
vigente em sua época de que era a ação da alma que controlava o corpo. Essa conclusão
propunha então fazer uma reflexão do homem como uma substância material e não mais como
a alma sendo responsável pelos fenômenos psíquicos e pelo comando do corpo. Ele criticou
então a teoria cartesiana do homem como res cogitans e não somente aceitou como também se
aproveitou da teoria do res extensa (Fernandes, 2014).
La Mettrie foi um dos primeiros escritores a escrever sobre o materialismo na era do
iluminismo. Estabeleceu uma ligação entre a teoria mecanicista da vida e a crença de que a
própria matéria tinha sensações e sentimentos. Com a sua obra de 1748, desenvolveu, então, o
conceito mecanicista do ser humano através de seus estudos sobre o corpo e a alma do homem.
Colocando em dúvida a própria existência divina, fez uma redução materialista da alma
humana, permitindo-lhe fazer uma comparação entre o corpo-máquina e a máquina do tempo,
esta última representada pela mecânica do relógio. A diferença é que o relógio tinha seus
mecanismos de acionamento e de controle no exterior enquanto que esses mecanismos no
homem seriam no interior. La Mettrie “negou a existência da alma, mas, em contrapartida,
animou a matéria do corpo, dotando-a de sentimento” (Sheldrake, 2014, p. 127).
7
Médico e filósofo francês. Foi um dos primeiros escritores da modernidade a escrever sobre o “materialismo-
fisicalismo”.
25
Quanto ao último aspecto, ele o relacionou àquilo que ocorreu com a medicina em geral
em sua concepção de patologia mecanicista, ou seja, a representação das doenças como espécies
totalmente distintas umas das outras. E foi assim que a psiquiatria se orientou também para o
isolamento nosográfico de suas entidades clínicas. Seria, mais ou menos, como imaginar uma
mente dividida em pequenas faculdades especiais e um processo cerebral, mecanicamente,
26
Gaëtan Gatian de Clérambault8 talvez tenha sido um dos últimos grandes representantes
da psiquiatria clássica9 integralmente influenciado pelo pensamento mecanicista. Foi citado por
Henri Ey (2006b) como tendo sido um “doutrinário mecanicista” (p. 89).
Nascido em Bourges, França, em 02 de julho de 1872 e falecido em Malakoff, França,
em 17 de novembro de 1934, “foi o clínico francês mais brilhante dos anos 1920-1930”
(Roudinesco & Plon, 1988, p. 120), apesar de ter permanecido alheio às citações dos grandes
nomes da psiquiatria mundial nos anos posteriores à sua morte.
Clérambault muito se orgulhava de ser descendente de Vigny, pelo lado materno, e de
Descartes, pelo lado paterno. Sua bisavó paterna, Henriette de Marsay, era filha de Catherine
Vidart de la Ferraudières, cujo trisavô, Claude Brochard, era irmão da mãe de Descartes. Seu
avô materno era filho de uma prima10 de Alfred de Vigny (Renard, 1992).
Ainda segundo Renard (1992), desde a metade de seu segundo ano de vida Clérambault
já se exprimia numa linguagem perfeita e suplicava à sua mãe que lhe ensinasse a ler. Em pouco
tempo, demonstrava saber todas as letras e os números. Aos seis anos de idade, ele surpreendeu
sua mãe escrevendo uma carta para sua avó, fato que a fez sentir-se extremamente orgulhosa
por sequer pensar, naquele momento, que seu filho já estivesse capacitado para a escrita.
Clérambault teve uma saúde muito delicada durante toda a sua primeira infância, tendo
apresentado amigdalites frequentes, rubéola, coqueluche, escarlatina, bronquite, doenças essas
que frequentemente o levavam ao seu médico. Recebeu durante toda a sua infância e
adolescência uma educação profundamente religiosa e católica, tendo tido uma participação
ativa na igreja frequentada pela família.
8
Gaëtan Gatian de Clérambault, a partir de agora, será referido apenas como Clérambault.
9
Considera-se psiquiatria clássica aquela compreendida no período marcado pelos trabalhos de Pinel (1745-
1826) aos de Clérambault, representando a escola francesa, e de Griesinger (1817-1868) a Kraepelin (1856-
1925), representando a escola de língua alemã (Barreto, 2012).
10
No original, descrito como cousine germaine. Termo que define uma prima nascida do irmão ou da irmã do
pai ou da mãe, tendo então com ela uma avó ou um avô comum. No Brasil, muitas vezes referido como “prima-
primeira”.
27
Terminado seu curso colegial, não percebeu em si nenhuma vocação muito clara sobre
qual profissão seguir. Sentia-se apaixonado pela literatura, escrevia versos, interessava-se pela
música, pintura, tendo, por isso, frequentado durante dois anos os cursos da Escola de Artes
Decorativas, cujos trabalhos foram merecedores de vários elogios por parte de amigos com
quem conviveu neste período, sobretudo pelos seus desenhos e pela circunspeção no uso das
cores e formas. Era reconhecido por ter sido um admirável crítico de arte.
Não deu continuidade aos seus estudos de desenho e, sob a influência de seu pai, por
quem nutria uma grande admiração, iniciou seus estudos de direito. Após o término de seu curso
de direito, surgiu a sua verdadeira vocação e como ela não estava relacionada ao curso recém-
concluído, temia comunicá-la ao seu pai e, por consequência, ofendê-lo. Entretanto, a sua nova
decisão de cursar a medicina foi muito bem recebida pelos seus pais.
Clérambault era um homem conservador, hostil ao freudismo e ao surrealismo. “As
críticas ao alienismo policial tiveram, além disso, um papel destacado nos escritos dos
surrealistas; sem ser diretamente mencionada, a figura prepotente de Clérambault prestou-se
como nenhuma outra a tais propósitos” (Álvarez, 2012, p. 29).
André Breton (1896-1966), escritor e poeta francês e que teria iniciado o seu curso de
medicina, sem entusiasmo, sob pressão de sua família. Teórico do Surrealismo, publicou em
1928 a novela Nadja, uma das obras mais representativas do Surrealismo. A internação da
jovem Nadja em um manicômio psiquiátrico, narrada no final da obra, avivou ainda mais a fúria
dos surrealistas contra os alienistas considerados repressores (Bogousslavsky, 2013).
Em 1898, Clérambault foi nomeado interno nos Asiles de la Seine, com Capgras e
outros, e, em outubro de 1899, defendeu sua tese sobre l’Othématome11. Nos anos de 1902 e
1903, cursou a sua residência em psiquiatria na Enfermaria especial da Chefatura de Polícia de
Paris – o Dépot de Police12. Em 1905 foi nomeado para trabalhar com médico-adjunto nesse
11
Trata-se de um hematoma, uma bolsa de sangue e/ou soro na parte côncava ou convexa do pavilhão
auricular. Sua tese de doutorado em medicina versava sobre as lesões nos ouvidos dos alienados.
12 Foi criado em 1850 e batizado com o nome de “Depósito”. Essa “prisão” confinava as pessoas recolhidas pela
polícia das ruas parisienses que na sua maioria eram estrangeiros que mal falavam o francês, jovens sem
domicílio, vagabundos, lunáticos, pessoas com comportamentos suicidas, prostitutas, doentes e alienados que
perturbavam a ordem social. Foi criado de acordo com o artigo 24 da Lei de 30 de junho de 1838 segundo o
qual os alienados não poderiam ser misturados com os presos condenados, nem com aqueles aprisionados
preventivamente. Dessa forma, o prefeito de polícia Valentin, anunciou através de uma circular de 01 de
outubro de 1871, a criação da Enfermaria especial. A partir de então, foi dotada de um pessoal especializado,
28
mesmo serviço (Tadeu, 2012). Nessa ocasião, o Dépôt era chefiado pelo Dr. Paul Garnier
(1848-1905), personagem reverenciado por Clérambault em várias passagens como “meu
mestre” (Clérambault, 1923/1942k, p. 427), “nosso venerado mestre” (Clérambault, 1907/1942,
p. 125), “nosso mestre” (Clérambault, 1910/1942, p. 237) ou ainda “saudoso mestre”
(Clérambault, 1907/1942, p. 109). Garnier faleceu em 1905 e foi sucedido na chefia do Dépôt
por Ernest Dupré (1862-1921). Clérambault trabalhou como médico-adjunto de Dupré durante
mais de quinze anos.
No ano de 1920, após a morte de Dupré, Clérambault assumiu o posto de médico-chefe
do Dépôt, período no qual começaram a aparecer também suas principais publicações sobre a
Erotomania e sobre o Automatismo Mental. Durante todo o período em que desenvolveu seus
trabalhos neste serviço, Clérambault redigiu vários certificados (laudos) de internação que se
tornaram célebres entre os alienistas pela redação concisa e precisa de seus registros clínicos,
influenciando gerações de psiquiatras franceses:
As descrições contidas em seus certificados a respeito dos delírios tóxicos fizeram com
que Guiraud afirmasse em seu prefácio às Oeuvres que as mesmas constituíam um “verdadeiro
tratado clínico completo de um estudo comparado de todos os tipos de embriaguez” (Guiraud,
1942, p. VI).
Toda a obra psiquiátrica de Clérambault esteve diretamente relacionada aos seus
trabalhos desenvolvidos nas dependências da Enfermaria especial. Os pacientes ali
depositados, depois de examinados poderiam ser conduzidos à prisão, liberados ou serem
encaminhados para algum dos hospitais psiquiátricos de Paris. Esse local de denominação tão
pejorativa – Depósito –, foi palco das atividades profissionais de muitos psiquiatras que por ali
passaram, pesquisaram, construíram e publicaram relevantes trabalhos para a construção do
com a Enfermaria dispondo de onze células para homens e sete para mulheres, sendo que três delas eram
acolchoadas. (Martínez, 1998)
29
saber psiquiátrico. Dessa forma, todos os médicos-chefes da Enfermaria especial forjaram ali
suas obras mais notáveis: Lasègue (1850-1883), o delírio das perseguições, os delírios
alcoólicos e o exibicionismo; Legran du Saulle (1883-1886), as repercussões médico-legais da
paralisia geral; Garnier (1886-1905), os casos de embriaguez patológica; Dupré (1905-1920),
as patologias da imaginação e da emotividade; Clérambault (1905-1934), as intoxicações por
drogas, os delírios coletivos, as psicoses passionais, o Automatismo Mental e a paranoia.
(Álvarez, 2012)
Uma vez que se tratava de uma enfermaria com características muito especiais e que
recebia um público não menos especial, o trabalho ali realizado exigia dos psiquiatras da época
repostas rápidas e uma rotatividade muito grande dos leitos. Por um lado, essas características
colocavam os psiquiatras em contato frequente com o agudo dos quadros e, por outro, a
necessidade de definições mais urgentes nem sempre garantia que os métodos utilizados por
eles fossem aqueles considerados claramente éticos. “Uma relação consubstancial liga as obras
psiquiátricas de todos os médicos chefes da Enfermaria Especial e a velocidade do estilo
inquisitivo13 praticado nas entrevistas dos alienados agudos (intoxicados, alucinados,
perseguidos e agressivos) que ancoravam em suas dependências” (Álvarez, 2012, p. 26).
Apesar do restrito número de leitos existentes na Enfermaria especial, estimou-se que
por lá passavam entre dois mil e quinhentos e três mil pacientes por ano cujos diagnósticos
ainda não tinham sido feitos. Dessa forma, o maior objetivo desse serviço era o da expedição
dos laudos para definir o destino a ser dado aos pacientes e não os seus tratamentos,
propriamente ditos (Martínez, 1998).
Segundo Massara, & Pinto (2010), estima-se que Clérambault tenha expedido mais de
treze mil certificados durante os anos dedicados a este trabalho. Impulsionado pela rápida
necessidade de definição do quadro e motivado em esclarecer aquilo que para ele eram os
mecanismos geradores da psicose, Clérambault, que chefiou a Enfermaria especial de 1920 a
1934, gostava de se antecipar a qualquer um de seus colaboradores, sendo o primeiro a examinar
os pacientes – os chamados présumés14. Foi muito admirado, mas também muito criticado pelo
seu estilo de abordar os pacientes, pela forma como conduzia seus interrogatórios, de modo
que, mais do que perguntar e escutá-los, suas entrevistas eram caracterizadas pela manobra de
seus pacientes e por incitá-los (Pacheco y Rahmani, 2016). Sobre essa maneira de manejar os
13
Esse estilo que era próprio de Clérambault na condução das entrevistas de seus pacientes, caracterizava-se
por, mais do que escutar os doentes com brandura, em manejá-los, manobrá-los (Álvarez, 1998).
14
Présumés eram os ingressos na Enfermaria cuja alienação não tinha ainda sido autenticada pelo certificado
médico.
30
doentes, o próprio Clérambault afirmava que “tais enfermos não devem ser interrogados, mas
manejados, e para manejá-los existe apenas um meio: desconcertá-los” (Clérambault,
1921/1942c, p. 369).
A apresentação de doentes foi uma prática que marcou a história da psiquiatria francesa
e que provavelmente tenha sido iniciada por Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), em 1817,
através da sua proposta de realização de um curso de clínica das enfermidades mentais nas
dependências da Salpêtrière. (Ferreira, 2007). Essa prática se manteve entre os seus sucessores
e, de certa forma, marcou também os trabalhos de Jean-Martin Charcot (1825-1893) naquele
hospital. Era utilizada como método de investigação do diagnóstico e do prognóstico daqueles
quadros considerados difíceis ou raros. Ainda hoje é uma atividade bastante utilizada, sobretudo
pela psicanálise e depois de ter recebido uma renovação por parte de Jacques Lacan.
Clérambault também foi um psiquiatra que se manteve fiel a essa prática. No entanto, as
apresentações de doentes que ele sustentava formalmente na Sociedade Clínica de Medicina
Mental possuía uma característica que chamava a atenção e mereceu ser aqui retratada. É que
Clérambault não costumava obter uma autorização prévia de seus pacientes para apresentá-los
em suas sessões clínicas. Além de todas as manobras já admitidas e utilizadas por ele na
obtenção do máximo de informações que os seus pacientes pudessem fornecer acerca de suas
histórias e de suas vivências, certa vez, uma dessas pacientes, lhe respondeu da seguinte forma
ante uma pergunta que lhe fora colocada: “Eu não tenho que responder. Eu não pedi para
comparecer diante destes senhores” (Clérambault, 1921/1942c, p. 353).
Aluno de Clérambault, Jacques Lacan sugeriu através da sua tese de doutoramento, Da
Psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade, ter feito uma crítica velada a essa
forma de conduzir uma entrevista psiquiátrica e que, ao mesmo tempo, pareceu ter sido dirigida
ao próprio Clérambault:
Entre todos os trabalhos deixados por Clérambault, talvez sejam aqueles relacionados
às Psicoses Passionais e a construção do conceito de Automatismo Mental os que mais lhe
31
Durante a primeira guerra mundial, apesar de suas funções médicas lhe permitirem
permanecer em Paris, Clérambault se dispôs a partir para o Marrocos, onde fez parte do
primeiro regimento de marcha da África, tendo combatido sob as ordens do general Pellegrin.
Lutando pela frente do Leste, foi notado pela sua bravura, o que, no entanto, não o impediu de
ter sido ferido duas vezes durante os confrontos em que participou. Pela primeira vez foi ferido
no Marrocos, em 1915 e depois, foi novamente atingido após ter sido enviado para a frente do
Oriente. Durante seu período de recuperação, ele retornou à Fez, onde permaneceu até o ano de
32
1920. Foi nesse período em que ele se dedicou a aprendizagem da língua árabe e iniciou seu
empreendimento fotográfico. “Para melhor compreender e tratar os indígenas que lhe eram
confiados, ele obrigou-se a aprender o árabe” (Renard, 1992, p.43). Armazenou um número
significativo de negativos fotográficos sobre a arte do drapeado marroquino. A partir de suas
observações, ele estabeleceu uma verdadeira codificação segundo o movimento do tecido e a
maneira pela qual ele se fixa ao ombro, ao pescoço, ao tórax ou a cintura. (Bermond, 1994)
As excentricidades de Clérambault e os trabalhos paralelos ao exercício da medicina
realizados durante o curso de sua vida receberam também aqui um destaque simultâneo,
sobretudo pelo fato de que no período consecutivo às primeiras décadas depois de sua morte,
os temas relacionados à essas questões foram os grandes responsáveis por aquilo que o
mantiveram vivo na memória do homem contemporâneo. Trabalhos biográficos e exposições
artísticas evocaram o seu nome em várias oportunidades antes mesmo que a sua redescoberta
como psiquiatra pudesse ter sido instigada por Lacan.
Desde a sua passagem pelo Marrocos, Clérambault se apaixonou pelos drapeados15. Uma
vida solitária, quase totalmente dedicada ao seu trabalho, poucos amigos, celibatário, misógino
e que dividia suas atenções entre o exercício da medicina e a arte. Desde então, mostrou-se
profundamente interessado pelos estudos e a transmissão dos conhecimentos sobre o drapeado
árabe.
Proferiu de maneira sistemática e desprendida de outros interesses, uma série de
conferências sobre esse tema na Escola Superior de Belas Artes de Paris, até ser interrompido
por forças exteriores à sua vontade. Esse seu interesse pela vestimenta árabe e os meios que ele
utilizou para a composição do seu aprendizado durante o período em que permaneceu no
Marrocos, as suas excentricidades e a maneira como exercia as funções de seu trabalho à frente
da Enfermaria especial foram temas de vários comentários, muitos deles nada inocentes,
sobretudo após a sua morte.
Um número incalculável de fotografias foi tirado, revelado e colecionado por ele em sua
residência. Suas fotografias de drapeados marroquinos deram origem a uma abundante e
fantasiosa literatura. Uma lenda multiplicou por sete o número provável de fotografias. Falou-
se de presenças fantasmagóricas, de mortalhas, de erotismo suspeito. Acreditou-se que o doutor
artista, tal como um herói romanesco do século XIX, levava uma vida dupla. (Arnoux, 2012)
15
Trata-se de uma técnica ancestral, muito característica das roupas do Antigo Império Romano e Egípcio,
como uma forma de decoração estrutural. O encanto de Clérambault por esses tecidos contendo dobras ou
pequenas ondulações se deu em seus contatos com o povo marroquino que os trajavam.
33
Tais fotografias foram feitas no Marrocos, nos anos de 1918 e 1919. No ano de 1922,
na Exposição Colonial, em Marselha, no Pavilhão do Marrocos, Clérambault expôs quarenta
dessas fotos, em formato grande. Há informações de que ele teria sido premiado com uma
medalha de ouro. Recebeu, de maneira inesperada, um convite do subsecretário de Estado para
as Belas Artes, Paul Léon, para um ciclo de conferências, na Escola de Belas Artes, sobre o
tema da vestimenta árabe (Arnoux, 2012).
A arquiteta romena, Doina Petrescu, durante uma apresentação feita por ocasião de sua
participação no colóquio Psychanalyse et Espace, em 09 de junho de 2000, com o trabalho
intitulado La théorie folle des voiles, afirmou que Clérambault teria declarado que a sua posição
de médico o autorizava a estabelecer relações com as mulheres árabes, tornando-o capaz de,
por isso, documentar a construção dos trajes drapeados. Pelo fato de ser um médico, um
cuidador e um representante de uma instituição do saber, as mulheres marroquinas lhe
revelavam os seus conhecimentos. (Rajchman, 1998)
Entre 1923 e 1926, Clérambault alternou seu trabalho à frente da Enfermaria especial,
local onde sustentava suas sessões clínicas nas sextas-feiras e a apresentação de doentes nas
segundas-feiras, com uma série de conferências na Escola Normal Superior de Belas Artes de
Paris. Tratava-se, na verdade, de um curso de etnografia e no qual ele dedicava-se,
principalmente, ao estudo sobre o drapeado árabe. As informações que se tem é de que o curso
causava muito interesse entre os seus frequentadores, com o auditório sempre repleto de alunos
durante as suas apresentações. Nelas, Clérambault se apresentava diante de seus ouvintes com
uma mala cheia de bonecas, vestidas com os tecidos, de forma a ilustrar melhor aquilo que tinha
a pretensão de transmitir. (Díez, 2011)
Seu curso ministrado através de uma série de conferências foi interrompido bruscamente
e sem que maiores explicações lhe tivessem sido fornecidas. Ocorreu contra a vontade de
Clérambault, deixando-o profundamente surpreso e decepcionado com essa atitude. Muitas
hipóteses foram levantadas para justificá-la, nenhuma delas comprovada. Tais hipóteses eram
baseadas no fato de Clérambault não ser professor da Escola de Belas Artes e que, pelo seu
sucesso, pudesse estar provocando ciúmes no corpo docente daquela instituição. Também se
levantou a possibilidade de um dia Clérambault demandar sua efetivação para compor este
corpo docente. O curso era gratuito e Clérambault nada recebia para ministrá-lo, nem cogitava
fazê-lo. De toda forma, consequente a interrupção do curso e à falta de justificativa que a
acompanhava, Clérambault escreveu uma carta ao diretor da Escola e nela apresentou toda sua
surpresa e indignação. Alguns trechos desta carta foram reproduzidos por Renard em sua tese
34
16
Souvenirs de médecin opéré de la cataracte.
36
decidiu-se pela segunda cirurgia no dia seguinte. O resultado não foi o esperado e, com o
decorrer do tempo, uma cegueira quase total se instalou (Clérambault, 1935/1942).
Clérambault se suicidou em 17 de novembro de 1934, aos 62 anos de idade. Redigiu, de
próprio punho, o seu testamento e experimentou uma arma no jardim de sua casa, enquanto
pedia a sua criada para que não se assustasse com aquela cena. Feito isso, caminhou em direção
ao seu quarto. Dentro dele, Clérambault dispôs sua poltrona em frente ao espelho, encostando-
a em sua cama que se encontrava logo atrás e disposta no sentido transversal, de maneira a
torná-la mais firme para suportar o impacto que o disparo da arma pudesse provocar, não tendo
como recuar. Assentou-se na poltrona apoiando seu cotovelo sobre o braço da poltrona e
disparou o revólver dentro de sua boca. A bala saiu pelo seu occipital. A morte foi instantânea.
“Um alienista, chefe da casa dos loucos, que se torna louco ele próprio, que se suicida e que na
véspera internava ainda, que notícia de raro interesse para jornalistas ávidos de histórias
pitorescas!” (Renard, 1992, p. 81).
Nas primeiras vinte e quatro horas após a sua morte, a Prefeitura de Polícia a manteve
secreta. Porém, no dia seguinte, jornais e rádios a anunciaram com destaque. A notícia também
se espalhou no meio médico. Através da imprensa, o assunto foi divulgado através de maneiras
desproporcionais e irreconhecíveis. Talvez por sua vida solitária, uma dedicação quase que
exclusiva ao seu trabalho, o ambiente no qual trabalhava e vivia, o seu envolvimento com a arte
e a fotografia, o seleto grupo de amigos que possuía e a maneira comedida como os recebia,
cada um, em sua casa e, ainda, pelas posições que defendia na psiquiatria, possibilitaram que
as fantasias dos jornalistas na transmissão de sua morte ganhassem coloridos inimagináveis.
Elizabeth Renard (1992) apresentou dois aspectos para uma tentativa de compreensão
sobre a morte trágica de Clérambault: um do ponto de vista médico e outro do ponto de vista
humano. Do ponto de vista médico, considerando os dados de sua ansiedade crescente frente às
situações adversas que enfrentava, seu testamento delirante e a precisão de seu ato suicida,
poderiam conduzir ao pensamento no sentido de uma crise melancólica17. Entretanto, enfatizou
ela, seria preciso admitir não se tratar de um caso típico pela ausência de casos psiquiátricos
dessa ordem entre seus ascendentes, sua história pregressa e o fato de ter sido vítima de uma
crise depressiva grave tardia, isolada, única e terminal. Do ponto de vista humano, para ela, a
17
Pelos critérios diagnósticos atuais poderia ser descrita como uma depressão grave com sintomas psicóticos.
37
possibilidade de compreensão seria um pouco mais simples e não lhe parecia constituir-se num
“ato perigoso que a moral deva cobrir de sombra” (p. 74). Lembrou-se de uma prova real que
o próprio Clérambault teria dado através de uma confissão feita a um de seus melhores amigos
em 1919, dizendo-lhe que se ele, um homem que vivia somente para o trabalho e amante da
arte se tornasse cego, nada mais lhe restaria além do suicídio. Nesse mesmo instante, o próprio
Clérambault acrescentava uma interrogação relacionada a esse possível ato no sentido de que,
se somente por causa disso, deveria ele ser considerado como sendo um alienado. Ainda nessa
perspectiva de compreensão, além de sua profunda limitação visual, Clérambault também
convivia com uma severa limitação física, consequência de uma artrite que, além das dores, o
imobilizava por um longo período. Tudo isso não lhe impedia de retomar seu trabalho à frente
da Enfermaria especial, ainda que o fato de se manter de pé lhe fosse extremamente penoso.
Algumas semanas antes de sua morte, ele confidenciava a uma amiga a tristeza de não ter uma
família ou alguém que pudesse preservar aquilo que ele deixaria. Após sua morte, seus bens
foram leiloados em praça pública. Alguns amigos resgataram uma parte e outra encontra-se
compondo o acervo do Museu do Homem, em Paris.
No tocante às suas atividades artísticas, em fevereiro de 1994, foi-lhe concedida a
designação de psiquiatra-fotógrafo através de uma placa em sua homenagem, exposta em uma
praça triangular que recebe o seu nome, no município de Bourges, sua cidade natal (Arnoux,
2012). Mais recentemente, entre os dias 05 e 28 de maio de 2014, na Galerie La Box, em
Bourges, aconteceu uma exposição de suas fotos, tendo o evento sido intitulado Démultiplier –
Les séances de prise de Gaëtan Gatien de Clérambault (Maroc, 1918-1919). Tratava-se de uma
rara exposição, anunciava o folder sobre o evento proposto originalmente pelo crítico e
historiador da arte Antonio Guzmán e que até então nunca fora organizada, tendo por objetivo
mostrar exclusivamente o trabalho fotográfico de Clérambault. Esta exposição, continuava o
anúncio, tinha como proposta, apresentar e reexaminar a seleção de fotografias originais
deixadas por Clérambault, na tentativa de encontrar um equilíbrio póstumo que atrelava sua
imagem, às vezes vinculada a uma heresia, outras vezes hagiográfica18 e que, certamente, essas
fotografias tivessem sido decisivas para o surgimento desse tipo de interpretação, tão ambígua.
18
Hagiografia é uma biografia elogiosa que exprime grande reverência pelo retratado, abordando apenas
aspectos positivos de sua vida e/ou personalidade.
38
concepções estruturalistas de Clérambault, ousam até situá-lo como um homem que tenha
enxergado além de seu tempo. (Barreto, 2012)
É fato que, em suas teorias, Clérambault, por diversas vezes, utilizou-se do termo
estrutura para melhor articular e tentar transmitir as suas ideias. Não obstante, não nos parece
que em nenhuma dessas vezes ele o tenha utilizado no sentido do que, mais tarde, viria se
constituir no movimento estruturalista. Nicola Abbagnano (1982), descreveu os variados
sentidos que a palavra estrutura podia conter. No sentido lógico, dizia ele, admitia-se que duas
relações possuem a mesma estrutura quando ambas estão no mesmo plano. Nesse sentido,
trata-se de um conceito muito geral. Na terminologia marxista, fazia parte da constituição
econômica de uma sociedade. Ou seja, a palavra pode ser usada no sentido de forma, como é
usada no gestaltismo, por exemplo, ou no sentido de sistema, apontando para um conjunto das
relações. Em um sentido mais restrito, estrutura não faz referência a um plano ou a um sistema
qualquer, mas a um plano hierarquicamente ordenado, dotado de uma conexão dinâmica ou
vital. E assim foi utilizada por Dilthey (1833-1911) designando o instrumento explicativo
fundamental que compreendia os mundos humano e histórico. Não obstante, vários autores
utilizaram-se da palavra para indicar as unidades elementares do mundo histórico.
Aproveitando-se dessa conexão dinâmica ou vital, a palavra estrutura foi traduzida por
Spengler (1880-1936) pelo conceito de organismo e neste sentido é frequentemente usada pela
biologia. Abbagnano (1982) finalizou dizendo que
Henri Ey, nos seus Estudos sobre Une Théorie Mécaniciste: La doctrine de G. de
Clérambault, afirmou que “pode-se dizer, com satisfação, que o grau de tendências
mecanicistas de cada um poderia ser medido pela sua atitude de oposição com respeito à noção
totalista de ‘estrutura’”. (Ey, 2006b, p. 84). Entretanto, Jacques Lacan parece não ter apenas
ressuscitado o seu mestre, mas tê-lo colocado, sobretudo através de seus discípulos, como um
dos possíveis precursores da corrente do pensamento estruturalista. Senão vejamos: “Seu
automatismo mental, com sua ideologia mecanicista de metáfora, por certo bastante criticável,
parece-nos em seus enfoques do texto subjetivo, mais próximo do que se pode construir de uma
40
análise estrutural do que qualquer esforço clínico na psiquiatria francesa” (Lacan, 1998b, p.
69).
Skinner (1969) em seu artigo Meaning and Understand in the History of Ideas chamou
a atenção para os vários absurdos históricos decorrentes da ideia de que o valor da história das
ideias residia no fato dos textos clássicos conterem uma sabedoria perene na forma de ideias
universais. Segundo ele, esse pressuposto inevitavelmente leva o historiador das ideias a se
concentrar exclusivamente ou predominantemente no que o texto clássico diz a respeito de um
determinado tema, investigando-o na sua estrutura interna como se o texto tivesse sido escrito
por um autor contemporâneo. Este tipo de leitura constitui uma fonte de equívocos que
compromete seriamente os resultados da investigação histórica, de modo que a história deixa
de ser história e torna-se uma mitologia. Skinner identificou três possíveis resultados
consequentes deste tipo de abordagem focada exclusivamente ou predominantemente na
estrutura interna dos textos: a mitologia da doutrina, a mitologia da coerência e a mitologia
da prolepsis.
A mitologia da doutrina, que é aquela que nos interessa particularmente aqui, consiste,
basicamente, em esperar que “cada autor clássico (na história, digamos, da teoria moral ou
política) deverá anunciar alguma doutrina acerca de cada tópico considerado constitutivo de
sua disciplina” (Skinner, 1969, p. 7). Este tipo de mitologia assume duas formas distintas. Em
primeiro lugar, o historiador contemporâneo corre o risco de converter observações dispersas
feitas por um autor clássico em uma doutrina que o autor original jamais enunciou e jamais
poderia ter tido a intenção de enunciar. Ao privilegiar o estudo de afirmações que, de alguma
maneira, parecem prenunciar doutrinas com as quais esteja familiarizado, o historiador
contemporâneo torna-se particularmente susceptível ao anacronismo, ou seja, à impropriedade
histórica decorrente da atribuição de uma determinada doutrina a um autor que, em sua época,
jamais poderia tê-la formulado. A leitura cuidadosa de um texto clássico possui o seu valor no
trabalho de interpretação das ideias nele contidas, mas não se deve ignorar e tampouco
minimizar a importância do contexto em que tais textos foram escritos.
Um segundo tipo de mitologia que tende a ser gerado consiste na atribuição de uma
consistência absoluta – a mitologia da coerência – às obras de autores clássicos que não foram
totalmente consistentes em apresentar suas ideias ou até mesmo falharam completamente em
dar sistematização às suas crenças. Segundo o autor, “esse tipo de mitologia dá ao pensamento
41
de vários autores clássicos uma coerência e um ar de um sistema fechado que eles nunca podem
ter alcançado ou mesmo aspirado atingir” (Skinner, 1969, p. 17). Para ele, a escrita da filosofia
ética e política está impregnada desse tipo de mitologia. Alguns historiadores chegam a
minimizar ou até mesmo suprimir a importância de algumas afirmações que pareçam
comprometer a coerência de um texto clássico, buscando salvar de qualquer maneira a coerência
entre as ideias do autor que eles chegam a arriscarem-se a sacrificar parte daquilo que o autor
deixou registrado.
Por último, Skinner cita a mitologia da prolepsis, que consiste na união de dois textos
diferentes formando um único texto de forma que o autor possa encontrar em uma afirmação
ou em uma ação a justificativa para outra ação ou para o significado desta ação em si. Este tipo
de abordagem pode terminar por negligenciar o que o autor da obra teria tido realmente a
intenção de dizer. Um dos exemplos citados por Skinner foi o de considerar as visões políticas
de Platão em A República como as de um “totalitário político do partido” (Popper, 1962 como
citado em Skinner, 1969, p. 23).
Foi particularmente na perspectiva da mitologia da doutrina que a obra psiquiátrica de
Clérambault reapareceu no mundo acadêmico. As produções acadêmicas encontradas no campo
da psicanálise – e que somam, na verdade, a quase totalidade das produções acadêmicas
publicadas após a sua morte –, na maioria das vezes, costumam utilizar de descrições, termos e
até mesmo das síndromes estudadas e publicadas por Clérambault de maneira a reservá-lo um
lugar totalmente diferente daquele que ocupou de fato na História da Psiquiatria, atribuindo-
lhe, muitas vezes, concepções para a compreensão dos processos mentais que jamais defendeu.
Até mesmo as circunstâncias nas quais sua morte aconteceu, reservaram-lhe uma leitura
psicanalítica feita por Álvarez & Estévez (1999), por meio de um artigo, a propósito muito
respeitoso, intitulado Ultimo lamento de Clérambault. A partir de um suposto quadro de
melancolia, uma leitura freudiana foi realizada nesse artigo, tendo-se por base o trabalho de
Freud de 1917 intitulado Luto e Melancolia e uma referência de Lacan à sua teoria sobre o
Nome-do-Pai. Para isso, eles buscaram em sua história familiar o sofrimento ao qual
Clérambault sucumbiu após a perda de sua irmã mais velha, Marie, quando tinha apenas cinco
anos de idade e por quem alimentava um sentimento muito nobre. Como consequência dessa
perda, vivenciando seu luto, Clérambault produziu uma série de sintomas tais como,
perturbações da visão, vômitos, desconfortos estomacais e fadiga. Após a morte de Marie,
quando tinha oito anos de idade, nasceu Roger, aquele com quem seria obrigado a conviver e
com quem nunca tivera um bom relacionamento. Veio como um intruso a ocupar o lugar de
Marie e dividir com ele o lugar que até então era o seu de filho único. Muitas vezes vestido pela
42
mãe como se fosse uma menina – conforme as fotografias –, estes autores sustentaram ainda
que seria plausível pensar na figura de Roger como representante do lugar da ambivalência.
Destarte, acreditaram também que tal fato pudesse explicar a misoginia que viria a se manifestar
na vida adulta de Clérambault. Roger morreu em 1933, sem deixar herdeiros, um ano antes de
Clérambault ter-se suicidado. Álvarez & Estévez, nesse mesmo artigo, fizeram uma citação
relevante e que fora pronunciada por Elisabeth Renard (1992), em sua tese de doutoramento,
de que após o falecimento do seu irmão e já mergulhado no sofrimento provocado pelas suas
perdas físicas, Clérambault teria feito uma confissão a uma amiga, Mlle. H., de que se sentia
muito triste pelo fato de não ter uma família ou alguém que pudesse preservar tudo aquilo que
deixaria para trás. Segundo os autores, Clérambault teve o seu sentimento de culpa exacerbado
pelo fato dele mesmo ter sido o responsável pela sua escolha celibatária enquanto que o seu
irmão Roger, um homem casado, morria sem descendentes por algo que lhe escapava a
responsabilidade, ou seja, a sua infertilidade. Clérambault, então, era o único responsável pela
inexistência futura de um outro Gatian de Clérambault no mundo.
Desse objeto tão valioso fala o seu testamento. Parece-nos que a única falta de
sua vida foi ter recebido uma sucessão muito antiga – proveniente das memórias
de seu pai e de sua mãe – e que ele não conseguiu restaurá-la, anulando assim a
reputação de uma vida inteira (González & Martínez, 1999, p. 462).
Num terreno em que as concepções psicanalíticas sobre a etiologia psíquica das doenças
mentais ganhavam força e influenciavam sobremaneira e de forma cada vez mais abrangente a
psiquiatria do início do século XX, Clérambault se estabelecia como um psiquiatra que
absolutamente não se deixava influenciar por essa corrente. Suas rígidas posições organicistas
e a convicção de fazer uma psiquiatria biológica que fugisse da ideia de degeneração através da
concepção mecanicista, não apenas sinalizava Clérambault como um psiquiatra ultrapassado
para o seu tempo, mas, sobretudo, pode ter justificado o ostracismo no qual caiu depois de sua
morte. Todas essas circunstâncias parecem ter constituído o cenário para que Clérambault fosse,
portanto, esquecido das citações psiquiátricas posteriores e o seu nome tenha sido mais evocado
pelas suas excentricidades. Todo esse panorama fez com que surgissem sobre ele, então,
trabalhos muito mais de cunho biográfico do que propriamente sobre a sua obra. Henri Ey talvez
tenha sido, entre os seus sucessores na escola da psiquiatria francesa, aquele que tenha
demonstrado um maior interesse pela sua teoria, citando-o com bastante frequência. Henri Ey
pode ter-se interessado por Clérambault, sobretudo, pela afinidade com a sua concepção
organicista. Adepto do organicismo, mas crítico do mecanicismo, Henri Ey buscou no
dinamismo de Jackson a sustentabilidade para suas concepções organogênicas, mais modernas
e atuais do que aquelas defendidas por Clérambault, apresentando assim o caminho que
acreditava ser aquele que a psiquiatria deveria seguir. (Ey, 2006a). Numa frente de oposição às
fortes tendências psicológicas que dominavam a psiquiatria da época, conviveu-se, naquele
momento, com duas maneiras diferentes de tentar salvar a psiquiatria organicista: uma delas
seria a de Clérambault, já considerada ultrapassada, que procurava separar a psiquiatria
organicista da ideia de degeneração, mas pela via do mecanicismo, e a outra que seria através
das tentativas de procurar avançar um pouco mais, utilizando-se dos fundamentos jacksonianos
na direção de uma psiquiatria organicista, não mecanicista e dinamista, sustentada por Henri
Ey. Numa crítica ao mecanicismo de Clérambault, mas sem abrir mão das suas convicções
organicistas, enfatizou:
2 As Psicoses Tóxicas
É na conjuntura dessa matéria que Clérambault nos deixa como legado um artigo
original em 1907, uma intervenção, uma apresentação de paciente e uma comunicação em 1911
45
sobre o alcoolismo. Sobre o Cloral ele escreveu um extenso artigo em 1909 e no ano seguinte,
em 1910, um artigo original sobre o éter.
No contexto das manifestações psicóticas apresentadas pelos alcoolistas, existem
algumas de suas descrições que facilmente poderão ser aqui reconhecidas como inéditas.
Quanto aos seus trabalhos envolvendo aqueles pacientes atendidos em decorrência de suas
trajetórias relacionadas ao consumo e ao abuso do cloral e do éter, os destaques deverão ser
creditados às suas descrições singulares e ao rigor com o qual Clérambault sempre esteve
comprometido, não somente em relação a definição dos sintomas, mas, especialmente, no
sentido de orientar os examinadores quanto aos possíveis diagnósticos diferenciais cabíveis de
serem estabelecidos. Na tentativa de apresentar uma sequência mais ou menos lógica em relação
às pesquisas que Clérambault realizou em relação a esses quadros, as apresentações aqui
obedecerão a uma cronologia dos trabalhos publicados por Clérambault, inicialmente dirigidas
aos alcoolistas e, na sequência, aos dependentes de cloral e de éter, respectivamente.
2.1 Álcool
Essas três formas patológicas de embriaguez descritas em 1890 por Garnier foram
relembradas mais tarde por Henri Ey (1981) e, a sua descrição, certamente, auxiliou na
compreensão das mesmas. A forma alucinatória era acompanhada pelas alucinações visuais
ou auditivas e que eram caracterizadas, sobretudo, pelo seu aspecto dramático. Nela, o paciente
se encontrava mergulhado em cenas frequentemente trágicas que se mesclavam com a
realidade, como por exemplo, alucinar um flagrante delito de infidelidade. A embriaguez
excito-motora, era vivenciada num raptus19 impulsivo e furioso, às vezes anunciado apenas
por alguns sinais inespecíficos, tais como um mal-estar indefinido, cefaleias, um sentimento de
angústia. Por fim, na embriaguez psíquica – que em seu Manual de Psiquiatria foi descrita
por Henri Ey como embriaguez delirante – predominava a fabulação. Nessa forma, Garnier
descreveu a presença de quatro temas relevantes: a autodenúncia delirante, os temas
megalomaníacos, os temas de ciúme e os temas de perseguição. Foi exatamente sobre a forma
patológica da embriaguez psíquica que Clérambault descreveu a vivência de transformação
da personalidade.
O quadro de Embriaguez Psíquica com Transformação da Personalidade foi definido
como uma convicção apresentada pelo sujeito embriagado de ser uma outra pessoa, de grau
social bem superior ao qual realmente pertencia e, neste estado, cometia atos absurdos, muitas
vezes até mesmo criminosos, no entanto, quase sempre desinteressados, conforme veremos
através de alguns exemplos que serão apresentados na sequência. Tais convicções tinham
pouquíssimas relações com o passado desses indivíduos, duravam enquanto durava o período
de embriaguez e desaparecia com ela. Esses quadros vividos durante esses períodos podiam ser
lembrados pelos pacientes e eles tendiam a repetir, de maneira estereotipada, nos episódios de
embriaguez posteriores (Clérambault, 1907/1942).
Com relação às descrições de normal e anormal retratados nesse trabalho fazendo alusão
aos episódios de embriaguez, Postel (2011) considerou que para ele toda embriaguez deveria
19
Trata-se de um impulso súbito e violento no qual os pacientes psiquiátricos são levados ao delírio, à
mutilação, ao suicídio ou ao homicídio.
47
ser considerada anormal. Henri Ey (1981) sugeriu também, através de seu Manual, ter
compartilhado dessa ideia ao utilizar apenas os epítetos embriaguez comum e embriaguez
patológica como substitutos dos complementos normal e patológico, respectivamente. A
embriaguez comum ocorreria em um indivíduo normal apresentando uma intoxicação alcoólica
aguda em três etapas clínicas caracterizadas inicialmente pela excitação psicomotora, sensação
de euforia, otimismo e facilidades, mas, ao mesmo tempo, apresentando uma diminuição do
autocontrole e da vigilância. Nessa etapa, o quadro foi considerado como o de hipomania. A
seguir, o indivíduo tendia a se tornar incoerente, com seu juízo crítico bastante comprometido
e na presença de perturbações motoras e alterações do humor mais acentuadas. Existia também
uma hipoestesia geral e sensorial. Por fim, o indivíduo caía. Quanto as formas de embriaguez
patológica, seus tipos já foram anteriormente descritos.
Exemplo I: Félix D..., era um paciente com 58 anos de idade, acusado de fraude, motivo pelo
qual foi conduzido ao Dépôt e após transferido para a Enfermaria especial. Considerado débil
de inteligência, alcoolista crônico e que apresentava, sob a influência do álcool associada às
disposições originais anormais, na avaliação de Clérambault, acessos delirantes com
20
A partir desse momento do trabalho, essa categoria diagnóstica poderá também ser referida apenas pela
expressão Embriaguez Psíquica.
48
transformação da personalidade. Esse indivíduo foi preso por utilizar o falso nome de barão de
Rocher. O próprio paciente expunha sua história confirmando que quando estava sob a
influência do álcool, uma curiosa mudança lhe ocorria e que quando retornava a si, sentia-se
bastante surpreso com os fatos dos quais era acusado. Fornecia também garantias de que jamais
havia se beneficiado de qualquer um desses seus atos. Desculpava-se com as alegações de estar
sem teto e sem comida e que por isso ingeria bebida alcoólica para esquecer dessa sua condição.
Afirmava não gostar de beber e que tinha até mesmo nojo da bebida, mas que num único trago
era capaz de ingerir toda a quantidade que se encontrava naquele copo à sua disposição. Após
a ingestão de uma dezena de copos com diferentes tipos de bebidas, transformava-se
repentinamente. Tornava-se rico e literalmente sentia e via sua carteira repleta de dinheiro.
Confiante de si, realizava reservas de caríssimos apartamentos em hotéis de Paris, todos em
nome do barão de Rocher. Já internado e fora de suas crises, Félix D... admitia que tinha
consciência de não poder habitar esses apartamentos e que o seu prazer se limitava à
oportunidade de vê-los. Na avaliação de Clérambault, o paciente não apresentava esse quadro
como consequência única do efeito de seu alcoolismo, mas também “graças a uma falta absoluta
de dignidade e de senso moral” (Clérambault, 1907/1942, p. 96). Absolutamente não o via como
um “homem de bom coração”, expressão utilizada em várias oportunidades pelo próprio
paciente em relação a si mesmo. Ao contrário, pelo fato de ter sido levado mais de trinta vezes
à Enfermaria especial, consequentemente ter sido examinado pela maioria dos alienistas de
Paris, recebeu por parte deles várias descrições que o situava entre os degenerados.
Exemplo II: Paciente Georges F..., 42 anos de idade, que fora encaminhado para a Enfermaria
especial pela delegacia de polícia de Saint-Denis. Na descrição de Clérambault, tratava-se de
um “indivíduo inteligente, alcoolista e desclassificado” (Clérambault, 1907/1942, p. 96). Era
um paciente que se dizia capitão de fragata e como tal, fazia reserva de quartos em vários hotéis
e de maneira totalmente inútil. Georges F... havia entrado na marinha mercante como contador
e depois teria trabalhado como marinheiro. Entretanto, começou a fazer uso de bebidas
alcoólicas aos 22 anos de idade e foi liberado da marinha quando tinha 28 anos. A partir daí,
começou a trabalhar exercendo outras atividades, inclusive dando aulas de francês em
Barcelona. Passou então ao uso habitual de álcool e absinto e, com frequência, se apresentava
bêbado. Entretanto, dizia também que era capaz de apresentar-se sadio, tanto moral quanto
fisicamente. Aos 39 anos de idade, passou a consumir diariamente de quinze a vinte copos de
absinto por dia, além de mais sete ou oito copos de conhaque e vários outros copos das mais
variadas bebidas. Esse panorama fez com que a sua saúde se alterasse e as perturbações
49
alucinações, o paciente não fazer menção a nenhuma ideia de perseguição. Não demonstrou
nenhuma ideia de suicídio, mesmo durante os episódios de embriaguez. Durante sua internação,
foi possível colher a maioria dessas informações com o próprio paciente. Clérambault chamou
a atenção para as semelhanças existentes entre esse caso e o anteriormente descrito, sobretudo
pelas semelhanças encontradas entre os seus protagonistas, ou seja, homens considerados por
ele como tendo características especiais: “desequilibrado congenitamente, alcoolista de longa
data, com mais de 40 anos, definitivamente desclassificado e bebendo, como ele alega, em
grande parte para esquecer” (Clérambault, 1907/1942, p. 100).
Entre as principais semelhanças encontradas nos dois casos anteriormente descritos,
destacaram-se o fato de suas fases prodrômicas terem sido de curta duração e de suas crises
terem sobrevindo de forma súbita. Esses quadros também foram acompanhados em todas as
suas extensões por uma euforia, incompatível com qualquer tipo de violência. As ilusões visuais
adaptaram-se à atmosfera do delírio e as crises terminaram bruscamente, dando lugar a um
estado de confusão e abatimento, sem amnésia para os fatos ocorridos durante as mesmas.
Exemplo III: Paciente Justin N..., 40 anos de idade. Empregado no comércio de seus pais desde
que saiu do colégio aos dezoito anos e meio de idade. Em 1870 apresentou-se como voluntário
para combater na Guerra Franco-Prussiana, na campanha de 1870 e após, em Sedan21
juntamente com os Dragões22. Foi liberado em 1871, mas o clima da revolução o levou a Paris.
Desta vez, foi incorporado arbitrariamente pela Guarda Nacional na qual foi nomeado
subtenente, desde o início. Derrotados, ele abandonou seu uniforme para se esconder. Acolhido
friamente pela sua família, saiu e foi contratado para um compromisso de cinco anos junto aos
hussardos23. Nessa época, Justin N... não estava ingerindo bebidas alcoólicas e, numa discussão
com um companheiro que o ridicularizou por não beber, ao terminar este duelo voltou a beber
excessivamente. Passou a consumir absinto, licor de anis, rum, aguardente, enfim “tudo aquilo
que queima” (Clérambault, 1907/1942, p. 100). Contraiu malária. Foi liberado em 1877. Casou-
se duas vezes pois seu primeiro casamento teve uma breve duração em detrimento da morte de
sua primeira esposa. Frustrações e decepções marcaram os seus negócios assim como o seu
segundo casamento. Ideias de suicídio começaram a lhe surgir e fizeram com que ele voltasse
21
Cidade da França na qual em 01 de setembro de 1870 foi travada a Batalha de Sedan durante a Guerra
franco-prussiana.
22
Um dos dois esquadrões formados durante essa guerra, composto por antigos soldados engajados ou
recolhidos das forças armadas, tendo obtido, então, a denominação extravagante de “Dragões do Norte”
(Guilin, 1872).
23
Hussardo, em francês hussard, refere-se a um soldado de cavalaria ligeira, cujo uniforme se parece com o da
calvalaria húngara (Azevedo, 1988, p. 807).
51
a fazer uso de absinto. Aos trinta e três anos de idade, no curso de uma embriaguez onírica e
com suas piadas megalomaníacas, foi levado para o serviço do Dr. P. Garnier, mas, o seu quadro
foi interpretado como tentativas de golpe e por isso foi condenado à prisão. Ao sair da prisão,
sentiu ter perdido toda sua reputação e não mais voltou a procurar por trabalhos. Devido aos
novos excessos alcoólicos, apresentou nova embriaguez patológica que continuava sendo
interpretada no contexto das trapaçarias e, assim, foi novamente condenado. Assim foi o relato:
“Minha cabeça se perdia, nos diz ele. Minha imaginação estava distorcida.
Cometi meus erros sem qualquer raciocínio, simplesmente pelo efeito de um
abuso do álcool; aliás, nunca cometi violência nem mesmo demonstrei
exaltação; o senhor está vendo que eu mesmo fico surpreso” (Clérambault,
1907/1942, pp. 102-103).
O paciente omite os atos delituosos que o levaram a começar sua confissão. Até que,
num segundo momento, ele resolve dizer:
Além disso, o paciente assumiu ter feito a locação de trinta e sete quartos de diferentes
preços para seus vários camaradas que ainda iriam chegar. Fazia questão de realçar o fato de
que todas as testemunhas ouvidas durante o seu julgamento declararam não lhe terem entregue
nenhuma mercadoria e que ele também não pedia qualquer quantia em dinheiro. Esses fatos o
levavam a sustentar a ideia de não ter causado prejuízo a ninguém e que por isso mesmo se
sentia muito feliz. Utilizava-se dessa desculpa para distingui-lo de um trapaceiro qualquer cujos
atos tinham sempre a intenção de tirar algum tipo de proveito. Por fim, afirmava que todas as
vezes que consumia uma certa quantidade de absinto, voltava a acreditar que ainda era um
militar.
Clérambault descreveu algumas semelhanças psicológicas existentes nos três pacientes
acima descritos, antes mesmo do aparecimento de qualquer atividade delirante:
24
Esse quadro foi definido por Clérambault como sendo o de uma panfobia (panophobie), ou seja, um estado
patológico que se caracteriza por um temor exagerado de todas as coisas.
55
Outro dia, vendo à beira do canal algumas pessoas ociosas, ele imediatamente se
dirige a uma multidão que olhava a água, declara que uma pessoa se afoga,
procura vê-la, indica o lugar onde ele a vê, convida as pessoas para socorrê-la.
Ele mesmo vai salvá-la, mas, não sabendo nadar, ele se inclina sobre a beira
estendendo-lhe o braço. Então, a multidão exclama, admirando sua coragem:
“Este homem é Napoleão!” No começo ele dificilmente pode acreditar, depois
ele o admite e na delegacia ele declara: “Eu sou Napoleão”. Nenhuma amnésia
posterior (Clérambault, 1907/1942, p. 110, grifos do autor).
25
Henri Ey (1981) descreve algumas características consideradas essenciais e presentes no onirismo alcóolico, a
saber: 1) ser um estado alucinatório vivenciado, com o paciente participando inteiramente de seu sonho,
dando-lhe expressão verbal e hipercinética; 2) ser móvel, com as percepções alucinatórias ou ilusórias se
deslocando e, como no sonho, ao recuperar sua lucidez através de algum estímulo, até mesmo criticar esse
estado mórbido; 3) ser geralmente acompanhado por ansiedade. O delírio onírico é normalmente vivenciado
em uma atmosfera de confusão mental.
26
Importante ressaltar que neste momento, Clérambault ainda não tinha formalizado seu conceito de
automatismo mental, como veremos mais adiante nessa tese. Não menos importante é acentuar que Pierre
Janet já havia descrito o seu automatismo com a denominação de automatismo psicológico e não
automatismo mental como aparece nesta citação.
57
Assim, para Clérambault, a transformação que ocorria nos casos considerados não puros
era superficial e transitória e ela não colocaria em jogo os elementos profundos do sujeito tais
como a memória e as suas habilidades. Observou que as ideias concordavam com a euforia,
entretanto elas não se sobrepunham nem ao eu total, nem ao eu parcial, não se identificando,
portanto, com a ordem das ideias preestabelecidas.
27
O termo subconsciente, encontrado em várias passagens da obra de Clérambault, nos parece estar sendo
utilizado conforme era usado, no século XIX, por alguns psicólogos franceses tais como Ribot e Janet, entre
outros, no sentido descritivo de “distingui-lo do inconsciente considerando-o como uma consciência débil ou
diminuída” (Abbagnano, 1982, p. 888).
58
A natureza da megalomania foi analisada por Clérambault no contexto de não ser apenas
uma tendência exclusiva dos pacientes em questão. Para ele, além de uma possível tendência
individual, necessariamente haveria uma combinação com um determinado estado cerebral
associado a uma fórmula tóxica especial. Essa fórmula, ainda que lhe parecesse bastante
misteriosa, não o impediu de articular uma hipótese bastante ousada. A de que ela poderia ser
constituída, em sua maior parte, pelos produtos dos resíduos do organismo, ou seja, pelo estado
de subnutrição dos pacientes, pelos distúrbios morais antecedentes, pelo fato do delírio suceder
as libações e pelas semelhanças apresentadas com a mania e com o onirismo. Em relação à
impregnação tóxica, afirmou:
Ela age como o corante histológico que, em um corte, escolhe alguns elementos,
deixando os outros desapercebidos, estabelece aparências de identidades e de
conexão entre os pontos, às vezes, não idênticos e desconexos; enquanto que um
outro reagente teria dado no mesmo corte outros detalhes e outras relações,
constituindo uma imagem sobreposta por alguns espaços cheios e outros vazios
em relação à primeira (Clérambault 1907/1942, pp. 118-119).
Através desse mecanismo, Clérambault acreditava, não somente no grau de lógica, mas
também no grau de arbitrariedade das eletividades tóxicas exercidas sobre o cérebro dos
pacientes. Mostrou-se convencido de que as lembranças apresentadas tinham uma relação direta
com a impregnação dos tecidos e absolutamente nada com a associação das ideias.
Ele advertiu também sobre a possibilidade de serem encontradas ideias de grandeza em
outros quadros mórbidos como, por exemplo, nos alcoolistas clássicos, nos estados pós-
infecciosos ou auto tóxicos como na escarlatina e na febre tifoide, mas que os mecanismos
explicativos descritos acima não necessariamente se aplicariam às ideias presentes nesses
quadros.
Sem dúvida, pareceu tratar-se de uma crítica dirigida a alguns de seus contemporâneos,
adeptos das explicações psicológicas do delírio, focalizando suas atenções para o seu conteúdo
e não para o mecanismo do delírio, ao contrário do que ele defendia. Clérambault acreditava
que a questão a ser decifrada encontrava-se na origem da euforia e na estereotipia do conjunto
dos detalhes. Esses fenômenos, até então, não encontravam nenhuma explicação psicológica
que pudesse ser considerada conclusiva. Recuperando os mesmos argumentos utilizados pelos
alienistas que o antecederam, Clérambault voltou-se para a sífilis na tentativa de estruturar a
sua defesa: “refletir sobre isso seria imitar o erro dos leigos que querem ver, por exemplo, nas
preocupações anteriores do paciente, a origem de sua megalomania paralítica, enquanto se deve
culpar a sífilis” (Clérambault, 1907/1942, p. 115).
A predominância do intelecto juntamente com as manifestações do humor eram para
Clérambault um testemunho evidente de uma eletividade especial do agente tóxico sobre alguns
elementos cerebrais. E pelo fato de não ter encontrado o quadro descrito em nenhum paciente
abaixo dos quarenta anos de idade, Clérambault defendia a hipótese de que uma impregnação
antiga fosse absolutamente necessária para o seu desencadeamento.
Durante as crises, esses pacientes sugeriam estar globalmente orientados e conservando
certa dose de julgamento que esbarrava apenas nos limites de seus delírios. Eles demonstravam
certa prudência, como por exemplo, não emitiam cheques, não se envolviam em falsas
celebrações, enfim, não demonstravam em suas condutas, envolvimento com esse tipo de calote
ou ganhos ilícitos. As observações mais atentas em relação ao comportamento desses pacientes,
63
permitiam a constatação de que apenas o conjunto de suas condutas poderia escapar às suas
críticas. As simulações também eram descritas por Clérambault como sendo inexistentes e não
havia nenhum relato nesse sentido – simulações de suicídio, de delírios, etc. – nos registros das
histórias desses pacientes. Todo esse cenário sugeria que eles efetivamente vivenciavam esse
espetáculo na sua essência e, absolutamente, não havia nenhum indício em suas condutas de
que a satisfação primordial fosse aquela de enganar o outro. Ao contrário, toda essa conjuntura
era consequência direta das vivências delirantes de cada um, e, por isso mesmo, seria um erro
caracterizar tais delírios como tendo sido um ato de simulação.
Com relação às convicções que tais pacientes apresentavam em suas ideias delirantes,
Clérambault observou que nem sempre essa crença era absoluta e que, de maneira geral, esses
pacientes demonstravam algum tipo de contentamento ao ser possível abandoná-las. O paciente
do exemplo III deixou isso muito claro em seu julgamento, com o depoimento das testemunhas
garantindo que ele não havia em nenhum momento recebido vantagens pessoais pelos atos
cometidos durante seus episódios megalomaníacos. Ao contrário, não era bem assim que
ocorria com os pacientes descritos como mitômanos e também os imaginativos de Dupré. Senão
vejamos:
Além do alcoolismo não necessariamente estar presente entre estes últimos, ficava
muito evidente que o objetivo primordial desses sujeitos era a trapaça. O tempo de duração
desse teatro parecia ser muito maior do que nos pacientes descritos por Clérambault e o quadro
desaparecia quando o indivíduo era desmascarado. Através de uma fuga esses pacientes iriam
continuar a sua história em outro local. Também entre os imaginativos, a crença nos delírios
manifestados pelos pacientes, era praticamente absoluta. Além disso, foram colocados por
64
Dupré no grupo dos estados delirantes crônicos, ao lado dos delírios alucinatórios e dos
interpretativos. Na descrição de Dupré, esses indivíduos seriam assim caracterizados:
O imaginativo não tem alucinação, ele não faz ou faz poucas interpretações e,
todavia, ele delira abundantemente; ele conta aos outros e a si mesmo romances
aos quais acrescenta fé desde o início. Trata-se, na maioria das vezes, é um
delírio de grandeza (romances de cabo e espada, de amor, de invenção, etc...),
raramente de um delírio de perseguição (Dupré, 1925, p. 93).
Esses delirantes não foram considerados perigosos por Dupré e por seu aluno Logre pelo
fato de terem sido considerados mais prejudiciais pelas suas palavras do que pelos seus atos.
Eram delírios que evoluíam cronicamente, no entanto, sem demência.
Clérambault terminou esse seu artigo lamentando ter sido obrigado a revelar sozinho
todas essas importantes observações devido a morte repentina de P. Garnier. Ele acreditava que
todo esse material poderia constar da obra de seu mestre, La Folie à Paris, com o orgulho de
poder ter sido um dos corredatores de um possível capítulo a ser nela incluído.
Juntamente com outros médicos, ele exercia as suas atividades nas dependências físicas
de uma delegacia de polícia e estava submetido a uma determinada hierarquia policial28. No
entanto, os médicos que lá desempenhavam as suas funções detinham o poder de separar e
conduzir o que era de ordem médica para a medicina tratar e o que era da ordem policial para
que os atos específicos dessa área pudessem ser realizados pelos delegados de polícia. Tratava-
se, portanto, de um trabalho de plantão médico-pericial.
A apresentação reproduzida sobre o caso desse paciente permitiu observar também o
empenho que Clérambault demonstrava ter em relação à precisão de seus diagnósticos, tentando
evitar, ao máximo, que um erro diagnóstico pudesse alterar o destino de qualquer um de seus
pacientes. A sessão clínica envolvendo os quatro médicos desse serviço pode comprová-lo.
Inicialmente será feita uma breve transcrição de alguns fragmentos colhidos da história
do paciente em questão para que, na sua sequência, pudessem ser relacionadas algumas
reflexões teóricas que o tema suscitou.
W... era um indivíduo alcoolista que apresentou diversas fugas na história de sua
existência. Avô paterno alcoolista e morto aos 75 anos de forma súbita, pai descrito como um
degenerado, alcoolista crônico e violento, morto aos 65 anos, provavelmente de suicídio, uma
hora após a morte de sua mãe. Esta apresentava um quadro de envelhecimento orgânico
prematuro e de demência desde a menopausa. Tal demência, segundo Clérambault, era
caracterizada principalmente por sua amnésia. Tinha uma irmã e dois filhos. Engajado
voluntariamente no serviço militar aos 19 anos, apresentou diversas fugas nesse período de
prestação dos serviços militares. Seus hábitos alcoólicos começaram antes dos seus 18 anos.
Todas as suas fugas foram relacionadas por Clérambault como tendo acontecido sob a
influência da ingestão de bebidas alcoólicas.
28
Vários certificados expedidos por Clérambault e pelos outros médicos desse serviço, cujo acesso nos foi
permitido, contêm exemplos do nível de relacionamento desses médicos com a chefia de polícia de Paris
(Préfet de Police). Muitos desses certificados eram solicitados e/ou encaminhados por/para essa chefia no
sentido de solicitar internações, avaliações, comunicações de alta e até mesmo com informações sobre a
evolução de determinados pacientes internados. Essa “hierarquia” pareceu existir até mesmo no imaginário da
população daquela época. No interior dos prontuários de vários pacientes, foi possível ter acesso a várias
cartas de familiares de pacientes dirigidas ao chefe de polícia, solicitando alta, manutenção ou internação para
os seus. Infelizmente, esse material não pode aqui ser anexado por questões relacionadas à legislação francesa.
66
Sua primeira fuga ocorreu quando tinha 19 anos de idade, tendo partido por cinco dias.
No seu retorno, seu pai o fez engajar-se por quatro anos num regimento de artilharia. A segunda
ocorreu depois de ingerir duas doses de absinto na companhia de seu pai. A seguir, brigou com
a sua irmã e terminou sendo expulso de casa por seu pai. Colérico, foi para a estação e pegou
um trem para a casa de seus primos que moravam em outra cidade. Sua irritação persistiu
durante toda a viagem. Retornou no quarto dia por receio de ser considerado desertor. Foi
condenado a sessenta dias de prisão, dos quais só foi obrigado a cumprir quatorze. A terceira
fuga se deu no contexto de sua apresentação à sua nova corporação, em outra cidade. Dispunha
de três dias para fazer isso. Nesse período, bebeu vinho e absinto, discutiu com seu pai por
questões relacionadas à dinheiro. Sua mãe, às escondidas do pai, lhe deu uma certa quantia. Foi
então que decidiu não se apresentar à nova corporação no tempo que lhe havia sido fornecido.
“Um mal-estar moral tinha parte nas libações e teve parte depois em sua fuga, o sujeito estava
profundamente contrariado” (Clérambault, 1911/1942a, p. 134, grifos do autor). Como
consequência, recebeu trinta dias de punição decorrente do atraso em sua apresentação na
corporação. No entanto, devido a uma anistia, cumpriu apenas uma pequena parte dela.
Três semanas após, o paciente juntamente com um ex-cabo, começou a beber, passou
três dias ausentes de sua corporação e recebeu uma nova punição: foi enviado para a África por
um período de onze meses. Nessa temporada não houve fugas. Entretanto, por ocasião de seu
retorno a França, uma quinta fuga ocorreu. Casou-se antes de se reapresentar ao trabalho.
Considerado desertor, foi condenado a dezessete meses de trabalhos públicos. Entre os anos de
1900 e 1910 que se seguiram, então casado e com filhos, apresentou mais umas três ou quatro
fugas, segundo sua mulher. Numa delas, durante dois dias, perambulava de bar em bar
procurando por amigos e passou parte de uma noite com uma prostituta.
Em 1911, empregado numa excelente condição, bebeu excessivamente, abandonou o
trabalho e se dirigiu para casa de alguns primos que moravam em outra cidade. Para os primos,
alegou estar de folga. Utilizou grande quantidade de bebidas alcoólicas durante esse período e,
em decorrência disso, seus primos o fizeram retornar à sua casa. Por ocasião de sua última fuga,
na verdade a terceira do ano de 1911, o paciente encontrava-se deprimido, fatigado, enervado
e intoxicado, segundo as descrições de Clérambault. No dia 25 de outubro, estava há oito dias
desempregado e bastante deprimido. Sofria também uma exarcebação dos desconfortos
causados pelo seu alcoolismo. No dia 26, aceitou um trabalho como entregador de mercadorias.
Na noite de 26 para 27 de outubro, “ele fala alto e gesticula dormindo” (Clérambault,
67
1911/1942a, p. 135, grifo do autor), entretanto, esta cena passou-lhe desapercebida pois teria se
levantado com a sensação de ter dormido muito bem à noite. Defronte ao seu local de trabalho,
entrou num mictório e, ao sair, mudou completamente o seu objetivo. Ele andou e correu pela
calçada, chamou um táxi e pediu para que o motorista lhe levasse para bem longe de Paris. No
caminho, pôs-se a beber com o motorista, até o momento em que este lhe teria dito não mais
lhe poder fazer companhia. Ele pagou o motorista e entrou num trem e se deslocou para uma
outra cidade. Nesse momento, bebia excessivamente e se alimentava muito mal. Clérambault
descreveu que naquele momento o paciente se sentia excitado e triste ao mesmo tempo.
Lamentava-se pelo ato cometido e não tinha apetite. Apresentou vômitos contendo uma
abundante presença de bílis. Depois de se levantar, percebia muitos tremores em suas mãos.
Durante todo o período dessa fuga, o paciente experimentou esses sintomas em praticamente
todas as manhãs. No dia primeiro de novembro desse ano, lembranças fúnebres lhe vieram à
cabeça, ele retornou a Paris, foi ao cemitério, colocou uma cruz no túmulo de seus pais e chorou
copiosamente. Continuou sua peregrinação, deslocando-se entre várias outras cidades, tendo
chegado, inclusive, à Bruxelas. Nesta cidade, continuou a beber e pensou em se matar. Na
sequência, comprou um revólver. Não se matou e pegou um trem de volta para a França.
Durante essa viagem, desceu em todas as cidades que lhe agradavam por algum motivo
imprevisto e sem maior importância. Numa delas, hesitou entre se matar e se jogar no rio. Diante
dessa hesitação, optou apenas por jogar a sua arma no rio. Deslocou-se para uma outra cidade,
passou o dia a perambular e à noite procurou a delegacia de polícia do local e expôs a sua
situação. Nunca, em outros episódios de fuga, o paciente havia pensado em suicídio.
Clérambault resumiu assim a história de W...,
Nós não podemos colocá-lo em dúvida, porque ele constitui um quadro mórbido
típico, coerente em todos os dados, impossível de improvisar ou mesmo para
expor após o estudo, sobretudo para um sujeito ignorante e deprimido. Enfim,
só ele pode explicar a conduta bizarra do sujeito, e ele concorda com o estado
em que nossos exames o encontraram (Clérambault, 1911/1942a, p. 137).
lado, e de suas preocupações, por outro lado. Quanto ao impulso ocorrido no dia 27 de outubro,
depois de ter-se dirigido ao seu local de trabalho, Clérambault fez o seguinte comentário:
Clérambault considerou W... como sendo um emotivo, ou seja, de que nele qualquer
fato, por menor que fosse, funcionava como uma bola de neve em muito pouco tempo. “Ele
esquece tudo, e uma vontade passageira, ou melhor violenta, se impõe a ele” (Clérambault,
1911/1942a, p.137). Clérambault supunha que ao chegar nesse ponto, um emotivo reagia de
acordo com as suas próprias aptidões: cólera, agitação, ideia de suicídio, fuga, etc. No caso de
W..., a maneira encontrada foi a de produzir uma mudança radical. Observou que W... era um
indivíduo profundamente instável, muito além do permitido, como na verdade seriam todos os
emotivos. Contrariado, ele renunciou ao seu posto e ao contrário de muitos, a sua excitação foi
manifestada através da necessidade de uma mudança imediata. Clérambault comparou o
paciente em questão, do ponto de vista da fuga, aos casos de melancolia, dipsomania e aos
embriagados e que, em cada uma de suas fugas anteriores, o paciente pode ter apresentado
traços de cada um desses quadros. Acreditava ser muito difícil, nesses casos, fazer os devidos
diagnósticos diferenciais.
Clérambault concluiu o seu certificado médico-legal e encaminhou o paciente para uma
discussão clínica com outros colegas psiquiatras.
O paciente W..., foi levado para uma sessão clínica na Sociedade Clínica de Medicina
Mental, na qualidade de um caso médico legal. Encontravam-se presentes, nessa ocasião, os
médicos, Legrain, Pactet, Clérambault e Vigouroux. As duas primeiras perguntas dirigidas ao
paciente foram formuladas pelo Dr. Legrain, conforme reproduzidas abaixo:
Após responder à segunda pergunta, o paciente deixou a sala, e a discussão teve a sua
continuidade contando apenas com a presença dos quatro médicos.
O ponto de maior divergência entre os médicos presentes, concentrou-se na tentativa de
diferenciar um quadro mórbido de um caso policial. Na verdade, a busca por essa definição era,
talvez, uma das maiores razões da existência do Dépôt.
Nessa sessão, um dos maiores questionadores sobre a possibilidade do paciente W...,
ser mesmo um doente ou não, provinha do Dr. Pactet. Ele argumentou que o caso desse paciente
era muito parecido com o caso de um outro paciente observado por ele há alguns meses, no
mesmo serviço, e diante do qual a sua insistência se concentrou em fazer uma diferenciação
entre uma fuga premeditada e uma fuga patológica. Na sua apreciação, era esse o aspecto que
poderia esclarecer se se tratava de um doente ou não. Mas, Clérambault disse que o paciente
em questão tinha sido visto por ele na prisão, ocasião em que ele se apresentava nitidamente
deprimido, hostil, em silêncio e que quanto à sua história clínica, “não foi ele quem me entregou
todos esses detalhes; foi preciso que eu os arrancasse dele” (Clérambault, 1911/1942a, p. 139).
Essa observação de Clérambault mostrava claramente a sua opinião de acreditar que
W... era um doente, ao contrário do Dr. Pactet. A ênfase dada por Clérambault, perante os seus
colegas, à forma como o teria abordado ainda na prisão, demonstrou mais uma vez a
importância que ele atribuía a essa sua maneira bem peculiar de abordar os pacientes.
70
Dr Vigouroux alertou para o fato desse paciente ter-se mostrado consciente durante as
suas partidas e também de ter gastado voluntariamente todo o dinheiro roubado. E perguntou
se toda escapada de bêbados deveria ser considerada uma fuga patológica29. Clérambault o
contestou lembrando que W... havia realizado várias fugas anteriores apenas com aquilo que
possuía e advertiu para o fato de que “todas as fugas de W. tiveram uma forma impulsiva,
sobrevinham de maneira imprevista, eram fundamentalmente inúteis e até prejudiciais”
(Clérambault, 1911/1942a, p. 139). Clérambault não poupou esforços para tentar convencer os
seus colegas de que W... era um doente e apelou para a capacidade que um médico-perito quase
sempre tinha de reconhecer os atos de um simulador. Não deixou também de relembrá-los que
a justiça sempre os pedia para que assinalassem tudo aquilo que havia de mórbido em um
acusado.
Clérambault condenou a utilização do conceito de fuga apenas para quando esse ato
fosse acompanhado de amnésia e evocou que “a palavra fuga, na linguagem corrente, é clara,
ela designa uma partida pouco motivada, ou tendo somente motivos escondidos, e bastante
brusca” (Clérambault, 1911/1942a, p. 140). Corroborou que na linguagem científica, a
definição é a mesma, apenas trazendo consigo um complemento que pudesse melhor
caracterizá-la. Nesse sentido, citou os exemplos das expressões fuga demencial, fuga
melancólica, fuga comicial, etc. E continuou dizendo, “impor-lhe um sentido arbitrário, seria
ainda mais inoportuno, já que não faltam termos para designar o deslocamento com amnésia:
estado secundário, sonambulismo, automatismo ambulatório30, na falta de melhor termo, fuga
amnésica” (Clérambault, 1911/1942a, p. 140, grifo nosso). Não satisfeito ainda, disse que a
palavra fuga não deveria ter seu uso limitado ao sentido de um determinado indivíduo fazer
todo o seu percurso a pé, nem mesmo utilizá-la como sinônimo de deambulação. Dar qualquer
um desses sentidos ao termo seria um equívoco.
Portanto, poderíamos encerrar os argumentos de Clérambault com a seguinte passagem:
29
Essa pergunta nos pareceu ter sido dirigida com uma certa dose de ironia.
30
Segundo o Larousse (1975), o termo ambulatório (ambulatoire, em francês), em seu antigo uso, referia-se
àquele que não tem um lugar fixo (ambulante, itinerante, errático, vagabundo, errante). Segundo Cheniaux
(2015), o automatismo ambulatório que também pode ser denominado dromomania, poriomania ou fuga,
“consiste numa necessidade de afastar-se, de mudar de lugar, que se manifesta como uma deambulação sem
finalidade ou como uma corrida súbita ou imotivada. A fuga proporciona alívio para um estado de disforia
relacionado a circunstâncias do ambiente” (p. 137).
71
adversidades diante da disciplina imposta, recebendo punições das mais variadas formas,
podendo chegar até mesmo à deserção.
Por todo esse conjunto, a vida civil desses sujeitos terminava sendo marcada pelo
abuso do absinto, condenações múltiplas, golpes, ferimentos, e como consequência do
alcoolismo, chegavam, muitas vezes, a serem internados em quadros de delirium tremens. Além
desse último quadro, outras manifestações clínicas decorrentes do alcoolismo também foram
observadas, com ou sem convulsões associadas.
Esses pacientes tendiam a passar com muita frequência pelos serviços de
atendimento médico e, a partir daí, muitas vezes encaminhados para internações de longa
permanência nos asilos de Paris. Não obstante, esse grupo de pacientes, em sua história, trazia
consigo a marca de uma grande variedade de internações ocorridas nas mais distintas regiões
do país. “Esses sujeitos manifestam sua vontade de serem internados com uma insistência e
uma violência particulares” (Clérambault, 1911/1942b, p. 143). Entretanto, mesmo assim,
frequentemente se queixavam de estarem sendo privados de suas liberdades individuais. Este
fato remete a uma outra característica própria desse grupo de pacientes que é a simulação. Além
das invenções dos sintomas, propriamente ditas, Clérambault alertou para a possibilidade de
uma mistura de situações envolvendo quadros reais e simulações, e apresentou alguns
exemplos, tais como:
Eles são levados por uma embriaguez excito-motora e amnésica, mas esta
embriaguez foi voluntariamente procurada, o próprio sujeito concorda. Eles são
levados num estado de hipomania com substrato alcoólico, mas eles exageram
sua loquacidade e sua violência, eles alegam alucinações e uma insônia absoluta
que eles não têm na realidade. Eles são levados em um estado de delírio
alucinatório subagudo, mas é visível que na delegacia, e às vezes ainda diante de
nós, eles exageram sua ansiedade e seus medos (Clérambault, 1911/1942b, p.
142).
voltariam em poucas horas. Para isso, se despiriam em via pública ou agrediria o primeiro
passante que encontrasse. Tratava-se de indivíduos aos quais Clérambault se referiu como
sendo verdadeiros parasitas pelo fato de abusarem de todos os tipos de instituições de
assistência pública ou filantrópicas existentes. Em relação às suas características antissociais
que fundamentalmente se acentuavam no decorrer de suas existências, Clérambault declarou:
“sua hostilidade, outrora intermitente e instintiva, tornou-se agora racional e contínua; suas
exigências de parasita tornaram-se grandiosas e ameaçadoras” (Clérambault, 1911/1942b, p.
143).
Clérambault defendia a ideia de que fossem criadas instituições especiais que pudessem
abrigar esse tipo de clientela e se mostrava totalmente avesso à opinião de muitos em favor da
criação de espaços separados nas instituições já existentes por considerá-la insuficiente para
resolver o problema. Sustentava que “não são apenas Seções Especiais que é preciso criar para
esses pacientes, mas sim, múltiplos Asilos Especiais, com legislação especial, que serão os
Asilos de Segurança31” (Clérambault, 1911/1942b, p. 144).
A preocupação da medicina com indivíduos portadores desse tipo de comportamento é
antiga e segundo Paim (1976) “a expressão loucura moral foi introduzida na linguagem médica
por Prichard, em 1835, para designar o comportamento de certos indivíduos que apresentavam
desarmonia constitucional da afetividade e da vontade, com integridade da capacidade de
julgamento, da crítica e do pensar” (p. 531, grifo do autor). Diante da constatação médica de
que esses pacientes tinham a consciência das repercussões de seus atos, por essa capacidade de
julgamento e de crítica, esses indivíduos não tiveram muita dificuldade de serem imputados
pelas leis vigentes e de serem, portanto, responsabilizados e penalizados pelas consequências
de seus atos.
Outra característica importante, assinalada desde Pinel, dizia respeito à possibilidade
desses quadros estarem relacionados a uma anomalia congênita, sendo, portanto, hereditária.
O conceito de uma anomalia caracterial exprimida por atos sem controle e não
bloqueados de início foi encarado como um distúrbio moral inato, ao qual Pinel,
em 1809, deu o nome de “mania sem delírio”, enquanto Esquirol, um pouco
depois, denominava-o “monomania instintiva” ou “impulsiva”. A ênfase estava
pois, colocada em uma anomalia congênita do instinto. Esse mesmo espírito
animou a maioria dos psiquiatras do século XIX: a “loucura dos degenerados” e
Morel corresponde à “moral insanity” de Pritchard (1835) e às “Moralische
Krankheiten” dos autores alemães da mesma época (Ey, 1981, p. 369).
31
Em francês, descritos através da expressão Asiles de Sûreté.
74
Entre as bebidas alcoólicas utilizadas pelos franceses no início do século XX, o consumo
do absinto talvez tenha sido aquele que mais preocupações trouxe às suas autoridades sanitárias,
apreensivas com os crescentes índices de alcoolismo na população. Essa constatação as impeliu
no sentido de que pudessem ser tomadas medidas legais e administrativas com objetivos de
coibir o uso de bebidas alcoólicas durante e após a primeira guerra mundial.
A palavra absinto, pelo menos entre os francófanos, possui dois significados. Se por um
lado a palavra significa uma variedade de planta, uma erva aromática cujo nome científico é
Artemísia absinthium, conhecida mais popularmente como losna, por outro lado refere-se a uma
bebida alcoólica com teor alcoólico variando entre 45º e 85º como resultado da maceração de
várias plantas no álcool, seguida de uma destilação. A planta é rica em óleos essenciais,
particularmente a tujona, considerada um neurotóxico e que em altas dosagens produzem um
efeito alucinógeno. Sua utilização como medicamento data da Antiguidade, no entanto, como
bebida, foi considerada uma invenção do Dr. Pierre Ordinaire – que, no início, também a
utilizava por suas propriedades medicinais – e por Henriette Henriod, na região do Val-de-
Travers, Neuchâtel, na Suíça do século XVIII (Lachenmeier, Walch, Padosch, & Kröner, 2006).
Impulsionado pelo consumo do absinto, em especial, e pelas bebidas alcoólicas, em
geral, o número de pacientes alcoolistas que dava entrada na Enfermaria especial só aumentava.
No entanto, ações políticas e públicas no sentido de reverter esse panorama, provocaram uma
significativa queda nessa demanda e fez com que Clérambault apresentasse em 1921, uma
comunicação com o título Diminuição e modificação dos delírios alcoólicos depois das
medidas legislativas e administrativas tomadas durante a Grande Guerra. Alguns dados muito
interessantes foram divulgados através desse seu trabalho.
A adoção de três leis foi considerada como de fundamental importância para a redução
do número de pacientes apresentando quadros psiquiátricos em decorrência do alcoolismo,
conforme os dados que serão apresentados logo a seguir. A lei de 16 de março de 1915 que
proibia a venda, a fabricação e a circulação de absinto e dos licores similares na França (Briand,
2005). A lei de 09 de novembro de 1915 que proibia a criação de novos estabelecimentos para
o comércio de bebidas alcóolicas (Guyot, 1917) e a lei de 01 de outubro de 1917 que punia com
76
multas todos aqueles que fossem encontrados em estados de embriaguez nas ruas, praças, cafés,
cabarés e outros locais públicos (Gómez, Lermenier, & Milhet, 2013).
Clérambault constatou assim, uma profunda modificação no movimento de alcoolistas
que passava pelo serviço que chefiava. O número desse tipo de clientela chegou a ser reduzido
à sua metade. A gravidade dos casos com delírios alcoólicos examinados também diminuiu.
Dado interessante apurado foi que a proporção dessa redução foi muito maior entre os homens
do que entre as mulheres. Aferiu uma diminuição de 14 para 5 entre os homens e de 8 para 5
entre as mulheres. Destacou, no entanto, que aqueles quadros que ele considerava como
superagudos, sempre foram menos frequentes entre as mulheres, gerando um menor
envolvimento delas nas grandes confusões, menor incidência de quadros de embriaguez
patológica, poucas mortes e também que elas se entregavam muito menos aos licores do que
aos vinhos. E com relação a isso, Clérambault acreditava que o consumo de vinho, se é que
havia diminuído, tinha caído muito menos do que em relação ao consumo das essências.
Clérambault apontou duas razões para essa queda ter sido menor entre as mulheres. A primeira,
em sua opinião, era de que as mulheres possuíam um sistema nervoso mais sensível o que as
fazia apresentar quadros delirantes antes de uma impregnação mais profunda. Em
consequência, os delírios mais graves acometeriam em menor número as mulheres do que os
homens. Depois, levou em consideração o fato de que após a Primeira Grande Guerra, as
mulheres foram levadas em grande número para o trabalho industrial, o que provocou um
aumento da população feminina na cidade de Paris e que este tipo de trabalho era considerado
um fator importante de alcoolismo (Clérambault, 1921/1942b).
Ao divulgar esse trabalho, Clérambault atribuiu a mudança desse cenário,
exclusivamente, à consequência das medidas tomadas pelo poder público, contrárias ao
consumo de bebidas alcoólicas de maior teor alcoólico e, principalmente, à interdição da
produção, circulação e consumo das essências. Isso posto, “seria desejável que os Poderes
Públicos, encorajados por esse sucesso, reforçassem mais uma vez as restrições e tomassem
medidas mais rigorosas contra as fraudes” (Clérambault, 1921/1942b, pp. 131-132).
2.2 Cloral
O hidrato de cloral foi sintetizado por Justin Liebrich em 1832, mas a sua propriedade
farmacológica só ficou conhecida a partir de 1948, ocasião em que foi descoberto o seu
principal metabólito ativo, o tricloroetanol. Suas propriedades farmacológicas lembram os
barbitúricos e os seus principais efeitos tóxicos são a depressão respiratória e a hipotensão. O
77
uso regular do cloral pode produzir a tolerância e a dependência à substância e a sua utilização
crônica se assemelha ao alcoolismo com a sua suspensão abrupta podendo produzir delírios e
convulsões (Martinbiancho, 2008).
Classificado como um tranquilizante e hipnótico, foi muito utilizado no início do século
XX, no entanto, quase não é mais usado nos dias de hoje. Em determinadas situações, tem sido
empregado ainda hoje nas pessoas incapacitadas e contra a vontade delas, como por exemplo,
para a facilitação da consumação de um crime (Armstrong, Armstrong, Golan,, & Tashjian,
2014).
Em psiquiatria, um dos principais estudos publicado envolvendo as manifestações
psicóticas dos pacientes em consequência do consumo e do abuso do cloral foi apresentado por
Clérambault, em 1909. Trata-se de um dos pouquíssimos estudos, talvez até mesmo o único,
abordando esse assunto. Nele, Clérambault apresentou também algumas notas relacionadas aos
aspectos diferenciais desses delírios para aqueles apresentados pelos pacientes consumindo
álcool e cocaína.
Nesse artigo, Clérambault descreveu dois casos clínicos de pacientes que teve a
oportunidade de acompanhar. O delírio agudo apresentado pelo uso crônico de cloral nesses
dois pacientes, possuía, em sua opinião, características que até então não haviam sido
observadas pelos demais autores.
Para que esse tema possa ser desenvolvido e melhor compreendido, serão apresentados,
a seguir, fragmentos das histórias clínicas de dois pacientes assistidos por Clérambault. Esses
estudos foram publicados originalmente nas edições de setembro e novembro de 1909 e nas
edições de janeiro e março de 1910 dos Annales médico-psycohologiques, revue psychiatrique
e posteriormente, reproduzidos na edição de suas Oeuvres de 1942 com o título Du diagnostic
différenciel des delires de cause chloralique.
2.2.1 Paciente I
78
32
Em francês, Kyrielles de mots. Sempre que surgir nesse trabalho, essa expressão, será traduzida por cascata
de palavras.
79
adequadas sendo que às vezes, eram entrecortadas por algumas alucinações. Dicção lenta,
uniforme e um pouco trêmula.
O relato de duas mulheres que conheciam a paciente fez referência à morfinomania há
oito anos. Disseram ainda que ela não saía de casa e que havia sido operada há oito anos para
retirada dos seus ovários. Uma delas dizia que seu filho se alimentava em sua casa.
No terceiro dia de internação, em seu quarto, ela descreveu durante duas horas, “quase
a visão de uma cinematografia onírica verdadeiramente esplêndida” (Clérambault, 1909/1942a,
p. 149). Refere-se ao seu filho como uma pessoa bastante saudável. Em várias oportunidades
durante sua internação ela reclamou de sua carne estar podre, de sua morte estar próxima e que
o dedo de seu pé estava podre. Por causa disso, pedia insistentemente que lhe dessem uma
tesoura para que ela mesma pudesse amputá-lo. Em outras oportunidades, sensações de
manipulação de seu corpo se fizeram presentes. Dizia, então, que lhe penetraram um punhal de
madeira no ânus e de que alguém havia lhe retirado a metade da vagina.
Uma abordagem foi realizada com a paciente em seu quarto. Ao saírem do quarto,
apagaram a luz e recomendaram que ela se deitasse para dormir. Nessas condições, um fato foi
considerado por Clérambault como notável: “na escuridão absoluta, as alucinações não
somente não tinham redobrado, como haviam desaparecido” (Clérambault, 1909/1942a, p.
152, grifo do autor). Durante a noite ela pediu leite e sopa para se alimentar. Aliás, eram os
únicos alimentos que ela havia aceitado desde a sua entrada no hospital.
No dia seguinte, continuou a relatar visões de bichinhos e bonequinhos. Foi-lhe
perguntado pelo médico se ela não tinha sentido nada nas suas partes sexuais e ela respondeu
que não. No entanto, fez um discurso sobre a sua morte: “No último instante de minha morte,
foi muito engraçado; eu não estava morta, mas quase morta; eu li a palavra ‘morte’ na frente do
meu vagão. Mais tarde, tive dificuldades, aborrecimentos. Eu saí apenas na última gota de
sangue” (Clérambault, 1909/1942a, p. 153).
Diante de todo esse cenário, Clérambault percebeu que as semelhanças entre os delírios
apresentados pela paciente e aqueles produzidos pelo uso da cocaína eram muito grandes. Ao
mesmo tempo fez questão de observar também que era possível enumerar diferenças entre os
dois quadros.
O médico assistente da paciente, Dr. D..., se dispôs passar as seguintes informações para
Clérambault:
charlatães. Há quatro anos pelo menos (1902) ela se entrega à morfina. Seu
marido é um sifilítico comprovado, ela uma sifilítica provável. Ela foi tratada
como tal em Lariboisière33 com injeções de mercúrio, há três anos (1903). Ela
experimentava então dores sob forma de crises hepáticas retornando
cotidianamente durante uma série de quinze a vinte dias. Sem morfina, mas
vivendo só, ela não demorou a recair na morfina. Há oito meses (fim de 1905)
eu lhe apliquei algumas injeções de bi iodeto de mercúrio, depois eu a perdi
totalmente de vista. Eu a revi há vinte dias, ela estava então em pleno marasmo
morfínico (um farmacêutico sem escrúpulos lhe fornecia morfina discretamente)
(Clérambault, 1909/1942a, p. 153, grifos do autor).
O Dr. D. informou também que nos dias em que a paciente não se picava, fazia uso
regularmente de três enemas, cuja composição era: láudano de Sydenham (20 gotas) + hidrato
de cloral (2 gramas) + brometo de potássio (2 gramas) + água destilada de tília (150 gramas).
E acrescentou que após a diminuição dessas doses, as alucinações e os demais sintomas
descritos, apresentados pela paciente, tiveram seu início e foram aumentando diariamente.
Essas informações colocaram em dúvida a hipótese desse quadro ter sido causado pela
cocaína, apesar da suposição de que a paciente poderia ter feito uso de cocaína sem o
conhecimento de seu médico. Mas Clérambault frisava que “não nos pareceu, de início, que o
cloral pudesse produzir perturbações tão especiais que se apresentavam a nós” (Clérambault,
1909/1942a, p. 154).
No entanto, Clérambault se lembrou de uma amiga da paciente e que também tinha sido
sua enfermeira. Através do Dr. D..., essa enfermeira, fez contato com ele e lhe informou que
desde que a paciente foi submetida à ovariectomia34, tinha começado a lhe aplicar morfina. Esse
hábito passou a ser utilizado pela paciente com maior frequência e em intervalos cada vez
menores, intercalada com injeções de heroína, mas estas últimas lhe davam menos prazer. Após
alguns anos, em torno de 1903, ela começou a usar cloral, principalmente na forma de enemas,
associando láudano. Esse uso também foi aumentando em intensidade no decorrer do tempo.
Essa amiga e enfermeira da paciente acrescentou também:
Ela partiu para a América no final do ano de 1903, com uma provisão de cloral,
privaram-na do cloral, enlouqueceu durante dez dias; eu sei que seu delírio de
então lembrava aquele que eu mesma vi várias vezes, quando ela tomava de uma
só vez fortes doses (Clérambault, 1909/1942a, p. 155, grifo do autor).
33
Hospital construído em Paris devido a segunda pandemia de cólera. Foi construído entre 1846 e 1853.
34
Esse procedimento foi realizado em consequência das fortes e constantes queixas de dores que a paciente
apresentava.
81
E continuou relatando que nessa época, ela fazia uso diário dos enemas de cloral e por
várias vezes ao dia. Tinha pesadelos, sensações corporais de caráter alucinatório e manifestou
ideia de suicídio. Nos momentos de embriaguez pelo cloral, a paciente conseguia falar sobre
todas essas alterações. Alguns dias antes dessa última internação, esse quadro encontrava-se
em atividade, com a paciente não querendo somente retirar as pequenas coisas que via e sentia
em sua pele, como também na pele de outras pessoas. Nesse momento também escutava vozes,
algumas lhe dizendo coisas obscenas. Suas visões eram inumeráveis e modificava-se com
significativa velocidade, quase sempre via pequenas coisas e animais e a crença nessas visões
era absoluta.
No curso de sua internação, o seu comportamento provocativo em relação às outras
pacientes, a sua irascibilidade e a sua fixação ao leito com objetivo de isolar-se de todos também
chamavam a atenção. “Em resumo, à sua intoxicação crônica sucedeu uma perversão talvez
definitiva do humor, que se manifesta, com ou sem causa exterior, pelos acessos do gênero
maníaco onde o sentimento de hostilidade predomina” (Clérambault, 1909/1942a, p. 158).
Com relação aos seus estados tóxicos, a paciente não guardava, depois de recuperada,
quase nenhuma lembrança de suas vivências delirante-alucinatórias. “Coisa curiosa, ela não
tinha guardado nenhuma lembrança de suas perturbações pseudo-cocaínicas da visão, da
sensibilidade geral, e do tato (dores, incrustações minúsculas sob a pele, costuras da pele, etc.)”
(Clérambault, 1909/1942a, pp. 158-159, grifo do autor).
Clérambault resumiu assim o quadro da paciente:
Para Clérambault, as semelhanças com os estados provocados pela cocaína residem nas
dores do tipo fulgurante, nas micropsias, na independência entre as alucinações e as ideias, o
predomínio das alucinações visuais e táteis com as devidas características descritas pelas
imagens visuais. A ansiedade e a agitação apresentadas. “Enfim, o eretismo verbal”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 159).
82
35
Inflamação que ocorre na pele situada ao redor da unha, normalmente provocada por fungos, sobretudo do
gênero cândida.
36
Com relação às alucinações dos sentidos corpóreos, Jaspers (1979) escreveu que, entre elas, podem ser
distinguidas as falsas-percepções térmicas – nas quais os pacientes podem queixar-se de que o piso está
queimando ou de uma sensação insuportável de calor –, das falsas-percepções táteis. Nestas, os pacientes se
queixam de que o vento frio sopra sobre eles, de que vermes e insetos os picam ou sensação de ferroadas por
toda parte de seus corpos. “Entre as últimas se separaram as alucinações hígricas (percepções de umidade e
fluidez)” (p. 112, grifo do autor).
83
muito mais frequência uma mistura de traços e de pontos brilhantes (pó de ouro), com uma
grande tendência de fazer a ligação dos elementos.
l) As cores visualizadas e predominantes no cocainismo eram o verde, o vermelho e o preto
brilhante. Já na usuária de cloral aqui descrita, as cores que sobressaíram foram o preto mate –
apesar do preto brilhante também ter sido percebido – e o ouro. A cocaína pareceu produzir
mais colorações vivas, mais arestas e mais relevos também.
m) As imagens produzidas pela cocaína perfuram as paredes – como aquelas do alcoolismo. Ao
contrário, as produzidas pelo cloral, eram planas, aderiam de tal forma às paredes “que nós
poderíamos designá-las pelo nome de imagens decorativas” (Clérambault, 1909/1942a, p. 163,
grifo do autor).
n) Praticamente não existe nenhuma participação emocional dos usuários de cloral em relação
às suas vivências alucinatórias visuais. Ao contrário, nos usuários de cocaína essa participação
foi considerada como significativa.
o) Fator de importante diferenciação para Clérambault era o fato de que as imagens
alucinatórias no cloralismo tendiam a se multiplicar de forma abundante com o paciente exposto
à claridade. No alcoolismo e talvez no cocainismo, ocorria o contrário, ou seja, essas imagens
se multiplicavam na penumbra ou na escuridão.
p) Para Clérambault, a sensibilidade genital não estaria de modo algum exaltada no caso da
paciente apresentada, apenas a sua sensibilidade geral, estaria afetada, o que absolutamente não
implicou em um estado de excitação sexual. Pode-se até mesmo arriscar na vivência de um
sentimento oposto, de desprazer. Isso ocorreu, por exemplo, com a paciente se queixando de
ter tido a sua vagina cortada. Ao contrário, a cocaína frequentemente provocaria uma excitação
genital acompanhada de um sentimento de ciúme todo particular.
substâncias assim, cujo consumo popular excessivo pudesse justificar uma procura pelos
serviços médicos oferecidos daquela época. No entanto, não deixou de citar algumas delas:
a) As solanáceas virosas, tais como a beladona, batatas e tomates podres ou verdes,
provocaram delírios muito parecidos, em alguns aspectos, àqueles produzidos pela cocaína.
Também produziram parestesias nos dedos e nos lábios, analgesia, visões de pequenos
animais rastejantes ou voadores, imagens disformes e fantasmagóricas, ricas em cores,
extravagantes e que envolvem os pacientes. Sentimentos de hilaridade, erotismo,
turbulência, furor e um aspecto maníaco também eram comuns. Às vezes, midríase e
exoftalmia. “As ameaças de colapso aqui se mostram mais prováveis do que no cloralismo”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 165).
b) A aconitina37 produziu formigamento nos lábios, nariz e na língua. Contrações na face,
sensações de frio, aperto na garganta, aumento de secreções, hiperestenia38 cardíaca com
ataxia. Diminuição da capacidade auditiva.
c) A heroína, ao contrário do cloral, parecia produzir um florescimento alucinatório bem
menor. Predispunha aos distúrbios respiratórios, às síncopes e às convulsões.
[Link] Tabes
37
A aconitina é um dos alcaloides mais venenosos de que se tem conhecimento. Suas propriedades
farmacológicas e medicinais são conhecidas desde 1833. É muito tóxica e sua dose letal no adulto é em torno
de 3 a 6mg.
38
Aumento do vigor ou tonicidade do corpo ou parte dele.
85
2.2.2 Paciente II
Sr. René H..., 30 anos de idade, foi atendido em seu domicílio em 06 de abril de 1907,
depois de ter provocado um incêndio em sua própria residência. Ao dar entrada na Enfermaria
especial não quis comentar sobre os motivos que poderiam tê-lo levado a praticar esse ato.
Apresentava-se caquético, entorpecido, dicção relutante, pronúncia embaraçada. Suspeita de
Paralisia Geral, “mas nós o achamos pouco compatível com o estado de alerta que o paciente
demonstrou às vezes. Um agente tóxico parece estar em jogo, mas qual deles?” (Clérambault,
1909/1942a, p. 167).
No dia seguinte, o relatório referente à sua primeira noite informou que o paciente não
tinha dormido e teria batido o tempo todo na porta porque alguém queria lhe matar. Ele se
mostrava obnubilado e expansivo, descrevendo as visões experimentadas durante a noite com
uma riqueza de detalhes que chamava a atenção. Frases inacabadas. Manifestou uma confusão
intelectual e, apesar do esforço, não conseguia se orientar nas datas, nem no calendário do mês.
Entretanto, tinha consciência de seus erros. Confundiu o seu endereço com o de sua irmã.
O paciente ouviu de seu médico a suspeita de que pudesse ser um quadro de neurastenia
e isso o fez concordar plenamente com o médico como quem quisesse validar esse diagnóstico.
Na sequência dizia ter experimentado todos os calmantes e hipnóticos, mas que há três anos
não dormia. Negava consumo excessivo de bebidas alcoólicas. “Seu conjunto lembra
principalmente alguns casos de delírio auto tóxico, no qual um excesso de trabalho ao mesmo
tempo intelectual e emocional favoreceu a confusão” (Clérambault, 1909/1942a, p. 168).
86
Sua dicção chamava a atenção pelo número de lapsos. Palavras substituíam umas às
outras, faltavam sílabas, fundia duas palavras produzindo um vocábulo híbrido e destituído de
sentido. Na sua escrita, as letras se mostravam tremidas e o paciente escreveu o seu antigo
endereço e não o atual. Todo esse conjunto fez com que a hipótese diagnóstica principal se
voltasse agora para um possível quadro tóxico exógeno. Nesse mesmo dia compareceram
espontaneamente à Enfermaria uma irmã e uma tia do paciente com informações sobre sua
história familiar. Reforçou a versão de que o paciente morava sozinho e que sofria de insônia.
Abusava de várias medicações e informaram que o paciente “toma cloral todos os dias”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 169, grifo do autor). Relataram uma crise parecida com a atual,
ocorrida há três anos, mais curta e seguida de uma perda de consciência com o paciente
tornando-se agitado, reclamando do cloral e dizendo querer estrangular as pessoas e se jogar
pela janela.
O paciente admitia, em suas entrevistas, ter feito abuso de brometos, mas não admitia o
abuso de cloral. Tendo sido indagado a respeito desse abuso de cloral, o paciente não respondeu
e passou a falar sobre suas vivências alucinatórias mais recentes. Queixou-se de ter dormido
muito mal essa última noite pela necessidade de defender a sua vida. Não sabia exatamente
quantos dias estava internado e continuava não conseguindo fornecer seu endereço
corretamente. Foi-lhe solicitado para que copiasse uma frase de um livro. O paciente inicia bem
a escrita, mas logo se agarra numa página adjacente do mesmo livro, copiando fragmentos de
uma outra frase.
Referindo-se às suas alucinações, o paciente disse que as vezes as imagens que via eram
muito pequenas, outras vezes, muito grandes, “grandes, grandes como as paredes, às vezes
ainda maiores” (Clérambault 1909/1942a, p. 172). Disse que também tinha visto aranhas e
pessoas esmagadas. Especificamente em relação a sua segunda noite de internação, disse que
as suas visões eram muito reais. Segundo as descrições de Clérambault, o paciente também teria
apresentado ilusões. Quanto às alucinações auditivas, elas teriam sido pouco numerosas.
Quando as experimentava, escutava basicamente palavras, muito raramente ouvia uma frase
completa.
Numa comparação com a outra paciente anteriormente descrita, “H... nos diz não sentir
nem formigamentos nos dedos, nem espessamento de lábios, nem dores musculares agudas”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 172). Somente nessa última internação, o paciente teria começado
a experimentar algumas vertigens. Apresentava ter alguma consciência de uma agitação
muscular mórbida, quando expressava a sua necessidade de se deslocar. Já internado, disse
sentir que havia alguém junto dele. Queixava-se de apresentar ejaculações involuntárias com
87
muita frequência e que isso lhe deixava fatigado, atrapalhando as suas relações com as
mulheres.
Durante a sua segunda noite de internação, Clérambault foi até ao seu quarto, em torno
das 21h. O paciente encontrava-se ocupado em virar e revirar o seu colchão. Mostrou-se feliz
com a visita de seu médico, puxou-lhe pelo braço para lhe mostrar que via pequenos rapazes –
minúsculos –, atrás da janela. Mostrava que via fios e animais que subiam e a expressão de seus
gestos sugeriam estarem eles fazendo um movimento uniforme e lento. Via ratos e insetos
também. “‘Olhe esses insetos que sobem; os ins...setos a...artificiais (tremor). Insetos artificiais.
Tudo o que eles querem é artificial desde... que eles queiram’” (Clérambault, 1909/1942a, p.
173, grifos do autor). Disse que quando chegou em seu quarto, na admissão, viu uma cama bem
menor do que o normal com quatro homens dentro dela, mas que naquele instante já não estava
vendo mais. Num determinado momento, Clérambault apagou a luz do quarto e ali permaneceu
na companhia de um auxiliar e do paciente, todos em silêncio. Foi então que o paciente começou
a conversar espontaneamente com um sujeito que ele chamava pelo nome de Jean-Baptiste, e
falava que o lugar estava repleto de pessoas e de guardas por causa de um concurso.
Questionado sobre as pessoas que estava vendo, respondeu que não as escutava, mas que elas
o faziam compreender que estavam lhe insultando. Apalpou a manga de Clérambault dizendo
que era de veludo (o que não era verdadeiro) e apontou para um boné inexistente, dizendo ser
de couro. Movimentava-se dentro do quarto e por mais de uma vez tocou no seu médico.
Clérambault fez a seguinte observação sobre o que presenciara: “Notar-se-á que na escuridão o
paciente viu personagens e grandes quadros, em vez de pequenas coisas. A velocidade de
desaparecimento das imagens e a de sua renovação eram menores do que na claridade”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 174).
Depois de ter acendido a luz do quarto, eles deram ao paciente uma caderneta e um lápis
e o pediram para desenhar os insetos que via. Ele aceitou, no entanto, sua atenção desviava a
cada tentativa de colocar no papel aquilo que lhe foi solicitado. O próprio paciente dizia que na
escuridão não via tais insetos como na claridade. Mas, considerava isso natural e se justificava
dizendo que na escuridão não se distinguia pequenas coisas. Clérambault e o vigilante saíram
do quarto, mas ficaram observando o paciente às escondidas. Depois de saírem o paciente se
queixou de que pessoas viriam e que ele estaria em perigo com elas. Entretanto, Clérambault
observou: “Mas sua inquietação é benigna, comparativamente à ansiedade e à panfobia
alcoólicas. Esta inquietação não evoca aliás, durante nosso desaparecimento, nenhuma
alucinação visual terrificante, ela nos parece mesmo diminuir espontaneamente para dar lugar
a uma apatia misturada com alucinações microscópicas” (Clérambault, 1909/1942a, p. 176).
88
39
O paciente usava o termo espermatorreia para fazer referência a essas ejaculações involuntárias.
89
rara renovação, na opinião de Clérambault seriam devidas a três razões: “autonomia muito
grande do sistema sensorial, provocação ilusória, auto-sugestibilidade muito fraca”
(Clérambault, 1909/1942a, p. 181). Quanto ao fato delas terem se apresentado mais na claridade
do que na obscuridade, para Clérambault essa característica não se devia às mesmas razões.
Existia um outro grupo de alucinações que se produzia quase que exclusivamente na
obscuridade. Seriam alucinações maiores, ocupariam espaços mais largos e profundos, além de
serem fantasmagóricas.
Um terceiro grupo seria aquele no qual as imagens se apresentariam mais vagas e
ocupariam basicamente o pensamento do paciente. É como se o paciente falasse com convicção
de uma cena, sem necessariamente estar contemplando essa cena. Traduziam-se através das
expressões de certeza do paciente. Por exemplo, com certeza existia uma pessoa atrás de uma
parede. “Elas são, que nos permitam dizer, o resultado de um onirismo ideativo enquanto as
imagens precedentes pertenciam ao onirismo visual” (Clérambault, 1909/1942a, p. 182, grifos
do autor).
Clérambault destacou que as ilusões se apresentavam com uma abundância e com uma
acuidade nos usuários de cloral e não, pelo menos nesse grau, nos alcoolistas e nos
cocainômanos. Outro fator que mereceu destaque foi que os pacientes usuários de cloral
reconheciam as suas ilusões como tais. Clérambault fornecia essa garantia pelo uso frequente
do verbo parecer, entre os seus pacientes: elas me parecem, me pareceu, etc.
Em resumo, Clérambault distinguiu duas ordens de imagens: as maiores – que
proporcionavam ao paciente a convicção de que estariam contra ele – e as menores – que
geravam no paciente apenas um interesse visual. Em relação a luminosidade, as visões eram
mais rarefeitas na obscuridade do que na luminosidade.
Essas alucinações, ao contrário das visuais, quando surgiram, foram muito pouco
abundantes. Quando o paciente vivenciou aquela série de alucinações visuais inquietantes, as
vozes não lhe pareceram fazer nenhuma espécie de companhia. Todos aqueles personagens
observados pelo paciente, além de terem trocado pouquíssimas frases diretamente com ele, em
nenhum momento se apresentaram gritando ou lhe fazendo algum tipo de censura. Quando ele
fazia alguma referência a esses personagens, dizia que os mesmos lhe pareciam fazer entender
uma coisa ou outra, nunca disse que eles falavam diretamente com ele ou lhe davam alguma
ordem específica. Se houve alguma manifestação de hostilidade ou de insulto por essa via
91
alucinatória, ela foi muito vaga e imprecisa. Nas raras situações em que esse tipo de vivência
pudesse ser descrito como de característica alucinatória, Clérambault se viu tentado a dizer que
se tratava muito mais de coisa pensada do que propriamente escutada. Em sua opinião,
fenômenos alucinatórios auditivos “são frequentes nos onirismos diversos e nos estados
melancólicos” (Clérambault, 1909/1942a, p. 183).
O paciente René H..., no curso de suas internações, seja na Enfermaria especial, seja no
Hospital Sainte-Anne, não apresentou nenhuma crise de ansiedade que não conseguisse ser
revertida ou contornada através de uma abordagem verbal, por exemplo. A ansiedade também
não foi responsável por nenhum episódio de agitação psicomotora nem contribuiu para
multiplicar as alucinações vivenciadas. Clérambault fez menção aos quadros de panfobia, aos
raptos alcoólicos e às grandes crises melancólicas ansiosas, nos quais a ansiedade presente tinha
se mostrado de difícil controle ou na base desses estados patológicos. E complementou dizendo
que todos aqueles que puderam, alguma vez, ter assistido algum paciente em qualquer desses
estados, teriam que admitir que, caso alguma ansiedade tenha sido percebida ali, ela teria que
ser necessariamente considerada como uma manifestação benigna.
Perturbações gustativas se fizeram presentes, sobretudo quando o paciente se queixou
de gosto metálico na boca. Para o próprio paciente, esse gosto foi devido ao cloral e não ao
brometo. No campo olfativo, são vários os odores manifestados pelo paciente – são gases
asfixiantes, odores explosivos. As perturbações olfativas pareciam, inclusive, superarem as
gustativas.
A perturbação do tato era ainda mais evidente. Na ausência de luminosidade, o paciente
tocava e sentia objetos que sequer existiam, como por exemplo, o boné na cabeça do médico.
Nesse mesmo cenário, o paciente dizia tocar em pessoas que sequer estavam presentes.
Entre as perturbações sensitivas, Clérambault chamou a atenção para a curiosa
“impressão de presença” (Clérambault, 1909/1942a, p. 184, grifo do autor), na qual o paciente
queixou-se da presença de pessoas que poderiam estar atrás dele, ou terem passado próximo a
ele, ou ainda ter tido a impressão de que havia alguém num determinado espaço escuro, que ele
não via, mas sentia com certeza. Clérambault lembrou que esse tipo de fenômeno, muitas vezes
podia ser encontrado nas pessoas místicas. Nos casos como o desse seu paciente – abuso de
cloral – ousou dizer que “uma impressão desse gênero parece constituída pela adição de
numerosas parestesias infinitesimais, e favorecida pela presença de um sentimento forte (aqui,
92
o temor)” (Clérambault, 1909/1942a, p, 184). Esses distúrbios foram encontrados com muita
frequência também nos pacientes cegos delirantes persecutórios e nos mais diversos quadros de
onirismo. Com relação às pessoas cegas, Clérambault lembrou da capacidade que elas já
possuíam naturalmente de compensar os seus déficits visuais através de um maior
desenvolvimento de suas habilidades táteis.
Quanto a consciência de enfermidade, Clérambault disse que esse seu paciente
apresentou uma consciência maior do que aqueles pacientes que ele caracterizou como sendo
confusos ordinários. Enquanto o sentimento de mal-estar geral era sentido pelo paciente de
forma intermitente, as perturbações ideativas eram sentidas de maneira quase constante. Os
falsos reconhecimentos também não foram encontrados nesse paciente, fenômeno muito
comum entre os confusos e nos quadros de onirismo.
Uma expansividade verbal também foi percebida de maneira muito clara. Em parte ela
era devida a uma necessidade de obter a simpatia dos outros, no entanto, Clérambault acreditou
que em sua maior parte essa expansividade foi resultante de uma excitação psicomotora. O
paciente demonstrou necessidade de numerar tudo aquilo que percebia, de descrever o que via
e até mesmo de confiar ao outro os seus temores. “O mecanismo não é puramente verbo-motor;
ele é particularmente afetado pela descrição das alucinações, sua elocução é monótona,
frequentemente apática; ele interrompe na obscuridade e também na solidão. Então ele difere
muito da verborreia maníaca” (Clérambault, 1909/1942a, p. 185, grifo do autor).
As duas últimas passagens do Sr. René H... serviram de estímulo para que Clérambault
apresentasse quatro formas de perturbações psíquicas que poderiam ser encontradas nos
pacientes em uso abusivo de cloral, além de ter-se mostrado preocupado em encontrar
fenômenos que pudessem não apenas caracterizá-los mas, sobretudo, diferenciá-los de outras
intoxicações. Como consequência dessas observações podemos encontrar as seguintes
descrições:
40
Chloralique foi o termo utilizado por Clérambault, na língua francesa, para fazer referência aos indivíduos
dependentes do cloral ou que apresentassem quadros psiquiátricos decorrentes de seu uso ou abuso. Houve
muita dificuldade de se encontrar na língua portuguesa uma palavra que pudesse ser utilizada para a sua
tradução. Pensou-se, inclusive, em relacioná-la conforme escrita na sua língua original. Entretanto, foi possível
encontrar em algumas publicações antigas e recentes da língua portuguesa a utilização das palavras chloralico
93
Clérambault disse que a primeira paciente aqui descrita – Paciente I –, apresentou várias
vezes um estado comatoso com a duração de vários dias e de que ela teria saído desse quadro
para entrar num estado mais delirante do que confusional. Para ele os comas provocados pelo
cloral podem surgir em duas situações diferentes: “1º como consequência de ingestão maciça;
2º no período final de um delírio agudo” (Clérambault, 1909/1942a, p. 193). Enfatizou que os
comas provocados pelo cloral são diferentes daqueles provocados pelo álcool e com relação a
este, fez questão de destacar algumas diferenças.
No caso do coma alcoólico, as doses de álcool ingeridas eram geralmente muito grandes
(meio litro ou mais). Após o coma alcoólico, observou-se a persistência de parestesias banais e
câimbras generalizadas. Não foram observados delírios etílicos consecutivos.
Comprometimentos orgânicos mais significativos podem ter subsistidos, tais como uma
hepatite, uma neurite, etc.
Ao contrário, a dose ingerida de cloral pode ter sido mínima para produzir um estado
comatoso que se instalou de forma mais gradual e se pareceu mais com o sono do que com o
colapso.
As células nervosas superiores, conduzidas somente em estado de sono,
permanecem impregnadas mais do que todo o resto do organismo; o delírio das
dores e das parestesias resultarão disso; ainda é preciso observar que essas
e cloralico, tais como: “Se empregarmos doses fórtes (6 a 12 grammas), o somno cloralico ...” (Miranda, 1882,
p. 67); “As crises cessam, as urinas tornam-se mais abundantes, a respiração mais calma e o coma chloralico ...”
(Miranda, 1917, p. 70) e “Os hipnóticos eram divididos em mórficos, lactucicos, brómicos, cloralicos,
hidrogénio (Pereira, 2016, p. 329). Assim sendo, optou-se nessa tese, traduzir o termo chloralique(s) – em
francês – por clorálico(s) ou clorálica(s) – em português.
94
Com relação à segunda situação apontada por Clérambault, ou seja, quando o coma
alcoólico surgiu depois de um quadro de delírio agudo, esse quadro comatoso se manifestava
após oito ou dez dias das últimas consumações de bebida. Daí, a hipótese sustentada por
Clérambault de que a instalação do quadro teria sido consequência de um desgaste orgânico
influenciado pela insônia e pelo delírio. Seria, para ele, um estado auto tóxico consequente do
mau funcionamento dos emunctórios41. Os dados clínicos frequentemente encontrados foram:
abolição de todos os reflexos, miose, negativismo, resistência automática contrastada com a
abolição dos reflexos tendinosos, lábios fuliginosos, anestesia, despertar parcial acompanhado
de subdelírios na imobilidade. O quadro evoluiria para a morte do paciente ou para uma
recuperação muito lenta. “Aqui o ataque afeta uniformemente todo o organismo, incluindo as
células intelectuais, mas estas não estão nem adormecidas como no cloral, nem entorpecidas
como no alcoolismo crônico; elas são ao mesmo tempo excitadas e anestesiadas” (Clérambault,
1909/1942a, p. 194).
Clérambault fazia uma distinção desse quadro delirante poder ser agudo simples ou agudo
confusional. O primeiro reverteria rapidamente enquanto o segundo ocorreria num estado de
cloralismo crônico e seu curso seria, então, mais prolongado. Esse último seria resultado dos
excessos da substância, de sua privação brusca ou da soma dos dois. Ambos evoluiriam com o
paciente se apresentando bastante tranquilo, de maneira geral, entretanto poderiam acontecer
algumas fases de excitação.
Inicialmente, serão apresentadas algumas características do delírio clorálico agudo simples
e que foram descritos por Clérambault em seus vários aspectos:
a) Humor: O sujeito se mostrava sonolento e cansado, mas sem indisposições. Sua negligência
favorecia o aparecimento de imagens e de vozes pouco ou nada inquietantes. Mesmo que a
temática das alucinações pudesse ser considerada dramática, elas eram vivenciadas sem
emoção. Paciente se mostrava bastante comunicativo e logorreico, demonstrando uma
41
Emunctórios, do latim, emunctoriu, é um “órgão ou canal destinado a eliminar certos humores” (Fernandes,
Guimarães, & Luft, 1992).
95
necessidade de ser simpático. Este quadro terminava quando o paciente estivesse só, no entanto,
podia ser provocado e facilmente retornar a ele. “O aspecto físico concorda com o estado moral:
emagrecimento, palidez, lentidão. Nada de sudorese, tremor irregular” (Clérambault,
1909/1942a, p. 195).
b) Alucinações: As alucinações auditivas eram raras e não produziam maiores efeitos no
paciente. As alucinações visuais despertavam mais a atenção desses pacientes. Elas podiam ser
observadas nas suas mais variadas dimensões. As microscópicas, formavam-se em pontilhados
e deslocavam-se sobre a pele, paredes e solo. Clérambault denominou-as pela expressão
pseudo-cocaínicas. Algumas eram pequenas, na forma de insetos, lantejoulas e podiam ser
encontradas em quaisquer intoxicações. Outras eram mais específicas e mediam de 20 a 30 cm,
excepcionalmente um pouco maiores do que isso. Apareciam de forma espontânea e eram muito
curtas. Não se relacionavam a nenhuma ideia. Esporadicamente elas representavam objetos na
suas formas reduzidas. Essas imagens não tinham relevo nem profundidade. Nas descrições dos
pacientes, elas aderiam à parede e Clérambault propôs reconhecê-las como imagens
decorativas. Suas cores eram pálidas e o tom de azul predominava. No entanto, podiam surgir
pontos brilhantes e dourados. Eram vistas no nível dos olhos dos pacientes. “Cada imagem
possui uma curta duração; elas prosseguem frequentemente em séries diferentes, mas nunca em
séries similares; essa renovação sem direção torna possível acrescentar ao epíteto decorativas
o de caleidoscópicas” (Clérambault, 1909/1942a, p. 197, grifos do autor). As alucinações
visuais tendiam a desparecer na ausência de luminosidade.
c) Intelecto e Elocução: Segundo Clérambault, em decorrência da impregnação do seu paciente,
ele se encontrava desorientado. Suas tentativas de explicação eram muito confusas, suas frases
raramente se completavam de maneira compreensível e eram preenchidas com o que
Clérambault preferiu chamar de lapsos. No caso do paciente René H..., em sua segunda
internação, Clérambault disse que esses lapsos eram numerosos. Entre eles, citou como
exemplo: “‘Essas pessoas agiram imediatamente do que se tratava’ para: ‘Essas pessoas
perceberam imediatamente do que se tratava’” (Clérambault, 1909/1942a, p. 190). Um grande
número de alucinações também estava presente. Clérambault dizia que se tratavam de
alucinações apenas pensadas, pois as reconhecia como sendo uma representação com
convicção, mas sem objetividade. Admitiu que esse tipo de alucinação era muito frequente nos
pacientes em seus estados confusionais. As alucinações visuais não eram sugestionáveis, nem
pelas palavras que outros poderiam emitir, nem pelos seus próprios sentimentos. Esta
característica fez com que Clérambault a explicasse da seguinte forma: “os centros sensoriais
são, por assim dizer, muito isolados da ideação (como testemunha o fluxo de imagens
96
O sujeito não se vê rodeado de todos os lados, ele nem sempre está diretamente
ameaçado, os personagens que caem ao longo das paredes e correm para as
janelas são mais misteriosos do que ameaçadores; essas cenas acabarão mal para
ele, ele está certo disso, mas aguardando, ele as contempla e se interessa pelo
auge do gozo que está sendo representado sob a forma de mímica diante dele
(Clérambault, 1909/1942a, p. 199).
Esses personagens se apresentavam para ele, às vezes reduzidos, às vezes bem maiores.
c) Intelecto e Elocução: Diante dos seus personagens imaginários, esses pacientes lhes dirigiam
súplicas racionais, ao contrário dos alcoolistas que simplesmente os chamariam ou pediriam
socorro. Eles também não se apresentaram em maiores estados de panfobias.
97
Clérambault observou que o fato desse tipo de manifestação apresentar uma duração
média, era a forma de delírio clorálico que mais se aproximava do delírio alcoólico agudo
simples. Descreveu que esse tipo era “aquele que, distinto da embriaguez pela ausência de
sintomas maníacos, com aspecto mais ideativo, pela riqueza do onirismo, pela duração, nasce
num fundo de cronicidade sem impregnação muito profunda” (Clérambault, 1909/1942a, p.
205). Esses pacientes se apresentavam mais torporosos, deprimidos e hesitantes, praticamente
sem perturbações cutâneas. Não foram observados fenômenos visuais com características
especiais e os seus onirismos eram mais organizados e dramáticos. A ansiedade observada foi
mais intensa e não foram evidenciadas perseguições. As ilusões eram muito abundantes,
sobretudo as visuais, através das quais os pacientes mostravam objetos em movimento. As
sensações de que existiam pessoas presentes no ambiente em que estavam eram muito
frequentes. As visões possuíam uma coloração nebulosa na qual predominava a tonalidade
azulada e os pacientes as contemplavam. Mesmo que esses pacientes se apresentassem agitados,
eles eram mais dóceis e demostravam mais teimosia do que propriamente raiva. “Ele
experimenta também o que podemos nomear alucinações pensadas, isto é representações ou
impressões auditivas tão fragilmente objetivadas, que não se pode saber se se trata de
suposições simples ou de percepções errôneas” (Clérambault, 1909/1942a, p. 206, grifo do
autor). Esses fenômenos puderam ser encontrados também entre os melancólicos e eram muito
menos frequentes entre os alcoolistas.
O clorálico se apresentou bem mais desorientado no tempo e desconhecia mais
facilmente as pessoas do que o etilista. A apresentação de lapsos foi muito mais frequente em
sua elocução. Ele falava com prazer sobre qualquer tema, mas sem sucesso naquilo que narrava.
Ao experimentar as suas visões, os usuários do cloral tenderam a permanecer mais em
seus leitos. Multiplicavam-se mais facilmente na claridade. Quanto aos tremores apresentados,
para um mesmo grau de agitação, eram mais acentuados neles do que nos alcoolistas.
98
Caso surgisse algum tipo de confusão, ela podia se dissipar mais rapidamente do que
nos alcoolistas, desaparecendo em algumas poucas horas.
Clérambault resumiu as diferenças apresentadas entre os dois tipos de paciente abaixo
citados da seguinte forma:
2.3 Éter
O éter é um produto químico orgânico que pode ser consumido através de inalação,
ingerido por via oral ou até mesmo ser aplicado através de injeções. O seu descobrimento é
motivo de muitas controvérsias. Há uma hipótese de que ele teria sido descoberto por um
filósofo árabe chamado Jabir ibn Hayyan no século VIII e uma outra de que sua descoberta teria
acontecido no século XIII através de um químico europeu chamado Raymundus Lully.
Paracelso preparou e testou esse composto em galinhas no século XVI ressaltando seus efeitos
sobre a consciência.
Nos dois séculos seguintes essa substância passou a ser comercializada para
alívio da dor. Devido aos seus efeitos sobre a consciência, o éter também se
tornou uma droga recreativa importante na Inglaterra e na Irlanda, bem como na
América, onde eventos festivos em grupos usando éter eram chamados de “bailes
de éter” (Hansen & Ortega, 2017, p. 4).
100
Segundo Postel (2011), na França a utilização do éter, sobretudo pela via inalatória,
tornou-se restrito ao meio literário e entre os seus adeptos podem ser citados Guy de
Maupassant e Jean Lorrain. Após o seu consumo, a embriaguez etérea acontecia muito
rapidamente e entre os seus principais efeitos podiam ser encontrados a sensação de vibração,
a euforia e os fenômenos alucinatórios confuso-oníricos. A sua tolerância era rápida e em doses
mais elevadas podia produzir convulsões e coma. Seu uso contínuo podia provocar dependência
psíquica e física. Entre os sintomas de abstinência provocados pela sua dependência física
encontravam-se as dores abdominais e as câimbras.
O número significativo de consumidores de éter que comparecia à Enfermaria especial
e o pequeno número de trabalhos publicados até então sobre os transtornos mentais nos
indivíduos intoxicados pelo éter fizeram com que em 1910 Clérambault publicasse um artigo
original com a apresentação de quatorze pacientes usuários abusivos da substância. Entre eles,
encontravam-se aqueles que apresentaram ataques epileptiformes, delírios, delirium, quadros
de embriaguez com ansiedade e agitação, histéricas e vários pacientes considerados por ele
como sendo degenerados. Entre os casos apresentados, destacou-se o de um paciente de 25 anos
de idade chamado Charles W..., descrito por Clérambault como tendo sido um caso de
Eteromania presente num paciente perseguido com agitação violenta e agressividade. Sobre ele,
escreveu:
Esse recorte faz referência ao automatismo mental de uma maneira bem mais
aproximada àquela que somente alguns anos mais tarde Clérambault viria efetivamente
estruturar. As referências ao automatismo em seus trabalhos sobre o alcoolismo e o cloralismo,
quando surgem, podem ainda ser consideradas bastante incipientes.
101
42
Clérambault considerou depressão física no caso de uma mulher que apresentou sintomas depressivos por
ocasião de sua menopausa; uma depressão moral no caso de uma mulher inteligente, instruída, mas
desequilibrada e que se entrega ao éter por ocasião de uma sequência de desgostos; e, por fim, física e moral
no caso de uma paciente sifilítica e tuberculosa, quadro este agravado por uma solidão moral e
frequentemente absoluta.
43
Os fenômenos exemplificados por Clérambault como sendo degenerativos foram a obsessão, a cleptomania
e os tiques histéricos.
44
Caso descrito por Clérambault de uma paciente que ele considerava portadora de folie intermitente avec
double forme – poderíamos considerar hoje como um transtorno bipolar do humor – e na qual o éter teria
desempenhado um importante papel na formação dos delírios (delírio polimorfo com predominância de
excitação e angústia).
45
Sintomas descritos na citação anterior.
102
considerada incomum no seu entorno. Clérambault dizia que alguns de seus pacientes
conseguiram esconder esse hábito por muito tempo.
Num estado de êxtase verdadeiro, o paciente era percebido como um indivíduo de fácies
congesta e um olhar neutro num corpo flácido. Facilmente essa embriaguez superficial poderia
mudar de forma e tornar-se excito-motora. Nesse caso, o paciente apresentou agitação,
hilaridade, agressividade e desorganização motora, podendo apresentar todos esses sintomas
em conjunto ou apenas alguns deles.
mal-estar. A excitação sexual também foi encontrada em alguns pacientes durante esse
estado.
b) Delirium tremens etérico: o éter podia provocar um verdadeiro quadro de delirium
tremens, com características muito semelhantes àquelas encontradas entre os
alcoolistas. O conteúdo dos delírios era de aspecto tóxico com períodos de acalmia no
curso do delírio e seguido de um rápido desaparecimento. As alucinações apresentadas
por esses pacientes eram, sobretudo, as visuais com a característica de serem menos
abundantes, menos móveis e mais descontínuas, se comparadas ao mesmo quadro
apresentado pelos alcoolistas. Os pacientes, muitas vezes, se apresentavam mais
excitados do que propriamente assustados ou alucinados. Essa última característica fez
com que Clérambault levantasse a possibilidade de “que os centros sensoriais fossem
aqui menos férteis e menos sugestionáveis do que sob a influência do álcool”
(Clérambault, 1910/1942, p. 234, grifo do autor). Alucinações auditivas aconteceram
em número bastante reduzido em relação às visuais. O delírio alucinatório também
surgiu em alguns casos, cujas ideias delirantes estavam na base de suas ansiedades. Essa
característica lhe permitiu afirmar que o eterômano se mostrava ansioso, sentia-se forte
e se mostrava menos assustado pela sua vivência alucinatória. Também foi constatado
neles uma menor sudorese do que nos alcoolistas e uma maior sensação de fome. Sua
necessidade de movimentação era frequente. Observou que alguns pacientes
apresentaram uma crise motora que foi definida por Clérambault como sendo pura por
não ser acompanhada de onirismo. Um de seus pacientes, nesse estado, permaneceu no
chão e se pôs a morder e a quebrar. Essa condição foi definida por Clérambault pelo
nome de loucura muscular. Esse quadro deveria também ser entendido como parte
integrante do delírio alucinatório ou como parte de um ataque convulsivo que muitos
desses pacientes também apresentavam, em consequência da ingestão do éter. Em
relação à sua duração, o delirium etérico tem por característica terminar de forma muito
mais rápida do que o seu correspondente entre os alcoolistas. Na maioria das vezes, uma
noite de sono foi suficiente para que os pacientes já acordassem em mais tranquilos.
c) Os ataques no eterismo: Crises convulsivas foram frequentemente observadas entre
esses pacientes. A aura, o estado crepuscular e os sintomas confusionais propriamente
ditos normalmente estiveram ausentes antes e depois do delírio alucinatório. Tais
observações fizeram com que Clérambault concluísse que o éter era uma substância
pouco inclinada a produzir um estado de confusão. O éter produziu crises de agitação
psicomotora com muita frequência nos pacientes observados e elas caracterizavam-se
105
Nas descrições de Clérambault, a embriaguez etérea, em seu início, era apenas eufórica.
No entanto, no que ela ia se aprofundando, ela se tornava estênica46 e tão logo hostil. O quadro
inicial era, portanto, um verdadeiro estado de mania com o paciente apresentando ideorreia,
logorreia, hipervigilância e uma mordacidade característica.
Sobre o aparelho respiratório o éter podia exercer uma ação estimulante ou inibidora.
Havia um aforismo conhecido em sua época de que no curso da eterização, o grande risco
incidia sobre o sistema respiratório e não sobre o coração. Quando ocorria a morte, por exemplo,
num ato cirúrgico, ela era consequência de uma parada respiratória.
Quanto a sensibilidade periférica, algumas paresias foram relatadas por observadores,
assim como dormências e sensação de calor. Muitas vezes os pacientes queixavam-se de que
suas peles davam a sensação de estarem vazias e, como consequência desse fato, seus corpos
pareciam-lhes mais ligeiros.
A redução e até mesmo a abolição da dor era uma característica que deixou os primeiros
experimentadores impressionados com os pacientes em uso de éter. Essa característica fez com
que Clérambault citasse um relato de Moreau de Tours47, em 1847, acerca de uma sensação
anestésica que ele vivenciou com o éter. Ele disse que se tratou de “uma analgesia especial,
diferente da hipoalgesia e consistindo em uma dor percebida, mas não assimilada, como na
sequência de um estado de distração” (Clérambault, 1910/1942, p. 241, grifo do autor).
Acrescentou ter havido o aparecimento de uma sonolência após a sensação de analgesia
absoluta. Quanto ao efeito anestésico produzido pelo éter nos procedimentos cirúrgicos, ele era
considerado mais curto do que aquele provocado pelo clorofórmio.
A motricidade desses indivíduos também sofria alterações. Uma sensação de trepidação
era sentida pelo paciente desde o início de sua embriaguez que, segundo Clérambault seria um
46
Estenia em medicina refere-se a um estado de atividade, de força. Trata-se portanto de uma exaltação do
vigor orgânico (Fernandes, Guimarães, & Luft, 1992).
47
Jacques-Joseph Moreau (1804-1884), mais conhecido como Moreau de Tours, foi um psiquiatra francês e
considerado o primeiro médico a fazer um trabalho sistemático sobre o efeito das drogas sobre o sistema
nervoso central, além de catalogar, analisar e registrar todas as suas observações (Berrios & Porter, 2012).
106
sinal de uma irritação muscular desarmoniosa. O paciente também fazia referência, na maioria
das vezes, a sensação de uma potência muscular exacerbada, o que podia ser verdadeiro ou não,
mas que seria a responsável por grande parte de seu comportamento agressivo. Essa sensação
também foi encontrada nos pacientes maníacos. Um sinal de diferenciação apontado por
Clérambault em relação a essas alterações excito-motoras apresentadas pelos pacientes em
estados de embriaguez etérea e pelos epilépticos era o fato de que as fases motoras e delirantes
apresentadas pelos últimos eram bem mais distintas do que aquelas apresentadas pelos
primeiros. Dessa forma, o ataque epiléptico, a embriaguez excito-motora e o delirium tremens
existiriam aqui numa relação de continuidade. A graforreia48 também foi encontrada em uma
das pacientes examinadas por Clérambault. Esse fenômeno foi por ele associado, à ideorreia
por um lado e, de outro lado, ao que ele chamou de uma “subexcitação motora contínua
vibratória, fibrilosa” (Clérambault, 1910/1942, p. 242).
Na esfera sexual foi percebido uma excitação erótica, principalmente nas mulheres,
embora houvesse relato de uma excitação sexual presente também nos homens. Sonhos eróticos
também foram descritos por alguns pacientes como consequência dos quadros de embriaguez.
No que tange à comparação com outros tóxicos, Clérambault considerou que o
clorofórmio era a principal substância a ser verificada. Nesse sentido, para ele a embriaguez
clorofórmica tornava o paciente menos logorreico, menos agressivo e com uma maior
abundância de elementos sensoriais, principalmente sobre o paladar, o odor e a audição. Ao
contrário do éter que influenciava mais acentuadamente o campo respiratório, o clorofórmio
agia mais sobre o coração.
Por fim, todas as características que foram aqui apresentadas como decorrentes da ação
do éter sobre o psiquismo, em graus diversos poderiam ser também observadas em outros
estados tóxicos. No entanto, para Clérambault as diferenças de ação dos variados tóxicos era
uma consequência direta das suas preferências de ação sobre sistema nervoso. Escreveu,
48
Henri Ey (1981) registrou que a linguagem falada e escrita pode apresentar em alguns estados psiquiátricos –
na mania, por exemplo –, um fluxo contínuo de palavras e frases mal encadeadas e rápidas fazendo surgir os
fenômenos conhecidos por logorreia e graforreia.
107
Segundo Pereira (1999), Clérambault defendia que o grupo das psicoses paranoicas deveria
ser dividido em dois subgrupos: o subgrupo das Psicoses Passionais, cujos representantes
seriam os pacientes com delírios erotomaníacos, de ciúme e de reivindicação; a outra categoria
seria representada pelos pacientes com os delírios de interpretação. Esses últimos seriam
caracterizados por um sentimento de desconfiança difuso e generalizado e que caracterizaria,
enfim, o caráter paranoico.
A Erotomania, em particular, recebeu por parte de Clérambault uma atenção toda especial,
sobretudo no sentido de afirmar sua autonomia em relação à paranoia. Essa tomada de posição
o levou a envolver-se em discussões acaloradas e fez com que Henri Ey, posteriormente, o
distinguisse por seu “nosografismo” de estrita observação (Ey, 2006b). O tema da Erotomania,
depois de sua morte, foi acolhido pela psiquiatria francesa, assim como pela psiquiatria anglo-
saxônica, fazendo com que psiquiatras de várias nações se dedicassem a ele.
Berrios & Kennedy (2002) descreveram quatro convergências históricas no que diz respeito
às descrições médicas da Erotomania. A primeira, que imperou desde os tempos clássicos até o
início do século XVIII, descrevia a Erotomania no contexto de um adoecimento generalizado
causado por um amor não correspondido. Aqui, o termo doença deveria ser compreendido no
sentido mais amplo possível, incluindo todos os tipos de queixas, inclusive físicas. Após esse
período e até meados do século XIX, a Erotomania passou a ser compreendida como sinônimo
daquilo que atualmente se designa como ninfomania, referindo-se a um desejo e a uma prática
sexual compulsiva e excessiva. Seguiu-se a esse período, uma terceira convergência que durou
mais ou menos um século e que compreendeu a Erotomania como um distúrbio especificamente
mental resultante de um amor não correspondido. Por fim, uma quarta convergência, que dura
até os dias de hoje, define a Erotomania como a crença delirante de ser amado por outra pessoa.
Nessa intervenção, Clérambault descreveu o caso de uma mulher que se apaixonou por
um eclesiástico em detrimento de suas características sacerdotais. Essa mulher amava também
vários outros padres de maneira contínua. Ela acreditava ser o objeto de crescentes lisonjarias
enquanto era justamente dela de quem partia tais reverências. “Ora, nossa paciente é
simplesmente uma mulher de vida fácil, tendo como mantenedor um padre” (Clérambault,
1913/1942b, p. 311). Por se tratar de uma abordagem bastante inicial e na qual Clérambault
ainda dava os seus primeiros passos no sentido de construir um grupo nosológico todo próprio,
ele colocou em dúvida, nesse momento, se a paciente apresentava um delírio erotomaníaco puro
ou se se tratava de um sistema ilusório mais amplo em uma paciente portadora de uma
personalidade histérica.
Alguns fatores interessantes foram assinalados. Em primeiro lugar, de que não se tratava
de uma mulher que pudesse ser considerada como uma religiosa, até pelo fato de que ela jamais
teria conversado sobre religião com aquele padre. Esse detalhe fez com que Clérambault
deduzisse que ela não deveria ter manifestado, anteriormente, nenhuma grande afeição por ele.
Em segundo lugar que, nos dizeres de Clérambault, “ela não nos parece ser unicamente
perversa49” (Clérambault, 1913/1942b, p. 312). Preferiu considerá-la como tendo sido uma
reivindicadora e que as suas reclamações tinham por base um delírio imaginativo. Após os
numerosos interrogatórios, Clérambault confessou a sua dúvida de não saber se estaria lidando
49
Segundo Massara & Pinto (2010), o discurso vigente no século XIX entre os alienistas franceses no que diz
respeito às perversões foi substituído pelos discursos jurídico e teológico com objetivos de regular e classificar
tudo aquilo que, na conduta das pessoas, não era efetivamente conhecido e que fugindo às normas
preestabelecidas colocavam em risco a sociedade. Compreendeu assim que o trabalho de Clérambault na
Delegacia de Polícia de Paris o colocava numa posição um tanto quanto incômoda, pois os encaminhamentos
dos pacientes que recebia eram acompanhados por uma demanda jurídica em detrimento dos delitos
cometidos. A expressão “mulheres perversas” fora utilizado por Clérambault, sobretudo por ocasião das
pacientes que teve a oportunidade de examinar em consequência dos furtos de seda seguidos de onanismo.
Clérambault via na realidade psíquica dessas mulheres traços de fetichismo. No entanto, Clérambault tinha
conhecimento de que o conceito de fetichismo em psiquiatria não se aplicava às mulheres, conforme afirmou
que “os autores clássicos dizem unanimemente que o fetichismo ainda não foi constatado nas mulheres”
(Clérambault, 1908/1942, p. 715). Mas, nem por isso, deixou de relacioná-lo à conduta dessas mulheres. Em
algumas passagens chegou a fazer referência à possibilidade de uma perversão especial nas mulheres.
109
com uma paciente que apresentava uma convicção permanente, ou com uma concepção
transitória ou, ainda, com alguém que mentia incondicionalmente. A atitude da paciente
enquanto esteve na Enfermaria foi, para ele, a de uma histérica.
Essas dúvidas não o impediram de concluir esse seu certificado da seguinte forma:
Nesse mesmo ano, em março de 1913, Clérambault apresentou outro caso, desta vez o
de um paciente do sexo masculino, através de sua comunicação intitulada Delírio de
perseguição de início erotomaníaco50. Tratava-se de um caso em que o paciente desenvolveu
um delírio de perseguição no qual ele manifestava, com alguma frequência, dúvidas em relação
a uma crença absoluta no delírio, além de, em muitas ocasiões ter apresentado também uma
certa consciência do mesmo. Essa consciência podia ser observada quando o paciente, em seu
trabalho, não conseguia exercer autoridade sobre os seus subordinados, tornando-se também,
muitas vezes, motivo de chacota por parte dos mesmos. Nesses momentos, sentindo-se
perseguido por essas pessoas, dizia espontaneamente que só poderia estar sofrendo da doença
da perseguição. Pelo fato de se tratar também de um paciente etilista, em certa ocasião, após
uma bebedeira, foi à delegacia de polícia pedir proteção por estar à beira do suicídio devido às
perseguições que vinha sofrendo há anos. Na Enfermaria especial, negou tais ideias de suicídio
(Clérambault, 1913/1942a).
Clérambault relacionou algumas características que ele teria considerado relevantes no
comportamento desse paciente e nos delírios por ele vivenciados. Afirmou que se tratava de um
sujeito muito humilde, ao contrário dos paranoicos clássicos, sempre disposto a pedir desculpas
50
No Boletim da Sociedade Clínica, esse artigo foi publicado originalmente com o título de Interpretações
delirantes com consciência da doença. Início ambicioso. Episódio amnésico. Traumatismo cefálico na infância.
(Apresentação de paciente).
110
e a fazer autoacusações. Além da consciência que muitas vezes apresentava com relação aos
seus delírios, o paciente não tinha em seus antecedentes, características paranoicas, ou seja,
nunca demonstrou ser um indivíduo desconfiado. Fez questão de diferenciar seus delírios
quanto aos aspectos imaginativos e interpretativos, caracterizando-os entre os primeiros,
conforme detalhado logo abaixo.
A fase erotomaníaca, que precedeu o aparecimento dos delírios persecutórios, foi
considerada por Clérambault como tendo sido atípica por suas características. O indivíduo se
mostrava otimista e ambicioso e não tinha plena convicção de estar sendo amado. Essa fase
ocorreu num momento em que o paciente acabara de sair de uma separação depois de ter sofrido
profundas decepções conjugais com a sua esposa. Residindo sozinho, sentiu-se amado por duas
mulheres jovens que moravam no mesmo condomínio. Após muita insistência para conseguir
conversar com a mãe dessas jovens, conseguiu estabelecer o contato, mas foi informado por ela
de que as suas filhas eram comprometidas. Ele disse ter entendido, não insistiu na continuidade
da relação e declarou que a partir daquele momento estaria tudo acabado entre eles.
Clérambault já demonstrava nesse momento alguma preocupação para com as possíveis
distinções entre o delírio erotomaníaco e o caráter paranoico. Ainda que nesse momento o
estabelecimento dessa distinção pudesse ser considerado incipiente, Clérambault já acenava
para as características de ordem mais imaginativa do que interpretativa no delírio apresentado
por esse seu paciente. E assim escreveu:
Existe uma ligação, em nossa opinião, pelo menos entre dois desses dados. Os
imaginativos são na maioria das vezes otimistas: o que nós encontramos na
psicologia atual e, no campo delirante, são especialmente as concepções
ambiciosas que os processos imaginativos favorecem. É para nós um fato da
experiência. Nesse caso, nosso paciente era otimista e ambicioso (na forma
erotomaníaca) logo no início da doença. Por outro lado, nos perseguidos, o
predomínio imaginativo restringe sempre ao mínimo o sentimento de hostilidade
e a tendência às reações; parece que os perigos revelados ao sujeito apenas pela
imaginação são menos urgentes do que os revelados por outros meios; o ódio
nunca atinge neles a intensidade que ele apresenta nos Sistemáticos completos,
ou nos Reivindicadores. A forma deste delírio foi, portanto, mais favorável do
que um outro para o desenvolvimento do sentimento de humildade; mas ela não
poderia explicar sua existência. Esse sentimento resulta do fundo do próprio
sujeito (Clérambault, 1913/1942a, p. 321).
intensidade dos sentimentos apresentados pelos representantes dos dois grupos. E concluiu que
a psicose do paciente em destaque teria tido a sua origem em um cérebro que ele considerava
duplamente inválido, ou seja, tratava-se de um paciente “ao mesmo tempo degenerado e
cerebral51 no sentido de Lasègue” (Clérambault, 1913/1942a, p. 322).
Com relação às origens desse delírio, Clérambault não o associou inteiramente ao
álcool, reconhecendo-o como próprio do sujeito. A partir dessa constatação, Clérambault se
perguntou então se o delírio teria uma origem psicogênica. Para ele a tese psicogênica tentaria
se sustentar através das preocupações testemunhadas pelo sujeito em relação a sua solidão, ao
seu desapontamento sentimental, à sua concentração voltada apenas para si mesmo além de
outros dados que pudessem ser encontrados em sua história de vida pessoal. Sobre essa
possibilidade escreveu:
Nós não acreditamos nessa tese. Ela não explica nem o grau de erro nem as
formas especiais do humor; ela explicaria integralmente apenas uma depressão
melancólica. Aqui como nos casos habituais do delírio de perseguição, a
falsificação dos mecanismos intelectuais deve ser primitiva. As preocupações
habituais ou circunstanciais forneceram apenas temas ideicos para serem
implementados (Clérambault, 1913/1942a, p. 322).
O interesse de Clérambault pelo assunto persistiu e, em 1920, ele apresentou num artigo
dedicado às psicoses passionais, o caso de uma mulher francesa que apresentava a convicção
delirante de que o rei inglês George V era apaixonado por ela (Clérambault, 1920/1942b). O
certificado de internação dessa paciente foi redigido por Clérambault em 04 de dezembro de
1920 da seguinte forma:
51
Lasègue defendia a teoria de que o delírio de perseguição era produto de uma lesão cerebral e consequente
lesões do córtex cerebral. A anatomia patológica e a fisiologia normal estavam entre os seus objetivos de
estudo assim como no de todos os seus contemporâneos (Pereira, 2015).
112
52
Segundo Guimarães, Fernandes, & Luft (1992), tratava-se de uma doença infectocontagiosa do cavalo e do
asno, transmissível ao homem, sendo causada por um bacilo que produz ulcerações na mucosa das fossas
nasais.
113
No ano seguinte, em 1921, Clérambault deu mais um passo no sentido de isolar o delírio
erotomaníaco e melhor sistematizar o que ele chamou de Postulado Fundamental. Ele afirmou
então que o delírio erotomaníaco caracterizava uma síndrome da paixão mórbida e que não se
tratava de um delírio interpretativo. “Os delírios interpretativos têm por base o caráter
paranoico, em outras palavras um sentimento de desconfiança” (Clérambault, 1921/1942d, p.
337). Ao contrário, as síndromes passionais se caracterizavam pela sua patogenia, pelos seus
ingredientes, pelos seus mecanismos, por sua extensão e pela sua tonalidade, até certo ponto,
114
hipomaníaca. Elas também seriam autônomas e puras, embora, às vezes, pudessem ser
acompanhadas de outros delírios.
De maneira mais diligente, Clérambault afirmava, então, que o delírio erotomaníaco
desenvolvia-se em três fases distintas: a fase da esperança, a fase do despeito e a fase do rancor.
Nesse momento descritivo, Clérambault aproveitou mais uma vez para realçar a natureza das
suas entrevistas psiquiátricas ao afirmar que “interrogando tais pacientes, não basta questioná-
los, é preciso ainda acioná-los” (Clérambault, 1921/1942d, p. 338, grifo do autor). A posição
passiva e de escuta do psiquiatra não lhe parecia suficiente para que os pacientes pudessem
trazer à luz todo o material que escondia dentro de si.
Destarte, os componentes do sentimento gerador do Postulado passariam a ser
representados a partir de agora pelo orgulho, pelo desejo e pela esperança. O Postulado
Fundamental ficou então organizado a partir da expressão de que “é o objeto que começou e
que ama mais ou que ama sozinho” (Clérambault, 1921/1942d, p. 338, grifo do autor) e, do
qual mais especificamente derivariam os seguintes temas, considerados por ele como sendo
evidentes: 1) o objeto não pode ter felicidade sem o pretendente; 2) o objeto não pode ter um
valor completo sem o pretendente; 3) o objeto é livre e o seu casamento não é válido.
A partir daí, outras derivações temáticas poderiam surgir e não necessariamente teriam
todas que se apresentarem reunidas ao mesmo tempo. Citou assim o fato de os pacientes
manterem o objeto sob uma constante vigilância e sob uma proteção contínua deles próprios.
Acreditavam também que o objeto faria vários trabalhos para abordá-los, mantendo com os
pacientes erotomaníacos conversas indiretas e possuindo para isso recursos fenomenais. Esses
pacientes também acreditavam que os seus romances despertariam nas demais pessoas uma
simpatia quase universal apesar da conduta paradoxal e contraditória, muitas vezes
demonstradas pelo objeto, já que no seu cotidiano ele não dava provas reais daquilo que os
erotomaníacos reiteravam. Essa última característica teve para Clérambault uma importância
fundamental.
alucinatórios, com ou sem demência. Porém, se essas situações ocorressem, elas deveriam ser
compreendidas no contexto dos casos mistos.
Por fim, Clérambault procurou estabelecer alguns contrastes que poderiam ser estabelecidos
entre um paciente considerado delirante passional e aqueles indivíduos que pudessem se
apresentar apenas como apaixonados infelizes, sendo estes incluídos entre as pessoas
consideradas normais. O Postulado Fundamental deveria ser a grande ferramenta utilizada para
que essa imprecisão não se estabelecesse. Assim descreveu:
Em relação ao grande número casos mistos encontrados, acrescentou que os seus inícios
eram marcados por um quadro de erotomania. Entretanto, neles a síndrome erotomaníaca podia
aparecer no decorrer de um delírio interpretativo ou mesmo no de um delírio polimorfo. Quanto
às características desses delírios, no que diz respeito ao seu aspecto imaginativo ou passional,
registrou que quanto maior fosse a contribuição imaginativa, menor seria a contribuição
passional e vive versa.
Nas discussões relacionadas ao caso de uma Erotomania pura, Clérambault não poupou
críticas aos relatórios apresentados pelos médicos peritos que foram expedidos em relação a
essa paciente apresentada. Essas críticas não foram, de fato, admitidas por Clérambault como
tais. Dispôs-se a enobrecer o nível de qualificação técnica dos médicos peritos, defendeu-se de
que as publicações feitas por ele reproduzindo os detalhes dos exames periciais assinalados não
se tratavam de críticas e sim de que seu único intuito era o de chamar a atenção da comunidade
científica de sua época para o quanto um caso típico de Erotomania poderia ser mal interpretado
e por inúmeras razões. A paciente, objeto de toda essa polêmica, apresentou várias internações
em decorrência das perturbações de ordem pública, conflitos com vizinhos e apresentação de
um delírio erotomaníaco dirigido a um funcionário da delegacia de polícia. O tom crítico
apareceu, sobretudo, quando Clérambault queixou-se de que, em nenhum momento, os médicos
peritos dessa paciente se dispuseram a ler os certificados emitidos, tanto por ele quanto pelos
demais médicos que assistiram a paciente, em todas as suas internações. Queixou-se também
de os peritos não terem manifestado interesse em ouvir as várias testemunhas que se dispuseram
a fornecer detalhes e informações sobre a paciente, que muito auxiliaram nas suas conclusões
e nas dos diversos médicos assistentes que a acompanharam também. Apelou para que os seus
comentários pudessem ser acolhidos, em primeiro lugar, como advertência para o grau de
desconhecimento que se tinha, até então, acerca do delírio erotomaníaco e depois, pela
118
sua época para a possibilidade de existência de um número bem maior desses quadros e também
para que os seus registros pudessem estar sendo subdimensionados.
Além disso, fez mais um alerta. Muitos pacientes erotomaníacos e querelantes corriam
o risco de serem interpretados ao pé da letra por seus médicos assistentes. Diante dessa suposta
indignação, muitos profissionais insistiam em compreender essa fase como uma mera
consequência de despeito amoroso e, assim, mais uma vez estariam desconsiderando um
importante quadro mórbido.
Ainda em 1921, Clérambault levou para uma sessão clínica na Sociedade Clínica, um
paciente do sexo masculino que fora internado na Enfermaria especial e que fora também
tratado por ele como uma caso de Erotomania pura. Tratava-se de um paciente de 34 anos,
divorciado e cujos sintomas apareceram após ter retornado de sua participação na Primeira
Guerra Mundial. Clérambault aproveitou esse momento para ratificar a série de construções
que já havia feito sobre a Erotomania, relacionadas ao seu postulado, ao fato de o elemento
gerador do delírio ser consequência da tríade afetiva composta pelo orgulho, a esperança e o
amor e, sobretudo sobre a prevalência do sentimento de orgulho sobre o amor.
Esse paciente desenvolveu um delírio megalomaníaco pela ex-mulher, depois de ter-se
divorciado dela. Apoiando-se nesse detalhe, Clérambault tentou desconstruir a ideia vigente
entre aqueles que viam no platonismo um aspecto fundamental para a edificação do delírio
erotomaníaco. Nesse caso, o objeto era a mulher que o sujeito já havia possuído. Tratava-se
também de uma mulher do mesmo nível social do paciente, o que rompia, pelo menos em
princípio, com a convicção vigente de que o objeto deveria, necessariamente, ser de um nível
social superior ao do paciente. No entanto, apontou para o fato de se tratar de uma mulher
jovem, bonita, possuidora de uma profissão – por ocasião de uma das separações do casal,
voltou a morar com os pais e foi empregada em uma loja de departamentos –, refinada em seus
costumes, pertencente virtual de uma casta social burguesa, não se constituindo, por sua
aparência e discurso, na esposa de um trabalhador. Na ocasião em que a paciente se empregou,
ele a acusou de possuir um amante. Um outro dado que Clérambault se apoiou para sustentar a
hipótese de a ex-mulher ser, no imaginário do paciente, pertencente a uma classe diferenciada
da dele, foi a fixação que ele mantinha em relação ao amante imaginário dela, ou seja, tinha
plena convicção de que se tratava de um homem muito rico. Essas interpretações fizeram com
que Clérambault admitisse que sob esse aspecto, o paciente voltava às regras pré-estabelecidas;
não obstante afirmou que
120
E completou dizendo que esse paciente, de forma singular, tinha iniciado seu quadro na
fase de despeito, ou seja, teria suprimido a fase inicial de reivindicação afetiva, mais
especificamente, a fase de esperança dos casos comuns. Clérambault justificou esse detalhe
pela convivência anterior entre os dois, visto terem sido casados e vivido em conjunto. A
ausência de ciúmes foi uma outra característica observada por Clérambault. No entanto, ousou
a afirmar que o ciúme existiu, mas fora reprimido pelo orgulho que no caso desse paciente era
extremo.
Frequentemente, os pacientes erotomaníacos negavam a validade do casamento do
Objeto. Aqui, o paciente negou a validade do seu divórcio e a validade de um possível novo
casamento de sua ex-mulher. Em várias passagens ele chegou a dizer que ela não se manteria
seis meses casada e que logo voltaria para ele.
Outra característica apontada por Clérambault foi a “de uma cobiça de muito mau gosto”
(Clérambault, 1921/1942e, p. 397) demonstrada pelo paciente ao prometer que receberia o
dinheiro do marido imaginário com quem sua ex-mulher iria se casar. Ele observou que essa
característica era muito mais comum entre as mulheres erotômanas do que entre os homens,
mas que, apesar de incomum, ele já tinha tido a oportunidade de presenciá-la entre os homens,
principalmente entre aqueles do meio rural. Quanto às características consideradas comuns em
todos os casos passionais, artifício da mentira usada por esse paciente recebeu uma ênfase por
parte de Clérambault.
Após essa breve exposição, Clérambault sintetizou assim:
Na perspectiva de ratificar a diferença desse tipo particular de delírio frente aos demais,
Clérambault afastou a possibilidade desse paciente poder ser considerado como tendo sido um
121
Mas o caso do paciente divorciado acima descrito não deixou de fomentar mais
discussões e controvérsias nos anos posteriores. Em 1923, Clérambault exteriorizou uma
resposta ao Dr. Mignard por ele ter afirmado que esse paciente fora curado em seu serviço e,
por consequência, proclamado que a Erotomania poderia ter uma evolução favorável e se curar.
Revelou então que o paciente em questão não estava curado nem de suas ideias erotomaníacas
nem de suas ideias de reivindicação. Citou ainda que a sua avaliação era congruente com as
opiniões emitidas por três médicos, reconhecidos por ele como sendo seus mestres. Referia-se
às declarações dos doutores Briand, Sérieux e Vallon afirmando que o paciente continuava
“delirante, extremamente reticente e perigoso” (Clérambault, 1923/1942f, p. 405). Chegou,
enfim, admitir que se tratava de um paciente profundamente paranoico e que as suas ideias
querelantes não mereciam ser consideradas como as de uma falsa querulência. Admitiu assim
que uma psicose passional concomitante a uma outra psicose mais ampla, teria nesta última um
suporte e o preparo para a síndrome. A relação de uma com a outra deveria ser compreendida
como parasitária.
Persistindo na sua convicção de existirem casos puros de Erotomania, Clérambault fez
a apresentação de uma paciente na Sociedade Clínica sobre a qual ele havia emitido um
122
certificado de internação em 17 de maio de 1923. Tratava-se de uma paciente que, segundo ele,
evoluía há trinta e sete anos com um delírio erotomaníaco, cujo objeto do delírio também era
um padre e que teria iniciado seu quadro aos dezessete anos de idade. Em seu certificado,
apontava para o fato dessa paciente possuir uma evolução tão longa, sem polimorfismo, sem
distúrbios sensoriais e, sobretudo, sem demência. (Clérambault, 1923/1942f)
Para ele, esse caso seria muito representativo em defesa da existência de casos puros
porque, além das características supracitadas, o Postulado e as concepções derivadas
encontravam-se muito bem circunscritas. Numa tentativa de dirimir qualquer obstáculo que
pudesse surgir em relação àquilo de que estava convencido, afirmou:
Observou também que a dificuldade que muitos médicos encontravam para chegarem
a esse diagnóstico era devida ao fato do elemento esperança nem sempre ser algo de fácil
detecção. Como consequência, esses médicos passavam a acreditar que tais pacientes nunca, de
fato, estiveram delirando ou então que o delírio pudesse ter terminado. Como causas desses
erros, apontou algumas possibilidades: 1) a ausência de sistematização que, na sua opinião, não
deveria receber tanto valor em detrimento da extensão desses delírios poder não ser constante;
2) a resistência consciente, muitas vezes apresentada pelos pacientes e, 3) a resistência
inconsciente demonstrada por ocasião da remissão do elemento paixão fazendo com que esse
elemento fosse substituído pelos outros sentimentos próprios do quadro. Além de tudo isso,
muitas vezes o passional apresentava uma dualidade que também lhe era própria. Assim, ele
conseguia admitir que um dia estivera doente, mas que já teria se curado. Esse tipo de discurso
se fazia presente, sobretudo, quando alguma dúvida era vivenciada pelo paciente.
Nessa ocasião, Clérambault procurou dar mais um passo no sentido de caracterizar a
Erotomania como sendo um distúrbio afetivo, remitente e essencialmente ligado à atividade.
Com objetivos de chamar a atenção de seus colegas médicos para que eles não subestimassem
tais pacientes e, como consequência, deixassem de diagnosticar esses quadros, voltou a
enfatizar o seu estilo muito peculiar de abordar os pacientes dizendo que “para conhecer tais
123
pacientes, é preciso, não questioná-los, mas manobrá-los, e para isso, agitá-los. Pode até ser
bom, às vezes irritá-los” (Clérambault, 1923/1942g, pp. 409-410).
Clérambault concluiu essa exposição defendendo que as psicoses passionais estavam
entre aquelas que mais respeitavam as características psíquicas anteriores dos pacientes e que,
como uma síndrome ideo-afetiva, possuíam uma autonomia integral, ou seja, não admitiriam
em sua essência, características de uma outra psicose. Tais casos, para ele, deveriam ser
reconhecidos como quadros de Erotomania pura, essencial ou autônoma. Além disso, nesses
casos, o delírio poderia permanecer livre de toda e qualquer modificação.
53
Maurice Dide (1873-1944) foi médico e diretor do hospital de Braqueville. Foi também professor da
Faculdade de Humanidades, em Toulouse, França (Beveridge, & Mangin-Lazarus, 1995).
124
consciência das concepções de Dide por ocasião das publicações de seus artigos em dezembro
de 1920 e fevereiro de 1921. Lamentou o fato e se desculpou, alegando como motivos para o
seu desconhecimento, as questões relativas à guerra e ao pós-guerra. Afirmou que se tivesse
conhecimento, à época, sobre as concepções relacionadas ao platonismo e ao idealismo de Dide,
certamente o teria citado em seus artigos, sobretudo pelo fato dele tê-las combatido com
veemência. Afirmou ainda que as concepções de Dide jamais poderia ter-lhe inspirado ou até
mesmo ter-lhe influenciado pelo fato delas serem radicalmente opostas às suas (Clérambault,
1923/1942k).
Capgras defendeu também a ideia de que as evoluções favoráveis eram possíveis
naqueles casos considerados puros por Clérambault, além do que, para ele, o prognóstico
médico-legal não seria tão sombrio quanto aquele sustentado por Clérambault. Essas
afirmações provocaram novamente uma forte reação de Clérambault, tendo, por isso, voltado a
insistir no aspecto mais passional do que o idealista da Erotomania.
No contexto de toda essa polêmica, Clérambault apresentou uma resposta formal ao
conjunto de críticas que vinha recebendo de Capgras. Em primeiro lugar ratificou que desde
1920 já vinha admitindo que a Síndrome Erotomaníaca poderia evoluir de diversas maneiras.
Reafirmou a sua convicção quanto a existência das Erotomanias puras e que tanto ela quanto
às chamadas Erotomanias sintomáticas tinham destinos diferentes; essas últimas evoluiriam de
acordo com o seu substrato clínico. Continuou com o seu firme propósito de não reconhecer a
existência de uma Erotomania paranoica, apostando assim numa distinção entre a Paranoia e a
Erotomania. Reconheceu a existência de uma Erotomania sobreposta em um terreno paranoico
ou mesmo em um delírio interpretativo, contudo continuou afirmando que seria “um erro ver o
Mecanismo Interpretativo como gerador da Síndrome; a Síndrome é de Essência Passional”
(Clérambault, 1923/1942b, p. 414, grifo do autor).
Na defesa de sua Síndrome Erotomaníaca pura, Clérambault disse que Capgras teria
feito uma aproximação entre ela e a psicose interpretativa utilizando-se de uma possível e
perfeita fusão de todos os elementos da psicose enquanto que para ele, essa fusão seria apenas
ideica. Nos perseguidos, ao contrário, se alguma representação romanesca viesse a ser
construída, ela incluiria não apenas as concepções de origem interpretativa, ou seja, ideica;
certamente haveria, em sua grande maioria, a inclusão das concepções de origem sensorial.
Com relação à transformação do amor em ódio, disse que jamais teria visto aí algo que
pudesse ser associado a uma predição de um delírio persecutório. Para ele tratava-se pura e
simplesmente de uma reversão de ordem passional. E frisou que “eu chamo de paixão qualquer
apetite ardente baseado em afeição ou raiva, ou em ambos” (Clérambault, 1923/1942b, p. 417).
125
54
Segundo Dalgalarrondo (2008), no delírio de reivindicação (ou querelância), “o indivíduo, de forma
completamente desproporcional em relação à realidade, afirma ser vítima de terríveis injustiças e
discriminações e, em consequência disso, envolve-se em intermináveis disputas legais, querelas familiares,
processos trabalhistas, etc.” (p. 222). Descreve ainda que esses indivíduos se consideram como verdadeiros
representantes dos injustiçados e ser um delírio mais comumente encontrado nos transtornos delirantes
(Paranoia). Cheniaux (2015) escreveu que “o delírio de reivindicação (ou querelante), descrito por Clérambault,
seria um subtipo de delírio persecutório” (pp. 116-117, grifo do autor).
126
em favor da separação entre elas, sem deixar de provocá-lo dizendo “no que diz respeito à
Evolução, é precisamente o seu estudo que me levou a diferenciar os Casos Puros dos Casos
Mistos” (Clérambault, 1923/1942b, p. 419).
O ano de 1923 foi marcado por muitas produções de Clérambault, especialmente em
relação aos seus estudos sobre a Erotomania. E também foi nesse ano que ele apresentou um
artigo em defesa daquilo que para ele deveria ser considerado como uma entidade clínica
representativa dos delírios passionais. Assim definiu,
Nós chamamos Delírios Passionais todos os delírios que são baseados em uma
emoção prolongada, na forma de desejo ou de raiva, qualquer que seja o tema e
a ocasião. Qualquer convicção emocional pode servir como núcleo para um
Delírio Passional; sentimento de propriedade, sentimento teórico de justiça,
amor maternal, religiosidade sob todas as formas, etc. A emoção que se prolonga
foi, desde o início, associada a uma ideia clara, e esta associação ideo-afetiva
permanece um nó indissolúvel, predominantemente afetivo, sem alteração
detectável da ideação geral, o que não é o caso dos Interpretativos e dos
Polimorfos (Clérambault, 1923/1942b, p. 419).
Além disso, caracterizou o quadro dos delírios passionais autônomos como aqueles
estados puros nos quais os pacientes não apresentavam alucinações nem demência. Ou seja, ao
falar dos casos puros, Clérambault estava, obviamente, admitindo a existência dos quadros
mistos. Dessa forma, caso surgissem delírios passionais no curso dos quadros mistos, eles
deveriam ser considerados apenas como delírios sobrepostos em outros quadros, sendo portanto
de ordem secundária ou prodrômica. Admitiu também a possibilidade de alguns erotômanos,
antes de encontrarem os seus delírios definitivos, ou seja, aquele delírio que os caracterizaria,
poderem apresentar alguns delírios transitórios e de curta duração. Denominou esses quadros
como sendo “Casos Reduzidos de Delírios Passionais” (Clérambault, 1923/1942e, p. 421, grifo
do autor).
Dando prosseguimento ao seu objetivo de acrescentar as diferenças existentes entre os
delírios passionais e os delírios sistematizados, escreveu que os primeiros apresentavam temas
circunscritos por fazerem referência a um tema muito limitado. Esse tema seria de ordem social
e colocava em jogo os interesses sociais do sujeito. Quanto aos delírios sistematizados,
acreditava que eles ofereciam temas múltiplos e ramificados e por estarem atrelados, na maioria
das vezes, à segurança e à própria vida desses pacientes, esses delírios encontravam-se
diretamente relacionados aos seus instintos de conservação.
Outra discussão, desta vez com relação a um paciente do Dr. Mignard, aconteceu na
Sociedade Clínica, em decorrência da apresentação de um paciente que o Dr. Mignard havia
127
diagnosticado como Psicose Passional. Clérambault teria visto no caso apenas um quadro de
delírio imaginativo com complemento afetivo. Clérambault reconheceu que nesse caso haviam
mecanismos dominantes de ruminação, além do trabalho imaginativo. E apelou para
importância de se respeitar a semântica da palavra paixão que, segundo ele, fazia referência a
“uma emoção intensa, prolongada e estênica, tendendo a passar ao ato” (Clérambault, 1923, p.
423). Chamou a atenção de todos para que considerassem também a importância do esforço
como um traço inicial, constante e descrito por ele como sendo uma característica fundamental
dos delírios passionais. Propõe, enfim, que o referido paciente seja classificado entre os
delirantes imaginativos.
55
Postel (2011) descreveu dois tipos de tônus, ou seja, o tônus cortical e o tônus reticular. Considerou como
tônus cortical a intensidade dos processos nervosos cuja sede seria a estrutura nervosa do indivíduo. Quanto
ao tônus reticular, definiu como sendo “o conjunto de efeitos ativadores tônicos que o sistema reticular do
tronco cerebral exerce sobre a vigilância do córtex e sobre os sistemas motores e vegetativos” (p. 480). Esse
tônus teria uma relação direta com os estados de vigilância que o sujeito apresenta em relação a si mesmo e ao
mundo exterior.
56
Esse tom de hiper foi aqui relacionado por Clérambault, não somente pelo seu aspecto de exaltação do
humor, mas, sobretudo, no sentido da sua alteração motora. Segundo Jaspers (1979) esses fenômenos
motores são exteriorizados como resultado de uma elaboração interna dos estímulos. Sob o ponto de vista da
compreensão interna, era como se a consciência da vontade se colocasse em movimento. Jaspers separa esses
fenômenos motores visíveis em neurológico e psicológico. A diferença entre eles resultaria do fato de que
entre os últimos, a alteração motora seria resultante de uma anormalidade mental num aparelho motor
normal.
57
Correspondiam as chamadas psicoses maníacos depressivas e que, mais recentemente, passaram a ser
descritas entre os Transtornos Bipolares de Humor.
58
Clérambault utilizou o termo hypertonus.
129
Ao tônus estável descrito por Clérambault nos quadros de mania e nos passionais,
opunham-se aqueles considerados por ele como sendo de tônus variável. Esse grupo
corresponderia àquele descrito por Morel pelo nome de delírio emotivo59. Nesses casos, a
emotividade pré-estabelecida possuía coloridos especiais e os nós ideo-afetivos60 eram pouco
estáveis. Quanto maior fosse o suporte fisiológico das ideias, maior seria a estabilidade do nó
ideo-afetivo. Exemplifica com os casos de ereutofobia61. E acrescentou que,
59
Segundo Álvarez, Esteban, & Sauvagnat (2004), o grupo das obsessões, impulsões, conhecidos desde a
Antiguidade, mantiveram-se até Freud, relacionados completamente fora do campo das neuroses. Era comum,
até então, diante de um sintoma obsessivo ou impulsivo, convertê-los em variedades autônomas de doenças.
Dessa forma, eles foram descritos por Pinel entre as manias sem delírio e também entre as monomanias
intelectuais de Esquirol. Morel, foi quem iniciou a descrição dessas obsessões no contexto de uma versão
afetiva, incluindo-as num grupo que ele denominou pela expressão Delírio Emotivo e que para ele correspondia
a um grupo de delírios que parecia ter um relacionamento íntimo com o sistema nervoso visceral ganglionar.
Os elementos que formavam a cadeia do delírio emotivo, consistiam de fatos de impressionabilidade e
emotividade com predomínio de algumas ideias fixas e atos anormais compromissados de maneira forçada e
absoluta com as faculdades intelectuais (Morel, 1866).
60
Clérambault acreditava na possibilidade da existência de nós ideo-afetivos de bases orgânicas sobre os quais
seriam constituídos os mecanismos geradores dos delírios. Esses mecanismos geradores poderiam ser isolados
na forma da pseudo-constatação, no caso de algumas psicoses interpretativas e na forma do Postulado
Fundamental, no caso das Psicoses Passionais (Ferreira, 2013).
61
Trata-se de um medo doentio de se corar, de enrubescer.
62
Trata-se de um meio utilizado para exploração do estado de tonicidade do vago e do simpático. Clinicamente
é realizado deitando-se o paciente na posição horizontal e com a cabeça apoiada sobre um plano resistente e
com uma ligeira inclinação para a frente. Depois de um curto espaço de tempo, mede-se o pulso radial do
paciente durante trinta segundos e anota-se. Logo após, fecha-se ligeiramente as pálpebras do paciente,
comprimindo-as com o polegar o olho direito e com o indicador o olho esquerdo. Com a outra mão mede-se a
pulsação do paciente durante trinta segundos novamente, anotando-a. As modificações possíveis de serem
encontradas após as tomadas das pulsações são a redução, o aumento ou manter-se inalterada. Interpreta-se
então que o reflexo foi positivo, negativo ou abolido, respectivamente. Alguns autores afirmam que na sífilis o
reflexo óculo-cardíaco estaria abolido (Licci, 1921).
130
de ordem estritamente passional, mas sim emocional. Diante das respostas obtidas, Clérambault
afirmou que “os resultados eram mesmo aqueles que nós esperávamos. O Passional, mesmo
calmo, contém um tipo hipomaníaco e, por outro lado, o emocional é um Passional no início”
(Clérambault, 1923/1942i, p. 449).
O próprio Clérambault considerou que não era possível formar conclusões muito
definitivas com as experiências por ele realizadas, havendo necessidade de que a pesquisa
pudesse abranger um número maior de pacientes. Por isso mesmo chegou a propor aos seus
colegas de Asilos que eles aplicassem esse método aos pacientes passionais que
acompanhavam. Admitindo que essas informações ainda eram parciais, não escondeu o seu
objetivo de que essa pesquisa poderia demonstrar os substratos fisiológicos existentes na
ideação passional. Assim escreveu:
E se mostrou convicto quanto ao progresso que a clínica dos delírios passionais poderia
demonstrar caso esse e outros sinais equivalentes revelassem resultados de maneira persistente.
E assim, as diferenças que os delírios passionais poderiam conter em relação aos demais tipos
de delírios poderiam ser demonstradas em seu campo teórico, além de poder justificar a
concentração de todos os passionais em um único grupo de psicose.
Realçou também o que ele chamou de um ardor psicofísico, encontrado primariamente
em todos os passionais e apenas secundariamente nos outros tipos de pacientes. Tratava-se,
segundo ele, de um ardor tanto psíquico quanto físico que se apresentava na forma de desejo
ou de ódio e que, na qualidade de um elemento dominador, provocava integralmente todas as
construções de julgamento nos casos puros da Erotomania e como um elemento agregador nos
casos considerados mistos.
63
Essa expressão foi utilizada por Magnan em relação àqueles indivíduos descritos como sendo degenerados
mórbidos. Ele dizia que esses indivíduos se encontravam eternamente nesse estado de iminência mórbida, ou
seja, que os degenerados deveriam ser considerados como doentes em potencial e, dessa forma,
representavam uma constante ameaça a ser evitada ou antecipada, ainda que os seus principais sinais clínicos
não tivessem sido manifestados (Caponi, 2012).
132
No mesmo curso da leitura relacionada à aplicação dos delírios passionais aos outros
quadros clínicos já conhecidos, Clérambault tentou estabelecer também algumas analogias
entre esses delírios e aqueles apresentados pelos pacientes em seus estados de Embriaguez
Psíquica considerando que, em todas essas situações, deveria ter-se em mente o impacto de um
choque emocional, a fixação da emoção e o estado de instabilidade do sujeito que antecede ao
choque. Com relação a este último, haveriam duas causas: uma atual e outra anterior. A causa
atual seria a embebição. Quanto a causa anterior, considerada por Clérambault como
fundamental e quase específica, seria composta pelo “esgotamento nervoso, especialmente por
insônia e por tristeza; o isolamento moral, arrependimentos, preocupação” (Clérambault,
1923/1942d, p. 442). Tudo isso estaria na origem dos casos da Embriaguez Psíquica, não
necessariamente havendo, no entanto, uma continuidade entre o conteúdo das preocupações
reais do sujeito com a temática delirante. Como todo esse mecanismo poderia também
influenciar, em sua opinião, os casos de Embriaguez Patológica, Clérambault, numa
comparação entre esses dois tipos de embriaguez disse que nas formas agressivas e motoras da
Embriaguez Patológica, o quadro delirante teria uma duração mais curta, enquanto que nos
casos de Embriaguez Psíquica ele seria mais durável.
Dessa forma, para Clérambault os delírios passionais com explosão súbita teriam em
comum com os casos de embriaguez delirante algumas características: “1º Estado preliminar
de fatiga, sobretudo moral, e de emotividade difusa; 2º Choque mínimo amplificado sem
medida; 3º Sistematização instantânea duradoura” (Clérambault, 1923/1942d, p. 442).
134
mostrou-se agressiva, quebrando objetos e rasgando sacolas e, por mais que seu marido lhe
dissesse que os preços estavam mais altos em função da carestia provocada pelas consequências
da guerra, ela não tinha dúvidas de que os altos valores dos alimentos eram cobrados somente
dela.
Segundo Clérambault esse delírio foi precedido por uma fase de desconfiança geral e
sua internação foi aceita com facilidade pela paciente, o que, segundo ele, seria uma
característica totalmente contrária àquela dos querelantes. Clérambault também aproveitou esse
caso para estabelecer algumas diferenças entre os delírios de prejuízo encontrados nos idosos –
para ele um fato extremamente comum daqueles momentos em que eles se sentem
constantemente roubados – e o delírio apresentado por essa paciente que, de acordo com a sua
avaliação, não apresentava nenhum sinal de envelhecimento prematuro.
Assim, ao contrário dos delírios dos idosos, onde o prejuízo possuía características bem
difusas, no caso dessa paciente, assim como nos pacientes considerados não senis, o tema esteve
circunscrito, limitado a apenas um fato e trouxe consigo a possibilidade de se precisar a data
em que ele iniciou. Veio também acompanhado de um movimento emocional que se prolongou
em um estado passional. Colocou em jogo a vontade da paciente, tão logo eclodiu, através de
sua característica reivindicatória. Ao contrário dessa paciente que frequentemente se mostrava
bastante otimista, nos pacientes senis, o humor era caracterizado pela acrimônia. E caso eles
viessem apresentar algum otimismo, ele ocorreria apenas por ocasião do avanço de seu quadro
demencial (Clérambault, 1921/1942a).
Num outro artigo de 1927, Clérambault teceu alguns comentários sobre as ameaças ou
tentativas de suicídio que algumas meninas jovens, entre dezesseis e dezoito anos, quadro esse
extremamente raro entre os jovens do sexo masculino da mesma faixa etária. Tais meninas
ameaçavam se jogar debaixo do bonde ou no rio Sena, como consequência de leves frustrações.
Neste estado, elas eram encaminhadas para a Enfermaria especial, local onde Clérambault as
mantinha internadas por alguns dias, mesmo contra a vontade delas. Aplicava-lhes um emético
a base de ipecacuanha64. Tratava-se, segundo ele, de “um emético bastante ativo, e, durante
horas, elas permanecem livres de todas as preocupações que as afetavam; seu organismo se
recompõe e sua tristeza é esquecida” (Clérambault, 1927/1942c, p. 448).
O destaque fornecido a esse artigo, nesse momento, se deveu ao fato de que essas
tentativas de suicídio foram consideradas por Clérambault como sendo da ordem do despeito.
64
Trata-se de uma planta medicinal, da família das rubiáceas e cujas raízes têm propriedades eméticas.
Também são conhecidas pela sua forma abreviada: ipeca (Fernandes, Guimarães, & Luft, 1992).
136
Outro aspecto digno dessa ênfase deve-se ao fato dele ter se aproveitado desses casos para
chamar a atenção para a não existência de limites muito precisos que pudessem demarcar as
diferenças entre os atos praticados por essas jovens e aqueles praticados pelos pacientes que
apresentavam estados passionais mais graves.
Na década de 1930, uma série de teses em medicina que faziam referência à Erotomania
foi defendida em Paris. Todos esses trabalhos – dos quais, talvez, a tese de Lacan (1932) seja
um dos mais conhecidos – tendiam a relacionar a Erotomania aos delírios crônicos de
perseguição, de prejuízo e de influência, que nada tinham a ver com o que a expressão
Síndrome de Clérambault designava na psiquiatria francesa (Haustgen & Gumpper, 2012).
Surpreendentemente, a Síndrome de Clérambault, entendida como sinônimo de Erotomania,
reapareceu mais tarde na psiquiatria americana, tendo inclusive sua referência sido incluída no
DSM-III-R (1987/1989) e no DSM-IV (1995) como sendo uma das modalidades de transtorno
delirante – o tipo erotomaníaco.
Ruiz, Sadock, & Sadock (2017) colocaram a Erotomania como um dos tipos de
Transtorno Delirante e Transtorno Psicótico Compartilhado, ou seja, Tipo erotomaníaco.
Afirmaram que a Erotomania podia ser referida como sinônimo de Síndrome de Clérambault
ou Psychose Passionelle. Eles descreveram ainda que “esses pacientes também tendem a ser
solitários, retraídos, dependentes e sexualmente inibidos, bem como a ter níveis baixos de
funcionamento social ou ocupacional” (p. 334).
137
4 O Automatismo Mental
Ainda que essa preocupação tenha sido revelada publicamente por Clérambault, outro
termo parece não ter sido encontrado, nem por Clérambault, nem por algum de seus colegas
psiquiatras e que pudesse, enfim, ter possibilitado a sua substituição. Aliás, nem mesmo o
esforço de nomear provisoriamente a Síndrome pela letra S, mostrou-se eficaz. Talvez até pelo
fato de que esse tipo de discussão, efetivamente, não era o que o mobilizava em seu espírito
clínico e científico. O que permaneceu para o legado histórico da psiquiatria foi mesmo a
alcunha Síndrome do Automatismo Mental de Clérambault.
138
No entanto, todo esse esforço não se mostrou suficiente para impedir que a posteridade
acadêmica passasse a operar o conceito compreendido na Síndrome do Automatismo Mental
em contextos que escapassem radicalmente os pressupostos que sempre nortearam as pesquisas
de Clérambault acerca das doenças mentais, ou seja, os princípios organicistas que sustentavam
as suas concepções acerca da patologia mental. Como já foi mencionado, esse caminho foi
trilhado, sobretudo, pelas escolas psicanalíticas em consequência da referência de Lacan ao seu
mestre Clérambault. Essa confirmação pode ser encontrada através dos inúmeros trabalhos
disponíveis no meio acadêmico escritos por Miller (2016), Czermak (2009), Tiszler (2009),
Ferretto (1999/2009), Meyer (2008), Zanotti & Maurício (2014), Beneti (2005), Barreto (2012),
Harari (2008), Martínez (2015), Herrera (2015), Matilla (2015), entre tantos outros.
Na expectativa de retomar a formulação desse conceito, tendo-se como princípio a
originalidade das ideias de Clérambault e a sua tentativa de encontrar um ponto de partida para
a elucidação psicopatológica das psicoses é que esse trabalho de pesquisa se orientará a partir
de agora. As Psicoses Alucinatórias Crônicas, símbolo da nosologia psiquiátrica francesa de
sua época, serviram de estímulo e sustentáculo para o avanço de suas pesquisas e observações.
Com esse seu trabalho, Clérambault acreditava também poder recolocar esse grupo de psicoses
no campo da neurologia e, enfim, fazer com que a psiquiatria também pudesse retornar ao lugar
de onde partiu.
65
Síndrome de Interferência, Síndrome do Parasitismo ou de Coação foram outros termos utilizados pelo
próprio Clérambault para fazer referência a esse mesmo quadro.
66
Esse termo foi o escolhido para ser usado por Clérambault, no entanto, muitos autores consideravam esse
fenômeno como uma alucinação estritamente psíquica. Dessa forma, Baillarger (1809-1890) introduziu o termo
Alucinação Psíquica para caracterizar uma falsa percepção na ausência do caráter sensorial, diferenciando-se
das alucinações psicossensoriais nas quais há implicação de um ou dos vários órgãos dos sentidos. Caracteriza-
142
b) dévidage muet des souvenirs67, fenômeno que representava um desfile de elementos ideicos,
representativos e afetivos que o paciente sofria passivamente, sentido por ele como sendo
estrangeiro. Era como se as lembranças se sucedessem diante do paciente, espontaneamente.
Esse quadro “se anexa às A. Psíquicas” (Clérambault, 1924/1942c, p. 507).
c) desaparecimento de pensamentos, os esquecimentos: os pacientes pensam num determinado
objeto e um pensamento se conecta a ele porém, logo esse pensamento desaparece. Às vezes, o
próprio objeto desse pensamento desaparecia também subitamente e ele, então, se queixava de
não mais saber no que pensava. “‘Meu pensamento desaparece subitamente, alguém me faz
esquecer, alguém me para’” (Clérambault, 1924/1942c, p. 507), queixava-se um paciente de
Clérambault.
d) as interrupções do pensamento, o vazio do pensamento, a perplexidade e as expectativas:
muitas vezes os pacientes interrompiam de forma inesperada o curso de seus pensamentos e
depois de alguns instantes, voltavam a completá-los ou iniciavam um ciclo completamente
diverso do anterior; o paciente também podia se queixar de não saber mais no que pensou e
percebia apenas fragmentos do seu pensamento e que não mais se ligavam entre si; esperava
por pensamentos que não mais vinham. Era como se houvesse uma nuvem em sua cabeça e não
mais lhe permitisse pensar em nada. Clérambault chamou a atenção para a possiblidade desse
sintoma poder ser encontrado no início dos quadros de alguns pacientes com Paralisia Geral.
e) falsos reconhecimentos, semelhanças, estranhezas: pacientes reclamavam de serem forçados
a reconhecer algumas pessoas que nunca sequer tinha visto; quando se sentia cansado, via nas
pessoas um olhar engraçado ou esquisito. Apesar de Clérambault reconhecer que se tratavam
de sintomas bem conhecidos e percebidos em outros grupos de pacientes, chamou a atenção
para o fato de serem sintomas integrantes dos quadros de Automatismo Mental. “Quando eles
são verificados nos Perseguidos, nós os explicamos pela interpretação” (Clérambault,
1924/1942c, p. 508).
f) passagem de um pensamento invisível: “é o reconhecimento aplicado ao vazio ou a um objeto
subconsciente e transitório” (Clérambault, 1924/1942c, p. 508). Foi descrito como um
se, então, pelas ausências de sensorialidade e espacialidade, possuindo uma exclusiva representação mental.
(Tribolet & Shahidi, 2005.).
67
Poderia ser traduzido pela expressão desenrolar mudo de lembranças, entretanto, pareceu melhor mantê-la
aqui em seu idioma original. Maurel (1993) a aborda como uma metáfora e propõe que talvez fosse melhor
colocá-la entre as expressões idiomáticas utilizadas por Clérambault.
143
pensamento fugitivo, que é reconhecido sem ter sido definido. Desaparecia muito rapidamente.
Clérambault o definia como sendo uma combinação de um reconhecimento antecipado e de um
esquecimento. Ele apresentou o caso de uma paciente internada, de 32 anos, que se expressava
da seguinte forma: “‘Sim, sim, ISSO ACONTECE ANTES QUE EU TENHA TEMPO DE
COMPREENDER’” (Clérambault, 1924/1942c, p. 496, grifo do autor).
g) substituição do pensamento: constantemente um pensamento vinha substituir um outro que
se encontrava em curso. Era como se o paciente estivesse sempre começando a pensar algo que
não se concluía.
h) ideorreia: tratava-se de um desfile de pensamentos adventícios ou estrangeiros. Clérambault
identificava tais pensamentos adventícios como aqueles que numa pessoa normal poderiam ser
considerados como pensamentos reprimidos. Aqui, eles ficariam mais evidentes porque são
vivenciados pelos pacientes como impostos. “Talvez, no entanto, por serem governados por
processos mecânicos elementares, sua rapidez de sucessão é maior do que a dos pensamentos
sintéticos que são o pensamento claro normal” (Clérambault, 1924/1942c, p. 508).
i) aprosexia: definida como a incapacidade apresentada pelo paciente de conseguir se concentrar
em uma ideia e que, muito frequentemente, estaria ligada à ideorreia. Clérambault ressaltou que
um fato muito curioso, em sua opinião, agravava a aprosexia. Tratava-se da tentativa do
paciente se esforçar para concentrar sua atenção em um determinado tema e isso dispersá-lo
ainda mais.
j) jogos verbais parciais: eles se constituem na emancipação de frases articuladas ou de
fragmentos de frases, palavras explosivas, palavras deformadas, palavras estranhas, kyrielles de
mots68, jogos silábicos, ou entonações bizarras. “Esses jogos silábicos ou verbais têm
constantemente duas características, o gosto pelo esquisito e o sentido harmônico. Esses dois
traços são frequentes no trabalho subconsciente (hipnagógico, insônia, mania) e no pensamento
primitivo (poesia, bruxaria)” (Clérambault, 1924/1942c, p. 509). Clérambault colocou esses
jogos verbais como precoces, na série dos fenômenos do Automatismo Mental e, por isso, na
sua opinião seria mais um argumento a favor de sua concepção mecânica e contra a antiga
concepção ideogênica dos delírios de perseguição.
Todos esses fenômenos considerados elementares, possuem algumas características em
comum tais como a ausência de sensorialidade, ou seja, as experiências desses pacientes não
são objetivadas pelos órgãos dos sentidos, tais como as alucinações psíquicas, por exemplo. A
neutralidade afetiva, na qual o paciente vivencia tudo isso de maneira passiva, além dos
68
Cascatas de palavras.
144
poderia encontrar a sua maior comprovação naqueles mais circunscritos como, por exemplo, os
olfativos.
Em 23 de dezembro de 1923, Clérambault emite um certificado de internação para uma
paciente de 48 anos de idade e com o nome de Maria. Durante suas observações na Enfermaria
especial, ele descreveu os seguintes fenômenos relacionados ao que reconheceu como sendo da
ordem de um Automatismo Sensitivo:
A partir de 1920, então, em várias outras passagens, Clérambault fez referências a esse
tipo de automatismo, sempre relacionado às vivências anormais de caráter sensitivo-sensoriais,
relatadas pelos pacientes que acompanhava.
69
Elemento metálico e radioativo.
148
produziam no paciente a sensação de que alguém falava por ele. Eram muitas as situações nas
quais os pacientes faziam referência ao fato de estarem possuídos ao falarem coisas, apesar de
si mesmo, de dizerem coisas que não queriam dizer, como num impulso verbal. “O paciente
chegando a atribuir a uma força estrangeira, ‘essas vozes interiores’, sem timbre, não
formuladas e que se acompanham frequentemente de movimentos adaptados da língua, como
se ele falasse a si mesmo e apesar de sua vontade” (Séglas, 1897, pp. 112-113).
Por ocasião de um artigo relacionado às psicoses à base do automatismo mental e
publicado em maio de 1925 na revista Prática Médica Francesa70, Clérambault afirmou que as
alucinações deviam estar relacionadas às áreas mais altas do cérebro, ou seja, naquelas onde a
representação do eu estaria situada e nas quais as inibições poderiam gerar as ideias de negação
corporal, perda de visão, etc. Passou a se perguntar então em qual andar do eixo neuronal
poderiam estar os neurônios – ou talvez os sistemas – afetados pelo automatismo. Não excluiu
nenhuma possibilidade, ou seja, poderiam estar nas zonas corticais, nos núcleos cinzentos do
diencéfalo, na zona Rolândica71. Lembrou que as alucinações psicomotoras verbais da Paralisia
Geral foram claramente causadas por uma lesão no pé da terceira circunvolução frontal72.
(Clérambault, 1925/1942).
Esse tipo de automatismo foi representado clinicamente pela presença das vozes
vivenciadas pelos pacientes em sua forma alucinatória. Henri Ey (1981) caracterizou essas
vozes como “alucinações psicossensoriais objetivadas no espaço, alucinações psíquicas
sentidas como ‘vozes interiores’ ou transmissões de pensamento” (p. 519). Essas vozes, na
maioria das vezes, se apresentavam em sua forma ameaçadora e faziam comentários sobre os
pacientes, sobretudo em relação aos seus atos. Raramente se mostravam benevolentes para com
os pacientes. Outras vezes, eram vivenciadas em um tom de neutralidade e, até mesmo, de
banalidade absurda. Neste caso, o paciente ouvia frases que ele mesmo as definia como sendo
fora de propósito ou insignificantes.
70
Pratique Médicale Française.
71
Refere-se ao sulco que separa o lobo frontal do parietal no cérebro humano e ao longo de cuja borda
anterior estão os principais centros motores.
72
“Broca em 1861 descreveu o centro da linguagem articulada no pé da terceira circunvolução frontal
esquerda e com esta conquista eis-nos chegados às localizações funcionais do sistema nervoso” (Barros, 1922,
p. 34).
149
Sempre muito atento e meticuloso em relação às descrições feitas pelos pacientes acerca
das experiências vividas, elas lhe serviram, mais uma vez, ao propósito de ratificar as suas
convicções mecanicistas. Pelo conjunto de suas características, ele acreditava que não apenas a
origem, mas o desenvolvimento desse tipo de fenômeno só poderia ser de natureza mecânica.
73
Emprego e repetição de palavras e frases vazias de sentido. (Shahidi & Tribolet, 2005).
150
Assim retratado, Clérambault fez uma advertência àqueles que poderiam se mostrar
mais preocupados, naquele momento, com as tentativas de interpretação do conteúdo das ideias
verbalizadas pelos pacientes e disse que apenas o mecanismo dessas alucinações deveria ser
considerado como cientificamente importante.
Clérambault observou que vários dos seus pacientes apresentavam fenômenos nas
esferas afetivas, emotivas e volitivas e que eram vividos como impostos. Assim, eles se
queixavam da necessidade de rir ou de chorar, experimentavam sentimentos de raiva e
irritabilidade contra as suas próprias vontades, entre tantos outros. Crises ansiosas e sintomas
obsessivos, quando observados nos pacientes alucinados crônicos, também eram identificados
como fenômenos pertencentes ao automatismo emotivo.
Uma das pacientes de Clérambault queixava-se de que alguém a fazia sentir medos,
incitava-a a gritar e a se lamentar em vias públicas, expressar sentimentos que não
representavam, em absoluto, aquilo que efetivamente sentia. Sobre esse relato, escreveu:
“Trata-se de intenções obsessivas e impulsivas ao invés de impulsos motores circunscritos. Que
se queira especialmente observar o caráter repentino, impulsivo, quase exógeno das emoções.
Essa característica nos pareceu bastante clara para legitimar essa rubrica inusitada:
Automatismo Emotivo” (Clérambault, 1924/1942c, p. 519).
Em janeiro de 1924, Clérambault apresentou na Sociedade Clínica a paciente W.
Marguerite, 32 anos e cujo certificado de internação, emitido pelo próprio Clérambault,
afirmava tratar-se de um quadro de Automatismo Mental. Alguns comentários emitidos sobre
esse caso realçavam que a paciente experimentava, entre os fenômenos impostos, alegrias –
necessidade de rir, necessidade de fazer ironias –, tristezas, ansiedades, espantos, atrações por
pessoas e raivas. “Todos esses sentimentos lhe aparecem como estrangeiros, por causa de sua
rapidez, de sua inoportunidade, de seu ilogismo, seu crescimento incoercível, seus excessos,
seu desaparecimento espontâneo” (Clérambault, 1924/1942c, p. 509).
151
74
Desfile rápido e penoso de pensamentos que se sucedem e encadeiam de maneira incontrolável (frequente
na insônia, sobretudo em psicastênicos).
152
(Verbal, Sensitivo e Motor), mas automatismos múltiplos, de ordem ideica ou afetiva, emotiva
ou volitiva” (Clérambault, 1924/1942c, p. 510).
Para Clérambault, o Eco do Pensamento era não somente um dos primeiros fenômenos
experimentados pelo paciente no começo de sua psicose, assim como era também o elemento
central da Síndrome do Automatismo Mental. “As intuições, o pensamento antecipado, o eco
do pensamento e os absurdos75 são os fenômenos iniciais do Automatismo Mental”
(Clérambault, 1927/1942d, p. 467). Mesmo reconhecendo que esse fenômeno nem sempre fazia
referência a uma repetição – admitia que o eco podia ser consecutivo, simultâneo ou até
antecipado –, Clérambault manteve esse termo em todas as suas conferências, artigos e por
ocasião das apresentações de pacientes.
O eco não é sempre uma estrita repetição. O pensamento, seja claro, seja
obscuro, pode ser modificado no seu eco. Existe Eco com Variantes
(interpelações, constatações), Eco com Adições (enunciação dos atos), Eco com
Comentários (admiração, críticas). Em todas essas variedades, o eco aparece
como o ponto de partida de ideações embrionárias, seu centro, seu broto
(Clérambault, 1927/1942a, p. 590).
Conforme defendia, o Eco Antecipado “é apenas um caso de síntese verbal que opera
nos dados intelectuais pré-conscientes” (Clérambault, 1926/1942, p. 554). Ele podia ser
percebido com os pacientes se queixando das pessoas encontrarem o nome das coisas antes
deles, por exemplo. Segundo Clérambault, seria comparável às Premonições Alucinatórias
Verbais das Sensações, observadas com muita frequência nos pacientes com a Síndrome do
Automatismo.
O Eco com variantes e verbalizado através de interpelações, constatações, verificações,
surgia nas situações em que um determinado paciente se queixava de outras pessoas verem e
saberem de tudo aquilo que ele estivesse fazendo. Muitas vezes teciam comentários sobre seu
comportamento, fosse de admiração ou de crítica. As adições eram percebidas quando uma ou
mais pessoas divulgavam os atos do paciente, fazendo comentários sobre os seus atos enquanto
ele se alimentava, por exemplo. Existiam ainda, como variantes, as enunciações dos gestos e
75
Non-sens.
153
do pensamento. Nestes casos, antes mesmo que o paciente tivesse pensado em algo ou mesmo
realizado algum ato, as suas intenções eram enunciadas.
Diante de todas essas características, o fenômeno do eco se acompanhava,
frequentemente, do sentimento do paciente não ser mais o dono de sua atividade psíquica, por
estar vulnerável a uma constante ação do exterior, assim como pelo fato de poder ter seu
pensamento percebido e adivinhado pelos outros (Postel, 2011). Era também definido como
sendo um fenômeno brusco e frequentemente inicial. Aparecia sob um terreno neutro ou
eufórico, porém, sem características persecutórias no início.
Essa definição de Eco adotada pelos alienistas franceses e assim mantida por
Clérambault não encontrou o mesmo acolhimento na escola alemã, cujos psiquiatras preferiram
o termo Sonorização do Pensamento (Gedankenlautwerden), podendo ser traduzido
literalmente pela expressão pensamentos que se tornam sonorizados. Esse respaldo sobreveio
principalmente porque os pacientes não experimentavam, na maioria das vezes, o fenômeno do
eco. Karl Jaspers (1979) caracterizou assim esse fenômeno: “muitas vezes, o doente ouve logo
seus pensamentos em voz alta” (p. 93).
Para Clérambault (1927/1942a), a repetição encontrada no fenômeno do eco só podia
ser de causa mecânica. E, na tentativa de dar sustentabilidade a essa sua afirmação, enumerou
algumas características que lhe pareciam significativas: tratava-se de um fenômeno brusco e
frequentemente inicial; surgia frequentemente num terreno neutro ou eufórico e não possuía,
pelo menos no seu início, nenhum caráter persecutório; em geral, havia uma ausência da
estranheza cenestésica; a despersonalização76 não podia explicar a rejeição de uma ideia isolada
e, principalmente, a sua repetição; as ideias aceitas e recusadas pelo eco seriam apenas a única
e a mesma ideia e que, pelas razões da não-assimilação e da repetição, o eco não podia ser
explicado por uma simples hiperendofasia77. Afirmou ainda que o Eco podia ser “psíquico,
auditivo ou motor, tudo isso em graus diversos (eco semi-auditivo, pseudoauditivo) e, além
disso, simultaneamente (eco misto)” (p. 590).
Tribolet e Shahidi (2005) afirmaram que o Eco do Pensamento é um “fenômeno
alucinatório cuja forma passa da alucinação psíquica para a alucinação psicossensorial
(acústico-verbal) e até psicomotora, em graus variados e, às vezes, simultaneamente” (p. 105).
Fizeram também uma distinção entre o Eco do pensamento obscuro, o Eco do pensamento claro
76
Clérambault acreditava que a despersonalização e a Síndrome do Automatismo Mental podiam até
coexistirem em algumas situações mas que, de maneira geral, elas eram excludentes.
77
Endofasia em psicologia, refere-se a uma formulação verbal interna do pensamento não expresso, com a
representação mental da própria voz, ou seja, uma “linguagem interior”.
154
Até o final do século XIX, a psiquiatria francesa era dominada pela teoria da
degeneração de Morel. Em 1892, Magnan e Serieux, discípulos de Morel, desenvolveram a
noção de um estado delirante crônico com evolução sistemática78. Esse quadro era composto
de quatro etapas: um período de incubação composto pelo humor delirante; num segundo
momento haveria a cristalização dos delírios persecutórios; seguia-se o aparecimento dos
delírios grandiosos e, por fim, o aparecimento da demência, configurando-se o quadro de
defeito mental. (Berrios, 1996).
Segundo Magnan, essa doença jamais retrocedia e evoluía por décadas. Os delírios de
perseguição que esses pacientes apresentavam, os levavam a se armarem para se defenderem e
os tornavam, em várias situações, extremamente agressivos.
Ainda de acordo com Berrios (1996), Magnan classificava os transtornos mentais em
três categorias: os quadros orgânicos, as psicoses e os atrasos mentais. Entre as psicoses, eram
incluídas a mania, a melancolia, os estados delirantes crônicos, as psicoses intermitentes e as
psicoses da degeneração.
No início do século XX surgia uma série de trabalhos clínicos sobre o Delírio de
Interpretação tendo como obra mais importante o trabalho de Sérieux e Capgras intitulado Les
Folies Raisonnantes, les delires d’interprétation, livro publicado em 1909. Já em suas páginas
iniciais, mais especificamente na Introdução, eles afirmavam que
78
Le Délire Chronique à Évolution Systématique.
155
79
Elementos de Semiologia e Clínica Mentais.
156
primordial e que era sobre essa base que os delírios secundários iriam se edificar. (Clérambault,
1920/1942a).
Essa mesma teoria lhe permitiu estabelecer uma diferença entre os delírios de
perseguição encontrados nas psicoses à base do Automatismo Mental e aqueles encontrados na
Paranoia. Asseverava que os primeiros eram delírios secundários e, em vários momentos de
suas exposições, ele fez referência aos pacientes perseguidos, mas não Paranoicos, como sendo
falsos perseguidos. O termo Delírio de Perseguição era para ele uma designação empírica e
aplicada num momento em que a Psicose já se encontrava em um estado bastante avançado.
Era, pois, um trabalho interpretativo, um epifenômeno, ou seja, um sintoma que sobrevinha
numa doença já instalada. Essa concepção do delírio lhe permitiu dizer que “quando o delírio
aparece, a psicose já é antiga. O Delírio é somente uma Superestrutura” (Clérambault,
1920/1942a, p. 466)
Uma Psicose Alucinatória Crônica podia evoluir então, com ou sem delírios. Se um
delírio a ela se sobrepusesse, a Psicose deveria ser decomposta em duas partes: a porção
fundamental, composta de um núcleo que era o Automatismo e por uma outra, a superestrutura
que era o delírio. O núcleo era de causa histológica enquanto que a ideia era de ordem
psicológica. (Clérambault, 1923/1942j).
Esse aporte para uma possível aceitação do delírio ser de ordem psicológica, pareceu
ser muito mais uma confirmação do que um declínio de Clérambault em relação às suas
convicções sobre a natureza organicista da doença mental já que ele corroborava que a porção
fundamental e necessária da ideia delirante era de causa histológica. Além disso, ele se apoiou
nessa leitura – sobretudo quanto aos delírios persecutórios que, às vezes, se apresentavam nos
quadros psicóticos – para afirmar que essa concepção, por si só, tornaria a demência encontrada
nas Psicoses Alucinatórias Crônicas inexplicável, podendo-se, então, concluir que o início da
demência final estava no Automatismo inicial. Era, portanto, em sua opinião, a demência quem
explicava retrospectivamente o delírio. Quanto às alucinações que precediam os delírios, ele
jamais contestou a organicidade de sua patogenia.
Clérambault também reduziu o grau de importância dado às possíveis sistematizações
encontradas dizendo que elas eram nada mais do que um trabalho intelectual sobreposto e que
cada paciente o desempenhava na proporção de sua inteligência.
Assim, o Automatismo Mental era um processo primitivo e que podia até mesmo existir
sozinho por um longo período ou, até mesmo, indefinidamente. Ele sozinho não era suficiente
para produzir um delírio de perseguição. As alucinações que o precediam também possuíam
características muito especiais, com as vozes fazendo companhia ao paciente.
157
A personalidade segunda foi um importante conceito criado por Clérambault, mas que,
ao mesmo tempo, foi objeto de muita polêmica e crítica por parte dos seus contemporâneos.
Ela era constituída pelo delírio e surgia quando o processo do Automatismo Mental atingia sua
forma mais organizada. (Barros & Campos, 2002).
Aqui também o Eco adquiriu uma importância capital em sua teoria, sendo responsável
pela formação dessa personalidade construída através das alucinações organizadas
(Clérambault, 1926/1942). O Eco do Pensamento, situado como um fenômeno central em sua
Síndrome, através de suas variações fazia surgir as enunciações de cujas extensões se originava
a ideação autônoma. A extensão dessa última produzia a Personalidade Segunda. A partir de
então estava criado o campo fértil e necessário para a construção da temática delirante.
Para Clérambault, o delírio era uma reação apresentada pelo paciente que mantinha
saudáveis, pelo menos até então, o seu intelecto e a sua afetividade aos transtornos do
automatismo. Ele surgia de maneira espontânea, surpreendendo o paciente ao encontrá-lo num
período de neutralidade e de quietude intelectual. (Clérambault, 1925/1942)
Dessa forma, o delírio seria uma construção secundária e faria com que o paciente
constituísse a sua Personalidade Segunda. Ela era então constituída pelas escórias da
Personalidade primeira e por uma seleção de avessos. As justificativas para essa afirmação eram
encontradas no vocabulário grosseiro, comum a esse paciente, com seu repertório de ideias
indecentes, escatológicas e subversivas. Todo esse conteúdo era retirado do lixo presente em
sua Personalidade primeira. A Personalidade Segunda tinha como características dominantes a
animalidade, a vaidade e a hostilidade. “Assim, a Personalidade Segunda é feita dos resultados
acumulados de derivações incessantes e incontáveis. Essas derivações são de causas mecânicas
e obedecem às leis mecânicas” (Clérambault, 1926/1942, p. 565).
Frequentemente, a expressão Pensamento Neoplásico esteve presente e fez parte do
vocabulário de Clérambault. Ela fazia referência a um pensamento novo e que era vivenciado
pelo paciente com a característica de lhe parecer estrangeiro. Em junho de 1927, Clérambault
publicou no O Encéfalo uma carta intitulada Respostas às Diferentes Críticas de M. Ceillier
Relativas aos Trabalhos Precedentes, na qual ele respondeu as variadas críticas feitas por esse
médico e que lhe foram dirigidas na sessão de 17 de março de 1927 da Sociedade de Psiquiatria,
publicadas no O Encéfalo em abril de 1927. (Clérambault, 1927/1942b). Entre essas críticas, o
Dr. Ceillier afirmava que Clérambault estava dividindo o cérebro em duas partes, cabendo a
cada uma delas portar, de um lado o pensamento doente e do outro o pensamento saudável.
158
Além dos argumentos que davam sustentação aos princípios que sempre o nortearam,
Clérambault também fundamentou a sua convicção de que o delírio era uma construção
secundária e que estava associado à formação da Personalidade Segunda. Toda a temática
delirante exibida variava de acordo com as características individuais da personalidade primeira
do paciente e, por conseguinte, comporia as tonalidades do conteúdo de sua ideia delirante,
fossem elas de natureza otimista, pessimista, hipocondríaca, obsessiva ou de qualquer outra
ordem. Essa temática também podia sofrer influências das características alucinatórias
experimentadas, fossem elas sensações agradáveis ou não. Dessa forma, o Automatismo Mental
que não comportava, em seu início, nenhum tipo de hostilidade, poderia induzi-la através do
conteúdo das ideias delirantes sobrepostas, assim como por ocasião do aparecimento das vozes
alucinatórias que surgiam na companhia dos conteúdos contrários aos desejos e aos gostos
desses pacientes.
4.7 Patogenia
encontrando nos seus pacientes o suporte necessário para a estruturação de suas ideias. De posse
desse complexo privilegiado, certa vez disse que “esses casos confirmam nossas visões sobre a
patogenia MECÂNICA das psicoses de perseguição e das psicoses em geral” (Clérambault,
1924/1942c, p. 526, grifo do autor). Dessa forma, a base sobre a qual um processo psicótico
iria erigir estava diretamente relacionada à dimensão do indivíduo enquanto corpo biológico.
Na consequência dos desvios do funcionamento normal dessa máquina corporal, o núcleo das
psicoses encontraria no automatismo o seu traço fundamental. Toda a ideação que viria se
sobrepor a isso deveria ser considerada como da ordem do secundário. Essa elaboração de
Clérambault inverteu completamente a concepção de psicose aceita pela psiquiatria de então.
Os absurdos e o caráter anideico do Pequeno Automatismo eram, para ele, de
características mecânicas e só podiam ser explicados através de um processo orgânico inicial.
O estabelecimento de uma quadro alucinatório crônico era consequência de uma sequela antiga
de infecções agudas e esquecidas ou o resultado de intoxicações crônicas causadas pelo uso de
substâncias tóxicas, tais como o álcool, por exemplo, ou ainda decorrente de perturbações
endócrinas. “A ausência total de organização temática nos fenômenos iniciais do Automatismo
Mental parece indicar que ele tenha como causa um processo histológico irritativo com uma
progressão um tanto quanto serpiginosa80” (Clérambault, 1923/1942j, p. 486).
As alterações histológicas seriam encontradas então, não apenas na base do
Automatismo Mental, mas também na base dos outros dois automatismos fornecendo as
explicações necessárias para o processo involutivo e demencial que caracterizava os processos
psicóticos estudados. Agentes tóxicos ou infecciosos assim como afecções antigas e esquecidas
deixariam como sequelas os Delírios Alucinatórios Crônicos. Clérambault afastava assim toda
possibilidade de explicação ideogênica para esses quadros psicóticos, chegando mesmo a
afirmar que ela era impossível.
80
O termo serpiginoso foi encontrado duas vezes na Oeuvre Psychiatrique de Clérambault, mais
especificamente nas páginas 486 e 560. Segundo Maurel (1993), de acordo com o dicionário da língua francesa,
Littré, o termo pertence à terminologia médica antiga e faz referência às afecções cutâneas, tais como a úlcera
e a erisipela, e cuja característica é a de afetar o indivíduo de maneira sinuosa, curando-se de um lado para
estender-se em um outro lado, como se deslocasse de maneira rastejante. Émile Littré (1801-1881), autor do
famoso Dicionário da Língua Francesa, além de lexicógrafo e filósofo, também era formado em medicina.
160
Assim sendo, para ele seria inútil tentar fazer diagnósticos diferenciais ou estabelecer
prognósticos baseando-se no intelecto visto que suas causas não estariam localizadas aí.
Na medida em que esse processo histológico causal se estendia, haveria uma tendência
de que os pacientes perdessem a consciência da doença e o seu juízo crítico de enfermidade se
tornaria cada vez mais prejudicado, por diversas razões. Dentre elas, chegou até mesmo a
admitir a participação de algumas razões psicológicas tais como “tendência provocada do
automatismo mental, conteúdo gradualmente temático desse automatismo, irritação,
credulidade, superstição” (Clérambault, 1924/1942c, p. 525, grifo do autor).
Considerando a Síndrome do Pequeno Automatismo com seus principais elementos –
os ecos, os absurdos, as parestesias, os fenômenos psicomotores, as inibições – Clérambault
assinalou a sua coerência apesar de admitir que ela podia não estar claramente circunscrita.
Lembrou que em 1920 a definiu como basal81, mas que a partir de 1925 passou a designá-la
como nuclear (Clérambault, 1926/1942).
Girard, Maurel, Moron, & Tisseron, (1993) propuseram uma compreensão em três
níveis para este valor de núcleo que era dado por Clérambault, a saber: estrutural, temporal e
originário.
Do ponto de vista estrutural, enquanto elemento nuclear, o Automatismo representaria
a arquitetura de base sobre a qual o delírio se organizaria. O nível temporal faria referência ao
Automatismo enquanto inicial e originário. Sob esse aspecto, inclusive, Girard, Maurel, Moron,
& Tisseron, (1993) chamaram a atenção para a frequência com a qual Clérambault renunciava
o uso do termo Automatismo, mas que, mesmo assim, continuava a utilizá-lo. Eles acreditavam
que esse comportamento traduzia a preocupação constante de Clérambault nas suas tentativas
de encontrar uma alternativa que pudesse expressar melhor o surgimento desses fenômenos em
seu estado nascente. Quanto ao nível originário, esses autores se concentraram na relação de
ambiguidade que o termo apresentava; afinal eles apontavam para a causalidade e a patogenia
do processo ao mesmo tempo, sem que uma distinção pudesse ser notada entre as duas: o
automatismo estava relacionado ao fator causal das psicoses e, do mesmo modo, era resultante
de uma causalidade mecânica histológica. “Ora, os argumentos apresentados por de
Clérambault em favor desta causa histológica e mecânica são aqueles mesmos que caracterizam
os fenômenos do estado nascente. E desta característica clínica geradora nós chegamos aqui à
patogenia orgânica.” (pp. 43-44).
81
“O Automatismo é tanto o Fenômeno Primordial que sobre esta mesma base, Delírios Secundários variados
podem se edificar” (Clérambault, 1920/1942, p. 465).
161
5 Conclusão
haja vista a utilização de termos frequentemente encontrados em sua obra e que faziam parte
do arsenal teórico de Morel, tais como, degenerado, débil, estigma físico, entre outros. De
qualquer forma, parece ter sido através desse ponto que Henri Ey também se mostrou
interessado pela obra de Clérambault. É provável que tenha sido a maneira encontrada pelos
dois de tentar salvar o organicismo na psiquiatria, num momento em que ela se encontrava
completamente influenciada pelas teorias psicodinâmicas de Freud. Mas, mesmo
desenvolvendo a sua teoria sobre o Organodinamismo, Henri Ey não deixou de fazer severas
críticas ao modelo mecanicista adotado por Clérambault, conforme o fez em seu Étude nº 5.
Henri Ey (2006b) iniciou esse estudo observando que a psiquiatria mecanicista repousava sobre
uma teoria psicológica atomista e que o pensamento mecanicista poderia ser medido pelo uso
que se fazia da noção de excitação. Em sua opinião, nesse tipo de abordagem tudo se passava
em torno de uma engrenagem central na qual a lesão determinista e devastadora atingia toda a
personalidade do indivíduo. Esse processo mecânico que constrói os estados patológicos geraria
fenômenos isolados que na personalidade se superpunham e compunham o seu todo. A doença
então era considerada dentro desse sistema como um corpo estranho. Para Henri Ey, não se
deveria confundir a loucura e seus atributos, a parte e o todo nem a causa e o efeito.
Nos anos que sucederam a sua morte, as excentricidades de Clérambault geraram um
interesse muito maior do que as suas próprias teorias, não somente no meio psiquiátrico, mas
no público em geral. Prova disso foi o grande número de reportagens e publicações dessa ordem
que a sucedeu. Algumas hipóteses podem ser levantadas na busca e compreensão para esse fato.
Em princípio, o próprio pensamento anacrônico de Clérambault na defesa de suas teses
mecanicistas e constitucionalistas pode tê-lo afastado do seu meio profissional. As condições
de sua morte e o trabalho que desenvolveu paralelamente à medicina, traziam consigo uma
proeminência muito maior para a curiosidade humana do que as suas pesquisas em psiquiatria.
E, apesar da riqueza contida em suas descrições psicopatológicas, sobretudo naquelas
relacionadas ao Automatismo Mental, muitos termos do seu glossário foram, de certa forma,
absorvidos pelos psiquiatras que o sucederam na construção de outras teorias. Foi o caso, por
exemplo, do trabalho realizado por Kurt Schneider, na psiquiatria alemã, em relação à
sistematização e à organização dos sintomas para o diagnóstico de Esquizofrenia. Schneider
incluiu vários dos fenômenos descritos por Clérambault nas suas descrições concernentes aos
sintomas de primeira ordem, de segunda ordem e entre aqueles descritos como outros sintomas
esquizofrênicos.
Entretanto, aquele mesmo Jacques Lacan que criticou Clérambault em 1932, manteve-
o à margem de suas homenagens por ocasião da redação de sua tese de doutorado, reverenciou-
163
o, em 1966, como o seu único mestre em psiquiatria. Nesse momento, foram também
relembrados os nomes de René Crevel e Salvador Dali, ao mesmo tempo em que Lacan
enfatizou ter sido Clérambault o grande responsável pela descoberta que havia feito sobre a
obra freudiana (Roudinesco, 1988). Tudo isso pareceu ter sido o suficiente e o necessário para
trazer Clérambault de volta ao mundo das especulações acadêmicas. Alguns dos seus
interlocutores presentes naquele momento, provavelmente já tinham até ouvido falar de
Clérambault. No entanto, a curiosidade desenvolvida pela maioria daquela plateia em relação
àquele personagem ilustre e, ainda desconhecido por alguns, parece tê-lo transformado, como
num passe de mágica, em um grande psicanalista. Grande parte de sua obra voltou a despertar
o interesse desse público ouvinte e representante dessa fala, gerando um turbilhão de
publicações, tomando-se por base a sua obra.
É muito provável que Clérambault possa ter sido referido por Lacan, menos por suas
concepções – organicistas – e muito mais pela sua habilidade de conseguir entrar na intimidade
dos pacientes e retirar deles informações preciosas, conforme as palavras de Jesuíno (2009),
citando Lacan, “De Clérambault foi meu único mestre na observação dos doentes . . . a postular
nas esferas consagradas da ignorância magisterial” (p. 214). Mas, independentemente de quais
tenham sido as verdadeiras motivações de Lacan, a curiosidade despertada pela obra de
Clérambault certamente viria, mais tarde, dar provas dos seus valores histórico e clínico.
Lacan também foi aluno de Henri Claude no Sainte-Anne, assistindo as suas aulas sobre
a clínica das doenças mentais e do encéfalo e foi esse psiquiatra, um dos grandes responsáveis
pelo estabelecimento de Lacan naquele hospital. Claude privilegiava uma visão bleuleriana da
Esquizofrenia e, no entanto, Lacan se aproximou muito mais das leituras kraepelianas e
clerambaultianas.
Clérambault buscou encontrar no conceito de Automatismo Mental, um elemento
comum e essencial à todas as psicoses. Quanto à síndrome, ele considerava ser de origem
exclusivamente orgânica. Lacan parece ter apreendido essa formulação e lhe aplicado ao
conceito freudiano de automatismo de repetição. O automatisme de répétition recebeu, por si,
uma tradução completamente distorcida de sua terminologia alemã original, ou seja,
Wiederholungszwang, que na língua portuguesa foi representada pelo o conceito de mais-além
do princípio do prazer. Toda essa construção, associada às reverências que lhe foram feitas por
Lacan, parecem ter induzido seus discípulos a encontrarem no ensino de Clérambault algo que
escapava completamente dos fundamentos de sua teoria original.
As relações entre Lacan e Clérambault também ganharam destaque através de outras
controvérsias. O chefe da Enfermaria especial sempre se mostrou desconfiado em relação ao
164
público que o cercava e chegou, em diferentes situações, manifestar a certeza de que existiam
pessoas que lhe roubavam as ideias. Segundo Roudinesco (1988), em 1931 Lacan escreveu um
artigo intitulado Estrutura das Psicoses Paranoicas e que foi publicado em La Semaine des
Hôpitaux de Paris. Esse artigo continha uma nota de rodapé através da qual Lacan dizia ter
tomado uma imagem, por empréstimo do ensino verbal transmitido por Clérambault e lhe rendia
uma homenagem pelos termos que naquele momento utilizava. Após a publicação desse artigo,
numa reunião da Sociedade Médico-Psicológica, Clérambault se apresentou em cólera e atirou
no rosto de Lacan todos os exemplares dedicados de sua obra, acusando-o de plágio. Desde
então, até 1966, Clérambault permaneceu ausente de toda honraria que lhe pudesse ter sido feita
por Lacan. No entanto, a partir desse ano, com muita frequência, o seu nome passou a ser por
ele mencionado.
Com relação a essas citações, faz-se importante destacar aqui o fato de Lacan ter
afirmado que tomou por empréstimo de Clérambault a expressão fenômeno elementar.
Entretanto, vale ressaltar que, estritamente falando, o conceito de fenômeno elementar foi
introduzido na psiquiatria francesa por Mauritz Katan em 1939 – cinco anos, portanto, após o
falecimento de Clérambault. Ele fazia referência aos sintomas exibidos pelos pacientes antes
do surto psicótico propriamente dito (Zbrun, 2010). Brémaud, por exemplo, se refere a Katan
para lembrar que “em quase todos os casos de Esquizofrenia, pode-se distinguir uma fase pré-
psicótica e uma fase psicótica propriamente dita” (Brémaud, 2008, p. 384). Uma pesquisa
minuciosa realizada na obra escrita de Clérambault revelou que a expressão phénomènes
elementaires, no sentido que lhe foi atribuído posteriormente por Lacan, não foi encontrada em
nenhuma de suas passagens.
Independente de todas essas ocorrências, a obra de Clérambault possui, certamente, um
valor histórico e que, até por isso, não deveria ser ignorada. Clérambault dedicou toda a sua
vida ao exercício profissional ligado às atividades públicas. E foi nessas atividades que ele
desenvolveu o seu trabalho clínico e assistencial, a sua pesquisa, o seu ensino, a sua arte, enfim,
construiu a sua própria vida. Mesmo durante o tempo em que permaneceu à margem das
principais citações psiquiátricas, ele se manteve vivo na memória de um público considerável,
pelo trabalho artístico que também foi capaz de realizar. Por tudo isso, seria injusto deixar de
estabelecer as relações necessárias entre as suas trajetórias de vida e o exercício profissional
realizado nas áreas da medicina e da arte. Cada uma dessas suas habilidades, à sua maneira, se
apresentou como responsável pela preservação do seu nome na história dos homens. Da mesma
forma, tornou-se impossível deixar de lado a relação existente entre os dois cursos superiores
165
que concluiu – direito e medicina – marcas do exercício de sua principal atividade profissional
– a medicina legal.
Antes mesmo que pudesse elaborar, talvez o seu conceito mais proeminente – o do
Automatismo Mental – Clérambault já o apresentava, ainda que de maneira não tão bem
estruturada, desde os seus trabalhos com os pacientes intoxicados pelo álcool, éter e cloral. Já
naquele momento se mostrava presente a ideia de um comportamento abrupto, mecânico e que
retirava o indivíduo da realidade. No entanto, as descrições sobre os quadros de Embriaguez
Psíquica com Transformação da Personalidade se apresentaram como uma entidade nosológica
totalmente inédita e representava, para Clérambault, um grupo de pacientes que vinha sendo
esquecido, ignorado ou até mesmo subjugado apenas pelo ilícito dos seus atos. Dessa forma,
esse grupo era, inadequadamente, reconhecido apenas pelos seu desvio de caráter e não pela
sua doença. Quando Clérambault apresentou seus trabalhos sobre os alcoolistas com múltiplas
internações, ele mostrou não estar indiferente em relação às distinções necessárias sobre o que
era da ordem dos desvios de caráter e o que era da ordem da doença.
Outro ponto merecedor de destaque em sua obra pode ser relacionado ao cuidado que
ele sempre demonstrou possuir em relação às sutilezas na colheita dos sinais e dos sintomas
apresentados pelos pacientes dependentes de éter e de cloral. Essa peculiaridade de sua prática
clínica possibilitava que os diagnósticos diferenciais pudessem ser estabelecidos com outros
tipos de dependência química apenas através de uma observação clínica rigorosa. Esse seu
atributo representado através de um exame clínico criterioso dos pacientes parece ter sido
desvalorizado e deslocado por vários representantes de nossa psiquiatria contemporânea. Por
todas essas características, Clérambault mereceu, sem dúvida, o reconhecimento de ter sido um
clínico.
A Síndrome do Automatismo Mental também permitiu que Clérambault classificasse,
de um lado, as Psicoses Alucinatórias e, de outro, os Delírios Passionais. Entre esses últimos,
ele atribuiu à Erotomania um lugar privilegiado em relação aos delírios de ciúme e os de
reivindicação. A Erotomania pura, assim definida por Clérambault, foi destacada da Paranoia e
adquiriu o status de uma entidade nosológica toda própria. Não sem muitas controvérsias, é
claro! A introdução da temática sexual e a renúncia ao platonismo entre as suas características,
também garantiram uma originalidade à abordagem da Erotomania feita por Clérambault. No
entanto, Clérambault apesar de não relacioná-la entre as Psicoses à base do Automatismo
Mental, não se deu muito por convencido de que se tratava de uma patologia de ordem
estritamente psicológica. Suas investigações através das pesquisas às respostas de reflexos
neurológicos não lhe permitiram afirmar de que se tratava de uma patologia orgânica, mas
166
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