DAVID HUME
quarta-feira, 15 de outubro de 2025 20:56
Locke, como vimos, ainda que aceitasse o princípio de que todas as
nossas ideias, se originam, em última análise, de nossa experiência,
construiu uma metafísica despretenciosa. Berkeley, embora tenha
sustentado o empirismo por mais tempo do que Locke, rejeitou a noção
de substância material deste último, jamais servindo-se do empirismo
para compor uma filosofia espiritualista e metafísica. Coube a David
Hume o trabalho de completar o experimento empirista, e de apresentar,
ao racionalismo continental, uma antítese modesta.
Em sua introdução ao Tratado da Natureza Humana, Hume declara que
todas as ciências se relacionam, de algum modo, com a natureza
humana. Exemplo: A lógica estuda os princípios e operações da faculdade
humana da razão, bem como a natureza de nossas ideias; a moral e a
crítica (estética) tem como objeto os nossos gostos e sentimentos; a
política se interessa pela associação dos homens em sociedade.
Mesmo a matemática, a filosofia natural e a religião natural (que
parecem se voltar a assuntos que vão além do ser humano) são
conhecidas pelo homem e não é outro se não o homem quem julga o que
há de verdadeiro e falso em tais ramos do conhecimento.
Portanto, a natureza humana é a "capital ou o centro" de todas as
ciências. Por isso, é necessário fundar uma ciência do homem.
Segundo Hume, a base segura que podemos dar à esta ciência do
homem deve ser a experiência e a observação.
Basicamente, a tese de Hume é que o método experimental, que teve
tanto êxito nas ciências naturais, deveria ser também aplicado ao estudo
do ser humano. Ou seja, devemos começar observando com atenção o
processo psicológico e o comportamento moral do homem, a fim de
determinar suas principais causas.
Não podemos fazer nessa área os mesmos experimentos que são feitos
na química, mas a base será a mesma: Nos contentar com os dados
fornecidos pela introspecção e observação. Devemos partir dos dados
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fornecidos pela introspecção e observação. Devemos partir dos dados
empíricos, e não de qualquer intuição fingida a respeito da essência da
mente humana, coisa que foge do nosso entendimento. Nosso método
deve ser o indutivo e não o dedutivo. "E quando realizados experimentos
dessa natureza, recolhidos e comparados criteriosamente, esperamos
fundar sobre eles uma ciência, que não será inferior em termos de rigor,
mas será superior no que diz respeito à utilidade, se comparada a
qualquer outra compreensível pelo ser humano." Dessa forma, Hume
pretendia estender, o máximo possível, para a natureza humana, os
métodos próprios da ciência newtoniana, e assim prosseguir o trabalho
iniciado por Locke, Shaftersbury, Hutcheson e Butler. "A verdadeira
metafísica" superará a falsa e também assentará a ciência do homem
sobre uma base segura.
Assim como Locke, Hume considera todos os conteúdos da mente
oriundos da experiência. Porém, sua terminologia, em relação à daquele,
difere bastante. Hume emprega usa a palavra "percepções" para se
referir, em geral, aos conteúdos da mente, e classifica as percepções em
impressões e ideias: As primeiras são os dados imediatos da experiência,
tais como as sensações. Já a segunda, Hume as descreve como cópias ou
imagens esmaecidas das impressões, presentes no pensamento e no
raciocínio. Se observo meu quarto, recebo dele uma impressão.
"Quando fecho os olhos e penso em meu quarto, as ideias que formo são
representações exatas das impressões que tive; e não há qualquer
particularidade numas que não se encontre nas outras (...) Ideias e
impressões parecem sempre corresponder umas às outras".
A palavra "ideia" é usada aqui em sentido de imagem.
Hume, mais à frente, descreve em termos de vividez a diferença entre
impressões e ideias: "A diferença entre elas consiste nos graus de forças
e vivacidade com que elas afetam a mente e abrem caminho até nosso
pensamento ou consciência. Às percepções que penetram com mais
força e violência, damos o nome de impressões; e com essa designação
classifico todas as nossas sensações, paixões e emoções, visto que nos
aparecem primeiro na alma. Com o termo "ideias" refiro-me às imagens
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aparecem primeiro na alma. Com o termo "ideias" refiro-me às imagens
esmaecidas daquelas impressões no pensamento e no raciocínio; tais
como, por exemplo, todas as percepções despertadas pelo discurso
atual, menos aquelas originárias da visão e do tato, e exceto também o
prazer imediato e o mal-estar que ele pode provocar."
Hume distingue percepções simples de complexas, distinção que faz
entre ambos os tipos de percepção, a saber, impressões e ideias.
A percepção de uma mancha vermelha é uma impressão simples e o
pensamento (ou imagem) da macha vermelha é uma simples ideia.
Porém, se estou sobre o Monte de Montmartre, observando a cidade de
Paris, recebo uma impressão complexa da cidade, dos telhados, das
chaminés, das torres e das ruas. Quando, mais tarde, penso em Paris e
me lembro daquela impressão complexa, formo uma ideia complexa.
Obviamente, para ele, as impressões precedem as ideias.
Podemos dividi-las em impressões de sensação e impressões de reflexão.
"A primeira surge originariamente na alma, a partir de causas
desconhecidas". E as impressões de reflexão? Elas se originam, "em
grande parte", das ideias. Imagine que tenho uma impressão do frio,
junto com uma dor. Uma "cópia" dessa impressão continua na mente
após a impressão ter passado. Essa "cópia" se chama "ideia"; ela pode
gerar novas impressões de aversão (amor ou ódio, por exemplo), por
exemplo, as quais são impressões de reflexão. Essas, por sua vez, podem
novamente ser copiadas pela memória e pela imaginação, e transformar-
se em ideias; e assim por diante. Porém, é bom lembrar: Impressões de
sensação sempre precedem as impressões de reflexão.
Dito isso, Hume questiona, de qual impressão ou impressões se origina a
ideia de substância, supondo que ela realmente existe. Não pode ser das
impressões de sensação. A substância não tem cor, gosto ou som.
Portanto, se há uma ideia de substância, ela deve se originar das
impressões de reflexão. Porém, essas só podem ser dividias em paixões
ou emoções (ódio, vontade, paixão, aversão, etc...). Nenhuma delas é a
ideia de algo permanente que subsiste por trás dessas percepções.
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ideia de algo permanente que subsiste por trás dessas percepções.
Em termos apropriados, conclui-se que não existe ideia de substância.
A palavra "substância" designa à uma coleção de "ideias simples".
Como dito por Hume, "a ideia de uma substância (...) nada mais é do que
uma coleção de ideias simples, reunidas pela imaginação, que recebem
um nome próprio, com o qual podemos evocar, a nós mesmos ou a
outros, aquela coleção". Por vezes as qualidades particulares que
formam uma substância são remetidas a algo desconhecido em que se
supõe que elas habitem; porém, mesmo que se evite essa "ficção", as
qualidades ao menos devem manter relação de proximidade umas com
as outras, por "contingüidade e causação". Por isso, estabelecemos uma
associação de ideias em nossa mente, e quando realizamos a atividade
de descobrir uma nova qualidade de uma dada substância, a nova ideia
ingressa no grupo das ideias associadas.
Hume discorre sobre as ideias gerais abstratas na primeira parte do
Tratado, com estreita proximidade, portanto, em relação à análise das
ideias e impressões. Em primeiro lugar, ideias abstratas são, em si,
individuais ou particulares. O comprimento exato de uma linha, por
exemplo, não pode ser diferente da própria linha. Não conseguimos
estabelecer a ideia geral de uma linha contendo todos os comprimentos
possíveis. Em segundo, tudo o que existe é individual. Por exemplo,
nenhum triângulo pode existir sem ser um triângulo específico, com
características particulares.
Quando enxergamos semelhanças entre coisas que costumamos
observar, tendemos a dar o mesmo nome a todas elas, independente da
diferença que haja entre elas. Por exemplo, tendo por costume observar
o que chamamos de árvores e enxergando semelhanças entre elas,
designamos todas com a mesma palavra, "árvore", a despeito das
diferenças entre carvalhos, ulmeiros, pinheiros, árvores altas, baixas,
árvores caducifólias, folhas persistentes etc. E depois que adquirimos o
hábito de atribuir o mesmo nome a esses objetos, o fato de ouvirmos o
nome reaviva em nós a ideia de um desses objetos, e nossa imaginação o
concebe. Ouvir a palavra ou o nome não pode evocar ideias de todos os
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concebe. Ouvir a palavra ou o nome não pode evocar ideias de todos os
objetos aos quais se atribuem palavras ou nomes: só evoca um objeto.
Porém, ao mesmo tempo, se a circunstância exigir, entra em cena
"determinado hábito", a imediatez em produzir outro indivíduo que se
pareça com essa ideia. Por exemplo, imagine que eu ouça a palavra
"triângulo" e que a palavra evoque em mim um triângulo equilátero
específico. Se, em seguida, eu afirmar que os três ângulos do triângulo
são iguais, "hábito" ou "associação" evocam a ideia de outro triângulo, o
que demonstra a falsidade dessa declaração universal. Para Hume, esse
hábito é um mistério; e "é impossível explicar as causas últimas de
nossos atos mentais". Novamente, quando usamos palavras como
"governo" ou "igreja", é raro que consigamos discernir em nossas mentes
todas as ideias simples que compõe tais ideias complexas. Mas bem que
podemos evitar de falar absurdos sobre essas ideias complexas. E se
alguém declara algo incompatível com alguma parte do conteúdo de tal
ideia, reconhecemos imediatamente o absurdo da declaração.
Na primeira Investigação, Hume afirma que: "todos os objetos da razão
ou investigação humanas podem ser naturalmente classificados em dois
tipos, a saber, relações de ideias e questões de fato."
Hume quer dizer que nosso raciocínio trata de relações entre coisas.
E elas são, como afirmou Locke, de dois tipos: relações de ideias e
questões de fato. Uma proposição aritmética serve como um exemplo
das primeiras, enquanto o enunciado de que o Sol nascerá amanhã
exemplifica as segundas. Ou seja, Hume concorda com Locke quando
este diz que proposições matemáticas se relacionam somente entre
ideias: Em álgebra, por exemplo, para chegar à certeza das
demonstrações e à verdade das proposições, não importa se há ou não
objetos reais correspondentes aos símbolos utilizados. A veracidade de
uma proposição matemática independe de questões acerca da
existência. A veracidade de uma proposição matemática depende tão-
somente das relações entre ideias, ou, como diríamos, dos significados
de determinados símbolos; e não necessita de confirmação da
experiência. Sua veracidade não pode ser refutada pela experiência,
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experiência. Sua veracidade não pode ser refutada pela experiência,
posto que nada se afirma sobre questões de fato. São proposições
formais, não hipóteses empíricas. E, é claro, embora a matemática possa
ser aplicada, a veracidade das proposições independe dessa aplicação.
Afirmar que quatro mais três é igual a sete não é afirmar nada sobre
coisas existentes: a veracidade da proposição depende simplesmente dos
significados dos termos. E essa é a posição mantida por Hume.
Para Hume, as relações filosóficos se dividem em invariáveis e variáveis.
Relação invariáveis não sofrem alterações a menos que se mude os
objetos relacionados ou as ideias deles. Em contrapartida, se os objetos
ou ideias permanecem inalterados, a relação entre eles também
permanece. Relações matemáticas são deste tipo. Existem também as
relações variáveis, que podem sofrer alteração sem que se altere nada
nos objetos relacionados ou nas ideias necessariamente envolvidas.
Por exemplo, a relação espacial de distância entre dois corpos pode
variar, ainda que os corpos ou nossas ideias a respeito deles
permaneçam os mesmos.
Conclui-se daí que não obtemos o conhecimento das relações variáveis
só por meio de raciocínio; isto é, por simples análise das ideias e
demonstração a priori: conhecemo-las por experiência e observação, ou,
melhor, dependemos de experiência e observação, mesmo nos casos que
envolvem inferência. Tratamos de questões de fato, não de relações
puramente ideais: Nestas últimas, dado os significados dos símbolos 2 e
4, não podemos negar que 2 + 2 = 4 sem cairmos em contradição: pois o
contrário é inconcebível. Porém, "o contrário de toda e qualquer questão
de fato é ainda possível, pois jamais implica uma contradição (...). Afirmar
que o Sol não nascerá amanhã não é uma proposição menos inteligível
nem implica mais contradição do que afirmar que o Sol nascerá; e seria
vão, portanto, tentar demonstrar sua falsidade". O intuito de Hume não
é condenar como falsa a afirmação de que o Sol nascerá amanhã.
Tampouco pretende negar que talvez estejamos certos de que o Sol
nascerá amanhã. Só está sustentando que não temos, nem podemos ter,
os mesmos graus de certeza para a afirmação de que o Sol nascerá
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os mesmos graus de certeza para a afirmação de que o Sol nascerá
amanhã que temos para a veracidade de uma proposição matemática
pura. Pode ser alta a probabilidade de que o Sol nasça amanhã, mas a
afirmação não é certa se entendermos uma proposição certa como
aquela que é logicamente necessária, e cuja proposição oposta é
contraditória e impossível. Trata-se, em resumo, de uma hipótese
empírica, com maior ou menor grau de probabilidade.
A visão de Hume acerca dessa questão é de fundamental importância.
Proposições que afirmam o que o autor chama de relações de ideias são
atualmente chamadas, em sentido geral, de proposições analíticas.
E proposições que afirmam questões de fato são denominadas
proposições sintéticas.
Quando observamos o mundo, notamos que certos eventos seguem
regularmente outros — por exemplo, o fogo é seguido pelo calor, o
choque de bolas de bilhar é seguido pelo movimento da segunda bola, e
assim por diante. Dessa observação, formamos a ideia de causa.
Mas, segundo Hume, essa ideia não vem de uma percepção direta de
conexão necessária (pois nunca vemos a “força” que liga causa e efeito),
e sim do hábito ou costume mental de associar dois eventos que sempre
aparecem juntos. “Causa” é apenas a relação constante de conjunção
entre dois eventos e a expectativa mental de que, se o primeiro ocorre,
o segundo se seguirá.
Como sabemos, na tradição de Aristóteles, existiam quatro tipos de
causa:
- Material – do que algo é feito (ex: o bronze da estátua).
- Formal – a forma ou estrutura da coisa (ex: o formato da estátua).
- Eficiente – aquilo que produz ou gera algo (ex: o escultor que faz a
estátua).
- Final – a finalidade, o propósito (ex: homenagear alguém).
Hume não aceita essa multiplicidade de causas. Ele rejeita
especialmente as ideias de causa final (teleologia) e causa formal,
porque essas noções não derivam da experiência sensível.
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porque essas noções não derivam da experiência sensível.
O que ele aceita — e mesmo assim de modo crítico — é apenas algo
equivalente à causa eficiente, mas reinterpretada empiricamente:
• A “causa” é o evento que sempre precede outro de modo constante.
• Nossa mente projeta uma relação necessária entre eles, por hábito.
Assim, pode-se dizer que Hume só reconhece algo análogo à causa
eficiente, mas sem admitir que exista necessidade causal entre os
eventos. Percebo, por exemplo, que o calor dilata um corpo e digo que
"o calor causa a dilatação de tal corpo". Mas eu não vi a causalidade e
nem ninguém a pode ver. Se quero ser preciso no meu testemunho,
poderei dizer somente que dado ao aumento de temperatura, se seguiu
uma dilatação desse corpo, mas não me será lícito interpor este nexo de
causalidade sobre o qual nada sei por experiência. Para que conferir
realidade a um pressuposto no qual somente posso crer?
Hume também tece comentários importantes à cerca da nossa crença na
existência de corpos. Como para ele, ideias são redutíveis à impressões,
estas são subjetivas. Ou seja, pertencem ao sujeito percipiente.
Portanto, jamais podemos imaginar como os objetos seriam, ou são,
independentes de nossas percepções. É importante lembrar: Hume
defende que não é possível provar a existência de corpos independentes
da percepção, não que os mesmos não existem.
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Como vimos, Hume distinguia entre impressões de sensação e
impressões de reflexão. Isso é o mesmo que diferenciar impressões
originais de secundárias: "As impressões originais, ou impressões de
sensação, são as que, sem qualquer percepção antecedente, surgem na
alma, a partir da própria constituição do corpo, dos espíritos animais ou
da exposição de objetos aos órgãos exteriores. As impressões
secundárias ou reflexivas são as que provêm de algumas das impressões
originais, quer imediatamente, quer pela interposição das suas ideias.
Do primeiro tipo são todas as impressões dos sentidos e todas as dores e
prazeres corporais; do segundo, são as paixões e outras emoções
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prazeres corporais; do segundo, são as paixões e outras emoções
semelhantes."
Hume classifica as paixões em diretas e indiretas. As primeiras são as que
surgem logo da experiência de prazer ou dor sem mediação de nenhuma
ideia complexa; Hume cita como exemplos: desejo, aversão, sofrimento,
alegria, esperança, medo, desespero segurança. A dor da gota, por
exemplo, ocasiona paixões diretas. Hume também menciona as paixões
diretas que surgem "de um impulso ou instinto natural, que é
perfeitamente inexplicável". São deste tipo o desejo da punição para
nossos inimigos e o de felicidade para os amigos; a fome, a luxúria, e
alguns outros apetites corporais". Paixões indiretas não surgem
simplesmente de sentimentos de prazer ou dor; provêm daquilo que
Hume chama de "dupla relação de impressões e ideias". São mais
complexas, pois não surgem apenas do prazer ou da dor, mas também de
uma ideia de si mesmo ou de outro — isto é, envolvem um processo de
reflexão. Pode-se explicar melhor a intenção do filósofo por meio de
exemplos, tais como humildade, amor e ódio.
Conhecemos as paixões dos outros por observação dos efeitos delas.
"Quando uma afeição se nos ocorre por simpatia, conhecemo-la primeiro
apernas por seus efeitos e sinais exteriores do rosto e da conservação, os
quais nos transmitem uma ideia dela". A simpatia (sympathy) é o
mecanismo psicológico pelo qual transmitimos e partilhamos
sentimentos com os outros. Ela explica como as paixões se comunicam
entre as pessoas — é uma espécie de “contágio emocional” natural, não
moral. Segundo Hume, a mente humana tem uma tendência natural a se
colocar no lugar do outro. Quando percebemos as emoções, expressões
ou situações de alguém, imaginamos o que essa pessoa sente e geramos
em nós uma versão enfraquecida desse mesmo sentimento.
Exemplo:
• Vejo um amigo triste → imagino a causa → sinto uma tristeza
semelhante.
• Vejo alguém sendo elogiado → imagino o prazer dele → sinto orgulho
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• Vejo alguém sendo elogiado → imagino o prazer dele → sinto orgulho
ou alegria por ele.
Ou seja, a simpatia transmite o prazer ou a dor de um indivíduo a outro,
permitindo que entendamos e respondamos emocionalmente aos
outros.
Hume prossegue então a falar sobre o dilema de paixão e razão. Ele
primeiro diz que "a razão por si só não pode ser motivo para qualquer
ato de vontade", e a segunda é "que ela jamais se pode opor à paixão na
direção da vontade". A defesa que o autor faz dessas duas proposições se
origina do fato de que "nada é mais habitual em filosofia, e mesmo na
vida comum, do que falar do combate entre paixão razão, do que preferir
a razão e afirmar que as pessoas só são virtuosas na medida em que se
conformam com as determinações desta última". Em primeiro lugar,
razão, no sentido de entendimento abstrato que trata de relações entre
ideias ou de questões de demonstração, nunca é causa de nenhuma
ação. "A matemática é útil em todas as operações mecânicas e a
aritmética em quase todas as artes e profissões; porém, não é por si
mesmas que elas exercem qualquer influência". Elas não influenciam as
ações a menos que tenhamos um propósito ou fim que não é ditado ou
determinado pela matemática.
O impulso que governa nossas ações só é guiado pela razão; não se
origina dela. "É da perspectiva de uma dor ou de um prazer que surge a
aversão ou inclinação quanto a um objeto".
Portanto, a razão, por si só, nunca pode gerar uma ação. E Hume conclui,
a partir daí, a veracidade de sua segunda proposição. "Visto que a razão,
por si só, jamais pode gerar uma ação ou volição, concluo que a mesma
faculdade é também incapaz de impedir uma volição, bem como de
disputar a preferência com uma paixão ou emoção. Trata-se de uma
consequência necessária". A razão poderia impedir a volição somente se
oferecesse um impulso numa direção contrária; mas não se cogita tal
coisa, pelo que já foi dito. E se a razão não exerce influência por si
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coisa, pelo que já foi dito. E se a razão não exerce influência por si
própria, não pode resistir a qualquer princípio, como uma paixão, a qual
tem eficácia. "A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões; não
pode aspirar a outra função senão a de lhes servir e obedecer.
Também há "desejos e tendências tranquilas que, embora sendo paixões
reais, produzem pouca emoção na mente e são mais conhecidos por seus
efeitos do que por sensação ou sentimento imediatos". Podem ser de
dois tipos. Há, segundo Hume, certos instintos, como benevolência e
ressentimento, amor pela vida e docilidade com crianças, que estão
plantados desde a origem em nossa natureza. Há também o desejo pelo
bem e aversão pelo mal, considerados meramente como tal. Quando
uma dessas paixões é tranquila, é facilmente considerada uma operação
da razão "e supõe-se que provêm da mesma faculdade que julga o
verdadeiro e o falso". As paixões tranquilas não predominam em todo
mundo, de fato. E se predominam paixões tranquilas ou violentas, irá
depender do caráter geral e da disposição atual da pessoa. No entanto,
"aquilo a que chamamos força de alma implica o predomínio das paixões
tranquilas sobre as violetas". Ao afirmar essa tese da subordinação da
razão às paixões, é óbvio que Hume estava adotando uma perspectiva
anti-racionalista. Não a razão, mas a propensão e a aversão, seguintes a
experiências de prazer ou dor, são as fontes fundamentais da ação
humana. A razão desempenha um papel na vida humana ativa, mas como
instrumento de paixão, não como causa única e suficiente. Podemos
dizer que Hume afirma uma espécie de determinismo psicológico.
Não é uma opinião condizente com a experiência que não existam
quaisquer distinções morais. "Por mais insensível que seja um homem,
ele será frequentemente confrontado com as imagens de certo e errado,
e, por mais obstinados que sejam seus preconceitos, ele deve
certamente observar que outras pessoas são suscetíveis às mesmas
impressões".
Seria a moral, algo fundamentado na razão, de modo que sejam iguais à
todos os seres racionais? Ou estão baseadas, como outros sugerem, num
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todos os seres racionais? Ou estão baseadas, como outros sugerem, num
senso ou sentimento moral? Ora, nós já vimos que, para Hume, a razão
por si só não afeta a conduta, e que são as paixões ou afeições as fontes
fundamentais da ação. A razão, por si só, nunca pode gerar uma ação.
Se fazemos distinções morais, elas devem se basear no sentimento.
"A moral é, portanto, mais propriamente sentida do que julgada".
A virtude suscita uma impressão "agradável", o vício uma impressão
"inquieta". "Uma ação, um sentimento ou um personagem é virtuoso ou
vicioso. Por quê? Porque o contato com qualquer um desses causa prazer
ou mal-estar de um tipo específico". Porém, Hume prossegue, o prazer
causado pela virtude e a dor pelo vício são prazer e dor de tipo especial.
O termo "prazer" abrange diferentes tipos de sensação: "Uma boa
composição musical e uma garrafa de bom vinho geram igualmente um
prazer; mais ainda, a sua bondade é determinada apenas pelo prazer.
Mas haveremos de dizer, por esse motivo, que o vinho é harmonioso ou
que a música tem bom sabor? (...) Nem todos os sentimentos de prazer
ou dor, originados dos personagens e das ações, são deste tipo específico
que nos faz louvar ou censurar". O sentimento moral é um sentimento de
aprovação ou desaprovação quanto às ações, qualidade ou personagens.
E é desinteressado: Nós só chamamos alguém de moralmente bom ou
mau quando o julgamos de forma imparcial, ou seja, sem pensar em
como ele nos afeta pessoalmente. O julgamento moral ocorre quando
sentimos uma aprovação ou desaprovação geral em relação ao caráter
da pessoa — um sentimento desinteressado, não egoísta.
Exemplo: Se eu gosto de alguém porque essa pessoa me ajuda, isso é
interesse pessoal, não moralidade. Mas se eu aprovo uma pessoa porque
ela é bondosa, justa, generosa, mesmo que isso não me traga benefício
direto, então estou reagindo moralmente — movido por um sentimento
de aprovação desinteressada. Esse “sentimento moral” é o que distingue
a moralidade do simples prazer ou utilidade individual.
Assim, Hume quer dizer que: O bem moral é aquilo que desperta, em
espectadores imparciais, um sentimento agradável de aprovação.
O mal moral é aquilo que provoca, nesses mesmos espectadores, um
sentimento de desaprovação. E isso ocorre quando consideramos o
caráter de alguém em geral, sem pensar em como ele nos afeta
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caráter de alguém em geral, sem pensar em como ele nos afeta
diretamente.
Portanto, a hipótese de Hume "define a virtude como qualquer ação ou
qualidade mental que comunica ao espectador um sentimento agradável
de aprovação; e o vício, como o seu contrário. Essa perspectiva implica o
relativismo puro, pelo princípio de que gosto não se discute? É óbvio que
costumam haver diferenças entre diferentes juízos morais feitos por
pessoas. Porém, Hume dizia que há certo acordo fundamental quanto ao
funcionamento desses sentimentos. Ao mencionar a legitimidade da
revolta contra um tirano, ele observa que só a perversão mais violenta
do senso comum pode nos fazer condenar a resistência à opressão.
Em seguida, o autor completa: "A opinião geral da humanidade tem
alguma autoridade em todos os casos; porém, no caso da moral, é
perfeitamente infalível. Nem se torna menos infalível por não ser
possível explicar distintamente os princípios em que se baseia".
Se os sentimentos morais se devem à constituição original das mentes
humanas, é natural que haja acordo fundamental.
Benevolência e generosidade sempre despertam aprovação e boa
vontade das pessoas. "Os epítetos sociável, de boa índole, humano,
compassivo, grato, amistoso, generoso, benfazejo, ou seus equivalentes,
são conhecidos em todas as línguas e expressam universalmente o mais
alto mérito que a natureza humana é capaz de atingir". Além disso,
quando as pessoas louvam alguém benevolente e humano, "há uma
circunstância que jamais deixa de ser amplamente reiterada, a saber, a
felicidade e satisfação que a sociedade logra de sua convivência e de seus
bons ofícios". Isso indica que a utilidade das virtudes sociais "constitui
pelo menos uma parte de seu mérito, e é uma fonte de aprovação e
respeito que recebem de forma tão universal. (...) E, em geral, quanto
louvor não está subentendido no simples qualificativo 'útil'! E quanta
reprovação em seu contrário!". Cabe destacar que Hume não afirma que
a benevolência é considerada virtude simplesmente por causa de sua
utilidade. Algumas qualidades, como a cortesia, são imediatamente
agradáveis, sem referência à utilidade (que significa para Hume, gerar um
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agradáveis, sem referência à utilidade (que significa para Hume, gerar um
benefício maior ou posterior); e a benevolência em si é imediatamente
prazerosa e agradável. Antes de prosseguir ao tema da utilidade, Hume
esclarece que o mesmo não é adepto do cinismo moral. Ele diz, inclusive,
que há casos que é bem mais fácil acreditar que alguém é movido por
benevolência e humanidade desinteressadas do que crer que este só age
desse jeito por interesse próprio. Portanto, quando Hume diz que a causa
parcial da benevolência desinteressada é a utilidade, ele não está
necessariamente se referindo à utilidade privada de alguém ou de si
próprio. "Portanto, se a utilidade é uma fonte do sentimento moral, e
essa utilidade não é sempre considerada em referência ao próprio
sujeito, conclui-se que tudo o que contribui para a felicidade e satisfação
da sociedade é diretamente digno de nossa aprovação e receptividade.
Esse princípio explica, em grande parte, a origem da moralidade".
Já vimos que, segundo Hume, a utilidade é um dos motivos por que a
benevolência logra nossa aprovação moral. Porém, não é o único. O
filósofo sustenta, contudo, que "a utilidade pública é a única origem da
justiça, e as reflexões sobre as consequências benéficas dessa virtude são
o único fundamento para o seu mérito". A sociedade é naturalmente
vantajosa para os seres humanos. Deixado por si, o indivíduo não
consegue suprir todas as suas necessidades como ser humano. Portanto,
o interesse próprio é o que leva o indivíduo a participar da sociedade.
Porém, isso não basta. Afinal, sempre surgem perturbações na sociedade
se não houver convenções para definir e regular os direitos de
propriedade. Por isso, é necessário que haja um senso comum sobre
promessas e normas convencionadas. Uma vez que passou a vigorar essa
convenção de abster-se dos bens externos de outras pessoas, "surgem
imediatamente as ideias de justiça e injustiça". Entretanto, o intuito de
Hume não é declarar que existe um direito de propriedade que prece a
ideia de justiça. Ele nega isso abertamente. É o senso geral de interesse
comum que gera os princípios gerais de justiça e igualdade. "A nossa
propriedade consiste apenas naqueles bens cuja posse permanente é
estabelecida pelas leis da sociedade, isto é, pelas leis da justiça".
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Portanto, a justiça é baseada no interesse próprio, em um sendo de
utilidade. E é este interesse próprio que dá origem ao que Hume chama
de "obrigação natural" da justiça. Mas o que gera "obrigação moral, ou o
sentimento do bem e do mal"? A explicação reside na simpatia. Mesmo
quando a injustiça não nos afeta pessoalmente como vítimas, ela nos
desagrada, pois a consideramos prejudicial à sociedade. Sentimos o "mal-
estar" das pessoas junto com elas, por simpatia. E, uma vez que se chama
vício aquilo que nas ações humanas gera mal-estar e incita desaprovação,
e virtude aquilo que gera satisfação, consideramos justiça como virtude
moral e injustiça como vício moral. "Assim, o interesse próprio é o
motivo original do estabelecimento da justiça; mas uma simpatia com o
interesse público é a origem da aprovação moral que acompanha a
virtude". A educação e os discurso de estadistas e políticos contribuem
para consolidar essa aprovação moral; porém, a simpatia continua sendo
a base.
Ele diz: "A paz e a ordem gerais são frutos da justiça, isto é, de uma
abstenção generalizada de apoderar-se das posses alheias". Assim
conseguimos entender a intenção de Hume ao chamar a justiça de
virtude "artificial". A justiça origina satisfação e aprovação, "por meio de
artifício e de invenções provenientes das circunstâncias e das
necessidades da humanidade". A justiça é artificial no sentido de ser uma
invenção do ser humano, proposta como solução para o egoísmo e
ganância somados ao escasso recurso que a natureza criou para suas
necessidades. Sem esta utilidade básica, não haveria virtude ou justiça.
Portanto, Hume não admite que haja leis eternas da justiça, a despeito
das condições humanas e da utilidade pública. A justiça é um artifício,
uma invenção. Ao mesmo tempo, ela não depende de contrato social ou
de promessa. Pois é a justiça mesma que dá origem a contratos e
promessas vinculatórias.
Como vimos ao tratar de virtude ou justiça, a sociedade organizada
surgiu por ser útil aos seres humanos. No entanto, é importante
compreender que Hume não imagina seres humanos primitivos
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compreender que Hume não imagina seres humanos primitivos
refletindo sobre as desvantagens de suas vidas por não terem uma
sociedade organizada, pensando numa solução e submetendo-se a
qualquer acordo ou contrato social explícito. Se eles não conseguiram
alcançar esse conhecimento por reflexão, então como eles alcançaram?
A resposta de Hume é que a sociedade surgiu através da família. Os
apetites naturais unem os seres de ambos os sexos e conservam sua
união até que surja entre eles um novo vínculo: A preocupação com os
seus descendentes. "Em pouco tempo, o costume e o hábito agem sobre
as mentes tenras dos filhos, dão-lhes consciência das vantagens que
podem obter da sociedade, e, ao mesmo tempo, adaptam-nos aos
poucos à sociedade, polindo suas arestas brutas e afeições perversas, as
quais impedem sua integração na sociedade". A família é, portanto, o
princípio primeiro e original da sociedade humana. A passagem disso
para a sociedade mais ampla é resultado sobretudo da necessidade de
assegurar a posse de bens externos.
Pode-se fazer declarações semelhantes a respeito da origem do governo.
Se a justiça natural fosse suficiente para orientar a conduta humana, se
nunca surgisse desordem ou maldade, não haveria necessidade de
cultivar a liberdade individual por meio de governos constituídos aos
quais devemos lealdade. "É óbvio que o governo jamais teria surgido
caso fosse completamente inútil, é evidente que o único fundamento
para o dever de obediência é a vantagem que proporciona à sociedade,
pois conserva a paz e a ordem entre os seres humanos". Portanto, a
utilidade do governo é o fundamento de sua constituição. E a principal
vantagem que garante aos seres humanos é o estabelecimento e a
manutenção da justiça.
A filosofia política de Hume tem uma forte influência daquilo que
podemos chamar de "positivismo". Ele recorre ao que de fato acontece,
ou ao que todos consideram como critério, e não a raciocínios a priori.
Por exemplo, a autoridade política costuma resultar de usurpação,
rebelião ou conquista, e se a autoridade não é instável e, obviamente,
nem tirânica e opressiva, na prática é reconhecida como legítima pela
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nem tirânica e opressiva, na prática é reconhecida como legítima pela
maioria dos governados. É o que basta, para Hume. Discussões frívolas a
respeito da legitimidade da autoridade, e tentativas de prová-la
mediante "ficções filosóficas", são desperdício de tempo. É mais frutífero
investigar quais os títulos de autoridade são na prática aceitos como tal.
Em suma, Hume demonstra um interesse maior em entender aquilo que
houve, do que como deve ser. E mesmo quando tece sugestões para
melhorar a constituição, tem em mente a vantagem e a utilidade
práticas, e não conclusões deduzidas de princípios abstratos e eternos.
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