Summa - Volume 3
Summa - Volume 3
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Summa Ìtànlógica
Ìwòrì
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Summa Ìtànlógica / Filosófica-Antropólogica - Volume 3 – Ìwòrì Méjì a Ìwòrì Òfún
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Dedicatória
Agradecimentos
Aos meus alunos que dia após dia me ensinam a ser um professor melhor
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Sumário
Prefácio……………………………………………………………………………………………….8
Apresentação………………………………………………………………………………………..22
Introdução Geral…………………………………………………………………………………….26
Estrutura Hermenêutica e Ìtànlogia da Obra………………………………………………………..48
1. ÌWÒRÌ MÉJ………………………………………………………………………………………52
Ìtàn 1: 52; Ìtàn 2: 57; Ìtàn 3: 62; Ìtàn 4: 66
2. ÌWÒRÌ ÒGBÈ……………………………………………………………………………………74
Ìtàn 1: 74; Ìtàn 2: 79; Ìtàn 3: 84; Ìtàn 4: 88
3. ÌWÒRÌ ÒYÈKÙ………………………………………………………………………………….95
Ìtàn 1: 95; Ìtàn 2: 110; Ìtàn 3: 122; Ìtàn 4: 132
4. ÌWÒRÌ ÒDÌ……………………………………………………………………………………..142
Ìtàn 1: 142; Ìtàn 2: 150; Ìtàn 3: 159; Ìtàn 4: 168
5. ÌWÒRÌ ÌRÒSÙN………………………………………………………………………………..178
Ìtàn 1: 178; Ìtàn 2: 190; Ìtàn 3: 199; Ìtàn 4: 211
6. ÌWÒRÌ ÒWÒNRÌN……………………………………………………………………………..220
Ìtàn 1: 220; Ìtàn 2: 232; Ìtàn 3: 245; Ìtàn 4: 253
7. ÌWÒRÌ ÒBÀRÀ………………………………………………………………………………..262
Ìtàn 1: 262; Ìtàn 2: 269; Ìtàn 3: 281; Ìtàn 4: 289
8. ÌWÒRÌ ÒKÀNRÀN……………………………………………………………………………301
Ìtàn 1: 301; Ìtàn 2: 313; Ìtàn 3: 324; Ìtàn 4: 336
9. ÌWÒRÌ ÒGÚNDÁ………………………………………………………………………………341
Ìtàn 1: 341; Ìtàn 2: 344; Ìtàn 3: 348; Ìtàn 4: 352
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14. ÌWÒRÌ ÌRÈTÈ…………………………………………………………………………………545
Ìtàn 1: 545; Ìtàn 2: 558; Ìtàn 3: 571; Ìtàn 4: 582; Ìtàn 5: 585; Ìtàn 6: 598; Ìtàn 7: 610
Epílogo…………………………………………………………………………………………….697
Notas Ìtànlógicas e Vocabulário Oracular…………………………………………………………700
Bibliografia Geral………………………………….………………………………………………703
Apêndice Final……………………………………………………………………………………..715
Sobre o Autor………………………………………………………………………………………720
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Prefácio
Escrevo como quem retorna de dentro do som, como quem foi chamado não por vozes humanas,
mas pela vibração antiga que sustenta todas as vozes. Ifá não se aprende: ele se recorda. É um som
que sempre esteve no fundo da memória, adormecido, esperando que o silêncio fosse profundo o
bastante para que ele pudesse despertar. Este livro nasceu assim, não de uma ideia, mas de uma
escuta. Há uma diferença infinita entre ouvir e escutar. Ouvir é captar o ruído; escutar é entrar no
ritmo. O ouvido do sábio não se volta para fora, mas para o interior do som, lá onde o som ainda é
puro e sem nome. O nome de Ìwòrì não é apenas um signo entre outros duzentos e cinquenta e seis:
é o nome da escuta como estrutura da existência. O que é o ser, senão aquilo que responde quando é
chamado? O que é o mundo, senão o eco da palavra que o criou? Ìwòrì é a orelha do universo, o
ouvido de Olódùmarè dentro da matéria, o ponto onde o invisível se ouve a si mesmo.
Quando a palavra foi pronunciada pela primeira vez — o som original que deu forma às estrelas —,
algo se recolheu dentro dela: o desejo de ser ouvido. Toda criação é também uma súplica: “escuta-
me”. E toda escuta é um gesto de amor, pois implica que há algo digno de ser ouvido. O amor é o
ouvido de Deus no homem. É por isso que Ìwòrì é o Odu do amor e da sabedoria: ele ensina a ouvir
sem dominar, a perceber sem querer possuir, a acolher sem transformar em objeto. O saber que
nasce de Ìwòrì não é o saber que corta, mas o saber que envolve. Em seu silêncio, Ìwòrì não é
ausência de som — é o intervalo necessário para que o som encontre sentido.
Se Ògbè é a luz que inicia, Ìwòrì é o ouvido que compreende o brilho. Toda luz precisa de quem a
veja; todo som precisa de quem o escute. Mas há um tipo de escuta que é anterior ao próprio som: é
o estado de receptividade que precede o mundo. Ìwòrì é esse estado. Ele é o ventre acústico do
universo, o espaço em que Olódùmarè escutou o que ainda não havia dito, e, ao escutar, deu origem
ao dizer. O verbo não começou pela boca, começou pelo ouvido. E é por isso que, no mais alto
sentido, Ìwòrì é o primeiro Odu, pois antes da criação ser dita, ela foi ouvida no silêncio de Deus.
Cada verso de Ifá é uma reverberação dessa escuta primordial. Não há um único itan que não nasça
da audição do invisível. O Bàbáláwo, ao lançar os ikin ou o òpèlè, não está “consultando” — está
ouvindo o som do universo ressoando no acaso. As marcas deixadas sobre a tábua não são
símbolos, mas vestígios sonoros. O pó de ìyerosun, ao cair, é a poeira luminosa de uma vibração
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cósmica. Cada traço é um som fixado na terra. A leitura é um ato de audição espiritual. E o ouvido
de Ifá é o oráculo do tempo.
Escrever sobre Ìwòrì é, portanto, escrever sobre o próprio ato de compreender. Em toda
compreensão há um movimento de recolhimento: é preciso que algo se aquiete para que outra coisa
soe. A mente que pensa em excesso não escuta; a alma que fala demais se torna surda para o que o
mundo diz. Ìwòrì ensina o retorno, a pausa, o mergulho. Ele é o espelho do ser voltado para dentro.
Quando Òrúnmìlà fala de Ìwòrì, fala do coração que se escuta antes de agir, da sabedoria que se
forma antes de nascer, do som que já existe antes de qualquer palavra.
O mundo moderno, com sua pressa e ruído, é o contrário de Ìwòrì. Ele fala, mas não escuta. Produz,
mas não contempla. Busca respostas, mas esqueceu de formular perguntas. O homem que não sabe
escutar não conhece nem a si mesmo, porque o autoconhecimento é o retorno da escuta ao interior
do ser. O ouvido de Ìwòrì não está voltado para fora; ele ouve o que o corpo diz, o que o orí
sussurra, o que o espírito murmura quando todos dormem.
A escuta, para o iniciado, é também o lugar do perigo. Ouvir é arriscar-se a mudar. Aquele que
escuta profundamente não permanece o mesmo, pois a vibração que penetra transforma o ouvinte. É
por isso que o ouvido é o órgão da iniciação. O olho vê o mundo tal como ele é; o ouvido o
transforma no instante em que o acolhe. O som não pode ser retido — ele atravessa. Por isso,
escutar é sempre um ato de atravessamento. Ìwòrì é o atravessar silencioso entre o que é e o que
pode ser, entre o que foi dito e o que ainda será.
Em Ìwòrì Méjì, tudo é duplo e uno. A escuta que vem de fora encontra a escuta que vem de dentro,
e as duas formam o círculo sagrado da sabedoria. O som que vem do mundo toca o ouvido da alma,
e o som que vem da alma desperta o mundo. Entre ambos está o orí, o ouvido interior de Olódùmarè
em nós. Quando o homem aprende a ouvir com o orí, ele se torna presença. O som então não é mais
externo; o mundo inteiro se torna uma grande respiração em que tudo fala e tudo escuta.
A escuta é também o modo pelo qual o invisível se faz corpo. Cada ser, cada pedra, cada folha,
vibra de um modo específico porque responde a um chamado específico. O universo é o conjunto
dos sons que responderam ao chamado da criação. Escutar é participar da resposta. O ouvido de
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Ìwòrì não distingue entre o som e o ser; ele os compreende como uma só coisa. Por isso, toda
existência é uma melodia — e toda sabedoria, uma harmonia.
Aqueles que escutam Ifá sabem que os versos não se limitam à história. Um itan não é narrado: ele
é cantado, sentido, vivido. O que o ouvido capta é o movimento da energia. Quando se diz “Ìwòrì
Méjì”, o som vibra de um modo que altera a qualidade do ar. Não é o nome de um signo: é a
abertura de uma frequência. Por isso, os antigos diziam que o nome de um Odu é o seu corpo. E o
corpo do som é a vibração.
Escrever este prefácio é retornar a essa vibração. Cada palavra aqui tenta não dizer, mas vibrar. A
escrita é apenas o vestígio do som. O texto é o rastro daquilo que passou cantando. O escritor de Ifá
deve saber escutar mais do que escrever. Pois cada palavra escrita é um som que se cristalizou no
papel. Se ela não foi ouvida antes de ser escrita, não tem àṣẹ. O que dá força a uma palavra não é o
que ela significa, mas o modo como ela vibra.
Por isso, não escrevo para convencer. Escrevo para ressoar. Este prefácio não é uma explicação do
livro: é a vibração que o antecede. Ìwòrì é o ponto em que o som da criação se dobra sobre si
mesmo e volta a ser silêncio. É o retorno do verbo à fonte. É o ciclo completo da comunicação
divina: Olódùmarè fala, o mundo responde, e no silêncio da escuta ambos se tornam um.
Aquele que escuta com o coração de Ìwòrì aprende a ler o invisível não com os olhos, mas com a
vibração da presença. O som que atravessa o ouvido não é o mesmo que penetra a consciência. O
primeiro é ruído; o segundo é revelação. A revelação não é uma mensagem: é uma forma de
despertar. Ela não informa, transforma. E é por isso que Ifá não é uma doutrina, mas um estado de
consciência. Ìwòrì é esse estado. Ele é o ouvido desperto de Òrúnmìlà, o ponto onde o ser se torna
som e o som se torna sentido.
Para compreender Ìwòrì, é preciso compreender o que é o tempo. O tempo não é apenas sucessão: é
também audição. O passado é aquilo que já foi ouvido; o presente é o que está sendo ouvido; o
futuro é o som que ainda não conseguimos escutar. A vida inteira é uma composição em andamento.
O homem sábio é aquele que escuta o futuro no silêncio do presente, que sabe distinguir o som
daquilo que virá. É o ouvido oracular de Ifá, o ponto em que o tempo se curva sobre si e revela sua
forma interior.
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O silêncio, nesse sentido, não é vazio. É plenitude. O silêncio é o ventre do som, o útero do verbo.
Não há som que não tenha nascido do silêncio, e não há silêncio que não esteja prenhe de som. Em
Ìwòrì, esses dois extremos se tocam: o silêncio se faz verbo, e o verbo se desfaz em silêncio. Por
isso, diz-se que Ìwòrì é o Odu da revelação interior, da voz que fala sem ruído, da sabedoria que não
precisa provar nada. O que é revelado em Ìwòrì não é novo: é apenas lembrado. Ifá não inventa,
recorda. E recordar é reouvir o que o espírito já sabia antes de nascer.
A memória é o ouvido da alma. Quando Òrúnmìlà revela um Ìtàn, ele está apenas despertando
memórias adormecidas no interior do ser. Cada pessoa é um corpo de recordações. Esquecer é o
mesmo que tornar-se surdo para a própria origem. A iniciação é o retorno da audição perdida — é o
momento em que o ser volta a ouvir a si mesmo como parte do canto do universo.
Ouvir o mundo, em Ìwòrì, é também ouvir a dor e a beleza que o sustentam. Não há sabedoria sem
ferida. O ouvido é o órgão da vulnerabilidade. Ele não tem pálpebras. Ele não pode se fechar por
completo. Está sempre aberto, sempre exposto. Por isso, a escuta verdadeira é também entrega.
Escutar é oferecer-se ao outro sem defesas. O ouvido é o lugar mais humano do corpo. E é ali que
Òrúnmìlà se manifesta: não no poder da fala, mas na entrega da escuta.
Na história de Ìwòrì Méjì, quando Òrúnmìlà desce à Terra, ele não traz consigo o fogo, nem o ferro,
nem o raio: traz o ouvido. Ele vem para escutar o que o Àiyé tem a dizer ao Ọ̀run. A função do
adivinho não é falar por Deus, mas ouvir em nome do mundo. Ele é o ouvido humano de
Olódùmarè. É por isso que Ifá é a mais alta metafísica da escuta. Tudo o que existe emana de uma
vibração primordial. A matéria não é sólida: é som coagulado. As montanhas, os rios, as estrelas, os
corpos — tudo vibra, tudo canta. E aquele que aprende a ouvir os cânticos ocultos da realidade toca
o segredo da criação.
A civilização moderna, com seus olhos viciados na forma, perdeu o ouvido para o invisível. Ela
acredita apenas no que vê, e por isso enxerga pouco. A visão separa, delimita, julga. A escuta
integra. A visão constrói fronteiras; a escuta dissolve muros. O olhar do homem moderno é
geométrico; o ouvido do sábio é espiralar. O olhar produz ciência; o ouvido produz sabedoria. Por
isso, o saber de Ifá não é ciência: é audição cósmica.
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O Ìwòrì é a matriz dessa audição. Ele nos ensina que conhecer não é possuir o objeto, mas
harmonizar-se com ele. A harmonia é o modo do ser ouvir o mundo. Um rio é sábio porque escuta o
caminho por onde deve fluir. Uma árvore é sábia porque escuta o vento. Um pássaro canta porque
escuta o sol. Só o homem, em sua arrogância, tenta impor ruído ao silêncio do cosmos. Esqueceu
que o seu coração pulsa em ritmo com o tambor do universo.
É no silêncio que o orí fala. A voz do orí é a mais sutil das vozes. Ela não grita, não impõe, não
exige. Ela apenas se faz presente como uma brisa que se insinua entre os pensamentos. Ouvi-la é
uma arte. Por isso, o iniciado deve ser treinado no silêncio. Não o silêncio que é ausência de som,
mas o silêncio que é atenção plena. O silêncio do iniciado é ativo. Ele não é vazio: é uma escuta
total. Ìwòrì é o modelo desse silêncio ativo. Ele é a pausa que sustenta o som, o espaço que permite
que o verbo seja compreendido.
A cada ciclo, o universo se recolhe para ouvir a si mesmo. Esse recolhimento é Ìwòrì. Quando
Òrúnmìlà se recolhe para meditar sobre o destino, ele encarna o arquétipo de Ìwòrì. Ele se torna o
ouvido de Olódùmarè voltado para o Àiyé. Em sua escuta profunda, ele percebe que nada é
realmente separado: tudo é vibração em diferentes densidades. O espírito é vibração sutil; a matéria
é vibração densa. Mas ambas são expressões de um mesmo som original.
Essa compreensão é o núcleo do método Ìtànlógico. A Ìtànlógica nasce da escuta, não da análise. O
Itan não se interpreta — ele se ouve. Cada palavra, cada metáfora, cada gesto narrativo, é um som
que precisa ser ouvido no interior da consciência. O método Ìtànlógico é a tradução da escuta para a
escrita, a tentativa de tornar visível o que só pode ser compreendido pela vibração interior. O texto
não é comentário: é reverberação.
Por isso, não há contradição entre filosofia e divinação. A filosofia de Ifá é o prolongamento da
escuta divina na linguagem humana. O adivinho é o filósofo que pensa com o ouvido, o teólogo que
medita pelo som, o poeta que traduz vibrações em palavras. Quando Ìwòrì fala, ele não ensina
conceitos: ele desperta frequências. A sabedoria de Ifá não é discursiva — é sonora.
O mesmo ocorre na criação literária. O escritor que compreende Ìwòrì não escreve com as mãos,
mas com o ouvido. Ele não impõe forma: ele escuta o texto nascer. A verdadeira escrita é sempre
ditada. Por quem? Pelos ecos do invisível. O autor que se abre à escuta torna-se apenas o canal da
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vibração que deseja se manifestar. Nesse sentido, o ato de escrever é um ato de fé: é acreditar que o
invisível sabe o que quer dizer.
O Odu Ìwòrì também nos lembra que o som é memória ancestral. O tambor não fala apenas de
agora: ele traz os ecos do primeiro ritmo do mundo. Quando o tambor soa, o universo se recorda de
si. O corpo que dança, movido pelo som, torna-se o prolongamento da vibração divina. A dança é a
escuta transformada em gesto. É por isso que, nos rituais de Ifá e Òrìṣà, nada é separado: o som, o
corpo, o tempo, o espaço — tudo é uma única audição cósmica.
Mas há ainda um mistério mais profundo em Ìwòrì: o ouvido é o portal da iniciação porque é o
único órgão que nunca se fecha completamente, nem no sono, nem na morte. Mesmo quando o
corpo dorme, o ouvido vigia. Ele é o guardião da consciência. Por isso, no momento da passagem, é
pelo ouvido que a alma escuta o chamado de Ọ̀run. O som é o fio que guia o espírito de volta à casa.
Ìwòrì é esse fio. Ele é o som que não se perde.
Toda criação nasce do que foi ouvido antes. A palavra é sempre eco de uma escuta anterior.
Nenhum ser humano cria a partir do nada: cria a partir do que ressoou em si. E o que ressoa é
sempre o invisível. O invisível é a fonte de todas as formas porque ele é som em estado de pureza.
Antes de haver luz, havia vibração; antes do verbo dito, havia o verbo ouvido; antes do ser, havia o
ouvir. Ìwòrì é a imagem dessa anterioridade, é o arquétipo da escuta divina em seu próprio útero.
Quando Òrúnmìlà medita no silêncio de Olódùmarè, ele não contempla a ausência, mas a plenitude
sonora do não-dito. É ali que nascem as realidades. Por isso, quem não escuta não cria; apenas
repete. Criar é escutar o inaudível e lhe dar corpo.
Toda iniciação verdadeira começa com o aprendizado do silêncio. Não o silêncio disciplinar, mas o
silêncio ontológico. Esse silêncio é uma escuta radical, um retorno à escuta primordial do ser por si
mesmo. O iniciado não se cala por falta de palavras; cala-se porque ouviu algo que nenhuma
palavra pode dizer. O silêncio é o selo da revelação. O sábio de Ìwòrì fala pouco, não por timidez,
mas porque a palavra já cumpriu em si o seu movimento de retorno. Falar, para ele, é apenas o eco
do que foi ouvido no centro.
A escuta é também o modo pelo qual o ser se purifica. Ouvir profundamente dissolve o ego, pois, ao
escutar, o sujeito se abre ao outro. E ao abrir-se, torna-se permeável ao mistério. A surdez espiritual,
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ao contrário, é o endurecimento do ser em torno de si mesmo. Aquele que não escuta já morreu,
ainda que respire. O ouvido é a última morada da alma no corpo, e, por isso, toda salvação passa
pela escuta. Ìwòrì nos ensina que o céu não é um lugar, mas um estado de audição perfeita.
O ouvido é o símbolo da reciprocidade cósmica. Ele não impõe: acolhe. O som, quando entra,
transforma. Por isso, Ifá diz que quem escuta o conselho de Òrúnmìlà não precisa de mais nada.
Escutar é aceitar ser transformado. E essa transformação não é um adorno moral: é um
renascimento ontológico. O homem antigo sabia disso. Ele ouvia os trovões, os ventos, os rios, as
pedras, e, ao ouvi-los, compreendia que todos participavam do mesmo cântico. A escuta era a
religião do mundo. O Ocidente moderno, cego pelo olhar e ensurdecido pela razão, esqueceu esse
culto do ouvido. Criou deuses visuais e esqueceu que a divindade fala primeiro pelo som. O mundo,
sem o ouvido, tornou-se mudo em sua alma.
Mas Ifá conserva a memória sonora da origem. O sistema dos Odù é, na verdade, uma partitura
cósmica. Cada signo é um padrão vibracional, um acorde da grande música do ser. Quando o
Bàbáláwo lê um Odù, ele não interpreta um texto, mas decifra uma harmonia. Ele sintoniza a
consciência com o som arquetípico daquele momento. E é assim que o destino se revela: não por
causalidade, mas por ressonância. O que o homem chama de destino é apenas a melodia que
corresponde à sua frequência interior. O que o homem chama de azar é o ruído que ele mesmo
introduz na harmonia universal.
Por isso, o primeiro trabalho do iniciado é afinar o próprio ser. Afinação, em Ifá, significa equilíbrio
vibracional entre o orí e o Àṣẹ. Um orí desafinado não escuta bem; um coração turvo não distingue
os tons do mundo. Ìwòrì ensina que o autoconhecimento não é uma análise, é uma audição. Escutar
o próprio orí é compreender de que modo ele vibra em relação ao todo. O homem que se conhece é
o homem que se escuta.
A Ìtànlógica nasce justamente dessa percepção: compreender é escutar o mito no plano da vibração.
A palavra “mito”, aqui, não designa ficção, mas ritmo. O Ìtàn é uma sequência sonora de
significados. Cada narrativa de Ifá é um corpo de som que organiza o real. O método Ìtànlógico
consiste em ouvir o modo como as narrativas vibram umas nas outras, como se entrelaçam, se
transformam, se contradizem e se harmonizam. É um método espiralar, porque o som nunca é
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linear; ele sempre retorna a si de outra forma. Assim, a hermenêutica Ìtànlógica é a escuta do espiral
divino do sentido.
Há um aspecto mais sutil ainda: a escuta, em Ìwòrì, é também a percepção do invisível como corpo.
Quando Òrúnmìlà escuta, o invisível se corporifica; quando o homem escuta, o invisível o toca. A
audição é o modo de contato entre os dois mundos. O Àiyé escuta o Ọ̀run e o Ọ̀run escuta o Àiyé. O
universo inteiro é sustentado por essa reciprocidade sonora. Quando o homem perde a escuta,
rompe-se o elo entre os mundos. Por isso, o silêncio contemporâneo é um silêncio morto, não um
silêncio vivo. É o silêncio da surdez, não o silêncio da escuta.
Ìwòrì é o contrário disso. Ele é o silêncio que ouve, o silêncio grávido de som. Ele é a pausa que
respira antes do tambor sagrado. O som que nasce de Ìwòrì não é ruído: é compasso. Ele ensina que
há uma ética na vibração. Cada palavra, cada pensamento, cada gesto, cria ressonâncias no mundo.
O bem é o som em harmonia; o mal é o som dissonante. Viver bem é estar afinado com o ritmo do
cosmos. E essa afinação é a verdadeira moral de Ifá.
É nesse ponto que a filosofia de Ifá ultrapassa a metafísica clássica. O ser não é substância, é
vibração. O tempo não é sequência, é pulsação. A verdade não é conceito, é harmonia. O erro não é
ignorância, é desafinação. E a sabedoria é o dom de escutar o que mantém o universo unido. Por
isso, Òrúnmìlà é o mestre dos sons, o ouvinte do coração de Olódùmarè, aquele que compreendeu
que a criação não é uma obra concluída, mas uma sinfonia em andamento.
Quem mergulha em Ìwòrì percebe que o mundo não é feito de coisas, mas de ritmos. Cada ser é um
tambor, cada relação é uma melodia. O cosmos inteiro é um orquestração. O iniciado, quando fala,
deve escutar o que o som de sua voz faz no ar. Pois as palavras criam mundos. O verbo é ato. E por
isso, em Ifá, falar sem escutar é pecado ontológico. O silêncio que precede a fala é o selo do
sagrado, a garantia de que o verbo não será vão.
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Assim, este livro — Ìwòrì Méjì e seus Amùlùs — não é apenas uma exegese, mas um exercício de
escuta. Ele convida o leitor a transformar-se em ouvido. Ler é ouvir o som do pensamento.
Compreender é escutar a vibração do sentido. A Summa Ìtànlógica, em sua arquitetura total, não é
apenas uma teoria: é um rito de audição. Cada volume, cada Odu, cada Ìtàn, é uma frequência. O
leitor, ao percorrê-los, deve tornar-se uma cabaça sonora, um corpo receptivo, uma orelha espiritual
que vibra com as palavras.
Quando se atinge essa escuta profunda, o próprio texto começa a cantar. Ele deixa de ser um livro e
se torna um Òpèlè. A página se transforma em oráculo. As palavras se tornam ikin. E o leitor
compreende, enfim, que Ifá nunca foi um sistema de crenças, mas uma música infinita.
Toda palavra nasce de uma tensão entre o silêncio e o som. O silêncio é o útero; o som, o
nascimento. Mas, como todo nascimento, ele é também separação. Quando o verbo se separa do
silêncio, o mundo começa. E é nesse instante inaugural que Ìwòrì se manifesta. Ele é a vibração que
rompe o silêncio e o transforma em cosmos. A criação é o silêncio querendo ser ouvido. E a escuta
do iniciado é o ato de devolver o som ao seu silêncio. Este é o grande mistério de Ìwòrì: a
reciprocidade entre o ouvir e o criar.
Escutar é sempre um ato de humildade ontológica. O ouvido se curva. Diferente do olhar, que se
ergue e domina, o ouvido se inclina e recebe. É por isso que Ìwòrì é o Odu da sabedoria — porque
ele é o gesto do abaixar-se, do recolher-se, do permitir que o mundo fale em vez de querer falar pelo
mundo. A sabedoria não nasce da luz que ofusca, mas do som que penetra. Aquele que escuta com
profundidade deixa o orgulho dissolver-se, pois o orgulho é ruído. A escuta é a dissolução do eu na
vibração do todo.
O iniciado de Ìwòrì aprende a ouvir o que está por trás das palavras. O som da voz é apenas o
invólucro de uma vibração mais antiga. Por trás de cada palavra há uma intenção, e por trás de cada
intenção, um sopro. A intenção é o eco do sopro divino. Quando Òrúnmìlà fala, o que realmente
atua não é o som, mas o sopro. O sopro é o Àṣẹ em movimento. Ele é o som sem forma, o espírito
do verbo. A palavra é apenas o corpo do sopro, e o sopro é o espírito da palavra.
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Essa percepção está no cerne da ontologia de Ifá. Tudo o que existe é palavra respirada por
Olódùmarè. As coisas são palavras condensadas. O universo é a linguagem de Deus pronunciada em
múltiplas densidades. Escutar é, portanto, penetrar a linguagem das coisas. O ouvido espiritual de
Ìwòrì ouve as montanhas falarem, ouve os rios contarem segredos, ouve as árvores recitarem
orações. O mundo é uma escritura viva, mas escrita com sons. O analfabeto espiritual é aquele que
não escuta.
A civilização da letra substituiu a escuta pela leitura. E assim perdeu o ritmo do sagrado. A escrita
congelou o som. A letra é o túmulo da vibração. Mas o iniciado de Ìwòrì não lê como o homem
moderno lê: ele ouve as letras. Ele compreende que o texto é uma partitura e que o papel é o òpón
de Òrúnmìlà. Cada sílaba é um traço de pó de ìyerosun caído da voz de Olódùmarè sobre a terra.
Quando a escrita é feita em estado de escuta, ela ressuscita o som original.
É por isso que a Summa Ìtànlógica é mais que um livro — ela é um òpón literário. Ela é uma tábua
de escuta onde o verbo divino se deposita em forma de texto. Não se trata de um tratado acadêmico,
mas de uma liturgia da audição. O leitor não é um estudioso; é um oficiador. Ao percorrer as
páginas, ele participa de um rito de vibração, em que o pensamento se torna canto e o raciocínio,
oferenda.
O som, em Ìwòrì, é também uma forma de luz. É a luz que se move dentro da escuridão do ouvido.
A verdadeira iluminação não vem do olho, vem do som compreendido. Por isso, Òrúnmìlà diz:
“Quem vê, não sempre entende; quem ouve, sempre aprende.” A visão pode ser enganada pela
aparência, mas o som revela a essência. O olho vê a forma; o ouvido escuta a intenção. Por isso, o
verdadeiro conhecimento não é visual, mas auditivo. O iniciado não busca ver o invisível; ele busca
ouvi-lo. O invisível se manifesta pela vibração, não pela forma.
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Mas há um perigo profundo na escuta: quem escuta o invisível deve estar pronto para suportar o que
ele revela. Escutar é expor-se à verdade. E a verdade não é sempre suave. Há sons que purificam, há
sons que dilaceram. O ouvido do iniciado é treinado para não fugir diante do som do real. Ele escuta
as dissonâncias do mundo sem tentar abafar o ruído. A escuta espiritual é coragem.
A escuta é também o caminho da cura. Toda doença é um som interrompido, uma vibração que
perdeu o compasso. O Bàbáláwo cura ao restaurar o ritmo. Seu poder não está apenas nos remédios,
mas no som das palavras, nos cânticos, nos versos, nos nomes invocados. Cada nome é uma
frequência curativa. Pronunciar corretamente um nome é harmonizar a energia que ele representa.
Quando o nome é esquecido, o ser perde sua afinação. Por isso, Òrúnmìlà dá nomes: nomear é
devolver o som da alma ao corpo.
Há uma relação direta entre escuta, nome e destino. O orí, antes de encarnar, escuta seu próprio
nome pronunciado por Olódùmarè. Esse nome é seu destino. Ao descer ao Àiyé, o orí esquece o
som. Viver é tentar lembrar-se do nome que se ouviu antes de nascer. O Ifá é o ouvido que ajuda a
recordar. O adivinho é aquele que restitui à alma o som do seu nome primordial. Ìwòrì é o caminho
dessa recordação. Ele é o ouvido do destino.
Eis por que, no início de cada consulta, o silêncio é invocado. O silêncio prepara o ouvido. O
silêncio é a oferenda inicial. Só o ouvido purificado pelo silêncio pode suportar o peso da palavra
sagrada. O som do oráculo não é ruído: é revelação. Ele exige espaço. E esse espaço é interior. A
escuta de Ìwòrì é, portanto, uma escuta espacial, não apenas auditiva. Escutar é criar espaço dentro
de si. O silêncio é a arquitetura dessa escuta.
O iniciado que domina Ìwòrì aprende a construir silêncio como quem ergue um templo. Ele não
busca respostas: busca ressonâncias. Ele não fala por necessidade de dizer, mas porque a palavra foi
chamada pelo silêncio. O verbo verdadeiro não nasce da vontade, mas da escuta. O orador sagrado é
aquele que deixa o som de Olódùmarè atravessá-lo sem distorção. Falar sem escutar é violar o
mistério. Por isso, o ouvido é mais sagrado que a boca.
O mundo precisa reaprender a ouvir. Não ouvir músicas, mas ouvir o ser. Ouvir o que a vida diz no
intervalo entre os gestos, ouvir o rumor do tempo, o sussurro das árvores, o gemido das pedras. O
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som é o sangue do mundo. E o ouvido é o órgão do amor universal. Só o amor escuta sem
interromper.
Ouvir é o gesto mais puro de hospitalidade. Quando escuto, dou ao outro o direito de existir. Escutar
é o modo como Deus acolhe o homem. Quando o homem ora, Olódùmarè o escuta. E quando
Olódùmarè fala, o universo escuta. O mundo é sustentado pela escuta recíproca entre o divino e o
humano. Ìwòrì é essa reciprocidade encarnada, é a hospitalidade sonora do cosmos.
Assim, escrever esta obra é também uma oferenda de escuta. Cada página é um ouvido erguido ao
invisível. Cada palavra é uma vibração ofertada a Òrúnmìlà. O autor, aqui, não é senhor do texto,
mas seu instrumento. O verdadeiro escritor, no sentido de Ìwòrì, não escreve — ele é escrito. O
texto o atravessa como o som atravessa o tambor. A vibração o usa para se manifestar.
A Summa Ìtànlógica é, portanto, o registro desse atravessamento. O autor apenas sustenta o tambor,
mas é o som que decide o ritmo. A escrita é um ritual de escuta transformado em linguagem. Por
isso, não se deve ler esta obra como se lê um livro comum. Ela precisa ser lida como se escuta um
cântico sagrado — lentamente, respirando com o texto, permitindo que as palavras se depositem no
corpo. Pois o corpo também ouve.
E quando o corpo ouve, a alma desperta. O som penetra a carne e desperta a memória espiritual das
células. O ouvido está em todo o corpo. A escuta é total. A sabedoria de Ìwòrì não se limita à mente:
ela ressoa nos ossos, nas vísceras, no sangue. A verdadeira compreensão é corporal.
Quando o som cumpre seu destino, ele se cala. A voz não termina porque se esgota, mas porque
completou o círculo de sua viagem. O verbo, que partiu do silêncio, volta ao silêncio. Assim é o
movimento de toda existência: nascer da escuta e regressar à escuta. Ìwòrì é a curva perfeita desse
retorno. Ele é o eco que se ouve depois que tudo foi dito, o som que permanece vibrando no espaço
vazio depois que o tambor silencia. O verdadeiro silêncio não é ausência de som — é a permanência
do som em estado de repouso.
Quando Òrúnmìlà terminou de ensinar os Odù, ele não se levantou. Permaneceu quieto, olhando o
chão. Os discípulos esperaram que ele dissesse algo, mas ele apenas fechou os olhos. Esse gesto era
o último ensinamento: a sabedoria não é o que se fala, é o que se sustenta. O conhecimento se
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recolhe. E aquele que escuta o recolhimento do mestre compreende que a revelação final é o retorno
à origem. O fim da fala é o começo do entendimento.
Aquele que fala para ensinar precisa, um dia, aprender a calar para transmitir. O silêncio é o modo
supremo de comunicação do sagrado. Ele não precisa de tradução, não depende de língua, não
requer argumento. O silêncio é o idioma dos Òrìṣà. Em silêncio Òrúnmìlà compreendeu os segredos
de Olódùmarè; em silêncio Èṣù guardou os caminhos do mundo; em silêncio Ifá respira dentro do
tempo. Toda fala verdadeira é apenas a tradução imperfeita desse silêncio.
O ouvido é o altar do silêncio. É ali que o invisível se ajoelha para ouvir o mundo e o mundo se
curva para ouvir o invisível. Quando o ouvido se abre, ele se torna ponte. Mas quando o ouvido se
fecha, o universo inteiro perde a passagem. O homem que não escuta é como um rio represado:
estagna, apodrece, esquece o caminho do mar. Escutar é fluir. O som é a correnteza da alma.
Por isso, Ifá diz que a sabedoria não está naquilo que o homem sabe, mas naquilo que ele suporta
ouvir. Há verdades que o coração não sustenta, e por isso o ouvido espiritual é treinado na
paciência. O iniciado aprende a escutar mesmo quando o que ouve o fere. Ele entende que a dor
também é um som, e que o sofrimento é uma forma de revelação. Quem foge do som da dor nunca
escutará a harmonia da cura.
Escutar o mundo é também escutar as vozes dos mortos. Ìwòrì é o Odu que mais profundamente
liga o ouvido ao Egúngún. O vento que passa pelas folhas é o sussurro dos ancestrais, e quem sabe
escutá-lo compreende que a morte é apenas o silêncio que segue falando em outra frequência. Os
mortos não se calam; apenas trocam de vibração. O iniciado, quando medita, afina-se com esse
outro registro. Ele não invoca os mortos — ele os ouve.
A audição, nesse sentido, é um poder intermundano. Ela liga Ọ̀run e Àiyé, mas também liga o
passado ao futuro. O som não é apenas o que se ouve agora: é também o que ressoa depois. As
palavras que dizemos hoje ainda ecoarão quando já não estivermos aqui. É por isso que Ifá exige
responsabilidade na fala. Cada palavra é uma pedra lançada na água do tempo. Ela cria ondas que
tocarão margens que nunca veremos. Falar é agir sobre o destino. O silêncio, portanto, não é
ausência de ação: é ação perfeita.
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Ao recolher-se, o som se purifica. Ao calar-se, o verbo se renova. O silêncio é o descanso do Àṣẹ.
Mesmo o som precisa dormir. O universo repousa em ciclos de vibração e recolhimento, som e
silêncio, dia e noite, respiração e pausa. A sabedoria de Ìwòrì é compreender que não há oposição
entre eles: o som é o movimento do silêncio; o silêncio é o repouso do som.
A escuta perfeita é o estado de união. Quando o ouvido se torna o próprio som, já não há distinção
entre quem ouve e o que é ouvido. O iniciado desaparece na vibração que o atravessa. Esse
desaparecimento não é anulação: é plenitude. O ser retorna ao que o gerou. É o instante da
reintegração ao todo, o momento em que o ouvido humano toca o ouvido de Olódùmarè. No fim de
todo ciclo, resta apenas a respiração. A respiração é o ritmo original, o primeiro som e o último.
Inspirar é ouvir o mundo; expirar é dizer ao mundo. Entre um e outro, o mistério pulsa. O silêncio
mora entre dois sopros. É ali que Òrúnmìlà habita — não no som, não na palavra, mas na pausa
sagrada entre o falar e o ouvir.
Aquele que compreende Ìwòrì aprende a falar menos e a escutar o invisível nos intervalos. Aprende
que a palavra, quando vem do silêncio, carrega poder de cura, e que o silêncio, quando nasce da
escuta, é a mais alta forma de oração. A escuta é o altar do mundo. Tudo o que existe é uma liturgia
da vibração, e o homem, o ouvido de Deus. Por isso, este livro é uma oferenda de silêncio e som.
Uma escuta transcrita, um murmúrio da eternidade escrito em língua humana. A Summa Ìtànlógica
não é uma teoria sobre o divino, mas o eco de uma escuta divina. Que cada leitor a leia com o
ouvido do coração, não com o ruído da mente. Pois Ifá não fala ao intelecto, mas ao espírito.
O prefácio se encerra, mas o som continua. Ele continua nas páginas seguintes, nas histórias, nas
hermenêuticas, nas vozes dos Odù. Cada palavra, cada verso, cada Ìtàn é uma variação da mesma
melodia eterna. O ouvido que se abre agora será o mesmo que ouvirá o chamado final. Pois quem
aprende a escutar o mundo com o coração já começou o caminho de volta para casa. Quando o
último tambor se calar, o universo escutará o seu próprio silêncio. E nesse silêncio, Òrúnmìlà
sorrirá.
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Apresentação
O que o leitor tem agora diante de si não é apenas um livro, mas um portal de escuta — uma
tessitura viva de vozes que atravessam o tempo e o espaço, o visível e o invisível, o corpo e o sopro.
A Summa Ìtànlógica, da qual este volume é parte, nasceu da necessidade de reconstituir o saber de
Ifá não apenas como religião, mas como filosofia, ontologia e poética do ser. Ìwòrì Méjì é o
segundo dos grandes livros dessa arquitetura do saber, e talvez o mais íntimo de todos, pois fala da
escuta — e escutar é tocar o invisível. Onde Ògbè foi a luz do verbo que inicia, Ìwòrì é o eco que
responde, o espaço entre o som e o silêncio onde se forma a consciência.
Durante mais de duas décadas, dediquei-me à escuta do próprio Ifá, não como quem busca
respostas, mas como quem deseja aprender o modo como o universo fala. Porque Ifá não é um
conjunto de respostas, é o próprio movimento do perguntar. E ouvir Ifá não é interpretar símbolos: é
aprender o ritmo da fala do cosmos. Cada Odu é uma frequência de Olódùmarè; cada Ìtàn, uma
vibração do corpo divino que se manifesta em linguagem. A escuta de Ifá é uma escuta de mundos.
O que chamamos de “versos sagrados” são, na verdade, pulsações do real.
Quando se diz Ìwòrì Méjì, fala-se de uma duplicidade que é unidade: o duplo ouvido de Olódùmarè,
a escuta daquilo que o próprio Criador pronunciou no começo dos tempos e continua pronunciando
em cada respiração do mundo. Por isso, Ìwòrì Méjì é o Odu do autoconhecimento cósmico. Ele
ensina que ouvir é um modo de ser; que o ser se dá apenas na medida em que se deixa ouvir; e que
o homem, criatura sonora, existe para devolver ao Criador a consciência de Sua própria voz.
Este volume é, portanto, um tratado sobre o ouvido como fundamento da existência. Mas não se
trata apenas do ouvido físico: trata-se do ouvido espiritual, do ouvido metafísico, do ouvido que se
abre dentro da alma e permite que o invisível soe. A cultura moderna habituou-se a crer que ver é
compreender. Em Ifá, ver é apenas metade do conhecimento. O verdadeiro saber começa quando se
escuta o que está por trás do que se vê. O olhar revela a forma; o ouvido revela o sentido. A escuta é
o caminho pelo qual o homem reencontra sua natureza espiritual e reaprende a mover-se segundo o
ritmo do cosmos.
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A Summa Ìtànlógica nasceu para restaurar a espiral do pensamento yorùbá — essa forma de
raciocínio que não progride em linha reta, mas em círculos ascendentes, como a fumaça do òrò
subindo aos céus. Essa espiral é o próprio modo como o conhecimento se expande: não acumulando
informações, mas aprofundando vibrações. Cada Odù é uma espiral. Cada história é uma dobra de
uma mesma canção. Cada verso é uma volta na espiral da criação. O método Ìtànlógico consiste em
ouvir essa espiral — transformar o estudo em escuta, a leitura em ritual, a hermenêutica em dança
da consciência.
Em Ìwòrì Méjì, o leitor encontrará quatro grandes movimentos, que chamo de Amùlùs, os
desdobramentos do som original. Cada um desses movimentos é um degrau na escada sonora do
ser. A hermenêutica de cada Ìtàn não é um comentário externo, mas o prolongamento vibratório do
próprio verso. Por isso, aqui, o comentário é continuação da revelação. O texto não é fechado, mas
ressoante. Cada frase é um som que ecoa na mente do leitor e o conduz à experiência direta do
sentido.
Escrevi esta obra como quem ouve — e não como quem fala. As palavras que o leitor encontrará
foram ditas por Ifá muito antes que eu as transcrevesse. Eu apenas as escutei com o ouvido que o
destino me concedeu. Essa escuta é o que chamo de epistemologia do invisível: o saber que se
manifesta não pela observação, mas pela ressonância. Escutar o invisível é perceber a realidade por
dentro, compreender não o que as coisas são, mas o modo como elas vibram.
Por isso, Ìwòrì Méjì é também um livro de reconciliação. Ele reconcilia o homem com o cosmos, o
tempo com o destino, a ciência com a sabedoria, o humano com o divino. Pois o som é o meio de
toda reconciliação. Onde há ruído, há conflito; onde há harmonia, há aliança. O trabalho do
Bàbáláwo é harmonizar frequências. Cada consulta é uma tentativa de restaurar a sintonia perdida
entre o Orí do homem e o som do universo. A Summa Ìtànlógica é a escrita dessa harmonia.
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O leitor que chega até este volume já não é apenas leitor: é participante do rito. Ao abrir estas
páginas, ele entra num campo de vibração ancestral. Os versos de Ifá não são textos mortos, são
entidades vivas, e cada leitura desperta sua energia. Por isso, ler Ìwòrì Méjì é também ser lido por
ele. O Odu o observa, o escuta, o examina. O texto, aqui, é espelho. A leitura é o espelho sonoro em
que o ser se reconhece.
Mas é preciso avisar: este não é um livro para a pressa. A Summa Ìtànlógica não se lê, se escuta.
Não se percorre em velocidade, mas em estado de contemplação. Cada parágrafo é uma oferenda,
cada palavra, um colar de sons sagrados. A leitura deve ser feita com o mesmo respeito com que se
acende uma lamparina diante de Òrúnmìlà. O texto, se escutado com o coração, revelará camadas
ocultas — e, como todo oráculo, responderá de modo diferente a cada pessoa.
Escrever Ìwòrì Méjì foi também um ato de cura. Pois em seu campo vibratório reencontrei o sentido
da escuta em tempos de ruído. Vivemos em uma era em que todos falam e poucos ouvem. A
humanidade moderna tornou-se surda de tanto ruído e muda de tanto ego. Ìwòrì Méjì é uma
oferenda à escuta perdida — uma tentativa de devolver ao mundo o dom de ouvir. O homem que
volta a escutar torna-se capaz de amar novamente, de compreender, de respeitar o tempo das coisas.
O som é a primeira teofania: foi o som que deu origem à luz. “No princípio era o Verbo”, dizem as
Escrituras; mas o Verbo só é Verbo porque é som, e o som só é som porque é ouvido. A criação é
um evento auditivo. Olódùmarè pronunciou o mundo, e o mundo respondeu. A resposta é Ìwòrì. Por
isso, o ouvido é o primeiro órgão teológico, e o ouvido espiritual é a sede do àṣẹ. Quando o ouvido
está puro, o àṣẹ circula livremente.
A Summa Ìtànlógica foi concebida como uma escada sonora que se estende por 256 degraus — os
256 Odù de Ifá. Cada volume é uma nota dessa escada, um degrau na ascensão da consciência.
Ògbè Méjì foi a emanação da luz primordial; Ìwòrì Méjì, a escuta da vibração original. O caminho
continua, e cada volume é um novo ouvido de Olódùmarè que se abre no corpo da Terra.
Esta apresentação não é uma explicação, é uma invocação. É o som que anuncia o som. É o
chamado do tambor antes do toque. É o sopro que precede a canção. Que o leitor perceba que, a
cada palavra aqui, há uma intenção sagrada: reconstituir o laço entre o humano e o cósmico, entre o
pensamento e a reverência, entre a escuta e o silêncio.
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Não há conhecimento verdadeiro sem silêncio. E não há silêncio verdadeiro sem escuta. Ìwòrì Méjì
é o lugar onde ambos se reconciliam. É o Odu que ensina a calar-se até tornar-se som, e a escutar
até tornar-se silêncio. O iniciado que compreende esse paradoxo está livre. Pois ele habita o ponto
de equilíbrio entre o som e o nada — o ponto onde o universo se renova a cada instante.
A Summa Ìtànlógica é, portanto, mais do que um compêndio; é uma liturgia do pensamento. Sua
linguagem não é apenas intelectual, é vibratória. Suas frases são tambores, suas palavras são búzios.
Cada texto é um òrò, um corpo de som. E o leitor é o sacerdote dessa liturgia, aquele que transforma
o som em sentido.
Escrever esta obra é minha oferenda à tradição dos Òrìṣà, ao povo de Ifá, aos ancestrais que
guardam a sabedoria do som, e a todos os que compreendem que o saber é também uma forma de
música. Que Ìwòrì Méjì ensine a escutar o que o mundo ainda não disse, e a ouvir o que já foi dito
desde sempre.
Ifá não é o passado: é o tempo que se ouve. Não é uma mitologia, mas uma metafísica audível. É o
diálogo entre o visível e o invisível, mediado pelo ouvido do homem. E Ìwòrì Méjì é o símbolo
desse diálogo — o signo do encontro entre o som de Olódùmarè e o ouvido do ser humano.
Que este volume, portanto, não seja lido apenas com os olhos, mas com o Orí. Que o leitor o escute
com a alma. Que as palavras vibrem dentro dele como o tambor que desperta Egúngún, como o
vento que anuncia Èsù, como o cântico de Òṣun sobre as águas do mundo. E que ao final, quando as
páginas terminarem, o leitor perceba que o som continua: no coração, no ar, nas folhas, nas vozes
que sussurram no sono. Pois Ifá nunca termina. Ele apenas muda de tom. Que o som de Ìwòrì Méjì
se instale em teu peito, leitor, como morada da escuta. Que o silêncio te conduza à vibração, e a
vibração ao entendimento. Que tua vida se torne música.
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Introdução Geral
Ìwòrì não é apenas um signo: é um ouvido que se abre dentro do silêncio. Tudo o que foi criado
antes de Ìwòrì existia como som não ouvido, vibração ainda sem forma. Quando Ìwòrì surge, o som
se dobra sobre si e escuta o próprio eco — e nesse gesto nasce a consciência. Assim, Ìwòrì é o
nascimento da interioridade no cosmos: o instante em que o invisível começa a refletir-se e o ser, ao
escutar, torna-se saber.
Diz-se nos versos de Ifá que Ìwòrì ló dà ayé, Ìwòrì ló dá ènìyàn — Ìwòrì criou o mundo e o homem.
E não o fez pela força, mas pela escuta. Pois criar é ouvir o que ainda não se manifestou. O som
primordial que vibra em Ògbè encontra em Ìwòrì a primeira ressonância consciente. É por isso que
Ògbè é a luz e Ìwòrì é o espelho: um emana, o outro reflete; um fala, o outro escuta. Mas essa
escuta não é passiva: ela é o poder da tradução. Ìwòrì transforma vibração em sentido, transforma o
invisível em palavra.
A natureza de Ìwòrì é dupla, espelhante, reflexiva. O mesmo movimento que abre o ouvido é o que
dobra o tempo. Em Ìwòrì, o instante deixa de ser apenas passagem e se torna memória. A memória é
o ouvido do ser — e o ouvido é a morada do tempo. O que escuta retém o que passa e, ao reter, cria
permanência. Assim nasce o mundo da linguagem, o espaço onde o invisível pode permanecer
visível sem se corromper. Cada palavra, quando pronunciada, é um eco de Ìwòrì: o som que se
lembra de si.
No corpo humano, Ìwòrì reside nos ouvidos e no ventre, pois ambos são cavidades — espaços de
acolhimento. O ouvido acolhe o som, o ventre acolhe a vida. O mesmo gesto que gera é o que
escuta. Em Ifá, gerar e escutar são sinônimos. Só escuta quem é capaz de gestar; só gesta quem
aprendeu a escutar. O ventre é o ouvido da terra, assim como o ouvido é o ventre do ar. Por isso,
Ìwòrì é o primeiro Odu que introduz o mistério da interioridade no cosmos. Tudo o que é profundo
pertence a Ìwòrì.
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Òrúnmìlà, ao descer ao Àiyé, não veio apenas ensinar os homens a falar com os Òrìṣà, mas ensiná-
los a ouvir o que já lhes falava antes. A verdadeira iniciação não é aprender palavras sagradas, mas
aprender o modo da escuta. Pois o mundo fala continuamente, e o homem moderno se perdeu
porque já não ouve. O barulho do progresso matou a acústica do sagrado. Ìwòrì é o remédio para
essa surdez ontológica. Ele restitui à alma o poder de perceber as vibrações finas do real.
A escuta de Ìwòrì é teogônica: ela participa da criação do mundo. O ouvido não é um órgão de
recepção, é um portal de revelação. O que se escuta, transforma-se. Por isso, Òrúnmìlà, ao consultar
Ifá, não apenas ouve o oráculo: ele escuta o ritmo com que o universo se move. Escutar é participar
do movimento do real. Essa é a primeira chave de Ìwòrì: compreender que o saber não é o que se
tem, mas o que se acompanha. O saber não é uma posse, é uma ressonância.
Na hermenêutica Ìtànlógica, Ìwòrì inaugura o método da escuta profunda: o pensamento como eco,
a razão como reverberação. Não se pensa a partir de ideias, mas a partir do que se escuta. A escuta é
o ventre do sentido. É por isso que toda a filosofia africana, quando ainda não foi colonizada por
categorias ocidentais, nasce da audição do invisível. Pensar é traduzir o que foi ouvido no interior
do ser.
No corpo dos Odù, Ìwòrì é o primeiro a dobrar o gesto criador de Ògbè sobre si. Ògbè expande,
Ìwòrì reflete. Ògbè é o sol, Ìwòrì é a lua. Ògbè é o olho de Olódùmarè que olha para fora; Ìwòrì é o
ouvido de Olódùmarè que olha para dentro. E assim, pela primeira vez, o universo se percebe. O
autoconhecimento divino nasce em Ìwòrì. Se Ògbè é o fiat lux, Ìwòrì é o fiat auditus — “faça-se a
escuta”. O mundo passa a ter interioridade.
É por isso que Ìwòrì está ligado à ancestralidade e à mediunidade profunda: nele, o ser humano se
torna espelho do Ọ̀run. A voz do Egúngún ressoa em Ìwòrì, pois o ancestral só fala onde há ouvido.
Sem escuta, não há transmissão. O Egúngún não fala apenas para ser lembrado — ele fala para
recordar o próprio homem de que ele é também lembrança. O ser humano é um ancestral em
processo de memória.
Cada Odu é um modo de ver e de ser visto. Ìwòrì é o modo de escutar e ser escutado. Ele inaugura a
circularidade hermenêutica: o saber que se dobra para compreender-se. A Summa Ìtànlógica, ao
chegar a Ìwòrì, torna-se plenamente consciente de si enquanto método. Pois Ìwòrì não é apenas um
tema, é o próprio gesto da hermenêutica. O ouvido que escuta o Ìtàn é o mesmo ouvido que o cria.
Os Amùlùs de Ìwòrì são as dobras do ouvido, as variações da escuta. Cada combinação — Ìwòrì
Ògbè, Ìwòrì Òyèkù, Ìwòrì Òdì, Ìwòrì Òsá… — representa uma forma de escutar o mundo. O
universo fala em muitas frequências, e cada Amùlù é uma sintonia. O Bàbáláwo, quando joga os
ikín ou o òpèlè, não apenas interpreta um destino: ele escolhe a frequência do mundo pela qual o ser
daquele instante quer se comunicar. A divinação, portanto, é um exercício de afinação cósmica.
O Ìtànlógico sabe que o segredo de Ìwòrì é o intervalo. A escuta só acontece onde há espaço. O
silêncio entre dois sons é o lugar onde o sentido nasce. O mundo moderno destruiu os intervalos;
por isso perdeu o sentido. Se Ògbè representa o verbo que cria, Ìwòrì representa o intervalo que faz
o verbo ser compreensível. O sagrado não está no som, está no espaço entre os sons. É nesse espaço
que mora Òrúnmìlà.
Toda escuta verdadeira é transformadora. Escutar Ifá é permitir que o som do invisível redesenhe o
interior. O ouvido espiritual é como o tambor: ele precisa estar esticado, mas não tenso. O tambor
frouxo não ressoa; o tambor rígido se rompe. Assim também a alma. A escuta exige tensão
equilibrada — presença e entrega. É isso que Ìwòrì ensina: a arte do equilíbrio interior, onde o som
e o silêncio se tornam um só.
Por isso, Ìwòrì está também ligado ao corpo e à saúde. As doenças que o Ifá identifica neste Odu
são doenças da surdez — não do ouvido físico, mas da escuta espiritual. Quando o homem deixa de
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ouvir seu orí, o corpo adoece. Quando a comunidade deixa de ouvir seus ancestrais, a história
apodrece. A cura consiste em restaurar a escuta. Cada ritual, cada cântico, cada toque de tambor é
uma pedagogia da escuta.
Mas Ìwòrì não é apenas escuta: é também enigma. Escutar é aproximar-se do que não pode ser dito.
O ouvido recolhe o indizível, e o traduz em vibração. A tradução nunca é perfeita — por isso, o
mundo é sempre imperfeito. O som de Olódùmarè é puro; o som do homem é fragmentado. Entre
um e outro há o abismo da interpretação. Ìwòrì é esse abismo. Ele é o intervalo necessário para que
o divino possa tornar-se humano.
Assim, cada Ìtàn de Ìwòrì é uma pedagogia da tradução. Òrúnmìlà aparece como o grande tradutor
do invisível. Ele não fala de Olódùmarè, ele traduz Olódùmarè em vibração compreensível. Por
isso, seu nome significa “aquele que possui o segredo do céu e o revela à terra”. E o segredo do céu
é som. O universo foi criado pela voz; mas o sentido do universo só nasce pela escuta.
O Bàbáláwo é o herdeiro dessa arte de ouvir. Ele escuta com o corpo inteiro. O som do òpèlè, o
toque das nozes, o murmúrio das folhas, o assobio do vento — tudo é linguagem. A escuta de Ìwòrì
é cósmica: nada é mudo. O silêncio da pedra é também fala. O sussurro do fogo, o estalar da
madeira, o murmúrio da água — todos trazem notícias do invisível. Aquele que aprendeu a escutar
vive em diálogo permanente com o real.
E essa escuta é ética, porque exige respeito. Escutar é reconhecer a alteridade do outro. O ouvido é
o órgão da humildade. O olho domina, o ouvido acolhe. O olhar separa, o ouvido une. O mundo
moderno, que privilegia o olhar, tornou-se um mundo de dominação. A civilização yorùbá, que
privilegia a escuta, é uma civilização de convivência. Ìwòrì é o princípio civilizatório da escuta.
Na ordem dos 256 Odù, Ìwòrì ocupa o terceiro trono da criação. Ele representa o início do
pensamento reflexivo e da linguagem simbólica. Com Ìwòrì, o cosmos começa a se auto-interpretar.
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Cada Amùlù de Ìwòrì é uma dobra da reflexão. A escuta, ao se aprofundar, se diversifica. O que
antes era som contínuo torna-se harmonia plural. Assim nascem os sentidos, as metáforas, os mitos,
as narrativas. A linguagem é o desdobramento infinito de Ìwòrì.
A Summa Ìtànlógica, ao ingressar neste volume, adentra o domínio da hermenêutica pura. Pois
Ìwòrì é o próprio método do Ifá: escutar, traduzir, assentar, devolver. Cada Ìtàn é uma ressonância
de Ìwòrì. Cada hermenêutica é um modo de devolver ao invisível o som que dele veio.
Por isso, escrever sobre Ìwòrì é também um ato perigoso. O excesso de palavras mata a escuta. A
escrita corre o risco de tornar-se ruído. O verdadeiro texto Ìwòrì deve ser ouvido com os olhos e
lido com o ouvido. Ele é som cristalizado, eco preservado. Por isso, a Summa Ìtànlógica não é
apenas um livro: é um templo acústico.
Oluwo Adèlóná Isólá não escreve para ser lido: escreve para ser escutado. Cada frase é um tambor,
cada parágrafo, um cântico. A voz que fala aqui é a mesma que se recolhe no silêncio para ouvir o
Orí. Pois escrever é uma forma de escutar o que o próprio espírito quer dizer. O ato de escrever é o
prolongamento do ato de Ifá: uma consulta ao invisível feita com letras.
E assim, neste volume, Ìwòrì Méjì se revela como o princípio hermenêutico do mundo. O cosmos é
um grande òpèlè lançado por Olódùmarè: cada ser é um signo, cada destino, uma combinação
sonora. A escuta é o modo de decifrar o desenho do todo. Escutar é participar da criação.
Òrúnmìlà nos ensina que só o ouvido que se cala pode ouvir. O silêncio é o tambor do espírito.
Quando o homem se recolhe, o universo fala. A verdadeira sabedoria não é acumular palavras, mas
cultivar o espaço onde as palavras podem repousar. Ìwòrì é esse espaço.
Que o leitor, ao abrir este volume, abra também o ouvido interior. Que cada Ìtàn seja ouvido como
quem recolhe gotas de chuva em um cântaro antigo. Pois o saber de Ifá não é ruído, é chuva fina
sobre a terra seca da alma. Escutar Ìwòrì é regar o silêncio.
E assim começa a travessia dos Amùlùs — as ramificações do espelho. Cada combinação de Ìwòrì é
um modo diferente de o universo ouvir a si mesmo. Em cada uma delas, Òrúnmìlà reencena o
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drama da escuta: o som que busca o seu próprio sentido. E o sentido, quando enfim se ouve, se
torna canto.
A escuta de Ìwòrì é o início de toda tradução. Traduzir, no Ifá, não é transportar palavras entre
línguas — é transportar o sentido entre mundos. O tradutor é o que escuta o invisível até que o
inaudito se torne audível. Òrúnmìlà é o primeiro tradutor, porque é o primeiro a compreender o som
de Olódùmarè em linguagem compreensível ao Àiyé. Traduzir, portanto, é uma forma de divinar: é
consultar o invisível para reordenar o visível. Cada tradução é uma consulta ao silêncio. O
verdadeiro tradutor é um Bàbáláwo da linguagem.
Ìwòrì ensina que todo eco é um testemunho. Quando o som volta, ele não retorna igual: traz consigo
a memória do espaço que atravessou. Assim também a palavra: ao voltar, ela traz consigo o mundo
que a ouviu. Por isso, o saber yorùbá não concebe o conhecimento como propriedade, mas como
reverberação. Ninguém possui o saber; todos o ressoam. A comunidade é o corpo que amplifica a
sabedoria do Ọ̀run. Ìwòrì é o espírito dessa amplificação.
No interior de Ìwòrì está a geometria do eco. O som que se reflete forma a espiral do tempo. O
tempo, por sua vez, é o eco do movimento da criação. Nada se perde: tudo retorna em frequência. A
morte, nesse contexto, é apenas uma mudança de ressonância. O ancestral é o eco amadurecido do
vivo. O Egúngún fala porque o eco se condensou em presença. Escutar o ancestral é escutar o
retorno do som original — o som que já foi ouvido no princípio. Assim, Ìwòrì revela o segredo da
reencarnação: não como repetição, mas como ressonância transmutada.
A escuta, em Ifá, não é apenas sensorial, é moral. O ouvido é o primeiro juiz. Ouvindo, o homem
decide o que acolhe e o que rejeita. Por isso, Ìwòrì é também o Odu do discernimento. O ouvido
seleciona vibrações; ele é o filtro do caráter. O bom caráter (ìwà pẹ̀lẹ́) é aquele que sabe distinguir o
som da verdade do som da falsidade. E essa distinção não se faz por raciocínio, mas por harmonia
interior. O ouvido do justo vibra em sintonia com o cosmos; o ouvido do injusto ressoa com
dissonância. É por isso que a mentira, em Ifá, é ruído — e o ruído é a doença da escuta.
O mundo contemporâneo, tomado pelo ruído, é um mundo doente de Ìwòrì. As pessoas falam muito
e escutam pouco; produzem som, mas não eco. A modernidade se tornou uma surdez generalizada.
A tecnologia ampliou o alcance da voz, mas reduziu a profundidade da escuta. Há mais ruído que
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som, mais comunicação que compreensão. O retorno a Ìwòrì é, portanto, uma urgência espiritual:
reaprender a ouvir o silêncio. Pois é do silêncio que nasce a verdadeira palavra, aquela que cura,
aquela que funda.
Na teogonia yorùbá, Ìwòrì representa o ouvido do cosmos, enquanto Òsá é a boca. Por isso, todo
dizer sagrado precisa passar antes pela escuta. Não se fala sem ter ouvido. O Bàbáláwo, antes de
pronunciar o Òdu, põe o òpèlè no ouvido; ele escuta o som das nozes caindo, escuta a respiração
dos ancestrais. O som dos ikín, quando rolam, é o som do mundo girando. Cada queda tem uma
cadência; cada cadência, um significado. O universo fala através dos ritmos. A divinação é,
portanto, uma acústica do destino.
O Ìtàn de Ìwòrì é sempre uma história sobre o tempo. O tempo não é linha, é vibração. Ele não
passa, ressoa. É o mesmo som que se repete em oitavas diferentes. Assim, a vida humana é uma
variação de uma melodia eterna. O Orí de cada um é a partitura individual dentro da sinfonia
cósmica. Ifá é a arte de manter a afinação entre o Orí e o universo. Quando se perde o tom, vem o
desassossego. A cura consiste em reencontrar o tom certo — o ìró que corresponde à alma.
Ìwòrì, por isso, é também o signo da poesia. O poeta é aquele que escuta a linguagem antes de ela
nascer. A palavra poética é palavra prenhe; ela vibra como o ventre de uma mulher que escuta a vida
dentro de si. O poeta yorùbá não escreve: ele invoca. Ele não inventa o sentido: ele o traduz do
silêncio. A poesia é o lado oracular da linguagem; é Ifá em estado estético. Por isso, o verso de Ifá é
sempre canto — nunca simples prosa. O som do verso é o meio pelo qual o sentido se enraíza na
alma.
Mas Ìwòrì é também o signo da dúvida, não como negação, mas como interrogação criadora.
Escutar é sempre arriscar-se ao desconhecido. O ouvido se abre ao que pode perturbá-lo. O
verdadeiro saber começa quando o ouvido se deixa ferir pelo som do mistério. O que fere também
desperta. O homem que já não se deixa abalar pela voz do invisível tornou-se surdo de espírito. A
sabedoria de Ìwòrì é a sabedoria da vulnerabilidade. Só quem aceita ser atravessado pelo som pode
conhecer o silêncio de Olódùmarè.
A arquitetura dos Amùlùs é, portanto, uma arquitetura acústica. O cosmos de Ifá é uma casa de
sons. As paredes do mundo são vibrações. Quando se diz que o universo é sustentado por 256 Odù,
deve-se compreender que esses 256 são as notas fundamentais da sinfonia cósmica. Cada
combinação é um acorde. O Bàbáláwo, ao lançar o òpèlè, não faz cálculos, faz música. Ele afina o
ser ao som do destino.
A escuta profunda exige silêncio interior. Ìwòrì ensina o recolhimento não como fuga, mas como
preparação. O silêncio não é ausência de som, é presença plena do sentido. O homem silencioso é
aquele que ouve o invisível. O sábio não se isola porque despreza o mundo, mas porque quer
escutá-lo melhor. O recolhimento é um ato de hospitalidade. O ouvido se retira para que o outro
possa falar. Assim, o verdadeiro silêncio é ética: ele reconhece o direito do outro de existir.
No plano da antropologia do invisível, Ìwòrì é o lugar da mediação entre o som e o corpo. O corpo é
o primeiro instrumento musical. Cada osso é uma corda; cada órgão, uma câmara de ressonância. O
corpo é tambor, flauta e cântaro ao mesmo tempo. Quando o corpo se desequilibra, é porque o ritmo
se perdeu. A cura, portanto, é uma questão de ritmo. Os rituais de Ifá não são mágicos, são
musicais: restauram a harmonia entre corpo e cosmos. O Bàbáláwo é maestro e terapeuta. Ele
conduz o orquestrar invisível do ser.
O segredo de Ìwòrì é que o eco é infinito. O som nunca morre: apenas se transforma em outras
vibrações. A memória é o modo como o eco se aloja no tempo. O ancestral é a memória viva do
som. Por isso, os cultos de Egúngún são celebrações de Ìwòrì. O pano que cobre o corpo do
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ancestral é como o tímpano do mundo — vibra entre o visível e o invisível. Cada passo do Egúngún
é um compasso da eternidade. Escutá-lo é reconhecer que o tempo nunca deixou de cantar.
A escuta também funda a política espiritual de Ifá. O poder, para o pensamento yorùbá, não se
impõe, se ouve. O verdadeiro rei é aquele que escuta o clamor do povo e o murmúrio dos Òrìṣà. O
governo é um ato de escuta coletiva. As assembleias tradicionais de Ọ̀yó, Ìfẹ̀, Kétu e Ìjẹ̀ṣà eram
organizadas como grandes rodas de audição. Falar era um privilégio que se conquistava por saber
ouvir. A surdez do governante é o começo da tirania. Ìwòrì é o Odu da governança justa: aquele que
transforma a escuta em autoridade.
O Ìtànlógico sabe que a escuta também é mística. Escutar é fundir-se. O ouvido não tem pálpebras:
ele não escolhe, acolhe. Ele é o órgão da vulnerabilidade. Tudo o que toca o ouvido entra. Por isso,
é preciso pureza. O iniciado deve proteger seus ouvidos como protege seu coração. O ouvido é a
porta da alma. Quem a abre para sons impuros contamina o espírito. O silêncio ritual é, portanto,
purificação auditiva. O recolhimento não é ascese, é higiene do espírito.
Na metafísica de Ifá, Ìwòrì também se relaciona ao sopro (Èmí). O som é o corpo do sopro. O que o
ouvido escuta é o movimento do ar. O ar é a presença invisível de Olódùmarè. Escutar é respirar
espiritualmente. Cada inspiração é uma escuta, cada expiração, uma resposta. O ritmo da respiração
é o ritmo do universo. Por isso, as orações yorùbá são cantadas — o som e o sopro são inseparáveis.
Orar é respirar com consciência do sagrado.
Oluwo Adèlóná Isólá escreve este volume consciente de que cada palavra é um sopro fixado.
Escrever é prolongar o som no tempo. A escrita, quando fiel ao seu Ìmúlè ̣, não congela a voz —
preserva o eco. A Summa Ìtànlógica é, assim, um grande ouvido de papel. Cada linha é um canal de
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ressonância; cada Odu, uma câmara de eco. O leitor é convidado a escutar, não apenas ler. Escutar
com o corpo, com a pele, com o coração. Pois Ifá fala em todas as frequências da existência.
E quando o ouvido do homem se torna puro, ele começa a escutar o que as estrelas dizem. Pois cada
estrela é uma vibração de luz, e a luz é som em velocidade divina. O universo inteiro é um cântico,
e Ìwòrì é a estrofe que lembra o homem de que ele também é parte dessa canção. Escutar o cosmos
é reencontrar o lugar na harmonia total. O que se chama destino (àyànmọ́) é apenas a melodia
própria de cada ser. Viver bem é tocar sua melodia sem desafinar o conjunto.
Por isso, este volume se ergue como templo acústico. Cada Ìtàn é uma partitura do invisível; cada
hermenêutica, uma variação da escuta. Se o leitor permanecer silencioso o suficiente, ouvirá — nas
entrelinhas — o murmúrio do próprio Òrúnmìlà. Pois o texto de Ifá não fala: ele canta. E quem
escuta o canto, ainda que por um instante, toca o coração do mistério.
som primordial que ressoa em Ògbè e se recolhe em Òyèkù encontra, em Ìwòrì, o gesto da
reflexão: o instante em que o próprio som toma consciência de ter soado. Ìwòrì é, assim, o
nascimento do retorno, o início da interioridade universal. No princípio havia a voz, mas era uma
voz sem ouvido; em Ìwòrì, o ouvido desperta, e o universo começa a ouvir a si mesmo. O som deixa
de ser mero impulso e se torna memória. É o advento da consciência cósmica — o momento em que
Olódùmarè se reconhece no eco de sua própria criação.
No interior de Ìwòrì há uma lição profunda sobre o modo como o ser se faz linguagem. Toda escuta
é já um ato de tradução, e todo ato de tradução é também uma criação. O ouvido não é um canal
neutro: é o alquimista da vibração. Ele transforma movimento em sentido, ar em consciência. O que
o mundo chama de som é, para Ìwòrì, um acontecimento espiritual — o diálogo do invisível com o
visível. Cada ruído é um chamado; cada silêncio, uma resposta. O universo fala em pulsações, e o
ouvido é o órgão que lê a respiração de Olódùmarè.
Há, portanto, um parentesco essencial entre escuta e destino. O destino não é uma linha a ser
seguida, mas uma melodia a ser reconhecida. O Orí é o ouvido secreto do ser. Quando o homem
vive em desarmonia, é porque deixou de ouvir o seu próprio som interior. Toda desgraça, em Ifá, é
consequência de uma surdez metafísica. Ìwòrì é o remédio que restitui a audição do Orí. Escutar o
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próprio destino é voltar a caminhar em ritmo com o universo. Aquele que escuta com verdade
jamais se perde, pois o caminho é o som do próprio passo.
A escuta de Ìwòrì não é apenas individual: é cósmica, comunitária, ancestral. O ouvido do homem é
continuação do ouvido dos deuses, e o ouvido dos deuses é continuação do ouvido da terra. A rocha
escuta o rio, o rio escuta a chuva, a chuva escuta o céu. A natureza é uma vasta cadeia de
ressonâncias. O ser humano, ao escutar, recoloca-se dentro dessa cadeia. A civilização moderna, ao
perder o hábito da escuta, rompeu o vínculo com o cosmos e tornou-se surda para o divino. Mas
quem reabre o ouvido do espírito volta a participar da sinfonia do real. Ìwòrì é o portal de retorno à
harmonia original.
É por isso que Ìwòrì é também o Odu da sabedoria e da prudência. Ele ensina que falar antes de
ouvir é uma forma de profanação. O ouvido deve preceder a boca, assim como a compreensão deve
preceder o juízo. O sábio é aquele que escuta o suficiente para que suas palavras não quebrem o
silêncio. O silêncio, em Ìwòrì, não é ausência, mas presença densa, gestação do verbo. A palavra
nasce do silêncio como o trovão nasce da nuvem. O que não aprendeu a silenciar, não aprendeu a
criar.
No interior de Ìwòrì, o saber se faz feminino, pois escutar é um ato de gestar. O ouvido é o ventre da
mente. Toda escuta é uma ontologia. O ser é aquilo que se deixa ouvir. Ìwòrì ensina que o
fundamento da realidade não é a substância, mas a ressonância. O mundo não está sustentado sobre
uma matéria, mas sobre uma vibração que se conserva em equilíbrio. Onde o pensamento ocidental
disse ens, o pensamento yorùbá disse ohùn: voz, som, timbre. O ser é voz. O ser não é o que existe,
é o que ressoa. O que não ressoa, não é.
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Quando Aristóteles definiu o ser como ato e potência, ele intuiu algo que Ìwòrì já sabia: que tudo o
que existe vibra entre o silêncio e a emissão. A potência é o silêncio prestes a tornar-se som; o ato é
o som em expansão. Mas o que Aristóteles concebeu como movimento lógico, o Ifá entende como
movimento sagrado. Pois entre potência e ato existe o sopro — e o sopro é o princípio divino que
transforma a vibração em vida. Òrúnmìlà é o mediador desse sopro. Ele traduz o silêncio de
Olódùmarè em som compreensível, e traduz o clamor do mundo em silêncio compreendido. Por
isso, em Ìwòrì, Òrúnmìlà é ouvido antes de ser visto.
Avicena, ao dizer que o intelecto divino conhece todas as coisas por uma única forma de si, tocou o
mistério de Ìwòrì. Pois o saber divino é som contínuo, sem interrupção. Olódùmarè não pensa —
ressoa eternamente. O conhecimento de Deus é a própria harmonia do cosmos. O homem, ao
escutar, participa dessa harmonia e se torna consciente dela. Em Avicena, o som se torna ideia; em
Ìwòrì, a ideia se torna som. A filosofia islâmica e o Ifá se encontram na mesma vibração: a de que o
real é pensamento audível.
Tomás de Aquino, ao conceber o verbo divino (Verbum Dei) como o Filho gerado eternamente pela
mente do Pai, também ecoa a sabedoria de Ìwòrì. Pois o Verbo é o som do pensamento divino — a
voz de Olódùmarè que se ouve antes da criação. E se o Verbo é o princípio do mundo, então o
ouvido é o órgão da teologia. Escutar é unir-se ao ato da geração eterna. O homem que escuta
profundamente participa da Trindade cósmica: o som, o ouvido e o sentido — que, no Ifá, são
Ògbè, Ìwòrì e Òrúnmìlà.
Mas há uma diferença: no tomismo, o Verbo é imagem; em Ìwòrì, é vibração. A teologia ocidental é
ocular, a yorùbá é auricular. Deus, no Ocidente, é o que se vê; em Ifá, é o que se escuta. A luz revela
a forma, mas o som revela a presença. O visível mostra o contorno, o audível revela a alma. A
metafísica de Ìwòrì é, portanto, uma metafísica da presença sonora. O ser não é o que se mostra, é o
que se manifesta pelo som — e o som é o modo pelo qual o invisível se encarna.
Sophie B. Oluwole, em sua magistral leitura de Òrúnmìlà como filósofo, compreendeu que o
pensamento africano não é narrativo por falta de abstração, mas porque sua abstração é vibratória. A
palavra oral é filosofia em movimento. Ela não é menos rigorosa por ser falada, é mais viva por ser
ouvida. Ìwòrì é o paradigma dessa oralitura pensante: nele, a sabedoria não se escreve, se escuta. O
logos africano é acústico, não gráfico. A letra é o eco da voz, não sua substituta.
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A Ìtànlógica, ao reunir essas tradições, não as coloca em confronto, mas em ressonância. Cada
filosofia é uma frequência do mesmo som. A Grécia buscou o ser pelo olhar; Ifé o buscou pelo
ouvido. O Islã o contemplou no silêncio; o cristianismo o proclamou pela palavra. Todas as vias são
tentativas de ouvir Olódùmarè. E Olódùmarè fala não com frases, mas com ritmos. O universo é o
tambor de Olódùmarè. Cada batida é uma época, cada pausa, uma era. A história é a partitura do
divino.
Por isso, em Ìwòrì, não há oposição entre ciência e sabedoria, entre mito e razão. Tudo é vibração. A
ciência mede as frequências; a sabedoria as escuta. O conhecimento é o casamento do ouvido com o
cálculo. O erro da modernidade foi ter separado o ouvido do coração. O ouvido técnico sem coração
é ruído; o coração sem técnica é sentimentalismo. Ìwòrì exige ambos: precisão e entrega. O som do
mundo precisa de escuta inteligente e sensível.
Na hermenêutica Ìtànlógica, a escuta é também uma forma de escrita. Cada vez que o ouvido
recolhe um som, grava-se uma linha invisível no corpo do espírito. O ser humano é o manuscrito do
som. Os traços do destino são linhas sonoras gravadas no orí. O òpèlè, quando cai, não escreve,
desenha sons. O Bàbáláwo lê vibrações, não letras. E ao lê-las, devolve o mundo à harmonia. Cada
consulta é uma correção da partitura universal.
Essa ideia — de que o mundo é um texto sonoro — encontra eco em Henry Corbin, quando ele
descreve o universo como “livro revelado continuamente”. O cosmos é uma escritura em processo.
Mas onde Corbin fala de imaginação ativa, Ifá fala de escuta ativa. O imaginário é o ouvido do
espírito. O invisível se revela não como imagem, mas como som interior. A audição do sagrado é o
primeiro passo da teofania. Escutar é ver sem olhos.
A escuta de Ìwòrì também é ética, porque ouvir é reconhecer a alteridade. O ouvido é o órgão da
hospitalidade ontológica. Ele acolhe o que não é ele. O olhar captura, o ouvido se entrega. O mundo
que se funda na escuta é o mundo da reciprocidade, da convivência. A ética de Ìwòrì é a ética da
escuta mútua. O poder que escuta o povo é justo; o povo que escuta seus ancestrais é sábio; o
homem que escuta seu Orí é inteiro.
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Por isso, o silêncio não é o oposto da fala: é sua fundação. Sem silêncio, não há som; sem escuta,
não há palavra. O silêncio de Ìwòrì é prenhez, não vazio. O silêncio é o útero da voz. Em Ifá, o
silêncio é chamado ìmúlẹ̀ — o assentamento do poder. Calar é assentar o àṣẹ. Falar sem silêncio é
desperdiçar energia; escutar é acumular àṣẹ. O sábio cala para fortalecer a palavra. O tolo fala para
enfraquecer o ouvido. A civilização do ruído é a civilização da impotência.
A filosofia, quando escuta Ifá, reencontra sua origem. Pois antes de ser escrita, a filosofia era
música. Pitágoras ouviu o cosmos; Heráclito escutou o fluxo; Parmênides ouviu a voz da deusa; e
Sócrates dizia que sua voz interior — seu daimonion — o advertia. Em todos esses gestos, o saber
ocidental ainda ressoava com Ìwòrì. Foi o olho, depois, que substituiu o ouvido, transformando o
saber em geometria. A Ìtànlógica é o retorno ao ouvido como fundamento do pensar.
No campo da teogonia yorùbá, Ìwòrì é o espaço de transição entre Ògbè, a luz ativa, e Òyèkù, a
noite receptiva. Ele é o primeiro movimento do dia dentro da noite — a aurora do som. É nesse
intervalo que Òrúnmìlà escuta os segredos de Olódùmarè e os traduz para o Àiyé. Escutar é,
portanto, habitar o limiar. O ouvido é o órgão da fronteira. Nele, o mundo se torna permeável.
Oluwo Adèlóná Isólá, ao conceber esta Summa Ìtànlógica, quis criar um espaço onde o ouvido do
leitor pudesse tocar o invisível sem medo. Pois escutar é um ato de coragem. O ouvido, ao contrário
do olho, não escolhe o que recebe. Escutar é abrir-se ao imprevisível. Essa abertura é o começo de
toda sabedoria. A coragem de ouvir o que o mundo tem a dizer é o primeiro passo do iniciado.
Em Ìwòrì Méjì, a escuta se torna método e destino. O que começa como percepção termina como
iluminação. Aquele que escuta suficientemente se torna o próprio som que escuta. Nesse ponto, o
ouvido e o som são um só. O eu e o mundo deixam de ser dois. Esse é o estado supremo do saber: o
silêncio que ouve a si mesmo.
O Ifá chama esse estado de Ìmọ̀lára Òrúnmìlà — o sentimento de Òrúnmìlà. É a consciência plena
da harmonia universal. Não há mais pergunta nem resposta, apenas vibração pura. O iniciado que
alcança esse estado não fala mais de Ifá, fala desde Ifá. Ele não escuta o som, ele é o som. Sua
existência é o próprio canto do Ọ̀run no Àiyé.
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Por isso, este volume não se encerra: ele reverbera. Ìwòrì não termina nunca. Cada leitura é um
novo eco. A Summa Ìtànlógica não é monumento, é onda. O saber de Ifá não é sistema, é
ressonância. Que o leitor, ao fechar o livro, não o silencie, mas o continue ouvindo dentro de si.
Pois o verdadeiro fim da leitura é o início da escuta.
No princípio, antes mesmo de Ògbè pronunciar a luz, havia uma respiração. Um sopro silencioso
atravessava o vazio primordial, sem ainda saber que era som. Esse sopro é Ìwòrì em sua forma mais
pura — o pressentimento do som antes de ser som, a consciência que começa a acordar dentro do
próprio silêncio. Por isso, Ìwòrì não é apenas o Odu da escuta: é o Odu da gênese da consciência
cósmica. É nele que o ouvido de Olódùmarè desperta e que o próprio Criador, pela primeira vez, se
escuta.
Toda criação nasce de um gesto de escuta. O universo não foi falado, foi escutado primeiro. A
vibração primordial percorreu o abismo, e Olódùmarè, ao ouvi-la, reconheceu-se. A criação é o ato
pelo qual o som se torna matéria do ouvido divino. O Àiyé é, portanto, o eco do Ọ̀run. Escutar o
mundo é escutar a lembrança de sua origem. Essa é a primeira teogonia de Ìwòrì: o som que se
transforma em substância, o verbo que se torna rocha, rio, corpo e destino.
Oluwo Adèlóná Isólá recorda que o verbo yorùbá gbó significa simultaneamente “ouvir”,
“entender”, “crescer” e “amadurecer”. Assim, escutar não é apenas captar sons, é tornar-se
consciente, expandir-se, adquirir maturidade espiritual. O ouvido que ouve é o mesmo que se
alarga. Escutar é crescer na direção do invisível. O ouvido é o órgão da expansão do ser.
Por isso, Ìwòrì é também o signo da iniciação, porque o iniciado é aquele que aprendeu a escutar o
que o não iniciado não percebe. Ele ouve o invisível, interpreta o murmúrio dos ancestrais, decifra o
ritmo do próprio destino. O ouvido iniciático é o ouvido simbólico: ele escuta com o corpo inteiro,
com o sangue, com o sonho. Ele não distingue entre som e sentido, entre vibração e mensagem.
O iniciado, quando escuta o tambor, não ouve apenas música: ouve o código de Ifá se movendo
através das camadas do tempo. Pois o tambor fala — ìlù ń sọ̀rọ̀ —, e o som que dele sai é palavra
divina. Cada batida é um verso que liga Ọ̀run e Àiyé. Escutar é, portanto, uma forma de leitura. Mas
é uma leitura que não se faz com os olhos, e sim com a alma.
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O ouvido, em Ifá, é a mais sagrada das portas. Os olhos veem o visível; o ouvido escuta o invisível.
Por isso, o ouvido é mais perigoso, mais santo, mais íntimo. A palavra entra pelos ouvidos e desce
até o coração, e é ali que ela decide se será semente ou veneno. O ouvido é o campo da palavra.
Aquele que abre o ouvido sem preparo pode deixar o coração ser invadido por forças que não
entende. Por isso, a escuta precisa ser ritualizada.
Os ritos de Ifá — as rezas, os cantos, os bòrí, os èbò, os sacrifícios — são técnicas de purificação
auditiva. O corpo se torna um grande ouvido. O banho de folhas é limpeza sonora; o toque de
tambor é realinhamento vibracional; o sacrifício é afinação do destino. Cada gesto ritual é uma
operação acústica. O universo, para o pensamento yorùbá, não é apenas uma totalidade visível, mas
uma sinfonia espiritual em constante afinação.
A escuta de Ìwòrì é também escuta do tempo. O tempo não passa: ele soa. O tempo é o ritmo das
coisas. Cada estação, cada estação do destino, é uma cadência. O dia e a noite são batimentos
alternados do coração cósmico. Ògbè é o pulso da aurora, Òyèkù é o repouso da noite, e Ìwòrì é o
compasso intermediário — o intervalo onde o ritmo se escuta a si mesmo. O homem que
compreende isso não envelhece: amadurece no tempo, porque vive em sintonia com o ritmo do seu
próprio Orí.
E o Orí é o ouvido do ser. Ele é o ponto onde o destino e a escuta se encontram. Escolher o próprio
Orí, antes de nascer, é escolher a melodia que se deseja tocar na terra. Cada existência é uma
partitura que o espírito escreve antes de encarnar. O esquecimento é apenas o silêncio entre as notas.
A vida é a retomada da música interrompida. Escutar o Orí é reencontrar o tema perdido.
Mas há ainda um outro ouvido, mais profundo: o ouvido da Terra. O solo do mundo guarda a
memória de todos os sons que nele ressoaram. Cada passo é um retorno. Quando o iniciado pisa o
chão, a Terra o reconhece pelo som de seus passos. É por isso que Òrìṣà caminha devagar: porque
ele escuta o chão. O apressado não escuta a Terra; o apressado caminha como quem rasga a pele do
mundo. O devoto caminha como quem acaricia o solo com o peso do seu àṣẹ.
Ìwòrì é o Odu que ensina o caminhar escutante — o caminhar que é prece. O movimento torna-se
som; o som, palavra; a palavra, oferenda. Viver é dançar a escuta. O corpo é o tambor com que a
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alma celebra o seu retorno à harmonia. O coração é o toque mais antigo do universo, e cada batida é
uma saudação a Olódùmarè.
Por isso, o silêncio não é o oposto do som, mas o seu interior. O verdadeiro silêncio é aquele que
ouve. O homem em silêncio não está mudo, está pleno de escuta. O silêncio ritual de Ìwòrì é uma
forma de audição total. É o estado em que o ouvido humano se alinha ao ouvido cósmico. É quando
o iniciado escuta não apenas o que é dito, mas o que é calado; não apenas o que vibra, mas o que
repousa.
Toda a criação é um jogo entre som e silêncio. O ruído é o desvio desse equilíbrio. O ruído é o som
que perdeu o sentido, a vibração que perdeu o eixo. Por isso, Ìwòrì é também o médico do som. Ele
cura o ruído com ritmo. O tambor, quando tocado em cerimônia, não é música: é medicina. Ele
reorganiza o caos vibratório. O som sagrado não é apenas ouvido — é tomado, bebido, inalado,
absorvido. Ele age sobre o corpo, sobre o sangue, sobre o Orí.
O ouvido é o espelho da alma. Quando o ouvido adoece, é porque a alma se desorganizou. A cura é
o retorno à escuta do próprio centro. Ìwòrì, portanto, é o Odu da cura pela escuta. O Bàbáláwo que
consulta Ifá é um terapeuta da audição do mundo. Ele recolhe as vozes em conflito dentro do
consulente e as harmoniza. O conselho de Ifá é o restabelecimento da música interior.
A humanidade moderna, surda de ruído e cega de luz, esqueceu que escutar é existir. A tecnologia
multiplicou os sons, mas aboliu o silêncio. As cidades são tumbas sonoras. A escuta se tornou
superficial, distraída, ansiosa. Ìwòrì vem, então, como correção espiritual da era da aceleração. Ele
nos chama ao ritmo natural do cosmos, ao tempo das pausas, ao respirar da vida. O retorno à escuta
é o retorno à alma.
É nesse ponto que a filosofia do Ifá encontra a antropologia do invisível. Escutar o som do mundo é
compreender que tudo tem voz — as pedras, as águas, as folhas, os mortos, os sonhos. A realidade é
uma assembleia sonora. A alma humana é o ouvido dessa assembleia. O homem não é o centro do
mundo, mas o ouvido do mundo. E a tarefa do ouvido é conservar a harmonia do conjunto.
O antropólogo do invisível é, por isso, um escutador de mundos. Ele não observa: ele ouve. Ele se
aproxima como quem encosta o ouvido no ventre da Terra para sentir o movimento da criação. Sua
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escrita não é análise: é ressonância. Ele traduz o murmúrio do real. A ciência que nasce dessa escuta
é ciência da presença, uma ciência que não separa o observador do observado, porque ambos são
vibrações do mesmo som.
A Summa Ìtànlógica, em seu método, é também uma sinfonia. Cada volume corresponde a uma
nota maior da estrutura cósmica; cada Odu é uma modulação; cada Ìtàn, uma variação. O
pensamento, aqui, não é linear nem dedutivo: é melódico, espiralado, harmônico. A verdade não é
concluída, é escutada. Cada leitor é um músico que executa novamente a partitura do saber
divinatório. A leitura é um ato litúrgico.
Por isso, a Summa não é apenas uma obra — é um instrumento. Ela existe para ser tocada, para
vibrar nas mãos e na mente de quem lê. Cada parágrafo é uma corda. O pensamento, quando lido
em estado de atenção, produz som. E esse som é uma forma de oração. O estudioso que lê o Ifá com
reverência torna-se parte da música do mundo.
A introdução a Ìwòrì Méjì, assim, é o portal da audição cósmica. Entrar nela é aprender a ouvir
novamente: ouvir o próprio corpo, os ancestrais, os Òrìṣà, o vento, o silêncio. É converter-se em
ouvido puro. Pois só o ouvido puro pode compreender a fala de Òrúnmìlà, que é o som do destino
pronunciado no ventre da noite.
E quando o ouvido do homem se afina com o ouvido do universo, tudo se torna revelação. A folha
que cai é verso; o trovão é comentário; o canto do pássaro é profecia. O mundo inteiro é o Òdu
aberto diante de nós. O segredo é escutar o mundo como quem escuta um oráculo.
Aquele que ouve com verdade, ouve o que não foi dito. Aquele que escuta com reverência, escuta o
que ainda será dito. O ouvido é o ponto onde o tempo se curva e o futuro se anuncia. A profecia é
apenas a escuta que ultrapassou o presente. Por isso, Ìwòrì é também o Odu dos profetas — não
porque veem, mas porque ouvem antes.
Há um momento em que o som deixa de ser apenas vibração e se torna presença. Esse momento é
Ìwòrì em sua plenitude. O que até então era palavra, conselho, ensinamento, transforma-se em
realidade vivida. A escuta atravessa o limiar da compreensão e se converte em estado de ser. O
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ouvido do iniciado torna-se portal entre mundos. O que ele escuta já não é exterior: é o murmúrio
de Olódùmarè dentro de si. Ìwòrì é o instante em que o cosmos escuta o próprio coração.
A escuta de Ìwòrì é radical porque é total. Ela não separa o som da intenção, o gesto da vibração, o
silêncio da ação. Ela é o campo onde tudo se comunica. O iniciado aprende que não existe nada
mudo no universo. O silêncio da pedra, o repouso da folha, o brilho do metal, tudo fala. A criação é
linguagem em repouso. Tudo o que existe é palavra em potência. Cada ser, ao existir, pronuncia
Olódùmarè em sua própria frequência. O ouvido do sábio é a morada de todos esses sons.
Por isso, Ìwòrì é também o Odu da humildade. Escutar exige curvar-se. O ouvido está sempre mais
baixo que a boca. É preciso inclinar-se para ouvir. A escuta é o gesto da reverência cósmica. O
homem que escuta reconhece que há algo maior do que ele vibrando ao seu redor. A escuta é uma
forma de culto. Não se trata de ouvir para compreender, mas de ouvir para servir. O ouvido é o altar
mais puro, porque nele o divino é recebido sem resistência. Escutar é deixar Olódùmarè atravessar.
No plano da ética, Ìwòrì ensina que toda relação começa com escuta. O outro é o som que vem de
fora, pedindo acolhimento. Amar é ouvir. O amor que não escuta é dominação; a escuta que não
ama é indiferença. O equilíbrio entre ambos é o fundamento da convivência. O oráculo de Ifá não
fala para impor, fala para harmonizar. A palavra oracular é sempre medicinal. Ela cura porque é som
alinhado ao coração do mundo. A escuta, quando é verdadeira, também cura.
Toda cura é uma restituição da harmonia entre o ouvido e o som. A doença é o descompasso
vibratório — o corpo que deixou de escutar o seu próprio ritmo. Ìwòrì é o Odu que restitui a
sintonia. O Bàbáláwo, ao invocar Ifá, não busca apenas respostas, mas reabrir a escuta perdida.
Quando o consulente chora, é porque a escuta voltou. A lágrima é o som líquido do coração. Ouvir-
se novamente é a maior de todas as curas.
Mas há um grau ainda mais sutil de escuta: o da escuta entre vivos e mortos. O Egúngún fala em
vento, em tecido, em poeira. O morto não fala por palavras, fala por vibrações. Escutar os mortos é
um ato de presença interior. A tradição yorùbá compreende que a ancestralidade não é passado, é
frequência. O ancestral está onde o ouvido se abre. Por isso, Ìwòrì é também o portal da
ancestralidade. O iniciado que aprende a escutar profundamente reencontra todos os que vieram
antes. Escutar é lembrar.
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A escuta dos mortos é também a escuta da Terra. Pois a Terra é o corpo coletivo dos ancestrais.
Cada som que nasce no mundo é filtrado por seus ossos e memórias. O tambor fala porque ressoa
dentro desse corpo invisível. Quando o tambor é tocado, os mortos dançam, e quando os mortos
dançam, o mundo se reequilibra. O som é o elo entre o visível e o invisível. A escuta é o caminho de
volta.
O homem moderno, separado da escuta do invisível, perdeu o caminho de volta. Vive rodeado de
ruídos, mas surdo para o sentido. O ruído é o barulho do esquecimento. Ele nos afasta do ritmo
divino, dispersa o àṣẹ, quebra a harmonia interior. Por isso, o silêncio é o primeiro remédio
espiritual. É no silêncio que o ouvido se refaz. O silêncio ritual não é vazio: é respiração de
Olódùmarè. Ìwòrì ensina que, para ouvir Ifá, é preciso primeiro ouvir o silêncio.
Escutar o silêncio é o mesmo que escutar o destino. Pois o destino não grita, sussurra. O Orí não
fala em tumulto, fala em calma. O que se move muito não ouve o seu próprio caminho. A paciência,
em Ifá, é a forma suprema da sabedoria. Sùúrù ni baba ìwà — a paciência é o pai do caráter. E o
caráter nasce do ouvido. Aquele que escuta o tempo de cada coisa não se precipita. Aquele que vive
fora do ritmo do seu destino adoece. Ìwòrì é o Odu da sincronia.
Há uma música para cada vida. E cada vida, quando escutada, revela a melodia secreta de
Olódùmarè. O homem é o instrumento; o destino, a partitura; o àṣẹ, o sopro divino. Quando a alma
vibra em harmonia com o sopro, tudo se realiza com leveza. Quando o homem resiste, o som se
distorce e a vida se torna ruído. Ìwòrì é a ciência de reconduzir o ser à sua nota justa.
A escuta é também um ato de criação. Quem escuta profundamente, cria. Pois escutar é abrir espaço
dentro de si para o novo. O ouvido é o ventre do pensamento. É nele que o sentido é gestado antes
de nascer como palavra. O ouvido pensa antes da mente. Toda intuição é um som não ouvido ainda
pelo raciocínio. O profeta é aquele cujo ouvido pensa mais rápido que a língua.
É nesse ponto que Ìwòrì toca o mistério do pensamento. Pensar é escutar o que o mundo quer dizer
através de nós. O verdadeiro pensamento não é invenção, é revelação. O filósofo, o poeta, o
Bàbáláwo, todos são ouvintes privilegiados do real. A sabedoria não se produz, se recebe. O ouvido
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é o canal da revelação. O que escuta com pureza torna-se espelho do cosmos. O que escuta com
orgulho distorce o som divino.
Por isso, Ìwòrì é o Odu do discernimento. Ele ensina a distinguir entre o som verdadeiro e o eco
falso. O som verdadeiro vem do centro e produz paz; o eco falso vem da periferia e produz
confusão. O ouvido que escuta o falso som se torna prisioneiro da aparência. A escuta verdadeira
exige purificação constante. O ouvido é o órgão mais vulnerável do espírito. É por ele que entram
tanto a sabedoria quanto o engano.
Escutar é, portanto, um ato moral. A ética da escuta é a base da convivência humana e divina.
Olódùmarè escuta o mundo; o mundo deve escutar Olódùmarè. O homem que não escuta rompe o
elo. A justiça começa quando o forte ouve o fraco, quando o governante ouve o povo, quando o vivo
ouve o ancestral, quando o homem ouve o seu próprio coração. Toda desordem nasce de uma
surdez. Todo renascimento nasce de uma escuta.
É nesse horizonte que a Summa Ìtànlógica se ergue: como um tratado da escuta universal. Seu
método não é dedutivo, mas ressonante. Seu pensamento não se impõe, vibra. Cada Odu é uma
frequência de Ifá; cada Ìtàn, uma variação de tom. O que o leitor escuta aqui não é apenas o saber
do autor, mas o eco dos deuses. O texto é tambor, o leitor é ouvido. A obra só se cumpre quando
ambos vibram juntos.
A escuta, enfim, é também o fundamento da liberdade. Escutar é reconhecer que há algo que fala
em mim e além de mim. O homem que não escuta é prisioneiro da própria voz; o homem que escuta
é livre porque compartilha o som com o todo. O ouvido é o órgão da comunhão. E a comunhão é a
mais alta forma de liberdade.
Que o leitor compreenda: esta introdução não é apenas um prefácio, é um rito de passagem. Ela não
explica Ìwòrì, ela o invoca. Ao lê-la, o leitor entra em contato com o campo vibratório do Odu. A
palavra aqui não é conceito, é frequência. E se o coração estiver limpo, o som de Ìwòrì continuará
ecoando mesmo após o fim da leitura.
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Pois Ifá não termina com o texto. Ifá começa no silêncio que vem depois. E o ouvido que
permanecer atento ouvirá ainda as vozes dos versos, o som dos Òrìṣà, o murmúrio dos ancestrais, o
ressoar da própria alma.
Assim, que Ìwòrì Méjì e seus Amùlùs sejam, não apenas um volume de saber, mas um campo
vibrante de presença. Que esta obra não se leia com os olhos, mas se ouça com o corpo inteiro. Que
cada leitor se torne um ouvido do cosmos, e que cada palavra desta Summa se torne um som no
ouvido de Olódùmarè.
E quando, ao final, o silêncio se fizer completo, que o leitor compreenda: o silêncio também fala.
Pois o silêncio é a última palavra de Ifá — a palavra que tudo contém, a que antecede o som e o
segue. O silêncio é o retorno à origem. O silêncio é Olódùmarè respirando.
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Estrutura Hermenêutica e Ìtànlógica da Obra
A Summa Ìtànlógica nasce de uma convicção simples e abissal: o conhecimento não é uma
acumulação de conceitos, mas uma escuta do Ser. Toda sabedoria começa quando alguém cala e
ouve o invisível. Por isso, esta obra não pretende apenas reunir os Ìtàn de Ifá — ela procura revelar
o modo de saber que habita em cada um deles, um saber que antecede a filosofia e a ciência, porque
é o próprio ritmo da vida que pensa.
Quando o Oluwo Adèlóná Isólá concebeu o método Ìtànlógico, sua intenção não foi inventar uma
nova exegese, mas restaurar uma antiga aliança entre o som, a palavra e o espírito. O Ifá, em sua
estrutura oracular, é um vasto tratado de hermenêutica viva: cada Odu é uma constelação de
símbolos, e cada símbolo, um corpo vibracional do sentido. Interpretar Ifá, portanto, é participar de
sua respiração. O hermeneuta não fala sobre o texto — ele fala com o texto, e o texto fala através
dele.
A hermenêutica Ìtànlógica é o método que torna visível essa reciprocidade. Ela parte de um
princípio metafísico: toda narrativa é um ser, e todo ser é uma narrativa em movimento. No
universo de Ifá, não há separação entre o ontológico e o histórico. Cada Ìtàn é um acontecimento
ontogênico — um modo de existir que se faz palavra. Por isso, a hermenêutica aqui não é apenas
uma interpretação intelectual, mas um ritual do pensamento.
Oluwo Adèlóná Isólá define este gesto como ler com o corpo do invisível. A palavra, para o saber
yorùbá, não é representação: é presença sonora. O que se diz traz à existência aquilo que se diz.
Assim, quando Òrúnmìlà pronuncia o verso de um Odu, o cosmos se reorganiza. Cada sílaba é uma
porção de Àṣẹ, o princípio dinâmico que liga Àiyé e Ọ̀run.
O método hermenêutico-ìtànlógico, portanto, começa pela escuta. Gadamer (1975) afirmava que
compreender é sempre um “acontecer da linguagem” — uma fusão de horizontes entre o que fala e
o que ouve. No Ifá, essa fusão é literal: o ouvido é o templo do espírito. A escuta (Ìgbọ́ràn) é a
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primeira oferenda do discípulo. Ricoeur (1976) dizia que a interpretação é o caminho que vai do
sentido à referência; no entanto, em Ifá, o sentido e a referência coincidem, porque o texto é o
próprio acontecimento do mundo.
A Summa Ìtànlógica adota, portanto, uma estrutura espiralar de leitura. Cada Ìtàn é tratado como
um microcosmo em quatro movimentos — Escuta, Travessia, Interiorização e Transmutação. O
primeiro movimento é o da audição: a palavra é recebida. O segundo é o da análise: a narrativa é
decifrada em sua economia simbólica. O terceiro é o da interiorização: o sentido se torna meditação
e autoconhecimento. O quarto é o da transmutação: o saber retorna ao silêncio, mas agora como luz
interior.
Essa estrutura não é arbitrária — ela espelha o próprio ritmo da criação segundo Ifá: Ọ̀run → Àṣẹ
→ Àiyé → Ìpadà. Do invisível ao visível, do verbo à matéria, e da matéria novamente ao verbo. O
saber é, assim, um circuito cósmico.
Merleau-Ponty (1945) dizia que o sentido não está por trás das coisas, mas “nas coisas enquanto se
mostram”. Essa é também a tese fundamental do método Ìtànlógico: o Ìtàn não é alegoria, é
epifania. Ele não aponta para outra realidade, ele é a própria manifestação da realidade em sua
forma simbólica. O erro da tradição ocidental, como observa Sophie B. Oluwole (2014), foi separar
mito e filosofia — enquanto no mundo yorùbá, filosofia é o próprio mito que se pensa.
A hermenêutica Ìtànlógica reverte esse paradigma. Ela devolve ao mito sua dignidade
epistemológica e ao símbolo sua potência ontológica. Ler um Ìtàn é reconhecer que o cosmos pensa
através de narrativas, e que a verdade não é um conceito fixo, mas um movimento de revelação.
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Tomás de Aquino (1265-1274) afirmava na Summa Theologica que o intelecto humano conhece por
meio das espécies, mas que toda espécie deriva de uma forma anterior em Deus. Se traduzirmos isso
para o vocabulário de Ifá, diríamos: toda palavra deriva de um som primeiro — o ohun Olódùmarè.
O método Ìtànlógico é, nesse sentido, uma Summa do som: uma metafísica da audição, onde o
verbo é o meio e o fim.
Cada Odu, então, é uma constelação sonora. Ìwòrì fala da escuta, Òyèkù da noite do ser, Ògúndá da
força do movimento, Òsà da revelação, Òfùn da pureza da luz. O leitor é conduzido não apenas pela
lógica, mas pelo timbre do mundo. A leitura torna-se um ritual vibracional: um modo de afinar o
ouvido para o invisível. A dimensão ìtànlógica propriamente dita começa quando o hermeneuta
percebe que o Ìtàn não é apenas um texto, mas uma forma viva de existência. Cada personagem —
Òrúnmìlà, Ògún, Ọbàtálá, Èsù, Ọ̀ṣun — não é apenas figura mítica, mas categoria ontológica.
Interpretar é, portanto, mapear o modo de ser que cada narrativa encarna.
Formulo isso como uma “metafísica do invisível”. O visível é o eco do invisível, e o invisível é o
princípio estruturante do real. A tarefa hermenêutica consiste em reconduzir o olhar para essa
dimensão anterior à matéria. Por isso a Summa Ìtànlógica é também um tratado de antropologia da
presença: compreender o humano como intersecção de forças cósmicas, como morada do som do
ser.
Por isso, o método não separa teoria e iniciação. A hermenêutica Ìtànlógica é também um processo
de transformação espiritual. O leitor que a pratica passa de olùkà (aquele que lê) a olùgbọ́ (aquele
que escuta). E, ao final, torna-se olùtúnwá — aquele que renasce pela escuta.
O horizonte dessa estrutura é um saber integral, onde o pensamento volta a ser corpo, e o corpo
volta a ser palavra. Nessa perspectiva, a filosofia deixa de ser uma ciência do discurso e se torna um
caminho de retorno: o pensamento como reconciliação com o som primordial.
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A Summa Ìtànlógica é, portanto, a expressão escrita de um método oral. Seu desafio é traduzir em
linguagem escrita aquilo que, por natureza, pertence à vibração. Por isso, cada parágrafo é
construído como um ciclo de respiração: invocação, reflexão, retorno. O estilo espiralar do texto
não é ornamento — é a forma da própria sabedoria de Ifá.
Ao mesmo tempo, ela estabelece um diálogo entre o saber africano e as tradições filosóficas do
mundo. Se Avicena via o intelecto como luz e emanação, Ifá o entende como som e vibração. Se
Longchen Rabjam descrevia a mente primordial como espaço luminoso, Ifá a descreve como
respiração do Àṣẹ. Se Tomás de Aquino falava da hierarquia dos seres, Ifá fala da hierarquia das
forças. São linguagens distintas para uma mesma realidade do ser: a presença do invisível no
visível.
No final de cada hermenêutica, o método Ìtànlógico retorna ao ponto de origem: o silêncio. É o que
o Oluwo chama de “regresso à noite primordial do saber.” Pois o conhecimento, em Ifá, não é posse
— é retorno. O verdadeiro sábio é aquele que restitui ao silêncio o que o silêncio lhe deu. Assim, a
Estrutura Hermenêutica e Ìtànlógica da Obra é mais do que um método de leitura: é um modo de
existir. Ela transforma a interpretação em culto, a palavra em rito, o estudo em oferenda. Cada Odu
interpretado não é apenas compreendido, mas celebrado.
O leitor que chega ao fim da Summa percebe que o saber não está nos livros, mas na escuta que eles
despertam. O livro é o meio, não o fim. O verdadeiro texto é o som que permanece depois da leitura
— o eco do invisível dentro do coração.
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1. Ìwòrì Mèji
Àdáyébá Àkàndá
Bàbáláwo ni wọ́n ṣe fún Òrúnmìlà ní ọjọ́ tí ó ń ṣàwárí òtítọ́ nínú àṣírí gbogbo ohun.
Wọ́n ní kó rúbọ kí òun lè mọ ohun tó dájú.
Ó rúbọ.
Ní ọjọ́ kejì, Òrúnmìlà bá
àwọn ẹlẹ́rìí òrun pàdé.
Wọ́n ní kó sọ òtítọ́ bí a ṣe ń sọ òtítọ́.
Ó wí pé:
“Òtítọ́ kì í pa ẹnikẹ́ni;
àṣejù ni ń pa ènìyàn.
Òtítọ́ kì í ṣòro;
òfìfo ọkàn ni ń fi ọ̀rọ̀ ṣòro.
Ọ̀rún ni ń mọ ohun gbogbo,
ayé ni ń dá ohun tí ó rọrùn di ìṣòro.”
Wọ́n ní: “Òótọ́ ni o sọ, Ọ̀rúnmìlà.”
Bí wọ́n ṣe ń lọ, wọ́n rí òrùlé tó bàjẹ́.
Òrúnmìlà ní kí wọ́n tún un ṣe.
Àwọn ará ìlú wí pé:
“Ṣé gbogbo òrùlé ni a máa tún ṣe?”
Ó dáhùn pé:
“Bí òrùlé bá jé òtítọ́,
ayé ò ní wọ̀;
ṣùgbọ́n bí òrùlé bá jé èké,
ìrìn àjò yóò bà á jẹ.”
Nítorí náà, wọ́n tún òrùlé náà ṣe,
wọ́n sì rí ìbùkún.
Òrúnmìlà ní:
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“Òtítọ́ ni ọ̀nà ìdájọ́;
ẹni tí ń sùn lórí èké ń rìn sí orí apáta.”
Tradução:
Adáyébá Àkàndá
Foi o nome do Bàbáláwo que consultaram para Òrúnmìlà no dia em que ele buscava a verdade entre
os segredos de todas as coisas.
Disseram-lhe que fizesse oferenda para poder conhecer o que é certo.
Òrúnmìlà ofereceu o sacrifício.
No dia seguinte, encontrou-se com as testemunhas do Céu.
Elas lhe disseram: “Dize a verdade como se diz a verdade.”
E Òrúnmìlà respondeu:
“A verdade não mata ninguém;
é o excesso que mata o homem.
A verdade não é difícil;
é o vazio do coração que torna a palavra difícil.
O Céu conhece tudo,
mas é a Terra que transforma o que é simples em problema.”
E os seres do Céu disseram: “Falaste com verdade, Òrúnmìlà.”
Seguindo seu caminho, viram um telhado desabado.
Òrúnmìlà ordenou que o reconstruíssem.
O povo murmurou: “Haveremos de reconstruir todo telhado que cair?”
E Òrúnmìlà respondeu:
“Quando o telhado é verdadeiro, o mundo não o invade;
mas quando o telhado é falso, a viagem do tempo o devora.”
Então reconstruíram o telhado e encontraram a bênção.
Òrúnmìlà declarou:
“A verdade é o caminho do juízo;
quem repousa sobre a mentira caminha sobre pedra afiada.”
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A verdade é um movimento de luz que não se impõe, mas se revela no ritmo da consciência. Ìwòrì
Méjì é o Odù que reflete a estrutura interna do julgamento cósmico, não como castigo, mas como
correspondência entre o que se é e o que se manifesta. Quando Òrúnmìlà declara que “a verdade é o
caminho do juízo”, ele não fala de uma lei exterior; fala do movimento interno que faz com que
cada coisa se torne o que é, e cada ser se encontre com o reflexo de sua própria integridade. O juízo
de Ifá não é tribunal, é espelho. Aquele que vê, vê-se. Aquele que julga, é julgado pela própria
medida com que mediu. Por isso, Ìwòrì é o Odù da retidão e da clareza — mas também da dor de
enxergar sem véus. Ele mostra que toda mentira é uma fissura na estrutura do ser, e toda verdade é o
reparo silencioso que devolve a harmonia.
O itan fala de Òrúnmìlà procurando a verdade entre os segredos das coisas. A verdade, aqui, não é
informação, mas substância. É o próprio à que circula nas entranhas da realidade. Òrúnmìlà busca
o centro da coerência cósmica, aquilo que sustenta o equilíbrio entre Ọ̀run e Ayé. Por isso, o
Bàbáláwo aconselha o sacrifício: porque conhecer a verdade exige abrir espaço para ela, e o
sacrifício é o gesto que cria esse espaço. Quando Òrúnmìlà oferece, ele não dá algo, ele limpa o
caminho da visão. O ebó é o ato filosófico por excelência — não é troca, é transformação.
A resposta dos testemunhos celestes — “dize a verdade como se diz a verdade” — contém um
segredo hermenêutico. Em Ifá, a forma e a essência não se separam. Não basta dizer a verdade, é
preciso dizê-la de modo verdadeiro. O dizer carrega a substância do dito. O que é dito sem ìwà-pẹ̀lẹ́,
sem serenidade e fundamento, mesmo sendo correto, torna-se violento. Assim, Ìwòrì ensina que a
ética da palavra é inseparável da ontologia do ser. A fala cria mundos; por isso, só quem possui o
coração em silêncio pode falar sem ferir.
A resposta de Òrúnmìlà — “a verdade não mata ninguém, o excesso é que mata o homem” — é
uma síntese profunda do princípio do equilíbrio. A verdade em Ifá não é uma espada, é uma
balança. Ela não fere; ela pesa. O excesso é o desequilíbrio do à , o desvio da medida original. A
mentira é esse excesso: o uso deformado da palavra, a manipulação do som em desacordo com a
pulsação de Olódùmarè. O homem morre não pela verdade, mas porque perdeu a medida de sua
voz. A verdade é o centro, e tudo o que se afasta do centro tende à queda.
Quando Òrúnmìlà diz que “o céu conhece tudo, mas a terra transforma o que é simples em
problema”, ele revela o abismo entre o conhecimento e a consciência. O céu é a memória divina, o
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registro absoluto das formas; a terra é o campo da experiência, onde o infinito se traduz em gesto e
erro. A complexidade humana nasce do atrito entre esses dois planos. Em Ifá, o homem é o tradutor
do invisível. A simplicidade do céu precisa da densidade da terra para tornar-se vida, e essa
densidade implica esquecimento. O drama do ser é o drama da tradução: toda verdade, ao descer, se
torna parcial. Por isso, o papel de Òrúnmìlà é recordar o esquecido, reatar os fios entre o alto e o
baixo, fazer com que o sentido respire novamente dentro do tempo.
A cena do telhado que desaba é uma alegoria do colapso da verdade. O telhado protege a casa — e a
casa é o corpo. Quando o telhado cai, o interior se expõe ao caos. Òrúnmìlà ordena que o
reconstruam, e o povo pergunta se será preciso reconstruir todos. A resposta é lapidar: “quando o
telhado é verdadeiro, o mundo não o invade; mas quando é falso, o tempo o devora.” Essa frase
contém uma cosmologia inteira. O que é verdadeiro sustenta-se porque vibra em consonância com o
à ; o que é falso desintegra-se porque o tempo é o juiz do que não tem raiz. O tempo é o guardião
da autenticidade. Ele devora o que não tem fundamento e preserva o que é real.
O povo que murmura é a humanidade descrente, acostumada à superfície. Ele quer saber se vale a
pena restaurar o que caiu, se há sentido em reerguer o mundo. Òrúnmìlà responde com um gesto
pedagógico: não é o objeto que se reconstrói, é o vínculo. Cada reconstrução é uma oferenda à
permanência. E assim, a bênção vem, porque o ato de restaurar é o ato de reatar o à interrompido.
Quando o homem restaura a verdade, o universo o abençoa.
A sentença final — “a verdade é o caminho do juízo; quem repousa sobre a mentira caminha sobre
pedra afiada” — é a imagem do destino humano. O caminho do juízo é o caminho do equilíbrio
entre o ser e o agir. A pedra afiada é o destino cortante que fere aquele que pisa em falso. A mentira
é o desequilíbrio do caminhar: quem anda sobre o que não é sólido corta os próprios pés. Por isso,
Ìwòrì ensina que a verdade é o chão do mundo. Aquele que mente cava o abismo sob os próprios
passos.
Do ponto de vista antropológico, este itan expressa uma ontologia da responsabilidade. Em Ifá, a
verdade não é conceito moral, é condição existencial. Viver em verdade é viver em coerência com o
próprio òrí. O ser humano que trai sua verdade interior destrói sua ligação com o à . Essa ruptura
manifesta-se como desordem, doença, infortúnio. A cura, portanto, não vem de fora, vem do
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reencontro com a verdade interna. O Bàbáláwo não impõe moral; ele devolve o indivíduo à escuta
de sua própria voz cósmica. O juízo não é punição, é reconexão.
Ìwòrì, em sua natureza dupla, representa a mente que reflete. É o espelho de Ifá. Ele mostra o dentro
no fora, o invisível no visível. Por isso, ele está associado ao autoconhecimento e à retidão. Ìwòrì é
o que faz o homem olhar para si antes de falar. É o Odù que ensina que toda fala é confissão, e toda
ação, espelho. No campo do destino, Ìwòrì é o escriba de Òrúnmìlà — aquele que grava no òpón as
linhas da experiência. Escrever é aqui também julgar: a inscrição é o selo do juízo.
A hermenêutica Ìtànlógica de Ìwòrì Méjì revela, portanto, que a verdade é o eixo da realidade. Sem
ela, o à dispersa-se. A mentira é entropia, a verdade é entelékia. Quando Òrúnmìlà fala de
excesso, fala da desordem das forças que perdem o centro. A mentira não é apenas dizer o falso, é
viver desalinhado com o ritmo do ser. Aquele que mente rompe a harmonia de Ọ̀run e Ayé e, por
isso, experimenta o juízo não como castigo, mas como reequilíbrio. O sofrimento é o esforço do
universo para restaurar a coerência.
Do ponto de vista da filosofia do verbo, este itan anuncia a ética da palavra como fundamento da
existência. O verbo é o primeiro corpo do ser. Quando o verbo é justo, o mundo se estabiliza;
quando é distorcido, o caos se instala. A verdade, aqui, é o alinhamento do verbo com o coração do
cosmos. Por isso, Òrúnmìlà não apenas fala, ele performa a verdade. Sua fala é ato, e o ato é
oferenda. A palavra justa é o sacrifício que mantém o mundo respirando.
A leitura Ìtànlógica também nos mostra que a verdade não é estática. Ela é movimento contínuo
entre revelação e ocultamento. Ìwòrì não fixa a verdade; ele a faz circular. Cada instante da
existência é uma ocasião de juízo, uma reavaliação constante da própria coerência. O juízo de Ifá é
o juízo da vida sobre si mesma. E a consciência é o altar onde esse juízo acontece.
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Por fim, este itan nos ensina que a verdade não é uma conquista racional, mas uma prática
espiritual. Ser verdadeiro é estar presente. É agir em sintonia com o próprio òrí, sem tentar escapar
do espelho que a vida oferece. Quando Òrúnmìlà diz que “a verdade é o caminho do juízo”, ele está
descrevendo o itinerário da consciência em direção à totalidade. O juízo é a iluminação que advém
da fidelidade ao real. Aquele que vive em verdade já está salvo, porque o juízo é nele mesmo.
Assim, Ìwòrì Méjì se ergue como o Odù da lucidez e do reflexo. Ele lembra que toda sabedoria
começa com a coragem de ver. A verdade é o primeiro ebo de quem deseja renascer. E aquele que a
oferece não mais teme o juízo, porque se torna ele próprio o juízo do mundo.
Àfọ̀mọ̀gbè Òdàrà
ni wọ́n ṣe Ifá fún Òrúnmìlà
ní ọjọ́ tí ọkàn rẹ̀ ń rú bí omi nígbà ìrìnàjò òrùn.
Ó ní ó fẹ́ mọ ohun tó ń yí ayé ká,
ó ní ó fẹ́ mọ ohun tí ń fa ìró nínú ọkàn ènìyàn.
Wọ́n ní kó rúbọ sí ọkàn ara rẹ̀,
kí ó fi ìrìnàjò rẹ̀ bo inú rẹ̀.
Ó rúbọ.
Nígbà tó lọ, ó pàdé Ẹ̀ mí ní ọ̀nà,
Ẹ̀ mí béèrè pé:
“Èé ṣe t’ó ń gbọ́ ìró tó pọ̀ báyìí, Òrúnmìlà?”
Ó dáhùn pé: “Ayé ń pariwo.”
Ẹ̀ mí rẹ̀rìn-ín, ó ní:
“Bí ọkàn bá mọ̀ òtítọ́, ìró ayé kì í bà á jẹ.
Ayé kì í ní ìrìnàjò, ọkàn ni ń rin;
ayé kì í ní ìró, ọkàn ni ń gbọ́.”
Òrúnmìlà nígbà náà mọ̀ pé ìró gbogbo wa láti inú ara.
Ó ní: “Ẹ jẹ́ ká mú ọkàn wa di òtítọ́,
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kí ìró ayé má bà wa jẹ mọ́.”
Tradução:
Àfọ̀mọ̀gbè Òdàrà
Foi o nome do Bàbáláwo que fez Ifá para Òrúnmìlà
no dia em que seu coração se agitava como a água em jornada celeste.
Ele queria conhecer o que circunda o mundo,
queria entender o que causa o ruído no coração dos homens.
Disseram-lhe que fizesse oferenda ao seu próprio coração,
e que cobrisse sua viagem com o manto do recolhimento.
Òrúnmìlà realizou o sacrifício.
Enquanto caminhava, encontrou-se com Ẹ̀ mí, o Sopro Vital, no caminho.
E Ẹ̀ mí perguntou:
“Por que ouves tanto ruído, Òrúnmìlà?”
E Òrúnmìlà respondeu: “Porque o mundo grita.”
Então Ẹ̀ mí sorriu e disse:
“Quando o coração conhece a verdade, o ruído do mundo não o corrompe.
O mundo não viaja — é o coração que viaja;
o mundo não faz ruído — é o coração que ouve.”
Naquele instante, Òrúnmìlà compreendeu
que todo ruído vem de dentro.
E declarou:
“Que purifiquemos nosso coração na verdade,
para que o ruído do mundo não mais nos perturbe.”
O ruído do mundo é o eco da desordem interior. Esta é a primeira lição de Ìwòrì Méjì quando
Òrúnmìlà se depara com Ẹ̀ mí no caminho e descobre que o clamor do mundo é, na verdade, a
inquietação do coração humano. A verdade, neste itan, não é um conceito externo, mas uma
vibração que harmoniza o som interior com o ritmo do cosmos. O coração, quando em desalinho,
transforma o silêncio da criação em ruído. E o ruído, em Ifá, é a metáfora do esquecimento. É o som
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dissonante produzido quando o ser humano se desconecta do seu òrí, do seu centro. O coração é o
tambor que ressoa o estado do ser; se está desajustado, o mundo inteiro parece tremer.
A oferenda que Òrúnmìlà faz “ao seu próprio coração” é um dos gestos mais profundos da tradição
de Ifá. Sacrificar ao coração significa reconhecer que o sagrado não está fora, mas dentro. Que a
reconciliação com o universo começa com o silêncio interior. Òrúnmìlà, mestre da escuta, sabia que
oà não flui em meio ao ruído; o à habita o intervalo entre o som e o silêncio, o espaço em que o
coração repousa em verdade. O ebó que Òrúnmìlà realiza é, portanto, uma prática de reintegração
do som primordial. Ele cobre sua viagem “com o manto do recolhimento” porque a travessia
espiritual é sempre interior. Todo caminho em direção ao alto começa na descida ao próprio peito.
O diálogo entre Òrúnmìlà e Ẹ̀ mí revela a estrutura dupla da consciência. Ẹ̀ mí, o sopro vital, é a
presença divina em cada ser; é o intermediário entre Olódùmarè e a criatura. Quando ele pergunta
“por que ouves tanto ruído?”, ele não questiona o mundo, mas a escuta de Òrúnmìlà. O mundo é
neutro, mas a escuta humana o colore. Òrúnmìlà responde: “porque o mundo grita”, e Ẹ̀ mí o
corrige: “o mundo não grita, o coração é que ouve.” Nessa inversão está a chave da filosofia de
Ìwòrì: o real não é o que se apresenta, é o que se percebe. O ruído é projeção, o som é espelho.
Assim, Ifá nos ensina que a serenidade é o mais alto grau de percepção, e que o conhecimento
verdadeiro só nasce do silêncio interior.
A verdade, diz o itan, não é uma acumulação de certezas, mas o repouso do coração na coerência do
ser. Òrúnmìlà aprende que o ruído do mundo não o perturba quando seu coração está firmado na
verdade. A verdade é, pois, um estado de harmonia entre o interno e o externo, entre o som e o
sentido. O homem perturbado pelo ruído é aquele que perdeu o eixo da escuta; ele não distingue o
que vem de fora do que vem de dentro. Ìwòrì ensina que a primeira disciplina do sábio é distinguir o
som do eco. O som vem de Olódùmarè, o eco vem das inquietações humanas. Saber discernir entre
ambos é o princípio da sabedoria.
No plano metafísico, este itan descreve a relação entre Ẹ̀ mí e Òkàn, entre o sopro e o coração. O
sopro é o movimento do ser; o coração é o recipiente desse movimento. Quando o recipiente está
turvo, o sopro se converte em ruído. A pureza do coração é a condição para que o sopro se
manifeste em harmonia. Essa é a ontologia do equilíbrio em Ifá: o mundo não é o que se vê, é o que
se sente. A matéria é a dança do som; o universo é vibração. E o homem, sendo vibração consciente,
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é responsável por afinar o instrumento que carrega. Òrúnmìlà, ao oferecer ao próprio coração, afina-
se com o cosmos. O silêncio que ele encontra é o retorno do som à sua origem.
O coração, em Ifá, é mais do que um órgão simbólico; é o trono de Òrìṣà dentro do corpo humano.
É o ponto onde o à se concentra, o lugar onde Òrúnmìlà fala conosco sem palavras. Purificar o
coração é restaurar o altar interno. Por isso, Òrúnmìlà declara ao final: “purifiquemos nosso coração
na verdade, para que o ruído do mundo não mais nos perturbe.” Essa purificação não é moral, é
vibracional. Ela não exige culpa, exige sintonia. O pecado, em Ifá, não é transgressão, é
dissonância. E a verdade é a nota que reconduz o ser ao seu tom original.
Na dimensão ética, o itan propõe uma pedagogia da escuta. Ser ético é saber ouvir. O homem ético
não reage ao ruído, ele responde ao sentido. Reagir é agir a partir da confusão; responder é agir a
partir da presença. Òrúnmìlà aprende com Ẹ̀ mí que o coração humano é uma câmara de
ressonância. Quando cheia de mentira, ela distorce; quando cheia de verdade, ela amplifica o
divino. O sábio, então, não é o que fala muito, mas o que escuta bem. A escuta é o primeiro gesto da
justiça, porque ela reconhece o outro em sua diferença. O ruído é a destruição da alteridade, o
colapso da escuta. Ìwòrì, como Odù do reflexo, restaura o espaço da reciprocidade.
Há, neste itan, uma dimensão antropológica de grande profundidade. Òrúnmìlà, ao procurar
compreender o “ruído do mundo”, está investigando a própria condição humana: a tensão entre
interioridade e exterioridade, entre o desejo de saber e a impossibilidade de dominar o saber. A
humanidade é a consciência que se escuta, mas que também se confunde com o que escuta. O
itinerário de Òrúnmìlà é o itinerário de todos os homens: a busca pela serenidade que não depende
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do silêncio externo, mas do alinhamento interno. Esse é o sentido de “bá mọ̀ òtítọ́”: conhecer a
verdade é tornar-se imóvel diante da desordem, é ser centro em meio à rotação.
O itan encerra-se com uma convocação: “purifiquemos nosso coração na verdade.” Essa purificação
é o processo de ìwà-pẹ̀lẹ́, o caráter sereno. A verdade, aqui, não é doutrina, mas prática do
equilíbrio. Viver em verdade é viver com o coração quieto. O coração quieto é aquele que não teme
o silêncio, porque reconhece nele a voz de Òrúnmìlà. O sábio não foge do mundo, mas também não
se confunde com ele. Ele vive no mundo sem ser do ruído. Ele transforma o som em ritmo, o caos
em música. Essa é a arte Ìtànlógica: transformar o ruído da existência em harmonia ontológica.
Assim, Ìwòrì Méjì nos ensina que a verdade não se impõe, ela se escuta. A serenidade é a mais alta
forma de sabedoria. O coração que conhece a verdade torna-se espelho de Olódùmarè, porque
reflete o mundo sem se perturbar. Esse é o estado do Bàbáláwo verdadeiro: aquele que, mesmo
ouvindo o clamor de todos, mantém dentro de si o silêncio onde mora o sopro.
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Ìtàn 3 - Ìwòrì Méjì
Ọ̀rọ̀ tí a bá sọ láti inú òtítọ́ ni ń dàgbà l’Àiyé (A palavra que nasce da verdade é a única que floresce
sobre a Terra)
Òtítọ́-Ìdájó ̣
ni wọ́n ṣe Ifá fún Òrúnmìlà
ní ọjọ́ tí ó ń kọ́ àwọn ènìyàn láti sọ ọ̀rọ̀ tó dà bí òtítọ́.
Wọ́n ní kó rúbọ,
kí ọ̀rọ̀ rẹ̀ má bà a jẹ́ ní Àiyé.
Ó rúbọ.
Ní ọjọ́ kejì, Òrúnmìlà bẹ̀rẹ̀ sí í kọ́ wọn pé:
“Ọ̀rọ̀ tí a bá sọ láti inú òtítọ́ ni ń dàgbà l’Àiyé,
ọ̀rọ̀ tí a bá sọ láti inú èké ni ń kú ṣáájú àfojúdi.
Ọ̀rọ̀ tó jẹ́ òtítọ́ ni ń kọ́ ilé,
ọ̀rọ̀ tó jẹ́ èké ni ń bà á rú.”
Àwọn ènìyàn rẹ̀ bẹ̀rẹ̀ sí í fi òtítọ́ ṣe ọ̀rọ̀.
Àiyé dàgbà, àlàáfíà pọ̀.
Òrúnmìlà ní:
“Ọ̀rọ̀ ni ewé ìròkò;
bí a bá gbìn òtítọ́, ọ̀run á rọ, Àiyé á rúmọ̀;
bí a bá gbìn èké, ilẹ̀ á gbẹ, ọ̀run á dì.”
Tradução:
Òtítọ́-Ìdájó ̣
foi o nome do Bàbáláwo que lançou Ifá para Òrúnmìlà
no dia em que ele ensinava os homens a falar palavras que parecessem verdadeiras.
Disseram-lhe que fizesse oferenda,
para que suas palavras não se perdessem na Terra.
Òrúnmìlà fez o sacrifício.
No dia seguinte, começou a instruí-los, dizendo:
“A palavra que nasce da verdade é a única que floresce sobre a Terra;
a palavra que nasce da mentira morre antes de ser ouvida.
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É a palavra verdadeira que edifica a casa,
e a palavra falsa que a destrói.”
Os homens começaram, então, a falar com verdade.
A Terra prosperou, a paz cresceu.
E Òrúnmìlà disse:
“A palavra é a folha do ìròkò;
quando se planta a verdade, o céu chove e a Terra reverdece;
quando se planta a mentira, o chão seca e o céu se fecha.”
A palavra é o corpo visível do invisível. É a primeira forma do ser, a vibração que se torna matéria,
o sopro que adquire carne. Ìwòrì Méjì revela que a palavra não é simples veículo da verdade, mas
sua morada. Dizer é criar. Todo som proferido é uma oferenda ao tecido do mundo. Quando
Òrúnmìlà ensina que apenas a palavra que nasce da verdade floresce sobre a Terra, ele não propõe
uma ética do discurso, mas uma cosmologia da linguagem. Pois em Ifá, a fala não é instrumento, é
substância. A palavra verdadeira carrega à , força vital, enquanto a palavra falsa se esvazia de
potência e morre. Por isso, o texto afirma que “a palavra que nasce da mentira morre antes de ser
ouvida.” O falso não ressoa, ele se desintegra, porque não encontra eco no coração de Ọ̀run.
Quando o itan diz que “a palavra verdadeira edifica a casa e a falsa a destrói”, ele expressa um
princípio estrutural do cosmos: o verbo é arquitetura. Toda casa, toda instituição, toda relação, toda
forma de vida nasce do modo como se fala. A fala é tijolo espiritual; cada palavra é uma argamassa
entre mundos. Por isso, Ìwòrì é o Odù da retidão do verbo. Ele ensina que a palavra justa sustenta a
existência porque reflete a estrutura do ser. O falso, ao contrário, desorganiza, dissolve, apodrece.
Assim, a mentira não é apenas erro moral; é uma falha na geometria do real.
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A imagem do ìròkò, árvore imensa e sagrada, aprofunda essa concepção. Òrúnmìlà diz: “a palavra é
a folha do ìròkò; quando se planta a verdade, o céu chove e a Terra reverdece.” O ìròkò, que liga
Ọ̀run e Àiyé, é o símbolo da verticalidade da existência, o eixo que une o invisível e o visível. As
folhas do ìròkò são como as palavras: elas respiram entre o alto e o baixo, filtram o sopro do divino
e devolvem oxigênio ao mundo. A palavra verdadeira é, portanto, fotossíntese espiritual. Ela
transforma a luz da consciência em alimento vital para a Terra. A mentira, sendo estéril, seca as
raízes da realidade; por isso, Òrúnmìlà diz que quando se planta a mentira, “o chão seca e o céu se
fecha.” O falso bloqueia o trânsito do à , fecha o circuito da reciprocidade entre o homem e o
cosmos.
Este itan é também uma pedagogia da criação. Òrúnmìlà ensina os homens a falar a partir da
verdade, e o resultado é que “Àiyé prosperou, e a paz cresceu.” O crescimento de Àiyé é a metáfora
da harmonia universal. Quando o homem fala a partir da verdade, ele reordena as forças. A fala
verdadeira é a ponte que reata Ọ̀run e Àiyé. A mentira, ao contrário, é ruptura, é queda, é
esquecimento. Ìwòrì mostra que o verbo humano tem poder de manutenção do cosmos. Isso implica
que cada ser é responsável pela vibração que emite. A palavra impura é uma descarga de ruído no
corpo da criação; a palavra pura é uma oferenda que fertiliza a Terra.
No plano antropológico, o itan descreve o modo pelo qual as sociedades se constroem e se destroem
pela palavra. Uma comunidade que fala com verdade floresce, porque o seu tecido simbólico é
sólido. A confiança é o reflexo social do à . Onde há mentira, há colapso: a casa cai, como no itan
anterior de Ògbè, porque a palavra é o telhado do mundo. A mentira é o buraco no teto por onde
entra o vento da desordem. Ìwòrì ensina, assim, que a ética da palavra é a base da coletividade. O
político, o religioso, o intelectual que fala sem verdade enfraquece o à do povo; o que fala com
verdade o multiplica.
Mas há uma dimensão mais sutil neste itan: a origem da palavra verdadeira não é a mente, é o
coração. Òrúnmìlà ensina “os homens a falar palavras que parecessem verdadeiras”, e essa é a
armadilha do saber superficial: confundir a aparência da verdade com a vibração da verdade. A
palavra verdadeira não se fabrica, ela brota. É fruto do alinhamento entre òrì, òkàn e ẹ̀mí — destino,
coração e sopro. Quando esses três se harmonizam, o som proferido é luminoso. Quando estão em
dissonância, o som se torna sombra. O homem pode repetir palavras sábias, mas se o seu coração
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estiver dividido, sua fala será ruído. Ìwòrì denuncia essa duplicidade. Ele é o espelho que
desmascara o verbo que não tem raiz.
Em Ifá, dizer a verdade é ato de poder. Òrúnmìlà não distingue o falar do agir. O verbo cria
realidades. Por isso, o itan afirma que “a palavra verdadeira edifica a casa.” A palavra, quando
alinhada ao à , não descreve o mundo, ela o constrói. Essa é a metafísica da performatividade
yorubá: a palavra não é representação, é ação. Toda fala é ẹbọ, sacrifício de som. A mentira, por sua
vez, é ẹbọ rejeitado. Ela retorna ao falante como desordem, pois o universo devolve ao homem o
som que ele emitiu. Cada palavra pronunciada é um espelho acústico. O eco que volta é o juízo de
Ìwòrì.
A hermenêutica Ìtànlógica permite também compreender que o itan é uma alegoria da iniciação.
Òrúnmìlà, antes de ensinar, oferece. Ele reconhece que o verbo deve nascer da experiência e não da
pretensão. Aquele que fala sem ter oferecido ao silêncio está profanando o mistério. Por isso, o
silêncio é o primeiro mestre do verbo. A palavra verdadeira é aquela que passou pela noite da
escuta. Ìwòrì, sendo o Odù do reflexo, ensina que o conhecimento se torna sabedoria apenas quando
ecoa dentro do silêncio. Toda fala que nasce de ruído é estéril; toda fala que nasce de silêncio é
fértil.
Quando o itan diz que “a palavra é a folha do ìròkò”, também afirma que o verbo verdadeiro é
sempre renovável. Assim como o ìròkò renova suas folhas sem perder sua raiz, a verdade renova
suas expressões sem perder seu princípio. O sábio não repete fórmulas, ele renova o som da
verdade. O tolo repete sem compreender, e por isso seca. A sabedoria é árvore viva: cresce para o
alto, mas mantém as raízes no chão. O falso é parasita: depende do tronco alheio e morre quando
perde o hospedeiro.
A ontologia do verbo que este itan apresenta é profundamente relacional. A palavra não existe
sozinha; ela é sempre um entre. Entre boca e ouvido, entre Ọ̀run e Àiyé, entre som e silêncio. A
verdade se manifesta nesse intervalo. O homem moderno, ao absolutizar o dizer, esqueceu o ouvir.
Por isso, vive num mundo saturado de palavras e faminto de sentido. Ìwòrì lembra que a verdade
não se impõe pela força, mas pela ressonância. O que é verdadeiro encontra naturalmente seu
caminho até o coração do outro, porque vibra na mesma frequência do à universal.
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No campo teogônico, este itan revela que Olódùmarè é o primeiro falante e o primeiro ouvinte. O
verbo divino é circular. O que Ele pronuncia, Ele próprio escuta, e o que escuta, volta a pronunciar.
Essa é a respiração da criação: o eterno diálogo entre som e eco, entre emissão e recepção. O
homem, sendo feito à imagem sonora de Olódùmarè, participa desse circuito. A palavra humana é
um microcosmo da palavra divina. Quando o homem fala a verdade, ele restabelece a circularidade
original; quando mente, ele quebra o circuito. O cosmos inteiro vibra para restaurar o equilíbrio
quebrado. Por isso, o falso se autodestrói — ele é uma dissonância que o universo corrige.
Do ponto de vista espiritual, a palavra verdadeira é também medicina. No culto de Ifá, cada oração,
cada cântico, cada ìtàn tem poder curativo porque carrega o à do som ordenado. As palavras
curam porque restauram a forma. O som certo recoloca o ser no seu lugar. A mentira, ao contrário,
adoece: ela distorce o corpo vibracional e envenena a alma. A doença, em muitos casos, é o retorno
do verbo deformado. O corpo dói quando o verbo se desalinhar. Por isso, falar com verdade é viver
em saúde.
E assim, a lição final de Ìwòrì Méjì neste itan é que a palavra é o primeiro e o último ato do homem.
Nascemos de um som e morremos num silêncio, mas é o som que emitimos entre esses dois polos
que define a qualidade do nosso retorno a Ọ̀run. A verdade é a ponte que permite atravessar esse
ciclo sem se perder. Quem fala com verdade permanece, porque sua voz se torna parte do canto
eterno de Òrúnmìlà. Quem mente desaparece, porque o universo apaga o som que não contém à .
A palavra, portanto, é o espelho da eternidade: o que floresce sobre Àiyé é apenas o reflexo do que
já vive em Ọ̀run.
Tradução:
O coração, na tradição de Ifá, não é um órgão do sentir, mas o centro da consciência, o ponto de
intersecção entre o espírito e a matéria, o lugar onde Ọ̀run e Àiyé se encontram para gerar o ser
humano. Òrúnmìlà, ao dizer que “o coração do homem é a morada do seu poder”, revela o segredo
da autonomia ontológica: o homem é portador do mesmo princípio criador que o fez existir. O
coração é o altar interno onde habita o Àṣẹ pessoal, a centelha de Olódùmarè encarnada. Quando o
homem ignora o seu coração, perde o contato com o seu próprio poder; quando o aprisiona em
medo, orgulho ou inércia, interrompe o fluxo vital que o liga à fonte do cosmos. Por isso, Òrúnmìlà
ensina que “aquele que aprisiona o coração, aprisiona todo o seu poder.” O aprisionamento é a
alienação da presença.
Ìwòrì Méjì, sendo o Odù da introspecção, do espelho e da revelação interior, é a consciência que se
volta sobre si mesma para descobrir o centro luminoso de onde emana o ser. Ele ensina que todo
poder é interior. Não há força fora que não nasça primeiro dentro. O cosmos é a expansão do
coração de Olódùmarè; o homem, reflexo desse coração, é microcosmo. Assim, cada ser é uma
réplica em miniatura do movimento divino. Aquele que compreende isso não busca fora o que só
pode ser encontrado dentro. Por isso Òrúnmìlà adverte: “não procurem o poder fora de vocês, pois o
poder habita dentro.” Esse ensinamento dissolve a dependência e funda a liberdade espiritual.
O sacrifício que Òrúnmìlà realiza para que seus discípulos “não se esqueçam do caminho do sentir”
é, na verdade, o rito de consagração da interioridade. O sentir é a via pela qual o saber se encarna.
Na epistemologia de Ifá, conhecer é sentir o ritmo do Àṣẹ dentro do próprio corpo. O saber que não
vibra no coração é vazio. Por isso Òrúnmìlà não apenas ensina, ele afina o coração dos seus
ouvintes para que a palavra se torne experiência. O verdadeiro aprendizado em Ifá não é
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transmissão de conceitos, é despertar de ressonâncias. O coração é o tambor do espírito; aprender é
fazê-lo vibrar na frequência do Ọ̀run.
Quando os discípulos perguntam por que seu poder não é como o de Òrúnmìlà, cometem o erro de
todo iniciado impaciente: buscam imitar a manifestação sem compreender a raiz. Querem
reproduzir o gesto exterior do mestre, mas ignoram o silêncio interior que o sustenta. O poder não
se imita, se encarna. Òrúnmìlà responde-lhes com ironia compassiva: “buscais o sol no céu,
enquanto o sol arde dentro de vós.” O sol, símbolo de consciência, é o mesmo que ilumina Ọ̀run e
Àiyé. Cada ser carrega esse sol interno — a luz do seu Òrì. Mas a maioria dos homens vive olhando
para fora, buscando em deuses e mestres o que deveria buscar em si. O sábio, ao contrário, recolhe-
se e descobre que a fonte está dentro.
A palavra, diz Òrúnmìlà, “canta em vós.” Essa frase sintetiza toda a ontologia da fala em Ifá: o
verbo humano é eco do verbo divino. O canto interior é o som do Àṣẹ vibrando no coração. Aquele
que o escuta torna-se criador. Por isso, “quem conhece o coração conhece o poder.” Conhecer o
coração não é compreendê-lo racionalmente, é ouvi-lo, é silenciar até que sua melodia se torne
audível. O coração fala uma língua anterior à linguagem, uma sintaxe de pulsos e ressonâncias. Essa
escuta é o fundamento da divinação: o Bàbáláwo não lê o destino, ele o escuta. O Ifá não é um
oráculo de palavras, é uma acústica do invisível.
O itan nos ensina, portanto, que o poder é uma questão de alinhamento vibracional. O coração é o
mediador do Àṣẹ. Quando o coração está disperso, o Àṣẹ não flui; quando está centrado, o Àṣẹ se
concentra. A verdadeira força não está em fazer, mas em estar presente. A presença é o estado
natural do coração desperto. É por isso que Òrúnmìlà sorri diante das dúvidas dos seus discípulos:
ele sabe que o poder não pode ser dado, apenas despertado. E esse despertar ocorre quando o
homem se lembra de si, quando retorna ao centro do seu coração, quando reconhece o Àṣẹ que o
habita.
A hermenêutica Ìtànlógica deste itan revela também um princípio antropológico profundo: o homem
é, antes de tudo, um ser de interioridade. O coração é a primeira morada da consciência, anterior a
toda construção cultural. A civilização começa quando o homem esquece essa morada. O retorno ao
coração é o retorno ao estado primordial do ser, onde não há separação entre sentir, pensar e agir.
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Em Ifá, essa unidade é expressa pela tríade òkàn–èmí–ọ̀rì: o coração, o sopro e o destino. Quando
os três vibram juntos, o homem é divino; quando se desalinham, ele se perde na exterioridade.
A interioridade, porém, não é isolamento. O coração não é uma caverna fechada, é uma
encruzilhada. O coração humano comunica Ọ̀run e Àiyé, interior e exterior, individual e coletivo. O
poder que nele habita não é pessoal, mas participativo. É a energia de Olódùmarè fluindo através da
forma. Por isso Òrúnmìlà ensina que “quem conhece o coração conhece o céu e a terra.” O
conhecimento do coração é conhecimento do todo, porque o coração é o todo em miniatura. Aquele
que penetra o seu interior toca o ritmo do universo. O sábio não domina a natureza, harmoniza-se
com ela.
Do ponto de vista teogônico, Òrúnmìlà neste itan atua como reflexo direto de Olódùmarè: ele
transmite o mistério da imanência divina. Olódùmarè não habita um céu distante, habita o coração
de cada ser. O culto exterior é apenas imagem do culto interior. A oferenda feita fora só tem eficácia
quando corresponde à oferenda feita dentro. Òrúnmìlà realiza o sacrifício não para obter algo, mas
para recordar o vínculo entre interior e exterior. O verdadeiro sacrifício é o abandono das ilusões
que nos afastam de nós mesmos. Assim, “o coração é a morada do poder” significa também que o
templo mais sagrado é o corpo habitado pela consciência desperta.
No plano ético, este itan ensina a autossuficiência espiritual, não como arrogância, mas como
responsabilidade. O homem que reconhece seu poder interior não o usa para dominar, mas para
servir, porque sabe que o poder não lhe pertence, flui através dele. A humildade é o modo natural do
coração desperto. Por isso Òrúnmìlà sorri, não repreende. Ele vê nos discípulos o reflexo de sua
própria jornada: também ele, um dia, buscou fora o que estava dentro. O mestre apenas devolve o
olhar para o centro.
No plano metafísico, a afirmação de que o coração é a morada do poder equivale a dizer que a
consciência é o campo do ser. O universo é consciência manifestada. Cada forma é uma coagulação
de atenção divina. O homem participa desse ato criador através da consciência que vibra em seu
peito. O coração, portanto, é o órgão do ser, o ponto onde o invisível se torna palpável. O coração é
o portal da realidade. Entrar nele é reencontrar Ọ̀run dentro de Àiyé.
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Por fim, o itan nos conduz à síntese: todo o caminho de Ifá é o caminho do retorno ao coração.
Conhecer Ifá é conhecer a si mesmo. A sabedoria não está nos versos, mas na vibração silenciosa
que os anima. O coração é o verdadeiro odù do homem, o recipiente onde se inscreve o seu destino.
Quem aprende a ler o próprio coração torna-se um Bàbáláwo de si. E como diz Òrúnmìlà, “quem
conhece seu coração, conhece seu poder.”
Ìwòrì Méjì é o reflexo da consciência que se curva sobre si para compreender o fundamento de toda
manifestação. É o espelho do espírito, o Odù da reflexão que revela o interior do ser como campo
da revelação divina. No ciclo de Ifá, ele é o ponto onde a luz que brota de Ògbè atravessa a sombra
de Òyèkù e aprende a ver-se. Ìwòrì é a consciência do reflexo, a sabedoria que reconhece que tudo o
que aparece no mundo é a imagem de um invisível em movimento. Ele não cria, mas reflete o
mistério da criação. É o olhar que se vê a si mesmo, o silêncio que escuta o eco de Ọ̀run dentro do
coração do homem.
Os quatro Ìtàn que formam este Odù revelam, cada um, um aspecto desse espelho ontológico. O
primeiro ensinou que “a verdade é o caminho do juízo”, mostrando que o ser só se sustenta quando
se ancora no real. O segundo afirmou que “quando o coração conhece a verdade, o ruído do mundo
não o corrompe”, recordando que a sabedoria não é defesa contra o mundo, mas serenidade diante
dele. O terceiro revelou que “a palavra que nasce da verdade floresce sobre a Terra”, instituindo o
verbo como matriz do cosmos e medicina da existência. E o quarto, por fim, coroou o ciclo dizendo
que “o coração do homem é a morada do seu poder”, reunindo em si os três anteriores, pois a
verdade, o verbo e o poder habitam o mesmo centro: o coração.
Ìwòrì Méjì é, portanto, o Odù da interioridade iluminada. Nele, o conhecimento não é um ato da
mente, mas um movimento do ser. Conhecer é ver-se. E ver-se é reencontrar Ọ̀run dentro de Àiyé.
O reflexo é a forma como o invisível se dá a conhecer ao visível. Por isso, Ìwòrì ensina que a
verdade não é algo que se descobre fora, mas o espelho que se limpa dentro. A mentira é apenas a
poeira que impede o reflexo. O ato de conhecer, em Ifá, é o ato de limpar o espelho, e esse espelho é
o coração.
Em Ìwòrì, a ética e a ontologia se confundem, pois ser e agir derivam do mesmo princípio. Viver
com verdade é existir conforme o ritmo do Àṣẹ. O falso, o mentiroso, o descentrado são aqueles que
perderam o compasso com o batimento do cosmos. O sábio é aquele que sincroniza o seu coração
ao pulsar do universo. Ìwòrì é o Odù do batimento do coração cósmico, o som que marca o tempo
entre Ọ̀run e Àiyé. O silêncio que o antecede é o intervalo da criação.
Em termos antropológicos, Ìwòrì revela o ser humano como o mediador entre mundos. O homem é
espelho, e o espelho não possui luz própria, mas sem ele a luz não se manifesta. O humano é o lugar
onde o divino se vê. Essa é a dignidade e o fardo do homem: ser o rosto do invisível. Em cada ato,
palavra e silêncio, ele reflete ou distorce a imagem do que o habita. Por isso, o coração é o critério
do juízo. Não há tribunal mais severo do que o próprio reflexo. O homem que mente a si mesmo
cria a sua própria prisão; aquele que se vê com verdade liberta-se.
No campo teogônico, Ìwòrì é o olho de Olódùmarè. Se Ògbè é a boca e Òyèkù o ouvido, Ìwòrì é o
olho divino que contempla o que foi dito e escutado. Ele é o testemunho interno da criação, a
consciência de Olódùmarè refletida em cada ser. Essa visão divina é o que o homem chama de
consciência moral, mas que, em Ifá, é mais profundo: é o reflexo do próprio Deus dentro do
homem. Por isso, o coração é templo e tribunal, altar e espelho.
Ìwòrì Méjì ensina que o poder não está em dominar, mas em refletir. O poder verdadeiro é o poder
do espelho: transformar sem possuir, iluminar sem reter, mostrar sem alterar. Aquele que reflete a
verdade é invencível, porque nada há nele que possa ser destruído. O espelho não guarda o que
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mostra, mas nada pode ser mostrado sem ele. Assim é o homem sábio diante de Ọ̀run: ele não retém
o Àṣẹ, apenas o reflete com pureza.
Finalmente, Ìwòrì Méjì é a síntese do aprendizado espiritual: toda busca é retorno. O discípulo que
procura o poder fora reencontra-o dentro; o que busca a verdade fora descobre-a no silêncio do
coração; o que busca o verbo fora ouve-o vibrar no próprio peito. A caminhada espiritual é a
travessia do exterior para o interior, do ruído para o silêncio, do espelho embaçado para o reflexo
claro. A iluminação não é aquisição, é lembrança. Ìwòrì é o momento em que o homem lembra que
é reflexo de Deus e, nesse reconhecimento, torna-se luz.
Assim, este Odù é o templo da consciência e a escola do autoconhecimento. Seu ensinamento pode
ser condensado numa única sentença: “Conhece teu coração e conhecerás o universo.” Esse é o
axioma Ìtànlógico de Ìwòrì Méjì — a chave que abre o ciclo dos espelhos, onde o homem deixa de
buscar respostas e começa a ver-se como a própria resposta. Ìwòrì é a aurora da sabedoria interior:
quando o olhar se volta para dentro, o mundo inteiro se ilumina.
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2. Ìwòrì Ògbè
Tradução:
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e que trouxesse claridade ao coração para dentro de casa.
Ajàní fez o sacrifício; ofereceu a verdade e ofereceu a paciência.
No dia seguinte, encontrou-se com Ẹlẹ́gbára no caminho;
Ẹlẹ́gbára perguntou: “O que é que voa sobre tua casa?”
Ajàní respondeu: “É a palavra não dita que voa;
é a chuva que não chamamos que se senta sobre o telhado.”
Ẹlẹ́gbára sorriu e disse: “Ìwòrì Ògbè afirma:
quando a claridade entra no coração, Ògbè acende a luz sobre a casa.
Dize o que ficou retido, para que tua casa respire.”
Ajàní voltou para casa, reuniu a família,
disse o que ocultara acerca da herança,
e reconduziu a palavra à verdade.
Então Ògbè derramou a luz:
o céu choveu, a Terra reverdeceu, e a casa alegrou-se.
Disseram: “Teu sacrifício foi aceito; foi a claridade do coração que libertou a casa da aflição.”
Ìwòrì Ògbè é o encontro da introspecção que vê por dentro com a irradiação que devolve a forma ao
mundo; é a dobra reflexiva da consciência que, ao clarificar o coração, convoca a luz a manifestar-
se sobre a casa, de modo que o que estava retido, como nuvem pesada sobre o telhado do destino, se
converta em chuva fecundante capaz de reconciliar Ọ̀run e Àiyé na esfera do vivido. Ajàní, o
escrivão, figura não por acaso: aquele que inscreve para a cidade, que registra, que dá forma ao
comum, traz para dentro de si um resto não inscrito, uma palavra que não passou ao ato, uma
verdade não dita que, ao permanecer trancada na câmara do peito, fermenta e se torna vento adverso
sobre a casa. A aflição que enche a morada não é mero azar: é a reverberação ontológica de um
verbo detido, a pressão do à represado que, não encontrando o canal ritual da enunciação, infiltra-
se como desordem silenciosa na tessitura do cotidiano. Por isso o oráculo prescreve um ebó tão
singular: “oferece à palavra que sobra em teu coração” — isto é, consagra o que resta, o que não foi
dito, o excedente recalcado que, por não encontrar voz, tornou-se peso, sombra, umidade estagnada
no forro da vida.
A oferenda à “palavra sobrante” é uma pedagogia do limiar. Em Ifá, o que sobra não é lixo, é
potência deslocada; e potência deslocada é à descontínuo, vibração sem rito, impulso sem
harmonia. Sacrificar ao que sobra é devolver-lhe lugar, é reintegrar o excedente na economia
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sagrada da circulação. Ajàní oferece duas matérias de alto teor ontológico: a verdade e a paciência.
A verdade é a forma do à na fala; a paciência é o tempo do à no corpo. Sem paciência a verdade
vira lâmina; sem verdade a paciência vira pus. O rito exige ambos porque Ìwòrì, sendo a
consciência que espelha, só estabiliza quando o espelho não é agredido nem turvado: a paciência
impede a agitação que distorce; a verdade impede o embaciamento que oculta. A conjunção produz
o estado de “ìmúlòlùú ọkàn”, claridade do coração, uma espécie de alvura interna que não é brilho
exibido, mas serenidade lúcida, como o fundo de uma água que, por ter assentado seu lodo, reflete o
céu sem duplicidade.
É então que surge Ẹlẹ́gbára no caminho, como convém quando a passagem de um estado a outro
requer o teste do limiar. Não se trata aqui do trickster punitivo, mas do guardião das passagens que,
sorrindo, formula a pergunta que desloca a causalidade aparente: “que coisa voa sobre tua casa?”.
Ajàní responde com sabedoria recém-adquirida: “voa a palavra não dita; senta-se no telhado a
chuva que não chamamos”. A metáfora é precisa. A palavra não dita gera vento — o não dito é
movimento errante, rumor, assobio que procura fenda para manifestar-se; e a chuva não convocada,
imagem do influxo celeste que não encontra rito, apodera-se do telhado, isto é, do limiar que separa
o dentro do fora. Em termos Ìtànlógicos, o telhado é o órgão social da casa: a membrana que respira
com o clima do mundo, filtrando excesso e escassez. Quando a verdade é retida, a casa perde sua
pele respiratória: o teto fica pesado, suado, e o lar deixa de ser altar para tornar-se depósito de
umidade anímica. O sorriso de Ẹlẹ́gbára indica que o enigma foi bem percebido: não é o céu que
oprime — é o segredo que não se ofereceu ao céu.
Daí a sentença axial: “Ìwòrì Ògbè afirma: quando a claridade entra no coração, Ògbè acende a luz
sobre a casa. Dize o que ficou retido, para que tua casa respire.” A estrutura do Odù torna-se nítida:
Ìwòrì opera por dentro, Ògbè opera por fora; Ìwòrì assenta a visão, Ògbè irradia o efeito; Ìwòrì
recolhe o à ao centro, Ògbè o distribui como luz adequada às bordas do vivido. Não se trata de
psicologismo moral, mas de teogonia da palavra: a verdade é rito que restitui o canal entre Ọ̀run e
Àiyé; quando o canal se reabre, o pluvium do alto não pesa como infiltração, mas verte como
bênção. Por isso o texto diz que o céu choveu e a Terra reverdeceu: refeito o circuito, a água não é
condenação, mas princípio de fecundidade. O que muda não é o clima — é a forma interna de
recebê-lo. A claridade do coração reorganiza a semântica do mundo.
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O gesto seguinte é o centro ético do itan: Ajàní volta, reúne a família, diz o que ocultara sobre a
herança, reconduz a palavra à verdade. O segredo não é, aqui, mistério sacro — é omissão
impeditiva, pedra no leito do rio doméstico. A herança, enquanto trama de bens e vínculos, é
também a inscrição do tempo no sangue; por isso a mentira sobre a herança é uma ruptura no
cronograma do òrì coletivo, um curto-circuito no fluxo do pertencimento. Ao confessar, Ajàní não
“perde” poder; ele reconverte o poder à sua fonte: devolve ao nome a sua dignidade e à casa o seu
respiro. Na gramática de Ifá, a confissão verdadeira não é humilhação, é ebo de veridicção: oferece-
se o orgulho para resgatar o à do vínculo. Daí a resposta do cosmos: luz, chuva boa, verdor —
sinais de que Ògbè retomou o timão da aparência para que o visível volte a dizer o invisível sem
ruído.
Nessa cena, o que se chamou “claridade do coração” convém ser interpretado em sua espessura
ontológica. Claridade não é euforia psíquica, é alinhamento vibratório do centro, estado no qual o
coração, desidentificado do medo e do cálculo, recupera a função de espelho de Ọ̀run. Quando o
coração espelha sem distorção, a palavra que dele emana participa do regime do real — não
descreve apenas, mas edifica, porque se faz portadora do à . Por isso a mentira pesa e a verdade
alivia: a mentira exige manutenção contínua do desvio; a verdade se sustenta sozinha, pois ressoa
no campo maior do que a suporta. A claridade, portanto, é economia do ser: elimina a dissipação de
energia na sustentação de máscaras e libera vigor para a obra comum.
Se considerarmos o papel de Ẹlẹ́gbára, veremos outra camada decisiva: não basta “saber” a verdade
— é preciso dizer-lhe rito. O guardião dos cruzamentos pede a palavra performada: “dize o que
ficou retido”. Nessa exigência se condensa a metafísica yorubá do verbo: a realidade é verbal; o
mundo é mantido pela fala justa que responde ao que é, com atitude e gesto ajustados; o silêncio
que não é rito vira umidade pesada; a fala que não é verdade vira vento de arrebentar telhas. O rito
cura porque traduz, isto é, reconduz o que estava sem linguagem ao regime da linguagem sagrada
em que cada coisa ocupa seu lugar justo. Dizer, aqui, não é despejar; é ofertar. A fala que liberta é a
fala que se ajoelha antes de erguer-se — fala que passou por Ìwòrì antes de chegar a Ògbè.
Na perspectiva antropológica, Ìwòrì Ògbè oferece uma teoria da casa como organismo simbólico: a
casa respira ou sufoca segundo o regime da palavra que a alimenta. Famílias adoecem não por azar,
mas por endotoxemia de segredos — fixações de energia que se enredam nos objetos, nos hábitos,
nos silêncios mal fundados. A cura não é punitiva, é restitutiva: reunir, dizer, redistribuir. O “ogún”
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(herança) não é apenas bem material; é o desenho subterrâneo do pertencimento que garante que
cada membro ocupe um lugar de dignidade e serviço. Ao corrigir o traçado, apazigua-se o campo, e
o telhado, outrora pesado, volta a cantar — metáfora da membrana social que, livre, vibra em
consonância com as estações.
No plano ético-ritual, a oferenda de paciência que precede a confissão ensina que a verdade sem
tempo é violência; e que o tempo sem verdade é omissão. Ìwòrì, faceta do ver por dentro, sabe que
há horas justas para cada dizer: não por cálculo, mas por amor ao vínculo. O dizer que salva é o que
mede o ouvido do outro, o estado do corpo coletivo, e escolhe o gesto que o laça sem romper-lhe a
pele. Daí a tríade: paciência, verdade, reunião. Paciência prepara, verdade consagra, reunião integra.
A conjunção desperta Ògbè, isto é, abre a claridade expansiva, permite que a luz que se coagulara
em pressão se distribua como bênção.
Em termos de práxis Ìtànlógica, o itan oferece um método: rastrear o “não dito” que pesa, oferecer-
lhe silêncio e tempo (paciência) para que perca o azedume da pressa, convocar o círculo (a família,
a comunidade pertinente), proferir de modo que não seja descarga, mas rito, e então observar a
modulação do campo — menos ruído, mais canto; menos infiltração, mais chuva boa. Não se trata
de moralizar a fala, mas de sacralizá-la: lembrar que o verbo é artéria do mundo e que cada desvio
anatômico produz isquemia na carne do comum. A cura é revascularização verbal: retomar as
artérias entupidas pelo segredo e devolvê-las ao fluxo do à .
Por fim, o sorriso de Ẹlẹ́gbára permanece como emblema do aprendizado: o guardião sabe que a
prova maior do iniciado não é suportar o golpe do acaso, mas suportar a leveza da verdade quando
ela pede passagem — pois a verdade, ao passar, nos despoja da ferramenta preferida do ego, que é o
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controle sobre a aparência. A claridade do coração corrói o teatro e restitui o gesto simples, sem
espetáculo e sem cálculo. É assim que Ìwòrì (ver por dentro) se une a Ògbè (manifestar por fora): o
dentro claro gera um fora luminoso, e a casa deixa de ser palco de pressões para voltar a ser altar de
respiração. Nesse retorno, o telhado não mais pesa — canta, porque já não segura água parada, mas
conversa com o céu no idioma antigo em que a chuva é bênção e a palavra é ponte.
Tradução:
Àyàn, o músico, é o símbolo perfeito dessa pedagogia, pois a música é a forma mais próxima da
vibração de Olódùmarè: som que se organiza em sentido. O músico de Ifá não é mero cantor — é
aquele que ouve a estrutura oculta do universo e a traduz em ritmo. Àyàn deseja compor uma
canção de amor “que não tenha fim”, isto é, uma forma de expressão que não se desgaste pelo
tempo, uma linguagem capaz de permanecer viva. Esse desejo é o anseio pela eternidade que habita
todo ser sensível; é a busca por um som que não morra. Contudo, Ifá lhe ensina que não há
eternidade sem verdade. O som só permanece quando ecoa o real. O canto mentiroso ressoa bonito
por um instante, mas morre na curva do silêncio. O canto verdadeiro, ainda que humilde, reverbera
no Ọ̀run, porque o universo o reconhece como parte de si.
Por isso, Òrúnmìlà o adverte: “Faz oferenda à palavra imperfeita, para que ela não te traia.” A
palavra imperfeita é a linguagem humana antes de ser purificada pela intenção sincera. Toda fala
que parte do desejo de agradar e não da disposição de revelar é imperfeita, porque sua origem é o
medo e não o amor. O medo da rejeição, da perda, da solidão faz o homem dizer o que o outro quer
ouvir; e nisso a palavra se torna instrumento da ilusão, não do encontro. A oferenda à palavra
imperfeita é o ato de humildade de quem reconhece sua limitação linguística diante do mistério do
outro. Sacrificar à palavra é purificá-la, libertá-la do orgulho da forma e devolver-lhe a função
sagrada: mediar realidades.
O diálogo entre Àyàn e Òrúnmìlà é o coração da revelação: “Pode o amor e a verdade habitar o
mesmo coração?” A pergunta, à primeira vista simples, é o dilema da condição humana. Amar, no
sentido terreno, é inclinar-se; dizer a verdade é erguer-se. A inclinação busca fusão, a verdade exige
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distância. A humanidade oscila entre esses polos, tentando conciliar transparência e vínculo.
Òrúnmìlà responde com uma sentença que é ao mesmo tempo doutrina e canção: “Até o céu, a
verdade é o caminho do amor.” Ele inverte a ordem comum: o amor não é o caminho da verdade —
é a verdade que é o caminho do amor. Porque o amor não se alcança pela emoção, mas pela
claridade. Quem se aproxima da verdade, inevitavelmente chega ao amor; mas quem busca o amor
sem verdade, encontra apenas o reflexo turvo de si mesmo.
A canção de Àyàn é o rito da integração. “Amo o que é verdadeiro, escrevi o nome da verdade na
minha canção.” Escrever o nome da verdade é selar o compromisso do artista com a realidade. O
nome é forma vibratória: nomear é dar existência. Quando Àyàn inscreve a verdade em sua música,
ele reverte o destino da arte — de instrumento de distração para instrumento de libertação. O verso
seguinte é o milagre: “Quando falo a verdade, meu amor flui como um rio.” A imagem do rio é
arquetípica: o rio liga fontes e margens, conecta montanha e mar, é movimento e entrega. O amor
que nasce da verdade é como o rio: tem direção, mas não tem pressa; flui, mas não se desvia;
molha, mas não destrói. É o amor que não retém, apenas conduz.
A multidão que ouve a canção de Àyàn é metáfora da humanidade. O povo “ouve e se ablanda” — a
verdade cantada é contagiosa, porque toca o ritmo profundo do Ọ̀run dentro de cada um. O som
verdadeiro desperta memória. “Começaram a lembrar-se de quem haviam mentido” — a recordação
é o primeiro passo da redenção. Não há expiação sem memória. A mentira é esquecimento:
esquecimento de si, do outro, do elo com o cosmos. O som da verdade restaura a lembrança, faz o
homem voltar ao eixo do tempo sagrado, no qual todo gesto tem eco. Quando o povo reencontra
quem havia enganado e se reconcilia, não é apenas reconciliação social, é restauração cosmológica.
O laço rompido entre corações é o mesmo laço rompido entre Ọ̀run e Àiyé. Quando dois seres se
perdoam, o universo inteiro se harmoniza um grau mais.
A escolha de Àyàn como protagonista também revela um princípio estético: a arte é o veículo mais
profundo da ética. A canção não é um ornamento, é um oráculo. Cada vez que a verdade se canta, o
mundo se realinha. A vibração sonora é uma oferenda ao campo invisível, que responde
reordenando o visível. No verso “meu amor flui como um rio”, o verbo “fluir” traduz a lei do Àṣẹ:
energia que se move sem se interromper. A música é o modo como o homem participa da respiração
do universo. Por isso, o cantor é figura sagrada — ele traduz o inaudível em forma audível.
No plano interior, este itan descreve o processo de cura do coração humano. O coração ferido é
aquele que ama sem verdade ou que fala a verdade sem amor. Em ambos os casos há fratura. A cura
consiste em unificar as forças opostas: a do discernimento e a da entrega. Aquele que diz a verdade
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com amor cura; aquele que ama com verdade liberta. Ambos os movimentos se encontram no centro
do coração desperto, que é o espelho onde Òrúnmìlà reflete Olódùmarè.
A lição profunda de Ìwòrì Ògbè, portanto, é que o amor não é emoção, mas estado de clareza. O
amor não é oposto à verdade, é sua expressão mais suave. E a verdade, quando madura, é amor em
repouso. O caminho de Ifá é a arte de unir essas duas vibrações sem que uma sufoque a outra. A
música de Àyàn não termina porque o som que nasce da verdade não conhece fim: é o som que
retorna eternamente a si mesmo. O amor, quando verdadeiro, é o próprio ritmo do universo.
Tradução:
Òrúnmìlà responde-lhe com um oráculo de paradoxo: “Eu falo apenas a quem sabe ouvir; aquele
que está cheio de si não pode escutar o Céu.” Aqui Ifá redefine a própria ideia de revelação. O
conhecimento não é um dom concedido, mas uma abertura conquistada. Òrúnmìlà fala sempre; o
que falta é o vazio dentro do homem para que a palavra se inscreva. O “estar cheio de si” é o maior
obstáculo do conhecimento, pois onde há ego, o som do Ọ̀run se reflete e volta, incapaz de penetrar.
O ouvido espiritual é feito de humildade.
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o divino não é um sujeito que comunica, é um campo que ressoa. O homem não escuta algo de fora,
mas desperta o som adormecido dentro de si, o som primordial que sempre falou em silêncio.
A expressão “o coração tornou-se o eco do Céu” define o estado do iniciado em Ifá: aquele cujo
interior vibra na mesma frequência de Olódùmarè. O eco é a memória da voz — é o som que
retorna transformado. O coração puro é o espelho acústico do invisível. Assim, o verdadeiro ouvir é
uma forma de recordar. Escutar é lembrar o que o ser já sabe, mas esqueceu no barulho da carne.
Quando Òrúnmìlà acrescenta: “Aquele que purifica o eco do próprio coração ouvirá o que não tem
voz”, ele descreve o estágio mais sutil do processo iniciático. Purificar o eco é depurar as emoções,
as opiniões, os desejos que distorcem o som original. Enquanto o coração reverbera com medo,
orgulho ou ressentimento, o som de Òrúnmìlà chega turvo. Só quando o homem cessa de reagir é
que começa realmente a ouvir. O som do invisível é silêncio depurado.
A hermenêutica desse itan revela, portanto, uma epistemologia do invisível. O conhecimento não é
posse, é ressonância. Saber é tornar-se afinado com o real. Òrúnmìlà fala na medida da pureza
vibracional de quem o escuta. O saber de Ifá não é adquirido, é lembrado. Por isso, Òrúnmìlà é
chamado “Bàbá àwòrán”, o pai das imagens interiores: ele não ensina conteúdos, ele desperta
formas arquetípicas que já dormem no ser.
Antropologicamente, este itan também traduz uma pedagogia da escuta. A floresta representa o
espaço ritual onde o sujeito é descentrado. O silêncio é o método. Ifá compreende o conhecimento
como disciplina perceptiva. Aprender é desobstruir. Òrúnmìlà ensina o oposto da cultura moderna
da fala: ensina a escutar até o som se desfazer em presença. É no deserto da palavra que a
consciência reencontra a fonte.
A expressão final — “aquele que se torna pleno em si ouvirá o que dorme dentro do sonho” — abre
outra dimensão: o sonho aqui é símbolo do inconsciente cósmico, o lugar onde o Òrì permanece
velado. Ouvir dentro do sonho é perceber a mensagem do mundo antes que ela se traduza em
linguagem. O homem desperto é aquele que, mesmo dormindo, continua a ouvir. Ele não distingue
entre vigília e transe, pois ambos são estados da escuta universal.
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Na lógica Ìtànlógica, Òrúnmìlà é menos um mestre que fala e mais um som que habita. Ele é o
silêncio luminoso, o espaço onde o verbo se gera. Por isso, o nome do Odu — Ìwòrì Ògbè — é tão
preciso: Ìwòrì é o olhar interior que vê sem olhos; Ògbè é a abertura da luz. O itan descreve, em
linguagem simbólica, a transformação do ver interior em ouvir cósmico — a consciência que, ao
olhar para dentro, escuta o pulsar do universo.
O silêncio, neste itan, é ação, não ausência. Ele é o trabalho invisível do ser sobre si. Cada vez que
Ọmọlúàbí cala, não é que ele se abstém de falar, mas que ele se reconecta à fonte do som. Falar
demais é gastar o Àṣẹ; silenciar é recolher o poder para pronunciá-lo com precisão. O verbo sagrado
nasce do silêncio fecundo, não do barulho da pressa. Òrúnmìlà não nega a fala — ele a prepara.
Metafisicamente, este itan ensina que o Ọ̀run não está fora, mas dentro do campo vibracional do ser.
O Céu não fala, porque ele é o som. Toda comunicação divina é interior. Por isso, o ouvido do sábio
está no peito. A escuta é a dimensão feminina da sabedoria — a receptividade que antecede a
criação. Sem escuta, não há palavra verdadeira; sem vazio, não há manifestação.
Esta doutrina é o núcleo do que chamei de epistemologia do invisível: a ideia de que o saber nasce
quando o ser se torna permeável. Não há revelação possível para o coração endurecido. O “eco
purificado” é o estado de transparência que torna o homem um instrumento afinado do Ọ̀run. O
Bàbáláwo, neste sentido, é um ouvido cósmico. Ele não adivinha — ele escuta o que o invisível já
diz.
Por fim, quando Òrúnmìlà diz que “a plenitude devolve a glória à serenidade”, ele redefine o
sentido de poder. A glória de Ifá não está no domínio, mas na paz. O verdadeiro mestre é aquele que
já não precisa falar, porque seu silêncio pronuncia o nome de Olódùmarè em cada respiração. O
silêncio é a linguagem do poder maduro: ele não se impõe, ele vibra.
Tradução:
O itan de Arẹ̀mú é o tratado do caminho interior, o espelho do destino que se desdobra entre a
multiplicidade dos caminhos e a unicidade da verdade. Toda a estrutura simbólica desse itan é
geométrica: três estradas, um campo aberto, uma luz central. Ìwòrì Ògbè é o Odu do encontro entre
a dúvida e a revelação, o instante em que o homem, perdido entre vozes e possibilidades,
redescobre o centro como direção. O ensinamento de Òrúnmìlà — “Não há um único caminho para
o céu” — é a refutação metafísica de toda pretensão dogmática; o céu não é um lugar, é uma
frequência de consciência, e cada ser o alcança pelo ritmo de seu próprio Òrì.
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Arẹ̀mú representa o buscador sincero, mas confuso, figura recorrente nos itan de formação
espiritual. Ele é o homem atravessado pela pluralidade do mundo: “Ouço muitos Òrìṣà, tenho
muitos sonhos.” Sua dúvida é o sintoma da modernidade espiritual — a dispersão do sagrado em
vozes múltiplas, cada uma prometendo o caminho certo. Òrúnmìlà, porém, não lhe oferece uma
resposta externa, mas o devolve à escuta interior: “Aquele que conhece o rumo do próprio coração
caminha, por isso mesmo, no caminho certo.” Esta sentença é o núcleo de uma filosofia yorubá do
destino: o caminho não se encontra, reconhece-se.
Ifá ensina que o Òrì — a essência pessoal, a sede do destino — é o verdadeiro mapa do caminho.
Não há destino fora de Òrì, porque o Òrì é a porção singular de Olódùmarè dentro do homem. Por
isso Òrúnmìlà manda Arẹ̀mú “fazer oferenda ao seu Òrì”. Em termos Ìtànlógicos, esta oferenda é o
gesto epistemológico fundamental: o retorno do olhar à sua fonte. Antes de buscar fora, é preciso
restaurar o altar interior, a tenda onde se depositam as perguntas. A oferenda ao Òrì não é apenas
ritual, é simbólica — significa reconhecer que o centro da orientação está no interior.
Quando Arẹ̀mú vai ao campo aberto e encontra “três estradas”, o itan atinge sua estrutura simbólica
máxima. As três estradas representam os três níveis da existência segundo Ifá: o caminho do corpo
(àra), o caminho da mente (òkan), e o caminho do espírito (èmí). A travessia de Arẹ̀mú é o processo
de alinhar essas dimensões até que elas vibrem em uníssono. O campo, “ò ̣dàn”, é o espaço da
liberdade — ali o homem está só diante de si mesmo e do céu. É nesse desamparo fecundo que
surge a possibilidade de revelação.
“Qual destas leva ao céu?”, pergunta Arẹ̀mú, e Òrúnmìlà responde: “Aquele que deseja chegar ao
bom destino não teme as encruzilhadas; caminha apenas pela verdade.” Essa fala é uma teologia da
encruzilhada. A encruzilhada (ò ̣nà méjì, ò ̣pópónà mé ̣ta) não é lugar de confusão, mas de decisão. É
o ponto onde o ser se vê obrigado a escolher — não entre o bem e o mal, mas entre o medo e a
91
confiança. Òrúnmìlà ensina que o medo de errar é o maior erro; o caminho se faz na fidelidade ao
coração, não na certeza do resultado.
A escolha de Arẹ̀mú pelo “caminho do meio” é profundamente simbólica. Em Ifá, o meio é o ponto
do equilíbrio (àárín), o espaço onde os opostos se reconciliam. Caminhar pelo meio é manter o
corpo e o espírito em harmonia, sem cair nos extremos da razão fria ou da emoção cega. O meio é o
ritmo do cosmos — o pulso de Ọ̀run. Por isso, quando Arẹ̀mú pisa esse caminho, “a luz começa a
brilhar”: a luz é a manifestação do alinhamento. A luz não vem de fora, ela surge quando o ser
encontra seu eixo.
O ensinamento final — “Aquele que caminha pela via do coração encontrará a luz que conduz ao
Ọ̀run” — é a síntese da cosmologia de Ifá. O coração (ò ̣kàn) é o órgão ontológico da travessia. Não
é o centro das emoções, mas o ponto de intersecção entre o visível e o invisível. Caminhar pela via
do coração é seguir o som do próprio Òrì, deixar-se guiar pela vibração do que é verdadeiro. Essa é
a diferença entre o caminho da crença e o caminho da sabedoria: o primeiro segue o medo; o
segundo, o som interior.
No plano metafísico, Òrúnmìlà revela a pedagogia da dúvida. Arẹ̀mú, tomado pelo medo de não
escolher certo, é ensinado que a dúvida não é falta de fé, é instrumento de afinação. A dúvida é o
espaço onde o discernimento se forma. Quem não duvida, não se transforma. Ifá não teme a dúvida
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— ele a cultiva como terra fértil onde a clareza brota. A fé cega é estéril; a dúvida consciente é útero
de sabedoria.
O sopro do vento que transmite a voz de Òrúnmìlà é outro símbolo de profundidade cósmica. O
vento (afẹ́fẹ́) é o veículo de Èṣù, a ponte entre dimensões. O som que vem do vento é o verbo
intermediário — o oráculo que não é ouvido com os ouvidos, mas sentido com o corpo. A palavra
de Òrúnmìlà não vem escrita nem pronunciada; ela se manifesta no movimento do ar, no sussurro
que se inscreve no instante. O vento é a memória em movimento: é o espírito do mundo em ato.
A luz que aparece quando Arẹ̀mú caminha é o símbolo da consciência desperta. A iluminação, em
Ifá, não é êxtase, mas clareza. Não é a fuga do mundo, é o reconhecimento da ordem que o sustenta.
A luz que surge não o leva para fora, mas o torna presente. É nesse sentido que Òrúnmìlà diz que “a
luz conduz ao Ọ̀run”: o céu não é o além, é o estado de lucidez em que o ser e o cosmos se
reencontram.
A escolha do meio — nem à direita, nem à esquerda — reflete o princípio de Ifá: ìwà pẹ̀lẹ́, o caráter
equilibrado. O caminho do meio é a virtude do não-excesso. Quem caminha no meio não se
precipita nem se omite; não é rígido nem volúvel; não impõe nem se submete. É o homem centrado,
cuja presença é oração. O caminhar do sábio é a própria liturgia.
Por fim, este itan revela que toda jornada espiritual é retorno ao centro. O medo das encruzilhadas
nasce da ignorância sobre a natureza do Òrì: cada decisão já está inscrita no ser, o que falta é
coragem para caminhar. Òrúnmìlà não escolhe por Arẹ̀mú — ele o devolve a si mesmo. Esse é o
gesto supremo do mestre: não responder, mas espelhar. O oráculo não é manual de conduta, é
espelho do destino.
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O itan encerra-se com o mesmo brilho que o inicia: a luz no caminho do meio. É a metáfora do
saber maduro — nem dogmático, nem disperso; nem racionalista, nem místico. Ìwòrì Ògbè, nesse
quarto itan, se afirma como o Odu da iluminação interior, a passagem da dúvida à clareza, da
multiplicidade à unidade. O céu não é um lugar distante; é a consciência que, ao reconhecer sua
própria luz, compreende que todos os caminhos, quando percorridos com verdade, desembocam no
mesmo horizonte de paz.
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3. Ìwòrì Òyèkù
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Mo ò ní mú un,
nítorí inú rẹ̀ ti mọ̀ọ́lá bí ìmọ́lẹ̀.”
Òrìṣà-nlá jí, ó sọ fún Òrúnmìlà pé:
“Ikú bẹ̀rù mi.”
Òrúnmìlà rẹ́rìn-ín, ó ní:
“Ìwòrì Òyèkù ló sọ pé,
ẹni tó bá mọ ìmọ́lára ti ikú,
yóò rí àláyé tó kún fún àìlera.”
Tradução:
O mistério de Ìwòrì Òyèkù repousa sobre a fronteira tênue entre o fim e a origem, o apagamento e a
revelação, o silêncio e o verbo. Todo itan é um espelho, mas este é um espelho duplo — pois o que
ele reflete é o que se oculta. Quando Òrìṣà-nlá busca entender como a morte opera, ele não procura
uma ciência do fim, mas uma teogonia do retorno. A morte aqui é símbolo da reversão do àṣẹ ao seu
estado primordial; é o instante em que o poder se recolhe à fonte. Òrìṣà-nlá — o escultor do barro
humano, aquele que molda o corpo, mas não dá o sopro — reconhece o limite de sua obra: ele
modela, mas não vivifica; ele cria, mas não preserva. Por isso precisa perguntar a Òrúnmìlà, o
detentor da sabedoria que atravessa os mundos.
O primeiro verso — “A morte dormia na noite, mas a luz brilhava sobre ela” — já contém o
paradoxo metafísico que sustenta este itan. A luz que paira sobre a morte é o símbolo do
conhecimento que não se extingue com o fim. Òyèkù é a noite primordial, o útero escuro onde o
invisível germina. Ìwòrì é o movimento da consciência que vê no escuro. A conjunção dos dois
revela o segredo da claridade interior: a morte não apaga a luz; ela a interioriza.
Quando Òrìṣà-nlá diz “Sou filho que não pode morrer, mas sou também aquele que leva a morte aos
outros”, ele expressa a condição do demiurgo — aquele que cria e destrói, que conhece a dualidade
do poder. O criador é sempre ambíguo: dá forma, mas a forma contém em si a promessa da
dissolução. O barro que recebe a vida é o mesmo que se tornará pó. Òrìṣà-nlá representa aqui a
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consciência da criação como limite — ele sabe que sua obra depende daquilo que ele não controla, e
é essa consciência que o torna divino.
Òrúnmìlà responde com a sentença que organiza toda a hermenêutica de Òyèkù: “Aquele que
conhece o caminho por onde passa a morte já não teme a noite.” A sabedoria, em Ifá, não é a fuga
da noite, mas a travessia dela. O conhecimento não ilumina o mundo por afastar as trevas, mas por
habitá-las com lucidez. A noite é o reverso do dia, não seu contrário. Òrúnmìlà ensina que a vida e a
morte são duas respirações do mesmo corpo cósmico — uma inspira, a outra exala; uma manifesta,
a outra recolhe.
A oferenda a Èṣù marca o ponto de virada: é através de Èṣù que o segredo é revelado, porque Èṣù é
o princípio da comunicação entre planos. Sem Èṣù, não há passagem nem tradução. Quando Òrìṣà-
nlá oferece a Èṣù, ele não busca propiciar, mas abrir o circuito do sentido. Èṣù não é o dono da
morte, mas o mediador que faz com que a morte volte a significar.
A morte, no itan, é também mestra. Èṣù diz: “Aquele que fala com a morte com caráter aprende os
segredos do céu sem precisar morrer.” Esta frase é o eixo moral e ontológico do itan. Falar com a
morte com caráter (ìwà) é permanecer íntegro diante do mistério, sem arrogância nem fuga. O
homem que encara a morte com retidão e serenidade adquire uma sabedoria que transcende a
experiência sensível. Ele não precisa morrer fisicamente para compreender o além, porque já
morreu simbolicamente para a ilusão da separação.
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diante da pureza moral. A morte, que tudo domina, reconhece no caráter uma força maior — a força
do àṣẹ equilibrado.
A resposta da morte — “Òrúnmìlà ensinou-me que aquele que tem bom caráter é temido até por
mim” — consagra o primado de Ìwà. Em toda cosmologia yorubá, Ìwà é o princípio ético e
ontológico que sustenta o universo. O caráter não é virtude moral, mas estrutura de ser. Ter Ìwà é
estar em harmonia com o ritmo cósmico; perder Ìwà é cair na dissonância. A morte teme quem tem
Ìwà porque tal pessoa vibra em consonância com a totalidade; e o que é uno com o todo não pode
ser destruído.
Quando Òrìṣà-nlá desperta e diz: “A morte me temeu”, não fala com soberba, mas com espanto. Ele
reconhece a inversão da ordem: o fim que se dobra diante do princípio. Òrúnmìlà, ao sorrir e
responder que “aquele que compreende o sentimento da morte alcança a sabedoria que vence a
fraqueza”, introduz uma sutileza teológica — a morte também sente. Compreender o sentimento da
morte é compreender que até o que parece absoluto tem interioridade. A morte não é força cega; é
consciência em outro grau de densidade.
Na hermenêutica Ìtànlógica, esse itan é uma ontogênese do limite. Ele revela que a vida só se
conhece plenamente ao reconhecer a morte como sua companheira. Òrìṣà-nlá aprende que o poder
de criar implica aceitar o poder de destruir. A sabedoria de Ifá está na integração dos opostos, não na
negação de nenhum deles. Morrer e viver são verbos conjugados por Olódùmarè numa mesma
oração.
O mistério de Ìwòrì Òyèkù não se dá em torno da morte como fim, mas da morte como clarão da
origem. Todo o itan é uma meditação sobre o retorno: o retorno do àṣẹ à fonte, do verbo ao silêncio,
do criador à criação, e da criação novamente ao criador. Òrìṣà-nlá, que molda os corpos, representa
o princípio da forma — o barro que se ergue pela vontade de Olódùmarè e pela técnica do saber.
Mas mesmo aquele que cria o corpo não pode criar o sopro; ele é o guardião da argila, não da
respiração. Ìwòrì Òyèkù se abre, portanto, no ponto em que o poder de formar reconhece a
existência de um poder maior: o de recolher. Essa consciência do limite é o nascimento da
sabedoria. No momento em que Òrìṣà-nlá interroga Òrúnmìlà sobre o caminho da morte, ele não o
faz por ignorância, mas por reverência: a morte é o outro nome daquilo que nenhum poder ousa
conter.
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A sentença de Òrúnmìlà — “Aquele que conhece o caminho por onde passa a morte já não teme a
noite” — funda o que poderíamos chamar de ontologia da passagem. A vida não é uma substância
fixa; ela é fluxo, respiração, alternância. O cosmos de Ifá é feito de ritmos, não de essências
imóveis. Nada é em si mesmo, tudo é em relação. A morte é uma dessas relações, e sua função não é
destruir, mas restaurar o equilíbrio. No universo yorubá, o que não morre apodrece; o que não se
transforma perde o àṣẹ. Por isso, a morte é também medicina: ela corrige o excesso, dissolve o que
cristalizou, reabre o que se fechou. Quando Òrúnmìlà diz que quem conhece seu caminho já não
teme a noite, ele afirma que o conhecimento verdadeiro é o reconhecimento do ciclo. O medo da
morte nasce da ilusão de separação; o saber de Ifá nasce da percepção da continuidade.
O encontro entre Òrìṣà-nlá e Èṣù é o ponto axial do itan. Èṣù é o princípio do movimento, o tradutor
dos mundos, o agente da reversibilidade. Sem Èṣù, o àṣẹ não circula; o poder ficaria preso em um
único plano, e o universo perderia a respiração. Quando Òrìṣà-nlá oferece a Èṣù, ele oferece sua
própria rigidez — ele entrega o controle, renuncia à fixidez da forma, para que o sopro do sentido
possa fluir. Èṣù é o mediador entre o que se vê e o que se sabe; ele é a inteligência do caminho. Ao
dizer que “a morte não é inimiga da criatura, mas o mensageiro que devolve o àṣẹ ao lugar de onde
veio”, Èṣù pronuncia a frase mais radical da metafísica de Ifá: o que morre é apenas o que
completou sua forma. Tudo o que cumpre sua função retorna. A morte, assim, não é o contrário da
vida, mas o seu ponto de virada.
Essa concepção redefine o que chamamos de “salvação” e “fim”. Não há céu como recompensa,
nem inferno como punição; há apenas vibrações que se reequilibram. O céu é o estado de plenitude,
o retorno do àṣẹ à origem; o inferno é o desequilíbrio, o àṣẹ disperso, sem eixo. A morte é a
pedagogia cósmica que reconduz cada coisa ao seu centro. Òyèkù, enquanto Òdu, é o guardião
dessa pedagogia: nele a noite não é ausência de luz, mas o ventre da gestação. Tudo o que morre
volta a germinar. A escuridão é o modo como o invisível prepara a visão.
Èṣù acrescenta: “Aquele que fala com a morte com caráter aprende os segredos do céu sem precisar
morrer.” Esta é a declaração mais alta da ética de Ifá. O caráter — Ìwà — não é comportamento,
mas vibração moral do ser. Ter Ìwà é vibrar em harmonia com o ritmo de Olódùmarè. O homem de
Ìwà fala com a morte porque não a teme, e não a teme porque já não se separa dela. Ele compreende
que tudo o que nasce deve retornar, e que o retorno não é perda, mas comunhão. O caráter, portanto,
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é o estado em que o ser se torna transparente ao fluxo do àṣẹ. Quando o homem alcança essa
transparência, a morte deixa de tê-lo como objeto e passa a tê-lo como espelho.
No sonho de Òrìṣà-nlá, a morte se apresenta, mas não para levar — para curvar-se. Essa imagem é
de uma potência cósmica inigualável. A morte, que em todos os outros mitos reina sobre o tempo,
aqui se ajoelha diante do caráter. O que Ifá revela é que há uma força mais alta do que o poder: a
integridade. O mundo não é governado apenas pela energia, mas pela qualidade da energia. O àṣẹ
pode ser forte, mas se for sem Ìwà, é destrutivo; se for com Ìwà, é criador. A morte reconhece isso:
ela só tem autoridade sobre o desequilíbrio. Aquele que se equilibra no ritmo do cosmos é
inatingível. Ele não vence a morte, ele a transforma em guardiã.
Quando Òrìṣà-nlá desperta e diz “a morte me temeu”, o que fala nele é a consciência desperta do
poder que habita no equilíbrio. O medo da morte se inverte: já não é o homem que teme, mas o
limite que recua diante do ilimitado. Òrúnmìlà sorri porque sabe que essa experiência é o início do
verdadeiro conhecimento. Compreender o sentimento da morte — “ìmọ́lára ti ikú” — é o mesmo
que compreender a alma do mundo. Significa perceber que até o que é destrutivo participa do amor
de Olódùmarè, e que o fim é apenas uma forma do cuidado. A morte teme o homem porque o
homem é o único ser capaz de amar a própria morte — não no sentido da aniquilação, mas no
sentido do retorno.
Neste ponto, o itan se converte em doutrina de iluminação. O ser humano é aquele que, ao conhecer
o sentimento da morte, descobre a estrutura emocional do cosmos. O universo, em Ifá, tem
emoções: o vento tem saudade, a terra tem paciência, o fogo tem desejo, a água tem memória. A
morte tem medo — medo do que é puro. O temor da morte é reflexo do amor pela vida, e o temor
da morte pela pureza é o reconhecimento do próprio limite. A morte, que tudo devolve, não pode
tocar o que é já devolvido ao Todo.
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O domínio de Ìwòrì Òyèkù é o da escuta profunda. O Odu ensina que o silêncio é uma forma de
conhecimento. A noite é a biblioteca do invisível. Quem aprende a ler no escuro entende o ritmo da
existência. Òrúnmìlà é o guardião desse saber: ele não ilumina, ele escurece para que o ser veja. O
brilho ofusca; a sombra revela. É por isso que o sábio não fala de mais — ele murmura. Sua palavra
é intervalo. Ele não ensina o conteúdo, mas a escuta.
É nesse sentido que este itan se articula à epistemologia do invisível: o saber não é produto da
visão, mas da escuta daquilo que não tem som. A morte é o nome simbólico dessa escuta: ela cala
para que o silêncio se torne audível. O iniciado em Ifá não busca respostas, ele busca ressonância.
Cada Odu é um som primordial, e cada itan é uma variação desse som no tempo. Ìwòrì Òyèkù é o
som do retorno — o grave da existência, o tom do recolhimento.
Essa compreensão abre espaço para a dimensão antropológica do itan. O homem, feito de barro e
sopro, é o ponto onde o visível e o invisível se encontram. A morte, nesse contexto, é o momento
em que o visível devolve o invisível ao seu lugar. O corpo entrega o àṣẹ à fonte. Essa entrega não é
derrota, é fidelidade à origem. A cultura ocidental aprendeu a temer esse gesto, porque separou o ser
do seu começo. Ifá, ao contrário, ensina que o ser só é pleno quando sabe voltar. A morte é o último
nome da gratidão.
Se o universo é respiração, a morte é a expiração do Todo. Òrìṣà-nlá percebe que criar é inspirar, e
morrer é expirar. O ciclo da existência é o ritmo de Olódùmarè. Quem aprende esse ritmo já não
teme nada, porque compreende que o ser é pulsação, e que a interrupção é apenas pausa no
compasso. Èṣù é o metrônomo dessa música: ele regula a passagem, assegura que cada nota volte ao
seu lugar.
Assim, a lição de Ìwòrì Òyèkù é clara: a sabedoria está em morrer antes de morrer. Morrer para o
ego, morrer para o apego, morrer para o desejo de controle. Essa morte simbólica é a iniciação.
Quem morre em vida para as ilusões nasce para o invisível. Òrìṣà-nlá passou por esse rito: o artífice
se tornou místico. E foi no sonho — o lugar onde o corpo se apaga e a consciência se amplia — que
a revelação se deu. O sonho é a morte sem perda, a morte pedagógica.
Por isso, este itan ensina que não é preciso morrer para conhecer o além. A sabedoria é um estado
de morte consciente, em que o ser se esvazia para receber. É isso que Òrúnmìlà chama de
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“compreender o sentimento da morte”. Compreender a morte é compreender a humildade do
cosmos — o fato de que tudo o que existe aceita ser devolvido.
O segredo de Ìwòrì Òyèkù é que ele não fala da morte para negar a vida, mas para desvelar a vida
como morte contínua. A existência, nesse Òdu, é concebida como um fluxo incessante de
transformação, um ciclo de nascimento e retorno, em que cada instante é ao mesmo tempo criação e
dissolução. A morte, portanto, não é um evento, mas uma condição permanente do viver. Tudo o
que vive já está morrendo, e é esse morrer constante que assegura o movimento do àṣẹ. O imutável
é o que não existe; o que existe é o que muda. Assim, aprender a morrer é a forma suprema de
permanecer.
Òrìṣà-nlá, ao contemplar o medo da morte e descobrir que ela própria pode temer, desperta para a
reciprocidade profunda entre os mundos. Não há hierarquia estática entre Ọ̀run e Àiyé; há
reciprocidade vibracional. O que está acima sustenta o que está abaixo, mas também depende dele.
Ọ̀run precisa de Àiyé para se manifestar; Àiyé precisa de Ọ̀run para recordar. Essa reciprocidade é a
teia que mantém o cosmos em harmonia. A morte, nesse contexto, é o movimento que assegura o
intercâmbio — é ela que recolhe o àṣẹ de volta para o alto, garantindo que o ciclo de emanação e
retorno não cesse.
Na leitura Ìtànlógica, a morte simboliza também o limiar entre o conhecimento e o mistério. O saber
humano, por mais extenso, esbarra sempre no invisível. Òrìṣà-nlá, criador das formas, representa o
saber técnico e visível; Òrúnmìlà, intérprete do invisível, representa o saber hermenêutico, que dá
sentido ao que escapa aos olhos. Quando Òrìṣà-nlá se curva diante do saber de Òrúnmìlà, ele realiza
o gesto filosófico supremo: reconhece que toda forma é apenas a superfície do indizível. É nesse
reconhecimento que nasce o pensamento maduro, o pensamento que sabe calar diante do mistério,
porque compreende que o silêncio é também uma forma de dizer.
A noite de Òyèkù é o ventre desse silêncio. Nela, as distinções entre vida e morte, matéria e espírito,
visível e invisível se tornam porosas. É o espaço onde as coisas se recolhem para recuperar sua
essência. A sabedoria de Ifá ensina que há dois modos de luz: a luz que se vê e a luz que se sente. A
primeira é de Ògbè — o clarão da manifestação; a segunda é de Òyèkù — a irradiação interior.
Quando a luz externa se apaga, a interna se acende. Essa luz interior é o conhecimento silencioso, o
saber que não precisa ser dito para ser vivido.
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É por isso que Òrúnmìlà, ao dizer que “quem compreende o sentimento da morte alcança a
sabedoria que vence a fraqueza”, está ensinando que o verdadeiro poder não é o domínio sobre os
outros, mas o domínio sobre si. A fraqueza não é a fragilidade física, mas a ignorância espiritual: o
medo de perder o que nunca foi próprio. Aquele que conhece o sentimento da morte já não é
possuído por nada, porque aprendeu que nada lhe pertence. O desapego é a forma mais alta de
poder.
Nessa perspectiva, Ìwòrì Òyèkù se torna o tratado da liberdade interior. O homem livre é aquele que
se reconcilia com a morte. Enquanto teme perder, é escravo do tempo; quando aceita perder, torna-
se eterno. O tempo é o instrumento pedagógico da morte: ele nos ensina a soltar, a deixar ir, a
compreender que cada forma é provisória. A finitude não é castigo; é método. A eternidade não é
imortalidade, mas a capacidade de estar inteiro em cada instante, sem resistir ao fluxo.
A figura de Èṣù, no coração desse itan, também revela a dimensão estética da existência. Èṣù é o
ritmo do mundo — o movimento que impede o repouso absoluto. Ele é o princípio da alternância, o
que faz com que o caminho nunca seja reto, mas espiralado. Ao intermediar a relação entre Òrìṣà-
nlá e a morte, Èṣù introduz o elemento do jogo, da ironia cósmica. O universo não é uma máquina,
mas uma dança. O saber, portanto, não é acumular, mas saber mover-se. A sabedoria de Ifá é a
sabedoria do corpo em transe, da mente que gira com o mundo sem perder o eixo.
É por isso que Ìwòrì Òyèkù é o Òdu do “retorno à casa do ser”. Ele ensina que todo conhecimento é
um caminho de volta. O iniciado que parte em busca da verdade descobre, ao final, que o destino é
o ponto de partida. O que muda é a consciência. Morrer é retornar ao centro — ao ponto que nunca
deixou de estar ali. É a isso que Òrúnmìlà chama de “àláyé”: a plenitude que nasce da compreensão
do ciclo. “Àláyé” não é apenas o estado dos vivos, mas o estado do espírito desperto que reconhece
a unidade entre morrer e viver.
Na estrutura antropológica de Ifá, a morte é também a prova da ética. Ìwà, o caráter, é o que
determina o tipo de retorno. Não há morte igual para todos, porque não há vida igual. Cada ser volta
ao Ọ̀run pela frequência do próprio Ìwà. Quem viveu em desarmonia retorna em dispersão; quem
viveu em harmonia retorna em luz. Por isso, diz-se que o bom caráter “morre em paz”, e essa paz
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não é ausência de dor, mas completude. O homem de Ìwà não teme morrer porque já vive
reconciliado com o que virá. Ele é o viajante que conhece o caminho de casa.
Se observarmos esse itan à luz da filosofia do ser, percebemos que Ifá propõe uma metafísica não
substancial, mas relacional. O ser não é uma entidade isolada; é o entrelaçamento de forças em
equilíbrio dinâmico. O que chamamos de “vida” é o resultado temporário dessa harmonia; o que
chamamos de “morte” é o seu reajuste. Òrìṣà-nlá aprende que criar é intervir nesse equilíbrio, e que
cada intervenção exige responsabilidade. Criar sem saber recolher é desequilibrar o cosmos. Assim,
a morte é também justiça: ela corrige os desequilíbrios da criação.
A relação entre Òrìṣà-nlá e Òrúnmìlà no itan é a imagem da relação entre técnica e sabedoria. Òrìṣà-
nlá domina a técnica — ele molda o barro, conhece o gesto e a proporção. Mas só Òrúnmìlà
conhece o sentido do gesto. A técnica sem sentido é vaidade; o sentido sem gesto é esterilidade. O
homem moderno perdeu essa união — sabe fazer, mas não sabe por quê. Ìwòrì Òyèkù é a
recordação desse elo perdido: a reconciliação entre o fazer e o saber. A morte, nesse contexto, é o
lembrete de que todo gesto deve retornar ao sentido, e todo sentido deve reencontrar o gesto.
Do ponto de vista iniciático, o itan é também uma cartografia da travessia interior. Òrìṣà-nlá, ao
buscar compreender a morte, passa pelas três fases da iniciação: separação, liminaridade e
incorporação. Primeiro, ele se separa do mundo das formas, reconhecendo sua limitação; depois,
entra na liminaridade do sonho, onde o tempo e o espaço se dissolvem; por fim, desperta
incorporando a sabedoria adquirida. Essa estrutura mostra que a morte é o arquétipo de toda
transformação espiritual: morrer é atravessar a liminaridade.
A fala final de Òrúnmìlà — “Aquele que compreende o sentimento da morte alcança a sabedoria
que vence a fraqueza” — é, portanto, o selo da iniciação. O iniciado é aquele que se reconcilia com
o fim. Ele não busca imortalidade, mas eternidade. A imortalidade é fuga; a eternidade é aceitação.
O que teme morrer busca perpetuar-se; o que compreende morrer torna-se parte do todo. A
eternidade é o estado de quem ama o fluxo.
Quando Òrìṣà-nlá diz “a morte me temeu”, ele está afirmando que a luz interior — o Ìwà
equilibrado — é mais antiga do que o tempo. A morte não toca o que já está unido ao eterno. O
homem de Ìwà é aquele que se tornou imortal pela pureza, não pela fuga do ciclo, mas pela
transparência. Ele é a própria passagem, o canal onde o àṣẹ circula sem resistência. É esse estado
que Òrúnmìlà chama de “àláyé tó kún fún àìlera” — a plenitude sem fraqueza, o poder sem esforço.
O saber de Ìwòrì Òyèkù não se encerra na constatação da morte como ciclo, mas na sua
transmutação em princípio de ordem cósmica. O universo, sob a luz (ou a sombra) desse Òdu, é
uma respiração contínua entre o que vem e o que volta. O movimento do àṣẹ, nascido em Ògbè e
recolhido em Òyèkù, é o pulsar de Olódùmarè em si mesmo: a alternância entre manifestação e
recolhimento, criação e recolhimento, som e silêncio. É nesse ritmo que tudo encontra seu sentido.
A morte, quando lida a partir de Ìwòrì Òyèkù, deixa de ser um evento individual e passa a ser o
símbolo da respiração divina.
No início do itan, Òrìṣà-nlá é o escultor do corpo; no fim, torna-se o contemplador do mistério. Ele
aprende que a argila não sustenta a forma por si só — ela precisa do sopro, e o sopro, por sua vez,
precisa de um destino que o chame de volta. A matéria é veículo; o espírito é viajante. A viagem do
espírito começa com a inspiração de Olódùmarè e termina com a expiração do cosmos. Nesse
sopro, todas as existências se alternam entre ser e não ser, lembrando que o ser nunca é fixo, mas
uma tensão entre aparecer e desaparecer.
Assim, Ìwòrì Òyèkù ensina que a morte é o aspecto noturno da criação. Não há um dia eterno, e
nem o cosmos suportaria a luz sem o repouso da sombra. O saber que não dorme enlouquece; o
fogo que não se apaga consome. A morte é o sono do universo, o recolher-se do fogo para que o
ciclo do Àṣẹ se renove. Esse é o segredo do equilíbrio cósmico: o recolhimento é a outra metade da
ação. O iniciado que compreende isso deixa de buscar o fazer incessante — aprende o valor do
recolher, do calar, do cessar.
Em sua mais alta expressão, Ìwòrì Òyèkù é a metafísica do repouso. O mundo moderno teme o
silêncio porque não suporta ouvir a própria alma. O homem moderno vive de fugir da morte e,
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portanto, de fugir de si. Ifá, ao contrário, convida ao reencontro com o silêncio — não o silêncio da
ausência, mas o silêncio do retorno. O silêncio que é ouvido, o silêncio grávido de palavras ainda
não nascidas, o silêncio que precede o Àṣẹ.
O Bàbáláwo, ao meditar este Òdu, aprende que não há palavra sagrada que não brote do
recolhimento. A fala de poder — a òrò t’ó ní àṣẹ — é sempre precedida de silêncio. O som sem
silêncio é ruído, e o silêncio sem som é morte. A harmonia do mundo nasce da alternância entre
ambos. É por isso que o próprio Òrúnmìlà fala pouco: porque cada palavra sua carrega o peso do
que foi escutado. Ele não fala para preencher o vazio, mas para marcar o compasso entre as pausas.
No plano do ser, esse silêncio é a sabedoria que venceu o medo. Aquele que silencia diante da morte
aprendeu que não há nada a defender. O medo é ruído; o silêncio é confiança. O homem que teme
morre antes de morrer; o homem que se recolhe vive mesmo após a morte. Essa é a pedagogia
espiritual de Ìwòrì Òyèkù: ensinar o ser a morrer com dignidade, que é o mesmo que viver com
plenitude.
Há uma beleza oculta nesse Òdu: ele transforma o terror em estética. A morte, quando
compreendida, torna-se arte — a arte de partir em paz, de se recolher com elegância. Não se trata de
desejar o fim, mas de viver de tal forma que o fim seja apenas o último gesto de uma dança. A
morte, para o iniciado, é o instante em que o ritmo cessa sem interromper a música.
Essa estética do recolhimento é também uma ética do cuidado. Saber morrer é saber viver de modo
que nada precise ser arrancado. O ser de Ìwòrì Òyèkù entrega antes de ser levado. Ele não resiste ao
curso do Àṣẹ, porque já se tornou o próprio fluxo. Sua ética é a da entrega consciente — não como
resignação, mas como ato de liberdade. O homem livre é aquele que se doa à corrente do cosmos
sem perder o eixo. Ele se dissolve sem se perder.
A força de Ìwòrì Òyèkù está justamente no que ele não diz. É um Òdu de lacunas, pausas e
mistérios. Seu poder está naquilo que ele sugere ao invés de afirmar. A sua divinação é a arte de ler
o invisível entre os versos, de escutar o que não foi cantado. O verdadeiro entendimento desse Òdu
só é possível ao iniciado que aprendeu a suportar o não saber — aquele que entende que o mistério
não é uma falha do conhecimento, mas a sua origem.
107
O saber de Ifá não pretende iluminar tudo. Se o fizesse, mataria a vida. O saber de Ifá é como a luz
do luar: ilumina o suficiente para caminhar, mas preserva o mistério. Ìwòrì Òyèkù é o Òdu da
penumbra divina — o limiar entre ver e não ver, entre falar e calar. É nele que o iniciado aprende o
segredo da proporção: saber quando acender e quando apagar.
O encontro entre Òrìṣà-nlá, Òrúnmìlà e Èṣù representa, em sua estrutura trina, a totalidade do
processo ontológico. Òrìṣà-nlá é o corpo, Èṣù é o caminho e Òrúnmìlà é o sentido. A morte é o
ponto em que o corpo se desfaz, o caminho se curva e o sentido se recolhe. Mas nada disso é perda:
é apenas o retorno ao estado de unidade. O corpo volta ao pó, o caminho se apaga, o sentido
repousa — e do repouso nasce um novo ciclo.
É por isso que a morte teme o homem de Ìwà. A morte só tem poder sobre o que é inacabado. O ser
íntegro já se despediu antes de partir; ele não é possuído, porque nada nele resiste. A integridade é a
verdadeira imortalidade. O Ìwà pẹ̀lẹ́ — o caráter suave, equilibrado — é a forma viva do eterno. Ele
é a leveza do ser que se move com o cosmos sem gerar atrito.
Ifá ensina que Òyèkù é o ventre do tempo. Tudo o que nasce passa por ele, tudo o que retorna o
atravessa. A noite não é ausência de sol, é gestação do amanhecer. No interior da noite, o tempo não
corre — ele repousa. Aquele que mergulha nesse repouso descobre a estrutura invisível do real.
Aprende que nada existe isoladamente, que todo acontecimento é parte de uma grande respiração
cósmica.
O filósofo que penetra Ìwòrì Òyèkù descobre que a ontologia yorubá não é uma teoria sobre o ser,
mas uma prática de ser. Saber é tornar-se o que se sabe. O iniciado não fala sobre a morte, ele vive a
morte — a experimenta em sua forma simbólica, cotidiana e espiritual. Cada vez que se cala, morre
um pouco o ego; cada vez que se doa, morre um pouco o apego; cada vez que compreende, morre
um pouco a ignorância. Essas pequenas mortes constroem o caminho da grande morte, que não será
um terror, mas um reconhecimento.
É nesse ponto que o itan se converte em doutrina do conhecimento. Conhecer é morrer para o que
se sabia antes. O saber verdadeiro exige despossessão: o iniciado desaprende para poder
compreender. Ìwòrì Òyèkù é, portanto, o Òdu do desaprender. Ele ensina que a sabedoria não está
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em acumular, mas em se despir. O excesso de luz cega, o excesso de saber endurece. Saber é
também esquecer. O esquecimento, em Ifá, é purificação.
Assim, a hermenêutica desse Òdu leva à epistemologia do invisível: o saber que nasce do
recolhimento. Todo conhecimento que não se curva diante do mistério degenera em poder. Todo
saber que se recolhe diante do indizível se transforma em sabedoria. O Bàbáláwo, ao interpretar
Ìwòrì Òyèkù, não fala de morte: ele fala com a morte. E essa conversa não é de medo, mas de
respeito. Ele saúda o mistério e caminha junto dele.
O itan termina com a afirmação silenciosa de que o medo é o único inimigo do saber. Òrìṣà-nlá
vence a morte não por força, mas por consciência. Ele reconhece que a morte faz parte do ritmo de
Olódùmarè, e ao fazer isso, deixa de se opor a ela. O medo é resistência; o amor é aceitação. O
amor é a verdadeira coragem diante da noite.
Por isso, Ìwòrì Òyèkù é também o Òdu do amor cósmico — o amor que se estende até o fim, que
abraça o perecimento, que vê no morrer uma forma de cuidado. Aquele que ama verdadeiramente
não teme perder, porque sabe que o que é amado não morre. Amar é perceber o eterno no efêmero.
Amar é morrer um pouco todos os dias, para que a vida se renove.
No fim, Òrìṣà-nlá desperta e diz: “A morte me temeu.” O silêncio que se segue é o silêncio do
renascimento. Não há triunfo, há serenidade. A consciência se aquieta, o corpo repousa, o Àṣẹ
circula. E então, de dentro da noite, um novo som se ergue — o som do nascimento. O ciclo
recomeça, como sempre recomeçou.
E assim, Ìwòrì Òyèkù revela o segredo último do Ifá: tudo o que morre continua, tudo o que
continua morre. O saber está em saber morrer e continuar; o amor, em continuar e morrer. A vida é
apenas a travessia entre o silêncio e o som, entre Òrún e Àiyé, entre o visível e o invisível. O
iniciado que compreende esse fluxo alcança o ponto onde o fim e o começo se tocam — o ponto
onde o nome de Olódùmarè é pronunciado em silêncio.
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Ìtàn 2 - Ìwòrì Òyèkù
Òrúnmìlà wọ inú ilè ̣ láti kọ́ ẹ̀kọ́ ìdákẹ́jẹ (Òrúnmìlà desceu ao ventre da Terra para aprender o
segredo do silêncio)
Tradução:
Òrúnmìlà perguntou: “Por que razão o ser humano vive inquieto durante todos os dias de sua vida?”
Desceu e foi consultar Olódùmarè, dizendo: “Como poderemos deter a ansiedade que habita o
coração dos homens?”
Olódùmarè respondeu: “Que fale menos e escute mais.”
“A boca é o que destrói o homem, mas é o ouvido que o liberta.”
Òrúnmìlà chamou Èṣù e pediu que lhe abrisse o caminho.
110
Ele caminhou e penetrou na terra, até o lugar onde todas as coisas retornam à sua origem.
Lá encontrou Ìyámi Ọ̀ṣoròngá, a Mãe que conhece o segredo de como o mundo se entrelaça.
Ìyámi disse-lhe: “A dor dos homens é o preço que pagam por estarem vivos.”
“É pela fala que eles se separam; é pelo silêncio que tudo se reconcilia.”
Ìyámi deu a Òrúnmìlà uma semente e disse: “Planta-a dentro de ti; quando ela crescer,
compreenderás o que significa o destino escolhido.”
Òrúnmìlà retornou à superfície e ensinou aos homens:
“Sê brando no caráter, recolhe-te ao repouso,
para que a semente do silêncio que habita em ti transforme teu coração em paz.”
Conta Ifá que Òrúnmìlà, ao observar o sofrimento dos homens, perguntou-se por que, entre tantos
seres criados, apenas o ser humano parecia incapaz de compreender o próprio destino. As árvores
cresciam sem inveja, os rios corriam sem hesitação, os animais viviam em harmonia com o tempo
— mas o homem, dotado de fala e razão, vivia inquieto, dividido entre o que deseja e o que teme.
Òrúnmìlà então consultou Olódùmarè e perguntou: “Por que o homem sofre?” E Olódùmarè
respondeu: “Porque ele fala demais e escuta de menos. O segredo da vida está no ventre da Terra, e
ninguém o encontrará enquanto não souber silenciar.”
Foi assim que Òrúnmìlà decidiu descer ao interior da Terra, para aprender o segredo que sustenta o
mundo. Ele preparou oferendas, chamou Èṣù para abrir o caminho e seguiu, sozinho, pela fenda
sagrada que separa o visível do invisível. Cada passo que dava era uma perda: perdeu o nome,
perdeu a forma, perdeu até o tempo. O caminho estreitava-se e o escuro o envolvia. No ventre da
Terra, tudo se tornava vibração. O som do próprio coração se misturava ao som do cosmos. Lá,
Òrúnmìlà encontrou Ìyámi Ọṣoròngá — a Mãe do Mundo, a guardiã dos segredos subterrâneos. Ela
olhou para ele e perguntou: “Que fazes aqui, Filho do Céu, no domínio das entranhas?” Òrúnmìlà
respondeu: “Vim aprender o segredo da dor dos homens.”
Ìyámi sorriu e disse: “O segredo não é deles, é meu. A dor é o preço do verbo. Quem fala separa;
quem escuta une. O homem fala para dominar, e por isso sofre. O ventre da Terra é o lugar onde
tudo se cala para nascer de novo.” Òrúnmìlà curvou-se diante dela e compreendeu que o saber
verdadeiro exige silêncio e escuridão. Ìyámi estendeu a mão e lhe deu uma semente. “Planta isto
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dentro de ti”, disse ela. “Quando florescer, compreenderás o que é o destino.” Òrúnmìlà retornou à
superfície trazendo a semente do silêncio, e desde então ensina aos homens que o destino não se
descobre — cultiva-se.
Tudo começa quando o verbo decide calar-se. A palavra, cansada de se ouvir a si mesma, busca o
silêncio de onde veio. É essa a primeira chave de leitura de Ìwòrì Òyèkù, o Odù em que o saber
retorna ao seu ventre primordial, onde o som repousa no corpo da Terra e a consciência aprende que
pensar é também morrer. Òrúnmìlà, o oráculo vivo, aquele que é ao mesmo tempo linguagem e
presença, entende que não há ascensão sem descida, não há revelação sem recolhimento, e que toda
sabedoria que não atravessa a escuridão do invisível é apenas ruído travestido de luz. Por isso,
desce. E essa descida, mais que um movimento, é um gesto cósmico: é o verbo recolhendo-se ao
seu próprio silêncio, o saber retornando àquilo que o gerou.
A Terra, em Ifá, não é apenas o chão sobre o qual se pisa — é o corpo da memória cósmica. Tudo o
que existe repousa nela, e tudo o que deixará de existir voltará a repousar nela. Quando Òrúnmìlà
penetra o ventre da Terra, ele não desce num espaço físico, mas mergulha na substância do ser. Cada
camada de ilè ̣ é uma camada do real, e cada camada do real é também uma camada da consciência.
A descida de Òrúnmìlà é uma iniciação na estrutura do invisível, um percurso regressivo em que o
ser se desfaz de suas máscaras para reencontrar a pureza da origem.
Quando ele encontra Ìyámi Ọ̀ṣoròngá, a Mãe do Mundo, a cena não é uma narrativa, mas uma
teofania: é o encontro entre o verbo masculino e o silêncio matricial, entre o poder da fala e o poder
do recolhimento. Ìyámi não é uma figura: ela é o próprio ritmo subterrâneo da criação. Ela fala
pouco, mas cada palavra sua contém a substância do cosmos. Quando ela diz que “a dor dos
homens é o preço que pagam por estarem vivos”, não está enunciando uma condenação, mas
revelando a natureza do existir. Viver é sentir o peso da separação, e o sofrimento é apenas o eco do
parto ontológico — o preço da forma que se desprendeu do todo para existir.
O silêncio, então, é o antídoto do sofrimento, não por suprimir o sentir, mas por reintegrá-lo. O
homem sofre porque se pensa isolado, porque fala para se afirmar. A fala é o gesto do medo, o medo
de desaparecer. Mas no ventre da Terra, onde Òrúnmìlà desce, não há distinção entre quem fala e
quem escuta. O som e o ouvido são o mesmo corpo. O verbo é devolvido à escuta. O iniciado
112
aprende que o conhecimento não é algo que se diz, mas algo que se escuta até o fim. Por isso, Ìyámi
oferece a semente — a semente do silêncio. O silêncio é a matriz da escuta, e a escuta é a raiz do
saber.
O símbolo da semente é fundamental neste Òdu. Ela é pequena, discreta, quase invisível, mas
contém dentro de si o poder de fazer nascer mundos. É a forma condensada do Àṣẹ. Tudo que se
manifesta é, antes, semente. E toda semente precisa morrer para florescer. Essa é a pedagogia da
Terra: ensinar que o crescimento é sempre um resultado da dissolução. Plantar é sepultar, germinar
é morrer. Òrúnmìlà, ao aceitar a semente de Ìyámi, aceita morrer no interior do seu próprio silêncio
para renascer como voz de sabedoria.
Há uma inversão iniciática nesse itan que a hermenêutica Ìtànlógica evidencia: Òrúnmìlà, o mestre
de todos os Bàbáláwo, torna-se discípulo. Ele aprende com Ìyámi, a Senhora da Noite. Essa
inversão é a essência da epistemologia yorubá — o saber não é linear, é circular. O mestre precisa
aprender de novo, o alto precisa descer, a luz precisa escurecer-se. É a lei de Òyèkù sobre Ìwòrì: o
recolhimento do olhar, a humildade do verbo diante do mistério. O saber que não desce se
corrompe. O que não retorna ao ventre, seca.
Quando Ìyámi diz: “O ventre da Terra é o lugar onde tudo se cala para nascer de novo”, ela define o
próprio método do saber yorubá: o conhecimento nasce do silêncio, e não do acúmulo. Na tradição
de Ifá, quem fala demais perde o àṣẹ. A palavra precisa respirar, e a respiração da palavra é o
silêncio. A fala que não descansa na escuta morre de exaustão. É por isso que Òrúnmìlà é o oráculo:
ele fala o mínimo necessário para abrir o caminho, e o resto é silêncio. Cada òfò (encantamento),
cada òríkì (louvor), cada ìtàn (narrativa) contém pausas que são mais significativas do que as
palavras. A pausa é o lugar onde o Àṣẹ se acumula.
Na leitura antropológica profunda, esse itan é também um tratado sobre a crise do humano. O
homem moderno, saturado de fala e de imagem, perdeu o acesso ao ventre. Vive na superfície da
luz e teme o escuro, porque o escuro exige entrega. A hiperexpressão é a nova forma do medo. Fala-
se para não escutar, mostra-se para não ser visto. O silêncio, hoje, é o escândalo do sagrado.
Òrúnmìlà, ao descer ao ventre, realiza o gesto contrário: ele se cala diante do mistério e deixa que o
mistério fale. Essa atitude é o que Ifá chama de ìwà pẹ̀lẹ́ — o caráter sereno, o coração que não
disputa com o mundo.
113
Há também uma dimensão ontológica: o ventre é o espelho invertido de Òrún. Se Òrún é a luz
vertical do espírito, o ventre é a luz horizontal da matéria. O encontro entre ambos é a encruzilhada
onde nasce a existência. A sabedoria yorubá nunca separa corpo e alma, terra e céu, feminino e
masculino, visível e invisível. Tudo é vibração de um mesmo sopro. Ìwòrì Òyèkù ensina que o
espírito só se conhece quando atravessa o corpo da Terra — o saber que não encarna é ilusão, e a
matéria que não escuta é esquecimento.
O ventre da Terra, ao devorar Òrúnmìlà, ensina-lhe a lição mais alta: para compreender o segredo
do mundo, é preciso ser engolido por ele. O saber não se adquire, devora-se. A Terra é a mestra
porque engole o orgulho e devolve humildade. Ela transforma o que recebe: o corpo vira pó, o pó
vira semente, a semente vira árvore. Esse é o ciclo do conhecimento em Ifá: aprender é morrer,
morrer é transformar, transformar é renascer.
Ao retornar à superfície, Òrúnmìlà não traz respostas, traz silêncio. Sua resposta aos homens é o
gesto de plantar. “Semeia dentro de ti a semente do silêncio.” Essa é a pedagogia da
autotransformação. O homem que semeia o silêncio torna-se terreno fértil para o Àṣẹ. O silêncio é o
húmus da alma. Onde há silêncio, há germinação. Onde há ruído, há esterilidade. Por isso, o
Bàbáláwo, ao abrir o opon Ifá (a tábua da divinação), primeiro silencia. Ele não interpreta, ele
escuta o som que vem do pó.
Toda descida implica uma transformação da escuta. Òrúnmìlà, ao penetrar o ventre da Terra, deixa
de ouvir o som do mundo e começa a ouvir o som da existência. No mundo, o som é forma; na
Terra, o som é essência. Há uma diferença ontológica entre ouvir o que é dito e ouvir o que é. No
ventre, o que é ouvido não vem de fora, mas do interior da própria vibração da matéria. É como se o
cosmos, em sua densidade, respirasse dentro de Òrúnmìlà. Essa passagem do ouvir exterior para o
ouvir interior é o que em Ifá se chama ìmọ̀ inú, o conhecimento de dentro. Ele não nasce da
observação, mas da participação. O iniciado não olha o mundo, ele se torna o mundo.
114
A voz de Ìyámi Ọ̀ṣoròngá não é uma voz discursiva. Ela não ensina com palavras, mas com
vibração. Cada frase que pronuncia é um sopro que reorganiza o ser. Por isso, Òrúnmìlà não a
escuta apenas com os ouvidos — escuta com o corpo, com o sangue, com o osso. Ìyámi fala a
língua da gestação, a linguagem antes da linguagem, aquela que antecede a distinção entre signo e
sentido. É por isso que a sabedoria dela é perigosa: ela fala ao mesmo tempo à forma e ao que
antecede a forma. Seu saber é o de tornar o informe fértil.
Quando Ìyámi diz que a dor é o preço da vida, ela revela que a consciência é sempre uma ferida.
Existir é suportar o corte que separa o todo de si mesmo. A fala é a cicatriz desse corte. O homem
fala porque foi separado do silêncio, e sua fala é o eco do trauma original do nascimento. Toda
palavra carrega o lamento da unidade perdida. É por isso que o verbo humano, quando não curvado
ao mistério, é arrogante — fala para esquecer a dor. Mas o verbo de Òrúnmìlà é cura, porque fala
para lembrar. Ele não foge da ferida, ele a honra.
A descida ao ventre da Terra é o gesto de curvar-se diante da ferida. O ventre é o lugar onde o ser se
refaz ao reconhecer-se incompleto. O silêncio, nesse sentido, não é ausência de som, mas plenitude
de escuta. Ele é o estado em que o ser deixa de impor-se e se permite ser tocado pelo que o
transcende. A verdadeira escuta é vulnerabilidade. O homem que não é vulnerável não escuta; ele
apenas reage. O silêncio é a vulnerabilidade divina — o lugar em que o infinito se deixa tocar pelo
finito.
A semente dada por Ìyámi é a forma condensada dessa vulnerabilidade. Plantar a semente do
silêncio é permitir que algo que não é seu cresça dentro de você. O iniciado que planta essa semente
entrega-se à pedagogia da espera. Ele compreende que o tempo da Terra é o tempo do mistério —
lento, profundo, orgânico. No mundo da pressa, a semente parece inútil; no mundo da paciência, ela
é o centro. A sabedoria de Ifá está inteira nessa imagem: tudo o que é duradouro nasce do que é
paciente.
A hermenêutica Ìtànlógica lê esse Ìtàn como uma cosmologia da paciência. O cosmos, para existir,
precisa esperar. Olódùmarè não cria em um instante, cria em camadas. Cada gesto da criação é um
recolher e um expandir. O tempo, em Ifá, não é linear, é circular. Cada evento é retorno e
preparação. Quando Òrúnmìlà planta a semente do silêncio dentro de si, ele harmoniza-se com esse
115
ritmo. Ele deixa de agir como um deus e passa a agir como a própria Terra — aquele que recebe e
transforma.
A pedagogia de Ìyámi, portanto, é feminina não porque pertença às mulheres, mas porque é
gestacional. Ela ensina o verbo a gestar-se. Ensina que o saber precisa de um ventre, um espaço de
incubação. O erro da modernidade, na leitura Ìtànlógica, é ter perdido o ventre — ter transformado
todo saber em consumo, toda fala em ruído. A sabedoria que não passa pelo ventre não tem corpo; e
o verbo sem corpo não gera vida.
O ventre da Terra é a metáfora do corpo espiritual que sabe. Em Ifá, o corpo não é obstáculo ao
saber; é sua condição. O corpo sente o invisível, traduz o que é incomunicável. Òrúnmìlà, ao descer,
reaprende a sentir. Ele aprende que o conhecimento verdadeiro não é intelectual, é sensorial, e que o
sagrado não se explica, se percebe. O ventre é o órgão da percepção do invisível. Lá, o ser não
pensa — pulsa.
Nesse Ìtàn, o gesto de Òrúnmìlà é a reeducação do olhar. No mundo da superfície, ele vê; no ventre,
ele é visto. A Terra olha de dentro. E o olhar da Terra é o olhar que transforma o visto em parte do
olhar. O ser humano moderno, ao contrário, vê sem ser visto — e por isso o mundo se lhe torna
objeto. Para Ifá, ver sem ser visto é o pecado da consciência. O verdadeiro ver é o ver que se
reconhece olhado pelo que vê. Òrúnmìlà aprende isso no ventre. Quando Ìyámi o encara, ela o
devolve à reciprocidade do olhar. Ele vê a Mãe e é visto pela Mãe — e nesse cruzamento nasce o
conhecimento que reconcilia.
A semente do silêncio que Òrúnmìlà planta em si é também o embrião do mundo novo. É o gesto
que refunda a relação entre homem e cosmos, entre verbo e silêncio, entre ação e contemplação. O
saber que nasce dessa semente é um saber de reconciliação. Ele não divide, une; não explica,
integra. O iniciado que aprende a cultivar essa semente torna-se um espelho do ventre da Terra —
uma presença que absorve o mundo e o devolve purificado.
A hermenêutica Ìtànlógica vê nesse itan uma das formulações mais altas da metafísica yorubá: o
cosmos como útero de si mesmo. Tudo o que nasce é também gestado pelo que morre. A Terra é o
corpo do ciclo; Ìyámi é sua consciência. Ela é a senhora dos começos e dos fins, das transições e
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das travessias. Òrúnmìlà, ao se inclinar diante dela, reconhece que o saber masculino só se completa
quando se ajoelha diante do saber matricial.
Há, portanto, uma teologia do equilíbrio nesse Ìtàn. O princípio masculino — o verbo que separa —
reencontra o princípio feminino — o ventre que reúne. O cosmos só é harmônico quando ambos se
escutam. O desequilíbrio do mundo vem do fato de o verbo ter esquecido o ventre, e de a luz ter se
esquecido da sombra. A descida de Òrúnmìlà é o mito do retorno da luz ao útero, da sabedoria ao
seu silêncio.
Por isso, este itan não é apenas uma narrativa sobre Òrúnmìlà; é um mapa do processo iniciático
universal. Todo iniciado, em algum momento, precisa descer. Precisa perder a voz para reencontrar
a escuta. Precisa morrer para a palavra para renascer para o silêncio. E quando retorna, como
Òrúnmìlà, traz consigo o dom da pacificação. O saber de quem desceu é leve, porque não precisa
provar-se. Ele fala pouco, mas quando fala, o Àṣẹ flui como rio depois da chuva.
O silêncio de Ìwòrì Òyèkù não é vazio, é substância. É a matéria invisível da qual a fala nasce e à
qual retorna. Em Ifá, o silêncio é o corpo de Olódùmarè. Antes do som, havia o silêncio; antes do
nome, o sem-nome; antes da forma, a vibração pura. Òrúnmìlà, ao descer ao ventre da Terra, não
busca o nada, mas o tudo sem distinções. O silêncio é o estado absoluto em que o ser repousa em si,
antes de se fragmentar em nomes, histórias, desejos. Entrar no silêncio é retornar à origem do ser, é
experimentar a densidade divina que sustenta o cosmos.
Na cosmologia yorubá, Olódùmarè não cria a partir do verbo, mas do silêncio que precede o verbo.
O verbo é a condensação do silêncio. A fala de Olódùmarè não é uma explosão, mas um
estremecimento: o silêncio que se move. Toda criação é movimento dentro da imobilidade divina.
Por isso, o som, em Ifá, é sagrado: ele é a memória do silêncio em ação. Òrúnmìlà, ao descer à
Terra, refaz o caminho de Olódùmarè em sentido inverso: ele retorna da palavra ao silêncio, da
diferenciação à unidade. A iniciação é a inversão da criação — o caminho de volta.
A hermenêutica Ìtànlógica vê, nesse itan, a formulação mais alta da metafísica yorubá: a ontologia
do recolhimento. O ser, para Ifá, não é substância estática, mas processo dinâmico de alternância.
Tudo o que existe alterna entre manifestar-se e recolher-se. A manifestação é luz; o recolhimento é
sombra. O equilíbrio do mundo depende do respeito à sombra. O excesso de luz queima; o excesso
de sombra paralisa. O silêncio é o ponto de harmonia entre ambos — o lugar onde a luz aprende a
descansar e a sombra aprende a respirar.
Òrúnmìlà desce ao ventre para reaprender esse equilíbrio. Ele representa o princípio solar da
consciência — o verbo, a luz, o olhar — que, ao mergulhar no ventre, aprende a ser noturno. Esse
aprendizado é o que salva o mundo. Sem o equilíbrio entre dia e noite, o cosmos se exaure. Por isso,
em Ìwòrì Òyèkù, o silêncio é uma força regeneradora: ele devolve à luz sua humildade. O homem
que aprende a silenciar participa da economia cósmica da regeneração.
O silêncio, porém, não é apenas uma atitude; é uma ontologia. Ser silencioso, em Ifá, é ser pleno. O
que está completo não precisa afirmar-se. O som é a expressão da carência; o silêncio é a expressão
da suficiência. Por isso, Olódùmarè não precisa falar — sua presença é o próprio verbo. O homem
fala porque esqueceu-se de ser. A iniciação de Òrúnmìlà é, portanto, o aprendizado da suficiência
divina. Quando o iniciado aprende o silêncio, ele aprende a ser.
A semente que Ìyámi entrega a Òrúnmìlà é o símbolo dessa suficiência. Ela é pequena, mas contém
o todo. É o microcosmo do silêncio. O silêncio, como a semente, guarda em si o poder da
multiplicação. Quando se planta o silêncio, o que floresce é a palavra justa. A fala justa é a que
nasce do ventre do silêncio, e por isso carrega Àṣẹ. A fala que não nasce do silêncio é palavra morta
— vibra, mas não cria.
Há uma teologia do som e do silêncio inscrita nas entrelinhas. Se Òrúnmìlà representa a vibração
que nomeia, Ìyámi representa a vibração que acolhe. O som é o movimento de saída; o silêncio é o
movimento de retorno. Ambos são aspectos de um mesmo ritmo cósmico — o ritmo de Olódùmarè.
No princípio, o som emergiu do silêncio; no fim, o som retorna ao silêncio. O mundo existe nesse
intervalo. Cada respiração é um microcosmo desse movimento: inspirar é recolher, expirar é
manifestar. O silêncio é a pausa entre ambos — o instante sagrado em que o espírito repousa.
No contexto existencial, o itan propõe uma ética do recolhimento. O homem sábio, diz Ifá, fala
quando é necessário, cala quando é justo e escuta sempre. Falar sem escutar é profanar o Àṣẹ. O
mundo moderno fala demais porque perdeu o sagrado. O silêncio é o último refúgio da
transcendência. Aprender a silenciar é reaprender a habitar o sagrado. Aquele que fala menos vê
mais. O silêncio é o olho do coração.
Essa ética do silêncio é também uma cosmopolítica: um modo de reorganizar a relação do homem
com o mundo. O ruído é uma forma de violência; o silêncio é uma forma de justiça. O ruído impõe;
o silêncio acolhe. O ruído destrói o ritmo; o silêncio o restaura. A Terra está cansada do ruído
humano — das máquinas, das guerras, das palavras vazias. O itan de Òrúnmìlà é, portanto, também
um chamado ecológico: descer à Terra para reaprender o silêncio é reconciliar-se com ela.
No fundo, a semente do silêncio é o remédio do mundo. Ela cura o excesso de fala, o excesso de
ego, o excesso de pressa. Quando o homem planta essa semente, planta a paz. E essa paz não é
ausência de conflito, mas presença de harmonia. O silêncio de Ìwòrì Òyèkù não é o silêncio da
morte, é o silêncio da vida que se prepara para renascer.
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O silêncio não é uma virtude moral; é uma substância metafísica. Ele não é o oposto da fala, mas o
seu fundamento. Tudo o que é dito está sustentado por algo que não se diz, e o que não se diz é o
que realmente cria. O universo inteiro é sustentado por um silêncio que vibra. O som do mundo é a
superfície audível desse silêncio. Se o silêncio cessasse, o mundo se desfaria. Olódùmarè, ao criar,
não fala: vibra. A vibração é o modo de o silêncio se ouvir a si mesmo. E é nesse ponto que o itan
de Òrúnmìlà e Ìyámi revela o seu segredo: o silêncio é o corpo audível do invisível.
Òrúnmìlà aprende que o silêncio não é apenas ausência de ruído, mas presença da origem. Ele
descobre que o ser humano fala porque se afastou do centro do silêncio, e que retornar ao silêncio é
retornar à própria origem de Olódùmarè dentro de si. Esse retorno é o verdadeiro sentido da
iniciação. O iniciado é aquele que aprendeu a voltar. Ele caminha para dentro, e nesse dentro
encontra o todo. A descida ao ventre da Terra não é uma metáfora espacial: é uma topologia
espiritual. Cada camada que Òrúnmìlà atravessa é uma camada da alma humana. Ele mergulha
através do ego, do desejo, da memória, até chegar ao núcleo do silêncio, onde tudo repousa antes de
ser nomeado.
Lá, no centro, o verbo e o silêncio são um só. O verbo é o silêncio que se move, o silêncio é o verbo
que repousa. O erro humano é ter esquecido o repouso. Por isso, o homem fala incessantemente,
multiplica palavras, conceitos, ruídos — tudo para evitar o reencontro com o que o sustenta. O
medo do silêncio é o medo de Deus, o medo de Olódùmarè que habita dentro. No silêncio, não há
máscaras, não há intermediações, não há personagens. Há apenas o ser nu diante do ser. O homem
que não suporta o silêncio é aquele que ainda não se encontrou.
Há uma dimensão ética profunda nisso: o silêncio como forma de justiça. O homem que silencia
diante do outro cria espaço para que o outro exista. A palavra, quando é imposta, é dominação; o
silêncio, quando é consciente, é hospitalidade. O silêncio é o terreno em que a alteridade floresce. É
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a escuta que torna o mundo habitável. No nível cósmico, é o silêncio de Olódùmarè que permite que
o universo exista: o Criador não fala sobre sua criação, Ele a sustenta em silêncio. O silêncio é o
espaço onde o ser se dá ao outro sem se perder.
No plano cosmológico, a descida ao ventre representa o retorno do Àṣẹ à sua fonte. O Àṣẹ, energia
que move o mundo, se esgota no excesso de uso. Ele precisa recolher-se periodicamente no ventre
da Terra para se renovar. A sabedoria de Ìyámi é saber o momento da retração. Toda força que não
sabe recolher-se se destrói. O cosmos respira; cada pausa é necessária. Òrúnmìlà aprende essa
respiração e a ensina aos homens: falar e calar, agir e repousar, ascender e recolher-se. A harmonia é
o equilíbrio desses pares.
A hermenêutica Ìtànlógica vê aqui uma pedagogia espiritual de imensa delicadeza. O Ìtàn ensina
que o saber não é conquista, mas escuta. Saber não é possuir a verdade, é tornar-se receptivo à
presença dela. A verdade não é um objeto, é uma relação. E essa relação só acontece no silêncio,
porque o silêncio é o lugar do encontro. O ruído separa, o silêncio reúne. O iniciado de Ìwòrì Òyèkù
é aquele que aprendeu a reunir-se.
Mas há também um ensinamento político: o mundo está doente de ruído. A fala transformou-se em
arma. As palavras, outrora portadoras de Àṣẹ, tornaram-se projéteis. O discurso não comunica, fere.
A única forma de devolver Àṣẹ à palavra é restituí-la ao silêncio. A humanidade precisa descer ao
ventre da Terra simbólica, reaprender a escutar. A cura da palavra passa pela escuta da Terra. O
planeta inteiro clama pelo silêncio de Ìyámi — o recolhimento que regenera, o repouso que permite
o recomeço.
O Ìtàn, ao ser lido no contexto contemporâneo, revela uma sabedoria urgente: o silêncio como ato
de resistência. Em um mundo saturado de sons, o silêncio é revolução. Calar-se não é abdicar da
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voz, é proteger o espaço da escuta. É preparar o terreno para a fala verdadeira. O iniciado que
silencia não é cúmplice da opressão, mas guardião da profundidade. Ele escuta o invisível para que
o visível não se corrompa. O silêncio é o escudo do espírito contra o barulho da vaidade.
Na teologia yorubá, o silêncio é também o modo de comunicação com os ancestrais. Os mortos não
gritam. Eles falam na frequência do coração. Quem não silencia, não ouve os ancestrais. O ventre
da Terra é o lugar onde a memória fala. Escutar o silêncio é escutar os mortos, e escutar os mortos é
escutar o tempo. Aquele que escuta o tempo aprende o ritmo da eternidade. É por isso que Òrúnmìlà
desce: para reaprender o ritmo da eternidade que o ruído humano interrompeu.
O silêncio, ao fim, é a forma do amor que se tornou sabedoria. Amar é escutar. O iniciado de Ìwòrì
Òyèkù torna-se o ouvido do mundo. Ele acolhe tudo, julga nada. O silêncio é o ventre do perdão.
Nele, todas as dores se dissolvem. Òrúnmìlà retorna à superfície com o coração transformado
porque aprendeu a perdoar o mundo. O homem sofre porque fala contra a realidade; o sábio ama
porque escuta a necessidade do real. O silêncio é a escuta do real em sua nudez.
Assim, o Ìtàn termina, mas a descida nunca termina. A semente do silêncio continua germinando no
interior de cada ser. Cada vez que o homem cala por amor, a Terra floresce. Cada vez que o homem
escuta sem julgar, o cosmos se harmoniza. O silêncio é a respiração de Olódùmarè dentro do tempo.
Quando tudo cessa, o que permanece é o pulso silencioso do ser. O iniciado de Ìwòrì Òyèkù é
aquele que, tendo descido, tornou-se esse pulso.
E quando, no fim dos tempos, o som do mundo se apagar, o que restará será o silêncio original — o
ventre divino de onde tudo partiu e para onde tudo retornará. Nesse instante, o nome de Olódùmarè
será ouvido não como palavra, mas como o som da própria quietude. Então, compreender-se-á o
ensinamento de Ìyámi: que a dor é o preço do verbo, mas o silêncio é o prêmio do retorno.
Tradução:
Òrúnmìlà, em certo tempo, notou que um de seus amigos estava profundamente zangado com ele.
Buscando entender a razão, ele foi consultar Ifá.
Perguntaram-lhe: “Você já conversou com ele?”
Òrúnmìlà respondeu: “Não, ainda não disse nada.”
Então Ifá lhe revelou: “É exatamente por isso que a raiva dele é grande.
A palavra não dita pesa mais do que a palavra dita.”
Òrúnmìlà fez o sacrifício com um galo e três ovos,
e depois foi falar com o amigo, dissipando o mal-entendido.
Então o amigo respondeu:
“Ouvi tuas palavras e a minha raiva se dissolveu do meu coração.”
E Ifá declarou:
“É com a palavra dita que se desfazem os nós do conflito,
mas a palavra guardada adoece quem a retém.”
O ensinamento de Ìwòrì Òyèkù neste Ìtàn atravessa o coração do humano: a palavra é remédio e
também veneno. O silêncio, quando é recolhimento, cura; quando é repressão, adoece. Há uma
diferença sútil e decisiva entre o silêncio de Òrúnmìlà que desce à Terra para aprender o mistério do
ventre — e o silêncio do homem que se fecha para não enfrentar o mundo. Um é gesto iniciático; o
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outro, negação do próprio Àṣẹ. Òrúnmìlà aprende o silêncio como caminho da sabedoria, mas
também aprende a fala como gesto de cura. Aqui, a hermenêutica Ìtànlógica encontra o ponto de
inflexão entre os dois odù: o silêncio divino e a fala restauradora.
“Ọ̀rọ̀ tí a ò sọ ní ń dá’ni lára” — a palavra não dita pesa sobre o ser. No corpo yorubá da linguagem,
a palavra (ọ̀rọ̀) é também energia. Ela é entidade viva, força, substância sonora. Guardá-la
indevidamente é aprisionar um fluxo vital. A fala, em Ifá, é um rio — e reter o rio é adoecer o corpo
da Terra. Assim também é o coração humano: o não-dito acumula-se como lama espiritual, e a raiva
é o seu odor. Òrúnmìlà, ao perceber o rancor do amigo, busca a raiz no domínio do invisível, pois
ele sabe que toda emoção é também movimento energético. Quando Ifá lhe diz “A palavra não dita
pesa mais que a dita”, ele está afirmando que a energia retida se converte em sofrimento.
A hermenêutica Ìtànlógica lê este Ìtàn como uma ontologia do verbo. A palavra é um modo de
respiração do cosmos. Cada vez que o homem fala com verdade, ele devolve ao universo um
fragmento do sopro original. Mas quando cala por medo, orgulho ou indiferença, interrompe o
circuito vital da comunicação entre Ọ̀run e Àiyé. O que adoece o mundo não é o excesso de fala,
mas a falta de palavra verdadeira. A palavra justa é equilíbrio: nasce do silêncio, mas não se recusa
à partilha.
No Ìtàn, Òrúnmìlà não é o culpado do conflito, mas o guardião de um princípio. Ele precisa
aprender que a palavra, quando necessária, é um ato de justiça. Falar é abrir um espaço para o outro
existir. O silêncio, nesse caso, torna-se forma de negação: recusar o diálogo é negar a presença do
outro no mundo. A fala justa, no entanto, é um gesto de reconciliação. Ela dissolve a raiva porque
devolve o fluxo entre as almas. A raiva nasce da interrupção da palavra; o perdão nasce do seu
retorno.
A teologia implícita neste Ìtàn é de profunda fineza. O verbo é ponte entre mundos. Òrúnmìlà é o
senhor dessa ponte: sua palavra atravessa Ọ̀run e Àiyé, unindo-os. A perda da palavra é a perda da
ponte. Quando o homem se cala onde deveria falar, ele destrói a travessia entre os corações. O ódio,
o mal-entendido, o rancor — todos são sintomas do colapso da ponte verbal entre as consciências. A
fala, nesse sentido, é também um sacrifício: exige abrir o peito e oferecer o que estava retido.
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A oferenda de Òrúnmìlà — o galo e os três ovos — não é apenas ritual material, mas imagem do
processo interno. O galo é o som que anuncia o amanhecer: simboliza a fala que rompe a noite do
silêncio doente. Os três ovos são os três níveis da palavra — o que se pensa, o que se sente e o que
se diz. O verdadeiro falar é alinhar pensamento, emoção e expressão. Quando esses três ovos estão
íntegros, a fala é fértil; quando estão quebrados, a fala fere. Òrúnmìlà, ao sacrificar, reorganiza sua
fala no eixo da verdade.
A hermenêutica Ìtànlógica entende que todo conflito humano é, no fundo, um desequilíbrio entre
palavra e silêncio. Quando a fala se adianta ao silêncio, há ruído; quando o silêncio se prolonga
demais, há ressentimento. A sabedoria está no ritmo: saber o tempo de calar e o tempo de dizer.
Esse ritmo é o mesmo da respiração — inspirar, reter, expirar. O homem que fala sem respirar perde
o fôlego do espírito; o que respira e nunca expira apodrece de dentro.
Ifá ensina, portanto, a respiração cósmica da comunicação. Òrúnmìlà, após o sacrifício, não apenas
fala: ele purifica o ar entre os dois. Sua fala não é defesa, é oferenda. E a fala oferenda é aquela que
não busca vencer, mas reconciliar. O amigo, ao ouvir, reconhece a verdade: “Ouvi tuas palavras e
minha raiva se dissolveu.” A raiva dissolve-se quando encontra o verbo certo, porque o verbo é luz
que penetra o coração escuro.
Na leitura antropológica da Summa Ìtànlógica, este Ìtàn mostra o valor político da palavra como
gesto de reparação. Em sociedades adoecidas pela mentira, a palavra verdadeira é ato
revolucionário. Falar com retidão é devolver ao coletivo a energia do Àṣẹ. O silêncio cúmplice, ao
contrário, mantém o desequilíbrio. Òrúnmìlà, aqui, é o paradigma do intelectual de Ifá: aquele que
fala não para dominar, mas para curar a ferida do vínculo.
O Ìtàn ensina que o não dito é um peso porque o Àṣẹ ọ̀rọ̀ reprimido busca caminho. Toda energia
bloqueada torna-se sofrimento. Assim, o rancor é o eco do verbo aprisionado. Òrúnmìlà, arquétipo
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da sabedoria, compreende que a fala justa é o antídoto da amargura. Sua consulta a Ifá não é apenas
uma tentativa de resolver um conflito humano, mas uma investigação sobre a ontologia da fala — o
porquê de o silêncio, às vezes, adoecer.
Na estrutura do saber yorubá, a fala (ọ̀rọ̀) tem três dimensões: a fonética (som), a semântica
(significado) e a ontológica (força). O homem comum percebe apenas as duas primeiras; o
Bàbáláwo trabalha com a terceira. O som desperta o invisível, o sentido direciona o fluxo e o Àṣẹ
cumpre o destino da palavra. O que está em jogo, portanto, não é o conteúdo do que se diz, mas o
estado interior de quem o diz. A fala de Òrúnmìlà cura porque nasce do equilíbrio. Ele não fala para
justificar-se, mas para restaurar o fluxo interrompido.
O Ìtàn revela a função ética do verbo: falar não é apenas expressar, mas ordenar o mundo. O verbo
de Ifá é um gesto cosmológico. Quando o homem fala com consciência, ele reorganiza o real. O
mundo é palavra que se repete — e cada vez que o verbo justo é pronunciado, o cosmos se renova.
O oposto disso é o silêncio covarde, que interrompe a criação. Aquele que se cala por medo ou
rancor nega a si mesmo a oportunidade de participar do movimento criador de Olódùmarè.
Por isso Ifá diz: Ọ̀rọ̀ tí a ò sọ ní ń dá’ni lára — o que não é dito pesa no corpo porque o corpo é o
primeiro templo do som. O coração pulsa, o sangue murmura, os ossos vibram. O silêncio forçado é
uma violência contra o corpo. O corpo fala na doença o que a alma cala no medo. O Ìtàn, portanto, é
também uma medicina. A fala justa é remédio. O silêncio injusto é veneno.
Na perspectiva teogônica, o verbo é a ponte viva entre Ọ̀run e Àiyé. Em Ifá, o som é o primeiro
filho do invisível. Quando Olódùmarè suspira, o mundo nasce. Quando Olódùmarè silencia, o
mundo repousa. O homem, ao falar, participa dessa respiração divina. Cada palavra é uma miniatura
da criação. Falar é recriar o mundo. Por isso Òrúnmìlà é o guardião do verbo: sua boca é o canal por
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onde o invisível se torna audível. O Ìtàn nos recorda que guardar a palavra é reter o sopro de
Olódùmarè em si — e esse sopro, quando não expresso, retorna como peso.
Há também, nesse itan, uma pedagogia do afeto. Òrúnmìlà fala porque ama. Sua palavra é um gesto
de cuidado, e o cuidado é a verdadeira forma do saber. Falar para curar é o mais alto uso do verbo.
O Ìtàn ensina que o amor é verbo antes de ser sentimento. Amar é dizer o que precisa ser dito, na
hora certa, com o coração íntegro. O amor silencioso que não se expressa degenera em dor; o amor
falado com ego torna-se ruído. O amor de Ifá é som equilibrado: fala que nasce do silêncio, e
silêncio que acolhe a fala.
A hermenêutica Ìtànlógica vê, portanto, que a palavra não é oposta ao silêncio, mas seu fruto
maduro. O silêncio prepara o solo; a palavra é o broto. Quando se fala a partir do silêncio interior, o
verbo carrega eternidade. Òrúnmìlà fala depois de ter silenciado, e por isso sua fala é sagrada. O
homem moderno, ao contrário, fala sem jamais ter se recolhido — por isso sua fala é vazia. O Ìtàn,
lido hoje, é uma advertência: toda palavra que não vem do silêncio é ruído.
A palavra, para o saber de Ifá, é o eixo onde o mundo se mantém unido. O universo não é uma
máquina muda, mas uma conversação permanente entre os seres visíveis e invisíveis. Cada Òrìṣà é
uma forma do verbo de Olódùmarè. A criação, portanto, é um grande diálogo que nunca cessa.
Quando Òrúnmìlà fala, ele retoma o fio dessa conversação primordial. O Ìtàn de Ìwòrì Òyèkù nos
ensina que o silêncio que se nega à palavra justa rompe o tecido dessa conversação cósmica. E
romper esse tecido é criar fissura entre Ọ̀run e Àiyé.
A fala justa é uma oferenda que reata os mundos. Ela não é ruído, mas vibração equilibrada. É o
Àṣẹ ọ̀rọ̀ que reconstitui a ponte quebrada. Essa ponte é o que os antigos chamam ọ̀nà ọ̀rọ̀, o
caminho da palavra, uma estrada invisível por onde transitam as intenções, os afetos e as orações.
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Todo ser humano, ao nascer, recebe a capacidade de falar, mas poucos aprendem a percorrer essa
estrada com consciência. Falar, para Ifá, não é emitir sons, mas deslocar energia. A palavra que cura
é aquela que se move de Ọ̀run ao Àiyé e retorna purificada pela escuta.
Escutar é a metade esquecida do verbo. Na cosmologia yorubá, a escuta é um ato sagrado, porque
nela se dá a hospitalidade do ser. A escuta é o espaço em que o outro pode nascer. A fala sem escuta
é tirania sonora. Quando Òrúnmìlà decide falar com o amigo, ele o faz porque está pronto para
escutar a dor que não foi dita. Esse gesto é o verdadeiro sacrifício. Sacrificar é abrir-se à escuta. A
escuta é a oferenda que restitui a harmonia.
O Àṣẹ ọ̀rọ̀, ao ser pronunciado em equilíbrio, reorganiza não apenas os afetos, mas o próprio campo
vibratório do mundo. O verbo é força que atua na matéria. O mundo é moldado pela fala dos seres.
Cada palavra justa sustenta uma forma; cada palavra injusta a destrói. É por isso que o Ìtàn adverte:
a palavra não dita pesa — porque o que não é dito, e deveria sê-lo, deixa de cumprir sua função de
equilíbrio no cosmos. O peso do não dito é o peso da criação suspensa.
O silêncio necessário é o da escuta; o silêncio nocivo é o da fuga. Òrúnmìlà ensina que o silêncio
verdadeiro não se opõe à fala, mas a prepara. Toda fala sagrada é precedida de recolhimento, assim
como toda colheita depende da gestação. A fala, quando emerge do silêncio, é ato criador. A fala,
quando emerge do medo, é ruído. O Ìtàn 3 mostra o momento exato em que o silêncio, antes
medicinal, torna-se obstáculo. A cura está em saber quando o verbo deve nascer.
A ética da fala justa, portanto, é a arte de sincronizar verbo e destino. Essa ética não se reduz à
moral da verdade: ela é ontológica, pois trata da correspondência entre o som e o ser. Quando o som
expressa o ser, há harmonia. Quando o som se afasta do ser, há dissonância. A mentira é a
dissonância do verbo. O Ìtàn de Ìwòrì Òyèkù propõe o retorno à consonância primordial, em que
cada palavra é eco do real.
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Mas há também uma dimensão política profunda nessa cosmologia do verbo. A palavra, quando
justa, é fundamento da ordem social. As cidades adoecem quando perdem o ritmo da fala justa. O
excesso de discursos sem alma cria o vazio onde o poder se corrompe. O sábio, ao contrário, fala
pouco, mas cada palavra sua é semente. Ifá é uma pedagogia da economia verbal: não desperdiçar o
som, não profanar o Àṣẹ. Por isso, Òrúnmìlà fala apenas quando necessário — e, ao falar, regenera
o vínculo.
Assim, o Ìtàn 3 de Ìwòrì Òyèkù nos conduz à compreensão de que o mundo é um texto sonoro que
se lê com os ouvidos do espírito. Cada palavra humana repercute nesse texto universal. Quando
falamos, interferimos na tessitura do cosmos. A fala justa é aquela que se ajusta ao tom do mundo.
O verbo desajustado cria dissonância, e a dissonância gera sofrimento. Falar, portanto, é um ato de
afinação. O Bàbáláwo é o afinador da fala. Ele aprende a distinguir o som do ego e o som do
espírito.
O silêncio e a fala, assim compreendidos, não são polos opostos, mas fases de um mesmo
movimento cósmico. O silêncio é a noite do verbo; a fala é o seu amanhecer. A criação alterna entre
ambos, como o coração que contrai e expande. O homem que aprende esse ritmo torna-se
harmônico com Olódùmarè. O homem que o perde vive em conflito. Òrúnmìlà, ao restaurar a fala
justa, volta a pulsar no ritmo do divino.
A palavra nasce do sopro e o sopro vem do invisível. Toda palavra pronunciada é um eco de algo
que foi respirado antes no seio de Ọ̀run. O homem fala porque o universo falou primeiro. O que
distingue o sábio é que ele lembra. O esquecido fala de si mesmo; o sábio fala do invisível. Por isso
Òrúnmìlà é chamado de Akéréfinúṣọ̀gbón — o pequeno que contém sabedoria no ventre. Sua voz é
pequena, mas o que fala através dela é o ilimitado. O Ìtàn nos ensina que, quando ele desce para
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falar com o amigo, não é apenas Òrúnmìlà quem fala, mas o sopro do cosmos que deseja
restabelecer sua harmonia em miniatura.
A palavra justa é uma forma de justiça cósmica. Dizer é restituir o equilíbrio. O universo, na visão
Ìtànlógica, é uma rede de ressonâncias: cada coisa vibra com todas as outras. Quando uma dessas
vibrações se perde, o som geral se torna imperfeito. A fala, quando emerge do ser alinhado ao seu
òrì, é o gesto de recolocar o mundo em sintonia. O silêncio, quando maduro, prepara essa
restauração. Mas o silêncio que se prolonga por medo é o som interrompido antes de cumprir sua
função de retorno. O sofrimento humano nasce dessa interrupção: o que não se diz continua pedindo
passagem na carne.
Falar, assim, é libertar o invisível cativo. Por isso o verbo é rito. Toda fala verdadeira é sacrifício de
ar, de alma e de memória. O que se pronuncia, se entrega. E toda entrega liberta o caminho entre
Ọ̀run e Àiyé. Òrúnmìlà oferece palavras como se oferece um galo: o sangue do verbo é o som, e o
som alimenta o céu. Quando o amigo o escuta e diz “Ouvi tuas palavras e minha raiva se
dissolveu”, o que se dissolve não é apenas a raiva — é o nó energético que prendia os dois mundos.
O perdão, em Ifá, é o retorno do fluxo vital.
No plano da alma, essa respiração é o que os antigos chamavam ìmì àṣẹ — o sopro do poder. Cada
vez que o homem fala com consciência, ele reanima o seu Àṣẹ. Cada vez que fala sem presença, ele
o dispersa. O corpo do iniciado é feito para conter e distribuir esse sopro. O Bàbáláwo, ao
pronunciar versos de Ifá, não apenas recita: ele insufla o mundo de novo com o sopro de Ọ̀run. A
palavra, nesse nível, é medicina do invisível. A cura é a reorganização do som primordial dentro da
carne.
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Mas há uma dimensão ainda mais sutil: o verbo não é apenas som, mas luz. Toda palavra carrega
uma centelha de claridade. A fala justa ilumina porque reconecta o homem ao ritmo luminoso de
Olódùmarè. O silêncio, quando verdadeiro, é o espaço dessa luz. O verbo é o raio; o silêncio é o
céu. Quando Òrúnmìlà fala, ele rasga o véu da escuridão da mágoa e deixa a luz atravessar. A raiva
se dissolve porque a luz entrou. A palavra é o clarão que abre caminho à consciência.
O Ìtàn 3 de Ìwòrì Òyèkù é também uma meditação sobre o perdão como tecnologia espiritual.
Perdoar é restaurar o fluxo interrompido da palavra. O rancor é o verbo que não foi dito, o amor que
não encontrou voz. Òrúnmìlà ensina que o perdão começa com o dizer. Não há perdão mudo. O
perdão se realiza no som: o Mo ti gbọ́ ọ̀rọ̀ rẹ̀ (“Ouvi tuas palavras”) é o momento exato em que o
cosmos se reconcilia. O perdão é a resposta sonora do universo ao verbo que o curou.
A Summa Ìtànlógica lê esse momento como a reabertura do circuito entre o humano e o divino. A
raiva é uma forma de fechamento: ela interrompe o sopro. O verbo, quando volta a circular, reabre o
caminho. É por isso que Ifá afirma: “É com a palavra dita que se desfazem os nós do conflito.” A
fala não é uma opção moral, mas uma exigência energética. O nó que se desfaz na fala é o mesmo
que se desfaz na alma.
No fim, o ensinamento de Ìwòrì Òyèkù é que o homem é feito de sons guardados. A iniciação, em
seu sentido mais elevado, é o aprendizado de libertar esses sons. Cada Òdù é uma forma do som
primordial. Aprender Ifá é reaprender a falar com o universo. Cada Ìtàn é um exercício de
respiração entre o visível e o invisível. Falar com verdade é tornar-se canal de Olódùmarè.
Quando o sábio diz, ele não fala: ele permite que a fala aconteça através dele. Esse é o estado
supremo de Òrúnmìlà — o homem tornado voz do próprio silêncio. O Ìtàn termina, portanto, não
com a palavra, mas com o retorno ao recolhimento. O verbo, tendo cumprido sua missão, repousa
novamente no seio do silêncio de onde veio. O silêncio e a palavra se tornam indistintos, como o dia
que volta a ser noite para nascer de novo.
Ìwòrì Òyèkù nos ensina que viver é falar com o cosmos sem ruído. Cada respiração é um diálogo,
cada gesto é um verso. A verdadeira sabedoria não está em dizer muito, mas em dizer no ritmo do
coração do mundo. A fala justa é a respiração de Olódùmarè que passa pelo corpo humano. Quando
o homem reencontra esse ritmo, o universo volta a sorrir.
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Ìtàn 4 – Ìwòrì Òyèkù
Ẹni tó bá bẹ̀ Ifá pẹ̀lú ìtẹ́lọ́run, àyànmọ̀ rẹ̀ yóò yí padà (Aquele que consulta Ifá com serenidade
transforma o seu destino)
Tradução:
Este Ìtàn é uma meditação sobre a natureza de ayànmọ̀ — o destino — e sobre o poder da
serenidade (ìtẹ́lọ́run) como instrumento de sua transmutação. Ìwòrì Òyèkù revela aqui um dos
princípios mais profundos da filosofia de Ifá: que o destino não é uma prisão, mas uma vibração que
responde à qualidade do coração. Aquele que se aquieta muda o som de sua própria existência, e o
mundo, ao ouvi-lo, muda também. Òrúnmìlà, símbolo do conhecimento, é também o arquétipo do
inquieto, aquele que sente o peso do invisível sobre os ombros. Mesmo o mais sábio dos sábios
treme diante da estrada que o òrì traçou. Mas é nesse tremor que nasce a verdadeira sabedoria.
A consulta de Òrúnmìlà é o espelho do drama humano: a busca por sentido em meio à instabilidade
da vida. O caminho da existência — ò ̣nà ayé — é descrito como “estrada traçada sobre o vento”. É
uma imagem de vertigem: a vida como algo instável, flutuante, incapaz de sustentar-se por si. Nesse
instante, o medo do destino é o medo do indeterminado. Òrúnmìlà teme o próprio Àṣẹ que o habita,
pois sabe que o poder de criar é também o poder de destruir. Mas Ifá lhe responde com uma
prescrição paradoxal: a cura do movimento é o repouso.
O sacrifício pedido — “beber água com terra ainda intocada pela lâmina” — é um gesto simbólico
de reintegração. A água é o princípio da fluidez, a terra é o princípio da forma. Beber ambos é
reconciliar o que se dispersa com o que se fixa. A lâmina — adá — é a ferramenta humana que
corta, que separa. A terra intocada é o solo que nunca foi violentado pelo gesto utilitário. Tomar dela
é retornar ao estado primordial de pureza, quando o mundo ainda era uno. Òrúnmìlà bebe essa união
e se pacifica: o cosmos volta a respirar dentro dele.
A serenidade (ìtẹ́lọ́run) é, nesse Ìtàn, o estado espiritual em que o ser reencontra o ritmo do Ọ̀run.
Não é passividade, mas potência calma. O ser sereno não foge do destino, mas o habita com
dignidade. Ele compreende que o destino não é punição, é campo de aprendizado. A serenidade é a
lucidez de quem vê o jogo das forças sem se confundir com elas. Òrúnmìlà descobre, ao fim, que
não há certeza fora da serenidade, pois tudo o mais é vento.
A hermenêutica Ìtànlógica lê aqui uma ontologia do repouso. O mundo de Ifá não é feito apenas de
movimento, mas também de pausa. O repouso é o lado oculto da criação. Quando o homem se
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inquieta, ele se desencontra do tempo do cosmos. Quando se serena, ele volta a participar do fluxo
invisível que ordena todas as coisas. A serenidade é a frequência do Ọ̀run dentro do Àiyé. Ser
sereno é vibrar no compasso de Olódùmarè.
A teologia implícita neste Ìtàn é a de que o destino se revela conforme o estado vibratório do
sujeito. O mesmo caminho pode ser inferno ou bênção, dependendo da consciência de quem o
percorre. Òrúnmìlà aprende que o segredo da transformação não está em mudar o caminho, mas em
mudar o modo de caminhar. O homem que anda apressado multiplica as pedras; o homem que anda
sereno transforma cada pedra em ensinamento. Ìtẹ́lọ́run é a alquimia do passo.
O fato de Òrúnmìlà beber água e terra mostra que a serenidade não é uma abstração espiritual, mas
um estado encarnado. É no corpo que se faz a paz. O corpo é o templo onde Òrúnmìlà bebe o
cosmos. A terra entra, a água entra, e o corpo se torna continente do equilíbrio. O corpo, no
pensamento de Ifá, é o altar do destino. Quando o corpo se tranquiliza, o destino se reorganiza.
Ifá afirma: “Aquele que consulta Ifá com serenidade transforma o seu destino.” A consulta (bẹ̀ Ifá) é
aqui uma metáfora para o viver. Consultar é escutar. Viver é escutar o invisível. O homem sereno
escuta o destino sem medo, e por isso o transforma. O homem inquieto tenta controlar o destino e o
aprisiona. O primeiro coopera com o Ọ̀run; o segundo o desafia. O destino, como vento, se curva
diante do que é leve e resiste ao que é rígido. A serenidade é a leveza que vence o destino.
A serenidade, ìtẹ́lọ́run, não é ausência de emoção, mas domínio sobre o movimento interior. O
homem sereno não é aquele que não sente, e sim aquele que sente sem se perder no sentir. Em Ìwòrì
Òyèkù, o próprio Òrúnmìlà, senhor da sabedoria, sente o medo do destino — o mesmo medo que
pulsa em todos os seres dotados de consciência. O medo é a sombra do saber. Quanto mais
profundamente se conhece o mistério, mais se percebe a vertigem do invisível. Mas a serenidade
nasce justamente nesse ponto em que o saber e o medo se olham e se reconhecem. Òrúnmìlà não
nega o medo, ele o escuta; e ao escutá-lo, dissolve-o.
É por isso que o texto diz que ele “temia o caminho de seu destino”. O caminho do destino é o
caminho de volta a Olódùmarè, e toda volta implica atravessar as zonas onde o homem se encontra
com seus próprios fantasmas. Òrúnmìlà sente o vento — ẹ̀fú̀ nfú — que o desestabiliza. Este vento
não é apenas o vento físico, mas o sopro da impermanência que habita todas as coisas criadas. Tudo
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que nasce é tocado pelo vento da mudança, e é natural que a alma, ao perceber isso, se angustie. O
erro está em confundir o vento com o fim, o movimento com a ameaça. O vento é o mensageiro do
equilíbrio dinâmico, e o homem sereno aprende a dançar com ele.
Beber água e terra é, no vocabulário do Ifá, um modo de interiorizar o mundo. A água representa o
fluxo da vida — omi ayé — e a terra representa o assentamento — ilé àṣẹ. Quando Òrúnmìlà
mistura ambos, ele une o transitório e o permanente, o tempo e o espaço, o devir e o ser. A terra não
tocada pela lâmina indica um retorno ao princípio antes da interferência humana, um retorno ao
estado primordial de pureza ontológica. Esse gesto, portanto, é o gesto do iniciado que recomeça o
mundo dentro de si. Ao beber, Òrúnmìlà não consome matéria: consagra-se ao equilíbrio.
A serenidade é, assim, o estado em que o sopro vital do homem e o sopro do cosmos se tornam um
só. É a coincidência entre Èmí ẹni (o espírito pessoal) e Èmí Olódùmarè (o espírito divino). Quando
esses dois sopros se alinham, o destino se torna maleável. O que era obstáculo torna-se passagem. O
que era peso transforma-se em sustentação. O ayànmọ̀, que parecia traçado em pedra, revela-se
traçado em vento. O vento é forma de liberdade.
O Ìtàn indica que o destino não muda porque o mundo muda, mas porque o homem muda a maneira
de se relacionar com o mundo. A serenidade é a chave dessa mudança. O ser sereno não busca
vencer o destino: ele o atravessa. Ele entende que o destino é uma linguagem, e que a paz é a única
tradução fiel do Ọ̀run no Àiyé. O destino é o texto, e o homem é o leitor. Mas se o leitor lê com
pressa, o texto se confunde. O que o Ìtàn ensina é que a serenidade é o ritmo certo da leitura da
vida.
Há, nessa sabedoria, uma revolução silenciosa. O mundo moderno busca mudar as condições
exteriores — mudar o trabalho, o corpo, a cidade — mas Ifá ensina que o verdadeiro poder está em
mudar o estado interior. Quando o coração se pacifica, o mundo ao redor muda de forma. O que se
via como ameaça passa a ser entendido como lição; o que parecia castigo se torna oportunidade. A
serenidade é o olhar do Òrìṣà dentro do homem. Ver com serenidade é ver com os olhos de
Òrúnmìlà.
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece nesse Ìtàn a fundação de uma psicologia espiritual iorubá. A
alma humana, ao permanecer em desequilíbrio, cria interferência em seu próprio campo de Àṣẹ. O
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Àṣẹ responde ao estado do coração, como o tambor responde à mão do tocador. Um coração agitado
produz sons confusos; um coração sereno produz música. Òrúnmìlà, ao beber a mistura de água e
terra, reorganiza o ritmo de seu tambor interior. Ele se afina com o cosmos. A paz que ele sente não
é ausência de movimento, mas perfeita harmonia entre o ritmo interno e o ritmo do mundo.
É por isso que ele declara: “Neste mundo, nada é mais certo do que a serenidade.” Essa frase é o
eixo filosófico do Ìtàn. No mundo de Ifá, onde tudo é movimento e transformação, a única certeza
possível é o estado de quem observa o movimento sem se confundir com ele. O mundo é rio; a
serenidade é a margem. O rio corre, a margem permanece. Mas a margem, sem o rio, seria apenas
poeira. Assim também o ser sereno: ele não nega o fluxo, mas se coloca onde o fluxo se torna
compreensível.
A serenidade é a ciência do ritmo. É o conhecimento intuitivo do tempo exato das coisas. Ifá ensina
que cada evento da vida tem seu tempo de germinação, seu tempo de flor e seu tempo de queda. O
homem impaciente colhe antes do tempo e planta em terreno frio. O sereno espera a hora do
orvalho. A serenidade é, portanto, também sabedoria agrícola, uma sabedoria do solo e do tempo. O
homem que se harmoniza com o tempo deixa que o próprio Ọ̀run o cultive.
O verbo ìtẹ́lọ́run vem de itẹ́ (assento, lugar de repouso) e ọ́run (céu, mundo espiritual). O próprio
vocábulo contém uma cosmologia: serenidade é o assento do céu dentro do homem. Quando
Òrúnmìlà encontra a serenidade, ele assenta o céu em seu coração. O Ọ̀run se acomoda nele. Essa é
a experiência suprema da iniciação: tornar-se o lugar onde o divino repousa. O destino se
transforma não porque o homem luta contra ele, mas porque ele se torna transparente o bastante
para que o divino aja através dele.
Ifá ensina que o mundo não é vencido pela força, mas pelo equilíbrio. A força move, o equilíbrio
sustenta. Aquele que busca mudar a própria vida sem serenidade cria tempestade; aquele que muda
com serenidade cria aurora. O Ìtàn, portanto, é um tratado sobre a arte de criar amanheceres dentro
da própria alma.
O ayànmọ̀ não é um decreto fixo, mas uma vibração que procura consonância. Ele responde ao tom
da alma. Quando a alma vibra em desordem, o destino manifesta-se como obstáculo; quando vibra
em harmonia, o destino manifesta-se como caminho. Por isso, Òrúnmìlà não tenta discutir com o
destino, ele o sintoniza. A serenidade é a música da aceitação: não a resignação do fraco, mas o
reconhecimento do ritmo que sustenta o mundo. O ser sereno não se curva — ele se alinha.
A palavra ayànmọ̀, em sua etimologia, traz a ideia de “aquilo que foi moldado e enviado”. O
homem recebe o molde do seu destino antes de nascer, mas o modo como esse molde se enche
depende de sua conduta e de sua vibração. O molde é estrutura; o conteúdo é movimento. Se o
homem se agita, o conteúdo se entorna. Se o homem se serena, o molde se preenche sem
transbordar. A serenidade, então, é o estado em que o homem permite que o destino o preencha sem
resistência.
Beber a mistura de água e terra é mais do que um ato ritual: é o gesto de incorporar o mundo. O
iniciado bebe a criação para lembrar que ele mesmo é criação. Ele bebe a água que corre — imagem
de Ìyá Òsún, senhora do fluxo, — e a terra que sustenta — imagem de Onílẹ̀, mãe da estabilidade.
O que o Ìtàn ensina é que a serenidade é o ponto onde Òsún e Onílẹ̀ se encontram dentro do
homem. Quando o fluxo encontra o chão, nasce o rio que canta. Quando a fluidez encontra o
repouso, nasce o equilíbrio.
Na teogonia de Ifá, Olódùmarè é o repouso absoluto. Ele é o silêncio antes de todo som, o centro
imóvel do círculo da criação. Os Òrìṣà são movimentos desse repouso, fragmentos da calma que se
tornaram força e gesto. Quando o homem se serena, ele retorna ao ponto de origem, ao centro. O
homem agitado vive na periferia do círculo, arrastado pelas forças; o homem sereno volta ao eixo,
onde todas as forças se equilibram. Essa é a geometria sagrada do destino: quanto mais o ser se
aproxima do centro, menos é dominado pelas circunstâncias.
É isso que significa “Aquele que consulta Ifá com serenidade transforma o seu destino”. A consulta
é o movimento de retorno ao centro. Ifá é o oráculo porque é o ponto fixo que escuta o movimento
do mundo. Consultar Ifá é sentar-se diante do eixo da criação. Fazer isso com serenidade é entrar na
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frequência desse eixo. O que muda o destino não é o oráculo em si, mas o estado de quem o escuta.
A resposta de Ifá ressoa de acordo com a vibração de quem pergunta.
O Ìtàn, lido por essa chave, é uma pedagogia do ouvir. A serenidade é a escuta do destino. O homem
que ouve com o coração quieto compreende que o destino não fala em ordens, mas em ritmos. O
destino não grita: ele sussurra. Só o sereno pode escutar. Por isso, Òrúnmìlà, ao acalmar-se, entende
que a incerteza do mundo não é ameaça, é linguagem. O vento que antes o assustava agora o
embala. O mesmo vento que o fazia temer, agora o faz dançar.
A filosofia de Ifá ensina que o saber não é acúmulo, é equilíbrio. Saber é permanecer centrado no
meio da tempestade. O Bàbáláwo é o guardião dessa postura: ele aprende a ver o movimento sem
mover-se com ele. Seu saber é circular como o Òpón Ifá, cuja forma redonda representa o mundo e
o olho de Olódùmarè que observa sem intervir. O conhecimento, quando se torna sereno, deixa de
ser busca e se torna contemplação. Òrúnmìlà, ao beber a mistura, deixa de procurar o sentido da
vida: ele o saboreia.
Há uma dimensão política profunda nessa serenidade. Em sociedades construídas sobre a pressa e a
competição, ser sereno é um ato de resistência espiritual. O sistema exige agitação, e o homem que
se acalma ameaça sua lógica. A serenidade é subversiva porque retira do poder externo o direito de
determinar o ritmo do ser. O sereno é livre porque nada o apressa. Ele vive segundo o tempo do
Ọ̀run, não segundo o tempo do mercado. A serenidade é, portanto, um gesto de descolonização do
tempo.
A Summa Ìtànlógica lê esse Ìtàn como um tratado de libertação ontológica. O homem liberta-se do
destino não quando o desafia, mas quando o entende. O que o Ìtàn mostra é que o sofrimento nasce
da ignorância sobre o ritmo do real. Sofremos porque queremos que o rio pare. Mas o rio não para.
Sofremos porque queremos que o sol nasça antes da hora. Mas o sol tem seu tempo. O homem
sereno é aquele que entende o compasso do universo e se move dentro dele. Ele não é passivo: ele é
dançarino de um ritmo maior.
Quando Òrúnmìlà bebe a mistura e sente a calma descer sobre si, ele percebe que o conhecimento
sem serenidade é incompleto. Saber sem repousar é acumular vento. A verdadeira sabedoria é a que
transforma o saber em repouso. O sábio é aquele que aprendeu a respirar o mundo. Cada inspiração
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é um sim à existência; cada expiração, uma entrega. O saber que não respira vira orgulho; o saber
que respira se transforma em paz.
O ayànmọ̀ muda porque o homem, ao se serenizar, muda o centro de onde emite suas vibrações. A
realidade, em Ifá, é uma rede de ressonâncias. O que vibra em harmonia atrai harmonia; o que vibra
em desordem convoca desordem. A serenidade é o estado em que o homem se torna fonte de
harmonia. O destino se reordena porque o universo responde ao tom do coração. O homem sereno é
ouvido pelo cosmos, e o cosmos lhe responde com suavidade.
Assim, a serenidade é mais do que um estado interior: é uma força cósmica que reconfigura o real.
O que muda não é o que acontece, mas o modo como acontece. O homem sereno transforma até a
dor em sabedoria, o obstáculo em iniciação. A serenidade é a alquimia do destino.
Quando Ifá declara: “Aquele que consulta Ifá com serenidade transforma o seu destino”, não está
oferecendo uma promessa moral, mas descrevendo uma lei metafísica. O destino, ayànmọ̀, é
vibração em busca de coerência. O ser humano é a harpa que ressoa essa vibração. Se as cordas
estão tensas demais, o som se rompe; se estão frouxas, o som se apaga. A serenidade é a justa tensão
entre o fazer e o deixar-ser. O homem que vive nesse equilíbrio deixa o universo tocar através de si
a melodia do seu próprio desígnio.
O repouso de Olódùmarè não é inércia, é plenitude. O homem sereno participa dessa plenitude. Ele
sente o mundo mover-se, mas em seu interior nada se perturba. A vida continua a trazer alegrias e
dores, mas essas experiências já não o arrastam — passam por ele como o vento que curva a folha
sem arrancá-la. A serenidade é a arte de curvar-se sem quebrar, de permanecer inteiro no meio das
transformações. Esse é o verdadeiro poder: não o de dominar as circunstâncias, mas o de
permanecer luminoso dentro delas.
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No centro da serenidade está a aceitação profunda da interdependência. O homem sereno sabe que
nada existe isolado: tudo é parte de um ritmo maior. O sofrimento nasce da ilusão de separação. O
sereno vê-se como célula do corpo cósmico de Olódùmarè; por isso não luta contra o fluxo, porque
sabe que o fluxo é ele mesmo. Ele é o rio e a margem, o sopro e o silêncio, o tempo e o eterno. A
serenidade é o reconhecimento dessa unidade.
Beber a mistura de água e terra é, então, o sacramento dessa unidade. A terra representa o corpo; a
água, o espírito. Quando Òrúnmìlà as une e as ingere, ele dissolve a dualidade. É a comunhão
primordial, o retorno à integridade. É o gesto em que o humano e o divino voltam a ser uma única
substância. Por isso, após beber, ele diz: “Neste mundo, nada é mais certo do que a serenidade.” O
que ele experimenta é o retorno ao ponto em que o ser já não se opõe ao seu destino.
Essa confiança não é ingênua: é lucidez profunda. O sereno sabe que tudo o que acontece tem
sentido, mesmo quando não o entende. Ele confia porque reconhece que há um ritmo maior
sustentando o universo. Esse reconhecimento é a verdadeira fé de Ifá — não crença em algo fora de
si, mas escuta do ritmo de Olódùmarè dentro de si. A fé é a serenidade em ato.
O mundo moderno perdeu essa fé porque perdeu a serenidade. Vive em agitação permanente,
confundindo movimento com vida, ruído com presença. O homem agitado vive exilado de si,
sempre à procura de algo que o complete. O homem sereno vive centrado, porque descobriu que
nada lhe falta. O destino do homem moderno é a inquietação; o destino do iniciado é o repouso. Por
isso, o Ìtàn é também um mapa para o retorno à inteireza.
O saber de Òrúnmìlà, nesse contexto, é o saber do corpo pacificado. O corpo em paz é o espelho da
ordem universal. O corpo tenso interrompe o fluxo do Àṣẹ; o corpo relaxado o deixa passar. O sábio
respira com a Terra, não contra ela. O homem agitado quer impor sua vontade; o homem sereno
deixa a vontade do Ọ̀run agir através dele. Ele é o canal transparente do poder divino.
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Essa transparência é o que Ifá chama de ìmúlè ̣ — a firmeza espiritual que nasce do assentamento
interior. A serenidade é a forma mais alta de ìmúlè ̣. É o assentamento invisível do céu no peito.
Quando o homem atinge esse ponto, não há mais diferença entre o que deseja e o que acontece:
tudo o que ocorre é expressão da sua harmonia. O destino, então, deixa de ser uma força externa e
torna-se extensão do seu próprio ser.
O repouso de Olódùmarè manifesta-se no sereno como alegria sem causa. Essa alegria não depende
de resultados, porque nasce do simples fato de existir. O sereno vive a gratidão como respiração.
Ele agradece porque compreende que cada instante é a prova do amor do invisível. Viver é ser
amado por Olódùmarè, e perceber isso é o ápice da sabedoria.
O Ìtàn encerra-se nesse reconhecimento. Òrúnmìlà, tendo bebido o mundo, torna-se o mundo. Ele
não teme mais o caminho do destino, porque o destino já não é caminho — é ele mesmo
caminhando. A estrada de vento agora é seu próprio sopro. O que antes era incerteza torna-se
confiança, o que antes era medo torna-se canto. A serenidade é a música que o medo canta quando
se lembra de quem é.
Assim, Ìwòrì Òyèkù nos ensina que transformar o destino é transformar o olhar. O mundo é o
mesmo, mas o ser sereno o vê de outro modo. Ver com serenidade é ver com o olho de Ọ̀run.
Aquele que alcança esse olhar torna-se coautor da criação. O destino não mais o arrasta: ele o
escreve. O homem sereno é o escriba de seu próprio ayànmọ̀, porque escreve com a caligrafia de
Olódùmarè.
E quando a serenidade se instala, o silêncio volta a ser o que era no princípio: o ventre onde todas as
palavras dormem. A voz cala, mas o mundo continua a cantar dentro do ser. O círculo se fecha: o
verbo volta ao silêncio, o movimento volta ao repouso, o homem volta ao seio do divino. Ìwòrì
Òyèkù conclui-se no retorno: o destino transforma-se em repouso e o repouso transforma-se em
destino.
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4. Ìwòrï Òdì
Tradução:
A travessia é o gesto primordial da existência. Todo ser, ao nascer, atravessa o invisível. A vida é o
movimento de passagem entre Ọ̀run e Àiyé, e cada passo é uma lembrança desse trânsito original.
Ìwòrì Òdì nos ensina que a sabedoria não está em evitar o caminho, mas em conhecê-lo. O
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conhecimento do caminho é o conhecimento de si, pois o caminho que conduz o homem é o mesmo
que ele traça ao caminhar. Não há estrada fora do ser. Òrúnmìlà parte para Ìkàró — metáfora do
mundo —, mas sua viagem é também uma descida ao interior da própria consciência. O sacrifício,
ẹbọ, em Ìwòrì Òdì não é mera oferenda material, mas o gesto arquetípico de reconciliação entre o
caminho visível e o invisível que o sustenta. É o ato pelo qual o homem restabelece a harmonia
entre a direção da vida e o propósito do espírito.
Na hermenêutica Ìtànlógica, o verbo “conhecer” não significa apreender racionalmente, mas tornar-
se íntimo de algo por comunhão de presença. Conhecer o caminho é escutá-lo, deixá-lo falar sob os
pés, pois o caminho é voz subterrânea do Òrìṣà Èṣù, guardião das passagens e mediador dos
destinos. Quem oferece o sacrifício ao caminho oferece, em verdade, um reconhecimento à
alteridade: o saber que o leva não lhe pertence, é emprestado pela terra que pisa. Assim, Ìwòrì Òdì
propõe uma filosofia da humildade ontológica, onde o viajante é menos aquele que se desloca e
mais aquele que se deixa conduzir. No itinerário de Òrúnmìlà, a jornada a Ìkàró é a própria
iniciação do verbo no mistério da escuta: o sábio só se torna sábio quando aprende a ouvir o chão
do mundo. Em Ifá, a escuta é o início de toda sabedoria, pois ela abre o espaço para o diálogo entre
o ser e o invisível.
A passagem por Ìkàró é, na leitura Ìtànlógica, a descida do verbo ao campo das sombras, onde se
confronta com os àjé e os espíritos desordenados. São as forças da dispersão, da dúvida, da
distração — aquilo que faz o homem perder o rumo do seu próprio destino. O ẹbọ atua, então, como
gesto de centralização espiritual, um modo de fixar o orí (a consciência) na direção correta. Por
isso, Ifá não promete a ausência de perigos, mas a capacidade de atravessá-los com lucidez. O
mundo não é seguro; o conhecimento do caminho não elimina as tempestades, apenas ensina o
ritmo da travessia. A sabedoria de Òrúnmìlà é dançar com o imprevisto sem perder o compasso do
espírito. Ele sabe que o caminho é espiral, nunca linear. Em cada curva, o ser reencontra uma antiga
forma de si mesmo, e a cada retorno o invisível se adensa. Caminhar é lembrar.
A declaração final — “Aquele que conhece o caminho jamais se perde no mundo” — é, em sua
profundidade, uma fórmula de proteção metafísica. O conhecimento do caminho não é mapa, é
presença. E quem está presente não se perde. Na leitura Ìtànlógica, perder-se é perder o centro, o
orí; é esquecer-se de que o caminho exterior é apenas o reflexo do percurso interior. O que se chama
desorientação é apenas o eco de uma ruptura ontológica. Por isso, o Ìtàn ensina que a verdadeira
bússola é o coração alinhado ao propósito do Òrìṣà. Todo desvio nasce do esquecimento do àṣẹ que
sustenta o passo. Conhecer o caminho é recordar o pacto ancestral entre o homem e a terra. O chão
não é obstáculo, é escritura viva do destino.
O caminho, diz Ifá, é também um corpo. E como todo corpo, ele tem memória. Cada passo que o
homem dá imprime no solo uma vibração, e essa vibração responde no ritmo do cosmos. Nenhum
deslocamento é inócuo: todo movimento é uma escrita no tecido do mundo. Assim, quando
Òrúnmìlà coloca seu ẹbọ à beira da estrada, ele não apenas oferece, mas inscreve-se novamente na
sintaxe cósmica do ser. O ẹbọ é uma frase dita em silêncio, uma oração feita em matéria. É o modo
pelo qual o invisível reconhece no visível a sua própria sombra. Por isso, o que se perde na vida não
é o caminho, mas o laço com sua gramática sagrada. O erro humano, ensina Ìwòrì Òdì, é caminhar
sem escutar o eco dos passos no solo do Àiyé. O homem moderno atravessa o mundo como quem
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pisa sobre vidro — leve demais para ser sentido, rápido demais para perceber o chamado da terra. A
filosofia de Ifá nos recorda que o caminho é mais lento que o pensamento e mais antigo que a
vontade.
Cada estrada é habitada por ẹ̀mí — espíritos, presenças, ancestralidades que sustentam a realidade.
O saber tradicional iorubá entende que o mundo é vivo em todos os seus aspectos: a terra, o vento, a
poeira, os rios, as pedras — tudo vibra no ritmo do àṣẹ. O caminhar, então, é uma conversação.
Òrúnmìlà, ao pronunciar “É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo”, declara uma
aliança entre linguagem e território. Conhecer o caminho é conhecer a língua da terra. Por isso, o
verbo e o passo são equivalentes: ambos traçam linhas, ambos constroem significados. O homem de
Ifá caminha como quem reza, fala como quem anda. Cada palavra é um deslocamento, e cada
deslocamento é um verso do poema cósmico. A sabedoria do caminho é a sabedoria do ritmo.
O ọ̀nà de Ìwòrì Òdì é também o símbolo do eixo vertical entre Ọ̀run e Àiyé. A estrada que Òrúnmìlà
percorre não é apenas horizontal, mas sobretudo ascensional: ela liga planos, atravessa mundos,
reconecta o visível ao invisível. Caminhar, nesse sentido, é praticar a metafísica. O chão é um
espelho: reflete o alto, devolve o sopro do céu em forma de pó. O caminhante espiritual sabe que
cada jornada exterior é um reflexo da viagem interior da consciência rumo ao seu princípio. É por
isso que Ifá insiste: “Nenhum passo deve ser dado sem consulta.” A divinação, àfá, é a arte de ouvir
o caminho antes de andar. Òrúnmìlà consulta o destino não porque duvida, mas porque sabe que o
caminho fala em símbolos. O sábio não interpreta os sinais — ele os habita.
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Há uma dimensão ética nesse ensinamento. “Conhecer o caminho” é também saber o limite entre o
próprio passo e o passo do outro. No mundo do Òrìṣà, toda ação repercute. O que se faz, ecoa.
Aquele que aprende o caminho aprende também a não atravessar o território alheio com ignorância.
A sabedoria de Ifá não é possessiva; ela é relacional. O ọ̀nà é um espaço compartilhado, uma
convivência de forças. Por isso o Ìtàn adverte: não caminhes sem pedir licença, não fales sem
consultar o silêncio. Òrúnmìlà sabe que o verdadeiro viajante é aquele que carrega a leveza da
consciência. Caminhar não é invadir, é escutar o espaço entre os passos.
A cidade de Ìkàró, destino da viagem, simboliza o mundo estruturado, o lugar da forma e das
relações humanas. Ali, o conhecimento do caminho se manifesta como harmonia social. Òrúnmìlà,
ao chegar, é recebido com paz porque seu andar foi alinhado à ordem cósmica. No plano
hermenêutico, isso significa que o homem que caminha em consonância com seu orí torna-se
portador de equilíbrio para o coletivo. A ética de Ifá é uma ética da coerência ontológica: o bem não
é uma imposição, mas uma consequência de estar no eixo certo do caminho. O sábio não pratica o
bem — ele irradia ìwà pẹ̀lẹ́, o caráter suave e firme q
O conhecimento, para Ifá, não é uma acumulação de informações, mas uma reminiscência da
origem. Òrúnmìlà não aprende o caminho — ele o recorda. No interior da memória do ser jaz o
mapa invisível de todos os percursos, pois cada homem, ao nascer, traz consigo a lembrança do
itinerário traçado por seu orí diante de Olódùmarè. Esquecer o caminho é, portanto, esquecer-se de
si mesmo. Quando Òrúnmìlà diz “É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo”, ele
enuncia um princípio cosmogônico: a sabedoria é anamnese. O conhecimento não é invenção, é
retorno. Por isso, na teologia iorubá, a existência é um círculo e não uma linha. O fim toca o
começo, e cada passo é uma aproximação do ponto de origem. O ọ̀nà é espiral, e o tempo é sua
respiração. O homem sábio não caminha para a frente, mas para dentro.
É nesse interior que habita Èṣù, o guardião das interseções. Ele é o movimento que faz o caminho
ser caminho, o princípio dinâmico que impede a fixação do ser. Sem Èṣù, tudo seria estático, e o
mundo morreria de imobilidade. Ele é o erro que conduz ao acerto, a dúvida que revela o sentido, o
tropeço que desperta o andarilho. Quando Òrúnmìlà realiza o ẹbọ, ele o faz diante de Èṣù, ainda que
não o nomeie, porque todo sacrifício é, em última instância, dirigido ao movimento. Èṣù não é
adversário — é o mediador. É ele quem leva o sacrifício ao seu destino, quem traduz a linguagem
humana em vibração cósmica. No contexto de Ìwòrì Òdì, o “conhecer o caminho” significa também
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conhecer Èṣù, isto é, reconhecer que o percurso está vivo, que o imprevisto é parte da ordem, e que
o caos é um dos nomes do equilíbrio. Èṣù é o mestre do ritmo: aquele que ensina o passo certo
dentro do descompasso do mundo.
Assim, o erro, o atraso, a volta, a repetição, o obstáculo — todos são modos de aprender o caminho.
Em Ifá, nada se perde; tudo retorna transfigurado. Quando Òrúnmìlà chega a Ìkàró e é recebido com
paz, isso não ocorre porque sua estrada foi reta, mas porque soube atravessar as curvas sem se
despedaçar. A travessia perfeita é aquela que integra as imperfeições. A hermenêutica Ìtànlógica vê
nesse ensinamento uma profunda antropologia da vulnerabilidade: o ser humano é frágil porque é
poroso, e é por essa porosidade que o àṣẹ circula. O que se chama fraqueza é, na verdade, a abertura
pela qual o invisível respira no homem. A sabedoria consiste em não endurecer o caminho interior.
O coração do sábio é terra úmida — nele, o passo de Ifá deixa sempre uma marca.
O ẹbọ de Òrúnmìlà é, nesse sentido, o símbolo da plasticidade do ser. Ele é o gesto que impede a
rigidez, que devolve maleabilidade ao destino. Por isso, ẹbọ e ọ̀nà são inseparáveis: o primeiro
alimenta o segundo. Caminhar sem oferecer é caminhar de costas para o sagrado. Toda oferenda é
um ajuste de rota, um modo de recolocar o espírito em sintonia com o fluxo da criação. O homem
moderno, em sua pressa e autonomia, esqueceu a arte de oferecer. Ele se julga autor da própria
estrada e por isso se perde. O ẹbọ é o reconhecimento de que há sempre algo além do próprio
esforço — uma dimensão invisível que precisa ser nutrida para que o visível prospere. No rito de
Òrúnmìlà, essa sabedoria se manifesta na simplicidade: um carneiro, seis ovos, um prato de inhame.
O que ele oferece não é riqueza, mas ordem. O ẹbọ não é transação; é tradução.
A relação entre Ọ̀run e Àiyé, aqui, se renova como espelho duplo: o alto reflete o baixo, e o baixo
sustenta o alto. Quando Òrúnmìlà oferece, Ọ̀run também oferece. O caminho é atravessado nos dois
sentidos: o homem busca a terra, e a terra busca o homem. Entre eles, Èṣù dança — movimento
incessante entre polos, mantendo o cosmos desperto. Caminhar, então, é um ato de reciprocidade.
Cada passo dado no chão acende uma estrela no céu. A filosofia Ìtànlógica entende essa
correspondência como fundamento da ética: viver bem é fazer vibrar o alto e o baixo em uníssono.
O desequilíbrio humano nasce quando se esquece que o chão e o firmamento são faces do mesmo
corpo. Por isso o Ìtàn de Ìwòrì Òdì é um cântico de lembrança: não se atravessa o mundo apenas
com os pés, mas com o coração voltado ao invisível.
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A hermenêutica Ìtànlógica percebe ainda que Òrúnmìlà, ao ser advertido sobre os àjé e espíritos
desorientados, está sendo instruído sobre o poder das forças sutis que habitam a margem do
caminho. Essas presenças representam as dispersões da consciência, os desvios que atraem o
homem para fora de seu eixo. São os desejos sem centro, as palavras sem peso, as intenções sem
direção. O ẹbọ é o antídoto para essa dispersão. Ele concentra. Ele nomeia o caos e o reintegra. O
sacrifício não é uma forma de medo, mas de afirmação: ao reconhecer o perigo, o homem reafirma
sua pertença à ordem cósmica. O perigo é parte da aprendizagem. Ifá não promete ao iniciado um
caminho sem sombras, mas ensina-o a andar com a luz dentro das sombras. Òrúnmìlà vence os àjé
não porque os destrói, mas porque não se esquece de quem é diante deles.
O caminho, em sua essência, é o destino em movimento. O ayanmọ não é uma sentença imutável,
mas uma corrente de possibilidades que se organiza na medida em que o ser se torna consciente de
si. Ifá ensina que o destino não é imposto — é acordado. Antes de nascer, cada ser escolhe diante de
Olódùmarè a configuração de seu percurso; escolhe o tipo de chão que percorrerá, as bifurcações
que o desafiarão, as forças que o acompanharão. O orí, consciência divina individualizada, é o
depositário dessa escolha. É ele quem carrega a lembrança do caminho original. Quando Òrúnmìlà
diz que “é pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo”, ele revela o segredo do orí:
somente aquele que se recorda de si pode caminhar em paz. O esquecimento do orí é a raiz de toda
desordem; o reencontro com ele é a plenitude do ser. O ẹbọ é o modo ritual de restabelecer a
comunicação entre o homem e seu próprio orí. Assim, o sacrifício não é oferta a um deus distante,
mas conversa com o próprio destino.
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A metáfora do caminhar é inseparável da noção de tempo. Mas em Ifá, o tempo não é cronologia; é
respiração. O passado, o presente e o futuro coexistem no mesmo sopro. Caminhar é transitar por
essas dimensões sem se fixar em nenhuma. O homem que conhece o caminho não se aprisiona à
nostalgia nem à ansiedade. Ele sabe que o futuro é apenas o passado respirando outra vez. O ọ̀nà é
um círculo que se move. Por isso, a sabedoria de Ifá é sempre circular — o retorno é mais
importante que a chegada. Cada viagem é uma revisão, e cada revisão é uma iniciação. Òrúnmìlà,
ao completar sua travessia, não é o mesmo que partiu, porque o caminho o refez. O caminho é o
grande escultor da alma. Nele, o homem é talhado pelas pedras que o ferem. A dor do caminhar é a
pedagogia do espírito.
No entanto, é o silêncio que coroa o itinerário. A frase de Òrúnmìlà — “É pelo caminho que se
conhece que se atravessa o mundo” — encerra-se em uma pausa. O silêncio que a segue é o
verdadeiro ensinamento. Pois o conhecimento do caminho é intransmissível: cada um deve escutar a
voz do seu próprio solo. Ifá não oferece fórmulas, mas ritmos. O saber de Ifá é música, não dogma.
E o ouvido do iniciado é o instrumento que deve estar afinado. Essa música é feita de pausas tanto
quanto de sons. A hermenêutica Ìtànlógica entende que o silêncio é o lugar onde o sentido se forma.
Òrúnmìlà, ao terminar sua fala, escuta o eco dos seus próprios passos desaparecendo na estrada — e
nesse eco compreende que o caminho é o nome que o silêncio dá ao movimento. O caminhar é o
som da eternidade no tempo.
Tradução:
A frase de Òrúnmìlà – “A kìí mọ àṣírí Ọ̀run kó má mọ́ àṣírí Ayé” – é um dos enunciados mais
radicais da ontologia iorubá. Nela se encerra não apenas uma doutrina, mas uma subversão
silenciosa de toda pretensão humana à transcendência desencarnada. Pois, segundo Ifá, conhecer o
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Céu sem a Terra é mutilar o próprio saber; é aspirar à luz sem sombra, à eternidade sem corpo. O
conhecimento que não conhece o chão é ilusão. A sabedoria de Òrúnmìlà nasce dessa percepção: o
mistério de Olódùmarè não está acima, mas entre; não está distante, mas pulsando na espessura do
real. O Céu e a Terra são faces de um mesmo organismo divino, e o ser humano é o nervo sensível
que os une. Por isso, Òrúnmìlà não busca compreender Olódùmarè pela abstração, mas pela relação:
ele pergunta, oferece, observa, recolhe. Ele se aproxima do segredo não como quem quer possuí-lo,
mas como quem deseja participar do seu ritmo.
O Ìtàn começa com uma inquietação que é, em si mesma, um ato filosófico: Òrúnmìlà deseja saber
o que sabe Olódùmarè. Essa pergunta – aparentemente presunçosa – é o início de toda metafísica. É
o desejo do humano de compreender a fonte, de decifrar o código do cosmos. Mas Ifá, em sua
pedagogia divina, sabe que o perigo do saber é a arrogância. Por isso, os Òrìṣà advertiram
Òrúnmìlà: ofereça antes o sacrifício, para que teu saber não se corrompa pela curiosidade impura. A
advertência não é moral; é ontológica. O saber que não é precedido pelo ẹbọ é saber que não passou
pela transformação do ego. O ẹbọ purifica o olhar e o prepara para o invisível. Pois o verdadeiro
conhecimento não é o que observa, mas o que se deixa transformar pelo observado. Òrúnmìlà
compreende isso: oferece primeiro à Terra, depois ao Céu. A ordem é crucial. A Terra vem antes
porque é ela que revela o Céu. O alto só se manifesta àquele que soube ajoelhar-se diante do baixo.
Os elementos do ẹbọ não são arbitrários: os dois bodes representam a dualidade que sustenta o
cosmos – expansão e retração, nascimento e dissolução, luz e sombra. O pássaro azul é o
mensageiro entre os mundos, símbolo do pensamento que viaja entre o visível e o invisível, entre o
som e o silêncio. O molho de amendoim (ẹ̀pà) evoca a multiplicidade contida na unidade: muitos
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grãos, um só fruto. Esses três elementos condensam a metafísica de Ifá: o universo é um
entrelaçamento dinâmico de contrários harmonizados por um princípio mensageiro. Òrúnmìlà, ao
unir os três no sacrifício, recria o cosmos em miniatura. Sua oferenda não é apenas ritual, mas
cosmogônica. Ele refaz o mundo. O sacrifício é a arte de reordenar a totalidade.
Mas o ponto decisivo do Ìtàn é a resposta de Ifá: “Ninguém conhece o segredo do Céu sem
conhecer o segredo da Terra.” A hermenêutica Ìtànlógica lê aqui o fundamento da epistemologia do
invisível. O saber não é um salto para fora da matéria, mas um mergulho nela. É pela Terra que o
Céu se torna inteligível. O invisível se revela no visível como a seiva no tronco, o vento na folha, o
som no tambor. O homem que despreza a Terra em nome do Céu torna-se surdo à própria música da
criação. Em Ifá, a iluminação não é fuga, mas integração. Òrúnmìlà aprende que o verdadeiro
iniciado é aquele que transforma o cotidiano em teofania. Cada gesto, cada alimento, cada palavra é
uma porta para Ọ̀run. O segredo de Olódùmarè não está em outra parte; está em toda parte.
O àṣírí, o segredo, não é um conteúdo a ser descoberto, mas uma relação a ser vivida. Em Iorubá,
àṣírí implica intimidade: aquilo que se revela apenas a quem sabe guardar. Por isso, o segredo do
Céu só se mostra a quem conhece o segredo da Terra — isto é, a quem aprendeu a respeitar o
mistério do mundo. O segredo não se conquista, é concedido. O saber de Ifá é uma doação que se dá
ao ritmo do merecimento ético. O homem que não cultiva ìwà pẹ̀lẹ́ (caráter sereno e justo) jamais
penetra o véu do mistério, pois o segredo se protege do violento e do impuro. Òrúnmìlà compreende
isso: para conhecer o Céu, deve tornar-se íntimo da Terra. Por isso ele não contempla o alto de olhos
erguidos, mas de joelhos no chão.
O sacrifício que Òrúnmìlà realiza – parte para o solo, parte para o Céu – é a imagem perfeita da
reciprocidade entre planos. Ele não se volta apenas ao transcendente, mas também ao imanente. A
sabedoria que busca é relacional: nasce da tensão entre os dois polos do ser. O Céu é a respiração da
Terra, e a Terra o corpo do Céu. Quando Òrúnmìlà sopra sobre a oferenda, sua respiração se eleva
como eco do sopro original de Olódùmarè. Ele repete o gesto da criação. O homem é co-criador não
por arrogância, mas por comunhão. O saber que nasce daí não é posse, mas presença. Conhecer é
habitar o mistério com reverência.
Assim se inaugura a filosofia do entre, o saber de àárín, que é o coração de Ìwòrì Òdì. Entre Céu e
Terra, entre silêncio e palavra, entre o visível e o invisível, o homem encontra a morada do sentido.
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Aquele que tenta elevar-se sem descer primeiro ao barro perde o equilíbrio e se desfaz. O voo sem
raiz é o erro dos que confundem transcendência com fuga. Òrúnmìlà mostra o contrário: quanto
mais profundo é o mergulho na Terra, mais vasto se torna o Céu. O conhecimento é verticalidade
que nasce do centro, não da altura. A altura sem centro é vaidade.
O segredo, àṣírí, no horizonte de Ifá, não é uma cifra a ser decodificada, mas o ritmo invisível que
sustenta a relação entre todas as coisas. Conhecer o segredo, portanto, não significa revelar o que
estava oculto, mas aprender a mover-se na frequência sutil do que se manifesta e se recolhe ao
mesmo tempo. O segredo é respiração: o Céu inspira, a Terra expira. O homem que sabe viver o
segredo respira com o cosmos. Essa respiração é o fundamento de toda sabedoria. Òrúnmìlà,
quando oferece à Terra e ao Céu, está harmonizando as duas metades dessa respiração universal. A
oferenda é a pausa entre o inspirar e o expirar — o intervalo sagrado onde o tempo se curva para
escutar o eterno. É nesse intervalo que o segredo se revela: não como uma resposta, mas como uma
presença.
A teogonia de Ifá afirma que Ọ̀run e Àiyé não são lugares distintos, mas estados complementares da
realidade. Ọ̀run é a dimensão do princípio, Àiyé é a do acontecimento. O primeiro é potência; o
segundo, realização. Entre ambos flui o àṣẹ, força viva que traduz uma dimensão na outra. Tudo o
que existe participa dessa circulação. O homem, por sua vez, é o mediador, o ponto de interseção
onde a consciência divina experimenta a densidade da matéria. Daí a necessidade de conhecer o
segredo da Terra: é no corpo que o espírito aprende a sentir, é no sofrimento que a luz se torna
compaixão, é no limite que o infinito se reconhece. Òrúnmìlà, ao querer conhecer o segredo de
Olódùmarè, está sendo chamado a encarnar o próprio mistério. O conhecimento não virá por
contemplação, mas por transmutação.
Os Òrìṣà advertiram-no porque sabiam que a curiosidade é um fogo duplo. O mesmo desejo que
conduz o homem à sabedoria pode também incendiá-lo de orgulho. A busca do segredo é perigosa,
pois exige o esvaziamento de si. O ẹbọ é o antídoto contra a soberba do intelecto. Ele devolve o
saber à sua origem ritual: saber é servir. O intelecto que não se curva torna-se instrumento da
fragmentação. Òrúnmìlà, ao depositar o sacrifício sobre o solo, aprende que a base do conhecimento
é a humildade. Não há luz verdadeira sem sombra. O saber que não conhece a Terra é abstração
vazia, uma claridade que cega. Por isso, Ifá insiste: àṣírí só se entrega a quem o respeita. O segredo
se protege oferecendo-se apenas a quem não o violenta.
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A hermenêutica Ìtànlógica vê aqui o nascimento da ética do conhecimento. Todo saber, para Ifá, é
relacional e exige reciprocidade. Não existe observador neutro nem objeto inerte. O mundo é
sujeito, e o ato de conhecer é uma conversação. O homem que interroga a Terra deve escutar sua
resposta. E essa resposta raramente se dá em palavras; ela se dá em sinais, presságios, texturas,
movimentos sutis. A sabedoria está na escuta. Por isso Òrúnmìlà é chamado Ẹlẹ́rì Ìpín —
testemunha do destino. Ele não é dono do saber, mas ouvinte do segredo. Sua grandeza está em
ouvir o que os outros não ouvem. A divinação, àfá, é essa escuta refinada do invisível na vibração
do visível. O adivinho não “vê” o futuro; ele escuta o murmúrio do ser. O segredo é som, não
imagem.
A Terra, por sua vez, é o tambor do Céu. O som que ressoa no alto desce e vibra na matéria. É por
isso que o conhecimento de Ọ̀run depende do conhecimento de Àiyé: o espírito só se reconhece
quando ressoa no corpo. A alma, sem corpo, é apenas abstração. O corpo é a escola do invisível. O
sofrimento, a alegria, o desejo, a fadiga — tudo isso é linguagem. O erro da razão moderna foi
confundir corpo com obstáculo, quando na verdade ele é instrumento. Em Ifá, o corpo é texto
sagrado, repleto de hieróglifos do mistério. Cada órgão é um Òrìṣà, cada respiração é uma oração.
Òrúnmìlà aprende que a sabedoria começa no sangue e termina no silêncio. O corpo é o livro que o
Céu escreve para que o homem aprenda a ler.
O amendoim oferecido no ẹbọ é o emblema dessa lição. Muitos grãos, uma só vagem. Assim é o
cosmos: plural em forma, único em essência. O segredo do Céu é que ele está contido em cada
coisa. O infinito se fragmenta para se reconhecer em si mesmo. A Terra é o espelho dessa
fragmentação, a matéria onde a unidade se faz múltipla. O homem, ao conhecer a multiplicidade, é
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convidado a reencontrar a unidade. Essa é a via do retorno. O segredo da Terra é o caminho para o
segredo do Céu porque o múltiplo conduz ao uno. A ignorância é permanecer no aparente; a
sabedoria é perceber o uno dentro do múltiplo. Òrúnmìlà, ao cumprir o sacrifício, percebe que tudo
está interligado, e que conhecer é religar o que foi separado.
O àṣírí, o segredo, é o sangue oculto que pulsa sob a pele do mundo. Ele não é algo que se guarda,
mas algo que se sustenta, que se carrega como um sopro no coração. Quando Ifá diz que “ninguém
conhece o segredo do Céu sem conhecer o segredo da Terra”, não fala de um conhecimento que se
adquire, mas de uma relação que se desperta. O segredo é a consciência da interdependência entre o
que vibra acima e o que pulsa abaixo, entre o que cria e o que é criado, entre o silêncio que antecede
a palavra e o som que volta ao silêncio. O segredo é o lugar do entre — e esse entre é o próprio
homem. Ele é o ponto de ressonância onde Ọ̀run se escuta em Àiyé. Por isso, conhecer o segredo é
conhecer o próprio corpo como instrumento da criação.
O corpo humano é a tradução material de um verso do Céu. Cada osso, cada músculo, cada nervo é
uma linha dessa escritura viva. A cabeça — orí — é a morada da decisão divina. O coração é o
tambor onde o ritmo de Olódùmarè ressoa. O sangue é o àṣẹ em forma líquida, corrente que liga o
invisível ao visível. O segredo de Ọ̀run é que ele precisa de corpos para continuar dizendo-se. Por
isso o conhecimento do Céu passa pela escuta da Terra: é na densidade da matéria que o Espírito se
reconhece. Aquele que tenta conhecer Olódùmarè ignorando o corpo está condenado à abstração, à
esterilidade de um saber sem carne. Òrúnmìlà, ao sacrificar o pássaro, o bode e o amendoim, faz da
oferenda uma anatomia sagrada: asas, força e semente — pensamento, ação e potencial. A oferenda
é o corpo cósmico devolvido à sua origem.
Em Ifá, o segredo é uma corrente. Não existe saber isolado. O Céu só é Céu porque a Terra o
reflete. O àṣẹ que desce precisa do chão para se completar. É por isso que o ẹbọ de Òrúnmìlà é
duplo. Ele entende que todo gesto é bidirecional: o que sobe, desce; o que desce, sobe. O erro
humano é desejar só o ascendente, esquecer que a gravidade também é sagrada. O segredo do Céu é
a queda. A sabedoria não está apenas na luz, mas na sombra que a torna visível. A luz sem sombra é
o orgulho espiritual, a ilusão de um Céu sem Terra. O segredo é a curva, a oscilação que mantém o
universo respirando. O saber que não aceita essa alternância se envenena de rigidez.
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Òrúnmìlà compreende que o segredo é movimento. O mundo não é uma estrutura fixa, é um ritmo.
O segredo do Céu é a dança. A Terra, com sua cadência de nascimento e decomposição, é o tambor
onde o infinito ensaia os seus passos. Conhecer o segredo da Terra é compreender que o tempo não
é inimigo da eternidade, mas sua expressão. O tempo é o modo como a eternidade se faz ouvir.
Cada instante é um espelho da infinitude. Por isso, o sábio de Ifá não teme a mudança: ele a
reverencia. O segredo é o fluxo, não a forma. Aquele que tenta fixar o segredo mata-o. O mistério
não é algo a ser revelado uma vez por todas, mas algo que se renova a cada revelação.
A linguagem é o instrumento desse renovar. Òrúnmìlà não guarda o segredo em silêncio absoluto;
ele o transmite em versos. Cada odù é um fragmento do segredo tornado som. Mas esse som é
codificado, envolto em metáforas, ritmos e imagens. O segredo não se entrega nu — veste-se de
poesia para preservar-se. Por isso a tradição de Ifá é oral: o segredo precisa da vibração da voz para
continuar vivo. Escrevê-lo é apenas fixá-lo em sombra; pronunciá-lo é reacendê-lo. O segredo é
som em espiral: quanto mais é dito, mais retorna ao seu silêncio. O adivinho, ao recitar um odù, não
está explicando nada; está abrindo uma porta. O verso é um portal e o som é o passo que o
atravessa. O homem que ouve o verso e o deixa ressoar dentro de si começa a escutar o Céu através
da Terra.
É por isso que, ao fim do ìtàn, Ifá responde: “Quem conhece o segredo da Terra já conhece o do
Céu.” A Terra é a iniciadora. O Céu é apenas o reflexo de sua sabedoria. O segredo da Terra é a
finitude. E quem aceita a finitude conhece o eterno. A morte é o espelho do Céu dentro da Terra.
Òrúnmìlà aprende que não há caminho para o invisível sem atravessar o corpo mortal. A carne é o
véu que ensina o espírito a amar. O segredo do Céu não é a imortalidade, mas o amor que sobrevive
156
à morte. Conhecer o Céu é saber morrer em paz. Por isso, o homem de Ifá não teme o fim: ele o
celebra como retorno. A Terra ensina o Céu a lembrar-se de sua origem.
O segredo, àṣírí, é o coração pulsante do destino, o ayanmọ latente em toda forma viva. Ele não é
mero enigma, mas o próprio mecanismo do existir: o modo pelo qual Olódùmarè se oculta para que
o ser possa emergir. O segredo é o espaço do intervalo — onde o divino se retrai para que o humano
aconteça. Se não houvesse segredo, não haveria liberdade; se tudo fosse claro, o ser seria prisioneiro
da luz. O mistério é o dom da sombra: a possibilidade de o homem buscar. Buscar é o verbo mais
profundo do espírito. O segredo, portanto, não é o obstáculo, mas o caminho. Òrúnmìlà, ao
compreender isso, percebe que o conhecimento de Olódùmarè não consiste em penetrar o véu, mas
em aprender a mover-se com ele, respeitando o seu ritmo. A sabedoria não revela o segredo — ela o
honra.
O àṣírí é também o nome interior do orí. Cada ser traz dentro de si um segredo que é o espelho do
segredo divino. Esse segredo não pode ser ensinado, apenas despertado. A iniciação, ìtéfá, é
justamente o rito em que o homem aprende a escutar o seu segredo. Não se trata de receber algo
novo, mas de recordar o que sempre esteve inscrito na sua cabeça espiritual. O orí é o templo onde
o Céu e a Terra se encontram. O segredo do Céu é a Terra; o segredo da Terra é o orí. A cadeia é
inquebrantável: o divino conhece-se através do humano, e o humano realiza-se através do divino.
Por isso, Òrúnmìlà, ao oferecer aos dois planos, selou essa reciprocidade ontológica. O sacrifício,
que parecia gesto de humildade, revela-se agora gesto de criação. Ele não apenas obedece; ele refaz
o mundo. O conhecimento, em Ifá, é sempre recriação.
No entanto, esse saber não se confunde com posse. O segredo não pertence, visita. Ele chega
quando há espaço, quando o coração está silencioso. O segredo é hóspede do vazio. É por isso que o
silêncio é a última oferenda. Aquele que fala demais dissipa o mistério; aquele que silencia convoca
o invisível. Òrúnmìlà, ao final de sua busca, não proclama a descoberta; ele apenas murmura o
provérbio — “A kìí mọ àṣírí Ọ̀run kó má mọ́ àṣírí Ayé” — e se cala. O silêncio que segue sua frase
é o próprio segredo manifestado. Nesse silêncio, Céu e Terra se reconhecem. O som do silêncio é o
àṣẹ na sua forma mais pura. A hermenêutica Ìtànlógica compreende que o ápice do saber é o
recolhimento: quando o pensamento se torna respiração e o verbo repousa em seu próprio ritmo.
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Mas esse recolhimento não é fuga do mundo. Ao contrário, é um mergulho mais profundo nele.
Conhecer o segredo da Terra é comprometer-se com a sua preservação. O saber não é privilégio, é
responsabilidade. Aquele que escuta o mistério torna-se guardião da harmonia. O bàbáláwo,
herdeiro do verbo de Òrúnmìlà, não usa o conhecimento para dominar, mas para manter a
reciprocidade entre o alto e o baixo. Ele é jardineiro do segredo. O segredo é como a semente: se for
exposta à luz prematuramente, morre; se for guardada no solo certo, floresce. A função do sábio é
proteger o tempo do desabrochar. Por isso, o segredo é também uma pedagogia: ele ensina o ritmo
da maturação. Saber cedo demais é perder o sabor.
O segredo é o que impede a criação de tornar-se banal. É a medida da profundidade. O homem que
vive sem segredo vive na superfície; aquele que o carrega vive em múltiplos planos. O segredo dá
espessura à alma. É o peso doce da presença. Conhecer o segredo da Terra é aprender a suportar o
mistério de estar vivo. O corpo, a dor, o prazer, o desejo — tudo isso são véus sucessivos do mesmo
enigma. Olódùmarè se experimenta em cada sensação. Por isso, em Ifá, não há pecado em sentir:
sentir é participar. A ética não é repressão, é consciência. O segredo da Terra é que tudo é sagrado
— até o erro, porque nele se esconde uma lição de retorno. A cada queda, a Terra ensina o Céu a ser
paciente.
Quando Òrúnmìlà compreende isso, sua pergunta inicial — “Posso eu conhecer o que conhece
Olódùmarè?” — transforma-se em silêncio grato. Ele descobre que conhecer é tornar-se. O
conhecimento de Olódùmarè não é um conteúdo, mas um estado: é a unidade restaurada entre Céu e
Terra dentro do homem. O segredo, enfim, é a comunhão. Quem conhece o segredo da Terra — isto
é, quem vive a sacralidade do cotidiano, a humildade do corpo, o respeito pelo invisível — já
conhece o segredo do Céu, pois ambos são o mesmo gesto respirado em direções opostas. A
sabedoria de Ifá é circular: tudo retorna à origem, tudo é reflexo de tudo.
E assim o Ìtàn encerra-se como se inicia, com a simplicidade de uma revelação que se curva diante
de si mesma. Òrúnmìlà não sai de sua jornada com respostas, mas com presença. Ele compreende
que o segredo não é para ser revelado, mas para ser vivido. Viver é guardar o segredo. Guardar o
segredo é ser fiel à vida. E esse é o mais alto ensinamento: o Céu e a Terra são amantes eternos, e o
homem é o coração onde se encontram. Quando ele respira, o mundo respira com ele. Quando ele
silencia, o segredo fala.
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Ìtàn 3 – Ìwòrì Òdì
Ẹni tí ó bá mọ òun nìkan, òun náà kò tíì mọ ara rẹ̀ (Aquele que conhece apenas a si mesmo, ainda
não conhece a si mesmo)
Tradução:
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O autoconhecimento, na cosmovisão de Ifá, não é um mergulho solitário, mas uma travessia de
espelhos. O “eu” não existe como ilha, mas como reflexo contínuo do conjunto de todas as
presenças que o habitam. Quando Òrúnmìlà diz “eu desejo conhecer-me completamente”, o que ele
está, de fato, pedindo é o acesso ao campo inteiro de relações que o constituem — porque conhecer-
se, em Ifá, é conhecer a teia da qual se é parte. O verso adverte: “Aquele que conhece apenas a si
mesmo, ainda não conhece a si mesmo.” Essa sentença anula a ilusão da consciência isolada. O ser
não é um núcleo fechado, mas uma intersecção infinita de forças. O “si mesmo” é plural, múltiplo,
tecido de alteridades. Òrúnmìlà aprende que não existe autoconhecimento sem reconhecimento do
outro, e que o outro é a forma que o invisível escolhe para nos mostrar quem somos.
Essa compreensão é o oposto da introspecção moderna, onde o homem busca no interior da mente
uma essência imóvel, uma substância pura. Ifá recusa essa ideia. O interior é uma extensão do
exterior. O que se encontra dentro de nós é feito das vozes, ventos e espíritos que respiram fora.
Conhecer-se é saber nomear essas presenças. É escutar o próprio coração como um tambor onde
Ọ̀run bate o compasso da existência. Òrúnmìlà quer olhar para dentro e descobre que o dentro é um
espelho do mundo. Por isso os Òrìṣà o advertem: “Oferece antes o sacrifício, para que tua visão não
se feche como o olho que tenta ver o interior da pedra.” A pedra é a imagem da consciência
endurecida, autocentrada, que se volta sobre si mesma até perder o brilho. Ver-se de forma absoluta
é tornar-se cego. O ẹbọ serve para quebrar essa rigidez, para devolver ao olhar a sua porosidade.
Quando Ifá declara: “O conhecimento de si não é verdadeiro se não incluir os outros que
Olódùmarè criou”, está estabelecendo uma ética ontológica: o eu é uma comunhão. Cada criatura é
um espelho parcial do criador, e somente somadas elas formam o reflexo pleno. O homem que tenta
conhecer-se sem reconhecer o outro mutila o espelho da verdade. Por isso, o autoconhecimento é
inseparável da compaixão. O sábio de Ifá não é aquele que se isola para meditar, mas aquele que se
deixa afetar pela vida que o rodeia. O conhecimento é um afeto profundo. Em Iorubá, mímọ —
saber — tem o mesmo campo semântico de “reconhecer”, “tocar”, “sentir”. Saber é sentir o outro
dentro de si.
Por isso Òrúnmìlà é advertido a não “olhar para dentro demais”, pois o interior, sem a mediação do
mundo, se torna abismo. O homem não foi feito para a introspecção absoluta. O espírito humano,
quando se fecha, apodrece; quando se abre, floresce. O ẹbọ devolve-lhe o fluxo. A oferenda ao ar
livre é simbólica: o autoconhecimento só acontece sob o céu, em relação com os elementos. O vento
toca a oferenda e a leva — o saber se espalha. O conhecimento verdadeiro é vento, não pedra. O
que se acumula, endurece; o que circula, se expande. Òrúnmìlà, ao deixar o sacrifício ao ar livre,
devolve o eu ao espaço. Ele não busca conhecer-se para possuir-se, mas para participar.
Assim, a frase “Aquele que conhece apenas a si mesmo, ainda não conhece a si mesmo” se torna o
núcleo de uma metafísica da interdependência. O “si mesmo” é um nó de relações cósmicas, uma
tessitura onde cada fio vibra ao toque dos outros. A identidade é dinâmica, não substância. O
autoconhecimento é o exercício de sustentar essa vibração sem interrompê-la. Por isso o saber de
Ifá não se fixa em definições, mas se renova a cada recitação dos versos. O odù é um organismo
vivo: muda, respira, aprende. O homem também. Conhecer-se é cantar-se junto com o mundo.
O Ìtàn, portanto, não é uma condenação da interioridade, mas sua reorientação. O “interior” é real,
mas não é lugar de clausura; é o templo onde os deuses se reúnem para conversar. O homem que se
fecha perde o coro; o que se abre, ouve o cântico. Òrúnmìlà, ao realizar o sacrifício, reabre o templo
do coração. Sua oração — “Aquele que conhece apenas a si mesmo, ainda não conhece a si mesmo”
— é ao mesmo tempo confissão e revelação. Ele reconhece que o “eu” é um campo de ressonâncias
e que o verdadeiro conhecimento de si é o conhecimento da comunhão.
161
Conhecer-se, para Ifá, é um ato comunitário. O orí é singular, mas nunca isolado. Ele nasce em
Ọ̀run, mas amadurece em Àiyé apenas através do convívio com outros orí. Cada destino individual
é uma variação de um mesmo ritmo cósmico. Assim, quando Òrúnmìlà busca conhecer-se, ele não
procura uma verdade pessoal, mas uma afinação com o som geral do universo. O homem, em Ifá,
não tem essência — tem afinação. Saber quem se é significa saber em que tom o próprio orí ressoa
no grande tambor do cosmos. Essa musicalidade do ser é o fundamento da ontologia relacional.
A hermenêutica Ìtànlógica ensina que o orí é simultaneamente interior e exterior — o centro por
onde o cosmos entra no homem. Dizer “meu orí” é uma forma provisória de nomear uma realidade
que, na verdade, atravessa todas as existências. O orí é o canal de Olódùmarè em cada ser, e por isso
o autoconhecimento é inseparável do conhecimento do divino. Mas o divino, em Ifá, não é
transcendente: é imanência vibrante. Conhecer-se é sintonizar-se com o modo como o divino pulsa
dentro do corpo e entre os corpos. O orí é o lugar onde Ọ̀run se faz carne, e o corpo é o lugar onde a
carne se recorda de Ọ̀run. O autoconhecimento é essa lembrança mútua.
Òrúnmìlà aprende que não se conhece sozinho. O homem precisa dos outros para ver-se, porque
cada pessoa reflete um aspecto de seu odù. Assim, a convivência é também um oráculo. Em cada
encontro há uma revelação. O outro é o espelho móvel de nossas formas espirituais. É no olhar
alheio que o orí descobre as arestas que ainda precisam ser lapidadas. O espelho humano é,
portanto, instrumento de iniciação. Por isso Ifá recomenda: ẹ̀gbọ́n ní ń kọ́ ò ̣mọwé; àgbà ní ń tọ́ ọmọ
dé òpó ìmọ̀. “É o mais velho que ensina o sábio; é o ancião que guia o jovem até o pilar do saber.”
O conhecimento é sempre transmitido em relação. Não há iluminação sem comunhão.
162
O ẹbọ de Òrúnmìlà, oferecido ao ar livre, encena essa verdade. Ao deixar o sacrifício sob o céu, ele
abre seu aprendizado ao olhar dos elementos. O vento, o fogo, a água, a terra — todos se tornam
mestres. O autoconhecimento se expande para além da humanidade: ele inclui o saber das árvores,
dos rios, dos pássaros. Em Ifá, tudo o que existe é sujeito de sabedoria. O homem não se conhece
plenamente enquanto não aprender a conversar com as coisas. Por isso, a frase “aquele que conhece
apenas a si mesmo” é também uma denúncia do antropocentrismo. Conhecer é partilhar o espírito
com a totalidade do ser. O universo é uma assembléia viva, e o homem é apenas uma de suas vozes.
A modernidade concebeu o sujeito como uma substância autocentrada — o “eu penso” cartesiano.
Ifá responde com o “eu respiro com tudo”. A diferença é radical. No primeiro caso, o ser se fecha na
mente; no segundo, se abre no cosmos. O orí não é um cérebro, é um centro energético de
ressonância. Conhecer-se, então, é ajustar-se à vibração que o universo espera de nós. Quando o
homem vibra em dissonância, adoece; quando vibra em harmonia, floresce. A sabedoria é o estado
de coerência entre o pulso do homem e o pulso da criação.
Òrúnmìlà, após o ẹbọ, percebe que conhecer-se não é um ato, mas um caminho que nunca termina.
Cada dia, cada relação, cada perda e cada alegria são etapas do mesmo aprendizado. O
autoconhecimento é uma prática contínua de escuta e reciprocidade. O “eu” é uma onda que se
renova a cada respiração. O saber de Ifá é, por isso, uma fenomenologia da presença em
movimento: o ser se conhece vivendo. O conhecimento não é conceito, é experiência.
E assim a hermenêutica se amplia: conhecer-se é estar em paz com o mistério. O orí não precisa
compreender tudo; precisa apenas manter-se alinhado ao seu fluxo. O excesso de lucidez endurece;
o equilíbrio entre clareza e sombra mantém o movimento. A verdadeira sabedoria é saber até onde
ver e quando se calar. Òrúnmìlà aprende que o olhar interior deve ser rítmico, não fixo — deve
piscar. A alternância entre ver e não ver é o ritmo do cosmos.
163
A dimensão ética do autoconhecimento em Ifá nasce da compreensão de que o ser não é uma
substância moral, mas uma frequência vibracional. A bondade, a serenidade, o equilíbrio — todos
esses atributos que o Ocidente chama de virtudes — não são normas exteriores, mas estados de
sintonia entre o homem e o cosmos. Ìwà-pẹ̀lẹ́, a boa disposição de caráter, é a tradução existencial
dessa harmonia. O homem que se conhece verdadeiramente não é o que acumula saberes, mas o que
vive em coerência com seu orí. Conhecer-se é tornar-se congruente com o próprio destino, e isso se
manifesta como suavidade, como ausência de fricção entre o que se é e o que se deve ser.
No Ìtàn, Òrúnmìlà busca conhecer-se. A advertência que recebe — “oferece o sacrifício para que
não te percas em ti mesmo” — é também uma advertência ética. O perigo do autoconhecimento é o
narcisismo espiritual: quando o homem, ao voltar-se para dentro, se apaixona por seu próprio
reflexo. É o mesmo erro de Ọ̀ṣun, quando, em alguns versos, se contempla na água até esquecer a
corrente. O ẹbọ serve para dissolver esse espelho. Em Ifá, o conhecimento não é para ser possuído;
é para ser partilhado. O saber que não circula se torna veneno. Por isso o sacrifício precisa ser
deixado ao ar livre: o saber deve respirar, deve ser devolvido ao mundo.
O autoconhecimento, quando verdadeiro, gera humildade. O homem percebe-se como parte de uma
teia infinita e aprende a respeitar o que o excede. Ele abandona a ilusão do controle. A ética de Ifá
começa nesse reconhecimento da limitação. O orí é poderoso, mas não é onipotente. Há sempre um
mistério que o ultrapassa — o mistério de Olódùmarè, de Àṣẹ, do destino e das forças ancestrais
que o acompanham. O sábio não busca dominar o invisível; busca escutá-lo. E essa escuta é o
fundamento do respeito, da disciplina, da reverência. A boa conduta (ìwà) é a arte de escutar as
vozes do invisível antes de agir.
A hermenêutica Ìtànlógica lê neste verso o nascimento da ética como escuta cósmica. O homem que
conhece apenas a si mesmo ainda não conhece a si mesmo porque ignora o coro de vozes que o
forma. Sua conduta será sempre fragmentária, movida por impulsos, não por harmonia. O
conhecimento parcial de si leva ao excesso, e o excesso é a doença de ìwà. Òrúnmìlà entende que
agir bem não é seguir mandamentos, mas manter-se afinado com o ritmo do todo. O erro, em Ifá, é
sempre uma dissonância.
164
Essa ética do equilíbrio aparece simbolicamente nas duas galinhas do ẹbọ. Uma representa o
impulso interior, a outra o vínculo exterior. O homem deve nutrir ambas — se alimentar apenas de
uma, morre. O equilíbrio entre interioridade e convivência é o segredo da boa vida. Òrúnmìlà, ao
sacrificar duas aves, simboliza o reconhecimento dessa dualidade. Ele não nega o interior — ele o
purifica para que se torne fértil, comunicante. O autoconhecimento não é introspecção estéril, mas
fertilidade espiritual. O homem que se conhece torna-se fonte, não espelho.
A ética de Ifá é também uma estética. A beleza (ẹ̀wà) é a forma visível da harmonia. O homem ético
é belo porque seu movimento é ritmado, suave, sem rupturas. O cosmos inteiro responde a essa
beleza, porque o belo em Ifá é o que está no tempo certo, no compasso do Àṣẹ. Por isso se diz: Ìwà
l’ẹwà — o caráter é a beleza. O conhecimento de si manifesta-se, então, não em discursos, mas na
maneira de caminhar, de falar, de respirar. O sábio é reconhecido não pelo que diz, mas pela
qualidade de sua presença.
Há, nesse Ìtàn, uma pedagogia implícita: a de que o autoconhecimento precisa ser acompanhado por
uma vigilância constante sobre as formas do agir. O olhar interior que se volta sobre si deve
converter-se em olhar ético sobre o mundo. Conhecer-se é também medir as consequências do
próprio movimento. O homem que se conhece sabe o peso de suas palavras e a extensão de seu
silêncio. Ele age com precisão, não por cálculo, mas por ressonância. Cada gesto é um ato de
equilíbrio entre o visível e o invisível.
A hermenêutica Ìtànlógica percebe aqui uma relação íntima entre conhecimento, caráter e destino.
O orí que se conhece se torna estável, e a estabilidade é o terreno onde o destino floresce. O orí que
não se conhece se dispersa, e a dispersão é a raiz de todas as quedas. Por isso Òrúnmìlà oferece o
sacrifício antes de continuar sua busca — ele estabiliza o próprio campo antes de expandir o olhar.
O autoconhecimento, em Ifá, é sempre precedido de um ato de humildade.
A consciência, na visão Ìtànlógica, é uma chama que precisa de alimento. O ẹbọ é esse alimento
espiritual. O conhecimento sem oferenda seca; o conhecimento que se alimenta do sagrado
permanece luminoso. É o mesmo princípio que rege a palavra de Ifá: o verso, quando pronunciado
sem invocação, é apenas som; quando recitado com oferenda, torna-se verbo criador. Assim também
o autoconhecimento: sem a oferenda da humildade, é orgulho; com ela, é sabedoria.
165
Òrúnmìlà, ao proferir “Aquele que conhece apenas a si mesmo, ainda não conhece a si mesmo”, não
está apenas afirmando uma verdade filosófica — está restaurando o pacto ético entre o homem e o
mundo. Ele reconhece que o eu não é dono de si, mas hóspede de uma casa maior. O corpo é
morada do Àṣẹ, e o Àṣẹ é uma energia coletiva. Conhecer-se, então, é cuidar da casa que se é,
sabendo que ela pertence a muitos. A ética, em Ifá, é o zelo pela morada comum da existência.
Por fim, o autoconhecimento ético conduz à paz. O homem que se conhece não luta contra o que é.
Ele aceita, mas essa aceitação não é passividade — é sabedoria ativa. Ele flui como o rio que
conhece o leito e, por isso, não se revolta contra as margens. O orí pacificado torna-se um espelho
límpido do cosmos. E quando o homem reflete o cosmos, o mundo inteiro se torna mais leve.
A hermenêutica do autoconhecimento em Ìwòrì Òdì alcança agora sua dimensão cósmica, na qual o
conhecer-se torna-se um gesto de reconciliação entre o homem e o invisível. Òrúnmìlà, após
realizar o sacrifício e compreender que “aquele que conhece apenas a si mesmo ainda não conhece a
si mesmo”, não se contenta em entender-se como indivíduo — ele se reconhece como microcosmo,
reflexo da respiração divina. Em Ifá, o homem é um espelho de Ọ̀run; cada movimento humano
repercute nas esferas do invisível, e cada vibração celeste ressoa no corpo. Conhecer-se, portanto, é
participar conscientemente dessa reciprocidade. O eu não é uma substância, mas uma ponte. O orí é
o arco que liga o visível e o invisível, e o autoconhecimento é o trânsito incessante por essa ponte.
Nessa leitura, o orí se revela não apenas como centro da consciência, mas como órgão de ligação
entre dimensões. Ele é o altar interno onde o Àṣẹ se traduz em vontade. Ao aprender que o
autoconhecimento depende do mundo e do outro, Òrúnmìlà descobre também que ele depende do
próprio cosmos — que o homem é atravessado por uma respiração que o excede. Ìwòrì Òdì mostra
que o conhecimento de si é, ao mesmo tempo, uma cosmologia em ato: o ser humano se conhece na
medida em que reconhece o pulsar de Ọ̀run dentro de si. A sabedoria, nesse sentido, não é
acumulação de verdades, mas a capacidade de sincronizar-se com o ritmo da criação.
Essa reciprocidade entre Céu e Terra revela a estrutura mais profunda da metafísica de Ifá. O
cosmos é uma respiração: Ọ̀run expira, Àiyé inspira. A criação é o ritmo dessa alternância. O
homem, colocado entre ambos, é o mediador do sopro. O autoconhecimento é, assim, a consciência
do próprio papel nesse ciclo. Saber quem se é significa saber respirar com o universo, sem reter o ar
da existência. O homem que se fecha sobre si interrompe o fluxo do Àṣẹ e adoece. O homem que se
conhece permite que o Àṣẹ o atravesse. O conhecimento é o estado de transparência pelo qual o
divino passa. Aquele que conhece apenas a si mesmo fecha a passagem; aquele que se abre ao todo
torna-se canal. O sábio é o ser mais atravessado, não o mais separado.
No plano mais alto da leitura Ìtànlógica, essa travessia é também uma ascese: o retorno do ser à sua
condição primordial de claridade. O autoconhecimento é uma purificação ontológica. Òrúnmìlà, ao
realizar o ẹbọ, remove as impurezas da percepção — as crostas da individualidade — e reencontra o
olhar translúcido. A oferenda é um rito de despersonalização: o eu se oferece para tornar-se meio do
todo. Conhecer-se é, paradoxalmente, deixar de ser um “eu” isolado. O homem que alcança essa
transparência habita simultaneamente Ọ̀run e Àiyé, porque seu corpo se torna instrumento da
presença divina. Ele é, como dizem os versos, “o olho através do qual o mundo se vê”.
Esse estado é o que Ifá chama de ìmọ̀lè ̣ ayé — o humano tornado luminoso, o oráculo encarnado. O
autoconhecimento culmina na sabedoria não porque traz respostas, mas porque converte o ser em
espaço de manifestação do mistério. Conhecer-se é tornar-se silêncio pleno, como Ọ̀run em
repouso. A voz que fala antes da voz se recolhe, e o homem se transforma em ressonância pura. É
por isso que o Ìtàn termina no paradoxo: o verdadeiro conhecedor é aquele que se torna o próprio
desconhecido. Òrúnmìlà não encontra a si mesmo como objeto de saber, mas como corrente de
energia que se move entre os mundos.
A hermenêutica final mostra que o autoconhecimento é o rito supremo de comunhão. Ele não é
introspecção, mas incorporação: o homem, ao conhecer-se, se deixa habitar por todos os seres. Ele
recorda que seu corpo pertence à Terra e sua alma ao Céu, e que ambos são inseparáveis. Conhecer-
167
se é saber-se permeável. É compreender que cada respiração, cada palavra, cada gesto refaz o pacto
entre Ọ̀run e Àiyé. O orí desperto é o templo onde o divino e o humano se encontram para dançar.
Ao concluir o ẹbọ, Òrúnmìlà não diz “eu me conheço”, mas “eu sou o caminho pelo qual o
conhecimento passa”. Essa é a sabedoria última de Ìwòrì Òdì: o autoconhecimento como dissolução
da fronteira entre o que sabe e o que é sabido. O homem e o mundo respiram um no outro, e o saber
é o ar que os une. Aquele que compreende isso atinge a serenidade dos deuses.
Tradução:
Ọ̀runmìlà ensina a Afùwàpẹ̀ que o esquecimento não é ausência de conhecimento, mas afastamento
do próprio eixo espiritual. Àìmọ̀ — a ignorância — é o desvio da consciência de seu centro, e é por
isso que ele afirma: “Tudo o que buscamos conhecer já está dentro de nós.” Em Ifá, o saber não se
adquire; revela-se. O homem não é um recipiente vazio que se enche de informações, mas uma
cabaça que precisa ser revirada para liberar o que já contém. A ignorância, portanto, é apenas a
tampa da cabaça, e a sabedoria é o gesto de abri-la.
O ẹbọ oferecido à memória é o rito dessa reaproximação. Ele não é uma oferenda simbólica, mas
um realinhamento energético. Quando o homem se esquece, sua energia vital se dispersa. O
169
sacrifício recolhe os fragmentos do ser. Cada elemento — o alimento, o sangue, o óleo, o canto —
reativa uma camada de lembrança. Em Ifá, o ẹbọ é uma técnica de anamnesis, uma mnemotécnica
espiritual. Ele desperta o que dorme. O homem, ao sacrificar, sacrifica o esquecimento.
A hermenêutica Ìtànlógica vê neste Ìtàn a revelação de que o conhecimento é uma forma de retorno.
O aprendizado não é acumulação progressiva, mas reintegração do que foi perdido. “Conhecer” —
mọ̀ — tem o mesmo radical que “lembrar”, rántí. Ambos designam o mesmo movimento: a
reemergência da luz que sempre esteve acesa. O orí é um depósito de sabedoria cósmica, um
espelho onde a imagem de Olódùmarè se reflete parcialmente. O homem sábio é aquele que limpa
esse espelho de modo que a imagem possa reaparecer.
Afùwàpẹ̀, ao dizer “talvez eu saiba, mas me esqueci”, não confessa uma falha cognitiva, mas um
distanciamento existencial. Ele se esqueceu de si mesmo — e esquecer-se de si é a forma mais
radical de ignorância. Ọ̀runmìlà, ao sorrir, não o repreende, mas o acolhe na verdade da condição
humana: todo saber é esquecido antes de ser reencontrado. Por isso, o riso de Ọ̀runmìlà é o riso da
paciência cósmica — o riso de quem sabe que o esquecimento é o ritmo da lembrança.
No plano mais profundo, a ignorância (àìmọ̀) é uma necessária escuridão, porque sem ela a luz não
teria onde manifestar-se. O saber dorme na ignorância como a semente dorme na terra. A recordação
é o brotar da luz. Assim, Ifá ensina que o esquecimento não é inimigo, mas matriz do aprendizado.
Esquecer é o modo pelo qual o conhecimento se renova. Ọ̀runmìlà não condena a amnésia de
Afùwàpẹ̀; ele a orienta. Ele mostra que a ignorância deve ser transformada em solo de cultivo, não
em prisão.
No vocabulário de Ifá, Àìmọ̀ é muitas vezes associado a ìpè, o estado de inconsciência da alma
antes da iniciação. O iniciado é aquele que recorda. Por isso, o processo iniciático é chamado de
“abrir o orí”. O que se abre não é o cérebro, mas a porta do esquecimento. A iniciação é uma
pedagogia da lembrança. Cada odù recitado é uma senha que desbloqueia uma camada de memória
ancestral. Quando Ọ̀runmìlà diz que “tudo o que buscamos já está em nós”, ele não fala de um
interior psicológico, mas de um interior cósmico — o interior de Orí Olódùmarè que pulsa dentro
de cada ser.
170
A ignorância, então, é o esquecimento de Deus em nós. A sabedoria é o seu retorno. E o rito de
passagem, que vai da escuridão ao reconhecimento, é o próprio caminho da existência. O homem
nasce, esquece, busca, recorda, e morre lembrando-se de que sempre soube. Esse ciclo é o coração
da filosofia de Ifá. O tempo não acrescenta nada; ele apenas permite que o saber se manifeste no
ritmo certo. O aprender é o desdobrar do eterno.
A memória, na metafísica de Ifá, é o próprio eixo que une Ọ̀run e Àiyé. Não se trata de um mero
exercício da mente humana, mas de uma dimensão ontológica — o espaço interior onde o invisível
se faz presente e o tempo se torna reversível. O esquecimento é o véu que cobre essa ponte,
necessário para que a alma viva a experiência do mundo, mas destinado a ser levantado à medida
que o ser amadurece. Por isso Ọ̀runmìlà ensina Afùwàpẹ̀ que a ignorância é apenas o esquecimento
daquilo que já se é, e que o aprendizado é a lenta reapropriação da própria eternidade. O homem é o
ser que carrega o Céu dentro do corpo, mas precisa reencontrá-lo a cada gesto, a cada palavra, a
cada lembrança.
A memória, nesse contexto, é o lugar da presença divina. Quando o homem se lembra, ele não
apenas recorda um fato: ele reata a correspondência entre seu orí e o Orí Olódùmarè. O recordar é
um ato de reintegração cósmica. A palavra rántí — lembrar — vem de rán (enviar, reconectar) e tí
(origem), significando literalmente “voltar ao que foi enviado da origem”. A lembrança é o fio que
liga o homem ao seu princípio. Assim, o esquecimento não é um erro, mas a condição para o
retorno; a lembrança é o movimento de volta à unidade primordial. O ser, para Ifá, é sempre cíclico:
ele se afasta para poder reencontrar-se.
Essa concepção torna a memória uma força sagrada. Ela é uma divindade interior — um òrìṣà
àkọ́kọ́ — que sustenta a continuidade entre o que fomos em Ọ̀run e o que somos em Àiyé. O
homem não aprende nada novo porque tudo o que precisa saber já foi depositado em seu orí antes
do nascimento. A iniciação não acrescenta, apenas desperta. O Bàbáláwo não ensina; ele reabre
caminhos. Quando Ọ̀runmìlà pede que Afùwàpẹ̀ ofereça ẹbọ à memória, está instruindo-o a
restaurar essa ponte. O sacrifício é um ato de religação entre os dois planos da existência. Cada
oferenda é um lembrete que devolve o homem à sua origem.
A cosmologia de Ifá vê a consciência como uma forma de vibração. O saber não é uma posse, mas
uma frequência. Quando o homem se afasta de seu centro, sua vibração se desajusta — e ele
171
esquece. O esquecimento é, portanto, uma desritmia ontológica. O ẹbọ recompõe o compasso. Por
meio do canto, do sangue, do óleo e da palavra, o homem reencontra o ritmo que o liga à criação. A
recordação não é, então, um processo mental, mas um evento cósmico: o universo inteiro participa
do ato de lembrar. O vento que toca o rosto durante a oferenda é o sopro de Ọ̀run respondendo à
evocação da consciência desperta.
A hermenêutica Ìtànlógica revela que a ignorância não é ausência de luz, mas luz esquecida dentro
da sombra. O esquecimento é o intervalo em que o ser repousa antes de reencontrar a si mesmo. Por
isso Ọ̀runmìlà ri — o riso é o gesto do sábio que compreende o jogo entre lembrar e esquecer. O
conhecimento verdadeiro não é o domínio da luz, mas o equilíbrio entre luz e sombra. Quem lembra
de tudo enlouquece; quem esquece de tudo morre. O homem sábio é aquele que sabe o que deve
lembrar e o que deve deixar dormir. O equilíbrio entre a lembrança e o esquecimento é o que
mantém a ordem dos mundos.
Na cosmologia de Ifá, cada odù é uma forma de memória cósmica. Eles não são apenas textos ou
signos, mas depósitos de experiências arquetípicas. Cada odù é um arquivo vivo da consciência
universal. Ao lançar o ikin, o Bàbáláwo não adivinha o futuro: ele consulta a memória do mundo. O
oráculo é o espelho do que sempre foi. Assim, o ato de consultar Ifá é um ato de lembrar o destino.
O homem se ajoelha diante do oráculo para ouvir aquilo que sua alma já sabe, mas que o corpo
esqueceu. A divinação é uma forma de anamnesis, uma recordação ritual daquilo que o ser é em
Ọ̀run.
Afùwàpẹ̀, ao reencontrar seu saber interior, torna-se imagem do iniciado que desperta. Ele não
adquire poder; ele retoma a consciência de que o poder sempre foi dele. Essa retomada é o sentido
último da iniciação. A ignorância é apenas a dispersão do Àṣẹ, e a memória é sua reconvergência. O
homem que se lembra é aquele que voltou a alinhar-se com o eixo do mundo. Seu orí se reergue,
sua palavra se torna eficaz, e sua vida volta a fluir em harmonia com o destino. Lembrar é realinhar-
se.
O ẹbọ à memória é, assim, o símbolo dessa continuidade: a oferenda que garante que o
conhecimento nunca se rompa. O esquecimento, no entanto, sempre retorna — porque o ciclo do ser
é respiração, e o silêncio é parte do som. O homem precisa esquecer um pouco para poder lembrar
novamente com mais profundidade. O saber absoluto seria o fim da vida. O esquecimento é,
portanto, a misericórdia de Olódùmarè. Ele protege o homem da fadiga da onisciência e lhe dá o
dom de recomeçar.
Na hermenêutica Ìtànlógica, esse ato é teogônico porque produz presença. O mundo não é um fato
consumado, mas uma recordação contínua do pensamento de Olódùmarè. Cada lembrança humana
é uma centelha dessa recordação divina. O universo é mantido coeso pela memória de si mesmo.
Quando o homem se esquece, o cosmos se fragmenta; quando o homem lembra, o cosmos se
recompõe. A lembrança é o ato pelo qual o ser retoma sua inteireza. O Àṣẹ não flui no vazio, ele
precisa de recipientes que recordem. Por isso, o orí é chamado de “a morada do Àṣẹ que se lembra”.
Afùwàpẹ̀, ao realizar o ẹbọ da memória, não faz apenas um rito pessoal: ele participa do rito
cósmico de manutenção da criação. O ẹbọ é o gesto através do qual o homem reoferece ao divino
aquilo que dele recebeu — o dom de lembrar. O sacrifício é a oferenda da consciência. Cada gota de
óleo, cada palavra pronunciada, cada sopro de vento que toca o altar é uma lembrança
materializada. O universo, que é esquecimento e luz, se equilibra nesse movimento de dar e receber
lembranças. O homem é o guardião desse ritmo.
173
Ifá ensina que a criação começou com um ato de recordação. Olódùmarè, contemplando o próprio
silêncio, lembrou-se de si e, nesse ato, o mundo começou a vibrar. O cosmos é o eco de uma
lembrança divina. Desde então, o lembrar tornou-se a energia que sustenta tudo o que vive. Lembrar
é, portanto, recriar. O homem, quando se lembra de sua origem, não apenas se reconcilia com o
divino — ele o reatualiza. Por isso, o verso diz que o esquecimento é a causa da ignorância: não há
nada novo a saber, apenas o antigo a reavivar.
A memória, nessa chave, é o órgão da eternidade dentro do tempo. Ela faz o que o sol faz no
horizonte: reaparece diariamente, não porque tenha desaparecido, mas porque o mundo precisa vê-
lo de novo. O esquecimento é a noite; a lembrança é a aurora. Cada despertar é um pequeno
renascimento do cosmos. Ọ̀runmìlà ensina que o homem que lembra corretamente desperta não
apenas para o dia, mas para o próprio ser. Ele se torna canal do Àṣẹ, e o Àṣẹ é a energia da
recordação divina circulando entre as formas.
A lembrança é também o lugar onde os ancestrais continuam a existir. Eles não vivem apenas em
um espaço separado de Ọ̀run; eles habitam as memórias de seus descendentes. O homem que se
lembra de seus antepassados reativa neles a força de ser. O esquecimento, ao contrário, é a segunda
morte. Por isso, a lembrança é um ato de justiça cósmica: ela restitui aos mortos sua presença, e
devolve aos vivos sua continuidade. A memória é um altar invisível onde os tempos se unem.
Afùwàpẹ̀, ao lembrar, não desperta apenas seu próprio saber, mas o saber de todos os que o
precederam.
Na leitura Ìtànlógica, esse Ìtàn revela que o homem é um intermediário da memória de Olódùmarè.
Ele é chamado a guardar e a repetir o gesto da criação. O esquecimento é inevitável porque o tempo
precisa de pausa, mas a lembrança é o respiro que o renova. Por isso, a sabedoria de Ifá não busca
fixar o saber, mas mantê-lo em movimento. O saber que se fixa se transforma em pedra, e o saber
que circula se torna rio. O rio é a imagem mais perfeita da memória: ele nunca é o mesmo, mas
nunca deixa de ser o mesmo.
A lembrança também é o fundamento do nome. Quando alguém pronuncia seu nome em Ifá, está
realizando um ato de recordação ontológica. O nome é uma partitura do ser; cada sílaba é uma
senha que abre uma camada de memória. Dizer o nome verdadeiro é lembrar-se de si de modo
integral. O nome, no sentido profundo, não é invenção — é revelação. Olódùmarè nomeia, e o
174
homem lembra. Afùwàpẹ̀ aprende que o nome que o pai lhe deu é também a forma pela qual o
universo o reconhecerá. Por isso, lembrar é também pronunciar-se.
No ponto mais alto dessa hermenêutica, a lembrança torna-se oração. Quando o homem ora, ele
lembra. A prece não é um pedido, mas uma recordação: lembrar a Olódùmarè que ainda se deseja
ser parte de sua lembrança. O mundo existe porque Olódùmarè o recorda, e o homem continua
existindo porque ainda o recorda em retorno. O esquecimento, portanto, é o verdadeiro exílio; a
lembrança é o retorno.
Eis o segredo de Ìwòrì Òdì: a memória é o coração pulsante do ser. Esquecer é desalinhar-se do
pulso cósmico; lembrar é recolocar-se no compasso. Por isso, o sábio não luta contra o
esquecimento — ele o transforma em ocasião de novo despertar.
A lembrança, em seu último e mais profundo sentido dentro de Ìwòrì Òdì, é a vitória sobre o
esquecimento que define a condição mortal. Lembrar é libertar-se do ciclo da perda e reencontrar o
centro imutável que o tempo não pode corromper. A memória, nesse nível, não é apenas a faculdade
de reter experiências: é o próprio gesto de eternidade manifestando-se dentro do efêmero. O homem
que se lembra não apenas recorda o passado — ele se instala na intemporalidade. Por isso,
Ọ̀runmìlà ensina que aquele que recorda aquilo que Olódùmarè pôs em seu íntimo nunca morre
verdadeiramente, pois permanece enraizado na lembrança do próprio Criador.
Ifá vê a morte não como aniquilação, mas como o ponto máximo do esquecimento. Morrer é ser
esquecido — pelos outros, pelo mundo, por si mesmo. A imortalidade, então, é o oposto disso: é o
estado de lembrança contínua. O homem se torna imortal quando a lembrança de si coincide com a
lembrança de Olódùmarè. Quando ele recorda não apenas o que foi, mas o que é em essência, o
tempo se detém dentro dele. Nesse instante, a alma deixa de pertencer ao fluxo e passa a ser o
próprio fluxo. É o retorno à fonte — o estado que os antigos chamavam de Ìpín Tó Ṣe Tan, a porção
que se completou.
No ponto em que a lembrança se torna contínua, o ser humano deixa de oscilar entre Ọ̀run e Àiyé:
ele habita ambos simultaneamente. Ele se torna um espelho transparente, onde o invisível se reflete
sem distorção. Esse é o estado do olùmọ̀-ọ̀rọ̀, o conhecedor das palavras da origem, aquele que não
fala de memória, mas a partir dela. Sua voz é lembrança pura, sua presença é testemunho do eterno.
Ele não acumula saberes — ele é o saber lembrado. Assim, o iniciado deixa de ser aprendiz e se
torna próprio oráculo vivo: cada palavra que pronuncia é lembrança de Olódùmarè no mundo.
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A libertação, portanto, não é a fuga do esquecimento, mas sua transfiguração. O homem liberto é
aquele que, mesmo esquecendo, sabe que se lembrará; aquele que vive o esquecimento como
prelúdio da próxima revelação. Ele não teme a sombra porque reconhece nela a semente da luz. O
tempo, que antes o aprisionava, torna-se companheiro. O destino, que antes o oprimia, torna-se
música. O universo, que parecia vasto e estranho, torna-se familiar como a própria voz interior. O
homem que se lembra já está em casa.
Por isso, Ọ̀runmìlà termina o ensinamento com um sorriso silencioso: o saber não se explica, se
reconhece. Afùwàpẹ̀, ao realizar o ẹbọ da memória, não aprende nada de novo — ele desperta para
aquilo que sempre soube. Ele não se torna outro, ele se reencontra. Esse reencontro é o verdadeiro
sentido da sabedoria em Ifá: recordar-se de si mesmo até que o esquecimento perca a força. O
homem torna-se imortal quando se lembra sem cessar.
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5. Ìwòrì Ìròsùn
Bí ẹnu bá dá, kì í dá ayé; bí ayé bá dá, ẹnu á dá (Quando a boca se cala, o mundo não se desfaz; mas
Kó lè mọ ìgbà tí a máa sọ
Ó rúbọ,
Tradução:
178
Recordando que a palavra dita fora de tempo
“Quando a boca se cala, o mundo não se desfaz; mas quando o mundo se cala, a boca se refaz.”
O silêncio e a palavra são as duas asas com que o espírito atravessa o mundo. Em Ìwòrì Ìròsùn,
Ọ̀runmìlà ensina que não há destino que não dependa da justa medida entre ambos. O verso —
“Quando a boca se cala, o mundo não se desfaz; mas quando o mundo se cala, a boca se refaz” — é
a síntese dessa ontologia vibracional da fala. O mundo, em Ifá, não é apenas substância ou matéria:
é som, é verbo em movimento. Tudo o que existe está sustentado por um ritmo de fala e escuta, de
desse mesmo ritmo. O falar e o calar não são apenas atos humanos: são modos pelos quais o
Ọ̀runmìlà, ao caminhar sobre os céus, é aqui o símbolo do pensamento em movimento, aquele que
percorre as alturas da consciência. Ao recordar que a palavra fora de tempo rompe o vínculo com a
verdade, ele recorda também que a palavra é uma força viva — e que, usada sem o àsìkò correto,
torna-se destrutiva. Em Ifá, o tempo oportuno é a medida da sabedoria. O àsìkò não é cronologia, é
vibração. Cada palavra deve nascer em consonância com o pulso do Àṣẹ. Falar antes do tempo é
ferir a harmonia; calar quando o Àṣẹ convoca a fala é omitir o divino. O silêncio, nesse sentido, não
é ausência de som, mas escuta ativa da vibração universal. Ọ̀runmìlà aprende que o mundo é feito
179
O sacrifício que Ọ̀runmìlà realiza “à Terra e à Boca” é uma oferenda à dualidade essencial da
emissão, da revelação, da expressão. A harmonia entre ambas define o ciclo da criação. Quando o
homem fala, planta sementes no mundo; quando se cala, colhe o que plantou. O desequilíbrio entre
essas forças gera desordem: o excesso de fala seca o solo da alma, o excesso de silêncio apodrece a
semente da palavra. O sábio de Ifá é aquele que conhece o tempo de cada gesto, que sente o
A hermenêutica Ìtànlógica vê nesse Ìtàn uma das mais altas lições sobre a ontologia da linguagem.
A palavra é o lugar onde o invisível se torna visível. Quando pronunciamos, não criamos algo novo
— apenas abrimos passagem ao que já vibra no plano do espírito. A fala é uma abertura, não uma
invenção. Mas toda abertura exige respeito. A fala profana — a palavra sem àsìkò, sem escuta
prévia — viola a estrutura do mundo. Por isso Ọ̀runmìlà oferece sacrifício: para reconciliar o verbo
Em Ifá, o silêncio é anterior à palavra. Antes que qualquer som seja emitido, há o espaço invisível
que o torna possível. Esse espaço é Ọ̀run em repouso — o ventre do verbo. Falar é um ato de
fecundação desse espaço, e calar é o retorno à sua pureza. O homem, no entanto, esquece essa
alternância e tenta ocupar o silêncio com o ruído de suas certezas. É isso que Ọ̀runmìlà chama de
“palavra fora do tempo”. A fala apressada é uma forma de violência ontológica: ela tenta impor
forma ao que ainda está em gestação. O verdadeiro saber é paciente. O silêncio é o estágio da
maturação do verbo. Falar sem ter silenciado é falar sem ter ouvido o que o mundo queria dizer.
Por isso o verso adverte: “Quando a boca se cala, o mundo não se desfaz.” O silêncio não destrói o
mundo, pois o mundo é sustentado pelo verbo de Olódùmarè, não pelo ruído dos homens. O
universo não depende da nossa voz para existir; ao contrário, é nossa voz que depende do universo
para ter sentido. Quando o homem se cala, ele permite que o mundo o atravesse — e nesse
atravessamento, ele se refaz. O silêncio devolve ao ser o contato com o ritmo cósmico. “Mas
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quando o mundo se cala, a boca se refaz”: quando o cosmos parece suspenso, quando a existência
parece estagnada, é a vez do homem de falar — de pronunciar o som que reabre o caminho da vida.
que conhece o ritmo do verbo, que sabe quando o Àṣẹ quer silêncio e quando quer palavra. Ele fala
apenas quando a fala é veículo do Àṣẹ; e cala-se quando o silêncio é a oferenda mais pura.
Ọ̀runmìlà, ao oferecer sacrifício à Boca e à Terra, oferece-se ao próprio equilíbrio universal: que sua
voz nunca rompa o ciclo do mundo, e que seu silêncio nunca se torne omissão.
O dizer e o calar, em Ifá, não se opõem; eles se nutrem. O silêncio é o campo onde a palavra
amadurece, e a palavra é o fruto que devolve ao silêncio o sabor da eternidade. A sabedoria é a arte
de cultivar ambos. Quando Ọ̀runmìlà aprende isso, ele descobre que toda fala verdadeira é eco do
silêncio de Olódùmarè. A palavra não nasce da vontade, mas da escuta. Por isso, quem fala demais
perde o dom; quem escuta demais sem falar perde a ação. O equilíbrio é o àrà ò ̣run — o tempero
A palavra, em seu estado primordial, não é propriedade de ninguém. Ela pertence ao próprio tecido
do universo, é uma corrente que liga Ọ̀run a Àiyé, o invisível ao visível, o eterno ao efêmero. No
interior de Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀runmìlà compreende que falar é participar desse fluxo de energia divina
— e que cada som pronunciado é uma liberação de Àṣẹ. Assim, o verbo não é apenas comunicação,
mas criação. O Àṣẹ das palavras move o destino, molda o tempo, reordena as circunstâncias. O
homem que ignora essa dimensão sagrada da fala transforma o dom da criação em arma de
desarmonia. É por isso que Ifá ensina: “A palavra é como o vento que sopra do coração do mundo
No instante em que Ọ̀runmìlà se oferece em sacrifício à Terra e à Boca, ele reconhece que ambas
são matrizes da linguagem. A Terra é a boca do mundo, e a Boca é a terra do homem. Ambas
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gestam, acolhem, transmutam. A Terra recebe o som e o devolve como forma; a Boca recebe a
forma e a devolve como som. Entre elas circula o mesmo princípio: Àṣẹ. Essa reciprocidade revela
que o cosmos inteiro é uma vasta boca aberta, pronunciando-se eternamente a si mesmo. Quando o
homem fala com reverência, ele participa dessa fala cósmica — torna-se coautor da criação. Mas
quando fala por vaidade, separa-se da ordem universal e cai no ruído do ego, o àrokò àìmọ̀, a
O silêncio é o antídoto contra o esquecimento desse mistério. Calar não é negar a fala, mas purificá-
la. É o momento em que o som retorna à sua fonte. Ọ̀runmìlà aprendeu que o silêncio é a respiração
de Olódùmarè entre uma palavra e outra. O universo não é uma sucessão contínua de sons, mas um
pulsar de fala e pausa. É no intervalo que o sentido se revela. Aquele que fala sem intervalo destrói
o sentido, porque não permite que a palavra respire. O silêncio, então, é o útero do verbo — o lugar
Ifá ensina que todo ser humano traz uma “Boca Cósmica” (Ẹnu Ọ̀run), que se expressa por meio da
fala e do sopro. Essa Boca não é apenas física: é espiritual. É o ponto por onde o Àṣẹ entra e sai, o
portal entre o invisível e o tangível. Cada palavra é um ẹbọ sonoro oferecido ao mundo. O problema
é que o homem moderno perdeu o rito do verbo: fala sem oferenda, fala sem intenção, fala sem
consciência. Suas palavras não têm peso, porque já não têm silêncio dentro delas. Em Ìwòrì Ìròsùn,
Ọ̀runmìlà restaura o pacto da fala ritual: antes de pronunciar, ele oferece; antes de emitir som, ele
O silêncio, por sua vez, é também uma forma de Àṣẹ. É o Àṣẹ em repouso, o poder que se recolhe
para amadurecer. Quando o homem silencia com consciência, ele não abdica do poder, ele o
condensa. O silêncio é a forma mais elevada de fala, porque é fala que se ouve por dentro. Ọ̀runmìlà
compreende que há um momento em que o Àṣẹ não quer ser dito, mas apenas sentido. O sábio que
ignora isso esgota o poder da sua voz; o sábio que o compreende preserva o vigor do seu destino.
182
A hermenêutica Ìtànlógica vê aqui a grande lei do verbo: o som cria quando nasce do silêncio;
destrói quando nasce do ruído. O silêncio é o solo sagrado da fala. É o campo onde o Àṣẹ repousa
até que o tempo esteja maduro. O som que nasce desse repouso é portador de verdade, porque
carrega dentro de si a vibração do invisível. É por isso que as palavras de Ọ̀runmìlà curam: não
porque ele domina o verbo, mas porque se deixa dominar por ele.
Toda fala é uma corrente energética. As palavras circulam entre os seres como rios invisíveis. O que
se pronuncia nunca morre: transforma-se em vibração que continua a agir no tempo. É o eco do Àṣẹ
em expansão. Por isso, em Ifá, falar é um ato de responsabilidade ontológica. Cada palavra é uma
semente lançada no campo do destino. Falar exige o mesmo cuidado que plantar. A fala descuidada
é a raiz da desordem. Quando Ọ̀runmìlà diz que “a palavra fora de tempo desfaz a aliança com a
O Èmí, o sopro vital, é o verdadeiro dono da fala. A boca é apenas o seu instrumento. Falar,
portanto, é dar forma ao sopro — é fazer o invisível respirar em forma de som. Mas o homem
moderno fala sem respirar, e por isso suas palavras são ocas. Ele perdeu o fôlego do verbo. O
Bàbáláwo, ao contrário, fala a partir do centro do sopro: cada palavra é precedida por um respirar
consciente, uma comunhão com o ritmo do universo. Ele não fala para convencer, mas para ordenar
o mundo. Sua fala é uma extensão do Ẹbọ: um sacrifício verbal, uma oferenda de som ao equilíbrio
cósmico.
Nesse Odu, Ifá ensina que o silêncio e a palavra são dois modos de servir a Olódùmarè. O silêncio o
honra pela reverência; a palavra o honra pela ação. Ambas são expressões do mesmo Àṣẹ,
alternando-se como o dia e a noite. Quando a fala se torna pura, o silêncio se torna pleno. Quando o
silêncio é verdadeiro, a fala é luminosa. O equilíbrio entre ambos é o estado do sábio: aquele que
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O cosmos é um tambor que ressoa entre o silêncio e o som. Cada ser humano é uma nota desse
tambor, e sua fala deve estar em harmonia com o ritmo maior. Quando o homem fala em
descompasso, ele gera dissonância — e a dissonância é a causa das doenças espirituais, dos
conflitos e da perda do destino. O silêncio, então, é o remédio que restaura o ritmo interno. Calar é
O Àṣẹ da palavra é o Àṣẹ da vida. Toda criação é verbo pronunciado por Olódùmarè. A própria
existência humana é uma frase em constante pronunciação. Falar, portanto, é continuar a obra do
Criador. Calar é permitir que o Criador fale através de nós. O equilíbrio entre esses atos é o segredo
da convivência entre o humano e o divino. Ọ̀runmìlà, em Ìwòrì Ìròsùn, encarna essa harmonia:
quando fala, faz o mundo se mover; quando se cala, permite que o mundo o mova. Ele é, ao mesmo
O silêncio é o ventre do verbo, mas é também o seu túmulo, e cada palavra que nasce carrega o
destino de morrer para renascer em outra forma. No campo ético e cosmológico de Ìwòrì Ìròsùn,
essa oscilação entre fala e silêncio revela a estrutura mais profunda do existir: o homem é aquele
que fala porque respira, e respira porque o verbo o atravessa. O sopro (Èmí) e o som (Ọ̀rò ̣) são
irmãos gêmeos: um move o corpo, o outro move o mundo. Se o homem respira em descompasso
com o ritmo de Ọ̀run, sua fala se torna ruído e seu destino se desvia. Por isso Ọ̀runmìlà sacrifica à
Boca e à Terra — porque o corpo é o templo onde o som se encarna e a Terra é o corpo maior onde
a fala ecoa.
A palavra tem densidade ética porque carrega o peso do Àṣẹ. Toda fala é um ato, e todo ato é uma
fala. O destino (àyànmọ̀) se cumpre não apenas pelo que fazemos, mas também pelo que dizemos. A
fala que semeia o caos é uma profanação do Àṣẹ, porque ela rompe a harmonia entre o espírito e o
mundo. O silêncio, em contrapartida, é uma medicina (ìwòsàn): ele cura o excesso da fala, acalma o
vento interno, restitui o poder ao centro do peito. Em Ifá, o coração (ò ̣kàn) é a morada da fala
184
verdadeira, porque é dali que o Èmí se ergue para tocar os lábios. Falar sem coração é trair o verbo;
O corpo é o instrumento por onde a fala se manifesta, e cada órgão participa desse mistério: os
pulmões abrigam o sopro, o sangue transporta o ritmo, a língua molda o som, os ossos sustentam a
vibração, e até a sombra projeta a forma oculta do verbo. O homem inteiro fala, mesmo quando está
calado. A respiração é uma oração contínua, um diálogo silencioso com o invisível. Cada inspiração
é uma escuta; cada expiração é uma resposta. Ọ̀runmìlà, ao compreender isso, torna-se um
mediador do sopro cósmico: não fala por si, fala através de si. A palavra do sábio é corpo de luz; seu
A dimensão cosmológica da fala mostra que todo o universo é som. As estrelas são vibrações de
Àṣẹ condensadas em luz; as águas são melodias em movimento; a Terra é um tambor sagrado onde
o ritmo do verbo ressoa. Falar, então, é tocar o tambor do mundo. Cada palavra é uma batida que
desperta ou adormece forças. Quando Ọ̀runmìlà fala em sintonia com o Àṣẹ, o cosmos dança;
quando o homem fala sem escutar o ritmo, a dança se torna convulsão. O silêncio é o compasso que
restaura o ritmo, o espaço onde a música da criação pode ser ouvida novamente.
Na ética de Ìwòrì Ìròsùn, o homem justo é aquele cuja fala cura. Ele não fala para convencer, mas
para ordenar. Sua palavra é bálsamo porque nasce do silêncio; é espada porque corta a ilusão; é
ponte porque liga mundos. Esse é o poder da palavra de Ifá: ela não explica o mundo, ela o
reordena. O Bàbáláwo, ao pronunciar um verso, não interpreta — recria. Sua fala é uma atualização
do cosmos, um ato de manutenção da ordem do ser. Por isso, antes de falar, ele silencia: para
O silêncio, no entanto, não é apenas pausa. É também juízo. O silêncio observa o que a fala oculta.
Olódùmarè sobre a criação. É a escuta do invisível por dentro do visível. No silêncio, o homem
185
percebe o peso do que diz e o limite do que pode dizer. O silêncio ensina a humildade ontológica: a
consciência de que nenhuma palavra humana abarca o mistério inteiro. Daí a sabedoria de Ìwòrì
Ìròsùn: a fala deve nascer com reverência, e o silêncio deve guardar o indizível com amor.
Ifá afirma que Ọ̀rò ̣ (a palavra) e Àṣẹ (o poder) são inseparáveis. O Ọ̀rò ̣ é o veículo; o Àṣẹ, a energia
que o move. Mas só o silêncio lhes dá direção. Falar sem silêncio é como mover-se sem chão. Por
isso Ọ̀runmìlà sacrifica à Terra — porque é ela que sustenta o som. A Terra é o ouvido do mundo.
Tudo o que o homem diz, ela escuta. E, ao escutar, grava. A palavra não desaparece: torna-se
memória do solo. Daí o ensinamento: “A Terra não esquece o que a boca diz.” Falar, portanto, é
semear o próprio destino no corpo do planeta. O silêncio, por outro lado, é o gesto de devolver à
adoeceu de ruído. Sua fala perdeu peso porque perdeu origem. Ele fala de fora, não de dentro. A
cura é o retorno ao silêncio original — o silêncio de onde o verbo brota. Calar-se, nesse sentido, é
um ato de purificação do Àṣẹ. É o jejum da palavra. O silêncio limpa o canal da fala, remove as
impurezas do ego, devolve à língua sua doçura ritual. Depois de silenciar, o homem volta a falar
momento em que o coração do mundo se abre para receber o sopro. A fala é a sístole — o impulso
criador que devolve o sopro à existência. O equilíbrio entre ambos é o estado de Ìwà pẹ̀lẹ́, o caráter
sereno que reflete a ordem divina. Em Ìwòrì Ìròsùn, o homem aprende que viver é falar e calar no
tempo certo, mover-se e deter-se com sabedoria, inspirar e expirar com consciência.
Assim, a hermenêutica Ìtànlógica compreende que o silêncio e a fala são dois modos de manifestar
o mesmo mistério: o de que o ser é som que se escuta. Ọ̀runmìlà, mestre da escuta e da fala, ensina
186
que a sabedoria começa no ouvido, não na língua. Escutar é um ato de amor; falar, um ato de
entrega. Quem não escuta não pode amar; quem não ama não deve falar.
homem realiza entre Ọ̀run e Àiyé. Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀runmìlà descobre que o destino não é um
roteiro escrito, mas um canto em contínua pronunciação. O homem cumpre o seu àyànmọ̀ à medida
que pronuncia a própria vida com o som certo, no tempo certo, com o coração certo. O destino, em
Ifá, é música — e quem vive sem escutar o ritmo do universo desafina o próprio ser. A fala é o
instrumento por meio do qual o homem afina-se ao seu caminho. O silêncio é o espaço onde a
afinação se realiza.
O verbo é também a estrada porque é através dele que o homem se desloca no tecido do mundo.
Falar é caminhar com o som; calar é repousar sobre o chão. O ò ̣nà, o caminho, é uma vibração
contínua que liga o que foi dito ao que ainda será dito. Cada palavra é um passo. As palavras
iniciados percorrem quando entram no transe da escuta. Por isso, cada verso de Ifá é um mapa. O
Ìtàn não é uma história, é um caminho sonoro; e o Bàbáláwo é o viajante que o percorre com a voz,
O silêncio, por sua vez, é a morada onde o verbo repousa. É o ilé da palavra. Assim como a Terra
acolhe a semente, o silêncio acolhe o som. Se o homem fala sem morada, sua voz se perde. O
silêncio é o abrigo da fala, o espaço onde ela amadurece antes de florescer. Todo verbo verdadeiro
nasce de um silêncio habitado. Por isso, em Ifá, antes de recitar um verso, o sacerdote invoca o
silêncio dos ancestrais: o ìdákẹ́jẹ que sustenta a palavra viva. Esse silêncio não é vazio; é presença
densa. É o murmúrio dos que vieram antes, a vibração subterrânea da sabedoria. Falar sem tê-lo
187
A relação entre palavra e destino é o cerne de Ìwòrì Ìròsùn. O destino não é uma fatalidade, mas
uma música de possibilidades. O homem pode desafinar, mas também pode reencontrar o tom. O
tom é a fala justa — o verbo que se alinha ao Àṣẹ do próprio Orí. Por isso se diz: “A palavra do
homem justo é o prolongamento da sua cabeça.” O Orí é o ouvido do destino. Quando o homem
fala em harmonia com o seu Orí, o universo responde; quando fala em desacordo, o silêncio de
Ọ̀run é sua única resposta. O silêncio, então, não é ausência de escuta — é advertência. O cosmos
O verbo também é corpo. O corpo é o tambor onde o Àṣẹ ressoa. Cada órgão vibra com uma
frequência da fala divina: o coração pulsa o ritmo, o pulmão sopra o vento, a língua traduz a
melodia. O corpo, ao falar, não apenas emite sons — ele participa do canto do mundo. Quando o
homem fala com sinceridade, o sangue canta. Quando mente, o sangue se cala. Assim, o verbo não é
só ético: é fisiológico. Falar é um ato de circulação do Àṣẹ. O silêncio, por sua vez, é o momento
em que o corpo se recolhe para ouvir o próprio pulsar. É o retorno do som ao sangue.
O cosmos é o grande coro de Olódùmarè. Cada ser é uma nota, e cada destino, uma canção. O verbo
é o modo de participar desse coro. Quando Ọ̀runmìlà ensina que “ninguém conhece o segredo do
Céu sem conhecer o segredo da Terra”, ele fala da harmonia entre a fala celestial e a escuta terrena.
O homem precisa conhecer os dois lados da vibração — o som e o eco. A fala sem escuta é soberba;
a escuta sem fala é medo. A verdadeira sabedoria é o ponto de encontro onde o som e o eco se
A hermenêutica Ìtànlógica revela que a fala, o destino e o cosmos são expressões do mesmo
princípio: o Àṣẹ. O Àṣẹ é a respiração divina que anima todas as coisas. É som que se faz forma,
forma que se faz som. O universo inteiro é o verbo de Olódùmarè em estado de expansão. O
homem, sendo parte desse verbo, tem o dever de pronunciar-se com reverência. Cada palavra que
diz é uma centelha do verbo criador. Falar é participar da criação; calar é preservar o mistério.
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O silêncio é também o espaço onde o destino se reescreve. Quando o homem cala, o mundo fala por
ele. A natureza, os ventos, as águas, os sonhos — todos são vozes que o instruem. O silêncio
desperta a linguagem do invisível. É no silêncio que Ọ̀runmìlà escuta as vozes dos ancestrais e
renova o pacto com a ordem cósmica. No mundo moderno, o ruído constante impede o homem de
ouvir essas vozes. Por isso, Ifá ensina o retorno ao silêncio ritual: o momento do recolhimento onde
Em Ìwòrì Ìròsùn, o verbo é caminho porque move, o silêncio é morada porque sustenta. O homem
deve aprender a caminhar e a repousar com a mesma graça. O equilíbrio entre ambos é o segredo da
permanência. Quem fala demais se perde do caminho; quem silencia demais perde a casa. A fala
justa é aquela que nasce do repouso e se move com leveza. O silêncio justo é aquele que acolhe o
Assim, o Odu revela o sentido último da vida: viver é falar e calar em comunhão com o ritmo
divino. A fala e o silêncio não são opostos, são respirações alternadas do mesmo ser. Quando o
homem aprende a escutar seu próprio som e o som do mundo, ele se torna inteiro. A fala volta a ser
prece, o silêncio volta a ser templo, e a existência volta a ser canto. Ọ̀runmìlà, ao ensinar essa arte,
inaugura uma ética do verbo e uma metafísica da escuta: o homem como intermediário sonoro entre
o Céu e a Terra.
E assim o verso de Ìwòrì Ìròsùn encerra-se como um círculo de vibração contínua — o som que se
recolhe no silêncio, o silêncio que se expande em som. O verbo é caminho (ò ̣nà), o silêncio é casa
(ilé), e o homem é o viajante que aprende, entre um e outro, o segredo de ser passagem e
189
Ìtàn 2 – Ìwòrì Ìròsùn
Ọ̀rúnmìlà ní: Ìwọ̀n àtọ́runwá ni ìmọ̀, ìwọ̀n àiyé ni òtítọ́ (Ọ̀rúnmìlà disse: A medida do Céu é o
Tìkò-tìkò ló ńmú
kóòdá kó rọ̀;
Ẹ̀ fọ́ ló ̣mọ
Ọ̀rúnmìlà ní kí
Ọ̀rúnmìlà ní:
“A kì í mọ ìtàn Ọ̀run
kó má mọ ìtàn Ayé.”
Tradução:
Ọ̀runmìlà disse:
Na vastidão silenciosa onde Ọ̀run toca Àiyé, Ọ̀rúnmìlà observa que o conhecimento e a verdade não
são irmãos idênticos, mas reflexos que se buscam em planos distintos. O conhecimento nasce da
luz, mas a verdade floresce na sombra; o primeiro investiga, o segundo habita; o primeiro ilumina, o
segundo sustenta. Se o homem deseja compreender o Céu, deve conhecer os limites da sua mente;
190
se deseja compreender a Terra, deve viver os limites do seu corpo. A sabedoria, diz Ọ̀rúnmìlà, é o
O conhecimento que se torna virtude é o ponto em que o homem já não aprende para possuir, mas
para tornar-se transparente ao que aprende. Ọ̀rúnmìlà, no seio de Ìwòrì Ìròsùn, compreende que o
saber, enquanto energia, precisa atravessar o corpo, a conduta e o coração, até tornar-se ética viva
— ìwà. O saber que não se transforma em ìwà é um saber estéril, um eco sem terra para germinar.
Por isso o Céu se mede pelo conhecimento, mas a Terra, pela verdade: porque é na Terra que o
sábio não é o que conhece o segredo das estrelas, mas o que respira em compasso com elas.
O Bàbáláwo aprende, desde os primeiros versos, que toda forma de conhecimento é uma forma de
obrigação. Saber é dever. O saber separa e obriga, não exalta. Cada ìtàn é um espelho em que a
mente se inclina diante da vida. Quando Ọ̀rúnmìlà fala que a medida da Terra é a verdade, ele está
dizendo que o saber não basta se não se traduz em coerência entre o que o homem professa e o que
manifesta é sombra, o que se manifesta sem raiz é engano. Assim, Ifá ensina que o saber precisa
O saber é luz quando orienta o caminhar; torna-se fogo quando não encontra direção. A ética é a
arte de orientar o saber, de domesticá-lo, de fazê-lo servir à harmonia. Ìmọ̀ sem ìwà é como fogo
solto no campo: ilumina e destrói. Ìwà é a argila que molda a chama, o vaso que contém a energia
sem a apagar. O homem que busca o conhecimento sem moldar o caráter acumula poder, mas não
sabedoria; o que cultiva o caráter sem buscar o saber cultiva serenidade, mas não discernimento.
Por isso Ọ̀rúnmìlà ensina o caminho do meio — o saber que se enraíza e o caráter que se ilumina.
A metafísica de Ifá não dissocia o conhecer do viver. Em Ìwòrì Ìròsùn, o saber não é contemplativo:
é performativo. Conhecer é agir em conformidade com o Àṣẹ do mundo. Cada aprendizado implica
191
transformação. O Bàbáláwo não estuda os Odù para compreendê-los intelectualmente, mas para
permitir que o seu corpo, sua voz e sua presença se tornem instrumentos dessa sabedoria. Ele se faz
verdadeiro saber é metamorfose: aquele que aprende sem mudar de estado permanece cego no
coração do mistério.
A verdade, por sua vez, é movimento e fidelidade. Não é uma coleção de fatos, mas a integridade do
ser em meio ao tempo. O que é verdadeiro não é apenas o que é exato, mas o que é inteiro. A
verdade é o ìwà em repouso, o estado em que a existência coincide consigo mesma. Quando
Ọ̀rúnmìlà fala da verdade como medida da Terra, ele indica que a vida ética não se prova por
discurso, mas por presença. A verdade é a harmonia silenciosa entre o que o homem pensa, sente e
faz. Ela é invisível como a seiva dentro da planta, mas sua presença se manifesta nos frutos.
sopro de fora, a inspiração divina; a verdade é o pulso interno, a cadência do sangue. A vida é o
encontro desses dois fluxos. O homem que conhece, mas não sente, respira sem pulso; o que sente,
mas não conhece, pulsa sem ar. O equilíbrio é a sabedoria, e a sabedoria é o estado em que o ser
humano se torna canal da própria ordem cósmica. Por isso, em Ìwòrì Ìròsùn, o conhecimento é
descrito como “a claridade que desce do Céu”, e a verdade, como “a firmeza que sobe da Terra”. O
A hermenêutica Ìtànlógica vê aqui uma chave da ética cósmica de Ifá: o saber é sempre relacional.
Não há conhecimento que não envolva responsabilidade, porque todo saber desperta forças. Cada
compreensão é um pacto: o homem que vê uma verdade é responsável por encarná-la, sob pena de
perder o próprio brilho. Por isso, o silêncio é o guardião do saber. O silêncio não é ignorância, é
útero onde o saber amadurece até poder nascer como ação justa.
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A virtude (ìwà rere) nasce quando o saber e a verdade se entrelaçam no coração. É o ponto em que o
homem já não age por desejo de resultado, mas por ressonância com o ritmo do mundo. A virtude é
o saber que esqueceu de si mesmo, e a verdade que se move sem esforço. Em Ìwòrì Ìròsùn,
Ọ̀rúnmìlà mostra que o conhecimento não se mede pela quantidade de palavras, mas pela leveza do
gesto. O sábio é aquele cuja presença ensina antes que ele fale. Sua vida é um texto, seu silêncio é
uma lição.
O fundamento ontológico dessa ética é a ideia de que o ser é vibração. O homem é o ponto em que
o som do Céu e o som da Terra se encontram. Sua tarefa é manter-se afinado. O erro, em Ifá, não é
pecado, mas dissonância. A sabedoria é harmonia. Quando o homem vive em dissonância com o
Àṣẹ, ele adoece; quando se realinha, ele cura. O saber que cura é aquele que devolve o ritmo
Assim, o saber se converte em virtude quando o homem o coloca a serviço da harmonia universal.
O sábio não acumula, distribui; não argumenta, canta; não impõe, irradia. Sua fala não divide, une.
Sua presença não domina, ordena. Ele é a ponte viva entre o Céu do conhecimento e a Terra da
verdade. O caminho de Ọ̀rúnmìlà é esse estado de ponte, esse entre em que o divino e o humano
respiram juntos.
condensa em forma; a verdade é a vibração descendente, o eco de Àiyé que retorna ao seu princípio.
Ambas constituem o ritmo de Olódùmarè no cosmos. O universo é o tambor que ressoa entre essas
duas pulsações, e cada ser é um ponto de tensão onde o som e o silêncio se encontram. Ọ̀rúnmìlà, ao
cartografia do movimento cósmico: o saber é o fluxo que irradia do invisível, a verdade é o retorno
do visível ao invisível. Toda a criação vive desse circuito. O que interrompe esse fluxo adoece, o
193
No princípio, quando Olódùmarè pronunciou o verbo primeiro, o som desceu em forma de luz. Essa
luz era Ìmọ̀, o conhecimento, que se expandia como claridade consciente, ordenando o caos. À
medida que o som-luz se condensava em matéria, nascia a Terra, e com ela, a verdade — Òtítọ́, a
fidelidade da forma ao som que a gerou. O universo, portanto, é a memória de um som. Cada pedra,
cada folha, cada corpo é o registro de uma vibração primordial. Conhecer é relembrar esse som;
viver a verdade é permitir que ele continue ressoando. O homem, em sua ignorância, esquece o tom;
A estrutura cosmológica de Ifá é uma partitura. Os Odù são notas, e os ìtàn, variações dessa melodia
eterna. Ìwòrì Ìròsùn é o momento em que o som do saber toca o limite da forma, e a forma devolve
ao som o espelho do tempo. O Céu é movimento que quer manifestar-se; a Terra é permanência que
quer lembrar-se. Olódùmarè habita o intervalo entre ambos — o silêncio que dá sentido ao som. O
conhecimento é o som que se busca, a verdade é o som que retorna. O equilíbrio entre eles é o Àṣẹ,
Na cosmologia Ìtànlógica, o saber não é uma acumulação de informações, mas uma sintonia com o
escutar o som atrás do som, a luz dentro da sombra, o invisível que se manifesta através do visível.
Por isso, Ọ̀rúnmìlà é chamado Elérí Ìpín, a Testemunha do Destino — não porque tudo sabe, mas
porque tudo escuta. Ele escuta o ritmo das coisas e traduz o inaudível em orientação. Seu
conhecimento não é analítico, é auditivo. Ele não domina o mundo; harmoniza-se com ele.
O homem moderno, obcecado pelo ruído, perdeu a escuta do real. Seu saber é fragmento sem
harmonia, verdade sem silêncio. Ele confunde informação com iluminação, e perde o compasso do
cosmos. A sabedoria de Ifá ensina que a verdade não está no que se diz, mas no modo como se
escuta. A verdade é o silêncio que confirma o som. O mundo só se sustenta porque Olódùmarè
escuta o que cria. Quando o homem fala sem escutar, rompe o circuito divino. Quando escuta antes
194
A correspondência entre Ìmọ̀ e Òtítọ́ é também a correspondência entre som e eco, entre raio e
sombra. O som, quando puro, chama o eco verdadeiro; o eco, quando fiel, devolve o som
enriquecido pela experiência da forma. Assim o cosmos se expande: cada emissão de Àṣẹ é uma
pergunta, cada retorno de Òtítọ́ é uma resposta. O universo é o diálogo eterno entre Olódùmarè e
sua própria criação. O homem, ao aprender a falar e ouvir no mesmo compasso, torna-se
participante desse diálogo. Ele já não é espectador da realidade, mas voz dentro dela.
O conhecimento se manifesta no Céu como claridade, mas na Terra ele assume a densidade do
barro. O barro é a sabedoria em estado encarnado. O barro lembra que a luz precisa de forma para
existir no tempo. A verdade, portanto, é a fidelidade da forma à luz. Quando a forma se esquece da
luz, o barro endurece; quando a luz se recusa à forma, o brilho cega. A harmonia é o barro maleável
— aquele que lembra de onde veio e para onde retorna. Assim é o homem sábio: luz encarnada,
barro iluminado.
Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀rúnmìlà ensina que todo conhecimento é uma forma de descida. O saber desce
do alto, penetra a matéria, adquire peso e textura. A verdade é o movimento inverso: é a ascensão da
matéria em direção à sua origem. Conhecimento e verdade são o mesmo fluxo em direções opostas.
O homem vive nesse fluxo. Sua mente é o Céu que busca compreender; seu corpo é a Terra que
busca permanecer. O equilíbrio entre ambos é o ponto onde o ser se torna transparente ao Àṣẹ. Esse
estado é o que Ifá chama de Ìmúlè ̣, a quietude que nasce da harmonia entre o que se sabe e o que se
é.
Cada palavra pronunciada no universo é eco desse duplo movimento. A fala é a condensação do
conhecimento em vibração; o silêncio, o retorno da vibração à fonte. Por isso o verbo é sagrado.
Quando o homem fala em descompasso com o Àṣẹ, cria distorção; quando fala em sintonia,
restabelece a ordem. A fala, o saber e a verdade são aspectos de uma mesma energia. O verbo não é
195
apenas som; é ponte entre direções. Ele liga o que desce e o que sobe, o que ilumina e o que
sustenta.
leveza. O Céu é leve porque conhece; a Terra é pesada porque guarda. O homem vive entre o peso e
a leveza, entre a responsabilidade e o mistério. Ser sábio é aprender a sustentar o peso com a leveza
certa. A verdade é o modo como o ser suporta o real sem se fragmentar. O conhecimento é o modo
No coração desse equilíbrio está o som primordial de Olódùmarè — o Ọ̀fún Ọ̀rò ̣, o Verbo Branco, a
vibração do puro ser. Tudo o que existe é um desdobramento dessa vibração. O saber é a recordação
acordo com esse som, o universo inteiro o reconhece. Ele se torna ressonância viva. Sua vida é
O saber é o início da travessia, o ser é o seu destino, e a verdade é o caminho invisível que liga
ambos. Ìwòrì Ìròsùn é o Odù da iniciação interior, aquele em que o homem descobre que o
conhecimento que acumula não o salvará, se não for transmutado em presença. Ọ̀rúnmìlà ensina que
a sabedoria não é possuir luz, mas tornar-se passagem para que a luz atravesse. Aquele que acumula
saber sem o entregar torna-se pesado demais para mover-se; aquele que o distribui sem
compreendê-lo dispersa-se. O equilíbrio é o estado do iniciado: leve o suficiente para subir, firme o
No princípio da jornada, o homem busca o conhecimento como quem persegue um horizonte. Ele
lê, pergunta, compara, raciocina. Mas a mente, por mais ágil que seja, não alcança o que não se
deixa medir. Chega o momento em que o saber se dissolve em perplexidade, e o iniciado entende
que conhecer é, na verdade, aprender a desaprender. O saber é uma escada que se desfaz quando se
alcança o topo. Ali, na altura onde o ar rarefeito é o próprio mistério, o homem percebe que toda
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pergunta é também uma resposta esperando amadurecer. Ele aprende que a verdade não se revela
A rendição é o silêncio que sucede o verbo. Quando o homem se cala, o conhecimento retorna à sua
fonte e se refaz como luz. O silêncio é o último mestre. Ele não ensina por contraste, mas por
comunhão. O iniciado que atravessou o campo do saber retorna à Terra não como erudito, mas
como espelho. Ele não precisa explicar, porque se tornou reflexo do que compreendeu. Sua
presença basta. Quando fala, sua voz carrega o peso da experiência; quando silencia, seu olhar
comunica o indizível.
Ọ̀rúnmìlà é o paradigma desse retorno. Ele conhece todos os segredos de Ọ̀run, mas sua grandeza
não está no acúmulo do saber, e sim na humildade com que o deposita de volta na Terra. Ele desce
ao mundo não para ostentar conhecimento, mas para restaurar o fluxo entre o invisível e o visível.
Ele é o canal da reciprocidade, a boca de Olódùmarè no corpo do tempo. Em cada verso que
pronuncia, o universo respira; em cada pausa que guarda, o universo se reordena. Ọ̀rúnmìlà é a
O homem que se aproxima desse estado não abandona o mundo, mas o habita com lucidez. Ele
compreende que toda experiência é uma forma de ensino e que todo acontecimento é uma lição da
iniciado aprende a agradecer o que fere, porque vê além da ferida o gesto da sabedoria. Ele já não
distingue entre o bem e o mal como opostos, mas como notas complementares da mesma melodia
cósmica. A sabedoria é a escuta desse acorde total, em que o som e o silêncio, a ascensão e a queda,
a unir o seu Céu e a sua Terra internos. O Céu do homem é sua mente iluminada; a Terra, seu corpo
sensível. Entre ambos há um vazio que só a consciência pode preencher. O saber ilumina a mente, a
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verdade aquece o corpo, e o silêncio liga um ao outro. Essa é a tríade da iniciação: luz, calor e
quietude. A mente sem o corpo se torna abstração; o corpo sem a mente se torna peso; o silêncio
simplicidade é o ponto onde o saber se dissolve em visão. Ser simples é ser transparente: nada a
esconder, nada a provar, apenas existir em conformidade com o ritmo do universo. Ọ̀rúnmìlà, ao
final de cada aprendizado, voltava à calma do silêncio. Seus discípulos o viam quieto, olhando o
horizonte, e sabiam que ele não meditava sobre o que aprendeu, mas deixava que o aprendizado se
tornasse parte do ar. O silêncio, então, não é ausência de palavra: é sua maturação.
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece nesse verso a pedagogia do espírito: o homem nasce para
aprender o nome das coisas e morre para reaprender o som do silêncio. A vida é esse intervalo de
aprendizado entre a primeira e a última respiração. Cada saber conquistado é um degrau que leva à
dessa unidade no coração. O iniciado não busca mais dominar o mundo, mas viver em comunhão
com ele. Ele aprende a ver o divino em cada detalhe, a ouvir o som de Olódùmarè na vibração do
E quando, ao fim, o iniciado silencia, o mundo o reconhece. A Terra o recebe como recebe o
orvalho; o Céu o saúda como quem reencontra o próprio eco. Nesse instante, o conhecimento
cumpre seu destino: retorna à origem, agora purificado pela travessia da verdade. O silêncio se
fecha sobre o verbo como o mar sobre a gota. Tudo o que era pergunta torna-se oferenda. Tudo o
que era busca se transforma em presença. O saber é devolvido à fonte, e o homem repousa como
silêncio é coroamento. Ọ̀rúnmìlà, testemunha dos destinos, sorri no limiar entre o som e o nada, e
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diz: “Quem conhece o Céu aprendeu a lembrar; quem conhece a Terra aprendeu a permanecer; mas
Bí ọkàn ènìyàn bá mọ̀rírì ìdákẹ́jẹ, a ó mọ àlàáfíà Ọ̀run (Quando o coração do homem aprende a
a ó mọ àlàáfíà Ọ̀run;
Àwọn tó bá mọ bí a ṣe ń
‘Ẹ má sọ̀rọ̀ ju ohun tí
Tradução:
199
o sopro pode suportar.”
O silêncio é a respiração de Ọ̀run dentro do coração humano, o intervalo em que o universo recolhe
o próprio som para que o ser possa ouvi-lo. Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀rúnmìlà revela que o coração é o
espelho do mundo invisível e que somente quando ele aprende a aquietar-se é que o homem se torna
coração que reconhece o valor do silêncio conhece a paz do Céu. Este ensinamento não é apenas
moral, mas ontológico: ele descreve a estrutura da própria consciência. O ser humano vive entre o
som e o silêncio, entre o impulso de nomear e a necessidade de escutar. Quando o verbo não é
precedido pelo recolhimento, ele se torna ruído; quando o silêncio não gera verbo, ele se torna
inércia. A sabedoria está em descobrir o ponto onde o silêncio e a palavra se tornam uma única
respiração.
No coração de Ìwòrì Ìròsùn, o silêncio é apresentado como remédio (òògùn ọpọlọ), o bálsamo que
temperatura natural do espírito. Ọ̀rúnmìlà ensina que o homem moderno, enfermo de excesso de
fala e de excesso de pensamentos, perdeu o caminho da escuta. Sua mente tornou-se um mercado
onde as vozes competem entre si, e o coração, um campo de batalha onde a paz não encontra
abrigo. A medicina está em voltar-se para dentro, como quem mergulha no próprio sangue para
ouvir o som do Àṣẹ que pulsa por trás do ruído. O silêncio é a arte de retornar ao ritmo de
A hermenêutica Ìtànlógica entende que o silêncio de que fala Ọ̀rúnmìlà não é uma simples ausência
de sons físicos, mas o estado de presença em que o ser se reconcilia com o invisível. O silêncio é a
voz anterior à fala, o Èmí antes do verbo. Quando o homem se cala, o universo fala dentro dele. A
mente, habituada a controlar e nomear, resiste; mas o coração, centro do Èmí, sabe escutar. Por isso
o verso diz: “os que sabem como lavar o interior do peito não se afastam do conforto do espírito.”
Lavar o peito é purificar o coração das impurezas do orgulho, da raiva e do medo — todas formas
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de ruído interior. O que é puro não é o que não pensa, mas o que pensa em sintonia com o fluxo do
ser.
O silêncio, então, não é vazio, mas plenitude. Ele é o lugar onde o homem reencontra o seu ritmo
essencial. Em Ifá, o ritmo é tudo, porque o Àṣẹ só se manifesta em vibração ordenada. Quando o
coração se descompassa, o destino se desordena. Quando o coração repousa, a vida volta a pulsar
Por isso, diz Ọ̀rúnmìlà: “não digas mais do que o sopro pode suportar.” O sopro (Èmí) é o limite do
No nível mais profundo, o silêncio é a própria substância da existência. Antes de qualquer som,
desse silêncio que surge o primeiro som, o Ọ̀fún Ọ̀rò ̣, o verbo criador. Todo som autêntico deve
lembrar esse silêncio de origem. Por isso, o sábio fala pouco e ouve muito: porque reconhece que
cada palavra é uma centelha roubada do silêncio divino. Falar com reverência é devolver à criação o
O coração (ò ̣kàn) é o altar onde essa liturgia se realiza. Ele é o tambor sagrado de Ọ̀rúnmìlà no
corpo do homem. Cada batida é uma prece, cada pausa é um gesto de escuta. O coração é também o
mediador entre o Céu e a Terra — entre o Èmí, que vem de Ọ̀run, e o sangue, que pertence a Àiyé.
O coração, portanto, é o ponto de encontro dos dois mundos. Quando ele aprende o silêncio, o Céu
e a Terra se reconciliam dentro do ser humano. A paz não vem de fora, mas do equilíbrio interno
A àlàáfíà Ọ̀run — a paz do Céu — é o estado em que o homem já não luta contra o tempo, mas o
habita. É a quietude do espírito que aprendeu a respirar em uníssono com o cosmos. Em Ifá, a paz
não é ausência de conflito, mas harmonia entre forças opostas. O fogo precisa da água, o som
precisa do silêncio, a vida precisa da morte. A paz é o reconhecimento dessa circularidade. Quando
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o coração se agita, é porque perdeu o sentido da totalidade. O silêncio o restaura, devolvendo-lhe a
visão do todo.
A hermenêutica Ìtànlógica vê neste verso uma pedagogia da interioridade. Ọ̀rúnmìlà ensina que o
conhecimento que não nasce do silêncio é vaidade, e que o silêncio que não gera conhecimento é
estagnação. O verdadeiro aprendizado é o que nasce da escuta interior. O silêncio não é o fim do
saber, é o seu fundamento. Sem ele, o pensamento se torna ruído; com ele, o pensamento se torna
oração.
Quando o homem valoriza o silêncio, ele valoriza o mistério. Ele reconhece que há verdades que
não podem ser ditas, mas apenas vividas. O silêncio é o modo como o divino se protege do excesso
de luz. O que é puro demais não pode ser nomeado. Por isso, Ọ̀rúnmìlà fala pouco sobre
Olódùmarè: não por ignorância, mas por reverência. O nome de Olódùmarè é o próprio silêncio. O
O silêncio é também o mestre da humildade. Falar é afirmar o eu; calar é abrir espaço para o outro
que não é o protagonista da existência, mas uma nota na sinfonia do ser. A paz que vem daí não é
passividade, mas liberdade. O homem silencioso é livre porque não está preso às reações do mundo.
A medicina do silêncio é universal porque cura a mente e o corpo. O ruído mental gera perturbações
físicas: o coração acelera, o sangue ferve, o sono se desfaz. O silêncio reordena. Ele é ritmo, e todo
ritmo cura. Em Ifá, a cura não é apenas física, mas harmônica: é o realinhamento das vibrações
internas com o Àṣẹ cósmico. O silêncio é, portanto, o primeiro remédio e o último ensinamento.
O homem que aprende a valorizar o silêncio deixa de temer o vazio. Ele percebe que o vazio é o
útero da criação. Assim como o tambor só ressoa porque há espaço dentro dele, o coração só se
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torna instrumento de Ọ̀run porque abriga o silêncio. Esse vazio é plenitude. Ele é a promessa de
Quando Ọ̀rúnmìlà diz: “não digas mais do que o sopro pode suportar”, ele ensina o limite sagrado
da palavra. O verbo tem peso; cada palavra pronunciada altera o equilíbrio do mundo. O silêncio é o
guardião desse equilíbrio. Falar é plantar, calar é regar. Quem fala sem saber, desperdiça sementes;
Assim, o verso de Ìwòrì Ìròsùn não é apenas uma recomendação moral, mas uma revelação
ontológica: o silêncio é a substância do ser, o coração é o seu altar, e a paz é o estado em que o
Ọ̀rúnmìlà fala de ìdákẹ́jẹ, ele fala de uma substância cósmica que não é o contrário do som, mas a
sua origem secreta. É no silêncio que o som se prepara, é no silêncio que o verbo é gestado. Aquele
que compreende o silêncio não está fugindo do mundo — ele está retornando à sua fonte. O homem
que fala o tempo todo se exaure na superfície das coisas, mas aquele que silencia mergulha na
profundidade do real. Em Ìwòrì Ìròsùn, o silêncio é o útero do ser, o Òmìnira Ọ̀run — o espaço livre
Para Ifá, a criação não começa com o som, mas com o recolhimento. Antes que Olódùmarè
primordial. É o que os antigos chamam de ìwọ̀n, a medida sagrada da potência. No silêncio, tudo
está contido, mas nada ainda se diferenciou. A palavra é a explosão dessa contenção; o silêncio é a
sua semente. Ọ̀rúnmìlà, ao dizer que o silêncio é remédio da mente, está revelando uma medicina
cósmica: o retorno do homem ao estado anterior à fragmentação, anterior ao excesso de ruído que o
203
O coração, nesse contexto, é o primeiro templo do silêncio. Ele é o tambor sagrado onde Ọ̀run toca
harmônica. Quando o coração bate em compasso com o ritmo do mundo, ele canta em silêncio o
cântico dos Òrìṣà. Cada batida é um ìpẹ̀yà — uma saudação à origem. Por isso, Ọ̀rúnmìlà associa o
silêncio à àlàáfíà Ọ̀run: não se trata de uma paz moral, mas de uma vibração correta, o equilíbrio
A hermenêutica Ìtànlógica entende o verso de Ìwòrì Ìròsùn como uma cosmologia da escuta. O
homem vive entre vozes — as vozes dos Òrìṣà, das forças da natureza, dos ancestrais e de seu
próprio Òrì. Escutar, em Ifá, é uma forma de adoração. Mas a escuta verdadeira só ocorre quando o
ruído interior se cala. O silêncio é, portanto, o estado que permite o diálogo entre o humano e o
divino. A ó mọ àlàáfíà Ọ̀run quer dizer mais do que “conhecer a paz do Céu”: significa “entrar no
fala demais esquece a presença de seu Òrì, porque o excesso de fala o separa do interior. O bom
caráter nasce da escuta — escuta dos outros, escuta do mundo, escuta de si mesmo. Em Ifá, saber
escutar é mais importante do que saber falar, porque quem escuta se torna morada do saber. O verbo
silêncio, ele reaprende a esperar. O tempo de Ọ̀run não é o tempo do relógio, é o tempo do
amadurecimento. Nada floresce antes da hora. Ọ̀rúnmìlà ensina que o silêncio é o intervalo
necessário entre o pedido e a resposta, entre o semear e o colher. A mente apressada quer resultados
imediatos, mas o silêncio ensina o compasso da eternidade. Cada pausa é uma lição de confiança no
invisível.
204
A Ìtànlógica vê o silêncio como linguagem de Olódùmarè. O que os homens chamam de ausência
de resposta é, muitas vezes, a fala divina em sua forma mais pura. Quando o oráculo parece mudo, é
porque ele quer que o Bàbáláwo aprenda a ouvir além das palavras. O silêncio é o pano de fundo
sobre o qual o destino se escreve. Só quem aceita esse pano de fundo é capaz de decifrar os signos.
O silêncio, portanto, não é a falta de revelação, mas a sua forma mais sutil.
Na medicina de Ifá, o silêncio tem uma função terapêutica concreta. Ele acalma o sangue, regula a
respiração e abre o canal do Èmí. A mente ruidosa fecha o corpo, impede a circulação do Àṣẹ. O
silêncio dilata o peito e o torna recipiente do sopro. Ọ̀rúnmìlà diz que “os que sabem lavar o interior
do peito não se afastam do conforto do espírito”: lavar o peito é libertar-se das palavras que pesam,
No nível espiritual, o silêncio é uma oferenda. Ele é o alimento dos ancestrais, que não precisam de
palavras para compreender a devoção. Em muitas cerimônias, o Bàbáláwo silencia após o ẹbọ para
ouvir o retorno de Ọ̀run. Esse silêncio é diálogo. O homem fala com o gesto, e Ọ̀run responde com
o vento, o som da chuva, o brilho de uma chama. A escuta do silêncio é a mais antiga forma de
Mas há um perigo no silêncio não compreendido: o silêncio que nasce do medo, da apatia, da
indiferença. Esse não é o silêncio de Ọ̀rúnmìlà, mas o silêncio de um coração que se desligou do
Àṣẹ. O silêncio verdadeiro é vivo, é presença ativa. Ele não foge do mundo, ele o contém. Ele não é
ausência de relação, mas relação perfeita. Por isso, Ọ̀rúnmìlà adverte: “não digas mais do que o
sopro pode suportar.” O problema não é falar, é falar sem consciência. O silêncio ensina o homem a
Na teogonia de Ifá, o som e o silêncio são as duas metades do ser. Ọ̀rúnmìlà é o senhor do verbo,
mas também o guardião do silêncio. Èṣù, o movimento, é o eco que rompe o recolhimento de
Olódùmarè. O universo inteiro é uma alternância entre expansão e recolhimento, fala e silêncio,
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fogo e água. O homem que aprende o silêncio aprende o ritmo do cosmos. Ele compreende que tudo
A paz do Céu, àlàáfíà Ọ̀run, é o eco desse ritmo. Ela não é um estado psicológico, mas uma
vibração ontológica. O homem em paz é aquele que vibra na mesma frequência do universo. Ele
não é perturbado pelas mudanças externas porque seu centro está alinhado ao silêncio interior. Esse
estado é o verdadeiro ìrètí Ọ̀run — a esperança do Céu —, não um lugar, mas um modo de ser.
O silêncio é, enfim, a forma mais alta de sabedoria porque nele a palavra volta ao seu princípio. O
sábio fala com poucas palavras, mas cada uma delas é carregada de Àṣẹ, porque nasceu do silêncio.
A fala que vem do silêncio é fértil; a fala que vem do ruído é estéril. Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀rúnmìlà
convida o homem a transformar o silêncio em método de vida, a fazer de cada respiração uma
O silêncio é a morada do Orí, o lugar onde o destino se lembra de si mesmo antes de ser perturbado
pela tagarelice do mundo. Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀rúnmìlà ensina que o homem só reencontra seu
caminho quando volta a ouvir o que o seu Orí lhe sussurra desde o nascimento. Esse sussurro é o
som do silêncio, a voz que fala sem som, o murmúrio de Ọ̀run dentro do peito. Quando o coração se
agita, o homem se perde; quando o coração se aquieta, o Orí retoma o governo. O destino não se
O Orí é o mais silencioso dos Òrìṣà. Ele não pede oferendas com palavras nem castiga com gestos
visíveis. Seu modo de falar é a intuição, o pressentimento, o pequeno desvio no caminho que faz o
homem perceber que algo maior o está conduzindo. O silêncio é, portanto, o idioma do Orí.
Aprender a falar com o próprio destino é aprender a silenciar o ruído do ego. A voz interior não
compete com o mundo; ela o atravessa como um fio de luz. Ọ̀rúnmìlà, conhecedor do segredo do
Orí, aconselha que cada homem tenha um instante de recolhimento diário, um momento em que o
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A hermenêutica Ìtànlógica reconhece aqui o princípio da escuta como forma de sabedoria
divinatória. Ifá é uma ciência do ouvir: o Bàbáláwo não impõe o sentido, ele o recebe. Os versos
não são inventados, mas ouvidos. O Opele não fala por si mesmo — é o silêncio do Bàbáláwo que o
faz falar. Quanto mais o adivinho silencia, mais o oráculo se revela. A divinação, nesse sentido, é o
exercício supremo da escuta, um retorno ao silêncio de onde o Àṣẹ emerge como palavra
ordenadora.
No plano ético, o silêncio é o útero do caráter. Ìwà-pẹ̀lẹ́, o bom caráter, nasce da paciência e da
moderação, virtudes do silêncio. O homem colérico fala antes de pensar; o homem sábio pensa
antes de falar; o homem iluminado escuta antes de pensar. Essa gradação define o caminho do
aprendizado interior. Falar é necessário, mas o falar de Ifá é sempre precedido pela escuta. O que o
homem diz sem antes ouvir é ruído; o que ele diz depois de escutar é palavra viva.
O silêncio também é o princípio da resistência. Numa sociedade que valoriza a fala ruidosa e a
exibição do eu, o silêncio torna-se ato de poder. Calar é conservar a energia que o mundo tenta
dissipar. O silêncio é a forma mais alta de autodefesa espiritual, porque impede que o Àṣẹ se
disperse. Por isso, Ọ̀rúnmìlà ensina que o sábio não revela tudo o que sabe, nem expõe tudo o que
O homem moderno, com sua ânsia de dizer, esqueceu o poder do não dito. Ele quer explicar tudo,
justificar tudo, iluminar tudo — mas o excesso de luz cega. Ifá ensina que há momentos em que o
melhor modo de honrar o sagrado é permanecer em silêncio diante dele. O mistério não precisa ser
compreendido, mas habitado. O silêncio é essa habitação. Ele não busca possuir o divino, apenas
Há, porém, um silêncio que não é sabedoria, mas fuga: o silêncio covarde, que evita o confronto e
encobre a injustiça. Ọ̀rúnmìlà não fala desse silêncio. O silêncio do sábio não é omissão, é presença
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plena. Ele não é ausência de ação, mas ação em estado puro. O silêncio de Ọ̀rúnmìlà é o da serpente
que se enrola antes do bote, o do trovão que se acumula nas nuvens antes de se anunciar. O silêncio,
O destino do homem depende de sua capacidade de sustentar o silêncio certo no momento certo.
Falar quando se deve calar é desperdiçar o Àṣẹ; calar quando se deve falar é trair o Orí. O silêncio
sábio não é absoluto; ele é discernimento. Ele sabe quando o verbo deve nascer e quando deve
recolher-se. Ọ̀rúnmìlà, mestre do equilíbrio, ensina que cada palavra é um ẹbọ: uma oferenda
A teologia do silêncio é também uma poética. O silêncio é o ritmo oculto da linguagem, a pausa
entre as notas que faz a música ser música. Sem ele, o som seria apenas ruído contínuo. O mesmo se
dá com o pensamento: o silêncio é o intervalo que o torna inteligível. Na fala de Ọ̀rúnmìlà, cada
pausa é tão sagrada quanto cada palavra. O Odu Ifá é um corpo de sons e silêncios, de vibrações
No plano teogônico, o silêncio é o modo como o invisível se manifesta. Olódùmarè não fala com a
língua, fala com o vento, com o sonho, com o destino. O silêncio é o código de comunicação entre o
humano e o transcendente. O que chamamos de oração não é senão um modo de entrar nesse
silêncio partilhado. O homem ora com palavras até que aprenda a orar com o silêncio. Esse é o
hermenêutica e da ontologia. Sem silêncio, não há escuta do Ìtàn, e sem escuta, não há compreensão
do ser. A Ìtànlógica é a ciência do ouvir o invisível. Por isso, o silêncio não é ausência de discurso,
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O homem de Ifá aprende, com o tempo, a transformar o silêncio em modo de presença. Ele não se
cala por falta de palavras, mas porque percebe que o silêncio comunica mais profundamente do que
o som. O silêncio é o idioma do real. É nele que os Òrìṣà conversam entre si, que os mortos se
No fim de tudo, o silêncio é o rosto mais puro do amor. Porque amar, no sentido de Ifá, é ouvir o
outro até o fundo de seu ser. O silêncio é o espaço que o amor abre para que o outro exista. Amar é
escutar. O silêncio é, portanto, a forma suprema de comunhão, a presença sem imposição, o verbo
O silêncio é o selo que Olódùmarè imprime na criação, o òrò àtẹ́lẹwọ́, palavra gravada na palma da
Sua mão antes que o mundo fosse. Ele é o primeiro ritmo, o pulso do nada que antecede o tudo.
Quando Ọ̀rúnmìlà ensina, em Ìwòrì Ìròsùn, que o silêncio conduz à paz do Céu, ele revela que a
universo retorna à sua respiração interior. Cada gesto criador nasce de uma pausa, e cada palavra
verdadeira é precedida por um recolhimento invisível. O silêncio é o tempo que o Àṣẹ leva para
Quando Ele pensa, o universo vibra; quando Ele silencia, o universo repousa. Essa alternância é o
segredo da permanência: o mundo existe porque respira, e respira porque alterna som e silêncio. O
Bàbáláwo, ao lançar o Opele, reproduz esse mesmo movimento — fala e escuta, nomeia e cala, cria
e contempla. A divinação é, assim, uma coreografia entre o verbo e o silêncio. O oráculo não fala
como os homens: ele murmura. O Bàbáláwo precisa estar vazio para ouvir esse murmúrio. Quanto
O silêncio também estrutura o rito. No ẹbọ, o instante em que o oferente se cala após o cântico é o
momento em que o sacrifício se eleva. É nesse silêncio que os ancestrais reconhecem a devoção. As
209
palavras chamam; o silêncio consagra. O som abre o caminho; o silêncio o sela. Por isso, os antigos
diziam que “o barulho atrai, mas o silêncio fixa”. Toda oferenda que não é seguida de silêncio se
dispersa, pois o Àṣẹ não encontra morada em meio ao ruído. O silêncio é o vaso invisível que retém
a força espiritual.
A hermenêutica Ìtànlógica vê o silêncio como matriz de todos os signos. Antes de o Ifá ser palavra,
ele é pausa. O odu nasce de uma vibração contida, de um instante em que o ser inteiro escuta o que
ainda não foi dito. Ler um odu é traduzir o silêncio de onde ele veio. É por isso que o oráculo não é
texto, mas respiração ritual. A escrita é sombra desse ritmo. Cada odu contém pausas, brancos,
lacunas — espaços onde o leitor deve silenciar para que o sentido emerja. Interpretar é, portanto,
O silêncio é também uma técnica de poder. Em tempos em que o verbo se banaliza, calar é um ato
de domínio. O silêncio guarda o segredo, e o segredo é o que sustenta o poder de Ifá. Ọ̀rúnmìlà
nunca revelou tudo o que sabia, porque sabia que o excesso de luz destrói o sagrado. O segredo é o
modo pelo qual o divino protege o próprio corpo. O silêncio é, assim, o limite ético da revelação.
Mas o silêncio não é apenas defesa; é também comunhão. Ele é o idioma comum a todos os
mundos. Quando o homem se cala, ele entra no ritmo de Ọ̀run; quando fala, volta a Àiyé. O sábio é
aquele que transita entre os dois sem se perder. O silêncio o conecta ao alto, a palavra o ancora na
terra. O equilíbrio entre ambos é a arte do bàbáláwo: ele fala com os homens e se cala diante dos
Òrìṣà.
Na escala cósmica, o silêncio é o momento em que o tempo se dobra sobre si mesmo. É o eixo do
eterno retorno. Todo ciclo termina em silêncio: o dia na noite, o som no eco, a vida na morte. Mas
esse fim é apenas o prenúncio de uma nova fala. O silêncio é a semente do renascimento. Ele
210
contém o potencial da criação seguinte. Por isso, Olódùmarè silencia antes de cada novo mundo —
O homem que entende o silêncio participa desse mesmo poder criador. Ele sabe esperar o tempo
certo, agir no momento certo, e calar quando o verbo se torna profano. Ele é como o tambor
sagrado: só ressoa porque é oco. O vazio dentro dele é a condição da sua voz. Assim também o
O silêncio, enfim, é o gesto supremo da sabedoria, porque nele o ser retorna ao seu centro. Ele é o
espelho da eternidade no corpo do tempo, o intervalo que torna possível a escuta do infinito.
Quando Ọ̀rúnmìlà diz que “quem conhece o valor do silêncio conhece a paz do Céu”, ele está
dizendo que o homem, ao silenciar, reencontra em si o ritmo de Olódùmarè. E esse ritmo é a paz —
não a paz da inércia, mas a paz do movimento perfeito, em que som e silêncio se abraçam como
Ọ̀run e Àiyé.
Ọmọ tí kò gbọ́ àkọ́kọ́, yóò gbọ́ ìkẹyìn (A criança que não escuta o primeiro ensinamento acabará
escutando o último)
211
Tradução:
o primeiro ensinamento
O aprendizado é um círculo de retorno, uma espiral que se repete até que a consciência se curve
diante daquilo que sempre soube, mas havia esquecido. Em Ìwòrì Ìròsùn, Ọ̀rúnmìlà ensina que o
homem não progride pela acumulação de informações, mas pela lembrança daquilo que já estava
inscrito no seu Orí. A criança que não escuta o primeiro ensinamento é a alma que rejeita o
chamado inicial do destino, preferindo a voz do mundo à voz do Céu. Mas o destino é paciente — e
eterno. O primeiro ensinamento, o àkọ́kọ́, não desaparece; ele se oculta no fundo da memória
cósmica até que o homem esteja pronto para ouvi-lo de novo, agora sob a forma do ìkẹyìn, o último
ensinamento, aquele que vem quando a vida já falou em todas as suas línguas.
Na hermenêutica Ìtànlógica, àkọ́kọ́ e ìkẹyìn não são apenas ordens cronológicas, mas dimensões
tempo de Àiyé, quando a experiência concretiza aquilo que o espírito havia apenas intuído. Escutar
vida, alterna esses dois tempos — graça e reconciliação, origem e retorno — até que o homem se
reconheça como parte do mesmo ciclo. Assim, o aprendizado em Ifá é uma cosmologia do
212
A pedagogia de Ọ̀rúnmìlà é circular. Nenhum ensinamento é perdido; tudo o que não é ouvido no
início será repetido no fim, como um eco que atravessa os planos. A criança que ignora o primeiro
conselho é o símbolo do homem que vive de costas para o seu Orí. Ele segue os ruídos do mundo e
esquece o som interior. Mas quando a vida o confronta com suas próprias consequências — perdas,
erros, dores — ele enfim escuta o mesmo ensinamento, agora pronunciado pela boca da
experiência. É o mesmo ofò, mas o timbre mudou. A verdade não se altera; o ouvido, sim.
O odu de Ìwòrì Ìròsùn nos lembra que a aprendizagem verdadeira não ocorre pela imposição
externa, mas pela reverberação interna. Ọ̀rúnmìlà não impõe a sabedoria: ele a oferece, e quem tiver
ouvidos a ouvir, que ouça. O aprendizado é um ato de liberdade. Ninguém é forçado a compreender
— apenas convidado a escutar. Mas o convite se repete, e cada repetição é mais intensa. É assim
que o destino educa: pela repetição paciente de um mesmo tema em diferentes tons.
A escuta é a alma da divinação. Quando o Bàbáláwo lança o Opele, ele não “fala com Ifá”: ele
escuta Ifá. O verbo da divinação é duplo — Ifá gbọ́, Ọ̀rúnmìlà dá: “Ifá ouve, Ọ̀rúnmìlà responde.”
O ouvir precede o responder. O primeiro ato do sábio é a escuta. O universo é uma sequência
infinita de odu que se pronunciam na respiração do mundo. Escutar é alinhar-se ao seu ritmo. O
homem que se apressa a interpretar sem ouvir repete o erro da criança que não escuta o primeiro
ensinamento: fala antes de compreender, age antes de sentir. O silêncio, portanto, é a condição da
sabedoria divinatória.
O àkọ́kọ́ é o ensinamento dado pela graça, quando o coração ainda está puro e receptivo; o ìkẹyìn é
o ensinamento dado pela necessidade, quando o coração endurecido precisa ser quebrado para
compreender. Ambos são manifestações da mesma misericórdia cósmica. Olódùmarè fala primeiro
como mãe, depois como destino. O primeiro ensinamento vem pelo afeto; o último, pela lei. O
homem que escuta o primeiro vive na suavidade; o que precisa escutar o último passa pela dor até
213
No plano antropológico, o àkọ́kọ́ corresponde à sabedoria ancestral transmitida pela oralidade — os
moderno é forçado a redescobrir por conta própria, quando rompeu com a tradição. O mundo
contemporâneo é a criança que não escutou os mais velhos e agora precisa reaprender o que já
sabia, mas pela via amarga da desordem. Toda crise civilizatória é um ìkẹyìn: o retorno da sabedoria
esquecida.
No nível cósmico, o àkọ́kọ́ é o som que sai do centro do universo; o ìkẹyìn é o eco que retorna a ele.
O primeiro é o verbo criador; o último, o verbo reconciliador. Entre ambos, toda a existência se
desenrola. A Summa Ìtànlógica lê esse movimento como o próprio ritmo do ser — o devir entre
emissão e retorno, entre palavra e escuta. Escutar o primeiro ensinamento é participar da criação;
Ọ̀rúnmìlà não separa pedagogia e ontologia. Aprender é existir. A criança que não aprende
permanece fora do ritmo da vida. O aprendizado é o modo pelo qual o ser se ajusta à vibração de
Ọ̀run. Por isso, todo erro é uma aula e toda dor, um mestre. A existência inteira é uma escola divina.
O mundo é um templo em que o som de Olódùmarè reverbera sem cessar, e cada homem aprende
O aprendizado em Ifá não é mero acúmulo de informações, mas uma alquimia da alma que se
realiza pelo ouvir profundo. A criança que não escuta o primeiro ensinamento e precisa escutar o
último é o símbolo da humanidade que se distanciou da sua natureza escutante — e, por isso,
perdeu o caminho da harmonia. Para Ọ̀rúnmìlà, o saber verdadeiro é um retorno, um ìpadà; toda
compreensão é relembrança, toda iluminação é reencontro. O ser humano nasce dotado de ìmọ̀, a
sabedoria potencial que recebeu de seu Orí antes de descer a Àiyé. Contudo, essa sabedoria dorme,
e o despertar dela depende da escuta. O primeiro ensinamento é a voz do Orí que sussurra: “lembra-
214
O ìpadà é a categoria central dessa hermenêutica. Em Ifá, nada se perde: o que parece fim é apenas
retorno. O Orí conhece o caminho de volta, mas o homem, distraído, o esquece. O aprendizado
ético — ìwà-pẹ̀lẹ́ — é o modo como a alma volta a escutar o Orí. Ser de bom caráter é estar em
sintonia com o ritmo do próprio destino. Aquele que tem ìwà-pẹ̀lẹ́ não precisa de correções
externas: ele ouve por dentro. O que não tem, precisará do ìkẹyìn, a lição do mundo, a pedagogia da
dor.
O silêncio, como visto nos Ìtàn anteriores, é o útero dessa escuta. O silêncio não é o contrário da
fala; é o espaço onde o som se enraíza. O homem que aprende a silenciar diante do oráculo aprende
a escutar o ritmo da verdade. Quando Ọ̀rúnmìlà ensina que “quem não escuta o primeiro
ensinamento escutará o último”, ele não ameaça — ele descreve uma lei: toda vibração emitida
volta à sua fonte. O que não é acolhido pela escuta voluntária retornará como eco.
A ética de Ifá é, portanto, uma ética da escuta. O ìwà-pẹ̀lẹ́ é a capacidade de ouvir antes de agir. O
homem sem escuta age movido pelo ruído do desejo; o homem que escuta age movido pelo Àṣẹ. A
escuta transforma o impulso em intenção. Assim, o silêncio é o primeiro passo da ética, e a palavra
medida, o segundo. Falar sem ter escutado é interromper o orò — o discurso sagrado do mundo.
interpretar Ifá, ele aprende a ouvir o tambor do seu próprio coração. Esse tambor é o reflexo do ìlù
Ọ̀run, o som da ordem cósmica. O Bàbáláwo que não domina o silêncio repete mecanicamente os
versos, mas não os escuta; aquele que escuta percebe o som oculto entre as palavras, o ofò àṣẹ que
dá vida ao oráculo. Por isso, Ọ̀rúnmìlà dizia: “a boca que fala sem o ouvido que escuta é uma
cabaça vazia.”
215
O ciclo àkọ́kọ́–ìkẹyìn reflete também o ciclo Àiyé–Ọ̀run. Àiyé é o campo da experiência, Ọ̀run é o
primeiro é intuitiva; a do último, vivencial. O homem precisa descer ao mundo para compreender,
através da dor e do tempo, aquilo que o espírito já sabia. É o mistério da reencarnação: o ìkẹyìn de
uma vida torna-se o àkọ́kọ́ da seguinte. Assim, o destino é uma pedagogia infinita, onde cada erro é
A hermenêutica Ìtànlógica interpreta essa repetição não como punição, mas como fidelidade do
cosmos ao ser humano. Olódùmarè é o mestre que não abandona o discípulo: se ele não aprendeu
hoje, aprenderá amanhã. A lei do retorno é a expressão dessa misericórdia. A alma que se recusa a
ouvir o primeiro ensinamento será conduzida, passo a passo, até o último — e, ao reconhecê-lo,
vento, o som da água, o ritmo do corpo, o silêncio do tempo. Cada elemento é um oráculo, cada
que o escuta é o Orí. Assim, aprender é participar da linguagem divina que atravessa as coisas.
Na dimensão ética, o ìkẹyìn é o ponto em que o homem compreende que suas ações são ecos de si
mesmo. O que ele não escutou como conselho retornará como consequência. A sabedoria de Ifá é a
sabedoria do retorno — tudo volta ao ouvido que o emitiu. O que o homem lança ao mundo, em
palavras ou gestos, retorna-lhe como lição. O primeiro ensinamento ensina a ouvir; o último ensina
a lembrar.
O ìpadà não é, portanto, castigo, mas libertação. Ele quebra o círculo do erro pela consciência.
eco, desperta. É por isso que, em Ifá, não há culpa, mas responsabilidade: o universo não julga,
216
O aprendizado último é o retorno do ser ao seu próprio som primordial, à vibração com que
Olódùmarè o pronunciou no início dos tempos. Quando Ọ̀rúnmìlà diz que a criança que não escuta
o primeiro ensinamento escutará o último, ele revela a lei metafísica da escuta: todo ser criado é
uma nota da grande música do Céu, e o destino é a lenta afinação dessa nota à harmonia total.
em que o som e a escuta se reencontram, quando o eco volta à sua origem e o homem se reconhece
como vibração.
A hermenêutica Ìtànlógica entende essa escuta final como a transmutação do ser em pura escuta,
ìgbọ́ Ọ̀run. O que antes ouvia com os ouvidos da carne agora escuta com o coração do espírito. Essa
escuta não capta sons, mas presenças. É o silêncio ativo que percebe a respiração de Ọ̀run dentro de
cada coisa. O homem que chega a esse estado não distingue mais entre palavra e silêncio, entre
pergunta e resposta; tudo é fala divina, tudo é oráculo. Ele não precisa mais consultar Ifá, porque ele
mesmo se tornou um verso de Ifá, uma linha viva no corpo do oráculo cósmico.
A escuta metafísica é o inverso da curiosidade. O curioso ouve para conhecer; o sábio escuta para
participar. Escutar é tornar-se um com o que é ouvido. Quando Ọ̀rúnmìlà fala, ele não informa —
ele transforma. A palavra de Ifá é performativa: ela realiza o que diz. Mas essa realização depende
da escuta. A palavra só se cumpre quando encontra um ouvido preparado. Por isso, o aprendizado é
lento: o universo não fala mais depressa do que o ouvido pode suportar. A alma precisa amadurecer
A escuta é também o princípio da divinação. O bàbáláwo não prevê o futuro; ele escuta o presente
até ouvir o que nele dorme. O futuro é apenas o som que ainda não se manifestou. O odu é o ouvido
de Ọ̀run colocado sobre Àiyé. Quando o bàbáláwo lança o Opele, ele está perguntando: “qual som o
217
destino está prestes a emitir?” E o oráculo responde com vibrações, não com frases. Traduzir Ifá é
escuta com o Orí escuta direto de Olódùmarè. Ele não precisa mais de símbolos porque o mundo
inteiro se tornou símbolo. O vento fala, o fogo ensina, a água aconselha, a terra consola. Essa é a
A teogonia do som é também uma teogonia do retorno. Todo som que sai de Olódùmarè volta a Ele.
A criação é uma onda; o retorno, a maré. O homem é o espaço entre ambos, o instante em que o
som se torna consciência. Escutar é permitir que essa consciência volte à sua origem. O ìkẹyìn é o
instante em que o ser humano, cansado de falar, percebe que tudo o que buscava dizer já havia sido
A criança que não escutou o primeiro ensinamento é o símbolo da humanidade em seu exílio
sonoro: cercada de ruídos, ela esqueceu o tom de sua origem. O último ensinamento é o momento
em que o ruído se dissolve e o tom reaparece. É a morte entendida não como fim, mas como
restituição sonora — o regresso do sopro ao sopro. O homem morre para voltar a escutar o som de
onde veio.
escutar o corpo; orar é escutar o coração; viver é escutar o destino. O silêncio não é ausência de
som, mas atenção plena ao som da existência. Quando o homem atinge esse estado, ele compreende
que o universo inteiro é feito de audições. Até mesmo os astros giram porque escutam o comando
218
A escuta final, ìgbọ́ Ọ̀run, é o coroamento da ética. O ìwà-pẹ̀lẹ́ não é outra coisa senão o
comportamento de quem escuta. O homem de bom caráter não impõe o seu querer; ele escuta o
querer do mundo. Ele age no ritmo do que escuta, e por isso sua ação é justa. A injustiça é o
resultado da surdez espiritual — o ato de quem não ouve o equilíbrio das coisas. Escutar é, portanto,
No ápice da escuta, o ser e o som tornam-se um. O ouvido interior se abre e o homem percebe que o
mundo não é mudo: cada pedra canta, cada sombra respira, cada silêncio fala. Nesse ponto, o Ìtàn se
cumpre. A criança que não escutou o primeiro ensinamento escuta o último — e percebe que ambos
eram o mesmo. O ciclo se fecha, e o som volta ao seu princípio. O aprendizado se revela como
lembrança. A escuta final é o retorno ao coração de Olódùmarè, onde tudo é som e tudo é silêncio.
219
6. Ìwòrì Òwònrìn
A kì í dá òkun sí i kí òun òkun máa da ìtànjẹ sílè ̣ (Não se pode criar o mar e esperar que ele não
Tradução:
Ọ̀rúnmìlà disse:
no poder de Olódùmarè.
ele o fez,
e disseram-lhe:
220
pois a ilusão nunca deixou de ser filha da verdade.”
Ọ̀rúnmìlà contemplava o mar e via nele o retrato do universo: o movimento incessante, a alternância
Olódùmarè, dizia ele, porque nenhuma de suas formas é permanente e, ainda assim, ele nunca deixa
de ser ele mesmo. Dizer que “não se pode criar o mar e esperar que ele não produza o disfarce das
ondas” é afirmar que toda criação traz em si o véu do movimento — e que o movimento, longe de
ser engano, é o modo como a verdade se mostra. As ondas são o modo visível do invisível, a
oscilação entre o ser e o vir a ser. Quem busca a verdade imóvel, cristalina e estática, desconhece o
ritmo do real.
espíritos, ancestrais. As ondas não são enganos: são linguagens. Elas comunicam o estado das
profundezas. Assim também, os enganos da mente não são mentiras no sentido moral; são o modo
pelo qual a verdade se veste para poder ser suportada. Olódùmarè não esconde; Ele revela-se por
O verso ensina que o vento cria a mentira, mas a terra funda a verdade. O vento é o princípio do
movimento, a respiração do mundo, o Èmí que anima; a terra é o princípio da forma, a estabilidade
do ser. A mentira não é, portanto, ausência de verdade, mas sua dispersão no vento. A verdade é a
densidade, o repouso, a matéria onde o sopro se fixa. Assim, o vento e a terra são complementares:
o primeiro carrega, o segundo sustenta. O erro nasce quando o homem quer fixar o vento ou
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece aqui o princípio de que o mundo é uma aparência verdadeira.
Ìtànjẹ não é o falso no sentido moralista, mas o aspecto mutável do real. É o que os antigos
chamavam de òjijì, a sombra: o duplo inseparável da luz. Ọ̀rúnmìlà diz que a ilusão é filha da
221
verdade porque nenhuma aparência existe fora do ser. O engano é sempre revelador — ele mostra a
tensão entre o que é e o que parece. O homem que busca eliminar o engano elimina também a
Olódùmarè cria o mundo como mar: superfície instável sobre profundidades imutáveis. O erro do
homem é acreditar que as ondas são o mar. Ele vê o que se move e esquece o que permanece. Mas
sem o movimento não haveria percepção. A onda é a forma pela qual o mar se torna visível. Assim,
a aparência é o modo como a verdade se manifesta à experiência. A separação entre òtítọ́ e ìtànjẹ é
uma ilusão da mente racional. O sábio não distingue um do outro, mas aprende a ver a verdade na
própria aparência.
Ọ̀rúnmìlà, ao ser aconselhado a fazer sacrifício para discernir entre verdade e ilusão, aceita, mas
descobre que não há fronteira. A verdade é o oceano; a ilusão, as ondas. Ambas são expressões do
mesmo àṣẹ. Esse ensinamento dissolve a dualidade que confunde os homens. Aquilo que o Ocidente
chama de “mentira” ou “falsidade” é, para Ifá, apenas um estágio da revelação. O que hoje é
disfarce, amanhã se tornará transparência. A verdade não se opõe à ilusão — ela a contém.
Na filosofia Ìtànlógica, o mar é o símbolo da presença móvel, a verdade em devir. O òdù Ìwòrì
Òwònrìn ensina que o ser é fluxo. Olódùmarè não se revela de uma vez, mas em movimentos. A
criação é o disfarce necessário da eternidade. Para o olho humano, o movimento parece contradição;
para o espírito, é continuidade. O erro de quem busca a verdade é esperar fixidez num universo que
respira. O saber de Ifá, ao contrário, ensina a dançar com as marés — a reconhecer o Àṣẹ no próprio
vaivém.
A ìtànjẹ, nesse contexto, é o jogo divino. É a arte pela qual Olódùmarè esconde-se para ser
encontrado. A vida é o esconderijo do invisível. Ọ̀rúnmìlà, como intérprete desse jogo, não busca
destruir a ilusão, mas compreendê-la. Ele sabe que o disfarce é sagrado. Quando o vento mente, ele
222
apenas dramatiza o sopro da verdade. Quando a onda se eleva, ela apenas torna visível a força que a
No plano antropológico, esse Ìtàn ensina que o homem deve aprender a ler a aparência sem ser
enganado por ela. As situações, as pessoas, os acontecimentos são ondas que disfarçam uma maré
interior. O sábio observa o movimento sem perder o fundo. Ele sabe que a vida se comunica em
camadas — o gesto é uma superfície, o silêncio é o fundo. Viver bem é manter o olhar fixo na
revelação pura, mas deciframento. A verdade não se oferece; ela se esconde para ser merecida. O
Bàbáláwo é aquele que, diante do mar das aparências, reconhece o padrão das ondas. Ele não as
condena nem as idolatra; ele as lê. A leitura Ìtànlógica é leitura de movimentos, de vibrações, de
repetições.
A ilusão, nesse sentido, é pedagógica. Sem ela, não há consciência. O engano ensina o limite da
percepção. Cada erro é uma lição de discernimento. A criança que toca o fogo aprende o significado
do calor. O homem que confunde o vento com a terra aprende o peso da verdade. O universo educa
pelo contraste. A mentira é o método pelo qual o real desperta o ouvido do espírito.
O verso diz que Ọ̀rúnmìlà foi advertido: ele não poderia distinguir a verdade da ilusão, pois uma é o
reflexo da outra. Isso é mais do que paradoxo — é ontologia da linguagem. Em Ifá, toda fala é
sombra de um silêncio primordial. Cada palavra que o homem pronuncia vem recoberta de véus; o
verbo é sempre tradução imperfeita do invisível. O termo òrò, em iorubá, significa tanto “palavra”
quanto “coisa”. A língua não distingue entre o dizer e o ser. Falar é criar; toda fala é ação
ontológica. Mas, ao mesmo tempo, o dizer produz o seu próprio engano: aquilo que se manifesta
como palavra já perdeu a inteireza do silêncio. O òrò é o disfarce do àṣẹ. Assim como as ondas são
223
Nesse ponto, a ìtànjẹ (ilusão) se torna condição da expressão. Sem o disfarce, nada se comunica. O
homem não mente por maldade: ele mente porque só pode revelar pela forma, e a forma já é
portanto, o véu necessário que permite ao invisível ser visto. Por isso Ọ̀rúnmìlà ensina que a
aparência.
A hermenêutica Ìtànlógica compreende o òrò como um gesto de travessia entre Ọ̀run e Àiyé. A
palavra é uma canoa. Ela carrega a potência do invisível e a deposita na margem visível. Mas
nenhuma travessia é sem perda. Ao chegar à margem, a canoa está molhada de engano. É por isso
que os Bàbáláwo dizem que “Ifá fala em metáforas” — não porque a metáfora seja enfeite, mas
porque ela é o único modo possível de dizer o indizível. A verdade não cabe em linguagem direta.
Ela precisa das curvas do símbolo, das dobras do ritmo, das insinuações do canto.
O verso de Ìwòrì Òwònrìn é, nesse sentido, uma crítica ao racionalismo. O Ocidente sempre tentou
purificar a linguagem da ambiguidade, mas em Ifá a ambiguidade é sagrada. Ela é o espaço onde o
ser respira. O símbolo não é ruído: é respiração do sentido. A lógica do disfarce é mais verdadeira
do que a lógica da clareza. O saber Ìtànlógico é saber de transfiguração: compreender não é fixar, é
Há uma pedagogia do engano. Aquele que se deixa enganar aprende a escutar. O espírito que se
protege do engano perde a capacidade de ver. Olódùmarè ensina por meio de ilusões. O sonho, a
coincidência, o erro — tudo são mensagens. O mundo é um oráculo contínuo. A mente ocidental
chama de acaso; Ifá chama de àṣẹ nínú ayé — a força que organiza o visível. O engano é o modo
224
Assim, o discípulo de Ifá deve praticar a escuta oblíqua. Ouvir o que se esconde por trás da fala, ler
o que se move sob o texto. A hermenêutica Ìtànlógica é um método espiralar: não busca o centro por
linha reta, mas por aproximações circulares. O sentido está sempre em fuga, e é essa fuga que o
revela. A palavra é espelho e labirinto. Ọ̀rúnmìlà ensina a caminhar no espelho sem se perder, a
A verdade, portanto, não é uma substância, mas um ritmo. Ela pulsa, desaparece e retorna. Cada
onda de engano é um movimento do ser tentando ser reconhecido. Aquele que deseja uma verdade
imóvel morre afogado. O verdadeiro saber é nadar entre ondas, permitir que cada disfarce revele
Ifá é a ciência do ritmo. Nada está fora do ciclo. Mesmo o erro pertence ao círculo da sabedoria. O
bem e o mal, o claro e o escuro, a verdade e a ilusão — tudo são fases de uma mesma respiração.
Por isso Ọ̀rúnmìlà não destrói a mentira; ele a consagra. Ele sabe que até o vento que engana está a
O Bàbáláwo, quando lança os ikin, vê cair sobre o opon o desenho de forças que se entrelaçam.
Nenhuma combinação é erro: cada uma é revelação. O desenho do destino é feito com linhas de
verdade e sombra. O ofício do intérprete é reconhecer o àsopọ — a conexão entre o que é aparente e
A ilusão torna-se, assim, um sacramento. Quando o homem aceita o disfarce como parte da verdade,
ele entra no estado de ìmọ̀lára Ifá — a percepção viva de que o mundo é texto de Olódùmarè. Tudo
erro para se renovar. O vento mente porque precisa inventar o novo. Se tudo fosse estável, o cosmos
225
se petrificaria. O disfarce é o sopro criador. O homem deve aprender a criar como o vento:
O Ìtàn nos mostra que Ọ̀rúnmìlà faz o sacrifício para compreender, e ao final lhe dizem: “Não podes
distinguir a verdade da ilusão.” Essa resposta é o ápice da iniciação. O iniciado não é aquele que
sabe distinguir, mas aquele que já não precisa distinguir. Ele aprendeu a ver o àṣẹ por trás de tudo. A
escravo da distinção, separa o que Olódùmarè uniu. Ele acredita que só há verdade quando há
exclusão do falso. Mas Ifá ensina o contrário: há verdade porque há ilusão. Uma dá sentido à outra.
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece, portanto, que a linguagem, o engano e o tempo são partes do
mesmo tecido. Cada palavra é uma onda do tempo. Cada silêncio é um retorno ao oceano. Aprender
é recordar o movimento.
Olódùmarè pronunciou o verbo primordial — Kí ayé jẹ́! (“Que haja o mundo!”) — não surgiu
apenas a luz, mas também a sombra. Pois a luz não nasce sem lançar uma sombra sobre si mesma.
Assim o disfarce se fez inseparável da criação. O cosmos é o grande corpo do engano divino: ele se
mostra para ocultar, oculta para mostrar. O invisível não se opõe ao visível — ele o habita.
acidente; é estrutura. Olódùmarè não engana: Ele se multiplica. Cada aparência é uma dobra de sua
infinitude. Se a Verdade é total, e se o homem só pode percebê-la por fragmentos, então cada
fragmento é ao mesmo tempo verdade e engano. O que o homem chama de ilusão é apenas o limite
226
Ọ̀rúnmìlà, o sábio que aprendeu a ver com os olhos de Olódùmarè, compreende isso. Por isso, ele
não condena o erro: ele o interpreta. O erro é a linguagem de Olódùmarè escrita no alfabeto da
imperfeição. Cada engano é uma letra da escritura divina. Quando o Bàbáláwo lê o odù, ele não
busca corrigir o erro, mas entender o que o erro ensina. A ìtànjẹ é a pedagogia do cosmos, o modo
Esse princípio é fundamental para a ontologia de Ifá: ser é aparecer. O invisível não é o contrário do
visível, mas sua fonte em expansão. O mundo não é máscara de uma realidade escondida, é o rosto
ondas para não cegar as criaturas com o brilho do absoluto. O engano protege. A ilusão é a
compaixão do invisível.
O Ìwòrì Òwònrìn é, portanto, o odù da prudência cósmica. Ele nos diz que há sabedoria no véu, que
a verdade pura seria destrutiva se não viesse coberta de mistério. Olódùmarè revela-se em doses, em
enigmas, em símbolos. Cada símbolo é um filtro que permite ao homem suportar o divino. A ìtànjẹ
é o filtro da presença.
verdade que se oferece sem queimar. Quando Ọ̀rúnmìlà fala em parábolas, ele repete o gesto de
Olódùmarè criando o mundo. A parábola é o universo em miniatura: uma forma que contém o
infinito. Por isso a palavra é sagrada, pois cada verbo é um microcosmo da criação.
O engano, nesse sentido, é o caminho da iniciação. O discípulo precisa ser enganado para aprender
a ver. Se o mestre dissesse a verdade de uma vez, o discípulo morreria. Por isso o ensinamento vem
o labirinto do disfarce até encontrar o centro — que é silêncio. Ọ̀rúnmìlà não revela: ele conduz à
revelação.
227
A hermenêutica Ìtànlógica entende o engano como potência criadora porque o disfarce produz
diferença, e a diferença é o motor do ser. O cosmos precisa do contraste para existir. Sem sombra,
não há profundidade. Sem engano, não há descoberta. Sem aparência, não há beleza. A verdade
Esse princípio também explica a natureza do destino (òrí). O homem encarna para se esquecer do
que é, porque só no esquecimento ele pode aprender. O nascimento é o primeiro engano: o espírito,
que vinha de Ọ̀run, acredita-se separado. Toda vida é um rito de lembrança. O caminho da sabedoria
é o retorno através do disfarce. O corpo é véu, o tempo é véu, o sofrimento é véu — e em cada véu
Por isso o Ìtàn diz: “Tu não poderás distinguir a verdade da ilusão.” A voz de Ifá aqui é compassiva.
Ela nos ensina que tentar separar o mar das ondas é ignorar o mistério da unidade. A verdade e a
ilusão são o mesmo mar sob perspectivas diferentes. O homem só se engana porque acredita que
pode ver tudo. A humildade é o início da sabedoria: reconhecer que cada olhar é parcial, que cada
O disfarce é também o princípio da beleza. O que encanta é o que se revela aos poucos. A flor se
fecha e se abre, o sol nasce e se põe, o rosto amado muda de expressão — é nessa impermanência
que mora a eternidade. O feio é o que se revela de uma vez. A beleza é o mistério do desvelamento.
No plano ético, a lição é clara: o homem deve cultivar a sinceridade sem abandonar o pudor do
sagrado. Falar verdade não é desnudar tudo, mas revelar com medida. O silêncio é parte da verdade.
O sábio fala como o mar: diz e recolhe. Cada palavra é uma onda que se retira.
228
A hermenêutica Ìtànlógica vê nesse Ìtàn o fundamento da ontologia do segredo. O segredo é o
ventre do ser. O que se revela demais morre. O que se guarda demais apodrece. O equilíbrio é o que
Ọ̀rúnmìlà chama de Ìwà pẹ̀lẹ́: o caráter harmonioso, aquele que sabe quando dizer e quando calar,
No culto de Ifá, essa sabedoria é dramatizada em cada consulta. O odù que surge nunca diz tudo; ele
insinua. O Bàbáláwo traduz o silêncio das conchas. Ele sabe que a resposta é sempre uma metáfora.
O consulente busca solução, mas Ifá oferece visão. É no intervalo entre o que se entende e o que se
Portanto, a ìtànjẹ é o próprio método de Olódùmarè — o modo como o absoluto educa o relativo. O
mundo é o espelho onde o invisível se disfarça de forma para que o homem possa amá-lo. A ilusão é
O tempo é o disfarce mais perfeito de Olódùmarè. Ele não existe para esconder o eterno, mas para
que o eterno possa ser respirado. O tempo é o movimento do invisível dentro da forma, o modo
como o ser se experimenta em transformação. Por isso, no ensinamento de Ìwòrì Òwònrìn, o engano
é o nome humano do tempo: o fluxo que parece afastar e, no entanto, conduz de volta. Tudo o que
A verdade não se manifesta em linha reta, mas em círculos. Ifá ensina que o mundo é uma casa sem
teto: o que sobe retorna, o que desce reencontra o alto. Assim é o òrò — a palavra e o
acontecimento — que, uma vez pronunciado, inicia o ciclo da criação. Cada verbo gera sua própria
onda, que vai e volta ao falante. A vida é o eco do que se diz. Por isso Ọ̀rúnmìlà ensina que é
preciso medir a fala, porque toda palavra lançada ao vento se transformará em maré. O ritmo do
229
O engano não é punição, é pedagogia. Cada desvio é um convite ao reencontro. O homem se engana
porque precisa aprender o caminho do retorno. O erro é o mapa do acerto. A mentira é o ensaio da
Por isso, Ọ̀rúnmìlà contempla o mar e reconhece nele o coração de Olódùmarè: ondas que nascem,
se desfazem e renascem — nenhuma igual à anterior, mas todas uma só substância. O ritmo é a lei
secreta do ser. O engano é a dança da verdade. Assim como o tambor não mente quando muda de
compasso, o cosmos não engana quando se refaz. A mutação é fidelidade. O ser é constante em sua
metamorfose.
O Bàbáláwo, ao interpretar o odù, escuta esse ritmo. Ele não busca uma verdade fixa, mas o pulso.
O oráculo não oferece respostas; oferece cadência. Saber ler Ifá é aprender a ouvir o compasso das
marés existenciais. O engano, a perda, o erro — todos são batimentos do mesmo coração. O
iniciado, quando compreende isso, já não teme as ondas. Ele se torna navegante da existência, e sua
O ritmo cósmico do engano revela que a verdade é uma presença móvel. Em Ifá, nada é definitivo,
porque tudo respira. O mundo é sustentado por àsopọ — a conexão entre as coisas — e essa
conexão vibra. A vibração é o modo como o invisível comunica sua unidade. A mentira, quando
vista de fora, é apenas descompasso; vista de dentro, é modulação. O universo não desafina: ele
improvisa.
Essa improvisação é o que os poetas chamam destino. Òrìṣà não impõe, propõe. Olódùmarè não
decreta, dança. A vida é o tambor de Àṣẹ: o som do invisível atravessando a matéria. Cada ser é
uma nota dessa música infinita. Quando o homem se julga perdido, é apenas porque tenta impor um
ritmo que não é o seu. O sofrimento é resistência à cadência divina. A cura é sincronização.
230
No horizonte da Summa Ìtànlógica, o engano não é erro de percurso, mas instrumento de revelação.
expiração é manifestá-lo. Entre uma e outra, mora o engano, a oscilação do ser entre compreender e
esquecer. O esquecimento é sagrado, pois sem ele não há lembrança. A verdade só é visível porque
se oculta.
O ritmo cósmico do engano também se manifesta nas relações humanas. Amar é enganar-se de
forma luminosa. Ver no outro o reflexo do que não se é — esse é o mistério do vínculo. Todo
encontro é travessia entre sombras. O outro é o disfarce de Olódùmarè que vem ensinar o
reconhecimento. A traição, a perda, a saudade — tudo são ondas que quebram para devolver a alma
à maré do ser.
O Bàbáláwo é aquele que sabe escutar o disfarce do mundo sem se perder nele. Ele vê a mentira e
sorri, pois reconhece o brilho do real por trás do véu. Ele ouve o ruído e distingue o tom. Sua
sabedoria não é de correção, mas de composição. Ele não tenta calar o engano; ele o transforma em
música. Essa é a arte suprema de Ifá: converter a confusão em ritmo, o caos em melodia.
Na dimensão teogônica, o engano é o gesto amoroso de Olódùmarè criando para ser amado. O
invisível se disfarça para poder ser contemplado. A criação é o espelho onde o Uno se vê em plural.
Se não houvesse véu, não haveria beleza; se não houvesse diferença, não haveria encontro. A ìtànjẹ
A verdade, portanto, não é aquilo que se alcança, mas aquilo com que se dança. O engano é o
compasso dessa dança. O tempo é o tambor. O homem, o dançarino. A vida, o chão sagrado de Ọ̀rún
e Àiyé em harmonia. No final de tudo, o mar devolve cada onda ao silêncio. O disfarce se recolhe.
E o que parecia engano revela-se fidelidade absoluta: nada foi perdido, tudo foi ritmo.
231
Assim se encerra o ensinamento de Ìwòrì Òwònrìn: o universo é uma verdade em movimento, e o
engano é o seu respirar. A sabedoria de Ọ̀rúnmìlà não é negar o disfarce, mas venerá-lo como forma
Ẹni tí ń kọ́ orí rẹ̀, kì í mọ ibi tí àná ti gbé e dé (Aquele que penteia a própria cabeça não percebe de
Ó rúbọ,
Tradução:
232
para que sua cabeça não o traísse.
Quando Ọ̀rúnmìlà caminhava pelos reinos do tempo, desejou conhecer a origem da sabedoria,
aquilo que faz um homem discernir o que é bom e o que é mau. Dirigiu-se, então, à casa de Ìwòrì e
perguntou: “Quem ensinou a cabeça a pensar, se a cabeça é parte do corpo?” Ìwòrì respondeu: “A
cabeça aprendeu observando o erro.” Ọ̀rúnmìlà seguiu até Òwònrìn e perguntou: “E quem ensina o
erro?” Òwònrìn respondeu: “O erro é ensinado pelo esquecimento.” Assim Ọ̀rúnmìlà compreendeu
No entanto, havia um problema: quanto mais ele pensava, mais a cabeça se enredava em si mesma.
As ideias se penteavam e se despenteavam, e ele não encontrava a raiz. Foi então que os Bàbáláwo
de Ìwòrì Òwònrìn lhe disseram: “Ofereça sacrifício à tua própria cabeça, para que ela não te engane.
Pois quem penteia a própria cabeça sem espelho esquece de onde veio o pente.” Ọ̀rúnmìlà
diante do òpón.
Na manhã seguinte, ao lavar a cabeça, viu refletido no espelho o rosto de um velho que não era o
seu. O velho sorriu e disse: “Sou o teu pensamento de ontem, que te trouxe até aqui. Nenhum
homem anda sozinho — caminha com o peso das mãos que o moldaram.” Ọ̀rúnmìlà prosternou-se.
Entendeu que a cabeça carrega memórias mais antigas do que a própria vida, e que toda sabedoria é
233
lembrança de um toque invisível. E desde então se diz: “Aquele que penteia a própria cabeça não
O verso “Aquele que penteia a própria cabeça não sabe de onde as mãos de ontem o conduziram”
ele é uma chave de passagem entre a memória e o esquecimento, entre o visível e o invisível, entre
o òrí como princípio de individuação e o ẹ̀mí como sopro de continuidade divina. Este Ìtàn de Ìwòrì
Òwònrìn não trata apenas do gesto de Ọ̀rúnmìlà diante do espelho, mas da própria fundação do
saber como reatualização do toque ancestral — o toque das “mãos de ontem” que o verso evoca. O
ser humano, ao pensar, penteia-se com as mãos do tempo, e o pensamento é o fio do passado
deslizando sobre o couro sagrado do presente. O saber não é invenção, é evocação: pensar é lembrar
Na filosofia de Ifá, o òrí é o primeiro templo da verdade. Ele não é apenas cabeça anatômica, mas
sede do destino e ponto de convergência entre Àiyé e Ọ̀run. O òrí inú, a cabeça interior, guarda o
segredo da escolha original — aquele instante ontológico em que o ser, diante de Olódùmarè,
decide o caminho que seguirá na terra. Essa escolha é o fundamento da singularidade. Cada pessoa
é o eco de sua própria decisão cósmica. Mas, ao nascer, o espírito atravessa o véu do esquecimento,
o ẹ̀wà àìmọ̀, e esquece aquilo que escolheu. É nesse esquecimento que se inscreve o drama da
existência. Penteamos a cabeça todos os dias, cuidamos do òrí, mas raramente reconhecemos as
mãos invisíveis que o guiaram até este corpo, este tempo, esta história.
O Ìtàn afirma que Ọ̀rúnmìlà procurava a origem da sabedoria — ìbẹ̀rẹ̀ òye. O movimento de busca
conquista, é reencontro. O esquecimento, por sua vez, é necessário, porque sem ele o espírito não
criatura se perca para poder encontrar-se. A ignorância, nesse sentido, é um método do invisível.
234
Quando Ọ̀rúnmìlà é aconselhado a oferecer sacrifício à sua própria cabeça, o Ìtàn revela a dimensão
ética e ontológica do autocuidado. O sacrifício (ẹbọ) não é transação nem pagamento, mas gesto de
lembrança. É o modo ritual de recordar o pacto primordial com o òrí. Todo ẹbọ é um espelho
simbólico: a oferenda retorna o homem a si mesmo. Oferecer à cabeça é reconhecer que a sabedoria
não vem de fora, mas do diálogo interno com o destino. O òrí é o Ifá pessoal.
A imagem das mãos de ontem, que penteiam o presente, alude à noção de ancestralidade viva. Em
Ifá, o ancestral não é uma memória morta, é presença coextensiva ao agora. O corpo é o lugar onde
os ancestrais respiram novamente. Cada gesto cotidiano é continuação de um gesto anterior, cada
escolha é reverberação de uma escolha antiga. O saber é, portanto, o reencontro com o toque
ancestral que molda o destino. O Bàbáláwo não é aquele que aprende novas verdades, mas aquele
Há, nesse Ìtàn, uma pedagogia da humildade: quem penteia a própria cabeça pensa estar sozinho,
autônomo, mas ignora o tecido invisível que o sustenta. O homem moderno, que acredita ser autor
de si mesmo, repete o engano de Ọ̀rúnmìlà antes do sacrifício. Ele confunde pensamento com
origem. A filosofia de Ifá corrige esse erro ao ensinar que toda origem é compartilhada, e todo
linear, é espiralado. Penteamos a cabeça — e cada fio conduz à raiz. O gesto do pente é o
movimento circular do retorno. A cabeça é o mapa do universo, e cada volta do pente é uma viagem
de volta ao centro. Ọ̀rúnmìlà, ao ver o velho refletido no espelho, reconhece-se como continuidade.
235
A moral ontológica desse Ìtàn é que o conhecimento é memória de contato. As “mãos de ontem” são
as forças de Ọ̀run que moldam a consciência. Cada pensamento é um toque ancestral, cada
inspiração é um sopro divino que ressoa na mente humana. O homem, ao pensar, não produz;
A Ìtànlógica ensina que toda verdade precisa ser penteada — desembaraçada dos nós do
absoluto. Sem esquecimento, não haveria individuação; sem individuação, não haveria experiência.
Por isso, o saber não é apenas recordar, mas saber esquecer com medida. Esquecer é permitir que o
No culto de Ifá, a lavagem ritual da cabeça — ìwẹ̀ orí — simboliza exatamente esse retorno ao
estado original do ser. Quando Ọ̀rúnmìlà lava a cabeça e vê o velho, ele atravessa a superfície do
tempo e reencontra o seu próprio arquétipo. A água, como elemento de Ọ̀ un, é memória líquida.
Ela dissolve os nós da experiência e revela a clareza do princípio. A sabedoria, então, é purificação
A filosofia ocidental sempre quis fundar a verdade na razão, mas Ifá funda-a na lembrança viva do
àṣẹ. A razão organiza, mas o àṣẹ cria. A sabedoria não é argumentação, é ressonância. O que
Ọ̀rúnmìlà busca não é uma definição de sabedoria, mas o reencontro com o som original — o tom
Esse primeiro movimento hermenêutico revela, portanto, a profunda coerência entre o corpo, o
tempo e o espírito. Penteiar a cabeça é reorganizar o cosmos dentro de si. A cada manhã, o homem
refaz o gesto de Ọ̀rúnmìlà: ele se prepara para pensar, e pensar é reviver o toque das mãos de ontem.
Nenhum gesto é neutro: toda ação é rito. E todo rito é memória que respira.
236
ṣ
O Ìtàn 2 de Ìwòrì Òwònrìn abre-se como o testemunho de um cosmos em que o pensamento
humano é apenas uma dobra da memória divina. O òrí torna-se o espelho em que Ọ̀rúnmìlà
descobre que pensar é relembrar as mãos que moldaram o ser, e é justamente essa lembrança que
O òrí inú, a cabeça interior, é o espaço sagrado em que o destino repousa antes de nascer; é o ventre
de Olódùmarè no homem. Quando o Ìtàn diz que Ọ̀rúnmìlà “ofereceu sacrifício à sua própria
cabeça”, ele não está apenas realizando um rito, mas reencenando o drama da origem: o ser que
retorna ao seu ponto de partida para reencontrar a fonte da razão. O sacrifício é o movimento
como parte do mundo. O homem não pensa a partir da cabeça; é o universo que pensa através dela.
Na tradição Ìtànlógica, o òrí é simultaneamente semente e estrela. Ele é o ponto em que o ser se
condensa antes de se expandir, e o lugar para onde o ser retorna quando o ciclo se completa. O òrí é
o mapa da travessia. Quando o Ìtàn diz que “a cabeça pode enganar aquele que a penteia”, insinua
que o pensamento, se não for ancorado no àṣẹ, corre o risco de girar em torno de si mesmo e
transformar a sabedoria em vaidade. A cabeça deve ser cuidada como se cuida de um altar. Pensar é
A hermenêutica Ìtànlógica lê esse Ìtàn como um tratado sobre a pedagogia divina do esquecimento.
esquecimento, não haveria descoberta; sem descoberta, não haveria consciência. O conhecimento
que se lembra de tudo torna-se estéril, incapaz de espanto. O que salva a sabedoria é o espanto
renovado. O homem precisa esquecer para poder admirar de novo o mundo, e esse ciclo de perda e
Ọ̀rúnmìlà aprende, diante do espelho, que o rosto refletido não é um outro, mas ele mesmo em
237
é, portanto, o reencontro com a própria ancestralidade. O homem não envelhece: ele revela o que
sempre foi. Cada ruga é uma lembrança inscrita no corpo. O tempo é o pente que marca os sulcos
da cabeça do mundo.
O òrí é também o mediador entre o humano e o divino. Ele participa de dois ritmos: o do corpo, que
muda, e o do espírito, que permanece. Essa duplicidade é o segredo da existência. O ser humano é
uma fronteira viva entre permanência e mutação, entre recordação e esquecimento. Essa tensão é o
que gera o movimento da consciência. Se o homem lembrasse demais, ficaria preso ao passado; se
No gesto de Ọ̀rúnmìlà, há uma lição ética: cuidar do òrí é cuidar da memória divina que nos habita.
O autocuidado não é narcisismo, mas reconhecimento do sagrado em si. Lavar a cabeça, ungir o
couro cabeludo, cobrir-se com panos rituais — todos esses atos são maneiras de dizer “lembrar-me-
E, ao mesmo tempo, o Ìtàn alerta: o homem que penteia a própria cabeça sem espelho se ilude. O
espelho é a alteridade. Só o outro permite que o eu se veja. O òrí precisa do olhar de Olódùmarè
refletido nos outros seres para reconhecer-se. A solidão absoluta é o esquecimento total. Por isso, na
visão Ìtànlógica, a convivência é também uma prática de lembrança. Amar é ajudar o outro a
O gesto cotidiano de pentear-se, tão simples, converte-se em metáfora da cosmologia de Ifá: cada
fio é um caminho do ser, cada nó um obstáculo, cada movimento de desembaraço uma purificação.
si, repete o gesto de Ọ̀rúnmìlà cuidando do cosmos. Essa é a essência da Ìtànlógica: perceber o
238
A ontologia do òrí é também uma ontologia do ritmo. O destino não é linha reta, mas espiral que
retorna sempre ao ponto de origem em níveis diferentes de consciência. Cada renascimento é uma
nova dobra da mesma energia. A cabeça é o ponto onde o espiral se faz consciente. O homem sente
o destino no peso da testa, no calor da nuca, na vertigem do pensamento. O corpo é o lugar onde o
tempo se reconhece.
Assim, o Ìtàn nos conduz à ideia de que toda sabedoria é memória em travessia. As “mãos de
ontem” não são metáfora do passado, mas nome do eterno presente que age através de nós. O que
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece nesse ensinamento a chave para uma ética cósmica: agir é
sempre relembrar. Nenhuma ação é isolada; cada gesto repercute nas mãos que o antecederam. O
destino é uma rede de toques. Quando um ser se move, todos os outros se reequilibram. Por isso, o
sacrifício de Ọ̀rúnmìlà não é apenas pessoal, é universal: ao oferecer ao seu òrí, ele restaura a
tempo e eternidade. O homem que se julga autor do próprio pensamento ainda não compreendeu
O òrí inú, que o Ìtàn revela como sede do destino e do pensamento, é o primeiro altar de Ọ̀rún
dentro do corpo humano. Ele é o fragmento do invisível que se faz presente no visível. Em Ìwòrì
Òwònrìn, Ọ̀rúnmìlà compreende que sua cabeça é o seu Ọ̀run pessoal, e que cada homem é um
pequeno céu que respira. O òrí é a parte do ser que escolhe e guia, mas também é o lugar onde
Olódùmarè deposita o sopro de seu poder. Por isso, cuidar da cabeça é cuidar da própria relação
com o divino.
239
A cosmologia de Ifá ensina que antes do nascimento o espírito comparece diante de Olódùmarè para
escolher seu caminho — àyànmọ̀. Essa escolha é selada pelo toque na cabeça. O toque é o contrato,
a assinatura invisível do destino. O corpo, ao nascer, esquece, mas o òrí inú guarda o pacto. É por
isso que, ao longo da vida, o homem sente o chamado do que ainda não se lembra: a voz do òrí é o
eco dessa escolha primordial. O caminho de volta à sabedoria é o caminho de volta à escuta. O
Bàbáláwo é aquele que ajuda o homem a ouvir o que a cabeça diz em silêncio.
No Ìtàn, quando Ọ̀rúnmìlà vê o velho no espelho, ele vê o próprio espírito ancestral que o
acompanha desde a origem. O velho é o ẹ̀mí àtẹ́lẹwọ̀, o sopro anterior ao nascimento, a energia que
moldou o corpo. Em Ifá, não há separação entre o indivíduo e seus ancestrais. O òrí é uma
A cosmologia do òrí é também uma cosmologia da responsabilidade. Ninguém pode acusar os Òrìṣà
de injustiça, pois o destino foi escolhido por cada ser. O sofrimento não é punição, mas
consequência de uma escolha esquecida. O òrí guia, mas respeita o livre-arbítrio. O esquecimento é
o preço da liberdade: o espírito esquece para poder escolher de novo. A vida é o espaço do
relembrar-se escolhendo.
A hermenêutica Ìtànlógica entende esse processo como movimento espiralar entre esquecimento e
sabedoria. Esquecer é descer, lembrar é subir. A escada entre Ọ̀run e Àiyé é construída pelas
próprias ações. Quando Ọ̀rúnmìlà oferece sacrifício à cabeça, ele refaz os degraus do caminho
ascendente. O ẹbọ é o gesto que reintegra o homem à sua origem. Cada oferenda é uma recordação
O corpo humano, nessa visão, é um templo móvel. O òrí inú é o santuário interno, o òrí òde (a
cabeça exterior) é o altar visível. O cabelo, em Ifá, é símbolo do crescimento do àṣẹ: ele é a
240
vegetação da cabeça, o bosque do espírito. Pentear a cabeça é como varrer o templo. Quando o Ìtàn
fala em “pentear a própria cabeça”, ele está descrevendo o gesto da consciência tentando ordenar o
caos interno. Mas o perigo é fazê-lo sem memória, sem espelho. O espelho é o reflexo de Ọ̀run — a
dimensão invisível que orienta o visível. Por isso, a sabedoria exige diálogo com o mistério.
A cosmologia de Ifá não concebe o tempo como linearidade, mas como pulsação. O òrí vive em
dois tempos simultaneamente: o tempo terreno (àkókò àiyé) e o tempo eterno (àkókò òrun). Ambos
se interpenetram através dos rituais, da palavra e do sonho. O sonho é o espelho onde o òrí inú
conversa com o òrí òde. Quando o homem sonha, sua cabeça visita Ọ̀run. Por isso o sono é
não é acumular ideias, é sintonizar-se com o pulso do real. A cabeça não é fonte, é antena. Ela capta
as frequências de Ọ̀run e as traduz em forma humana. A sabedoria é essa tradução bem-feita. O erro
é ruído, mas o ruído também ensina, porque todo descompasso revela a necessidade de afinar-se.
Assim, o aprendizado é eterno: o òrí nunca se fecha, ele cresce como o cabelo, continuamente
voltando à raiz.
Na dimensão teogônica, o òrí é o reflexo individual de Olódùmarè. Nenhum Òrìṣà está acima do
òrí, porque é nele que o àṣẹ divino se deposita. Por isso Ọ̀rúnmìlà, ao sacrificar para a própria
cabeça, reconhece que o poder está dentro. O Bàbáláwo diz: “Orí ni n f’eni yan, kì í ṣe Òrìṣà” — “é
a cabeça que escolhe a pessoa, não o Òrìṣà.” Essa frase condensa toda uma filosofia do interior. A
cósmica. O òrí inú é o lugar onde o universo se dobra para dentro. A cabeça é um microcosmo, e
cada pensamento é uma estrela em rotação. Por isso, o cuidado com o òrí é também cuidado com o
mundo. O caos exterior é reflexo do caos interno. O equilíbrio da cabeça é o equilíbrio do cosmos.
241
O esquecimento, no entanto, é inevitável, porque é o modo como o ser experimenta a
seres para que o amor fosse possível. O esquecimento é o véu que permite o reencontro. O òrí é o
guardião dessa memória perdida: ele sabe mesmo quando o homem não sabe. O silêncio da cabeça
é a fala de Ọ̀run.
Por isso o Ìtàn termina com uma frase que é advertência e bênção: “Aquele que penteia a própria
cabeça não sabe de onde as mãos de ontem o conduziram.” O homem que acredita bastar-se ignora
que é sustentado pelo invisível. Mas quem reconhece o toque das mãos de ontem descobre que
nunca esteve só. O òrí é comunidade invisível: nele habitam ancestrais, deuses e o próprio sopro de
Olódùmarè.
O òrí é a travessia do ser dentro de si mesmo. Ele é o portal por onde a consciência desce de Ọ̀run a
Àiyé e o mesmo portal por onde retorna quando cumpre seu ciclo. Todo corpo é uma estrada, e a
cabeça é seu ponto de partida e chegada. Quando o Ìtàn diz que Ọ̀rúnmìlà viu o velho refletido no
espelho, mostra que aquele que busca o início descobre o fim, e aquele que busca o fim encontra o
início. A cabeça é o espaço do eterno retorno, a dobra onde o tempo se reencontra com o eterno.
mergulhado em véus de dispersão; pensa que avança, mas repete; acredita que cria, mas recorda. O
òrí é o guardião dessa repetição sagrada, o centro que gira sem mover-se. A verdadeira sabedoria é
alinhar-se a esse movimento, deixar-se girar sem resistir. A resistência gera dor, pois tentar deter o
fluxo do ser é tentar deter o próprio Ọ̀run. A entrega é a única forma de liberdade.
O òrí é também o espaço da reconciliação. Ele reconcilia o corpo e o espírito, o desejo e o dever, o
visível e o invisível. Em sua superfície curva, tudo o que parece oposto se harmoniza. O cuidado
com o òrí não é apenas ritual: é uma filosofia da reconciliação com a própria existência. Quando
242
Ọ̀rúnmìlà oferece ao seu òrí, ele se reconcilia com o próprio destino — aceita as escolhas que fez
A cabeça, portanto, é a memória que pensa. O corpo sente, mas é a cabeça que organiza o sentir.
Contudo, a cabeça só é sábia quando se inclina diante do coração, pois o coração é o espelho líquido
de Ọ̀run. A sabedoria não é fria, é compassiva. O erro do homem é pensar sem sentir. A Ìtànlógica
corrige isso ao propor uma epistemologia do corpo: pensar é também dançar, respirar, mover-se
com o ritmo da vida. O òrí não é um objeto de adoração intelectual, é uma presença viva que pulsa e
sente.
No cotidiano, essa verdade se traduz na ética da consciência. O homem que cuida da cabeça
aprende a medir suas palavras, pois sabe que cada palavra molda seu destino. A fala é pente. Cada
som desembaraça ou confunde. Quando se fala com raiva, os fios da cabeça se enredam; quando se
fala com serenidade, o destino se alinha. O silêncio, por sua vez, é o óleo de dendê do espírito:
amacia, lubrifica, pacifica. Assim, a prática espiritual não está separada da vida comum — ela é o
A dimensão existencial desse Ìtàn é, portanto, a consciência de que o homem é uma criatura de
lembrança. Ele não precisa buscar fora, precisa escutar dentro. O òrí fala em intuições,
pressentimentos, coincidências. O mundo é um espelho falante, e tudo o que acontece é uma forma
de linguagem. Aquele que aprendeu a ouvir o próprio òrí lê o mundo como texto sagrado. Cada
Na travessia entre Ọ̀run e Àiyé, o òrí é o timoneiro. Ele mantém o equilíbrio entre o peso da matéria
e a leveza do espírito. Quando o homem se desvia do seu caminho, é o òrí que o chama de volta, às
vezes por meio do sofrimento. A dor, nesse contexto, é lembrança: é o toque das mãos de ontem que
dizem “ainda estás comigo”. A dor é pedagógica; ela penteia a alma com os dedos firmes do
destino.
243
O corpo é o altar onde essa pedagogia se realiza. As sensações, os desejos, os impulsos — tudo é
linguagem do òrí inú tentando comunicar-se com o mundo exterior. Negar o corpo é negar o
espelho de Ọ̀run. O corpo precisa ser escutado como se escuta o oráculo. Cada sintoma é um odù,
cada batimento um verso. Por isso, o cuidado com o corpo é também cuidado com o destino.
No horizonte mais profundo, o òrí é o rosto de Olódùmarè em cada ser. Ele é a porção do infinito
que se curva para caber na finitude. A consciência é o meio pelo qual o divino experimenta o tempo.
O homem, ao lembrar-se de si, torna-se o ponto onde Olódùmarè se reconhece. Essa é a função
E, no entanto, essa lucidez não é posse. O homem não detém o saber; ele participa dele. O òrí não é
liberdade nasce do diálogo entre o que foi escolhido e o que é criado agora. O ser humano é
cocriador do próprio caminho. Quando age com consciência, amplia as fronteiras do que havia
A lembrança das “mãos de ontem” é, portanto, um chamado à humildade ontológica. Somos feitos
de heranças. Cada pensamento carrega uma genealogia de vozes. O saber de Ifá nos ensina a honrar
essas vozes, a reconhecer a multidão invisível que habita cada gesto. Ninguém vive sozinho porque
ninguém é apenas um. O homem é uma assembleia de presenças, uma conversa entre tempos.
O Ìtàn termina, mas o ensinamento não se encerra. O velho no espelho é o símbolo de uma
eternidade que se renova. Ele nos olha com os olhos do passado e nos convida a viver com
memória. Penteamos a cabeça todas as manhãs, mas o verdadeiro pente é a consciência que alinha o
244
Assim se completa o ciclo de Ìwòrì Òwònrìn: o homem, ao buscar o início da sabedoria, encontra-se
iluminação é o instante em que o ser, ao pentear-se, reconhece o toque das mãos de ontem e sorri,
porque finalmente se lembra de que nunca deixou de ser tocado por Olódùmarè.
Àyà ni ń mọ̀,
Ìfẹ́ ni ń túmọ̀.
Tradução poética:
245
Quando chove à noite, é Ọ̀run que fala.
O ventre entende,
E o amor traduz.
O silêncio é o útero do som. Antes que qualquer palavra fosse pronunciada, Ọ̀run já vibrava em
ressonância. A criação nasceu de uma respiração — o ẹ̀mí de Olódùmarè expandindo-se para dentro
do vazio. A palavra, por isso, é filha do silêncio, e todo saber verdadeiro precisa voltar a ele para
reencontrar sua origem. Ìwòrì Òwònrìn nos ensina que a escuta é o primeiro gesto do conhecimento.
Não há sabedoria sem a capacidade de ouvir o que não se diz. O homem moderno aprendeu a falar
demais e ouvir de menos; perdeu a arte de perceber o invisível que se move sob o visível.
No código de Ifá, o silêncio não é ausência, é presença absoluta. É o espaço onde Ọ̀run fala em
frequências que o ouvido humano não capta, mas que o coração sente. O Ìtàn nos revela que há uma
linguagem sem som, uma gramática da energia, na qual cada elemento do mundo — pedra, folha,
vento, mar — é uma sílaba viva do discurso cósmico. Esse discurso é contínuo, mesmo quando o
homem não o percebe. Assim, o silêncio é a plenitude que sustenta o som, não seu oposto.
246
A hermenêutica Ìtànlógica compreende este verso como uma epistemologia do indizível. Quando
Òrìṣà dança, ele fala com o corpo; quando Ọ̀run chove, ele fala com a água; quando o vento sopra,
Ifá escreve suas sentenças sobre o rosto da terra. Aquele que deseja compreender deve desaprender
a pressa da linguagem linear. Deve reaprender a escutar como os antigos: com o corpo todo, com o
sangue, com o sopro. Pois Ifá não é lido — é sentido. A leitura é apenas o gesto externo de um
reconhecimento interno.
O silêncio, portanto, é o campo da revelação. Nele, tudo que existe encontra sua ressonância
original. A alma humana é uma corda que vibra na mesma frequência de Ọ̀run, mas a poluição do
pensamento rompe essa sintonia. O homem fala demais porque tem medo de ouvir; teme o vazio, e
tenta preenchê-lo com ruído. Mas Òrúnmìlà ensina que é preciso suportar o silêncio para que o
saber emerja. Toda iniciação, em qualquer tradição, começa com o recolhimento. O neófito é
colocado em silêncio porque a primeira escuta é interior: é ouvir o próprio òrí inú dialogando com o
invisível.
Ifá diz que “aquilo que não tem língua é o que ensina o coração”. Essa é a grande inversão da
epistemologia ocidental, que faz do discurso o lugar do saber. A Ìtànlógica propõe o contrário: o
saber nasce do que cala. O corpo, o vento, a noite, o sonho — todos são pedagogias do silêncio. A
sabedoria iorubá sempre soube que a palavra é apenas a flor; a raiz é o silêncio subterrâneo que a
alimenta. O homem que aprende a ouvir o silêncio torna-se um tradutor do invisível; o homem que
O silêncio é a vibração primordial que antecede a distinção entre som e eco, entre palavra e sentido.
No interior desse campo invisível, Ọ̀run e Àiyé trocam sinais, e cada sopro, cada pulsação da
matéria, traduz um fragmento da fala divina. Quando o Ìtàn afirma que “aquilo que não tem língua
ensina o coração”, ele convoca uma revolução ontológica: desloca o centro do conhecimento da fala
para a escuta, da mente para o peito, do raciocínio discursivo para a intuição respirada. A sabedoria
de Ifá nasce nesse ponto em que o saber deixa de ser uma construção racional e passa a ser uma
247
correspondência vibratória entre o humano e o cósmico. Assim, conhecer não é dizer o mundo, mas
A hermenêutica ocidental quis submeter o ser ao verbo, mas em Ifá o verbo é apenas o vestígio do
ser. Antes da palavra, há o sopro; antes do discurso, há o pulso. O silêncio não é inércia: é a
potência latente de toda criação. Ele é o estado de Orí antes de escolher, o instante em que
Olódùmarè pensa o mundo mas ainda não o pronuncia. Nesse intervalo sagrado, o universo inteiro
existe como possibilidade pura, e é o movimento da escuta que desperta essa possibilidade em
realidade. Ouvir é participar da gênese, porque é acolher o inaudível que deseja nascer.
Quando Òrúnmìlà ensina que “o coração escuta e o amor traduz”, revela que a consciência não se
forma apenas pelo pensamento, mas pelo afeto. O amor é a inteligência que percebe sem exigir
forma, e por isso é a via mais próxima do saber de Ifá. O silêncio é o espaço onde o amor e o
conhecimento se tornam uma só coisa, pois ali o intelecto renuncia ao domínio e o coração aprende
a decifrar o ritmo de Olódùmarè em todas as criaturas. Essa escuta não se dá pelos ouvidos, mas
pelo ẹ̀mí — o sopro vital que, ao vibrar em sintonia com Ọ̀run, reconhece o divino naquilo que
A Ìtànlógica lê este Odu como uma lição sobre o limite do discurso. Toda palavra é um sacrifício do
infinito. Para que algo seja dito, infinitas outras possibilidades precisam calar. O silêncio é,
portanto, o testemunho do que permanece por dizer. O sábio, quando cala, não se ausenta — ele
conserva o infinito intacto. Òrúnmìlà, em sua sabedoria, jamais pronunciou toda a verdade, pois
sabia que nomear é também reduzir. Seu método é a alusão, o enigma, o provérbio: cada um deles
aponta para algo que não pode ser dito, mas apenas intuído. A pedagogia de Ifá é uma pedagogia da
incompletude.
O que o Ìtàn revela é que o silêncio é também um espelho. Nele, o homem se confronta com o que é
e com o que teme ser. No ruído, é fácil esconder-se; no silêncio, não há fuga. A iniciação exige essa
248
travessia: o encontro com o próprio eco, com o som interno que denuncia o desequilíbrio entre o
dentro e o fora. A escuta de Ifá é cura porque restitui essa harmonia. Quando o peito se aquieta,
Ọ̀run fala. Quando a mente se cala, o corpo se torna oráculo. O iniciado, então, compreende que o
mundo inteiro é uma fala disfarçada: a árvore, o rio, a pedra, o fogo, cada um guarda uma sílaba do
mistério.
O silêncio é o oráculo mais antigo. Antes do primeiro búzio, antes do primeiro òpón Ifá, o que havia
era o vazio vibrante onde tudo ecoava. E é nesse vazio que o Bàbáláwo mergulha antes de lançar as
sementes de Ifá: ele busca o ponto de quietude onde sua alma e o Ọ̀run se confundem, onde não há
mais pergunta nem resposta, apenas a presença pura do saber. O Odu Ìwòrì Òwònrìn ensina que o
verdadeiro ò ̣pò ̣n está dentro do homem, e que sua superfície é o silêncio onde os signos da
O silêncio é o primeiro ato ético do ser. Nele, o homem renuncia ao impulso de dominar o mundo
pela palavra e aprende a coexistir com ele pela presença. A ontologia de Ifá se funda sobre essa
renúncia, porque o poder não é o que fala mais alto, mas o que sustenta o equilíbrio sem ruído. O
Bàbáláwo que fala antes de ouvir desonra o Ọ̀pón; o sábio que escuta em silêncio honra o
movimento da Criação. Ìwòrì Òwònrìn ensina que o caráter (ìwà) é uma forma de silêncio: ele
contém as palavras antes que elas saiam, pesa o gesto antes que ele se realize, respira antes de agir.
Essa respiração é o ponto de contato entre Ọ̀run e Àiyé. O homem ético é aquele que respira com o
universo.
A disciplina do silêncio em Ifá não é mutismo, mas atenção radical. Quando Òrúnmìlà cala, o
mundo se reorganiza; quando o homem cala em Ifá, o universo o escuta. O silêncio, nesse sentido, é
poder porque é centro. Quem se recolhe em si mesmo não é vencido pelas forças externas. A alma
que aprendeu a quietude pode caminhar entre tempestades sem se desfazer. O silêncio é a morada
do aṣẹ, o espaço onde o verbo adquire densidade antes de se tornar ação. O ruído, ao contrário,
dispersa o aṣẹ; ele fragmenta o sentido e faz o homem perder sua forma interior.
249
Por isso, Òrúnmìlà ensina que o silêncio é uma prece. Ele é a liturgia do invisível, a oferenda feita a
Olódùmarè sem folhas nem sangue, apenas com o consentimento do sopro. O silêncio é a palavra
em repouso, pronta para servir. Quando o homem silencia com intenção, ele não se apaga: ele se
alinha ao ritmo das divindades. O corpo que escuta é o mesmo que fala no tempo certo. A ética do
silêncio é, portanto, uma ética da medida. Em Ifá, tudo é ritmo; o desequilíbrio é sempre excesso. O
homem de ìwà pẹ̀lẹ́ é aquele que sabe quando não dizer, porque reconhece que há palavras que
A hermenêutica Ìtànlógica interpreta essa economia da palavra como uma forma de ecologia
espiritual. O mundo está doente porque o homem fala demais, consome demais, explica demais. O
excesso de discurso é o reflexo da fome ontológica. O silêncio, ao contrário, restitui o mundo à sua
origem. Ele é a pausa necessária entre o sacrifício e o milagre. O Bàbáláwo não é apenas o que
interpreta o som dos búzios, mas o que compreende o intervalo entre um lançamento e outro. Nesse
intervalo, o universo reorganiza suas linhas e a resposta se forma. A revelação não vem do barulho
do ikin tocando o tabuleiro, mas do instante em que tudo para e o coração se abre.
O silêncio é, também, o espelho do òrí. A cabeça interior fala em murmúrios que o homem distraído
não ouve. Aquele que silencia em Ifá não busca apagar os sons, mas distinguir entre o ruído do
mundo e a voz do próprio destino. Escutar o òrí é escutar Olódùmarè no íntimo. A divinação não é
outra coisa senão o silêncio do Bàbáláwo diante da fala do seu òrí, mediada pelos símbolos de Ifá.
Por isso, o silêncio é epistemologia: ele é o método pelo qual o invisível se torna inteligível.
No silêncio, o homem aprende o peso das palavras. Ele compreende que falar é lançar sementes, e
que cada verbo pode germinar em bênção ou maldição. Por isso, os antigos diziam que Òrúnmìlà só
fala quando o destino pede, e que cada sentença de Ifá é uma árvore que nasce do solo da quietude.
O homem moderno, cego em sua pressa, perdeu essa arte. Ele fala para preencher o vazio, mas o
vazio não se preenche: ele se escuta. A cura do tempo presente é a escuta profunda.
250
O silêncio é o ventre de onde a palavra emerge, o abismo onde o som se recolhe para nascer de
novo. Toda linguagem é uma travessia entre o silêncio e o som — entre Ọ̀run e Àiyé —, e é nesse
movimento de ida e volta que se constrói o tecido da existência. Quando Ifá diz que “no silêncio
habita o saber”, ele não fala de um silêncio exterior, mas do intervalo ontológico que liga o visível
ao invisível. Esse intervalo é o que os antigos chamavam de àárín, o entremeio sagrado onde o
destino se escreve e se reescreve. Aquele que aprende a habitar esse entremeio torna-se mediador: é
capaz de ouvir as palavras antes que se formem, e de perceber o gesto da criação antes que se
manifeste.
O Ìtàn ensina que Ọ̀run fala pela chuva, pelo vento, pelo fogo, pela respiração. Mas o homem, ao se
afastar da escuta cósmica, tornou-se surdo para essas vozes. O silêncio é, portanto, um caminho de
retorno. Ele devolve o ser à sintonia primordial. Aquele que medita em silêncio reencontra o som da
própria alma, que é a primeira vibração do universo. O ẹ̀mí — o sopro — é o elo entre o silêncio e o
verbo. Ele é o ritmo invisível que sustenta todas as formas. O Bàbáláwo, quando se prepara para a
divinação, silencia não apenas o corpo, mas o tempo. Ele entra no ritmo de Ọ̀run, e, nesse instante,
torna-se espelho da fala divina. É por isso que, em Ifá, a palavra profética nunca pertence ao
No coração do silêncio está a reciprocidade entre todos os seres. O que cala em um lado do mundo
ecoa no outro. O silêncio não é vazio, é rede. É a vibração comum que liga o mineral ao espírito, o
ancestral ao descendente, o vento ao coração. Quando Òrúnmìlà se cala, ele está tecendo essa rede,
religando o que o ruído separou. A hermenêutica Ìtànlógica compreende que o saber de Ifá não se
constrói sobre o acúmulo de palavras, mas sobre o refinamento da escuta. Escutar é discernir o
essencial. O verdadeiro iniciado fala pouco porque compreende muito; o ignorante fala muito
251
No plano cosmogônico, o silêncio é o estado anterior à separação dos opostos. É o instante em que
luz e sombra, som e eco, vida e morte ainda não se distinguiram. Nesse ponto, tudo é pura potência.
Ọ̀run e Àiyé não se opõem: respiram juntos. O som nasce quando o silêncio se dobra sobre si
mesmo. Assim, cada palavra pronunciada carrega o peso de sua origem silenciosa. Falar, portanto, é
sempre uma forma de lembrar o silêncio. Quem fala com sabedoria deixa espaço entre as palavras
para que o silêncio continue respirando. Esse espaço é o lugar da presença de Olódùmarè no
discurso.
O silêncio é também o fundamento da memória. Tudo o que já foi dito ressoa nele. As vozes dos
ancestrais continuam vibrando em sua profundidade, e é por isso que, quando o Bàbáláwo se
recolhe, ele escuta o coro do tempo. A tradição oral não é apenas transmissão de palavras, mas
reativação de silêncios ancestrais. Cada verso de Ifá é um eco que volta de Ọ̀run, uma lembrança do
momento em que o mundo ainda era verbo não pronunciado. O iniciado, ao recitar o Ìtàn, não fala:
Por fim, o silêncio é o destino da palavra. Tudo o que nasce da voz deve retornar à sua origem.
Quando o homem compreender isso, deixará de falar para convencer e passará a falar para revelar.
O discurso se tornará oferenda, a palavra se tornará ponte. Òrúnmìlà, o guardião da fala divina,
sempre soube disso: sua eloquência não está na abundância de palavras, mas na harmonia entre o
que é dito e o que é calado. Por isso, o Ìtàn conclui: “Ó homem, escuta o que não fala, pois é no
O silêncio é a morada do Ser. É ali que Ọ̀run se faz corpo e Àiyé se faz espírito. E é por isso que,
para os que seguem o caminho de Ifá, o aprendizado supremo não é falar a linguagem dos deuses,
mas ouvir a linguagem do mundo. O vento, a água, o fogo, a pedra, o sangue — todos falam. E
252
Ìtàn 4 – Ìwòrì Òwònrìn
Ẹni tí ńsùn ní ọ̀run, kò gbọ́ orin Àiyé (Aquele que dorme no céu não ouve o canto da Terra)
Nígbà náà ni ẹni náà jí, ó ní: “Mo gbọ́ orin Àiyé lẹ́ẹ̀kan sí i,
Tradução:
Òrúnmìlà disse:
253
Então o que dormia despertou e disse:
Òrúnmìlà respondeu:
Dormir no céu é esquecer o corpo, é perder o peso que ancora a alma ao chão da experiência. Este
Ìtàn é um espelho ontológico da travessia entre presença e ausência, entre o som do mundo e o
silêncio do além. “Aquele que dorme no céu não ouve o canto da Terra” não é apenas uma sentença
sobre a morte, mas sobre a distração espiritual. O ser humano, quando se eleva demais em abstração
ou orgulho, quando se desprende do ciclo vital e se refugia em ideais sem corpo, torna-se
semelhante ao que dorme no céu — perde a escuta do ritmo de Àiyé. O canto da Terra é o pulsar do
tempo, a cadência dos acontecimentos, a música invisível que sustenta a existência. Quem não a
No universo de Ifá, escutar é um ato cósmico. A audição não é apenas sensorial, é ontológica. Ouvir
é participar da Criação. O som não é ruído: é o modo como o Àṣẹ se propaga, como o verbo de
Olódùmarè se manifesta na vibração dos seres. “Aquele que dorme” é aquele que rompeu a
correspondência entre o sopro e o mundo; seu espírito não ressoa mais com a música da Criação.
Por isso, Òrúnmìlà ordena o àbọ̀ — a oferenda que reconcilia o ser com o ritmo, o ouvido com o
Esse verso expressa, em sua simplicidade, a doutrina profunda da coescuta entre Ọ̀run e Àiyé.
Quando Òrúnmìlà diz que “a canção que se ouve lá é a que se aprende aqui”, ele afirma a
continuidade entre mundos: o som do visível é apenas a sombra do inaudível. O homem que vive
escutando a Terra prepara seu espírito para compreender as melodias de Ọ̀run. Aquele que despreza
o som do mundo — o choro, o riso, o ruído das águas, a fala dos ventos — não saberá compreender
254
o silêncio do além. A pedagogia de Ifá é, portanto, uma pedagogia do ouvido: o aprendizado da
O Ìtàn propõe uma crítica sutil ao espiritualismo que se afasta do mundo. O céu não é refúgio; é
espelho. Dormir no céu é querer permanecer na transcendência sem retornar ao chão. Ifá, porém, é
tradição do retorno. Òrúnmìlà desce ao Àiyé para ensinar, para sofrer e para compreender o peso do
barro. A verdadeira sabedoria não se alcança fugindo do mundo, mas voltando a ele com os olhos
abertos. “Fazer àbọ̀” é o gesto de reconciliação entre espírito e matéria: o sacrifício não é uma
transação, mas um ato de lembrança — o reconhecimento de que tudo o que é elevado deve descer,
e tudo o que é baixo deve se erguer, para que o ritmo do cosmos continue a dançar.
A hermenêutica Ìtànlógica lê este verso como uma lição sobre a presença. O homem moderno, em
sua corrida, dorme no céu das ideias, das telas, das distrações que o afastam do corpo do mundo.
Ele já não ouve o canto da Terra — o som das folhas, das águas, dos ancestrais. O canto de Àiyé é o
chamado à encarnação. É a lembrança de que o saber não se faz apenas no intelecto, mas na pele, no
suor, no trabalho, no gesto e na dor. Ifá é a sabedoria encarnada: o conhecimento que pulsa e
Escutar o canto da Terra é reconhecer o corpo como templo da revelação. O Ìtàn mostra que aquele
que dorme no céu se separou do corpo, e, por isso, não pode mais ouvir. Em Ifá, o corpo (àrà) não é
prisão da alma, mas instrumento do saber. Ele é o tambor onde o som de Ọ̀run se faz carne. O
ouvido, o toque, o olfato, o gosto, a visão — todos são modos pelos quais Olódùmarè continua a
falar com o homem. Aquele que deseja ser sábio não deve desprezar o corpo, mas purificá-lo até
que ele se torne capaz de ressoar com o sagrado. Por isso, Òrúnmìlà desperta o que dorme: não para
trazê-lo de volta ao mundo físico, mas para reconduzi-lo ao corpo como campo de revelação.
A escuta em Ifá é uma disciplina. Não basta ouvir o som; é preciso decifrar o silêncio entre os sons.
O mundo inteiro fala em códigos rítmicos. O canto dos pássaros, o murmúrio do vento, o ribombar
255
do trovão, todos são fragmentos do mesmo idioma cósmico. Òrúnmìlà, mestre da escuta, é aquele
que traduziu o indizível. Ele percebeu que o saber não se alcança por observação, mas por sintonia.
O àbọ̀ que ele ordena é o ritual que reconecta a alma à frequência da Criação. Despertar é
Na dimensão antropológica deste Ìtàn, há uma advertência profunda: o homem contemporâneo está
exilado da Terra. Ele habita um céu artificial, feito de abstrações e ruídos. O canto de Àiyé se tornou
substituíram o ritmo do tambor, o pulso do coração, o ciclo das estações. Dormir no céu é viver
desconectado do chão, é perder o vínculo com o ilé — a casa sagrada do corpo e da Terra. Por isso,
Òrúnmìlà, ao ordenar o sacrifício, não oferece apenas oferendas aos deuses, mas oferece o homem à
O Ìtàn, nesse sentido, também descreve o drama da iniciação. Antes do despertar, o iniciado dorme:
seu espírito se encontra suspenso entre mundos, sem ainda compreender a linguagem do tambor que
o chama. O sacrifício é o rito de passagem entre o sono e a vigília, entre a surdez e a escuta. Quando
Òrúnmìlà diz “façamos àbọ̀ para que ele volte a estar entre os que ouvem”, ele está instituindo o
princípio da escuta como fundamento da comunidade. Aquele que não ouve não pode viver em
A hermenêutica Ìtànlógica entende que o àbọ̀ aqui simboliza o ato de dar forma à atenção. Sacrificar
é concentrar. O homem disperso não escuta, porque seu pensamento está fragmentado. Quando o
Bàbáláwo se prepara para lançar os ikin, ele primeiro recolhe o corpo, silencia a mente e alinha a
respiração. Esse recolhimento é o mesmo movimento que Òrúnmìlà realiza sobre aquele que dorme:
reunir o que está disperso, reunir o homem em si mesmo, até que ele volte a vibrar no tom da Terra.
Escutar, em Ifá, é integrar. Aquele que ouve o canto da Terra descobre o próprio ritmo interior — e,
256
Há uma beleza trágica no momento em que o dorminte desperta e diz: “Ouvi o canto da Terra mais
uma vez; soava como lamento, mas também como esperança.” O lamento é o som do tempo — a
consciência da perda, da mortalidade, da distância entre Ọ̀run e Àiyé. Mas a esperança é o eco do
infinito dentro do finito. O canto da Terra é ambíguo porque a existência é ambígua. A vida é o
intervalo entre a dor e o júbilo. Só quem escuta ambos conhece o segredo do equilíbrio. Em Ifá,
alegria e sofrimento não são opostos, são notas de uma mesma música. O sábio não busca eliminar
O canto da Terra é o primeiro gesto de Olódùmarè. Ele é a vibração primordial que separa o nada da
forma, o silêncio do som, o invisível do visível. Antes que houvesse matéria, havia ritmo. O
universo não foi criado por uma palavra, mas por um canto. Ọ̀run cantou, e Àiyé surgiu. Essa é a
lógica profunda do Ìtàn: o som é a substância do ser, e o ser é som coagulado. Cada coisa é uma
nota, cada ser é um timbre. O homem, ao nascer, entra em um compasso já em andamento. Sua vida
é a tentativa de aprender a música que o precede. Aqueles que não a escutam, dormem no céu —
Òrúnmìlà é o guardião desse ritmo. Ele conhece o segredo do intervalo que liga o som de Ọ̀run ao
eco de Àiyé. Sua sabedoria não está em possuir as palavras, mas em perceber o espaço entre elas. O
àbọ̀ que ele ordena é um ato musical: é a tentativa de reintroduzir o dorminte no ritmo cósmico. A
oferenda é o compasso que restabelece a harmonia entre mundos. Sacrificar é afinar-se com o canto
da Criação. Por isso, o Ìtàn não fala apenas da morte e do despertar, mas da arte de viver em ritmo
com o Todo. O homem que se afina com a Terra participa do cântico dos deuses; o que se afasta,
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece, aqui, a essência musical da ontologia de Ifá. Tudo que existe
é som em diferentes densidades. A pedra é som adormecido, o vento é som em êxtase, o homem é
som consciente. Quando Òrúnmìlà fala, sua voz não é apenas palavra — é vibração que reorganiza
o mundo. O Bàbáláwo, ao recitar o Odu, não apenas comunica: ele toca o universo. A palavra
257
sagrada é canto performativo, não descrição. O que se diz torna-se. O que se canta reencanta. Por
perdeu o ouvido para o divino. Ele tenta compreender o mundo com o olhar e com o intelecto, mas
esquece que a verdade se escuta. O conhecimento racional é linear; o saber de Ifá é rítmico. O
primeiro acumula dados, o segundo reconhece padrões. O Ocidente pergunta “o que é?”, enquanto
Ifá pergunta “como soa?”. Porque o ser se revela mais pelo som que pela forma. O canto da Terra é,
portanto, a gramática profunda da Criação: cada movimento, cada mudança, cada nascimento é uma
O despertar do dorminte é o momento em que o espírito recupera sua afinação com a totalidade. Ele
volta a ouvir a canção do mundo — e ao ouvi-la, lembra-se de quem é. O canto de Àiyé é memória
e profecia ao mesmo tempo: ele traz o eco do que foi e o prenúncio do que será. Escutá-lo é
reconhecer-se dentro de uma linhagem cósmica. É saber que viver é participar de um ritmo que
nunca começou e nunca terminará. Ọ̀run e Àiyé, diz Òrúnmìlà, não se enxergam, mas se escutam. O
universo é uma grande escuta mútua: cada plano ouve o outro e responde com uma nota
Nesse ponto, o Ìtàn atinge sua dimensão ética. Escutar o canto da Terra é também agir em
conformidade com ele. O silêncio do céu e o ruído do mundo se encontram no gesto humano.
Quando o homem age em descompasso, cria dissonância; quando age em sintonia, restaura a
harmonia perdida. O àbọ̀, nesse sentido, é mais que ritual — é gesto pedagógico. Ele ensina o
homem a dançar novamente com a Criação. Por isso, Òrúnmìlà é chamado o Músico dos Destinos:
258
O canto da Terra é o corpo sonoro do mistério. Ele não pertence a ninguém, mas tudo o que vive
pertence a ele. Ouvir esse canto é recordar o momento primordial em que o sopro de Olódùmarè
animou a poeira e fez dela criatura. É ouvir o instante anterior ao tempo, quando a vibração pura se
converteu em matéria. Esse som original não cessa; ele continua atravessando os séculos e as almas,
sustentando o movimento dos astros, a germinação das plantas, o compasso das marés. É o mesmo
som que Òrúnmìlà escutou quando foi chamado a descer ao Àiyé, o mesmo que guia o Bàbáláwo
quando lança os ikin. O homem que o ouve desperta; o que o esquece dorme no céu e se perde em
sonhos de imortalidade.
A hermenêutica Ìtànlógica vê no despertar do dorminte não apenas um retorno ao mundo, mas uma
reintegração à tessitura do ser. Ao ouvir o canto da Terra, ele descobre que a sabedoria não é fugir
da dor, mas aprender a entoá-la. A voz que lamenta e a voz que espera são a mesma, porque ambas
intervalo entre um nascimento e outro. Por isso Òrúnmìlà afirma que a canção que se ouve em Ọ̀run
melodia do retorno.
O som é a assinatura do destino. Cada òrí possui uma vibração singular, uma nota dentro da sinfonia
universal. O trabalho espiritual consiste em escutar essa nota e afiná-la com o coro do mundo.
Quando o homem se alinha ao seu òrí, ele se torna melodia consciente: seus atos, suas palavras e
seus silêncios passam a ressoar com o compasso de Olódùmarè. Por isso o silêncio é tão essencial
— ele é o afinador do ser. O Bàbáláwo silencia para que o eco do próprio òrí lhe revele o caminho.
Toda divinação é uma audição guiada: ouvir o que o destino sussurra através dos signos.
O Ìtàn ensina, ainda, que há uma pedagogia do ouvido no caminho da iniciação. O neófito aprende
primeiro a escutar antes de aprender a falar. Ele é exposto ao som dos tambores, ao cântico dos
versos, ao murmúrio dos búzios, e pouco a pouco seu corpo começa a reconhecer que a sabedoria é
uma vibração. Quando ele repete os versos, não está apenas memorizando: está se afinando à
259
frequência de Ifá. A repetição é um modo de incorporar o som. O iniciado que compreende isso
deixa de buscar o saber fora e passa a percebê-lo dentro — como um eco. O corpo torna-se um òpón
Escutar o canto da Terra é também escutar os ancestrais. Cada grão de poeira, cada sopro de vento,
cada estrela é uma voz antiga que continua dizendo Mo wà — “eu existo”. A ancestralidade é a
grande orquestra onde as vidas se interpenetram. Quando Òrúnmìlà desperta o dorminte, ele o
reinsere nessa rede de ressonâncias. Aquele que ouve não está mais sozinho; sua escuta o liga a
todos os que já cantaram, dançaram e morreram. Essa comunhão sonora é o verdadeiro ẹ̀gbé, a
No plano cosmológico, esse Ìtàn expressa o segredo da reciprocidade entre Ọ̀run e Àiyé. O céu é o
ouvido do mundo, e a Terra é sua boca. Tudo o que a Terra canta, o céu recolhe; tudo o que o céu
pensa, a Terra pronuncia. A harmonia cósmica depende dessa escuta mútua. Quando um se cala, o
outro adoece. Por isso Òrúnmìlà intervém: para restaurar o diálogo interrompido. O àbọ̀ é, em
última instância, a restauração da conversação divina. Cada sacrifício é uma palavra oferecida, e
Aqueles que dormem no céu — os que se isolam do corpo, da Terra e do ritmo — acreditam viver
na pureza, mas na verdade vivem na esterilidade. O saber que não canta não cria. A mente que não
vibra não conhece. O silêncio do céu só é fecundo quando dialoga com o som da Terra. É nesse
diálogo que o mundo se mantém. Por isso Òrúnmìlà não desperta o dorminte para que ele renuncie
ao céu, mas para que ele volte a cantar. O despertar é o retorno à voz.
A hermenêutica Ìtànlógica vê, assim, neste Ìtàn, uma síntese da ontologia sonora de Ifá: o ser é
vibração; o conhecimento, escuta; o destino, melodia; e a morte, pausa. Nada termina, apenas muda
de tom. O homem sábio é aquele que aprende a ouvir a pausa com o mesmo respeito com que ouve
o som. Ele compreende que o silêncio e o canto são dois nomes de um mesmo princípio. No
260
silêncio de Ọ̀run, o canto da Terra se prepara; no canto da Terra, o silêncio de Ọ̀run encontra
Quando o dorminte diz que ouviu o canto da Terra mais uma vez, ele confessa o maior segredo do
saber: que a verdade não está nas alturas, mas no chão. O canto da Terra é a voz de Olódùmarè
ensinando o homem a viver. Escutá-lo é aceitar o destino; cantá-lo é cumpri-lo. E assim termina o
Ìtàn — não com um ponto, mas com um acorde. O universo continua a cantar, e Òrúnmìlà, de olhos
261
7. Ìwòrì Òbàrà
Tradução:
262
E disseram: “O coração que não conhece o caráter jamais conhecerá a verdade.”
E todos os seres responderam: “Aprendamos o caráter, para que possamos conhecer a verdade.”
Pois a verdade é o sopro de Olódùmarè.
O coração que conhece o caráter é o coração que voltou a pulsar no ritmo de Ifá. Este Ìtàn fala da
gênese moral do cosmos, mas também da estrutura metafísica que sustenta toda existência: a
unidade entre ìwà e òtítọ́, entre a forma da alma e a luz da verdade. Em Ifá, a verdade não é uma
ideia, mas uma vibração que só se torna audível no corpo ético. O coração que ignora o caráter é
cego, e o saber que não se ancora no ìwà é ruína. Òrúnmìlà, ao declarar que “ìwà ni àṣẹ”, traduz o
mais profundo mistério de Olódùmarè: o poder não está no domínio, mas na coerência do ser.
Na teogonia de Ifá, Ìwà não é apenas virtude: é entidade, princípio e presença. Ìwà é a consorte de
Òrúnmìlà, símbolo da conduta equilibrada, da harmonia entre o espírito e o tempo. Quando
Òrúnmìlà perde Ìwà, perde também sua serenidade, e o universo mergulha em desordem. Essa
narrativa revela que o caráter é o eixo do cosmos, o centro invisível que mantém a ordem entre
Ọ̀run e Àiyé. Assim, quando o Ìtàn afirma “o coração que conhece o caráter conhece a verdade”, ele
propõe uma cosmologia ética: o universo é sustentado não pela força, mas pela retidão. A verdade é
a luz que emana do caráter.
A hermenêutica Ìtànlógica vê nesse Ìtàn uma denúncia do saber desvinculado da virtude. O intelecto
sem ìwà é como o fogo sem contenção — consome o que deveria iluminar. A sabedoria de Ifá é
inseparável da ética. Não há conhecimento verdadeiro que não seja também uma forma de bondade.
Òrúnmìlà é o modelo dessa unidade: seu saber não se exprime em fórmulas, mas em exemplos de
conduta. Sua palavra é ação justa, sua ciência é compaixão ativa. Por isso ele diz: “Ìwà ni ìmọ̀” — o
caráter é o conhecimento. O homem pode aprender mil coisas, mas se não aprender a ser, nada
aprendeu.
O Ìtàn insinua que o coração é o primeiro altar do mundo. É ali que o àṣẹ repousa antes de agir. Se o
coração é puro, o àṣẹ se expande; se é corrompido, o àṣẹ se dispersa. Por isso Òrúnmìlà ensina que
o poder e a sabedoria dependem da integridade do coração. No plano antropológico, essa verdade se
traduz como uma pedagogia da interioridade: antes de falar, purifica; antes de agir, pondera; antes
de querer, compreende. O coração é o espelho de Ọ̀run dentro do homem, e conhecer o caráter é
olhar para esse espelho sem se iludir.
263
O mundo, entretanto, esqueceu o coração. A civilização do intelecto deslocou a morada da verdade
da alma para a mente. Passamos a confundir sagacidade com sabedoria, esperteza com inteligência,
cálculo com visão. O Ìtàn devolve o saber ao coração. Nele, aprender é tornar-se verdadeiro. A
verdade não é o que se diz, mas o que se é. Ìwà é o modo como a presença se manifesta. Quando o
homem vive em ìwà pẹ̀lẹ́ — caráter suave, equilibrado e justo —, sua própria vida se torna um
verso de Ifá. Ele encarna a harmonia entre o ser e o agir, entre o mundo visível e o invisível.
Por isso Òrúnmìlà adverte: “Nenhum ser pode exercer àṣẹ sem caráter.” Não há poder legítimo fora
da ética. O àṣẹ sem ìwà é veneno, o verbo sem verdade é feitiço de destruição. Essa é a lição
ontológica do Ìtàn: o poder só é divino quando é reflexo do equilíbrio. A hermenêutica Ìtànlógica
reconhece aqui uma das chaves da filosofia yorubana: o universo é sustentado por uma estética
moral. A beleza (ẹ̀wà) é o brilho do caráter; o caráter é a estrutura da beleza. O feio, em Ifá, é o
desequilíbrio — a dissonância entre o interior e o exterior. Por isso Òrúnmìlà declara: “Ìwà ni ẹ̀wà.”
O ser é belo quando é verdadeiro.
O universo respira em ìwà. Cada movimento, cada sopro, cada gesto que existe no mundo visível
nasce de uma disciplina invisível: o equilíbrio das intenções. Quando Òrúnmìlà ensina que “ìwà ni
àṣẹ”, ele não recita um provérbio moral, mas enuncia uma lei ontológica. O caráter é a substância
que sustenta a potência criadora. O àṣẹ não é força cega: é a emanação da consciência equilibrada.
O poder sem ìwà é como o trovão sem nuvem — ruído que não fecunda, energia que se dissipa. A
palavra do homem sem caráter é vento que fere, não vento que semeia. Assim, o Ìtàn afirma que
toda criação é, em essência, ética: o cosmos é o reflexo da retidão de Olódùmarè.
No interior dessa visão, òtítọ́ — a verdade — não é uma proposição, mas um estado de
correspondência. A verdade é o que acontece quando o coração vibra no mesmo tom que a Criação.
Conhecer a verdade não é descrevê-la, é encarná-la. Por isso o Ìtàn diz: “Quando o coração conhece
o caráter, a verdade se revela.” O coração é o espelho da ordem cósmica; o caráter é o modo como
esse espelho se mantém límpido. Onde o espelho está turvo, a verdade se distorce. A ética, portanto,
é o exercício de polir o espelho do coração para que o reflexo de Ọ̀run se manifeste sem ruído. A
teologia de Ifá é também uma cardiologia metafísica: tudo começa e termina no coração.
264
Ìwà é, ao mesmo tempo, disciplina e arte. Não é um código de conduta imposto de fora, mas a
expressão orgânica da harmonia interior. O homem de ìwà pẹ̀lẹ́ não obedece, sintoniza. Ele não
segue regras, ele dança no compasso do cosmos. Sua conduta é música; sua ética, coreografia da
presença. O desequilíbrio, ao contrário, é o descompasso, o corpo que perde o ritmo da Criação e
tenta impor seu próprio tempo. Por isso, em Ifá, a virtude é musical: ela consiste em ouvir o ritmo
secreto de Ọ̀run e traduzir esse ritmo em gestos, palavras e silêncios. O homem ético é aquele que
ouve a melodia de Olódùmarè e a transforma em vida.
O Ìtàn mostra que o saber sem caráter é conhecimento sem raiz. A inteligência que não se curva à
retidão é árvore que cresce sem tronco. Òrúnmìlà adverte: “Bí ẹ̀dá bá ní ọgbọ́n, tí kò ní ìwà, ọgbọ́n
náà á bàjẹ́.” — A sabedoria sem caráter apodrece. O apodrecimento, aqui, não é punição, é
consequência. Tudo o que se descola do princípio de harmonia degenera por falta de
correspondência. O saber é como o som: se não houver ressonância, ele se desfaz. Assim, a
corrupção moral é uma forma de surdez ontológica — o ser deixa de escutar o compasso de Ifá e
passa a ecoar apenas a si mesmo. O orgulho é o sono do coração.
No nível cosmológico, o Ìtàn inscreve o ìwà como a medida universal. É por meio dele que Ọ̀run e
Àiyé se mantêm alinhados. Quando o caráter coletivo de uma comunidade se deteriora, o mundo
espiritual se perturba. A chuva recusa cair, os frutos se tornam amargos, os rios perdem o rumo. O
desequilíbrio moral repercute no equilíbrio cósmico. A retidão não é apenas virtude pessoal, é
tecnologia da existência. O Bàbáláwo, ao restaurar o ìwà de um indivíduo, colabora com a
restauração do universo. Cada ato ético é um micro-sacrifício que alimenta a harmonia do Todo.
A hermenêutica Ìtànlógica revela, então, que a ética de Ifá é inseparável da estética do cosmos. “Ìwà
ni ẹ̀wà” — o caráter é beleza — não é metáfora, é física sagrada. O mundo é belo quando o homem
vive em equilíbrio. O nascer do sol, a cor das flores, a curva dos rios, tudo reflete o estado moral da
Criação. A feiura é apenas o desequilíbrio tornado visível. A beleza é a manifestação sensível da
justiça divina. Quando o homem vive em ìwà, ele devolve cor e som ao mundo. Quando se desvia,
tudo empalidece. Assim, o caminho da beleza é o caminho do caráter, e o caminho do caráter é o
caminho da verdade.
O Ìtàn, portanto, não fala apenas de moralidade, mas de ontologia. Ele descreve o modo como o ser
se sustenta no equilíbrio e se desfaz na dissonância. O coração é o instrumento e o caráter é o
265
afinador. A verdade é o som que emerge quando ambos vibram juntos. Òrúnmìlà, ao transmitir essa
sabedoria, oferece ao homem a mais alta forma de liberdade: a liberdade de ser verdadeiro. Ser livre
é estar em correspondência com o real. A mentira, o engano e a hipocrisia não aprisionam por
castigo, mas por descompasso. Só o coração que conhece o caráter é capaz de repousar em paz,
porque só ele vibra no mesmo pulso de Olódùmarè.
Ìwà é o sangue invisível do universo, a corrente que sustenta o ritmo da Criação e a respiração
secreta do próprio Olódùmarè. Quando Òrúnmìlà proclama que “Ìwà ni àṣẹ”, ele não afirma uma
relação causal entre moral e poder, mas revela que ambos são a mesma substância em diferentes
estados de vibração. O caráter é o poder em repouso; o poder é o caráter em movimento. No
instante em que o homem se desvia de Ìwà, ele perde o eixo do Àṣẹ e começa a criar mundos
frágeis, realidades que se desfazem porque não têm alicerce na verdade. A ética, aqui, não é norma,
mas estrutura do ser. O cosmos não é mantido por leis escritas, mas pelo compasso moral de cada
existência que o habita.
O coração é o primeiro altar de Ifá, e é ali que o caráter se instala como guardião. Ìwà é a forma que
o coração dá à energia. Sem ele, o Àṣẹ se converte em caos. Òrúnmìlà, o senhor do equilíbrio,
compreendeu que o poder divino só se manifesta por inteiro quando o coração está limpo, quando
não há fissura entre intenção e gesto. A palavra, nesse contexto, é uma extensão do coração. Cada
frase é um instrumento de Àṣẹ que, se emitido sem pureza, gera distorção. Por isso, o silêncio em
Ifá não é ausência de fala, mas tempo de alinhamento — o intervalo em que o coração e o caráter se
reencontram antes que a palavra se torne som. O silêncio é o batimento do universo.
A verdade, Òtítọ́, é o nome que Ifá dá a esse estado de transparência em que tudo vibra conforme
sua natureza. O homem de Ìwà pẹ̀lẹ́ não precisa provar que diz a verdade; sua presença a manifesta.
A mentira é uma dissonância vibratória, uma quebra de correspondência entre o interior e o exterior.
Por isso, em Ifá, a verdade não se impõe: ela se revela. O Ìtàn ensina que “quando o coração
conhece o caráter, a verdade se revela” — ou seja, quando há harmonia entre o sentir e o agir, o real
se mostra. A mentira é fruto da cisão, da mente que pensa uma coisa e do corpo que faz outra. A
verdade, ao contrário, é a música que surge quando todas as partes do ser tocam o mesmo tom.
A hermenêutica Ìtànlógica entende que o homem de caráter é aquele que redescobriu o ritmo do
universo dentro de si. Ele não precisa de autoridade externa porque o próprio cosmos pulsa em seu
266
peito. Ìwà é o modo humano de participar da ordem divina. Assim como o sol nasce porque não
pode deixar de nascer, o homem justo age bem porque não pode agir de outro modo. Sua virtude
não é escolha, é natureza. A moral, então, deixa de ser uma imposição e se torna respiração. O
homem de Ìwà respira retidão como o fogo respira ar. Essa naturalidade é o sinal da santidade em
Ifá: não o ascetismo do corpo, mas a serenidade do gesto.
No plano teogônico, Òrúnmìlà é a consciência que organiza o caos primordial de Olódùmarè. Mas
essa organização não é força, é suavidade. É Ìwà pẹ̀lẹ́. O equilíbrio do mundo depende dessa
delicadeza. O cosmos não se mantém porque é forte, mas porque é justo. A justiça em Ifá não é
vingança nem cálculo: é harmonia restaurada. Cada ato de Ìwà corrige uma dissonância entre Ọ̀run
e Àiyé. Por isso, o Bàbáláwo não é juiz, mas afinador. Sua tarefa não é punir, é reajustar o tom do
ser. Ele cura o mundo devolvendo-o ao seu ritmo original. O homem que aprende a viver em Ìwà
torna-se extensão desse ofício: sua vida é um cântico silencioso de reparação.
O Ìtàn também revela uma dialética entre Ìwà e Òtítọ́ como espelhos do tempo e da eternidade. Ìwà
pertence ao tempo — é o modo como a verdade se expressa no movimento —, enquanto Òtítọ́
pertence à eternidade, ao que é imutável em Olódùmarè. Quando o coração conhece o caráter, ele
faz ponte entre o temporal e o eterno. A ética é o caminho de acesso à eternidade dentro do tempo.
Por isso Òrúnmìlà ensina que o homem não deve buscar a verdade fora de si, mas deve purificar o
coração até que ele se torne transparente o bastante para que a eternidade o atravesse. O homem
puro é aquele em quem o tempo e a eternidade respiram juntos.
A hermenêutica Ìtànlógica lê, assim, o Ìwà como forma encarnada da verdade e a verdade como
respiração invisível do caráter. Ambas são faces de uma mesma substância luminosa que Olódùmarè
insufla na Criação. Quando uma se perde, a outra se apaga. O declínio da humanidade é sempre o
esquecimento do caráter; a redenção é sempre sua lembrança. Por isso, quando os seres dizem no
Ìtàn: “Aprendamos o caráter, para que possamos conhecer a verdade”, eles não fazem um voto
moral, mas um rito ontológico — o juramento de continuar existindo. Sem Ìwà, o mundo desaba, e
a linguagem se torna ruído.
O caráter é a arquitetura invisível do mundo. Tudo o que se mantém o faz por fidelidade a uma
forma interior, e essa forma é Ìwà. O universo só permanece em pé porque Olódùmarè não se
contradiz. O cosmos é coerência tornada matéria. Cada Òrìṣà, cada rio, cada estrela é expressão
267
dessa coerência. Quando o Ìtàn declara que “a verdade é o sopro de Olódùmarè”, ele descreve o
momento em que a coerência divina se transforma em respiração. Òtítọ́ é o hálito de Olódùmarè
sustentando o ritmo da Criação; Ìwà é o modo como esse hálito se faz forma nos seres. A verdade é
o invisível que anima; o caráter é o visível que encarna. Juntos, eles formam o circuito vital entre
Ọ̀run e Àiyé.
O homem foi criado para ser o guardião desse circuito. Sua tarefa não é inventar o bem, mas
preservá-lo. Viver em Ìwà é manter o mundo respirando. A injustiça, o engano, o egoísmo são falhas
nessa respiração: são pontos onde o fluxo do Àṣẹ se rompe. O sofrimento, então, é apenas o sintoma
de uma respiração interrompida. Òrúnmìlà, como médico das almas e afinador dos ritmos, restaura
o pulso cósmico devolvendo o homem ao compasso do caráter. Quando o coração se alinha
novamente, o Àṣẹ volta a circular, a vida se reorganiza e o mundo recupera seu brilho. Essa é a cura
de Ifá: não a eliminação da dor, mas o reencontro com a verdade que dá sentido a toda dor.
No plano epistemológico, esse Ìtàn propõe uma revolução silenciosa: o conhecimento verdadeiro
não é o acúmulo de informações, mas a purificação da escuta. A sabedoria não se mede pelo que o
homem sabe, mas pela pureza de sua intenção. O caráter é a lente do saber: o olhar impuro deforma
o real. Por isso Òrúnmìlà ensina que o saber sem Ìwà é ruído e que o silêncio do justo é mais
eloquente que o discurso do perverso. A verdade não se aprende: ela se revela quando o coração
cessa de mentir para si mesmo. Todo aprendizado é, no fundo, um desvelar — o instante em que o
homem deixa de projetar e começa a ver.
No plano estético, o Ìtàn ensina que a beleza não é ornamento, mas consequência da verdade. O
belo é o reflexo sensível do justo. Quando uma árvore cresce reta, quando uma voz canta em
afinação, quando uma palavra nasce sincera, há beleza porque há Ìwà. O mundo é belo na medida
268
em que é verdadeiro, e é verdadeiro na medida em que vibra em caráter. A feiura é o colapso dessa
harmonia — o desvio do ser em relação à sua essência. Por isso Òrúnmìlà afirma que o caráter é a
beleza: é a forma moral da luz. Quando o homem vive em retidão, até sua sombra é luminosa.
O Ìtàn culmina numa visão cósmica do bem: a ética não é atributo humano, mas lei universal. A
gravidade, o crescimento das plantas, o fluxo das águas, tudo obedece ao princípio de Ìwà. O
cosmos inteiro é uma pedagogia moral. Cada coisa ensina ao homem o que ele esqueceu. O rio
ensina a constância, o fogo ensina a transformação, a árvore ensina a paciência. Òrúnmìlà,
intérprete dessas lições, compreendeu que a sabedoria não se separa da conduta porque o universo
inteiro é conduta de Olódùmarè. A Criação é o comportamento de Deus. O homem, quando vive em
Ìwà, participa desse comportamento e se torna coautor do mundo.
Por isso, no final do Ìtàn, todos os seres dizem: “Aprendamos o caráter, para que possamos
conhecer a verdade.” Não se trata de moralismo, mas de lembrança. Aprender o caráter é recordar o
ritmo original da Criação. É reencontrar o compasso que faz o universo girar. Conhecer a verdade é
dançar com esse compasso, é ouvir no próprio coração o pulso de Olódùmarè. Quando o coração
conhece o caráter, o mundo inteiro canta. O saber se faz canto, o canto se faz luz, e a luz retorna ao
seu princípio. Assim se cumpre a palavra de Òrúnmìlà: “Ìwà ni ìmọ̀, ìwà ni àṣẹ, ìwà ni ẹ̀wà.” O
caráter é o saber, o caráter é o poder, o caráter é a beleza — e em seu brilho silencioso, a verdade se
faz carne.
Tradução:
Tudo começa onde o paladar toca o invisível. O sabor, em sua natureza mais sutil, é a memória do
princípio, é a primeira experiência do ser antes mesmo de haver linguagem. Quando Òrúnmìlà
observa a mulher que come à beira do rio e não sabe que é a água que lhe dá o sabor, ele contempla
o drama ontológico de toda criatura que se alimenta do mundo sem perceber que o mundo é, em si
mesmo, o seu alimento. Comer é sempre um gesto de comunhão com o invisível. No ato de comer,
o ser aceita ser nutrido por aquilo que não controla, e é precisamente nesse abandono àquilo que o
excede que se revela o segredo da dependência cósmica. O verso diz: Àgbọ̀nrin tí ń jẹun lọ́dọ̀ ẹja,
kò mọ̀ pé omi ló ń mú un dùn — a mulher come, mas não sabe que é a água que lhe dá o sabor. A
ignorância da mulher é o símbolo da inconsciência metafísica do homem moderno, que vive do Àṣẹ
e ignora o Àṣẹ; que se banha na fonte e crê que o sabor vem apenas do peixe, do visível, do
tangível. Ifá ensina que nada do que é saboroso vem de fora: tudo o que tem sabor foi primeiro
tocado pela água do espírito. A água é a substância mediadora entre Ọ̀run e Àiyé, o corpo fluido do
invisível que liga os mundos, o ventre líquido onde o verbo se dissolve para renascer em palavra
viva.
Quando Òrúnmìlà é convocado a oferecer o sacrifício para que não perca a sua própria fonte, ele
não está apenas fazendo um rito: está sendo lembrado de que até o sábio corre o risco de esquecer a
origem do sabor. A oferenda é a pedagogia do retorno. O sacrifício não é uma troca, mas uma
271
reorientação do fluxo. É a arte de devolver ao rio o que é do rio, para que o rio continue a correr.
Òrúnmìlà oferece azeite vermelho, dois peixes, seis espigas novas de milho e duas bananas
maduras: cada elemento desse sacrifício é uma chave do equilíbrio cósmico. O azeite vermelho é o
sangue vegetal do Àṣẹ, a memória ardente da vitalidade. Os dois peixes são o princípio da dualidade
reconciliada, imagem das águas superiores e inferiores, do Ọ̀run e do Àiyé, do visível e do invisível.
As seis espigas de milho representam a multiplicação da vida e a lei da abundância: o número seis,
em Ifá, é o número do equilíbrio das potências em movimento, do encontro entre os quatro cantos
da terra e os dois eixos do cosmos. As duas bananas maduras trazem o princípio do prazer
reconciliado — a doçura que não se opõe ao espírito, o sabor que retorna ao seu princípio sem
culpa.
Òrúnmìlà não oferece para receber; ele oferece para lembrar. E ao lembrar, o mundo floresce de
novo. Por isso, depois que o sacrifício é feito, o céu se abre, a chuva cai, a terra brilha — e tudo o
que existe entre Àiyé e Ọ̀run floresce em esperança. O rito é a metafísica em ato. É a ontologia do
retorno. A água da chuva é o sinal de que a comunicação foi restabelecida: a vertical do espírito toca
a horizontal do mundo. É por isso que o Ìtàn conclui: aquele que come à beira do rio jamais se
esqueça — é a água que lhe dá o sabor. Esse lembrete é a síntese da consciência Ìtànlógica: o ser só
se sustenta enquanto reconhece que não é origem de si mesmo.
Se o peixe representa o conhecimento encarnado, a água representa o saber invisível que o sustenta.
O peixe vive na água, mas não vê a água; ele a sente, mas não a conhece enquanto outra coisa senão
o seu meio. Assim é o homem dentro de Ifá: ele respira o Àṣẹ, mas raramente o reconhece como
aquilo que o sustenta. O Ìtàn mostra que a sabedoria não é o saber do que se come, mas o saber do
que dá sabor ao que se come. Por isso, Òrúnmìlà, o sábio das duas margens, é aquele que aprendeu
a ouvir o som da água dentro do peixe, o eco do invisível dentro do visível.
O ato de comer à beira do rio é também o símbolo da fronteira entre o humano e o divino. A beira é
o lugar de mediação, o espaço entre dois mundos, onde o gesto cotidiano se torna rito. Comer ali é
já participar de uma liturgia cósmica, ainda que inconscientemente. É o mesmo gesto que o Òrìṣà
repete quando toma o sopro do mundo: ele se alimenta daquilo que vem de baixo para que o de
cima continue a brilhar. Comer à beira do rio é, portanto, uma metáfora da experiência espiritual —
viver no limite do sensível e do invisível, provando da matéria, mas sendo nutrido pela fonte
invisível que a anima.
272
O Ìtàn ensina que o sabor é sempre o vestígio da origem. Onde há sabor, há lembrança de que algo
foi oferecido, dissolvido e transmutado. A água é a memória de tudo o que passou. Ela carrega os
ecos de todas as vozes, as poeiras de todos os gestos. Por isso, quem bebe da água bebe da história
do mundo. A mulher do Ìtàn não percebe que o gosto do peixe é a palavra silenciosa do rio, e que,
ao saboreá-lo, ela está participando do diálogo milenar entre Ọ̀run e Àiyé. A ignorância dela é a
condição humana; o gesto de Òrúnmìlà é o despertar dessa consciência.
A hermenêutica Ìtànlógica revela que esse Ìtàn fala de um princípio anterior à moral: fala da
ontologia da nutrição, da reciprocidade entre ser e meio, do pacto silencioso que sustenta a vida. O
esquecimento da água é o esquecimento do ser. Quando o homem come o peixe e não agradece ao
rio, ele rompe o ciclo do Àṣẹ, e o mundo começa a secar. O rito de Òrúnmìlà é, portanto, a
restituição do fluxo. Ele nos ensina que o universo não se sustenta por substâncias fixas, mas por
relações vivas. A vida é feita de trocas invisíveis, de circulações sutis, de respirações recíprocas.
Tudo o que interrompe o fluxo se torna seco, amargo, estéril.
Por isso, o Ìtàn de Ìwòrì Òbàrà é uma cosmologia da lembrança. Lembrar é a forma mais profunda
de agradecer. E agradecer é o modo como o espírito reconhece sua dívida para com o invisível. O
esquecimento é o pecado original do homem; o sacrifício é a sua redenção. Não há ética sem
lembrança da fonte. E não há fonte sem água que retorna a si.
Quando Òrúnmìlà oferece o azeite, o peixe, o milho e a banana, ele reconstrói o corpo do mundo.
Cada elemento devolvido é uma restituição do equilíbrio. A hermenêutica Ìtànlógica nos mostra que
o Ìtàn não fala apenas de rituais agrícolas ou alimentares, mas da própria estrutura do cosmos. A
água é a mente de Olódùmarè em movimento; o peixe é o verbo que encarna; o azeite é o sangue da
fala; o milho é o corpo do tempo; a banana é a doçura da reconciliação. Tudo se encontra na
oferenda porque tudo é devolvido à sua origem.
Eis o que o Ìtàn quer dizer quando afirma que a água dá o sabor: o mundo só tem gosto quando é
reconhecido como parte do fluxo divino. O sofrimento começa quando o homem quer reter o sabor
sem lembrar da água. A sabedoria é saber beber e devolver. Esse é o segredo do equilíbrio: viver
como quem bebe do rio, mas se deixa levar por ele.
273
A água não é apenas substância: é pensamento em estado líquido. No interior da cosmologia de Ifá,
ela é a própria respiração de Olódùmarè que se espalha pelo corpo do cosmos, fazendo de cada
movimento um gesto de lembrança da origem. Quando o Ìtàn diz que a mulher não sabe que é a
água que lhe dá o sabor, ele não fala apenas da ignorância sensorial, mas da cegueira metafísica que
nasce quando o ser esquece que a vida é feita de relação e não de posse. O sabor é o sinal de uma
comunhão que ultrapassa a matéria. É o vestígio do invisível que se manifesta na língua, na carne,
na sensação. Aquilo que o homem chama de gosto é, na verdade, a assinatura do invisível no
visível. O paladar é o oráculo do corpo: nele o invisível se faz sentir e o espírito reconhece o que o
excede. Comer é, portanto, uma forma de divinação, um modo de dialogar com aquilo que está por
trás da aparência das coisas. O sabor é o verso de Olódùmarè inscrito na matéria.
Òrúnmìlà é o guardião desse segredo. Ele sabe que nada é realmente saboroso se não for primeiro
mergulhado no fluxo do Àṣẹ. É por isso que ele oferece. O sacrifício é o gesto consciente que
devolve à água a sua própria água. Quando Òrúnmìlà oferece o azeite, o peixe, o milho e a banana,
ele não está negociando com o divino — está restabelecendo a consciência do fluxo. A oferenda é
uma forma de memória ontológica: lembrar que tudo que dá sabor veio do rio da existência. A
hermenêutica Ìtànlógica vê nesse gesto a fundação de uma ética da reciprocidade. Não se trata de
moral religiosa, mas de uma ontologia da circulação do ser. Nada vive isolado. A água só é água
porque se move; o peixe só é peixe porque habita o movimento; o homem só é homem enquanto
respira esse mesmo ritmo.
A modernidade, com seu impulso de fixar, reter e possuir, rompeu esse ciclo. O homem moderno
quer o sabor sem a água, quer o resultado sem o fluxo, quer o conhecimento sem o mistério. Essa
separação é a raiz de toda secura espiritual. O Ìtàn recorda que o mundo seca quando se esquece da
sua água. Por isso, a chuva que cai após o sacrifício de Òrúnmìlà não é um fenômeno
meteorológico, mas um evento ontológico: o retorno da memória à terra, o reencantamento do real.
A chuva é o símbolo do pensamento reconciliado com sua fonte. Ela é o próprio espírito de Ifá
derramando-se sobre Àiyé.
A mulher que come à beira do rio representa a humanidade inconsciente que consome o mundo sem
perceber que o mundo é uma oferenda. Sua ignorância não é malícia, é esquecimento. Ela se
alimenta da obra de Òrúnmìlà sem participar da consciência de Òrúnmìlà. O Ìtàn, ao mostrar essa
cena, nos convida a pensar que toda relação com o mundo é um ato litúrgico. Comer, amar, respirar,
274
caminhar — tudo é rito, porque tudo é passagem entre Ọ̀run e Àiyé. Não há ato profano, há apenas
graus de consciência. O profano é o sagrado esquecido. O sagrado é o profano lembrado.
Òrúnmìlà compreende que o segredo do sabor está no movimento entre dentro e fora, alto e baixo,
visível e invisível. O peixe e a água são símbolos dessa reciprocidade. O peixe é o verbo que se
move dentro da substância da sabedoria. A água é o silêncio que envolve o verbo e o torna possível.
O peixe sem água morre; a água sem peixe é silêncio sem voz. A existência humana é o lugar onde
esses dois princípios se encontram. Cada palavra dita pelo homem é um peixe que salta da água do
invisível para a superfície do mundo. Mas para que o salto tenha sentido, é preciso que a água
continue a existir. O homem que fala e não lembra da água de onde vem sua fala, transforma o
verbo em ruído.
O Ìtàn, portanto, é um tratado sobre a fala e o silêncio. A água é o silêncio primordial, o útero de
todas as palavras; o peixe é a fala que emerge desse útero. Òrúnmìlà é o que conhece o limite entre
um e outro. Ele sabe que a sabedoria não está em falar muito, mas em ouvir o som da água antes de
pronunciar o verbo. Por isso, ele é chamado Eleri Ìpín, a testemunha da criação. Ele não cria do
nada, mas cria do que já flui. A criação, em Ifá, é sempre um rearranjo do movimento. Olódùmarè
não criou o mundo fora de si, mas dentro do seu próprio fluxo. A água é a imagem desse mistério: o
que contém e é contido ao mesmo tempo.
A hermenêutica Ìtànlógica mostra que essa mulher do Ìtàn é também o símbolo do aprendiz que está
diante do mestre. O discípulo se alimenta do ensinamento, mas não sabe ainda que o sabor vem da
presença invisível do mestre. O mestre é a água do saber: invisível, envolvente, silencioso. O
aprendiz é o peixe: inquieto, móvel, dependente. O aprendizado verdadeiro é quando o peixe se dá
conta de que o mar não está fora dele, mas dentro. Assim também o ser humano, quando desperta a
consciência Ìtànlógica, percebe que o Àṣẹ que procura já o habita. O caminho de Ifá não é alcançar
algo, mas lembrar-se daquilo que sempre foi.
Quando Òrúnmìlà oferece, ele ensina que a consciência não se mantém sozinha. É preciso alimentar
a água dentro de si. O azeite vermelho é o fogo líquido, o princípio que faz circular o calor da vida;
os peixes são os pensamentos vivos que habitam o silêncio; o milho é o corpo do tempo, a sucessão
das experiências; as bananas são a recompensa do caminho, a doçura que surge quando se aceita o
275
ciclo. Cada elemento é uma metáfora do movimento interno da alma. A oferenda não é externa: é o
reconhecimento da necessidade de manter o fluxo do próprio ser.
Por isso, a hermenêutica Ìtànlógica vê nesse Ìtàn a expressão de uma metafísica da humildade. O
homem que reconhece a água reconhece o limite do seu próprio poder. Ele sabe que o sabor da vida
não vem de sua força, mas da graça do fluxo. Essa consciência dissolve o orgulho e gera a
verdadeira sabedoria. O orgulho é seco, a sabedoria é úmida. O orgulho endurece, a sabedoria
amolece. Onde há água, há vida; onde há secura, há morte. Òrúnmìlà ensina que a mente deve
permanecer como um rio: transparente, móvel, aberta à transformação.
A mulher que come à beira do rio é o arquétipo da humanidade em processo de iniciação. Ela está
próxima da fonte, mas ainda não percebe. Está diante do mistério, mas não o vê. Por isso o Ìtàn a
apresenta com delicadeza: não como uma pecadora, mas como uma ignorante sagrada. Sua
ignorância é o primeiro passo da aprendizagem. Ela come, e é o comer que a leva à beira do rio; é o
sabor que, um dia, a fará perceber a água. A vida é um processo de desvelamento, e o sofrimento
nasce quando o homem tenta apressar a revelação. O rio não se explica, o rio se atravessa.
No fundo, este Ìtàn é um comentário sobre o ato de conhecer. Conhecer, em Ifá, não é acumular
informação, mas relembrar o fluxo que liga todas as coisas. O verdadeiro conhecimento não é
linear, é circular e espiralado. A mulher à beira do rio está prestes a entrar nesse movimento. O
peixe, a água e o sabor são os três níveis do saber Ìtànlógico: o peixe é o saber tangível, a água é o
saber invisível, e o sabor é o saber experimentado. Òrúnmìlà transita entre os três, porque é o senhor
da travessia.
Assim, o Ìtàn não fala de um episódio, mas de um estado do ser. É a descrição de uma consciência
que desperta lentamente para a percepção de que o sabor da vida vem do invisível. É a recordação
de que tudo o que é doce, tudo o que é bom, tudo o que é fecundo, foi primeiro um fluxo silencioso
vindo do ventre de Olódùmarè. Por isso, o Ìtàn não termina com uma moral, mas com um lembrete:
quem come à beira do rio, não se esqueça — é a água que lhe dá o sabor. É o mesmo que dizer:
quem vive, não se esqueça — é o invisível que lhe dá o sentido.
A água é mais antiga que a memória. Antes que houvesse palavra, já havia corrente. O mundo,
quando emergiu do ventre de Olódùmarè, não nasceu de uma explosão, mas de um fluxo. A criação
276
não foi um ato pontual, foi um derramar-se. Essa é a verdade escondida no Ìtàn: o universo não foi
feito, foi vertido. O verbo de Olódùmarè é líquido, e o que chamamos matéria é apenas a densidade
dessa fala. Òrúnmìlà é aquele que se lembra de que tudo o que existe é fala solidificada, vibração
tornada forma, canção tornada carne. É por isso que ele é o senhor da lembrança: ele não cria nada
novo, ele apenas recorda o fluxo original.
A mulher que come à beira do rio é a consciência humana em sua fase de esquecimento. Ela ainda
não sabe que tudo o que toca é palavra de água. O peixe que comeu é uma sílaba do cosmos, uma
partícula do verbo líquido que sustenta o mundo. Ao comer o peixe sem reconhecer a água, ela
consome a palavra sem ouvir o canto. Isso é o que a hermenêutica Ìtànlógica chama de “surdez
metafísica”: o ser que usa o som sem perceber o silêncio que o engendra. Òrúnmìlà, ao oferecer,
realiza o contrário: ele devolve o som ao silêncio, ele sacrifica o verbo para que o silêncio continue
a cantar.
A água, em Ifá, é o princípio da inteligência cósmica. Não uma inteligência racional, mas uma
sabedoria que flui. Ela não acumula, distribui. Não calcula, sente. A mente de Olódùmarè é uma
mente aquática: pensa em ondas, não em linhas. O pensamento humano, quando quer imitar o
divino, deve aprender com o ritmo do rio. Pensar é deixar-se mover por dentro, sem perder o curso.
Òrúnmìlà ensina que o verdadeiro sábio não é o que domina a corrente, mas o que sabe flutuar nela.
Essa flutuação é o estado da sabedoria madura: firmeza dentro do movimento, quietude dentro da
mudança.
A oferenda de Òrúnmìlà é o gesto que restabelece esse estado. Quando ele oferece azeite vermelho,
peixe, milho e banana, ele não apenas cumpre um rito: ele cria uma analogia viva entre o homem e
o cosmos. O azeite é a memória do fogo; o peixe, a consciência em movimento; o milho, a
periodicidade do tempo; a banana, o prazer reconciliado. Reunindo esses elementos, Òrúnmìlà
recompõe o corpo simbólico da criação. Ele torna o microcosmo semelhante ao macrocosmo. É por
isso que, depois do sacrifício, o céu se abre e a chuva cai. A harmonia do gesto reflete-se no
cosmos. A oferenda é a imagem terrestre da sintonia celeste.
Na hermenêutica Ìtànlógica, esse retorno da chuva é o sinal da reintegração entre o saber e o ser. A
chuva é o conhecimento que volta à terra. Cada gota é uma lembrança. Cada gota devolve ao solo o
que dele se perdeu. A terra, ao receber a água, torna-se novamente fértil — e a mente humana, ao
277
receber a lembrança, torna-se novamente sábia. A fertilidade é sempre o resultado da reconciliação
entre o visível e o invisível. Quando o homem agradece, ele se abre à fertilidade espiritual. O
agradecimento é uma forma de chuva interior.
A mulher do Ìtàn, ao não perceber a água, vive num estado de esterilidade sutil. Ela come, mas não
se alimenta verdadeiramente. Ela saboreia, mas não se nutre do sentido. O seu gesto é um reflexo da
nossa própria civilização: abundância sem consciência. Vivemos cercados de sabor, mas nossa
língua já não lembra do rio. Perdemos o gosto do invisível. E quando o invisível perde o gosto, o
mundo empalidece. O trabalho de Òrúnmìlà é reencantar o paladar. Ele devolve à humanidade o
sentido do sabor como caminho do sagrado.
Comer à beira do rio é o símbolo de viver à beira do mistério. A mulher representa a alma
encarnada, e o rio é a fronteira entre Ọ̀run e Àiyé. Toda vez que o ser humano se aproxima do
limite, está também diante da possibilidade de perceber a água. Mas para isso é preciso humildade:
é preciso aceitar que o sabor vem de algo maior. A água ensina a humildade porque tudo o que nela
entra perde a forma. O que é rígido afunda, o que é leve flutua. Assim também o pensamento: o que
é pesado afunda na ignorância, o que é leve se deixa levar pela sabedoria.
O Ìtàn também fala da natureza feminina da sabedoria. A mulher é o ventre do sabor. Ela é a
receptora da dádiva do rio. Por isso, a consciência que desperta nesse Ìtàn é uma consciência
aquática e feminina. Não é o saber que domina, mas o saber que acolhe. Ifá nos ensina que o
princípio feminino é o guardião da lembrança. A água é feminina porque guarda a memória. Todo
rio é um útero em movimento. Nele, o passado se dissolve para gerar o presente. A mulher que
come à beira do rio é, sem saber, o próprio rio comendo a si mesmo. Ela é o espelho da
autoconsciência do cosmos.
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A oferenda de Òrúnmìlà é a liturgia do reconhecimento. Através dela, o homem se reintegra ao
fluxo do Àṣẹ. A oferenda é o modo como o ser diz obrigado ao invisível. Ela não compra nada,
apenas restabelece a amizade com o mistério. E quando essa amizade é restabelecida, a chuva cai. A
chuva não vem de fora, ela vem de dentro: é o reflexo da alegria do cosmos ao ser lembrado. O Ìtàn
nos ensina que a alegria de Ọ̀run é sentir-se lembrado por Àiyé. A cada oferenda, o universo se
reconhece novamente.
Por isso, a hermenêutica Ìtànlógica vê esse Ìtàn como uma escola da gratidão. A mulher que come e
não sabe é o estado inicial; Òrúnmìlà que oferece é o estado desperto. Entre um e outro há um
caminho: o da consciência. E esse caminho é feito de gestos de devolução, de partilhas, de
reconhecimento. O homem sábio é aquele que transforma cada ato em oferenda, cada respiração em
lembrança, cada palavra em retorno. O sabor é o selo do fluxo divino. Quem o reconhece participa
da eternidade.
rosseguindo, então, o texto toma o último fôlego do rio e entra na parte onde o fluxo e a consciência
se tornam uma só substância.
A água já não é mais apenas metáfora — é o próprio corpo do pensamento, e Òrúnmìlà é o
mergulhador que, ao entrar nela, aprende que não há profundidade que não seja feita de escuta. No
silêncio líquido, o som da criação ainda pulsa. Cada gota traz o eco da primeira respiração de
Olódùmarè. E quando o homem escuta esse som, ele deixa de ser apenas criatura: torna-se memória
viva.
O Ìtàn fala da mulher que não sabia, mas no fim de toda hermenêutica, essa mulher é o símbolo da
humanidade que aprende. O saber não nasce de fora, nasce da repetição interior do gesto de
Òrúnmìlà: oferecer, devolver, lembrar. A oferenda é uma pedagogia de eternidade. Quem oferece
reconhece que não é dono daquilo que recebe; é condutor, e não possuidor. O Ìtàn nos ensina que o
mundo pertence ao movimento, e não ao imóvel. O ser humano é guardião do fluxo, não seu
proprietário.
Assim, a consciência que desperta no Ìtàn 2 de Ìwòrì Òbàrà é uma consciência do entre: entre a
fome e o sabor, entre a água e o peixe, entre o corpo e o invisível. É nesse intervalo que a vida
acontece. Se o homem tenta solidificar esse espaço, o rio cessa. Mas se ele aceita ser a ponte, então
279
a vida volta a correr. Òrúnmìlà não ensinou o homem a dominar o mundo; ensinou-o a navegar nele.
Navegar é o verbo do sábio. O barco é a mente, o remo é a atenção, o destino é o silêncio.
A água, ao ser compreendida, se torna consciência. E essa consciência não se fecha sobre si mesma:
ela se expande, volta ao seu ciclo, fecunda o tempo. A mulher que come à beira do rio é agora o
símbolo do iniciado que aprendeu a saborear a água, não o peixe. Ela descobre que o sabor não está
nas coisas, mas na relação. Ela entende que o segredo de Òrúnmìlà não é conhecer mais, mas sentir
melhor. A verdadeira sabedoria é sensorial e espiritual ao mesmo tempo: é o corpo que aprendeu a
ouvir o espírito.
No instante em que o sabor é reconhecido, o mundo se torna transparente. Tudo é visto como parte
de uma única vibração. A água é a mãe de todas as formas porque nada exclui, tudo envolve. É por
isso que o Ìtàn termina com a chuva. A chuva é a água em seu estado mais generoso. Ela não
escolhe onde cair. Ela não distingue sagrado de profano. Cobre tudo, penetra tudo, purifica tudo.
Assim também a sabedoria: quando madura, deixa de selecionar, e passa apenas a acolher.
A hermenêutica Ìtànlógica encontra aqui a sua própria imagem: ela é uma chuva de sentidos. Não
impõe conceitos, fecunda. Não separa, integra. Ao ler o Ìtàn, ela não o disseca, mas o rega. Cada
verso é uma semente e a exegese é a água que a faz brotar. O sentido não é imposto, é revelado pelo
amadurecimento do olhar. A água, nesse ponto, é o símbolo da própria leitura espiritual: aquele que
interpreta deve primeiro deixar-se dissolver. Nenhum texto sagrado se abre diante de uma mente
seca.
Òrúnmìlà, na visão Ìtànlógica, é o primeiro leitor. Ele lê o mundo como quem escuta o rio. Ele sabe
que o livro do universo não se lê com os olhos, mas com o corpo inteiro. O sabor é uma forma de
leitura, o toque é uma forma de leitura, o respirar é uma forma de leitura. Tudo é texto quando o
olhar é aquático. Essa é a grande lição do Ìtàn: a vida não é uma sucessão de fatos, é um texto
líquido. Cada ato humano é um hieróglifo que a água traduz.
Ao final, o que a mulher descobre é que ela mesma é água. Ela percebe que o rio nunca esteve fora.
O sabor que a tocava vinha de dentro. Òrúnmìlà, ao oferecer, restabeleceu o vínculo entre o dentro e
o fora. A oferenda é o rito que dissolve a fronteira. O homem e o mundo voltam a ser uma só
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substância, diferentes modos de um mesmo fluxo. O cosmos torna-se então uma comunhão de
correntes. Cada existência é uma onda, cada morte é uma maré, cada nascimento é um regresso.
E assim o Ìtàn encerra sua lição: quem vive à beira do rio deve lembrar-se da água. Esse lembrete é
o núcleo da ética Ìtànlógica. Não é um mandamento, é uma lembrança. É a convocação para uma
forma de vida em que cada gesto é acompanhado de gratidão. A gratidão é o modo humano de ser
água. É o estado em que o coração se torna rio e o pensamento se torna chuva. Ser grato é fluir.
Òrúnmìlà nos ensina que o fim da sabedoria não é compreender, é harmonizar-se. A sabedoria é o
silêncio que canta, o silêncio que se move, o silêncio que dá sabor. E assim como a mulher à beira
do rio descobre o segredo do sabor, o leitor deste Ìtàn descobre o segredo da própria leitura: nada do
que lemos é seco, tudo é feito de água. O Ìtàn é um espelho: quanto mais nos olhamos nele, mais
nos dissolvemos. A dissolução é o início da verdade.
E quando o ser se dissolve, a voz de Òrúnmìlà se ouve dentro da água: lembre-se, tudo o que é doce
vem da corrente. Lembre-se, tudo o que é vivo é líquido. Lembre-se, tudo o que é sabedoria é sabor
que retorna à sua fonte.
Tradução:
Tudo o que é humano começa na cabeça. Òrì não é apenas a anatomia do corpo, é o ponto de
convergência entre o que desce e o que sobe, entre o sopro e o corpo, entre o visível e o invisível. O
Ìtàn afirma que aquele que não conhece a própria cabeça não sabe para onde caminha. E isso é mais
que uma advertência ética — é uma definição ontológica: o ser humano é, antes de tudo, um
caminhar consciente de sua própria cabeça, isto é, da origem e do destino que o atravessam. Òrì é o
nome que o Ifá dá ao princípio da interioridade divina. É a centelha de Olódùmarè colocada no
vértice do ser, o altar secreto de cada consciência.
Em Ifá, tudo que é bom começa por Òrì e tudo que se perde começa pelo esquecimento de Òrì. Não
há caminho que conduza à luz se a cabeça estiver obscurecida. Òrì é o oráculo permanente que fala
dentro do silêncio. Òrúnmìlà, ao cultuar o seu Òrì, não está praticando uma devoção externa, mas
restabelecendo o diálogo entre a consciência e a sua própria origem. Ele oferece, portanto, a si
mesmo àquilo que o constitui. Por isso, a oferenda a Òrì é uma forma de autoconhecimento, e o
autoconhecimento, por sua vez, é o verdadeiro culto a Olódùmarè.
Aquele que desconhece a própria cabeça não ignora apenas o seu destino; ignora também o mapa
invisível que liga todos os seres. Pois Òrì é, ao mesmo tempo, o centro e a bússola. Ele é o espelho
do Àṣẹ, e o Àṣẹ, em sua pureza, é movimento que sabe para onde vai. O homem que perde a cabeça
perde a direção do seu Àṣẹ, e por isso sua vida se torna dispersa, caótica, sem música. Conhecer Òrì
é recolocar o ritmo no corpo do mundo.
Òrúnmìlà, ao oferecer à sua cabeça, faz o gesto do retorno ao princípio. O azeite que unge Òrì é o
mesmo azeite que, em outros Ìtàn, unge o Òpá Òrúnmìlà — o bastão da palavra. Esse gesto de
unção é um ato de alinhamento: o homem coloca luz onde há sombra, clareza onde havia confusão.
Quando Òrì brilha, o mundo inteiro se torna caminho. Por isso o Ìtàn diz que, depois do sacrifício,
tudo floresceu e o destino brilhou como a lua.
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O Ìtàn 3 de Ìwòrì Òbàrà é uma meditação sobre a consciência. Òrì é o órgão invisível do saber de si.
Conhecê-lo é atravessar o espelho do ego e alcançar o espelho do espírito. A cabeça, no sentido
Ìtànlógico, não é sede do pensamento racional, mas do pensamento que se lembra. O homem que
pensa sem se lembrar do seu Òrì pensa em vão. Por isso, Òrúnmìlà ora: “Que minha cabeça não me
abandone.” É o pedido de todos os sábios: que o princípio da clareza não se distancie do olhar.
A hermenêutica Ìtànlógica vê aqui a diferença entre a mente ocidental e a mente de Ifá. A primeira
busca dominar a razão; a segunda busca harmonizar-se com a razão divina. Conhecer a cabeça é
harmonizar-se com o desígnio que nela foi inscrito. A ignorância de Òrì é a raiz de toda desordem
interior. E essa desordem se projeta no mundo, criando sociedades sem direção, instituições sem
alma, ciências sem sabedoria. A cura do mundo começa pela cura da cabeça.
Òrúnmìlà nos ensina que a oferenda a Òrì é o mais sutil dos rituais porque não exige intermediários.
O altar está no alto do corpo, e o sacerdote é o próprio indivíduo. A relação com Òrì é íntima, direta,
silenciosa. Não se oferece para pedir, mas para alinhar. Quando a cabeça está alinhada, o destino se
cumpre sem esforço. Quando ela está turva, nem as maiores forças conseguem conduzir o homem
ao seu caminho.
Assim, o Ìtàn não fala apenas de um rito, mas de uma filosofia do ser. Ele nos lembra que todo
saber começa e termina em Òrì. Se o Ìtàn anterior falava da água que dá o sabor, este fala da cabeça
que dá direção. O primeiro ensinava a gratidão ao fluxo; este ensina a reverência ao eixo. O homem
precisa de ambos: água para mover-se, cabeça para orientar-se. A sabedoria é o equilíbrio entre fluir
e dirigir, entre o rio e o leme, entre o sabor e o sentido.
Òrì é o primeiro templo. Antes que existisse pedra, madeira ou altar erguido, já havia nele o trono
do invisível. No vértice da cabeça humana, Olódùmarè colocou o selo da sua lembrança. É ali que o
invisível se ancora no corpo, que o mistério toma carne, que a eternidade se faz presente no instante.
Quando o Ìtàn diz que quem não conhece sua cabeça não sabe para onde vai, ele revela o segredo
mais profundo da existência: a direção não é uma linha fora de nós, mas um eixo que brota de
dentro. O caminhar verdadeiro é vertical antes de ser horizontal, é ascensão e enraizamento
simultâneos, como a árvore que se ergue apenas porque tem raízes firmes. Conhecer Òrì é firmar as
raízes da consciência no solo do ser.
284
Na teogonia de Ifá, Òrì é mais do que destino; é um princípio de ordem e singularidade. Cada ser,
ao nascer, leva consigo uma centelha de consciência divina que o diferencia e ao mesmo tempo o
insere na teia universal. Òrì é esse ponto de intersecção: o lugar onde o indivíduo toca o absoluto.
Por isso, não há dois Òrì idênticos. A multiplicidade do mundo é reflexo da variedade de cabeças
que Olódùmarè gerou. E no entanto, em cada cabeça, há a mesma substância de luz. Assim como o
sol se reflete em mil águas, a essência do divino se reflete em cada Òrì. O erro do homem moderno
é esquecer que sua cabeça é um espelho do cosmos. Ele busca fora o que já resplandece dentro.
Òrúnmìlà compreendeu que a cabeça é o primeiro oráculo, e por isso a cultuou. Seu gesto é de uma
delicadeza ontológica profunda: ele reconhece que não há palavra que possa ser dita, nem destino
que possa ser cumprido, se a cabeça estiver em desordem. A oferenda que ele faz a Òrì é o ritual do
realinhamento, o retorno ao eixo primordial. A hermenêutica Ìtànlógica entende esse gesto como o
arquétipo de toda restauração interior. O azeite que unta a cabeça é o óleo da memória: ele lubrifica
o caminho entre o que o homem é e o que ele foi criado para ser. O sacrifício não é destruição, é
realinhamento.
Em Ifá, o destino não é fatalidade, mas vibração. Cada Òrì é uma frequência, uma nota na sinfonia
do cosmos. Quando o homem vive em harmonia com sua cabeça, ele ressoa com o universo.
Quando se afasta dela, produz dissonância. O sofrimento nasce dessa desafinação. Òrúnmìlà, ao
oferecer, afina sua vida ao tom do seu Òrì. A oferenda é música. Por isso, o Ìtàn fala em claridade:
depois do sacrifício, a cabeça de Òrúnmìlà brilha, e seu destino torna-se claro como a lua. A luz da
lua é a metáfora do saber interior, aquela claridade que não cega, mas guia. O homem iluminado por
seu Òrì não brilha por si mesmo; reflete o brilho de Olódùmarè.
Mas conhecer Òrì não é um ato apenas intelectual. É uma disciplina de presença, um modo de viver.
Na linguagem Ìtànlógica, o conhecimento de Òrì é uma ética da verticalidade. Ser ético é estar
alinhado com a cabeça. Não é obediência a regras externas, mas fidelidade à harmonia interior. O
homem justo é aquele cuja cabeça e seus passos estão em acordo. Ele age a partir do centro. O
homem injusto, ao contrário, é aquele cujo corpo caminha sem escutar sua cabeça, cujos gestos não
obedecem ao compasso do seu eixo. O mundo desaba quando o corpo humano esquece o seu topo.
Òrì é também o guardião do tempo. A cada aurora, é ele quem desperta o homem. E a cada noite, é
ele quem recolhe seus pensamentos. A cabeça é o tambor onde ressoam as batidas do destino. Cada
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pulsação é um chamado à lembrança. Por isso, o culto a Òrì é diário, não episódico. Òrúnmìlà, ao
prostrar-se diante de sua cabeça, realiza o mais alto ato de humildade: reconhecer que a consciência
não é dele, mas lhe foi emprestada. Essa humildade é o início de toda sabedoria. Pois somente quem
se inclina diante de sua própria luz é capaz de enxergar a luz dos outros.
No corpo, a cabeça é o ponto onde o alto toca o baixo, onde Ọ̀run se derrama em Àiyé. Ela é o
primeiro Òpá, o bastão do cosmos. Tudo o que é espírito se materializa nela, e tudo o que é matéria
se espiritualiza através dela. A cabeça é a escada de Jacob de Ifá — nela sobem e descem os fluxos
do invisível. Ao perder o contato com ela, o homem interrompe a circulação do Àṣẹ. É como uma
árvore cortada do solo: seca por dentro, mesmo que pareça viva por fora. Por isso, o maior crime
em Ifá é o esquecimento de Òrì, e a maior virtude é a sua lembrança constante.
Òrì não é um deus entre outros; é o deus dentro do homem. Ele é a presença de Olódùmarè em
forma de consciência pessoal. Cultuar Òrì é, portanto, participar da divindade. Essa é a ontologia
mais radical do Ifá: o humano é teofania. Cada indivíduo é uma manifestação de Olódùmarè na
densidade do tempo. A cabeça é o local dessa manifestação, e conhecer a cabeça é reencontrar o
divino em si. A diferença entre Òrúnmìlà e os outros homens não está em sua natureza, mas em sua
consciência. Ele lembra o que os outros esqueceram. A sabedoria é memória.
Por isso, a oferenda de Òrúnmìlà não é um ato isolado, mas uma pedagogia para a humanidade. Ao
oferecer à sua cabeça, ele mostra a todos que o verdadeiro templo não está fora, mas dentro. A
religião de Ifá não é uma doutrina do além, mas uma disciplina da interioridade. E é essa
interioridade que sustenta a ordem do cosmos. O mundo permanece em harmonia enquanto os
homens lembram de suas cabeças. Quando esquecem, o caos começa. O caos, na visão Ìtànlógica, é
o sintoma do esquecimento do eixo.
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Quando o Ìtàn afirma que “quem conhece a própria cabeça já conhece o caminho”, ele estabelece a
equivalência entre consciência e destino. Conhecer o caminho não é prever o futuro, é alinhar-se ao
ritmo que conduz todas as coisas. O caminho não é uma estrada fora de nós, é a melodia interna do
ser. E o Òrì é o maestro dessa orquestra. Saber para onde se vai é escutar a música que a cabeça
toca. Quem não escuta essa música anda em círculos. Quem a escuta caminha com firmeza, mesmo
sem ver o fim da estrada.
Ìwòrì Òbàrà é o tratado mais íntimo de Ifá sobre o sentido do ser. Ele ensina que a salvação não é
fuga, mas reconciliação com o próprio eixo. A cabeça, quando reconhecida, se torna farol. Quando
esquecida, se torna peso. Cultuar Òrì é escolher entre luz e sombra, direção e dispersão, lembrança e
esquecimento.
Òrì é o nome da lembrança que respira. A cabeça humana é o coração de uma estrela que se
esqueceu de onde veio e aprendeu a pulsar dentro da matéria. Quando Òrúnmìlà ungiu sua cabeça,
ele não apenas celebrou um rito: ele reiniciou o universo dentro de si. Pois cada homem, ao
reconhecer sua cabeça, reacende o fogo do começo. O que chamamos destino não é um caminho
futuro, mas uma vibração que ressoa desde o primeiro sopro. Òrì é esse sopro tornado bússola. E
quando o homem se inclina diante dele, o universo se reorganiza em silêncio.
O Ìtàn ensina que Òrì é a face de Olódùmarè no humano, e toda vez que o humano o reconhece,
Olódùmarè se reconhece em retorno. A criação é uma dança de espelhos. Tudo o que existe é o
reflexo de um olhar que se contempla. Por isso, o culto de Òrì é o mais alto grau da espiritualidade:
nele o ser adora a si mesmo sem idolatria, ama a si mesmo sem narcisismo, e se entrega ao mistério
sabendo que o mistério o habita. O homem torna-se altar, e a oferenda torna-se gesto de respiração.
A respiração é o sacrifício constante que a vida oferece a si. Inspirar é receber, expirar é devolver.
Entre uma e outra pulsa Òrì.
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece que, ao dizer “quem conhece sua cabeça conhece o caminho”,
Òrúnmìlà inaugura uma metafísica da interioridade dinâmica. O conhecimento de si não é
contemplação imóvel, é travessia viva. O homem caminha dentro de sua própria luz. Ele é
simultaneamente via e viajante. A cabeça é o mapa, mas também o destino. Aquele que entende isso
já não busca fora o que o mundo não pode dar. Ele aprende a viver o visível como tradução do
invisível. Tudo o que lhe acontece é uma forma pela qual seu Òrì fala.
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Assim, a ética de Òrì é a arte de escutar o destino. Cada acontecimento, seja alegria ou dor, é um
verso que a cabeça pronuncia. O sofrimento é a pronúncia difícil de uma lição ainda não aprendida.
A sabedoria não consiste em evitar a dor, mas em traduzi-la. Traduzir o sofrimento é elevar-se à
linguagem do Òrì. Aquele que aprende a escutar sua dor como discurso do próprio eixo não se
desespera: ele compreende. E compreender é uma forma de libertação. O sofrimento deixa de ser
castigo e torna-se iniciação. Òrì não pune; educa.
Essa educação é lenta como o tempo do rio. Cada gesto humano é um traço que o Òrì lê, cada
escolha é uma sílaba escrita na água da existência. E o rio, paciente, grava tudo. O Ìtàn nos lembra
de que Òrì guarda, mas não condena. Ele espera até que o ser esteja maduro para reconhecer suas
próprias letras. Quando o homem se torna leitor de si mesmo, descobre que a vida inteira foi um
texto escrito por sua cabeça para que ele o decifrasse. Então a gratidão se instala. A gratidão é o
estado natural de quem compreendeu o Òrì.
Na visão Ìtànlógica, Òrì é o eixo da reconciliação entre destino e liberdade. O destino é o desenho; a
liberdade, o modo como o homem o colore. Não há oposição entre ambos, mas harmonia. O homem
não é prisioneiro do que escolheu no Ọ̀run; é colaborador do que continua a escolher aqui. O
destino é obra aberta, e Òrì é o artista silencioso que pinta dentro de nós. A oferenda que Òrúnmìlà
faz é, portanto, o gesto do artista que afia seu instrumento. O azeite é a tinta da consciência, o
sacrifício é o pincel da alma. Cada ato justo acrescenta uma luz à tela do ser.
O Ìtàn ensina ainda que o brilho de Òrì é o brilho da integridade. Quando a cabeça e o coração
respiram no mesmo ritmo, o homem se torna espelho da harmonia cósmica. Nenhuma força o
derruba, porque ele está assentado no centro. Aquele que conhece seu Òrì não teme as tempestades,
pois sabe que o centro do furacão é silêncio. Essa é a lição mais profunda de Ifá: a serenidade não é
ausência de movimento, é domínio do ritmo. Òrì é o tambor do universo, e o sábio é aquele que
dançou tanto que já se confunde com o som.
O homem moderno, ao esquecer o culto da cabeça, esqueceu o seu compasso. Vive apressado,
fragmentado, ruidoso. Busca no exterior a direção que perdeu no interior. O retorno a Òrì é,
portanto, também um ato político: é a desobediência à tirania da distração. É o resgate da lentidão
sagrada. Honrar Òrì é libertar-se da servidão das urgências. É aprender a viver em profundidade, e
288
não em velocidade. O tempo de Òrì é circular e espiralado, não linear. Cada ciclo é um retorno mais
lúcido ao mesmo ponto.
No final do Ìtàn, Òrúnmìlà se levanta com a cabeça luminosa. Ele não se torna outro, apenas se
torna inteiro. Essa inteireza é o objetivo de toda iniciação. O iniciado não é alguém que sabe mais,
mas alguém que esqueceu menos. Ele lembra o caminho da luz dentro da noite da carne. Òrì é essa
luz, o sol interno que nunca se põe. Mesmo quando o corpo morre, a luz continua acesa, guiando a
consciência para outros planos de aprendizado. Por isso, o culto de Òrì é também um culto à
continuidade. Nada termina, tudo muda de forma.
A hermenêutica Ìtànlógica encerra a leitura dizendo: Òrì é o nome do movimento que sabe para
onde vai. É o mistério do ser que caminha dentro de si até reencontrar o silêncio de onde veio.
Quem conhece sua cabeça conhece o caminho — porque a cabeça é o próprio caminho, e o caminho
é o próprio retorno. Òrì é o círculo onde o princípio e o fim se beijam.
E no instante em que Òrúnmìlà diz essas palavras, o universo inteiro inclina a cabeça em reverência.
Pois a criação reconhece, naquele gesto, a sua própria lembrança: o divino que se lembra de ser
divino.
Tradução:
O céu e a terra são as duas orelhas de Olódùmarè, escutando-se mutuamente. Tudo o que se
pronuncia sobe, e tudo o que se escuta desce. O Ìtàn recorda que não há palavra que não produza
eco, nem gesto que não provoque resposta. O homem é o mediador entre essas duas metades do
ouvido divino; sua existência é o ponto onde a vibração do alto toca o chão e se converte em forma.
Dizer que “como se chama o céu, assim responde a terra” é dizer que o mundo é feito de
ressonâncias. Cada ato é um som, cada pensamento é uma onda, e cada vida é um chamado cuja
290
ń
resposta se anuncia em silêncio. Quando Òrúnmìlà oferece, ele não suplica: ele sintoniza. A
oferenda é o gesto de quem deseja voltar ao tom certo.
O Ìtàn começa com uma viagem. Òrúnmìlà, o andarilho do invisível, caminha entre reinos, e antes
de partir é avisado de que deve cuidar para que o céu e a terra não se rompam dentro dele. A ruptura
de Ọ̀run e Àiyé não é cósmica, é interior. Ela ocorre sempre que a consciência perde a
correspondência com o espírito. O homem dividido vive um céu mudo e uma terra surda. Ele fala,
mas nada o escuta; ouve, mas nada o responde. A oferenda que Òrúnmìlà faz é o rito da
reconciliação acústica do universo. Ele restaura a audição entre o alto e o baixo, refaz o circuito da
palavra primordial. O cosmos volta a respirar em uníssono.
A hermenêutica Ìtànlógica compreende o gesto de Òrúnmìlà como a mais pura forma de filosofia
sonora. Ifá não pensa com conceitos, pensa com vibrações. O saber, aqui, não é o acúmulo de
ideias, mas a capacidade de ressoar com o real. Conhecer é vibrar na mesma frequência do que
existe. Òrúnmìlà, ao invocar o céu, está afinando a sua respiração ao sopro original de Olódùmarè.
O céu é o espírito que exala, a terra é o corpo que inala. Entre ambos, Òrúnmìlà é o mediador que
regula o ritmo dessa respiração universal. Quando ele diz “assim como te chamo, assim me
responde”, ele pede que o cosmos mantenha o compasso de sua própria vida.
A relação entre Ọ̀run e Àiyé é uma relação de espelho e reflexo, mas não há hierarquia entre eles. O
alto não é superior ao baixo, é seu complemento. O céu sem a terra seria uma abstração sem eco; a
terra sem o céu seria uma densidade sem sentido. A criação existe porque há diálogo. O Ìtàn mostra
que o mundo é uma conversa infinita. Toda oferenda é uma fala, e toda colheita é uma resposta.
Quando o homem esquece isso, o cosmos se torna surdo e o sofrimento começa. A dor é o som do
universo tentando recordar o ritmo perdido.
O Ìtàn nos ensina também que o Espírito amadureceu dentro de Òrúnmìlà após o sacrifício. O
amadurecimento do Espírito é o nascimento da consciência espiritual no homem. Ele não recebeu
nada de fora; algo dentro dele floresceu. O Espírito não desceu, desabrochou. Essa distinção é
central na leitura Ìtànlógica: o divino não invade o humano, revela-se a partir dele. O sagrado não é
uma visita, é uma lembrança. A oferenda é apenas o modo simbólico de liberar essa memória.
Òrúnmìlà, ao oferecer, retira as pedras que obstruíam a nascente.
291
A frase “o sopro com que se entra na vida é o mesmo com que se regressa ao céu” revela a
circularidade do ser. Nada do que sai do divino se perde; apenas muda de direção. A respiração é a
imagem mais perfeita desse ciclo: ao nascer, inspiramos o sopro do Ọ̀run; ao morrer, devolvemos o
mesmo ar. Viver é administrar esse empréstimo. A vida, portanto, é uma oferenda prolongada.
Quando Òrúnmìlà invoca o céu, ele apenas explicita o gesto que o cosmos realiza a cada instante:
chamar e responder, inspirar e expirar, emitir e recolher.
Essa dinâmica de reciprocidade é também o fundamento ético da existência. O Ìtàn não fala apenas
do equilíbrio entre dimensões, mas da responsabilidade que esse equilíbrio impõe. Se tudo o que se
chama encontra resposta, então toda palavra exige cuidado. O homem é responsável pelo tom que
dá à sua voz. Palavras que ferem retornam em forma de espinhos, palavras que abençoam voltam
em forma de flores. “Como se chama o céu, assim responde a terra” é também o princípio da justiça
cósmica: cada vibração gera sua imagem.
Para o olhar Ìtànlógico, o céu e a terra são as duas mãos do mesmo corpo divino. Uma modela, a
outra sustenta. O gesto criador não é apenas o fazer, é o responder. O universo não é um monólogo,
é um diálogo de infinitas camadas. Òrúnmìlà representa o ponto de convergência dessa conversa.
Por isso, a sabedoria dele não é apenas intelectual: é auditiva. Ele é o que sabe escutar. Escutar é o
mais alto grau do conhecimento, porque é o modo como o ser acolhe o real sem violência. A cabeça,
no Ìtàn anterior, era o trono da lembrança; aqui, o ouvido é o altar da escuta.
A escuta, em Ifá, é também uma forma de fé. Não a fé como crença, mas como disponibilidade para
a ressonância. Escutar é crer que o mundo fala. Quando Òrúnmìlà fala com o céu, ele fala com uma
voz que já espera resposta. Essa espera é confiança, e a confiança é o nome sagrado da paciência. O
sábio não se apressa em obter respostas; ele sabe que o eco sempre vem, mesmo que demore a
chegar. A demora é o tempo da maturação do Espírito. É por isso que, no Ìtàn, o Espírito amadurece
depois do sacrifício. A oferenda inaugura o intervalo, e o intervalo é o ventre da resposta.
A chuva que cai, o trovão que fala, o vento que passa — tudo é linguagem. O mundo inteiro é o
corpo sonoro de Olódùmarè. “Como se chama o céu, assim responde a terra” significa que o
universo é sensível à voz do homem. Mas essa sensibilidade exige reciprocidade: a voz deve nascer
do respeito. O homem que fala sem reverência quebra a ponte entre os planos. O silêncio respeitoso
292
é, às vezes, o modo mais alto de chamar o céu. Quando a voz se cala, o coração fala. Òrúnmìlà
sabia disso. Sua oferenda é feita com palavras, mas suas palavras são respirações.
E o equilíbrio é a mais alta forma de beleza. Em Ifá, o belo e o justo são sinônimos. A justiça é a
harmonia percebida; a beleza é a harmonia sentida. O mundo é belo quando o céu e a terra se
ouvem. Por isso, o Ìtàn termina com a frase repetida como refrão: “Como se chama o céu, assim
responde a terra.” Essa repetição é a própria música do cosmos, o compasso que mantém a dança da
existência. O homem que a escuta dança com leveza; o que a ignora tropeça em si mesmo.
A reciprocidade entre Ọ̀run e Àiyé é o modelo secreto de toda relação possível. O Ìtàn ensina que o
ser não existe sozinho — ele reverbera. Tudo o que é se confirma na resposta do outro. O céu só é
céu porque a terra o espelha, e a terra só é terra porque o céu a ilumina. O mesmo vale para o
humano: ele se descobre apenas quando é respondido. Por isso, Òrúnmìlà, ao oferecer, não fala
apenas com o céu; fala consigo mesmo através do céu. O chamado que ele faz é um chamado de si
para si. O retorno do eco é a confirmação de que ele continua inteiro. A verdadeira oração é o
reconhecimento da continuidade entre o que fala e o que escuta.
293
A hermenêutica Ìtànlógica compreende que o Ìtàn fala da ecologia do som. Se tudo responde, é
porque tudo ouve. A pedra, o vento, o corpo, o rio — todos têm ouvidos. O universo inteiro é
sensorial. O homem moderno, ao perder a capacidade de ouvir o invisível, perdeu a reciprocidade
com o cosmos. Ele transformou o mundo em ruído, e o ruído é o som sem escuta. A oferenda, então,
é também uma prática de reeducação auditiva. Ao oferecer, Òrúnmìlà escuta. O rito é um exercício
de afinação sensorial. A oferenda não serve para convencer o divino, mas para refinar o ouvido do
humano.
O céu e a terra não são espaços: são estados de consciência. Quando o Ìtàn diz que Òrúnmìlà pediu
para que não se separassem, está falando de uma unidade interior. O céu é o princípio espiritual, a
verticalidade do ser; a terra é o princípio existencial, a horizontalidade da experiência. O homem
precisa de ambos. O céu sem a terra o tornaria sombra; a terra sem o céu o tornaria peso. Viver é
equilibrar altura e chão. A oferenda, nesse sentido, é o gesto que reequilibra o eixo. Cada ritual é
uma recalibração entre transcendência e imanência.
Ao dizer “o Espírito amadureceu dentro de Òrúnmìlà”, o Ìtàn fala de um processo ontológico e não
cronológico. O amadurecimento do Espírito é o instante em que a alma se percebe como
continuidade da respiração divina. Não é o momento em que se recebe algo novo, mas o instante em
que se percebe que nada faltava. O Espírito, no homem, não é uma centelha separada, mas a própria
respiração do todo. O amadurecimento é o reconhecimento dessa comunhão. A oferenda é apenas o
sinal visível dessa lembrança. O amadurecimento espiritual, portanto, é sempre um retorno —
nunca uma conquista.
Há uma lição ética escondida nesse gesto. Quando Òrúnmìlà pede que o céu e a terra não se
apartem dele, ele assume a responsabilidade de manter a harmonia entre ambos. Isso significa viver
de modo que o alto não se envergonhe do baixo e o baixo não se rebele contra o alto. A sabedoria é
manter o equilíbrio entre o ideal e o concreto, entre o sonho e o dever, entre o espírito e o corpo. O
homem sábio é aquele em quem o céu e a terra se encontram e se reconhecem. O tolo é aquele que
os separa e se perde em fragmentos.
A Ìtànlógica vê neste Ìtàn a fundação de uma ética da correspondência. Tudo o que se faz reverbera,
e toda ação é uma forma de fala. O silêncio, portanto, é também uma fala — talvez a mais
eloquente. Quando Òrúnmìlà silencia depois do sacrifício, é o silêncio que permite a resposta. O
294
silêncio é o espaço onde o eco se manifesta. Falar sem silêncio é como lançar pedra num poço sem
fundo: o som não volta, o gesto não se completa. O homem que não sabe calar não sabe ouvir, e o
que não sabe ouvir não sabe viver. A vida é feita de intervalos, e o silêncio é o intervalo entre o
chamado e a resposta.
Na filosofia do Ifá, o eco é um dos nomes do Espírito. O eco é a memória sonora do universo.
Quando Òrúnmìlà chama o céu, o eco que retorna é a confirmação de que a sua voz foi registrada na
memória do real. A ausência de eco seria o verdadeiro inferno: um mundo onde nada responde,
onde a palavra se perde. Por isso, a resposta do céu não é apenas consolo, é certidão de existência.
Aquele que é ouvido sabe que é real. E aquele que escuta o retorno do seu som descobre que não há
separação entre si e o cosmos.
O Ìtàn, portanto, é um tratado sobre o diálogo entre as dimensões e também sobre a arte de
conversar com o invisível. Òrúnmìlà não fala com o céu para obter benefícios; fala porque o diálogo
é o modo como o ser se reconhece no todo. A oração, aqui, não é súplica, é comunhão. O universo
se renova no instante em que o homem o nomeia com reverência. A palavra justa é a continuação da
criação. O cosmos é um texto vivo, e cada voz humana é uma linha que o prolonga. A oferenda de
Òrúnmìlà é, assim, um ato de escrita sagrada.
No final da Parte 2, compreendemos que o Ìtàn não fala apenas de religião, mas de ontologia da
escuta. O homem é o ouvido do cosmos. O céu fala, a terra responde, e o homem traduz. Essa é a
tríplice tarefa da existência: escutar, responder e harmonizar. Escutar é receber o invisível;
responder é devolvê-lo em forma; harmonizar é manter o ciclo sem ruptura. Aquele que domina
esses três gestos torna-se instrumento de Ifá. O universo toca através dele a sua própria canção.
O som é o primeiro corpo do invisível. Antes que houvesse forma, havia vibração; antes que
houvesse nome, havia ritmo; antes que houvesse palavra, havia respiração. Toda criação começa
com um som que não é ainda voz, mas potência sonora, um sopro que se converte em mundo. A
hermenêutica Ìtànlógica entende que este Ìtàn revela o mistério dessa vibração primordial:
Òrúnmìlà, ao falar com o céu, está repetindo o gesto de Olódùmarè quando pronunciou o universo.
Cada chamada é uma recapitulação do fiat cósmico, o “seja” que ainda ecoa. O som é o meio pelo
qual o ser se recorda de sua origem.
295
Bí a ṣe pè ọ̀run, bé ̣è ̣ ni ayé ń dáhùn — a fórmula contém uma cosmologia acústica. Se o céu
responde à terra, é porque o cosmos é uma rede de sons entrelaçados, uma teia de vibrações que se
reconhecem mutuamente. O som é a língua comum do real, e a existência é uma polifonia infinita.
Quando Òrúnmìlà oferece e fala, ele não apenas pronuncia palavras, mas reorganiza frequências. O
sacrifício é um modo de afinar o mundo. A oferenda é som solidificado, matéria que vibra. A canção
e o rito são inseparáveis, porque o rito é a partitura viva do cosmos.
A palavra em Ifá não é mero instrumento de comunicação; é entidade viva. Cada fonema possui um
peso espiritual, uma direção e um corpo. Por isso, o nome é destino. Chamar é convocar forças.
Aquele que pronuncia o nome de um Òrìṣà não fala apenas de um ser, mas abre uma frequência que
o faz presente. Òrúnmìlà, ao chamar o céu, faz o céu descer; ao falar com a terra, faz a terra subir. O
som é a escada que une os mundos. Essa escada é feita de ressonância e de fé, de ritmo e de
intenção.
A hermenêutica Ìtànlógica considera que o verso “O sopro com que se entra na vida é o mesmo com
que se regressa ao céu” é o ponto axial da metafísica do som. O sopro é o primeiro e o último gesto
do ser. Inspirar é vir ao mundo; expirar é regressar a Ọ̀run. O ciclo respiratório é a lembrança diária
da natureza circular da existência. Viver é um exercício de correspondência rítmica com o todo. Por
isso, Òrúnmìlà pede que o céu e a terra não se apartem dele — pois a separação seria o colapso do
ritmo, a morte antes da morte. A vida é o contínuo respirar de Ọ̀run através de Àiyé.
O som é também ética. No mundo do Ifá, toda palavra tem peso e consequência. Aquele que fala
desequilibradamente perturba o ritmo do cosmos. A mentira é um som dissonante; a raiva é um
trovão fora de hora; a indiferença é o silêncio que não escuta. A verdade, ao contrário, é o som que
se ajusta ao compasso do real. Por isso, Òrúnmìlà fala com o céu com reverência, não com
296
ń
ansiedade. Sua voz é medida, sua intenção é clara, seu coração é transparente. O céu responde
apenas a esse tipo de som — aquele que nasce de uma vibração justa.
O som que se emite e o eco que retorna formam um círculo. Esse círculo é o símbolo da integração
espiritual. Aquele que sabe falar e ouvir vive dentro da roda do Asé. Aquele que fala demais ou
ouve de menos rompe o círculo e se torna ruído. O ruído é o estado espiritual da desatenção. É o
barulho interior do homem que se esqueceu do compasso. Òrúnmìlà, em contraste, representa o
ouvinte supremo, aquele que faz do próprio coração uma concha. Ele escuta o retorno do céu e
compreende que toda resposta divina é também o som de sua própria voz transformada.
O Ìtàn mostra que a comunicação entre os planos é inseparável da escuta interior. Òrúnmìlà não
recebe a resposta do céu nos ouvidos, mas dentro do peito. É o coração que ouve, não a carne. O
ouvido físico capta o som exterior; o ouvido espiritual capta a vibração da verdade. A diferença
entre ambos é que o primeiro depende de distância, o segundo de presença. Escutar o céu é estar
presente no coração do real. O som divino não vem de fora, ele brota. A oferenda não é para atrair o
que falta, mas para abrir o que já existe.
Assim, o Ìtàn ensina que a palavra justa é uma oferenda sonora. Cada sílaba pronunciada com
consciência é um sacrifício invisível. Quando Òrúnmìlà fala ao céu, ele está oferecendo som. O
som, nesse contexto, é alimento dos deuses. O cosmos se sustenta das palavras equilibradas dos
homens. O ruído, ao contrário, alimenta o caos. Por isso, o silêncio e a fala se complementam: o
silêncio nutre a escuta; a fala justa nutre o universo. A ética da palavra é a forma humana da
manutenção do Asé.
A resposta é o espelho do chamado. O eco que retorna ao ouvido de Òrúnmìlà não é apenas a
confirmação de que o céu o ouviu, mas a revelação de que o próprio chamado já continha a
resposta. O Ìtàn, em seu nível mais profundo, fala do mistério da reflexividade divina: o mundo
responde porque o mundo é feito da mesma substância da voz que o chama. Nada está fora do som
primordial — a vibração que inaugurou o cosmos continua ecoando dentro de cada coisa. Por isso, a
resposta não vem de longe; ela amadurece por dentro. Òrúnmìlà aprende, então, que o destino não é
uma estrada que se percorre, mas uma frequência que se reencontra.
O eco de Òrúnmìlà é, portanto, o retorno do divino em forma de consciência. Aquele que se abre à
escuta se torna o lugar por onde o divino se ouve a si mesmo. O homem não fala com os deuses: ele
é o canal pelo qual o som dos deuses se reconhece. O Ìtàn mostra que a voz humana é um órgão da
divindade, e o silêncio humano é o intervalo onde Olódùmarè medita. O corpo, nesse contexto, é o
instrumento do som original. A garganta é o portal, o coração é o tambor, o crânio é o sino. A
resposta que retorna vibra nesses ossos e reordena a interioridade.
298
A resposta que vem do céu é também um ensinamento sobre o tempo. O eco nunca volta idêntico ao
som que o originou; ele retorna modificado pelo espaço que atravessou. Assim é o saber: ele se
transforma no percurso. O que retorna a Òrúnmìlà não é o mesmo que ele enviou — é uma
sabedoria amadurecida. A viagem do som é a pedagogia do espírito. O tempo, entre o chamado e o
eco, é o intervalo da revelação. Cada demora é um aprendizado. O silêncio que precede a resposta
não é ausência, é elaboração. O mundo responde no tempo certo porque o som precisa maturar no
tecido do real.
Essa compreensão dissolve a ideia de distância entre o humano e o divino. O Ìtàn ensina que o céu e
a terra são modos de uma mesma respiração. Quando Òrúnmìlà diz “como se chama o céu, assim
responde a terra”, ele afirma que a diferença entre ambos é apenas rítmica. O alto e o baixo
respiram no mesmo compasso. A resposta é o inspirar do céu à expiração da terra. O diálogo
cósmico é, portanto, o pulsar de um mesmo ser em dois registros. O divino não está fora do mundo,
mas dentro de cada retorno.
A Ìtànlógica, nesse ponto, vê na resposta o momento ético do universo. Tudo o que se emite volta; o
retorno é inevitável. A justiça é apenas o nome espiritual desse retorno. Nenhuma vibração se perde,
nenhuma palavra morre. Tudo o que se envia se recolhe. Essa é a lei da reciprocidade cósmica — a
verdadeira lei de Ifá. Quando Òrúnmìlà pede que o céu e a terra não se separem dele, ele está
pedindo também que nunca se quebre esse circuito de retorno. Pois quando o retorno cessa, o
mundo se desintegra. A separação entre Ọ̀run e Àiyé é a interrupção da resposta: o silêncio do
cosmos diante de um som sem pureza.
Por isso, a pureza de intenção é o requisito da resposta. O céu não responde ao som contaminado
pelo ego, pela avidez ou pelo medo. O eco precisa de espaço para voltar, e o coração turvado é um
labirinto onde a vibração se perde. Òrúnmìlà oferece para limpar o canal da escuta. A oferenda é
menos um pagamento e mais uma purificação acústica. Só o vazio escuta plenamente. O espírito
amadurece quando o ouvido interno se torna espaço. O verdadeiro iniciado é aquele que aprendeu a
ser eco: aquele por quem o som divino passa sem ruído.
Há também um sentido poético neste Ìtàn: o universo é um poema falado entre o céu e a terra.
Òrúnmìlà é o aedo que recita esse poema com reverência. Cada verso seu é devolvido pelo mundo
com uma rima invisível. O poeta, o sábio e o sacerdote são, aqui, uma mesma figura — o homem
299
que escuta o eco e compreende que viver é dialogar com o mistério. O Ìtàn, portanto, é também uma
teoria da arte: criar é responder ao chamado do real. Toda obra verdadeira é uma oferenda sonora ao
silêncio.
E assim, o Ìtàn termina onde começou: no sopro que liga o invisível ao visível, na palavra que não
se esgota, na escuta que refaz o mundo. A resposta é o selo da correspondência divina; o eco é a voz
do infinito devolvida à sua própria origem. O homem que compreende isso caminha em silêncio —
porque seu coração já se tornou som suficiente.
300
8. Ìwòrì Òkànràn
Ọ̀rúnmìlà ní kí a má ṣe yá ẹ̀mí kúrò nínú àṣẹ (Òrúnmìlà disse: que o sopro não se separe do poder de
realização)
Tradução:
301
Para que seu poder não se corrompesse,
O Ìtàn 1 de Ìwòrì Òkànràn revela, em seu primeiro gesto, o drama cósmico da separação e da
reintegração entre Èmí, o sopro vital que anima, e Àṣẹ, o poder que realiza. É o reencontro entre a
força que impulsiona e o princípio que organiza — sem o qual o mundo seria apenas um rumor de
existências inacabadas. O verso — “Òrúnmìlà ní kí a má ṣe yá ẹ̀mí kúrò nínú àṣẹ” — é mais que
uma advertência metafísica; é a própria gramática da continuidade do Ser. Pois o sopro sem poder é
desejo impotente, e o poder sem sopro é estrutura morta. Ambos, unidos, formam o tecido do real, a
O que Òrúnmìlà ensina a Olókun é a arte da coerência ontológica: que nada deve ser separado
daquilo que o sustenta. O mar — imagem de profundidade e mistério — é metáfora do ser que, sem
o sopro, afunda em sua própria densidade. Olókun, ao recolher as águas da terra, corre o risco de
perder o ritmo do sopro que as anima. Seu poder, embora vasto, pode tornar-se prisão se não for
acompanhado de respiração. O mar sem vento é espelho imóvel, e o poder sem vida é o cativeiro da
própria força. Assim, Òrúnmìlà lembra-lhe que toda potência deve permanecer permeável ao hálito
do invisível.
A hermenêutica Ìtànlógica lê este Ìtàn como uma meditação sobre o vínculo entre vitalidade e
eficácia, espírito e obra, intenção e forma. Èmí é o princípio ascendente — eleva, expande, conecta.
302
Àṣẹ é o princípio descendente — concretiza, fixa, dá corpo. A existência é o vaivém entre esses dois
fluxos: a inspiração e a expiração de Olódùmarè. Se um deles falha, a criação se dissolve. Por isso
Òrúnmìlà não fala apenas a Olókun, mas a toda entidade que exerce poder: o governante, o
sacerdote, o poeta, o próprio cosmos. A advertência é universal — “não separe o sopro do poder” —
A separação de Èmí e Àṣẹ é a origem de toda ruína. Quando o humano age sem o sopro — sem
consciência, sem escuta — o poder torna-se brutalidade. Quando sonha sem poder — sem
manter ambos unidos. O verdadeiro poder é aquele que respira, e o verdadeiro sopro é aquele que
cria. Essa é a alquimia secreta do Ifá: fazer da respiração uma forma de governo e da ação uma
forma de oração. Òrúnmìlà é o modelo do equilíbrio: ele respira antes de falar, e fala apenas o que
A advertência de Òrúnmìlà, dirigida a Olókun, é também uma metáfora da crise do mundo moderno
— um mundo que acumulou poder, mas perdeu o sopro. Há técnica, mas não há alma; há
movimento, mas não há direção; há barulho, mas não há ressonância. O homem moderno age sem
respirar, cria sem meditar, constrói sem oferecer. O resultado é um poder que produz esgotamento.
O Ìtàn devolve a lição: o poder só é criador quando respira. A espiritualidade não é fuga da ação,
O Ifá ensina que Èmí é dom de Olódùmarè, e Àṣẹ é sua extensão nas coisas. Separá-los é cortar o
fluxo do divino. Por isso Òrúnmìlà pede a Olókun que ofereça sacrifício: o èbó é o gesto que
reconcilia. Sacrificar é restaurar o circuito, é devolver o ar ao poder, a vida à obra. Todo èbó é uma
respiração entre mundos. O sangue do animal, o óleo do dendê, o pó do obi — tudo são
303
Assim, este Ìtàn pode ser lido como uma cosmogonia em miniatura. Òrúnmìlà fala, Olókun escuta,
palavra que inaugura, o poder é o ouvido que acolhe, e o sacrifício é o gesto que concretiza. O
mundo nasce desse triângulo de ressonâncias. Por isso Òrúnmìlà é chamado ẹlẹ́rì ìpín —
testemunha do destino. Ele é aquele que lembra ao ser que tudo o que respira participa da
A hermenêutica Ìtànlógica compreende ainda que Èmí e Àṣẹ são também duas faces da linguagem.
O sopro é o som, e o poder é o sentido. O som sem sentido é ruído; o sentido sem som é silêncio
morto. O verbo justo é aquele em que o som e o sentido respiram juntos. Assim, a fala de Òrúnmìlà
é exemplar: ele pronuncia o que cria, cria o que pronuncia. Cada palavra é uma oferenda sonora,
Este Ìtàn, portanto, inaugura a reflexão de Ìwòrì Òkànràn sobre a “unidade vital do ser”: o homem e
o mundo como respiração mútua. O que se realiza fora precisa estar sustentado pelo que respira
dentro. O poder sem alma é devastação; a alma sem obra é esterilidade. A sabedoria é o ponto em
que ambos se tocam — o gesto que respira, o sopro que age. Òrúnmìlà é o arquétipo desse ponto.
Sua voz é vento que pensa; seu pensamento é vento que cria.
A ação é a respiração do espírito no tempo. O mundo visível é o rastro daquilo que o invisível
expira; toda forma é o resíduo do sopro. Por isso, separar Èmí de Àṣẹ é separar o espírito de sua
Ifá, isso significa a perda da coerência entre intenção e gesto, entre origem e obra. A hermenêutica
Ìtànlógica lê esse verso de Òrúnmìlà como um tratado sobre a necessidade da consonância entre o
que se deseja e o que se faz, entre o que se pensa e o que se pronuncia. A coerência ontológica é o
304
O ser humano é o ponto onde o sopro e o poder se encontram em forma viva. O corpo é o
reconhecem. Quando a consciência tenta agir sem o corpo, há abstração; quando o corpo age sem
torna consciência e a consciência se faz corpo. O homem deixa de ser aquele que age e torna-se
aquele por quem o Àṣẹ age. O poder flui sem resistência, e o sopro o conduz como vento em vela
aberta.
Olókun, ao seguir o conselho de Òrúnmìlà, encarna essa lição: seu sacrifício não é apenas um ato de
obediência ritual, mas uma pedagogia metafísica. Ele reconhece que o poder que acumula — as
águas profundas — precisa ser atravessado pelo ar. Sem o ar, o oceano seria prisão, sem
movimento, sem vida. Ao permitir que o sopro o habite, Olókun transforma o peso em movimento,
o poder em fecundidade. É por isso que o mar respira: a maré é o pulso visível do casamento entre
integração. A vida é feita de polaridades — alto e baixo, visível e invisível, inspiração e concretude
— e a sabedoria consiste em não permitir que uma engula a outra. O erro humano, segundo
governante, o artista e o pensador devem aprender que o poder só floresce quando permanece
permeável ao sopro. Quando o poder se fecha, ele apodrece; quando o sopro se dispersa, ele se
perde.
Essa lição ecoa na própria estrutura do Òdu: Ìwòrì é o signo do movimento do pensamento, do
encontro de ambos é o nascimento da obra inspirada — o gesto que pensa, o pensamento que age.
No plano humano, isso significa que toda criação autêntica nasce do casamento entre imaginação e
305
disciplina. Sem o rigor de Òkànràn, Ìwòrì se dissolve em abstrações; sem o sopro de Ìwòrì, Òkànràn
Na tradição de Ifá, o sopro não é metáfora: é substância divina. Èmí é o hálito de Olódùmarè, o fogo
silencioso que anima o sangue, o que se move dentro da quietude. Àṣẹ, por sua vez, é o princípio
que transforma esse fogo em forma, que dá contorno e destino ao indeterminado. A relação entre
ambos é o núcleo da cosmologia iorubá — uma cosmologia de continuidade, não de oposição. Nada
existe que não respire; nada respira sem emitir poder. Essa visão dissolve a dicotomia entre matéria
Por isso, a separação de Èmí e Àṣẹ é mais que uma falha moral: é uma enfermidade ontológica. O
ser que age sem o sopro adoece, e o que sonha sem agir definha. A cura espiritual, no Ifá, é a
restauração dessa harmonia. O Bàbáláwo cura não porque impõe poder, mas porque devolve o ritmo
do sopro ao corpo e à palavra. Ele sopra sobre o obi, sopra sobre o opon, sopra sobre o pó de Ifá —
cada sopro é um ato de reintegração. A palavra “àsé ̣” não é mero selo verbal: é o próprio sopro em
ação.
O Ìtàn convida também a uma leitura antropológica: a humanidade, para o Ifá, não é definida pela
razão, mas pela respiração. O homem é aquele que compartilha o sopro com os Òrìṣà e com o
cosmos. Ser humano é participar do mesmo ar que move o universo. Quando Òrúnmìlà diz que Èmí
e Àṣẹ não devem se separar, ele está lembrando que a vida coletiva — política, social, ecológica —
depende do mesmo princípio. Separar o sopro do poder é também destruir o tecido da comunidade.
O poder sem sopro se torna tirania; o sopro sem poder se torna impotência coletiva.
O gesto de Olókun, portanto, não é apenas individual, mas cósmico. Ao misturar as águas, ele
ensina o princípio da mistura como fundamento do ser. Tudo o que vive é mistura — de ar e água,
de luz e sombra, de voz e silêncio. O puro é o que morreu; o misturado é o que respira. A ética
iorubá é, nesse sentido, uma ética da mestiçagem ontológica: a verdade está no entrelaçamento. O
306
sopro e o poder são o primeiro entrelaçamento, o arquétipo da relação. Separá-los seria instaurar o
deserto.
A hermenêutica Ìtànlógica vê, nessa dinâmica, uma chave para compreender o modo iorubá de
pensar o divino: Olódùmarè não é uma figura distante, mas o próprio ato de respiração universal. O
a reza, a música, o toque do tambor — todos são modos de lembrar o mundo de que ele respira. A
do tempo.
Assim, Òrúnmìlà ensina que o segredo da sabedoria está em manter o poder permeável ao ar e o ar
comprometido com a terra. Não se trata de fugir do poder, mas de fazê-lo vibrar com o sopro. O
verdadeiro poder é aquele que sabe escutar; o verdadeiro sopro é aquele que sabe permanecer. O
homem justo é, portanto, aquele cujo coração respira e cujas mãos realizam. Ele fala pouco porque
cada palavra sua carrega vento e forma. Sua presença modifica o ar.
E no centro dessa lição há uma metafísica da atenção. Respirar é perceber. Aquele que respira
consciente participa do ritmo cósmico; aquele que respira distraído vive fora do compasso.
Òrúnmìlà chama de volta essa atenção primordial. Cada ato deve ser precedido por respiração, cada
palavra por silêncio. O sopro é a lembrança do vínculo entre a criatura e o Criador. Olókun, ao
aprender isso, torna-se espelho das profundezas: já não é o mar que aprisiona, mas o mar que reflete
o céu.
respiração é o primeiro ato de consciência e o último gesto do ser. Entre ambos, toda existência é
apenas o intervalo desse sopro prolongado. No Ifá, esse intervalo é o campo da experiência — o
espaço em que o invisível se reconhece em forma. Èmí e Àṣẹ são, assim, os dois polos do mesmo
fôlego cósmico: o primeiro inspira, o segundo expira. Inspirar é voltar-se para a origem; expirar é
entregar-se ao mundo. Quando Òrúnmìlà diz “não separe o sopro do poder”, ele está ordenando ao
307
homem que não interrompa essa respiração cósmica. Separar Èmí de Àṣẹ é interromper a circulação
da vida.
com o real. O intelecto que se isola de Èmí torna-se seco, árido, incapaz de intuir. O pensamento
precisa de ar — não o ar físico, mas o movimento interior que o conecta ao mistério. O saber de
Òrúnmìlà não é acúmulo de dados, mas fluxo rítmico entre percepção e silêncio. Cada inspiração
aquele que ouve a respiração do cosmos e a traduz em versos. Por isso o Ifá é, antes de tudo, uma
ciência da respiração.
Quando o Bàbáláwo sopra sobre o pó de Ifá, não realiza um gesto simbólico, mas restitui o ar à
matéria. O pó é a memória imóvel da terra; o sopro o desperta. Nesse instante, o cosmos repete seu
Cada consulta de Ifá é, portanto, uma nova criação. O mundo renasce no momento em que o pó
vibra e o som se faz palavra. A verdade não é algo que se descobre, mas algo que se respira.
o espaço que o acolhe. O diálogo entre Òrúnmìlà e Olókun é o modelo de toda comunicação
sagrada: falar é exalar a alma; ouvir é inspirá-la de volta. O erro humano começa quando a palavra
perde a escuta, quando o som deixa de se dobrar ao silêncio. Toda violência é, em essência, uma
fala sem fôlego. O mundo moderno tornou-se asmático porque fala demais e respira de menos. A
A Ìtànlógica interpreta essa crise como uma perda do ritmo espiritual. O ritmo é a lei secreta da
criação. Ele é o vínculo entre o tempo e o eterno, o pulso que permite à finitude respirar a
infinitude. O mundo só é belo quando respira. O corpo só é saudável quando vibra em harmonia
com esse ritmo. A doença, em todos os níveis, é uma desritmia: o corpo que perdeu o compasso, o
308
espírito que perdeu o fôlego. Òrúnmìlà, ao advertir que Èmí e Àṣẹ não se separem, oferece a cura
A respiração é também medida ética. O homem equilibrado é aquele cuja palavra tem o mesmo
ritmo do coração. Falar com calma é permitir que o sopro acompanhe o pensamento. A pressa é a
perda da harmonia entre Èmí e Àṣẹ. Cada ação precipitada é um gesto sem respiração, um poder
sem alma. O sábio é o que respira antes de agir, que transforma o ar em presença. Essa ética da
respiração é o núcleo da iwa-pẹ̀lẹ́ — o caráter sereno que sabe que o poder é inseparável da calma.
A respiração é ainda uma hierofania, uma manifestação do invisível no corpo. Quando o ar entra, o
invisível toca a carne; quando sai, a carne devolve ao invisível o que recebeu. O corpo é o altar
dessa troca. Ele não é prisão, mas instrumento. O erro metafísico do Ocidente foi transformar o
corpo em obstáculo da alma. Para Ifá, o corpo é o lugar onde o divino se recorda. A respiração é o
rito que mantém essa recordação viva. Respirar conscientemente é participar do culto universal.
A hermenêutica Ìtànlógica vê também na união entre Èmí e Àṣẹ o princípio da criação artística.
Toda arte é uma respiração tornada forma. O escultor sopra sua intenção no barro; o músico sopra
no vento; o poeta sopra no silêncio. A obra é o fôlego solidificado. A arte, por isso, é uma forma de
oferenda: o artista devolve ao mundo o ar que recebeu da divindade. No Ifá, essa oferenda é
permanente — cada verso, cada tambor, cada dança é uma respiração compartilhada com o cosmos.
No campo da consciência, essa união se expressa como atenção. A atenção é o modo de respirar o
instante. A mente dispersa é um pulmão rasgado: ela inspira demais, expira de menos; retém o ar do
passado e o sufoca no futuro. Òrúnmìlà ensina o equilíbrio: o presente é a respiração plena, onde o
ar entra e sai sem resistência. O iniciado aprende a respirar o agora, e o agora o devolve ao eterno.
O tempo, para Ifá, é o movimento do sopro: é o mesmo ar que passa por todos os instantes.
309
Por fim, há neste Ìtàn uma dimensão cósmica: o universo inteiro é o corpo que respira o poder de
Olódùmarè. As estrelas são poros, os ventos são veias, os oceanos são pulmões. O sopro divino
percorre tudo, mantendo o equilíbrio entre expansão e recolhimento. Cada colapso de estrela, cada
nascimento de mundo é uma inspiração e uma expiração cósmica. A ciência moderna chama isso de
pulsação universal; Ifá chama de união de Èmí e Àṣẹ. O nome muda, o sopro é o mesmo.
Assim, quando Òrúnmìlà adverte “não separe o sopro do poder”, ele está dizendo: não interrompa a
criação, não rompa a comunhão entre vida e forma. Ele fala ao homem, ao cosmos, à história. Cada
vez que o humano perde o fôlego da consciência, o mundo se torna pesado. Cada vez que recupera
o ritmo, o universo canta de novo. A respiração é o hino silencioso da eternidade, e viver é apenas
acompanhar-lhe o compasso.
A respiração é a liturgia do Ser. Não há templo mais antigo que o ar, nem rito mais permanente que
o movimento entre inspiração e expiração. O homem foi criado para servir nesse altar invisível:
cada fôlego é uma oferenda a Olódùmarè, cada exalação é a restituição do mundo à sua fonte. O
Ìtàn de Ìwòrì Òkànràn encerra-se, portanto, num ponto em que o sagrado e o humano coincidem
pela via do respirar. Òrúnmìlà, ao advertir que Èmí e Àṣẹ não devem se separar, revela o princípio
que mantém coeso o universo e a alma. O sopro é o canal por onde o divino se renova dentro do
humano, e o poder é o modo como o humano prolonga o divino na terra. Quando um se distancia do
A hermenêutica Ìtànlógica lê esse verso como uma filosofia da presença. Estar presente é respirar
com o mundo. O homem distraído vive fora da respiração do real: sua mente corre, mas seu corpo
não o acompanha; seu poder se move, mas seu espírito não o sustenta. O iniciado, ao contrário, é
aquele que habita a respiração universal, que faz do próprio corpo um instrumento de equilíbrio. Ele
é o mediador entre os planos, a ponte que respira por ambos. O Ìtàn mostra que a respiração não é
310
apenas fisiologia, mas método ontológico — o modo pelo qual o Ser se mantém coerente consigo
mesmo.
Na cosmologia de Ifá, tudo o que existe é uma expressão de Àṣẹ animado por Èmí. A pedra tem seu
sopro, o rio tem seu sopro, o vento é o próprio sopro. A morte, nesse contexto, não é o fim, mas a
redistribuição do ar: o sopro retorna à origem, o poder se dissolve, e ambos aguardam nova
conjunção. Por isso Òrúnmìlà não fala em termos de vida e morte, mas de fluxo e interrupção. Viver
é estar no fluxo; morrer é perder o ritmo. O rito, a palavra, o silêncio e a música são apenas
A advertência a Olókun ganha, então, uma dimensão interior: o mar é também a psique. Suas águas
são as emoções, suas profundezas são o inconsciente. Quando o sopro falta, as águas tornam-se
estagnadas; quando o poder se inflama sem ar, as ondas tornam-se destrutivas. A saúde interior é o
equilíbrio entre profundidade e respiração. Por isso Òrúnmìlà não condena o poder das águas, mas
ensina-as a respirar. O homem deve fazer o mesmo: permitir que o poder de sua alma seja
O Ìtàn, ao fundir o cosmogônico e o psicológico, mostra que a verdadeira força é rítmica. A rigidez
é sinal de fraqueza, a flexibilidade é sinal de poder. O bambu é mais forte que o carvalho porque se
curva ao vento. Assim é o ser que respira — ele não resiste ao sopro, dança com ele. Èmí e Àṣẹ são
os dois passos dessa dança: um conduz, o outro sustenta. Òrúnmìlà é o dançarino que compreendeu
que dançar é existir. A vida sem dança é apenas peso; a dança sem respiração é apenas ruído.
No plano mais elevado, a união de Èmí e Àṣẹ é o próprio mistério da palavra criadora. Olódùmarè
soprou e disse — e o mundo aconteceu. A fala divina é o encontro do ar com o poder. Cada vez que
o homem fala em estado de pureza, repete o gesto inaugural do cosmos. O verbo é o sopro que se
torna forma. Separar o sopro do poder é pronunciar o nome de Deus sem fôlego, e isso é o mesmo
311
A hermenêutica Ìtànlógica vê ainda neste Ìtàn o fundamento da estética de Ifá: a beleza é o ponto
em que o sopro e o poder se harmonizam. Uma casa bela é aquela que respira; uma canção bela é
aquela em que o som e o silêncio se alternam; uma vida bela é aquela em que a ação e o
recolhimento se equilibram. O homem que compreende isso vive em estado de Asé respirante — ele
age sem forçar, fala sem excessos, ama sem prender. A beleza, nesse sentido, é o perfume do sopro
equilibrado.
A advertência de Òrúnmìlà é também uma profecia sobre o destino da humanidade: sempre que o
poder se torna autônomo e se esquece do sopro, o mundo entra em colapso. As civilizações perecem
não pela falta de força, mas pela falta de ar espiritual. O sopro é o oxigênio do poder. O trabalho do
iniciado é reoxigenar o mundo, reconectar o poder à respiração. Cada reza, cada tambor, cada
No campo da consciência, a união de Èmí e Àṣẹ se traduz como silêncio ativo. O silêncio é a
respiração da palavra, o intervalo que lhe dá forma. A mente que sabe silenciar sabe respirar. O
silêncio é o momento em que o poder se recolhe para não se corromper. Por isso, o sábio fala
pouco: sua economia verbal é um modo de preservar o sopro. Ele não desperdiça o ar que o
sustenta. Sua palavra, quando vem, é plena porque vem acompanhada de respiração.
linguagem e na história. O que Òrúnmìlà transmite a Olókun é a lembrança de que nada se mantém
sem respirar — nem o corpo, nem o poder, nem o mundo. O sopro é o nome secreto de Olódùmarè
dentro de cada ser. E o poder, quando fiel ao sopro, é a assinatura de Olódùmarè nas obras do
homem. Quando ambos respiram juntos, o universo permanece afinado, e a vida torna-se canto.
Entre o ar e o mar, entre o verbo e o silêncio, Òrúnmìlà sussurra a lei invisível que sustenta o todo:
312
Ìtàn 2 – Ìwòrì Òkànràn
Ọ̀nà tí a bá mọ̀ ni a fi ń gba ayé (É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo)
Tradução:
313
Òrúnmìlà ofereceu sacrifício com uma ave, seis ovos e uma faca de inhame.
O caminho é o corpo visível do destino. Antes de ser estrada, ele é vibração, intenção e respiração.
O Ìtàn de Ìwòrì Òkànràn abre a escuta para a ontologia da travessia: não se caminha porque há
chão, caminha-se porque há sentido. O chão nasce dos passos, não o contrário. Òrúnmìlà, ao dizer
“Ọ̀nà tí a bá mọ̀ ni a fi ń gba ayé” — é pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo —,
revela que o saber em Ifá não é uma posse, mas uma prática contínua. Conhecer o caminho é o
mesmo que se deixar conduzir por ele. O conhecimento, no Ifá, é uma forma de movimento.
No princípio, o mundo não estava feito, mas era um emaranhado de trilhas invisíveis. Cada Òrìṣà
abriu o seu caminho, não apenas no espaço, mas no tempo e na consciência. Òrúnmìlà, como
testemunha da criação, não é apenas o sábio que conhece os caminhos, mas aquele que sabe
caminhar entre mundos. Ele conhece a linguagem dos espaços, o ritmo das pausas, a distância justa
entre o passo e o chão. Por isso, Òrúnmìlà não se perde. O que o guia não é o mapa, mas o sopro do
Esse Ìtàn ensina que o erro do homem não é ignorar o destino, mas caminhar sem consciência do
próprio trajeto. O mundo moderno confunde movimento com direção. O homem corre, mas não
sabe para onde. A aceleração se tornou um vício ontológico: acredita-se que mover-se é existir. No
314
entanto, Òrúnmìlà ensina o inverso — quem se move sem saber, se distancia de si. O verdadeiro
caminho não é o que leva para frente, mas o que faz reconhecer o ponto de partida. Caminhar, em
Ifá, é uma operação de retorno: cada passo consciente é um reencontro com a origem.
A travessia de Òrúnmìlà até Ilé Ìkàró é, portanto, uma alegoria da iniciação. Todo iniciado é aquele
que atravessa o mundo visível sustentado pelo invisível. As montanhas e as terras que o protegem
são forças arquetípicas do cosmos, os ẹ̀mí àlàkànṣe — espíritos que testam a coerência de quem
viaja. A estrada é viva; ela reconhece o viajante. Quando Òrúnmìlà realiza o sacrifício, ele não está
Na hermenêutica Ìtànlógica, “saber o caminho” não é mera orientação espacial, mas um estado de
abre quando a estrada dentro está desimpedida. Òrúnmìlà entende que não há viagem no mundo que
não seja também uma viagem da alma. Cada travessia física é um reflexo da travessia interior. O
A epistemologia de Ìwòrì Òkànràn é, assim, uma crítica à ideia de conhecimento como acúmulo. O
conhecimento não é o que se carrega, mas o que se atravessa. Òrúnmìlà viaja leve, pois o peso
impede o passo. Ele sacrifica o excesso — representado pela ave, pelos ovos e pela faca — para
tornar-se passagem pura. O saber é o espaço entre o que se sabe e o que ainda não se sabe, uma
zona de travessia permanente. O homem que acumula sem atravessar transforma o saber em
obstáculo.
A frase “é pelo caminho que se conhece” traz em si uma revolução epistemológica: o conhecimento
não é prévio ao caminhar, ele nasce da caminhada. A verdade não precede a experiência, emerge
dela. Esse princípio é a base do método Ìtànlógico — o saber narrativo e experiencial que se revela
315
na travessia entre o dito e o vivido. A palavra de Ifá não é estática, é estrada. Cada verso é um
Na leitura antropológica do Ìtàn, Òrúnmìlà é o modelo do sujeito que sabe se mover sem romper os
vínculos. O homem contemporâneo se perde porque rompe o elo com as forças que sustentam o
mundo. Caminha sobre a terra como se ela fosse morta. Òrúnmìlà, ao contrário, toca o chão com
reverência: ele sabe que cada grão de poeira é guardião de uma memória cósmica. O caminho que
A expressão “Ilé Ìkàró” — a casa da travessia — é simbólica: representa o destino final da jornada
de consciência, o ponto onde o saber e o ser coincidem. Chegar a Ilé Ìkàró é alcançar a sabedoria do
retorno. Òrúnmìlà chega leve, sem perda, porque compreende que o caminho é inseparável do
caminhar. O iniciado que entende isso deixa de ver o mundo como cenário e passa a vê-lo como
Esse Ìtàn ensina que o homem só se perde quando confunde o atalho com o destino. O atalho
promete rapidez, mas rouba o sentido. Òrúnmìlà recusa o atalho porque sabe que o tempo da estrada
A hermenêutica Ìtànlógica lê, portanto, “Ònà tí a bá mọ̀ ni a fi ń gba ayé” como uma máxima ética e
travessia da vida. O desconhecimento de si é a verdadeira perdição. O que nos perde não são as
distâncias, mas a ignorância do próprio passo. O mundo se abre para quem caminha com o coração
desperto.
A travessia é o coração da existência. O universo inteiro é uma longa migração do invisível para o
visível e de volta ao invisível. A cada instante, o Ser atravessa a si mesmo. É por isso que Òrúnmìlà,
316
ao dizer que “é pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo”, fala não apenas de
Não há mundo sem travessia, e não há travessia sem consciência. Aquele que caminha desperto é
coautor da criação; aquele que caminha dormindo é apenas levado pelas correntes do tempo.
Na cosmologia de Ifá, o caminho não é uma linha, mas uma teia viva que conecta Ọ̀run e Àiyé.
Cada escolha, cada gesto, cada palavra traça um sulco nessa teia, expandindo ou contraindo o fluxo
do Àṣẹ. Caminhar, portanto, é uma arte divina — a arte de traçar o destino em harmonia com o
ritmo do universo. Òrúnmìlà, ao sacrificar antes de partir, não está pedindo proteção, mas
realinhando seu passo ao passo do cosmos. O sacrifício é o momento em que o viajante afina o
predeterminação, mas caminho potencial. Cada ser recebe um itinerário essencial antes de nascer,
mas o modo de percorrê-lo é obra da consciência. Òrúnmìlà ensina que não há destino sem decisão,
e que a liberdade consiste em caminhar com o destino, não contra ele. O destino é a estrada; a
vontade é o andarilho. O erro do homem é querer impor à estrada o seu próprio desenho,
Quando Òrúnmìlà se dirige a Ilé Ìkàró, ele não busca um lugar físico, mas o ponto de reconciliação
entre destino e escolha. A cada passo, o caminho o reconhece — pois o universo responde àquele
que caminha com reverência. Os ẹ̀mí àlàkànṣe, espíritos do engano, representam as ilusões da
mente: as vozes que desviam o viajante do propósito essencial. O sacrifício realizado por Òrúnmìlà
é, nesse sentido, uma purificação perceptiva — ele oferece o que é denso (o animal, os ovos, a
lâmina) para tornar-se leve. A leveza é o estado natural de quem se alinha ao seu destino.
A hermenêutica Ìtànlógica entende que o verdadeiro conhecimento do caminho não é racional, mas
ontológico: é uma ressonância entre o ser e o trajeto. Saber o caminho é sentir-se dentro dele, como
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o peixe dentro d’água. O que se conhece por dentro não se esquece. Por isso, o iniciado não precisa
de guias externos: seu corpo é o mapa. O corpo em Ifá é uma escritura viva, onde cada órgão, cada
pulsação, corresponde a uma energia cósmica. Caminhar é também ler o corpo do mundo — os
O caminho, portanto, é pedagógico. Ele ensina pela dificuldade. O que se perde na estrada é o que
não pertence mais. A dor da travessia é o preço da clareza. Òrúnmìlà não teme o percurso, porque
sabe que o caminho não é obstáculo, é espelho. Tudo o que nos ocorre em viagem é reflexo do que
ainda precisa ser compreendido dentro de nós. O mundo externo apenas dramatiza as lições
O sentido do verso “ó gbé ẹbọ náà sórí òpó ọ̀nà” — ele colocou a oferenda à beira da estrada — é
profundo. A beira do caminho é o limiar entre o conhecido e o desconhecido. É ali que o poder do
homem encontra o mistério do divino. Cada sacrifício é uma negociação entre ambos: o humano
Èṣù, o guardião dos caminhos, o mediador das travessias. Sem Èṣù, não há passagem possível. É
por isso que o próprio conhecimento, em Ifá, é sempre atravessado pela incerteza. Saber é caminhar
entre enigmas.
A frase “ó bá dé Ilé Ìkàró lọ́fà-lọ́fà” — Òrúnmìlà chegou como flecha — simboliza o estado do ser
que se move sem atrito. A flecha não luta contra o ar; ela o fende com precisão. O iniciado, quando
alinha seu movimento ao Àṣẹ do universo, torna-se como a flecha: penetra o real sem esforço,
atravessa o tempo sem dispersão. Ele é leve, mas não superficial; rápido, mas não impaciente. O
mundo moderno, ao contrário, perdeu essa leveza essencial. Carrega conhecimento demais e
Na leitura teogônica, Òrúnmìlà encarna a sabedoria de Olódùmarè que se faz caminho. Ele é o eixo
318
Òrúnmìlà: cada jornada humana é um reflexo microscópico da jornada do próprio divino em direção
O Ìtàn nos ensina, portanto, que o conhecimento não se transmite — se caminha. O verdadeiro
mestre não entrega mapas, mas desperta a capacidade de andar. Por isso Òrúnmìlà não dita regras,
mas revela ritmos. O discípulo não precisa de respostas; precisa de fôlego. O aprendizado é o
exercício de respirar com o caminho, de deixar que cada curva nos modifique. O destino não se
conquista, se respira.
A hermenêutica Ìtànlógica lê “Ilé Ìkàró” como metáfora do ponto onde a sabedoria se encarna. É o
lugar onde o verbo se faz gesto. O mundo não é lugar de passagem, mas de revelação. O caminho
não leva a outro mundo — ele é o próprio processo pelo qual o invisível se faz mundo. O iniciado
que compreende isso deixa de buscar saídas e aprende a permanecer. O caminho não é o que nos
O silêncio é o verdadeiro guia do caminho. Quando Òrúnmìlà declara que é pelo caminho que se
conhece o mundo, ele está dizendo também que o conhecimento se move pelo som do que não é
dito. O silêncio, em Ifá, não é ausência de som, mas a plenitude do sentido. É no silêncio que o
caminho fala, e é no silêncio que o caminhante aprende a escutar o ritmo oculto da realidade. A
pressa de quem quer chegar é a surdez de quem não ouve a estrada. Por isso, Òrúnmìlà viaja com
origem. O caminho exterior é o espelho do caminho interior; os desvios do mundo são as distrações
da consciência. Òrúnmìlà não se perde porque aprendeu a estar inteiro em cada passo. Ele não
319
Aqueles que se perdem no caminho não erram o destino, erram o modo de caminhar. O
profanar a estrada; caminhar com calma é consagrá-la. O iniciado que entende isso percebe que a
estrada não está fora, mas se abre dentro dele a cada gesto. A estrada é o traço espiritual que liga a
intenção à realização. Ela se estreita quando o desejo domina e se amplia quando o ser confia.
Por isso Òrúnmìlà oferece o sacrifício à beira do caminho. O sacrifício é um modo de aquietar o
desejo. O mundo interior precisa de silêncio para que o caminho se revele. O ruído do ego é o que
desvia o viajante. Em Ifá, o conhecimento não se conquista por argumentação, mas por purificação.
O silêncio limpa os olhos da alma. O que Òrúnmìlà faz ao sacrificar é justamente devolver ao
silêncio o poder de guiar. Ele oferece as vozes confusas do seu interior ao apaziguamento cósmico.
Na filosofia Ìtànlógica, o silêncio é o lugar onde o ser e a linguagem se reconciliam. A palavra nasce
do silêncio como o rio nasce da fonte. Mas a fonte precisa ser protegida da lama. Falar antes de
escutar é o mesmo que caminhar antes de ver. Òrúnmìlà sabe que o mundo se revela a quem se
recolhe. Por isso, sua fala é sempre oracular, pausada, envolta em mistério. Cada verso de Ifá é uma
A modernidade, ao contrário, perdeu o silêncio. Confunde fala com saber e informação com
entre ruídos, incapaz de ouvir o som da própria respiração. Òrúnmìlà, se estivesse entre nós, não
falaria alto — ele recolheria o mundo ao silêncio. Porque o conhecimento verdadeiro não se
Quando Òrúnmìlà chega a Ilé Ìkàró, ele chega em estado de escuta plena. Ele não pergunta, ele
percebe. O mundo o recebe porque ele já está afinado com a vibração do lugar. O saber de Ifá é
sempre vibracional antes de ser discursivo. O verso “os espíritos do alto o ergueram, os espíritos da
320
terra o sustentaram” descreve um corpo em harmonia com o cosmo. O homem alinhado ao seu
sopro do universo. Ele deixa de resistir e começa a fluir. O caminho conhecido é aquele que ressoa
com o ritmo da própria alma. Por isso, em Ifá, não há caminho errado — há caminhos dissonantes.
O erro é caminhar fora do próprio tom. Cada ser tem um compasso próprio, uma cadência de vida.
O silêncio é a escuta desse compasso. Ele é a música anterior ao som. Òrúnmìlà é o mestre do
silêncio porque sua sabedoria não vem do que ele fala, mas do que ele ouve. Ele é a ponte entre o
mundo que fala e o mundo que cala. Sua palavra é como a flecha: atravessa sem ferir, corta sem
dividir. É por isso que o saber de Ifá é sempre poético — ele não explica, ele toca. O poema é a
viva, e o silêncio é a gramática do invisível. Ler o mundo, como faz Òrúnmìlà, é interpretar o ritmo
do real. Cada passo é uma leitura, cada pausa, uma pontuação. O corpo é a caneta do destino. O
Quem aprende a caminhar em silêncio aprende a ver com os ouvidos e a ouvir com o coração. O
conhecimento então deixa de ser ideia e se torna presença. O silêncio não é ausência de palavras, é a
linguagem do que não precisa ser dito. É o estado em que o ser coincide com o mundo. Aquele que
Aquele que se torna caminho é o que compreendeu o segredo de Ifá: ninguém atravessa sozinho. O
saber de Òrúnmìlà não é um privilégio pessoal, é uma via aberta. Cada jornada individual, ao se
cumprir, torna-se estrada para outros. Assim é a natureza da sabedoria — ela não se acumula, se
321
distribui. O homem sábio é aquele por cujos passos outros aprendem a caminhar. E, no entanto, o
verdadeiro mestre é aquele que, ao abrir o caminho, se apaga nele. Ele não reivindica autoria da
Òrúnmìlà, ao chegar a Ilé Ìkàró, não ergue monumentos, não reivindica glória. Seu gesto final é o
recolhimento. Ele cumpre o percurso e o devolve ao silêncio. Porque o saber, em Ifá, não se exibe
— se oferece. O conhecimento é uma dádiva anônima que floresce na comunhão entre mundos. O
mestre não é aquele que fala, é aquele que encarna o ensinamento. O que ele transmite não é
doutrina, mas presença. Por isso, quem aprende com Òrúnmìlà não o imita, mas desperta para o seu
próprio caminho.
Na ética Ìtànlógica, o caminhar de Òrúnmìlà é um paradigma da convivência. Ele mostra que viver
é co-habitar o mundo com todas as coisas — pedras, ventos, rios, ancestrais. O homem moderno
separou o existir do compartilhar. Quer o mundo para si, como se a estrada fosse propriedade. Mas,
em Ifá, o caminho é coletivo. Cada passo dado por um é sustentado pelos passos de muitos —
O ensinamento ético de Ìwòrì Òkànràn é simples e grandioso: não se pode atravessar o mundo sem
cuidar da estrada. O respeito pelo caminho é respeito pela vida. Cada gesto impensado, cada palavra
destrutiva, é uma pedra lançada na trilha de outro. Òrúnmìlà sacrifica para limpar o caminho — não
apenas o seu, mas o de todos que virão. Ele entende que o bem não é uma virtude abstrata, mas um
modo de caminhar que não fere o solo. A ética, em Ifá, é ecológica: é a arte de existir sem rasgar o
tecido do mundo.
Há, também, uma dimensão iniciática nesse ensinamento. O iniciado não caminha mais para si, mas
como canal de passagem. Ele se torna ponte. Seu corpo e sua vida se transformam em território
sagrado de travessia. Essa é a mais alta realização: desaparecer como indivíduo para permanecer
322
como caminho. O ego se dissolve na função. Assim, Òrúnmìlà não é apenas um nome, mas um
Na travessia iniciática, cada obstáculo é uma forma de lapidação. O caminho nos molda. Aquilo que
resiste, ensina. As dores e os tropeços não são punições, mas rituais de afinação. O viajante que
aceita a dor como mestra se aproxima da sabedoria de Òrúnmìlà. Ele aprende que o destino não é o
ponto final, mas o modo como se caminha. A perfeição não é ausência de erro, é fidelidade ao ritmo
do ser.
O mestre de Ifá caminha à frente, mas também atrás, e, às vezes, ao lado. Ele sabe que cada ser tem
um tempo de travessia. Por isso, não força o passo de ninguém. Ele apenas mantém o ritmo do
cosmos, deixando que os outros sintam o compasso. O ensinamento não é imposição, é contágio. A
presença do sábio não ensina pela palavra, mas pela vibração. Estar perto dele é aprender a
Òrúnmìlà é aquele que guia sem possuir. Sua estrada é o dom do desapego. Ele ensina que o
todos, mas só se revela a quem caminha com reverência. Essa é a pedagogia do invisível — o
mestre desaparece para que o ensinamento apareça. Òrúnmìlà é o invisível que sustenta todas as
travessias.
No fim, o caminhante descobre que o caminho não o leva a outro lugar, mas o devolve ao seu
centro. A estrada é um círculo, e o destino é o próprio ponto de partida, agora iluminado pela
experiência. Òrúnmìlà ensina que não há fim, apenas renovação. O caminhar é eterno, porque o
universo é movimento. Quando o homem compreende isso, ele encontra a paz: não precisa mais
323
O silêncio que encerra o Ìtàn é o mesmo que o iniciou. A palavra de Òrúnmìlà fecha o ciclo: “É pelo
caminho que se conhece que se atravessa o mundo.” O saber, portanto, é inseparável da vivência; a
tornar-se estrada. O iniciado que entende isso se torna o próprio eixo do mundo — um ser que, ao
Assim, Ìwòrì Òkànràn é o Odù do retorno consciente. Ele revela que o verdadeiro destino é tornar-
se passagem — o ponto onde o humano e o divino se encontram. Òrúnmìlà, o que caminha sem se
perder, é o espelho do próprio Olódùmarè em movimento. Ele é a estrada viva entre Ọ̀run e Àiyé. E
aquele que compreende sua lição torna-se também caminho, também sopro, também silêncio.
Ó ń wá ara rẹ̀.”
324
Tradução:
primeira queda, e toda a história da humanidade é o esforço de retorno a esse ponto de origem onde
o ser ainda sabia o seu próprio nome. Òrúnmìlà, ao perguntar “O que o homem procura que
ninguém conhece?”, não faz uma indagação filosófica abstrata, mas ecoa o lamento do próprio
325
Em Ìwòrì Òkànràn, a consciência humana é apresentada como um movimento de busca que se
expande para fora, acreditando que o sentido da vida está nos objetos do mundo. O homem procura
riqueza, reconhecimento, poder, amor, mas quanto mais procura, mais se distancia. O erro não está
em buscar, mas em buscar fora. Òrúnmìlà, ao oferecer o sacrifício, está dizendo ao universo: “quero
O pássaro azul, o àlùkò, é símbolo do espírito. Ele representa o movimento da consciência entre o
visível e o invisível, o mediador entre Ọ̀run e Àiyé. As três bananas são a tríade da existência —
corpo, mente e espírito — e o óleo vermelho é o sangue do cosmos, o Àṣẹ que lubrifica a
O sonho dos anciãos do céu é o espelho da sabedoria eterna. Em Ifá, o conhecimento não é
conquistado por esforço intelectual, mas concedido por sintonia. Dormir é o ato simbólico de cessar
o domínio do ego e permitir que o invisível fale. Òrúnmìlà sonha porque dorme consciente. Ele
recolhe o ruído da mente e se abre à escuta do eterno. E quando o céu pergunta: “O que o homem
procura que ninguém conhece?”, está, na verdade, indagando: “Quem é aquele que se perdeu de si
no espelho da matéria?”.
A resposta dos anciãos é a revelação de todas as revelações: o homem busca a si mesmo. Esta é a
ontologia do retorno. O universo inteiro é o movimento circular do ser reencontrando sua própria
substância. Tudo o que existe é o reflexo de uma busca pela unidade perdida. O ser se fragmenta
para se reconhecer. A criação é o gesto de afastar-se para ver-se. Por isso, o homem encarna o drama
Òrúnmìlà acorda antes do sol — o símbolo da consciência desperta. Ele traz o sonho para o mundo
da vigília. Essa passagem entre sonho e despertar é o momento exato em que o invisível se traduz
em linguagem. O mestre de Ifá não interpreta o sonho; ele o corporifica. Ao dizer que “o homem
326
corre o mundo, mas o que busca está dentro de si”, Òrúnmìlà reverte a direção da busca. Ele revela
que a estrada da sabedoria não vai para fora, mas para dentro.
O que o Ìtàn mostra é a estrutura da consciência humana: o impulso de projetar o sentido fora e a
Ìtànlógica não nega o movimento do mundo, mas o lê como metáfora da busca interior. O
verdadeiro iniciado não renuncia à vida, mas a vive como rito. Ele participa do mundo sem se
perder nele.
A pergunta “o que o homem procura?” é também uma provocação ao leitor. Ifá nunca responde de
modo definitivo; cada verso é uma semente de interrogação. A resposta “procura a si mesmo” não
encerra o enigma, apenas o devolve ao coração do buscador. Pois o si mesmo de que se fala aqui
não é o ego, mas o princípio divino — o Òrì interior, a centelha de Olódùmarè que habita cada ser.
Na hermenêutica Ìtànlógica, essa lembrança é a forma mais elevada de consciência. Saber quem se
é não significa definir-se, mas reconhecer-se como parte do todo. O homem que se conhece não se
separa, reconcilia-se. Ele deixa de ser uma ilha e torna-se oceano. O autoconhecimento é comunhão.
Por isso, Òrúnmìlà desperta e compartilha o sonho — porque ninguém se encontra sozinho. O eu só
se encontra no nós.
nasce do raciocínio, mas da revelação interior que se expressa como palavra viva. O verso final “Ó
ń wá ara rẹ̀” não é conclusão, é invocação. É o chamado para que cada um inicie sua própria busca.
Ifá não fala de fora, fala de dentro de quem escuta. Então que a palavra se torne caminho e o
327
A hermenêutica Ìtànlógica deste Ìtàn — “Kí ni ènìyàn ń wá tí kò sẹ́ni tó mọ̀?” — se desdobra como
o coração de uma ontologia da busca. Òrúnmìlà não pergunta em nome da curiosidade, mas em
nome da própria consciência cósmica, que deseja recordar o seu rosto no espelho da criação. O
homem, como emanação de Òrìṣà, é a extensão do divino na matéria; e a sua inquietação, o seu
desejo e a sua carência são o modo humano de expressar a saudade do Ọ̀run. A busca é a nostalgia
do retorno. Por isso, cada ato humano é, no fundo, uma tentativa de recompor o laço com o invisível
— mesmo quando esse ato é inconsciente, mesmo quando o homem pensa estar apenas
sobrevivendo.
A resposta dos àgbà ọ̀run — “Ó ń wá ara rẹ̀” — carrega a verdade axial da metafísica iorubá: o ser
não é algo que se alcança, é algo que se recorda. Não se trata de tornar-se o que não se é, mas de
lembrar-se do que sempre se foi. Em Ifá, o conhecimento não acrescenta, revela. O homem não
precisa conquistar o divino, apenas remover as camadas de esquecimento que o separam dele. A
busca, portanto, não é linear, mas espiral: quanto mais se caminha, mais se volta ao centro.
Esse movimento espiralar é o próprio ritmo de Ifá. O Odu é espelho do universo porque gira em
torno de si mesmo sem repetir-se. Cada verso é uma rotação do ser em torno de seu próprio eixo, e
cada rotação revela um novo aspecto do mesmo mistério. Quando Òrúnmìlà sonha com os anciãos,
ele penetra esse movimento. Ele não pergunta ao céu, ele escuta o eco da pergunta que o céu faz
dentro dele. Essa escuta é o estado de oracularidade — a coincidência entre o ouvido e o cosmos.
esquecimento porque é o meio pelo qual o divino experimenta a distância. Olódùmarè, para
conhecer-se plenamente, precisou projetar partes de si na multiplicidade. Cada ser humano é uma
dessas projeções — uma faísca do fogo original, lançada no tempo e no espaço para iluminar a
matéria. Assim, a criação é uma dispersão da unidade, e a vida é o processo de reintegração dessa
dispersão. O homem busca a si mesmo porque o universo busca reencontrar-se em cada um.
328
A sabedoria de Òrúnmìlà consiste em saber que a resposta não se encontra nas coisas, mas nas
correspondências entre elas. Tudo o que existe remete a tudo o que existe. O visível é apenas a
superfície do invisível. Quando Òrúnmìlà desperta e diz que “o homem corre o mundo, mas o que
busca está dentro de si”, ele está proclamando a unidade entre microcosmo e macrocosmo. O
O pássaro azul, àlùkò, que participa do sacrifício, representa esse elo entre os mundos. Ele é o
mensageiro que viaja entre as dimensões, o símbolo do espírito que leva as oferendas da
consciência até o plano das causas. Na hermenêutica Ìtànlógica, o àlùkò é também a metáfora do
pensamento iluminado, aquele que, ao voar, leva consigo as intenções do coração. As três bananas,
por sua vez, são a tríplice dimensão do ser — o corpo físico (ara), o sopro vital (ẹ̀mí) e o princípio
espiritual (òrì). O óleo vermelho é o Àṣẹ, a energia viva que mantém unidos esses três planos.
Assim, o sacrifício não é transação, mas realinhamento. Òrúnmìlà não oferece para pedir; oferece
para harmonizar. O ebo é o gesto que devolve a cada elemento sua função no grande organismo do
ser. Essa visão é central na epistemologia do invisível: o conhecimento não é posse, mas integração.
No sonho de Òrúnmìlà, os àgbà ọ̀run não falam como juízes, mas como reflexos. Eles são as vozes
arquetípicas da memória primordial — a lembrança viva de que todo ser é uma extensão do divino.
Quando perguntam “o que o homem procura?”, estão convidando Òrúnmìlà a lembrar-se de que o
conhecimento verdadeiro não é descobrir, mas reconhecer. A etimologia iorubá da palavra ìmò ̣
É por isso que Òrúnmìlà, ao despertar, não guarda o sonho para si. Ele o partilha. Porque a
revelação, quando se fecha, se corrompe. O saber, quando se transforma em posse, se torna sombra.
329
O que mantém o conhecimento vivo é o seu movimento — o mesmo movimento da respiração do
mundo. Inspirar é receber; expirar é devolver. Aquele que acumula interrompe o fluxo e, portanto,
Quando Òrúnmìlà diz a seus filhos que o homem busca o que está dentro de si, ele não prega o
isolamento espiritual, mas a interioridade ativa. Não se trata de fugir do mundo, mas de viver nele
com olhos voltados para o centro. O autoconhecimento, em Ifá, é inseparável da ação ética.
Conhecer-se é agir de acordo com o ritmo do próprio Òrì. O homem que se conhece não pode viver
em dissonância, porque cada ato em desacordo com seu Òrì é uma traição ontológica.
Essa é a dimensão moral do Ìtàn: o mal não é uma força externa, mas o estado de esquecimento de
si. Todo erro é um afastamento do centro. O ebo, portanto, não apenas apazigua forças, mas
A filosofia ocidental procurou durante séculos o “conhece-te a ti mesmo” como máxima racional.
Em Ifá, essa mesma máxima é prática de existência. Não se conhece a si mesmo através de
conceitos, mas através da presença. O homem de Ifá é o que se experimenta em tudo o que toca. Ele
descobre o seu ser ao atravessar o mundo — e descobre o mundo ao reconhecer o reflexo do seu Òrì
nele.
Quando Òrúnmìlà desperta, ele desperta para o si universal. Ele não diz: “eu encontrei o que
procurava”, mas: “todos buscam e todos têm”. A iluminação de Ifá é democrática, porque todo ser
O silêncio, novamente, é o verdadeiro templo da busca. É nele que o homem começa a ouvir o som
da própria origem. Cada passo no caminho do autoconhecimento é uma nota dessa música eterna
que ressoa entre Ọ̀run e Àiyé. Por isso, o iniciado, ao compreender o Ìtàn, não o lê apenas, mas o
330
pratica: ele transforma a sua vida em ebo, a sua fala em oríkì, o seu respirar em louvor ao
A memória é o ventre do ser. É nela que o invisível se curva sobre si mesmo e se reconhece.
Quando Òrúnmìlà desperta do sonho e proclama que o homem busca a si mesmo, ele está, de fato,
dizendo que o homem busca recordar o que o seu Òrì já sabe. O esquecimento não é uma falha
moral, é uma condição cosmológica: para que o universo se tornasse múltiplo, o Uno precisou
do passado, mas o ato de reconectar-se à fonte eterna que pulsa sob o tempo. Por isso, em Ifá,
recordar é renascer.
O Òrì é a forma concreta dessa memória divina. Ele é a sede do destino, o ponto onde o ser e
Olódùmarè se tocam. Cada Òrì é um espelho do cosmos. O homem não tem um Òrì; ele é o seu Òrì.
Essa unidade é o que permite a transmutação do conhecimento em sabedoria: não basta entender o
A hermenêutica Ìtànlógica compreende o Òrì como eixo de integração entre o céu e a terra. Tudo o
que o homem faz, pensa e sente é uma expressão do estado de seu Òrì. A desordem da vida é o
reflexo da desordem interior. O alinhamento ético não é uma imposição moral, mas o resultado
natural de uma sintonia ontológica. Quem conhece o seu Òrì não precisa de mandamentos — a
própria harmonia o guia. Essa é a verdadeira liberdade espiritual: viver conforme o ritmo da própria
essência.
A filosofia moderna fragmentou o homem em corpo, alma e razão; Ifá o reúne de novo. No Ìtàn de
Òrúnmìlà, essa reunificação se dá pela escuta. A escuta é a ponte entre o consciente e o invisível. O
sonho é a linguagem do Òrì. Quando Òrúnmìlà ouve os àgbà ọ̀run, ele está ouvindo o próprio
331
coração do universo. Escutar é o primeiro ato de sabedoria. A palavra, em Ifá, só tem poder quando
nasce dessa escuta. É por isso que a fala de Òrúnmìlà, mesmo breve, contém o peso de mundos.
“Kí ni ènìyàn ń wá tí kò sẹ́ni tó mọ̀?” — essa pergunta é também uma invocação. Ela desperta no
homem a necessidade de olhar para dentro. O autoconhecimento, em Ifá, é uma forma de iniciação:
o iniciado deixa de buscar respostas e começa a tornar-se resposta. Ele percebe que o divino não
está fora, mas vibra no interior de tudo. Òrúnmìlà não diz “busque a si mesmo” como conselho
moral; ele revela um fato ontológico: só há um lugar onde o homem pode encontrar o sagrado —
dentro de si.
A modernidade, ao exaltar a exterioridade, criou um homem que corre o mundo e nunca chega. A
busca incessante por novidade é a nostalgia disfarçada do retorno. O homem moderno consome o
mundo como quem tenta devorá-lo para preencher o vazio de si. Mas o vazio não se preenche de
fora para dentro. O vazio é o chamado da origem. Ele só se sacia com a lembrança. Òrúnmìlà nos
ensina que não há plenitude fora da interioridade. O que o homem busca nas montanhas, nos
coletivo. Dentro de cada ser vibra a memória dos que vieram antes. A identidade não é uma
Òrúnmìlà desperta e compartilha o sonho, ele está chamando os homens a recordar não apenas
quem são, mas de onde vêm. O “si mesmo” de que fala o Ìtàn é a corrente viva que liga o homem a
violência, porque quem esquece de si esquece também do outro. Aquele que recorda o seu Òrì
332
O homem que se conhece não pode dominar, porque vê em tudo o reflexo do mesmo sopro que o
anima. Òrúnmìlà é o espelho que devolve ao mundo a consciência de sua unidade perdida.
A busca, então, não é um caminho linear, mas um espiral ascendente. Cada ciclo de descoberta leva
o ser a um ponto mais alto de integração. O homem que hoje busca fora, amanhã busca dentro; o
que antes desejava possuir, depois deseja compreender; e, por fim, deseja apenas ser. O último
estágio da busca é o repouso no silêncio. Não o silêncio da ignorância, mas o silêncio da plenitude.
A filosofia Ìtànlógica compreende essa espiral como o método do retorno. O mundo não é o oposto
do sagrado, mas o seu espelho em movimento. A matéria é o modo como o espírito se experimenta.
A descida do ser ao corpo é uma viagem de reconhecimento. Cada encarnação é uma nova
Por isso, Òrúnmìlà é o símbolo do equilíbrio entre o esquecimento e a lembrança. Ele encarna o
ponto médio entre o céu e a terra, o visível e o invisível. Ele sabe que o esquecimento é necessário
para que haja caminho, e que a lembrança é necessária para que haja retorno. O iniciado que
compreende essa dança vive o paradoxo com serenidade. Ele não teme o erro, porque sabe que até o
erro é caminho.
reconhece quando um ser o contempla com olhos abertos. Por isso, o homem é chamado de aráyé, o
habitante da terra, mas também de ọmọ ọ̀run, filho do céu. Ele é a linha de luz que liga os dois
mundos.
333
O autoconhecimento é o mais alto culto, porque é o altar onde o divino se contempla sem
intermediários. Quando Òrúnmìlà desperta e anuncia que o homem busca a si mesmo, ele consagra
o corpo humano como templo do cosmos. Não há, em Ifá, distância entre o conhecer e o adorar;
todo ato de consciência é também um ato de reverência. Aquele que se conhece entra em estado de
prece permanente, porque cada respiração se torna cântico, cada gesto se torna oferenda. A
não precisa subir ao céu para encontrar o sagrado; precisa apenas descer à raiz do seu próprio ser,
No coração do Ìtàn há uma revolução silenciosa: o divino deixa de ser distante e torna-se interior. O
mundo não é o exílio do espírito, mas o campo onde o espírito se reconhece. Òrúnmìlà sonha
porque o sonho é o ponto onde o visível se dissolve e o invisível se manifesta. Nesse ponto, a
sonho de Olódùmarè dentro de si mesmo — o momento em que o Uno se contempla nas miríades
A quietude é a expressão suprema dessa lembrança. Quando o homem descobre que o que buscava
sempre esteve nele, o movimento cessa. Não porque a vida tenha acabado, mas porque já não há
urgência. O agir, então, torna-se puro fluir. Esse estado é o que os sábios chamam de Ìtùtù, a
serenidade espiritual que irradia frescor e equilíbrio. O Ìtùtù é o perfume de quem se encontrou.
Não há mais luta, apenas o assentamento da consciência no seu próprio eixo. O iniciado que alcança
A transcendência imanente de Ifá dissolve a dualidade entre espírito e matéria. Tudo é corpo de Àṣẹ.
A árvore, a pedra, o vento e o pensamento são expressões de uma mesma substância viva. Quando
Òrúnmìlà diz que o homem busca o que está dentro de si, ele também está dizendo que o homem
busca o que está em tudo. O interior e o exterior são faces da mesma presença. Conhecer-se é
334
reconhecer o mundo. A separação entre sujeito e objeto é uma ilusão útil, necessária apenas para o
se torna menor, torna-se vasto. O ser desperto reconhece que cada ser é uma variação de si. A ética
nasce desse reconhecimento: ferir o outro é ferir o próprio Òrì. A moral de Ifá não se baseia em
regras, mas em percepção. Quem vê o mundo como extensão do próprio corpo age com cuidado
natural. O bem, em sua forma mais pura, é o movimento harmonioso do ser que sabe de onde vem e
Òrúnmìlà é o arquétipo do que caminha e do que desperta. Ele é o símbolo do processo infinito pelo
qual o universo se contempla. O Ìtàn ensina que não há fim para a busca, porque o
autoconhecimento é sempre novo. Cada vez que o homem se reconhece, Olódùmarè se reconhece
com ele. Cada gesto de consciência acrescenta um brilho à luz total. Assim, a vida inteira se
transforma em ritual de relembrança. A cada nascer do sol, o mundo diz: “Eu me recordo”.
A sabedoria de Òrúnmìlà não está em ter encontrado respostas, mas em ter cessado de procurar fora.
O verdadeiro mestre é aquele que ensina o discípulo a confiar em seu próprio Òrì. Ele não entrega
verdades, desperta escutas. Ele sabe que a palavra só floresce onde há silêncio. Por isso, sua fala é
sempre breve, e sua presença, vasta. Ele não convence; ele contagia. Sua sabedoria é a de quem
Aqueles que o escutam descobrem que o caminho do retorno é o caminho da presença. O tempo
deixa de ser uma linha e se torna um círculo. O passado e o futuro se dissolvem no agora eterno do
Òrì. Esse estado é o que os antigos chamavam de Ìmò ̣tótó — pureza. Não pureza moral, mas clareza
vibracional. O ser puro é aquele que não se fragmenta, que é inteiro em tudo o que faz. O
335
Quando Òrúnmìlà compartilha o sonho com seus filhos, ele não lhes oferece um dogma, mas um
espelho. Cada ouvinte vê nele a própria face. O Ìtàn não ensina o que pensar, mas como ouvir. Ele
devolve o discípulo ao seu próprio silêncio, onde o Òrì fala sem palavras. Essa é a pedagogia de Ifá:
A hermenêutica Ìtànlógica lê esse gesto como a fundação da consciência sapiencial. O saber não
nasce da posse, mas da partilha. O mestre não é dono do conhecimento; é o canal por onde o Àṣẹ do
saber flui. Ele é ponte, não destino. Òrúnmìlà ensina, portanto, que o verdadeiro culto é o de tornar-
se condutor do divino. O homem que se conhece não adora ídolos, adora o movimento que o faz ser.
E, por fim, o Ìtàn encerra-se onde começou — na pergunta. “Kí ni ènìyàn ń wá tí kò sẹ́ni tó mọ̀?”
Essa pergunta não se apaga; ela continua a ressoar no coração do leitor como o tambor que convoca
a consciência a dançar. A resposta — “Ó ń wá ara rẹ̀” — não é um ponto final, mas o primeiro passo
de uma jornada infinita. O homem continuará buscando, e cada vez que se encontrar, descobrirá que
há mais de si para conhecer. O autoconhecimento é uma espiral sem fim, onde o ser e o divino se
encontram e se perdem continuamente, num jogo de reflexos eternos. Òrúnmìlà nos deixa à porta do
336
Lẹ́yìn náà, ó kọ́ ẹnu rẹ̀ sílẹ̀, ó mọ̀ọ́rọ̀ rẹ̀ mọ́ra.
Tradução:
E Òrúnmìlà respondeu:
337
Por isso se diz:
A palavra é a primeira força do universo. Antes de tudo haver, houve som. Antes do som, intenção.
Antes da intenção, silêncio. O cosmos nasceu de uma vibração verbal, e por isso toda palavra
humana carrega em si uma centelha do poder criador de Olódùmarè. Falar é mexer nas fundações
do mundo. Mas o homem, ao esquecer a origem sagrada de sua voz, passou a tratar a palavra como
arma, e não como gesto de criação. Òrúnmìlà, neste Ìtàn, enfrenta o drama de toda consciência que
descobre o peso do verbo. Ele se desentende com a própria boca — isto é, com o instrumento do
seu próprio Àṣẹ. O conflito não é externo, é metafísico: o espírito luta contra o excesso de sua
No calor da fala mora o perigo do desequilíbrio. O calor (ààrẹ) é a excitação do ego, o fervor da
reação. Quando o homem fala no calor, não fala com o Òrì, mas com o ventre inflamado do desejo.
A palavra então deixa de ser expressão do ser e se torna descarga de emoção. É por isso que
Òrúnmìlà é advertido: “não permita que tua boca destrua o que tu mesmo constróis.” O verbo
impensado é a serpente que morde o próprio criador. Há palavras que edificam templos e palavras
que queimam cidades. O mesmo sopro que dá vida pode queimar se sair fora do ritmo do Àṣẹ.
símbolo da palavra espalhada, do ruído — e o òrì àtààrí, a manteiga do Ori, que representa a
ímpeto à clareza. A galinha é o movimento caótico das palavras que ciscam em todas as direções; o
òrì é a substância que acalma, que lubrifica o espírito. Òrúnmìlà aprende a falar novamente a partir
do silêncio.
O silêncio, em Ifá, não é ausência, é poder latente. É o estado em que o som ainda não se dividiu em
significados. Ficar em silêncio é retornar à fonte. Òrúnmìlà, ao recolher sua palavra, não renuncia à
338
linguagem, mas volta a ela com pureza renovada. Ele sabe que toda fala deve ser precedida por
escuta, e que só a palavra enraizada no silêncio participa do poder criador. Quando ele decide calar-
se diante dos insultos, não está sendo passivo; está operando um ato de magia verbal. Cada palavra
não dita é um raio contido, uma energia que se transmuta em força interior.
Três anos se passam — símbolo dos três níveis de amadurecimento: o tempo do corpo, o tempo da
mente e o tempo do espírito. O silêncio de Òrúnmìlà atravessa essas três esferas e as alinha. Quando
triunfo da palavra não pronunciada. O silêncio é a palavra que se recusou a ferir e, por isso, se
tornou medicina. Òrúnmìlà responde então com o provérbio que fecha o ciclo: “A palavra que se
A lição deste Ìtàn é de uma sutileza ontológica profunda. Ele ensina que o controle da fala é o
controle do destino. Em Ifá, o Àṣẹ se manifesta pela voz. O que se diz materializa-se. A fala é o
modo como o invisível se faz corpo. Por isso, falar no calor é arriscar a deformação da realidade. O
homem é responsável não apenas pelo que faz, mas pelo que pronuncia. Cada palavra solta é uma
semente que germinará inevitavelmente em algum terreno. Òrúnmìlà compreende que, ao calar-se,
ele não interrompe a ação; apenas a desloca para o plano mais profundo, onde o Àṣẹ se reorganiza.
Na hermenêutica Ìtànlógica, este Ìtàn é uma meditação sobre a ética do verbo. A fala, para ser justa,
precisa nascer do equilíbrio entre emoção e sabedoria. Falar com raiva é como soprar fogo num
campo seco. A emoção é necessária — pois o fogo aquece, move, transforma —, mas o excesso
destrói. O silêncio de Òrúnmìlà é, portanto, o domínio do fogo interior. Ele conserva o calor sem
deixá-lo escapar pela língua. Essa alquimia da fala é o que distingue o sábio do comum.
Há uma pedagogia do silêncio que permeia todo o corpus de Ifá. Cada Bàbáláwo aprende cedo que
não se fala tudo o que se sabe, nem se responde a tudo o que se ouve. O verbo é sagrado, e o
sagrado não se desperdiça. O silêncio não é timidez, é guarda do poder. Òrúnmìlà compreende que a
339
palavra é um oráculo e que cada som pronunciado convoca forças invisíveis. Quando ele se cala,
não abandona a verdade, apenas a protege. O silêncio se torna o invólucro da palavra verdadeira.
A dimensão filosófica deste Ìtàn se revela quando percebemos que o calor (ààrẹ) não é apenas
emoção, mas tempo. Falar no calor é falar antes da hora. O sábio fala quando o mundo está pronto
para ouvir. A impaciência é o descompasso do ser com o seu próprio destino. Òrúnmìlà não reage
porque já compreende que tudo tem um momento para florescer. O silêncio é a confiança no ritmo
A ética da fala é, assim, uma ética da paciência. Cada palavra precisa amadurecer dentro como
fruto. O homem moderno fala demais e escuta de menos; constrói ruído onde poderia erguer
sentido. O excesso de fala é o sintoma de uma civilização que perdeu o contato com o silêncio.
Òrúnmìlà ensina o oposto: quanto mais o homem sabe, menos precisa dizer. A sabedoria é
O silêncio do sábio, porém, não é vazio. Ele é cheio de ressonância. As palavras que ele não diz
inimigos porque o silêncio verdadeiro é ativo. Ele opera por presença, não por argumento. Quando
O Ìtàn termina, mas o provérbio permanece como bússola ética e ontológica. Ele nos lembra que
falar é criar, e criar exige responsabilidade. O verbo deve ser frio o bastante para não ferir e quente
o suficiente para dar vida. O equilíbrio entre esses extremos é o ponto de ouro da sabedoria de Ifá. A
No fim, Òrúnmìlà revela que a palavra perfeita é aquela que nasce do amor e repousa no silêncio.
Porque toda fala verdadeira retorna à origem de onde veio — o silêncio primordial de Olódùmarè,
340
9. Ìwòrì Ògúndá
Tradução:
341
Por isso se diz:
“É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo.
O caminho é a metáfora absoluta da existência. Tudo o que vive caminha. A pedra caminha em seu
silêncio, o rio caminha em seu fluxo, a mente caminha em seus pensamentos. A vida é uma viagem
incessante entre o invisível e o visível, entre Ọ̀run e Àiyé. O Ìtàn de Ìwòrì Ògúndá é uma meditação
sobre essa travessia e sobre o mistério de reconhecer o próprio itinerário dentro do labirinto do
mundo. Quando Òrúnmìlà se prepara para sua jornada, não está apenas indo a Ìkàró: ele está
realizando o rito primordial da caminhada do ser no tempo.
A instrução do oráculo é clara: “faça sacrifício para que o caminho não se perca.” O sacrifício é o
modo de aliar-se às forças que guardam a estrada, porque o caminho não é neutro; ele tem
guardiões, tem humores, tem respiração própria. Aquele que conhece o caminho não é quem decora
as direções, mas quem percebe o pulso secreto da estrada — o ritmo invisível que sustenta o
mundo. Caminhar, em Ifá, é uma forma de conhecimento. Cada passo é um aprendizado. O mundo
não se atravessa com os olhos, mas com o Òrì.
Òrúnmìlà oferece o carneiro, os ovos e o pilão — três símbolos fundamentais. O carneiro é a força
da decisão, a energia que rompe os bloqueios. Os ovos são a fragilidade fecunda, o poder da criação
que brota do que se quebra. O pilão é o trabalho do espírito, o esforço contínuo de transformar o cru
em alimento. O ebo ensina que o caminho não se abre apenas com coragem, mas também com
delicadeza e paciência. O guerreiro e o cuidador convivem na mesma alma. O movimento da vida
exige tanto o golpe quanto o toque.
O verso central — “É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo” — contém uma
sabedoria cósmica. Conhecer o caminho é conhecer o ritmo de Olódùmarè dentro das coisas. A
ignorância do caminho é a raiz de todo desvio. O homem que caminha sem reconhecer as marcas da
estrada anda em círculos. Òrúnmìlà sabe que o segredo não está em querer chegar, mas em saber
andar. A sabedoria não é uma linha reta; é um círculo de retornos.
O caminho, para Ifá, não é algo externo, mas uma manifestação do próprio Òrì. Cada ser nasce com
uma estrada traçada dentro de si. Caminhar, portanto, é atualizar o destino que já dorme no Òrì. Não
342
se trata de escolher um caminho, mas de ouvir o que já está escolhido desde Ọ̀run. O erro, então,
não é desviar-se do trajeto — porque todo desvio ensina —, mas caminhar sem consciência. O
andar consciente é o culto supremo, porque nele o homem se torna participante da obra divina.
O Ìtàn revela ainda que o mundo está cheio de forças desviantes — àjé, espíritos e movimentos
desordenados — que tentam corromper o sentido da caminhada. Por isso o sacrifício é necessário:
ele purifica o campo e harmoniza o viajante com os elementos. Mas Ifá não teme as forças da
desordem; ele as reconhece como parte do equilíbrio. A estrada inclui as curvas. O caos é o terreno
onde a sabedoria é testada. O verdadeiro iniciado não amaldiçoa a dificuldade; ele a saúda como
professora.
Há também aqui uma lição sobre o tempo. O caminho é tempo em forma de espaço. Cada passo é
um instante que se abre. O tempo não é linear: ele se dobra, se espirala, se renova. Quando
Òrúnmìlà chega a Ìkàró e tudo o acolhe, é porque ele aprendeu o segredo da sincronia. Quem
caminha em harmonia com o tempo não precisa correr. As coisas se abrem no momento certo. A
pressa é o esquecimento do ritmo divino.
O provérbio final — “É pelo caminho que se conhece que se atravessa o mundo” — é um lembrete
de que o saber de Ifá é um saber caminhante. A teoria sem prática é palavra vazia. O conhecimento
que não se corporifica morre no ar. Em contrapartida, o passo consciente transforma a terra em
escritura. O andar do iniciado é liturgia. Ele pisa e, ao pisar, consagra.
A hermenêutica Ìtànlógica compreende este Ìtàn como um tratado sobre o movimento e a coerência
ontológica do ser. O caminho conhecido é aquele que coincide com o próprio ritmo interior. Quando
o homem se alinha ao seu Òrì, o universo inteiro se alinha com ele. As pedras cedem, os rios abrem
passagem, os ventos sopram a favor. A estrada reconhece o seu filho. O desconhecimento do
caminho é o exílio espiritual; o reconhecimento, o retorno ao lar.
343
Òrúnmìlà, ao proclamar o verso, revela que o saber é inseparável do caminhar. Ifá é filosofia em
movimento. O oráculo não oferece dogmas, mas direções. Cada Odu é uma vereda. E aquele que as
percorre com atenção descobre que o destino não é um ponto final, mas um modo de andar. O
homem é o caminho de si mesmo.
344
Tradução:
O Ìtàn de Ìwòrì Ògúndá é uma meditação sobre hierarquia, conhecimento e humildade cósmica. No
teatro metafísico de Ifá, Òrìṣà-nlá e Òrúnmìlà encenam o conflito entre criação e consciência, entre
o fazer e o saber, entre a forma e o sentido. Òrìṣà-nlá representa o poder modelador da matéria
primordial; é ele quem molda os corpos no barro branco da existência. Òrúnmìlà, por sua vez, é o
princípio da memória e da ordem, aquele que conhece os itinerários do destino. O embate entre
ambos não é rivalidade moral, mas tensão necessária entre duas potências complementares: a força
que cria e o entendimento que ilumina a criação.
Òrìṣà-nlá afirma: “Fui eu quem fez o mundo.” E tem razão — pois o barro foi amassado por suas
mãos. Mas Òrúnmìlà replica: “Sou eu quem conhece o segredo do mundo.” E também tem razão —
porque o molde sem sentido é apenas matéria inerte. O Ìtàn expõe uma verdade central da ontologia
345
de Ifá: o mundo não é apenas o que se vê, é o que se entende. O conhecimento é o sopro que
desperta a forma. Sem Òrúnmìlà, o barro não respira; sem Òrìṣà-nlá, a sabedoria não tem onde
pousar.
A disputa entre os dois é o reflexo do dilema humano entre agir e compreender. Todo homem é
simultaneamente artesão e filósofo de si mesmo. Ele modela e interroga a própria existência. Se se
apega apenas ao fazer, torna-se cego; se se apega apenas ao saber, torna-se estéril. O equilíbrio é o
ponto onde a ação se torna consciente e o pensamento se torna criador. Òrúnmìlà não deseja vencer
Òrìṣà-nlá, mas revelar-lhe que a criação carece de sentido se não for acompanhada pela lucidez do
Òrì.
O ebo recusado por Òrìṣà-nlá é o sacrifício da vaidade. Ele não percebe que o orgulho de ter
moldado o mundo o afasta da harmonia com o próprio Olódùmarè. O Bàbáláwo que não sacrifica o
ego sacrifica o Àṣẹ. Por isso, Òrúnmìlà o faz em seu lugar — não por submissão, mas por
consciência. O verdadeiro poder nasce da obediência ao ritmo do cosmos. O conhecimento não é
imposição; é sintonia.
No dia seguinte, Òrúnmìlà é exaltado como Rei do Saber, Rei do Caráter, Rei da Verdade. Esses três
títulos correspondem às três coroas interiores de Ifá: Ìmò ̣ (conhecimento), Ìwà (caráter) e Òtítọ́
(verdade). São as três luzes que sustentam a autoridade espiritual. O homem que as conquista
governa sem precisar de trono. Sua realeza é interior. Òrìṣà-nlá observa, enciumado, e reclama: “A
coroa do mundo é minha.” E Òrúnmìlà responde com o provérbio que encerra o Ìtàn: “Adé tó bá fẹ́
jẹ́ adé, kó mọ̀ pé orí ló ń gbé adé.”
A coroa, símbolo do poder visível, não tem existência própria; depende da cabeça que a sustenta.
Sem Ori, a coroa cai. Òrúnmìlà recorda ao criador que até a criação repousa sobre a consciência. O
Ori é o eixo do ser, o altar interno onde o divino se manifesta. Toda autoridade deriva de dentro. A
coroa que esquece a cabeça perde o equilíbrio — e a queda é inevitável. O Ìtàn, assim, transforma-
se num tratado de antropologia espiritual: o homem é o microcosmo do cosmos, e sua cabeça é o
trono de Olódùmarè.
Há também uma lição ética: o poder que não se inclina diante da sabedoria degenera em tirania.
Òrìṣà-nlá esquece que o barro que moldou só tem forma porque o sopro de Ifá o animou. Quantas
vezes o homem moderno repete o mesmo erro — idolatrando sua técnica, seu domínio sobre a
matéria, e esquecendo o mistério que o habita? O mito antigo se repete nas fábricas, nas academias,
nos tronos da ciência. O homem constrói, mas não compreende o que constrói. A matéria o seduz e
o prende. Òrúnmìlà, com sua resposta, liberta o fazer do orgulho, lembrando que o verdadeiro poder
é aquele que serve.
“Adé tó bá fẹ́ jẹ́ adé, kó mọ̀ pé orí ló ń gbé adé.” Essa sentença é também um lembrete político.
Toda autoridade é sustentada pela comunidade — o conjunto das cabeças que a reconhecem. Um rei
sem povo é uma coroa vazia. O poder, para Ifá, é relacional: existe apenas no equilíbrio entre o alto
e o baixo, o visível e o invisível. A cabeça, sendo mais baixa que a coroa, sustenta-a; o poder,
portanto, repousa na base. O mundo só se mantém quando os que estão acima reconhecem os que
estão abaixo. A hierarquia justa é aquela que se curva.
No nível mais profundo, este Ìtàn trata do mistério do próprio Olódùmarè. Pois até Ele, ao criar, o
faz através de sua cabeça — o princípio da sabedoria eterna. A divindade não é tirânica; é
autoconsciente. O universo é o corpo de sua consciência expandida. Se Òrìṣà-nlá representa o ato
criador e Òrúnmìlà o princípio ordenador, ambos são faces de uma mesma presença. O provérbio
ensina que a totalidade é sustentada pela consciência.
O silêncio de Òrúnmìlà diante da inveja de Òrìṣà-nlá é também revelador. Ele não reivindica o
trono, apenas afirma o fundamento. O sábio não disputa poder; revela sentido. O poder que se
sustenta na verdade não precisa de coroas externas. Seu brilho é sereno, sua autoridade é natural.
Òrúnmìlà é rei porque sua cabeça é clara. Em Ifá, toda realeza é luminosidade interior.
A hermenêutica Ìtànlógica vê neste Ìtàn a gênese da filosofia da interdependência: tudo o que existe
depende de tudo o mais. A coroa precisa da cabeça; a cabeça, do corpo; o corpo, da terra; a terra, do
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sopro; o sopro, do silêncio. Assim se forma a cadeia do ser, o circuito do Àṣẹ. Quando uma parte se
esquece da outra, o fluxo se rompe. Òrúnmìlà ensina que conhecer o elo é preservar o equilíbrio.
No plano psicológico, o Ìtàn fala do diálogo entre a razão e a forma. A cabeça é o centro da
consciência, e a coroa é o símbolo do ego. Quando o ego se separa da cabeça, surge o sofrimento. O
homem perde o norte, busca reconhecimento em vez de sentido. A terapia de Ifá é o realinhamento
do Ori — devolver a coroa à cabeça. O ebo é o ritual de reconciliação entre o fazer e o saber, entre a
matéria e o espírito.
Por fim, a lição espiritual é de humildade e reverência. Toda obra deve lembrar sua origem. O saber
verdadeiro é aquele que se curva diante do mistério que o gera. Òrúnmìlà não busca glória; busca
coerência. Ele sabe que o poder é frágil sem consciência. E é por isso que, enquanto Òrìṣà-nlá
disputa o trono, Òrúnmìlà constrói o mundo interior onde o trono jamais cai.
Tradução:
Toda a criação se move em busca de um princípio. A árvore deseja a raiz, o rio deseja a nascente, o
homem deseja o sentido. O princípio é o que está antes e o que sustenta. É origem e eixo. Conhecer
o princípio de si é retornar à nascente invisível que dá forma ao destino. Este Ìtàn de Ìwòrì Ògúndá
é um tratado sobre o autoconhecimento, mas não o autoconhecimento psicológico — trata-se do
reconhecimento ontológico do ser enquanto emanação do invisível. Òrúnmìlà, o que busca o
fundamento, interroga a si mesmo e pergunta: “O que corrompe o caráter do homem?” Ele não
busca moral, busca causa. Pois em Ifá, o caráter (Ìwà) não é uma virtude adquirida, mas a vibração
natural de um ser alinhado com seu princípio. Quando o homem se afasta de sua origem, seu caráter
se desordena.
349
O ebo que Òrúnmìlà realiza é um ato de restituição. Ele sacrifica dois galos, um carneiro e o pilão
de inhame — símbolos da consciência desperta, da força e do trabalho interior. O galo anuncia o
amanhecer; é o olho do tempo que rompe a noite. O carneiro é a persistência que avança contra os
obstáculos. O pilão é a alquimia cotidiana que transforma o cru em substância. Sacrificar é devolver
ao invisível o que se recebe do visível. O ebo é o gesto pelo qual o homem recorda o ritmo
primordial da vida e reordena o desequilíbrio.
Quando Òrúnmìlà deposita o ebo sobre a Terra e unta sua cabeça, o gesto tem uma densidade
teogônica. Ele devolve à Mãe Terra o que dela nasceu e reconcilia sua consciência com o corpo do
mundo. A unção da cabeça é a reativação do Òrì — o trono de Olódùmarè no homem. É nesse
instante que pronuncia o verso axial: “Ẹni tó bá mọ̀ ìpìnlẹ̀ òun, yóò mọ bí ayé ṣe ń tọ́.” Aquele que
conhece seu princípio interno compreende o movimento do mundo, porque o mundo é uma
projeção do interior. Àiyé é o espelho do Òrì.
Essa sentença é uma formulação metafísica de uma profundidade inigualável: ela estabelece a
correspondência entre microcosmo e macrocosmo, entre interioridade e cosmos, entre a psicologia e
a cosmologia. Conhecer-se é decifrar a estrutura da criação. A ignorância de si é o verdadeiro caos.
O homem que desconhece o próprio princípio tenta governar o mundo e fracassa, porque o mundo
se organiza segundo as leis do invisível, não da força. O autoconhecimento é a forma mais alta de
governo.
Quando os Òrìṣà reconhecem o gesto de Òrúnmìlà e o convidam para participar das decisões
universais, há aqui uma revelação hermenêutica sobre o lugar do saber no cosmos. O saber não é
poder, mas participação. Quem conhece o princípio de si não domina os outros, mas harmoniza-se
com a estrutura divina. A autoridade espiritual nasce da coerência entre o interior e o exterior.
Òrúnmìlà é chamado não para reinar, mas para deliberar — pois o conselho dos Òrìṣà é a
assembleia do sentido.
A resposta que Òrúnmìlà lhes dá — “As decisões não se firmam sobre as palavras do mundo, mas
sobre o conhecimento do coração” — é o coração filosófico do Ìtàn. O mundo é barulhento, mas a
verdade é silenciosa. As palavras do mundo mudam conforme o vento; o conhecimento do coração
é imutável, porque pulsa no mesmo ritmo que o Òrì. Este contraste entre palavra e coração, entre
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ruído e essência, é a distinção fundamental entre o saber exterior e o saber iniciático. O primeiro
acumula informações; o segundo reconhece vibrações.
O ebo com o galo também recorda o ciclo do tempo. O galo canta e o mundo desperta. Assim
também o homem desperta quando escuta o canto do seu princípio. O autoconhecimento é o
amanhecer da consciência. O carneiro representa o esforço contínuo da existência, porque conhecer-
se é árduo: é lutar contra a ilusão das formas. O pilão é o símbolo da prática: a consciência se
alcança não apenas pela contemplação, mas pela repetição ritual do cotidiano. A verdadeira
sabedoria é trabalhosa.
Quando Òrúnmìlà unta a cabeça com o ebo, ele se faz oferenda. O iniciado deve compreender que o
maior sacrifício não é o que se entrega, mas o que se torna. Tornar-se oferenda é dissolver o ego na
função divina. Esse é o segredo da iluminação em Ifá: ser veículo e não obstáculo. O Òrì então
resplandece, e o mundo, como reflexo, se endireita.
O provérbio final — “Aquele que conhece o princípio de si, compreende o rumo do mundo” — é o
eixo sobre o qual gira toda a filosofia Ìtànlógica. O conhecimento verdadeiro não é fragmento, é
totalidade. Ele não separa sujeito e objeto, mas os une no mesmo sopro. Saber é participar. O
mundo não é algo a ser conquistado; é algo a ser reconhecido. O iniciado que conhece o princípio
percebe que tudo tem lugar, e que a desordem é apenas uma leitura superficial da harmonia.
Tradução:
O Ìtàn 4 de Ìwòrì Ògúndá abre uma das mais refinadas meditações de Ifá sobre a consciência, o
destino e o mistério da autonomia humana diante do divino. Òrúnmìlà, o vidente, caminha pela
estrada do mundo e se interroga: “Será que o caminho sabe quem o percorre?” A pergunta não é
uma dúvida geográfica, mas uma inquietação ontológica. O caminho, em Ifá, é o símbolo da
existência — o Ọ̀nà Ayé é a trajetória do ser entre o nascimento e a dissolução, entre o invisível e o
visível. Perguntar se o caminho sabe quem o percorre é interrogar se o mundo tem consciência de
nós, ou se é apenas cenário indiferente por onde passamos.
Na primeira leitura, o verso parece afirmar o trágico: o caminho é cego, ele não reconhece os pés
que o pisam. O homem atravessa a vida como quem caminha sobre uma terra muda. Mas a resposta
de Òrúnmìlà reverte o desespero: “O caminho não sabe quem o percorre, mas quem o percorre deve
conhecer o caminho.” Ou seja, se o mundo é mudo, é o homem quem deve aprender a escutá-lo; se
o caminho é cego, é a consciência que o ilumina. A sabedoria de Ifá não busca consolo, busca
equilíbrio. Não exige que o cosmos se dobre ao humano, mas que o humano se harmonize com o
cosmos.
353
Quando Òrúnmìlà realiza o ebo com aves de cores diversas — o apẹ̀rẹ, o macho e o azul — ele
traduz ritualmente essa reconciliação entre o homem e o caminho. O pássaro apẹ̀rẹ representa o
olhar que vê o invisível, o macho (àkọ́) é o princípio da força que avança, e o pássaro azul (àlùkò) é
o símbolo da memória que retorna ao alto. Assim, o ebo combina visão, impulso e memória — os
três movimentos da consciência. Caminhar sem visão é errar; caminhar sem impulso é parar;
caminhar sem memória é repetir.
Òrúnmìlà, ao dizer que o caminho não conhece o viajante, revela o paradoxo central da existência: o
mundo é ao mesmo tempo o campo da revelação e o véu do mistério. Ele não tem consciência de
quem o atravessa porque é o próprio tecido da experiência. O caminho é o corpo de Olódùmarè, e o
homem é o sopro que se move dentro desse corpo. O caminho não vê o viajante, porque é nele que
o viajante está inscrito. Assim como a água não distingue o peixe que nela nada, porque o peixe é
parte do seu próprio fluxo.
A resposta dos Òrìṣà — “Se o caminho ignora o viajante, que o viajante conheça o rumo” — é a
pedagogia divina. Eles ensinam que a ignorância do mundo é o convite para a sabedoria do homem.
A estrada não nos reconhece, mas nos oferece a oportunidade de reconhecer a nós mesmos. O
sentido da vida não é dado, é construído. Ifá não promete um cosmos consciente e paternal; oferece
ao homem a dignidade de participar da consciência divina. Conhecer o caminho é reconhecer-se
como extensão do saber de Olódùmarè.
Òrúnmìlà então afirma: “Conhecer o caminho não é desafiar Olódùmarè, é participar de Seu saber
invisível.” Essa frase é uma das mais profundas formulações epistemológicas do corpus de Ifá. O
conhecimento humano não é um ato de soberba, mas de comunhão. O saber não é roubo, é retorno.
O homem não se torna deus ao conhecer; torna-se imagem viva do divino. A ignorância é a
distância entre o criador e a criatura. O conhecimento é o reencontro.
O caminho de Ifá é uma metáfora da imanência: não há exterioridade entre o homem e o mundo.
Caminhar é participar do movimento eterno da criação. O saber não é propriedade, é fluxo. Cada
passo dado por Òrúnmìlà é uma atualização do mistério da existência. Caminhar é traduzir o
invisível em gesto, é transformar o ser em devir. O ebo que ele realiza é a oferenda da consciência à
continuidade da vida.
A estrada é o ventre de Àiyé. Tudo o que nasce caminha, e tudo o que caminha retorna. O caminhar
é a forma como o ser se faz consciente do tempo. O tempo, por sua vez, é a distância que o ser
percorre até reconhecer que jamais esteve separado de sua origem. Òrúnmìlà caminha, e ao
caminhar refaz a cosmogonia: cada passo é o prolongamento do gesto de Olódùmarè quando
insuflou o sopro sobre o barro de Òrìṣà-nlá. O caminho é o corpo estendido desse sopro —
invisível, contínuo, repleto de rastros. Caminhar é inscrever o invisível na superfície do mundo. E o
mistério de caminhar é saber que, embora o chão pareça imóvel, é ele quem nos move.
Ifá ensina que o caminho é o lugar onde o visível e o invisível se tocam. Cada estrada é um Ònà-
Òrìṣà, uma potência viva. Ònà é um Òrìṣà: guardião das travessias, testemunha dos encontros e das
escolhas. O que se pisa não é matéria morta, mas o corpo de um espírito que testemunha sem julgar.
Quando Òrúnmìlà diz que o caminho não sabe quem o percorre, não afirma a indiferença da estrada,
mas a imparcialidade do destino. O caminho não distingue reis de mendigos porque a terra não
hierarquiza passos. Todos os que andam são iguais diante do chão. O saber de Òrúnmìlà é o
reconhecimento da equidade ontológica: tudo o que existe compartilha o mesmo solo.
E, no entanto, o homem, que caminha sobre a terra, imagina que o chão lhe pertence. A ilusão da
propriedade nasce quando se esquece que o caminho antecede o viajante. O homem não inaugura o
caminho: ele apenas o revela com seu andar. O mundo já existia antes dos seus passos, e continuará
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depois deles. A arrogância do viajante é querer ensinar ao caminho o que é caminhar. Por isso,
Òrúnmìlà oferece o ebo — para reconciliar-se com o ritmo que o precede. O ebo é o gesto de quem
reconhece que toda travessia é empréstimo. Caminhar é sempre percorrer o que já foi traçado por
uma força anterior.
Mas se o caminho não sabe quem o percorre, é porque não precisa saber. O caminho é puro
acontecimento. O saber pertence ao viajante, não ao percurso. O caminho é a estrutura; a
consciência é o fluxo. É no andar que o sentido se produz. O erro do homem é esperar que o mundo
lhe revele um propósito, quando é ele quem deve pronunciar o propósito do mundo. O sentido é
uma invenção sagrada, um ato criativo de coautoria com Olódùmarè. Quando Òrúnmìlà afirma que
“conhecer o caminho não é desafiar o divino, mas participar do Seu saber invisível”, define a ética
do caminhar: não exigir que a estrada se curve, mas aprender a curvar-se com ela.
O caminhar de Òrúnmìlà não é de pressa, é de consciência. Ele não anda para chegar, mas para
compreender. O caminho é o lugar do entendimento, não da chegada. Por isso, Ifá ensina que o
viajante sábio caminha como quem reza — cada passo é invocação, cada pedra é testemunha. O
chão é altar. A poeira que sobe é incenso. O vento que acompanha é cântico. Assim se move
Òrúnmìlà: seu andar é liturgia. E enquanto o homem comum pergunta “para onde vou?”, o iniciado
pergunta “como caminho?”. O primeiro busca destino; o segundo busca presença.
O caminho, contudo, permanece silencioso. Ele nada diz. E nesse silêncio se esconde o mistério do
aprendizado. Pois o mundo fala apenas para quem o escuta sem exigir resposta. O caminho não fala
porque já é palavra. Sua linguagem é a forma, sua sintaxe é o ritmo. O iniciado lê o chão como se lê
um verso: não busca letras, mas ressonâncias. Cada curva é uma interrogação, cada sombra é uma
lembrança. O caminho não sabe quem o percorre, mas ensina ao viajante a arte de conhecer-se.
A frase dos Òrìṣà — “Se o caminho ignora o viajante, que o viajante conheça o rumo” — é uma
pedagogia da liberdade. O destino em Ifá não é prisão, é responsabilidade. O homem é livre para
saber-se no meio daquilo que o ultrapassa. A estrada pode ser longa, mas o olhar que a percorre a
torna sagrada. Conhecer o rumo não é controlar o percurso, é compreender a direção do vento. O
saber não é poder, é sintonia. E é por isso que Òrúnmìlà realiza o ebo com as aves: para restaurar o
equilíbrio entre céu e terra, entre o que voa e o que se arrasta. O caminhar é o ponto de contato entre
o alto e o baixo.
356
O pássaro apẹ̀rẹ é o olhar que anuncia o invisível — o pressentimento. O macho é o princípio da
decisão — a força de ir. O àlùkò, de plumagem azul, é a memória da origem — a lembrança do céu.
O ebo, portanto, une percepção, ação e lembrança. É o mapa espiritual do caminhar consciente.
Òrúnmìlà sabe que, sem esses três elementos, o homem se perde na multiplicidade das estradas do
mundo. O ebo é o sacrifício da dispersão: devolver ao centro o que se fragmentou.
A estrada é um corpo que nunca se encerra; ela é o próprio gesto da continuidade divina. O homem
nasce dentro de uma estrada que já estava em movimento antes do seu primeiro sopro e que
continuará vibrando depois que sua voz silenciar. Assim é a natureza do Ònà: ele não pertence a
ninguém, mas todos pertencem a ele. O caminho é o ventre de Àiyé e, ao mesmo tempo, a espinha
dorsal do Ọ̀run. Ele une o alto e o baixo, o dentro e o fora, o que foi e o que virá. É por isso que o
sábio de Ifá caminha sem pressa: ele sabe que cada passo é um encontro com o eterno, e que o
eterno se manifesta nos instantes mais breves. Caminhar é louvar o invisível através do corpo.
Quando Òrúnmìlà pergunta se o caminho sabe quem o percorre, ele abre o coração do mistério da
consciência. O caminho não precisa saber porque é ele mesmo o suporte do saber. O homem anda
dentro de uma inteligência cósmica que o precede e o ultrapassa. O erro é pensar que o
conhecimento é uma propriedade da mente; em Ifá, o conhecimento é o sopro que permeia todas as
coisas. A mente humana é apenas o ponto em que esse sopro se torna voz. O caminho é, portanto, o
texto do universo, e cada ser que anda sobre ele é uma sílaba que tenta se lembrar da frase
completa.
A estrada, em sua indiferença, ensina a humildade. Ela acolhe o rei e o mendigo com o mesmo pó.
O rei pisa sobre o chão pensando que é dono do mundo; o mendigo pisa sobre o mesmo chão
sabendo que o mundo não tem dono. No final, ambos se tornam pó, e o caminho continua. O
aprendizado de Òrúnmìlà é esse: o caminho não conhece o nome dos que o cruzam, mas conhece o
peso de seus passos. E o peso do passo é determinado não pelo poder, mas pela consciência. Há
passos que são leves porque vêm do coração alinhado com o Òrì; há passos pesados porque
carregam o fardo do esquecimento.
Por isso, o caminhar é uma liturgia moral. Cada gesto, cada decisão, cada silêncio é um passo
dentro de um campo sagrado. A ética em Ifá não é um conjunto de normas externas, mas a arte de
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caminhar em harmonia com o chão da existência. Òrúnmìlà ensina que a estrada responde a quem a
pisa com respeito. Quem anda com ira desperta tempestades; quem anda com serenidade convoca o
orvalho. O caminho não sabe quem o percorre, mas reflete o estado de quem o percorre. O mundo é
o espelho da vibração interior do homem.
Essa é a lição profunda do provérbio: o caminho é neutro, mas não é vazio. Ele é reativo como o
espelho — não distingue rostos, mas devolve imagens. O homem colhe do mundo a forma do seu
próprio andar. Quando caminha com soberba, o chão lhe devolve pedras; quando caminha com
gratidão, o chão se torna jardim. Assim se forma a lei de correspondência universal: cada passo é
uma invocação. O caminhar consciente é a primeira forma de oração.
O ebo de Òrúnmìlà, composto por aves, traduz esse princípio de verticalidade espiritual. As aves
são mensageiras, voam entre dimensões, ligam o Ọ̀run e o Àiyé. O homem, que não tem asas,
precisa caminhar para aprender a voar dentro. O voo das aves é o reflexo visível da viagem da alma.
Quando Òrúnmìlà sacrifica o àlùkò, o apẹ̀rẹ e o àkọ́, ele está oferecendo as faculdades superiores da
consciência: o olhar, a vontade e a lembrança. O ebo torna-se, assim, uma cartografia espiritual do
caminhar lúcido.
O ebo é, também, um gesto de entrega ao invisível. Caminhar exige fé. Fé não como crença cega,
mas como confiança na continuidade da estrada. A estrada pode se perder nas neblinas, mas o
iniciado sabe que o caminho nunca desaparece — apenas se oculta aos olhos impuros. O mundo é
um labirinto sagrado que só se revela a quem caminha com o coração limpo. Òrúnmìlà compreende
isso: o verdadeiro mapa é interior. A estrada não tem fim, mas o viajante tem direção.
A frase “conhecer o caminho não é desafiar Olódùmarè, é participar de seu saber invisível” é a
revelação do mistério do conhecimento em Ifá. Saber é comungar. O saber que desafia se destrói; o
saber que participa se ilumina. O homem que conhece o caminho em humildade não o domina, mas
se torna parte de sua respiração. Ele percebe que o universo é uma estrada viva que atravessa cada
ser, e que o caminhar é o modo como o espírito experimenta o próprio corpo do divino.
A hermenêutica Ìtànlógica reconhece neste verso a cosmologia da imanência. Não há distância entre
o viajante e a estrada, porque ambos são manifestações do mesmo Àṣẹ. A ilusão da separação é o
que gera sofrimento. O caminho não conhece o viajante porque o viajante é o próprio caminho em
358
forma de movimento. O ser e o mundo não são dois, são uma mesma vibração em duas
intensidades. Caminhar é o modo que o ser tem de se reconhecer como parte do fluxo de
Olódùmarè.
O caminho é o ventre e o espelho. Tudo o que existe nasce dele e nele se reflete. O homem pensa
que caminha sobre a estrada, mas é a estrada que caminha através do homem. O solo que o sustenta
é a mesma substância que compõe seus ossos; o pó que levanta é o mesmo de que seu corpo será
feito. Por isso, Òrúnmìlà compreende que o caminho não precisa saber quem o percorre — porque
já o contém, já o sustenta, já o é. O viajante é o sonho que o caminho sonha. Caminhar é tornar-se o
movimento daquilo que nunca cessa de mover-se.
Na cosmogonia de Ifá, a estrada não é apenas uma metáfora: é um Òrìṣà. Ònà é o espírito da
travessia, o princípio de todas as passagens. Nada chega a lugar algum sem passar por Ònà, e
nenhum espírito encarna sem trilhar sua via. O que se chama “caminho” é, portanto, o espaço vivo
entre as dimensões. Ònà é também Èṣù, pois é ele quem abre e fecha as rotas do destino. É Èṣù que
testemunha cada passo, cada desvio, cada retorno. Quando Òrúnmìlà fala que o caminho não sabe
quem o percorre, ele dialoga com Èṣù: aquele que sabe e finge não saber, o mensageiro do silêncio.
Èṣù é o saber que se disfarça de acaso.
O homem que busca o controle se desespera diante desse mistério. Ele deseja que o caminho o
reconheça, que o mundo valide sua passagem. Mas Ifá ensina que o reconhecimento verdadeiro vem
de dentro, não do percurso. O mundo não devolve o nome a ninguém — devolve o reflexo. O
reconhecimento é interior: o Ori, ao se encontrar consigo, sente o eco do Òrìṣà que o habita. O
caminho apenas devolve o som.
Eis a lição espiritual deste Ìtàn: a estrada é indiferente, mas o indiferente é sagrado. O divino não
escolhe a quem abençoar — é o homem quem se alinha ou se desvia. O caminho está sempre
aberto, mas nem todos o veem. O invisível é democrático, e o acesso a ele depende do estado
vibracional do coração. Caminhar é um ato de sintonia. Quando Òrúnmìlà diz que “quem percorre
deve conhecer o caminho”, ele exige da consciência humana uma maturidade cósmica: caminhar é
participar do saber de Olódùmarè, e participar é responder com reverência à vastidão daquilo que
não se explica.
359
No sentido antropológico profundo, este Ìtàn traduz o drama da liberdade. Se o caminho não sabe
quem o percorre, então o homem é livre. Nenhuma força o impede de escolher, mas cada escolha o
vincula a um destino. O caminho é neutro, mas o passo não é. A liberdade é o espaço entre o
silêncio do caminho e a responsabilidade do passo. Òrúnmìlà ensina que a liberdade sem
consciência é errância, e a consciência sem liberdade é prisão. Caminhar é o exercício de equilibrar
ambas.
No interior desse equilíbrio se forma a ética de Ifá. O homem não é bom porque obedece, mas
porque compreende. Ele não age para ser recompensado, mas porque o ato em harmonia com o
caminho é, em si, plenitude. Essa ética é o oposto da moral de controle: é uma moral de vibração.
Cada gesto justo faz o caminho florescer. O mundo responde a quem o pisa com amor, e se retrai
diante de quem o violenta. A estrada é a extensão sensível da própria consciência planetária.
Mas há um nível ainda mais profundo. “O caminho não sabe quem o percorre” é também uma
afirmação sobre o mistério de Olódùmarè. O Absoluto não se reconhece em fragmentos, mas em
totalidades. Cada ser é uma centelha inconsciente do Todo. O Todo, em sua vastidão, não distingue
o viajante, porque o viajante é apenas uma de suas ondas. O oceano não conhece o nome da gota,
mas sem as gotas não há mar. Assim é Olódùmarè: não nomeia os seres, mas os contém em sua
respiração infinita.
A hermenêutica Ìtànlógica, ao meditar sobre este verso, reconhece nele a essência da metafísica do
invisível. O caminho é o invisível manifestado em forma de travessia. O homem é o invisível
manifestado em forma de busca. O encontro entre ambos é o instante do conhecimento. Por isso, o
verdadeiro saber não é o acúmulo de informações, mas a experiência de reconhecer-se dentro do
fluxo da criação. O caminho é o mestre que ensina sem palavras, e o aprendiz é aquele que
compreende o ensinamento do silêncio.
Na travessia de Òrúnmìlà, o mundo se revela como um organismo vivo, e cada viagem é uma
iniciação. A estrada é a extensão do corpo cósmico, e caminhar é tocar o pulso de Olódùmarè. O
homem que caminha com consciência percebe que a poeira que se ergue sob seus pés é a mesma
que forma as estrelas, e que o ruído dos seus passos é o mesmo som que vibra nas órbitas celestes.
Tudo é movimento, e todo movimento é prece. O universo é a prece de Deus a si mesmo.
360
No fim, Òrúnmìlà não encontra uma resposta: ele encontra o ritmo. Ele entende que não há um
caminho que o reconheça, porque o caminho é o reconhecimento. O homem procura ser visto pelo
mundo, mas o mundo o vê através do modo como ele o vê. O que ele oferece ao caminho é o que o
caminho lhe devolve. A estrada é espelho e mestra. E no instante em que Òrúnmìlà compreende
isso, seu andar se torna oração, sua pergunta se torna cântico. Ele não precisa mais que o caminho o
saiba; basta-lhe saber-se dentro do caminho.
Assim se encerra o Ìtàn com a grande lição de Ìwòrì Ògúndá: o homem não precisa que o mundo o
reconheça para existir; ele precisa apenas reconhecer-se como parte do mundo. O caminho é
indiferente porque é completo. A consciência humana é o lampejo que o torna perceptível. Quando
ambos se tocam, surge a sabedoria. Por isso, Ifá ensina que o maior segredo não está no destino,
mas na forma como se caminha até ele. O destino é o que se chega; a sabedoria é o modo de chegar.
E quando se chega com sabedoria, compreende-se enfim: o caminho nunca foi fora — sempre foi
dentro.
361
10. Ìwòrì Òsá
Tradução:
362
“O sopro não se corrompe enquanto o corpo não se quebra.”
O Ìtàn se abre com uma tensão primordial: Òrúnmìlà, o detentor do verbo da criação, entra em
cólera contra o próprio corpo. Este gesto é simbólico e ontológico. A raiva de Òrúnmìlà contra si
mesmo não é um sentimento moral, mas uma experiência metafísica da impermanência. Ele observa
que tudo o que cria se quebra, tudo o que existe se deteriora. Terra, água, céu — nada resiste ao
ciclo da dissolução. A pergunta que ele profere — “Kí ni ohun tí kò lè fọ́?” (“O que é que não se
quebra?”) — não é apenas uma questão sobre a matéria, mas sobre o próprio fundamento do ser.
Nesse instante, Òrúnmìlà inaugura a metafísica da fragilidade, uma doutrina que reconhece o corpo
como campo de passagem e o sopro como permanência.
Em Ifá, o corpo (Àrà) é a arquitetura do visível. Ele é o território onde o invisível se manifesta. Mas
o corpo, por definição, é finito; o sopro (Èmí), ao contrário, é indestrutível. O Ìtàn revela a tensão
entre essas duas forças: o efêmero e o eterno, o mutável e o contínuo. Quando Òrúnmìlà pergunta o
que não se quebra, ele se volta para o ponto de sustentação de toda ontologia iorubá — o Èmí
Olódùmarè, o sopro primordial de Olódùmarè que permeia todas as formas. É este sopro que
garante a continuidade da vida mesmo diante da ruína da matéria.
A raiva de Òrúnmìlà é, portanto, o primeiro passo da iluminação. Ele se indigna porque vê o corpo
— e com ele o mundo — se desintegrando, mas sua indignação é o impulso que o leva à
compreensão. É nesse movimento que ele é aconselhado a fazer èbó com cabra, carneiro e água
fresca. Esses elementos não são arbitrários: representam, respectivamente, a vitalidade (ewúrẹ́), a
força (àgùtàn) e a purificação (omi tútù). O ebo reconcilia os três níveis do ser — vital, corpóreo e
espiritual — restabelecendo o equilíbrio entre o que se rompe e o que permanece.
Ao lavar o corpo com água fresca, Òrúnmìlà simboliza a purificação do olhar. A água é o espelho do
Ọ̀run, o elemento que liga o alto e o baixo. Lavar-se é relembrar-se. O corpo, quando lavado
ritualmente, deixa de ser um invólucro e se torna um altar. Por isso, ao terminar o ebo, Òrúnmìlà
pronuncia a frase que se tornará fundamento ontológico: “Ẹ̀ mí ò ní bàjẹ́, bí ara ò bá fọ́” — o sopro
não se corrompe enquanto o corpo não se quebra. Essa sentença contém o núcleo da filosofia da
resistência espiritual em Ifá.
363
O corpo é o vaso, o sopro é o conteúdo. O vaso pode trincar, mas enquanto o conteúdo vibrar, a
existência continua. O que se quebra é a forma, não a essência. A verdadeira corrupção é a do
esquecimento: quando o homem confunde a forma com a essência, o corpo com o ser. Òrúnmìlà, ao
compreender essa distinção, se liberta da cólera e reencontra o centro. Ele percebe que o sofrimento
nasce da identificação com o que se desfaz. A salvação, portanto, não é escapar do corpo, mas viver
no corpo com consciência do sopro.
Esta é a primeira lição do Ìtàn: quem conhece o Èmí, não teme o Àrà. O homem espiritual não nega
o corpo, mas o reconhece como veículo da eternidade. Cada respiração é uma lembrança do pacto
original entre o ser humano e Olódùmarè. O sopro que entra e sai é a assinatura do divino no corpo
do mundo. Por isso, Òrúnmìlà não destrói o corpo — ele o purifica. Ele não foge da matéria, mas a
transfigura. O segredo de Ifá não é negar a carne, mas torná-la translúcida.
O ebo, nesse contexto, é o ato epistemológico por excelência. Sacrificar é devolver à totalidade o
que estava preso na forma. Quando Òrúnmìlà oferece o carneiro e a cabra, ele devolve ao ciclo da
vida as forças que o corpo havia retido. A carne que se oferece se transforma em linguagem; o
sangue que se derrama se converte em sabedoria. O ebo, assim, é o gesto pelo qual o homem lembra
ao universo que nada lhe pertence, nem mesmo o próprio corpo.
O sopro (Èmí), ao contrário, pertence a Olódùmarè e jamais se corrompe. É o princípio anímico que
atravessa todas as existências e as mantém interligadas. O sopro é o invisível em estado de vibração.
É ele que sustenta o cosmos, que dá vida às palavras, que anima o silêncio. Por isso Òrúnmìlà
afirma que o Èmí não se deteriora: ele é a única substância incorruptível, a luz que brilha mesmo
nas trevas do corpo.
Na hermenêutica Ìtànlógica, essa passagem revela o núcleo da ontologia iorubá: o ser não é uma
substância imóvel, mas um fluxo contínuo. O corpo é uma estação; o sopro, o viajante. A morte não
é o fim da viagem, mas uma mudança de rota. O que se quebra é a casa, não o habitante. E é por
isso que Òrúnmìlà, depois do ebo, experimenta uma serenidade nova — ele reconhece que o
sofrimento é apenas o ruído da forma quando tenta reter o fluxo.
364
Ifá ensina que todo corpo está destinado à fadiga, mas todo sopro é chamado à perpetuidade. Essa é
a ontologia do equilíbrio: o ser é, simultaneamente, pó e vento. O pó retorna à terra; o vento
continua no céu. Entre ambos, o homem vive, ora pesado, ora leve, ora lembrado, ora esquecido.
Òrúnmìlà, ao declarar a pureza do Èmí, não fala apenas de si — fala de toda criação. Ele reconhece
que há algo no homem que nem o tempo pode tocar.
A segunda meditação deste Ìtàn começa no ponto em que o corpo e o sopro deixam de ser apenas
categorias do existir e se tornam linguagens do cosmos. O corpo fala o mundo; o sopro o interpreta.
O corpo é o signo; o sopro, o sentido. Ambos coexistem na espiral da criação, e é no entrelaçamento
entre eles que se escreve a história do ser. Òrúnmìlà, ao purificar-se com a água fresca, atravessa a
linha que separa o sofrimento da consciência e percebe que cada fissura no corpo é uma janela do
espírito. O corpo não é o limite do ser, é sua tradução. Assim como o vento não se vê mas se sente
nas folhas, o sopro se manifesta através do corpo, e o corpo é o modo visível de uma realidade
invisível.
É por isso que Ifá jamais separa a biologia da ontologia. O homem não é um conjunto de órgãos,
mas uma constelação de forças. Cada órgão, cada osso, cada músculo é uma palavra que o Òrìṣà
pronunciou na fundação do corpo. A carne é gramática. O sangue é verbo. O coração é tambor. O
sopro é o cântico. O corpo é o templo móvel onde o invisível se recolhe para tornar-se sensível. A
espiritualidade de Ifá, portanto, não se realiza pela negação do corpo, mas pela sua consagração. O
corpo é o Òrun em estado denso; o Òrun é o corpo em estado de luz.
Quando Òrúnmìlà compreende que o Èmí não se corrompe, ele alcança o ponto de reversão: o
momento em que a consciência se recorda de ser uma respiração de Olódùmarè. O sopro não
pertence ao homem; é o homem que pertence ao sopro. Cada vez que o homem respira, ele é
respirado pelo cosmos. Ele não inspira o ar: o ar o inspira. Esta é a inversão epistemológica que a
filosofia ocidental tardou a compreender. Enquanto Aristóteles pensou o pneuma como princípio
vital que anima a matéria, e Tomás de Aquino o traduziu em spiritus — o sopro racional que ordena
o corpo à alma —, Ifá o vive como vibração cósmica inseparável da totalidade do ser.
O Èmí não é substância, mas relação. É o intervalo entre o nascimento e a morte, o ritmo do
invisível dentro do tempo. Diferente do pneuma aristotélico, que habita o corpo, o Èmí é o próprio
corpo em estado de canto. Ele não é um princípio adicionado, mas o som que dá existência à forma.
365
O pneuma é pensamento que respira; o Èmí é respiração que pensa. Se o tomismo separou o espírito
do corpo para alcançar o conhecimento do divino, Ifá o reintegra para ouvir o divino no interior do
corpo. Em Tomás, o spiritus ascende; em Òrúnmìlà, o Èmí espirala.
A espiral é a figura central de Ìwòrì Òsá. Pois a espiral une o que parece distante: o alto e o baixo, o
centro e a periferia, o visível e o invisível. No gesto de Òrúnmìlà lavando-se com água fresca está
contido o movimento da espiral: ele desce à matéria para reencontrar o espírito. O sopro é essa força
de retorno. Ele é o fluxo que recolhe e devolve, que purifica e reconstrói. A hermenêutica Ìtànlógica
reconhece nesse gesto a estrutura do conhecimento africano tradicional: não há ascensão sem
imersão, não há pureza sem contato, não há sabedoria sem corpo.
Òrúnmìlà descobre que o Èmí não se corrompe porque ele não pertence ao regime da matéria, mas
ao da memória divina. O sopro é o arquivo de Olódùmarè. Nele estão gravadas todas as histórias,
todas as intenções, todas as potências não realizadas. É o sopro que faz o tempo fluir e o ser
lembrar-se. Cada respiração humana é uma leitura e uma escrita nesse arquivo cósmico. A
respiração é o método do invisível: um modo de ler o mundo pelo ritmo.
E é nesse ponto que o Ìtàn toca a antropologia profunda: o homem iorubá não pensa a alma como
substância imortal oposta ao corpo, mas como continuidade vibratória. O que permanece após a
morte não é uma essência separada, mas a vibração daquilo que foi vivido com consciência. O Èmí
que não se corrompe é o rastro luminoso da experiência justa. O corpo, ao cair, devolve ao mundo o
que reteve, e o sopro, purificado pela vida, retorna à fonte de onde veio. Por isso, viver bem é
respirar bem; e respirar bem é harmonizar-se com o ritmo de Ifá.
O Èmí é o fio invisível que une todos os seres. Ele passa pelas folhas, pelas pedras, pelos rios, pelos
animais, pelos homens. Tudo que vive participa do mesmo sopro. Essa comunhão respiratória é a
ontologia ecológica de Ifá: não há hierarquia entre o humano e o não humano, há apenas graus de
consciência do sopro. O que diferencia Òrúnmìlà do vento é que Òrúnmìlà sabe que respira. A
sabedoria é a consciência da respiração universal.
Por isso, a frase “Ẹ̀ mí ò ní bàjẹ́, bí ara ò bá fọ́” é também uma advertência ética. Ela ensina que a
integridade do sopro depende da integridade da vida. O sopro não se corrompe enquanto o corpo
não se quebra — isto é, enquanto a ação humana não rompe o pacto com o equilíbrio. O corpo, no
366
sentido mais amplo, é também o corpo do mundo, o corpo da terra. O homem, ao violentar o
mundo, corrompe o seu próprio sopro. A destruição ecológica é, portanto, uma autodegradação
espiritual. O corpo do planeta é o espelho do corpo humano.
A hermenêutica Ìtànlógica amplia aqui a noção de corpo para a totalidade do cosmos. O corpo não é
o indivíduo, mas a rede de interdependências que sustenta a vida. O Èmí é a vibração dessa rede.
Quando uma parte se quebra, o conjunto ressoa. O sofrimento individual é sintoma da fratura
coletiva. Òrúnmìlà aprende isso ao ver a terra, a água e o céu em desordem. O desequilíbrio externo
reflete o interno. O ebo e a água fresca restauram o fluxo entre ambos.
O ebo, assim, é também uma epistemologia: ele reordena o campo vibracional do mundo. Sacrificar
é redistribuir o Àṣẹ, é devolver às forças cósmicas o equilíbrio que a consciência humana perturba.
É por isso que Òrúnmìlà, ao completar o ritual, não apenas purifica o corpo, mas pacifica o
universo. Ele se reconcilia com a totalidade e, ao fazê-lo, sua cólera se dissolve.
A serenidade que segue o ebo não é passividade, é soberania interior. Òrúnmìlà descobre que nada
fora dele tem poder de destruí-lo. Enquanto o corpo se sustentar na harmonia do sopro, nenhuma
força externa o dominará. A corrupção do mundo começa na ruptura do ritmo. O que se quebra
primeiro é o compasso, depois a forma. A ética de Ifá é uma ética do compasso — uma disciplina
do tempo e do sopro.
Assim, Ìwòrì Òsá anuncia uma ontologia rítmica: ser é vibrar. O homem justo é aquele que pulsa
em harmonia com o cosmos. A retidão moral é a retidão da respiração. Quem mente, respira mal.
Quem inveja, prende o ar. Quem ama, expande o peito. O corpo é o barômetro do espírito. O sopro
não mente. O que Òrúnmìlà compreende é que o corpo pode se cansar, mas enquanto o sopro estiver
ritmado, a vida florescerá.
No âmago dessa filosofia, há uma teologia da confiança. O mundo pode ruir, mas o sopro
permanece. Esta é a fé de Òrúnmìlà: não a fé cega, mas a confiança respiratória no ritmo do real. É
a certeza de que o invisível jamais abandona o visível, apenas o recolhe. A fé é o ritmo invisível da
esperança.
367
No coração do verso “Ẹ̀ mí ò ní bàjẹ́, bí ara ò bá fọ́” repousa o segredo da correspondência entre
Ọ̀run e Àiyé, entre o invisível e o manifesto. O sopro que Òrúnmìlà reconhece como incorruptível
não é um princípio individual, mas o movimento respiratório do próprio cosmos. Tudo o que existe
respira: as pedras respiram lentamente, os rios respiram através das ondas, as árvores respiram pela
fotossíntese do silêncio, e os homens respiram com o espanto. A respiração é a comunhão universal
entre todas as formas do ser, a linguagem comum entre Ọ̀run e Àiyé. Quando o Ìtàn afirma que o
sopro não se corrompe, ele fala de uma fidelidade cósmica: a de Olódùmarè a si mesmo através de
cada ser que respira.
O sopro é a lembrança de Ọ̀run dentro de Àiyé. Cada inspiração é um retorno ao princípio; cada
expiração, uma doação ao mundo. Entre ambas, o homem vive suspenso na fidelidade do ritmo. O
mistério de Òrúnmìlà é perceber que o sopro não se reduz ao ato fisiológico, mas à vibração
espiritual que sustenta a respiração biológica. O ar que se move nos pulmões é a expressão sensível
do movimento invisível do Èmí. Por isso, o ar não é apenas um elemento natural — é uma matéria
sagrada, o corpo tangível do espírito.
A filosofia de Ifá ensina que há três níveis de respiração: a respiração da vida (Èmí àiyé), a
respiração da palavra (Èmí ọ̀rọ̀) e a respiração da consciência (Èmí ìmọ̀lè ̣). A primeira anima o
corpo, a segunda dá voz ao ser, a terceira o reconecta à sua origem. Òrúnmìlà, ao pronunciar sua
sentença, percorre esses três níveis: primeiro respira a vida (sobrevive ao cansaço), depois respira a
palavra (declara o princípio), e enfim respira a consciência (reconhece o infinito no finito). Assim,
sua voz é o ponto em que o invisível fala em primeira pessoa.
Èṣù, o guardião dos caminhos e das passagens, é também o guardião do sopro. Ele é o senhor das
travessias do ar, o portador da vibração primordial que faz o som tornar-se sentido. Èṣù é o primeiro
a receber o sopro de Olódùmarè e o último a devolvê-lo ao silêncio. É ele quem mantém a
integridade do Èmí entre Ọ̀run e Àiyé, garantindo que a palavra chegue viva, que a promessa não se
perca e que o ritmo do universo se mantenha coerente. Quando Òrúnmìlà afirma que o sopro não se
corrompe, ele o faz sob a guarda de Èṣù, porque Èṣù é o guardião do que passa.
A presença de Èṣù neste Ìtàn é implícita, mas decisiva. Pois o que Òrúnmìlà descobre não é apenas
a incorruptibilidade do sopro, mas o caminho de retorno do sopro à sua fonte. Esse caminho é Èṣù.
Ele é o intermediário que permite que o sopro circule sem se dissipar, o eixo que faz da respiração
368
um rito cósmico. Èṣù assegura que o que é emitido como palavra volte ao silêncio sem se perder, e
que o silêncio, ao romper-se em som, não se corrompa em ruído. O sopro é puro enquanto Èṣù
guarda o compasso do mundo.
O verso, assim, é também uma teologia da escuta. Se o sopro é incorruptível, é porque o ouvido do
cosmos permanece atento. A corrupção começa quando o ouvido se fecha. Quando Òrúnmìlà fala, o
universo o escuta, e o escutar é o modo como o invisível responde. Por isso o Ìtàn não termina com
um milagre, mas com uma constatação: o sopro é eterno porque o mundo continua escutando
Olódùmarè respirar.
Este princípio ecoa nas cosmologias de outras tradições, revelando a universalidade do mistério
respiratório. Em João 1:1 — “No princípio era o Verbo” — o que se afirma é que o universo nasceu
de um som, de uma vibração. Mas o Ifá vai além: não apenas o universo nasceu do som, ele
continua sendo sustentado por ele. O Verbo de Olódùmarè não é passado, é presente contínuo. Ele
fala incessantemente, e o que chamamos de natureza é o eco dessa voz. Em Ifá, a palavra não foi
dita uma vez; ela é dita sempre. A criação é um canto que nunca termina.
O Tao Te Ching, em sua via silenciosa, também reconhece esse princípio quando diz: “O Tao gera o
Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, e o Três gera os dez mil seres.” Essa genealogia
vibratória do real encontra em Ifá sua forma sonora: o Èmí é o Tao em movimento, o sopro que
articula os mundos. Cada Odu é uma frequência do Tao, uma modulação do Èmí divino em forma
de conselho. A diferença está no modo: enquanto o Tao dissolve a forma no fluxo, Ifá encarna o
fluxo na forma — por isso o corpo é sagrado.
Òrúnmìlà, ao dizer “o sopro não se corrompe enquanto o corpo não se quebra”, ensina que o corpo é
o instrumento do divino. O corpo se quebra quando esquece o ritmo, quando se torna surdo ao
compasso do sopro. A corrupção espiritual, portanto, é uma disritmia — um desencontro entre o
movimento interno e o movimento cósmico. O homem que vive apressado vive fora do Èmí. O que
respira com consciência volta ao princípio a cada fôlego.
A cosmologia de Ọ̀run e Àiyé se revela, então, como um grande pulmão: Ọ̀run inspira, Àiyé expira.
O que o alto recebe, o baixo devolve. O que o baixo produz, o alto recolhe. Cada Odu é um
movimento desse pulmão sagrado, uma pulsação do cosmos. Ìwòrì Òsá, nesse contexto, representa
369
a fase da purificação do ar — o momento em que o sopro, carregado de impurezas do mundo,
retorna ao Ọ̀run para ser renovado. O ebo com água fresca é o rito desse retorno.
Mas a profundidade do Ìtàn não está apenas em sua cosmologia, e sim na ética que dela deriva. Se o
sopro é incorruptível, cabe ao homem proteger o corpo — não por vaidade, mas por reverência. O
corpo é a morada do sopro, e cuidar dele é cuidar do verbo de Olódùmarè. A espiritualidade do Ifá
não é ascética, é estética: o corpo justo é o corpo belo porque está em ritmo. A saúde é a harmonia
do som e da forma.
Por isso, em Ifá, o bem viver é uma arte respiratória. Quem vive em compasso com o Èmí
transforma o cotidiano em rito. Cozinhar, dançar, caminhar, escrever, fazer amor — tudo são formas
de respiração. O espírito não está fora da vida, mas dentro do ritmo do fazer. A Ìwà pẹ̀lẹ̀ — o caráter
suave — é o nome ético do ritmo cósmico. Ser de bom caráter é respirar suavemente o sopro do
universo.
Quando Òrúnmìlà percebe isso, ele não apenas se reconcilia com o corpo, mas o sacraliza. Ele
entende que a fragilidade é o preço da manifestação. O que se quebra é o que se revela. O corpo é o
instrumento pelo qual o invisível se experimenta, e o sofrimento é o atrito dessa experiência. Mas o
sopro, que o anima, é o testemunho do divino em estado puro.
O Èmí é o selo da presença de Olódùmarè no mundo. Nada o corrompe porque ele é a própria
pureza em movimento. Ele é o que resta quando tudo passa, o que vibra quando tudo se cala. O
homem que o reconhece torna-se coautor da criação. Ele já não vive apenas para durar, mas para
ressoar.
370
A palavra de Òrúnmìlà nasce do silêncio de Olódùmarè, mas o silêncio de Òrúnmìlà é o eco
consciente da palavra de Olódùmarè dentro do tempo. O que se chama sabedoria, em Ifá, é essa
capacidade de ressoar o verbo sem profaná-lo, de transmitir o sopro sem desviá-lo. O Èmí é
incorruptível porque ele é o ritmo original da criação — e só o ritmo é eterno. Quando o corpo
cessa, o ritmo continua, quando a voz se cala, o som permanece na vibração. A morte é o intervalo
que confirma a continuidade do sopro.
Toda a teogonia de Ifá está edificada sobre essa experiência de continuidade. A criação não é um ato
isolado, mas um fluxo ininterrupto de emanação e retorno. Olódùmarè sopra, o mundo nasce; o
mundo respira, Olódùmarè se reconhece. Esse ciclo eterno é o que a tradição chama de àtúnwá — o
eterno retorno da energia vital em novas formas. O sopro não se corrompe porque ele não é
individual: ele é o mesmo em todos, o mesmo que existiu antes do tempo e continuará após o fim
do tempo.
A hermenêutica Ìtànlógica lê nessa permanência não um dogma, mas uma ética ontológica: o ser
humano é o guardião do sopro que não lhe pertence. O corpo é o vaso da presença, e viver é cuidar
desse vaso para que ele não se quebre antes da hora. Cuidar do corpo, em Ifá, é cuidar do ritmo da
existência. O homem justo é aquele que vive de modo a permitir que o sopro continue puro dentro
dele. Por isso, a pureza não é uma qualidade moral, mas vibracional. Ser puro é estar em sintonia
com o fluxo divino.
A impureza é o esquecimento do ritmo. O homem que esquece que respira o sopro de Olódùmarè
começa a agir como se o corpo fosse uma propriedade privada. Ele se fecha, retém, acumula, e
assim o fluxo se interrompe. O ego é a doença da respiração. Òrúnmìlà cura-se da cólera quando
renuncia à pretensão de controlar o ritmo. Ele volta a ser canal, e não obstáculo. O sábio não respira
por si, ele é respirado pelo cosmos.
No fundo, o Ìtàn é um tratado sobre a arte de deixar-se respirar. O homem moderno, que perdeu o
sentido da respiração, vive fora do Èmí. Ele respira mecanicamente, mas não espiritualmente. Ele
consome o ar, mas não o escuta. Por isso adoece, por isso se esgota. Ifá, ao contrário, ensina a
respiração como forma de escuta. Respirar é dialogar com o invisível. É abrir-se ao som que está
antes de todas as palavras.
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O segredo de Òrúnmìlà é esse: o sopro não se corrompe porque ele nunca deixa de ser oração. O
Èmí é o modo como Olódùmarè ora dentro da criação. Cada fôlego é um cântico cósmico, uma
súplica e uma gratidão simultâneas. O corpo participa desse cântico quando se reconhece como
instrumento. A santidade não é a negação do corpo, mas sua afinação.
Na linguagem de Ifá, o corpo é tambor. O tambor só fala enquanto sua pele está tensa, enquanto o ar
vibra em seu interior. Se a pele se rompe, o som cessa. Òrúnmìlà entende que o corpo, como o
tambor, não é o som, mas o meio do som. Por isso, “o sopro não se corrompe enquanto o corpo não
se quebra” quer dizer também: o som continua enquanto o tambor se mantém em ritmo. O tambor
da existência deve ser afinado constantemente com os ritos, os cantos, as palavras certas, as ações
justas. O ebo que Òrúnmìlà realiza é o ato de reafinamento do corpo-cosmos.
A partir desse ponto, o Ìtàn se eleva à esfera da ontogênese: o sopro não apenas sustenta o ser, ele o
recria a cada instante. O Èmí é o motor da criação contínua. Olódùmarè não criou o mundo uma
vez, ele o cria a cada respiração do universo. O homem participa desse processo quando age em
conformidade com o ritmo. Cada ato justo é uma extensão do sopro divino, cada injustiça é um
obstáculo ao seu curso. Por isso, a ética de Ifá é inseparável da metafísica: agir bem é respirar bem;
pensar bem é purificar o ar interno; amar é manter a respiração aberta entre os seres.
No plano mais sutil, o Èmí é também a substância do pensamento. Pensar é respirar o invisível. O
intelecto, quando iluminado, não cria ideias: ele inspira o que já está no ar. A sabedoria é uma
respiração que se torna palavra. Por isso, o Bàbáláwo não fala de si, mas do que o sopro lhe dita.
Ele é ouvido, não orador. Cada verso de Ifá é uma exalação do invisível. O que Òrúnmìlà faz, nesse
Ìtàn, é devolver a palavra à sua origem respiratória.
Quando ele declara que o sopro é incorruptível, ele não está descrevendo uma doutrina, mas
encarnando-a. Ele fala e, ao falar, reordena o mundo. Sua voz restaura o equilíbrio perdido. É assim
que se compreende a performatividade do verso de Ifá: toda palavra pronunciada em alinhamento
com o ritmo do Èmí é criadora. A palavra justa é sopro em estado puro. Ela não explica o mundo,
ela o refaz.
O silêncio final de Òrúnmìlà, após o ebo, é o sinal de que a palavra cumpriu sua função. O verbo,
tendo reconstituído o ritmo, volta ao silêncio. O círculo se fecha. O que foi criado retorna à origem,
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mas sem deixar de vibrar. Essa é a imagem suprema da incorruptibilidade: o som que se torna
silêncio sem deixar de ser som, o ser que se torna ausência sem deixar de ser presença. A morte é
apenas o nome dessa transição.
O Èmí, portanto, não é apenas o princípio vital — é o princípio da transmutação. Ele é o ouro
alquímico do universo, a substância que atravessa todos os estados sem perder sua pureza. O corpo
pode passar do sólido ao pó, do calor à frieza, da forma à cinza, mas o sopro permanece. Ele é a
fidelidade do real a si mesmo.