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Nomear, Subverter, Organizar

O artigo de Rubens Marcelo Volich explora a relação entre o corpo e a psicanálise, destacando a importância de lidar com manifestações corporais além da representação psíquica. Ele analisa a necessidade de técnicas clínicas para tratar desorganizações psicossomáticas, enfatizando a função do enquadre, transferência e contratransferência. O texto também discute a perspectiva freudiana sobre a interconexão entre o psíquico e o somático, propondo uma ampliação dos recursos clínicos na psicanálise.

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O artigo de Rubens Marcelo Volich explora a relação entre o corpo e a psicanálise, destacando a importância de lidar com manifestações corporais além da representação psíquica. Ele analisa a necessidade de técnicas clínicas para tratar desorganizações psicossomáticas, enfatizando a função do enquadre, transferência e contratransferência. O texto também discute a perspectiva freudiana sobre a interconexão entre o psíquico e o somático, propondo uma ampliação dos recursos clínicos na psicanálise.

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Nomear, subverter, organizar.

O corpo na clínica psicanalítica

Rubens Marcelo Volich

Revista Brasileira de Psicanálise Rubens Marcelo Volich é


volume 50, n.2, p. 47-64 · 2016 psicanalista. Doutor pela
Universidade de Paris VII – Denis
Diderot. Professor do Curso de
Psicossomática Psicanalítica do
Instituto Sedes Sapientiae. Autor
Resumo de Psicossomática: de Hipócrates
à psicanálise (Casa do Psicólogo,
Apesar da importância das hipóteses freudianas sobre o corpo
2000), Hipocondria: impasses da
e as relações entre o psíquico e o somático, por muito tempo alma, desafios do corpo (Casa do
o trabalho psicanalítico com as manifestações corporais Psicólogo, 2002), Segredos de mulher:
teve como condição a mediação representativa e a inscrição diálogos entre um ginecologista e
psíquica dessas experiências. Muitos se empenharam em um psicanalista (em coautoria com
Alexandre Faisal; Atheneu, 2010),
ampliar os recursos clínicos da psicanálise para lidar com
coorganizador e autor dos livros da
manifestações mais primitivas, aquém da representação série Psicossoma (Casa do Psicólogo).
e do recalcamento. Este artigo analisa aspectos clínicos e
metapsicológicos que sustentam essa ampliação, revelando
a necessidade e a função do manejo do enquadre, da
transferência, da contratransferência, dos modos de
observação, escuta e interpretação para viabilizar o trabalho
com pacientes que vivem desorganizações de sua economia
psicossomática, crônicas ou momentâneas.
Palavras-chave
técnica psicanalítica; enquadre; contratransferência; não
representado; desorganizações psicossomáticas.

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N aquele dia, ao nos cumprimentar-


mos, Marlene aproximou-se em silêncio,
Naquela sessão, Marlene se transfigu-
rara. Em sua vida, sempre “otimista, forte e
substituindo por um beijo o habitual aperto empreendedora”, “nunca se furtara a enfren-
de mãos. tar desafios e dificuldades”. Investia aquela
Caminhou até o divã e, enquanto se dei- primeira análise que realizava. Cativada
tava, murmurou: “É maligno…” pelas descobertas que ela lhe propiciava,
Nem mais uma palavra. Intrigado com enfrentava com coragem os momentos de
seu silêncio, passei a sentir sua angústia. sofrimento, e mesmo as lembranças mais
Depois de um bom tempo, olhando para difíceis não pareciam intimidá-la.
ela, comecei a perceber que passara a falar Em muitos desses momentos, convocara
uma outra língua. Aparentemente imóvel, explicitamente minha presença, minhas
seu peito arfava, suas mãos se contorciam, impressões, pedindo que “não a deixasse
seus olhos piscavam aceleradamente. Per- só”: solicitava-me, interagindo tanto com
cebi, ainda, os tremores de seus lábios e os minhas interpretações como com minha
movimentos imperceptíveis de sua boca, reserva. Sabendo-me ali, com ela, mesmo
como que articulando frases curtas, sem voz. quando sentia que a decepcionava, conti-
Diante de uma fala que me buscava sem nuava a associar.
poder me incluir, minha aflição crescia. Naquele dia, era diferente. Era outro seu
Eu compreendia o motivo de sua side- silêncio. Nenhuma palavra. Inércia. Relu-
ração. Algumas semanas antes, um sangra- tei e, depois de um certo tempo, decidi, eu,
mento urinário alertara para a necessidade convocá-la, convidando-a explicitamente a
de uma investigação ginecológica. Chegou dividir comigo o que sentia, o que pensava.
a considerar que poderia ser algo mais Em vão.
grave, porém rapidamente descartou essa Do divã, Marlene apresentava apenas
possibilidade. Há alguns meses, em suas o imobilismo de seu corpo, a aflição de
sessões, vinha descobrindo, em longínquas suas mãos, a apreensão de sua respiração,
paragens, fragmentos nunca percebidos de o choro contido de seus olhos, as palavras
seu desejo de ser mãe. De início desviara balbuciadas sem voz e sem força para che-
seu olhar, refugara, estranhara, porém, garem a quem quer que fosse. Um sofri-
por fim, passou a interessar-se por conhe- mento intenso que não encontrava, naquele
cê-los e, mesmo que hesitante, a investi- momento, outra forma de se manifestar.
-los. Aos 38 anos, acreditava ainda que Senti-me, eu, sozinho. Imaginei ser a soli-
poderia engravidar e vinha se preparando dão parte do que a aterrorizava. Compreen-
para conhecer-se vivendo as experiências dendo sua dificuldade em me responder, em
nunca imaginadas de sua maternidade. O me alcançar, decidi simplesmente descre-
diagnóstico de malignidade de um tumor ver o que observava em seu corpo. Esperava
uterino e uma possível histerectomia signi-
ficaram bruscamente para ela a impossibi-
lidade daquele incipiente desejo.

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Rubens Marcelo Volich

sinalizar minha presença, por meio de algu- psicanalítica. Desde os primeiros artigos
mas palavras às quais, quem sabe, ela pudesse sobre o tratamento da histeria pela hip-
se agarrar para sair de seu imobilismo e nose, passando pela associação livre e pela
comigo retomar a elaboração de sua dor. análise da transferência, até os últimos tex-
Sem interpretar ou me referir aos afetos tos sobre as construções em análise, esse fio
que me sugeriam, apenas relatei em voz alta alinhava a clínica psicanalítica em torno do
os movimentos de suas mãos, de sua respi- trabalho sobre o recalcamento, mecanis-
ração, de seus olhos, de sua boca. Como se mos de defesa e dinâmicas psíquicas.
tocasse e percorresse com minhas palavras Em diferentes momentos, Freud sus-
cada um deles, convidando-a a me acompa- tenta que o objetivo de todas essas técnicas
nhar. Ainda em silêncio, brotaram nela as sempre permaneceu o mesmo: “preencher
primeiras lágrimas, interrompeu-se a agita- lacunas na memória” e “superar resistên-
ção de suas mãos. Depois de alguns instantes, cias devidas ao recalcamento” (Freud,
chorando, murmurou: “Eu não consigo…” 1914/1975k, p. 193). Até seus últimos traba-
Esperei um pouco antes de lhe lhos, Freud permaneceu fiel a esse princí-
dizer: “Há muitas maneiras de ser mãe, pio, insistindo que a análise “visa a induzir
Marlene…” o paciente a abandonar o recalcamento
Ainda balbuciando, com a voz ainda frá- ([…] no sentido mais amplo) próprio a seu
gil, ela revelou que passara a sonhar com primitivo desenvolvimento e a substituí-lo
a gravidez “mais do que pudera reconhe- por reações de um tipo que corresponda
cer nas sessões”; que poucas vezes na vida a uma condição psiquicamente madura”
não conseguira superar os obstáculos que (Freud, 1937/1975d, p. 291).
encontrara a seus projetos; que acostumada A análise de lembranças, sonhos, lap-
a brigar pelo que desejava e a alcançar seus sos, devaneios, fantasias, representações,
objetivos, nunca imaginou “que pudesse ser fragmentos de memória, revelados na ses-
traída por seu próprio corpo”, muito menos são por meio da associação livre, acompa-
naquele sonho descoberto e tão investido nhados por diferentes expressões afetivas,
recentemente. permite a superação do recalcamento e
Retomamos, juntos novamente, esse das resistências, a emergência dos con-
caminho… teúdos inconscientes, o restabelecimento
de “conexões emocionais”, a transforma-
ção e a superação dos conflitos e sintomas
A clínica do recalcamento neuróticos.
Naturalmente, Freud também reconhe-
Um fio consistente perpassa a obra freu- cia os silêncios, as expressões e atitudes
diana determinando as bases da técnica corporais, os sintomas e doenças orgâni-
cas, as atuações dos pacientes, porém, na
análise, esses elementos só podiam ser con-
siderados na medida em fossem objeto de

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associações, relacionados a lembranças e psicanalistas. Porém, apesar de preconizar


elaborações. seu método apenas para o tratamento das
Desde os anos 1890, essa condição pas- manifestações neuróticas, organizadas em
sou a ser um critério diferencial para a indi- torno do recalcamento, das defesas e dinâ-
cação do tratamento psicanalítico. Por um micas psíquicas, Freud sempre considerou
lado, as psiconeuroses (histeria, neurose as relações imanentes entre o psíquico e
obsessiva, fobia e psicose), marcadas pelo o somático. Apesar das restrições ao trata-
recalcamento, por conflitos e mecanismos mento psicanalítico das neuroses atuais e
de defesa psíquicos, por relações entre afe- doenças orgânicas, em 1923 ele afirmou
tos e representações, por formações de que os médicos podem ser “amplamente
compromisso e por experiências infantis, recompensados [por] uma compreensão
seriam suscetíveis e responderiam bem ao inesperada das complicações da vida men-
processo psicanalítico (Freud, 1894/1975j). tal e das inter-relações entre o mental e o
Por outro lado, a neurastenia, a neurose físico” (1923/1975e, p. 303).
de angústia, a hipocondria e as neuroses Era natural que Freud reconhecesse que
traumáticas (descritas em 1917), reunidas a existência do psiquismo tem como con-
em torno da categoria de neuroses atuais, dição um substrato orgânico, anatômico e
não implicavam o recalcamento, a dimen- fisiológico. Toda a sua obra é marcada pela
são representativa e a mediação de proces- consideração dessas dimensões, reconhe-
sos psíquicos. Nelas, a fonte dos sintomas cendo no aparelho psíquico uma impor-
não estaria relacionada a experiências tante função de mediação de experiências,
infantis, mas a perturbações da vida sexual processos e estímulos provenientes tanto do
e dos afetos vividos no presente dos pacien- organismo como do mundo externo.
tes. Tais perturbações, “sem nenhuma deri- Médico e interessado inicialmente
vação psíquica”, seriam descarregadas por pela neurologia, Freud muito cedo reco-
meio de diferentes funções corporais, como nheceu os limites das concepções estrita-
as cardiovasculares, respiratórias, digestórias mente organicistas para a compreensão
e outras.1 Nesse grupo, “o afeto não se ori- clínica. Desde seu estudo sobre as afasias
gina numa representação recalcada, reve- (1891/2013) até seus trabalhos sobre a his-
lando-se não adicionalmente redutível pela teria, ele já criticava as leituras exclusiva-
análise psicológica, nem equacionável pela mente mecânicas e neurológicas desses
psicoterapia” (Freud, 1895/1975m, p. 99). distúrbios, ressaltando que a conversão
histérica era independente da anatomia,
fruto do conflito entre “grupos psíquicos
O corpo revelado separados” e da impossibilidade de inte-
grar a concepção de órgão ou da função
Durante muitas décadas, esses crité-
rios pautaram as indicações de aná-
lise dos pacientes de várias gerações de

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pelas associações do ego consciente (Freud, órgão pode, inclusive, modificar a fun-
1893/1975b; Freud & Breuer, 1895/1975). ção anatômica ou fisiológica desse órgão
O corpo se revela na teoria freudiana ora (Freud, 1910/1975c) e igualmente a própria
como fonte de experiências que podem ou organização e funcionamento das instân-
não ser percebidas, representadas e elabo- cias psíquicas, do narcisismo e das relações
radas por instâncias e funções psíquicas, objetais (Freud, 1914/1975l).
ora como destino possível para a expressão As relações íntimas e originárias são
e descarga de excitações, afetos e libido, particularmente evidenciadas na metapsi-
palco de vivências de prazer e desprazer, de cologia, na segunda tópica e nos modelos
gozo, de angústia e de sofrimento, articu- pulsionais.
ladas ou não com as dinâmicas psíquicas. Freud (1915/1975g) concebe a pulsão
No sonho, o corpo pode surgir como como “um conceito-limite entre o psíquico
fonte, conteúdo e protagonista de imagens e o somático”, uma manifestação que surge
e experiências, porém, o próprio sonho do corpo, que se constitui também como
se coloca a serviço de necessidades de um “representante psíquico das excitações
repouso do organismo, preservando o sono, e estímulos oriundos do interior [desse]
integrando percepções, sensações e exci- corpo” (p. 127). Dessa forma, ele aponta
tações oriundas do organismo e também para as raízes somáticas do psiquismo,
do mundo externo (Freud, 1900/1975h). mas também para a condição essencial do
Mais do que isso, o sonho pode também psiquismo como recurso de acesso, repre-
se prestar a uma função de representação sentação, organização e transformação da
“diagnóstica” e “hipocondríaca”, por meio experiência corporal.
da qual são apreendidas funções e sensa- São igualmente enraizadas nas vivên-
ções corporais geralmente imperceptíveis cias corporais as forças que promovem a
à consciência (Freud, 1917/1975n). vida e o desenvolvimento, como as pulsões
Freud revela o corpo como a cena da de autoconservação, as pulsões sexuais e
qual surgem e se articulam a sexualidade, a pulsão de vida, bem como as que a elas
a libido, a formação do psiquismo, o desen- se opõem, como a destrutividade e a pul-
volvimento do sujeito, seu encontro com o são de morte, “marcadas pelo biológico”
outro humano e com o mundo. Ao mesmo e “tendendo ao anorgânico” (Freud,
tempo fonte e objeto da pulsão, tanto os 1920/1975a, p. 55). Ele compreende o ego
órgãos como todo o corpo e sua superfície “antes de mais nada [como] um ego corpo-
se constituem como zonas erógenas, pas- ral” (Freud, 1923/1975f, p. 39), “um ser de
síveis de excitação, de prazer e desprazer superfície”, formado a partir de percepções
(Freud, 1905/1975o, 1915/1975g). A inten- e sensações vividas na superfície do corpo,
sidade do investimento erógeno em um voltadas tanto para seu exterior como para
o interior, mas também como “projeção
de uma superfície”, uma representação
mental desse corpo. A partir de processos

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somáticos predominantemente ligados ao os psicanalistas nunca se esquecem de


id, instintos e pulsões caóticos e primitivos, que o psíquico se baseia no orgânico, con-
o ego se constitui em uma instância psí- quanto seu trabalho só os possa conduzir
quica mais organizada, parte consciente, até essa base e não além [itálicos nossos].
voltada para a realidade, e parte incons- (1910/1975c, p. 202)
ciente, associada ao corpo e ao recalcado.
Muitas gerações de psicanalistas con-
viveram com esse dilema: por um lado,
Dilemas a necessidade de balizar sua clínica pelo
campo das psiconeuroses, da psicopato-
Chama a atenção o contraste entre as res- logia e das manifestações representativas;
trições preconizadas por Freud para o tra- por outro, dispor de um aparato conceitual
tamento psicanalítico de uma ampla gama poderoso para a compreensão de inúme-
de manifestações corporais e a riqueza das ras manifestações mais primitivas, aquém
hipóteses freudianas sobre o corpo desen- da representação e do recalcamento, expe-
volvidas justamente a partir dessa técnica. rimentadas no corpo, em descargas com-
Pautados pela perspectiva do recalca- portamentais vazias de representação,
mento, os sintomas, os afetos, a libido, o também presentes nas análises de seus
prazer, o desprazer, o gozo, a angústia, vivi- pacientes, sem poder utilizar plenamente
dos no corpo, só podem ser analisados a essa compreensão no contexto do enquadre
partir da associação livre, do discurso, de psicanalítico clássico.
fantasias, dos sonhos, de formações substi- Alguns se dispuseram a enfrentar tais
tutas dos conflitos inconscientes e através questões, repensando o enquadre, a trans-
da transferência. O trabalho com a sinto- ferência e a contratransferência para via-
matologia orgânica, sensações e percep- bilizar a clínica psicanalítica das neuroses
ções corporais teria como condição sua atuais, das doenças orgânicas e de outras
mediação pela linguagem e alguma forma manifestações mais primitivas da econo-
de inscrição psíquica dessas experiências. A mia psicossomática, também encontradas
impossibilidade dessa mediação, a descarga com frequência em análises “clássicas”,
corporal direta, sem elaboração mental, da com pacientes neuróticos e bem organiza-
excitação, como nas neuroses atuais, invia- dos psiquicamente, em momentos críticos,
bilizaria o tratamento psicanalítico. como nos mostra Marlene.
O próprio Freud se confrontou com Ferenczi insistiu na relevância e na pos-
esse paradoxo, aceitando os limites de seu sibilidade de utilizar as hipóteses psicanalí-
método clínico: ticas sobre as relações entre corpo e psique
no tratamento de manifestações orgânicas
a psicanálise é injustamente acusada de
apresentar teorias puramente psicológicas
para problemas patológicos. […] [Porém]

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não neuróticas. Ele defendia a necessidade mediadora, intérprete e organizadora das


de uma mudança na postura e na escuta do primeiras experiências sensoriais e per-
analista, bem como no dispositivo clínico, ceptivas do bebê, de seu corpo e da reali-
para lidar com traumatismos e dimen- dade a sua volta. Acolhidas, intermediadas
sões mais primitivas, pré-verbais e corpo- e nomeadas pelo outro humano, pulsões,
rais, do funcionamento desses pacientes funções e vivências corporais são transfor-
(Ferenczi, 1926/1991). Muitos outros psica- madas em representações, fantasias, sonhos
nalistas2 enveredaram por esses caminhos, e símbolos, originando o universo represen-
ampliando a metapsicologia e os recursos tativo da criança. A qualidade do trabalho
clínicos da psicanálise para o tratamento de representação do sujeito, equivalente
das manifestações primitivas e não repre- psíquico da metabolização, própria à ati-
sentativas da linhagem das neuroses atuais, vidade orgânica, depende da qualidade
das doenças orgânicas, dos problemas apre- dessas primeiras relações.
sentados por pacientes borderline, adictos, A continência e a mediação da experiên-
com transtornos de caráter e alimentares, cia orgânica e erógena da criança pelas fan-
e vários outros quadros. tasias e desejos daqueles que dela cuidam
Essa ampliação clínica revelou a conti- são determinantes para a constituição de
nuidade funcional entre manifestações mais seu paraexcitações (Freud, 1920/1975a),
desorganizadas da economia psicossomá- para a maturação e a evolução das fun-
tica e os quadros clássicos da psicopatologia ções biológicas e também para o desen-
psicanalítica, do ponto de vista do desen- volvimento e complexificação de seus
volvimento humano, da consistência da inte- recursos relacionais, psíquicos e emocio-
gração entre vivências corporais e o tecido nais (Marty, 1990/1994; Kreisler, Fain &
psíquico, e da manifestação patológica. Soulé, 1974/1981).
Ela também promoveu um olhar mais A partir da noção freudiana de apoio das
acurado dos psicanalistas para o desen- pulsões sexuais sobre as pulsões de auto-
volvimento infantil, as vivências iniciais conservação (Freud, 1905/1975o), Dejours
do bebê, as primeiras relações objetais (1989/1991) descreve a subversão libidinal do
e seus desdobramentos na organização corpo biológico para a constituição do corpo
psicossomática. erógeno. Tendo como condição a presença
de um outro humano, ela corresponde ao
processo por meio do qual a fisiologia e a
Revelações do primitivo anatomia reais, presentes no nascimento,
podem ser transcendidas para a constituição
Como destaca P. Aulagnier (1975/1979), a de uma outra ordem, psíquica e imaginária,
mãe tem uma função fundamental como na qual o desejo pode ter primazia sobre a
necessidade. Cada parte do corpo implicada
na sobrevivência e na existência do sujeito
pode também ser utilizada de uma forma

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diferente daquela programada para a função marcam a cadência e as possibilidades de


fisiológica – como a boca, que pode ser uti- organização das funções primárias, tais
lizada não apenas para a alimentação, mas como os ritmos orgânicos (fome, sono,
também para beijar. carência, satisfação), a sensorialidade, a
A subversão libidinal se processa por motricidade, a linguagem, o narcisismo,
meio da experiência e do brincar (Win- as relações objetais e o psiquismo.
nicott, 1971/1975) da criança com seu pró- Contida e estimulada pelo contato e pela
prio corpo, acompanhada e significada interação com o corpo da mãe, organiza-
pela presença real ou imaginada do outro. -se paulatinamente a experiência sensorial,
A brincadeira possível com diferentes par- cinestésica e motora da criança. Percep-
tes do corpo instaura uma latência liberta- ções dos cheiros, dos sabores, do timbre
dora daquilo que o instinto e a necessidade e das oscilações da voz, das variações de
determinam como urgência, criando o cor, sombra e temperatura experimentadas
espaço para a alucinação, o sonho, a fanta- pela proximidade e pelo distanciamento
sia e para o psiquismo. A partir dessas vivên- desse corpo forjam os primeiros registros e
cias no corpo real, anatômico, fisiológico, padrões sensoriais da criança, a partir dos
organiza-se o corpo erógeno (Leclaire, 1979), quais ela passa a distinguir outros cheiros,
o corpo imaginário (Sami-Ali, 1984), uma sons, toques e estímulos visuais provenien-
outra dimensão daquelas vivências, funda- tes do mundo e de outras pessoas, experiên-
mental para a integração psicossomática. cias incipientes da alteridade.
Dessa forma, advém a passagem do Os movimentos experimentados no con-
mosaico primordial (Marty, 1990/1994), tato com o corpo materno, a mobilização
marcado no nascimento pela primazia pela mãe de partes do corpo da criança ao
dos funcionamentos automáticos das fun- cuidar, brincar e proteger, delineiam os
ções orgânicas, para a integração, hierar- limites de seus corpos, as primeiras vivên-
quização e complexificação das dimensões cias de seus músculos, tensões e relaxamen-
orgânicas, comportamentais e psíquicas da tos que constituem a motricidade, também
economia psicossomática. Esse movimento experimentada de forma espontânea e, ini-
depende das possibilidades de intricação cialmente, descoordenada. Essas vivências
entre as pulsões de vida e de morte (Freud, promovem a diferenciação entre o interior
1920/1975a), também ela determinada pela e o exterior do corpo da criança. Como
qualidade da função materna (Green, apontam Marty e Fain (1955), no bebê,
1975/1988; Marty, 1990/1994). tais interações por meio do movimento
Desde o nascimento, o desenvolvimento configuram as primeiras experiências de
e as experiências do sujeito são modulados si mesmo, do outro e da relação, das quais
por movimentos de integração e de desin- se originam as relações de objeto.
tegração funcional, em íntima correlação
com os de organização e de desorganiza-
ção pulsional. São eles que, na infância,

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Nomear, subverter, organizar. O corpo na clínica psicanalítica 55
Rubens Marcelo Volich

Permeadas por palavras e por experiên- psicossomática, por meio de dinâmicas que
cias de prazer e desprazer, próprias e do a preservam das desorganizações comporta-
outro, todas essas primeiras formas de per- mentais e orgânicas, mais frágeis e primiti-
cepção, sensação e relação são nomeadas, vas. Por ocasião de vivências perturbadoras
significadas e marcadas por diferentes mati- e traumáticas, as manifestações psicopato-
zes de afeto, constituindo gradualmente o lógicas, tentativas de reorganização em
universo representativo do sujeito. Nesse torno dos recursos psíquicos, procuram
processo, desde o desamparo vivido pelo conter, ligar e organizar tais excessos atra-
recém-nascido, o olhar da mãe, do outro vés da sintomatologia psíquica, buscando
que cuida, tem também uma função estru- impedir ou interromper movimentos desor-
turante. O encontro da criança com sua ganizadores da economia psicossomática
imagem especular, reconhecida naquele que, persistindo, podem se expressar pelas
olhar, é atravessado pelo desejo materno, vias da sintomatologia e doenças compor-
que unifica a experiência fragmentada que tamentais e orgânicas, com maior risco à
a criança tem de seu corpo e de todas essas integridade física e, por vezes, à própria
vivências (Lacan, 1949/1992), organizando vida do sujeito.
os primórdios de seu narcisismo, marcado
pelo desejo do outro.
O conjunto dessas funções constitui os Turbulências e desorganizações
recursos da economia psicossomática de
cada um para, ao longo da vida, lidar com Muitos fatores podem comprometer o
experiências, conquistas, desafios, confli- desenvolvimento dos recursos integrado-
tos e vivências traumáticas. Em situações res da economia psicossomática. A dificul-
traumáticas, de excesso e de conflito, com dade do adulto em tolerar a experimentação
vistas à preservação ou ao restabelecimento corporal da criança, devido a sua própria
de um equilíbrio, a qualidade desses recur- história e às dimensões eróticas e fantas-
sos e a consistência dos processos de inte- máticas mobilizadas por essas vivências,
gração que os constituíram determinam perturba a subversão libidinal, produzindo
os modos mais ou menos organizados de falhas na constituição do corpo erógeno da
funcionamento e sua capacidade para pre- criança. Algumas partes do corpo podem
servar a integridade dessas funções e do permanecer cristalizadas em “zonas frias”,
sujeito como um todo. automatismos e funcionamentos restri-
Marty (1990/1994) sustenta que, quando tos, da ordem das necessidades biológicas,
consistentes, os recursos psíquicos e repre- excluídas da relação com o outro e despro-
sentativos (mentalização) são os mais ela- vidas de potencialidade erógena (Dejours,
borados e capazes de proteger a economia 1989/1991). Ficam também comprometidos
os recursos paraexcitantes do próprio sujeito
para lidar com as excitações e intensidades
pulsionais, conflitos internos e externos. As

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perturbações da função materna (Kreisler, pela impulsividade, pela sintomatologia e


Fain & Soulé, 1974/1981), excessos e violên- doenças orgânicas, fora do circuito erógeno
cias vividos pela criança no meio familiar, e representativo.
os núcleos primitivos e vivências recalcadas
ou forcluídas do adulto que dela cuida, difi-
culdades de continência, de mediação e de Experiências silenciadas
nomeação das experiências corporais dessa
criança comprometem a intricação pulsio- As mãos trêmulas de Marlene. Seu corpo
nal e, consequentemente, a organização da imóvel, sua respiração aflita, suas palavras
economia psicossomática e de seus recursos sem voz. Os longos minutos de silêncio,
mais evoluídos. Assim, o desenvolvimento sem que nenhuma ideia, nenhuma ima-
pode ser interrompido em níveis precoces gem, nenhum relato pudessem ser com-
de organização ou marcado por pontos de partilhados comigo. Apenas sua presença
fragilidade, com menos recursos para a con- muda, contida, enigmática, maciçamente
tenção e organização de excitações. dominada pela sombra maligna de algo que
Nessas condições, é maior a vulnera- parecia maior que o diagnóstico que rece-
bilidade a situações de conflito. A preca- bera. Sentia que me buscava, que, quase
riedade dos recursos mentais resulta em sem forças, tentava me alcançar, capturada
dificuldade ou impossibilidade de organi- por alguma outra história que, naquele
zar os excessos de excitação pela via psi- momento, eu não tinha como entender.
copatológica e de conter os movimentos Vivendo o vazio de sua presença e a
regressivos e as desorganizações progressivas ausência de suas associações, sentia em
(Marty, 1976). Algumas das expressões des- mim a aflição, a angústia e a solidão que
sas dinâmicas são o pensamento operatório talvez ela experimentasse sem conseguir
(Marty & M’Uzan, 1963), a depressão essen- me dizer. Poderia ter lhe descrito minhas
cial (Marty, 1968) e o comportamento vazio fantasias, meus sentimentos, minha com-
da criança (Kreisler, 1992/1999), caracteri- preensão do que imaginava ser seu desam-
zados principalmente pelo empobreci- paro. Poderia ter tentado transformar tudo
mento dos recursos representativos, pelo isso em uma interpretação plausível de
esvaziamento afetivo, da vitalidade e da seu medo diante do diagnóstico e suas
subjetividade. Observa-se também a desor- implicações, de sua frustração por uma
ganização, a perda de qualidade e de espe- gestação que jamais ocorreria e com a
cificidade de diferentes funções, como a qual começara a sonhar. Pela intensidade
motricidade, a sensorialidade, as relações dos afetos em mim mobilizados por seu
objetais, bem como de funções orgânicas silêncio, senti que tinha poucas chances
e metabólicas, como alimentação, sono, de ser escutado.
digestão e excreção. No extremo, esses pro-
cessos podem resultar, de forma crônica ou
transitória, em descargas comportamentais,

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Nomear, subverter, organizar. O corpo na clínica psicanalítica 57
Rubens Marcelo Volich

Quando descrevi em voz alta suas mãos, conversas, refratária até mesmo às folias do
sua respiração, seus lábios e seu silêncio, Carnaval. Seu rosto tornava-se sombrio, seu
ela me ouviu. Hesitante, respondeu reto- olhar, esquivo. Marlene temia aquele olhar
mando um frágil fio associativo que reve- desconhecido, que transformava sua mãe
lou uma dor antiga, intensa e negada em em uma estranha, que a privava de sua com-
sua história… panhia, que a abandonava. Família e amigos
Quando chegou à análise, Marlene era pareciam respeitar aquele recolhimento que
uma mulher satisfeita, realizada profissio- ela não compreendia, mas sentia-se proibida
nalmente, com uma vida social preenchida de questionar. Sua irmã e seu irmão, um
por boas relações familiares e de amizade. pouco mais velhos, aparentemente menos
Feliz com seu marido, há 15 anos seu com- assustados, também se sujeitavam silencio-
panheiro, não tinha filhos. “Não os dese- sos àquelas mudanças. Com o tempo, desa-
java”, dizia, “não encontrava lugar para pareceu aquele olhar do rosto de sua mãe e
eles”, em sua vida tão preenchida pelo apagaram-se as lembranças de Marlene de
trabalho, por amigos, viagens e pela sen- seus temores solitários dos meses de feve-
sação de liberdade de não ter quem dela reiro. Até aquela sessão…
dependesse. Naquele dia, transtornada com o diagnós-
Porém, após dois anos de uma análise tico do tumor uterino, sentindo-se “traída
rica em lembranças e associações, turva- por seu corpo”, forçada por ele a renunciar
ram-se suas “claras certezas” de que não violentamente a uma gravidez por anos
desejava ser mãe. Surgiram aos poucos impossível de ser desejada, reencontrou
cenas esquecidas de sua infância, com aqueles terrores incompreensíveis. Perdida
irmãos, primos e amigos, marcadas pelo e imóvel por um longo tempo, sentiu-se
prazer de brincadeiras, passeios e travessu- tocada pelas palavras que percorreram seu
ras. Passou cada vez mais a evocar a pre- corpo e, ao percebê-lo, reencontrou-me.
sença de sua mãe, dedicada a ela e a seus Ainda titubeante, encontrou também o
irmãos, seus olhares firmes e determina- olhar distante, perdido e silencioso de sua
dos, impossíveis de não serem obedecidos, mãe e os temores que ele lhe provocava.
impossíveis de não serem perdoados. Lembrou-se dos meses de fevereiro de
Com dificuldade, começou também a sua infância, do véu silencioso que recobria
evocar outros olhares, imprecisos e distan- sua família, da profunda tristeza de sua mãe.
tes – aqueles que, durante alguns anos de “Lembrou-se” de José, irmão mais novo que
sua infância, “nos meses de fevereiro”, acom- nunca chegou a conhecer, pois a gravidez
panhavam o desaparecimento do sorriso nos fora interrompida por um aborto espontâ-
lábios de sua mãe, que ficava reservada, neo no quinto mês de gestação. Marlene
taciturna, pouco disposta ao convívio, às tinha 1 ano e meio naquele momento.
Só bem mais tarde, por acaso e entre
meias-palavras, soube de José. Nomeado
desde a concepção para homenagear o

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volume 50, n.2 · 2016

avô materno, caso fosse menino, seu nome oscilações nos investimentos transferen-
não podia ser evocado, mas fazia-se aflitiva ciais, no ritmo, no conteúdo e na coloração
e silenciosamente presente por sua ausên- afetiva da associação livre, de sonhos e de
cia nos meses de fevereiro, mês em que a fantasias, que refletem as vivências libidi-
mãe abortou. Marlene tinha cerca de 8 anos nais, representativas, afetivas e objetais do
quando ouviu uma conversa entre a avó e sujeito. Algumas vezes, como vimos com
a mãe, referindo-se a uma “criança que não Marlene, nos deparamos com mudanças
nasceu” e à homenagem que a mãe “não bruscas em padrões associativos, emocio-
conseguira fazer” a seu próprio pai. Tentou nais e transferenciais característicos do
compreender, perguntar, mas as evasivas da paciente, bem como com rupturas profun-
mãe e da avó falaram mais forte. Apenas per- das do vínculo com o analista e da possi-
cebeu no rosto da mãe as feições transfigu- bilidade de elaboração do material e das
radas por uma tristeza longínqua e familiar. vivências da sessão. Outras vezes, podemos
Só na adolescência compreendeu por si constatar momentos mais ou menos pro-
mesma que a mãe sofrera um aborto e, tam- longados de desorganizações da economia
bém, a tristeza fugidia de seu olhar. Apenas psicossomática, acompanhadas ou não de
uma vez perguntou diretamente à mãe o sintomas ou doenças orgânicas e atuações.3
que acontecera, buscando confirmar seu O diagnóstico de tumor uterino
entendimento. Acabrunhada e esquiva, a maligno, a perspectiva da histerectomia e
mãe aquiesceu, admitindo sua dor e sua a provável impossibilidade da gravidez que
impossibilidade de falar a respeito da perda passara a acalentar, o sentimento de “trai-
daquele bebê. ção” deslocado para o seu próprio corpo,
Naquele momento, apesar de aliviada da mobilizaram em Marlene marcas primiti-
dúvida que vivera por tantos anos, Marlene vas não apenas dos efeitos do aborto sofrido
não conseguiu se desvencilhar da tristeza da e por tantos anos silenciado pela mãe e
mãe, que nela se infiltrara, e voltou a silen- pela família, mas também de suas aflições
ciá-la. Nunca mais falou disso, nem com ela infantis diante da periódica tristeza e dis-
nem com ninguém. Com o tempo, também tanciamento da mãe, provavelmente não
aquela dor insuportável, fugidiamente com- somente “nos meses de fevereiro”.
partilhada, desapareceu sob o vistoso manto A desorganização provocada pela mobi-
de suas conquistas e experiências de mulher lização dessas marcas manifestou-se na pro-
adulta, “feliz e realizada”. funda alteração de sua postura na sessão,
em seu silêncio, na paralisação de suas
ideias, na impossibilidade de preservar o
A escuta do corpo contato e, mesmo, de recuperá-lo quando
a convidei explicitamente a se conectar
Mesmo nas análises de pacientes neuró-
ticos e, segundo Marty (1990/1994), bem
mentalizados, frequentemente observamos

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comigo e com as ideias que lhe ocorriam. em pacientes mal mentalizados (Marty,
Senti, em mim, o peso daquelas vivên- 1990/1994), também os momentos de desor-
cias, da solidão e do medo que, naquele ganização momentânea convocam mudan-
momento, era ela (e não a mãe) que não ças significativas no manejo do enquadre,
conseguia nomear. Intuí que, naquelas da escuta, da contratransferência e da inter-
condições, as interpretações que me ocor- pretação, para sintonizar com as dimensões
riam seriam inócuas, pois Marlene não mais primitivas, não representativas, e com
tinha como me ouvir. as oscilações evolutivas e contraevolutivas
Esperei muito tempo por palavras e asso- da economia psicossomática.
ciações que, naquelas circunstâncias, não As dinâmicas mais primitivas, aquém do
tinham como emergir. Foi então que per- recalcamento e da resistência neurótica,
cebi a tênue mas aflita expressão do que confrontam o analista com descargas pul-
ela vivia em seu corpo. Ao tocá-la de outro sionais diretas sem mediação representa-
modo foi possível, a ela, reconectar-se a tiva, impossíveis de serem trabalhadas por
mim e dar forma e palavras a suas vivên- meio de associações, geralmente inexisten-
cias congeladas. Com meu comentário tes, rarefeitas ou vazias. As palavras, esvazia-
(“Há muitas maneiras de ser mãe”), conse- das de suas dimensões pulsional, afetiva e
guiu se desprender do núcleo de sua sidera- simbólica, perdem a capacidade de evocar
ção, libertando-se, aos poucos, de uma das lembranças, por meio das quais poderiam se
ideias que a transtornaram e a emudeceram: revelar conteúdos inconscientes, no caso de
a indiscriminação entre sua histerectomia defesas neuróticas. Rompe-se, assim, uma
e o aborto vivido pela mãe, questão que foi importante via de acesso ao infantil e às pri-
trabalhada ao longo de muitas sessões. meiras experiências de vida do paciente.
Marlene descobriu, então, como suas Desaparecem também sonhos, fanta-
vivências, antigas, repetitivas e impossíveis sias, devaneios e lembranças encobridoras
de serem nomeadas, a impediram durante (Freud, 1899/1975i), bem como formações
muito tempo de entrar em contato com seu de compromisso e mecanismos de defesa,
desejo de ser mãe, negado e racionalizado que podem dar lugar a atuações compor-
pelas “claras certezas” de que não encon- tamentais, expressões e sintomas corporais,
trava lugar para filhos em sua vida “tão tentativas mais rudimentares do paciente
bem-sucedida social e profissionalmente”. para ainda manifestar sua dor e seu afeto
anestesiados. Pela intensidade dos movi-
* * * mentos de desorganização e da desintrica-
ção pulsional, a repetição passa a operar
Assim como as desorganizações psicosso- praticamente em circuito fechado, como
máticas crônicas, muitas vezes observadas pura expressão da compulsão à repetição
e da pulsão de morte (Freud, 1914/1975k;
1920/1975a), com poucas possibilidades de
ligação e de transformação em lembranças.

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volume 50, n.2 · 2016

Essas manifestações coexistem com o se processa o trabalho psicanalítico. Eles


empobrecimento da trama transferencial constituem um espaço relacional de conti-
e o retraimento libidinal, algumas vezes nência, com potencial de elaboração e trans-
extremo, aquém do narcisismo (Marty, 1968), formação das experiências do paciente, que
que sidera, silencia e isola o paciente, como remete às condições originárias de orga-
vimos com Marlene. O trabalho analítico nização do desenvolvimento humano. A
fica restrito a elementos sensoriais e corpo- função terapêutica do analista4 tem como
rais brutos e fragmentados, matéria-prima paradigma a dimensão relacional estrutu-
rarefeita que resta para ser investida, na rante da função materna (Marty, 1990/1994;
esperança de constituir ou resgatar a trama Kreisler, 1992/1999).
relacional do tratamento. O enquadre psicanalítico “clássico” –
A fragilidade do laço transferencial, a frequência e duração das sessões, a utiliza-
porosidade representativa e a carência de ção do divã, a abstinência e a neutralidade
um terreno psíquico consistente dificultam do analista, as associações livres do paciente
a constituição e a sustentação de interpreta- e a atenção flutuante, a análise das resistên-
ções e construções, muitas vezes claras para cias e da transferência (Etchegoyen, 1989),
o analista, mas impossíveis de serem figura- mediadas predominantemente por comu-
das e elaboradas pelo paciente. Contraria- nicações verbais – é propício ao trabalho
mente à metáfora arqueológica utilizada por com as psiconeuroses, pautado pela dinâ-
Freud (1937/1975d), observamos que, com mica do recalcamento e de mecanismos
muitos pacientes, não se trata de descobrir de defesa psíquicos, porém, como vimos, é
ou reconstruir o que foi destruído ou per- inadequado para o trabalho com funciona-
dido pelo recalcamento ou pela censura, mentos mais primitivos e desorganizados.
mas de algo ainda mais complexo e primor- A clínica psicanalítica das desorganiza-
dial: construir, efetivamente desde o início, ções psicossomáticas convoca o analista
recursos, funções e instâncias que nunca ao encontro com o paciente em territórios
se constituíram no sujeito. Essas condições frágeis e primitivos, aquém de palavras,
são impróprias para interpretações mais pro- instâncias e funcionamentos psíquicos
fundas e regressivas, de natureza pulsional, estruturados. Para que esse encontro seja
uma vez que, sem sustentação representa- possível – e, espera-se, minimamente
tiva, elas podem, inclusive, potencializar a transformador –, mudanças no enquadre,
desorganização do paciente. na relação e nos modos de observação e
comunicação com o paciente são neces-
sárias. Elas visam, justamente, preservar
Continência e função a função estruturante desse enquadre,
organizadora do enquadre para resguardar, desenvolver e organizar

O enquadre e a relação transferencial são


os principais elementos a partir dos quais

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os recursos mais consistentes do sujeito. de mobilizar os pacientes em momentos


Como aponta A. Green (1982), o manejo de desorganização, mas podem, inclusive,
do enquadre busca fomentar a função de intensificar essa desorganização. A posição
representação. face a face, um corpo a corpo à distância
Para lidar com os movimentos de desor- (Aisenstein, 1998), promove o contato e a
ganização do paciente, o enquadre e a função especular pelo olhar, uma maior
transferência devem também ser conti- atenção aos gestos e expressões faciais tanto
nentes para as manifestações corporais, do analista como do paciente, favorecendo
perceptivas, sensoriais e motoras não ver- o estabelecimento e a manutenção da rela-
balizadas. Muitas vezes, trata-se de uma ção terapêutica.
análise minimalista, com níveis bastante A partir da função materna e do holding,
incipientes de comunicação, a partir de busca-se promover a reanimação libidinal
tênues sinais (referência a ruídos, luzes, (Braunschweig, 1993), a reorganização nar-
frio, calor), comportamentos, sintomas e císica e objetal, bem como viabilizar a intri-
doenças orgânicas. A sintonia do analista cação entre as pulsões de vida e de morte
com essas manifestações passa não apenas e os núcleos masoquistas erógenos primá-
por sua escuta, mas também pelo olhar (a rios, necessários para lidar com sofrimen-
apresentação, os gestos e movimentos do tos, perdas e frustrações (Rosenberg, 1991).
paciente), e mesmo por outras dimensões Pelo acompanhamento das oscilações dos
sensoriais, como o olfato (seus odores), o movimentos de organização e desorgani-
tato (a umidade, a vitalidade do aperto de zação do paciente, as vivências primiti-
mãos), formas de expressão possíveis para vas compartilhadas na relação podem ser
afetos e vivências não representados pela nomeadas, traduzidas em palavras e ima-
palavra. O corpo do analista é particular- gens por meio de um trabalho ativo de
mente solicitado pelas dinâmicas primiti- figuração, para, como observamos com
vas do paciente (Fontes, 1999; Fernandes, Marlene, adquirirem aos poucos densidade
2003). As vivências contratransferenciais representativa, (re)organizando-se, por esse
(sensações corporais, sentimentos, ima- caminho, a economia psicossomática.
gens) também se constituem como um
importante recurso para a apreensão des- * * *
sas dinâmicas (Volich, 2002/2015).
As condições regressivas promovidas Há mais de um século, o fio do recal-
pelo divã, pelo enquadre e pela regra de camento orienta a clínica psicanalítica,
abstinência do analista, fatores importantes revelando funcionamentos psíquicos
para o trabalho com pacientes psiconeu- requintados, que aperfeiçoaram os recur-
róticos, não apenas têm poucas chances sos para o tratamento das psiconeuroses e
de outras manifestações psicopatológicas.
Atravessados por esse fio, recordar, repe-
tir, elaborar são operadores fundamentais

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volume 50, n.2 · 2016

da análise. Nos limites dessa clínica, um caminho, evidencia-se a importância de


outro fio revelou-se aos psicanalistas. Des- um outro paradigma clínico, nomear, sub-
velado por aqueles que se aventuraram no verter, organizar.
território do primitivo e do não represen- Pela trama desses dois fios, ampliam-se
tado, esse fio, tal como o de Ariadne, pode os recursos da clínica psicanalítica para
orientar o psicanalista pelo sombrio, tor- lidar com sofrimentos que sequer podem
tuoso e incerto labirinto das desorgani- dizer seu nome, desassistidos pelo desejo,
zações psicossomáticas. Ao longo desse alienados da alteridade.

Notas
1 Vertigem, dispneia, taquicardia, cefaleia, sudorese, 3 Cf. o caso de Sofia em “A clínica das desorganiza-
transtornos digestivos, parestesias etc. ções” (Volich, 2000/2010) e o de Jean em “Desafios”
2 F. Alexander, Ballint, W. Reich, M. Klein, D. W. Win- (Volich, 2002/2015).
nicott, R. Spitz, P. Marty, L. Kreisler, C. Dejours, J. 4 E também de outros profissionais de saúde – cf. “A
McDougall, P. Fédida, A. Green, M. Aisenstein. função terapêutica” em Volich (2000/2010).

Nombrar, subvertir, organizar. El cuerpo en la Naming, subverting, organizing. The body in the
clínica psicoanalítica psychoanalytic practice

A pesar de la importancia de las hipótesis freudianas Despite the importance of Freudian ideas about the
sobre el cuerpo y las relaciones entre lo psíquico body and the relationship between psyche and soma,
y lo somático, durante mucho tiempo el trabajo for a long time the psychoanalytic work on bodily
psicoanalítico con las manifestaciones corporales manifestations used to require the representative
tuvo como condición la mediación representativa y mediation and the psychic inscription of these
la inscripción psíquica de esas experiencias. Muchos experiences. Many psychoanalysts have striven to
se esforzaron por ampliar los recursos clínicos enhance the clinical resources of psychoanalysis in
del psicoanálisis para lidiar con manifestaciones order to deal with more primitive manifestations,
más primitivas, más acá de la representación y which are before representation and repression.
la represión. Este artículo analiza los aspectos This paper studies clinic and metapsychological
clínicos y metapsicológicos que respaldan esta aspects that sustain this enhancement. The author
ampliación, revelando la necesidad y la función herein demonstrates the need and function of frame
del manejo del encuadre, de la transferencia, de la management, transference, countertransference,
contratransferencia, de los modos de observación, de ways of observing, listening and interpreting in order
la escucha y la interpretación para viabilizar el trabajo to enable the psychoanalyst to work with patients
con pacientes que viven desorganizaciones de su who live chronic or temporary disorganizations of
economía psicosomática, crónicas o momentáneas. their psychosomatic economy.
Palabras clave: técnica psicoanalítica; encuadre; Keywords: psychoanalytic technique; frame;
contratransferencia; no representado; countertransference; unrepresented; psychosomatic
desorganizaciones psicosomáticas. disorganizations.

Referências
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64 Nomear, subverter, organizar. O corpo na clínica psicanalítica.
Rubens Marcelo Volich

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[Recebido em 02.05.2016, aceito em 16.05.2016]

Rubens Marcelo Volich


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