Comenius e A Escola Da Infancia
Comenius e A Escola Da Infancia
O pequeno manual “Escola Materna”, mais tarde denominado por ele Escola da
Infância (2011), foi concebido por Comenius por volta de 1630, quando ele beirava os
quarenta anos e já havia tido uma larga experiência com o ensino na comunidade da
1
qual era pastor: os Irmãos Boêmios. Escrita no exílio, a obra era dirigida não somente às
mães, mas também aos pais, professores e todos aqueles incumbidos de cuidar das
crianças e fazia parte de toda uma proposta de reconstrução de seu país então afligido
pela Guerra dos Trinta Anos. Daí a sua preocupação com a saúde, com a própria
sobrevivência das crianças, numa realidade social na qual a orfandade marcava
invariavelmente sua presença. Essa desagregação da família nuclear, causada por outros
motivos a partir do século XIX, tornaria atual seu discurso para as creches e jardins de
infância do mundo moderno.
Por outro lado, sua proposta de reconstrução educacional incluía a “Didática
Tcheca”, elaborada no mesmo período, vinculando organicamente seu manual às suas
concepções pedagógicas, fazendo com que suas ideias sobre a educação infantil fossem
retomadas e desenvolvidas em suas obras posteriores, tanto na Didáctica Magna (1976),
obra à qual ele se refere explicitamente tanto na versão latina de seu manual, como na
Pampaedia (1971). Mais do que isso, consideramos que o fato dele ter tomado a criança
como passível de uma prática educativa, marcou indelevelmente sua teoria pedagógica.
Seu manual, considerado o primeiro dedicado inteiramente à educação da criança de
zero a seis anos de idade, revela claramente a intenção de Comenius de reformar o
mundo através da educação (rerum humanarum emendatione), começando exatamente
pelas criaturas mais inocentes, marcadas tão somente pelo pecado original congênito.
Sintonizado com uma época de humanização da criança, na qual ela deixava de
ser vista apenas como um pequeno ser irracional para distração do adulto, como um
animal de estimação, Comenius identificava sua inocência com a pureza divina,
elevando moralmente a condição infantil na sociedade. Como mostrou Ariès (1986, p.
140), essa mudança transformou a fraqueza da criança em virtude, levando a um
cuidado maior com as crianças, preocupação essa dominante na literatura pedagógica
daqueles tempos. Podemos dizer que a qualificação posterior de “renascimento”, dada
pelos historiadores a todo um período histórico que termina exatamente no século XVII
para dar lugar à época moderna, expressa o reconhecimento de que um novo homem,
uma criança, portanto, havia surgido naquele momento.
Mesmo partindo do princípio de que a sociedade de seu tempo já está imbuída
dos deveres relativos ao cuidado das crianças, Comenius abre seu manual com um
extenso capítulo onde, a partir de citações bíblicas, ele justifica a atenção que devemos
dar às crianças. Ele atribui o fato de não darmos tanta importância às crianças, porque as
consideramos “apenas como o são no presente e não como elas poderiam e deveriam ser
2
segundo seus desígnios” (2011, p.2), o que nos remete imediatamente à célebre
concepção de natalidade de Arendt (1993, p.185 e ss), segundo a qual a criança que
nasce não é meramente um novo ser humano, pois, na verdade ela ainda se tornará
humana e isso de uma forma totalmente imponderável no momento do nascimento,
tomando o caso de Jesus Cristo como exemplo. No capítulo, Comenius cita o exemplo
de Melanchton que surpreendeu a todos ao adentrar numa sala de aula de uma escola
pública, tratando as crianças como elas poderiam ser no futuro: ministros, presidentes,
juízes, astros de futebol etc. (idem, p. 2-3).
Mas não é só por causa das crianças que os preceptores devem proceder com o
devido cuidado, mas para sua própria edificação. Na introdução à Didactica Magna,
comentando a passagem do evangelho de Mateus, “Eu lhes garanto: se vocês não se
converterem e não se tornarem como crianças, vocês nunca entrarão no Reino do Céu”,
Comenius refere-se assim à relação entre os adultos e as crianças:
Eis que nós, adultos, que julgamos que só nós somos homens e vós
sóis macaquinhos, só nós sábios e vós doidinhos, só nós faladores
inteligentes e vós ainda não aptos para falar, eis que, enfim somos
obrigados a vir à vossa escola! Vós fostes-nos dados como mestres, e
as vossas obras são dadas às nossas como espelho e exemplo!”,
acrescentando em seguida: “Cristo ordena que nós, adultos, nos
convertamos para que nos façamos como criancinhas, isto é, para que
desaprendamos os males que havíamos contraído com uma má
educação e aprendido com os maus exemplos do mundo, e
regressemos ao primitivo estado de simplicidade, de mansidão, de
humildade, de castidade, de obediência, etc.(1976, p.63-65)”.
Comenius não limita o bem que a criança faz apenas ao mundo espiritual,
estendendo-o também ao bem estar físico ao dizer nesse capítulo que “Quem repousa na
escuridão da noite junto de uma criança pode ficar tranquilo porque estará protegido do
espírito das trevas” (2011, p.5), dito familiarizado entre nós pela “paz de criança
dormindo” da canção popular.
Continuando sua justificativa, Comenius argumenta no segundo capítulo que a
finalidade última da educação das crianças, como de resto da educação em geral, é
conduzir o homem à vida eterna através de sua progressiva aproximação com Deus, a
cuja imagem foi criado. Na feliz formulação aristotélica de Mariano Fernández Enguita,
3
na introdução à edição de bolso em espanhol da Didactica Magna: “La educación
convierte en acto lo que el pecado de Adán dejo reducido a potencia” (Comenius, 2012,
p. 14), ou seja, só através da educação o homem poderá voltar ao estado de pureza e
inocência que tinha no paraíso. Assim, ele afirma no segundo capítulo:
4
Foi exatamente como defensor de uma escola agradável, livre da violência das
vergastadas e da palmatória, que Comenius viria a ser exaltado a partir do final do
século XIX, inclusive no Brasil1.
Após acentuar a obrigatoriedade, a conveniência e a necessidade da educação
infantil, Comenius, no quarto capítulo, define que competências a criança deveria ter
quando completasse os seis anos. Usando da metáfora da muda de árvore cujo
desenvolvimento está condicionado à disposição de seus primeiros brotos, ele assevera
que “o homem deve ser formado desde os primeiros momentos do desenvolvimento de
seu corpo e de sua alma, para que essa formação permaneça durante toda sua vida”
(2011, p.15). Fazendo uso da máxima segundo a qual é melhor corrigir do que remediar,
ele acentua a importância da educação desde o início, “pois não é possível endireitar a
árvore que cresceu torta” ou, popularmente, pau que nasce torto morre torto. Fazendo
uso da sua tríade de objetivos educacionais ele passa então a elencar os conteúdos
necessários para uma adequada educação da fé, da moral e das artes e ciências, nesta
ordem, da criança nos seus primeiros anos de vida.
Com relação à fé, Comenius considera suficiente que uma criança de seis anos
saiba:
(1) que Deus existe, (2) que em todo lugar ele nos observa, (3) para
quem o obedece ele fornece comida, bebida, roupas e tudo o mais que
for necessário, (4) leva à morte o desobediente e o arrogante, (5) por
isso é preciso temê-lo, chamá-lo sempre e amá-lo como ao pai, (6)
fazer tudo que ele mandar, (7) que se formos bons e honestos ele nos
elevará aos céus etc. (idem, p.16).
1
Ver a respeito Kulesza (2015).
5
certeza que sim, pois se trata aqui de assuntos referentes às crianças e não se poderia
falar disso a não ser de modo infantil”:
6
c) Respeito aos superiores, respeitando seus atos, suas palavras
e seus desígnios.
d) Cortesia, estando sempre prontos para atender
imediatamente aos sinais e aos chamados dos superiores.
e) Especialmente necessário é acostumá-los a falar a verdade,
de modo que suas palavras estejam sempre de acordo com a doutrina
de Cristo: É, o que é; o que não é, não é. E que não se habituem, por
qualquer razão, a mentir ou inventar algo, nem seriamente, nem de
brincadeira.
f) É preciso também incutir-lhes justiça, para que assim não
mexam, não movam, não furtem e não escondam o que pertença aos
outros e para que não façam mal a ninguém.
g) Deve-se também neles instilar bondade e disposição para
favorecer os outros, para que sejam amáveis e não mesquinhos ou
invejosos.
h) Será muito útil iniciá-los no trabalho, para que criem aversão
à indolência.
i) Eles devem ser ensinados não só a falar, mas a ficar em
silêncio quando necessário, como na hora da prece ou quando outros
estão falando.
j) Eles devem ser exercitados na paciência, para que não
julguem que tudo acontece para eles a um simples aceno e para que
aprendam a conter seus desejos desde a primeira idade.
l) Servir com civilidade e presteza aos mais velhos é uma
qualidade precípua dos jovens, por isso é preciso levá-las a ter esse
hábito desde a infância.
m) De tudo isso resultará a civilidade das boas maneiras, graças
à qual as crianças saberão como saudar a alguém, apertar sua mão,
dobrar os joelhos, agradecer a presentes etc.
n) Para evitar a leviandade ou a grosseria, é preciso que a
instrução seja acompanhada de gestos circunspectos, para que tudo se
faça com respeito e modéstia. Uma vez iniciada nessas virtudes, será
fácil para a criança seguir o exemplo de Cristo e obter a graça de Deus
e dos homens (idem, p. 17-18, grifos no original).
Note-se como na última alínea (n), Comenius amarra esses preceitos temporais e
profanos com os princípios religiosos. Mais do que isso, podemos identificar em suas
7
prescrições de comportamento socialmente correto, notadamente nas alíneas c, d e h,
elementos do que Max Weber chamou de “ética protestante”, própria do capitalismo
então em gestão.
No capítulo IX, sempre fazendo uso da sua metáfora preferida, “assim como é
muito mais fácil envergar uma árvore ainda nova antes que cresça e se torne adulta, da
mesma maneira pode-se rapidamente formar a juventude em seus primeiros anos de
infância” (idem, p.53), Comenius detalha suas instruções para a preparação das crianças
nos bons costumes2. Identificando nas crianças uma “índole imitativa: tudo que elas
veem os outros fazerem, elas querem copiar”, ele enaltece o valor dos exemplos bons e
constantes em sua formação:
Por isso em casa, onde estão as crianças, é preciso cuidar com esmero
para que não aconteça nada contrário à virtude, agindo todos com
moderação, asseio, respeito, tolerância mútua, sinceridade etc. Se
formos assim diligentes, com certeza não serão precisas muitas
palavras para instruí-los e nem repreensões para trazê-los à ordem
(idem, p.54).
Primeiro, levantar a voz para um menino que fez algo indigno. Não de
modo que ele fique apavorado, mas prudentemente, para que se
preocupe e tome consciência. Às vezes pode-se ameaçá-lo
severamente a ponto de deixá-lo envergonhado, imediatamente após
uma advertência, para que aquilo nunca mais se repita (...) se por
acaso este primeiro grau de disciplina for ineficaz, o segundo
consistirá em açoitar com varas ou dar palmadas para que os meninos
não se esqueçam e cuidem melhor de si (idem, p.54, grifos no
original).
2
Na Didactica Magna ele trata as crianças como “arvorezinhas de Deus” (1976, p.67)
8
Criticando severamente o “afeto simiesco e asinino de certos pais para com seus
filhos”, que “toleram e perdoam todo tipo de desatino que eles cometem”, dizendo que
crianças “não devem ser contrariadas, pois elas ainda não entendem isso”, Comenius
atribui essa atitude exatamente à irracionalidade dos pais:
Não digas a ti mesmo que a criança não entende. Se ela sabe fazer
coisas petulantes como ficar brava, enfurecer-se, brigar, inflar as
bochechas, xingar os outros etc., certamente saberá também o que é
uma vara e para que serve. Não foi a criança que perdeu a razão, mas
tu, homem imprudente, pois não compreendes e não queres
compreender o que serve melhor para a saúde e tranquilidade de ti e
do teu filho (idem, p.55-56).
Se alimentar com decoro, apresentar asseio no vestir, respeitar aos mais velhos,
agir com sinceridade, honestidade, bondade e solicitude, aprender e falar e se calar nos
momentos certos, serem prestativas e amáveis, são alguns dos comportamentos
descritos e exaltados por Comenius neste verdadeiro manual de civilidade, certamente
9
inspirado naqueles de Erasmo3, e que, segundo ele, constituem apenas uma versão
condensada de suas “Regras de conduta para uso da juventude”, escritas por ele durante
sua estadia na Hungria onde, ao enfrentar o desafio de trabalhar com jovens de extração
social diferente da sua, radicalizou suas posições em defesa de um ensino ativo e
prazeroso, escrevendo inclusive a cartilha Schola Ludus, onde o latim é ensinado através
de diálogos teatrais4.
Sobre o valor educativo das atividades lúdicas, diz Comenius neste capítulo IX
referindo-se ao perigo das tentações supostamente provocadas pelo diabo:
3
Ver a respeito Cagnolati (2006).
4
Conforme Capková (2007).
10
É preciso que se diga que o conteúdo da ciência a ser aprendido pelas crianças
deve ser adequado à sua idade, como de resto deve ocorrer em todo processo
educacional: a cada idade corresponde um tipo de escola e, embora o conteúdo a ser
trabalhado em cada uma delas seja o mesmo, varia o grau de aprofundamento e
extensão desses conteúdos, como ocorre no chamado currículo em espiral. Para se ter
uma ideia desses conteúdos para a educação infantil, apresentamos a concepção de
Comenius para os conhecimentos necessários para fazer as coisas, isto é, aqueles que
envolvem a mente e a linguagem ou a mente e as mãos:
Finalizando esse capítulo IV, onde Comenius discute tudo que deve ser ensinado
e aprendido pelas crianças até os seis anos, ele aborda os conhecimentos que dizem
respeito à linguagem, gramática, retórica e poética, componentes tradicionais do trivium
curricular adotado então nas escolas secundárias. Como já chamamos a atenção, daqui
para frente Comenius inverte a ordem que ele apresentou quando discutiu as finalidades
da escola. Assim, primeiro ele vai tratar do conhecimento das coisas, depois dos ofícios,
em seguida da eloquência, para só então tratar dos costumes e da virtude e, finalmente,
da religião. Ou seja, ele toma por base o conhecimento do mundo advindo dos sentidos
11
para constituir o homem racional o qual, por sua vez, viabilizará a formação do homem
piedoso. Em sua concepção triádica, os sentidos, a razão e a fé, estão em
correspondência harmônica com a intuição, a mente e o espírito, e todo progresso num
campo se reflete nos outros. É pensando justamente na criança que chega ao mundo que
Comenius prioriza o conhecimento proporcionado pelos sentidos para o posterior
desenvolvimento da mente e do espírito. Para Comenius, a educação começa com a
criança porque ela, antes de tudo, sente o mundo, e é através desse sentimento que
começa o seu conhecimento das coisas.
Porém, considerando que não é possível educar as crianças a não ser que gozem
de boa saúde, Comenius expõe no capítulo V como preservar a saúde das crianças. Num
verdadeiro prontuário de atenção materno-infantil, ele apresenta conselhos às mães
desde o momento em que se derem conta de que estão grávidas. Primeiro, ele orienta a
mãe com os cuidados que deve ter no período pré-natal para evitar o aborto acentuando
o caráter não mórbido da gravidez. Em seguida ele faz uma defesa apaixonada do
aleitamento materno denunciando aquelas mães que “enfastiadas de cuidar de sua
própria descendência, permitem que ela seja mantida por fêmeas estranhas” (idem,
p.26). Em primeiro lugar, excluindo-se “os casos inevitáveis, como quando a mãe não é
capaz de amamentar, isso é contra Deus e a natureza”, diz Comenius para as mães: “o
leite que Deus deu é para uso dos teus filhos e não de ti, pois sempre que um novo feto
vem à luz imediatamente começam a jorrar tuas fontes e para proveito de quem, senão
do novo hóspede?” (idem, p.27).
Estendendo-se longamente sobre a questão, Comenius, que teve vários filhos de
seus três casamentos, considera que entregar a criança a uma ama de leite, usual entre a
nobreza daqueles tempos, além de ser prejudicial ao filho, esse costume é pernicioso
para a própria mãe e ele adverte “as mães delicadas do tipo que receiam cuidar de seus
filhos para não prejudicar a simetria ou elegância de sua silhueta, muitas vezes acabam
por perder, nem tanto a serenidade, a beleza, mas a saúde e a vida” (idem, p.28).
Finalmente, Comenius considera indigno o comportamento de uma mãe que se recusa a
dar o seio ao próprio filho e que, no entanto, “preferem acariciar seu cão a carregar seu
filho nos braços e muitas vezes se envergonham de levar seus próprios filhos pela mão,
em vez do cão ou esquilo” (idem, p.29). A mudança de mentalidade a respeito da
criança desvelada por Ariès, de que falávamos anteriormente, é comprovada
exemplarmente nessa parte do discurso comeniano.
12
Com o desenvolvimento da criança, Comenius passa a fazer uma série de
recomendações sobre os cuidados a serem tomados, “aprender a segurar o bebê com as
mãos, levantá-lo, carregá-lo, deitá-lo, pegá-lo, envolvê-lo nos panos, colocá-lo no berço
com prudência e segurança”, alimentá-lo adequadamente de acordo com a idade, não
ministrar medicamentos sem necessidade, “cuidar para que a criança não seja exposta a
contusões, calor ou frio demasiado, excesso de comida ou bebida, nem passar fome ou
sede”, fazer com que ela se movimente: “quanto mais a criança está ocupada, corre,
brinca, mais tranquilamente pega no sono, mais facilmente seu estômago faz a digestão,
mais depressa cresce, mais forte é seu corpo e sua alma” (idem, p. 30-33). Considerado
um precursor da educação física, ele associa estreitamente o desenvolvimento físico
com o desenvolvimento moral e espiritual, de acordo com o aforismo de Juvenal mens
sana in corpore sano.
Comenius conclui seu aconselhamento dizendo que nunca se deve tolher a alegria
das crianças. Alegria que o seu manual retoma, após de toda uma série de contenções e
repreensões, para motivar os pais empenhados na educação de seus filhos:
13
sua proposta ciências que, como a Química ou a Biologia, não existiam em sua época.
Como já comentamos esta é a contribuição mais duradoura da obra de Comenius, não só
para a educação infantil, mas também para a educação em geral. Ciências cuja presença
consideramos hoje normal na escola como física, história ou geografia foram
introduzidas no currículo por Comenius.
Para o caso da educação infantil é claro que o conceito de ciências tem de ser
tomado num sentido bastante lato e abrangente. Selecionamos a ementa de geografia
constante desse capítulo VI para ilustrar a proposta comeniana:
Em todo esse capítulo, Comenius mostra o valor da observação feita pela criança
na construção de seu conhecimento. Como ele indica na Didactica Magna:
5
Naturalmente isso não quer dizer que ele considere que a criança se desenvolve por si só: é preciso
considerar cada momento tudo dentro da mais estrita ordem e disciplina. Assim , por exemplo, no
capítulo XXIII da Didactica Magna, “Método para ensinar a moral”, escreve Comenius: “Mas, porque as
crianças (ao menos, nem todas) não são ainda capazes de proceder assim deliberadamente e assim
racionalmente, será de grande proveito que se lhes ensine a maneira de exercitar a fortaleza e de se
dominarem a si mesmas, habituando-as a fazer de preferência a vontade dos outros que a própria, por
exemplo, a obedecer em tudo e sempre, aos superiores, com a máxima prontidão” (1976, p. 345-6).
Narodovski, constatando a ausência explícita do quesito avaliação na Didática Magna, pondera que: “en
14
Não é preciso muito esforço dedutivo para perceber o valor metodológico dessas
prescrições: atividades tais como excursões escolares, estudos do meio e, de maneira
geral, o ensino experimental no laboratório, podem e foram deduzidos de sua proposta.
Antecipando resultados posteriores da moderna psicologia educacional6, ele encerra
esse capítulo recomendando o aprendizado em conjunto, “pois crianças da mesma idade
progridem de forma semelhante nos modos e costumes e estão mais bem sintonizadas
umas com a outras, pois não há muita diferença entre suas capacidades de pensar” e
assim,
la obra de Comenius la vigilancia opera menos sobre el cuerpo infantil y más sobre el método”,
remetendo assim a questão da avaliação para o desempenho da escola e não do aluno (1994, p.82).
6
Pensamos aqui no conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, desenvolvido por Vygotsky (1998,
especialmente o capítulo 6).
15
Na Didactica Magna ela também associa o desenho aos exercícios de leitura e
escrita que ele recomenda que sejam feitos conjuntamente:
Foi justamente essa ênfase no uso integrado de todos os sentidos que, no século
XIX, faria de Comenius um teórico reconhecido do chamado método intuitivo de
ensino, com sua ênfase no estímulo da percepção das coisas pelas crianças através de
todos seus sentidos7. Na parte que trata do ensino de música nesse capítulo encontra-se
uma passagem que ilustra bem essa ideia:
7
No “Nouveau Dictionnaire de Pédagogie et D’Instruction Primaire”, publicado no início do século XX,
Buisson, partidário e propagandista do método intuitivo, fazia a seguinte recomendação sobre “Cet
intéressant petit traité, encore inconnu en France, mériterait, croyons-nous, d’être traduit: il ferait
reconnaitre dans Coménius le véritable prédécesseur de Froebel; car il n’y a pas de doute que le créateur
des jardins d’enfants n’ait dû s’inspirer dans la lecture des écrits du pédagogue morave”(1911, p.328).
16
a importância epistemológica que Comenius confere à linguagem, a ponto de propor na
Panglottia uma língua universal, nesse capítulo ele faz uma afirmação basilar para que
compreendamos seu credo pedagógico:
Assim, para ele, a retórica começa através de gestos, pois “aprendemos anos
entender primeiro através de gestos e depois com a ajuda de palavras, do mesmo modo
que procedemos com os surdos” (idem). Do mesmo modo, os princípios da poesia, que
“liga e arruma as palavras com ritmo e métrica”, “fluem com as primeiras palavras, pois
tão logo a criança começa a entender as palavras, começa também a gostar do ritmo e da
melodia” (idem).
Nos capítulos finais da “Escola da Infância”, Comenius trata da transição da
escola materna para a escola pública. No penúltimo capítulo ele justifica a necessidade
da educação doméstica até por volta dos seis anos de idade para, no último, aconselhar
os pais a preparar seus filhos para irem a escola, pois eles “não podem mandar
fortuitamente os filhos para se instruir na escola sem refletir primeiro porque o estão
fazendo e sem abrir os olhos das crianças para isso” (idem, p.79). Dizendo que não se
deve falar da escola em casa como um lugar de castigo, ele desafia uma série de razões
que podem ser apresentadas às crianças “para estimular nelas o amor pela escola” e
assim se sintam atraídas a frequentá-la. Também é indispensável criar nas crianças amor
e confiança em seus futuros professores antes de enviá-las à escola. Aqui Comenius faz
da escola uma extensão da vida familiar para que a transição se faça sem atropelos, do
seguinte modo:
17
serem castigados por todos) e que nunca castiga aos obedientes (idem,
p.81).
Reconhecer que o modo pelo qual crianças pequenas são criadas desde
a mais tenra idade afeta a formação de suas atitudes e pontos de vista,
procurar modos de educá-las de acordo com suas capacidades,
advogar a subsequente adaptação dos métodos como aperfeiçoamento
dos poderes mentais e físicos, significa se dirigir a uma concepção de
educação mais ampla do que a dos humanistas, cujas ideias sobre a
escola tinham sido realizadas primariamente em termos do ensino do
latim como veículo do aprendizado clássico. A Escola da Infância
trata da educação sob seis títulos. Depois de frisar o cuidado com a
saúde física Comenius vai enfatizar o treinamento na percepção do
mundo ao redor, o brincar ativo junto com nutrição balanceada e sono,
métodos para a promoção do desenvolvimento da fala e finalmente
educação moral e religiosa. Essa abordagem como um todo implica o
reconhecimento da educação como uma influencia formativa no
desenvolvimento, em termos de adaptar metodologia e conteúdo à
idade ou capacidade, e nos dá uma base para considerarmos a própria
vida como uma “escola”. Por conseguinte, todos os assuntos humanos
devem ser reformados para assegurar que todas as influencias da
sociedade são educativas (1970, p. 96)
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. Between Past and Future. New York: Penguin Books, 1993.
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Guanabara, 1986.
BUISSON, Ferdinand. Nouveau Dictionnaire de Pédagogie et D’Instruction Primaire.
Paris: Hachette, 1911.
CAGNOLATI, Antonella. «Educare arbusculas Dei». The School of Infancy in
Comenius’ Educational Theory. History of Education & Children’s Literature, I, 1,
2006.
ČAPKOVÁ, Dagmar. The Educational Plans of J.A. Comenius in 1646: from a diary
sent to English colleagues. History of Education, v. 7, n. 2, 1978.
______. The Recommendations of Comenius regarding the Education of
Young Children. In: Dobinson, C.H. (ed.).Comenius and Contemporary Education.
An International Symposium. Hamburg: Unesco Institute for Education, 1970.
18
______. Opera Didactica Omnia by J.A.Comenius. Praha: Pedagogical Museum of
J.A.Comenius in Prague, 2007.
COMÉNIO, João Amós. Didáctica Magna. 2ª ed. Lisboa: Gulbenkian, 1976.
______. Pampaedia. Coimbra, 1971.
COMENIUS, Jan Amos. A Escola da Infância. São Paulo: EDUNESP, 2011.
______. Didáctica Magna. Madrid: Akal, 2012.
DURKHEIM, Emile. A Evolução Pedagógica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
KULESZA, Wojciech Andrzej. Uma fonte inédita para historiar a recepção de
Comenius no Brasil. Cadernos de História da Educação, 2015 (no prelo).
NARODOWSKI, Mariano. Infancia y poder. Buenos Aires: Aique, 1994.
VYGOTSKY, Lev Semyonovitch. A formação social da mente. 6ª ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.
19