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Elias Wolff

O artigo explora a dimensão ecumênica da espiritualidade do Sínodo sobre a Sinodalidade da Igreja Católica, destacando os pilares do método sinodal: encontro, escuta e discernimento. Ele argumenta que a conversação espiritual permite que as igrejas ouçam o que o Espírito diz através de outras comunidades, promovendo a unidade na fé cristã. A conclusão é que sinodalidade e ecumenismo são processos interligados que sustentam o testemunho comum da fé.
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Elias Wolff

O artigo explora a dimensão ecumênica da espiritualidade do Sínodo sobre a Sinodalidade da Igreja Católica, destacando os pilares do método sinodal: encontro, escuta e discernimento. Ele argumenta que a conversação espiritual permite que as igrejas ouçam o que o Espírito diz através de outras comunidades, promovendo a unidade na fé cristã. A conclusão é que sinodalidade e ecumenismo são processos interligados que sustentam o testemunho comum da fé.
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PERSPECTIVA TEOLÓGICA ADERE A UMA LICENÇA CREATIVE COMMONS

ATRIBUIÇÃO 4.0 INTERNACIONAL – (CC BY 4.0 )

DOI: 10.20911/21768757v57n1e05665/2025

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ȱ ŽŒž–Ž—’Œ’ŠŽȱ Šȱ Žœ™’›’žŠ•’ŠŽȱ œ’—˜Š•DZȱ ž–Šȱ •Ž’ž›Šȱ


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The Ecumenicity of Synodal Spirituality: an Ecumenical Reading of the Method


of Spiritual Conversation

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RESUMO: O artigo analisa a dimensão ecumênica da espiritualidade do Sínodo


sobre a Sinodalidade que a Igreja Católica realiza de 2021 a 2024. Para isso, expli-
cita a ecumenicidade dos pilares do método do processo sinodal — o encontro,
a escuta e o discernimento. Mostra que o método da conversação espiritual cria
as condições para que no interior de uma igreja se possa escutar o que o Espírito
diz através das outras igrejas, para falar de modo a ressoar a voz do Espírito e
fortalecer-se no caminhar rumo à unidade na fé cristã. O método deste estudo é a
™Žœšž’œŠȱŽ¡™•˜›Šà›’ŠǰȱŒ˜–ȱŠ—¤•’œŽȱšžŠ•’Š’ŸŠȱŠȱ‹’‹•’˜›ŠęŠȱ›Ž•Š’ŸŠȱ¥ȱœ’—˜Š•’ŠŽȱ
e ao ecumenismo, com foco nos documentos do sínodo sobre a sinodalidade. A
conclusão é que sinodalidade e ecumenismo implicam-se mutuamente no processo
espiritual que sustenta as igrejas no discernimento dos passos necessários para o
testemunho comum da fé cristã.
Ȭ DZ Conversação espiritual. Ecumenismo. Sinodalidade. Igreja.

DZ The article analyzes the ecumenical dimension of the spirituality of


the Synod on Synodality that the Catholic Church holds from 2021 to 2024. To this
end, it explains the ecumenicity of the pillars of the synodal process method —
encounter, listening, and discernment. It shows that the method of spiritual con-
versation creates the conditions so that within a church one can listen to what the
Spirit says through other churches, to speak in a way that the voice of the Spirit

Șȱ ˜—’ÇŒ’Šȱ —’ŸŽ›œ’ŠŽȱ Šà•’ŒŠȱ ˜ȱ ЛЗ¤ȱ ǻǼǰȱ ž›’’‹Šǰȱ ЛЗ¤ǰȱ ›Šœ’•ǯ

Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025 1


resonates and to be strengthened in the journey towards unity in the Christian
faith. The method of this study is exploratory research, with qualitative analysis
of the bibliography relating to synodality and ecumenism, focusing on the synod
documents on synodality. The conclusion is that synodality and ecumenism are
mutually implicated in the spiritual process that supports churches in discerning
the necessary steps for the common witness of the Christian faith.
KEYWORDS: Spiritual conversation. Ecumenism. Synodality. Church.

Introdução

O processo sinodal proposto pelo Papa Francisco para a Igreja Ca-


à•’ŒŠȱ ˜–Š—Šǰȱ Ž—›Žȱ ˜œȱ Š—˜œȱ ŘŖŘŗȱ Šȱ ŘŖŘŚǰȱ ’—Ž—œ’ęŒŠȱ Šȱ ’œŒžœœ¨˜ȱ
sobre o que é sinodalidade. Esse adjetivo relativo a sinodal procede do
substantivo sínodo, em grego syn-hodosǰȱ šžŽȱ Ž’–˜•˜’ŒŠ–Ž—Žȱ œ’—’ęŒŠȱ
“caminhar juntos”. Trata-se de algo constitutivo da igreja, em seu ser e
agir, mas pouco observado no cotidiano das comunidades. Por isso, o
Papa Francisco surpreendeu os meios católicos com a proposta de um
sínodo sobre sinodalidade, e desde o seu início, em 10 de outubro de
ŘŖŘŗǰȱ œž›’›Š–ȱ šžŽœ’˜—Š–Ž—˜œȱ œ˜‹›Žȱ ˜ȱ œŽžȱ œ’—’ęŒŠ˜ǰȱ œŽžœȱ ˜‹“Ž’Ÿ˜œǰȱ
sua viabilidade. O debate teológico produziu um considerável número
de pesquisas, nas mais diversas vertentes, enriquecendo a recepção da
proposta do papa, mesmo se entre resistências.

Diversas análises sobre esse sínodo tratam de vários temas nele abor-
dados, tratando da “sinodalidade como dimensão constitutiva da igreja e
expressão do Evangelho” (Routhier, 2021), sinodalidade e renovação eclesial
ǻА’˜•’ǰȱŘŖŘŗǼǰȱœ’—˜Š•’ŠŽȱŽȱ™Šœ˜›Š•ȱǻ›’‘Ž—’ǰȱŘŖŘŘǼǰȱ˜ȱœ’—’ęŒŠ˜ȱŽȱ
ȃŒŠ–’—‘Š›ȱ “ž—˜œȄȱ ǻ£Ž›—¢ǰȱ ŘŖŘŘǼǰȱ Ž—ę–ǰȱ ™›˜™äŽȬœŽȱ ž–ȱ Š™›˜ž—Š–Ž—˜ȱ
das várias “sinodalidades” (Mendoza-Álvarez et al., 2021), com releituras
teológicas das diferentes etapas do atual sínodo (Rougé, 2024). Observa-
-se nesses estudos que o ecumenismo é um dos aspectos menos tratados.
Este artigo visa contribuir para suprir essa carência, concentrando-se em
Ž¡™•’Œ’Š›ȱŠȱŽŒž–Ž—’Œ’ŠŽȱŠȱŽœ™’›’žŠ•’ŠŽȱœ’—˜Š•ǯȱȱŽœŽȱŠšž’ȱŠę›–ŠŠȱ
é que espiritualidade sinodal e ecumenismo se implicam-se mutuamente,
ambos são “moção da graça do Espírito Santo” (UR 1) que possibilita o
“caminhar juntos” (syn-hodosǼȱ—Šȱ·ȱŒ›’œ¨ǯȱ–ȱ™Š›’Œž•Š›ǰȱŸŽ›’ęŒŠ–˜œȱŒ˜–˜ȱ
o método do sínodo, a conversação espiritual, estimula as igrejas no diá-
logo em busca de convergências e consensos na compreensão e vivência
˜ȱ ŸŠ—Ž•‘˜ǯȱꗊ•ǰȱ ȃȱ ›˜ŒŽœœ˜ȱ ’—˜Š•ȱ ·ȱ Š–‹·–ȱ ž–Šȱ ˜™˜›ž—’ŠŽȱ
™Š›Šȱ Š™›˜ž—Š›ȱ ˜ȱ ŒŠ–’—‘˜ȱ ŽŒž–¹—’Œ˜ȱ Œ˜–ȱ Šœȱ ˜ž›Šœȱ Œ˜—ęœœäŽœȱ Œ›’œ¨œȄȱ
(Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 2021a, n. 2.4, item 5). Esta pesquisa
desenvolve-se em três passos: a explicitação da dimensão ecumênica dos
pilares da espiritualidade sinodal — o encontro, a escuta e o discernimento;

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o desenvolvimento da ecumenicidade do método da conversação espiritual;
e mostra a espiritualidade sinodal ecumênica como um processo sempre
inacabado enquanto a Igreja peregrina neste mundo. O método do nosso
estudo é pesquisa exploratória, com análise qualitativa de documentos do
magistério de Francisco e documentos do sínodo sobre a sinodalidade. E
a conclusão é que tanto a sinodalidade quanto o ecumenismo são proces-
sos espirituais fundamentais para as igrejas poderem caminhar juntas no
testemunho da fé cristã no mundo atual.

1 A dimensão ecumênica dos pilares da espiritualidade


sinodal

É importante observar que existe um estreito vínculo entre sinodalidade


e espiritualidade. Sinodalidade não indica somente um evento como uma
reunião ou assembleia que discute modelos de igreja e projetos de missão.
Tal é designado pelo substantivo “sínodo”. Sinodalidade, como adjetivo,
é o que dá sentido ao sínodo, indicando a dinâmica do processo sinodal.
É o que caracteriza e sustenta as reuniões, os encontros, as conversações
como passos da caminhada sinodal. Assim, sinodalidade é o espírito ou a
Žœ™’›’žŠ•’ŠŽȱ˜ȱœÇ—˜˜ǰȱ˜ȱšžŠ•ȱœŽȱŒ˜—ꐞ›Šȱ—˜ȱ‘˜›’£˜—ŽȱŽȱŒ˜–ž—‘¨˜ǰȱ
partilha, corresponsabilidade entre todos os membros da igreja. Ela forma
o ser cristão, ser igreja e a sua missão, modelando comportamentos e
atitudes na participação da vida eclesial.

É nessa direção que na homilia de abertura do Sínodo sobre Sinoda-


lidade, em outubro de 2021, o Papa Francisco apresentou os pilares da
espiritualidade sinodal: o encontro, a escuta, o discernimento (Francisco,
2021). Esses elementos formam a conversação espiritual como método do
processo sinodal. E como a sinodalidade “abrange também as relações e
as iniciativas comuns com os irmãos e as irmãs das demais comunidades
cristãs” (Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 2021b, n. 28), então a per-
gunta que aqui buscamos responder é: como os pilares da espiritualidade
que orienta o método do processo sinodal podem ser compreendidos e
desenvolvidos ecumenicamente?

1.1 O encontro sinodal como pilar para o ecumenismo


A espiritualidade sinodal caracteriza-se como a arte do encontro,
acontecendo em múltiplas formas, envolvendo pessoas e seus diferen-
tes contextos. Num mundo fragmentado por posicionamentos políticos,
ideológicos e, inclusive, religiosos, exercitar a capacidade do encontro é
Šę›–Š›ȱŠȱ™˜œœ’‹’•’ŠŽȱŠȱŒ˜—Ÿ’Ÿ¹—Œ’ŠȱŠœȱ’Ž›Ž—³ŠœǰȱŽ›ȱ–ŽŠœȱŒ˜–ž—œȱŽȱ
caminhar juntos para alcançá-las. É a dinâmica das relações interpessoais,

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que devem acontecer no interior de uma igreja, entre elas e na sociedade
como um todo. Na espiritualidade sinodal, encontro é o jeito de a igreja
ser em sua organização interna, e de sair na direção dos outros, estabelecer
relações, interações, parcerias, caminhar juntos. Assim, a espiritualidade
sinodal sustenta a “cultura do encontro” (EG, n. 220) que o Papa Francisco
propõe à humanidade inteira. Tal é condição imprescindível para conviver
no mundo plural.

Encontro, como pilar da espiritualidade sinodal, tem uma dimensão


ecumênica e, ao mesmo tempo, é o que caracteriza o ecumenismo. O
cristianismo é marcado por desencontros de doutrinas, espiritualidades,
estruturas eclesiais, práticas missionárias. Para superar tal realidade, o
movimento ecumênico propõe encontros para as igrejas conversarem sobre
compreensões da fé cristã, de igreja, das formas de anúncio do Evangelho.
Tal é uma exigência fundamental na busca da unidade cristã e promove
uma sinodalidade ecumênica. Assim, a experiência sinodal extrapola uma
determinada tradição eclesial, propondo o encontro intereclesial como
caminhar juntos no discipulado de Cristo.

Š’œȱ Ž—Œ˜—›˜œȱ ¹–ȱ ˜’œȱ ™›’—Œ’™Š’œȱ œ’—’ęŒŠ˜œDZȱ Œ˜–˜ȱ ›Žž—’¨˜ǰȱ ™Š›Šȱ


discussão de temas teológicos sobre os quais as igrejas divergem, o que
ŠŒ˜—ŽŒŽȱ œ˜‹›Žž˜ȱ ™Ž•Šœȱ Œ˜–’œœäŽœȱ ˜ęŒ’Š’œȱ Žȱ ’¤•˜˜Dzȱ Žȱ Œ˜–˜ȱ œŽ’ŸŠȱ Žœ-
piritual que alimenta essas reuniões e conversações. No âmbito espiritual,
encontrar-se é mais que reunir-se para intercâmbio de ideias. É perceber a
interioridade profunda das convicções da outra igreja, colher o mistério no
šžŠ•ȱŽ•ŠȱŠ™›ŽœŽ—ŠȱœžŠœȱŒ˜—Ÿ’Œ³äŽœȱ’Ž—’¤›’Šœǯȱ¨˜ȱœ’—’ęŒŠȱ˜–Š›ȱ™Š›Šȱœ’ȱ
tudo o que a outra igreja propõe. Mas compreendê-la em sua razão evan-
gélica de ser. Não há verdadeiro encontro ecumênico se entre as igrejas
não houver essa interação espiritual profunda. É nela que a verdade de
ŒŠŠȱ ž–Šȱ œŽȱ –Š—’ŽœŠȱ Œ˜–ȱ •’‹Ž›ŠŽȱ Žȱ Œ˜—ꊗ³Šǯ

Os encontros dos participantes do Sínodo sobre Sinodalidade contam com


representantes de outras igrejas, realizando a sua perspectiva ecumênica. O
n. 3.1 do Vademecum para o sínodo orientou para que na “Reunião diocesana
pré-sinodal” tenha a presença de “Delegados ecumênicos e inter-religiosos
interessados (e outros que podem não ser católicos, mas que podem con-
tribuir com perspectivas úteis para a Igreja” (Vademecum, Apêndice C), de
modo que a fase diocesana do sínodo acontecesse a consulta e a escuta
dos “movimentos ecumênicos e inter-religiosos”. E o n. 4.1 do mesmo
documento pedia para que a redação das sínteses dessa fase (nacional)
se desse por encontros para partilha e escuta dos “grupos ecumênicos”.
O mesmo aconteceu na fase continental e na seção da fase universal
˜ȱ œÇ—˜˜ǯȱ œœ’–ǰȱ 挊ȱ Œ•Š›˜ȱ šžŽȱ ȃȱ ’¤•˜˜ȱ Ž—›Žȱ Œ›’œ¨˜œȱ Žȱ ’Ž›Ž—Žœȱ
Œ˜—ęœœäŽœǰȱ ž—’˜œȱ ™˜›ȱ ž–ȱ ø—’Œ˜ȱ Š’œ–˜ǰȱ ˜Œž™Šȱ ž–ȱ •žŠ›ȱ ™Š›’Œž•Š›ȱ —˜ȱ
caminho sinodal” (Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 2021b, n. 30, item
VII), o que acontece como “oportunidade de encontro na fé que faz crescer

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o vínculo com o Senhor, a fraternidade entre as pessoas e o amor pela
Igreja” (Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 2023b, n. 17, grifo nosso).

Ž—›Žȱ˜œȱ–ž’˜œȱŽœŠę˜œȱšžŽȱŽ–Ž›Ž–ȱ˜œȱŽ—Œ˜—›˜œȱŽŒž–¹—’Œ˜œȱŽœ¤ȱ
à disposição das igrejas para reverem estruturas, doutrinas, procedimentos,
Žȱ –˜˜ȱ Šȱ ™Ž›–’’›ȱ šžŽȱ œŽȱ Šę›–Žȱ ŽŽ’ŸŠ–Ž—Žȱ ˜ȱ Š’œ–˜ȱ Œ˜–ž–ȱ Žǰȱ Šȱ
partir dele, a corresponsabilidade pela missão de testemunhar o Evangelho
no mundo atual. Vivido como pilar espiritual, o encontro contribui para
Œ˜—œŽ—œ˜œȱŽŒž–¹—’Œ˜œȱœ˜‹›ŽȱŠȱ›ŽŒ˜—ꐞ›Š³¨˜ȱŠȱ’›Ž“ŠǯȱŠ›Šȱ’œœ˜ǰȱŽ•ŠœȱŒ˜—-
versam sobre suas formas de se organizar, a relação entre clero e laicato, o
lugar e o papel da mulher, o governo eclesial, entre outros. São questões
que requerem mais do que encontro de ideias e doutrinas. As igrejas
avançam nas convergências se houver um encontro espiritual que sustenta
o diálogo teológico-doutrinal. O governo eclesial, por exemplo, é uma das
divergências nucleares entre elas. E aspira-se que as igrejas possam, um
’ŠǰȱŠę›–Š›ȱ“ž—ŠœDZȱȃ˜ȱޡޛŒÇŒ’˜ȱŠȱŠž˜›’ŠŽȱ—Šȱ ›Ž“Šȱ·ȱŠ™›ŽŒ’Š˜ȱŒ˜–˜ȱ
ž–ȱ ˜–ǰȱ Œ˜–ȱ ˜ȱ ŽœŽ“˜ȱ Žȱ šžŽȱ œŽ“Šȱ ŒŠŠȱ ŸŽ£ȱ –Š’œȱ Œ˜—ꐞ›Š˜ȱ Œ˜–˜ȱ ȁž–ȱ
verdadeiro serviço [...] seguindo o modelo de Jesus, que se abaixou para
lavar os pés de seus discípulos (cf. Jo 13,1-11)” (Secretaria Geral do Sínodo
dos Bispos, 2023b, n. 21). Para tanto, a conversação espiritual favorece na
busca de formas de governo que rompa com o verticalismo institucional
Žȱ ˜ž›’—Š•ǰȱ ˜ȱ Œ•Ž›’ŒŠ•’œ–˜ȱ šžŽȱ ˜‹œŠŒž•’£Šȱ ˜ȱ œŠŒŽ›àŒ’˜ȱ Œ˜–ž–ȱ ˜œȱ ę·’œȱ
leigos e suas responsabilidades eclesiais. Nisso a Igreja Católica pode
aprender algo da prática conciliar e sinodal das outras igrejas. Desenvolve-
-se, então, uma sinodalidade ecumênica como encontro e intercâmbio de
vidas. Por ela, as igrejas podem
avizinhar-se mais umas às outras no modo de viver [...] habituar-se umas às
outras, orar junto, trabalhar junto, viver junto [...]. Por isso, este ecumenismo
da vida não é entendido de modo estático, mas um processo de cura e de
crescimento (Kasper, 2006, p. 104).

Dois elementos destacam-se no encontro sinodal ecumênico:

a) A acolhida mútua

Todo verdadeiro encontro cria possibilidades para que as igrejas se


acolham mutuamente. E isso estabelece ricas parcerias no testemunho
comum do Evangelho. Serve para as relações ecumênicas o que diz o n.
7 do Instrumentum Laboris da primeira fase do Sínodo em 2023: “caminhar
juntos, ou seja, tornar-se sinodal é o caminho para nos tornarmos verda-
deiramente discípulos e amigos daquele Mestre e Senhor que disse de si:
ȁžȱ œ˜žȱ ˜ȱ ŒŠ–’—‘˜ȂȄȱ ǻ ˜ȱ ŗŚǰŜǼǯ

“Tornar-se sinodal” é um caminho também ecumênico, que enriquece


a consciência da identidade e vocação da igreja pela interação entre os
diferentes jeitos de caminhar que se complementam, permite reconhecer

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os valores que cada igreja oferece para o caminho de fé ser mais seguro,
leve, possível de ser percorrido conjuntamente. Para isso, o vademécum do
™›˜ŒŽœœ˜ȱœ’—˜Š•ȱ™›˜™äŽȱŒ˜–˜ȱŠ’žŽȱœ’—˜Š•ȱȃŒž›Š›ȱ˜ȱŸÇ›žœȱŠȱŠž˜œœžę-
ciência” (Secretaria Geral do Sínodo, 2021a, n. 2.3). Isso aplicado às igrejas,
Š™›ŽœŽ—Šȱ ˜ȱ ŽœŠę˜ȱ Žȱ ’œŒŽ›—’›Ž–ȱ ˜œȱ ŸŠ•˜›Žœȱ Žȱ ž–Šœȱ Žȱ Žȱ ˜ž›Šœȱ šžŽȱ
são inerentes ao ser cristão e ser igreja. Tal discernimento
requer uma atitude kenótica de cada tradição eclesial. Saber que não esgota
em si própria o mistério da Igreja de Cristo e, portanto, reconhecer a ma-
nifestação da Sua Igreja também em outros espaços. Então, cada tradição
eclesial precisa estar disponível para mudanças, reformas e redimensiona-
mentos necessários [...] precisa acolher as formas plurais como a Igreja de
›’œ˜ȱ œŽȱ Ž¡™›ŽœœŠǰȱ Œ˜—Ÿ’ŸŽ›ȱ Žȱ œŽȱ Ž—›’šžŽŒŽ›ȱ Œ˜–ȱ Ž•Šœȱ ǻ˜•ěǰȱ ŘŖŘřǰȱ ™ǯȱ śŘǼǯ

Para tanto, o Documento de Trabalho para a Etapa Continental do Sínodo,


propunha “Relançar o compromisso pela unidade dos cristãos, como tes-
temunho num mundo fragmentado” (Secretaria Geral do Sínodo, 2022, n.
49). O Instrumentum Laboris para a primeira seção do sínodo (outubro, 2023)
mostra que as igrejas têm um longo caminho a percorrer nessa direção,
Ž—›Ž—Š—˜ȱ“ž—Šœȱ˜ȱŽœŠę˜ȱŽȱ–˜œ›Š›ȱŠ˜ȱ–ž—˜ȱšžŽȱ—Šȱ ›Ž“ŠȱŽȱ›’œ˜ȱ
“reina a perfeita comunhão entre todas as diferenças que a compõem”
(Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 7).
Enfatizamos aqui que isso é um processo espiritual, no qual a acolhida
e a parceria ecumênicas são fundamentais para a sinodalidade ecumênica.
ȱ ›ŽŒ˜—ꐞ›Šȱ Šȱ ’›Ž“Šȱ Ž–ȱ œŽžȱ modus operandi et vivendi, com importantes
implicações para a missão. As diferentes tradições eclesiais podem bus-
car juntas novos meios e novas estruturas que as impulsionem na busca
da comunhão em Cristo. Esse ideal as impele a trabalharem juntas num
processo de reformas estruturais que possibilitem a corresponsabilidade
de todas nos processos de discussão e decisão sobre a evangelização no
mundo atual. Tais são consequências práticas dos encontros ecumênicos que
possibilitam acolhida mútua e parcerias, consequentes da espiritualidade
que fortalece o caminho sinodal ecumênico das igrejas.
b) Diaconia
O encontro ecumênico, vivido espiritualmente, é um importante meio
para as igrejas prestarem um serviço de fraternidade, solidariedade, in-
clusividade na promoção da vida humana e da criação. No atual mundo
globalizado, há tentativas de assimilação, subordinação e negação do
valor das identidades minoritárias, pobres e vulneráveis. Posturas que se
™›ŽŽ—Ž–ȱ ‘ŽŽ–â—’ŒŠœȱ ‹žœŒŠ–ȱ Šę›–Š›ȱ ™Š›äŽœȱ Žȱ Ÿ’Šȱ šžŽȱ —ސЖȱ Šœȱ
diferenças e impõem o uniformismo onde impera o integrismo, o exclu-
sivismo e o extremismo, como continuidade de processos neocoloniais.
•·–ȱ’œœ˜ǰȱŽ—¹—Œ’ŠœȱŒž•ž›Š’œȱŽȱꕘœà挊œȱ—Šȱ™Ž›œ™ŽŒ’ŸŠȱ˜ȱ›Ž•Š’Ÿ’œ–˜ȱ
›Š–Ž—Š–ȱ Žȱ ›Š’•’£Š–ȱ ˜ȱ ŸŠ•˜›ȱ Šœȱ Žœ™ŽŒ’ęŒ’ŠŽœȱ Šœȱ Œž•ž›Šœȱ •˜ŒŠ’œǯȱ
Conclui o Papa Francisco: “Vivemos uma cultura do desencontro, uma

6 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


cultura da fragmentação, uma cultura na qual o que não me serve jogo
fora, a cultura do descarte” (Francisco, 2013a). Isso conduz ao colapso da
sensibilidade frente à grande parcela da humanidade que vive em situa-
ção de vulnerabilidade pelo desemprego, a pobreza, a fome, a migração
˜›³ŠŠǰȱŽ—ę–ǰȱœŽ–ȱŠŒŽœœ˜ȱŠ˜œȱ›ŽŒž›œ˜œȱ—ŽŒŽœœ¤›’˜œȱ™Š›Šȱž–ŠȱŸ’Šȱ’—Šǯ

Vivendo e promovendo encontros ecumênicos, as igrejas podem se


fortalecer na promoção da diaconia social. As igrejas ajudam as pessoas
a viverem o “encontro como cultura” (FT, n. 216-217), o qual é mais do
que cruzar-se com alguém pelo caminho, pois no simples cruzar alguém
“olha, mas não vê; ouve, mas não escuta” (Francisco, 2016). E isso gera
indiferença. O ecumenismo torna-se diaconal quando sensibiliza para
encontros sociais com experiência sensorial: sentir a outra pessoa, olhar
nos olhos, tocar com as mãos, abraçar. O trabalho dos sentidos exige e
gera atitudes como parar, dar tempo, dirigir a voz e o olhar, estender a
mão. Como consequência, essa forma de encontro possibilita compaixão
Žȱ ŠŒ˜•‘’Šȱ Šȱ Š•Ž›’ŠŽȱ œ˜›’Šȱ šžŽȱ œŽȱ –Š—’ŽœŠǰȱ Œ˜–˜ȱ ޡޖ™•’ęŒŠȱ Šȱ
parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) e na vivência dos critérios para
entrar no Reino (Mt 25,31-46).

Desse modo, o processo sinodal ecumênico propõe o encontro como


contraponto a um estilo sociocultural global que distancia pessoas e po-
vos pela “surdez insolidária” (Bennassàr, 2002, p. 176). O ecumenismo
˜›—ŠȬœŽȱ ’ŠŒ˜—’Šȱ —˜œȱ Ž—Œ˜—›˜œȱ šžŽȱ Šę›–Š–ȱ ˜ȱ ŸŠ•˜›ȱ Žȱ Šȱ ’—’ŠŽȱ Šȱ
alteridade, independente de sua condição social ou religiosa, sobretudo
das pessoas pobres e injustiçadas. O Documento de Trabalho da Etapa Con-
tinentalȱ Šę›–Šȱ Šȱ —ŽŒŽœœ’ŠŽȱ Šȱ ȃŒ˜•Š‹˜›Š³¨˜ȱ Œ˜—Œ›ŽŠȱ Žȱ Œ˜’’Š—Šȱ œ˜‹›Žȱ
preocupações comuns pela justiça social e ambiental” (Secretaria Geral
do Sínodo, 2022, n. 47), e de “ouvir o grito dos pobres e os da terra” o
šžŽȱŠŒ˜—ŽŒŽȱȃŒ˜•Š‹˜›Š—˜ȱŽȱŠ—˜ȱŸ’ŠȱŠȱŠ•’Š—³ŠœȱŒ˜–ȱ˜ž›ŠœȱŒ˜—ęœœäŽœȱ
cristãs” (Secretaria Geral do Sínodo, 2022, n. 45). Aqui a fé cristã, em
parceria com outras expressões religiosas e as culturas, integra ações de
solidariedade e caridade com o princípio da justiça social. Para isso, vai
além do assistencialismo que deixa as pessoas pobres numa situação de
passividade (FT, n. 187), possibilitando-lhes expressão e participação social
como sujeitos da própria história. Desse modo, a diaconia ecumênica é
ž—Š–Ž—Š•ȱ ™Š›Šȱ Šȱ Šę›–г¨˜ȱ ˜œȱ ’›Ž’˜œȱ œ˜Œ’Š’œȱ Šœȱ ™Žœœ˜Šœȱ ™˜‹›Žœȱ Žȱ
vulneráveis, integrando-as na sociedade com políticas públicas que lhes
assegure as condições necessárias para viver com dignidade.

1.2 A ecumenicidade da escuta sinodal


O segundo pilar do método espiritual do sínodo é a escuta. Todo
verdadeiro encontro leva à escuta e à fala igualmente verdadeiras e ho-
nestas. É uma escuta atenta das pessoas participantes do syn-hodos, escuta
espiritual das situações nas quais vivem e do que elas têm a dizer sobre

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as realidades contextuais. O exercício da escuta como processo espiritual
sinodal requer silêncio, meditação sobre o que a outra pessoa diz, para
compreendê-la na sua verdade e no mistério que a envolve.

A escuta espiritual é um pilar também para o ecumenismo. As igrejas


™›˜›’Ž–ȱ —Šȱ ꎕȱ ŒŠ™Š³¨˜ȱ Šȱ Ÿ˜£ȱ ˜ȱ œ™Ç›’˜ǰȱ ‹žœŒŠ–ȱ ˜ȱ Ž—Ž—’–Ž—˜ȱ
da Sua fala nos Evangelhos, nos sinais dos tempos, na história do Povo
Žȱ Žžœǯȱ œœ˜ȱ Šœȱ ŽœŠęŠȱ Šȱ ȃž–Šȱ ŽœŒžŠȱ ˜ȱ œ™Ç›’˜ȱ ™˜›ȱ –Ž’˜ȱ Šȱ ŽœŒžŠȱ
da Palavra, da escuta dos acontecimentos da história e da escuta mútua
como indivíduos e entre as comunidades eclesiais” (Secretaria Geral do
Sínodo, 2023b, n. 22). Esse processo lhes estimula a responderem juntas
às interpelações do Espírito, como exercício espiritual que acontece de
modo orante na interioridade de cada tradição eclesial, buscando captar
˜ȱœ’—’ęŒŠ˜ȱ™›˜ž—˜ȱŠȱŽ¡™Ž›’¹—Œ’Šȱ˜ȱŒŠ–’—‘˜ȱŽŒž–¹—’Œ˜ǰȱœŽžœȱ™Š›Š-
doxos e revelações, a mudança de consciência que daí resulta, bem como
uma síntese das visões e percepções que o Espírito possibilita na busca
da unidade. É uma dinâmica interna a cada igreja, mas que se expressa
nas relações entre elas, criando um ambiente favorável para processos de
conversão ecumênica, revisão de teologias, estruturas e práticas, de modo
a buscar maior coerência interna com o conteúdo do Evangelho e, simul-
taneamente, favorecer para convergências e consensos com outras igrejas.
Podemos entender ecumenicamente que “A sinodalidade é um caminho
privilegiado de conversão, porque reconstitui a Igreja na unidade: cura suas
feridas e reconcilia a sua memória, acolhe as diferenças que comporta e a
›Ž’–ŽȱŠœȱ’Ÿ’œäŽœȱšžŽȱœŽȱ’—ĚŠ–Š–ȄȱǻŽŒ›ŽŠ›’Šȱ ޛЕȱ˜ȱǗ˜˜ǰȱŘŖŘř‹ǰȱ
n. 28). Na escuta sinodal ecumênica presta-se respeitosa atenção espiritual
à outra igreja, partilham-se distintas do Evangelho, faz-se intercâmbio de
impressões, sensações, experiências. Todas as igrejas podem falar, com
base na própria experiência do Evangelho, que vale mais que a ideia ou
a doutrina, pois a experiência é o que dá segurança e coerência à fala. Ter
a possibilidade de falar e ser escutada é um processo espiritual ecumênico
que liberta as igrejas de resistências que uma pode ter em relação à outra,
Žȱ ’œœ˜ȱ Šœȱ ›Š—œ˜›–Šȱ Žȱ Šœȱ Œ˜•˜ŒŠȱ —˜ȱ ‘˜›’£˜—Žȱ Žȱ Œ˜—ŸŽ›œ¨˜ǯȱꗊ•ǰ
um processo sinodal não é completo sem encontrar as irmãs e os irmãos
Žȱ ˜ž›Šœȱ Œ˜—ęœœäŽœǰȱ ™Š›’•‘Š›ȱ Žȱ ’Š•˜Š›ȱ Œ˜–ȱ Ž•Žœȱ Žȱ Œ˜–™›˜–ŽŽ›ȬœŽȱ Ž–ȱ
ações comuns. As sínteses exprimem o desejo de um mais profundo diálogo
ecumênico e a necessidade de formação a este respeito (Secretaria Geral
do Sínodo, 2022, n. 22).

Desse modo, a escuta sinodal integra as igrejas numa dinâmica coletiva


de abertura mútua. Não é mera sondagem da outra igreja, mas busca de
compreensão da verdade do Evangelho que ali se encontra, de captação
do œŽ—œžœȱ ꍎ’ e o sensus ecclesiae em cada tradição cristã. Compreende-se
šžŽȱŒŠŠȱž–ŠȱŽ–ȱœžŠȱ™Š›ŒŽ•Šȱ˜ȱȃŽ™àœ’˜ȱŠȱ·ȄȱŒ˜—ꩍ˜ȱ™Ž•˜ȱœ™Ç›’˜ȱ
a todo o Povo de Deus. A escuta da fé cristã na outra tradição eclesial
permite compreender como ela preserva, professa e transmite esse depósito.

8 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


É o exercício de apreender “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 3,6) como
elemento constitutivo da sinodalidade ecumênica, de modo que conclui o
Relatório de Síntese da I Seção do Sínodo sobre a Sinodalidade, (outubro, 2023),
“não pode haver sinodalidade sem a dimensão ecumênica” (Secretaria
Geral do Sínodo dos Bispos, 2023a, n. 7, letra b). Ouvir o Espírito atra-
vés da escuta da outra igreja requer humildade para acolher a verdade
cristã por vozes diferentes. Nisso, “uma Igreja sinodal deseja ser humilde
e sabe que deve pedir perdão e que tem muito a aprender” (Secretaria
Geral do Sínodo, 2023b, n. 23) com quem caminha junto. A escuta mútua
·ȱ ž–ȱ ™›˜ŒŽœœ˜ȱ Žœ™’›’žŠ•ȱ šžŽȱ ‹žœŒŠȱ ’Ž—’ęŒŠ›ȱ Žȱ ’œ’—ž’›ȱ Šœȱ –˜³äŽœȱ ˜ȱ
Espírito na história de cada igreja, no mundo, nas realidades humanas
que apelam o testemunho comum da fé: “E se realmente acreditamos na
ação livre e generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns
dos outros” (EG, n. 246). Então, as igrejas têm condições de responderem
juntas às interpelações que o Espírito faz para a vivência da comunhão
na fé em Cristo.

a) Da escuta ao diálogo

O Vaticano II colocou a Igreja Católica em postura de diálogo com o


mundo (GS, n. 3.40; PO, n. 12; CD, n. 13), com outras igrejas (UR), com
as religiões (NA; DH; GS, n. 92; AG, n. 16, 34, 41), e as pessoas de boa
vontade (AA, n. 14). O Papa Francisco segue nessa direção, mostrando que
a arte da escuta é base para a construção do diálogo, algo bem presente
no seu magistério. Na Evangelii gaudium, o papa propõe o diálogo entre
as diversas instâncias da igreja, capaz de impulsionar reformas amplas e
profundas (EG, n. 27-33); na Laudato Si´, faz “um convite urgente a renovar
o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta”
(LS, n. 11); na ›ŠŽ••’ȱ žĴ’ǰȱ Šę›–Šȱ ȃŠȱ Œž•ž›Šȱ ˜ȱ ’¤•˜˜ȱ Œ˜–˜ȱ ŒŠ–’—‘˜Ȅȱ
(FT, n. 285) para a construção da fraternidade universal e a amizade so-
cial. Francisco visa “projetar uma cultura que privilegie o diálogo como
forma de encontro” (EG, n. 239), favorecendo consensos em vista de um
–ž—˜ȱ ™Š›Šȱ ˜˜œǰȱ —Šȱ Œ˜—Ÿ’Ÿ¹—Œ’Šȱ ™ŠŒÇ挊ȱ Ž—›Žȱ ™˜Ÿ˜œǰȱ Œž•ž›Šœǰȱ œŠ‹Ž›Žœȱ
e expressões de fé. Essa é uma fundamental contribuição da igreja para o
mundo plural no qual vivemos, na convicção de que o diálogo possibilita
ž–Šȱ ȃ‘Š›–˜—’Šȱ ™•ž›’˜›–ŽȄȱ ǻ ǰȱ —ǯȱ ŘŘŖǼȱ —Šȱ šžŠ•ȱ Šœȱ ’Ž›Ž—³Šœȱ Œ˜—ĚžŽ–ȱ
para o bem comum.

É explícita a ecumenicidade do escutar e do falar no ensino de Francisco,


e o sínodo sobre a sinodalidade assume essa proposta: “No caminho que
percorremos, esse aspecto da sinodalidade (o encontro e o diálogo) emerge
com força especial em relação a outras Igrejas e Comunidades eclesiais, às
quais estamos unidos pelo vínculo de um só Batismo” (Secretaria Geral do
Sínodo, 2023b, n. 24). O diálogo é condição para o entendimento mútuo
sobre a forma de ser cristã/o que melhor condiz com a vontade de Cristo
™Š›ŠȱŠȱœžŠȱ’›Ž“Šǯȱ1ȱŒ˜—’³¨˜ȱ™Š›ŠȱŠœȱ’›Ž“Šœȱœž™Ž›Š›Ž–ȱŽ—œäŽœȱŽȱŒ˜—Ě’˜œȱ

Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025 9


históricos causados pelas divergências doutrinais, que persistem em nosso
tempo. Assim, o diálogo é estruturante da caminhada sinodal ecumênica,
™˜›ȱ Ž•Žȱ Šœȱ ’›Ž“Šœȱ Ÿ¨˜ȱ ›ŽŽę—’—˜ȱ ŒŠ–’—‘˜œǰȱ ŠŒŽ›Š—˜ȱ ˜œȱ ™Šœœ˜œȱ Žȱ ŽœŒ•Š-
recendo a direção a seguir para alcançar a meta da comunhão na fé.

Numa dinâmica espiritual, o diálogo procede como resposta e con-


tribuição ao entendimento do que se escuta, e possibilita a continuidade
do encontro. Sem diálogo, o encontro acaba, aliás, sequer acontece. No
pensamento de Francisco há uma relação intrínseca entre encontro e di-
álogo, o encontro permite o diálogo, e este é continuidade daquele pelas
conclusões e consensos que possibilita. Mas o encontro precede, é a base
e o ponto de partida do diálogo. Estudiosos entendem que o “encon-
tro” é “menos concreto e instrumental, mas mais amplo e envolvente”
(Núñez; Saúco, 2010, p. 14). O “encontro” é “externamente menos formal
e internamente mais comprometido”, mas ambos levam a algo essencial
para que aconteçam, “a fusão de vontades” (Núñez; Saúco, 2010, p. 14).
E assim, encontro e diálogo tornam-se uma “cultura”, um estilo de vida,
que possibilitam convivência, relações harmoniosas, entendimento mútuo
entre pessoas e grupos. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada
Žȱ Šȱ œ˜–Šȱ Žȱ Žœ˜›³˜œȱ ™Š›Šȱ œž™Ž›Š›ȱ Œ˜—Ě’˜œȱ šžŽȱ ›Š–Ž—Š–ȱ Žȱ ’Ÿ’Ž–ǯ

É de se esperar que as igrejas envolvidas no movimento ecumênico


saibam acolher a proposta do sínodo sobre a sinodalidade como uma
privilegiada ocasião para fortalecerem as iniciativas de encontro, escuta e
diálogo. E mais do que estratégias para se obter convergências e consen-
sos, tal deve ser entendido e vivido, primeiramente, como um processo
espiritual, que sustenta a conversão sinodal e ecumênica em cada tradição
eclesial e na relação entre elas. Somente assim pode-se esperar algum pro-
gresso no intento de se chegar à comunhão no entendimento, na vivência
e na proclamação do Evangelho.

‹Ǽȱȱ ꗊ•’ŠŽȱ ˜ȱ ’¤•˜˜

Com o diálogo, busca-se a verdade (DH, n. 3; EG, n. 250) na qual se


assenta a construção de “uma comunidade de pessoas” (GS, n. 23), o “amor
Œ’Ÿ’•ȱ Žȱ ™˜•ǝ’Œ˜Ȅȱ ǻǰȱ —ǯȱ ŘŘŘȬŘŘŝǼǰȱ Šȱ Ž’ęŒŠ³¨˜ȱ Šȱ ’›Ž“Šȱ ǻ ǰȱ —ǯȱ ŘŖȬŘŚǼǯȱ ȱ
tema da “verdade” é aqui proposto na perspectiva da teologia cristã como
sendo Cristo e seu Evangelho, base da comunhão que se busca entre as
igrejas. Para apreender e viver essa verdade, as igrejas precisam estar
abertas à escuta e ação do Espírito Santo que, como o vento, “sopra onde
quer” (Jo 3,8). O encontro na verdade do Espírito é o que faz com que o
diálogo ecumênico possibilite o mútuo reconhecimento e a mútua acolhida
entre as igrejas. Isso conduz a uma devida compreensão das diversas “fa-
–Ç•’Šœȱ’—Ž›Œ˜—Žœœ’˜—Š’œȄȱŽȱŠœȱȃ—ŽŒŽœœ’ŠŽœȱŽœ™ŽŒÇ挊œȄȱǻŽŒ›ŽŠ›’Šȱ ޛЕȱ
do Sínodo, 2022, n. 49) que se manifestam no atual pluralismo eclesial,
capacitando as igrejas para atender a tais necessidades. Dentre elas, está

10 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


a necessidade do consenso na doutrina cristã, da comunhão espiritual,
da colaboração na missão. O Documento Preparatório do sínodo observa os
ŽœŠę˜œȱ —˜ȱ –ž—˜ȱ ›Ž•’’˜œ˜ȱ ŠžŠ•ǰȱ Œ˜–˜ȱ ȃž–ȱ ž—Š–Ž—Š•’œ–˜ȱ ›Ž•’’˜œ˜ȱ
que não respeita a liberdade dos outros” (Secretaria Geral do Sínodo,
2021b, n. 8), e “Não raramente os cristãos adotam as mesmas atitudes,
fomentando inclusive divisões e contraposições” (Idem, n. 8). Dialogar
sobre isso é de fundamental importância para que as igrejas se reconheçam
na verdade da única Igreja de Cristo. Essa é a utopia ecumênica, difícil
ŽȱœŽ›ȱŠę›–ŠŠǰȱ–Šœȱž›Ž—Žȱ™Š›Šȱ˜ȱ—˜œœ˜ȱŽ–™˜ǯȱȱ—ǯȱŘǯřȱ˜ȱVademecum
para o sínodo orienta, entre as atitudes para participar do sínodo, a postura
de “Aproximação através do diálogo ecumênico e inter-religioso: sonhar
juntos e caminhar uns com os outros através de toda a família humana”.

œœ’–ǰȱŠȱŽœ™’›’žŠ•’ŠŽȱœ’—˜Š•ȱŽȱŽŒž–¹—’ŒŠȱ¤ȱŠ˜ȱ’¤•˜˜ȱŠȱꗊ•’ŠŽȱ
de possibilitar que “o dom do mesmo Batismo” seja partilhado, de modo
que a “conversão sinodal interna” à tradição católica romana “tornará crível
o compromisso eclesial no trabalho ecumênico” (Méndez Fernandez, 2021,
p. 268). Desse modo, o diálogo como pilar da espiritualidade sinodal é
fundamental para a superação da divisão cristã, auxiliando as igrejas num
testemunho do Evangelho que seja convincente no mundo atual. O diálogo
não visa mudança das verdades e convicções que as igrejas possuem, mas
a compreensão de cada igreja na sua verdade e em suas convicções. Essa
compreensão é fundamental para progressos no diálogo doutrinal. As Sín-
teses “pedem maior atenção às realidades que geram divisões, como por
exemplo a questão da condivisão da Eucaristia”, bem como “as questões
ecumênicas relativas às estruturas sinodais e aos ministérios na Igreja”
(Secretaria Geral do Sínodo, 2022, n. 48). O consenso teológico entre essas
e outras questões, dão melhor visibilidade à comum dignidade batismal
e fortalecem “a comum missão ao serviço do Evangelho” (Idem, n. 22).
E nesse processo, é possível que mudanças aconteçam, pois “O diálogo
conduz-nos à novidade” (Secretaria Geral do Sínodo, 2021a, n. 2.3). Não
são mudanças para que uma igreja se sinta melhor na doutrina da outra
igreja, e sim que lhe permitem uma percepção mais ampla e mais profunda
da vontade de Cristo para a sua Igreja. A comunhão entre as igrejas não
œŽȱ Š›¤ȱ —Šœȱ ˜ž›’—Šœǰȱ –Šœȱ Ž–ȱ ›’œ˜ǰȱ Œ˜–˜ȱ Šę›–Šȱ ˜ȱ ’¤•˜˜ȱ ŒŠà•’Œ˜-
-luterano: estamos “todos sob o mesmo Cristo” (Comissão Internacional
Católica-Luterana, 1994, p. 693-701). E nesse sentido o espírito sinodal
vivido ecumenicamente ajuda a vencer
Šȱ Ž—Š³¨˜ȱ ˜ȱ Œ˜—Ě’˜ȱ Žȱ Šȱ ’Ÿ’œ¨˜ǯȱ ȃžŽȱ ˜˜œȱ œŽ“Š–ȱ ž–ȱ œàȄȱ ǻ ˜ȱ ŗŝǰŘŗǼǯȱ
Esta é a oração ardente de Jesus ao Pai, pedindo a unidade entre os seus
discípulos. O Espírito Santo leva-nos mais profundamente à comunhão
com Deus e uns com os outros. As sementes da divisão não dão frutos. É
inútil tentar impor as nossas ideias a todo o Corpo através da pressão ou
desacreditar quem sente as coisas de maneira diferente de nós (Secretaria
Geral do Sínodo, 2021a, n. 2.4, item 7).

Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025 11


œœ’–ǰȱ ˜ȱ ’¤•˜˜ȱ ŽŒž–¹—’Œ˜ȱ Ž–ȱ ꗊ•’ŠŽȱ ›ŽŒ˜—Œ’•’Š˜›Šǰȱ ž—’’ŸŠǰȱ
geradora de comunhão na fé e no seu testemunho no mundo atual. Busca
uma igreja que abrigue as diversas concepções e vivências cristãs. Isso faz
da unidade entre as igrejas “uma contribuição para a unidade da família
humana” (EG, n. 245), de modo que o ecumenismo ajuda a “credenciar
a comunidade cristã como sujeito credível e parceiro viável em percursos
de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução
da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social” (Secretaria
Geral do Sínodo, 2021b, n. 2).

1.3 O discernimento feito ecumenicamente


O terceiro pilar da espiritualidade sinodal é o discernimento. A espiri-
tualidade sinodal é um exercício de discernimento das interpelações que
o mundo faz à igreja e à sua missão de anunciar o Evangelho, de modo
que “o sínodo é um caminho de discernimento espiritual, de discernimento
eclesial” (Francisco, 2021). O discernimento acontece no silêncio, na oração,
na contemplação, sob a condução do Espírito. Mas não é um processo
apenas individual, ele é realizado também comunitariamente, na partilha
com companheiros/as do caminho. Tal é o objetivo do processo sinodal:
“proporcionar uma oportunidade para todo o Povo de Deus discernir em
conjunto como progredir no caminho para ser uma Igreja mais sinodal a
longo prazo” (Secretaria Geral do Sínodo, 2021a, n. 1.4). É o que possibilita
™Ž›ŒŽ‹Ž›ȱ Šȱ —ŽŒŽœœ’ŠŽȱ Žȱ –žŠ—³Šœȱ —Šȱ ’›Ž“Šȱ ™Š›Šȱ šžŽȱ Ž•Šȱ œŽ“Šȱ –Š’œȱ ꎕȱ
a Cristo e ao seu Evangelho:
Este discernimento realizado em forma sinodal diz respeito, simultanea-
–Ž—Žǰȱ ¥ȱ •Ž’ž›Šȱ ˜œȱ œ’—Š’œȱ ˜œȱ Ž–™˜œȱ Žȱ Š˜œȱ ŽœŠę˜œȱ ™Š›’Œž•Š›Žœȱ šžŽȱ ˜ȱ
anúncio do Evangelho comporta em um determinado espaço humano, além
Šȱ ’Ž—’ęŒŠ³¨˜ȱ ˜œȱ ŒŠ–’—‘˜œȱ šžŽȱ ŽœŽȱ Š—ø—Œ’˜ȱ ˜ȱ ŸŠ—Ž•‘˜ȱ ˜–Š›¤ȱ Žȱ Šȱ
revisão das práticas pastorais e das estruturas eclesiais que isso exigirá
(Routhier, 2016, p. 238).

ȱŽœŠę˜ȱ·ȱŠ£Ž›ȱ˜ȱ’œŒŽ›—’–Ž—˜ȱŽœ™’›’žŠ•ȱŒ˜–˜ȱž–ȱ™›˜ŒŽœœ˜ȱŽŒž–¹-
nico, possibilitando às diferentes igrejas o entendimento dos caminhos para
a unidade na fé em Cristo. Essa unidade se dá considerando os diversos
contextos socioculturais e religiosos nos quais elas se situam. E “ninguém é
solicitado a deixar o seu próprio contexto, mas sim a entendê-lo e a entrar
nele mais profundamente” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 25). Tais
realidades, e a própria missão de testemunhar o Evangelho exigem das
igrejas o esforço para colocarem-se à disposição do Espírito que as orienta
na compreensão do que Deus diz através dos sinais dos tempos, e aponta
˜ȱ ŒŠ–’—‘˜ȱ Šȱ œŽ›ȱ œŽž’˜ȱ ™Š›Šȱ œŽ›Ž–ȱ ę·’œȱ ¥ȱ Ÿ˜—ŠŽȱ ’Ÿ’—Šȱ ™Š›Šȱ ˜Šȱ Šȱ
humanidade hoje. Orienta o n. 24 do Instrumentum Laboris:
A nível local, emerge com força a importância do que já está sendo feito
em conjunto com membros de outras Igrejas e Comunidades eclesiais, es-

12 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


pecialmente como um testemunho comum em contextos socioculturais que
são hostis até o ponto da perseguição — este é o ecumenismo do martírio
— e perante a emergência ecológica.

Portanto, o discernimento é um processo espiritual que busca iden-


’ęŒŠ›ȱ Žȱ ’œ’—ž’›ȱ Šœȱ –˜³äŽœȱ ˜ȱ œ™Ç›’˜ȱ —Šȱ Ÿ’Šȱ ™Žœœ˜Š•ǰȱ ŽŒ•Žœ’Š•ȱ Žȱ —Šœȱ
realidades humanas que interpelam a fé cristã e exigem uma decisão e
ação. E assumido ecumenicamente, esse discernimento se dá pelo encon-
tro e o diálogo entre as diferentes tradições eclesiais, encontro e diálogo
que se tornam performativos e não simplesmente de comunicação. Claro,
ele possibilita a comunicação mútua entre as igrejas, mas em um nível
de profundidade que vai além da mera informação por ser comunicação
da fé, como intercâmbio de compreensão e vivência do mistério de Deus,
de Cristo, do Evangelho, do sentido do ser igreja; comunicação da vida,
tomada na realidade cotidiana das pessoas e das comunidades, no entre-
laçamento das questões econômicas, políticas e culturais que formam o
tecido das relações sociais; comunicação do empenho missionário, razão de
ser das igrejas (Comissão Teológica Internacional, 2018, n. 6). Desse modo,
“o discernimento não é uma autoanálise presuntuosa, uma introspecção
egoísta, mas uma verdadeira saída de nós mesmos para o mistério de
Deus, que nos ajuda a viver a missão a qual ele nos chamou a bem dos
irmãos” (GE, n. 175). Com o ensino do Papa Francisco, o discernimento
ajuda a “esvaziar-nos, a libertar-nos daquilo que é mundano e também
dos nossos fechamentos e dos nossos modelos pastorais repetitivos, a
interrogar-nos sobre aquilo que Deus nos quer dizer neste tempo e sobre
a direção para onde Ele nos quer conduzir” (Francisco, 2021).

O ecumenismo é um exercício de discernimento coletivo que envolve


as igrejas em diálogo no esforço comum para compreender as causas da
’Ÿ’œ¨˜ȱŽȱ˜œȱŒŠ–’—‘˜œȱŽȱœžŠȱœž™Ž›Š³¨˜ǯȱ•Šœȱ™›ŽŒ’œŠ–ȱ’Ž—’ęŒŠ›ȱŠ—˜ȱ˜ȱ
que precisa ser mudado em suas tradições, quanto o que precisa perma-
necer para alcançarem consensos na fé cristã. É esse discernimento que
possibilita às igrejas em diálogo reconhecer os meios concretos para uma
caminhada conjunta no testemunho do Evangelho, para que o ecumenismo
não seja somente uma bela intenção. É um exercício exigente, que “não
requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é
também um dom que é preciso pedir” (GE, n. 166).

2 O método da conversação espiritual no caminhar


ecumênico

O que tratamos até aqui sustenta a nossa tese de que como o método
da “conversação espiritual”, “diálogo no espírito”, aplicado nos trabalhos
do sínodo sobre a sinodalidade, pode ser utilizado também para as conver-

Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025 13


sações ecumênicas. O Instrumentum Laboris para a primeira fase do sínodo
apresenta esse método como a “maneira particular” de a igreja proceder
para discernir a vontade de Deus. Trata-se de compreender o diálogo como
“uma dinâmica” de familiaridade causada pelo falar e o escutar, tendo o
Espírito como “autêntico protagonista” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b,
n. 33). Isso pode ser entendido ecumenicamente enquanto cria entre as
igrejas “uma atmosfera que torna possível o partilhar das experiências de
vida e o espaço para o discernimento” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b,
n. 34) que possibilita concordâncias e consensos.

A conversão espiritual ou diálogo no Espírito caracteriza-se como um


intercâmbio focado na qualidade da escuta e da fala, uma conversação
séria, profunda e honesta sobre como se sente o Espírito suscitando a
compreensão da fé e sua expressão em diferentes categorias, linguagens,
instituições, projetos de missão. Com disposição para um discernimento
comunitário das moções do Espírito, cada pessoa e cada igreja fala com
humildade da particularidade da sua apreensão da verdade cristã e põe-se
à escuta atenta da fala dos outros: “Esta Igreja não tem medo da variedade
que comporta, mas a valoriza sem forçá-la à uniformidade” (Secretaria Geral
do Sínodo, 2023b, n. 25). A base da conversação espiritual é a convicção
de que o Espírito Santo fala a todas as pessoas/igrejas e que a escuta é
no coração, o que “implica necessariamente uma certa forma de ouvir e
uma certa maneira de falar” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 25).

Como aplicar tal método nas conversações ecumênicas? Entendendo


que as convergências e os consensos entre as igrejas só progridem na
medida em que acontecem no Espírito. Como protagonista do diálogo,
o Espírito é quem possibilita o mútuo entendimento e a mútua acolhida
entre as diferentes tradições eclesiais. O vemos nos três passos do método:
a) primeiro, o ato de falar a partir das próprias convicções identitárias,
das experiências de fé da própria tradição eclesial. Importante é que tal
seja feito de forma orante, permitindo às igrejas entrarem numa atmosfera
espiritual pela meditação silenciosa do que escutam. b) Assim, elas não
entram logo numa discussão ou debate de ideias, mas de oração que ajuda
para o segundo passo do método: cada igreja deixa ressoar em si o que
˜žŸ’žȱ Šȱ ˜ž›Šǰȱ ˜ȱ šžŽȱ Šȱ ™›˜Ÿ˜ŒŠȱ ’—Ž›’˜›–Ž—Žȱ Žȱ Šȱ ŽœŠęŠȱ ȃ’—Ž—Œ’˜—Š•ȱ Žȱ
cuidadosamente” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 38) a atender à
voz do Espírito que fala pela outra igreja. Não busca reagir ou opor-se ao
que ouviu, mas perceber que “os traços interiores que resultam da escuta
[...] são a linguagem com a qual o Espírito Santo faz ressoar sua própria
voz” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 38). c) Desse modo, dá-se o
Ž›ŒŽ’›˜ȱ ™Šœœ˜ȱ ˜ȱ –·˜˜DZȱ ’Ž—’ęŒŠ›ȱ ˜œȱ ™˜—˜œȬŒ‘ŠŸŽȱ šžŽȱ Ž–Ž›Ž–ȱ Žȱ
Œ˜—œ›ž’›ȱ Œ˜—œŽ—œ˜œȱ šžŽȱ ™Ž›–’Ž–ȱ ŒŠŠȱ ’›Ž“Šȱ œŽ—’›ȬœŽȱ ꎕȱ Š˜ȱ ™›˜ŒŽœœ˜ȱ
de diálogo e nele entender-se representada (Secretaria Geral do Sínodo,
2023b, n. 39). É mais que elaboração de um relatório ou elenco de temas
tratados, é um exercício de discernimento atento às diversas vozes, não

14 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


apenas de consenso, mas também de divergências, cientes de que Deus
é quem possibilita, com seu Espírito, progredir no entendimento mútuo.

A conversação espiritual no caminhar ecumênico exige, ainda, das igre-


jas a capacidade de darem dois passos fundamentais: o primeiro passo é
compreenderem-se necessitadas umas das outras para um entendimento
amplo e profundo dos mistérios da fé cristã: “Cada vez que os nossos
olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para
reconhecer a Deus” (EG, n. 272). Concepções acerca da pessoa de Jesus
Cristo, do seu Evangelho, do Reino, da Igreja e seus elementos constitu-
tivos – como sacramentos, ministérios, estruturas – não são apreendidos
Žȱ ˜›–Šȱ ™•Ž—Šȱ Žȱ Žę—’’ŸŠȱ —Šœȱ Ž˜•˜’Šœȱ Žȱ ˜ž›’—Šœȱ Žȱ ž–Šȱ œàȱ ’›Ž“Šǰȱ
por mais que se entenda coerente com a proposta de Jesus presente nos
Evangelhos. Essa proposta é captada por um processo hermenêutico, que
acontece condicionado às condições de cada igreja. E nisso pode haver
limites na interpretação dos Evangelhos. As igrejas precisam da colabora-
ção mútua para a superação desses limites, “na convicção de que há uma
’—Ěž¹—Œ’Šȱ˜ȱœ™Ç›’˜ȱŠ—˜ȱ—˜ȱŒ˜›Š³¨˜ȱŽȱ˜˜œȱ˜œȱŒ›’œ¨˜œȄȱǻŠ›Ç—ǰȱŘŖŘřǼǯȱ
Assim, desenvolve-se um sentimento de admiração, de “maravilhamento”
(Papa Francisco) pelo que Deus revela mediante outras experiências do
Evangelho em outras comunidades de fé. Ensina o Papa Francisco sobre
a importância de “recolher o que o Espírito semeou neles (membros das
outras igrejas) como um dom também para nós” (EG, n. 246). A necessi-
dade mútua é própria de quem se dispõe a caminhar junto, num apren-
dizado ecumênico do que é ser cristão e ser igreja, pois “o delineamento
de um novo clima nas relações ecumênicas [...] impelem a uma renovada
e aprofundada experiência do mistério da Igreja” (Comissão Teológica
Internacional, 2018, n. 38).

O segundo passo é desenvolver uma nova forma de relação com a igreja


de Cristo mistério, seu corpo místico. A igreja de Cristo não se exaure em
nenhuma forma institucional. O Vaticano II ensina que a única Igreja de
Cristo tem manifestações além das instituições católicas romanas (UR, n. 3;
LG, n. 15), pelo que o Espírito as faz instrumentos de salvação para seus
ę·’œǯȱȱŠ™Šȱ ˜¨˜ȱŠž•˜ȱ ȱŽ—œ’—ŠȱšžŽȱ›’œ˜ȱŽ–ȱž–Šȱȃ™›ŽœŽ—³Šȱ˜™Ž›Š—ŽȄȱ
(UUS, n. 11) também nas outras igrejas, de modo que “fora das estrutu-
ras católicas não existe o vazio de Igreja” (UUS, n. 13). Assim, mais do
que entender a igreja pela identidade institucional, deve-se compreender
a pertença a um corpo, a uma comunidade cristã mais ampla que uma
tradição, com quem se faz comunhão na fé pelo Batismo em Cristo: “uma
Igreja autenticamente sinodal não pode deixar de envolver todos aqueles
que partilham o único Batismo” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 24).
Tal consciência é o que possibilita um redimensionamento institucional da
igreja, dando primazia e expressão à pertença a um corpo cristão maior,
com quem se assume a responsabilidade de reconhecer, conviver e agir
juntos na missão. E isso faz com que na catolicidade eclesial seja acolhida

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a pluralidade das formas legítimas de vivência do Evangelho: “O processo
œ’—˜Š•ȱŽ–ȱœ’˜ȱž–Šȱ˜™˜›ž—’ŠŽȱŽȱŒ˜–޳ЛȱŠȱŠ™›Ž—Ž›ȱ˜ȱšžŽȱœ’—’ęŒŠȱ
viver a unidade na diversidade, um ponto fundamental a ser explorado,
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(Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 25). Assim, a espiritualidade sinodal
está mais ligada ao ato de caminhar, do que à sua chegada. E vivendo-a
na caminhada ecumênica, a meta da unidade buscada se desenvolve no
caminho da busca, durante o processo do diálogo, de modo que a comu-
—‘¨˜ȱ —¨˜ȱ ·ȱ ˜ȱ ę–ȱ ˜ȱ ŒŠ–’—‘˜ȱ ŽŒž–¹—’Œ˜ǰȱ –Šœȱ œžŠȱ ›ŽŠ•’£Š³¨˜ǯ

3 Um processo inacabado

Como a espiritualidade sinodal diz respeito ao processo, ao modo


de ser igreja durante a caminhada, também a comunhão entre as igrejas
vai se construindo a partir das posturas, das atitudes, da forma que elas
tomam posição, fazem opções, constroem projetos e os realizam. O cami-
nho sinodal e ecumênico pode ser interrompido se no ato de caminhar
não houver cuidado para já aí experimentar a unidade que se busca. Tal
como o caminho espiritual é sempre inacabado, assim é também com a
sinodalidade e o ecumenismo. Trata-se de uma “saudável inquietação da
incompletude [...] não é um problema a ser resolvido, mas um dom a ser
cultivado” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 29). Sempre há como
Œ›ŽœŒŽ›ȱ–Š’œǰȱŒ˜–˜ȱšžŠ•’ęŒŠ›ȱŠȱž—’ŠŽȱŒ›’œ¨ǯȱ—¨˜ǰȱœ’—˜Š•’ŠŽȱŽȱŽŒž-
–Ž—’Œ’ŠŽȱŒ˜—ꐞ›Š–ȱ˜ȱ–˜˜ȱŽȱœŽ›ȱ’›Ž“Šȱ—¨˜ȱŠ™Ž—Šœȱ—˜ȱ™›ŽœŽ—Žǰȱ–Šœȱ
também no futuro. O ecumenismo é uma utopia que deve ser alimentada
constantemente, na esperança de sua realização no tempo kairológico de
Deus, que não coincide com o chronos humano.
Isso mostra que sinodalidade e ecumenicidade têm um quê de esponta-
neidade e gratuidade. São dons para a igreja, que só podem ser acolhidos no
processo de escuta, de fala, de discernimento, decisão e vivência. Ninguém
exerce o controle do processo sinodal e ecumênico como dom. Ele acontece
no kairós divino e exige disposição das igrejas para educarem-se na paciência
de quem sabe que os tempos de Deus nunca são os nossos, e na generosi-
dade de quem se abandona à lógica da doação até dar tudo (GE, n. 174).
Portanto, como caminho espiritual, sinodalidade e ecumenismo não
podem ser administrados de modo meramente racional, técnico, pragmá-
tico, e muito menos controlado ou dominado. Contudo, isso não tira das
’›Ž“ŠœȱŠȱ›Žœ™˜—œŠ‹’•’ŠŽȱŽȱœŽ›Ž–ȱ–Ž’˜œȱŽęŒŠ£Žœȱ™Š›ŠȱŠȱг¨˜ȱ˜ȱœ™Ç›’˜ǯȱ
E como tal, precisam desenvolver instrumentos e processos coerentes com
o dom da sinodalidade e da ecumenicidade. Tais são, por exemplo, os
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organizações ecumênicas em todo o mundo cristão. Assim, o movimento

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ecumênico estimula a recepção responsável do dom da unidade cristã.
Mas sempre ciente que tal dom depende mais da graça que dos esforços
que as igrejas podem, e precisam, fazer no processo ecumênico.
É nesse sentido que a sinodalidade e ecumenicidade são processos sem-
pre inacabados, por pertencerem ao mistério da Igreja, à sua essência como
ŒŠ–’—‘˜ȱŽȱЙޛŽ’³˜Š–Ž—˜ȱ—ŠȱœŠ—’ŠŽȱšžŽȱŽœŽ–ž—‘Šȱ˜ȱŸŠ—Ž•‘˜ȱꍎ-
dignamente. E nessa dinâmica supera-se a tentação egoísta de querer ditar o
jeito de caminhar. Isso leva à divisão, às polarizações ideológicas, à violência
contra as diferenças. A experiência ecumênica da caminhada aprofunda a
experiência de Cristo que caminha com os discípulos. E assim supera-se a
vontade de homogeneizar, uniformizar, criar um igualitarismo, o qual é um
erro e empobrecimento da causa ecumênica. O Evangelho comum possibilita
a valorização da outra igreja na sua diferença, no seu jeito de viver a fé em
Cristo. E nisso, uma igreja não é melhor ou pior que a outra, mas diferente,
vive na sua tradição de fé o nível da maturidade que conseguiu desenvolver
em sua história. Mas aprofunda a própria história, reconhecendo riquezas e
carências na compreensão da verdade e na vivência da caridade. Cada igreja
que percorre o caminho ecumênico “confronta, honesta e destemidamente,
o chamado para uma compreensão mais profunda da relação entre o amor
e a verdade” (Secretaria Geral do Sínodo, 2023b, n. 27). A espiritualidade
sinodal vivida ecumenicamente possibilita, então, uma abertura progressiva à
pluralidade, integrando as diferenças que possibilitam um mútuo enriqueci-
mento na caminhada de fé. Vive-se, assim, a verdadeira fraternidade eclesial
sustentada na caridade e na solidariedade evangélicas que testemunham a
obediência à vontade de Cristo: “sejam um” (Jo 17,21).

Conclusão

No processo sinodal, não há espectadores, mas protagonistas, todos


os membros da igreja participam da caminhada, tomando parte ativa em
cada passo dado. Assim é também com o ecumenismo, as igrejas precisam
desenvolver juntas os esforços pela unidade, no espírito de companhei-
rismo e corresponsabilidade em todos os passos do caminhar ecumênico.
A espiritualidade sinodal contribui de um modo privilegiado para isso,
despertando nas igrejas a disponibilidade para o encontro, a escuta, o
discernimento comum. O método da conversação/diálogo espiritual cria
as condições necessárias para que no interior de uma igreja exista a dis-
ponibilidade para escutar o que o Espírito diz através da outra igreja,
para falar de modo a ressoar a voz do Espírito, para sentir-se segura no
caminho da unidade na fé cristã. Assim, uma igreja pode sentir-se acolhida
e valorizada por outra igreja, ambas discernindo os elementos de divisão,
de convergências e de consensos na fé. E então a dimensão ecumênica do
método sinodal, assumido pelas igrejas, ajuda uma igreja a nunca querer

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挊›ȱ œŽ–ȱ Šȱ ˜ž›Šȱ ’›Ž“Šǰȱ —ž—ŒŠȱ šžŽ›Ž›ȱ ŒŠ–’—‘Š›ȱ ’œ˜•ŠŠ–Ž—Žȱ —˜ȱ ’œŒŽ›-
nimento e na vivência do Evangelho (Neri, 2022).

ŽœœŽȱ–˜˜ǰȱŠȱŒ˜—ŸŽ›œŠ³¨˜ȱŽœ™’›’žŠ•ȱœžœŽ—ŠȱŠȱŒ˜—ꊗ³Šȱ–øžŠȱŽ—›Žȱ
as igrejas parceiras do movimento ecumênico, superando o pessimismo e o
medo de caminhar juntas, a tentação de não acreditar que outras tradições
cristãs e eclesiais têm o que contribuir para a compreensão e vivência do
Evangelho. Esse processo espiritual requer a coragem de decidir a integrar-
-se nos caminhos do diálogo, de dar passos que superem as resistências,
os preconceitos e os medos que bloqueiam o caminhar ecumênico. Não
adianta uma igreja fechar-se em trincheiras da ortodoxia, da disciplina, da
obediência cega, da fé piegas sem inteligência. A espiritualidade sinodal
e ecumênica estimula a parresia da fé que fortalece o otimismo, lança a
igreja “em saída” para o encontro com outras igrejas e para testemunho
comum da fé em Cristo no mundo atual.

Assim, o movimento ecumênico pode ser favorecido com o processo sino-


dal que ora acontece na tradição católica romana. O espírito sinodal confere
vitalidade à aspiração pela unidade cristã como um ato de obediência ao
Espírito que quer responder aos apelos, às vicissitudes, às necessidades da
Igreja de Cristo e da sua missão no mundo atual. Nesse ato de obediência,
as diferentes tradições eclesiais contribuem juntas para a credibilidade do
Evangelho em nosso tempo, pois a unidade cristã é “para que o mundo creia”
(Jo 17,23). E assim, o método da conversação/diálogo espiritual torna-se um
fundamental instrumento para as igrejas discernirem os caminhos pelos quais
Deus se manifesta à toda a humanidade. Isso já é um fato extraordinário,
mas mais surpreendente é perceber que Deus convida as igrejas a fazerem,
“ž—Šœǰȱ™Š›ŽȱŽœœŠȱ‘’œà›’ŠȱœŠ•ŸÇ挊ǰȱŒ˜–˜ȱȃœ’—Š’œȄȱŽȱȃ’—œ›ž–Ž—˜œȄȱ˜ȱœŽžȱ
Reino de “vida em abundância” (Jo 10,10) no mundo atual.

Lista de abreviaturas
ȱ = Apostolicam Actuositatem
 ȱ = Ad Gentes
CD = Christus Dominus
DH = Dignitatis Humanae
EG = Evangelii Gaudium
FT = ›ŠŽ••’ȱ žĴ’
GS = Gaudium et Spes
LSȱ ƽȱ ŠžŠ˜ȱ ’Ȃ
NA = Nostra Aetate
PO = Presbyterorum Ordinis
UR = Unitatis Redintegratio

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20 Perspect. Teol., Belo Horizonte, v. 57, n. 1, p. 1-21, e05665, 2025


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Artigo submetido em 08.06.24 e aprovado em 26.03.25.

•’Šœȱ˜•ě é doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Professor


do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUCPR). Orcid.org/0000-0003-2479-2340 Ȭ–Š’•DZȱ ™ǯŽ•’Šœ ˜•ěȓŠ–’•ǯŒ˜–
—Ž›Ž³˜DZȱ Rua Alferes Poli, 3390 – Parolin
80220-051 Curitiba – PR

Editores: Márcia Eloi Rodrigues e Franklin Alves Pereira

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