ABUTRE
Cisnes de New York #2
Mia Salvani
Copyright © 2025 Mia Salvani
Capa: Mia Salvani
Diagramação: Gabriela Pontes
Revisão: Carina Simas
Os personagens e acontecimentos narrados nesse livro são inteiramente fictícios. Qualquer
semelhança com a realidade é mera coincidência e não intencional por parte da autora. Todos os
direitos dessa edição são reservados à autora. Fica terminantemente proibida a reprodução total ou
parcial através de qualquer meios.
Oi! Bem vinda/o/e ao universo dos Cisnes de New York. Antes de
mais nada, gostaria de ressaltar que ABUTRE é um dark romance para
maiores de dezoito anos. Os personagens representados aqui não tem
qualquer compromisso com a moralidade ou a ética. Sim, eles são
problemáticos e em alguns momentos você vai se perguntar de qual CAPS
eles fugiram, mas tenho certeza que também vai se pegar suspirando por
eles em dado ponto da leitura. Caso se sinta desconfortável com algum dos
tópicos abaixo, recomendo que abandone a história. Sua saúde mental
importa e deve ser sua prioridade.
OBSERVAÇÃO IMPORTANTE 1: ABUTRE é o segundo livro da
série os Cisnes de New York. Cada livro conta a história de um casal, que se
entrelaça em uma trama maior que engloba todos eles. Você pode ler os
livros de forma independente, mas se você é do tipo que gosta de saber a
fofoca sempre completa, recomendo a leitura de ALBATROZ (também
disponível em e-book e no kindle unlimited) primeiro! Outra opção é ir até
a sessão “Anteriormente em…” desse e-book onde eu te dou um resumão
(muito breve e com spoilers) de tudo que aconteceu antes. Obviamente, o
resumo não substitui a leitura do primeiro livro.
LISTA DE GATILHOS:
● Alcoolismo
● Assédio
● Etarismo
● Fetiches pouco convencionais (consentidos)
● Gordofobia
● Misoginia
● Revenge porn
● Stalking
● Tortura
● Transtornos alimentares
● Violência contra criança (não sexual)
● Violência explícita
OBSERVAÇÃO IMPORTANTE 2: Nesse livro temos uma
personagem com mutismo seletivo (transtorno de ansiedade que impede
uma pessoa de falar em determinadas situações, levando o paciente a ficar
semanas, meses ou até anos em silêncio) e ela se comunica através de
libras. O livro se passa em New York, então, tecnicamente, o certo seria
dizer que ela se comunica através da ASL (American Sign Language) mas,
pensando em usar termos familiares aos leitores aqui no Brasil, optei por
manter libras e não ASL. Os diálogos dessa personagem estão sempre
marcados em itálico, diferente do restante dos personagens.
Parece que a realeza da costa leste acaba de ganhar uma visita
inesperada: flagrada no aeroporto JFK, Olívia Valmont, filha do prefeito e
ex-exilada voluntária, está oficialmente de volta à selva de pedra — depois
de um ano sumida em Londres, com apenas malas de grife e traumas mal
resolvidos na bagagem.
Mas vamos ao que interessa…
Todo mundo lembra da briga épica entre a Liv e o (ex?) melhor amigo
Dex Belrose no velório do irmão dela, Caspian Valmont. Desde então,
Olívia evaporou da cidade... Mas agora que ela está de volta, a pergunta que
não quer calar é: eles se resolveram ou estamos prestes a ver o início de
uma nova guerra?
E falando em guerra, por trás das luzes brilhantes da cidade, um
grupo secreto de garotos muito bonitos com passados muito feios está
fazendo justiça com as próprias mãos. Eles se autointitulam Os Juízes e têm
uma lista de alvos nada aleatória: estupradores, pedófilos, agressores e
assediadores. Nomes fortes pra uma missão sangrenta.
E quem são eles? Ah, você conhece: Dex Belrose, Chuck Ashford,
Declan St. Clair, Killian Belrose e Reid Montgomery. Lindos, ricos,
perigosos... e agora, assassinos justiceiros.
Mas não para por aí. Eles também fazem parte do seleto (e mortal)
grupo conhecido como Os Cisnes de New York — junto com Olívia
Valmont e Melissa Jang. Um grupinho de elite com um segredo sujo
compartilhado entre taças de champanhe e corpos enterrados: todos eles já
mataram alguém. Ops.
E como todo segredo mal guardado, esse também ganhou um novo
espectador. Alguém que assina como PHANTASMA (sim, aquele serial
killer que aterrorizou os Estados Unidos nos anos noventa e, por acaso, é o
pai biológico da Olívia). Ele anda mandando cadáveres personalizados pros
nossos queridinhos, com QR codes e tudo. Cada código carrega um
segredinho podre, e pelo visto, tá todo mundo prestes a cair do salto.
Boatos quentíssimos indicam que Olívia foi atacada numa floresta nos
arredores da faculdade Mayfair. E o plot twist? Dizem que ela tentou matar
o Dex. Mas será mesmo? Ou será que ela só descobriu que o cara por quem
ela sempre foi apaixonada foi o mesmo que assassinou o irmão dela?
E não pense que os outros estão ilesos. Chuck Ashford participou de
uma corrida clandestina, sofreu um acidente e — respira fundo — perdeu
parte da memória. Fontes sugerem que ele fez um acordo com o Phantasma
pra voltar às pistas... mas que tipo de pacto foi esse? Um que se paga com
sangue?
Enquanto isso, Dex e Olívia foram vistos juntinhos na Bottega Veneta
— aparentemente reconciliados. Será que uma tentativa de assassinato foi o
suficiente pra reacender a química? Ou é só mais uma performance pra
manter as aparências?
Uma coisa é certa: o Phantasma ainda está solto, os Cisnes estão cada
vez mais acuados, e nós? Bom… Nós estamos com a pipoca pronta e uma
enorme taça de vinho do lado. Então, ajuste bem o seu livro e aproveite o
show.
Porque se tem uma coisa que eu amo mais do que segredos, é ver
cada um deles sendo expostos.
Uma vez o Harry Styles disse:
Você pode dar uma festa cheia de todo mundo
que você conhece e não convidar sua família,
porque eles nunca te mostraram amor.
Esse livro é pra você.
Não os convide.
Nos desertos e nas margens, o abutre sempre espera. Ele não
pressiona o tempo, não interrompe o processo. Apenas observa. Um
sentinela do fim, pairando acima do que já está cedendo. Ele não mata —
ele chega quando tudo já morreu por dentro. Há algo de cruel na sua
paciência, algo de solene no modo como ele entende que o colapso é
inevitável. Ao contrário dos outros, ele não tem pressa em possuir. Ele sabe
que tudo o que vive, apodrece. Que todo desejo tem um ponto de exaustão.
O abutre não é o fim. É o reflexo dele. A confirmação muda de que
algo se partiu sem volta. Não pertence ao céu, mas também não toca a terra.
Flutua entre os dois, suspenso como uma sentença adiada. Um símbolo
daquilo que continua existindo mesmo depois de ser esquecido. E é isso que
o torna insuportável: sua presença silenciosa, sua fome contida, sua
constância.
Porque o abutre não causa a queda.
Ele a testemunha.
1 CHARLOTTE SPARKS
Eu vejo quando o relógio passa de 23:59 para às 00:00, o que
significa que é oficialmente o meu aniversário. Consigo sentir meu celular
vibrando no bolso da jaqueta, mensagens de pessoas com quem não me
importo tanto assim entulhando a memória do aparelho. Penso em
responder algumas, mas não tenho certeza que conseguiria no meu estado.
Acho que foram só doze — meu número da sorte — shots de alguma coisa
que Reid comprou pra mim, mas minhas mãos tremulam suavemente, meu
coração bate acelerado e eu sinto dor no canto dos lábios, porque estou
rindo de tudo há tempo demais. Talvez exista alguma beleza trágica em
fazer de conta que a vida é uma piada. No fundo, aniversários são isso, não
são? Um aviso soturno de que o tempo está te levando embora.
Balanço a cabeça em negativa, afastando o pensamento. Sloane, da
equipe das líderes de torcida, me entrega mais um copo de shot, um líquido
vermelho que eu engulo sem pensar duas vezes brilhando contra o vidro
transparente. Estamos em uma daquelas boates temáticas de rock que só
homens de meia idade frequentam e tenho certeza que o nosso grupo é o
único com pessoas que nasceram depois dos anos 2000. Numb, do Linkin
Park, está tocando no máximo volume e eu estou gritando cada estrofe da
canção, mesmo odiando essa música.
— Preciso de um cigarro — murmuro, me sentando no sofá vermelho
em formato de guitarra ao lado de Reid.
O quarterback me encara com reprovação, como de costume, então
tira um maço de dentro da jaqueta jeans e me entrega. Reid não fuma, mas
sempre tem cigarro o que, na minha opinião, é uma metáfora por si só. Eu
dou um beijo na sua bochecha, bagunçando seu cabelo castanho antes de
me levantar e passar por uma dúzia de corpos bêbados até encontrar a saída.
Do lado de fora, vejo uma New York fria, mas longe de estar adormecida.
Levo um dos cigarros até a boca e faço uma careta ao perceber que
não trouxe um isqueiro comigo. Faço uma careta, me virando na direção do
segurança da boate.
— Você tem fogo?
O homem nega com a cabeça.
Solto um suspiro, mas não volto pra dentro. Fico parada, sentindo a
brisa da noite envolver meu corpo, o cigarro na ponta da boca como uma
tentação prestes a ser consumida. Não demora muito tempo até que eu note
a sua presença.
O meu eco.
Como sempre, ele está ali, dentro de um moletom escuro grande
demais e um capuz que cobre sua cabeça e seu rosto. Às vezes acho que
vejo a curva arredondada de uma máscara por baixo do tecido.
O contorno de um focinho deformado.
Os olhos mortos de vidro.
Um urso.
Um pesadelo.
Um delírio.
— Veio me dar feliz aniversário? — eu zombo, mas ele está do outro
lado da rua e não sei se consegue me ouvir. — É uma festa aberta ao
público, pode entrar se quiser.
Qualquer garota normal já teria chamado a polícia.
Há quanto tempo ele me persegue? Talvez seis meses, talvez um ano,
talvez o bastante pra virar parte do cenário. O bastante pra que a ausência
dele soe mais errada que a presença. Não me lembro quando foi a primeira
vez que percebi que não estava sozinha voltando pra casa depois de um
treino das líderes de torcida. Foi o farol quebrado de um carro estacionado
no mesmo canto, todas as noites, que me fez notar? Ou foi o som abafado
de passos que desaceleraram sempre que eu parava?
Pode ter sido a sensação daqueles olhos queimando entre as janelas da
biblioteca, quando o campus já estava vazio demais. Ou a luz do poste
piscando do lado de fora da sala onde estudei até tarde, avisando que ele
estava ali.
A princípio, achei que fosse paranoia.
Depois, achei que fosse sorte. Alguém cuidando de mim, me
guardando.
Hoje, acho que ele é uma oração imprópria que eu aprendi a rezar
sem querer.
Ele nunca tocou em mim.
Nunca falou comigo.
Nunca cruzou a linha.
Mas essa é a parte mais perturbadora — o fato de ele nunca precisar.
Basta estar ali.
Atravessando a rua quando eu atravesso.
Parando quando eu paro.
Respirando do outro lado da calçada como se o ar fosse nosso e o
silêncio também.
Já o vi atrás de vitrines.
Refletido em espelhos.
No reflexo escuro do vidro do prédio da agência do meu pai, quando
pensei que estava sozinha. Às vezes, acho que ele gosta de ser percebido,
como um quadro torto que você não consegue desver. Que parte do prazer
dele está em saber que eu sei.
Já pensei em gritar com ele.
Em partir pra um confronto, perguntar que porra ele quer, mas nunca
fiz isso.
Talvez porque eu tenha medo da resposta.
Ou, pior ainda, de gostar dela.
2 DECLAN ST. CLAIR
Presente
— Como foi a sua última semana?
— Só o de sempre — eu me abaixo na cadeira, inclinando o corpo
para ver a miniatura do doutor Legrand mais de perto.
É um daqueles bonequinhos cabeçudos que as pessoas fazem de
ídolos de futebol e estrelas pop, o que me faz pensar que o homem na
minha frente é mais narcisista do que os próprios pacientes. Dou um
peteleco na cabeça do boneco e respiro fundo antes de continuar.
— Um dos meus amigos de infância se envolveu em um acidente de
carro e quase morreu, tem um babaca me chantageando, transei com uma
garota na quinta e ela ficou muito irritada quando não lembrei o nome dela
no outro dia. Ah, e estou morando com o Killian, temporariamente, porque
toda a rede elétrica do meu apartamento explodiu.
O Doutor Legrand balança a cabeça em afirmativa, os cabelos meio
grisalhos e meio loiros balançando junto com o movimento. Tem uma foto
sua com o seu cachorro, um golden, eu acho, na parede atrás da sua cabeça.
Odeio cachorros.
Odeio profundamente.
Gostaria que todos eles sumissem da terra.
Meu terapeuta ajeita o óculos no rosto, digita alguma coisa no seu
notebook e me encara, tentando ler meus pensamentos. Ainda bem que ele
não pode, porque estou pensando como seria se eu avançasse contra a mesa
e quebrasse o seu nariz.
Não sou um cara violento.
Ok, isso depende.
Em alguns dias, posso ser um cara violento.
As consultas com o Doutor Legrand são uma das coisas que me
fazem querer ser. Não acredito que exista cura pra uma mente tão fodida
quanto a minha, então é óbvio que fazer terapia não foi uma escolha que
partiu de mim. Foi um acordo com o diabo: Meu pai concordou em
frequentar as sessões dos Alcoólicos Anônimos desde que eu me enfiasse
nesse consultório pelo menos uma vez na semana. O velho estava perto de
ter a sua segunda overdose e as ações da Clairé d’Or despencariam se ele
aparecesse bêbado em mais uma reunião do grupo majoritário, o que
explica porque estou aqui, com a bunda ficando quadrada. Eu poderia
mentir pra ele e dizer que estou vindo sem aparecer em nenhuma sessão,
mas o que é justo é justo.
— E como vai aquele nosso probleminha? — ele pergunta,
balançando a caneta de um lado para o outro, casual.
Ele sempre chama de probleminha, fazendo parecer algo simples,
algo que todas as pessoas do mundo precisam lidar uma vez ou outra. Por
cinco segundos, eu quase acredito que não é nada, que eu sou tão normal
quanto qualquer outro cara da minha idade. Exceto pelo fato de que eu e
meus melhores amigos matamos pessoas no nosso tempo livre.
Tudo bem, porque o Doutor Legrand não sabe disso, nem nunca vai
saber.
Mas ele sabe de outro segredinho meu…
— Tudo certo — eu digo, tentando soar convincente.
— Não está mais atrás da garota?
Estou.
— Não.
O médico me encara, descrente. Abro um sorriso metódico. Se eu
fosse sincero, diria que fazem exatos treze dias desde a última vez que eu
fui atrás de Charlotte Sparks.
Treze dias, quinze horas e algo entre cinco e dez minutos.
Também diria que ela está dando pro meu melhor amigo.
Que o cheiro dela ficou na camiseta dele na última vez que voltamos
de uma festa.
Que, às vezes, ela deixa uma das suas calcinhas minúsculas
pendurada na maçaneta do chuveiro fingindo que isso não é uma
provocação.
Eu não preciso mais sair de casa pra vê-la.
Ela está sempre ali.
Rindo na cozinha, roubando o meu café, caminhando pelo
apartamento com as pernas nuas e o coração bem distante de mim. É uma
dádiva e uma condenação ao mesmo tempo.
— Declan — ele murmura, afastando todos os meus pensamentos —
Sei que esse tipo de obsessão não some da noite pro dia.
Observo a parede atrás dele. Uma rachadura fina atravessa a tinta
branca como uma cicatriz antiga.
Obsessão.
É assim que ele chama.
Doutor Legrand fala de uma forma que faz parecer que eu escolhi
isso, mas não.
Ela é arrogante, linda, intocável.
E eu cresci cercado de mulheres como ela. Mulheres feitas de
espelho: refletem o que você quer ver e depois te culpam pelos estilhaços.
Eu não chamo de obsessão, porque obsessão envolve o desejo de ter.
Eu não quero tê-la.
Eu quero quebrá-la.
3 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Killian Belrose me fode como se eu fosse feita unicamente pra isso.
Minhas costas estão pressionadas contra os lençóis escuros do seu
quarto — os mesmos lençóis onde já deitaram atrizes, modelos e garotas da
alta sociedade de New York, todas muito mais ingênuas do que eu. Eu não
sou idiota. Sei exatamente o que estou fazendo aqui. Conheço os roteiros
que Killian Belrose gosta de repetir. A forma como ele morde a parte
interna da minha coxa antes de me chupar, o beijo que ele dá no canto da
minha boca, a forma como ele sempre usa aquela camiseta velha escrito
“Eu estou sóbrio demais pra essa merda” depois do sexo, mesmo tendo um
milhão de roupas de marca no armário.
Essas paredes já viram mais performances do que qualquer palco da
Broadway. Mentiras bem colocadas, promessas que evaporam junto com o
suor. Uma dezena de garotas deitadas exatamente como eu estou agora —
talvez mais magras, talvez mais bonitas, mas todas, de alguma forma,
descartáveis.
Mesmo assim, eu fico.
Eu arranho as suas costas e abro mais as pernas, fantasiando com
alguma versão dessa história onde Killian me quer por mais que a minha
pele, mais do que esse corpo que ele conhece de olhos fechados. Eu nem sei
quando essa coisa entre a gente começou, mas eu poderia ir embora. Vestir
meu orgulho, me valorizar, como as coachs feministas do instagram diriam,
mas não faço isso. Deixo que ele me toque, que me beije daquele jeito
faminto. Por mais que minha cabeça grite não é amor, meu corpo sussurra
mas é quase.
E às vezes, quase é suficiente.
Eu me esfrego contra ele com mais vontade, sentindo seu pau entrar e
sair de mim, seus piercings marcando minha boceta a cada nova estocada.
Um sorriso de aprovação se forma nos seus lábios. Ele gosta de me ver
obediente, mas gosta quando eu perco a pose. Gosta quando eu me
transformo na coisa mais suja que ele já amou por trinta minutos e esqueceu
logo depois.
E eu deixo.
Deixo porque sou boa nisso.
Porque entendo a linguagem.
Porque prefiro ser usada do que ignorada.
Killian se inclina sobre mim. Sinto o calor da sua pele, seu pau duro
dentro de mim, o cheiro de cigarro e perfume impregnado no seu pescoço.
Ele diz meu nome, Char, como se não fosse um nome, mas uma gíria que
ele mesmo inventou.
Sinto os músculos dele se contraindo contra os meus, o som do nosso
sexo ecoando entre as paredes do quarto, as janelas fechadas e o lençol
suado sob o meu corpo. Killian segura meus pulsos acima da cabeça com
uma mão e com a outra aperta minha cintura, me puxando contra ele —
uma extensão do desejo dele, mas nunca do afeto.
Meu corpo treme, a visão embaça, minha boca abre num grito que
não sai. Ele goza logo depois, dentro de mim. Eu sinto o calor dele escorrer
e sei que ele vai sair da cama em menos de um minuto. A aposta é sempre a
mesma: o tempo entre o orgasmo e o abandono.
Ele rola pro lado e respira fundo. Eu fico ali, ainda latejando, ainda
esperando — o quê, exatamente, eu não sei. Talvez que ele diga alguma
coisa, que me olhe, que… Bom, Killian Belrose não é um homem de pós-
foda.
Ele se levanta, atravessa o quarto devagar, pega a camiseta do encosto
da cadeira e a veste como se isso fosse suficiente pra apagar tudo.
E talvez seja.
— Quer um cigarro? — ele pergunta, já com um entre os dedos,
acendendo com um isqueiro de prata.
— Não.
— Hm. — Ele traga, se encosta na parede e não me olha. — Você
pode dormir aqui se quiser.
Não é um convite.
É só uma concessão.
Uma gentileza que ele faria pra qualquer uma porque são onze da
noite e está chovendo pra caralho lá fora.
— Eu vou tomar um café.
— Agora?
Movo a cabeça em afirmativa. Por algum motivo, a cafeína nunca fez
efeito no meu organismo. Quase considero um super poder: Posso tomar
uma garrafa inteira de café de madrugada e ainda dormir dez minutos
depois.
Killian não faz mais perguntas. Solta o ar pela boca em silêncio, e por
um instante, tudo nele parece feito pra ser desejado. Os cachos loiros caem
desordenadamente pelo rosto, bagunçados do jeito certo, fazendo parecer
que ele saiu de um editorial e caiu direto na cama. Alguns fios grudam na
testa úmida, outros se curvam contra a curva da bochecha, dourados,
rebeldes, perfeitos sem esforço. A pele dele brilha sob o abajur aceso. Os
olhos castanhos claros demais pra alguém tão escuro por dentro, cor de
whisky, ficam baixos, semicerrados, como se o mundo o entediasse — ou
como se eu não fosse mais interessante agora que ele já me teve.
Como de costume, finjo não perceber os seus dedos machucados ou
os cortes que contornam seus braços musculosos. Ele tem uma tatuagem na
costela que sempre chama minha atenção: O nome JUNSEO, em letras
garrafais. Fica bem perto da tatuagem que ele fez pra sua irmã, Ivy. Uma
vez eu perguntei o que era e Killian disse ser personagem de um livro.
Obviamente isso é mentira, porque ele não é o tipo de cara que lê nada além
de livros técnicos de medicina, mas eu não perderia meu tempo
perguntando de novo.
Ele se inclina, músculos tensos, o cigarro pendendo dos lábios
entreabertos.
E mesmo assim, mesmo ali, exausto e distante, Killian Belrose parece
uma pintura chique que você pendura na parede só pra lembrar que beleza
não significa nada.
Eu pego a primeira camiseta limpa que encontro e saio do quarto.
O apartamento está quieto, exceto pelo barulho preguiçoso da chuva
batendo contra as janelas. As luzes estão apagadas, menos uma lâmpada
amarelada sobre a bancada da cozinha e Declan St. Clair, o que é um
costume, está exatamente onde eu não queria que ele estivesse.
Os St. Clair e os Sparks têm uma rixa de anos — dessas que não se
diz em voz alta, mas que se percebe nos olhares atravessados durante
jantares beneficentes, nas mãos que não se apertam nas primeiras filas dos
desfiles, nas portas que se fecham discretamente nos bastidores da New
York Fashion Week. Essa guerra fria começou no momento em que meu pai
decidiu lançar Lana St. Clair como a nova aposta para as passarelas da
temporada de moda de Milão, mais de vinte anos atrás. Ela tinha acabado
de completar dezoito, um rosto indecente de tão bonito e um corpo que
fazia diretores criativos suarem no colarinho. Era a mistura perfeita entre a
beleza fatal e o mistério gélido — uma tempestade vestida de alta-costura.
Meu pai a descobriu num evento da Calvin Klein, uma penetra
perdida entre atrizes e herdeiras, comendo morango com chocolate. Ele
sempre teve esse dom — de ver o brilho antes da lapidação, de apostar em
caos com formato de mulher.
E Lana era isso.
Caos em forma de mulher.
Ele disse que ela seria a nova era da moda americana.
E, por um tempo, ela foi.
— Oi, monstrinho — digo, me aproximando da bancada pra colocar
uma cápsula de expresso na máquina de café.
Ele não responde de imediato. Só ergue os olhos, daquele jeito lento e
irritante, fazendo cada movimento parecer ensaiado. Declan St. Clair tem
esse olhar que te despedaça com calma. Órbitas negras, opacas, cinzentas,
quase sem luz. O tipo de olhar que não reage — analisa.
Ele está usando um moletom do Pickle Rick, o que o faz parecer um
pouco mais inofensivo do que eu desconfio que seja. O tecido levanta
ligeiramente quando Declan ergue um dos braços pra pegar um copo numa
prateleira mais alta e eu consigo ver o desenho do seu abdômen malhado. A
cicatriz no rosto corta a pele logo abaixo do olho esquerdo, grossa,
parecendo feita por um canivete cego. É por causa dela que eu o chamo de
monstrinho desde a época do colégio, embora a marca não seja suficiente
para deixá-lo menos atraente, muito pelo contrário.
Declan dá um meio sorriso na minha direção. Algo dentro dele
impede a felicidade de chegar até os olhos. Seus sorrisos nunca são inteiros,
pelo menos não pra mim.
— Boa noite, princesinha — ele diz, enfim, com a voz baixa e
desinteressada, o apelido é só uma vírgula entre um pensamento e outro. —
Você tem passado muito tempo aqui.
— Não gosta de me ver?
Declan dá de ombros.
— Eu tenho te visto mais do que gostaria, sim.
Reviro os olhos, fingindo ofensa.
— Tantos anos de amizade e você ainda não se acostumou comigo?
— E desde quando nós somos amigos?
Acho graça da sua frieza. É quase reconfortante, de um jeito estranho.
Como se, pelo menos com ele, eu soubesse exatamente onde estou pisando.
Mesmo que o chão nunca seja firme. É minha vez de erguer o corpo para
pegar uma das canecas na prateleira mais alta, e eu escolho a maior delas,
uma com o desenho do gato de Cheshire gravado na porcelana.
— Essa é minha — Declan resmunga, como uma criança contrariada.
— Ótimo, porque você vai me emprestar — respondo, dando um
sorrisinho antipático.
Declan suspira, colocando as mãos dentro do bolso do moletom e
erguendo ligeiramente os ombros, como quem diz dane-se. Coloco a xícara
na máquina e observo o café escorrer para fora, o cheiro agradável tomando
conta da cozinha.
— Não vejo a hora dele te chutar — Declan comenta.
— Você parece uma putinha ciumenta falando desse jeito.
— Eu sou uma putinha ciumenta — ele debocha — Todo mundo sabe
que o verdadeiro amor do Killian sou eu.
Eu ignoro o seu comentário e, finalmente, pego minha xícara de café.
Dou um gole, sem me preocupar se está quente ou não. Gosto de tomar
bebidas quentes demais — daquelas que arranham a garganta, que queimam
a língua, que deixam a boca sensível pelo resto do dia.
O ardor prova que eu ainda estou aqui.
Que alguma parte de mim ainda sente.
As pessoas têm medo da dor, mas eu aprendi a conversar com ela.
— Boa noite, monstrinho — digo, apoiando a caneca na beirada da
pia — Obrigada pelo empréstimo.
— Tenha péssimos sonhos, princesinha.
Ergo o dedo médio na direção de Declan e caminho até o sofá onde
deixei minha bolsa. Uma coberta e um travesseiro fofinho esperam por
mim, porque Killian Belrose não dorme com ninguém. Ele fode, goza,
levanta, some. E se for gentil o bastante, deixa um cobertor pra você se
virar com o resto. Um mimo, um gesto de consideração embriagado de
desprezo.
Odeio dormir aqui, mas a chuva continua castigando New York do
lado de fora.
Solto um longo suspiro e me deito no sofá, me cobrindo. Tiro o
celular da bolsa e cerro os olhos ao perceber que meus pais não
responderam nenhuma das minhas mensagens no grupo da família. Meu
avó e as suas imagens de bom dia, boa tarde e boa noite tiradas do google
são tudo que eu tenho.
Onde eles se enfiaram?
Resisto aos pensamentos paranoicos que começam a pulsar no fundo
da minha cabeça, dizendo que tem alguma coisa errada. Que o silêncio não
é normal. Que o mundo não devia estar tão calado assim. Mas ao invés de
ouvi-los, fecho os olhos com força, me esforçando pra silenciar o caos.
Me obrigo a desligar.
Mesmo assim, o desconforto fica.
Não chega a ser medo, mas é quase.
É a sensação de estar sendo vigiada.
Como se alguém estivesse ali, parado, respirando baixo, velando o
meu sono como quem vela um corpo.
4 CHARLOTTE SPARKS
Passado
Eu devia saber que a professora mais carrasca de Westbridge não ia
gostar se eu usasse a sua aula pra passar chapinha no cabelo. Em minha
defesa, o tempo úmido deixa os meus fios loiros esquisitos e eu dormi
muito tarde ontem, com a minha mãe me ajudando a ensaiar pra um teste de
manequim que vou fazer no próximo final de semana. Ela ainda acha que
minha postura é horrível e que eu poderia emagrecer pelo menos três quilos
antes da sexta se eu me esforçasse um pouquinho, como se duas horas
diárias na esteira já não fossem muito mais que o suficiente. Estou
preparando meu psicológico pra mais uma rejeição e pra forma como
Celeste Sparks vai me olhar por cima do ombro e sussurrar: Mas já era
esperado, não é, querida?
Tenho a impressão que minha mãe teria me criado em laboratório se
pudesse: Quero olhos verdes, cabelo loiro, quarenta de cintura e um pouco
de bunda, mas com cuidado pra não parecer gorda. Celeste está sempre
pronta pra sugerir uma versão de mim que seria melhor se fosse menos eu.
A verdade é que ela nunca superou a forma trágica como a sua carreira de
modelo terminou e agora espera que eu siga os seus passos, mesmo que eu
não tenha nenhuma vocação pra isso.
Sou bonita, mas não sou perfeita.
Estou longe de ser.
Subo as escadas até o último andar de Westbridge.
Aqui em cima, a luz muda. Fica mais pálida e frágil, filtrada por
vitrais esquecidos que um dia foram arte, mas hoje são só empoeirados
demais pra alguém se preocupar com eles. Cada degrau carrega um som
antigo, a madeira rangendo, se lembrando dos passos de meninas que
vieram antes de mim, todas perfeitas demais para não terem sido trágicas.
Na minha opinião, o orgulho de Westbridge para dois lances abaixo. Esse
andar não foi feito para impressionar os pais em visitas guiadas. Ele foi
feito para conter. Conter os que falham, mesmo que o fracasso venha
embalado em seda. Aqui se guardam os deslizes — os deslizes bem
vestidos, de batom bem aplicado, mas ainda assim imperdoáveis.
Caminho até o fim do corredor, mandando uma mensagem no grupo
da família. Eu aviso que o motorista não precisa me buscar e que
provavelmente vou dormir na casa da Ivy, porque ela tem aula de ginástica
até mais tarde e vai estar aqui também. Bato na porta da sala de detenção,
dou um sorriso falso para o monitor que vai nos acompanhar ao longo
dessas duas horas de castigo e pego um lugar no fundo, perto da janela, pra
poder observar a vida lá embaixo.
Como de costume, Luke Hancey está aqui também. Ele me observa
como quem está prestes a dizer algo — provavelmente uma teoria esquisita
sobre como o diretor é um reptiliano ou como a sala de detenção é, na
verdade, um experimento social. Finjo que não vejo. Sento, cruzo as pernas,
e encaro a vista lá fora, onde tudo parece mais livre do que eu me sinto.
Pessoas indo embora, carros se afastando, o céu começando a tingir as
nuvens de um dourado quase triste.
A vida lá fora acontece. Aqui dentro, ela estagna.
A porta range de novo e, quando vira a cabeça na direção dela, ele
entra.
Diferente dos outros alunos, ele não chegou caminhando.
Está numa cadeira de rodas com o pé engessado e um certo ar de
quem não dá a mínima pra estar ali. Ele parece ter sido esculpido direto pela
noite — pele clara, olhos escuros demais, cabelo bagunçado como se o
vento o adorasse, como se a própria rebeldia tivesse moldado cada fio.
Eu sei quem ele é.
Declan St. Clair.
Tem uma foto da mãe dele no hall da fama da Belladonna, agência do
meu pai.
— Seu primeiro dia em Westbridge e já está na detenção? — o
monitor zomba, indicando o espaço vago na frente da minha carteira.
É o primeiro dia dele?
Não me lembro de tê-lo visto em nenhuma das aulas que tivemos
mais cedo. Julgando pela sua altura, ele deve ter mais ou menos treze anos,
que nem eu. Tiro o celular do bolso e mando uma mensagem pra Ivy.
CHARLOTTE: Declan St. Clair tá estudando com a gente?
IVY: o filho da Lana St. Clair?
IVY: tipo, a maior modelo de todos os tempos?
Eu concordo com a cabeça, demorando alguns segundos para lembrar
que Ivy não pode me ver. Coloco minha mochila em cima da carteira e
digito outra mensagem:
CHARLOTTE: sim
CHARLOTTE: eu não sabia que ele vinha pra westbridge
IVY: ele faz aula de esgrima com o Killian
IVY: ele parece ser encrenca, se quer minha opinião.
É claro que parece, o que explica porque estamos na detenção.
Bloqueio a tela do telefone, passo os olhos por Declan de novo.
Acho que é o jeito que ele olha o ambiente que chama minha atenção.
Como se não estivesse realmente olhando, mas lendo. De alguma forma,
acho que ele também me lê.
Declan agradece o homem que empurrou sua cadeira de rodas até
aqui e assume o controle, manobrando com uma precisão quase elegante,
fazendo parecer que não é a primeira vez. Como o monitor indicou, ele para
na frente da minha carteira e eu sinto o cheiro do seu perfume forte. Tem
canela, baunilha e mais alguma coisa que não consigo identificar. Agora
mais de perto, consigo ver a cicatriz grossa ao redor do seu olho esquerdo.
É grossa, curva. Uma linha marcada em carne viva, costurando sua beleza
com um tipo de violência que não combina com a idade que temos. E ainda
assim, ela o deixa mais bonito, talvez mais interessante. Como um quadro
que foi rasgado e não tiraram de exposição. A tela está aberta, vulnerável,
gritando em silêncio na moldura dourada. E ainda assim ninguém ousa
arrancá-lo da parede. A dor virou parte da estética. O estrago é, na verdade,
o que o torna memorável.
É assim que ele parece.
Imperfeito demais pra ser ignorado.
Meus olhos ficam presos nele. Sem nenhuma chance de fuga, nenhum
plano de recuo. É diferente de olhar alguém bonito. Não é sobre beleza. É
sobre o que está por trás. Sobre o que foi perdido, sobre o que foi arrancado
à força.
E é claro que Declan percebe.
— Se quiser tirar uma foto, eu não cobro na primeira vez.
— Se eu quisesse uma foto, teria tirado antes de você abrir a boca —
digo, com um sorriso falso nos lábios — Acho que você fica melhor em
silêncio, monstrinho.
Ouço uma pessoa atrás de mim segurando uma risada. O monitor olha
feio pra mim, mas a pessoa que eu queria atingir com o meu comentário
ácido não deu a mínima. Ao invés disso, Declan sorri. Um canto só da boca,
ladino e despreocupado. Um daqueles sorrisos que surgem e te colocam em
cheque.
Eu cruzo os braços e tento voltar a olhar pela janela, mas agora o céu
parece menos interessante. O mundo lá fora continua se movendo, mas eu
parei.
Tudo em Declan St. Clair parece um enigma.
Tudo em mim quer resolvê-lo.
5 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Faço uma careta quando os dedos de Sloane afundam no pão de
hambúrguer. Tem uma ação da Shake Shack acontecendo no campus da
Mayfair e todos nós ganhamos cupons de batata frita grátis e sanduíches
maiores do que nossas cabeças — mas eu joguei o meu no lixo quando
ninguém estava olhando. Sloane mastiga como se carne mal passada, pão
encharcado de gordura e molho escorrendo pelo canto da boca não fossem
símbolos de decadência. Eu a observo com uma curiosidade ácida. Ela
lambe os dedos, os olhos brilhando com satisfação genuína. Não entendo
como alguém pode ser tão livre dentro da própria pele. Como ela não
enxerga o que está fazendo? Cada mordida é uma pequena morte de tudo
aquilo que o seu corpo poderia ser: mais bonito, mais magro, menor.
Eu sinto fome, mas também sinto nojo.
Dela, de mim, da voz na minha cabeça que me convenceu de que a
comida nos estraga de dentro pra fora. Que não existe prazer que não cobre
seu preço em carne, que a comida é um veneno bonito — que entra doce,
quente, reconfortante, e depois apodrece dentro de mim.
O hambúrguer perde a atenção de Sloane, e eu sei que ela tem algo
muito mais interessante pra olhar quando a ponta do seu tênis atinge minha
canela por debaixo da mesa. Levanto os olhos com um suspiro quase
automático, já preparada pra bufar e revirar os olhos ou qualquer reação
passivo-agressiva típica da nossa amizade, mas o ar no refeitório muda
antes mesmo que eu entenda por quê.
E então eu vejo.
Olívia Valmont. Entrando como dona do lugar e, ao mesmo tempo,
parece atravessar um campo minado. Os passos dela são firmes, o queixo
erguido, o cabelo perfeitamente desalinhado de um jeito que só ela
consegue.
Os olhares grudam nela com uma intensidade que beira o indecente.
Curiosos.
Julgadores.
Quase cruéis.
Acho que toda a universidade Mayfair quer saber qual é o seu
próximo passo agora que New York inteira sabe que o seu pai era um
assassino em série.
— Os Valmont são esquisitos — Sloane murmura, dando mais uma
mordida no seu lanche. O cheiro do hambúrguer começa a me irritar —
Acham que o pai dela vai ser preso pelo que aconteceu em Westbridge?
— Tecnicamente, não é o pai dela — Bram, do time de futebol
americano, comenta.
Sendo honesta, ainda não me decidi como me sinto sobre o último
escândalo da família Valmont. É pena? É prazer? Eu frequentei a casa deles
quando era criança, então é um pouco estranho saber que Samuel Valmont é
maluco e Olívia uma bastarda — me sinto sortuda por estar fazendo
intercâmbio quando o massacre aconteceu.
No fundo, talvez seja uma mistura tóxica dos dois, aquela coisa
morna e cruel que a gente sente quando vê alguém bonito demais, poderoso
demais, sangrar em público. Eu olho pra Olívia e penso em como tudo
sempre foi perfeitamente calculado nela: o sorriso, o tom da voz, as roupas
que parecem saídas de um editorial, até a dor dela é curada com
perfomance.
Não posso dizer que sou diferente disso.
Eu carrego a mesma corda bamba dentro do peito, os mesmos fios
soltos, o mesmo medo de desmoronar em público. Tem quem diga que a
gente odeia no outro tudo aquilo que não consegue arrancar da própria pele.
Que o desprezo é só um espelho. E talvez por isso eu e Olívia pareçamos
mais inimigas do que amigas. Porque a verdade é que eu reconheço nela
todos os monstros que me ensinaram a esconder. Ela esconde os dela com
mais elegância, mais controle, mais graça.
Mas ainda são monstros.
E ainda são nossos.
— O reitor devia reforçar os protocolos de segurança — eu zombo,
bebendo um gole da minha água com gás — Vocês sabem, não é todo dia
que se tem o privilégio de estudar com a filha de um dos maiores serial
killers do país.
Sloane deixa uma risada escapar e todos os outros na mesa
acompanham, exceto por Reid. Tenho a impressão que Olívia nota que
estamos falando dela, porque ergue os olhos na minha direção. Eu dou um
sorriso e aceno, mas ela não retribui. Nem um piscar. Nem um movimento
mínimo. Olívia simplesmente olha através de mim. Eu não sou uma
ameaça, nem uma amiga. Só uma presença descartável no fundo do cenário
da tragédia dela.
— Char — Reid reclama.
— Talvez ela saiba explicar os cadáveres que vem aparecendo ao
redor do campus.
É Sloane quem diz, fazendo uma risada fria escapar dos meus lábios.
Acho que começou no começo do semestre: prostitutas, moradores de rua, a
parte invisível da cidade, agora ainda mais invisível por estar morta.
Ninguém liga.
Ninguém chora.
Só viram estatística na abertura do jornal e, quando o reitor está com
boa vontade, um lembrete no site da Mayfair para andarmos com spray de
pimenta na bolsa e mais um segurança de dois metros de altura na frente do
campus.
— É sério — eu digo, falando diretamente com Reid — Meu pai
disse que a cidade anda cada vez mais violenta. Vocês viram aquele caso do
diretor de cinema que foi assassinado, também teve aquele herdeiro do
ramo da tecnologia…
— É engraçado que estejam matando tanta gente ricaça sem acontecer
nada — Bram sibila.
— Nunca viu filme de investigação? — ironiza Reid — A polícia é
uma piada na maioria deles.
— Os assassinos são podres de ricos também — digo.
Reid levanta uma das sobrancelhas grossas, me analisa como se eu
tivesse dito algo pessoalmente ofensivo.
— E você acha isso por quê?
— Porque faz sentido — Sloane responde por mim, enrolando uma
mecha do cabelo preto nos dedos — Ninguém escapa por tanto tempo sem
bons contatos.
— Tem um milhão de teorias no Reddit sobre isso — Bram completa,
apontando pra mim com um sorriso torto — E essa é uma das mais
populares.
Reid cruza os braços.
— As pessoas deviam se importar menos com esse tipo de merda.
Talvez a pergunta certa não seja quem matou, mas por quê.
Sloane concorda com um movimento suave de cabeça.
— Ouvi dizer que os corpos desses caras aparecem com a palavra
justitia queimada na pele. Quando aparecem, porque alguns só
desapareceram como fumaça.
Bram faz uma careta.
— São justiceiros.
— Eles só estão deixando New York mais limpa — Reid zomba,
erguendo as mãos em sinal de rendição quando Bram o encara — Na minha
opinião, claro.
— É melhor não falar isso na frente da polícia — debocho.
— Conto com você pra vender uma das suas bolsas de marca e
garantir o preço da minha fiança.
Reviro os olhos pra ele, e ele devolve com um sorriso de canto. Reid
se levanta e ajeita a mochila de treino no ombro, a jaqueta dos Dragons
pendurada de forma estratégica sobre os ombros largos. Ajeita o zíper.
Passa a mão no cabelo. Faz um gesto com a cabeça, indicando o ginásio.
— Nós vamos organizar a decoração da próxima festa da fraternidade
amanhã — comento — Apareça. Você é o único que alcança os lugares
mais altos.
Ele me olha por cima do ombro, olhos semicerrados, sorriso
preguiçoso.
Não responde.
Mas eu sei que ele vai.
Reid se despede com um aceno, bagunça meu cabelo — ele sempre
faz isso, na sua eterna síndrome de irmão mais velho — e segue na direção
da mesa da Olívia, cercada pelos mesmos rostos de sempre. Declan levanta
os olhos quando ele chega, a postura desinteressada de costume. Chuck diz
alguma coisa que arranca uma risada do quarterback enquanto Melissa
parece totalmente concentrada no seu almoço. Ela pintou o cabelo e os fios
escuros deram lugar a um tom bonito de vermelho sangue, exceto por duas
mechas grossas nas laterais, ainda pretas. Dex e Killian — versões opostas
de um mesmo pecado — estão lá também.
Me pergunto, não pela primeira vez, se todo mundo quer fazer parte
da realeza ou se alguns de nós apenas não sabem como viver fora do
palácio.
6 DECLAN ST. CLAIR
Presente
O Doutor Legrand sempre diz que a minha ansiedade não é grande
coisa.
Claro, ele não usa essas palavras, porque seria antiético. Mesmo
assim, ele está sempre balançando a cabeça de um lado para o outro e
apoiando o óculos na ponta do nariz enquanto diz que a humanidade está
perdida e somos todos ansiosos crônicos. Ele diz que não é um problema
desde que isso não interfira na minha vida. Eu aprendi desde muito cedo a
ignorar as vozes da minha cabeça, o que não significa que elas não estejam
aqui.
Racionalmente, eu sei que meus pensamentos ruins não são reais.
Eu sei que ninguém vai morrer porque só tem três cubos de gelo no
meu copo ao invés de quatro.
Emocionalmente, minha mente é uma cidade sitiada.
Mesmo sem sirenes. Mesmo sem tiros.
Um toque de recolher perpétuo, silencioso, velado.
As luzes nunca se apagam de verdade — só piscam, nervosas,
conscientes de algo que eu não sei.
— E se não foi o Phantasma que matou o Henry? — Killian sugere,
segundos depois do garçom deixar um copo de Manhattan perfeitamente
posicionado no único porta copos da mesa.
Estamos no bar de um dos novos hotéis da família Ashford — o tipo
de lugar com cortinas de linho orgânico, garrafas de whisky com mais idade
que a maioria das pessoas aqui dentro e garçons que falam baixo demais.
Chuck reservou o lounge VIP só pra gente, como sempre. Luzes âmbar,
poltronas de veludo, um som ambiente tão suave que parece ter sido
escolhido a dedo pra não atrapalhar acordos de vida ou morte.
Desde a última mensagem que recebemos do Phantasma, essa é a
primeira vez que realmente falamos sobre isso. Sem máscaras. Sem piadas.
Só a verdade crua, empurrada goela abaixo junto com goles de álcool caro.
A real é que todos nós estávamos em negação — tentando acreditar que
aquilo tinha acabado, que a ameaça evaporou com o último corpo. Mas não.
Ainda tem uma presença. Um vulto. Uma sombra quieta que observa cada
movimento nosso, praticamente um diretor de cinema esperando o melhor
momento pra gritar corta.
Alguém ainda está segurando o botão da nossa autodestruição.
— Ele não teria motivos pra matar um aliado — complementa, dando
um gole na sua bebida.
Eu concordo. Não consigo tirar da mente os arquivos criptografados
que ainda não consegui acessar, por mais que tenha tentado por semanas.
— Ainda não consegui descobrir como ele morreu — murmuro,
frustrado — Os dados estão blindados. A maldita coroa britânica fecha tudo
que pode gerar escândalo internacional.
— É por isso que eu odeio aristocratas — Dex resmunga, revirando
os olhos enquanto se deixa afundar no sofá de veludo.
— É por isso sim — debocho, então complemento: — A gente devia
ter matado esse filho da puta. Pelo menos teríamos um porque.
— O que importa é que ele morreu — Olívia responde, a frieza
embutida no tom, como se a morte fosse apenas mais uma vírgula. Ela
ergue um dos ombros, displicente. — É uma pessoa a menos querendo
arrancar nossa pele.
Melissa move a cabeça em afirmativa, dando um gole no seu martini.
Ela parece estranha desde a última corrida no Bronx, quando tatuou os seus
cinco dedos na cara do Killian com um tapa tão forte que pareceu
cinematográfico. Eu não julgo, acho que todos nós estamos passando por
muita merda.
— E falando em pessoas que querem arrancar nossa pele… — Reid
começa, um tanto receoso — Charlotte anda com uns papos estranhos.
Quase deixo uma risada escapar, porque sou um previsível de merda.
No momento que ele diz o nome dela, tem toda minha atenção.
— Que tipo de papo estranho? — Chuck pergunta.
— Ela comentou sobre as mortes que vem acontecendo no almoço
hoje — o quarterback murmura, falando mais baixo sempre que alguns dos
funcionários do hotel se aproxima pra ver se precisamos de alguma coisa —
E disse que, obviamente, os assassinos são pessoas ricas.
Dex move a cabeça em um assinto. Está sentado ao lado de Olívia, os
dedos descansando no ombro dela com a naturalidade de quem já pertenceu
ali muito antes de ter o direito. Ainda é estranho vê-los juntos de verdade,
porque ninguém imaginava que eles fossem se acertar um dia. Eles só
precisavam queimar metade de New York — quase literalmente — no
processo.
— Ela não está errada.
— Ela é inteligente — Olívia diz — O que significa que não dá pra
confiar nela.
— Vocês eram amigas — pontuo.
Se eu fechar os olhos, ainda consigo ter uma imagem nítida de
Charlotte, Ivy, Olívia e Melissa andando pelos corredores de Westbridge,
sempre grudadas uma na outra, quase partes de uma coisa só.
Olívia franze o cenho, fingindo não se lembrar disso.
— Isso foi antes dela decidir que me odiava. É um clássico na vida de
toda garota, aquela amiga que te odeia secretamente — ela passa os olhos
por Melissa — Eu e a Mel seguimos carreira solo há anos, então… Bom, dá
pra dizer que não fazemos ideia de quem ela é — agora, Olívia aponta pra
Reid, depois pra Killian — Vocês quem sabem.
Killian dá de ombros.
— Ela é inofensiva.
Reid faz uma careta.
Tenho minhas dúvidas se realmente é.
— Ainda não sabemos porque o pai dela tinha a mesma arma do
Phantasma — Chuck relembra.
— E nem porque… — Killian começa, e eu o fuzilo com os olhos
antes que ele termine a frase.
Ele ri, erguendo as mãos em sinal de rendição.
Não precisamos de uma briga entre ele e o Reid de novo.
— Relaxem — Kill diz, por fim — Vou descobrir qual é a da arma do
pai dela.
Concordo com a cabeça, embora eu não ache que ele esteja se
esforçando com qualquer coisa que não seja descobrir quantas vezes
consegue fazê-la gozar no período de uma hora.
Meus olhos passam por Reid, no outro extremo do sofá.
Na minha opinião, Reid Montgomery é o mais inofensivo nessa mesa.
As mãos dele são tão sujas quanto as nossas, mas eu ainda consigo
ver luz quando olho pra ele. Fragmentos de uma coisa boa, como o raio de
sol que atravessa a cortina pesada de um quarto onde ninguém nunca abre
as janelas.
Ele é o oposto de todos nós.
Somos apenas o mofo que corrói as paredes, apodrecidos até a raiz.
7 CHARLOTTE SPARKS
Presente
O The Bricks fica no Brooklyn, escondido entre prédios grafitados e
com pouca visitação. Já foi uma boate, um bar de stand up e um espaço de
exposição de arte, mas agora são só três andares de concreto lascado, vigas
de ferro enferrujadas e janelas quebradas que deixam entrar a luz morta do
fim de tarde. Ninguém mais usa o The Bricks pra nada, por isso mesmo é
perfeito para a festa da fraternidade que estamos organizando — a primeira
edição da escrito em vermelho. Dez minutos atrás, Reid mandou uma
mensagem dizendo que ficou preso no trânsito junto com a Sloane, mas eles
estão chegando pra me ajudar. Melissa também vem, o que é ótimo porque,
apesar de nunca falar nada, ela tem um maravilhoso senso estético.
Eu sempre me pergunto porque ela não fala.
Quando estamos juntas e ela apenas sorri, com aquele ar quieto de
quem observa mais do que pertence, sempre me pergunto se ainda existe
alguma coisa dentro dela, tentando, em vão, encontrar uma saída — ou se o
silêncio é tudo o que restou. Um idioma morto, esquecido, que ninguém
mais quis ou soube escutar.
Melissa Jang era muito diferente quando estávamos na escola.
Balanço a cabeça em negativa, deixando os pensamentos de lado.
Não é da minha conta.
Pego meu celular no bolso da saia e abro o spotify, mas é idiotice
minha achar que os alto falantes de um lugar como o The Bricks tem
conexão bluetooth. Faço uma anotação mental de que vou precisar trazer
uma caixinha de som e coloco uma das minhas músicas de garota básica
favoritas pra tocar no telefone: Manchild, da Sabrina Carpenter.
Arrasto uma das cadeiras até um dos cantos da sala, subindo em cima
dela para pendurar o cartaz que fizemos, com o anúncio de sessões de flash
tattoos. O prédio inteiro parece respirar comigo, ou talvez apesar de mim.
Apesar da música, ainda existe silêncio. Um som abafado, úmido, cheio de
ecos que se chocam contra as paredes descascadas.
Never heard of self-care
Half your brain just ain't there
Faço uma careta quando tenho a impressão de ouvir passos
sobressaindo na música. Fico parada em cima da cadeira, tentando definir
se é uma pegadinha do meu cérebro ou se tem alguém aqui além de mim.
— Reid? — pergunto.
Os passos continuam e agora tenho certeza deles.
São lentos, cuidadosos demais para serem de alguém distraído, mas
não pesados o suficiente para serem notados por qualquer um. São
presentes.
Eu desço da cadeira e desligo a música. Meu corpo endurece, meu
coração dispara, frenético, como sempre faz quando tenho essa sensação.
De que ele está por perto.
O meu eco.
Agora sem a música, não consigo mais ouvir passos, o que me faz
pensar que ele parou. O cartaz escorrega da minha mão e as partes com cola
grudam no chão sujo, uma careta tomando conta da minha face quando
percebo a bagunça. Por um instante tento me convencer de que estou
sozinha.
Só que não estou.
Eu sei.
O ar ficou mais denso, como se alguém tivesse acabado de ocupar o
espaço que era meu. Giro devagar, forçando os olhos a atravessarem a
penumbra do galpão, mas só encontro colunas corroídas, vidros partidos e
feixes de poeira flutuando como fantasmas entediados. Os passos podem ter
cessado, mas a impressão dele não.
Decido sair.
Não penso, só ajo.
Desço as escadas com pressa, o corrimão frio e pegajoso de ferrugem
escorregando sob os meus dedos. Quando alcanço o primeiro andar, consigo
ver pelas janelas que o céu lá fora já se coloriu num tom de azul pálido e
indiferente, os últimos raios de sol do dia sendo escondidos por nuvens
grossas que parecem prestes a desabar. Eu apresso os meus passos,
querendo deixar pra trás, junto com o som dos meus sapatos nesse chão de
cimento quebrado, aquela sensação incômoda que grudou na minha pele
desde que ouvi os passos atrapalhando minha música.
Empurro a porta com força demais, o metal range, soltando um
suspiro áspero e enferrujado, e mal percebo quando esbarro em alguém —
um corpo macio, mas ainda assim sólido o bastante pra me fazer tropeçar
um passo pra trás, soltando um gemido irritado que raspa na garganta.
Braceletes tilintam com o impacto, anéis batem uns nos outros com aquele
som metálico agudo, e colares demais se chocam contra o peito de Melissa,
como se ela própria fosse feita de ruído, sempre carregando uma aura de
caos.
— Ai, meu Deus — murmuro — Eu não vi você.
Melissa ergue uma das sobrancelhas na minha direção. Ela mexe as
mãos, rápida, precisa, e eu sei que está dizendo alguma coisa, claro que
está, e me sinto uma completa idiota por ter faltado a todas as aulas de
libras no último semestre.
— Eu… não entendo libras — digo, me esforçando para parecer
despreocupada, mas a verdade é que sinto uma pontada de vergonha ao
assumir em voz alta.
Melissa não parece ofendida e me irrita como ela sempre é gentil com
todo mundo, inclusive comigo, mesmo que eu não seja uma pessoa muito
legal.
Porra, eu devia saber libras.
Ela tira o celular que está preso nas botas — uma verdadeira
patricinha dos anos 2000, eu diria — e digita no bloco de notas, me
entregando segundos depois. Encaro a tela:
Você parece assustada. Tudo bem?
Movo a cabeça em afirmativa.
— Eu pensei que o Reid e a Sloane tivessem chegado, só isso.
Ela concorda, mas não parece acreditar totalmente em mim.
— Estava arrumando o andar onde vão acontecer as tatuagens —
digo, ansiosa pra mudar de assunto — Podemos começar por lá enquanto
eles não chegam.
Melissa digita no celular de novo:
Sobre isso, o nosso tatuador desmarcou, surgiu um compromisso com os pais da namorada.
Mas eu falei com o Declan e ele aceitou servir de substituto junto com uma amiga.
Franzo o cenho.
— Eu não sabia que o Declan tatuava.
É uma coisa que ele faz por diversão, mas as tatuagens dele são ótimas.
De novo, movo a cabeça em um assinto.
É curioso — quase engraçado — como essas pequenas revelações
sobre Declan St. Clair me pegam desprevenida. Como tropeçar em um
segredo esquecido debaixo do tapete. Porque, embora eu o conheça desde
que sei soletrar meu próprio nome, tem momentos em que ele parece um
completo estranho. Como quando você assiste ao mesmo filme dez vezes só
pra perceber, na décima primeira, que perdeu uma cena inteira. E talvez seja
isso que mais me perturba: a ideia de que você pode passar a vida inteira ao
lado de alguém e, ainda assim, não fazer ideia de quem essa pessoa
realmente é.
Melissa percebe o meu devaneio e dá um passo à frente para abrir a
porta do The Bricks, seu cabelo vermelho brilha quando entra em contato
com as luzes do lado de dentro. Nós subimos até o último andar em silêncio
e eu solto o ar pela boca em frustração quando vejo o cartaz das tatuagens
jogado no chão, bem onde eu deixei, a cola espalhada no piso.
Acho que não tem ninguém aqui, no fim das contas.
— Vamos precisar de um cartaz novo — eu digo, revirando os olhos
— Mas esse não era grande coisa, se quer saber minha opinião.
Os lábios de Melissa se curvam em um meio sorriso. Ela aponta para
as escadas e eu entendo que ela vai buscar alguma coisa nos andares de
baixo. Sigo os seus passos, desviando de uma caixa de cerveja e de um
amontoado de flyers antigos da Mayfair que ainda cheiram a péssimas
decisões. O galpão está mais frio do que deveria estar, mais escuro também.
As luzes do letreiro lá fora piscam em intervalos estranhos — três curtos,
dois longos. Como código Morse, só que sem um destinatário.
Melissa desaparece por alguns segundos, entrando no que costumava
ser o lounge dos clientes VIP, e eu fico sozinha por tempo demais com o
som dos meus próprios pensamentos. Caminho pelo espaço e encontro o
painel que era usado quando o The Bricks ainda era um espaço onde artistas
deixavam suas obras em exposição. Tem um cartaz no estilo lambe lambe
com foto de um dos últimos eventos, antes do espaço fechar, e bem no
centro…
Meu coração dispara.
Uma polaroid minha.
Não faço ideia de quando foi tirada, mas a imagem tem uma beleza
silenciosa, quase indecente. Eu estou na janela do meu quarto, apoiada no
parapeito de ferro antigo, as luzes da rua desenhando sombras suaves no
meu rosto. O cabelo solto cai em ondas distraídas pelos ombros, e há algo
no meu perfil — talvez o modo como meus olhos estão fixos na página de
um livro, ou a curvatura leve dos meus lábios — que faz a cena parecer
íntima demais pra ser observada por alguém de fora.
A foto tem aquele tom esmaecido típico de polaroids antigas, um
sopro de tempo, quente e fria ao mesmo tempo.
Delicada como um suspiro esquecido no travesseiro de outra pessoa.
Uma espécie de fantasma elegante.
E o mais estranho de tudo é que sou eu.
Ergo a cabeça, procurando por algum sinal de Melissa. Sinto vontade
de perguntar se foi ela quem trouxe a foto, mas ela não teria porque ter uma
foto minha na bolsa. Essa foto não estava aqui hoje mais cedo, nem cinco
minutos atrás.
Arranco a polaroid do painel e meu corpo inteiro se arrepia quando
percebo que tem um recado atrás dela.
Você parece muito mais real quando não está me olhando de volta.
8 CHARLOTTE SPARKS
Presente
O carro de Sloane tem cheiro de menta, baunilha e cigarro. Os bancos
de couro grudam na minha pele por causa do calor e a música — alguma
coisa retrô que ela finge gostar porque o ex dela ouvia — enche o silêncio
que eu deixo entre nós. A cidade passa borrada pela janela, as luzes
vermelhas dos faróis esticadas como sangue no asfalto. O telefone vibra
quente contra minha coxa. Eu pego, desbloqueio, ligo de novo.
Segunda chamada perdida da noite.
A sexta da semana.
A voz eletrônica diz que Richard Sparks está indisponível, de novo, e
eu desligo antes de ouvir até o fim.
— Nenhum sinal dos meus pais desde a semana passada — murmuro,
mais pra mim do que pra ela.
— Ter pais ocupados é melhor do que ter pais fracassados — Sloane
diz, os olhos no trânsito, o batom vermelho pintando os lábios e
combinando perfeitamente com as unhas — Meu pai foi pra China outro dia
e demorou pelo menos uns três dias pra me avisar.
Forço um sorriso e concordo com a cabeça, mas sinto que tem alguma
coisa errada. Não é o tipo de ausência habitual de Richard Sparks, não é
aquela negligência que nós aprendemos a ignorar quando crescemos com
pais ocupados demais. É uma ausência que respira, pesa, observa. Mesmo
assim, não quero passar a noite inteira pensando nisso, então mando uma
mensagem pra Celeste pedindo explicações e bloqueio a tela do telefone.
Quando chegamos no The Bricks, ele parece mais sujo do que ontem,
mesmo que eu Melissa tenhamos passado a tarde toda limpando cada canto.
Tem algo de podre nas bordas da festa, um azedo no ar, um cheiro de álcool
velho e cheiro de fast-food. A maioria das pessoas presentes não parece se
importar enquanto dançam, iluminadas pelas luzes vermelhas e pulsantes. O
som vibra pelo chão, o concreto fingindo ser feito de músculo.
Pisar ali de novo depois de ter encontrado aquela polaroid me dá a
sensação estranha de estar pisando em um território que não me pertence.
Faz parecer que cada um dos meus passos está sendo observado. Por mais
que eu já soubesse da existência do meu eco, é a primeira vez que ele faz
contato. Me pergunto se isso é um sinal de que ele está se aproximando ou
se ele só queria brincar com a minha cabeça.
— Deixei as caixas e os envelopes no banheiro do segundo andar —
Sloane sussurra, me entregando um copo alto como um tubo de ensaio,
cheio de um líquido vermelho dentro.
Eu não pergunto o que é.
Viro o copo de uma vez e faço uma careta quando o amargor da
bebida arranha minha garganta. Tem algo de doce ali no meio, porque o
gosto consegue ser melado e amargo ao mesmo tempo. Eu deveria me
importar, mas decidi que, nos finais de semana, álcool não conta como
caloria.
Faço um sinal pra Sloane e subo as escadas até o segundo andar.
Como de costume nas festas da Mayfair, os jovens mais ricos de New York
estão usando os espaços mais discretos pra transar ou cheirar cocaína: os
mais ousados estão fazendo as duas coisas. Alguns alunos do curso de
história da arte — os que estão se drogando, não fodendo — me
cumprimentam e eu sorrio pra todo mundo, acelerando meu passo na
direção do banheiro.
Como Sloane indicou, encontro os envelopes vermelhos e a urna onde
devem ser depositados sem dificuldade. Essa é a ideia da festa escrito em
vermelho: alguém te manda um bilhete anônimo e você tem o resto da noite
pra descobrir quem foi. Ninguém assina. Ninguém se entrega. A graça é
justamente essa: você tem a noite inteira pra observar olhares, reconhecer
letras, suspeitar das intenções de todo mundo.
Dou uma última olhada no espelho rachado do banheiro — a minha
imagem quebrada em três partes desalinhadas, como se o vidro não
suportasse refletir ninguém inteiro — e ajeito os brincos da De Beers nas
orelhas. O par cravejado com doze diamantes, presente do meu pai no meu
aniversário de doze anos, como quem achou que doze pedras frias e
perfeitamente lapidadas poderiam, de alguma forma, compensar a ausência
dele.
Talvez tenham compensado.
Talvez não.
Saio do banheiro, os saltos ecoando no corredor úmido, com a urna,
os bilhetes e as canetas equilibradas nos braços. Sei que tem mais cinco
dessas lá embaixo, com as outras garotas da fraternidade e do time de
líderes de torcida. Antes que eu possa virar na direção das escadas para
encontrar Sloane de novo, é Killian quem me encontra.
— Char — ele murmura, dando um sorriso na minha direção e
erguendo o seu copo pra mim, oferecendo a bebida que tem dentro.
Engulo uma careta quando sinto o cheiro de whisky misturado com
mais alguma outra coisa. Se Killian Belrose prestasse um pouquinho mais
de atenção em mim — e, às vezes, me pergunto se ele sequer presta atenção
em qualquer coisa que não seja ele mesmo —, ele saberia que detesto
whisky, porque é a bebida favorita de Richard Sparks. Homens que bebem
whisky lembram o meu pai.
Ew.
Tenho a consciência de que Killian nunca me prometeu mais do que
sexo, então não exijo isso dele. Aprendi desde cedo que, pra ser admirada,
você precisa se encaixar. É por isso que dou um gole na bebida antes de
devolver o copo nas mãos dele, seus dedos esbarrando nos meus por um
segundo. É o que eu faço, é o que eu sempre fiz: me moldar pra caber no
tamanho do que esperam de mim.
Não é nenhum sacrifício, na verdade, chamo isso de sobrevivência.
— Você não tem uma luta amanhã? — pergunto, o tom debochado —
Não devia estar bebendo.
Killian dá de ombros, fazendo pouco caso.
— Sou o capitão invicto daqueles ringues até então.
— O que é uma pena, muita gente gostaria de te ver nocauteado.
— Você inclusa?
Solto o ar pelo nariz.
— Com certeza.
Killian ri. Ele acha que eu estou brincando, claro.
Mas não estou.
Não totalmente.
Às vezes — mais do que eu gostaria de admitir — eu me sinto como
uma viúva negra, tecendo com paciência a própria teia, desejando
secretamente que todos que não me amam morram de forma lenta e
dolorosa.
Ergo uma das canetas na direção dele.
— Alguém vai ter a honra de receber um bilhete de Killian Belrose
hoje?
Ele segura a caneta por um segundo, analisando o objeto como se
nunca tivesse visto nada igual.
— Se eu fosse mandar um bilhete pra cada uma das minhas
admiradoras… — ele dá uma pausa calculada, me olhando de canto, como
quem sabe exatamente o efeito que causa — passaria a noite inteira
escrevendo.
— Arrogante.
— Realista — responde, os olhos fixos em mim.
Eu me obrigo a manter o olhar firme, a não ser mais uma das garotas
que derrete sob os olhos dele. Killian Belrose tem essa coisa — esse poder
— de fazer você se sentir como a única no mundo, mesmo quando você
sabe que não é.
— E você? — pergunta, aproximando-se um passo. Seus dedos
sobem até o meu rosto e seus olhos descem até a minha boca — Vai
escrever pra alguém?
Movo a cabeça em afirmativa.
— Tenho uma lista bem grande de opções.
Antes que eu possa ler a reação nos olhos dele, Sloane aparece como
um vendaval. Eu dou um passo para trás, me afastando do toque de Killian
antes que ela perceba. Não é um segredo que nós estamos transando, mas eu
não assumiria um homem rodado principalmente quando não temos nada
sério.
Sloane cumprimenta Killian com um aceno desleixado, sem muito
interesse, já com o olhar vidrado em alguma ideia caótica que, eu sei, vai
arrastar todo mundo junto. Então ela me agarra pelo ombro, o toque
possessivo e familiar.
— E se a gente fizesse uma tatuagem? — ela grita, e o tom já vem
trôpego, bêbado, os olhos brilhando daquele jeito perigoso, como quem
acabou de ter a pior ideia da noite e quer te convencer de que é a melhor.
— Ai, meu Deus… — eu rio
— Se quer uma sugestão, acho que uma tatuagem da letra K ficaria
ótima em você.
— Nos seus sonhos — zombo.
Então deixo Sloane me puxar, quase tropeçando atrás dela,
protegendo a urna e os bilhetes como quem carrega uma coisa frágil demais
para aquele espaço velho e imprestável. Subimos as escadas até o último
andar do The Bricks enquanto uma música do novo álbum da Lady Gaga
ecoa pelas paredes. Sloane recita todas as opções de tatuagens que ela
poderia fazer — uma borboleta, um desenho do seu drink favorito, uma
batata frita, uma letra de música — enquanto eu me decido entre dizer ou
não que fazer uma tatuagem bêbada é uma péssima escolha.
Chegamos no último andar, indo direto pro estúdio improvisado. Tem
duas cadeiras, duas mesas cobertas com toalhas descartáveis e material
espalhado: tintas, agulhas, luvas, copinhos plásticos. Uma garota de cabelo
rosa berrante — o que eu particularmente considero poluição visual — está
numa das bancadas, terminando uma caveira no tornozelo de um cara que ri
de nervoso enquanto toma mais um gole de cerveja. Empolgada, Sloane dá
um sorriso e vai direto na direção dela, dizendo alguma coisa sobre
reconhecer o traço da artista do pinterest ou do instagram.
Não demora muito até que meus olhos caiam nele.
Encostado na parede, braços cruzados, moletom de desenho animado
— Scooby Doo, especificamente — e olhos erguidos na minha direção.
Mordo o canto da boca, sem saber o que eu deveria fazer aqui, enquanto
Sloane termina sua tatuagem. Penso em dar meio volta, mas Declan fala
comigo:
— Vai querer fazer uma também?
Analiso as tatuagens no seu antebraço e me pergunto se foi ele quem
fez cada uma delas. A que mais me chama atenção é um desenho complexo
que rasga sua pele, fazendo parecer que tem uma carcaça robótica por baixo
da carne. Logo descarto a ideia, imaginando que tatuar a própria pele não
deve ser uma tarefa fácil.
— Não, monstrinho — respondo, cruzando os braços — Tenho medo
de agulhas.
Ele arqueia uma sobrancelha, curioso.
— Henna, então — sugere.
Observo Sloane no outro canto do cômodo, rindo de alguma coisa que
a tatuadora disse, completamente alheia ao caos silencioso que se instala
dentro de mim. De novo, penso em ir embora, e talvez devesse, mas tem
alguma coisa em Declan que me atrai, sempre me atraiu, feito uma corrente
invisível puxando, sufocando. Talvez sejam aqueles olhos escuros, fundos
demais, pesados demais, que me encaram como se pudessem decifrar cada
dobra escondida da minha alma.
Como se me conhecessem mais do que eu mesma me permito
conhecer.
Como se me atravessassem.
E eu odeio, odeio essa sensação. Ou finjo que odeio. A verdade é que
nunca soube muito bem o que fazer com o que Declan desperta em mim. Só
sei que não consigo me afastar. Nunca consegui.
É por isso que encerro o espaço entre nós e me sento no banco
disponível para os corajosos que querem fazer uma tatuagem depois de
ingerir toneladas de álcool. Declan também se senta. Pega uma daquelas
luvas transparentes, esticando o plástico até ouvir o estalo seco encaixando
nos dedos, depois alcança uma pequena bisnaga de tinta henna, apertando
de leve para testar a textura. O cheiro amargo e terroso da henna mistura-se
ao aroma discreto do seu perfume amadeirado, e eu tenho que morder a
parte interna da bochecha para não parecer tão afetada pela sua presença.
Declan não fala nada.
Só me observa, me fazendo parecer o próximo desenho que ele vai
marcar na pele de alguém, uma linha, uma curva, um traço que ele conhece
mas eu ainda não.
— Tem que ser uma surpresa, princesinha — ele diz, finalmente,
abrindo um meio sorriso.
— Uma surpresa?
— Você só vê quando eu terminar.
Deixo uma risada indulgente escapar.
— Vai em frente — concedo, com a voz mais firme do que realmente
me sinto, estendendo o braço sobre a mesa, expondo a pele do antebraço
como quem oferece a garganta ao predador.
Declan não responde, só se inclina um pouco mais, puxando a manga
do meu casaco até a dobra do cotovelo, com uma paciência exasperante,
quase cruel. Os dedos enluvados deslizam pela minha pele nua, fria e
hipersensível, limpando a área com um pano embebido em álcool.
— Fecha os olhos — ele pede.
Dou um longo suspiro e fecho as pálpebras, não sei se pra evitar o
olhar dele ou pra fingir que isso não me afeta, mas é inútil — sinto tudo, até
o toque que nem aconteceu ainda.
Declan não diz mais nada. Sinto o primeiro traço da henna deslizar
pela minha pele, quente, úmido, uma pressão sutil que parece muito mais
íntima do que deveria. Ele trabalha devagar, metódico, e cada linha que ele
traça parece queimar viva. Toda vez que Declan se inclina mais, ou quando
o látex da luva roça no meu pulso, alguma coisa dentro de mim trava e
acelera ao mesmo tempo.
— Relaxa — Declan murmura, a voz tão baixa que quase se confunde
com o zumbido distante da agulha da outra tatuadora.
Abro os olhos só por um segundo, e ele está concentrado, mordendo
de leve o canto da boca, absorto no desenho que não consigo ver. O
contraste entre a frieza do látex e o calor da sua pele que sinto, mesmo sem
contato direto, é tão desconcertante que tenho vontade de puxar meu braço
de volta.
Mas eu fico. Imóvel. Silenciosa.
E ele continua me marcando.
Fecho os olhos mais uma vez, antes que Declan me pegue espiando.
O cheiro da henna se intensifica conforme ele preenche mais linhas, e,
mesmo de olhos fechados, consigo sentir a precisão com que ele conduz o
traço, sabendo exatamente onde deve ir, minha pele se transformando em
mais uma superfície a ser decifrada. Não ouso perguntar o que está fazendo,
porque sei que ele não responderia.
Engulo em seco, o som abafado da minha respiração preenchendo o
espaço entre nós. O zumbido da outra tatuadora segue ao fundo, junto com
as risadas abafadas de Sloane, distraída demais pra perceber que estou presa
aqui, tensa, à mercê de um cara que mal conheço, mas que, de alguma
forma, parece me conhecer inteira.
— Pronto — Declan diz, depois de um tempo que não sei medir.
Abro os olhos. Ele segura o meu pulso por mais um segundo, e então
desliza o polegar enluvado sobre o traço fresco que acabou de construir —
uma mariposa, de asas abertas, feita de linhas finas e uma precisão que
parece impossível.
Ele é bom.
— Mariposas sempre vão até a luz — Declan diz, casualmente. Ele
gira o potinho de henna entre os dedos, como quem passa o tempo, e
acrescenta: — Mesmo quando sabem que vão se queimar.
Só então Declan me encara, com aquela expressão calma, paciente,
me estudando.
— Não sabia que você era tão poético, monstrinho.
— Você não sabe muita coisa sobre mim.
— Nem quero saber.
Ele dá uma pausa antes de responder, analisando cada centímetro do
meu rosto. A minha ansiedade não me permite esperar.
— O que foi?
— Você fica linda quando está me desprezando.
— Eu sempre estou te desprezando.
— Pois é.
Um sorriso ladino percorre os lábios de Declan, mas eu não permito
que o seu charme me atinja.
— Você não gosta de mim — pontuo.
— Não gosto.
— Está me elogiando por que?
— Por que não sou cego.
Declan tira as luvas com um estalo, joga fora, e por um segundo o ar
entre nós parece mais rarefeito. Mais exposto. Mais íntimo.
— Vai secar em uns vinte minutos — ele diz, por fim, apontando o
desenho — Não encosta.
Concordo com a cabeça.
— Obrigada — digo, mas soa estranho na minha boca, desalinhado.
Ele me observa. Espera por alguma coisa, mas não sei o quê. Talvez
que eu diga algo que desfaça essa tensão, que devolva o controle pra
alguém. Mesmo assim, eu fico em silêncio.
Quando Declan se afasta, não é com pressa, nem com hesitação. Ele
levanta devagar, e antes de ir, para ao meu lado, inclinando-se só o
suficiente pra que sua voz fique próxima ao meu ouvido.
— Cuidado com o tipo de luz que você segue, princesinha.
Então ele vai embora, sem me dar tempo de responder.
9 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Meu pai sempre diz que Richard Sparks foi uma tragédia na vida da
minha mãe. Eu obviamente ainda não tinha nascido na época que Lana era a
modelo mais bem paga dos Estados Unidos, então tudo que tive pra conferir
a veracidade desses fatos foi a internet — que não era exatamente uma
fonte infinita de informação sobre fofocas de celebridades que aconteceram
antes de 2004. Depois de hackear o sistema de sites que haviam sido
desativados há anos e comprar revistas em bancas de jornal por preços
absurdos, eu cheguei a conclusão que, possivelmente, Richard Sparks tinha
uma parcela de culpa na autodestruição de Lana, embora o botão tenha sido
pressionado por ela mesma.
Isso deveria ser suficiente pra me fazer odiar Charlotte.
Eu nunca sei se odeio.
Tem dias em que sim. Em que ela fala alto demais, flerta com
qualquer cara minimamente interessante no refeitório da Mayfair, usa
aquelas saias curtas como se o mundo fosse uma passarela. Tem dias em
que eu penso: "É isso. Eu odeio essa garota." E juro que é verdade — até o
momento em que ela me olha.
Melhor ainda, até o momento em que ela não me olha.
Charlotte Sparks tem esse dom maldito de existir com um tipo de
luminosidade que não brilha.
Ela arde.
Como se tudo ao redor dela fosse incandescente, mas ela não
soubesse.
Se eu fechar os olhos, ainda consigo encontrar a expressão confusa do
seu rosto quando percebeu que não estava sozinha no The Bricks, a sua voz
cantarolando aquela música pop ecoando nos fundos do meu cérebro.
Em alguns dias, penso em deixá-la em paz.
Em outros, acho que ela sabe que estou aqui o tempo todo.
Pior ainda, acho que ela gosta disso.
— Você ficou calado o caminho inteiro.
Killian afasta os meus pensamentos, fazendo parecer que são todos
feitos de fumaça. Ele ameaça dar um peteleco na minha cabeça e eu ergo o
dedo médio na sua direção, uma risada escapando da minha garganta
enquanto caminhamos pela Wall Street, duas ruas distante do seu
apartamento.
São quase seis da manhã, os primeiros raios de sol cortam a cidade, os
prédios gigantescos estão sendo iluminados pela primeira vez e o ar tem
cheiro de panqueca. Nós tivemos que pegar metrô pra sair do Brooklyn, o
que, definitivamente não é um costume. Quando chegamos na parte
habitável da cidade, poderíamos ter chamado um uber, mas vinte minutos
de caminhada parecia uma boa pedida pra dar paz ao meu cérebro.
— Estava pensando no que o Reid disse sobre a Char.
Tecnicamente, não estou mentindo.
Estava mesmo pensando nela.
Killian dá de ombros.
— A essa altura do campeonato todo mundo devia saber que é nele
que não devemos confiar.
Arqueio uma sobrancelha.
— Vou fingir que isso não é o seu preconceito com novos ricos
falando.
— Porra, não é — ele resmunga — Ele só é suspeito pra caralho —
Killian ergue um dedo — É o único que não conhecemos desde a infância
— ergue outro — Foi ideia dele confessarmos nossos segredos naquela
noite no celeiro dos Jang — mais um — O pai dele tinha uma arma igual a
do Phantasma, caralho, eu encerro meu caso.
Balanço a cabeça em negativa.
Tento me forçar a voltar ao último 13 de outubro, aquele dia turvo e
opressivo, quando eu e os Juízes nos espalhamos pelo parque Grimmspur
como predadores silenciosos — caçando os piores homens de New York,
como fazemos todos os anos, numa tradição que começou com um motivo
tão justo quanto violento. Só que naquela noite… tinha algo diferente.
O céu estava baixo, o ar denso demais, como se o próprio parque
soubesse o que ia acontecer e segurasse a respiração junto com a gente. Não
éramos apenas caçadores. A sensação era tão vívida que ainda sinto agora:
os olhos nas minhas costas, o peso invisível de quem observa sem ser visto.
Éramos também a caça.
Naquele dia, entendi que éramos só jovens quebrados, tentando ser
monstros, sem perceber que essa cidade sempre criou predadores muito
piores que a gente.
Dou de ombros, me forçando a afastar o nó desconfortável da
garganta.
— O pai da Charlotte também. Além disso, o Dex confia nele.
Killian solta o ar pelo nariz, um meio riso, meio suspiro impaciente, a
menção ao irmão sendo sempre suficiente pra irritá-lo.
— Quando foi que a gente decidiu que o Dex era o líder? Saiba que
eu nasci muitos minutos primeiro.
— Acha que é o mais responsável por ser mais velho? — debocho —
Nem fodendo. Você não sabe cuidar nem da própria bunda.
É a vez de Killian mostrar o dedo do meio pra mim, o gesto rápido,
acompanhado daquele sorriso meio de canto que ele sempre dá quando sabe
que perdeu uma discussão mas não admite. Nós continuamos andando, os
passos quebrando o silêncio úmido da calçada, agora desviando pra
assuntos mais leves, como temos costume de fazer quando o peso começa a
sufocar. Eu conto sobre a garota que fez uma tatuagem comigo durante a
festa só pra ter a desculpa de me beijar depois — e funcionou —, ele fala
sobre a quantidade de bilhetes que recebeu na noite: Quarenta e quatro, se
quisermos ser exatos, mas nenhum da única pessoa que importa.
Killian não fala sobre isso em voz alta. Nem se eu perguntasse, ele
admitiria — porque Killian Belrose vai escolher arrancar a própria língua
com uma gilete antes de confessar qualquer fraqueza, mas eu sei. Sei do
jeito que o olhar dele endurece toda vez que o nome dela é mencionado, do
silêncio que se alonga desconfortável quando ela entra em um cômodo,
como se a própria presença dela fosse um lembrete ácido do que ele perdeu.
Sei que ele é apaixonado por Melissa desde sempre, desde aqueles
dias patéticos do colégio. Sei que ela deu uma única chance pra ele, ainda
na escola — uma noite que virou quase lenda entre nós, porque ele nunca
falou, e ela nunca confirmou, mas eu ainda me lembro da sua ligação de
madrugada e como todos nós fomos correndo pro hospital depois do
acidente.
Eu sou bom em juntar cacos, conheço muito bem o meu melhor
amigo e esses dois sempre deixam rastros demais.
Sei, acima de tudo, que ele fodeu com tudo de uma forma irreparável.
Não foi um erro bobo, não foi um tropeço qualquer.
Foi uma daquelas merdas que ninguém perdoa, nem com o tempo,
nem com silêncio. É por isso que, apesar de alguns momentos de trégua,
eles se odeiam hoje. E Killian carrega isso no peito, como uma tatuagem
invisível: o nome dela, a chance perdida, e a certeza amarga de que não
importa quantas garotas ele foda depois, nenhuma delas vai ser Melissa
Jang.
Mesmo não sabendo o suficiente da história, sei que as coisas
poderiam ter sido diferentes se ele não fosse um filho da puta impulsivo que
nunca pensa antes de agir.
Finalmente, chegamos na rua do apartamento.
Tem um cheiro estranho no ar, não de lixo, não de gasolina, nem das
panquecas.
É algo mais espesso, mais metálico.
Algo que eu e Killian conhecemos muito bem, mas eu só percebo
quando ele para.
Killian estende o braço na minha frente, me impedindo de dar mais
um passo. O tênis dele para a centímetros de uma mancha escura, quase
preta, que se espalha pela calçada irregular, afundando nas frestas do
cimento.
Eu sigo o fio dessa mancha escura, grossa, pegajosa… até que meus
olhos encontram o corpo — ou o que sobrou dele.
Um cisne.
Ou, pelo menos, a carcaça que um dia foi um cisne.
Agora está ali, desmantelado, aberto como uma página rasgada de um
livro que ninguém mais quer ler. As vísceras transbordam do ventre
rasgado, expostas por alguém que arrancou cada órgão com uma calma
doentia, espalhando-os pela calçada feito enfeites grotescos.
As penas brancas, antes símbolos de pureza, agora são fiapos
empapados de um vermelho viscoso, grudadas em tufos disformes que se
misturam ao sangue coagulado e à sujeira do asfalto. O pescoço, aquela
linha antes elegante e perfeita, está quebrado num ângulo antinatural,
grotesco, dobrado como um arame torcido demais.
O bico, semiaberto, revela a língua cortada e um fiapo de carne
pendurado, os olhos esbugalhados já opacos, opacos demais, como se
tivessem visto quem — ou o quê — fez isso, mas não tivessem tido tempo
de fugir.
E o pior é o cheiro.
De sangue fresco misturado à podridão que já começa a fermentar,
um fedor de morte que se agarra às paredes, às roupas, à pele.
Eu fico ali, parado, sem saber se sinto mais nojo, medo ou uma
estranha fascinação por quão meticuloso — quase artístico — foi o
massacre.
Como se alguém quisesse que a gente visse.
Como se fosse uma assinatura — porque realmente é uma.
Troco um olhar com Killian.
Me aproximo do corpo estraçalhado, o asfalto sob meus pés ainda
úmido da chuva da madrugada, misturada ao sangue espesso que forma
poças densas ao redor da carcaça. A pele do cisne — ou o que restou dela
— está dilacerada, rasgada em buracos irregulares, como se mãos ou garras
tivessem cavado sem cuidado, só pelo prazer de destruir. As bordas das
feridas são irregulares, enegrecidas, cheias de fiapos de carne pendurada, e
o contraste com o branco das penas manchadas de ferrugem e sangue é
grotesco, quase hipnótico.
Me abaixo um pouco, ignorando o cheiro metálico e ácido que já me
sobe pela garganta, e passo os olhos lentamente por cada laceração, até que
— ali, entre dois feixes de músculos cortados — encontro exatamente o que
eu esperava.
A porra de um QR code.
Entalhado de forma grosseira, mas ainda assim funcional, queimado,
marcado diretamente na carne, a assinatura sádica de quem fez isso. Engulo
seco, sentindo o coração martelar no peito, e puxo o celular do bolso da
calça. Minhas mãos não tremem, mas talvez devessem.
Aponto a câmera e escaneio o maldito código.
A tela pisca, carregando devagar, muito ciente da tensão que está
criando, até que uma página branca finalmente se abre diante de mim.
No centro, uma única mensagem:
Será que Declan St. Clair sente falta dela?
10 DECLAN ST. CLAIR
Presente
A presença do detetive Clay no hall de entrada do prédio do Killian
não parece certa. Ele destoa do mármore polido, das plantas ornamentais
cuidadosamente aparadas e do cheiro discreto de perfume caro que sempre
impregna o ar desse prédio, como uma camada invisível de superioridade.
Clay tem um bigode grande demais, desalinhado, que parece ter saído de
uma década onde homens ainda acreditavam que essa era uma marca de
autoridade. O cheiro dele é o oposto do ambiente: forte demais, um café
queimado, amargo, misturado com o suor que se acumula sob o colarinho
amarrotado da camisa azul-clara do uniforme.
Ele se move devagar, como quem quer parecer metódico, mas o olhar
dele — estreito, clínico — vasculha o hall com aquela precisão de quem já
se habituou a reconhecer sangue no carpete antes mesmo que a razão
confirme. Não era pra ele estar aqui. Nós sempre resolvemos nossos
problemas com o Phantasma longe da polícia. É uma regra silenciosa:
quanto menos sirenes, melhor.
Mas uma das madames escandalosas que moram nesse prédio, uma
dessas viúvas ricas que usam salto alto até pra levar o lixo, viu o cisne
destroçado no chão e, claro, fez o que gente como ela faz: ligou para a
emergência antes que a gente pudesse fazer qualquer coisa.
O corpo do cisne ainda está lá, numa poça pálida de penas, quebrado,
afundado sobre si mesmo como uma escultura pós-moderna que ninguém
quis terminar.
— Vocês tiveram problemas com alguém nos últimos dias? — Clay
pergunta.
O tom é seco, indiferente, certo de que ninguém vai responder com
sinceridade.
Ele não olha pra mim. Os olhos dele param direto em Killian, como
um holofote.
— Belrose? — chama, a voz pesada, arrastando o nome de um jeito
que não esconde a aversão contida.
Killian está jogado na beirada do sofá de veludo do hall, com aquele
desleixo típico, os braços estendidos sobre o encosto ignorando totalmente a
tensão que existe aqui. Abre um sorriso irônico, preguiçoso, daqueles que
ele sempre usa quando quer parecer mais impenetrável do que realmente é.
— Tenho problemas com as pessoas todos os dias — responde, com
uma calma debochada que arranca uma faísca de desprezo no olhar do
detetive.
E não dá pra dizer que ele está mentindo.
Clay tenta disfarçar, mas é óbvio o revirar impaciente dos olhos. O
bigode vibra quando ele respira fundo, e o maxilar se contrai de leve,
mastigando a própria irritação. Acho que ele está de saco cheio da família
Belrose desde que Dex decidiu que seria uma boa ideia subir no palco do
evento do prefeito de New York e, com a convicção de um profeta,
confessar todos os seus assassinatos em voz alta.
Compreensível.
— Sabe onde o seu irmão estava ontem à noite? — Clay pergunta,
previsível, a voz mais áspera agora, escorrendo cansaço, como quem já
imagina a resposta.
Killian inclina a cabeça de lado, aquele movimento felino, de quem
não tem pressa pra nada, nem pra se defender.
— Não foi o Dex — diz, sucinto, seco, os olhos semi cerrados como
quem sabe exatamente o jogo que está jogando — Ele gosta de matar
pessoas mas não tem nada contra animais.
Clay franze as sobrancelhas grossas no centro do rosto, e por um
segundo o bigode parece um arame farpado tentando conter a expressão.
Ele solta um longo suspiro, o peito inflando sob o tecido amarrotado da
camisa.
— Só estou brincando, detetive — Killian acrescenta, inclinando-se
um pouco à frente, a voz mais baixa, mais cortante, quase íntima. — Você
não tem senso de humor?
Clay não responde. Nem pisca.
No fundo, acho que ele sabe. Que Dex é realmente responsável pelos
assassinatos que confessou alguns meses atrás, que toda essa farsa pública
foi só um espetáculo conveniente, um teatro grotesco pra saciar o apetite
voraz da mídia e enterrar a verdade sob quilos de dinheiro, influência e
sobrenomes que a cidade inteira teme.
Ele sabe, mas está preso nesse jogo sujo, amarrado pelos cheques
gordos e as ordens que vêm de cima, tão bem passadas quanto os ternos que
nunca chegam até ele.
— O que vocês vão fazer a respeito do ocorrido?
O cabelo da senhora que pergunta é tão cheio de laquê que me sinto
instantaneamente transportado pros anos oitenta. Cada fio está cimentado
no lugar, quase num processo de petrificação química. A raiz está escondida
sob camadas e mais camadas de spray fixador, e o perfume que exala parece
pairar ao redor dela como uma nuvem radioativa.
Ela está de pé, com um casaco de pele branca que reluz sob a luz fria
do hall, os saltos finos e agressivos batendo no mármore como um protesto
contra o caos que se instalou temporariamente na sua preciosa rotina. O
olhar carregado de indignação passa por Clay, por Killian, por mim —
como se todos nós fôssemos responsáveis diretos pelo fim da paz social
desse templo dourado onde ela vive.
— É um absurdo que algo assim aconteça em uma área tão nobre de
New York… — ela continua, alongando o "nobre" como quem faz questão
de lembrar o quão exclusiva e inalcançável é a vida que leva.
Clay limpa a garganta e ajeita a postura. Dá um passo à frente,
encarnando aquele papel burocrático e inútil que a polícia de New York
cumpre tão bem quando precisa acalmar os ânimos da elite histérica.
— Estamos verificando as câmeras de segurança desse edifício e dos
prédios próximos — ele responde — Vamos manter uma viatura por perto
nas próximas semanas.
Seguro uma risada, porque essa é a promessa vazia de sempre: um
carro policial estacionado na esquina, um policial comendo rosquinha no
banco de trás, fingindo vigilância enquanto todo mundo segue ignorando o
fato óbvio — quem quer matar ou destroçar, mata e destroça, mesmo sob a
luz fluorescente de um sinalizador policial.
A senhora arregala os olhos, como se a ideia de uma viatura plantada
em frente ao prédio fosse quase tão ofensiva quanto o próprio cisne morto
no pátio.
— Uma viatura? — ela repete, escandalizada — Isso vai atrair
atenção indesejada para o prédio!
E aí está: não é sobre segurança.
É sobre aparência.
Sobre manter o verniz intacto, a ilusão de perfeição que sustenta esse
castelo de cartas onde todo mundo finge que as garras e os dentes não
existem.
Killian ri baixo ao meu lado, um som abafado e cínico, passando a
mão pelos cachos desalinhados, fazendo essa cena toda parecer uma piada.
— É o procedimento padrão, senhora — Clay responde, quase sem
mexer os lábios.
Mas a senhora de laquê e casaco de pele não parece satisfeita. Aperta
mais a bolsa de couro italiano contra o corpo e dá meia-volta, os saltos
martelando o mármore com violência, querendo pregar cada passo no chão.
Clay acompanha o movimento dela com um olhar enviesado, mas não
diz nada.
— Nós vamos entrar em contato assim que tivermos mais
informações — finaliza, girando nos calcanhares, ansioso para se livrar do
olhar dos moradores.
As solas gastas dos sapatos ecoam pelo hall silencioso enquanto ele se
afasta, os olhos ainda varrendo o chão, torcendo para tropeçar em mais uma
evidência podre que todos fingimos não ver.
Assim que Clay dobra o corredor e some do campo de visão, Killian
se levanta e solta o ar devagar.
— Às vezes sinto vontade de matá-lo — ele sussurra, e o tom não é
uma piada completa, mas também não é uma ameaça.
É uma constatação.
— Você sente vontade de matar qualquer um.
Killian dá de ombros.
— Eu nunca senti vontade de te matar.
— Vindo de você, isso é quase uma declaração de amor — debocho.
11 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Passo o resto da tarde tentando destrinchar o QR code que o
Phantasma deixou pra mim. Killian saiu pra uma luta e o apartamento está
mergulhado numa penumbra confortável, iluminado pela tela do meu
notebook e pelas luzes fracas da cidade que entram pelas frestas da
persiana. A tela no meu colo está dividida em duas: Metade com uma
centena de códigos abertos e a outra metade com o grupo de mensagens dos
cisnes rolando.
OLÍVIA: Onde acham que ele achou um cisne?
OLÍVIA: Tipo, eu sei que tem um monte deles no Central Park, mas não é meio estranho
que ninguém tenha visto uma pessoa sequestrando um cisne no *central park?*
O arquivo é uma armadilha sofisticada, mas eu não esperaria menos
dele.
O Phantasma nunca joga limpo.
Cada camada de criptografia é uma provocação: você é bom o
bastante, Declan?
CHUCK: posso conseguir as câmeras de segurança de um dos hóteis do meu pai
CHUCK: aquele que fica em frente do central park
CHUCK: mas eu duvido que ele tenha pegado esse bicho lá…
Eu começo pelo básico: quebro o código em pedaços menores, como
quem desmonta uma bomba. Primeiro removo os mecanismos óbvios,
aqueles que qualquer hacker de primeira viagem tentaria usar pra despistar
ou confundir.
Embaixo dessa camada, encontro outra, mais espessa, mais suja.
Ele quer me cansar.
Quer que eu erre.
Mas eu conheço o jogo.
REID: vai ver ele é dono de alguma fazenda
REID: um criador de cisnes, talvez?
MELISSA: um cisne de estimação?
DEX: quem é que tem um cisne de estimação?
OLÍVIA: @dex, você tem uma PORCA de estimação
Começo a procurar falhas. É assim que se vence: não na força, mas na
paciência. Enquanto a lata de energético esquenta ao meu lado, sigo
testando atalhos, forçando passagens, procurando por aquela falha mínima.
A ponta dos dedos desliza pelas teclas, quase no automático, enquanto a
mente trabalha em outra frequência, prestando atenção naquele atraso
microscópico entre um pacote de dados e outro, naquela resposta que
demora um pouco mais do que deveria.
Não é sorte.
Não é acaso.
É cálculo.
DEX: a hello kitty é nossa funcionária
DEX: e eu nunca desmembraria a coitada daquele jeito
Dou uma pausa para digitar uma mensagem.
DECLAN: o Killian disse que você prefere matar gente do que animais
DEX: e eu não estou errado……….
Forço mais uma passagem.
E então volto ao começo.
E repito tudo de novo.
Dou um gole no energético que já perdeu boa parte do gás. O gosto
raspa na garganta, mas não me importa. Continuo memorizando atalhos,
forçando quebras, desviando de armadilhas escondidas, porque é claro que,
como em todas as outras vezes em que fracassei nessa missão, ele colocou
camadas falsas, loops que poderiam me prender em labirintos eternos.
A barra de progresso avança.
Lenta.
Tensa.
Desafiadora.
E então… uma fissura.
Um micro delay no tempo de resposta.
Quase imperceptível.
Aperto os olhos, aumento o tempo de execução e vejo a falha: uma
sequência quebrada de autenticação. Pequena demais pra ser notada por
qualquer idiota, mas suficiente pra mim.
MELISSA: vocês acham que ele quis dizer….
REID: que quer ver todos nós mortos?
CHUCK: kkkkkkk (sim
A primeira camada do código se desfaz, como uma casca que se parte
quando você sabe exatamente onde pressionar. Por trás dela, surge uma
sequência de letras e números completamente embaralhada, uma linguagem
estranha, feita pra esconder a mensagem real de quem não sabe o que está
procurando.
Mas eu sei.
Em poucos segundos, traduzo aquilo pro que realmente significa,
desmontando a armadilha sem precisar pensar muito.
O coração começa a acelerar, não de ansiedade, mas de excitação.
Porque, por trás de todo esse jogo, de toda essa ameaça, de toda essa
violência, tem uma coisa que nunca muda: A sensação de estar à beira de
uma descoberta. De ter as mãos exatamente na borda de algo que ninguém
mais conseguiu alcançar.
OLÍVIA: Foi simbólico pra caralho
OLÍVIA: deixar de matar pessoas pra matar cisnes
MELISSA: acham que ele teve problemas com a polícia?
MELISSA: matar animais é bem mais discreto que matar pessoas
Um sorriso surge no canto da minha boca. Inclino o corpo pra frente,
os olhos afundados na tela, e deslizo os dedos pelo teclado, firme,
metódico. O código se parte sem fazer barulho, mas eu ouço o som, mesmo
assim. Como vidro que racha sob pressão, exato, limpo, inevitável. E então,
como um organismo que respira quando sente que está sendo tocado, o
sistema se move.
Uma pasta aparece no centro da tela, sozinha, imóvel, como se
sempre tivesse estado ali, invisível, só esperando que eu soubesse onde
pressionar.
0429.
O número pisca devagar, sem pressa. Fico parado um segundo a mais
do que deveria, com os dedos suspensos no ar, o peito firme, a respiração
curta. Então clico. Dentro, não há nada que chame atenção. Nenhum
arquivo pesado, nenhuma imagem, nenhum texto. Só um áudio,
comprimido, pequeno, simples, como um bilhete enfiado no vão de uma
porta: não é um grito, é um sussurro.
Solto o ar pela boca, puxo o fone jogado ao lado do notebook, coloco
no ouvido.
Dou play.
A voz modificada preenche o espaço como um sopro de ar gelado:
— Impressionante, St. Clair. Só demorou dois meses pra quebrar o
meu código.
Reviro os olhos diante da provocação.
E então, silêncio.
Um silêncio inteiro, redondo, que ocupa mais espaço do que o som.
Nenhum ruído de fundo, nenhuma respiração, nenhum traço que eu consiga
agarrar de imediato.
Mas não paro.
Pauso, volto, ouço de novo.
E de novo, de novo, de novo.
Até que eu percebo.
Bem no fundo, quase engolido pelo vazio, tem um zumbido.
Fraco, insistente.
Não é um ruído de ambiente. Não é um defeito.
É uma assinatura.
DEX: @declan consegue dar uma olhada nos arquivos da polícia?
DEX: não sabemos como anda o caso dos assassinatos da mayfair
Não respondo a mensagem.
Aumento o volume, fecho os olhos, isolo a frequência, corto o
excesso, deixo só o que interessa.
E lá está.
Uma sequência de tons, escondida, meticulosamente colocada, como
um segundo código enterrado sob o primeiro, esperando que alguém
soubesse onde procurar.
Respiro fundo, o sorriso voltando, menor, mais contido, mais
satisfeito.
Traduzo os tons um a um e, pouco a pouco, as notas viram caracteres.
Simples.
Limpos.
Diretos.
Resultam em um único endereço da deep web.
Um daqueles que não aparecem no Google, não vivem na superfície,
não respiram à luz. Só se acessam com o navegador certo e a consciência
plena de que, dali pra frente, não tem volta. Fico um segundo parado,
olhando pra sequência, a respiração solta, os músculos relaxados.
Ainda não sei se é um convite ou uma armadilha.
Mesmo assim, copio o endereço, abro a janela segura, reforço as
camadas de anonimato e forço a conexão.
A tela fica preta.
Um segundo.
Dois.
E então, uma linha branca aparece, simples, fria, como uma cicatriz
digital: Digite sua mensagem.
Só isso.
Nenhuma imagem, nenhum vídeo, nenhum rosto. Só esse espaço
vazio, me fazendo imaginar o Phantasma do outro lado, sentado, esperando,
paciente, sem pressa, sem medo.
Filho da puta.
Encaro as teclas, os dedos pairando no ar por tempo demais. Sei que
receber uma mensagem minha é exatamente o que ele quer, mas mordo a
isca e digito:
Acha que pode me assustar com a porra de um animal morto e perguntas
sobre a minha mãe? Eu te achava mais interessante quando usava
cadáveres de verdade.
A tela permanece preta, imóvel, silenciosa, como se aquilo fosse só
mais uma piada, mais um enigma de merda, mais uma armadilha que
termina em absolutamente nada. Mas então, lentamente, as palavras
surgem, frias, calculadas, como um sussurro que atravessa quilômetros até
me encontrar:
Seu pedido é uma ordem, St. Clair.
Posso começar o massacre quando quiser.
Escrevo mais uma mensagem:
A polícia tá na sua cola, não tá?
É por isso que parou de matar pessoas
Ele não demora pra responder:
Eu parei?
Uma risada incrédula escapa da minha garganta. Só isso: duas
malditas palavras. Simples, secas, suficientes para travar minha respiração
pode um segundo inteiro. Antes que eu possa digitar uma resposta, o cursor
pisca duas vezes e a minha tela apaga.
Franzo o cenho.
Aperto o botão de ligar uma vez, mas nada acontece. Aperto de novo,
com mais força, sem resultado. Puxo o cabo, desconecto a bateria, viro o
notebook nas mãos, sentindo a carcaça quente demais, quase febril.
Demorou alguns segundos para perceber. O filho da puta me deu
acesso ao código, mas me expulsou de lá no segundo exato que quis.
Fecho o notebook com força, o estalo seco cortando o silêncio do
quarto.
Mesmo quando eu acho que venci, esse desgraçado está sempre um
passo na frente.
12 CHARLOTTE SPARKS
Presente
A mariposa que Declan tatuou no meu antebraço ainda está aqui.
Depois da festa, quando voltei pra casa, fui direto pro banheiro. Tirei
a roupa no escuro, deixando que cada peça caísse pelo caminho, tentando,
de algum modo, ir me desfazendo da noite junto com elas. Entrei no
chuveiro sem pensar, deixando a água quente correr pelos ombros, pelos
braços, pelo corpo inteiro, até meus músculos relaxarem.
Várias vezes, com a palma aberta, considerei pegar a esponja
pendurada na parede e esfregar o desenho até não sobrar mais nada. Até
arrancar cada traço bonito que ele deixou ali, tentando apagar junto com a
tinta tudo o que ele causa em mim.
Não fiz nada disso.
Na frente da sala, o professor Adrian Holt ergue um dos dedos, num
gesto rápido e silencioso, me chamando para fazer a correção da minha
prova.
Sinto meus pensamentos evaporarem. Dou um sorriso discreto na
direção dele, ajeitando a postura, e me levanto, os passos firmes, tranquilos,
ciente de que não preciso me preocupar.
Cultura Humanística sempre foi a minha melhor matéria.
Adrian me espera com aquele sorriso educado de sempre, a gravata
ligeiramente torta, as mangas da camisa enroladas até os cotovelos, sempre
pronto pra mais uma aula.
— Encontrei com o seu pai ontem — comenta, assim que entrego a
prova, o tom leve, quase íntimo, enquanto me lança aquele sorriso
simpático que Adrian distribui pra todo mundo, mas que, de alguma forma,
sempre parece pessoal.
Normalmente, os professores da Mayfair não permitem esse tipo de
proximidade com os alunos. O distanciamento é quase um protocolo
silencioso ali, como se falar demais fosse quebrar alguma regra invisível de
superioridade intelectual.
Mas já estive com Adrian em tantos seminários, workshops, palestras,
que quase o considero como um primo distante. Além disso, sei detalhes
que a maioria não sabe — que ele já estagiou no Louvre, que ele tem um
filho de 2 anos, que suas irmãs são duas pintoras renomadas. Minha mãe já
comprou pelo menos um ou dois quadros delas, peças enormes, abstratas,
que hoje descansam nas paredes frias da nossa casa.
— Adoro aquele cara — solta, casual, como quem fala sobre um
velho amigo.
Eu não deixo o espanto chegar até o rosto.
Treinei tanto essa neutralidade que, às vezes, até esqueço como deixar
transparecer qualquer coisa.
— É mesmo? — pergunto, mordendo de leve o lábio inferior
enquanto o vejo corrigir a primeira questão.
Ele marca um enorme “certo” com a caneta vermelha, aquele traço
definitivo que me tranquiliza sem que eu precise admitir que estava
esperando por isso.
— Onde? — pergunto, mantendo o tom despretensioso, como quem
só quer alimentar uma conversa educada, mas, por dentro, meu cérebro já
começa a acelerar, pulando etapas, puxando fios soltos.
— Ele estava em Wall Street — responde Adrian, enquanto vira a
folha da prova — numa das casas de câmbio.
Enquanto ele corrige mais uma questão — outro “certo”, claro — eu
continuo parada ali, fingindo paciência, mas com a mente já disparando,
organizando as informações, tentando entender o que meu pai estava
fazendo numa casa de câmbio. Não que isso seja algo anormal para um
homem como Richard Sparks, mas ainda tem algo nessa história que não
faz sentido.
Não entendo porque ele e minha mãe ainda não deram as caras em
casa.
Talvez estejam viajando, se dando um tempo, como um casal normal
faria.
Mas…
Quando foi a última vez que eles fizeram algo assim?
Cruzo os braços na frente do corpo e deposito toda minha atenção na
prova que o Doutor Holt corrige. Mais alguns símbolos de certo depois, ele
me entrega o papel com um sorriso no rosto.
— Outro dez — ele diz — Impressionante.
Dou um sorriso agradecido e volto pra minha carteira, pegando a
minha bolsa pra sair da sala. Vejo os olhares impressionados dos meus
colegas e tenho certeza que querem perguntar como eu consigo:
Desempenho máximo no time das líderes de torcida, organizadora das
melhores festas da Mayfair, uma vida social agitada e notas impecáveis em
todas as matérias que me dispus a cursar nesse semestre.
Se eles fossem filhos de Celeste Sparks, saberiam como eu consigo.
Saio da sala, apoiando minha Hermès de crocodilo no antebraço, os
dedos ajustando automaticamente a alça, sentindo a textura da pele
perfeitamente tratada sob a palma da mão — macia, fria, resistente.
Ainda me lembro do dia em que minha mãe me deu de presente.
Era o meu aniversário de dezoito anos. Ela me entregou a caixa
enorme, embrulhada com aquele laço impecável que só as vendedoras da
Hermès sabem fazer, e disse, com aquele sorriso satisfeito, como quem
compartilha um segredo de família: “É uma das mais raras do mundo.”
Depois acrescentou, com aquele tom casual que sempre usa quando
fala de cifras indecentes: “Vale uma pequena fortuna.”
Eu não perguntei o quanto. Na época, achei bonito. Eu nunca fui a
favor da crueldade animal, dessas práticas brutais disfarçadas de luxo,
mas… Bom, os crocodilos que foram mortos pra que essa bolsa exista não
vão se importar se eu desfilar com ela por aí.
O vento frio me acerta assim que saio do prédio, cortante, e puxo o
casaco mais junto ao corpo, apertando os braços ao redor de mim mesma
enquanto caminho pelo estacionamento quase deserto. As luzes dos postes
lançam manchas amareladas sobre o asfalto escuro, criando sombras
alongadas e deformadas que parecem se mover ao meu redor, mesmo
quando tudo está parado.
Pego o celular, disco o número do meu pai pela enésima vez e espero.
O toque soa alto demais no meio daquele vazio, cada repetição como uma
batida oca dentro da minha cabeça, até ser abafada pela voz indiferente da
caixa postal. Não espero pelo sinal. Desligo antes que a voz eletrônica de
Richard me peça pra deixar uma mensagem. Tento minha mãe, só pra
confirmar o que já sei, e recebo o mesmo silêncio.
Guardo o telefone de volta na bolsa e sigo andando, os saltos dos
meus sapatos batendo ritmados no chão, quebrando o silêncio pesado da
universidade vazia. Quando chego perto do meu carro, vejo ele antes
mesmo de realmente processar a cena: Killian, encostado na lataria, com
aquela pose desleixada que só ele consegue ter, braços cruzados sobre o
peito, o sorriso de sempre, meio preguiçoso, meio insolente, como se já
estivesse ali há muito tempo e soubesse que, inevitavelmente, eu também
acabaria aparecendo.
— Ainda aqui? — pergunto, destrancando as portas do carro com um
aperto no meu chaveiro.
— Estava costurando alguns cadáveres.
Faço uma careta de nojo.
— O maravilhoso mundo dos estudantes de medicina.
Nós não falamos muito, porque não temos tanto assunto assim. Eu sei
o que ele quer e, quando dou um passo na direção dele, é justamente o que
eu estou disposta a dar. Killian puxa meu corpo pra mais perto, o calor da
sua pele atravessando as camadas de tecido que ainda me separam dele, e
eu nem preciso perguntar se ele tem certeza que quer transar aqui — ele
nunca deixa dúvidas.
O sabor dele se espalha pela minha língua com a mesma falta de
delicadeza de sempre. Cigarro, menta artificial e aquela fúria silenciosa que
ele nunca esconde, como se cada beijo fosse só mais uma maneira de dizer
que não liga pra nada, nem pra mim. As mãos dele deslizam pela minha
cintura, apertando com força suficiente pra marcar, enquanto a língua força
passagem entre os meus lábios, e eu cedo sem resistência, me entregando
àquela brutalidade silenciosa que sempre define os nossos encontros.
Passo as mãos pelos ombros dele, afundando os dedos na gola do
moletom vermelho da Mayfair, puxando-o ainda mais pra perto, tentando
eliminar qualquer distância entre nós. O corpo dele está quente demais,
quase febril, e, mesmo através das camadas de roupa, consigo sentir o
batimento acelerado do peito dele, tão descompassado quanto o meu.
Killian já está abrindo o zíper da calça quando me vira de costas, me
empurrando com força contra a lataria do carro. A saia sobe rápido, as mãos
dele deslizando pelas minhas coxas, puxando a calcinha de lado com aquela
urgência impaciente que eu conheço bem demais.
A lataria fria arrepia a pele exposta, mas o choque é engolido pela
pressão dele atrás de mim, a respiração quente batendo no meu pescoço, as
mãos apertando meu quadril, ajustando meu corpo à vontade dele, me
transformando em uma extensão da necessidade que o domina.
Ele me penetra de uma vez, sem hesitar, com força, fazendo meu
corpo se projetar pra frente com o impacto, a respiração se desfazendo em
um gemido que não consigo controlar, abafado pelo vidro gelado do carro.
As investidas são rápidas, secas, sujas, o som do nosso sexo ecoando
abafado no estacionamento vazio, misturado ao barulho irregular da nossa
respiração e ao roçar frenético de pele contra tecido. Fecho os olhos,
tentando manter o equilíbrio, o corpo inteiro latejando no mesmo ritmo que
Killian dita, como se nada mais existisse.
Mas existe.
Existe… ele.
Abro os olhos de repente, a respiração presa no meio da garganta, e
busco instintivamente as vagas vazias no fundo do estacionamento, aquelas
que nenhum aluno quer usar, porque ficam bem embaixo de uma dezena de
árvores.
E lá está.
Parado, imóvel, uma silhueta fundida com a sombra projetada pelos
troncos.
O eco.
Meu corpo se enrijece num reflexo, mas Killian continua se movendo
atrás de mim, alheio à presença que agora se instala ali, como uma terceira
pele entre nós, invisível e inegável.
Por um segundo penso em empurrá-lo, em parar, em puxar a saia de
volta e correr dali, mas o pensamento não dura. Em vez disso, minha
respiração se acelera ainda mais, minha boceta se contraindo com uma
mistura de medo, adrenalina e uma excitação suja que eu não consigo —
nem quero — conter.
Fecho os olhos de novo, mas, dessa vez, eu me afundo ainda mais na
ideia: Como seria se não fosse o Killian me fodendo aqui, mas o meu eco?
Se fosse ele quem me empurrasse contra o carro, quem me segurasse
assim, com as mãos firmes marcando minha pele, com a respiração quente
no meu pescoço, com esse mesmo ritmo impiedoso, mas sem nunca ter se
anunciado, sem nunca ter dito uma palavra?
Penso nisso enquanto Killian se enterra mais fundo, as investidas
ficando mais rápidas, mais desordenadas, o corpo dele esmagando o meu
contra o metal gelado. Penso na forma como ele me observa, sempre à
distância, sempre sem dizer nada, querendo me consumir sem nunca
precisar me tocar.
Penso nisso e me deixo ir.
Me deixo perder, me deixo ser observada, possuída — não só pelo
homem atrás de mim, mas também pelo olhar invisível, fixo, perturbador,
que me observa à distância e que, de alguma forma, me conhece mais do
que qualquer um jamais conheceu.
E, por um segundo, o prazer que sobe pelo meu corpo se confunde
com esse pensamento sujo, irracional, doentio… e eu deixo.
Deixo acontecer, sem culpa, sem medo, sem resistência, enquanto
Killian se move atrás de mim, completamente alheio ao fato de que,
naquele exato momento…
Não é com ele que eu estou fodendo.
13 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Tenho certeza que o Doutor Legrand me internaria se soubesse que
observei Charlotte Sparks com outro cara no estacionamento da Mayfair. Eu
ainda me considero gentil, porque invadi os sistema da universidade depois,
só pra garantir que nenhuma câmera de segurança tivesse flagrado os dois.
Felizmente, a vaga dela no estacionamento fica num ponto cego das
filmagens.
Ainda não sei como me sinto sobre isso.
Queria parar de pensar nessa maldita, pelo menos por algumas horas,
mas ela continua voltando na minha cabeça. Pior ainda, a sensação de que
ela me viu continua voltando. Seus olhos estavam em mim o tempo todo
enquanto Killian entrava e saia de dentro dela.
Ela não parecia assustada. Parecia encantada com o próprio poder.
Fascinada com a forma como me prendia ali, como se eu fosse só mais uma
testemunha do culto que é Charlotte Sparks. Às vezes, eu juro que ela
gemia mais alto só pra mim. Como se soubesse que estava sendo assistida.
Como se quisesse que eu soubesse exatamente o som que ela faz quando é
fodida por alguém que não sou eu.
Maldita.
— Eu falei com o Phantasma depois que ele enviou o cadáver do
cisne pra gente — solto, quebrando o silêncio denso que paira na van, numa
tentativa patética de parar de pensar em Charlotte.
Quatro pares de olhos se viram ao mesmo tempo na minha direção,
rápidos, afiados, como lâminas sendo puxadas da bainha. Consigo sentir o
peso de cada um deles pousando sobre mim — o julgamento, a expectativa,
a desconfiança — mas não recuo. Só apoio o antebraço no joelho, os dedos
tamborilando devagar na borda do banco rasgado, enquanto encaro o
parabrisas sujo lá na frente, evitando a necessidade inútil de encontrar
qualquer um daqueles olhares.
Estava tentando fazer contato de novo antes de contar pra todo
mundo.
Queria resolver sozinho, sem precisar dividir as peças do tabuleiro
antes de saber onde cada uma encaixa. Mas, depois de quarenta e oito horas
sem dormir, o corpo esgotado, a mente girando em círculos viciados, dois
notebooks queimados — literalmente mortos, arrancados de mim como
extensões falidas do meu próprio cérebro —, só me resta isso: oficializar,
admitir.
Aceitar a minha derrota.
Por enquanto.
— Como? — Dex é o primeiro a perguntar.
— Consegui quebrar o QR code que estava na pele do cisne e
descobri um link de chat na deep web — respondo, a voz mais fria do que
pretendo, fazendo parecer simples e não a única maldita pista do Phantasma
que conseguimos em meses.
As luzes da rua atravessam as frestas da van, cortando os rostos em
faixas de sombra e claridade intermitente, todos congelados numa cena fora
do tempo, presos aqui, à espera de alguma coisa que não chega nunca.
— Nada rastreável — acrescento, antes que alguém abra a boca e
comece a despejar as expectativas de sempre, achando que sou capaz de
puxar o Phantasma pelo colarinho só porque achei um código.
Lá do fundo da van, Chuck se inclina um pouco, a voz soando
abafada entre os bancos:
— O que tinha no QR code? — pergunta — Você não chegou a
comentar.
Mordo o canto da boca.
— Um papo idiota sobre a minha mãe.
Killian, encostado ao meu lado, faz uma careta rápida, afundando
ainda mais no banco.
— Golpe baixo — Dex murmura.
Todos aqui sabem que a minha mãe se matou.
Sabem que Lana St. Clair, a mulher que estampou capas de revista no
mundo inteiro, que foi musa de designers que hoje nem estão mais vivos,
que era conhecida pelos ossos marcados e pela beleza etérea que parecia
intocável, terminou sozinha, trancada no quarto, com mais cocaína e
comprimidos na corrente sanguínea do que palavras. Sabem que, no fim, a
supermodelo perfeita virou só mais uma nota de rodapé, uma mulher
despencada de si mesma, uma notícia velha, um corpo encontrado muito
tarde num quarto decadente.
E o Phantasma também sabe.
— Talvez a gente devesse falar com a polícia — murmura Chuck, a
frustração escorrendo pelo tom de voz feito algo viscoso, difícil de conter.
Lanço um olhar rápido na direção dele, encostado no banco traseiro, o
rosto meio escondido pela sombra que a luz falha da van projeta. Ele já
pintou o cabelo de novo. É preto dessa vez, um preto artificial que brilha
estranho sob a luz da lua que entra suavemente pelas janelas de trás.
— Tem mais de dois meses que esse cara anda chantageando a gente
e nós não sabemos nada sobre ele — completa, irritado.
Os dedos de Dex tencionam ao redor do volante, as juntas ficando
brancas por um segundo, até ele soltar um suspiro curto, quase inaudível.
— Você não conseguiu se lembrar? — pergunta, sem tirar os olhos da
estrada, mas com aquele peso na voz que deixa claro que não é só uma
pergunta.
É uma cobrança.
Chuck solta o ar pela boca, lento, exausto, como se já tivesse repetido
essa mesma frase em voz baixa pra si mesmo dezenas de vezes.
— Não. Aqueles dias antes da corrida são um borrão.
Fico olhando pela janela, o vidro sujo, arranhado, distorcendo as luzes
da rua que passam como fantasmas.
— Se a gente falar com a polícia, ele também pode — Reid pontua, o
tom seco, prático.
Dou de ombros, sem nem disfarçar o desdém.
— Tecnicamente, a polícia já sabe que nós somos assassinos —
aponto com o queixo para Dex, sentado ao meu lado — Obrigado, chefe.
— Eu disse que eu era um assassino, não que vocês eram — rebate.
— Se eles acreditassem mesmo nisso, teriam te enfiado numa jaula —
solta Killian, o tom quase divertido.
Então se inclina um pouco pra frente, a sombra do capuz caindo sobre
o rosto, os olhos cortantes:
— Mas o Phantasma pode muito bem ter provas incontestáveis. Nós
não sabemos quem ele é, não sabemos onde ele está, e ele parece conhecer
todo mundo aqui muito bem.
Um silêncio derrotado toma conta da van, pesado, espesso, se
infiltrando em cada canto como uma fumaça densa que ninguém tenta
dissipar. Afundo meu corpo no banco, deixando a cabeça recostar no
estofado velho e áspero, o tecido arranhando a pele da nuca, enquanto solto
o ar devagar, sem nenhuma palavra motivacional no meu repertório.
Nem tento procurar uma.
Eu poderia dizer que é questão de tempo até descobrirmos quem é
esse cara. Poderia soltar aquela frase clichê de filme ruim, algo sobre o
inevitável, sobre a nossa inteligência, sobre como sempre encontramos um
jeito
Mas não.
New York é a porra de uma cidade gigantesca.
Pode ser qualquer um.
Literalmente qualquer um.
Um professor da Mayfair, sentado tranquilamente agora mesmo na
sala de aula, escrevendo fórmulas inúteis numa lousa que ninguém presta
atenção.
Alguém que nós fodemos no passado e acha que nos conhece o
suficiente pra querer destruir.
Poderia ser alguém que perdeu tudo por causa de um acordo que
nossos pais assinaram, um funcionário demitido sem justa causa, um
investidor quebrado, um desses anônimos furiosos que acumulam ódio
como quem coleciona moedas.
Ou…
Poderia ser pior.
Poderia ser um de nós.
Afasto o pensamento, como quem empurra um objeto cortante pro
fundo de uma gaveta, sabendo que ele ainda está lá, afiado, esperando o
momento certo pra ferir.
Um arrepio desagradável sobe pela minha nuca, como um fio gelado
passando devagar pela espinha, e instintivamente levo a mão até o pescoço,
tentando dissipar a sensação, mas ela permanece, cravada.
Acho que esse é um dos meus maiores pesadelos.
Posso não ser um especialista em demonstrar sentimentos — nunca
fui —, mas os cisnes são, de algum jeito estranho e disfuncional, a única
família que eu conheci de verdade. Não a biológica, não aquela fachada de
álbuns de fotografia e festas de aniversário onde as pessoas se abraçam e
dizem coisas bonitas, mesmo que não as sintam.
Mas essa aqui.
Essa família é feita de gente quebrada, suja, perigosa, que não precisa
fingir que é boa, mas que, de alguma forma, sempre esteve ali quando
importava.
Fecho os olhos por um segundo, respirando fundo, e empurro de novo
o pensamento pro lugar mais fundo e escuro da minha mente, aquele onde
guardo todas as coisas que não posso me dar ao luxo de sentir agora.
Depois, abro os olhos devagar, como quem volta à superfície de um
lago gelado, puxo o capuz sobre a cabeça e deslizo a mão até a mochila
jogada ao meu lado. O zíper range baixo, quebrando o silêncio denso da
van, enquanto puxo meu notebook, apoiando-o sobre as pernas, os dedos já
se movendo sozinhos sobre o teclado, tão acostumados à rotina que não
preciso nem pensar.
Abro o programa de rastreamento, a interface escura se iluminando
com pequenas linhas de código que correm pela tela como veias pulsantes.
E então, ali: o sinal da air tag que colocamos no carro de Gregory
Lancaster. Quarenta e três anos, milionário do ramo de academias, espancou
a própria filha até a morte quando ela tinha só sete anos de idade, o que é
quase pessoal pra mim.
Abro um meio sorriso, frio, automático, como quem reencontra um
velho conhecido que não via há tempos e que, agora, finalmente, vai poder
cumprimentar como deve.
— Ele saiu — aviso, a voz baixa, quase sem inflexão, mas o
suficiente pra que todos me ouçam.
E, automaticamente, o clima muda.
Uma corrente elétrica invisível percorre cada um dos corpos aqui
dentro, acordando músculos, acelerando corações. Os olhos se encontram
brevemente, sem precisar de ordens ou discursos. Reid e Chuck colocam
suas máscaras no rosto — um lobo e um esquilo, que combinam
perfeitamente com o coelho de Dex, o gato de Killian e o meu urso — e
então estamos prestes a fazer o que sabemos de melhor.
O que nos trouxe até aqui e o que, inevitavelmente, vai nos levar até o
fim.
Enfiar facas.
Desmembrar corpos.
Apagar, pedaço por pedaço, aquilo que nunca deveria ter existido.
E, por um segundo, nesse intervalo entre a decisão e a morte, a calma
desce sobre mim como uma lâmina bem afiada.
14 DECLAN ST. CLAIR
Passado
Mamãe está gritando com o papai de novo.
Eu já deveria ter me acostumado, porque os momentos em que isso
não acontece têm se tornado tão raros quanto os sorrisos genuínos dela.
Ela passa o dia inteiro fora de casa, enfurnada em agências de
modelo, batendo ponto em castings pra novatas que prometem tudo e
entregam nada. Vivendo na esperança frustrada de um retorno que nunca
acontece — de voltar a ser a Lana St. Clair que desfilava pra Saint Laurent
em Paris e estampava capas da Vogue Itália.
Mas ela nunca consegue.
As marcas não a convidam mais para desfiles.
Os fotógrafos, antes bajuladores, agora reclamam das linhas finas ao
redor dos olhos dela, como se o tempo tivesse sido um erro que ela
cometeu. Aos trinta e poucos, Lana se tornou um retrato de tudo o que a
indústria odeia admitir: que beleza tem prazo de validade.
Meu pai, tentando aliviar a queda livre, vive dizendo que ela pode ser
o rosto da Clairé d’Or, mas Lana é orgulhosa demais pra aceitar qualquer
coisa que não tenha conquistado.
Ela sempre diz que a culpa é minha.
Diz que depois que engravidou tudo começou a desmoronar.
Que as campanhas cessaram, os contratos evaporaram, e a barriga
deformou o corpo que ela levou anos pra esculpir. Ela diz que roubei a
juventude dela e destrui a sua carreira. Já a ouvi dizer, mais de uma vez, que
se tivesse uma única chance de voltar no tempo, ela abortaria.
Eu não sabia o que era abortar — a palavra soava grande demais pra
mim, pesada demais pra caber na minha boca de criança. Tive que
perguntar a um dos meus professores, sem entender por que aquilo me doía
tanto.
A diretoria chamou minha mãe depois disso e ela não diz mais que
queria ter me abortado.
Agora, repete que deveria ter cortado o mal pela raiz.
Mas dá na mesma, porque eu sei que o mal sou eu.
Papai nunca rebate.
Ele só ouve.
A verdade é que ninguém ali nunca me quis.
Nem a mulher que me gerou.
Nem o homem que encheu todas as vitrines de New York com ouro,
mas nunca soube dar brilho a um lar.
15 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Milane, minha golden retriever de doze anos, late quando ouve
batidas na porta.
Estico o corpo devagar, os músculos protestando quando tento me
erguer. Só então percebo que adormeci aqui, no sofá da varanda do meu
quarto, encolhida entre almofadas caras.
O som firme dos saltos da governanta preenche o corredor com
aquele ritmo eficiente que sempre me irritou — metódico demais, neutro
demais, imune ao caos que se espalha por essas paredes.
No meu estado sonolento, quase consigo ouvir…
A voz do meu pai, grossa, autoritária, chamando meu nome da
escada.
A risada da minha mãe, cristalina, atravessando o saguão enquanto
ela pendura o casaco.
Por um segundo, quase acredito que eles finalmente estão em casa.
Quase.
O estalo seco da porta se abrindo corta a minha ilusão, e a voz da
governanta soa baixa, respeitosa, mas estranhamente tensa:
— Pois não?
Não consigo ouvir a resposta, mas o tom grave e burocrático de um
homem se insinua pela sala, frio, oficial, carregando a força de uma
sentença.
Me forço a levantar, o coração batendo mais rápido. Caminho até o
hall, Millane me seguindo com as patas arrastadas, ciente, também, de que
algo está errado. Quando viro no final do corredor, vejo o homem de
uniforme — o oficial de justiça — parado na porta, os olhos percorrendo o
interior da casa.
Ele segura uma pasta grossa, de onde tira um envelope pardo e um
documento que lê em voz alta, com aquela frieza impecável de quem já fez
isso dezenas de vezes antes.
— Estou procurando o senhor Richard Sparks e a senhora Celeste
Sparks.
Eu cruzo os braços, a pele arrepiando sob o tecido fino da blusa, e
respondo antes que a governanta tente proteger o teatro da nossa família:
— Eles não estão.
O homem percebe minha presença.
— Você é filha deles?
Faço que sim, sem alterar a expressão.
Ele respira fundo, como quem repete um protocolo:
— Tem setenta e duas horas para desocupar a propriedade.
Minhas sobrancelhas se franzem no meio da testa, uma ruga que não
costumo permitir que exista, enquanto uma risada incrédula escapa da
minha garganta, seca, dissonante, como se meu corpo ainda não tivesse
entendido o que está acontecendo. A governanta me encara, os olhos
arregalados, a boca entreaberta, ameaçando dizer alguma coisa.
— O quê? — questiono, confusa.
Fico ali, parada, esperando que alguém — qualquer pessoa — me
diga que isso não passa de uma pegadinha mal elaborada, uma performance
barata, um erro grotesco de sistema, o tipo de coisa que pode ser resolvida
com um telefonema ou uma assinatura.
Mas não.
O homem não sorri, não vacila, não parece sequer considerar a
possibilidade de que eu não tenha entendido. Ele só repete, com aquela voz
grave e impessoal, como quem lê a previsão do tempo ou anuncia um atraso
em um voo:
— A propriedade foi executada. Os moradores têm setenta e duas
horas para sair.
Sinto o estômago se contrair, como se alguma coisa pequena e afiada
tivesse se alojado lá dentro e começasse a girar lentamente, cortando de
dentro pra fora.
— Eu ainda não entendi — dessa vez, minha voz sai mais baixa, mais
seca, não confusa, mas inútil.
O homem estende o envelope pardo na minha direção, o papel grosso
e pesado, com o carimbo oficial selando a sentença como uma cicatriz.
Não estendo a mão.
Só fico olhando para aquele pedaço de papel como se fosse uma
arma, como se, ao tocá-lo, tudo aquilo fosse se tornar ainda mais real.
Milane rosna baixinho ao meu lado, os pelos antigos eriçados,
tentando me defender. O oficial mantém o braço estendido, paciente, como
quem sabe que, no fim, não importa se eu aceito ou não.
O prazo corre de qualquer maneira.
Setenta e duas horas.
As palavras batem na minha cabeça como o tique-taque de um relógio
invisível.
Engulo seco, cruzo os braços com mais força, tentando manter tudo
no lugar, porque a única coisa que me resta agora é sustentar a postura, a
imagem, mesmo que tudo o resto esteja ruindo embaixo dos meus pés.
— Está tudo explicado no documento — ele completa, a voz já se
afastando da formalidade e entrando na indiferença, como quem quer
terminar logo com aquilo e seguir pro próximo despejo, pra próxima família
quebrada.
O homem se cansa da minha hesitação e recolhe o envelope e o
coloca em cima da mesinha de entrada, como quem larga um pacote
esquecido, e então se vira, caminhando de volta pra porta, os sapatos
batendo frios no mármore que, até ontem, parecia indestrutível.
Eu solto uma risada mais alta que a primeira, estridente, cortante,
como uma lâmina deslizando por uma superfície lisa demais.
Porque não tem como isso ser verdade.
Não pode ser.
A Belladonna, agência de modelos do meu pai, é a mais famosa dos
Estados Unidos — referência absoluta, desejada, invejada, a marca que
praticamente desenhou o padrão de beleza da última década.
As campanhas internacionais, os contratos milionários com grifes que
a maioria das pessoas só consegue pronunciar vendo anúncios em revistas
caras.
As fotos gigantes dele e da minha mãe, expostas em galerias e capas,
como dois deuses modernos, eternizados em preto e branco nas páginas que
alimentam a indústria da beleza.
Nós temos propriedades espalhadas por pelo menos vinte estados do
país — mansões, apartamentos, casas de veraneio que eu conheço desde
criança, cada uma com sua piscina de borda infinita, suas garagens cheias
de carros que provavelmente nunca nem foram dirigidos mais de uma vez.
Ele tem investimentos — dezenas deles — pulverizados em setores
que vão muito além do mundo da moda: tecnologia, hotelaria, esportes,
fundos privados que rendem cifras tão altas que nem dá pra acompanhar
sem uma equipe inteira de contadores.
Não tem como ele ter perdido essa casa.
Não a principal, não a que minha mãe projetou cada maldita curva, do
lustre central aos azulejos importados do banheiro da suíte.
Não a casa onde eu cresci ouvindo eles dizerem que nunca faltaria
nada pra mim.
O homem saiu pela porta, a ordem de despejo está sobre a mesa, e eu
continuo aqui, com o gosto metálico da humilhação se espalhando pela
boca, enquanto meu cérebro insiste em repetir, em loop, a mesma frase
inútil: Não tem como.
Não tem como.
Não tem como.
Mas tem.
E está acontecendo agora.
16 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Todas as minhas unhas estão roídas até a carne, os cantos vermelhos,
doloridos, alguns já começando a arder, porque passei a noite inteira
destruindo cada uma delas com os dentes, sem nem perceber. Agora,
escondo as mãos dentro das mangas do casaco de peles que peguei no
armário da minha mãe — o único lugar da casa que ainda parecia intacto. O
casaco pesa sobre meus ombros, quente demais pro clima de hoje, mas eu o
visto mesmo assim, como uma tentativa desesperada de parecer mais
adulta, mais fria, mais inatingível.
Sinto meu estômago roncar, um som oco, incômodo, que ignoro com
a mesma disciplina que tenho ignorado todas as outras necessidades básicas
desde que tudo começou a ruir.
Comer, agora, no meio desse caos, parece quase uma ofensa.
Me alimentar é admitir que ainda existe alguma rotina, alguma
normalidade, algum espaço para o corpo quando a cabeça já está sendo
esmagada pelo colapso silencioso da minha família. Ajeito o casaco, puxo a
gola pra cima, tentando me esconder dentro dele, e levanto os olhos.
Ali, à minha frente, está o prédio espelhado do Nexus & Co.
O maior escritório de advocacia de New York.
Uma torre fria, lisa, sem falhas, que reflete a cidade inteira com uma
precisão desumana, uma parede de vidro erguida entre mim e qualquer
chance de ajuda real. O nome prateado brilha sobre o mármore negro da
fachada, minimalista e letal, como tudo aqui.
Até onde eu sei, é ali que os advogados da família Sparks trabalham
— ou, pelo menos, trabalhavam, quando ainda havia uma família, um nome
que valia alguma coisa, contratos que precisavam ser protegidos, crises que
podiam ser abafadas com dinheiro e influência.
— Obrigada por ter vindo comigo — eu murmuro.
— Não foi nada — Reid força um sorriso na minha direção, mas
consigo ver nos olhos dele que percebe que estou no pior momento da
minha vida desde ontem. É por isso que ele me força a rir: — Sabe, eu
estava ansioso pra passar o dia inteiro enfurnado num escritório de
advocacia e com certeza o treinador não vai ficar puto comigo por ter
faltado um treino…
Eu balanço a cabeça em negativa, erguendo o dedo médio na direção
dele. Apesar disso, uma risada que não é falsa escapa dos fundos da minha
garganta. Eu balanço o corpo para frente e para trás, procrastinando.
— Não quero entrar — sussurro, baixinho — E se for verdade?
Reid foi a única pessoa pra quem tive coragem de contar que estou
sendo despejada. De alguma forma, é mais simples lidar com ele do que
com todos os outros. Sinto que ele é a minha única amizade de verdade, o
cara que ficaria mesmo que eu não tivesse nada pra oferecer. Bom, é
verdade, por isso ele está aqui.
Reid ergue os ombros, a jaqueta dos Dragons da Mayfair brilhando
diante dos primeiros raios de sol do dia. Observo nossos reflexos no prédio,
eu pequena e fina, ele alto e musculoso demais, uma verdadeira muralha,
caso eu precise de uma.
— Se for… — ele começa — Quanto mais cedo você descobrir a
bagunça que o seus pais fizeram, mais cedo pode resolver.
Solto o ar pela boca.
Não tenho outra escolha senão avançar, um passo incerto em direção
às portas giratórias de vidro que refletem minha própria hesitação de volta.
O ar-condicionado do saguão é frio demais e o som dos meus sapatos contra
o mármore polido parece inapropriado pra uma manhã tão silenciosa. Me
aproximo do balcão da recepção com o nome dos meus pais preso entre os
dentes como uma maldição, e o solto apenas quando a moça de blazer cinza
e sorriso engessado me pergunta a quem desejo ver.
Ela congela por um instante quando ouve meu sobrenome, e aquele
sorriso protocolar se transforma em algo mais tenso — o tipo de expressão
que antecede más notícias. Ainda assim, com dedos trêmulos, ela disca um
número interno, e em menos de dois minutos, um segurança alto e
impassível surge ao nosso lado.
Ele sequer pergunta quem somos.
— Vocês vão falar com o Dr. Caster — informa, quando as portas
espelhadas do elevador se abrem com um ding metálico.
Ele não nos acompanha. Apenas assente com a cabeça e aperta o
botão do térreo assim que saímos.
Eu troco um olhar com Reid e seguimos sozinhos. O corredor é
estreito, decorado com quadros que tentam parecer caros, mas não
convencem. Há apenas uma porta no final, preta, pesada, com letras
douradas gravadas discretamente: Caster & Associados.
— Eu vou te esperar aqui — Reid murmura.
Ele aponta para a única cadeira no hall minúsculo, estofada em couro,
onde se senta com um suspiro contido. Suas pernas longas ficam
comprimidas num ângulo desconfortável e, mesmo sentado, seus ombros
quase tocam nas prateleiras na parte mais alta da parede. Quando em pé, ele
mal cabe ali — aquele espaço foi feito para tornar qualquer um menor.
Assinto com um movimento breve, sem conseguir encará-lo por
muito tempo. Eu sei que Reid entende. Advogados de verdade não
compartilham informações com terceiros. Mesmo que esse terceiro seja
meu único ponto de apoio. Mesmo que meu coração insista que eu deveria
ter o direito de não entrar sozinha.
Mas não tenho esse luxo.
Inspiro pelo nariz, devagar, e levo uma das mãos até a madeira escura
da porta à minha frente. Dou duas batidas secas, quase formais, e fico
esperando. Por um momento, tudo que ouço é o zumbido abafado do ar-
condicionado e o leve estalo do relógio na parede.
Então, do outro lado, uma voz grave e impaciente ressoa:
— Pode entrar.
A maçaneta está fria contra a minha pele, e por um instante considero
a ideia estúpida de simplesmente não girá-la. Mas, como tudo nas últimas
vinte e quatro horas, minha vontade não faz diferença.
Entro.
O escritório tem aquele cheiro abafado de mobília antiga e
documentos arquivados há tempo demais. A madeira escura domina tudo:
paredes revestidas em painéis, a mesa larga e polida onde repousa um
telefone fixo — por um segundo sou transportada de volta pros anos 90 —,
uma luminária de bronze e um porta-canetas desnecessariamente luxuoso.
Uma estante de livros jurídicos ocupa a parede à esquerda, mais como
decoração do que por uso. As lombadas parecem novas demais. O carpete é
espesso, cinza-azulado, tentando abafar o som de passos indesejados.
O homem atrás da mesa me observa como se eu fosse uma cliente
difícil — ou pior, um problema. Tem cabelo grisalho penteado para trás
com precisão quase cirúrgica, óculos retangulares pendendo no meio do
nariz e um terno que grita advogado rico que odeia gente jovem. O relógio
em seu pulso é de ouro, e os olhos, castanhos escuros, têm a mesma frieza
impessoal de um obituário.
— Senhorita Sparks — Dr. Caster diz, sem se levantar. Sua voz soa
firme, cada palavra um veredito. — Sente-se, por favor.
A poltrona diante da mesa parece propositalmente desconfortável,
estofada em couro rígido, com encosto reto demais. Me sento mesmo assim.
As mãos dele se entrelaçam sobre a mesa, e um silêncio breve se instala,
carregado de algo que não sei se é pena ou tédio.
— Eu imaginei que você viria. Já foi informada da situação do seu
pai?
Mordo o lábio inferior com força o bastante para sentir o gosto
metálico do sangue ameaçando surgir. Imagino que vou soar ridícula
quando disser que não faço ideia do que está acontecendo na vida do meu
pai. Mas não vim aqui pra mentir. Não tenho energia pra sustentar fachada
alguma.
Respiro fundo.
O ar parece mais denso dentro daquele escritório.
— Ele perdeu nossa casa.
Dr. Caster confirma com a cabeça, sem surpresa, o que me faz sentir
que aquilo é só a superfície de uma ferida muito mais profunda.
— Um pouco pior que isso.
Meu coração tropeça dentro do peito. As palavras ecoam, mas
demoram a se traduzir em pânico. A sensação é de que estou afundando em
câmera lenta.
O que pode ser pior do que perder a própria casa?
O advogado se inclina para frente, os cotovelos apoiados na madeira
polida da mesa. Seu rosto não expressa empatia — só aquele cansaço de
quem já viu herdeiros ouvindo esse tipo de notícia mais vezes do que
deveria.
— O senhor Sparks estava passando por uma situação financeira
delicada nos últimos meses. Ele tentou manter você fora disso. Imagino que
não quisesse preocupá-la.
Claro que não.
O nome Sparks nunca deveria ser associado a dívidas.
— A Belladonna — ele continua, pausadamente, testando o impacto
das sílabas em mim — foi mencionada em uma investigação internacional.
Tráfico humano. Começou com o caso de uma modelo enviada para o norte
da Europa. Ela desapareceu.
Sinto um arrepio subir pela espinha, como se alguém tivesse aberto
uma janela invisível e deixado o inverno entrar no meu corpo. Me inclino
para frente, a testa franzida.
— O quê? — minha voz sai mais baixa do que eu gostaria. — Como
eu não soube disso?
A careta se forma quase por instinto, como uma máscara tentando
proteger minha incredulidade.
— Ninguém soube disso.
Se existe alguém em New York com os ouvidos sempre colados nas
paredes douradas da alta sociedade, sou eu. Nada escapa ao meu radar —
muito menos escândalos. Se meu pai estivesse envolvido em algo dessa
proporção, eu saberia.
— A investigação corre em segredo de justiça — ele me explica —
Seu pai sabia que a imagem da Belladonna estaria arruinada se isso vazasse
na mídia, então ele gastou uma pequena fortuna mantendo os jornalistas
calados. Mesmo assim, o juíz ordenou que a agência ficasse alguns meses
sem fechar contratos internacionais, de onde vem boa parte da receita.
— Ele gastou dinheiro subornando jornalistas e não conseguiu ganhar
de volta?
Dr. Caster move a cabeça em afirmativa.
— O senhor Sparks hipotecou algumas propriedades nos últimos
meses. A casa de New York foi uma delas.
Inclino o corpo pra trás, tentando criar distância entre mim e o que ele
acabou de dizer. Meus pulmões esquecem como funcionam por alguns
segundos. A sala gira sutilmente, como se o teto estivesse zombando de
mim.
— Mas, se quer uma boa notícia… — tenta, forçando uma leveza que
parece deslocada — seu pai afirma ser inocente.
Sinto o gosto ácido da fúria subir pela garganta.
A vontade de xingar se instala sob a língua, quente e pulsante.
— E onde esse desgraçado está? — minha voz sai baixa, mas afiada.
— Ele e sua mãe decidiram sair de New York antes da apreensão
oficial da casa. Acharam melhor evitar um escândalo…
— E me deixaram aqui pra limpar a porra da bagunça deles?
Ele me olha com algo próximo de compaixão. O tipo de olhar que me
dá náusea.
Arrebito o nariz. Não suporto pena. Nunca suportei.
— Os próximos semestres da sua faculdade estão pagos — ele diz,
fazendo parecer grande coisa. — Imagino que possa se instalar nos
dormitórios estudantis enquanto isso se resolve.
Faço uma careta instintiva, a simples ideia me ofende fisicamente.
Dormitórios da Mayfair.
Claro, eles não são ruins — nada em Mayfair é. A mobília é de design
escandinavo, os lençóis importados da Itália, e os banheiros têm até
aquecedor embutido no piso. Mas são pequenos. Impessoais.
O armário é uma piada de mau gosto. Mal comportaria meus casacos
de inverno, quem dirá metade do meu closet. Penso nas minhas malas de
viagem, nas caixas empilhadas com vestidos de gala e sapatos assinados, no
cheiro de couro, de perfume francês impregnado nos tecidos — tudo isso
esmagado entre quatro paredes estéreis e uma colega de quarto que acha
que pode ser minha amiga.
— Pode ser que as suas contas bancárias sejam bloqueadas com o
andamento da investigação, então reserve um pouco de dinheiro em
espécie. Seus pais vão voltar logo.
A frase paira no ar como fumaça venenosa, se enroscando no fundo
da minha garganta.
Meus pais vão voltar logo.
Como se isso fosse uma promessa reconfortante e não mais uma
sentença.
Como se eles não tivessem me deixado pra trás com os destroços e
um sorriso cínico no rosto.
Cruzo as pernas, apertando os joelhos com mais força do que o
necessário. Uma tentativa inútil de manter minha postura intacta enquanto
tudo ao meu redor implode em câmera lenta. O advogado continua me
observando com aquele mesmo olhar de quem já viu esse tipo de ruína
antes.
— É só temporário — ele acrescenta, se esforçando para tornar a
ideia menos patética.
Me levanto, ajustando a alça da bolsa no ombro. O couro preto range
suavemente. É o único som, além do barulho sutil do relógio de parede, que
de repente parece zombar da minha pressa em sair dali.
— Mais alguma coisa? — pergunto, com o que restou da minha
compostura empilhada nos ossos.
Dr. Caster hesita.
Depois, apenas nega com a cabeça.
Quando abro a porta, Reid se levanta de imediato. A expressão dele
não é de curiosidade.
É de cuidado.
— E aí? — ele pergunta.
— Já ficou sabendo? — eu brinco — Sou a mais nova moradora do
fundo do poço.
17 CHARLOTTE SPARKS
Presente
A minha situação é ruim.
Mas poderia ser infinitamente pior.
Os jornais ainda não descobriram sobre as suspeitas de tráfico
humano que circulam como serpentes invisíveis ao redor do nome do meu
pai.
Ainda não existem manchetes gritantes anunciando a ruína definitiva
da grande família Sparks, estampadas em capas de revista, impressas em
letras garrafais e fontes agressivas, enfileiradas nas bancas, espalhadas
pelos sites, replicadas até o enjoo, até que não reste nada além da nossa
desintegração pública.
Eu ainda consigo sair de casa sem ter que atravessar um mar de
repórteres histéricos, enfiando microfones e câmeras na minha cara,
berrando perguntas que ninguém quer ouvir, tentando capturar qualquer
fração da minha irritação para transformar em conteúdo.
Os alunos da Mayfair, com seus sobrenomes importantes e seus
futuros já garantidos, ainda não sabem da verdade. Ainda me olham da
mesma forma: com aquele respeito silencioso que não se questiona, aquela
admiração entediada que se dedica apenas aos que realmente pertencem.
Eles não sabem.
Que a minha casa está sendo esvaziada enquanto eu finjo que nada
mudou.
Que o império que sustentava minha vida está desabando em silêncio.
Que eu estou a duas assinaturas de ser uma garota sem teto.
Mas eu sou parte desse mundo.
Ainda sou.
E é exatamente por isso que estou aqui agora, depois de mais um jogo
dos Dragons, bebendo até que o álcool amorteça o suficiente para que o
meu cérebro esqueça, por algumas horas, que em menos de dois dias vou ter
que sair daquela casa.
— Quanto você já bebeu? — Sloane pergunta, tirando a garrafa de
cerveja da minha mão.
Eu dou um sorriso pra ela, erguendo os dedos, tentando pegar a
bebida de volta, mas meus reflexos estão ruins. Eu entendo a sua
preocupação: Essa não é uma festa oficial. O reitor não costuma se importar
quando, depois de um jogo, os alunos enchem o estádio com garrafas de
cerveja na mão e deixam as músicas do time de futebol tocarem, mas ele
fica irritado quando alguém perde a compostura.
Hoje, não estou dando a mínima pro que o reitor gosta ou não.
— Foram só umas três — respondo, a fala já meio arrastada,
embolada, as palavras escorregando da minha língua, sem mais estrutura
pra se manter de pé.
Estou mentindo.
Acho que já foram mais de dez.
Perdi a conta na terceira ou quarta garrafa, junto com a capacidade de
lembrar qual foi a última vez que fiz uma refeição completa e decente, sem
ser um punhado de amendoins roubados da cozinha ou uma mordida
mecânica numa torrada fria.
— Relaxa — acrescento, dando de ombros e forçando os dedos a
segurarem com firmeza a garrafa quando finalmente a pego de volta — Não
vou passar vexxxxame.
A palavra se estica, se desfaz, enquanto dou um gole longo, deixando
o álcool queimar minha garganta numa tentativa patética de calar o que não
consigo. Sloane me observa, os braços cruzados, a sobrancelha arqueada
num ângulo que grita preocupação, mas que ela tenta suavizar pra não
parecer que está me julgando.
Sei que está.
Todo mundo está.
Forço um sorriso ainda maior, escancarado, estúpido, querendo afogar
qualquer traço de fraqueza numa gargalhada idiota.
— Vai passar uma água no rosto — ela sugere, inclinando a cabeça,
os olhos deslizando pelas minhas bochechas que, eu deduzo, devem estar
vermelhas demais. — Depois a gente vai pra casa, tá? — continua, com
aquele tom doce, meio maternal, meio condescendente — Temos uma longa
maratona de filmes de romance duvidosos pela frente.
Minha expressão se fecha num segundo, como se alguém tivesse
puxado uma cortina pesada por dentro de mim.
Sei que ela está tentando ser gentil.
Sei que está preocupada comigo, porque eu não costumo beber tanto
assim.
Mas a palavra “casa” bate forte, amarga, cortante.
Não tenho uma.
Não mais.
Meu pai é um maldito.
Reviro os olhos, soltando uma risada esganiçada, quebrada, que sai
pelos meus lábios como algo entre um soluço e um deboche, e, mesmo
assim, me obrigo a obedecer.
Viro o corpo, os babados da minha saia de líder de torcida esbarrando
na perna de alguém que passa, e começo a caminhar pra fora da quadra
esportiva, os tênis escorregando de leve no piso liso, enquanto me guio em
direção a um dos prédios principais da universidade, onde sei que posso
encontrar o banheiro mais próximo.
Faço uma careta quando percebo que o do primeiro andar está
interditado.
Tem uma fita amarela atravessando a entrada, e um cartaz com letras
garrafais informando que está "fora de serviço" — o mundo decidiu, mais
uma vez, não me oferecer nem o básico: um espelho, uma pia, um lugar pra
me esconder de mim mesma por alguns minutos.
Paro ali, os olhos tentando focar no aviso, mas o álcool embaça tudo,
desloca o chão, move as paredes um centímetro pro lado, como se a
gravidade fosse uma piada que alguém me pregou e eu nunca consegui
entender.
Solto um suspiro irritado e me viro, o corpo instável, desobediente,
enquanto procuro o elevador. Assim que encontro, aperto o botão com mais
força do que deveria, a unha quebrada enroscando de leve no painel
metálico, e quando as portas se abrem, me jogo lá dentro como quem se
entrega a um confessionário silencioso, onde ninguém me pede explicações.
Os números dos andares brilham numa linha vertical à minha frente, e
meus dedos — traiçoeiros, impulsivos, bêbados — escorregam até o botão
do último andar. O botão se acende com aquele vermelho pálido e
preguiçoso, ciente de que eu não deveria estar indo pra lá, mas já é tarde
demais.
O elevador sobe devagar, cada andar passando com um solavanco
discreto que reverbera pelos meus joelhos trêmulos. Quando as portas se
abrem, o corredor da biblioteca me engole.
Silêncio completo.
Luz fria, meio azulada, meio opaca.
O cheiro familiar de papel antigo misturado com o produto de
limpeza barato que alguém passou minutos antes.
Dou alguns passos, as solas dos meus tênis raspando no piso
encerado, e me apoio num dos bebedouros, respirando fundo, tentando me
convencer de que o mundo parou de girar — ou que eu posso girar com ele
sem cair de vez.
— Charlotte?
A voz masculina me faz virar o rosto.
No fim do corredor, está um dos caras do time de reservas de futebol
— não lembro o nome, nunca fiz questão, sei só que ele aparece nas festas,
bebe demais, e tem aquele sorriso de quem nunca precisou pedir nada na
vida, só tomar.
Eu não respondo de imediato, mas ele se aproxima mesmo assim.
— Tudo bem? — ele questiona, mas não parece interessado de
verdade nisso.
— Tô ótima — respondo, a voz mais rouca do que gostaria, os olhos
semicerrados pra tentar manter o foco.
Ele ri baixo, como quem não acredita, e se aproxima mais, até a mão
dele roçar de leve meu braço exposto, quente demais pro ar gelado do lugar.
— Você tá meio perdida, né? — ele provoca, a voz baixa, macia
demais pra intenção que carrega, enquanto a mão sobe do meu braço pra
encostar de leve na curva do meu ombro, como quem testa terreno.
Eu me afasto meio passo, ou talvez pense que me afastei, mas o corpo
não responde com a mesma precisão de sempre. O álcool é uma corrente
grossa amarrada aos meus tornozelos, me puxando pra baixo, me
desacelerando quando eu mais preciso estar rápida.
— Eu… estava procurando um banheiro — digo, a frase se
desfazendo nas pontas, meio engolida pela boca seca.
Ele sorri, inclinando a cabeça como quem acabou de ouvir uma piada.
— Posso te levar até o banheiro — a frase soa suja, gasta, feito o chão
encardido do vestiário depois de um treino.
A mão dele aperta meu braço com mais força agora, os dedos
cravando como garras que não querem soltar, e eu sinto a bile subir pela
garganta, misturada com a raiva e a vertigem.
— Não. — A palavra sai mais firme do que eu esperava, mais sóbria
do que me sinto, mas ele não parece ouvir.
Ou, pior, ele ouve, mas não liga.
Ele se inclina, o hálito quente de cerveja batendo direto no meu rosto,
e tenta me beijar, a outra mão agarrando minha cintura com aquele tipo de
força que não admite recusa. Eu viro o rosto, empurro o peito dele com as
duas mãos, mas ele ri, baixo, aquele riso asqueroso de quem já fez isso
antes e acha que sabe exatamente como vai terminar.
— Qual é, Sparks, ninguém vai saber.
E aí, antes que eu consiga pensar na próxima reação, ele puxa de
novo, o corpo dele colando no meu, o joelho enfiando-se entre minhas
pernas, o rosto se aproximando até eu sentir a pele dele roçar na minha. O
pânico sobe, seco, e eu estou prestes a pegar o pequeno canivete que sempre
escondo entre meu sutiã e minha pele, mas não preciso fazer isso.
Porque, de repente, ele é arrancado de perto de mim com uma
violência tão abrupta que nem consigo processar a cena. Vejo o movimento
rápido de um corpo colidindo com outro, o som de um soco explodindo no
ar, a cabeça do rapaz virando bruscamente pro lado antes de desabar no
chão com um baque surdo.
O silêncio depois da violência é sempre mais ensurdecedor do que o
barulho da pancada.
Ele não se move.
Faço uma careta ao perceber seu nariz, agora torcido em um ângulo
estranho, sangue escorrendo por toda sua face. Seus olhos estão fechados,
um pequeno corte na lateral da testa que aconteceu por causa da queda.
Minha cabeça vira, meu coração acelerado, e encontro Declan a alguns
centímetros de distância de mim, os olhos escuros cravados no jogador
desmaiado.
Eu deveria agradecer, mas ainda estou em choque.
— Você o nocauteou.
Declan ergue um dos ombros, o movimento pequeno, displicente,
como quem não vê nisso mais do que um contratempo, uma irritação
passageira, um mosquito esmagado contra o vidro.
— Parece que sim — responde.
Eu passo a língua pelos lábios, tento encontrar alguma lógica no que
deveria ser feito agora, mas o cérebro ainda está patinando, preso entre a
adrenalina e o álcool.
— A gente não deveria… levá-lo na enfermaria?
Declan vira o rosto levemente, acompanhando com um olhar
preguiçoso o corpo largado no chão como quem avalia um objeto
defeituoso antes de decidir jogá-lo fora.
— Pra quê? — pergunta, seco, sem nem fingir preocupação.
— Pra conferir que ele não está, bem, morto.
O meio sorriso se forma devagar no rosto dele, aquele corte
enviesado, discreto, carregado de uma ironia que não pede permissão.
— Melhor ainda se estiver.
Uma risada incrédula escapa da minha garganta. Parte de mim acha
que não é boa ideia deixar um dos caras do time de futebol jogado aqui,
com o nariz fora do lugar e sangrando. Parte de mim, aquela sombria, que
sempre tento esconder, diz que ele é um desgraçado que mereceu. Que, na
verdade, é até um pouco sexy que Declan St. Clair tenha nocauteado um
cara por mim.
Antes que eu possa decidir qual dos dois lados vence — o que quer
prestar socorro ou o que quer deixar o corpo largado ali, como um pedaço
de lixo —, Declan se afasta. O movimento é seco, definitivo, sem olhar pra
trás.
Fico parada por um segundo a mais, presa entre o cheiro metálico do
sangue que ainda se espalha lento pelo piso encerado e o calor úmido da
minha própria respiração acelerada.
— Ei, monstrinho — eu chamo, apertando o passo, o álcool ainda
correndo pelas minhas veias, um veneno quente e preguiçoso que não me
deixa sentir as pernas direito.
Alcanço Declan quando ele já atravessa o corredor, impassível, e
seguimos juntos até o elevador, sem dizer nada. As portas se abrem com
aquele ruído metálico e impessoal, e entramos — ele primeiro, eu logo
atrás. O espaço fechado nos envolve, o espelho do fundo refletindo minha
imagem borrada, os olhos levemente desfocados, o uniforme de líder de
torcida desalinhado e aquela marca tênue, quase invisível, dos dedos que
me agarraram agora, ainda há pouco.
— Obrigada — eu murmuro.
Meus olhos passam por Declan. Eu noto dois livros sobre computação
nas suas mãos e deduzo que ele estava na biblioteca antes de me encontrar.
Ele assente, como quem diz que não foi nada.
Eu deveria dizer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas o silêncio entre nós é mais confortável do que qualquer frase que
eu pudesse inventar agora, então só fico ali, recostada na parede metálica,
sentindo a vibração do elevador descendo lentamente.
De repente, tudo mergulha numa escuridão súbita e compacta, o
zumbido discreto do motor silencia, e o elevador para no meio de lugar
nenhum, entre um andar e outro. Por um segundo, só ouço a minha
respiração, descompassada, e o som controlado da dele, firme, constante,
porque nem um colapso elétrico é suficiente pra tirar Declan St. Clair do
eixo.
— Merda… — murmuro, a voz perdida no escuro, enquanto tateio ao
redor, tentando pateticamente encontrar alguma saída ali, algum botão,
alguma falha.
Mas não tem.
Só tem nós dois.
Sozinhos.
Presos.
Até sabe-se Deus quando.
18 CHARLOTTE SPARKS
Presente
— Você tem medo de escuro?
É a primeira coisa que Declan pergunta quando eu me aproximo das
portas metálicas e dou um chute trôpego no pequeno vão entre elas, sem
nenhuma esperança de que isso resolva nossos problemas. Cruzo os braços
na frente do corpo e nego com a cabeça.
— E você?
Declan faz o mesmo gesto que eu.
— Estou acostumado. — responde, e o timbre dele soa tão frio, tão
certo, que por um segundo me pergunto onde, exatamente, ele aprendeu a
não ter medo do escuro.
Como alguém aprende isso?
Não deve ser na teoria.
Deve ser na prática.
Na convivência forçada com a ausência de luz, de saída, de
esperança.
Ele se encosta na parede oposta, os livros ainda apoiados contra a
coxa, o rosto parcialmente escondido na penumbra, mas os olhos brilhando
naquela escuridão azulada que a luz de emergência projeta, fazendo parecer
que Declan é feito da própria sombra.
E eu fico parada, sem saber se me aproximo ou se me afasto, se cruzo
a muralha invisível que sempre parece separar a gente ou se me mantenho
aqui, do lado seguro, onde não preciso admitir que, no fundo, ter ficado
presa nesse elevador com ele é tudo o que eu queria e tudo o que eu mais
temo ao mesmo tempo.
Me sento em um dos extremos do espaço, encostando a cabeça na
parede metálica do elevador. Eu olho pra cima e tenho a impressão de que o
painel de botões está se movendo, mas uma risada sem graça escapa da
minha garganta quando percebo que isso é só efeito do álcool. Do outro
lado, Declan me encara, uma das sobrancelhas arqueadas.
— Não se preocupa comigo — murmuro — Só estou bêbada.
— Dá pra ver, princesinha.
Reviro os olhos, porque sei que não sou tão óbvia assim. Nós ficamos
alguns instantes em silêncio até que Declan se rende e se senta do meu lado,
o seu perfume amadeirado tomando conta do meu olfato. Ele não me faz
qualquer convite, mas eu respiro fundo e deito a cabeça no seu ombro. Num
primeiro momento, sinto seu corpo retesar debaixo de mim, mas Declan não
demora a aceitar minha presença.
— Me conta um segredo seu — eu peço.
— Não sou um cara que tem muitos segredos.
— Todo mundo tem segredos — rebato — Principalmente sendo
filhos de quem somos.
Declan finge pensar por um instante.
— Se eu te contar… — começa, com aquele tom carregado de
sarcasmo — vou ter que matar você.
Levanto a cabeça, os olhos encontrando os dele, tão próximos que
poderia contar cada cílio.
— Não teria coragem, monstrinho.
Ele não sorri.
Só ergue a sobrancelha, o olhar tão escuro que parece sugar a pouca
luz que ainda resta nesse elevador morto.
— Você devia ter mais medo de mim.
— Você não é ameaçador — digo, sem pensar, ou talvez só pra ver o
que ele faz quando ouve isso.
E ele não me decepciona.
Num movimento tão rápido quanto calculado, Declan levanta uma
das mãos e, sem hesitar, encaixa os dedos no meu pescoço, com firmeza,
com aquele tipo de força que não machuca, mas deixa claro quem está no
controle aqui.
Os olhos dele continuam presos aos meus, o polegar roçando de leve
na linha do meu maxilar, tentando sentir o quanto estou entregue ou
resistindo. E então ele me puxa, me fazendo deslizar ainda mais perto, até
que minhas costas se encontram com a parede metálica do elevador, fria,
enquanto o corpo dele ocupa o espaço à minha frente, as pernas abrindo
levemente, prendendo as minhas no meio, como se tivesse acabado de me
fechar numa armadilha.
A mão no meu pescoço permanece ali, quente, possessiva, enquanto a
outra apoia ao lado da minha cabeça, bloqueando qualquer saída, caso eu
tivesse a intenção — mas não tenho.
Nunca tive.
A respiração dele bate de frente com a minha, e por um segundo o
mundo se resume a isso: a pele, o calor, o sangue que dispara tão rápido que
tenho certeza de que ele sente sob a palma da mão.
E então…
Ele sorri.
Aquele sorriso enviesado, carregado de tudo o que não diz em voz
alta, e se inclina só o suficiente pra que eu sinta os lábios dele roçarem o
canto da minha boca, sem me beijar, sem ceder, só me deixando no limite
do que posso suportar.
— Tem certeza? — ele pergunta, a voz tão baixa que parece um
pensamento enfiado direto na minha cabeça — De que eu não sou
ameaçador?
A mão no meu pescoço aperta um pouco mais, o suficiente pra me
lembrar que ela está ali — não como uma ameaça real, mas como uma
promessa do que poderia ser, se Declan quisesse. Os olhos dele continuam
fixos nos meus, o corpo colado, o calor do peito invadindo o espaço
apertado entre nós, a respiração batendo na minha boca, me deixando tonta,
sem saber se é pelo álcool ou por ele.
Declan se inclina, a boca quase roçando no meu ouvido, e sussurra:
— Se eu virar o seu pescoço agora, só um pouco mais pra esse lado…
— ele inclina minha cabeça de leve, me fazendo arquear contra a parede,
expondo a linha da minha jugular como uma oferenda — os ligamentos
cederiam.
Sua mão ajusta a pressão, o polegar firme de um lado, os outros dedos
firmes do outro, me deixando totalmente à mercê.
— Primeiro, você ouviria um estalo.
Ele roça os lábios na curva exposta da minha mandíbula, sem me
beijar, só deixando o calor da respiração aquecer a pele.
— Depois, sentiria tudo desligar.
A voz dele é calma, cirúrgica, tão letal quanto íntima.
A mão aperta só mais um pouco, e o meu corpo inteiro responde, não
com medo — nunca com medo —, mas com um arrepio que desce rápido
pela espinha e se instala no meio das minhas pernas. O coração dispara, não
porque ele pode me matar, mas porque eu sei, com uma certeza absoluta e
absurda, que ele não vai.
— Você morreria — ele continua, o nariz deslizando pela lateral do
meu rosto — antes mesmo de perceber o que aconteceu.
Fecho os olhos por um segundo, sentindo o aperto no pescoço e o
calor do seu corpo me cercando, enquanto o pulso bate desesperado sob a
mão dele, gritando que eu estou viva, tão viva que chega a doer.
Abro os olhos devagar, e Declan continua ali, perto demais, o olhar
tão fixo que parece cravar estacas invisíveis na minha pele exposta, como se
pudesse ver cada batida do meu coração sob a superfície fina da garganta
que ainda segura.
A mão no meu pescoço afrouxa só um pouco, mas não se afasta.
Ele desliza o polegar devagar, percorrendo a linha da minha jugular
com aquela precisão que me deixa ainda mais tensa, mais entregue, me
desenhando à força, esculpindo meu contorno só pra provar que poderia
desfazer tudo, num único movimento, se quisesse.
Declan inclina o rosto, sem pressa, até que a sua boca se encoste na
pele da minha clavícula, roçando de leve, quente, aberta, mas sem morder
— ainda não. Sua respiração bate ali, espalhando calor, e o arrepio que
percorre meu corpo é tão violento que tenho que me forçar a não fechar os
olhos de novo, a não ceder completamente a esse toque que é mais ameaça
do que carinho, mais controle do que conforto.
Declan mantém o rosto ali por um segundo, respirando fundo como
quem quer guardar meu cheiro.
E então me morde.
De leve, mas com dentes o bastante pra marcar, pra fazer a pele ceder
um pouco, pra arrancar de mim um arfar involuntário, que escapa dos meus
lábios antes que eu consiga conter.
Ele sorri contra minha pele, um sorriso que sinto mais do que vejo, e
pressiona a mordida só mais um segundo, como quem sela um pacto, uma
promessa silenciosa de tudo o que poderia fazer…
Mas não faz.
Ainda.
Quando afasta a boca, a pele queima, a marca invisível lateja, e ele
sobe de novo o rosto até que os seus olhos voltem a se encontrar com os
meus.
E eu sei que Declan vê.
Vê que estou completamente à sua mercê, mas não de medo — de
vontade.
De um desejo que me arrasta até ele como uma corrente invisível, tão
grossa e apertada quanto a mão que ainda segura meu pescoço com aquele
controle exato, cirúrgico, como quem mede até onde pode ir. Ele aproxima
o rosto de novo, os lábios tão perto que sinto a exatidão da textura deles, a
respiração que continua calma, enquanto a minha já falhou completamente,
descompassada, perdida.
— Para de seguir a luz, Char — ele murmura, por fim, largando o
meu pescoço.
Seu comentário faz a maldita tatuagem de mariposa queimar na pele,
como uma evidência do que ele quer dizer.
— Você está me subestimando — solto, minha voz ainda um tanto
embaralhada.
Antes que ele tenha tempo de reagir, empurro seu peito com força
suficiente pra fazê-lo ceder, o corpo dele se movendo até tocar no espelho
do elevador. Subo, com a mesma precisão que ele teve ao me empurrar pra
parede, e me sento no colo dele, de frente, as coxas encaixadas de cada
lado, o tecido da minha saia subindo, o calor da pele dele atravessando a
pouca distância que ainda resta.
A mão de Declan vai para a minha cintura, num reflexo automático,
como se não soubesse fazer outra coisa. Inclino o corpo pra frente, a boca
roçando de leve a linha da mandíbula dele, como ele fez comigo há pouco,
só pra saborear o gosto da inversão.
E então, deslizo a mão entre os seios, sob o tecido justo da blusa, e
puxo o canivete escondido onde ninguém — além de mim — acha que pode
existir alguma coisa perigosa.
Abro a lâmina com um estalo seco, que corta o silêncio da cabine
como uma respiração ofegante, e ergo o canivete, com a ponta brilhando
sob a luz fraca de emergê[Link] olhos dele me seguem, atentos, famintos,
sem um traço sequer de medo, só aquela curiosidade fria e fascinante que
me enlouquece.
Então, levo a lâmina até o pescoço dele, bem devagar, até encostar de
leve na pele quente, logo acima da clavícula, deslizando o fio pelo contorno
da jugular que pulsa constante, forte, sob o metal.
— Eu também poderia te matar agora — sussurro, o rosto tão perto
que minha respiração se mistura com a dele.
— Um corte na jugular? — Declan questiona, um sorriso ladino nos
lábios — É uma ameaça?
Uma risada escapa da minha garganta enquanto eu continuo
arrastando a lâmina pela sua pele, até o queixo, subindo devagar. Inclino a
cabeça, os olhos ainda presos aos dele, e abaixo o canivete o bastante para
roçar minha boca na curva do seu maxilar, numa provocação tão insolente
que até o meu próprio corpo estremece com a ousadia.
— Com certeza, monstrinho.
Declan sorri mais.
— Então por que eu fiquei duro, princesinha?
E aperta meus quadris com as mãos, cravando os dedos na carne
como quem quer me manter ali, como quem aceita o jogo, como quem me
desafia a ir além. Sem conseguir me conter, rebolo contra ele, sentindo o
volume duro latejando sob a calça de moletom, pressionado entre nós, tão
evidente, tão inevitável, que chego a prender o ar na garganta, como se o
simples contato fosse o suficiente pra me quebrar ao meio.
Ele parece tão grande.
Tão quente.
Tão pronto pra me devorar.
Uma das mãos sobe, firme, até a minha nuca, os dedos se
entrelaçando no meu cabelo, puxando com força, fazendo meu pescoço se
esticar, expondo a garganta que, há segundos, ele ameaçava com palavras, e
que agora segura com o punho, como uma alça, como uma rédea. O rosto
dele se aproxima, tão perto que posso sentir o calor da boca, a respiração
irregular que denuncia o que ele nunca diz — que está tão fora de controle
quanto eu.
Os lábios quase encostam nos meus.
Quase.
E então…
Um baque.
Seco.
O elevador treme, e as luzes se acendem bruscamente, rasgando a
penumbra, preenchendo a cabine com uma claridade agressiva, artificial, o
mundo decidido a nos puxar de volta pra superfície, arrancando à força esse
fio invisível que nos mantinha suspensos, presos no espaço entre a violência
e o desejo.
Declan pisca, a mandíbula tensa, e solta meu cabelo devagar, os dedos
ainda escorregando pela mecha antes de deixar a pele livre. Eu afrouxo a
mão que ainda segurava o canivete, fechando a lâmina com um clique
contido, quase frustrado, e deslizo de volta para o chão, ajeitando a saia
num movimento automático.
Ele passa as mãos pelas coxas, ajeitando a calça com uma indiferença
falsa que só serve pra acentuar o quanto ainda está tão afetado quanto eu.
E então ficamos assim.
De pé, frente a frente, a respiração pesada e os olhos queimando,
enquanto as portas do elevador começam a se abrir com aquele ruído
mecânico e frio, fazendo parecer que nada — absolutamente nada —
aconteceu ali dentro.
Eu giro nos calcanhares assim que a porta se abre no primeiro andar
do prédio. Me movo para sair do elevador mas, antes que eu possa, Declan
segura meu pulso, me mantendo no lugar.
— Tem um coquetel da Clairé d’Or amanhã. É a apresentação da
nova coleção de jóias e meu pai quer que eu leve uma garota — ele
murmura, sem emoção na voz — Iria comigo, princesinha?
Passo os olhos pelos seus dedos na minha pele.
— Tá me chamando pra sair? — questiono — Eu estava com um
canivete na sua garganta cinco minutos atrás.
Declan solta meu pulso, só então se dando conta do toque.
— Uma garota bonita que pode me matar? Não vejo nenhuma
desvantagem.
Reviro os olhos e cruzo os braços, tentando me manter firme
enquanto o álcool ainda serpenteia pelos meus músculos. Sloane, com
certeza, já está convencida de que me afoguei na pia do banheiro a essa
altura.
— É um encontro?
— De jeito nenhum.
Rio.
— Vai ser um prazer, monstrinho.
19 CHARLOTTE SPARKS
Passado
O silêncio na mesa é tão grande que nem parece meu aniversário.
Nem os talheres têm coragem de raspar os pratos. Estamos no Carbone, em
Greenwich Village, e a louça está posta como em um jantar de gala — taças
de cristal, guardanapos dobrados com perfeição cirúrgica, flores frescas no
centro — mas tudo parece decorativo demais. Morto demais.
Minha mãe empurra a comida pelo prato, desinteressada, e o peixe
esfria, intacto. As batatas ainda brilham no molho caro que o chef do
restaurante sugeriu quando ela disse que era meu aniversário. Do outro lado
da mesa, meu pai bebe. Mais um longo gole de whisky envelhecido, a mão
apoiada sobre a mesa de mármore, o olhar passeando preguiçosamente entre
o meu copo de refrigerante sem açúcar e a taça de vinho de Celeste. De vez
em quando, ele me dá um sorrisinho, e é suficiente para eu saber que não
está, nem de longe, tão decepcionado quanto ela.
— Charlotte ainda vai ter a sua chance de brilhar — meu pai
comenta, de repente, e sua voz é leve demais, dizendo isso só para
preencher o silêncio, ou pior, para distrair a fera que divide a mesa com a
gente.
Ele recebe um olhar matador de Celeste em resposta. Ela cruza as
pernas com rigidez, como quem está tentando manter alguma compostura, e
ajeita o vestido justo sobre a prótese mecânica reluzente que toma o lugar
da perna esquerda. É quase cômico como ela tenta esconder algo que, ao
mesmo tempo, faz questão de exibir. Celeste quer dizer que continua
perfeita, ainda que não acredite nisso.
Eu acho que não tem nada de errado com a perna dela.
— Ela está completando treze anos — rebate, com a voz carregada de
frustração, espetando o garfo no peixe como se imaginasse a cabeça do meu
pai ali, sangrando sob o metal. — Você sabe como esse mundo funciona,
Richard — ela continua, a voz afiando a cada palavra — Modelos precisam
ser descobertas cedo, enquanto ainda há tempo de lapidar alguma coisa. A
beleza, a verdadeira beleza… Não dura pra sempre.
Ela ergue o queixo.
— Eu estava estrelando minha primeira grande campanha aos treze.
Claro que estava.
Solto o ar pela boca, afundando ainda mais o corpo pequeno na
cadeira grande demais pra mim, cara demais, fria demais. Tudo nesse jantar
parece ter sido desenhado pra me engolir.
A verdade é que minha mãe nunca perguntou se eu queria ser modelo.
Nunca.
A única coisa que ela quis saber foi o quanto da beleza dela eu
consegui herdar. E, honestamente? Acho que a resposta é não o suficiente.
Celeste me enxerga como uma bonequinha de vitrine — frágil, enfeitada.
Um número, um manequim, um nome que ela pode colar ao lado do próprio
numa revista de luxo qualquer.
E toda vez que não passo em uma seletiva, mesmo carregando o
sobrenome Sparks, mesmo com os melhores vestidos, a melhor maquiagem,
os melhores contatos, vejo o queixo dela tensionar.
O maxilar se mover.
A decepção pingar dos olhos como se eu fosse uma mancha no
próprio legado.
É nesses momentos que percebo: Celeste Sparks carrega duas versões
da filha.
A que ela queria.
E a que ela tem.
— Vocês vão querer sobremesa? — a voz do garçom me arranca do
torpor, leve, educada demais pra caber naquela mesa gelada.
Ele sorri na minha direção — um sorriso simpático, de quem não tem
ideia do que acabou de escutar entre uma garfada e outra.
Ele me mostra o cardápio e aponta com discrição para uma das
opções:
— Hoje temos petit gâteau.
Embora eu saiba o que é — claro que sei —, acho engraçado ver uma
etiqueta escrita logo abaixo, como se alguém tivesse achado necessário
traduzir: “bolinho de chocolate com sorvete.”
Está na seção infantil.
Acho que isso deveria me constranger, mas, por um segundo, é
reconfortante. Infantil é a única coisa que ainda consigo ser, às vezes.
— Vou querer um desse, por favor — peço, apontando para o bolinho
mais escuro, o de chocolate amargo.
Minha mãe nem levanta os olhos.
Meu pai apenas gira os cubos de gelo do seu whisky no copo.
— Você nunca vai conseguir trabalhar como modelo se continuar
comendo como uma porca, Charlotte.
As palavras caem pesadas, secas, sem pausa.
Não há tom de brincadeira, não há humor, não há afeto.
É uma constatação.
Uma sentença.
O garçom paralisa por um segundo.
Eu também.
A vergonha vem primeiro como uma fisgada rápida, bem no centro
do peito. Depois, como uma onda quente, subindo pelo pescoço, pelas
bochechas, até incendiar meu rosto por completo.
Baixo o olhar.
Quero enfiar a cabeça dentro do guardanapo de linho.
Quero desaparecer.
Quero estar em casa.
Quero ser outra pessoa.
O garçom se afasta em silêncio, tão constrangido quanto eu.
Sinto o olhar dos outros nas mesas próximas. Ou talvez só imagine,
mas é pior assim.
A minha mãe volta a espetar o peixe com o garfo, sem remorso algum
diante das palavras que acabou de proferir.
Meu pai dá de ombros, finge não ter ouvido.
Eu me levanto, mal conseguindo olhar pra eles, e minha voz sai num
fio:
— Com licença, eu preciso ir no banheiro.
Richard ameaça abrir a boca para contestar, mas eu sou mais rápida.
Caminho apressadamente pelo salão cheio, minhas sapatilhas batendo no
chão polido feito um alarme de emergência. Cada um dos meus passos
parece alto demais, ecoando pelas paredes douradas do restaurante.
Os garçons abrem espaço pra mim. Alguns arqueiam sobrancelhas na
minha direção, curiosos pra saber onde uma garotinha está indo com tanta
pressa. Meu estômago ainda revira, não sei se pelo que acabei de ouvir ou
pela quantidade de comida que passou pela minha boca ao longo do dia. Eu
achei que podia relaxar, mas minha mãe tem razão.
Eu exagerei.
Exagerei.
Exagerei.
Exagerei.
Nunca vou ser nada se continuar desse jeito.
O corredor que leva até o banheiro é ladeado por espelhos e paredes
de falso veludo, iluminado por arandelas douradas que jogam luz suave no
caminho.
Eu passo por um dos espelhos e vejo meu reflexo. Meu rosto está
corado, os olhos levemente úmidos por causa das lágrimas que não deixei
cair. A maquiagem delicada que minha mãe insistiu em aplicar parece mais
borrada agora, mais frágil e inútil. Ela disse que era pra realçar meus traços,
valorizar minha beleza natural, mas o que eu vejo ali…
Não é beleza.
É tensão.
É um esforço exausto pra parecer o que não sou.
Uma boneca que foi pintada às pressas, envernizada de expectativa,
etiquetada e deixada na vitrine pra receber avaliações. Sinto as lágrimas
querendo subir, mas aperto os olhos, engulo o choro com a mesma violência
com que me fizeram engolir todas as críticas.
Empurro a porta do banheiro com a palma suada da mão, tropeço para
dentro como se estivesse fugindo de um incêndio e me enfio na primeira
cabine vazia que encontro. O trinco gira com um clique seco, e por um
segundo só existe o som do meu próprio coração nos ouvidos — alto,
descompassado, querendo escapar de mim também.
O chão de mármore frio brilha sob a luz branca e limpa.
As paredes são bege demais, limpas demais.
Não há espaço pra nada sujo ali.
Exceto eu.
Me ajoelho.
A barra do meu vestido encosta no chão, mas não importa.
Inclino o corpo pra frente, apoio uma das mãos ao lado do vaso e
deixo a cabeça pender, alguns fios de cabelo grudando na pele úmida do
meu rosto. Enfio os dois dedos na garganta, forçando ao máximo, como
Celeste me ensinou a fazer.
Então, vomito.
O som ecoa na cabine estreita, úmido, vergonhoso, quase animalesco.
A primeira golfada sai tão forte que minha garganta rasga.
A segunda vem acompanhada de um soluço.
Meus olhos ardem.
Meus músculos se contraem com força.
O gosto na boca é ácido, metálico, nojento.
Sinto a bile queimando no fundo da garganta, escorrendo pelo canto
dos lábios.
Mesmo depois que meu estômago se esvazia por completo, eu
continuo ali. Curvada, pequena, sozinha. Respirando com dificuldade, com
as mãos ainda apoiadas na porcelana fria e o peito pesando como se o
coração tivesse desistido de bater com leveza.
Não choro.
Mas também não me levanto.
20 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Eu acordo com batidas na porta outra vez mas, agora, não tem
governanta que possa abrir a porta por mim. Através do e-mail mais
impessoal que já recebi na vida, o Dr. Caster me avisou que os empregados
seriam dispensados. Não faço ideia se eles foram pagos ou não.
Milane apoia as patas na lateral da minha cama e tenta me dar uma
patada. Mesmo de olhos fechados, consigo sentir o seu movimento e o ar
batendo contra meu rosto, o cheiro do perfume de morango que usam no pet
shop chegando até o meu olfato. Me forço a levantar, minha testa latejando
por conta das cervejas de ontem. Tudo que aconteceu depois do jogo é
como um borrão dentro da minha cabeça, mas vou continuar fingindo que
não bebi demais.
Na verdade, tem uma única coisa da qual me lembro muito bem, e ela
envolve os dedos de Declan St. Clair na minha garganta, fazendo parecer
que cada osso do meu corpo era dele por direito.
Sinto que, desde a escola, a nossa relação sempre foi construída de
quases.
Quase ódio.
Quase toque.
Quase confissão.
Quase desejo.
A gente nunca foi um não completo, mas nunca um sim absoluto.
Se eu pudesse mandar uma mensagem pra Ivy, tenho certeza de que
ela diria que sempre fui obcecada por ele — desde o instante em que vi
Declan St. Clair naquela sala de detenção pela primeira vez. Não acho que
isso esteja totalmente certo. A verdade é que, com o passar dos anos, foi o
Killian quem realmente me prendeu.
Mas foi Declan quem me capturou primeiro.
Milane late pra mim, afastando meus pensamentos.
— Tem razão, Mi — eu digo, finalmente saindo do quarto. Dou uma
olhada triste para as minhas malas, todas espalhadas pela casa — Seria
ótimo parar de pensar nisso.
Eu desço as escadas com o corpo arrastado, ainda sentindo o gosto
azedo da ressaca presa na garganta. A ponta dos meus pés toca o mármore
frio da entrada, e a sensação me arrepia inteira. A luz que entra pelas
janelas altíssimas da fachada é branca demais, quase clínica. Tudo nessa
casa parece grande demais agora.
Milane se adianta e encosta o focinho na parte de baixo da porta,
farejando com insistência. O latido não vem — o que já me diz que não tem
ninguém ali. Só o cheiro de algo estranho, novo.
Destranco a fechadura, puxo a maçaneta.
Nada.
A rua está vazia. Os carros da vizinhança estão parados onde sempre
estiveram. O vento move levemente os galhos da árvore da frente. Não tem
ninguém esperando no meio-fio, nenhuma figura parada à distância.
A única coisa ali é uma caixa.
Está colocada bem no centro do primeiro degrau, alinhada. Alguém se
abaixou com todo o cuidado do mundo pra garantir que ela ficasse
perfeitamente reta. O papel é preto fosco, limpo, sem etiquetas de entrega,
sem logo. Há um laço amarrado com perfeição — cetim brilhante, esticado,
treinado pra uma apresentação.
Meu nome está no topo.
Charlotte.
Escrito à mão.
Sei que já vi essa letra antes mas, mesmo assim, pego a caixa. É mais
leve do que parece. Estico meu corpo para fora da entrada da casa e meus
olhos escaneiam o terreno, procurando algum sinal da pessoa que deixou
aquele presente. Eu sei muito bem que foi ele, meu eco.
Não encontro nada.
Solto um suspiro frustrado e fecho a porta atrás de mim, o som da
madeira ecoando alto demais pela casa vazia. Milane me segue até a sala de
jantar, as patas arrastando no tapete.
Coloco a caixa sobre a mesa, entre uma pilha de documentos do
banco e uma taça de vinho esquecida desde anteontem. Tiro o laço com
cuidado, puxando até ele ceder e cair sobre o vidro com um som seco.
Levanto a tampa.
Dentro, envolto em papel de seda preto, está um vestido.
É um Schiaparelli.
Não tem etiqueta visível, mas eu reconheço. Todo mundo que cresceu
entre desfiles de moda e estilistas excêntricos saberia reconhecer: A
estrutura, a ousadia, o excesso. A seda preta parece líquida, quase viva,
refletindo a luz da manhã com um brilho sutil, como óleo derramado em um
espelho.
Ele tem um corte limpo na frente, quase recatado demais, mas as
costas são completamente nuas, com duas hastes finas de ouro estruturando
a espinha, subindo da base da lombar até as omoplatas, como uma coluna
de brilhantes fundida na carne. É delicado e agressivo ao mesmo tempo, o
tipo de vestido que eu não hesitaria em comprar se tivesse colocado meus
olhos nele antes.
Tiro a peça de dentro da caixa e o deixo deslizar pela minha mão.
O toque da seda arrepia meus dedos.
Arqueio uma sobrancelha quando percebo um pequeno cartão
dourado cair no chão da sala. De novo, a mesma letra que já conheço tão
bem desenha uma mensagem:
Se você usar, vou saber que não estou sozinho nesse jogo.
Mordo o lábio inferior. É automático, como quem tenta conter o
sangue de uma ferida que ainda nem se abriu.
Minhas mãos continuam segurando o vestido, mas meu corpo está
longe daqui. É como se o tecido tivesse se infiltrado pela minha pele e me
arrastado pra dentro da cabeça dele — esse lugar onde o desejo é uma
ameaça.
Leio o bilhete mais uma vez, em silêncio.
A caligrafia é firme. Segura o suficiente pra me fazer odiar o quanto
me estremece.
Ele sabe que eu o vi no estacionamento da Mayfair.
Ele quer saber se eu estou jogando também.
Olho para o bilhete como se ele pudesse me devolver a resposta que
me falta. Como se aquele pedaço dourado de papel tivesse o poder de me
explicar desde quando comecei a esperar por isso.
Por ele.
Pelo próximo movimento.
Milane rosna baixinho do meu lado, sentindo minha mudança de
humor.
Passo os dedos pelas hastes douradas do vestido e me imagino usando
aquilo diante de um espelho, querendo conjurar o olhar dele pela fresta de
alguma parede.
A verdade é que o vestido não me assusta.
O que me assusta é a sensação de ter sido vista.
Profundamente, perigosamente, verdadeiramente vista.
21 DECLAN ST. CLAIR
Presente
A primeira coisa que noto quando estaciono na frente da mansão dos
Sparks é um caminhão de mudanças. A segunda, é que Charlotte está
usando o vestido que dei pra ela: E está tão bonita dentro dele que chega a
parecer irreal.
O vestido abraça cada linha do seu corpo com uma precisão cruel,
parecendo moldado direto sobre a pele — aquela pele clara, macia, uma
porcelana frágil que pode quebrar ao meio se eu observar demais.
Especialmente hoje, seu rosto está cheio de contraste: não usa batom nos
lábios, mas escondeu as sardas discretas da sua pele com maquiagem. Sei
que são dezesseis no total, espalhadas das bochechas até a ponta do nariz.
Seus olhos estão cercados por um delineado preto e afiado que intensifica
ainda mais o tom deles. Nunca sei dizer se são verdes ou castanhos. São a
cor da floresta molhada depois da chuva, meio musgo, meio âmbar, porque
a natureza hesitou no último segundo antes de escolher. Às vezes, sob a luz
certa, parecem ouro velho. De vez em quando, carregam um tom denso,
aquele tom esverdeado que o mar toma sempre que uma tempestade vai
começar.
O cabelo está solto, meio cacheado nas pontas, fios loiros que
escorrem pelos seus ombros, até metade das costas. Ela diz alguma coisa
pra um funcionário do caminhão de mudanças e dá uma corridinha até o
meu carro, dando um meio sorriso antipático antes de entrar.
O jogo começou, agora de verdade.
— Boa noite, monstrinho.
— Boa noite, princesinha. De mudança?
Charlotte hesita. É um gesto mínimo, quase imperceptível — o
queixo erguido demais, o olhar que não se fixa em mim, os dentes que
alcançam o lábio inferior por um instante longo o bastante pra denunciar
desconforto.
Eu percebo antes que ela diga qualquer coisa.
— Sim — murmura, prendendo o cinto de segurança com um clique
seco — Vou passar um tempo nos dormitórios da Mayfair.
Arqueio uma sobrancelha.
— Não parece ser o tipo de coisa que você faria por livre e
espontânea vontade.
Charlotte dá de ombros.
— Meu pai acha que preciso ser mais pé no chão, só isso. Vai ser bom
conviver com a ralé mais de perto.
Uma risada irônica escapa da minha garganta, porque ela está
chamando os filhos das pessoas mais ricas do país, em sua maioria, de ralé.
Não me surpreende, porque ninguém é bom o suficiente pra Charlotte
Sparks.
— O seu pai…
— Isso. Não quero falar sobre ele.
Concordo com a cabeça enquanto meus olhos caem no trânsito.
Killian já disse, mais de uma vez, que ela nunca fala sobre os pais. Desde
aquela noite no parque Grimmspur estamos tentando entender porque um
homem como ele comprou armamento pesado, mas Charlotte não colabora.
Aparentemente, não vai ser hoje que vou conseguir a resposta pra essa
pergunta.
— E falando nisso — Charlotte recapitula, incomodada com o
silêncio — O seu pai não vai… Ficar meio irritado em me ver?
— Por que?
— Você sabe porque.
— Por que a sua família fodeu a vida da minha mãe?
Ela parece desconfortável com a minha constatação.
Dou um sorriso.
— Relaxa, eu não penso desse jeito. E não é como se eu fosse te
apresentar formalmente pro meu pai. Você não está à altura da minha
família.
Os olhos de Charlotte disparam quando ela me fuzila com os olhos.
— Desculpa?
Pelo seu tom de voz, eu diria que estou prestes a levar um tapa.
— Não está à altura, porque é boa demais pra todos eles.
Charlotte me encara com o canto dos olhos. Sua postura desarma, mas
não o suficiente pra sair da defensiva. Ela vira o rosto na direção da janela,
ignorando meu comentário, mas eu sei o que fiz. Eu sei exatamente o que
acontece quando a elogio desse jeito — quando deixo escapar que, pra
mim, ela sempre foi um pouco intocável.
— Sendo honesta, não tem como os seus pais serem piores do que os
meus — sussurra.
— Você duvida?
Charlotte ajeita o corpo no banco. O semáforo mais próximo muda de
cor, de amarelo para vermelho. Eu paro o carro e ela me encara, ansiosa
para ouvir o que eu tenho pra dizer.
— Vai, me conta. O que a brilhante Lana St. Clair fez de tão ruim?
Ergo um dos ombros, fazendo pouco caso.
— Minha mãe sabia que eu tinha medo de cachorros, então comprou
dois pra mim, de presente de aniversário — digo, sem olhar pra ela. Os
faróis lavam o asfalto úmido à frente como se a cidade estivesse sempre à
beira de um desmaio, e meus dedos apertam o volante com força suficiente
pra deixar as juntas brancas. — Eram cachorros gigantescos, dobermans, e
ela me deixava sozinho no quintal com eles, antes de nos mudarmos pra um
apartamento de cobertura. Trancado no quintal. Quando estava se sentindo
um pouquinho mais cruel, Lana os deixava sem comer. Eles me mordiam de
tempos em tempos, mas nunca arrancaram um pedaço.
O semáforo se abre e eu arranco o carro. Os dedos de Charlotte param
de brincar com o cinto de segurança. Pela primeira vez na noite, a
princesinha ficou imóvel.
— Se lembra de quando perguntou se eu tinha medo de escuro? Não
tenho, porque estou acostumado a ser trancado no armário. Sabe essa
cicatriz? Foi culpa da minha mãe.
Charlotte não diz nada. Nem um som. Seus olhos estão tão abertos
que eu consigo ver o reflexo das luzes da rua nas bordas escuras da íris. O
maxilar dela se contrai, mas não é raiva. Quase consigo ver um pouco de
tristeza brilhando no seu rosto bonito.
— É brincadeira.
Nada do que eu falei é brincadeira.
— Acreditou que a minha mãe era uma vadia louca?
Minha mãe era mesmo uma vadia louca.
Charlotte deixa uma risada nervosa escapar.
Não sei dizer se ela está aliviada ou incomodada.
— Você tem um senso de humor estranho, monstrinho.
Dou um sorriso na direção dela.
É.
Você não imagina o quanto.
22 DECLAN ST. CLAIR
Presente
A Clairé d’Or não se tornou uma das marcas de joias mais desejadas
dos Estados Unidos por causa do meu pai. Muito pelo contrário. O sucesso
cintilante dela veio apesar dele. Ainda assim, ninguém se surpreende ao
descobrir que o Sr. Ashford passou semanas inteiras soterrado por reuniões
que começavam antes do sol nascer e terminavam com a cidade já deserta,
tudo para garantir que o lançamento da nova coleção acontecesse no
coração dourado de um dos seus hotéis excessivamente decorados.
É nessas ocasiões que o verniz descasca e o óbvio que tentamos
ignorar se revela: Os cisnes são inseparáveis, entrelaçados em destinos que
nem sempre escolhemos. Um ninho de serpentes vestidas de gala.
Os Belrose, por exemplo, estão ensaiando um acordo promissor,
tentando infiltrar seus bares em cada canto luxuoso da rede Ashford.
Enquanto isso, o hospital dos Jang — com sua fachada estéril e impecável
— oferece cupons de desconto, guiando famílias devastadas para dentro do
conforto calculado dos mesmos hotéis. E Samuel Valmont, antes de sua
previsível queda pública, costurava alianças e ameaças por entre todas as
famílias que formam o nosso ciclo fechado: St. Clair, Jang, Belrose,
Ashford, Montgomery. Tenho certeza que Dex está planejando matá-lo,
então ele não vai precisar viver na ruína por muito mais tempo.
É sufocante quando se percebe o quão fundo isso tudo vai.
Como se tivéssemos sido programados desde o berço pra participar
desse jogo de aparência, poder e promessas. Como se um segredo
sussurrado na hora errada pudesse desmoronar tudo. A sensação é de estar
preso num daqueles circuitos intermináveis de dominós. Basta um tombar
— só um — e o colapso vira espetáculo. Uma queda coreografada.
Irreparável.
Os flashes começam antes mesmo de entrarmos no saguão.
Charlotte Sparks é o próprio evento, fazendo parecer que todos os
holofotes assinaram um contrato de exclusividade com o contorno do seu
rosto. Ela tem esse efeito sobre as pessoas — uma espécie de fascínio
automático, um incêndio que ninguém consegue ignorar, mesmo quando
sabem que vão acabar queimando se chegarem perto demais.
Talvez eu esteja errado.
Talvez eu seja a mariposa dessa história.
Subimos os degraus largos e encerados, o som abafado dos nossos
passos engolido pelo mármore milimetricamente polido. Os holofotes do
lado de fora ainda piscam atrás de nós, mas ali, na antessala do saguão, tudo
parece em suspenso. Um segurança dos Ashford — terno preto e maxilar
travado — nos intercepta com um aceno discreto. Sem dizer uma palavra,
ele abre caminho pelo corredor lateral como se estivesse nos conduzindo
para o sacrifício mais glamouroso da temporada. E nós seguimos.
O tapete dourado da Clairé d’Or nos espera à frente. A logo da marca
foi estampada em tudo: nos totens, nas paredes, até nos pequenos pontos de
luz refletidos nos arranjos de orquídeas encomendados diretamente de
Tóquio. É um verdadeiro espetáculo, pensado especialmente para receber os
maiores influencers de moda e beleza dos Estados Unidos.
Eu dou um passo para trás e deixo que tirem as fotos de Charlotte
primeiro. Os fotógrafos a seguem e, nesse momento, ela tem o poder
silencioso de uma bomba prestes a explodir. Dona do tipo de beleza que te
obriga a encarar e, ao mesmo tempo, te faz sentir vergonha, hesitando em
desviar os olhos. Mesmo que ela seja linda, perfeita, impressionante, tem
alguma coisa errada ali.
Uma coisa quebrada por trás da maquiagem.
Faz parecer que Charlotte está sempre atuando em uma versão de si
mesma, e ninguém sabe qual é o seu roteiro original.
Nem mesmo ela própria.
Quando eu entro no tapete dourado, as câmeras disparam em rajadas,
intercalando luz e sombra, como se estivéssemos presos numa tempestade
de flashes. Charlotte gira levemente o corpo e se aproxima, alinhando o
perfil ao meu. O rosto perfeitamente angulado, o olhar direto para as lentes,
e a boca entreaberta no tipo exato de sorriso que deixa os outros se
perguntando se ela está flertando ou zombando deles.
Charlotte é a estrela do caos, enquanto eu sou o tipo de problema que
não aparece na superfície. O que ninguém vê até ser tarde demais.
Meu braço desliza pelas costas nuas dela com uma calma que beira o
sadismo, até encontrar a curva da sua cintura — quente, tensa, viva. Meus
dedos repousam ali, sem pressa, como se pertencer a esse lugar fosse o
movimento mais natural do mundo.
Mas não é.
Não pra nós.
Charlotte prende a respiração. Pequeno demais pra que alguém do
lado de fora note, mas grande o suficiente pra mim. Sinto o arrepio nascer
na base da sua nuca e escorrer até os meus dedos como um segredo
entregue por acidente. Há algo nesse toque — algo que pulsa entre nós com
uma vibração antiga, elétrica, quase cruel. Um campo de força silencioso.
Um aviso.
Uma promessa.
Uma ameaça.
Qualquer uma das três, dependendo de quem cede primeiro.
— Você devia ter cuidado com o jeito que me olha — Charlotte
sussurra, os dedos subindo até a minha gravata dourada com uma precisão
que não combina com o seu tom de voz leve.
Ela aperta o nó com um pouco mais de força do que o necessário,
querendo me lembrar que não sou eu quem dita o ritmo do que quer que
seja que acontece entre nós.
— Os fotógrafos vão acabar pensando que a gente se suporta.
Um meio sorriso escapa do canto da minha boca, insolente, meio
arrastado.
Quase carinhoso, pra quem não sabe quem eu sou.
— Eu sou um péssimo ator, princesinha — zombo — Se parece que
eu quero te devorar, é porque estou me segurando pra não fazer isso agora
mesmo.
Charlotte estala a língua, prestes a me dar uma resposta afiada. Um
sorriso torto começa a subir no canto da boca, mas morre antes de nascer
por completo. Porque, antes que qualquer palavra escape dos seus lábios,
Charles Ashford — Charles, como o filho — aparece no nosso campo de
visão.
Alto.
Sóbrio.
Impecável num terno cinza grafite com corte europeu.
Os olhos dele passam direto por mim e pousam em Charlotte,
curiosos. Eu engulo uma careta. O pai de Chuck é do tipo que troca de
esposa como quem troca de carro, uma vez por ano, sempre correndo atrás
do modelo mais novo. Com um gesto sutil — dois dedos indicam o
corredor à esquerda — ele nos convoca.
Seguimos lado a lado, por entre colunas douradas e arranjos de flores
brancas que exalam perfume demais, na tentativa de mascarar o cheiro de
dinheiro podre. Charles abre um sorriso ainda maior quando nota nossa
aproximação, estendendo uma das mãos pra mim.
Pego a mão dele, sem o mesmo entusiasmo.
— St. Clair! Eu fiquei muito feliz quando vocês aceitaram que o
nosso hotel pudesse ser palco de uma noite tão importante pra Clairé d’Or.
É estranho ouvir St. Clair sair da boca dele como se fosse apenas um
nome escrito em um crachá, quando passei boa parte da infância jogado no
tapete do quarto de Chuck. Nós nos esbofeteávamos com controles de
videogame, riamos alto demais e comíamos biscoitos direto do pacote até as
mãos ficarem engorduradas e os dedos doerem de tanto apertar os botões.
Dex e Killian geralmente estavam lá também, fazendo bagunça, rindo,
brigando, vencendo e perdendo lado a lado.
Naqueles dias, Charles era só o pai do Chuck.
Um cara de meia-idade que aparecia de vez em quando pra mandar
abaixar o volume ou perguntar se a gente queria pizza.
É engraçado, como os homens mais importantes de New York
parecem apenas homens quando observamos de uma lógica infantil. Na
maioria dos dias, sinto falta daquela inocência.
— E você deve ser…
Antes que eu possa apresentá-la devidamente, Charlotte toma à
frente:
— Charlotte Sparks.
Charles inclina a cabeça levemente para o lado, tentando encaixar
aquela informação em algum compartimento específico da memória. Estala
os dedos com uma satisfação preguiçosa.
— Ah, claro. Eu conheço o seu pai. Richard, não é? Ele está…
passando um tempo fora de New York depois daqueles probleminhas
financeiros, certo?
E foi ali. O segundo exato em que o ar pareceu ser sugado do
ambiente como se alguém tivesse aberto uma porta para o vazio. Charles
diz aquilo como quem comenta que vai chover amanhã. O nome do pai dela
e o desastre que veio com ele se transforma em apenas mais um tópico
socialmente aceitável para conversas em jantares caros, sem nenhuma
intenção de ferir — o que, de alguma forma, torna tudo ainda pior.
Viro o rosto na direção dela. Charlotte ainda sorri — mas algo na
expressão muda. É sutil, quase imperceptível, mas eu vejo. Os olhos dela
não acompanham o sorriso. Eles endurecem. Como vidro sob pressão.
De repente, as peças de um quebra cabeça maior se conectam dentro
do meu cérebro.
A mudança da mansão.
A história esquisita de passar um tempo no dormitório da Mayfair…
Charlotte engole em seco. Eu ouço. Ela força o queixo para cima e
ajeita o peso do corpo, tentando se manter inteira.
— Desculpe — Charlotte diz, então — Eu não faço ideia do que você
está falando.
O sorriso continua.
Mas agora é cortante.
De um tipo que pode partir um homem ao meio, se ele prestar atenção
o suficiente.
O senhor Ashford pisca, confuso e envergonhado ao mesmo tempo.
Consigo ver nos seus olhos que ele está se perguntando se errou de magnata
falido, porque existem muitos deles em New York.
— Com licença — ela diz, de novo, incomodada com o silêncio —
Eu preciso ir no toalete. Eu te encontro no salão principal, Declan?
Concordo com a cabeça, num gesto leve, quase automático, embora
saiba que ela não precisa de consolo. Ela precisa de silêncio. Uns minutos
sozinha, talvez em um banheiro com espelho comprido e luz amarelada, pra
recalibrar a expressão, ajeitar o batom e se lembrar de quem está fingindo
ser.
Charlotte não desaba.
Ela se recompõe.
Mas ainda assim… eu me pego observando. Com uma mistura
estranha de divertimento e preocupação, como quem assiste um copo de
cristal vibrar na beira da mesa e se pergunta se ele vai cair ou aguentar mais
um pouco.
Tem algo nela que me intriga. A forma como ela mantém a pose
mesmo quando o mundo escorrega por debaixo dos saltos. Me pergunto se
Charlotte tem dinheiro pra se manter. Se as mensalidades absurdas da
Mayfair estão pagas. Se ela tem cartões escondidos em bolsos de casacos
antigos, prontos pra quando tudo desmoronar.
E, principalmente, que merda Richard Sparks fez pra perder tanto
dinheiro.
— O seu pai está na cobertura do hotel — Charles me diz — Está
ensaiando pro discurso de apresentação das jóias novas. Nós alinhamos
tudo com a equipe de marketing de vocês, vamos fazer lives simultâneas no
instagram e no youtube…
Ele continua.
As palavras seguem saindo da boca dele em blocos organizados de
entusiasmo corporativo: posicionamento, engajamento, timing estratégico,
buzz orgânico. Eu ouço cada uma como quem ouve a água escorrer numa
pia entupida.
Não que não seja importante.
Como estudante de publicidade, eu sei que é.
Mas o entusiasmo dele por métricas de alcance e gráficos de
engajamento me dá vontade de me atirar da sacada mais próxima.
Eu aceno, de vez em quando, o suficiente pra parecer que estou ali.
Um sorriso educado se encaixa no meu rosto quando ele finalmente termina
— ou talvez só faz uma pausa longa o bastante para me permitir escapar.
— Eu vou ver como ele está — digo, e dou um passo para o lado.
Mas antes, viro o rosto de novo, como quem se lembra de algo trivial,
e deixo a pergunta cair com doçura ensaiada:
— Não estão servindo bebidas alcoólicas aqui hoje, certo?
A frase pousa no ar como quem não quer nada, mas o silêncio que
vem em seguida revela que ela não era tão inofensiva assim.
— Não — Charles confirma — Tudo como você pediu.
Agradeço com um meio sorriso e entro no elevador sozinho.
À medida que os andares sobem, o entusiasmo do som vai
diminuindo aos poucos, como se os hóspedes dos andares superiores fossem
bons demais para qualquer tipo de comemoração. A cobertura do hotel
parece ainda mais silenciosa do que deveria.
— Pai? — chamo, só por protocolo.
A porta está destrancada.
Claro que está.
Arthur St. Clair nunca tranca nada que ache que pertence a ele.
E, de certa forma, tudo pertence.
Dou alguns passos para dentro, os sapatos fazendo um som opaco
sobre o tapete caro. O quarto está impecável. E vazio. Não há pasta de
discursos sobre a mesa, nem blazer pendurado na cadeira, nem barulho
vindo do banheiro.
Nada.
Passo pela varanda, os olhos varrendo o espaço como quem tenta
montar um quebra-cabeça com peças que não se encaixam.
É só quando chego perto da hidromassagem, do lado direito, que vejo.
A garrafa de whisky está deitada de lado sobre o tampo de mármore.
Uma Macallan 18 anos, vazia. A tampa ainda rolou um pouco até parar
rente ao cinzeiro, desistindo no meio do caminho.
Meu estômago revira.
Ao lado dela, um bilhete. Dobradiço, de papel grosso. Marfim, com
bordas limpas.
Me abaixo.
Parabéns pela nova coleção da Clairé d’Or.
Estou orgulhoso pra caralho de você.
xx Declan
— Desgraçado — eu sussurro, amassando o papel assinado com o
meu nome.
Se eu não mandei esse presente, só pode ter sido uma pessoa.
E ela se esconde atrás do apelido de Phantasma.
23 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Dizer meu nome em voz alta sempre foi como mastigar vidro.
Um estilhaço a cada sílaba.
Um lembrete de que tem coisas que cortam mesmo antes de doer.
Não fui feito pra caber no cartão de visitas dourado da Clairé d'Or,
mas isso nunca importou. Sempre que meu pai tropeçava nas palavras ou se
esquecia do que vinha depois da terceira taça de vinho, era a voz de Lana
St. Clair que preenchia o silêncio, me carregando no colo, usando o velho
truque de conseguir empatia através do rostinho fofo do seu único filho.
Hoje deveria ser diferente.
Não sou mais uma criança e Lana está morta, mas meu pai…
Meu pai ainda é o mesmo.
A porra do mesmo homem.
Passo os dedos pelo meu cabelo, bagunçando os cachos escuros
enquanto ando de um lado para o outro, pensando em lugares onde meu pai
poderia estar. Considero que Phantasma poderia tê-lo sequestrado mas,
honestamente, ele não seria tão gentil.
O discurso precisa começar em menos de quinze minutos.
Solto o ar pela boca como quem tenta esvaziar um pulmão carregado
de cacos. Saio da cobertura do hotel com passos duros, secos, e bato a porta
com força o suficiente pra fazer a moldura da parede vibrar. É um gesto
inútil, claro. A madeira não sente nada.
Eu sinto tudo.
O elevador parece lento demais. Estalo os dedos, uma, duas, três
vezes, tentando puxar da memória cada linha do discurso, cada vírgula da
história da Clairé d'Or, tentando repetir datas e nomes antigos pra me salvar
do presente.
Quando as portas se abrem e piso de volta no saguão do hotel dos
Ashford, o ar parece mais pesado. A luz é quente, elegante, e ainda assim
não alcança os cantos do salão — como se até o brilho ali soubesse que tem
coisas demais escondidas atrás dos rostos bem maquiados.
Entro no salão principal e meu coração tropeça dentro do peito.
Tecnicamente, eu sabia que todos estariam aqui.
Mas vê-los ao mesmo tempo, como peças dispostas num tabuleiro que
nunca foi meu, torna tudo mais concreto. Mais sufocante.
Os Ashford estão encostados no bar, emoldurados por copos de
cristal. Os Belrose trocam sorrisos plásticos com os Jang — alianças
veladas sob ternos de corte perfeito. Isla, Emily e Olívia formam um trio à
parte, segurando taças de champanhe feito fossem armas.
Charlotte está sentada na mesa dos Montgomery.
Rindo.
A cabeça levemente inclinada pra trás, o ombro tocando o de Reid.
Ela ri de uma piada do pai dele, e isso deveria ser inofensivo, mas em
mim acende o tipo errado de alarme.
Ela é minha acompanhante, porra.
Respiro fundo, porque não tenho tempo de sentir ciúmes de Charlotte
Sparks agora.
Eu não sou o tipo de cara que sente ciúmes, não do jeito tradicional.
Observo o caminho que preciso fazer até o palco. Tem influencers por
todos os lados — criaturas esculpidas sob o bisturi de uma mesma estética,
com dentes de porcelana e rostos tão esticados que parecem prestes a
estourar. Famílias inteiras carregando sobrenomes que brilham mais do que
suas consciências.
A alta sociedade de New York inteira está aqui.
E cada um deles vai assistir se meu pai resolver desmoronar.
Subo no palco antes que a coordenadora de marketing da Clairé d’Or
perceba que tem algo errado. A luz quente me atinge em cheio. Meu
coração está batendo tão rápido que acho que vai sair pela minha boca. Mas
minha voz...
Minha voz vem limpa.
Treinada.
Cirúrgica.
— Boa noite. Em nome da Clairé d'Or, quero agradecer a presença de
cada um de vocês. Essa coleção não é só sobre jóias. Ela é sobre memória e
legado.
Algumas cabeças assentem.
Algumas bocas murmuram um hm educado.
Eu vejo Chuck sussurrar alguma coisa pra Dex e os dois parecem
confusos com a ausência do meu pai.
— Quando minha família fundou a Clairé d’Or, ela não era sinônimo
de status. Ela era uma promessa. A promessa de que até os erros podiam
ser... — minha voz falha.
Porque vejo, lá do fundo do salão, um vulto cambaleante cruzando as
portas duplas.
Arthur St. Clair.
Terno amassado. Gravata torta. Olhos vítreos. Ele tenta sorrir, mas
tropeça no próprio sapato e segura numa das pilastras de apoio como se o
mundo tivesse virado um carrossel fora de controle.
O salão engasga em silêncio.
— ...de que até os erros podiam ser reescritos. — termino, ignorando
a presença do meu pai.
Mas então ele se aproxima.
Passos descompassados. Murmúrios crescendo. O ar fica denso. E,
como um clichê grotesco de um pesadelo velho demais, Arthur para no
centro do palco, bem ao meu lado, fedendo a álcool. Me encara por um
segundo. Tenta erguer a mão.
E mija nas calças.
Literalmente.
O salão se divide entre o escândalo e a pena. O som do líquido
atingindo o piso polido ecoa alto demais. Eu sinto o sangue abandonar meu
rosto. Penso em segurá-lo, tirá-lo dali, dizer que é algum problema médico,
mas é tarde demais. Tem uma dezena de celulares apontados na nossa
direção, uma live acontecendo no instagram da Clairé d’Or — dois milhões
de seguidores vendo meu pai mijar na frente de todos os nomes que
importam nos Estados Unidos.
De repente, uma voz grita.
Meus olhos vão direto até os fundos do salão, onde vejo um copo se
espatifando contra o piso. Tenho tempo de ver Killian disparando um soco
contra Dex, então Dex devolvendo.
Que porra esses idiotas estão fazendo?
Começa como uma briga silenciosa, só o som abafado dos punhos
encontrando carne. Mas logo os seguranças gritam. Gente se levanta.
Celulares gravam. Os Ashford tentam controlar o estrago, mas o caos já se
espalhou.
E eu estou no centro disso tudo, com o cheiro de urina se misturando
ao meu perfume importado e o gosto do meu sobrenome azedando na
minha boca.
Legado.
Memória.
Promessa.
O que é uma herança quando tudo que você herda é vergonha?
24 DECLAN ST. CLAIR
Presente
A água da piscina parece mansa demais pra uma noite como essa. Ela
reflete o céu escuro e o brilho artificial das luzes do hotel dos Ashford com
uma calma fingida, como se o mundo não tivesse acabado poucas horas
atrás no salão principal.
Estou sentado na beira da piscina e a água cobre minhas pernas até o
meio da canela. A barra do tecido gruda na pele tentando me lembrar, a
cada segundo, que eu ainda estou aqui.
Não me importo com o desconforto. Nem com a calça, nem com a
temperatura. A verdade é que não sinto nada. Ou talvez sinta tudo — de
uma vez, em ondas tão densas e simultâneas que o resultado é esse
entorpecimento que me deixa meio fora do corpo, meio dentro de um
pesadelo disfarçado de festa.
Dex está no deck, com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos
entrelaçadas. Os nós dos dedos estão vermelhos, marcados pela força do
soco que ele deu no Killian.
Killian, por outro lado, parece satisfeito com o próprio caos. Está
reclinado numa espreguiçadeira, um saco de gelo sobre o maxilar e aquele
meio sorriso cínico pendurado no canto da boca inchada. O tipo de homem
que faria piada da própria morte.
Do outro lado da piscina, Melissa está quase imóvel, sentada na
beirada, os olhos fechados e os dedos desenhando órbitas preguiçosas na
água. Chuck está ao lado dela, equilibrando duas garrafas de espumante
entre as mãos.
Olívia chega com um kit de primeiros socorros roubado da enfermaria
do hotel. Ela se agacha ao lado de Dex, sem dizer nada, desembrulha uma
faixa de gaze e começa a limpar o sangue seco dos nós dos dedos dele com
a mesma delicadeza que teria se estivesse passando delineador nos próprios
olhos.
Reid está aqui também. Próximo a Charlotte, mas com o olhar preso
em mim. De tempos em tempos, ele me encara com aquele olhar
indulgente, quase paternal, tentando adivinhar o que se passa por trás do
meu silêncio. Como se quisesse me dizer que está tudo bem, que vai passar.
Solto um longo suspiro.
Charlotte se mantém calada do meu lado. Tão quieta que chega a
parecer perigosa. O joelho dela encosta no meu e, por algum motivo, isso
me impede de afundar.
— A melhor forma de abafar um escândalo é criando outro. Vocês me
agradecem depois.
Dex revira os olhos.
— Você me deu um soco de verdade, seu merda.
— E você revidou. Estamos quites.
Chuck levanta a garrafa num brinde silencioso.
— Pelo show.
— Se os seus pais ainda não deserdaram vocês — resmunga Olívia,
ainda ajoelhada ao lado de Dex — pode apostar que estão considerando
fortemente nesse exato momento.
— O que foi? — Killian retruca, com um sorriso preguiçoso e um
tom de falsa inocência que ninguém ali acredita. — Vai dizer que nunca
saiu no tapa com a sua irmã?
Olívia levanta os olhos, só o bastante pra fulminá-lo com um olhar
que parece perfurar concreto.
— Nós somos mulheres civilizadas.
Dex solta um suspiro e reclina os ombros contra a madeira do deck,
como se o sangue nas mãos fosse só mais um acessório.
— Vai estar em todos os jornais amanhã — comenta, casualmente. —
“Herdeiros Belrose trocam socos durante coquetel da Clairé d’Or”.
Manchete pronta.
Charlotte, que estava calada até então, solta uma risada seca, sem
humor.
— E quando alguém pesquisar sobre o evento, é isso que vai aparecer.
Ela pausa.
— E não…
— ... outra coisa — completa Reid.
Killian ergue uma sobrancelha, quase ofendido.
— Admitam, foi brilhante.
— Foi idiota — Melissa sinaliza, movendo os dedos — Mas
funcional. É a primeira vez que eu vejo você usar o cérebro. Meus
parabéns.
Killian leva a mão aos lábios com dramatização exagerada, como se
fosse um ator de teatro barato. Em seguida, sopra um beijo na direção de
Melissa com os dedos estendidos, o anel dourado refletindo a luz da
piscina.
— Sempre tão gentil, Mel. Você vai me fazer corar — diz, com a voz
arrastada de ironia.
Melissa levanta o dedo do meio.
— Parem com a rasgação de calcinha — eu debocho e, depois do
vexame do meu pai, é a primeira vez na noite que consigo dizer alguma
coisa sem sentir meu peito apertar.
Fico feliz que eles estejam aqui, todos eles, mesmo depois da cidade
inteira assistir o meu sobrenome se desmanchar em tempo real. Os cisnes
tem esse tipo de lealdade que só se prova no colapso.
— Vocês dois se amam tanto — Chuck zomba.
Melissa leva o dedo indicador até a boca, fingindo ânsia de vômito.
Charlotte balança as pernas na piscina, suavemente, e eu entendo que é
estranho pra ela estar aqui, com suas ex-melhores amigas de infância, o cara
que ela está transando e eu.
Penso em fazer uma piada sobre isso mas, antes que eu possa, vejo a
coordenadora de marketing da Clairé d’Or surgir perto da entrada da
piscina, com uma prancheta de couro e saltos desconfortáveis. Ela está
tentando parecer compenetrada, mas a sombra no olhar dela é a mesma que
me persegue desde criança: a sombra de quem viu Arthur St. Clair ruir por
dentro e finge surpresa toda vez que ele ruí por fora.
— Declan? — ela chama, com a voz controlada demais. — Seu pai
está no quarto da cobertura. Preparamos um café forte pra ajudar com…
Bem, você sabe. Ele perguntou por você. Quer... subir?
Eu não respondo de imediato.
Porque minha primeira vontade é dizer sim.
Subir.
Encarar.
Gritar.
Jogar a garrafa de whisky contra a parede e perguntar se ele percebe
que fodeu com tudo.
Mas então vem o outro lado. O que sussurra que isso é normal. Que
sempre foi. Que Arthur St. Clair nunca soube ser pai, nunca soube ser
homem, nunca soube ser nada que não fosse um desastre vestido dentro de
um terno caro.
Lembro das reuniões de conselho que ele faltou. Dos jantares de gala
onde Lana segurava o copo dele para impedir que ele enchesse demais. Dos
olhos dele me encarando como se eu fosse um lembrete constante de falha.
Em toda ressaca, Arthur dizendo que seria a última.
Meu nome tem o gosto das promessas dele.
— Não — digo, firme.
A mulher parece querer dizer alguma coisa, mas muda de ideia. Ela
apenas assente, aperta a prancheta contra o peito e se afasta sem mais
perguntas.
Charlotte se aproxima sem dizer nada, como quem sabe que palavras
só atrapalhariam agora. Ela encosta a cabeça no meu ombro — de leve,
quase hesitante, perguntando com o gesto se ainda tem espaço pra existir
perto de mim.
O toque dela é morno, silencioso. Um consolo discreto, quase
imperceptível, mas que me ancora de um jeito que nenhum discurso de
apoio conseguiria. Do outro lado, Olívia ergue uma sobrancelha, aquele tipo
de olhar afiado que já passou da curiosidade e agora dança na beira da
suspeita. Killian finge não ver. Melissa faz um movimento com os olhos
fechados como quem percebe mais do que deveria e escolhe guardar pra si.
Acho que ninguém aqui entende por que ela está aqui.
Ou por que eu a trouxe.
Ou o que está se costurando entre nós, mesmo nas rachaduras.
Mas, honestamente?
Eu também não entendo.
25 CHARLOTTE SPARKS
Presente
A ideia de voltar pra casa revira meu estômago como um carro
derrapando na beira de um abismo. Atravessar aquela porta uma última vez
vai assinar, em silêncio, a minha própria rendição. Como se eu aceitasse, de
cabeça baixa, que meu nome nunca vai ser só meu. Que por mais que eu
grite, ainda vou ser a filha de Richard Sparks — o homem que destruiu
tudo.
Eu sabia que essa seria minha última noite na mansão.
Mas saber não é o mesmo que estar pronta.
E a verdade é que não estou.
Não quero dizer adeus às paredes que guardam a minha infância.
Ao quarto onde escondi diários, à varanda onde aprendi a mentir
sorrindo, ao corredor onde ouvi minha mãe chorar pela primeira vez.
Não quero voltar pra casa.
Porque aquela casa não é mais minha.
Eu me viro na direção de Declan, que dirige em silêncio, a expressão
fechada de quem está com os pensamentos bem longe daqui. A verdade é
que estou sendo uma garotinha mimada e mal agradecida. Se comparado
com Arthur St. Clair, acho que Richard Sparks é muito razoável.
Ou os dois são uns merdas.
— Não quero voltar pra casa — eu digo, de repente, verbalizando o
pensamento.
Declan se vira na minha direção. O cabelo escuro — sempre
desalinhado de um jeito bonito demais pra ser acidental — brilha sob a luz
intermitente do semáforo. Por um instante, o rosto dele é tingido de
amarelo. Um brilho morno, hesitante, que deixa seus traços mais suaves,
quase vulneráveis.
Mas então o vermelho toma conta, como um reflexo de tudo que ele
não diz. A sombra dos cílios, a linha marcada do maxilar, o contraste entre
o olhar afiado e a quietude do corpo. Ele parece o tipo de homem que se
acende antes de colapsar.
— Eu também não — ele diz, um meio sorriso tomando os cantos da
boca — Tem um lugar… Interessante pra gente ir.
— Quando Declan St. Clair diz que um lugar é interessante, o que
exatamente ele quer dizer?
— Confia em mim?
— Não.
— Excelente resposta. Nesse caso, considere isso como um sequestro.
Uma risada escapa da minha garganta, crua e involuntária, quando
Declan pisa no acelerador e atravessa o sinal vermelho como se a cidade
fosse dele.
Eu me estico no banco, ainda com as pernas meio molhadas da
piscina, e abro o porta-luvas com um estalo rápido. A garrafa de vinho
branco que roubei do coquetel da Clairé d’Or rola na minha mão como um
prêmio sujo — um pequeno ato de desobediência que agora parece quase
romântico.
A rolha me desafia por alguns segundos. Minhas unhas grandes
escorregam, o vidro frio e suado não ajuda, mas eu insisto até ouvir o som
seco da vitória. Dou um gole direto da garrafa, sentindo o vinho morno
queimar levemente a garganta, depois estendo a garrafa pra ele, sem dizer
nada.
Declan pega com uma das mãos, como se dirigir e beber fossem dois
movimentos naturais de quem já passou dos limites há tempo. Bebe sem
hesitar, sem fingir responsabilidade, com aquele jeito perigoso de quem está
pouco se fodendo pro que vem depois. Depois da noite que ele teve, tem
coisa pior do que ignorar um sinal vermelho e beber no volante.
Demora cerca de vinte minutos até eu entender pra onde estamos
indo: o farol de Coney Island. Declan não diz nada, mas quando o mar
começa a surgir pelas janelas e as luzes da cidade viram um borrão atrás de
nós, ele solta um meio sorriso, quase imperceptível, dando a entender que o
destino tem mais a ver com ele do que comigo.
— Eu vinha aqui quando era criança — ele diz, os olhos fixos na
estrada escura, as mãos firmes no volante. — Quando as coisas ficavam
insuportáveis. Quando meu pai bebia demais ou…
Ele pausa. Dá mais um gole na garrafa e limpa a boca com o dorso da
mão.
— O farol nem funciona mais. Mas, sei lá. Eu gostava disso. De saber
que ele estava lá, parado, inútil, esquecido e mesmo assim de pé.
Ele me olha de lado, rápido.
— Me identificava com isso.
As palavras ficam suspensas no ar entre nós, como fumaça de um
incêndio antigo que ainda arde embaixo dos escombros. Não é um desabafo
completo — mas é mais do que Declan costuma entregar.
Lá fora, a estrada vai ficando mais estreita, a escuridão engolindo os
postes de luz, e o som das ondas se aproxima como um segredo vindo do
fim do mundo. E, por algum motivo, eu não quero estar em nenhum outro
lugar.
Quando Declan estaciona e eu desço do carro, o vento é o primeiro a
me tocar. Frio, cortante, com gosto de sal e abandono. O farol está lá, como
uma sentinela esquecida, pequeno demais pra cidade que gira ao longe,
grande demais pra ser ignorado. A pintura vermelha desbotada, a base de
concreto marcada por pichações, e a luz apagada no topo como um aviso de
que ninguém está sendo salvo hoje.
A praia é vazia. A areia é grossa, escura, misturada com cascalho e
pedaços de conchas partidas. Árida, recusando o romance clichê que
esperam dela.
— Ninguém vem aqui — Declan diz, tirando os sapatos e deixando os
pés afundarem na areia fria. — Eu gosto disso também.
Nos sentamos encostados na base do farol, dividindo a garrafa sem
cerimônia. O líquido é áspero, meio morno, mas faz o peito aquecer
devagar. Ele pega a garrafa de volta, os dedos roçando nos meus de um jeito
que parece distraído, mas deixa um rastro quente na pele.
— É verdade — eu digo, de repente, não sei bem o motivo.
Declan arqueia uma sobrancelha.
— O que?
— O que o senhor Ashford disse — suspiro, enfiando meus pés na
areia — Que meu pai está… Com probleminhas financeiros. Pra ser sincera,
são problemões. Ele e minha mãe não estão em New York. Eles foram
embora e me deixaram no meio do furacão.
Declan ri, sem humor.
— Filhos da puta.
Concordo com a cabeça.
— Mais alguém sabe?
— Não — murmuro, pegando a garrafa da mão dele sem pressa. Dou
um gole pequeno. — Quer dizer, só o Reid.
Declan vira o rosto devagar, tentando interpretar algo nas entrelinhas
do que eu disse.
— Qual a sua coisa com o Reid?
Acho graça.
— Que coisa com o Reid?
— Não sei, vocês passam muito tempo juntos.
— Está com ciúmes? — pergunto, inclinando a cabeça, o tom leve,
mas afiado como lâmina.
— Não, só é curioso que você esteja pegando quase todos os meus
amigos.
Acho graça, porque não existe nada de sexual entre Reid e eu.
— E isso te incomoda?
— Talvez.
Afasto a garrafa dos lábios e me aproximo, meu rosto perto demais do
dele. Posso sentir a respiração quente contra minha boca, o vinho branco
ainda dançando entre nós.
— Bom… eu tenho a solução perfeita — sussurro, cada sílaba
escorrendo como um veneno que é doce. — Toda vez que me vir pegando
um amigo seu e sentir esse incômodo apertar o peito…
Me inclino mais, quase encostando os lábios nos dele.
— Fecha os olhos.
Declan deixa uma risada incrédula escapar.
— Você é uma grande desgraçada, Sparks.
Eu rio, erguendo o dedo médio na direção dele.
Nós continuamos conversando. Falamos de coisas que ninguém mais
sabe. De como é estranho se sentir sozinho mesmo cercado de tudo. De
como é perceber que foi criado pra representar, não existir. O resto do vinho
escorre pela nossa garganta. Em goles distraídos, entre palavras que dizem
menos do que significam. As horas passam como se o tempo tivesse
esquecido da gente ali. Quando percebo, o céu já está se tingindo de
dourado e laranja queimado, o sol nascendo no horizonte.
Em algum momento, a garrafa escapa dos nossos dedos e rola pela
areia, fazendo um som oco que some no barulho das ondas. Declan se
levanta de repente, os olhos acesos de um jeito que não vi a noite inteira.
Ele estende a mão pra mim com um sorriso selvagem no rosto — daqueles
que nascem no peito, não na boca.
— Vem — diz, e só isso.
Ele me puxa pela mão, e a gente sai correndo, fugindo de alguma
coisa invisível. Só que, dessa vez, fugimos rindo. Gargalhando como dois
adolescentes numa noite que não devia nos pertencer.
A areia áspera raspa nossos pés descalços. O vento chicoteia os
cabelos no rosto. O farol desativado lá atrás fica menor a cada passo.
Quando chegamos na beirada do mar, o choque vem como uma
bofetada líquida.
A água está gelada pra caralho. Crua, afiada, do tipo que corta a pele
em contato, quase dizendo: vocês não pertencem aqui.
Mas estamos bêbados demais pra nos importar.
É Declan quem começa a guerra.
Ele junta as mãos e me acerta com um jato de água direto no rosto —
gelada, agressiva, um choque que me faz engasgar no riso.
— Filho da puta! — grito, rindo já no meio da frase, ofegante de
surpresa.
Revido com as duas mãos abertas, levantando água como uma maré
contra o peito dele. A camisa social de Declan cola no corpo no mesmo
instante, o terno que sobrou da noite passada agora parece uma piada. O
material fica encharcado e grotesco, e isso só me faz rir mais.
Ele finge protestar, leva a mão ao peito como se tivesse sido ferido,
mas uma risada escapa. Alta, bonita, rara.
É raro ver Declan assim.
Quase livre.
Ele passa a mão pelo cabelo molhado e me encara, o sorriso torto
curvando só um canto da boca.
— Você não tem a menor ideia com quem está se metendo,
princesinha — provoca, com aquela voz rouca que gruda na pele mais do
que a água salgada.
— Já disse que você não me assusta, monstrinho — rebato, recuando
um passo.
E então ele avança.
Me alcança fácil. Me pega pela cintura como se eu não pesasse nada,
e me ergue no ar com as mãos firmes, os dedos afundando um pouco
demais na minha pele. Por um segundo, tudo para — meu cabelo
escorrendo água, o riso engatado na garganta, o mundo inteiro assistindo
em silêncio ao instante antes da queda.
Então Declan me joga.
De leve.
Mas o suficiente pra me fazer perder o ar.
A água me engole com um estalo. Fria, áspera, e ainda assim, por
algum motivo, acolhedora. Me sento de volta, arfando, os cabelos grudados
no rosto e o coração disparado, mas não sei se é pela queda ou pela forma
como ele ainda me olha.
Ele não diz nada.
Mas também não desvia os olhos.
A água escorre pelo meu rosto enquanto eu tento recuperar o fôlego,
mas é impossível com o jeito que Declan está me olhando. A camiseta dele
está colada ao corpo, pingando, transparente o suficiente pra deixar entrever
a linha do peito, o contorno dos ombros. Mas não é isso que me deixa tonta.
É o olhar.
Aquele olhar que não tem nada de performático. Nada de pose. É
direto, fixo, como se ele quisesse me decifrar com os olhos antes de se
permitir encostar de novo. Eu passo as mãos pelo rosto, tirando o cabelo
grudado na testa, e o encaro de volta.
— Isso foi traição — digo, tentando parecer ofendida, mas a voz
treme de tanto rir.
Ele dá dois passos pela água, devagar, e se abaixa na minha frente.
Agora estamos no mesmo nível, joelhos submersos, os dois com a
respiração entrecortada.
— Você sobreviveu — ele murmura, a voz baixa o bastante pra me
obrigar a prestar atenção em cada palavra. — Além do mais, você começou.
— Você começou — rebato, mais fraca dessa vez, o sorriso já
escapando de novo.
— Eu? — pergunta, meneando a cabeça, umedecendo os lábios.
Declan se inclina.
Lento, como se me desse tempo pra recuar.
Mas eu não recuo.
Os dedos dele tocam minha mandíbula primeiro, com cuidado demais
pra alguém que costuma quebrar tudo que toca. O polegar desliza até o
canto da minha boca, mapeando a ideia de me beijar antes de fazê-lo de
verdade.
Meu coração está batendo alto demais.
Acho que ele consegue ouvir.
Acho que ele sente, porque respira mais fundo, tentando conter o
próprio impulso.
— Me diz pra parar — ele sussurra, e já é quase um pedido.
Mas eu não digo.
Não posso.
Não quero.
E quando ele me beija, é como se o mundo inteiro se dissolvesse
naquela água gelada.
Os lábios dele são quentes, firmes, e tocam os meus com uma
urgência que ele tentou esconder a noite toda. A língua invade a minha
boca. É um beijo desgovernado, escuro, cheio de dentes e gemidos
abafados.
Minha mão sobe na sua nuca, se afunda no cabelo molhado, e eu
puxo, forte, tentando fazê-lo colar ainda mais em mim. Ele responde com
um grunhido baixo, rouco, animalesco.
E então a gente escorrega.
A água nos engole quando caímos de costas, mas Declan me vira com
facilidade, o corpo pesado e duro sobre o meu. Nossas roupas coladas,
encharcadas, grudadas na pele, sujas de areia. Sinto cada detalhe dele contra
mim — o peito firme, os músculos tensos, o volume dentro da calça de
alfaiataria pressionando direto entre minhas pernas.
Declan se encaixa. Me pressiona. E eu não consigo fingir que não
gosto. Meu quadril se move, quase sem querer, buscando mais fricção.
Mais.
Mais dele.
A mão de Declan desce pelas minhas costas, pelas costelas, pela
curva da minha bunda, até agarrar minha cintura com força e me puxar
contra ele. Os quadris dele afundam nos meus, a calça molhada se esfrega
no centro da minha excitação, e eu deixo escapar um som — um gemido
abafado entre os beijos, entre o atrito.
É só um beijo.
Mas meu corpo inteiro implora por mais.
A gente se beija como quem se procura há muito tempo.
Como se essa fosse a única forma possível de calar tudo.
Como se o sal da pele, o vinho na boca e a água entre nós fossem uma
nova linguagem.
O beijo dele migra.
Lento. Sujo. Faminto.
Os lábios abandonam a minha boca com relutância, como se ele
tivesse que se arrancar de mim à força, só pra explorar outro território. E
então ele afunda no meu pescoço.
Molhado. Quente. Mordendo.
A boca desliza pela minha pele encharcada, os dentes arranham, a
língua lambe, e Declan chupa com força, deixando uma marca que vai ficar
ali por dias. Eu arquejo, as costas curvando sob ele, e minhas pernas se
abrem instintivamente, encaixando as coxas de cada lado do seu corpo.
— Porra... — ele rosna contra minha clavícula, e o som da voz dele
vibrando direto na minha pele me faz gemer de volta.
A fricção aumenta.
É cruel.
É deliciosa.
Os quadris dele se movem contra os meus, devagar, testando o quanto
pode me enlouquecer sem de fato me foder. A calça dele, pesada e molhada,
esfrega entre minhas pernas, acertando meu ponto mais sensível com uma
precisão quase intencional.
Meu corpo responde na hora. Minha boceta pulsa contra o tecido da
calcinha encharcada, e eu aperto as pernas em volta da cintura dele,
procurando mais contato. Mais pressão.
Mais, mais, mais.
Declan volta pra minha boca num beijo desesperado, mordendo meu
lábio inferior antes de sugar com força, numa tentativa de me punir por
estar tão entregue. Minhas unhas cravam nos ombros dele enquanto os
corpos se movem num ritmo sujo, urgente, sem vergonha nenhuma.
Cada beijo vem com um empurrão de quadril.
Cada mordida, com um gemido.
Cada lambida no meu pescoço me faz perder o controle um pouco
mais.
E mesmo assim, Declan não me invade.
Não tira a roupa.
Não passa do limite.
Ele só me beija.
Até que esse beijo se torne o suficiente pra fazer meu corpo inteiro
implorar por mais.
Nesse momento, na água gelada e nos braços quentes dele, sou só um
corpo pulsando de desejo, e a boca dele é o único lugar onde eu quero
existir.
Ele percebe.
Percebe cada suspiro engolido, cada arquejo contra a boca dele, cada
rebolada involuntária que faço quando o volume dele raspa bem onde eu
sou mais sensível. E em vez de parar… ele intensifica. A mão escorrega por
baixo do meu vestido, subindo pelas minhas costas, sentindo minha pele
arrepiada. Me puxa mais ainda contra ele, encaixando nossos corpos como
se fôssemos feitos pra isso.
Declan pressiona.
Se esfrega.
Me fode sem foder.
Um movimento de quadril calculado, direto, lento, cheio de intenção.
A fricção entre nós é absurda, as roupas são ao mesmo tempo uma barreira
e um incentivo. Cada movimento dele faz minha respiração travar e meus
olhos revirarem.
A boca volta à minha. E o beijo agora é agressivo, obsceno, cheio de
saliva e som. É língua, é dente, é gemido. Ele suga minha língua, me
transforma no gosto mais viciante do mundo.
E quando solta, desce outra vez.
Queixo.
Garganta.
Entre os seios, por cima do tecido molhado do vestido. Ele chupa ali
também, os dedos agarrando minha cintura, me mantendo imóvel enquanto
o quadril dele continua se movendo contra o meu.
Meu clitóris pulsa sem piedade. Minhas pernas tremem em volta dele.
E eu me odeio por estar tão perto de gozar só com isso. Só com beijos,
fricção e a boca dele devorando minha pele como se fosse uma refeição.
— Vai gozar pra mim assim? — ele pergunta, mordendo de leve o
osso da minha clavícula, ainda por cima da roupa. — Sem nem me deixar te
comer?
Eu não sei o que responder.
Não sei se posso.
Porque o que ele tá fazendo comigo — com o corpo colado no meu,
com essa boca quente e esses quadris insistentes — já parece sexo.
Bruto. Lento. Perigoso.
E ainda assim, é só um beijo.
Os lábios dele voltam pro meu pescoço, mais suaves agora, só uma
provocação úmida e quente que escorre até o ombro. As mãos dele não
ficam paradas. Uma segura minha cintura com força, como se pudesse me
impedir de escapar — ou de buscar mais. A outra sobe lentamente pela
lateral da minha coxa até alcançar meu quadril, e então… pausa. Sobe mais
um pouco e pressiona o elástico da minha calcinha.
— Se eu enfiar a mão aqui… — ele começa, a boca na base da minha
mandíbula, as palavras vibrando direto na minha pele — …vai estar tão
molhada quanto eu imagino?
Meus quadris se movem sob ele, um movimento reflexo, desesperado.
Mas ele não toca.
Não enfia a mão.
Não passa do limite.
A provocação é o jogo.
E ele está ganhando.
Ele volta a me beijar como se estivesse com todo o tempo do mundo.
Depois, a língua desce pela minha clavícula, sobe pelo pescoço, encontra
minha orelha e suga o lóbulo com força, arrancando um gemido alto de
mim.
Minhas mãos se agarram nos ombros dele.
Eu tento puxar. Guiar. Forçar.
Mas Declan trava.
Me mantém ali, exatamente onde ele quer.
Meu corpo implora.
Meus mamilos estão duros sob o tecido fino e molhado do vestido, os
bicos raspando no peito dele cada vez que ele se move. O atrito entre nossas
roupas já devia ser tortura suficiente, mas ele continua, rebolando com
movimentos sutis, calculados, como se estivesse fodendo bem devagar —
sem tirar nada do lugar.
E então ele me beija de novo.
Forte. Longo.
Daquele jeito que faz a cabeça girar e as pernas perderem força.
A língua dele dança com a minha, molhada, exigente, e ele me devora
como se já fosse dono de tudo.
Cada beijo parece um aviso.
Cada fricção, uma promessa.
Nada delicado. Nada contido.
É possessivo, molhado, desesperado — como se ele tivesse segurado
por tempo demais e agora tivesse fome, sede, necessidade. A boca dele
toma a minha, me invade, me suga com uma força que me deixa tonta. E
enquanto isso, os quadris continuam o movimento de antes. Lento.
Torturante. Preciso.
Ele esfrega o pau duro, preso na calça encharcada, direto contra meu
centro — e eu sinto minha boceta tão molhada que sei que posso gozar a
qualquer momento.
A mão que estava no meu quadril sobe. Aperta minha cintura. Passa
pela lateral do meu peito e sobe por dentro do vestido. Ele agarra meu seio
com força, o polegar encontrando o mamilo duro e girando em círculos,
pressionando, puxando. Eu arquejo. Me contorço. A fricção entre nossas
roupas e nossos corpos é absurda — suja, molhada, perfeita.
Declan morde meu maxilar, minha mandíbula, meu pescoço. Chupa a
pele até eu não conseguir nem respirar direito. Os beijos descem e sobem de
novo, enquanto o quadril dele se move contra o meu com movimentos
ritmados, mais firmes, mais intensos.
E eu não aguento mais.
— Declan… — sussurro, arfando.
Ele sorri.
Um sorriso sujo.
Vitorioso.
— Vai, princesinha. Goza pra mim.
A fricção perfeita. O mamilo preso entre os dedos dele. A boca
quente no meu pescoço. A língua. A voz. A pressão.
Eu gozo.
O orgasmo me rasga por dentro, me atravessa como uma onda quente,
descontrolada, intensa demais pra ser silenciosa. Meus quadris se movem
por conta própria, buscando mais, prolongando tudo. E ele continua.
Continua se esfregando, me pressionando, deixando meu corpo sacudir
contra o dele como se fosse dele — só dele.
Meus gemidos escapam entre beijos e mordidas. Meus músculos
tremem. Meus olhos se apertam. É sujo. Vergonhoso. E eu amo cada
segundo.
Antes que eu possa me recuperar, ouço passos contra a madeira da
estrutura do farol, que range como se não tivesse sido tocada há anos.
Declan trava. O corpo ainda em cima do meu, ofegante, duro, mas alerta.
— Inferno — ele sussurra, os olhos indo direto pro alto da escadaria
que desce da entrada lateral do farol abandonado.
Mais um passo.
Mais perto.
— Tem alguém aí? — a voz ecoa pela praia, grossa, masculina,
arrastada de tédio e autoridade. — Essa área está interditada, sabiam disso?
Meu coração dispara. O corpo ainda está trêmulo, descompassado,
mas a adrenalina empurra o sangue pra longe do prazer e direto pro pânico.
— Merda, merda, merda — murmuro, mas uma risada escapa da
minha boca quando o faço.
— Quem tá aí?! — o guarda chama de novo, mais alto agora.
Dá pra ouvir o barulho do rádio pendurado no peito dele chiando ao
fundo.
Declan me puxa pela mão. Não com delicadeza — com pressa. Com
urgência. Os dois descalços, molhados, os corpos ainda grudando um no
outro.
Nós corremos.
Pela areia, entre as pedras, em direção ao paredão lateral que leva até
o estacionamento. O coração martela nos ouvidos. Meus joelhos meio
bêbados quase falham, mas ele não solta minha mão nem por um segundo.
Atrás, a lanterna do guarda ilumina a praia, varrendo as pegadas, a
areia revirada, a garrafa que deixamos pra trás. Ouço o homem gritar
alguma coisa mas, felizmente, Declan conhece o caminho como se tivesse
nascido ali. E quando a gente some por entre as pedras, ele só para quando
estamos fora da vista — ofegantes, rindo, suados de novo.
— Acho que cometemos pelo menos uns dez crimes ambientais hoje.
Eu rio. Não deveria, mas rio. Ainda ofegante, o cabelo colando no
rosto, o gosto dele na minha boca. E o susto do quase flagra latejando nas
veias, misturado com a sensação de que não estamos seguros… mas
também não estamos exatamente arrependidos.
O silêncio cai por um segundo. Só o som das ondas distantes e o
chiado fraco do rádio do guarda ficando pra trás. E é só nesse instante que
percebo o quanto estou tremendo. Não só de frio, mas de tudo. Da
intensidade. Do susto. Do que quase aconteceu. Do que realmente
aconteceu.
— Foi um prazer cometer crimes ambientais com você, monstrinho
— debocho, tentando esconder o descontrole na voz.
Declan ri. Aquele riso rouco e maldoso que sempre me atravessa
como se fosse faca e seda ao mesmo tempo.
Mas eu não rio de volta. Não realmente.
Declan se vira primeiro, subindo pelo atalho escondido, ainda com a
mão entrelaçada na minha. E eu sigo. Os pés afundando na terra molhada, o
corpo pedindo descanso, mas a mente inquieta.
Porque não importa o quanto eu tente fingir que tudo isso é casual —
um encontro no farol, um beijo proibido, uma fuga engraçada — Declan St.
Clair sempre foi um ponto fixo dentro da minha cabeça torta.
26 CHARLOTTE SPARKS
Passado
Está um sol do caralho em New York e, com toda certeza, eu iria
preferir passar a minha sexta na casa de praia dos Sparks, em Coney Island.
Isso não é uma opção, então estou aqui, correndo em volta da quadra
esportiva de Westbridge.
Minhas colegas de sala estão seguindo os movimentos sugeridos pela
professora, todas tentando parecer atléticas o suficiente para ganhar pontos
extras e bonitas o bastante para manter a reputação. Diferente delas, eu
corro por obrigação. Minhas pernas doem, meu top já grudou no corpo, e eu
odeio que a professora ainda finja que isso aqui é saudável.
No outro extremo, os meninos estão jogando futebol. Eles são todos
péssimos e, não à toa, não estão no time oficial. Meus olhos caem — como
sempre — em Declan.
Como se fosse inevitável.
Como se meus olhos tivessem sido treinados pra isso desde o dia que
nos conhecemos.
Ele está encostado perto da linha lateral, os braços cruzados na frente
do peito, o corpo inteiro numa postura que grita tédio. O uniforme
amarrotado, a camiseta colada ao corpo molhado, e o cabelo escuro
desgrenhado pela brisa. Em qualquer outro garoto, aquilo pareceria
desleixo. Nele, parece malícia.
Parece perigoso.
Quase obsceno de tão bonito.
Ele não se esforça pra ser visto.
E talvez seja exatamente isso que faça com que ninguém consiga
parar de olhar.
— Quem você tá secando, espírito obsessor? — diz uma voz atrás de
mim.
Ivy encosta as mãos nos meus ombros e apoia o queixo no alto da
minha cabeça, arfando como se tivesse acabado de correr a última volta só
pra poder encher o meu saco. A risada dela escapa leve, mas carregada de
ironia.
As bochechas dela estão vermelhas, e o cabelo loiro — tão claro
quanto o meu, mas de um jeito mais ensolarado — está preso num rabo de
cavalo alto que balança como o de uma animadora de torcida.
Dou de ombros, mantendo a pose.
— O seu irmão, cunhadinha — solto, sem olhar pra ela, um sorriso se
abrindo no canto da boca.
Ivy segue meu olhar até Killian, que está do outro lado do campo,
jogando na posição de quarterback. Ele lança a bola com uma confiança
ensaiada, os músculos tensos, a mandíbula marcada. A camiseta cortada
deixa parte do abdômen à mostra. Ele sabe o que faz com isso.
Ela faz uma careta imediata. Um misto de nojo e exaustão.
— Deus me livre.
E levanta o dedo do meio pra mim, com elegância.
Eu rio, porque sei que ela odeia que eu pense que Killian é um tipo de
prêmio, mas é a mais pura verdade.
Killian Belrose sempre foi isso: o cara que transa com todas, mas
nunca se apega a ninguém. Ele é a moeda mais difícil de se conquistar no
mercado social de Westbridge. Se ele gostasse de mim — se ele se
apaixonasse de verdade — eu saberia que estou vencendo.
Mesmo que outra pessoa esteja na minha cabeça o tempo inteiro.
— Belrose, Sparks! — a professora berra do outro lado da quadra, o
apito balançando no pescoço como uma ameaça de autoridade — Vocês não
vão completar o circuito fofocando!
O tom é irritado, mas previsível. Ivy e eu trocamos um olhar rápido,
cúmplice, daqueles que dispensam palavras. Tem uma pontinha de desafio
no dela.
Voltamos a correr, ainda rindo.
A passos lentos, perfeitamente sincronizados.
Às vezes, é como se eu e Ivy fossemos a mesma pessoa. Temos uma
aparência relativamente parecida, mas não é só por causa disso. Nós
falamos através de olhares, rimos das mesmas piadas, odiamos as mesmas
pessoas. Ela lê o subtexto da minha postura, entende o que eu não digo com
uma precisão assustadora. Tem dias em que eu acho que, se nos separassem,
eu perderia uma parte real de mim — como se ela tivesse encontrado um
lugar dentro da minha cabeça e se instalado ali, sem pedir licença, mas
exatamente onde sempre deveria estar.
Nós damos mais uma volta na quadra e, quando estamos perto de
completar o circuito, o barulho de corpos colidindo toma conta do espaço
— seco, grave, alto demais.
Arqueio uma sobrancelha, instintivamente, antes de me virar na
direção do som.
O que vejo é confusão. Um amontoado de pernas, braços e poeira, e
por um segundo ninguém entende o que aconteceu. Mas então o grupo se
abre e eu vejo Declan caído no chão.
Ele está de lado, um dos braços estendido, o outro dobrado debaixo
do corpo, como se tivesse tentado aparar a queda tarde demais. A bola ainda
quica próxima a ele, desimportante agora.
Killian está parado a poucos metros, ofegante, com o rosto franzido e
as mãos na cintura — como se estivesse decidindo se deve se preocupar ou
só rir.
Declan tenta se sentar, mas cambaleia. Leva a mão à lateral da cabeça
e pisca algumas vezes como se o mundo estivesse fora de foco — como se
ele estivesse tentando lembrar onde está.
A professora corre até ele, se ajoelhando ao seu lado com um olhar
preocupado.
— St. Clair! Você está bem?
Ele faz que sim, mas a resposta vem com um atraso desconfortável. E
o sangue. Um pequeno filete, quase poético, escorrendo da têmpora até o
queixo.
Ela se vira, ansiosa, o apito sacudindo no pescoço.
— Sparks! Você acompanha ele até a enfermaria.
Eu franzo o cenho, balançando a cabeça, procurando alguém ao meu
redor que pudesse fazer a tarefa pra mim. É quando percebo que Olívia não
está aqui hoje, o que explica porque sou a escolha mais óbvia: Quando a
presidente do grêmio não está, sua vice assume.
— Agora! — ela repete.
Respiro fundo, apenas para disfarçar o fato de que estou, sim, um
pouco em pânico. Mas ninguém percebe. Corrijo a postura, ajeito o
uniforme esportivo de Westbridge no corpo e me aproximo.
Os outros garotos se afastam, dando espaço.
Declan está sentado, enfim, com a testa franzida e a expressão
confusa. O sangue continua escorrendo, fino, desenhando uma linha lenta
até a mandíbula.
Me abaixo ao lado dele.
— Levanta devagar — digo, o tom neutro, quase entediado.
Ele me encara por um segundo longo demais. Os olhos meio
desfocados, o canto da boca entreaberto. Parece prestes a dizer alguma
coisa, mas desiste. Apenas segura meu antebraço, e é o suficiente pra minha
pele acender inteira.
A professora me entrega uma ficha de encaminhamento com pressa.
— Avise a enfermeira se ele vomitar no caminho.
Declan resmunga alguma coisa que ninguém entende. Eu o ajudo a se
levantar, sentindo o peso parcial do corpo dele contra o meu. Ele é alto
demais, o que faz nossos movimentos serem um pouco desengonçados. Seu
corpo é quente e eu sinto um cheiro agradável de perfume vindo dele,
mesmo quando está suado.
Nós caminhamos em direção às escadas que levam até a enfermaria.
Ele tropeça uma vez, e eu seguro firme no seu braço, por reflexo.
— Tenta não morrer até a gente chegar, monstrinho.
Ele solta um ruído baixo.
Acho que quase dá pra chamar de risada.
Quando chegamos na enfermaria, a enfermeira já está abrindo a porta
antes mesmo de eu bater. Ela tem a expressão prática de quem já viu de
tudo e provavelmente parou de se abalar com meninos sangrando por volta
de 1998.
— Declan St. Clair — Ela suspira, como se o nome dele fosse uma
dor de cabeça antiga. — De novo?
Eu só observo, mordendo o canto interno da bochecha pra não
comentar nada. Ele se senta na maca como um menino obediente, o que é
novo, e eu fico de pé ao lado, braços cruzados, como se tivesse vindo por
obrigação, o que é verdade.
A enfermeira examina a cabeça dele com movimentos ágeis,
eficientes. O sangue já secou em partes, colando no cabelo. Ela limpa com
uma gaze molhada, aplica um pouco de antisséptico e faz uma careta quase
imperceptível quando ele solta um tss de dor.
— Concussão leve. Nada grave, mas precisa de observação — ela
declara, tirando uma prancheta de cima de uma bancada. — Vou
providenciar um encaminhamento pra avaliação neurológica. Pode ser só
precaução, mas com a cabeça a gente nunca brinca.
Declan assente devagar, os olhos ainda um pouco perdidos, como se
estivessem tentando alcançar alguma coisa no fundo da sala que eu não
vejo.
A enfermeira se vira pra mim, os olhos afiados por trás dos óculos de
leitura.
— Fica com ele por alguns minutos enquanto eu desço até a
administração. Se ele vomitar, me chama. Se apagar, grita. Se tentar se
levantar, não deixe.
— Posso fazer isso — respondo, simples.
Ela confia em mim rápido demais.
Assim que a porta se fecha, o silêncio fica mais espesso.
Declan inclina a cabeça devagar na minha direção.
— Princesinha… — ele murmura, a voz arrastada.
Odeio esse apelido.
Princesinha.
Mesmo assim, acho que é uma troca justa, no fim das contas. Porque
toda vez que ele me chama assim, eu me dou o luxo de retribuir.
Monstrinho.
Gosto de como a palavra fica na boca. Um pouco cruel. Um pouco
carinhosa.
Declan ergue uma das mãos na minha direção, o gesto desajeitado,
sem força, como se cada movimento precisasse atravessar uma névoa. E por
um segundo, penso que ele vai cair. Que vai se jogar do alto daquela maca
de metal desconfortável direto pro chão da enfermaria, só pra me assustar.
Me aproximo, rápida.
— Não faz esforço — digo, e minha voz sai mais baixa do que o
planejado.
Ele não responde com palavras. Apenas segura minha mão. E o toque
é simples, quase infantil, mas sinto como se tivesse sido puxada por um fio
invisível direto pro meio de uma confusão que não pedi pra entrar.
Os dedos dele estão quentes e úmidos de suor. Grossos, firmes. A
palma da mão cobre a minha com facilidade, e eu penso que não devia
deixar. Que devia puxar de volta, cruzar os braços, levantar uma parede
invisível e eficiente entre nós dois.
Mas não faço nada disso. Só deixo.
Ele me encara. Os olhos ainda dilatados, perdidos, com aquele brilho
de alguém entre a consciência e o sonho. A voz dele sai torta, arrastada,
como se estivesse tentando rir e falar ao mesmo tempo, falhando em ambos.
— Cara, eu não gosto de você.
Eu franzo o cenho, surpresa.
Mas não é exatamente surpresa.
É mais... incredulidade.
— Não gosto mesmooooooo de você — ele insiste, arrastando a
palavra— Você e essa cara bonita. Você e essas dezesseis sardas no seu
rosto.
Minha sobrancelha sobe devagar. Quase um reflexo.
— Como sabe que tenho dezesseis sardas no rosto?
Ele sorri. É um sorriso sem controle, meio torto, meio lindo. O tipo de
sorriso que não devia ser permitido num menino com a cabeça rachada e a
moral questionável.
— Eu contei — ele responde, como se fosse a coisa mais óbvia do
mundo. — Tenho uma boa memória fotográfica e você…
Declan pausa. Fecha os olhos por um segundo, depois aponta pra
própria cabeça com o indicador.
— Você sempre está aqui.
A voz sai mais baixa dessa vez. Menos brincalhona. Menos
performática.
Mais verdade do que eu estava preparada pra ouvir.
Sinto um formigamento estranho correr da minha mão até o peito.
Como se ele tivesse dito alguma coisa importante demais. Mas antes que eu
possa reagir, antes que o ar volte completamente pros meus pulmões, ele
abre os olhos de novo.
E lá está ele de volta, com aquele olhar debochado e a língua afiada.
— Mas eu não gosto mesmo de você, princesinha!
Reviro os olhos. Com força. Mas minha mão ainda está na dele.
Eu também não gosto.
Nem um pouco.
Principalmente quando ele me chama de princesinha.
Principalmente quando sabe quantas sardas eu tenho.
Não gosto mesmo.
Mesmo.
Mesmo.
Mesmo.
27 DECLAN ST. CLAIR
Presente
— Você deve imaginar que o seu pai está tentando falar com você.
A voz do Doutor Legrand atravessa o consultório com aquela
suavidade ensaiada de quem acha que empatia pode ser medida em
decibéis. Eu paro, no meio da terceira volta que dou pelo ambiente, e
encaro o homem com um tipo de incredulidade que queima, seca e
explícita.
Hoje, em especial, não quero me sentar. Não quero fingir que estou
confortável, muito menos receptivo. Na real, nem devia ter vindo. Se meu
pai quebrou a parte dele do acordo, então não existe acordo nenhum. Ponto.
Fim de linha.
— Você deve imaginar que eu não quero falar com o filho da puta —
rebato, com uma secura proposital, o olhar grudado na parede de diplomas
do Legrand.
Tem uns oito, talvez nove. Médicos gostam de pendurar essas coisas
como se fosse decoração. Eu sempre achei que diplomas demais dizem
mais sobre o ego do que sobre a competência.
— Acha mesmo que precisa de tanto papel pra convencer alguém que
você escuta bem? — pergunto, meio rindo, meio irritado de verdade — Isso
aqui parece a versão psiquiátrica da parede do Edward, do Crepúsculo.
Legrand não responde de imediato. Só ajeita os óculos na ponta do
nariz, o gesto lento, como se cada centímetro do movimento tivesse a
intenção de me lembrar que ele está acima dessa provocação.
Que ele é o adulto na sala.
Parabéns pra ele.
— E se seu pai estiver tentando consertar as coisas? — ele arrisca,
ainda naquele tom de monge budista.
Movo a cabeça em negativa, o maxilar travado.
— Meu pai sabia como aquela noite era importante pra Clairé d’Or e
fodeu com tudo mesmo assim.
Minha voz sai baixa, mas cortante.
Como lâmina deslizando sem pressa sobre a pele sensível.
Dou mais uma volta pelo consultório — não ando, rondo.
Como se estivesse preso num cativeiro dourado.
Como se meu corpo buscasse um jeito de escapar do que minha
mente não consegue mais engolir.
— Se não fossem os meus amigos, a foto dele teria estampado todos
os jornais de New York. — Meu riso não tem humor, só desgosto. —
Arthur St. Clair. O grande nome do luxo americano. O rei das joias finas.
Fedendo a mijo no coquetel da própria marca. Uma metáfora perfeita, se
você quer saber.
Meus olhos se fixam no chão por um instante. Consigo ver a cena
com nitidez cruel: o terno amarrotado, os olhos vazios de álcool, a vergonha
escorrendo junto com a urina quente pela calça de alfaiataria italiana. E eu
ali, congelado, olhando pro homem que, um dia, deveria ter sido meu herói.
— Deve ser difícil pra ele também… — Legrand começa, naquela
voz de terapeuta que se veste de compaixão, mas carrega a arrogância de
quem acha que pode traduzir uma dor que nunca sentiu.
Eu paro. Viro o rosto devagar na direção dele. Solto o ar em um
suspiro longo, mas ele vem pesado, carregado de algo que não tem nome.
— Estou cansado, doutor Legrand — murmuro, e dessa vez não tem
sarcasmo. É cansaço, mesmo. Um exausto ancestral, entranhado nos ossos.
— Cansado de ser o pai do meu pai.
O silêncio que se segue não é constrangedor — é sepulcral.
— Eu tenho que ser compreensivo. Sempre compreensivo. Porque é
uma doença. Porque ele precisa de apoio. Porque ele tem recaídas e não é
culpa dele. Porque a garrafa é mais forte do que o homem. Eu sei. Eu
entendo.
Me aproximo da janela, mas não olho pra fora. Olho o reflexo. Meu
próprio reflexo, distorcido pelo vidro frio. Um vulto borrado de alguém que
cresceu cedo demais.
— Mas quem é compreensivo comigo? — pergunto, virando o rosto
devagar, os olhos baixos, quase murmurando. — Quem segura a minha
cabeça quando eu me sinto à beira de afundar? Quem limpa a porra da
bagunça quando sou eu quem quebro?
Silêncio. De novo.
— Não é o Arthur — concluo, a voz rasgando por dentro, apesar do
tom calmo.
Nunca foi o Arthur.
Nem quando eu precisei.
Nem quando eu implorei em silêncio.
Nem quando eu sangrei na frente dele.
Arthur St. Clair só enxerga os próprios escombros.
E eu sou só mais um deles.
— Você deveria…
— Não quero mais falar sobre isso.
A frase escapa antes que ele possa terminar a dele. Corta o ar como
uma guilhotina.
Fria.
Definitiva.
Minha voz nem precisa ser alta — é o tom que pesa. Como se eu
tivesse batido uma porta na cara dele, com as duas mãos, e trancado por
dentro. O silêncio que se segue é denso, abafado. Escorre pelas paredes,
escurecendo até a luz do abajur.
O doutor Legrand engole seco. Tenta manter a compostura, mas eu
vejo o incômodo na linha rígida do maxilar, na forma como ele desvia os
olhos por um segundo, como quem se força a parecer mais paciente do que
realmente é. Isso me dá um tipo de satisfação estranha, quase sádica. Gosto
de ver a máscara dele rachar, mesmo que por milímetros.
— Podemos falar sobre a garota, então? — ele oferece, numa
tentativa de encontrar um tópico mais seguro.
Ah, sim.
A garota.
Meu veneno favorito.
Consigo vê-la sem nem precisar fechar os olhos. Me lembro da curva
da boca dela quando geme meu nome — arrastado, sujo, o som parece
arrancado das vísceras. Sinto o peso do corpo dela contra o meu, o gosto do
sal, o atrito quente da pele contra a água gelada da praia. Aquela maldita
mora nas partes mais silenciosas da minha mente, aquelas que eu nunca
mostro pro Legrand, porque nem ele aguentaria o que vive ali.
— Ela ainda está… Saindo com o seu amigo? — ele pergunta,
fingindo uma curiosidade inofensiva.
Dou de ombros, me recostando na poltrona de couro.
— Está saindo com nós dois.
O doutor digita alguma coisa no computador. Provavelmente mais
uma anotação inútil que nunca vai decifrar o que realmente existe entre eu e
Charlotte.
— E como você se sente sobre isso?
Dou de ombros.
É automático, mas sincero. A verdade é que não me importo. Pelo
menos, não do jeito que esperam que eu me importe.
Existe, sim, uma parte de mim que sente ciúmes, mas não é aquele
ciúme idiota, previsível, territorial. Não do tipo que se enfurece porque ela
transa com outro. Sexo é só carne encontrando carne — suor, fricção,
alívio. Isso é banal. Isso é esquecível.
As pessoas acham que pertencer a alguém é sobre foder. Como se o
limite da intimidade fosse não dividir seu corpo com outros corpos. Mas, na
verdade, pertencer…
Pertencer é uma coisa muito mais cruel.
Muito mais bonita.
Muito mais perigosa.
Pertencer a alguém é morar dentro da cabeça dela. É saber que, no
meio de qualquer conversa, qualquer beijo, qualquer toque de outro — sou
eu que aparece na memória. É ser o pensamento que ela não consegue
deletar, o gosto que arruína todos os outros. A comparação inevitável. A
lembrança maldita.
Quero ser a primeira coisa que invade sua mente quando ela fecha os
olhos.
O peso que ela carrega no silêncio.
O nome que ela engole quando geme outro.
Quero estar debaixo da pele.
Nos ruídos da mente.
Quero ser a dor que ela não quer curar.
É assim que se possui alguém de verdade.
Não com um anel. Não com promessas.
Mas com presença.
Com domínio.
Com vício.
— Sou um homem com opiniões muito feministas, doutor. Ela pode
dar pra quem quiser.
Solto a resposta como quem joga uma pedra em um espelho só pra
ver em quantos pedaços ele se parte. O doutor força uma risadinha. Falsa.
Polida. Mais por obrigação do que por diversão genuína.
— Quero que fale sobre seus sentimentos, St. Clair. Sabe que está em
um ambiente seguro aqui.
Ambiente seguro.
Engraçado.
O consultório é estéril demais pra segurança e pessoal demais pra
neutralidade. Tem cheiro de madeira polida e incenso barato. O relógio da
parede é um lembrete incômodo de que o tempo está acabando, sempre. As
persianas filtram a luz e o sol parece ter vergonha de entrar. Nada aqui é
seguro. Nem mesmo eu.
— Ela sabe que você… — o doutor começa, a paciência dele
começando a escorrer pelas bordas do tom calmo.
Já não tenta disfarçar a impaciência, e isso me dá uma leve vontade
de sorrir.
Eu o encaro por um momento longo, pesado, deixando o silêncio se
esticar entre nós como um fio de arame farpado. Ele aguarda. Espera que eu
diga o que ele quer ouvir.
— Sou o stalker dela? — devolvo.
Legrand fecha os olhos por um segundo, reunindo forças pra não
reagir. Respira fundo, ajeita os óculos no nariz com aquele gesto
automático, clínico.
— Sabe que não gosto de usar a palavra stalker.
— Eu gosto. É direta. Sem eufemismo. Sem rodeios. Diz exatamente
o que as pessoas têm medo de admitir.
Ele não rebate. Está estudando meu rosto procurando por uma senha.
Como se, atrás da minha expressão entediada, houvesse uma confissão
esperando pra sair.
— Não — digo, por fim, os olhos ainda fixos nele — Ela não sabe.
A verdade é que não tenho certeza disso.
Charlotte não sabe quem eu sou, mas sabe da minha presença.
Sabe que eu estava no estacionamento. Ela segurou a polaroid nas
mãos, leu o bilhete que deixei atrás e não rasgou, não ignorou, não tremeu.
Ela vestiu o maldito vestido. Aquele que comprei pensando no jeito que os
ombros dela ficariam expostos, no fecho que eu queria abrir com os dentes,
na curva que ele marcaria na cintura fina.
Ela usou.
Como um troféu.
Como uma mensagem.
Charlotte está dentro do jogo tanto quanto eu. Ela pode fingir que
não. Pode dizer que não percebe, que não quer, que não entende. Mas cada
pequeno gesto dela é uma resposta não-verbal à pergunta que eu nem
precisei fazer.
Ela não é uma vítima.
Nunca foi.
Charlotte é a outra jogadora.
Tão perigosa quanto.
Tão suja quanto.
Tão faminta quanto.
E, por mais que ela negue… ela também quer vencer.
Quer ser desejada, perseguida, marcada.
Quer ver até onde eu iria por ela — ou contra ela.
Mas se tem uma coisa que ela ainda não entendeu, é que ninguém
ganha quando joga comigo.
28 CHARLOTTE SPARKS
Presente
— Eu acho que ela odiou — murmuro, sem conseguir esconder o tom
de derrota.
Meus olhos acompanham Milane estirada no tapete novo — um
tapete que teoricamente é persa, mas cheira a mofo. Ela está com o focinho
apoiado nas patas, os olhos escuros semicerrados julgando cada centímetro
do quarto com o mesmo rigor que uma velha duquesa julgaria a mobília de
um herdeiro falido.
Ela solta um suspiro. Longo, dramático. Claramente desapontada com
a minha decisão de existir aqui.
Tecnicamente, ela nem poderia estar nesse dormitório — animais de
estimação são proibidos, exceto peixes e hamsters (e mesmo assim, só se
forem silenciosos e inofensivos). Mas estou contando com o fato de que o
reitor da Mayfair vai pensar duas vezes antes de querer desafiar um Sparks.
Engulo uma risada irônica, porque meu sobrenome não anda valendo
muita coisa. É sorte minha que ninguém saiba disso.
— Não seja uma cachorra mimada — Reid comenta, fazendo carinho
nas orelhas da Milane — Os dormitórios da Mayfair são os melhores do
país.
— São, é? — pergunto, secamente, enquanto meus olhos percorrem o
quadro mal pendurado na parede oposta, ligeiramente torto.
O quarto é espaçoso, claro. Em teoria, até bonito — pé-direito alto,
janelas em arco, cortinas grossas. Mas tudo carrega uma sensação de
abandono. Como se cada coisa ali tivesse sido parte de algo grandioso um
dia, mas agora estivesse apenas tentando manter as aparências.
Um pouco como eu.
Milane se vira de lado com um gemido preguiçoso e fecha os olhos.
— Seus pais falaram com você? — Reid pergunta, os olhos varrendo
o quarto com curiosidade As malas ainda estão largadas no chão, abertas,
porque nem eu acredito de verdade que vou ficar.
O quarto, pelo menos, só tem uma cama. Não ter uma colega de
dormitório é a minha primeira vitória em muito tempo.
— Não. — Minha resposta sai antes que eu consiga suavizá-la.
Crua. Seca. Verdadeira.
E por algum motivo, isso me incomoda mais do que deveria.
Não sei o que esperava da parte deles. Talvez um desejo de boa sorte,
conselhos pra viver em um dormitório estudantil ou qualquer coisa que não
fosse silêncio. A conversa que tive com o advogado da família ainda me
causa arrepios. As supostas acusações de tráfico humano, a Belladonna nas
entrelinhas. Ele garantiu que meu pai era inocente mas, desde então, não
consigo ouvir o nome da minha família sem sentir um gosto metálico na
boca.
— Não é estranho eles terem saído de New York? — murmuro, mais
pra mim mesma do que pra Reid — Sei lá. Parece algo que criminosos
fariam.
O quarterback apenas dá de ombros, como quem já viu coisa pior.
— Acho que estavam tentando evitar uma cena — diz, tranquilo
demais — Quando tivessem que entregar a casa.
Entregar a casa.
— Sim, mas…
Minha voz some antes que eu complete.
Ainda não comentei com Reid sobre as investigações envolvendo a
Belladonna e não sei se vou fazer isso um dia.
— Você acha que seu pai fez alguma merda? — ele pergunta,
arqueando uma das sobrancelhas grossas, aquele sorriso enviesado quase
presente — Pior do que perder todo o dinheiro da família?
Solto um suspiro, afundando os ombros.
— Não. Meu pai é um pacifista — digo, quase sem pensar.
E a frase paira no ar, ridícula. Inadequada. Incompleta.
Não sei se estou tentando convencer ele, ou a mim mesma.
— Talvez ele tenha sonegado alguns impostos. No máximo.
Reid não responde de imediato. Os olhos dele me analisam com a
mesma calma com que se observa um animal ferido na floresta — não por
crueldade, mas por cautela. Como se estivesse esperando pra ver se mordo
ou fujo. Ele pisca devagar, e quando fala, muda de assunto bruscamente.
— E o Declan?
Demoro um segundo pra entender a pergunta.
Outro pra aceitar que ele realmente a fez.
— O que tem ele?
— Não tá rolando nada? — ele pergunta, com um meio sorriso que
tenta parecer casual, mas falha miseravelmente.
Reviro os olhos, cruzando os braços, forçando um sorriso cínico que
morre antes de chegar ao rosto.
— Ninguém esperava que você fosse aparecer como acompanhante
dele naquele evento da Clairé d’Or.
Mordo o lábio por dentro. Forte. Até sentir o gosto metálico do
sangue misturado com a culpa. O vinho, os flashes, a mão do Declan firme
na minha cintura, fazendo eu me sentir dele.
Tudo ainda está muito vívido.
— A gente mal se fala — digo, e minha voz sai baixa demais pra
convencer alguém que não esteja tentando ser enganado. — Aparecer no
evento foi uma forma de retribuir um favor, só isso.
Reid me encara com uma sobrancelha arqueada, o tipo de expressão
que grita mentira sem precisar de uma palavra.
— Pensei que você estivesse com o Killian.
— Com ele é só sexo.
Ele solta um riso curto, mas não diz nada.
Está esperando o mas que não quero soltar.
— E com o Declan…?
— Ai, Reid! — exclamo, meio irritada, meio achando graça,
chutando de leve a ponta do tênis dele. — A gente se beijou, tá? Mas foi só
isso.
Mentira.
Porque se eu fechar os olhos agora, ainda consigo sentir o gosto da
boca dele.
A textura da língua.
O som da respiração dele ficando irregular.
Reid ri — uma risada seca, sem humor, sem dentes. Quase amarga.
— Você sabe que aqueles dois não prestam.
— São seus amigos.
— E isso não significa que são boas pessoas.
— Eu sou bem grandinha, Reid — digo, batendo de leve no ombro
dele, tentando suavizar as bordas afiadas da conversa. — Sei lidar com eles.
Faço isso desde a infância.
— Está subestimando os dois.
Solto uma risada baixa, dessa vez sem disfarçar o sarcasmo.
— O quê? Eles são perigosos? — provoco, sorrindo com a língua
presa entre os dentes — São bandidos? Assassinos? Nesse caso é melhor eu
começar a ensaiar minha performance. Tipo: “Ah, por favor, senhor
Ghostface, não me mate! Eu juro que valho a sequência.”
Reid me encara com um meio sorriso que não sobe até os olhos.
E por um instante muito pequeno, algo nele parece preocupado de
verdade.
Passo a mão pela nuca, tentando afastar o meu desconforto.
— Obrigada por me ajudar com as malas — digo, mudando de
assunto.
Reid assente com a cabeça, então aponta pra saída.
— Os caras do time já devem estar me esperando pro treino.
Ele bagunça meu cabelo antes de se virar na direção da porta, onde
faz uma pausa curta, como se tivesse algo a mais pra dizer, mas desistisse
no último segundo. Então levanta uma das mãos numa espécie de tchau
preguiçoso antes de sumir no corredor, me deixando sozinha com minhas
malas, meus pensamentos e o eco do nome do Declan ainda reverberando
nas paredes.
Suspiro.
Não porque estou cansada.
Mas porque estar sozinha de novo traz um tipo de silêncio que me
obriga a pensar.
Começo a desfazer as malas com uma eficiência quase mecânica,
dobrando roupas que provavelmente nunca vão ver a luz do dia aqui. Tudo
parece estar em outro idioma e até minhas calcinhas parecem me julgar.
E então, no fundo de uma das malas, entre o moletom velho que
roubei do armário do Killian faz tempo e um livro de Sylvia Plath todo
grifado, vejo a borda cor de rosa do meu diário.
Paro.
É estranho.
Eu não lembrava de ter colocado ele ali.
Pego com cuidado, os dedos tocando o couro surrado da capa como se
ele pudesse morder. Abro devagar. Uma folha já solta escorrega do meio,
deslizando até o chão, fugindo de mim. Me abaixo pra pegar.
Uma risada incrédula escapa da minha garganta, seca, meio
engasgada, porque eu me lembro perfeitamente do dia em que escrevi
aquilo com a Ivy.
Estávamos no telhado da casa de campo dos Belrose, as duas deitadas
em um colchão inflável furado que afundava cada vez que alguém se mexia.
Era uma daquelas tardes em que o céu parecia querer engolir tudo, pintado
de tons de rosa, anunciando um frio fora de época. O tipo de silêncio que
antecede o caos.
Eu tinha roubado uma garrafa de vinho da coleção do meu pai e
deixado nos fundos da mala. Ivy levou cigarros mentolados e uma caneta
marca-texto rosa neon. Ríamos de tudo.
Ou fingíamos que sim.
Meus dedos dedilham o título no topo da página com cuidado.
Aquela é a minha lista de coisas pra fazer antes do fim do mundo.
29 CHARLOTTE SPARKS
Passado
A casa de campo dos Belrose fica em Montauk, no fim da península
de Long Island, onde os ricos vão quando querem parecer que fugiram de
tudo, mas ainda estão a um helicóptero de distância de Manhattan. Ivy
passou o semestre inteiro repetindo que a nova aquisição do pai era o seu
lugar favorito no mundo — e, honestamente, eu entendo.
A propriedade parece ter saído direto de uma campanha da Ralph
Lauren: quase selvagem, com um toque de decadência elegante. São quase
dez acres de floresta e dunas privadas, onde o barulho do mar nunca cessa e
a brisa tem cheiro de sal, madeira e alguma colônia masculina cara que
parece ter sido absorvida pelas pedras da varanda.
A casa principal é uma construção imensa de cedro cinzento, com
janelas panorâmicas que pegam a luz do fim da tarde como se fosse uma
pintura viva. Os telhados inclinados, as colunas brancas, o caminho de
cascalho impecável e a varanda de frente pro mar — tudo milimetricamente
pensado para parecer despretensioso, mas é claro que cada escolha custou
uma pequena fortuna.
No telhado, sob o céu que começa a se tingir de laranja e roxo, Ivy e
eu estamos deitadas lado a lado, com nossas canetas arranhando o papel de
diários velhos, deitadas em cima de um colchão inflável que já viu dias
melhores. Ele range toda vez que uma de nós muda de posição, e há um
rasgo no canto esquerdo coberto com fita adesiva cor-de-rosa, numa
tentativa de conter o colapso.
O ar cheira a sal, e o som do mar preenche as pausas entre nossas
palavras, como se estivesse nos escutando.
A ideia foi da Ivy, claro.
A lista.
Coisas para fazer antes do fim do mundo.
— Um fim do mundo real ou simbólico? — perguntei quando ela
surgiu com a proposta, com duas canetas coloridas e um maço de cigarros.
— Real, óbvio — ela respondeu, fazendo parecer algo perfeitamente
possível.
E então começamos.
A lista de Ivy é uma coleção de clichês otimistas: Plantar uma árvore,
ver a aurora boreal, aprender a tocar ukulele, escrever um livro, viajar pra
China no ano novo.
Tão Ivy, tão cheia de luz que chega a doer os olhos.
A minha é diferente.
Sinto um formigamento no estômago, uma espécie de excitação
sombria. Se o mundo fosse mesmo acabar, as regras seriam meras
formalidades, não seriam? Papéis timbrados flutuando num céu em colapso.
É por isso que eu escrevo.
Uma lista que nunca deveria existir fora da minha cabeça. Fetiches
que não tenho coragem de compartilhar com ninguém, fantasias que me
acordam no meio da noite, ofegante, suada, com os lençóis entre as coxas.
Coisas que me deixam com vergonha de mim mesma. Tudo que eu escrevo
na minha lista é absurdo: Roubar um carro conversível, beijar alguém que
me odeia, fazer alguém se apaixonar por mim e depois ir embora, transar
com dois caras ao mesmo tempo — ver o ciúme nos olhos de um enquanto
o outro geme meu nome.
A tinta da caneta parece mais escura quando escrevo essas partes.
Mais pesada. Como se soubesse que estou me delatando, derramando
minhas partes mais sombrias em pedaços de papel.
Olho pro lado.
Ivy ainda está ocupada desenhando coraçõezinhos em volta da
palavra Islândia.
Ela percebe o meu olhar, então abre um sorriso curioso.
— O que você tá escrevendo aí?
Dou de ombros.
— Só estou pensando como seria isso — dou uma pequena pausa,
acendendo um dos seus cigarros mentolados — A liberdade de poder fazer
qualquer coisa porque, bom, é o fim do mundo. Sem consequências, sem
julgamentos.
Ivy balança a cabeça, o cabelo loiro voando com a brisa salgada.
— Você é inacreditável — brinca — A minha lista é sobre viver,
tenho certeza que a sua é sobre causar caos.
— E qual a diferença? — pergunto, soprando fumaça — As duas são
sobre sentir intensamente, não são?
Terminamos nossas listas em silêncio, o som do mar se tornando um
coro hipnotizante. Eu releio minhas linhas, um arrepio percorrendo minha
espinha. É um desejo por caos, por desordem, por tudo o que a vida normal
me proíbe. E, de alguma forma, é libertador.
— Ei, vocês vão ficar a noite inteira aí em cima?
A voz de Dex chega até nós como um eco preguiçoso vindo do andar
de baixo, misturado ao som do mar e ao estalar ritmado dos insetos
escondidos entre os arbustos salgados. Ele está em algum ponto entre o
terraço e as dunas.
Killian surge logo depois, subindo pela escada de ferro na lateral da
casa com uma facilidade insolente, como se já tivesse feito isso centenas de
vezes — o que provavelmente é verdade. Ele traz uma garrafa de vinho
tinto pela metade numa mão e duas taças de cristal penduradas entre os
dedos da outra, quase um sommelier da nossa festa.
O cabelo loiro desgrenhado brilha com os últimos raios de sol, e ele
carrega aquela expressão clássica de quem nunca foi convidado, mas se
comporta feito fosse o dono da festa — ou pior, como se fosse o motivo
dela.
— Trouxe reforços — anuncia, girando a garrafa com um floreio
cínico. — Não quero ser o único sóbrio nessa viagem de família.
Ivy ri, aquela risada leve e cintilante, um sino suave vibrando dentro
do peito dela. Killian sorri também, só de vê-la sorrir. É involuntário. É
bonito.
Dex aparece logo em seguida, com a cabeça loira despontando pelo
vão do telhado como um gato curioso farejando petiscos. Ele sobe com o
corpo todo, se acomodando ao lado de Ivy.
— O que estão escrevendo? — pergunta, os olhos se estreitando sob a
luz dourada que já começa a desaparecer.
— Listas de coisas pra fazer antes do fim do mundo — Ivy responde,
recebendo uma taça de Killian e erguendo-a, brindando com o céu em roxo
pálido.
Dex se senta ao lado dela, o sorriso de canto se espalhando devagar
pelo rosto.
— Deixa eu adivinhar. Você quer beijar alguém em Paris... e a
Charlotte quer cometer pequenos crimes federais?
Killian solta uma gargalhada curta e baixa, do tipo que deixa claro
que ele sabe demais.
— Pequenos? — ele ergue uma sobrancelha em minha direção,
provocando. — Eu não teria nem coragem de ler o que ela escreveu.
— Que bom, porque você não vai — Ivy retruca, dando um tapinha
firme no ombro do irmão, o gesto tão automático quanto afetuoso.
— Eu acho sexy, tá? — Killian diz, virando o rosto na minha direção.
A voz dele está mais baixa agora, porque o comentário é só pra mim. —
Esse seu jeito de querer ver o mundo arder.
— Para de flertar com minha amiga, sua puta — Ivy reclama,
deixando o corpo tombar suavemente contra o ombro de Dex — Será que a
gente pode assistir o pôr do sol em paz?
Dex não hesita. Passa o braço ao redor dela com um cuidado quase
reverente, diferente de tudo o que já vi nele. Por um instante, os dois
parecem feitos de uma matéria que não pertence a esse mundo.
Killian se inclina, seus dedos tocam os meus ao me passar a taça, e a
eletricidade do gesto é quase imperceptível. Bebo sem tirar os olhos dele.
Ao nosso redor, o mundo se transforma em sal, vento e luz morna. Somos
quatro jovens com gosto de vinho na boca e o apocalipse nos olhos. Uma
pintura de verão feita às pressas antes da tempestade.
O céu se dissolve em tons de rosa queimado, ferrugem e azul-
marinho.
Eu me pergunto, com um aperto secreto no peito, se um dia essa lista
vai ser completa.
Ou se o fim do mundo vai chegar antes disso.
30 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Meu celular diz que são três da manhã quando passos no corredor me
acordam. Eu sei que, dentro de um dormitório, isso é normal, mas me
incomoda. É como se a pessoa do outro lado estivesse fazendo de propósito.
Não são passos delicados: são fortes, precisos, altos. Faz parecer que
alguém quer ser ouvido.
Me sento na cama, o lençol ainda preso ao tornozelo, os olhos
tentando focar no escuro. O silêncio entre um passo e outro é tão carregado
que parece gemer.
Desço da cama descalça, sentindo o piso frio contra a pele, e abro a
porta com um cuidado estúpido, evitando acordar alguém — como se já não
estivesse acordada por causa de alguém. Dou uma última olhada em Milane
no pé da cama antes de girar a maçaneta e sair.
A Mayfair tem esse jeito estranho de parecer viva quando está vazia,
como se o prédio respirasse, arfasse, esperasse. As luzes de emergência
lançam um brilho esverdeado nos corredores, um verde doente, de hospital
antigo ou aquário abandonado. Tudo parece ligeiramente úmido.
Meus passos são lentos. A camisola minúscula flutua ao redor das
coxas, arrepiadas pelo toque frio do ar condicionado e pela sensação mais
gelada ainda de estar sendo observada.
Não com olhos.
Com presença.
O chão range sob meus pés.
As janelas, trancadas com grades decorativas, vibram com o vento do
lado de fora.
Um zumbido qualquer — talvez o som dos canos — se arrasta pelo
teto como uma voz abafada. O cheiro de verniz velho é forte demais. Me
lembra o porão da casa da minha avó. Madeira antiga, encapada de
lembranças que deveriam estar mortas.
A cada porta que passo, sinto a impressão de que algo está atrás dela.
Não espiando.
Sentindo.
Me cheirando.
Gravando meu nome.
No fim do corredor, as paredes parecem se curvar ligeiramente pra
dentro, como se o próprio prédio estivesse tentando me conter — ou me
repelir. O teto parece mais baixo, as sombras mais longas, faz parecer que a
Mayfair decidiu que já chega por hoje. Que meninas como eu não deviam
estar perambulando por aí de madrugada.
Desço um lance de escadas, o corrimão gelado roçando na minha
palma, e cada passo que dou parece provocar um som novo. O ranger da
madeira antiga. O estalo seco de alguma coisa no andar de cima. O clique
sutil de um cano se expandindo com o calor residual da calefação. Nada que
deveria me assustar — mas tudo, agora, soa estranho.
O silêncio é denso, quase viscoso. Ele se agarra aos meus ouvidos
como uma pressão sob a água. Me obriga a ouvir demais. Meu próprio
coração. Minha respiração curta. O som da camisola roçando nas minhas
coxas.
Não tem ninguém. Nenhum vulto. Nenhuma porta entreaberta.
Nenhum rosto atrás dos vidros foscos. Só o brilho espectral das luzes de
emergência pintando tudo com um tom verde-doente.
Sinto um arrepio começar bem na base do crânio e deslizar pela
minha espinha como se alguém tivesse tocado ali, bem devagar, com a
ponta de um dedo molhado. Mas mesmo assim, continuo.
Porque sou burra.
Porque sou teimosa.
Ou talvez porque — no fundo — eu quero que alguém esteja aqui.
Quero que alguma coisa aconteça.
Paro em frente à máquina de bebidas no final do corredor, a única
coisa viva naquela ala adormecida da Mayfair. As luzes internas piscam,
fazendo com que as garrafinhas dispostas em fileiras pareçam mais
preciosas do que são. Café gelado, chás doces, energéticos. Aperto o botão
com um estalo seco, e a garrafinha escorrega até o compartimento de coleta
com um baque que me faz pular, como se eu esperasse que algo — ou
alguém — caísse junto.
Me abaixo devagar, pegando a garrafa gelada. O plástico úmido cola
na minha mão.
Abro a tampa com um clique suave e dou um gole. Amargo. Frio.
Forte. O próprio líquido me diz: não durma. É inútil, no entanto, já que a
cafeína nunca foi capaz de manter meu cérebro mais desperto.
Encosto de leve as costas na parede oposta à máquina, só por um
segundo. O elevador range um andar abaixo, faz parecer que está sendo
usado, mas eu sei que não está.
Dou outro gole, mais longo.
Quando volto pro andar do meu quarto, o frio parece ter entrado em
mim como um fantasma. Umidade nos ossos, gelo sob a pele. Meus braços
estão cobertos de arrepios, mas não do tipo que vêm com a temperatura. É
outra coisa. Mais profunda. Quase ancestral.
A garrafa de café ainda está na minha mão, esquecida, os dedos
apertando com força o plástico tentando me manter ancorada à realidade.
Meus passos ficam mais lentos à medida que me aproximo do meu quarto.
Cada centímetro do meu corpo parece perceber antes de mim.
Ele está ali.
A silhueta alta emerge devagar da penumbra, recortada contra a luz
fraca do corredor como uma sombra que ganhou carne. Encostado à porta
do meu quarto parecendo parte da madeira, como se sempre estivesse
estado ali, esperando.
Ele não se move.
Não fala.
Só me olha.
A luz esverdeada das lâmpadas de emergência desenha a curva do
queixo coberto por uma máscara animalesca, o contorno largo dos ombros,
a mancha escura do capuz que cobre parte do rosto. Os olhos, mesmo à
distância, mesmo escondidos, brilham como metal molhado. Um olhar que
não busca contato — prende. Me segura ali, paralisada, com o coração
descompassado, como se eu fosse um segredo que ele tivesse acabado de
desenterrar.
Minha respiração fica presa na garganta.
Não sei se dou um passo ou se recuo.
Mas ele decide por mim.
A silhueta se desprende da porta com um movimento calmo demais
para o efeito que causa. Ele avança um passo. Depois outro. Sem pressa.
Como se soubesse exatamente quanto tempo leva até me alcançar,
saboreando o medo que emana de mim como um perfume raro.
Meu corpo reage antes da minha mente. O café gelado escorrega da
minha mão e se espatifa no chão, a garrafinha girando uma última vez antes
de parar de boca pra baixo, um líquido caramelo se espalhando como
sangue no piso encerado.
Meus pés descalços batem contra o linóleo frio, o som abafado pelo
eco dos meus próprios passos, do coração martelando no peito, da
respiração falha. As luzes de emergência projetam sombras distorcidas nas
paredes — minha silhueta fundida com a dele por um instante, num borrão
caótico.
Dobro o corredor, deslizando na curva, e escorrego um pouco — o
chão está úmido? Sempre parece úmido aqui. Apoio a mão na parede para
manter o equilíbrio, e continuo correndo, ignorando o que meus pulmões
imploram, ignorando a vontade de olhar para trás.
Se eu olhar, talvez eu pare.
Há uma parte de mim — uma parte doente, quebrada, faminta — que
quer ser pega.
Mas não agora.
Tento abrir uma das portas ao longo do corredor, mas todas estão
trancadas. Quartos fechados, escuros, dormindo enquanto eu vivo esse
pesadelo acordada. Tudo parece um sonho esquisito, um devaneio febril.
Me sinto dentro de um filme velho, daqueles em que ninguém grita por
socorro porque, no fundo, sabe que ninguém vai ouvir.
A escada.
A escada que leva ao terraço.
Meus dedos tremem quando agarro o corrimão e subo dois degraus de
cada vez, tropeçando nos últimos, o coração batendo tão alto que tenho
certeza de que ele pode ouvir. Mas, quando chego ao topo, empurro a porta
com força — e ela está trancada.
Me viro.
E ele está ali.
No pé da escada.
Imóvel.
Não corre. Não fala. Só olha.
E, dessa vez, eu olho de volta.
31 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Se eu gritar, talvez ele vá embora.
Por algum motivo, eu não grito.
Acho que uma parte de mim — uma parte que deveria me assustar
mais do que ele — quer ver o que vem depois disso.
O que vem quando ele me alcança.
A luz da escada pisca uma vez, como se piscasse para mim. E então
ele sobe um degrau.
Meus ombros se encostam à porta trancada. Não tenho mais pra onde
ir.
Outro degrau.
A tensão entre nós vibra. O som dos seus passos é lento, ritmado,
perversamente calmo. Como se ele tivesse todo o tempo do mundo pra
brincar comigo. O pânico em mim é uma forma de arte que ele quer
saborear até o final. Quando ele alcança o topo, paramos a menos de um
metro de distância. E eu juro por Deus, o mundo inteiro some.
É só ele.
E eu.
E a batida abafada do meu coração nos meus próprios ouvidos.
A máscara de urso cobre o rosto, mas eu vejo o que está por baixo. Os
olhos me fuzilando, lendo cada dobra suja da minha mente. Eles não me
olham com raiva. Nem com luxúria pura. É pior do que isso. Ele olha como
se já tivesse me possuído uma centena de vezes. Como se conhecesse meus
limites melhor do que eu. Como se estivesse aqui apenas para empurrar
cada um deles até que eu quebre.
A distância entre nós encolhe até parecer absurda, íntima. Ele é
sombra e músculo, respiração e silêncio. A máscara animalesca reflete o
brilho úmido da luz de emergência. A boca dele escondida. Os olhos, não.
Eles me comem inteira.
Não com fome.
Com posse.
Não consigo me mexer. O sangue pulsa com força nas minhas veias,
entre as pernas, no centro do peito. A tensão é insuportável.
E então ele levanta a mão.
O gesto é calmo, preciso. Dois dedos tocam minha coxa — onde o
tecido termina — e arrastam devagar, subindo, medindo a temperatura do
meu corpo, desenhando um caminho.
Engulo em seco.
Ele me encara, ciente do que faz comigo. Ele já me estudou, já
conhece cada desvio podre da minha mente — aqueles que nem eu tenho
coragem de admitir em voz alta. Sabe que eu fantasiei com ele. Que usei o
vestido. Que, de alguma forma patética e previsível, esperei por esse
momento como uma idiota.
Os dedos dele continuam desenhando caminhos lentos sobre meu
corpo, como se estivessem entediados — mas é mentira. Cada traço é exato.
Calculado. A ponta do dedo percorre o contorno da minha cintura como se
estivesse esculpindo uma lembrança ali. Como se quisesse que eu sentisse
isso depois. Sozinha. No escuro. Quando eu me tocar pensando em
qualquer outra coisa e falhar miseravelmente.
Ele me marca sem deixar nenhuma prova.
Meu corpo vibra debaixo do toque. Não de medo. Não de prazer,
exatamente. Mas de alguma coisa entre os dois — uma pulsação elétrica
que me faz querer morder, empurrar, gritar. Reagir. Mas eu não reajo.
Porque parte de mim não quer que ele pare.
A mão dele sobe até minha clavícula, passa com lentidão entre o
tecido da minha camisola e minha pele quente. Um dedo toca a linha do
meu pescoço. Depois o maxilar. Depois… para na minha boca. Ele não
pressiona. Só encosta. Como se testasse a temperatura do que me queima
por dentro.
Meus lábios se abrem sozinhos. Eu odeio isso. Odeio como meu
corpo o entende antes de mim. O dedo roça meu lábio inferior,
delicadamente. Uma carícia disfarçada de punição. E depois ele enfia o
dedo dentro da minha boca. Só a ponta. Só o suficiente pra que eu sinta. Pra
que eu morda. Pra que eu me lembre disso até o meu último neurônio fritar.
Minha língua encosta na pele dele e o gosto é estranho, metálico,
familiar.
Quente.
Como se ele estivesse me transformando em cúmplice de algo que
ainda nem aconteceu.
32 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Ela abre a boca.
Lenta. Como se estivesse anestesiada por alguma força invisível.
Como se o próprio corpo traísse a mente e se curvasse a algo que ela mesma
ainda não entende — ou finge não entender.
Meus dedos roçam a borda do lábio inferior, e ela estremece. É sutil.
Quase imperceptível. Mas eu vejo. Eu sinto. O arrepio que sobe pelo
pescoço dela, a forma como os olhos dela piscam devagar.
E então ela me suga.
A boca dela se fecha em torno da ponta do meu dedo e o calor me
acerta como um soco no estômago. É quente. Macio. Úmido. A sucção
começa tímida, mas logo se torna mais ritmada.
Sua mandíbula se move devagar, os lábios apertados em torno de mim
com uma dedicação que faz meu pau latejar. E eu me forço a respirar fundo.
A não empurrar mais. A não enfiar o punho por debaixo daquela camisola
indecente e mostrar pra ela como se paga por esse tipo de provocação.
Mas Charlotte não faz ideia do que está despertando.
Não faz ideia do que está me fazendo.
Se eu dissesse pra ajoelhar, ela hesitaria.
Mas se eu empurrasse a cabeça dela pra baixo, ela obedeceria.
Porque ela quer.
Ela quer que alguém assuma o controle por ela.
E não existe ninguém mais apto do que eu.
Ela suga de novo, mais profundo agora, deixando o dedo entrar até a
metade.
A língua dança embaixo da minha digital.
Fecho os olhos por um segundo, e é tudo o que preciso pra imaginá-la
ajoelhada diante de mim — os lábios vermelhos e úmidos, a boca quente
engolindo meu pau devagar, enquanto meus dedos se enroscam no cabelo
dela e puxam com força suficiente pra arrancar um gemido, ou um protesto,
ou os dois ao mesmo tempo. Imagino o som da garganta apertada tentando
acomodar tudo, o barulho úmido, os olhos lacrimejando, e o meu nome
latejando na língua dela mesmo sem ser dito.
Meu dedo entra mais fundo e Charlotte geme. Baixo, como se odiasse
o próprio som. Como se percebesse tarde demais que se entregou. A língua
dela desliza com mais ousadia agora, como se tivesse entendido o jogo.
Como se estivesse testando até onde pode ir antes que eu reaja. E por um
segundo, por um mísero segundo, eu quase quebro. Quase empurro aquele
dedo mais fundo, quase agarro o rosto dela, quase perco o controle. Porque
é isso que ela provoca: o lado que eu mantenho acorrentado, aquele que ela
— sem saber ou sabendo muito bem — alimenta com cada olhar desafiador,
com cada silêncio carregado, com cada respiração presa.
A mandíbula dela se move de novo, mais firme, mais molhada. E o
barulho... o barulho me mata. É indecente, íntimo, uma porra de um
lembrete de que o que eu quero não é só o corpo dela, é o controle total. É o
momento exato em que ela para de fingir que não está gostando. É o
momento em que ela vai olhar pra mim com a boca suja e admitir —
mesmo que sem palavras — que nunca foi sobre resistir.
Charlotte ainda está chupando o meu dedo quando minha outra mão
desce.
Deslizo pela lateral da coxa dela, e o tecido fino da camisola não
esconde nada. A pele está quente, quase febril. Posso sentir o arrepio
pulsando sob meus dedos enquanto avanço, traçando o caminho entre as
pernas dela, devagar, com a confiança de quem já sabe exatamente o que
vai encontrar.
Ela não se move.
Não me impede.
Na verdade... abre um pouco mais as pernas.
E quando escorrego a mão por baixo da barra da calcinha, ela prende
a respiração. O ar some da garganta dela como se cada centímetro da minha
aproximação arrancasse o oxigênio do ambiente.
E então eu sinto.
Aquela boceta molhada.
Quente.
Escorrendo.
Encharcada.
Solto o dedo da boca dela no mesmo instante e passo a mão entre seus
lábios inchados, devagar, só pra confirmar o que já sei. O que o corpo dela
grita sem vergonha nenhuma.
Que vadia safada.
Meu dedo desliza por toda a extensão da sua boceta, e ela treme.
Sinto cada detalhe. Cada dobra quente, cada ponto latejando, implorando
por fricção. O clitóris pulsa sob o meu toque, desesperado. Ela está tão
molhada que a umidade escorre entre meus dedos, tornando cada
movimento mais fácil, mais obsceno, mais meu.
Sem precisar tirar sua calcinha, eu enfio dois dedos dentro dela.
Charlotte arfa, o corpo inteiro se contrai contra a porta atrás de si, mas
não se afasta. A sua boceta me aperta como se tentasse prender minha mão
ali. Como se ela quisesse me engolir.
Movimento os dedos lentamente, pra sentir cada centímetro da parede
quente e apertada que me recebe com desespero. Giro o pulso, pressiono
onde sei que vai deixá-la sem ar, afasto os dedos dentro dela só pra sentir
aquele estalo molhado me responder com sujeira e rendição. Ela está tão
aberta, tão exposta… O quadril dela começa a reagir, empurrando contra
minha mão, buscando mais, mais, mais.
Mas não é assim que funciona comigo.
Eu arrasto Charlotte até a borda — e puxo de volta.
Ela começa a tremer, os músculos das pernas contraídos, as mãos
apertando o tecido da própria camisola como se precisassem se segurar em
algo. O corpo dela grita. O orgasmo se aproxima rápido, urgente, como um
trovão prestes a cair.
E eu paro.
Tiro os dedos da sua boceta.
Deixo ela vazia.
Charlotte solta um som — quase um soluço.
Recomeço.
Meu polegar encontra o clitóris, desliza em círculos lentos, enquanto
os dedos voltam a afundar e foder. E ela vai de novo. O corpo inteiro
sacudindo contra a porta, a cabeça jogada pra trás, a boca entreaberta, um
gemido sem som escapando por entre os dentes. Ela tá tão perto. Tão perto
que quase posso sentir o orgasmo subir pela sua espinha.
E eu paro. De novo.
Minha mão abandona completamente a sua boceta.
— Desgraçado — Charlotte pragueja, mas tudo que ela consegue é
arrancar uma risada minha.
Faço de novo. E de novo. E de novo.
Cada vez a levando mais longe, cada vez mais fundo, até que o
clímax fica tão perto que ela começa a implorar com o corpo inteiro. Os
gemidos vêm em ondas, misturados com soluços. Charlotte morde o lábio,
tentando segurar. Mas está à beira do colapso. E é aí que eu paro mais uma
vez — o polegar apenas pairando sobre o clitóris, sem encostar.
— Eco! — ela solta, frustrada.
Eu a encaro.
Eco.
É assim que Charlotte me chama.
Eu não a toco de novo, porque isso não é sobre prazer.
É sobre poder.
E aqui, eu sou Deus.
33 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Minhas pernas ainda estão tremendo.
Minha boceta lateja num ritmo desesperado, dolorido, como se meu
corpo estivesse implorando por algo que nunca chega. Cada vez que ele me
levou até a beira e me puxou de volta, foi como uma corrente elétrica —
quente, cruel, viciante. Agora, estou suada, com a camisola grudando na
pele, os lábios entreabertos, o peito arfando como se eu tivesse corrido por
quilômetros... mas eu não corri.
Eco afunda a mão mais uma vez entre minhas coxas, e eu penso que
talvez agora ele vá terminar o que começou. Os dedos deslizam pela lateral
da minha calcinha e, antes que eu possa entender o que está fazendo, ele a
puxa com um movimento seco, firme. O tecido cola na pele por um
segundo, como se resistisse a sair, como se tivesse vergonha do quanto está
encharcado. Mas ele arranca. Frio. Sem hesitação.
E então…
Ele guarda.
Guarda no bolso do moletom como quem enfia uma lembrança no
bolso de trás. Um souvenir.
Ele se vira.
Parte do meu coração se acalma, porque é um alívio não ter aquela
máscara e aqueles dentes me observando. Mas o seu gesto não é um
movimento qualquer; é calculado, um giro seco que me fisga a atenção.
Meu corpo gela. O punho dele, uma massa de músculos tensos, sobe em
direção ao teto. Não existe raiva, não existe grito. Só uma intenção fria,
quase predatória, nos olhos que me encaram por um segundo antes de se
fixarem lá em cima.
O soco vem, brutal, preciso. Um som oco de madeira velha
estourando. É podre, um estalido úmido que ecoa na quietude do corredor.
Meu corpo encolhe. Do buraco que se abre, uma chuva imunda desce. Pó e
cascas secas, caindo sobre mim como uma maldição. Faço uma careta de
nojo quando entendo.
Cupins.
Baratas.
Uma infestação viva, preta, rastejante. É como se o inferno tivesse se
materializado. Meu estômago revira com náusea, a bile subindo pela
garganta. As criaturas escorrem pela parede, um rio nojento de corpos
minúsculos, derramando-se sobre a escada, espalhando-se pelo chão com
aquele som úmido e asqueroso de patas no gesso.
O cheiro é denso. Úmido. Apodrecido. A essência do bolor e da
decomposição se mistura ao ar pesado, grudando no meu nariz. A visão é
grotesca, paralisante.
E Eco? Ele é um ponto fixo no caos, sem mover nenhum músculo.
Meu corpo inteiro treme, e eu não consigo distinguir o motivo. É o
tesão? É a adrenalina bruta que ele injeta em mim? Ou é o terror gelado que
se instalou em cada osso do meu corpo?
As sensações se fundem, rápidas demais, indissociáveis.
Onde começa o êxtase e termina o medo?
Não tenho mais como saber.
34 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Eu tento, mas é óbvio que não consigo me concentrar na aula de
publicidade depois do meu passeio noturno até o dormitório da Mayfair.
Quando Charlotte estava na mansão, minhas visitas se limitavam aos
arredores, noites observando a sua presença cada vez que aparecia na janela
ou nos jardins. Os Sparks sempre tiveram uma equipe gigantesca de
seguranças e câmeras que denunciariam minha presença. Eu poderia
hackeá-las, sim, mas parecia um esforço muito grande pra poucos
benefícios. A polícia estaria na porta antes mesmo que eu tivesse a chance
de ir até o quarto da Char.
No dormitório da Mayfair, é tudo mais fácil.
É quase patético o quão vulnerável ela está aqui. As câmeras são
básicas, antigas. O sistema de segurança do prédio é uma piada. Os
estudantes esquecem as portas destrancadas, deixam as janelas abertas,
circulam em horários aleatórios. Os corredores são escuros. A escadaria dos
fundos não tem sensor de presença. A maioria dos alarmes internos sequer
funciona.
É uma pena que ela tenha que sair, porque o prédio está condenado.
A palavra circula pelos corredores da Mayfair como uma fofoca
saborosa demais pra ser ignorada. Condenado. A estrutura está
comprometida, dizem. Cupins, rachaduras, baratas, umidade, fiação podre
— uma combinação perfeita de negligência e horror.
E agora todos os alunos falam disso como se fosse o apocalipse.
Garotas arrastando malas no meio da noite, ligando pros pais, pedindo
transferências emergenciais de dormitórios. Grupos inteiros reunidos no
pátio, debatendo se foi sabotagem ou apenas descaso da administração. O
cheiro de desinfetante invade os andares e, ainda assim, o nojo permanece
grudado nas paredes — como se as baratas ainda estivessem ali, mesmo
depois de sumirem.
Eu tenho que pedir desculpas ao reitor da Mayfair por ter feito as
ações da universidade despencarem alguns milhares de dólares.
A madeira já estava podre, eu só dei o empurrão final.
Bastou deixar os cupins certos no canto certo. Um pouco de serragem
no rodapé. Umidade proposital escorrendo de um cano que "vazava" — eu
mesmo abri a fissura com a chave de fenda que sempre levo na mochila,
mas a baratas vieram por conta própria.
Estou curioso pra saber qual vai ser o próximo passo dela.
Sei que Charlotte não tem pra onde ir e não faz parte dos meus planos
deixá-la desamparada, mas quero ver até onde a princesa consegue se virar
sozinha.
— Antes de encerrar, reforçando: o trabalho em dupla sobre
campanhas de gerenciamento de crise deve ser entregue até o dia vinte e
três. Quero apresentação em sala e relatório impresso, tá? Criatividade vale
nota, mas coerência também. Não viajem — a professora dá uma risadinha
fraca, enquanto começa a juntar os papéis da mesa. — Agora podem ir.
Os alunos começam a se mover. Um burburinho toma conta da sala
como fumaça — pastas sendo fechadas, carteiras arrastadas com pressa, o
som abafado de risadas nervosas sobre o prédio condenado. Alguém
comenta, meio rindo, que ouviu mais baratas no teto da sala de história.
Outra pergunta se isso vai pra imprensa. A maioria só quer sair dali antes
que alguma coisa despenque.
— Você não prestou atenção em um minuto da aula — comenta
Chuck, passando pela minha carteira.
O seu cabelo está pintado num tom intenso de verde escuro e não sei
se essa é a segunda ou a terceira cor do mês. Me pergunto quando ele vai
ficar careca, embora o corte buzzcut não esteja muito distante disso.
Como a maioria dos herdeiros daqui, ele está cursando administração
— legado de família. O curso de publicidade e ADM tem algumas cadeiras
em comum, por isso temos essa matéria juntos duas vezes na semana.
— É uma honra saber que você estava focado em mim — zombo,
com um meio sorriso entediado, sem tirar os olhos da tela do notebook
ainda aberto na minha frente, onde há mais pensamentos soltos do que
anotações de aula.
— Meio que todo mundo estava — ele dá de ombros, ajeitando a alça
da mochila. — Você sabe qual marca de New York vem passando por
gerenciamento de crise desde o último coquetel…
— Nós poderíamos fazer o trabalho sobre isso — admito, mesmo que
sem entusiasmo — mas meu pai não merece tanta atenção.
Não depois de deixar que sua miséria pessoal se tornasse um
espetáculo público.
— Ainda não falou com ele? — Chuck pergunta, cuidadoso, como
quem já sabe a resposta.
Movo a cabeça em negativa. Um gesto lento, quase automático.
O que me deixa mais irritado não é o vício dele, em si. Eu convivi
com isso. Administrei. Cobri as vergonhas, paguei o preço emocional de
cada recaída. O que me deixa puto é o fato de que o Phantasma viu essa
fraqueza e a usou contra mim.
Fez do colapso do meu pai um golpe estratégico.
Transformou a podridão da minha família em munição.
Como se minha dor fosse só uma ferramenta nas mãos de alguém
ainda mais podre.
— Não sei quando vou falar — digo, por fim, fechando a tela do
notebook.
Nós saímos da sala em silêncio e a primeira coisa que meus olhos
encontram é o uniforme vermelho de Charlotte, o cabelo loiro preso em um
rabo de cavalo alto. Ela está com a Zuri, ambas debruçadas sobre o mural
das fraternidades, colando um cartaz brilhante anunciando uma festa
qualquer, no novo parque de diversões de New York, perto da praia. Fogos,
DJs, promessas de uma noite inesquecível. Aquele tipo de distração feita
sob medida pros alunos da Mayfair fingirem que o mundo não está
desmoronando sob os pés deles.
E ela finge tão bem.
Se eu não soubesse.
Ali, em público, Charlotte está impecável.
A postura reta. O sorriso afiado. O olhar que escaneia o corredor
como se ela fosse a porra da dona da Mayfair.
Ela ri de algo que a Zuri fala. Um som leve, musical, bonito demais
pra combinar com a insegurança que ainda deve estar ardendo sob a pele.
Do meu lado, Chuck tensiona. Os olhos dele deslizam por Zuri com
uma expressão de tédio, mas tem algo nos maxilares cerrados que denuncia:
a presença dela incomoda mais do que ele gostaria de admitir.
Zuri percebe a nossa chegada antes mesmo que a gente pare. Ela vira
com um sorriso no rosto — mas é daquele tipo que não alcança os olhos.
Frio, polido, afiado como um estilete. Segura Charlotte pelo pulso e
caminha com ela até a nossa frente, como se estivesse conduzindo uma
exposição. Os olhos escuros dela se fixam em Chuck por tempo demais.
Tempo suficiente pra deixar claro que tem algo ali.
— Vocês vão? — pergunta, e apesar de usar o plural, o olhar dela não
desgruda do rosto dele.
A voz sai doce demais.
Doce como veneno.
Normalmente, Zuri é o tipo de garota que flutua nos ambientes,
conquistando todo mundo com seu charme automático. Hoje, porém, tem
algo mais ríspido, uma pontinha de raiva maquiada de educação.
Chuck solta uma risadinha pelo nariz, seca.
— Não.
Charlotte engole uma risada.
Porque Charlotte é maldosa mesmo quando tenta não ser.
Tem esse jeito de saborear pequenas desavenças.
— Ótimo — Zuri rebate, a mandíbula travada por um segundo antes
de recuperar o controle — Não quero que a minha festa de aniversário seja
mal frequentada. Vou colocar uma foto sua na porta e escrever proibido
entrar.
Chuck ergue as sobrancelhas com desdém.
— Nesse caso, vou precisar de um disfarce.
— Não — ela rebate de imediato, os olhos faiscando — Você acabou
de dizer que não quer ir. Então não vai.
— Não parece que a minha presença importa, mas eu vou —
debocho.
Charlotte vira o rosto na minha direção.
O olhar dela é curioso, quase desconfiado.
A gente não conversou muito depois daquela madrugada na praia,
talvez porque ela esteja obcecada por outra versão minha.
Irônico pra caralho.
Zuri muda o foco pra mim por um segundo, e o sorriso dela se
suaviza. Ela toca meu braço rapidamente — como quem agradece uma
aliança silenciosa — e depois gira nos calcanhares. Se afasta com as tranças
do cabelo balançando, passos decididos e performáticos como sempre.
— É a minha festa de aniversário, todo mundo! — ela anuncia, os
braços erguidos.
Um coro de palmas irrompe ao redor.
Chuck revira os olhos com tanta força que eu quase escuto o barulho.
Mas que merda…?
Sinto que perdi alguma coisa.
— Eu to indo — ele diz, sucinto, sem deixar espaço pra qualquer
questionamento.
— O que aconteceu entre os dois? — pergunto, assim que ele se
afasta.
Charlotte dá de ombros.
— Não sei. Desconfio que são amigos que estão brigando porque
querem se pegar.
— Ela não tinha uma queda pelo Reid?
— Tem, mas não sou próxima da Zuri o suficiente pra saber a fofoca
completa.
Concordo com a cabeça.
Charlotte está sempre cercada de pessoas — orbitando ao redor dela
como se fosse o único sol num céu lotado de estrelas mortas — mas tem
algo nela que sempre parece sozinho. Sozinho de um jeito bonito,
misterioso. Como uma casa enorme no topo de um penhasco: cheia, mas
vazia.
A única exceção a isso parece ser Reid.
Odeio ele por isso.
— Você vai mesmo? — ela pergunta.
Raios de sol estouram num tom de ferrugem atrás dela, acendendo o
cabelo loiro num brilho de cobre e ouro. Ela está com o moletom vermelho
dos Dragons amarrado na cintura, o uniforme de líder de torcida colado no
corpo, as pernas expostas até o meio da coxa. Mas não é isso que me
hipnotiza — é o olhar. O jeito como ela sustenta meus olhos como se
estivesse procurando alguma coisa. Um motivo pra me odiar, talvez.
— Você quer que eu vá? — pergunto.
Ela ergue uma sobrancelha, um canto da boca se curva num meio
sorriso que não promete nada, mas sugere tudo.
— Isso é indiferente, monstrinho.
— Pode ser que eu esteja lá, sim — digo, me aproximando o
suficiente pra sentir o perfume dela. O suficiente pra ver a pulsação no
pescoço dela acelerar. — Você… — começo, mas paro.
Porque não sei o que estou tentando perguntar.
Você vai mesmo?
Você vai sozinha?
Você vai passar essa noite na rua?
Ela responde antes que eu possa encontrar as palavras certas.
— Não sei — diz, olhando o pôster da festa colado na parede, como
se aquilo fosse mais interessante que qualquer coisa entre nós. — Não gosto
de fogos de artifício. O som me lembra um tiroteio.
— E você já esteve no meio de um?
— Eu sei como soa.
— Apareça — digo, por fim. — Eu dou um jeito nos fogos.
Charlotte ri com incredulidade. Um som curto, cortante, que parece
querer ferir antes de desaparecer no ar. Ela finalmente se vira, o rabo de
cavalo balançando com o movimento brusco, o olhar tão afiado que quase
me corta.
— Faria isso por mim? — ela ironiza, cruzando os braços e
inclinando o quadril, como se quisesse manter a distância e, ao mesmo
tempo, me provocar com ela.
Dou um passo adiante, sorrindo como quem já sabe a resposta.
— Claro, princesa — murmuro, deixando a palavra escorrer da boca.
— Servir a realeza é o que eu faço de melhor.
35 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Coloco um chiclete de menta na boca enquanto tento convencer o
meu estômago de que ele aguenta mais um pouco sem comida. Passei o dia
inteiro ocupada com as tarefas das fraternidades e da equipe das líderes de
torcida, desfilando pelos corredores, ignorando o fato de que não tenho um
teto, mas agora não tenho opção além de lidar com isso.
As rodas da minha mala arranham o asfalto rachado da calçada,
ecoando pela rua feito uma denúncia. Seguro a coleira de Milane com força
e ela balança o corpo, saltitando pelas ruas, alheia ao caos que nossa vida se
tornou nas últimas semanas. Admito que, por um segundo, considerei
aceitar a oferta do Reid quando ele mandou aquela mensagem dizendo que
eu podia ficar na casa dele o tempo que quisesse. Mas o meu orgulho —
esse maldito vício de morrer de pé — ainda vai ser o motivo da minha
destruição.
É por isso que estou aqui.
No Bronx.
Num bairro que eu nem sei pronunciar o nome direito.
Ajeito o capuz do meu moletom na cabeça, escondendo mais do meu
cabelo. Torço pra que nenhum paparazzi desocupado ou aluno da Mayfair
estejam por essas bandas, porque eu não gostaria que ninguém me visse
nesse estado.
Puxo uma das malas para cima do meio fio, com um tranco
impaciente. Ignoro a dor fina que sobe pela minha lombar e faço uma careta
quando minhas botas afundam na água suja entre as pedras. Ninguém aqui
me encara diretamente, mas ninguém me ignora. É quase como se
estivessem curiosos, como se soubessem que eu não pertenço a esse espaço.
Respiro fundo, aperto a alça da mala contra os dedos e sigo até a porta
do que, segundo o google maps, é uma república. Deixo a coleira de Milane
presa no bicicletário antes de entrar. As luzes da porta piscam e uma
lâmpada morre na varanda, o que entendo como sinal de mal presságio. Me
sinto tonta, então continuo. Um sino esquisito toca quando entro.
O saguão é apertado, com cheiro de cigarro e mofo nas paredes. Um
homem gordo e careca me lança um olhar curioso, sentado atrás do balcão
de atendimento.
— Quero alugar um quarto — digo, arrumando a postura.
Ele mastiga o palito de dente nos lábios, assentindo lentamente.
— Duzentos dólares a semana.
Concordo com a cabeça. Ele não me dá mais nenhuma informação
antes de se abaixar pra pegar uma máquina de cartão de crédito tão velha
que faltam algumas teclas, o visor piscando de um jeito que parece pedir
ajuda. Eu pego minha carteira, escolhendo um dos cartões disponíveis.
Por favor, por favor, por favor…
Passo o cartão.
A máquina emite um apito estridente.
Erro.
Tento de novo, com um movimento mais firme, como se a culpa fosse
dos meus dedos.
Erro.
Troco de cartão.
Outro beep irritante.
Olho pro homem atrás do balcão. Ele cruza os braços, não diz nada e
nem precisa. O tédio está estampado no seu rosto gorduroso como uma
acusação. Tento de novo, um quarto cartão, minha última tentativa.
Recusado.
Sinto o peso dos olhares dos hóspedes na sala de espera adjacente.
Eles são miseráveis, jovens empilhados em cadeiras de plástico encostadas
na parede, bebendo cerveja barata e fumando cigarro ruim. Eles tem um
olhar zombeteiro nos olhos, muito cientes que príncipes e princesas não
duram muito tempo nas ruas de New York.
— Posso tentar de novo? — pergunto, a voz rouca de vergonha —
Eu…
— Sem dinheiro, sem quarto — ele me corta.
— Eu tenho dinheiro — protesto — Muito mais do que você vai ter
nessa sua vida de merda inteira.
Ou pelo menos tinha.
O homem solta uma risada curta. Não parece acreditar em mim e eu
sei que dar um chilique no melhor estilo Você sabe quem eu sou? não vai
gerar nenhum resultado, então guardo os malditos cartões na carteira e puxo
as malas para perto do meu corpo, como se carregar o que sobrou de mim
fosse suficiente pra me manter de pé. Saio da república, o som do maldito
sino anunciando a minha derrota.
Caminho pelas ruas do Bronx, os saltos da minha bota começando a
incomodar meus pés.
De tempos em tempos, Milane late para algum pássaro imaginário e
rosna para os outros cachorros da rua como a velha rabugenta que sempre
foi — ranzinza, territorial e com a energia passivo-agressiva de uma
senhora que fuma na varanda e reclama do barulho das crianças. Tiro o
celular do bolso da jaqueta e encaro minha lista de contatos, pensando em
um plano B. Só preciso de um lugar pra dormir enquanto não consigo falar
com meus pais — eles precisam saber que o dormitório da Mayfair não é
mais uma opção.
Me pergunto se o Eco fez aquilo de propósito.
Ele desceu as escadas e sumiu, como uma sombra satisfeita, logo
depois de derrubar o teto do corredor, me deixando cercada por uma chuva
de insetos nojentos. Não sei se a intenção era me impedir de dormir naquele
prédio condenado ou se ele só queria o prazer sádico de ver eu me fodendo
pra encontrar abrigo.
O mais estranho é que uma infestação daquele tamanho tenha
explodido justo na Mayfair, uma universidade que se vende como símbolo
de prestígio. Mas é sempre assim: quanto mais polido o verniz, mais podre
a madeira por baixo.
Será que ele…
Enfim.
Levar meu carro até o estacionamento da universidade e dormir
dentro dele ainda é uma alternativa menos humilhante do que pedir abrigo
pro Reid.
Um gemido de dor escapa da minha garganta. O couro das minhas
botas corta a pele do meu tornozelo e minha saia jeans parece uma péssima
escolha diante da tempestade que se aproxima. Olho pro céu e ele olha de
volta, cinza, soturno, quase se desfazendo em cima de mim. Percebo que
minhas mãos estão trêmulas quando o aperto em torno da coleira de Milane
não parece mais tão forte.
Me sinto ridícula por ter tirado essas malditas malas do carro antes de
ter certeza de que o cartão funcionaria. Como se ainda vivesse num mundo
onde as coisas dão certo pra mim. Levo a mão à testa e a deixo ali por um
instante, os dedos pressionando a pele como se pudessem apagar a
frustração que começa a ferver por baixo. O advogado me avisou que
minhas contas poderiam ser bloqueadas.
Respiro fundo, ou tento.
É como se o ar entrasse pela metade.
Sinto o estômago revirar, aquela sensação oca de quem não comeu
nem descansou nas últimas vinte e quatro horas. As luzes dos postes
dançam ao meu redor, num balé feio e lento. Sinto a coleira escapar da
minha mão enquanto Milane late e minhas malas batem contra o chão num
baque surdo. Eu me desequilibro, meus braços tentando desesperadamente
se agarrar em alguma coisa, mas o asfalto vem ao meu encontro com uma
pressa cruel.
E então tudo se apaga.
36 CHARLOTTE SPARKS
Presente
Sinto cheiro de menta quando acordo.
Não aquele mentolado forte de chiclete velho ou pasta de dente
barata, mas um frescor suave, envolvente, como se alguém tivesse borrifado
calma no ar.
Abro os olhos calmamente.
A luz que entra pelas janelas é filtrada pelas cortinas pesadas, um
dourado pálido que desenha sombras nas paredes da sala. Levo alguns
segundos pra lembrar onde estou. O teto não é o do dormitório da Mayfair
— não tem manchas, rachaduras ou traços de abandono. O sofá é fundo,
confortável demais pra ser universitário. Minhas pernas estão cobertas por
um cobertor cinza grosso, que tem o cheiro discreto de amaciante e cigarros
caros.
Eu conheço esse sofá.
Então ouço.
Um som abafado de unhas no piso.
Viro o rosto e vejo Milane. Deitada bem perto, no tapete, como se
estivesse montando guarda. O focinho dela aponta na minha direção e,
quando me mexo, ela solta um resmungo preguiçoso e dá uma batidinha
com o rabo no chão.
Meu peito se alivia de um jeito estranho.
A cabeça de Milane se ergue. Ela se aproxima, devagar, e lambe meus
dedos, como se estivesse me dando um relatório silencioso de tudo o que
aconteceu enquanto eu dormia.
— Oi, princesinha.
A voz vem de perto, baixa e provocante, e acende alguma coisa em
mim antes mesmo que meu corpo desperte por completo.
Declan está parado a poucos passos do sofá, encostado no batente da
porta com os braços cruzados. Veste uma camiseta preta que gruda no peito
e uma calça de moletom cinza clara, com os braços tatuados expostos, todos
aqueles pequenos cabos robóticos desenhados, os cabelos bagunçados e os
olhos escuros me atravessando como se tivessem todo o direito.
— Killian teve aula de boxe hoje cedo, no Bronx. Foi por acaso que
encontramos você.
— Eu…
— Você desmaiou.
Concordo com a cabeça.
— Acho que não comi direito…
— Acho que não comeu direito de propósito.
Engulo em seco. Como de costume, Declan St. Clair me desvenda
fácil demais.
— Você não tem pra onde ir.
Não é uma pergunta, mas uma constatação.
— Então decidimos que você vai ficar.
— Ficar…
— Aqui.
Deixo uma risada escapar.
— Não vou morar aqui.
— Ah, desculpe se pareceu que estou te dando alternativa,
princesinha. Se não quer ficar, considere-se em cárcere a partir de agora.
— Declan.
— Charlotte.
Me sento devagar, ajeitando o cobertor sobre as pernas.
— Eu não quero…
— Já está decidido — ele me corta — Você e a vira-lata ficam.
— Ei!
Antes mesmo que eu consiga formular a indignação que pulsa no
fundo da garganta, o cheiro de menta se intensifica — fresco, limpo, quase
clínico. Uma memória olfativa que não pertence a mim. Levo os dedos ao
rosto, devagar, e o toque me paralisa por um instante. Minha pele… está
suave. Macia de um jeito que não faz sentido depois de ter desmaiado na
rua e passado a noite largada num sofá qualquer.
Franzo o cenho, tentando entender. Algo naquela textura — na forma
como minha pele desliza sob meus próprios dedos — me deixa
desconcertada.
— Quem fez skincare em mim?
Declan afasta o corpo do batente e se aproxima. A luz da manhã de
sábado o recorta como um vício: ele é todo sombra e promessas, e parece
saber disso.
— Eu — responde, casual, como se fosse a coisa mais natural do
mundo.
— O quê?
Ele aponta pra mesinha de centro. Meus olhos seguem a direção. Há
quatro potinhos enfileirados ali, todos com as tampas abertas: tônico,
sérum, hidratante, alguma coisa com niacinamida que eu reconheço pela
embalagem.
— Estava na sua mala de mão. Pesquisei no TikTok a ordem dessas
merdas — diz, sentando na beira do sofá, sem nenhum traço de vergonha.
— Você é linda, precisa ser bem cuidada.
Fico em silêncio.
Não sei se porque estou processando a informação ou porque alguma
coisa dentro de mim cede com aquele elogio sussurrado, casual, dito como
se fosse uma verdade absoluta e óbvia.
Declan estende a mão e passa o polegar devagar, com uma gentileza
que não combina com ele, pela minha bochecha. O toque é leve, mas deixa
um rastro elétrico.
— De nada.
A ideia de ficar aqui me assusta.
Não pelo lugar em si — o apartamento é seguro, limpo, o sofá
razoavelmente confortável. Milane está aqui. Eu estou viva. Não há ameaça
imediata. Mas ainda assim, o medo persiste, quieto, rastejante, como um
sussurro que se esconde sob o carpete.
O que me assusta é outra coisa.
É ele.
A ideia de me aproximar ainda mais de Declan, de invadir o seu
espaço e permitir que ele invada o meu. Não com brutalidade, mas com
cuidado. Com olhos que me estudam sem pressa, como se já soubessem de
cor tudo que sou, mesmo quando nem eu entendo.
Me assusta o jeito como ele se acomoda nas minhas brechas.
Como não força a entrada, mas também nunca recua.
Como é gentil sem ser doce. Como é perigoso sem levantar a voz.
— Tem comida na despensa — Declan diz, se afastando de repente,
como se tivesse ouvido o grito silencioso dos meus pensamentos. — Se
ficar sem comer, eu vou saber. Eu e o Killian vamos voltar tarde hoje, então
a casa é sua.
— E se eu for embora? — pergunto.
Declan já está de costas, mas para. Dá meio passo de volta, sem se
virar, como se a minha pergunta tivesse puxado um fio invisível preso entre
nós.
— Vou atrás de você.
Ele deixa uma risada divertida escapar, então complementa:
— Vou caçar você.
Reviro os olhos.
— Vai se foder, monstrinho — digo, erguendo o dedo médio na sua
direção — Tem muita sorte que eu não estou em posição de reclamar e você
me resgatou como quem pega um gato atropelado na rua.
Declan sorri de canto, aquele sorriso torto que não promete nada
seguro.
— Você não é um gato, Charlotte. Gatos fogem quando são
ameaçados.
Ele dá um passo na minha direção.
— Você morde de volta.
Minha respiração falha por um segundo.
— Você sempre teve essa mania — continuo, a voz mais baixa agora
— de agir como se soubesse tudo sobre mim.
— Eu sei o suficiente.
— Ah, é?
— Sei que você odeia pedir ajuda. Que prefere desmaiar na calçada a
admitir que precisa de alguém.
Declan inclina a cabeça.
— Sei que gosta de dormir no lado esquerdo da cama, que guarda
barrinhas de cereal no fundo da bolsa mas nunca come nenhuma delas, que
cafeína não deixa o seu corpo acordado. Sei que ser líder de torcida e rainha
da Mayfair é a sua forma de lidar com o fato que a sua carreira de modelo
nunca foi pra frente, sei que me beijou aquele dia na praia e gostou, e agora
não sabe lidar com isso. Sei, acima de tudo, que está morrendo de medo de
gostar de ficar aqui.
— Você não é tão esperto quanto pensa, Declan.
Ele ergue uma sobrancelha, como se dissesse: Tem certeza que não?
Então Declan ri de alguma piada da qual não participo e se afasta de
novo.
— Come alguma coisa, Char — ele diz, ao alcançar a porta. — Ou te
dou comida na marra quando voltar.
Declan vai embora.
E eu fico — o cheiro da minha pele mentolada, Milane largada aos
meus pés como se também estivesse exausta, e uma certeza incômoda
batendo no peito: ele nunca sai sem levar uma parte de mim.
37 DECLAN ST. CLAIR
Presente
— A Charlotte está morando com vocês?
A forma como Olívia diz isso soa como uma acusação. O tipo de
pergunta que parece ter um gosto ruim na boca, e que ela tenta cuspir com
um sorriso neutro, sem muito resultado.
Eu dou de ombros e deixo que o Killian resolva, porque o
apartamento é dele e não meu. Eu, no momento, sou só ruído de fundo,
assim como a Charlotte. Inquilinos provisórios de um cenário que não nos
pertence.
— É temporário — Killian explica, bebendo um gole da sua cerveja
— Só enquanto estão reformando os dormitórios da Mayfair.
— E por que ela estava no dormitório da Mayfair?
Troco um olhar com Killian.
Não sei quanto da verdade podemos contar.
Acho que Charlotte surtaria se soubesse que entregamos o seu
segredo pra Olívia assim, de bandeja.
— É uma forma de aproveitar a vida universitária — digo, tragando
meu cigarro.
Dex arqueia uma sobrancelha, aquele olhar clínico que parece cortar
carne e expor os tendões.
— E vocês acham que isso vai dar certo?
O som de pneus derrapando no asfalto estilhaça o ar entre nós — alto,
seco, indecente. Um arrepio se instala na base da minha nuca e desce,
preguiçoso. Meu corpo se lembra do que a cabeça tenta esquecer.
Estamos no Bronx de novo.
Não somos exatamente bem vindos aqui.
De volta ao cenário da tragédia do Chuck, à curva onde o mundo
virou de ponta-cabeça e tudo ficou em silêncio. Ele acha que reviver os
momentos antes do acidente pode ajudar a puxar alguma lembrança
escondida, algum fio solto que conecte os pontos entre o que o Phantasma
ofereceu e o que ele aceitou. Eu acho que ele está se agarrando a uma ideia
romântica demais de memória, mesmo assim, aqui estou, seguindo o rastro
borrado daquela noite.
— E se ela descobrir? — Olívia pergunta, braços cruzados na frente
do corpo, não sei se com raiva ou com receio.
Estamos em menos hoje. Só eu, Killian, Dex, Olívia e Chuck — mas
ele parece desligado demais pra contar. Seus olhos deslizam pela pista
como se os carros pudessem lhe dar alguma resposta. Como se o motor, o
óleo e o cheiro de borracha queimando fossem mais confiáveis que a
memória.
— Sobre… — Killian começa.
— Sobre tudo — Dex completa.
Reto. Frio. Como uma lâmina recém-afiada.
— Ela não vai descobrir — Killian diz, com aquela calma
insuportável de quem sempre tem um plano.
Depois baixa o tom, a voz mais íntima, mais venenosa:
— A gente não usa nosso apartamento pra matar ninguém.
— A Charlotte não é burra — Olívia diz, e a voz dela corta o ar como
uma faca. Não levanta o tom, não precisa. Vem com o peso seco de quem
está lançando um aviso, não uma opinião. — Você não pode tratá-la como
se fosse só uma bonequinha que você fode e depois descarta. Tem um
cérebro inteiro dentro daquela cabeça loira. E ele funciona, Killian. Muito
mais do que o seu, às vezes.
Killian revira os olhos, preguiçoso, como quem ouve isso toda
semana.
— Foi ideia sua que eu me aproximasse dela — retruca.
— Eu disse pra se aproximar — ela rebate, impaciente. — Não pra
colocá-la dentro da sua casa! E até hoje a gente não sabe absolutamente
nada sobre o pai dela, então…
— Sabemos algumas coisas — Killian interrompe.
Dex ergue uma sobrancelha.
— Mas não podemos falar sobre isso — digo, mais baixo, mais seco.
— O quê? — Dex ri, sem achar graça, e o som sai quase incrédulo. —
Desde quando tem segredos entre a gente?
— Bom — começo, o tom mais leve do que devia, só porque não
quero que pareça uma acusação —, vocês passaram pelo menos uns cinco
anos escondendo que a Liv era filha do maior assassino em série do país,
então acho que, tecnicamente, sempre teve segredos entre a gente.
O silêncio que vem depois não é desconfortável. É só familiar. Essa é
a base dos Cisnes, no fim do dia.
Não a lealdade. Não o sangue.
Mas os segredos entre nós.
Inesquecíveis pelo motivo errado.
Inconfessáveis pelo motivo certo.
— Vocês sabem o que dizem — Killian recapitula — Mantenha os
amigos perto e os inimigos mais perto ainda. Se ela tem qualquer
envolvimento com o Phantasma, agora vai ser ainda mais fácil de descobrir.
Concordo com a cabeça, mantendo a fumaça do cigarro dentro da
boca por mais tempo do que o necessário. O gosto já virou amargor. E o
amargor, por sua vez, já virou um tipo estranho de conforto.
Se tem alguém no mundo que pode afirmar, com todas as letras, que
Charlotte Sparks não tem qualquer ligação com o Phantasma, sou eu. Estou
batendo nessa tecla desde que descobri sobre a arma do Richard. Conheço
os passos dela como quem decora uma coreografia secreta. Sei o que ela
come quando está ansiosa, o tipo exato de vinho que ela finge gostar em
eventos sociais, o jeito como ela mascara a tristeza com comentários
presunçosos sobre moda italiana.
Sei onde ela esteve.
Onde ela não esteve.
E onde jura que esteve, só pra manter o próprio enredo intacto.
Ela tem muitos defeitos, vários deles eu conheço de perto, mas
nenhum deles atende pelo nome de Phantasma. E se algum dia isso mudar,
se por acaso ela se mostrar parte do jogo — então o problema não é só dela.
É meu também.
— Se por acaso a Charlotte ficar sabendo o que fazemos no nosso
tempo livre — Killian volta a dizer — Nós damos um jeito nisso. Nosso
compromisso com os juízes sempre foi mais importante do que qualquer
garota, não é?
Dex passa a língua devagar pelo lábio inferior. Um gesto pequeno,
mas que diz mais do que qualquer resposta.
Não acho que ele concorda.
Não por inteiro, pelo menos.
Ele já se jogou no fogo antes — sem hesitar — só pra proteger os
segredos da Olívia.
Sei que ele faria isso de novo se julgasse necessário.
E, por mais que eu saiba que ele ama cada um de nós, não consigo
imaginar um mundo onde Olívia Valmont não está em primeiro, em
segundo e terceiro lugar na sua lista de prioridades.
— Vão matar nossa amiga de infância? — ela questiona, defensiva.
— Você nem gosta dela — Killian aponta.
— Eu gosto, sim, dela. Um pouquinho. Tipo, depende do dia —
Olívia cruza os braços, observando a corrida que se inicia — Mas não é
esse o ponto.
Killian suspira.
— Eu não quero que ela morra. Só estou dizendo que, se não tivermos
outra opção, fazemos o que precisa ser feito.
Dex concorda.
— É — eu digo, por fim — Nós fazemos o que precisa ser feito.
38 CHARLOTTE SPARKS
Presente
A água quente da suíte do apartamento faz o meu corpo inteiro
relaxar.
Ou tenta.
Mesmo com o vapor cobrindo o espelho, com o cheiro fresco do
sabonete invadindo o box, com meus músculos enfim derretendo sob os
jatos escaldantes, eu não consigo desligar.
Fazem quase quarenta e oito horas que estou aqui e ainda parece que
estou vivendo dentro de um roteiro que não ensaiei. Como se alguém
tivesse escalado uma Charlotte Sparks que não sou eu na peça da minha
vida — uma versão alternativa, mais ferrada, menos polida, vinda direto de
um universo onde tudo deu meio errado. Uma Charlotte despejada,
dividindo apartamento com dois garotos emocionalmente disfuncionais, e
não exatamente por vontade própria.
Declan, com seu sarcasmo afiado e os olhos que sabem demais.
Killian, com aquele silêncio que grita e os punhos que falam mais alto do
que deveriam. Ainda não entendi como eu me encaixo nessa dinâmica, nem
sei se quero entender. Por enquanto, só consigo torcer pra que meus pais
apareçam logo — de preferência com provas da inocência da Belladonna e,
quem sabe, uma rota de fuga plausível pra mim.
Desligo o chuveiro e me enrolo numa das toalhas caras do Killian,
macia e cheirosa, como aquelas que só encontramos em hotéis cinco
estrelas. Evito o espelho quando passo pelo vidro embaçado, como quem
foge de um presságio. Ver meu reflexo nua sempre parece uma violência —
não contra o corpo em si, mas contra a expectativa que criei dele.
Não é insegurança, exatamente.
É um tipo mais cruel de consciência.
Eu sei onde estão os excessos, onde faltam ângulos, onde a beleza se
esconde. Sei o que os olhos dos outros procuram — a simetria que desliza
fácil, a delicadeza que nunca transborda — e o que os meus recusam
aceitar.
Sempre dá pra ser mais bonita.
Mais magra.
Mais, mais, mais.
É uma matemática cruel, essa que aprendi cedo demais. Um
somatório infinito de inadequações que corroem tudo o que poderia ser
leve. Não importa o quanto eu tente compensar — com roupas caras, poses
ensaiadas, ironia na ponta da língua — a sensação de que tem algo em mim
sempre fora do lugar nunca me abandona.
Às vezes me olho rápido, só pra confirmar o que já sei: a curva errada
aqui, o volume a mais ali, o olhar opaco. Como se meu corpo fosse um
projeto mal-acabado, algo que ainda não merece ser visto com carinho.
E o pior de tudo é que eu sei mentir bem. Sei andar como se tivesse
certeza de mim, sei flertar, sei segurar o olhar de um cara bonito sem
problema. Mas por dentro? Por dentro, tem uma Charlotte menor, miúda,
que se encolhe toda vez que escuta o silêncio entre um elogio e outro.
Como se soubesse que ele só existe porque algo ficou faltando.
Solto o ar pela boca, longa e lentamente, como se isso fosse o
suficiente pra empurrar os pensamentos de volta pro lugar onde costumo
enterrá-los.
Ainda evitando meu reflexo no espelho embaçado, passo o pente
devagar pelos fios molhados, sentindo o som dos dentes deslizando entre
nós como algo quase terapêutico. O vapor ainda dança no ar, grudando na
minha pele como uma segunda toalha. Tudo úmido, quente, íntimo demais.
Inclino levemente a cabeça, atenta. Tento captar qualquer sinal de
vida na sala — passos, vozes, uma música baixa, o som familiar das teclas
do notebook de Declan ou o arrastar preguiçoso do Killian pelo corredor.
Nada.
Mas o silêncio também pode ser traiçoeiro.
Visto minha roupa devagar, o tecido ainda colando levemente na pele
quente do banho. Passo meu perfume com dois borrifos calculados — um
no pulso, outro no pescoço. Quando abro a porta do banheiro, sou atingida
por uma brisa gelada que vem das janelas da sala, me fazendo arrepiar
inteira. É o tipo de frio que não vem só do vento, mas da sensação de estar
exposta demais, mesmo vestida.
Caminho em direção à cozinha em passos lentos, meio arrastados,
pensando no que eu poderia comer com as poucas calorias que separei pra
consumir hoje. É uma matemática mental que faço sem nem perceber mais
— cada alimento pesado, dividido, medido. É exaustivo, mas me dá uma
sensação de controle. De escolha.
Killian e Declan não ajudam.
Eles comem como se o corpo deles não fosse uma consequência.
Como se os músculos brotassem por milagre, sustentados por cerveja
artesanal, doritos e lasanha congelada. A geladeira deles é um testemunho
disso. Um retrato óbvio de dois homens que moram sozinhos e não têm a
menor intenção de fingir maturidade: prateleiras lotadas de cerveja e
energético, molhos de gosto duvidoso, três tipos de queijo vencido, zero
frutas. E carboidrato. Muito. Em toda parte. Como se pão fosse um grupo
alimentar por si só.
Honestamente, não entendo como conseguem manter aqueles corpos
gostosos comendo como dois leitões.
Fico ali parada por um instante, encarando o interior como se ele
fosse me responder. Ou me oferecer uma opção mágica de refeição que não
me fizesse sentir culpa depois.
Solto um suspiro frustrado, seco, e fecho a porta da geladeira com
mais força do que o necessário. Me viro para sair da cozinha e dou de cara
com Killian, que entra silenciosamente como um maldito fantasma de calça
moletom e zero noção de espaço pessoal.
Dou um pulo involuntário, o coração batendo contra as costelas.
— Caralho — solto, recuando um passo. — Boa tarde, Killian.
Mas não tem nem traço de gentileza no meu tom. É um cumprimento
com gosto de xingamento, cuspido mais do que falado.
Ele, por outro lado, tem a cara de pau de me lançar aquele sorrisinho
irritante — o meio-sorriso torto, presunçoso, como se soubesse exatamente
o que fez de errado e estivesse saboreando cada segundo do meu incômodo.
— Boa tarde, Char.
Cerro os olhos, esperando que Killian diga o que quer.
— Sabe, você tinha uns pensamentos bem pervertidos pra uma garota
de dezesseis anos.
Levo um segundo pra entender. Minha testa franze, as sobrancelhas
arqueiam, e só quando acompanho o olhar dele e vejo o que ele segura na
mão, o choque me acerta como uma corrente elétrica.
Meu diário.
Mais especificamente: a lista do fim do mundo.
O sangue some das minhas extremidades. Meu coração dispara,
martelando feito um alarme disparado na madrugada. A capa rosa, gasta nas
bordas, está ali, entre os dedos dele, como se fosse só um caderno qualquer.
Mas não é. Aquilo ali sou eu. Ou uma versão antiga, patética e
excessivamente dramática de mim — mas ainda assim, eu.
— Eu lembro do dia que você e a Ivy escreveram isso — ele comenta,
como se estivesse falando sobre um episódio qualquer da nossa
adolescência.
Pra ele, deve ser só mais uma memória engraçada de verão. Pintada
em tons fúnebres, talvez, por causa da falta que Ivy faz na vida de todos
nós.
Dou um passo à frente, como se pudesse arrancar o diário da mão
dele com o olhar.
— Você leu o meu diário?
A pergunta sai baixa, quase sem ar. Uma mistura de raiva, vergonha e
incredulidade. E um toque de pânico. Porque eu sei o que tem ali. Sei o tipo
de coisa que escrevi naquela época. Coisas que deveriam ter morrido
comigo, não voltado à superfície pela mão dele.
Killian continua ali, com aquele sorriso irritante ainda pendurado no
rosto — mas agora tem algo diferente no olhar. Uma provocação sutil. Um
brilho que me diz que ele sabe exatamente o poder que tem em mãos.
— Killian Belrose! — eu rosno, mas ele ri e levanta os braços com o
diário em mãos, como se fosse um troféu, longe o bastante pra que eu nem
tenha chance de encostar.
O desgraçado tem pelo menos vinte centímetros a mais que eu e o ego
do tamanho do Empire State.
— Relaxa, Char — ele diz, com aquele sorriso desgraçado no canto
da boca, como se estivéssemos dividindo uma piada privada. Tenho vontade
de arrancar aquele piercing no seu lábio inferior na base do soco — Eu não
li tudo.
— O que você leu? — exijo, os olhos faiscando.
Killian finge pensar por meio segundo, o suficiente pra me deixar
ainda mais puta.
— Só a parte em que você dizia que queria dar pra dois caras ao
mesmo tempo.
O mundo para por um instante.
Ou talvez só meu coração.
A vergonha me atinge como um tapa molhado.
Frio, barulhento, e impossível de ignorar.
Giro nos calcanhares e encaro a porta da cozinha, onde Declan está
apoiado no batente.
Ele levanta as mãos em rendição, mas não sem um certo divertimento
nos olhos.
— A gente tava colocando suas malas no quarto de visitas ontem —
diz, com a voz baixa e preguiçosa, como quem não quer piorar a situação,
mas também não está exatamente arrependido. — A lista caiu de dentro do
diário. Invasão de privacidade culposa, quando não se tem a intenção de
invadir nada.
Meu olhar se estreita como uma navalha.
— Vão se foder os dois.
Minha voz sai baixa, cortante. Mas minha pele inteira queima.
Vergonha, raiva, e outra coisa que me recuso a nomear. Algo que se agita
por baixo da superfície como uma febre mal curada.
— Eu não gosto de dividir os meus brinquedos, Char — Killian sorri
com a cabeça levemente inclinada, o olhar tão escuro que parece querer
atravessar minha pele. — Mas o Declan é meu melhor amigo e acho que
posso abrir uma exceção.
Declan nem tenta suavizar a voz. Ela vem baixa, arrastada, cheia de
promessas que ninguém mais está fingindo não ouvir:
— A gente pode ajudar.
Ele dá uma pausa.
— Só pra riscar mais um item da sua lista.
O diário é finalmente deixado de lado, como se tivesse cumprido seu
papel. Como se o real objeto de interesse aqui tivesse sido revelado desde o
começo.
Eu.
Declan dá dois passos calculados na minha direção. Killian contorna a
bancada pelo lado oposto, os olhos cravados em mim como se estivessem
saboreando cada batida acelerada do meu coração.
Quando me viro, é tarde.
O cerco se fecha.
O ar parece mais grosso. Quase irrespirável.
— Relaxa, princesinha — Declan murmura, perto o suficiente pra eu
sentir o hálito quente roçar minha clavícula. — Ninguém vai julgar você
por ter fantasias.
— Principalmente essa fantasia — Killian completa, já atrás de mim,
com os dedos perigosamente perto da minha cintura, tateando um território
conhecido.
Um arrepio sobe pela minha espinha.
— Diz que não quer ser a nossa putinha hoje — Killian sussurra no
meu ouvido, e eu sinto sua boca quase encostar na minha pele. É um
sussurro que desliza pela espinha como uma língua quente. Uma promessa
suja que meu corpo já aceitou antes mesmo de eu abrir a boca.
O toque de Declan vem antes da resposta.
Mão firme, quente, pousando na minha cintura como se me
perguntasse com os dedos.
E a resposta do meu corpo é imediata.
Meus pulmões perdem o ritmo. Meu corpo inclina.
Killian desliza os nós dos dedos pela lateral do meu pescoço —
devagar, como se estivesse testando quantos segundos eu aguento antes de
me desmanchar.
Porra, não muitos.
O perfume deles se mistura ao meu. A eletricidade no ar é quase
tangível, como se o universo inteiro prendesse a respiração junto comigo.
Declan segura meu queixo com firmeza e me encara, os olhos
queimando em cima dos meus, como se pudesse ver todos os meus segredos
expostos ali, sem filtro, sem vergonha.
— Você quer que a gente pare? — ele pergunta.
A voz dele é baixa, rouca, carregada de gravidade e de um certo
veneno que escorre pelos ouvidos e vai direto entre as pernas.
É quase um desafio.
Como se ele já soubesse a resposta — só quisesse ouvir da minha
boca.
Ou me dar a chance de mentir.
Minha garganta seca.
Meus lábios entreabrem.
Mas eu hesito.
Declan percebe. Os olhos dele deslizam do meu rosto pro meu
pescoço, depois pros meus lábios, como se estivesse memorizando o
caminho.
— Fala, Charlotte — pressiona, a boca agora quase encostando na
minha. Seus dedos sobem até a minha nuca e Declan puxa o meu cabelo,
fazendo um arrepio percorrer meu corpo — Você quer ser nossa puta ou
não?
E eu queimo. Por dentro. A vergonha, o desejo, o medo — tudo se
mistura. Tudo vira uma febre que desce quente entre minhas pernas, me
deixando completamente molhada.
— Sim.
— Sim o quê? — Declan rebate, com aquele tom que faz meu
estômago afundar.
— Quero ser a puta de vocês.
Declan sorri. Mas é um sorriso cruel, como o de alguém que acabou
de ganhar um brinquedo novo e já pensa em como vai destruí-lo. Killian ri
também, contra a minha nuca. A risada dele vibra direto na minha pele, me
fazendo derreter mais um pouco.
— Foi o que a gente pensou — Killian diz, antes de empurrar a palma
quente da mão por baixo da minha camiseta.
A sua boca cola no meu pescoço enquanto os dedos sobem pela
minha barriga e encontram meus seios, nus, sensíveis. Ele aperta com
vontade. Com raiva. Como se quisesse me machucar só o suficiente pra me
viciar. Declan puxa meu cabelo com um pouco mais de força e sua língua
invade a minha boca, mordendo meu lábio inferior com vontade. Eu gemo,
um arrepio percorrendo meu corpo quando sinto o pau de Killian por cima
da calça, pressionando minha bunda.
Declan morde minha mandíbula, a mão descendo pela minha garganta
até os botões da minha blusa, arrancando cada um como se não tivesse
paciência pra formalidades. E ele não tem. Nenhum dos dois tem.
Declan arranca o último botão com um estalo seco, deixando a blusa
pender dos meus ombros como uma rendição. A mão dele desliza pela
minha pele, dedos ásperos, impacientes, agarrando meus seios com uma
mistura de devoção e brutalidade. Ele aperta, circula os mamilos com os
polegares como se estivesse moldando minha entrega na palma da mão.
Killian se pressiona ainda mais contra mim, o pau rígido como pedra,
roçando minha bunda num ritmo lento. A respiração dele bate no meu
pescoço como brasa, e os dentes arranham minha pele antes de mordê-la de
verdade. Um arrepio violento me percorre a espinha. Eu sou um fio de
eletricidade prestes a estourar. Sua mão livre sobe pela lateral da minha
barriga, deslizando devagar até enroscar no meu pescoço.
Declan segura meu rosto de novo, a boca colando na minha num beijo
bruto, possessivo, que não pede permissão. Ele me beija como se quisesse
me engolir, a língua invadindo com fome, os dentes puxando meu lábio
inferior até arder. Eu gemo contra a boca dele, e é como se meu corpo
inteiro se contraísse só com aquele beijo.
Killian puxa meu short com um único movimento, e ele escorrega
pelas minhas pernas, arrastando a calcinha junto. Seus dedos tocam a parte
de dentro da minha coxa, então ele se ajoelha e passa a língua por toda a
extensão da minha boceta, de baixo até o clitóris, como se estivesse
sugando toda minha sanidade. Uma lambida lenta, densa, carregada de
intenção. A ponta da língua dele faz círculos suaves, depois traços firmes.
Ele brinca comigo com paciência e crueldade ao mesmo tempo, me fazendo
implodir.
Declan não desvia os olhos do meu rosto enquanto Killian me chupa.
Ele afunda o rosto entre minhas pernas, agora com fome real. Chupa meu
clitóris com força, a língua dançando entre pressão e fricção enquanto os
dedos penetram, dois de uma vez, me preenchendo rápido e fundo. Eu me
contorço, minhas mãos tentando se apoiar em alguma coisa, mas só
encontro o corpo de Declan.
E ele se aproveita.
Pega minha mão e guia até o seu pau, ainda dentro da calça, duro,
quente como se estivesse queimando por mim. Meus dedos se fecham por
reflexo, e eu sinto o contorno dele sob o jeans — grande, latejando,
pressionado contra o zíper como se estivesse implorando pra sair.
Killian continua entre as minhas pernas, e o som da boca dele
trabalhando em mim, molhado, intenso, me faz perder o juízo. O barulho
dos estalos, da língua batendo no meu clitóris, do deslizar dos dedos
encharcados dentro de mim… tudo isso vira trilha sonora da minha
rendição.
Declan pressiona a mão em cima da minha, me fazendo apertar o pau
dele com mais força. Eu sinto a veia pulsando. Sinto o calor atravessando o
tecido como um aviso.
E meu corpo inteiro reage.
Eu rebolo contra a boca de Killian, incapaz de controlar o ritmo, os
quadris buscando mais, querendo afundar a boceta na língua dele até perder
o ar. E ele deixa. Deixa e incentiva. Segura minhas coxas com força,
enterrando os dedos na pele enquanto suga meu clitóris com uma fome que
beira o violento. A língua dele me fode com precisão, e os dedos não dão
trégua — estocam fundo, curvados, cada vez mais rápido.
Declan morde meu maxilar, não com carinho, mas com posse. Um
arranhão quente sobe pela minha pele.
— Abre — ele ordena, e eu obedeço, sem nem pensar.
Desço o zíper da sua calça, puxando-a para baixo junto com a cueca.
Minha mão ansiosa encontra o seu pau e um arrepio percorre todo meu
corpo. Meus dedos deslizam pela extensão dele, apertam a base, sobem de
novo. Ele estremece com o toque, os músculos do abdômen contraindo, e os
olhos dele… Deus. Estão cravados nos meus, escuros, famintos,
consumindo cada reação minha como se fossem o prato principal.
A sensação é surreal. Killian me fodendo com a boca, estalando a
língua com força contra meu clitóris, os dedos me abrindo como se
tivessem o mapa do meu corpo. E eu, com uma mão enterrada nos fios do
cabelo loiro, puxando, tremendo, gemendo. E a outra… firme no pau do
Declan, sentindo cada pulsar, cada espasmo, cada gota escorrer.
Eu giro o punho devagar, subo e desço com ritmo, passo o polegar
pela cabeça sensível. Ele fecha os olhos, inclina o rosto e morde meu ombro
com força. E a dor se mistura ao prazer como uma droga que me atravessa
de dentro pra fora.
— Vai gozar, Char? — Killian provoca, a voz abafada — Vai gozar
na minha boca?
Eu não consigo responder. Só gemo. E mais do que isso — eu
imploro. Com o corpo. Com os quadris que rebolam. Com a mão que não
para de trabalhar no pau de Declan. Com o grito abafado que sobe quando
Killian enfia um terceiro dedo e curva todos os três de uma vez.
Declan segura meu queixo e me obriga a olhar pra ele.
Sua respiração é irregular, os olhos ardem.
— Você vai gozar olhando pra mim — Declan diz. — Quero ver tudo.
Cada segundo.
Sua voz é o incentivo que eu precisava.
O orgasmo vem como um trovão que sobe da espinha e se espalha
pelo meu corpo inteiro. Meus músculos contraem com força, e o som que
sai de mim é sujo, desesperado, incontrolável. Eu me desfaço contra a boca
de Killian, contra os dedos dele que continuam se movendo até o último
espasmo. E minha mão aperta mais ainda o pau de Declan, sentindo ele
pulsar com mais intensidade.
Killian lambe até a última gota. Cada tremor meu, cada contração,
cada gota de gozo que escorre pelas minhas coxas — ele saboreia tudo
como se fosse o próprio inferno servido numa colher de prata. A língua dele
ainda dá uma última passada lenta e arrastada pelo meu clitóris já sensível
demais, e eu me contorço, arfando como se tivesse voltado à vida depois de
um afogamento.
Meus joelhos falham. Eu teria caído, desmoronado inteira, se as mãos
de Declan não estivessem me segurando com força.
Killian levanta, os lábios brilhando com meu gozo, os olhos escuros e
dilatados como se tivesse usado alguma coisa ilegal. Ele segura meu rosto
com firmeza e me beija. Um beijo molhado, faminto, carregado do meu
gosto, de sal e selvageria. A língua dele invade minha boca como se
quisesse me lembrar do gosto que ele ainda não me deu, mas vai.
Abro a boca e deixo ele tomar tudo. O gosto da minha própria
excitação escorre pela língua dele até a minha, num ciclo vicioso. Os dedos
dele apertam minha mandíbula, puxam, moldam. Meu corpo inteiro derrete.
Mas o melhor acontece quando Killian se afasta.
— Quer sentir o gosto dela? — ele pergunta.
Declan ri, a língua passando pelo lábio inferior.
Demoro um instante pra entender qual o plano, meu coração batendo
mais forte quando cai a ficha.
Killian se aproxima, as mãos subindo até o pescoço de Declan, e
então o beijo começa como uma colisão. Um choque de vontades, egos,
calor. As bocas se encontram num estalo molhado. A língua de Killian
invade primeiro, ainda quente do meu gosto, e Declan geme contra ela,
aceitando, revidando, como se estivesse fodendo com a boca.
É caótico.
É performático.
É pra mim.
Killian segura o rosto de Declan com força, os dedos afundando no
maxilar dele. A língua deles dança, briga, mistura tudo — saliva, tesão, eu.
Eu me sinto ali, na boca dos dois, espalhada, dissolvida, marcada em cada
parte daquele beijo.
Minhas pernas tremem. Meus mamilos estão duros. Minha boceta
pulsa, implora, implora, como se cada segundo daquele beijo fosse uma
provocação calculada pra me destruir de dentro pra fora.
E eu sei que é.
Declan morde o lábio inferior de Killian antes de se afastar, passando
a língua pelo seu piercing de argola.
Os dois estão ofegantes.
Olhos escuros. Pupilas dilatadas.
Declan me encara, dando um passo na minha direção.
Ele me vira.
— Você é doce pra caralho, Char.
As mãos de Declan me rodeiam pela cintura, e eu sinto seu pau colar
na minha bunda quente, grande demais, delicioso. Sua boca encontra minha
nuca. Ele morde. Respira contra minha pele. Chupa devagar como se
estivesse desenhando uma lembrança.
E a mão desce.
Um arrepio rasga minha espinha.
Killian volta sua atenção pra mim. Ele me beija de novo, dessa vez
com mais intenção. Menos pressa, mais profundidade. Sinto o gosto dos
lábios do Declan nos dele, misturados com meu gozo, o que é excitante por
si só.
A mão de Declan se encaixa entre minhas pernas com precisão. Os
dedos encontram minha boceta quente, molhada, sensível demais. Ele
esfrega devagar primeiro, só o suficiente pra me fazer gemer na boca do
Killian.
— Porra… — Killian murmura entre os beijos, puxando meu lábio
inferior com os dentes. — Tá gemendo pra mim ou pra ele?
Eu não consigo responder. A língua dele não me deixa, e os dedos de
Declan me fodem com tanta destreza que meu quadril começa a se mover
sozinho. Ele acrescenta mais um dedo, e o som que sai de mim é um soluço
quebrado, abafado pela boca de Killian.
Declan sorri contra minha nuca.
Killian agarra minha cintura e me puxa mais perto dele. Sua mão sobe
até meu rosto, o polegar acariciando meu queixo.
A mão de Declan se move mais rápido, os dedos me fodem com
ritmo, me esticam, me atiçam. A palma da mão dele pressiona meu clitóris
no meio das estocadas, fazendo meu corpo perder completamente o
controle.
Killian me beija mais uma vez. Longo. Profundo. Como se estivesse
roubando meu ar, meu raciocínio, minha sanidade. E eu deixo. Deixo os
dois me tomarem por completo — um pela boca, o outro pela boceta.
Meus quadris estremecem, o mundo gira, o beijo se torna confuso,
cheio de saliva, desesperado. Minhas mãos sobem pelo peito de Killian,
arranhando sua pele, arrancando sua camisa como se vê-lo sem ela fosse um
caso de vida ou morte. Um segundo orgasmo me atravessa com violência,
fazendo minhas pernas tremerem, meus dedos se enrolarem nos braços
deles, minha respiração se perder enquanto o prazer me rasga inteira. Minha
boceta se contrai em volta da mão de Declan, molhando tudo, e Killian não
para de beijar minha boca como se estivesse viciado no meu colapso.
Meus músculos ainda tremem do orgasmo quando Declan tira os
dedos de dentro de mim com lentidão deliberada, como se quisesse me
fazer sentir cada milímetro da ausência dele. A mão escorregadia sobe de
novo pela minha barriga e para entre os meus seios, apertando, marcando
meu corpo como território.
De repente, Declan me tira do chão.
Um gritinho escapa da minha garganta — metade pavor, metade tesão
— quando ele me carrega até o sofá da sala, como se a cozinha já tivesse
visto demais por hoje.
O couro frio encontra minha pele quente. Meu corpo cai de costas, e
ele vem junto. O peso dele por cima do meu, o calor, o cheiro — suor, sexo,
ele. Meus olhos procuram os dele e ele me olha com aquela intensidade que
fere.
É íntimo.
Demais.
Declan me encara como se estivesse me vendo pela primeira vez, e ao
mesmo tempo como se me conhecesse desde antes do mundo. Um silêncio
perigoso se instala entre nós, pesado, cheio de significados não ditos. Isso
me assusta, então eu fujo:
— Me bate — eu solto, como um escudo.
Como um pedido de socorro.
Como uma fuga desesperada do que aquele olhar poderia fazer
comigo.
Os olhos de Declan escurecem de um jeito que não tem volta. E o
tapa vem.
Minha cabeça vira pro lado com o impacto, e o som da pele contra a
pele ecoa pela sala. A ardência explode sob a pele e a minha boceta pulsa.
Eu gemo. Sem vergonha. Sem filtro. É instantâneo.
Declan segura meu rosto com a mesma mão que acabou de me
estapear. Os dedos quentes, firmes, dominando minha mandíbula. O olhar
dele ainda está ali, perfurando a parte de mim que grita não olha assim, não
me vê tanto, só me fode, por favor.
Mas ele me vê.
Inteira.
E isso queima.
A sua boca desce pela minha mandíbula quando ele sussurra:
— Gosta de apanhar porque isso é mais fácil do que sentir.
Outro tapa. Do outro lado agora. Meu corpo arqueia.
— Gosta de ser tratada como um objeto, porque ser adorada te
assusta.
Declan desce a mão, aperta meu pescoço com força — não o
suficiente pra cortar o ar, mas o bastante pra me lembrar de que ele poderia.
Se quisesse. E eu deixaria.
— Você não está merecendo que eu te coma hoje, Char. Você é uma
vadia muito fria.
— Killian pode fazer o seu trabalho — sussurro.
— Mas sou eu que você quer, não é?
Uma risada irônica escapa dos meus lábios, mas eu não respondo,
porque o fato de Declan não estar errado me deixa puta. Meus dedos sobem
pelo seu corpo e eu arranco a sua blusa, descontando minha irritação no
tecido, arranhando seu peito, seus braços.
— Então não vai me foder?
— Hoje não.
— Vocês vão terminar sozinhos ou ainda tem espaço pra mim no que
quer que seja isso? — Killian debocha, finalmente entrando na sala.
Sei que um minuto se passou, dois no máximo, mas com Declan me
consumindo daquela forma, pareceram horas. É como se, por um segundo,
estívessemos perdidos dentro de um universo particular.
Os olhos de Killian percorrem meu corpo, minhas coxas ainda
tremendo, os seios subindo e descendo num ritmo quebrado.
Declan me encara com um olhar desdenhoso.
— Ela é toda sua.
— De quatro, Char. Seja uma putinha obediente — Killian ordena.
As mãos de Declan me guiam como se eu fosse deles, como se meu
corpo já tivesse decorado a posição. Fico de joelhos no assento, os braços
apoiados nas costas do sofá. O couro frio contrasta com o calor que me
consome.
Killian vem por trás, e a primeira coisa que sinto é sua mão descendo
com força na minha bunda. O estalo é alto. O calor queima. Meus quadris
se contraem com o impacto.
— Mais — eu peço, arfando.
Outro tapa.
Mais forte.
A pele arde e minha boceta aperta no vazio.
Declan vem pra minha frente, o pau duro na altura da minha boca. Ele
segura minha nuca e guia meus lábios até ele. Tem algo de muito sexy em
vê-lo daqui, com uma visão perfeita do seu abdômen trincado, seu pau
grande, seus braços tatuados e fortes. Os dedos dele apertam meu pescoço
enquanto a cabeça do pau toca minha língua. Ele geme baixo, rouco, e
empurra só a pontinha, como se estivesse saboreando cada segundo da
minha rendição. E eu dou tudo. A língua se move lenta, provocante,
lambendo toda a extensão dele antes de engolir mais fundo.
Atrás, Killian acaricia minha bunda marcada. A mão dele espalha
meu gozo com um movimento circular e sujo, até escorregar dois dedos de
novo dentro de mim — e dessa vez, eles entram com facilidade. Ele sorri
contra minha pele, morde a minha bunda com força o bastante para deixar
uma marca e eu gemo.
Gemo com o pau de Declan preenchendo minha garganta e os dedos
do Killian me fodendo como se estivessem preparando o terreno pro pecado
real. Meus olhos se enchem de lágrimas, não sei se do prazer ou da
intensidade, mas não importa — porque eles gostam. Eles adoram me ver
assim. Chorando. Entregue. Rasgada.
Declan segura minha cabeça com firmeza, os dedos entrelaçados no
meu cabelo, e começa a guiar o ritmo. Não é gentil. É cru. É urgente. Ele
empurra o quadril pra frente e o pau desliza ainda mais fundo, me forçando
a engolir até a base. Eu engasgo, a garganta contrai, e o som que escapa de
mim é um gemido abafado, desesperado. A saliva escorre pelos cantos da
minha boca, quente e suja, pingando no sofá.
Cada estocada faz meu nariz encostar na pele dele, o cheiro do sexo,
do perfume, do suor, me deixando ainda mais tonta. Eu me abandono.
Relaxo a garganta e deixo ele me usar. Declan geme quando minha língua
pressiona a parte de baixo do pau dele, como se estivesse desenhando cada
veia com a boca.
Declan solta um grunhido e segura minha cabeça, firme, com as duas
mãos agora, o ritmo acelerando. O som molhado da minha boca fodida pela
carne dele ecoa entre nós três. É indecente. Pornográfico. As estocadas dele
se tornam erráticas, a respiração mais pesada, o quadril tremendo quando
enfia até o fundo e fica lá, enterrado inteiro, sentindo minha garganta se
apertar ao redor dele.
Meus olhos se viram pra cima e eu deixo que ele tome tudo. Deixo
minha boca ser moldada, possuída, usada. Meu maxilar já dói, mas a dor
vira prazer, e o prazer vira necessidade. Killian tira os dedos de dentro de
mim e, segundos depois, o calor do seu pau se encaixa no meio das minhas
coxas. Ele esfrega a cabeça do pau, bem onde o seu piercing fica, na minha
boceta, devagar, sujo, o contato molhado arrancando de mim um som que é
meio choro, meio gemido.
— Por favor… — eu sussurro, mal conseguindo formar palavras com
o pau de Declan ainda na minha boca.
— Vai pedir direitinho? — Killian pergunta, deslizando a cabeça do
pau entre meus lábios inchados.
— Me fode — eu peço, o pau deslizando para fora da minha boca,
com a voz rouca, trêmula. Eu faço questão de sorrir na direção de Declan e
olhar nos olhos dele enquanto imploro: — Me fode agora, Killian. Me fode
até eu esquecer meu nome.
O pedido mal saiu da minha boca, rouco, arranhado, e Declan já
segura meu queixo com força, os olhos faiscando raiva e desejo. Agora, ele
não sabe se me odeia ou me venera, se me quer inteira ou em pedaços.
— Quem mandou parar? — ele rosna, e antes que eu consiga pensar,
o tapa vem, mais forte que todos os outros.
Estala alto. Meu rosto vira pro lado, a pele arde, queima, e a minha
boceta pulsa em resposta.
— Abre essa boca de novo — ele ordena, os dedos apertando minha
mandíbula até doer. — Eu não terminei com você.
Mas Killian já me tem. Ele enterra o pau em mim com uma estocada
só, fundo, rasgando espaço onde já não havia mais nada pra abrir. Meus
olhos se reviram, um gemido sujo escapa da minha garganta, e quando
Declan enfia de novo na minha boca, eu quase me afogo em tudo ao mesmo
tempo.
O ritmo se instala mais uma vez. Violento. Coreografado. Declan
mete na minha boca com força, cada estocada forçando minha garganta a se
moldar à grossura dele, enquanto Killian me fode por trás como se estivesse
tentando atravessar meu corpo por completo. Sou puxada, empurrada,
esticada nos dois eixos. Não existe céu, nem inferno, só a pressão dos
corpos, os grunhidos, os sons molhados do sexo, e os gemidos presos no
fundo da minha boca.
Enquanto Killian mete com força, cada estocada me empurra pra
frente, me força mais fundo na boca de Declan. É uma dança suja, violenta,
perfeita. Meus olhos grudam nos dele, e é o bastante pra ele quase perder o
controle. Meus gemidos viram soluços, minha boceta pulsa em volta do pau
do Killian como se implorasse por mais.
E ele dá.
Ele sempre dá.
Declan segura meu cabelo com força, puxando, direcionando,
fodendo minha boca com estocadas curtas, precisas. E Killian destrói meu
corpo por trás, o som da pele contra pele preenchendo o cômodo como uma
trilha sonora profana.
Estou tremendo de novo. À beira de outro orgasmo.
E quando eu gozo, é violento, devastador. Meu corpo arqueia, grita,
implode e explode ao mesmo tempo. Killian geme alto atrás de mim, e
segundos depois ele enche minha boceta de porra. Declan segura minha
cabeça firme e se desfaz na minha boca, quente, salgado, brutal. Engulo
tudo. Cada gota. Cada maldito suspiro.
Caio contra o sofá, ofegante, exausta, fodida de corpo e alma.
Eles me cercam.
Me tocam.
Me reconectam aos pedaços que acabaram de destruir.
39 DECLAN ST. CLAIR
Presente
Eu não estou sentindo ciúmes de Charlotte Sparks.
Eu não sinto ciúmes.
Eu não acredito em ciúmes da forma como as pessoas
tradicionalmente acreditam.
Não, não, não.
Eu alego insanidade temporária.
Não é a primeira vez que eu e Killian dividimos uma garota, nem a
segunda, nem a quinta, e isso nunca aconteceu antes. Quando eu vi os dois
no estacionamento, eu não me importei o suficiente pra pensar que queria
Killian longe dela, mas ontem…
Não consigo explicar o que aconteceu ontem.
A forma como ela me olhou e depois fugiu. O jeito como ela gemeu o
nome dele, implorando, olhando pra mim, como se ele fosse uma oração e
eu o altar…
Aquela desgraçada quer me deixar maluco.
Quer entrar na minha cabeça, destruir minhas certezas, morar nos
fundos do meu cérebro sem pagar aluguel.
Maldita, maldita, maldita.
Eu estaciono minha moto na frente da igreja e me pergunto se eu
deveria mesmo ter vindo. Se tiver algum padre de folga, posso pedir pra me
benzer e me exorcizar. Dou uma risada irônica, porque Charlotte Sparks é o
tipo de demônio que não se expulsa fácil. Eu tomaria um banho de água
benta, aprenderia a rezar terço e beijaria os pés da estátua de Jesus Cristo se
isso fosse o bastante pra arrancá-la da minha cabeça.
Mas não é.
Nada é.
Porra, eu não sou religioso, mas as vezes acho que Deus me criou e,
com inveja, o diabo criou Charlotte Sparks só pra me tirar do sério.
Respiro fundo, tiro o capacete e entro.
A igreja é silenciosa e sombria, do tipo que parece carregar séculos de
pecados empilhados nos cantos. O ar cheira a madeira velha, vela queimada
e culpa. Os vitrais filtram a luz do sol em tons sangrentos e dourados,
pintando o chão com sombras que se arrastam devagar.
Um santuário inteiro dedicado ao arrependimento.
Perfeito.
— Está procurando alguma coisa, filho? — um padre de bochechas
gordas e pele enrugada me pergunta, simpaticamente.
— Um exorcismo, tem?
Ele parece chocado com a minha resposta.
Acho graça.
— Só vim encontrar uma pessoa, obrigado — emendo.
Localizo Arthur St. Clair sem muito esforço — está no primeiro
banco, exatamente como imaginei. Ontem à noite ele me mandou mais uma
mensagem pedindo pra conversar, e como meu cérebro está cansado de
sofrer pelo assunto-com-C, achei melhor variar o drama.
Trocar um inferno por outro.
Me sento ao lado dele.
Por alguns minutos, a gente fica assim. Em silêncio.
Mas não é um tipo de silêncio leve, de paz ou respeito.
É um silêncio pesado. Sufocante.
Daqueles que apertam o peito com dedos invisíveis e enchem o ar de
palavras não ditas.
O altar à frente nos observa em dourado e vermelho, uma imagem de
Cristo crucificado lançando uma sombra torta na parede. A luz filtrada
pelos vitrais se derrama sobre nós como se tentasse abençoar — ou julgar.
Não sei.
Só sei que arde.
Meu pai sempre foi o tipo de homem que enchia um cômodo antes
mesmo de entrar.
Elegante. Discreto. Aquele tipo de presença que faz os outros se
endireitarem na cadeira sem saber por quê. Terno impecável, cabelo sempre
penteado pra trás com uma precisão cirúrgica, sapatos que brilhavam como
se o inferno nunca tivesse tocado a sola dele.
Mas tocou.
E deixou marca.
Arthur St. Clair é — ou já foi — o retrato do sucesso. A fachada
perfeita do homem americano: rico, respeitado, influente. Um nome que
abre portas, fecha negócios, comanda salas de reunião com um simples
levantar de sobrancelha.
Mas hoje…
Hoje ele parece menor.
Não no físico — porque a postura ainda está lá, o terno ainda veste
bem — mas há algo no ar, algo trincado na superfície polida.
O olhar.
Muito mais opaco.
Como vidro embaçado por dentro.
Os olhos dele já foram vivos, arrogantes até. Agora, parecem
cansados. Como se tivessem assistido o próprio fim repetidas vezes e só
estivessem esperando o próximo replay.
Ele ainda é um homem bonito, mas o álcool faz o serviço de forma
cruel — não na beleza, mas na alma. Consigo ver tudo ali: os ombros que já
carregaram mais do que deveriam, os dedos inquietos demais, o maxilar
travado. E quando eu olho pra ele assim, vejo o homem que me criou e o
homem que me ensinou, sem querer, tudo o que eu não quero ser.
— Por que você parou de ir nas reuniões do AA? — pergunto,
quebrando o silêncio que já durava tempo demais.
Ele demora um pouco pra responder. Estala os dedos, como se fosse
um tique nervoso que herdou dos próprios fantasmas. Quando fala, a voz é
baixa, cansada, sem o verniz de poder que ele costuma carregar no tom:
— Foi você quem me deu a garrafa.
Respiro fundo. Ele está fugindo da pergunta.
— Aquele coquetel era importante pra caralho, pai. Mas claro, só
podia ser culpa minha. É uma pena que você nem reconheça minha letra pra
perceber que não fui eu quem escreveu aquela merda.
Minha voz sai baixa, firme.
Mais decepção do que raiva, o que é pior.
Arthur respira fundo, os ombros se movendo como se cada palavra
que ele vai dizer fosse uma carga a ser levantada.
— Acha que estou feliz com o que aconteceu? — ele retruca,
revirando os olhos — Os acionistas da Clairé d’Or estão se movendo pra
me tirar da presidência.
A mão dele vai até o joelho, onde tamborila os dedos, inquieto. Ele
não me encara, não ainda. A voz segue amarga:
— Ainda vou continuar sendo o dono, claro. Só porque eu criei
aquela merda do zero. Dei nome. Reputação. Sangue. Mas, pra eles, não é o
bastante. Um tropeço. Um só. E pronto, querem cortar a cabeça do rei.
Eu rio, sem humor, e balanço a cabeça devagar, como se estivesse
ouvindo um bêbado reclamar do gosto da cerveja.
— E você acha isso injusto?
Arthur vira o rosto na minha direção, finalmente me olhando. A
expressão dele é uma mistura de incredulidade e ofensa, como se eu tivesse
cuspido em cima da coroa dele.
— Você fez por merecer, porra — continuo, agora com a voz firme,
fria, doendo nos cantos da boca. — Não é um tropeço, pai. É uma queda
que você teve em público, de novo. Depois de prometer que estava limpo.
Depois de jurar pra mim, pra imprensa, pro conselho, que nunca mais ia
beber.
Faço uma pausa. O ar da igreja parece mais denso, mais abafado,
como se até Deus tivesse recuado alguns passos.
— Você não tropeçou. Você pulou da porra da ponte — cuspo. —
Com um copo de whisky na mão e o sobrenome da nossa família nas costas.
Arthur me encara como se estivesse vendo um estranho. Ou pior:
como se estivesse reconhecendo uma parte dele mesmo em mim.
— Você me deve gratidão, Declan — ele solta, a voz tensa, dura. —
Eu poderia ter feito como a Lana, que enxergou cedo demais que não valia
a pena o esforço, mas não. Eu criei você. Mesmo sabendo que um dia você
cuspiria na minha cara. E agora, vem me olhar como se fosse melhor do que
eu…
Ele se inclina um pouco, o rosto a poucos centímetros do meu, os
olhos queimando de raiva.
— Você não tem o direito de me julgar. Nem de me desrespeitar,
pirralho ingrato. Eu sou o único motivo pelo qual você ainda tem um
sobrenome pra carregar. Se dependesse da Lana…
— Foda-se o seu sobrenome e foda-se a Lana.
Um arrepio percorre meu corpo.
Reviro os olhos, o estômago revirando.
Lana St. Clair é um nome que ainda arde quando toca o ar.
É o meu botão vermelho, meu gatilho.
E Arthur sabe disso.
Claro que sabe.
— Ela morreu, pai. Você lembra? — digo, cada palavra mais
carregada do que a anterior.
Silêncio.
Arthur aperta as mãos, como se pudesse esmagar o que está ouvindo.
— Ela nunca amou a gente — ressalto — Nunca! Ela escolheu sair
dessa vida. Escolheu se matar. Preferiu cheirar cocaína até apagar do que
continuar do seu lado.
Eu respiro fundo.
Uma senhora no banco ao lado do nosso faz o sinal da cruz,
incomodada com a discussão.
Mesmo assim, eu continuo:
— E você precisa parar de fingir que não faz tanto tempo assim —
continuo. — Foram mais de sete anos. Quase uma década. Quase um terço
da minha vida. E você ainda age como se fosse ontem. Como se a sua dor
fosse desculpa pra continuar se autodestruindo. Essa história de viúvo triste
não cola mais. Não pode continuar fazendo merda, bebendo, arruinando a
porra da empresa, a sua reputação, a minha, e dizendo que é porque perdeu
sua esposinha.
Cuspo as palavras.
E elas doem.
Porque são verdade.
— Cala essa boca, Declan — Arthur cospe, virando o rosto com
violência, apontando um dedo na minha cara — Não ouse falar da sua mãe
desse jeito.
A voz dele sai carregada, trêmula, os olhos finalmente me encara