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- km
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Sinopse
Uma pancada no gelo. Um ano perdido. Um homem que não
consigo deixar ir. Quando acordo, os últimos doze meses da minha
vida desapareceram. Não sei em que time estou, como cheguei aqui…
ou porque há um homem lindo na minha cama me chamando de
‘amor’.
Há um ano, eu mal conseguia me manter na carreira e tinha medo
de admitir que queria um homem. Agora, posso não me lembrar de
quando me apaixonei por ele, mas quando ele sorri, quando me toca,
quando me beija... eu sei. Ele é tudo.
E de alguma forma, tenho a vida que sempre sonhei, uma carreira
próspera, um homem que me ama e um campeonato ao meu alcance.
O único problema? Não consigo me lembrar de como fiz isso
acontecer.
Se eu quiser manter essa vida perfeita, terei que esconder a verdade
até que me lembre de tudo. Porque não posso perder isso. E, acima
de tudo, não posso perdê-lo.
Quão difícil pode ser viver minha própria vida sem me lembrar
dela?
Fingir até dar certo, certo?
Errado. Tão errado.
Para você.
Obrigado.
Um
É um bom lugar para desaparecer.
Estaciono minha caminhonete no outro extremo da praia e
caminho até que as únicas pegadas na areia sejam as minhas, então
me deixo cair atrás das dunas e me sento com os joelhos dobrados e
os cotovelos apoiados neles, olhando para uma escuridão sem
começo nem fim. Minutos se passam, provavelmente horas também.
Somos só eu e o oceano; o horizonte se foi. Oceano e céu se
fundiram em uma única placa de escuridão, e o mundo perdeu suas
fronteiras. Ondas quebram, agitam-se e caem na escuridão, ondulam,
desmoronam e incham novamente, chovendo sal fino como um
sussurro sobre mim. A espuma sobe furtivamente, flertando com
minhas botas, sibilando e deslizando pela areia. Não é incomum que
eu acabe sozinho nesta praia negra com suas águas escuras e apenas
meus pensamentos como companhia.
Mas esta noite parece diferente.
Esta noite parece o fim.
Eu costumava achar que hóquei era tudo o que valia a pena ter; só
o gelo, os patins e a perseguição importavam. Perseguir o disco,
perseguir a vitória. Perseguir aquela taça. Vencer ou morrer.
Aumentar tanto o desejo que o resto da sua vida se esvai. Corri em
direção a isso por dezesseis anos e nunca parei.
O oceano ruge. Outra onda quebra na areia.
Antigamente, meu futuro estava escrito em letras garrafais e
ousadas: Torey Kendrick, talento de uma geração, selecionado em
segundo lugar no recrutamento. Mas isso foi há quatro anos e, desde
então, tenho visto todos os outros perseguirem seus sonhos e
transformá-los em ouro puro e brilhante, enquanto os meus
apodrecem e azedam. Eu tinha os ossos cheios de desejo, mas agora
não tenho mais onde depositar esse desejo.
Eu odeio isso agora, esse jogo em que dediquei minha vida. Eu odeio
isso. Eu odeio o que ele tirou e o que ele expôs. Eu dei tudo de mim
no hóquei, mas tudo o que ele fez foi me destruir e rir do que saiu. Eu
ainda sonho em vídeos de melhores momentos, mas agora, tudo o
que vejo são as jogadas que estraguei. Eu as revivo à noite. Eu as
revivo quando pisco.
Não era assim que as coisas deveriam acontecer.
Quando você é pequeno e faminto, não teme o futuro e nunca
imagina que toda a sua determinação e esforço podem levar você a
ficar com o coração partido e ficar em uma praia à meia-noite sem
nada a perder.
Então o que você faz quando cresce com uma unidade cravada
dentro dos seus ossos – joga por esta coisa, esta coisa, a única coisa pela
qual eu ansiava, desejava e lutava – e ela desmorona? Ou quando você
desmorona porque a realidade não suporta o mundo real,
sobrecarregado por suas esperanças e sonhos?
E então?
É uma pergunta que me faço o tempo todo, porque a versão de mim
em que eu acreditava, a versão que eu pensava que me tornaria,
nunca se materializou. Ela nunca existiu, e o homem que sou hoje é
apenas um eco dos meus sonhos desfeitos.
Não sei como ser um homem que não desiste; não sei como ser um
homem que não desiste de si mesmo. E eu me esforcei tanto para me
tornar outra pessoa. Não me lembro de como o amanhã deveria ser,
e não sei o que fazer.
Fecho os olhos e deixo o rugido das ondas preencher minha cabeça.
O que há de errado comigo?
Nada, eu quero dizer. Não há nada errado.
Mas algo está acontecendo e está piorando a cada dia.
Há algo solto, algo chacoalhando. Digo a mim mesmo que não é
uma ruptura de verdade, mas sinto. Não consigo encontrar os
pedaços que faltam.
Quando abro os olhos, o oceano é um espelho negro refletindo um
céu rachado e sem estrelas. As ondas parecem me dividir, me girar e
me espalhar cada vez mais. Meus pensamentos estão desgastados.
Talvez se eu fechar os olhos com força suficiente, prender a respiração
por tempo suficiente ou desejar com força suficiente, tudo possa
mudar, ou eu possa mudar.
Eu queria ser o Torey que todos pensavam que eu era. Se eu sou
quem meu time achou que ia ter quando me recrutou, então eu
deveria conseguir reverter isso. Todo mundo tem deslizes; nem todo
mundo tem crateras. Todo mundo que já calçou patins sabe o que
significa potencial e como ele pesa no seu pescoço.
Mas tenho quase certeza de que ninguém sentiria minha falta. Os
fãs me insultam. Tudo o que veem é um jogador decadente e um
desperdício de salário. Meu treinador não me suporta. Meus
companheiros de time me ignoram como um buraco negro, como se
todos os meus fracassos fossem contagiá-los e arruinar suas vidas
também.
E meu pai...
Todo pai sabe o que você poderia ser se vivesse de acordo com seu
potencial. Ele manda mensagens depois de cada jogo, dissecando
meus erros em três parágrafos, envoltos na linguagem da “crítica
construtiva”. Ele costumava dizer: “Você recebe o que merece,
garoto”.
E eu recebi.
Eu me odeio por ser um fracasso. Odeio não atingir meu potencial.
Eu sou aquele que não fez o que deveria fazer; eu sou aquele que
deixou meu talento apodrecer, ruir e morrer.
Eu deveria ser melhor do que isso, mas não sei como. Como você
se conserta quando não sabe o que está quebrado? Como você
encontra o caminho quando está tão perdido que não sabe qual é o
norte?
Ou pior, e se você não estiver quebrado e isso for só você, o melhor
que você pode conseguir?
E se for isso?
Quando estive aqui antes, em outras noites sentimentais, sentindo
pena de mim mesmo, gritei com as ondas ou joguei pedras na
arrebentação, e então, arrastando-me, voltava para a minha vida e
amarrava os patins novamente pela manhã. Nunca vim a esta praia
quando me senti tão desolado. Esta noite, o vazio lá fora ecoa o vazio
dentro de mim.
Preciso sair desta praia, voltar para minha caminhonete e ficar
longe dessas ondas e seus sussurros.
Mas eu não quero.
Não sou suicida, mas estou desesperado, e a diferença é tênue.
Aqui, pairando no fio da navalha entre os dois, não sei dizer para que
lado vou cair.
Não durmo há três dias. Não mesmo. Toda vez que fecho os olhos,
vejo jogadas perdidas, bloqueios perdidos e gols sofridos. É um filme
constante passando na minha mente. As manchetes, as frases de efeito
e o rosnado frustrado do meu treinador estão ao meu redor, essa
enxurrada constante de tudo o que eu não sou. A cada dia, me afogo
em tudo isso, no que eu poderia ter sido, no que eu gostaria de ser, se
ao menos...
Quero que isso pare. Quero me apegar ao silêncio de um mundo
onde eu sou a única coisa nele.
E estou tão cansado de ficar sozinho.
Sonhei uma vez em fazer parte de algo maior do que eu, algo que
sempre me apoiaria, algo que eu nunca poderia decepcionar. Eu
ainda quero isso. Uma parte de mim, sem esperança, se apega a finais
felizes. Eu quero o destino, e para sempre, e meu nome gravado em
prata que grite para o universo que eu existi, que eu importei.
As ondas quebram e colidem, fluem e recuam.
Tudo o que eu amava na minha vida está irreparavelmente
destruído ou murchou e morreu.
Eu conseguiria fazer isso.
O pensamento surge na minha cabeça com tanta naturalidade.
Tenho pensado nisso há meses. Começou tão fugaz, tão
insignificante, até que percebi que não era mais tão fugaz. Agora, o
pensamento está gravado na minha mente, me preocupando sem
parar, cada vez me cravando mais fundo, e não vai embora.
Alguém notaria?
Ei, o que aconteceu com o Kicks?
Quem sabe, cara. O garoto era um fracasso mesmo.
Não, ninguém sentiria minha falta se eu desaparecesse.
É só um passo, depois outro. A água e o céu estão tão entrelaçados
que não consigo separá-los.
Por um belo momento, acredito que não estou preso nesta vida e
que, se eu pulasse, poderia voar. Se eu corresse, poderia fugir. Eu
poderia me soltar e encontrar uma nova vida.
O rugido das ondas enche meus ouvidos. Água negra se quebra ao
meu redor. Meus joelhos cedem e eu caio na arrebentação. Ondas e
espuma do mar batem em meu rosto, cruéis com o sal, ásperas em
meus lábios.
Não quero me levantar. Não quero me virar. Prefiro ficar aqui.
Prefiro me fundir com as ondas que se estendem até o horizonte e
quebram, se enrolam, deslizam e recuam.
Mas eu me levanto.
Ninguém virá me salvar de mim mesmo.
O piso de borracha do vestiário das Orcas range sob meus sapatos
enquanto caminho penosamente em direção à minha baia. Paro e olho
para a minha etiqueta de identificação. Lá estou eu, Torey Kendrick,
a decepção.
Largo minha bolsa e afundo no banco.
Houve um tempo em que meu nome significava alguma coisa,
quando eu era o garoto de ouro, a segunda escolha geral, o salvador
da franquia que levaria este time à glória. Todos acreditavam nisso
também: olheiros, diretoria, torcedores. Caramba, até eu acreditava.
O nome da minha baia poderia muito bem virar uma piada agora.
Descolei a fita do meu taco, tira por tira. Linhas limpas
costumavam me acalmar. Ritual é igual a controle. Luva esquerda,
luva direita. Cadarços apertados, depois mais apertados. O aperto
dos ilhós me acalma.
Disseram que meu passo era poesia. Disseram que eu enxergava as
jogadas com duas passadas de antecedência, que o jogo desacelerava
para mim. Fixo o olhar na fita preta deslizando lisa do rolo, uma única
misericórdia. Em volta do cabo, em espiral, aperto, testo.
Sonhos morrem em estágios lentos e apodrecidos. Primeiro é um
contratempo, uma semana ruim, sem ritmo. Depois vem a barganha
– mais uma sessão de vídeo, mais uma hora na bike, mais um ajuste
na minha curva. Depois disso, a aceitação lenta e desgastante se
infiltra, sufocando você, até que a vida que você imaginou oscila
como calor sobre o asfalto: bem ali, brilhando, tão perto, e nada além
de ar.
O hóquei tem um jeito de te envolver em seu mito e te expulsar
quando você não se encaixa mais na história. Outdoors são retirados.
Camisas vão para as prateleiras de liquidação. O garoto que
costumava gritar meu nome quando eu jogava um disco para ele no
aquecimento provavelmente grita o de outra pessoa agora.
Fecho os olhos. A sala continua sem mim.
Tento imaginar o primeiro gol que farei, a leitura correta na disputa
de disco, o chute rápido de frente pro gol, mas meu cérebro me
alimenta com estática. Uma corrente escura me atravessa, uma
ressaca sussurrando “esqueça”. “Esqueça tudo”. Veja sua vida
afundar e poupe-se do nado.
Negar é fácil; soa como se eu estivesse dizendo que estou bem.
Barganhar é trabalhoso; parece que estou trabalhando até as pernas
tremerem. Aceitar é observar as ondas quebrando ao seu redor e
saber que não há nada que você possa fazer para detê-las.
Puxo meus cadarços com mais força, sinto a força nas palmas das
mãos e digo a mim mesmo que estar apertado é estar no controle.
As ondas no meu peito continuam batendo, a ressaca puxando
meus tornozelos, sussurrando.
Inspire, expire. Alguém se lembra que estou vivendo essa vida
decepcionada?
Cabeça baixa. Olhos baixos. O resto da sala permanece separado e
distante de mim enquanto começo minha rotina. O ar cheira a
borracha, suor e velha esperança. Meu mantra ressoa na minha
cabeça: Preciso começar a produzir. Preciso marcar gols. Preciso dar
assistências. O problema é que eu não quero.
Não quero nem saber. Agora, prefiro estar de joelhos novamente,
nas ondas escuras, do que sentado neste vestiário me preparando
para mais uma noite de fracasso. Não quero me importar.
Mas eu sei. Esta é a minha vida, a única que tenho. Tudo o que
tenho são estes dias, horas e minutos passando. Gostaria de poder
voltar no tempo e cortar este caminho antes que ele começasse, antes
que os olheiros me notassem, antes do recrutamento, antes que as
expectativas me esmagassem.
Do outro lado da sala, Criss-Cross conta uma piada. Chandy e
Becky estão engajados em uma conversa que envolve muitos
balanços de cabeça e socos no ombro. Até Wilhelm, normalmente um
deserto de concentração antes dos jogos, abre um sorriso enquanto
conversa sobre estratégia com Pugh no quadro branco.
Eu adorava a eletricidade do vestiário, a agitação pré-jogo
alimentando a energia um do outro. Antigamente, eu acreditava que
podia fazer qualquer coisa, ser qualquer pessoa, contanto que tivesse
essa irmandade me alimentando. Mas agora eles não me querem por
perto, e, sinceramente? Eu também não quero ficar perto de mim.
Fecho os olhos, tentando me isolar do ambiente. Não quero estar
aqui. O pensamento pulsa no ritmo de cada batida do meu coração.
Não quero estar aqui.
Hoje à noite, o Amotinados de Tampa Bay vai nos destruir. É um
time que pressiona sem parar, com um Capitão atacante de força que
vai martelar uma pressão no ataque implacável. Eles não estão na
briga e tiveram uma temporada difícil ‘de novo’, mas isso não
significa que não vão nos atropelar e me atropelar.
Não faço gols há quanto tempo, quinze jogos? Não consigo nem
segurar o disco no taco por mais de três segundos. O treinador me
chamou de lado ontem e deixou bem claro: “Você é pago para ser um
trunfo, não um problema”.
Todas as nossas perdas têm alguma ligação comigo: um erro tático,
uma rotatividade, uma tentativa de compensação frustrada. E
quando você é a decepção, com salário alto e desempenho ruim, que
mantém seu time perdendo noite após noite, as pessoas param de te
ver como humano. Você é um problema a ser resolvido.
Coloco meu capacete, pego meu taco e sigo o time em direção ao
gelo. No caminho, passamos por um longo túnel espelhado, uma
ideia de algum designer para uma zona de euforia. Alguns dos caras
se retiram, enquanto outros se recusam a olhar. Os mais jovens se
divertem, com um instinto de pavão inato no DNA.
Esta noite, dou uma olhada rápida no meu reflexo. Resta alguma
coisa em mim? Alguma faísca, alguma brasa que valha a pena salvar?
Lá estou eu: todo o meu fracasso, meus sonhos rançosos e
coagulados, meu potencial desperdiçado. Esgotado aos 23 anos. Um
fracassado. Um nunca foi.
Não há nada que valha a pena salvar.
O disco cai e o jogo começa.
Ele desliza pela superfície, e camisas azuis se aglomeram, tacos e
corpos se entrelaçando. Eu me empurro em direção à ação.
Um jogador de Tampa rouba o disco antes que eu chegue perto. Eu
tropeço, perco o equilíbrio e giro, tentando voltar à posição, mas estou
sempre um passo atrás, sempre tentando alcançar além do meu
alcance.
O capitão do Tampa, Blair Callahan, assume o controle do disco
sem esforço. Ele é tudo o que eu não sou: confiante, centrado, no
controle. Ele é o condutor e criador de jogadas do Tampa, imponente
mesmo sem patins, quanto mais com eles. Eu corro atrás, mas minhas
pernas estão duras, minhas reações são lentas. Por um instante, acho
que o peguei.
Mas Callahan passa por mim como se eu estivesse parado.
— Concentre-se no jogo, Kicks! — grita Wilhelm do banco.
Anda de patins, caramba. Mexe os pés.
O disco voa em minha direção, um redirecionamento não
intencional de ninguém, e eu corro atrás da minha chance. Uma boa
jogada. Preciso de uma boa jogada.
Não sei o que me atinge de repente: um borrão azul ou um estrondo
sônico. Meus pés deixam o gelo enquanto meu corpo gira no ar. O
branco brilhante das luzes da arena pisca acima, um aviso instantâneo
de que perdi todo o controle, de que estou completamente à mercê da
gravidade e da física. Então, o gelo sobe rapidamente e eu me jogo
contra ele com força. A dor explode, arrancando o oxigênio das
minhas células.
Merda.
Merda, merda, merda. Tento respirar fundo, puxar o ar, mas meus
pulmões se recusam a funcionar. É como se estivesse sendo sufocado
por dentro, meu peito preso num aperto. Levante-se, levante-se.
Levante-se.
Mas não consigo me mexer. O frio penetra na minha bochecha,
vindo do gelo. A superfície raspada pela lâmina preenche minha
visão, milhares de pequenos cortes gravados na extensão branca.
Algo está errado, muito errado. Minha cabeça, meus pulmões, a
pulsação do meu coração, tudo está errado. Não consigo me levantar,
nem me ajoelhar. Sangue escorre do meu rosto, um vermelho
florescendo contra o branco. A arena está em silêncio.
Ainda não consigo respirar. O terror me domina, um medo real e
primitivo que começa nas minhas entranhas e se espalha para fora.
Há um tremor dentro de mim, um tremor que começou no fundo da
minha alma e está tremendo para sair.
Eu queria ter valor. Eu queria ser mais do que um arrependimento.
E eu quero estar vivo; não estou pronto para morrer. Percebo isso
agora, é claro.
Corpos se aglomeram. Os treinadores, a equipe médica e até o
médico do time estão no gelo. Merda, isso é sério. Alguém tem a mão
na minha cabeça, me mantendo imóvel. — Fique conosco, Torey!
O mundo tomba de lado. Estrelas explodem atrás dos meus olhos,
e tudo se reduz a um ponto. Meu cérebro, meu cérebro está em
chamas, queimando por dentro. Eu grito, mas o som se perde. O
mundo está desmoronando; eu estou desmoronando. Eu não posso,
eu não posso, eu não posso...
A última coisa que vejo é Blair Callahan patinando na linha azul,
me observando do outro lado do gelo.
Então não há nada, absolutamente nada.
Dois
Primeiro: a escuridão. O mundo está oculto, em camadas de preto
sobre preto.
Memórias tremulam e se quebram. O gelo, um estrondo
estilhaçado, o silêncio rugindo alto demais. A gravidade me
abandonou, me deixou cair. Eu estava caindo através do gelo, ou o
gelo estava se afastando de mim? Tudo se desequilibra, osso no gelo,
meus pulmões travados, o horizonte desequilibrado. Luto para
respirar enquanto meu peito afunda. Minha boca está aberta, mas
nada sai. Não há ar suficiente, não há o suficiente. Sangue manchando
o pavimento. O grito de um homem cortando a noite. Estou lutando,
estou me afogando.
Minha próxima respiração me dilacera. Sento-me ereto, segurando
o peito. O oxigênio me inunda com um grande sopro, e estou tonto
com isso, com a correria da vida. Estou preso entre o suor
escorregadio e uma rigidez na base do crânio que se acumula ali
depois de uma queda forte. Minha respiração está rápida demais,
superficial demais.
Estou na cama...
Mas não a minha cama. Os lençóis são pesados e macios. Eles
grudam e se enroscam nas minhas coxas, me prendendo. Meus braços
e pernas são de chumbo, o peso morto que te assombra depois dos
treinos de patins. Um martelo martela dentro do meu crânio.
Este quarto está escuro, escuro como a noite, exceto pelo luar
prateado que penetra através de uma parede de portas de vidro
deslizantes. Eu me esforço para focar, e meus olhos ardem.
Estou em um quarto. Acho. Há uma cama, pelo menos, e estou nela.
As paredes são de um azul-escuro, os móveis de um branco vibrante.
Do outro lado do quarto, duas mochilas de viagem desabam lado a
lado, meio abertas, com equipamentos escorrendo de suas bocas
entreabertas. Bastões de hóquei se amontoam em um canto, pelo
menos cinco, a maioria bem surrada, um com fita azul enrolada no
cabo.
E...
Eu não estou sozinho.
Um homem está deitado ao meu lado. Ele tem costas largas,
esparramado de bruços, um braço longo sobre um travesseiro e o
lençol perigosamente perto de escorregar da cintura. Sua pele absorve
o luar que vaza pelo vidro, delineando todo o seu corpo. Uma barba
escura roça sua bochecha, o maxilar eriçado pela barba do amanhã.
Suas costas são esculpidas por músculos que parecem ter sido
esculpidos em granito. Conto cada vértebra no vale entre seus
dorsais, seguindo a curva até a curva de sua bunda que desaparece
sob o lençol.
Ele se mexe, virando o rosto para mim. Seu cabelo é castanho-
escuro e despenteado pelo sono. Seus cílios se abrem em leque contra
as bochechas, os olhos fechados. Ele tem ombros largos e bíceps com
os quais eu só poderia sonhar. Ele não tem corpo de modelo, mas é
robusto. Firme do tipo que poderia partir alguém ao meio.
Ele é lindo.
— Torey? — Sua voz é áspera, ainda entrecortada pelo sono. — O
que houve?
O mundo se dobra. Eu congelo.
Mas que. Porra. É essa.
Quem diabos... Onde diabos...
Não consigo recuperar o fôlego; meus pulmões parecem tropeçar
um no outro, pulando inalações. Perguntas me atravessam o crânio.
Onde diabos eu estou? Como cheguei aqui?
E quem diabos está ao meu lado e por que ele está na cama comigo?
Em que cama estou?
Ele aninha o rosto no travesseiro, murmura meu nome novamente
e estende a mão para mim, com a palma da mão aberta e os dedos
estendidos.
Tudo dentro de mim se agita em busca de saídas.
Eu jogo as cobertas para trás e balanço as pernas para o lado da
cama, para longe daquele homem.
Pelo menos estou de short, um par de tênis antigo dos meus tempos
de adolescência. Finalmente, algo familiar.
O chão sob meus pés é de ladrilho, fresco e liso. Além das portas
do pátio, a lua está cheia e pesada. Palmeiras cruzam o horizonte além
do vidro, e a piscina reflete o céu em uma superfície tranquila.
Isso aqui não é nem perto de Vancouver. Este não é o meu
apartamento, nem nenhuma versão da minha vida que eu reconheça.
Lençóis... errado.
Cama... errada.
Homem na cama... profunda e catastroficamente errado.
Não tenho ideia de onde estou. Nada me parece familiar.
Há um telefone na mesa de cabeceira ao meu lado, conectado e
carregando. Não é meu, mas serve. Pego-o e me levanto com
dificuldade. Tudo parece errado, meu corpo treme, meus músculos
tremem. Estou deslocado dentro de mim, tudo se encaixando errado.
Será que fui drogado? Sequestrado? E o quê? Vestido com meu
short velho e aconchegado em uma cama luxuosa num paraíso
tropical?
Três portas se apresentam, e eu vou cambaleando em direção à
mais próxima, segurando o telefone roubado em meu punho.
Boa escolha. Achei o banheiro. É enorme, espaçoso e sereno, todo
em mármore, com box amplo e banheira de imersão. Duas pias, uma
de frente para a outra, com escovas de dente, lâminas de barbear e
creme de barbear em ambas as pias.
As luzes são automatizadas e diminuem suavemente em direção à
luz quente de velas, um brilho suave que levanta os cantos e não
revela monstros. A luz não me esclarece mais nada, e eu tropeço até
a pia mais próxima, agarrando-me à borda da pia.
Não tenho a mínima ideia de quem está me encarando no espelho.
O homem no espelho sou eu – o mesmo cabelo castanho, os
mesmos olhos castanhos –, mas ele também não é. Ele é mais forte,
mais saudável, mais bronzeado. Ele não é o fracasso que todos
esperam ver cair pela última vez. Confiança e propósito transbordam
de cada músculo dourado, forte e definido. A pessoa no espelho
parece capaz de coisas que eu nunca consegui.
Troquei a criança que eu era pela firmeza de um homem.
Levo a mão à bochecha e observo enquanto ele me imita, lenta e
cuidadosamente, e traça minha própria clavícula.
Não sei como me tornei quem quer que seja. O homem no espelho
não tem dúvidas. Eu não tenho nada além disso. Seus olhos, com
contornos escuros, me observam com uma suspeita animal.
A dor na minha cabeça é quase ofuscante, o suficiente para me fazer
cair de joelhos. Eu me curvo e me agarro à penteadeira, a testa
pressionada contra a pedra fria enquanto meu corpo respira em um
ritmo constante.
Em algum lugar, em algum momento, eu já fiz isso antes, aprendi
a me recompor. Onde foi que aprendi isso?
— Torey?
O homem da cama chama meu nome. Ouço o som de passos.
Então ele está lá. A porta emoldura sua silhueta, iluminada por trás
na penumbra do quarto, cabelos despenteados, olhos ainda fechados,
marcados pelo sono.
Ele não é um estranho. Não entendo nada disso, mas o conheço. Ele
é Blair Callahan. Tudo o que sei sobre ele é guerra no gelo: atacante
de força, te joga através do vidro, te enterra nos cantos. Capitão dos
Amotinados. Ele me derrotou tantas vezes que perdi a conta.
Mas a preocupação no rosto dele? A ternura nos olhos dele? O jeito
gentil como ele me olha? Eu não entendo nada disso.
Ele dá um passo na minha direção. Seu rosto se abre, suave, cheio
de problemas para mim. — Você está bem, amor?
— Blair... — Uma onda negra atravessa meu crânio e eu corro para
o vaso. Gatorade, um punhado de comprimidos e restos de frango –
tudo sai num turbilhão. É horrível, e continua, continua, continua.
As mãos de Blair estão em mim, esfregando minhas costas de cima
a baixo. Ele diz algo reconfortante que não consigo entender, sua
respiração é um sussurro suave. Sinto o calor de suas mãos, a firmeza
sólida de seu corpo.
— Blair — eu digo em voz baixa.
— Está tudo bem — ele diz. — Você está bem. Eu cuido de você.
Balanço a cabeça e o mundo gira novamente.
Quando o ácido para de arranhar minha garganta, quando consigo
pensar em blocos com mais de dois segundos, eu me endireito contra
o vaso, com o antebraço apoiado na cerâmica fria.
Blair me puxa contra seu peito largo e peludo. Seus braços
envolvem minha cintura casualmente, as mãos acariciando meus
antebraços. — Calma, amor. Calma.
Estou tremendo e não consigo fazer minha mente funcionar. Minha
cabeça está um desastre e meu estômago embrulha.
— Você passou por isso — ele diz. — Aquela pancada foi mais forte
do que a gente pensava, né?
A pancada em Vancouver? Só consigo imaginar uma lâmina de
patins cortando o gelo, o mundo tremendo enquanto eu batia nas
placas. Ontem, lembro-me da praia escura, depois da minha pirueta
durante o jogo, a pancada, tudo ficando branco e depois preto.
Ontem foi há muito tempo para mim.
Isso ainda é hoje? Da última vez que verifiquei, era Vancouver, mas
agora é este lugar, e ele está aqui.
Tudo se moveu debaixo de mim. Meus ossos estão encharcados, o
resto de mim é uma massa mole, tremendo de febre ou medo. Não
digo nada. Não consigo. Não tenho certeza se minha garganta
funciona, ou se sequer tenho língua. Meu cérebro está ocupado
demais tentando entender o que diabos está acontecendo para
conseguir me concentrar em qualquer outra coisa.
— Vamos ver a Dra. Lin logo de manhã.
Ele diz isso como se eu devesse saber exatamente quem é a Dra.
Lin, onde estamos e onde vamos consultar essa médica. Mas eu não
sei. Não sei nada disso. Não entendo nada.
Blair me vira um pouco, o polegar roçando minha nuca. — A
cabeça ainda está girando? — ele pergunta, meio em voz baixa. Eu
assinto.
Blair me acomoda delicadamente entre o vaso sanitário e a parede,
me apoiando como uma boneca de pano. Ele se afasta, e parte de mim
quer implorar para que ele não me deixe. Meus olhos se fecham, e
então ele volta, se aconchegando no chão ao meu lado com um
cobertor e uma garrafa d’água. Ele me entrega a água e coloca o
cobertor sobre meus ombros, e eu enterro o rosto na curva do assento
do vaso sanitário.
Então tudo fica em silêncio. Blair se recosta na parede, parecendo
que veio para ficar. Sua mão grande e larga acaricia meus ombros,
percorre minhas costas para cima e para baixo, devagar, depois mais
devagar, mais devagar, até que sua cabeça pende para o lado e ele
adormece, dormindo profundamente no chão do banheiro ao meu
lado.
É surreal demais para compreender.
Meu estômago está se triturando e minha cabeça está gritando, mas
eu cuidadosamente me afasto do meu aconchego sobre o vaso e me
sento em frente a Blair, de frente para ele, encolhido nas dobras do
cobertor que ele me trouxe. Um cobertor do Amotinados de Tampa
Bay.
Isso deve ser um sonho. Algum delírio induzido por uma
concussão, minhas sinapses disparando descontroladamente
enquanto estou desmaiado no gelo. Deve ser.
Só que parece tão real.
Já levei minha cota de pancadas fortes e algumas concussões ao
longo dos anos. Peguei onda com Toradol e OxyContin, relaxei e
assisti a narrativas épicas se desenrolarem nos palcos de manchas
d’água no meu teto. Sempre foram bobagens: impérios de elefantes
no espaço, treinadores com cabeças de insetos, companheiros de time
com asas, partidas de hóquei entre borboletas. Nada como isso.
Nenhuma alucinação de concussão jamais pareceu tão precisa.
Pancadas fortes não evocam piscinas iluminadas pela lua e quartos
com mochilas cheias dos meus próprios equipamentos. Isso é
estruturado, e os detalhes de apoio não oscilam quando eu pisco.
Eu ainda tenho aquele celular. Deixei-o cair perto do vaso sanitário
quando estava com ânsia de vômito, e é fácil tirá-lo de lá, entre a
parede e o suporte de porcelana. A tela é muito brilhante e forte no
banheiro escuro. A hora marca 2h37, e a data está errada – tem que
estar – porque são...
22 de março, um ano à frente.
Vomito de novo, cambaleando violentamente em direção ao vaso
sanitário. O telefone cai ruidosamente no chão. Blair grunhe e se
mexe. Eu congelo.
O celular está a centímetros do meu rosto, com a tela para cima,
ainda ligado. Ainda consigo ler a data, a hora, o ano, mas estão
errados, está tudo errado. Isso tem que ser uma pegadinha, ou este
celular está ferrado. É, está ferrado – as configurações estão erradas.
Nem é meu celular.
A mensagem “Desbloqueio Facial” aparece na tela com um sinal
sonoro. O protetor de tela sem graça, com um fundo geométrico sem
graça, muda para a tela inicial, e...
Sou eu e Blair.
Aquela foto, o fundo. Sou eu e o Blair, e estamos abraçados.
Estamos os dois sorrindo – não, radiantes – e obviamente nos
conhecemos muito bem.
Estou tremendo pra caramba enquanto navego pelo celular,
passando freneticamente por aplicativos e telas. A data e a hora
continuam me chamando a atenção, me arrastando de volta para
aquelas palavrinhas apertadas, repetidas vezes.
Estou no futuro. Estou no futuro, porra.
Ontem à noite, pensei em acabar com tudo naquela praia. Pensei
que poderia entrar no oceano e desaparecer desta Terra. Não
consegui, não consegui, porra, e aí veio o jogo, e a pancada, aquela
pancada, e agora...
Estou aqui, no futuro, com Blair.
Blair.
Fotos nossas enchem meu rolo de câmera. Em uma delas, posamos
para uma selfie, cabeças juntas, com a piscina de alguém ao fundo.
Meus olhos se enrugam nos cantos, e Blair me olha como se eu fosse
tudo o que importa no mundo dele. Passo para o início do rolo de
câmera, passando por tardes cobertas de areia, selfies engraçadas na
piscina, o olhar de Blair semicerrado sob o sol do sul da Flórida.
Eu pareço tão feliz.
De acordo com o registro de data e hora, esta foto é de um mês
atrás.
A próxima foto mostra Blair, outro homem e eu, um cara mais ou
menos da idade de Blair, quase trinta anos, obviamente jogador de
hóquei. Sentamo-nos à mesa da cozinha, vestidos casualmente, pegos
no meio da risada. É como se alguém tivesse contado a piada mais
engraçada e nenhum de nós conseguisse se conter. Essa foto leva a
outra, e mais outra, todas com esse terceiro homem misterioso, até
que abro o Instagram e vejo – ‘Hayes Emerson marcou você em uma
foto’.
É ele. Hayes Emerson. Eu tinha razão, ele é jogador de hóquei, um
Amotinado. E a foto em que ele me marcou é a mesma que eu
encontrei ele, Blair e eu rindo tanto que não conseguimos ficar
sentados. Os melhores amigos que um cara pode desejar, diz a legenda.
#BFF
Minha mente fica estática. Nada faz sentido.
Fotos podem mentir. O que o Google diz?
O Google diz que sou um maldito Amotinado de Tampa Bay.
Não um Vancouver Orca. Um Amotinado. Negociado, recebeu
uma segunda chance, se esforçou bastante... os detalhes passam
despercebidos por mim. Artigos de uma dúzia de sites esportivos
relatam a mesma coisa: Torey Kendrick foi negociado com os
Amotinados.
É o último parágrafo do sétimo artigo, apenas uma ou duas frases,
mas salta da página e me prende pela garganta. A troca de Kendrick
também é interessante devido à sua história com os Amotinados de Tampa
Bay. Na temporada passada, o ex-jogador dos Amotinados, Zolotarev,
desferiu uma pancada devastadora em Kendrick, que lhe causou uma
concussão grave e quase encerrou sua carreira.
Pancada. Última temporada.
Meu cérebro para.
A pancada, a pancada, essa é a pancada da noite passada. Eu me
lembro, da força, do impacto, da queimadura do gelo, do rugido da
arena. Eu me lembro do jogo, do vestiário, de vestir a camisa do
Vancouver, ainda sentindo areia na pele. Isso foi ontem à noite.
Ou foi no ano passado?
O Google quer me inundar de fotos, milhares a mais do que antes,
quando a notícia mais interessante sobre mim era que eu ainda não
tinha sido colocado no banco. Agora há fotos de ação, aquecimentos
antes do jogo, entrevistas depois do jogo. Comemorações de gols no
gelo, eu no centro das reuniões do time, abraçando os companheiros
de Tampa Bay – pareço o jogador incrível que nosso histórico afirma
que sou. Estamos na briga pelos playoffs, graças aos artilheiros do
time: Blair Callahan e Torey Kendrick.
Ver essas fotos me corta profundamente. Lá estou eu, jogando
como se amasse o jogo, me sentindo como antigamente, quando eu
acreditava que sonhos podiam se realizar, quando eu achava que
minhas mãos e minha vontade eram fortes o suficiente para construir
um futuro.
Mas não me lembro de nada disso.
Mensagens. Essas têm que revelar alguma coisa. O telefone – o
meu, suponho – deve ser novo, porque as mensagens só datam de
fevereiro. Mesmo assim, são muitas. Confirmações de comida online,
recibos do Uber – principalmente de Tampa Bay, mas reconheço
outras cidades do hóquei no gelo –, códigos de confirmação...
E centenas de mensagens entre mim e Blair. Trechos voam
enquanto eu rolo a tela.
Bom dia, amor.
Como está indo seu dia?
Sinto sua falta.
Chego em casa logo. Vou levar o jantar.
Você viu o carregador do meu iPad?
O treinador está imparável hoje, Jesus.
Amo você.
A conversa é repleta de piadas internas, eu te amo casuais e a
felicidade mundana de ser conhecido.
Olho a data e a hora no telefone mais uma vez.
Essas mensagens. As fotos. Esses artigos. Esse cobertor dos
Amotinados que Blair enrolou em mim. A sensação das mãos dele,
gentis e quentes, nos meus ombros. O jeito como ele me olhou quando
entrou no banheiro. Preocupado. Vigiando-me. Vigiando alguém que
ele ama...
Uma concussão grave. Grave, dizia o artigo. Quais são os sintomas
de uma concussão grave? Náuseas, vertigens, dores de cabeça
lancinantes, sensibilidade à luz e, em alguns casos, episódios de
amnésia.
Amnésia.
Digito: Amnésia após concussão grave.
Artigos surgem: Episódios de perda de memória, estados confusionais
que duram horas ou dias após traumas significativos… Amnésia transitória
foi relatada após incidentes de concussões graves...
O telefone cai novamente no chão de ladrilhos e eu enterro meu
rosto nas palmas das mãos.
Não é viagem no tempo. Não é abdução. Não são alienígenas, nem
delírios, nem sonhos. São muitas concussões, um cérebro quebrado e
um ano perdido da minha vida.
O que aconteceu comigo?
Em quem eu me tornei?
Espio por cima das pontas dos dedos. Blair ainda dorme, relaxado
e encostado na parede. Um joelho está inclinado para o lado, o
pescoço virado para a direita. Ele vai xingar quando acordar, mas se
aconchegou ao meu lado sem dar um pio, como se fosse a coisa mais
natural do mundo ficar aqui comigo até o amanhecer enquanto eu me
agarrava ao vaso sanitário. Claro.
O que diabos aconteceu comigo durante esse último ano?
Afundo-me contra a parede, com os joelhos encolhidos em direção
ao peito. Observo Blair, sua respiração firme e profunda, o jeito como
seu peito sobe e desce. Ele é tão lindo. Queixo forte, lábios carnudos.
Eu tinha minhas suspeitas, mas fui especialista em reprimi-las. Elas
se tornaram mais uma coisa em que eu não estava pensando, mais
uma parte de mim que ainda não tinha sido explorada. O hóquei era
tudo o que importava, e o hóquei nunca deixava espaço para o resto
de mim.
Eu não tinha permissão para querer caras. Eu carregava esse
pensamento desde as viagens de ônibus no circuito adolescente,
aprofundando-o cada vez mais quando a curiosidade aflorava. Sem
tempo, sem necessidade, canalizava todos os desejos para o hóquei.
Foi o que eu disse a mim mesmo. Deixei partes inteiras de mim
para trás, pensando que as resgataria se algum dia me sentisse
corajoso.
Olha onde isso me levou. 2h37 da manhã, um ano em um futuro
que não consigo lembrar, encolhido em frente a um banheiro,
olhando para um homem que me ama. E que, se minhas próprias
mensagens forem verdadeiras, eu amo de volta.
Então, aparentemente, eu sou gay, ou pelo menos é o que parece.
Todas as evidências apontam nessa direção. Acordar na cama com
um homem é uma grande pista.
Estou em um relacionamento com o Blair e, aparentemente, estou
feliz nele. Esse sorriso no meu rosto nessas fotos não é falso.
Como isso aconteceu? Até vinte minutos atrás, eu sabia o nome do
Blair e que ele era um filho da puta para se jogar contra, mas nada
mais sobre ele.
Aparentemente, alguma versão de mim sabe muito mais.
Tento me lembrar de como começamos, da nossa primeira piada
ou do primeiro olhar demorado no vestiário. Meu cérebro me dá areia
e spray, um punhado de sol e uma risada trêmula, mas nada mais.
O que significa que estou com o Blair? Que estamos juntos?
O mais chocante é como não estou assustado. Anos afastando meus
pensamentos deveriam ter me levado a uma crise existencial.
Definitivamente, havia uma parte de mim que não queria lidar com
meus questionamentos porque eu não tinha força mental para lidar
com outro colapso psicológico completo, além do desmoronamento
da minha identidade principal no hóquei. Perceber que não sou o
jogador que pensei que poderia me tornar e reconhecer minha
sexualidade? Não, obrigado.
Então pensei que sentiria algum nível de pânico, ou uma ansiedade
fria e torturante me consumindo quando finalmente me deparasse
com essa pergunta. Mas... não, não exatamente. Não há nada dentro
de mim além de uma paz calma e silenciosa. Carrego esse ponto de
interrogação há tanto tempo que respondê-lo é um alívio.
Ou talvez eu já tenha tido meu surto.
Meu Deus, a beleza de Blair quase me tira a sanidade dos ossos.
Cada vez que olho para ele, enrugado pelo sono e imperfeito na
penumbra, roncando baixinho de exaustão, as pernas se abrindo em
todas as direções, sou atingido por uma onda sem nome. Felicidade,
talvez, chegando bem na beira do medo.
Nunca beijei um homem antes. Ou beijei, mas não me lembro. E
embora amar um homem pareça certo, como uma peça de quebra-
cabeça se encaixando, ainda sinto aquele frio na barriga por nunca ter
sido beijado.
Como é?
De repente, sinto ciúmes do eu que já sabe, que guarda essas
memórias e respondeu a todas as nossas perguntas. Ele já tem tudo
resolvido. Olha só essa vida. Olha só o que ele construiu.
Tenho inveja do Torey cuja vida é esta, cuja pele se encaixa, cujas
mãos sabem o que fazer no escuro. Tudo o que eu sempre tive foi a
dor do desejo, mas este homem, em algum lugar, conquistou tudo.
Dói. Dói de um jeito que não pode ser explicado por dor de cabeça
ou tempo perdido. Quero me lembrar do primeiro beijo novamente.
Quero saber se meu coração pulou ou se foi algo mais silencioso, mais
inevitável, o sol me aquecendo da medula para fora. Quero a
lembrança de nós dois, das mãos de Blair mapeando minha pele, de
quais refeições fizemos, quando nos tocamos pela primeira vez, quem
começou o quê. Não consigo me lembrar de me apaixonar por ele, ou
como ele se apaixonou por mim. Não tenho as chaves de nenhuma
dessas portas.
Não consigo me lembrar de um ano inteiro. Não consigo me
lembrar do Hayes, meu aparente melhor amigo. Não consigo me
lembrar do meu retorno, do que me levou à troca, ou da minha
recuperação.
Quanto da minha vida eu esqueci? Como cheguei lá, em Tampa
Bay, jogando pelos Amotinados? Como dei a volta por cima?
À minha frente, Blair se agita, e meu coração para. Observo-o se
mexer, meus olhos se demorando no movimento do seu peito
subindo e descendo. Luto para descobrir o que dizer, mas ele volta a
dormir, deixando escapar um ronco suave. Crise evitada; tenho mais
algumas horas para decidir o que fazer.
Arrasto o pé pelo chão de ladrilhos até meus dedos encostarem na
coxa de Blair. Gostaria de não ter que fazer nada. Não ter que me
mexer, respirar ou pensar. Deixe-me ficar aqui, neste momento calmo
e tranquilo, com Blair dormindo à minha frente.
Tenho quatro horas até o amanhecer. Quatro horas para decidir o
que vou fazer com a maior bagunça da minha vida.
Deus, não estou pronto para ser quebrado novamente.
Aquela praia é perto demais, a apenas algumas horas de distância,
segundo meu coração ferido e dilacerado. Aquele espelho me
mostrou um Torey, mas o Torey, o eu interior, ainda sente o gosto
salgado da maresia e sente o oceano me fazendo cair de joelhos.
Ainda ouço o rugido, o bramido, ecoando nas profundezas de mim.
E se eu olhar com atenção, posso encontrar grãos de areia alojados
sob minhas unhas. A praia está tão perto assim.
Não sei o que fazer e estou com tanto medo de estragar tudo. Se for
uma alucinação, é imersiva. Se for consequência, é cruel. Não consigo
decidir o que dói mais: a perda do ano passado ou a inveja de mim,
que ganhei tudo isso.
Não estou pronto para perder tudo.
Irônico, né? Tudo o que eu era antes deste momento – antes do gelo
negro e do apagão – se desfez aos meus pés.
Qual é a pior escolha? Admitir que eu perdi o rumo, que o Torey
que todos conhecem e amam se foi, sabe-se lá por quanto tempo.
Talvez para sempre. Admitir que estou perdido, que esse Torey é
uma máscara, partir todos os corações nesta sala, neste time. Jogar
minha vida fora, destruir minha carreira. Exílio permanente na lista
de lesionados de longo prazo. Lesão cerebral. Acabar com esse time
de nível de campeonato e jogá-lo no fundo do poço.
A tela do meu celular ainda mostra aquelas fotos de Blair e eu,
sorrindo, rindo, abraçados. Outro Torey conquistou este homem.
Outro Torey conduziu este time por uma temporada árdua. Eu tenho
o queixo dele, as mãos dele, os olhos dele. Alguém aprendeu a me
amar.
Não tenho a coragem dele. Ainda não.
Mas eu quero.
Quero lembrar como me apaixonei.
Deixe-me tentar, pelo menos. Se construí esta vida uma vez, talvez
eu possa construi-la novamente.
Não sou bom o suficiente para Blair, nem para este time, nem para
esta vida, mas esta vida é o que eu tenho. De alguma forma.
Como diabos eu consegui fazer isso? Como cheguei aqui?
Já sei quem sou sem ele – sozinho numa praia à meia-noite,
esfolado pelo arrependimento – e não vou voltar para lá. Não posso
voltar atrás.
Eu consigo entender isso. Já passei por coisas piores, certo? Já
enfrentei coisas piores do que isso. Eu construí essa vida para mim,
não foi? Aquele era... é?... eu no espelho. E mesmo que eu não me
lembre, aquele cara aparentemente tinha a vida tão organizada que
um dos melhores jogadores de toda a NHL agora o chama de “amor”.
E dorme no chão do banheiro quando ele está vomitando.
Posso aprender o suficiente em quatro horas para simular minha
própria vida?
Não estrague tudo, Torey. Você já construiu isso uma vez.
Posso fazer isso de novo?
Três
O sol ainda não nasceu quando Blair e eu atravessamos o
estacionamento vazio em direção à arena.
Nossa arena, casa do Amotinados de Tampa Bay. Está toda
iluminada, com as janelas refletindo o céu matinal que está mudando
de um azul-escuro para um azul desbotado.
Blair está usando um moletom branco com o logotipo dos
Amotinados na frente e uma calça de moletom azul-escuro. Eu estou
usando meu short velho e uma camiseta dos Amotinados, e me sinto
uma fraude, como se estivesse brincando de me fantasiar com as
roupas de outra pessoa.
E acho que estou. Este não é o meu time. Esta não é a minha arena.
Não sei nada sobre este lugar e não sei nada sobre o que deveria estar
fazendo aqui.
Por dentro, é como muitas outras arenas. Joguei algumas partidas
aqui nos últimos quatro anos – e muito mais jogos em casa, acho, este
ano – e todos os rinques são praticamente iguais. O suficiente para
entender a essência. Time da casa, time visitante, instalações,
operações.
São os detalhes que vão me atrapalhar.
Eu continuo atrás de Blair, deixando-o liderar. Claramente, liderar
é algo natural para ele. Mesmo assim, ele olha por cima do ombro, me
lançando sorrisinhos e olhares cheios de carinho.
Lá no time da casa, no fundo do Covil dos Amotinados,
caminhamos por corredores com portas abertas, onde os
madrugadores já trabalham arduamente. Nenhum outro jogador –
sejamos realistas. São os treinadores, os gerentes de equipamentos, a
equipe de vídeo, a comissão técnica. Procuro rostos que eu possa
conhecer, mas não há ninguém aqui que eu reconheça.
Blair grita ‘oi’ e ‘e aí’ e eu começo a imitá-lo depois da terceira vez
que alguém diz — Ei, Torey — e parece satisfeito em me ver.
As pessoas aqui parecem gostar de mim.
É uma sensação completamente estranha. Não sei como fazer isso.
Não sei o que estou fazendo. Vou estragar tudo.
Blair me dá outro sorrisinho, um olhar casual e um raio de azul
perfeito, tudo ao mesmo tempo.
Blair – o grandalhão, musculoso e intimidador Capitão Callahan –
estava inegavelmente adorável naquela manhã. Ele estava, como
previsto, com cólicas e desconfortável por causa da noite que passara
espremido entre o vaso sanitário e a parede no chão do banheiro, mas
nunca reclamou. Na verdade, ele não disse muita coisa, porque, antes
da primeira caneca de café, Blair aparentemente é pré-verbal. No
meio da primeira caneca, Blair me prendeu contra a ilha da cozinha,
onde eu estava colhendo uma banana. Ele passou um braço em volta
da minha cintura e apoiou a testa no meu ombro. Ficamos assim,
respirando juntos, ele me abraçando, nada além da única lâmpada da
pia acesa na cozinha, e foi...
Indescritível.
Finalmente, chegamos à ala médica das instalações dos
Amotinados. Blair encosta seu cartão de acesso em um scanner e a
porta se destranca com um clique.
Assim que entro, sou tomado por uma onda de familiar-mas-não.
Sei exatamente onde estou, mas não conheço este lugar. Esta é a suíte
médica de todos os times da NHL. Já estive em uma dessas em todas
as cidades, mas todas são assustadoramente parecidas: uma fileira de
mesas de exame, suprimentos médicos pregados nas paredes, um
cheiro de antisséptico e o cheiro persistente de suor antigo.
Já estive nessas salas antes, mas não aqui.
Blair e eu estamos sentados juntos na beirada de uma mesa de
exames quando a Dra. Hana Lin entra, segurando uma garrafa de
água e um comprimido. Suas bochechas estão coradas e ela parece ter
saído correndo.
— Como você está se sentindo, Torey? — ela pergunta enquanto
puxa um banquinho.
— A dor de cabeça continua — admito. É o único sintoma
verdadeiro que posso dar a ela.
— Sem tontura? — Ela não tira os olhos da tela.
— Não esta manhã.
— Fadiga?
— Um pouco — admito.
— Desorientação? Confusão?
— Não, nada disso. — É mentira, e não sei se estou mentindo para
ela ou para mim mesmo. Estou desorientado. Estou confuso. Não
consigo me lembrar do último ano da minha vida. Isso é muito
confuso.
Ela concorda. — Aquela pancada que você levou foi certeira. Do
ombro ao queixo, levantou seus patins do gelo.
— Ainda estou abalado, eu acho.
— Ele acordou doente no meio da noite — acrescenta Blair.
O que... Há muita coisa para desvendar nessa adição dele. Estamos
assumidos? Em público? O Google parecia não saber que estávamos
em um relacionamento – ou que algum de nós era gay –, mas e o time?
Dra. Lin?
Agora tenho um novo conjunto de minas terrestres para me
preocupar. Quem sabe e quem não sabe? Como lidar com isso?
— Blair. — A voz da Dra. Lin é suave, mas autoritária. — Pode nos
dar um momento?
Blair hesita. Seu olhar – penetrante e azul – me perscruta. Não
consigo olhar de volta. Estou mexendo no nó do meu short, olhando
para os meus dedos enquanto me preocupo com o nó. Não tenho
medo de estar aqui, nesta mesa de exame. Não tenho medo do ano
que não consigo lembrar. Não tenho medo.
Só que eu tenho.
— Estarei no vestiário — ele diz, deslizando a mão pelas minhas
costas. Ele a deixa ali na parte baixa das minhas costas.
E então ele se foi. A porta se fechou com um clique.
Sou eu e a Dra. Lin.
— Conte-me o que realmente está acontecendo.
Não consigo falar. Há um rugido nos meus ouvidos, um uivo na
minha alma. Ela sabe, como diabos ela sabe? Blair não sabe, mas ela
sabe. Porra, vou perder esta vida antes mesmo de vivê-la.
— Dra. Lin... — Minha voz falha.
— Quando entrei aqui há alguns minutos, você estava com a
mesma expressão da última vez que teve um episódio. — Sua voz é
baixa e íntima. — Como se o seu mundo inteiro tivesse desabado.
Ela espera por algo, uma resposta, uma confissão. Ela se inclina
para a frente. — Eu guardei o seu segredo antes. Quando você estava
sobrecarregado, quando a pressão era demais, e você não aguentava
mais. Você se lembra disso?
Vou me espatifar. Não é a primeira vez? Nunca aconteceu isso
comigo antes. Ou já aconteceu? Não me lembro, não me lembro, não
me lembro.
— Vou ser direta com você, Torey, porque acho que você precisa
ouvir isso. É importante: se você está tendo problemas recorrentes
depois das pancadas na cabeça que levou, especialmente com relação
ao seu histórico, isso pode ser sinal de algo muito, muito sério.
— Eu não... — Estou me debatendo, buscando palavras,
explicações. Mas não há nada. Minha mente está em branco, um vasto
e vazio oco. Não consigo pensar, não consigo respirar. Estou preso ao
seu olhar, e ela está olhando através de mim. Ela sabe que estou
mentindo; ela tem que saber que estou mentindo.
— O que significaria, hum... — Engulo em seco e olho para baixo.
Não consigo encará-la. — O que significaria se fosse mais? Se as coisas
fossem... sérias?
— Sério como? Você está sentindo algo específico, Torey? Algo
além dos sintomas típicos de concussão? — Sinto que ela está me
observando, catalogando cada contração, cada hesitação.
Sua expressão é cuidadosamente neutra, profissional, mas há algo
em seus olhos que me dá um nó no estômago. E se isso já aconteceu
antes? E se eu já tiver perdido tempo antes e... esquecido que esqueci?
Agarro a borda da mesa de exame. Meu coração bate tão forte que ela
deve ser capaz de ouvir.
— Então... hipoteticamente. Se alguém tivesse... problemas
recorrentes. Depois de vários ataques…
Ela se remexe no banco. — Isso dependeria da natureza dos
problemas. Problemas de memória, alterações de humor e
dificuldade de concentração podem fazer parte da síndrome pós-
concussão. Mas há outras possibilidades que precisamos descartar.
Ela me observa com tanta atenção, como se tentasse perceber a
verdade na minha respiração. Se eu contar que perdi um ano, o que
acontecerá? Me tirariam do time? Me mandariam fazer exames de
imagem que podem encontrar algo pior? Perco esta vida – Blair, este
time que aparentemente gosta de mim, este melhor hóquei que já
joguei – antes mesmo de vivê-la?
Respiro. — Tudo parece...
É um probleminha de memória. Levei uma pancada ontem à noite,
só isso. Isso vai passar. Vai…
— ... nebuloso. — Minto. — Essa é provavelmente a melhor
maneira de descrever. A pancada e a noite passada. Está tudo
nebuloso.
— Você pode ser mais específico? — Ela não se move, nem pisca.
— Estou um pouco lento para entender. — Dou de ombros. —
Como se meu cérebro estivesse tentando sair da primeira marcha.
Bem normal, né? Depois de uma pancada dessas?
Ela deixa o tablet de lado e empurra o banquinho para mais perto.
Seus dedos estão frios contra minhas têmporas enquanto ela examina
minhas pupilas com uma lanterna. Olho esquerdo. Olho direito. —
Siga meu dedo. — De um lado para o outro. Para cima e para baixo.
Isso faz minha cabeça girar, mas eu me concentro no dedo dela.
Não deixo que ela veja a inclinação da sala. Jogadores normais têm
reações normais.
— Algum episódio de confusão? Perda de tempo?
Se ela soubesse. — Não.
Ela pisca. O silêncio paira entre nós, e percebo que ela está
esperando que eu esclareça as coisas. O problema é que eu não
consigo, e fico teimosamente em silêncio.
— Torey, sua saúde é mais importante do que...
— Estou bem — imploro. — Sério. Eu conheço o protocolo. —
Minha voz soa fraca até para os meus próprios ouvidos. Estou
tentando me esquivar do protocolo que deveria proteger jogadores
como eu, que deveria conter o dano antes que se torne permanente,
porque estou apavorado com o que eles vão encontrar. Ou com o que
não vão encontrar.
Os olhos da Dra. Lin se estreitam. Ela é profissional demais para
me chamar de mentiroso na cara, mas nós dois sabemos que é isso
que eu sou.
Olho para as minhas mãos. Elas estão firmes, o que parece errado.
Não deveriam estar tremendo? Não deveria haver algum sinal
externo de como estou desmoronando por dentro?
Ela me observa, e eu sinto que ela está avaliando suas opções,
decidindo o quanto forçar.
— Certo. — A Dra. Lin pega o tablet novamente. — Vamos fazer os
testes cognitivos.
Números de 100 para trás, de sete em sete. Os meses em ordem
inversa. Associações de palavras. Eu acerto todos. Ela me faz
equilibrar em um pé só, tocar meu nariz com os olhos fechados.
— Sua função motora parece boa — diz ela. Aí vêm as perguntas.
— Agora, você pode me dizer a data?
Respondo corretamente.
— O atual presidente?
Sem problemas.
— Você pode me dizer o nome do time em que você joga?
— Os Amotinados — Até aqui, tudo bem, mas não sei se essas
respostas são de memórias, de sorte ou do que pesquisei no Google
durante a noite.
Ela continua com perguntas sobre o time, companheiros de time,
jogadas ensaiadas, combinações de linhas, defesa em desvantagem, e
eu respondo a todas elas, fácil como uma luva. Pela primeira vez
desde que ela disse olá, a Dra. Lin sorri.
— Ok, última pergunta: quem é o capitão do time?
— Blair Callahan.
— É isso mesmo. E o Blair faz um bom trabalho?
Pisco. — Claro.
— Ele faz. Na verdade, eu diria que ele faz um trabalho tão bom
que, se, por algum motivo, alguém não se sentisse à vontade para
falar com um membro do time, levar a situação para Blair seria uma
escolha muito inteligente. Eu confiaria nele para tomar a decisão certa
nessa situação. — A Dra. Lin olha para mim, olha de verdade para
mim.
Ah. Agora entendi. Engulo em seco. Concordo com a cabeça.
De jeito nenhum vou dizer a Blair que não me lembro de nada sobre
ele, ou sobre nós, ou como nos tornamos ele e eu. Que não me lembro
do nosso primeiro beijo, da primeira vez que fizemos amor, ou
mesmo de tê-lo conhecido.
— Ótimo — ela diz por fim. — Você passou no exame neurológico
com louvor. É um bom sinal.
Como isso é possível quando há um buraco negro de um ano na
minha memória? Meu cérebro pode estar quebrado, mas
aparentemente não tanto. Certo? Talvez eu não esteja perdendo o
controle. Talvez eu consiga superar isso, e talvez tudo fique bem.
Mas e se não ficar? E se eu esquecer tudo isso de novo?
— Seus resultados de teste são consistentes com os de alguém que
levou uma pancada, mas não apresenta sinais de comprometimento
cognitivo grave. — A Dra. Lin digita algo em seu tablet. — O que não
significa que você não esteja apresentando sintomas que não me
contou.
Quero confessar tudo, desabafar aqui mesmo nesta mesa de exame.
Quero que alguém me ajude a entender este pesadelo. Mas... não
consigo.
— Quero te ver de novo amanhã. E se alguma coisa mudar...
— Eu ligo — interrompo, não querendo ouvir o resto, não
querendo encarar a possibilidade de que o que quer que esteja
acontecendo comigo possa tirar esta vida de mim para sempre.
Ela suspira. — As coisas têm corrido bem para você, Torey. Muito
bem. Este tem sido o melhor hóquei que você já jogou. Você tem sido
muito feliz aqui.
Estou com um medo danado, mas vou continuar com isso. Eu
quero essa vida, porque se ela for um décimo tão incrível quanto essa
minúscula lasca que eu vi, então isso é tudo, absolutamente tudo, que
eu sempre quis.
O que é que eles dizem lá nas categorias de base, quando você está
tentando chegar às ligas maiores? Finja até conseguir?
Eu vou. Eu não vou perder esta vida.
— Você não vai treinar hoje. Volte amanhã de manhã.
Conversamos mais depois.
O ar do rinque é cortante, uma mistura gelada de ozônio e gelo
raspado. Fico em pé junto às placas, enfiado entre os bancos, onde o
vidro está todo branco e riscado.
Hoje é o meu status de observador. O ‘dia de manutenção’ da Dra.
Lin parece um cone de trânsito colocado sobre o meu nome, e o ar
tem gosto de exílio.
À primeira vista, é mais uma manhã. Não a minha, mas uma que
consigo fingir. O frio salgado do suor da noite passada, a fita velha,
os pneus novos, o cheiro doce e mortífero do escapamento do
Zamboni. O bater dos discos, o cheiro forte dos equipamentos, o sal
queimado pelo congelador que se infiltra em tudo, todos os aromas
de um rinque de hóquei e de casa.
O time avança com tudo nos exercícios, lâminas sibilando, corpos
colidindo. O treino soa alto e vibrante. Ordens são disparadas do
outro lado. A tagarelice, os gritos de alegria, as gargalhadas latidas
ecoam pelas vigas enquanto meus companheiros de time executam o
exercício.
Hawks finca os patins na linha azul e joga o peso do corpo numa
finta. Seus ombros se contraem. Ele está mirando no canto superior;
eu sei disso antes mesmo que ele termine a curva. Tudo isso – a curva
da lâmina de Hawks, o ângulo de desaparecimento dos quadris de
Hollow enquanto ele desliza para a direita – inunda meus músculos.
Quero estar na linha, quero perseguir o rebote, quero ser o próximo
eco no padrão deles. Flexiono os pulsos; a jogada se esvai pelos meus
músculos.
Hawks vai cortar na frente da rede. Hollow pega a ponta e corre
com o disco no gelo. Ele finge um passe e, em seguida, lança o disco
pela pista até a ala direita.
É um conhecimento estranho. Jogadas que não me lembro de ter
aprendido passam pela minha cabeça.
— É assim que se faz, Hollow! — grito antes que possa me conter.
Eles viram a cabeça na minha direção, com sorrisos no rosto.
Hawks passa por mim fazendo um movimento em curva,
arqueando pelo gelo antes de se aproximar e grita: — Dia de
manutenção, Kicks?
— É, preciso checar a cabeça. Ontem à noite, sabe? — digo como se
tivesse a mínima ideia do que estou falando.
Hawks bufa. — Não deve demorar muito. Lá em cima é um terreno
baldio de primeira.
Rio, alto e claro. Há quanto tempo não converso com colegas de
linha?
O treino passa rápido, transformando-se em um quatro contra três.
Hayes flutua para trás, tira o disco do taco de Fischer e comemora o
próprio roubo. Ele joga Fischer contra as placas, exibindo a vitória.
Sua missão autoproclamada: manter o gelo barulhento e ridículo.
Funciona.
Blair se posiciona no azul, alinha-se para a próxima investida. Ele
me encontra, seus olhos como oceanos em uma manhã nublada. Ele
dá um sorriso tão breve que chega a ser criminoso, o canto direito da
boca se franzindo antes de desaparecer.
Ele avança, rolando os ombros nos primeiros passos, cada linha do
corpo devorando o gelo. Ele comanda mais espaço do que ocupa.
A contradição nele me fascina. Arestas ásperas e confiança suave.
Potência bruta canalizada para velocidade controlada. Ele é o hóquei
destilado na arte do movimento.
Ele atravessa a defesa, com seus olhos azuis, azuis, fixos no disco.
Ele puxa o disco com força no meio da jogada, sem olhar para cima,
fazendo Hayes pensar que ele vai chutar alto antes de chutar baixo.
Ele dispara um chute rápido que acerta o ângulo superior e, quando
a rede balança, volta girando para sorrir para mim. Perfeição. Ele
carrega isso como suor.
O apito soa. A água quebra. Todos se dispersam, alguns correndo
para se manterem à vontade, outros se afastando para se esticar ou
conversar. Blair patina em direção aos bancos, em minha direção.
Ele pega uma garrafa da borda, despeja um borrifo grosso na boca
e me entrega enquanto se inclina, com os cotovelos apoiados nas
placas, até ficarmos sombra com sombra. Eu bebo, e ele me observa o
tempo todo.
Os gritos e batidas de tacos do time somem. O que eles veem
quando olham para nós? O que ele vê quando olha para mim?
O que eu faço? Como eu ajo?
— A médica autorizou você a ficar por aqui? — Sua voz se aloja
profundamente em mim, onde minha preocupação se aninha e
repousa. Por um momento, tudo parece estar bem.
Concordo com a cabeça e engulo em seco. — Por enquanto.
— Como está a cabeça?
— Melhor. — Ainda fodida além da conta.
Seu olhar permanece fixo em mim. Ele tem o oceano nos olhos,
todos aqueles lindos tons de azul entrelaçados. Quero desviar o olhar,
me esconder, e quero mergulhar direto no centro daquela
tempestade. Uma saudade pura aperta meu peito.
— Você me diria se algo estivesse errado.
Engulo em seco. — Eu te contaria.
Blair destranca o capacete, empurra-o para trás e passa a mão pelos
cabelos úmidos. Está escuro e as pontas estão encaracoladas. A barba
por fazer de um dia sombreia seu maxilar. Ele não se barbeou esta
manhã porque queria me levar a Dra. Lin o mais rápido possível. É
um visual rústico, feito para ele.
— Tem certeza de que está bem? — Sua voz suaviza. Seus olhos
percorrem meu rosto.
— Sim. — Tento sorrir, mas parece uma careta. — Estou bem. Um
pouco desorientado.
O apito do treinador enche o ar. O time se dispersa, voltando aos
treinos, mas Blair fica comigo. — Depois disso, vou levá-lo para
algum lugar tranquilo. Alongar, descomprimir. — Ele patina para
trás, sem tirar os olhos dos meus.
Finalmente – finalmente – ele volta a se concentrar no time, no
treinador, nos exercícios e me solta. Eu expiro, me inclino para a
frente, tremo.
Com a testa pressionada contra a placa, anestesiada pelo frio, deixo
meus pensamentos se infiltrarem no rinque. Isto é hóquei. Isto é
treino. Isto é lar.
Certo?
O mundo gira, gira e gira, e eu cravo meus dedos no plástico frio,
tentando me segurar. Fique firme, Torey.
Hawks e Hollow recomeçam, formando um círculo. Hayes ainda
está alegre. Continuo de olho em Blair, uma tempestade no horizonte
que pode destruir e reconstruir o mundo inteiro.
Deixe-me lembrar de tudo isso.
Deixe-me segurar firme.
— Tá vendo essa merda, Kicks? — a risada de Hayes ecoa pelas
paredes do vestiário. Ele é o palhaço da turma, com um sorriso que
cativa a todos. — O novato tem mãos, isso eu admito.
Forço uma risada. Parece tão vazia quanto me sinto? Eu deveria
conhecer todos os novatos – seus nomes, suas estatísticas, a maneira
como se movimentam, chutam, comemoram um gol.
Eu também deveria saber todas essas coisas sobre mim, mas não
sei.
— Ele vai ser um problema para os outros times — consigo dizer.
Hayes parece feliz com isso e passa a falar besteira do outro lado
da sala, importunando Fischer sobre suas dificuldades.
Meus olhos percorrem o vestiário, procurando por algo, qualquer
coisa, que me lembre. Qualquer coisa que eu reconheça. Armários,
equipamentos derramados, carpete encharcado de gelo. Bolas de fita
adesiva usada, rolos de fita adesiva. Tirando as cores diferentes,
poderia ser o vestiário de qualquer time, em qualquer arena.
Blair ficou conversando com o treinador no gelo, e Hayes e o resto
dos rapazes me arrastaram para o vestiário, aparentemente felizes
por me terem com eles. Fazia tempo que eu não sentia esse desejo, e
mesmo que esses caras sejam essencialmente – para mim – estranhos,
era impossível resistir.
Estou pagando por isso agora. Minha cabeça está gritando de novo.
É muito barulho comprimido em um espaço muito pequeno.
Há um taco de hóquei quebrado pendurado em uma parede,
violentamente partido ao meio. Alguém pegou um martelo e o
consertou ali, bagunçado, mas decididamente permanente. Não há
mais nada ao redor, nenhuma etiqueta ou placa, nenhuma foto
emoldurada, nada que explique o significado daquele pedaço de fibra
de vidro estilhaçado.
Algo quente e nervoso sobe pelo meu braço, deslizando pelo topo
da minha espinha.
— E aí, Kicks — diz Hayes. Ele franze a testa. — Você está bem,
amigo?
— Só cansado.
— Nem me fale. — Hayes se joga no banco ao meu lado. — O
treinador está nos dando um trabalho danado esta semana. Queria ter
tido um dia de manutenção hoje. Uma desculpa para a preguiça. —
Ele me dá uma piscadela, ainda brincalhão, mas um pouco da sua
alegria e jovialidade desaparecem quanto mais eu fico quieto. — Quer
cancelar hoje à noite?
— Essa noite?
— Jantar? Você, o Calle e a família? — Ele parece preocupado. —
A Lily está ficando louca sem você, mas se você não estiver a fim...
O ar fica quebradiço. Lily?
— É, claro. — Meu maxilar se contrai. Manter essa farsa é como
tentar segurar um maremoto com as próprias mãos, mas não tenho
outra opção. Mergulhar de cabeça ou perder tudo, e eu não posso, não
vou perder isso. — Desculpe, tive uma noite longa. Depois da
pancada... — Minha voz se perde, esperando que ele entenda, quando
eu nem entendo.
Hayes se aproxima de mim. Sua voz fica mais grave, perdida para
todos os outros na sala. — É, o Calle me contou. Desculpa, cara.
Concussões são um saco. — Ele gesticula vagamente em direção à
própria cabeça. — Fiquei duas semanas fora com a minha última
concussão. Não consegui fazer nada. Fiquei sentado até achar que
meus olhos iam cair.
Concussões... recorrentes.
Seus olhos se demoram nos meus enquanto fico em silêncio, e ele
morde o lábio inferior. — Tem certeza de que está bem? O Calle tá
morrendo de preocupação, cara.
Olho novamente para o taco quebrado, percorrendo as bordas
irregulares com os olhos, em busca da lembrança que me pertence.
Algo – há algo ali –, mas não consigo encontrar. Em vez disso, desvio
o olhar para o carpete, para uma pilha de lascas de gelo derretendo
das lâminas dos patins de Hayes.
Hayes não diz nada. Ele funga e esfrega a mão no queixo. — Olha,
se precisar de alguma coisa, estou aqui para você, tá? Sou mais do que
o braço direito do Calle. — Sua mão pousa no meu ombro e aperta.
Gostaria de me lembrar da amizade dele, porque acho que adoraria
recorrer a ele e desabafar. Todos os meus medos, todos os meus
terrores, as incógnitas, as perguntas e as peças que faltam. Estou
perdido nesta escuridão, e queria tanto que houvesse alguém a quem
eu pudesse recorrer, alguém que eu não partisse ao meio se admitisse
a verdade. Alguém cujo coração não se despedaçasse se eu dissesse:
“Não me lembro de você”.
Mas tudo o que tenho é isso. A escuridão, meu medo e minha
sensação de que algo está errado, de que algo está muito, muito
errado.
E agora, este taco quebrado, uma lasca no meu subconsciente. A
fita na lâmina está desgastada, desgastada pelo jogo, manchada de
borracha. Usado em jogo. Qual jogo? Quando?
Lembre.
Nomes, datas, rostos. Giram ao meu redor, imagens desconexas. A
sensação do gelo sob meus patins, o baque satisfatório de um chute
certeiro, o rugido da torcida depois que eu – surpreendentemente –
marco um gol. Lembro-me da dor de um chute bloqueado. Patinando
tão rápido que parecia que o vento estava no meu rosto. O impacto
de estremecer os ossos de uma colisão contra as placas.
Mas detalhes, especificidades, memórias reais – tudo isso
permanece frustrantemente fora de alcance.
— Kicks?
— Estou bem. — Sacudo a cabeça e me viro para Hayes a tempo de
ver Blair finalmente entrando na sala. Ele dá um soquinho nos nossos
companheiros de time ao passar e solta uma risada de algo que
Fischer diz. No armário, ele tira o short, a camisa de treino e o
protetor, deixando tudo em uma pilha encharcada de suor em sua
baia. Então, ele vasculha a sala, com os olhos brilhando como laser,
até me encontrar. A tensão em que ele estava se segurando, a tensão
em seu maxilar e têmporas, se dissipa.
Sorrio e ele sorri de volta.
Hayes aperta meu ombro novamente e se vira para os patins. Eu o
pego segurando um sorriso enquanto amarra os cadarços. Ele viu
isso. Ele viu isso, e acho que ele sabe sobre Blair e eu. E... isso é bom.
O olhar de Blair é implacável, me prendendo enquanto ele
atravessa a sala. Ele não tem mais tempo nem espaço para mais
ninguém. Está focado em mim.
— Vamos lá, Kicks — diz Hayes, com um tom provocador quando
Blair nos alcança. — Vamos te colocar em movimento. O velho Calle
aqui precisa esticar essas coxas.
Blair revira os olhos. Hayes sorri para ele. Blair balança a cabeça e
se vira para mim como se dissesse: “Está vendo essa merda que eu
aguento?”. Como se eu estivesse na brincadeira e fosse isso que a gente
faz.
Os melhores amigos que um cara pode desejar. #BFF
Lembre.
Blair me leva por um corredor estreito, ombro a ombro, até que ele
abre uma porta que leva a uma sala de treinamento escura e
abandonada.
Um clique sólido nos fecha, sozinhos, em uma bolha de sombra e
silêncio. Tento mapear o espaço ao meu redor na luz fraca dos tetos,
suave e baixa.
A sala é pequena. No centro, um tapete grosso amortece o chão. Há
kettlebells e um conjunto de pesos em um canto. As luzes se
concentram no tapete central, mas sombreiam o resto da sala.
Blair já está no tapete. Ele se ajoelha graciosamente. Ele se
espreguiça, com os braços acima da cabeça, e depois se inclina para a
frente. Sua coluna se solta com uma série de estalos enquanto ele
respira fundo. — Vamos lá, amor. Vamos fazer isso. Você vai se sentir
melhor.
Eu o sigo, dobrando-me até os joelhos. Vou me envergonhar, com
certeza, porque nunca me alonguei como Blair. Isso é ioga, pilates e
reabilitação, tudo ao mesmo tempo, e o máximo que já fiz foi o
alongamento básico do tipo “não machuque as pernas” que ensinam
na categoria adolescente, quando você ainda é jovem e elástico e não
precisa ficar assombrando a sala do personal trainer. Blair parece
esperar que eu vá direto ao ponto, que siga a sua forma perfeitamente,
e é assim que tudo vai por água abaixo?
Mas, assim como durante os treinos, como com a Dra. Lin, algo
dentro de mim assume o controle. Instinto, subconsciente ou minhas
memórias lutando para se libertar? É algo instintivo; deslizo
suavemente para o primeiro alongamento, acompanhando os
movimentos de Blair.
Endireito a coluna. Meus músculos doem, ecos de pancadas
persistentes e hematomas por todo o corpo que não me lembro de ter
sofrido. Ombros, quadris, uma queimação no quadríceps. Patinei
muito, claramente. Estou praticando um esporte mais físico
ultimamente.
Solto o ar lentamente enquanto nos alongamos juntos. Meus dedos
roçam o tapete, mas minha testa fica a centímetros dele.
Blair se mexe, sai da pose e se ajoelha ao meu lado. Minha mente
gira. O que devo fazer? Devo segui-lo? Devo...
E, ao mesmo tempo, o instinto me puxa, me jogando para a frente.
Expiro o ar enquanto Blair desliza a mão pelo centro das minhas
costas, até os quadris.
Ele me guia para a próxima pose. Eu me empurro para trás, com as
mãos espalmadas, o corpo em uma linha reta e perfeita. Inspiro,
encho os pulmões e exalo lentamente pelo nariz. Meu corpo sabe
disso, mesmo quando meu cérebro não sabe.
Meus músculos ainda gritam em protesto, mas eles são maleáveis,
dispostos a dobrar, curvar e esticar enquanto Blair me guia em cada
movimento.
Ele se aproxima. Fecho os olhos, sentindo a tontura tomar conta de
mim enquanto ele pressiona delicadamente meu quadril machucado.
— Dói? — Sua voz vibra através de mim.
— Não. — A palavra escapa antes que eu consiga impedi-la. Abro
os olhos e encontro seu olhar. Ele está me observando.
Blair ajusta o ângulo da minha pélvis. Prendo a respiração e me
empurro contra o seu toque. Isto é... Ele já me tocou assim antes.
Claramente, neste contexto, mas...
As mãos dele estavam em meus quadris assim no escuro, sem nada
entre nós.
— Ótimo — murmura Blair. — Assim mesmo.
Inspiro. Expiro. Torço. Sinto o alongamento nos oblíquos.
Mantenho a postura, fecho os olhos. Minha respiração é profunda e
uniforme, e me inclino sem pensar conscientemente.
Os lábios de Blair roçam minha têmpora, doces e breves.
Tudo falha – minha respiração, meu coração, minha postura.
Minha expiração falha. Abro os olhos de repente e encontro os dele.
O olhar de Blair é firme. Ele desliza a mão pelo meu braço,
passando o polegar pelos meus dedos e deslizando-os entre os meus.
Ele entrelaça nossas mãos, segurando meus dedos nos dele.
Sombras pintam seu maxilar, suas maçãs do rosto, seus lábios.
Deus, seus lábios. Não me lembro, mas há coisas que são instintivas,
conhecidas até os ossos. Ele cantarola quando está feliz. Ele pode me
fazer gozar com o menor toque. Seu toque é doce e suave em lugares
onde nenhum homem jamais esteve em mim. Este corpo que habito,
mas não reconheço, responde como se tivesse sido feito para ele.
Ele está tão perto. Sinto uma queimação nos lábios, como se tivesse
sido beijado por um fantasma.
Blair solta os dedos dos meus. Aperto os olhos.
— Respire. — Sua voz é um sussurro, perto do meu ouvido. — Me
avise se precisar parar.
Ele enfia dois dedos nos tendões tensos da base do meu crânio. —
Você está indo muito bem. Continue se mantendo firme até sentir o
alívio.
Estou centrado.
Exceto pela maneira como meu coração dispara quando seus olhos
encontram os meus.
Exceto pelo modo como seu toque me derrete.
Exceto pela verdade.
— Torey... — ele fala.
O som do meu nome desfaz algo dentro de mim. Há uma pergunta
enterrada nele, um apelo ou uma promessa, coisas que não consigo
decifrar porque a chave para entender Blair reside em algum lugar
nos aposentos trancados da minha mente. Quantas vezes ele já disse
meu nome assim?
— Estou bem. — Digo a ele.
O que mais posso dizer? O que o Torey que ele conhece – aquele
que se lembra do primeiro beijo, da primeira briga, da primeira vez
que decidiram que valia a pena o risco – diria agora?
Seu toque é tão gentil.
A maneira como meu corpo responde a ele, a maneira como meu
coração reconhece o que minha mente não consegue; isso é perigoso.
Meus pensamentos deslizam e se emaranham, desejando, temendo,
precisando, tudo ao mesmo tempo. Será que eu sempre senti isso, ou
é apenas porque todo o resto foi arrancado de mim?
Agora mesmo, neste segundo, quero que Blair me beije. Quero
encher meus pulmões com o hálito dele e ficar nesta sala com ele até
que a eternidade nos leve embora.
Eu quero. Eu anseio. Como posso querer algo que não me lembro de
ter tido?
Nunca beijei um homem antes. Não sei o que há além disso. Não
sei o que há dentro de mim.
Blair segura minha bochecha, passando o polegar pelo meu
maxilar. — Nós vamos superar isso.
E então não consigo mais olhar, porque, meu Deus.
Se ao menos ele soubesse, e eu pudesse desabar em seus braços e
contar-lhe a verdade, mas não posso. Se o fizesse, partiria seu coração,
despedaçaria todo o seu amor, este silêncio delicado e a escuridão
morna que me envolve, assim como todas essas partes de mim,
rasgadas e dilaceradas, que imploram para que eu me agarre e me
lembre.
Estou preso entre duas versões de mim mesmo: o Torey que
pertence aqui com Blair e o Torey que está perdido no espelho
rachado da própria mente, agarrando-se a fragmentos de uma vida
que não reconhece mais. Não consigo dizer qual deles sou realmente
eu.
Os olhos de Blair buscam os meus. Seus lábios se abrem, e então há
um sussurro, um roçar de seus lábios nos meus. Ele se afasta, recua,
mas nossas mãos ainda estão entrelaçadas, nossos olhos fixos.
Estamos tão perto, quase corpo a corpo. Seu peito sobe e desce contra
o meu.
Meu corpo queima, uma chama que eu sei que pode me consumir.
E eu deixaria.
Quatro
Sombras percorrem o painel enquanto Hayes me leva para fora da
garagem. Blair teve que ficar para uma reunião e eles devem ter
combinado que Hayes me levaria para casa, e a casa, aparentemente,
é a casa de Blair. Se ele e eu moramos juntos oficialmente e
abertamente é um mistério, mas Hayes pelo menos sabe exatamente
para onde me levar.
O que aconteceu com minha caminhonete de Vancouver?
Aparentemente, essa é mais uma ponta solta na confusão da minha
memória.
Traços de luz tropical tremulam entre as árvores. É muito mais
claro aqui do que em Vancouver. Mesmo de óculos escuros, meus
olhos doem. Hayes é um conforto e um desafio. As brincadeiras
descontraídas, as provocações, o ouvir enquanto ele divaga – sim, eu
consigo fazer tudo isso. Mas quando ele é específico e me pergunta o
que eu acho dos treinos, das nossas jogadas ou da nossa jogada em
desvantagem, eu fico perdido.
O que ele prova quando pergunta: — Tem certeza de que está tudo
bem, Kicks?
Meu coração está batendo forte. — Sim, estou bem.
Hayes assente, com o olhar fixo na estrada. — A noite passada foi
difícil, né?
— Não foi incrível.
Ele balança a cabeça. — Maldito Zolotarev.
Eu, hum… concordo, como se eu tivesse alguma ideia do que ele
está falando.
Viramos, nos contorcemos e entramos em um bairro de casas
imponentes. É um bairro agradável, mais de um quilômetro acima do
meu antigo complexo de apartamentos em Vancouver. Blair mora –
ou nós moramos? – em uma casa de frente para o canal, no canto mais
tranquilo de Punta Gorda.
— Lar, doce lar — diz Hayes, entrando na garagem de Blair.
É uma casa ampla, baixa sob o sol da Flórida, situada em um
terreno de esquina. Aqui, as pessoas valorizam seu espaço pessoal.
Os quintais são imensos e os vizinhos são mais um conceito do que
uma realidade. Um canal margeia o quintal em dois lados. É um
recorte de revista. Ela exala sucesso, serenidade. E exala algo muito,
muito além do meu alcance.
— Valeu, cara. — Saio do Escalade de Hayes como se ali fosse meu
lugar.
— Sem problemas. Estou sempre feliz em ser o Uber simpático da
vizinhança. — Ele abre um sorriso largo e radiante, e eu me vejo no
reflexo dos seus óculos escuros. Não é à toa que todo mundo fica me
perguntando se estou bem; estou me esforçando muito para esconder
o quanto estou apavorado.
Estendo o punho para um cumprimento e pego minha bolsa. — Te
vejo mais tarde.
Ele recua, abre a mão, faz cara de roqueiro e imediatamente volta a
sorrir com toda a força. — Até mais, mano!
Os pneus dele guincham quando ele dá ré em um cavalo-de-pau e
vira seu Escalade na rua sem saída. Este não é o tipo de bairro para
derrapagem, mas Hayes não é o tipo de cara que se importa com isso.
Ele buzina uma vez e acena pela janela do motorista. Espero na
entrada da garagem até que ele faça a curva e desapareça na esquina.
Isso já vai ser difícil o suficiente sem uma plateia.
Preciso tentar quatro vezes para encontrar a chave certa para a
porta da frente.
Quando acerto, abro a porta da frente e entro em um espaço
palaciano: sala de estar, cozinha e varanda, tudo perfeitamente
integrado. Uma parede é feita inteiramente de portas de correr de
vidro. E, sim, lá está, o pano de fundo para todas aquelas fotos minhas
que encontrei no meu celular. A piscina, as espreguiçadeiras, o céu
azul perfeito. Nosso quintal.
Cozinha à esquerda. Aço inoxidável, mármore branco. Uma ilha
grande o suficiente para um time inteiro de hóquei. Nosso banco no
rinque é menor que isso. Um corredor à direita. Portas e quartos.
Nosso quarto.
Não reconheço nada disso.
Não consegui dar uma boa olhada esta manhã. O quintal e a casa
estavam envoltos em escuridão, e com Blair acordado, eu não podia
ficar bisbilhotando e investigando minha própria vida. Eu tinha
comido uma banana porque ela estava no balcão, e não precisava
procurar uma caneca, uma tigela ou uma colher.
Então, estou em casa, num lar que não parece ser.
Lembre.
Ou pelo menos melhore em fingir.
Preciso aprender a minha própria vida, por dentro e por fora.
Ando na ponta dos pés, meus passos ecoando pelo espaço. O estilo
de Blair é minimalista, mas vivido. Deixamos nossos bonés e bolsas
de equipamentos no canto da cozinha, jogamos a correspondência no
balcão. Canecas de café aguardam para serem lavadas na pia.
Garrafas vazias de Vitaminwater e Gatorade se amontoam.
Há fotos na geladeira, coladas ao lado da agenda mensal de treinos
e viagens do time e do calendário de coleta de lixo. São
principalmente dele e de mim: uma selfie na piscina, nós dois no gelo
durante o aquecimento para o jogo. Algumas outras cheias de rostos
que não reconheço.
Ele cozinha, pelo menos um pouco. O conhecimento surge do nada,
algo que eu sei do nada. Ele cozinha. Eu me sento lá, no banquinho
em frente ao fogão, e às vezes ele me dá algo para fazer – picar isso,
descascar aquilo –, mas na maioria das vezes ele cozinha e nós
conversamos. Dividimos uma garrafa de Gatorade. Uma vez, tentei
despejar na boca dele porque suas mãos estavam cobertas de massa –
massa de quê? –, mas errei e derramei no queixo e no peito dele. Ele
gritou; eu ri e depois derramei mais. Ele cozinhou o resto do jantar
sem camisa, e eu disse...
O que eu disse? Droga, o que eu disse? Aquilo era uma lembrança?
Tem que ser, tem que ser. Mas para onde isso vai dar? O que
aconteceu depois?
Há uma tigela de frutas no balcão, a mesma tigela de onde peguei
minha banana. Laranjas, mangas, maçãs. Comemos mangas juntos. O
suco doce e pegajoso das mangas em nossos dedos, o braço dele em
volta da minha cintura, me puxando para perto, nossos peitos nus se
tocando...
Essas memórias são como filmes caseiros desbotados, as cores
desbotadas, os detalhes caindo na estática. Incompletos, inacabados.
Nunca saem da pós-produção.
Um leve toque do meu celular quebra o silêncio. Uma mensagem
de Blair.
Esta reunião não acaba nunca. Como está a cabeça?
Sorrio. É automático, um reflexo, assim como a terna excitação que
me percorre.
Nada mal. Estou melhor.
Dedos cruzados para que isso se torne realidade.
O alongamento ajudou.
E ajudou mesmo. Seja lá o que for, alguma combinação de
alongamento, centralização ou trabalho de equilíbrio, aqueles vinte
minutos no escuro pareceram doze horas de sono e uma dose de bons
analgésicos.
Bom.
Hayes disse que Blair estava preocupado comigo, o suficiente para
ser perceptível. Eu mal conheço Blair, mas está claro que ele não é um
livro aberto e efusivo como Hayes. Se você consegue entender as
emoções dele, elas devem estar o dominando, e se Blair está tão
preocupado hoje, agora, depois de uma noite ruim e uma pancada...
Olho fixamente para a tela, com meu polegar pairando sobre o
teclado.
Como você está?
Em termos de respostas, elas são bem fracas, mas preciso começar
a retribuir aqui.
Seguindo na marra.
Ele envia um sorriso derretido.
Chego em casa logo.
E então aparece um emoji de coração.
Tudo dentro de mim para. Fecho os olhos, jogo o celular no balcão
e afundo o rosto nas mãos. Como respondo a isso? O que digo ao
homem que me ama quando não me lembro de ter segurado sua mão?
O som da risada de Blair flutua na minha mente, claro como o dia,
me inundando.
Como é essa a minha vida? Como eu consegui isso?
Inspire, expire.
Lembre.
E foco. Estou em uma missão aqui: me encontrar. Seguir as
migalhas de pão da minha vida. Segui-las tão bem que eu possa entrar
nesta vida, mesmo sendo um estranho. Um cuco.
A sala de estar está confortavelmente caótica. Há um sofá secional
enorme estacionado em frente a uma TV de tela plana igualmente
enorme. Garrafas de água e controles de videogame lotam a mesa de
centro. Chinelos e tênis estão jogados na beirada do tapete felpudo.
Almofadas parecem empilhadas para acomodar duas opções de
relaxamento no sofá: dois caras esparramados com os dedos dos pés
juntos, ou dois caras colados no canto, entrelaçados. Eu me enrolo de
lado como se pudesse adivinhar memórias em algodão e enchimento.
Claro que não funciona assim. Amnésia não se cura por osmose de
móveis.
Mesmo assim, me acomodo e pego meu celular novamente. Se
estou seguindo migalhas de pão, há pelo menos uma trilha que me
levará a algum lugar definitivo. Abro o YouTube.
Antes, havia dezenas de vídeos dedicados a Torey Kendrick,
aquele perdedor, aquele fracasso de recrutamento, um zé-ninguém
que estava esperando até ser mandado embora da liga. Nunca apareci
nos melhores momentos, mas com certeza apareci em muitos vídeos
dos ‘Maiores Fracassos’.
Agora?
Não reconheço o cara na tela.
Estou voando pelo gelo, um borrão azul e branco, com o disco
tocando na ponta do meu taco. Meu pai costumava me dizer que eu
tinha magia nas mãos quando era criança, e agora parece que tenho.
No meu celular, sorrio depois de enterrar o disco no fundo da rede.
Esse Torey, o dos vídeos, é destemido. Ele é um jogador, totalmente
no controle, mágico pra caramba no gelo. Ele é exatamente quem eu
sonhei que poderia ser quando criança, e ele é tudo o que eu
acreditava que estava morto e enterrado em mim.
Estou observando um sonho despedaçado que foi colado
novamente.
Eu não sou esse Torey.
Esse Torey, esse fantasma lindo e confiante na tela, existe apenas na
luz bruxuleante desta vida que não consigo alcançar. Ele é um
fantasma assombrando o que não posso tocar. O que dói mais: seu
sonho se tornando realidade e perdê-lo, ou perceber que ele se tornou
realidade para outra pessoa?
Prefiro ficar no sofá e desaparecer do que continuar depois disso.
Deveria ter guardado os vídeos do YouTube para nunca mais.
Demoro um pouco para entrar no nosso quarto.
Minhas roupas estão quase todas no cesto, algumas empilhadas ao
lado. No closet, reconheço ternos, camisas sociais e roupas do meu
tamanho. As gavetas guardam meus shorts, minhas camisetas, minha
cueca boxer da sorte. No banheiro, a segunda pia guarda meu creme
de barbear, a marca de lâmina que eu gosto, a pomada que combina
melhor com meu cabelo bagunçado.
Há vestígios de mim por todo o lado. Este é o meu lado da cama.
Este é o meu carregador de celular na mesa de cabeceira.
Dentro da gaveta, há pastilhas para tosse, cabos extras, ataduras
esportivas amassadas. Analgésicos. Um caderno de esboços, que é...
Faz séculos que não desenho. Eu costumava passar horas rabiscando
nas longas, longas viagens de ônibus no ensino fundamental,
enchendo livro após livro com esboços de pistas de hóquei, jogadores
de hóquei e jogadas legais.
Mas isso foi há muito tempo.
Aparentemente, voltei a me concentrar. O caderno de esboços está
quase cheio. São principalmente desenhos dos meus companheiros
de time, cenas do rinque, momentos dos jogos, em tempo real,
imagens congeladas. Acho que tenho um tema.
Paro em um esboço de Blair.
É surpreendente. Íntimo. Meu lápis o capturou em nossa cama, seu
olhar fixo em mim. Ele está artisticamente coberto pelas linhas de
grafite de um lençol, mas todo o resto... Ele salta da página como se
estivesse prestes a me alcançar.
Traço as linhas do seu maxilar, o ângulo do seu ombro. Sei que o
esboço não pode me atingir, mas quase espero que Blair me puxe para
os lençóis amassados e me beije até eu perder os sentidos.
Deus. A dor no meu peito aumenta. Acho que quero o que esta
imagem promete. No mínimo, quero me aninhar dentro desta
memória e saber. Quero entender.
Tenho muita inveja do Torey de ontem que viveu tudo isso, que teve
tudo isso.
Não me lembro de ter amado Blair, mas devo amá-lo –
profundamente. Por que mais eu colocaria tanto do meu coração e
desejo neste esboço?
Fecho o caderno de esboço e o guardo de volta na gaveta.
Na mesa de cabeceira de Blair, há um frasco de lubrificante e, na
gaveta, uma caixa de camisinhas ultrafinas.
Quer dizer, eu sabia. Eu sabia o que significava estar com um
homem, acordar na cama com um homem que diz que te ama e te
beija no escuro.
Um ano atrás, dois anos atrás, três anos atrás, eu tinha um
pensamento aqui e ali, uma curiosidade da meia-noite e uma busca
perdida por pornografia, mas era só isso. Se eu pensasse nisso, bem.
Todo mundo pensa nisso, certo? E se eu às vezes sonhasse com
alguém me beijando que fosse maior do que eu, mais alto, mais
corpulento? E se eu gostasse desses sonhos, talvez até demais, e às
vezes acordasse e quisesse...
Como transpus a mim mesmo? Como passei da minha própria
recusa em me maravilhar – mesmo que por uma hora, ou a duração
de um único devaneio – para isto? Como me permiti ser feliz?
Deus, eu queria muito lembrar.
Deslizo a mão pela colcha, na esperança de que a magia da manga
reacenda. Sem sorte, claro, não quando se trata das memórias mais
importantes que preciso recuperar.
O cheiro de coco sussurra no ar, quente e maravilhoso. Como um
esquisito em plena atividade, afundo o rosto no travesseiro de Blair e
cheiro. É o cheiro dele, e eu me desmancho, derretendo-me em seu
travesseiro, em seu lado da cama.
Provavelmente já estive aqui antes, de bruços no travesseiro dele.
Saio da cama num piscar de olhos, com as mãos passando pelos
cabelos. Minhas mãos tremem, meu coração dispara. É demais, não é
o suficiente, é tudo e nada ao mesmo tempo. Preciso saber e estou
com medo de descobrir.
Há uma porta que leva à varanda do quarto, outra porta de correr
de vidro que vai até a parede. É uma fuga, e eu a aproveito.
A varanda é de tirar o fôlego, assim como o quintal. É uma sala de
estar ao ar livre com outra sala de estar secional enorme, outra TV
enorme que se vê do sofá e da piscina, espreguiçadeiras – já fui
fotografado lá – e uma mesa de jantar ao ar livre. Longas fileiras de
luzes globo se erguem acima da minha cabeça. Da beira do pátio, um
gramado inclinado desce até o canal, uma larga faixa de água que
envolve a casa. Não há vizinhos do outro lado, apenas palmeiras e
natureza intocada.
A água bate suavemente contra o cais, pequenas e cuidadosas
ondas, sussurrando para mim.
Esta casa, esta sensação de lar, esta carreira incrível. Elas não são
minhas. Não podem ser.
Mas eu quero ser esse Torey. Quero pertencer aqui, na vida do Blair.
Quero pertencer com ele. Quero amá-lo.
Mas falta tanta coisa.
Espere. Eu tenho que esperar.
Lembre.
Quando Blair chega em casa, estou de volta ao quarto, com o rosto
enterrado no travesseiro dele, dormindo profundamente.
Acordo de repente quando ele se estica de lado, de frente para mim.
Num piscar de olhos, me apoio nos cotovelos, tentando fingir que
estou fazendo outra coisa além de inalar o travesseiro dele, tentando
abrir meu crânio e despejar o cheiro dele no meu cérebro. Não sei há
quanto tempo estou inconsciente, mas é tempo suficiente para as
sombras do fim da tarde se estenderem pelo chão do quarto.
Não é longo o suficiente para dar sentido a nada disso.
— Ei, ei — diz Blair. — Desculpa, não queria te acordar.
Desabo de bruços, com o rosto enfiado no travesseiro dele. Ele
desliza os dedos pela minha cabeça, cravando-os no meu couro
cabeludo e deslizando pelos meus cabelos. — Mmph. — É tudo o que
consigo dizer.
Quando rolo novamente, imitando-o, apoiado no cotovelo ao lado
do corpo, sua mão desliza do meu couro cabeludo para o meu queixo
e a deixa cair no colchão. Instintivamente, tento alcançá-lo,
entrelaçando-nos.
Ele tomou banho e se trocou no rinque, e seu cabelo ainda está
molhado. — Como você está? — Sua voz é suave e baixa. — Desculpe
o atraso. Parei para comprar aquelas tortas de limão.
Eu odeio isso. Tem tanta coisa que não lembro, tanta coisa que eu
deveria saber, mas não sei. Tanta coisa que não consigo fazer ou ser.
Há um ano inteiro perdido entre nós.
— Precisamos ir logo — diz ele. — Hayes e Erin estão nos
esperando por volta das sete.
Pisco. Outra coisa que não lembro. Espera, não, Hayes disse mais
cedo hoje... — Isso mesmo, jantar.
Ele assente. Mesmo assim, nenhum de nós se move.
Seu aroma, aquela mistura inebriante de coco e Blair, me envolve.
Meu corpo se lembra. Meu corpo anseia.
Quero traçar as linhas do seu rosto, sentir o calor da sua pele contra
a minha. Recostar-me e deixá-lo me seguir, sentir a força que ele me
envolve. Perder-me nas profundezas dos seus olhos. Neste momento,
quero a lembrança do nosso primeiro beijo de volta mais do que
qualquer coisa que eu já quis, porque se eu tivesse isso, talvez tivesse
a coragem de alcançá-lo e puxá-lo para perto.
— Torey?
Pisco, voltando meu foco para o que ele está dizendo, não para a
maneira como seus lábios se movem quando ele fala.
— Tem alguma coisa em mente, Kicks? — Sua voz diminui e seu
sorriso se derrete.
— Eu... — Pigarreio. — Pensando no jantar.
Até parece. Respire. — Como foi com o treinador?
Ele se aproxima. — Tudo bem. Nada demais, revisando as
convocações. — Ele passa a mão no meu quadril.
O calor da palma da mão dele penetra no meu short. Poderia ser
agora. Meu segundo primeiro beijo. Eu poderia fazer isso, me
inclinar, levantar o queixo...
Os olhos de Blair escurecem. — Venha aqui — ele diz.
Estou me movendo antes que minha mente me alcance, me
inclinando em seu peito. Ele é tão sólido, tão real. Eu quero esta vida,
este homem. Quero me lembrar de amá-lo, e quero amá-lo
novamente. Vai acontecer, meu segundo primeiro beijo...
Mas não. Ele roça os lábios na minha testa, um toque
dolorosamente gentil. Fecho os olhos.
— Deveríamos nos preparar. — Sinto seus lábios se moverem
contra minha pele enquanto ele fala.
Cantarolo, com o nariz em seu queixo, e enterro meu rosto em sua
garganta. Consigo imaginá-lo me guiando para trás, passando suas
mãos grandes por baixo da minha camisa.
Blair aperta a mão no meu quadril. — Torey... Protocolo de
concussão.
— Eu sei, eu sei. — Porra. Nada de atividades extenuantes.
Ele concorda, um músculo saltando em seu maxilar.
— Não podemos nos atrasar — eu digo. — Hayes vai comer tudo.
— As palavras saem não sei de onde. Memória? Instinto? Puro
palpite?
Blair dá uma risadinha. — Boa observação. Ele é um triturador de
lixo humano.
Um ponto para mim.
— Mas você também. Não esqueça do seu calção de banho. Da
última vez que estivemos lá, você acabou nadando de cueca.
Da vitória à derrota.
Ele diz isso como uma piada interna, uma lembrança
compartilhada que deveria provocar risos e lembranças carinhosas.
Última vez. Uma frase descartável e inofensiva, mas toda ‘última vez’
vai ser assim.
Blair sobe em mim para sair da cama, parando para me prender,
enterrar o rosto no meu pescoço e mordiscar minha clavícula. Eu
tento envolver meus braços em volta do pescoço dele, mas ele agarra
meus pulsos e beija a parte interna de cada um antes de seus pés
tocarem o chão. Não consigo respirar, porra.
Então ele vai embora e entra no banheiro principal.
Empurro as palmas das mãos contra os olhos até que estrelas
brilhem atrás das minhas pálpebras.
O chuveiro começa. Blair reaparece, estendendo a mão.
Putz. Meu coração dispara. Eu estava pronto para um beijo e
pronto para imaginar um pouquinho mais, mas isso? Tomando
banho juntos?
— O chuveiro está esquentando — ele diz, me ajudando a me
levantar. — Vá com calma.
Ele me puxa para perto, me abraça, inspira meu cabelo e depois se
afasta. Ele fecha a porta do quarto ao sair. Eu pisco.
O chuveiro ajuda, a água quente e o vapor dissipam um pouco da
confusão. Deixo a memória muscular assumir o controle, pegando os
produtos sem verificar os rótulos. Os cheiros são reconfortantes. Os
cheiros dele. Os nossos cheiros.
Enrolado numa toalha, olho para mim mesmo no espelho
embaçado. Meu reflexo me olha de volta, conhecido e desconhecido.
Este é meu rosto, meu corpo, minha vida.
Eu me visto rápido, sem pensar muito. Minhas roupas nas gavetas
desta casa são mais uma evidência da minha vida.
Blair está na cozinha, enchendo um saco de papel com salgadinhos,
refrigerante e tortas de limão. A casa parece diferente com ele aqui,
mais aconchegante, mais viva.
— Pronto? Você sabe como a Lily fica quando a gente se atrasa.
Lily. O nome me faz pensar, uma imagem meio formada de uma
garotinha com uma trança embutida e um sorriso banguela. Filha de
Hayes? Parece certo, mas não tenho certeza. É mais uma peça do
quebra-cabeça que estou tentando desesperadamente resolver.
— Pronto. — Encontro-me com ele na ilha, e ele me olha de cima a
baixo. Que viagem do passado me sentir tão agitado e inexperiente
novamente. Ele me puxa para perto, deslizando a mão em volta da
minha cintura e a apertando contra a parte inferior das minhas costas.
Estou colado a ele, todo eu contra todo ele.
Levanto o queixo, um convite claro. Por um instante, Blair me olha,
com uma suavidade insuportável nos olhos. Ele se inclina e minha
respiração fica ofegante. Estou pronto. Acho.
Seus lábios pousam na minha testa e permanecem.
Expiro e o abraço com mais força. Eu consigo. Eu posso ser o Torey
que Blair ama, o Torey que eu quero desesperadamente lembrar de
ser.
Cedo demais, ele se afasta. — Deveríamos ir — sussurra. — Ou
provavelmente não sairemos daqui.
Solto uma risada, mas estou tremendo. É tentador, tão tentador me
esconder aqui, nesta bolha entre mim e Blair, mas não posso me
esconder para sempre. Não posso evitar o mundo ou a minha vida.
— Promessas, promessas.
— Mais tarde — ele diz com uma piscadela.
O caminho até a casa de Hayes é um borrão de ruas ladeadas por
palmeiras. O céu estende finas faixas de coral e índigo sobre o que
resta da noite. Os postes de luz piscam vivos lá em cima, lançando o
mundo naquele azul-claro da Flórida. Fragmentos de memória
passam rapidamente pelas palmeiras salpicadas de sol. O tom
particular de amarelo daquela casa. A fonte borbulhando naquele
quintal. A vista do canal enquanto atravessamos uma ponte elevada.
É um déjà vu ao contrário – conheço essas ruas, essas curvas, mas não
consigo lembrar como ou por quê.
O perfil de Blair é delineado pela luz. Ele cantarola junto com o
rádio, os polegares batendo no volante, à vontade com a própria vida.
Feliz.
Estendo a mão e entrelaço nossos dedos. Ele leva minha mão aos
lábios e os beija. — Ei — diz ele suavemente. — Você está bem?
Respiro fundo e solto o ar lentamente.
— É — eu digo, e pela primeira vez desde que acordei, acredito. —
Estou bem.
Talvez nesta vida, nesta versão de mim, estar bem seja tão fácil
quanto respirar.
Cinco
A casa de Hayes fica em uma rua sem saída tranquila em uma área
nobre de Punta Gorda. Meus chinelos batem na calçada enquanto
caminhamos até a porta da frente. Há um momento antes de a porta
se abrir quando vejo meu reflexo na janela. Não meu rosto, apenas o
contorno do meu corpo, distorcido e esticado pela luz suave.
Uma luz quente se espalha pela varanda quando Hayes abre a
porta, e uma onda de aromas e sons me atinge. Churrasco e mar,
carvão, açúcar mascavo e nogueira. Meu estômago ronca.
— Com fome? — pergunta Blair. Seu sorriso é tão próximo que
sinto o calor dele na minha bochecha.
Sorrio de volta, envergonhado. — Morrendo de fome.
— Kicks e seu poço sem fundo — grita Hayes da porta da frente.
— Nunca mude, cara.
Há algo de fácil no jeito descontraído de Hayes se mover pela vida.
Ele está descalço e com o cabelo molhado. Veste uma camiseta e short
surrado e parece o oposto de sobrecarregado. Seu sorriso é largo e
acolhedor quando ele se afasta para nos deixar entrar.
Seguimos Hayes até a cozinha. Uma mulher está lá, fatiando
tomates. Ela parece ter a mesma idade de Hayes, com cabelo castanho
preso em uma trança, vestindo short, camiseta e sandálias. Erin. O
nome dela é Erin. Esposa de Hayes.
Ela sorri ao nos ver. — Sinta-se em casa. O jantar está quase pronto.
— Onde está a baixinha? — pergunta Blair.
— Em seu habitat natural. — Hayes inclina a cabeça em direção ao
quintal. — Aterrorizando os brinquedos da piscina. Ela está ansiosa
a tarde toda. Não parava de perguntar quando você chegaria.
Blair dá uma risadinha. — Parece a Lily.
Um grito de criança ecoa alto e claro. — Torey!
Um borrão rosa e loiro entra correndo pelas portas do pátio e se
lança contra mim e Blair. A visão dela e seu sorriso banguela me
atinge como se ela tivesse me empurrado a toda velocidade contra as
placas. Antes que eu possa pensar, abro os braços e ela vem em minha
direção.
Lily. O nome dela me atravessa como um segredo sussurrado.
Ela corre até mim, com risadinhas e dedos pegajosos. Segura um
ursinho de pelúcia rosa muito querido, vestido com uma camisa de
bebê dos Amotinados, em uma das mãos, e envolve meus joelhos com
os braços, o rosto erguido e radiante.
— Calma aí, Tigre — diz Hayes. — Da última vez que você o
derrubou, o Torey acabou na piscina.
É o instinto que me faz pegá-la em meus braços, e ela se agarra a
isso, seus bracinhos apertados em volta do meu pescoço.
— Parece que alguém sentiu sua falta — diz Blair, me cutucando
com o cotovelo.
Hayes geme. — Ela faz qualquer coisa se eu disser que o Torey disse
que é superlegal. Tipo comer vagem. Superlegal, né, Torey?
Como isso aconteceu? — Certo. Vagem é a melhor.
Lily se contorce. Eu a coloco de pé, e então Lily faz o que qualquer
garotinha faria: saca uma arma Nerf escondida numa cadeira da
cozinha e atira um dardo no meu peito. — Te peguei!
Ela se move rápido, disparando, segurando sua arma Nerf acima
da cabeça com as duas mãos e soltando um grito. Ela é uma guerreira
de uma criança só.
Hayes solta o suspiro sofrido de um homem que já esteve nessa
situação muitas vezes e estende a mão sobre o balcão da cozinha para
pegar outra arma Nerf que me entrega. Esta é idêntica à que Lily
brande, azul e laranja brilhante, com uma ponta laranja de aparência
ameaçadora. — Você sabe como é.
Eu sei?
Três picadas consecutivas no meu ombro me tiram do meu transe.
Viro-me rapidamente e vejo Lily espiando pela ponta do sofá da sala.
Ela grita, dispara outro dardo em mim e então corre para dentro de
casa.
— Vá pegá-la. — Blair me dá um leve empurrão.
A casa está um borrão enquanto corro atrás de Lily. Tudo me é
familiar e estranho ao mesmo tempo. Eu me abaixo para passar por
um vaso de palmeira. A casa de Hayes está guardada em algum lugar
no fundo da minha memória muscular, embora eu não me lembre de
ter passado por aqueles cômodos correndo com uma arma Nerf na
mão. Mas já fiz isso. Isso está claro. Consigo praticamente mapear o
som dos seus pezinhos. Sei imediatamente onde ela está, para onde
ela vai correr em seguida.
É desconcertante, essa sensação de familiaridade sem nenhuma
lembrança real. Viro uma esquina, sabendo que estou prestes a
encarar um corredor, quartos de hóspedes, a academia de Hayes.
Um movimento rápido à minha esquerda. Giro, disparo um dardo
que por pouco não acerta Lily, que atravessa o corredor.
Sua risada ecoa pelo andar de baixo. Eu a persigo por uma sala de
jantar ensolarada. Os móveis se desfocam, um déjà vu tridimensional.
Dardos Nerf voam.
Há um atalho aqui, um jeito de interceptá-la. Rastejo ao redor da
mesa, esperando, atento ao som de seus pés descalços. Mais perto...
mais perto...
Aqui. — Te peguei! — grito, rolando para fora de debaixo da mesa
e disparando uma saraivada de dardos de espuma. Eles a atingem
enquanto ela grita, antes de girar e correr para o outro lado.
Trocamos tiros e quase nos acertamos dentro e fora dos quartos do
andar de baixo. Fotos de família nas paredes me chamam a atenção –
Hayes e a esposa, Lily ainda bebê, os Amotinados no gelo e fora dele,
e lá, inesperadamente, Blair e eu. Nossos braços se envolvem e
sorrimos para a câmera. Parecemos estar sozinhos. Nunca vi
nenhuma foto nossa parecendo um casal perto de mais ninguém.
Ainda me pergunto: estamos ou não assumidos?
O grito de guerra de Lily soa atrás de mim. Eu giro e acabo cara a
cara com minha pequena adversária.
— Trégua? — ela oferece, abaixando sua arma.
— Trégua — concordo.
Claro, não há trégua. Assim que abaixo minha arma Nerf, ela me
ataca.
A Lily é rápida, mas eu sou mais rápido ainda. Eu a pego na sala, a
pego no colo e faço cócegas nela até ela ficar sem fôlego.
Depois disso, ela parece decidir que sua vitória está completa e que
a guerra dos Nerfs acabou. Ela larga a arma e pega minha mão. —
Vamos, a mamãe disse que a gente podia nadar antes do jantar.
Deixo-a me levar. As portas de correr de vidro para o pátio já estão
abertas, e ela me leva para a cálida noite da Flórida.
O quintal é lindo, com uma piscina, um píer sobre o canal e uma
churrasqueira instalada perto da água. Ondas suaves batem contra as
estacas. Música toca e risos contornam o crepúsculo que se esvai.
Tudo brilha, iluminado por fios de luzes cintilantes e pelos últimos
raios de sol poente. A piscina reflete tons de laranja, pêssego e lilás
emaranhado.
Hayes e Erin estão na churrasqueira, e Blair está ali perto, recostado
numa espreguiçadeira, conversando animadamente com Hayes. O
olhar de Blair encontra o meu, e ele abre um sorriso enorme. Hayes
olha por cima do ombro, me vê e disfarça um sorriso.
— Tudo bem, baixinha — Hayes grita para Lily. — Um mergulho
rápido antes de comer. E sem espirrar nos adultos dessa vez!
Lily para pra colocar suas boias de natação nos braços e pula na
parte rasa da piscina. Tiro os chinelos e fico na beira da piscina,
chutando os pés na água. Lily emerge da superfície e imediatamente
procura seu público. Encontrado, ela se aproxima de mim.
— Torey, olha só! — Ela chuta seus pezinhos furiosamente,
nadando como um cachorro pela parte rasa, espirrando água na parte
de trás das pernas de Hayes. Blair, sabiamente, se afasta do raio da
explosão.
— Lily! — Hayes brande sua espátula de grelha para ela.
Ela ri e ri.
— Hora de comer! — Erin coloca uma bandeja de pães e recheios
de hambúrguer na mesa do pátio, e Hayes está a caminho com uma
bandeja de hambúrgueres.
Blair ajuda Erin a arrumar os pratos enquanto Lily sai da piscina,
encharcada. Há uma pilha de toalhas dobradas em uma cesta perto
de mim, e eu pego uma e a desenrolo para ela. Ela caminha direto
para os meus braços e me deixa enrolá-la bem apertada na toalha cor
de algodão-doce.
O jantar é um evento barulhento, cheio de risadas, conversas e o
tilintar de copos. Não há álcool. É chá gelado, água, refrigerante e
Gatorade. A mão de Blair encontra a minha debaixo da mesa. Eu me
inclino em sua direção, absorvendo seu calor, sua firmeza.
Depois do jantar, voltamos para a piscina. Lily aguenta a espera
obrigatória de trinta minutos para digerir, pulando na ponta dos pés
pelos últimos cinco minutos como se tivesse levado punição de cinco
minutos por brigar.
Finalmente, quando chega a hora, Hayes a abraça e finge devorar
sua barriga. — Acho que está na hora da imersão!
Ela grita, suas pernas se movimentando, seus braços se estendendo
por cima do ombro de Hayes em minha direção.
Hayes lhe dá um segundo para tapar o nariz e então pula com ela
na água. Eles surgem em uma parede de ondas e barulho, espirrando,
rindo e chamando Erin, Blair e eu para nos juntarmos a eles.
A piscina é um choque contra minha pele aquecida pelo sol. Deslizo
para baixo da superfície, deixo a água cobrir minha cabeça. Os sons
abafados de respingos parecem distantes, oníricos. Aqui estou eu,
sozinho, encasulado, separado do mundo. Por um instante, fico
suspenso no tempo – é demais, de repente, e eu emerjo à superfície.
Blair está lá, me esperando. Ele me abraça pela cintura enquanto
me levanto. Ele assobia e arqueia as sobrancelhas. — E aí, lindo. O
que um gostosão como você está fazendo num lugar como este?
Bufo. Ele me dá uma risada enquanto eu o abraço pela cintura.
Ficamos ali, abraçados, o riso de Lily e o barulho da água
desaparecendo. É como se apaixonar de novo, de uma só vez. Não sei
como cheguei aqui e não sei o que esqueci, mas sei que quero isso.
— Cinco centavos pelos seus pensamentos — diz ele. Suas palavras
fazem cócegas na minha pele atrás da orelha. Eu me inclino em sua
direção, sentindo seu coração batendo contra minhas costas.
— Eu estava pensando em como sou sortudo — sussurro. Viro-me
e o encaro, passando os braços em volta do seu pescoço. Estamos testa
com testa, compartilhando a mesma respiração.
O sol poente o suavizou, lançando sombras sobre a linha forte de
seu maxilar e a curva de seus lábios. Ele é mais do que bonito ou
atraente; ele é de uma beleza de tirar o fôlego. Ele é exatamente o tipo
de homem que eu tinha medo de me permitir desejar por mais de um
segundo. Eu tinha tanta certeza de que nunca, jamais poderia ter esse
tipo de vida ou esbarrar em um futuro tão deslumbrante.
Eu me inclino, diminuindo a distância. Nossos lábios se encontram.
Não é o primeiro beijo de Blair, mas é o meu, e é perfeito. São fogos
de artifício, manhãs preguiçosas e meias-noites tranquilas,
promessas, declarações e olhares silenciosos e secretos, tudo ao
mesmo tempo. É uma onda gigante me puxando para baixo, e eu não
estou nem perto de lutar contra ela. Sonhei com esse momento, mas
a realidade é muito melhor.
Quero me perder em Blair, na força dos seus braços e no calor do
seu corpo. Quero conhecê-lo com as minhas mãos, mapear cada
centímetro da sua pele. Quero que o seu gosto seja a única coisa que
eu possa saborear novamente. Quero que um beijo se estenda até o
infinito, uma eternidade dos lábios de Blair contra os meus.
Lily se aproxima, jogando metade da água da piscina em nossos
rostos e nos separando. — Torey, Torey! Olha só!
Ela se abaixa na água e tenta fazer uma parada de mão instável, e
quase acerta Hayes com o calcanhar na cabeça.
Blair mantém uma das mãos entrelaçada na minha debaixo d’água.
Não chega nem perto do suficiente, mas aquele beijo foi um bom
começo.
Blair, Hayes e eu começamos uma brincadeira de quem pega bola
no meio, quicando uma bola de praia rosa sobre a cabeça de Lily
enquanto ela se lança e se joga de barriga para pegá-la. Por fim, Blair
a deixa subir em seus ombros e então declara que vai trocar de lado,
os dois contra nós.
— Torey está do nosso lado! — Lily segura a testa de Blair com as
mãos, os pés cravados com força nas axilas dele. Ele pode perder um
olho por causa do dedo dela.
Hayes finge levar um tiro no coração. — Meu próprio sangue se
voltou contra mim. — Ele cai para trás dramaticamente, a água
espirrando sobre ele enquanto ele afunda nas profundezas.
Lily não parece se importar com a morte do pai. Ela estende as
mãos em minha direção. Blair ajuda Lily a se sentar nos meus ombros,
onde fica até sentir que minhas articulações estão se separando e
minha coluna está entrando em colapso. Erin me salva com picolés de
chocolate, mas mesmo fora da piscina, Lily se acomoda no meu colo
quando nos mudamos para as espreguiçadeiras.
A felicidade está em toda parte, me envolvendo, me puxando para
baixo. As velas de citronela tremulando na mesa, os brinquedos da
piscina balançando na água, a música saindo dos alto-falantes de
Hayes. O joelho de Blair pressionado contra minha coxa, Erin e Hayes
aconchegados em uma única espreguiçadeira, olhando para Blair, eu
e Lily, e tentando esconder seus sorrisos.
O crepúsculo se aproxima enquanto estamos ocupados demais
rindo para perceber o dia se esvaindo. As estrelas brilham com força
total, o ar é agradável e fresco, a umidade é suave. Uma brisa suave e
salgada sopra do Golfo.
Lily, ainda empoleirada no meu colo, acaricia a parte interna do
meu braço com o dedo úmido, deixando um rastro de arrepios. Ela se
contorce e se aconchega na minha lateral. Seu rosto está pegajoso por
causa do picolé de chocolate.
— Lilyzinha — diz Erin, levantando-se. — É hora de se preparar
para dormir.
Lily franze a testa. — Mas ele acabou de chegar!
Hayes e Blair olham para baixo, escondendo o sorriso. Erin estende
a mão. — Torey está aqui há duas horas, não dois minutos. Ele
brincou com você sem parar. Tenho certeza de que ele também está
cansado.
Dou a ela meu melhor bocejo exagerado. No meio do bocejo, ele se
transforma num bocejo de verdade, e meu queixo estala. Blair e Hayes
riem.
— Voltarei em breve — prometo a Lily.
Ela ainda está infeliz, mas sai do meu colo.
Hayes coloca a toalha sobre seus ombros. — O que você diz,
amorzinho?
— Obrigada por brincar comigo, Torey. — Ela se afasta, enrolada
na toalha como uma múmia minúscula. Seu cabelo está grudado nas
bochechas e suas pálpebras tremulam, fechadas. Mesmo assim, ela
acena mais uma vez na porta dos fundos antes de desaparecer para
dentro, deixando para trás um vazio em forma de Lily.
— Acho que minha filha gosta mais de você do que de mim — diz
Hayes, chutando meu tornozelo. Não há nada de acalorado nisso.
Eu o cutuco de volta. — O que posso dizer? Ela tem bom gosto.
Todas as mulheres têm.
Hayes inclina a cabeça para trás e ri. Até Blair ri, o que... Eu lhe dou
uma cotovelada. — Você deveria estar do meu lado aqui.
— Amor. — Blair mal consegue manter a cara séria. É estranho ver
esse homem forte e feroz cair na gargalhada. Nas minhas lembranças,
Blair Callahan era um guerreiro do hóquei calejado, todo ação, todo
luta, todo garra, sem desistir. Mas aqui? Agora? Ele é um homem
completamente diferente. Ele é gentil. Terno. Amoroso. Ele é o sol.
Dou-lhe outra cotovelada. — Traidor.
Hayes está enxugando as lágrimas, um pouco dramático demais.
— Sério, no entanto. — Hayes me olha, amolecendo. — Ela acha que
você é o máximo. Tipo, sério mesmo. Ela fala de você o tempo todo.
Não sei o que responder, então não digo nada. Hayes parece querer
dizer mais, mas Blair interrompe. — Lembre-se de que seu coração já
tem dono.
Minhas sobrancelhas se erguem. — Ah, com ciúmes?
Hayes balança a cabeça. — É amor verdadeiro, Calle. Parece que
você vai ter que encontrar outro.
A mão de Blair encontra a minha. — Mmm-hmm — ele cantarola.
Seus olhos são de um azul-claro, e ele sustenta meu olhar.
Eu o encaro de volta, inspiro fundo. Mordo o canto do meu lábio
inferior. A mão dele aperta...
Hayes pigarreia, alto demais, demoradamente. Blair revira os olhos
e chuta o tornozelo de Hayes, ao mesmo tempo em que me puxa para
mais perto. Acabamos encolhidos na mesma espreguiçadeira, Blair
me abraçando, braços e pernas para todos os lados. Ele apoia o queixo
no meu ombro.
A conversa muda de rumo, e eu me contento em deixar passar.
Hayes se recosta, com os olhos nas estrelas e no céu. Eles estão
falando sobre o time, sobre o último jogo, sobre o próximo jogo. Sobre
a penalidade e sobre um problema persistente na coxa do Axel, o
goleiro.
Quantas vezes já fizemos isso, nós três? Conversando até tarde
sobre o jogo, Hayes rindo com o coração de Blair batendo forte nas
minhas costas? Blair me pega olhando para ele, e, meu Deus, ele me
olha como se eu fosse a única coisa de que ele precisa.
É isso. É exatamente aqui que eu deveria estar.
Hayes está quieto, tomando seu chá gelado. Blair se mexe, e uma
sombra se projeta por trás do brilho de seus olhos.
— Então, como está a Erin? — Blair pergunta, casualmente, mas há
um tom subjacente em sua voz.
Hayes analisa essa questão lentamente.
— Muito bem — ele diz finalmente. — Nós realmente percebemos
cedo.
Não faço ideia do que estão falando. Erin parecia bem, mas será
que estava doente? Quão sério era?
Câncer. A palavra se forma na minha mente. Erin tinha câncer, e,
meu Deus, como eu não lembro disso? Que tipo de amigo esquece
uma coisa dessas?
Hayes olha para cima, demonstrando o amor feroz e protetor de
um marido e de um pai, e eu não consigo respirar.
— Foram alguns anos infernais, hein? — sussurra Hayes.
Blair bufa, mas estou pressionado contra ele e sinto o
estremecimento que ele tenta disfarçar. Hayes lhe dá um tapinha no
ombro.
Então ele olha para mim, olha para mim de verdade. — Acho que
nunca te agradeci de verdade, Torey.
Tudo para. Balanço a cabeça. Não fiz nada para merecer a gratidão
dele. Não faço ideia do que ele está falando, mas Hayes continua.
— Você esteve presente para nós durante todo o processo. E ela está
ótima agora. Juro, vão acabar dando o nome dela a um centro de
tratamento. — Uma risada irrompe dele. Ela se interrompe no final,
mas ele a transforma em algo mais próximo de um sorriso. — Ela é...
— Hayes faz uma pausa e engole em seco, balançando a cabeça. — A
Erin é incrível. Meu Deus, ela é incrível. — Os olhos de Hayes estão
fixos no horizonte, a um milhão de quilômetros de distância.
O que eu fiz? Não há nada ali, nenhuma imagem na minha mente,
apenas uma ausência de memória. Tudo o que não me lembro, as
conversas perdidas e as lutas que eles enfrentaram, pesa muito sobre
mim. Não me lembro das partes difíceis deste último ano. Não tenho
respostas, nem memórias para oferecer, nem uma história
compartilhada para me inspirar. Só posso ficar aqui sentado, com o
calor de Blair como uma tábua de salvação nas sombras que se
aprofundam, tentando respirar.
É tão estranho estar feliz e devastado ao mesmo tempo. E, meu
Deus, o medo. Tenho medo de tocar esta vida que tenho, de segurá-
la, de respirar nela, de chegar muito perto, caso ela se estilhace, se
desvie ou escape por entre meus dedos.
Blair se vira até ficar de frente para mim. Há uma paciência nele
que não entendo completamente. O que eu fiz para merecer esse
amor?
Eu queria poder lembrar.
Ficamos ali, mergulhados na noite. Este amor é uma linguagem que
minha alma entende, mesmo que minha mente esteja lutando para
alcançá-lo. Aperto a mão dele. O medo está à espreita, mas isso
também. Não sei como me segurar sem quebrar, mas estou aqui.
Agora mesmo, estou aqui.
Seis
O ar é suave como veludo enquanto adentramos a noite da Flórida,
o céu deslumbrantemente cheio de estrelas enquanto as cigarras
cantam baixo nas árvores.
Blair coloca a mão na minha lombar enquanto caminhamos até sua
caminhonete. É um veículo incrível. Mesmo com minhas memórias
fragmentadas, uma imagem se forma – lembrada? Imaginada? – de
Blair ao volante, uma mão no volante, a outra na minha coxa, o olhar
fixo na estrada. Sobre o que conversamos? Que música ouvimos?
Ele abre a porta do passageiro para mim e espera que eu entre. Mais
uma vez, é inesperado: Blair Callahan, o destruidor do rinque, o
terror do gelo, um verdadeiro cavalheiro.
A caminhonete se fecha para o mundo, estreitando-o entre nós
dois. Roço meus dedos em sua mão, e ele entrelaça os seus na minha,
nos conectando. Não me lembro da primeira vez que Blair pegou
minha mão, mas o encaixe é perfeito. Estou desesperado por esses
pequenos momentos de familiaridade, pelos momentos em que meu
corpo sabe o que minha mente não consegue.
— Obrigado. — Minha voz sai suave no silêncio da caminhonete.
— Por esta noite. Por tudo.
Ele aperta minha mão. — Sempre — diz ele. — Sempre pode contar
comigo.
Ele fala sério. Sinto isso no fundo da minha alma.
Não consigo desviar o olhar dele. O jeito como os postes de luz se
curva em torno de seus ombros, o luar flutuando na borda de seu
queixo. Tudo carrega um significado; há camadas nele, em nós, que
ainda não consigo enxergar. Ele passa a ponta do polegar sobre meus
dedos e as dobras da minha pele, deixando faíscas em seu rastro.
Paramos num sinal vermelho, e seus lábios sussurram contra meus
dedos. Ele fixa o olhar no meu, e nesta breve e leve fração de
eternidade, só existe ele. Só existe isto.
Não confio em mim mesmo para falar. Ele beija meus dedos
novamente, desta vez por mais tempo, antes de virar minha mão e
pousar os lábios na minha palma.
O sinal abre e a caminhonete avança. O limite entre onde eu
termino e Blair começa se dissolve.
A viagem para casa não é longa o suficiente. Não estou pronto para
abrir mão deste silêncio e do nosso cantinho de tranquilidade. Mas a
viagem se esvai, segundo a segundo, imperceptivelmente, até que
chegamos à garagem, com os faróis projetando sombras na frente da
nossa casa.
Blair desliga o motor. Ele se vira para mim. Seu rosto é suave ao
luar, seus olhos escuros e profundos.
Inclino-me sobre o console central e o beijo, devagar no início,
depois com mais força quando sua língua roça na minha e ele me
penetra. Perco-me no beijo, no jeito como os lábios de Blair deslizam
contra os meus, no jeito como ele aninha a parte de trás da minha
cabeça. Fecho os olhos enquanto ele passa os dedos pelos meus
cabelos. Esse carinho cuidadoso, esse cuidado silencioso: isso é amor
em sua forma mais pura.
Ele leva a boca até meu pescoço, e eu inclino a cabeça para trás,
dando-lhe acesso. Seus lábios são quentes, sua barba por fazer roça
suavemente minha pele. Cada lugar que ele toca me faz tremer.
Ele se afasta e roça nossos narizes. Meus lábios encontram os dele
e o beijam novamente. Não me canso.
Finalmente conseguimos entrar.
A casa está escura, e um brilho suave emana do nosso quarto, vindo
da luminária de lava acesa no canto da cômoda. Como não vi antes?
É horrivelmente chamativo: bolhas azul-neon e jogadores de hóquei
de plástico flutuando para cima e para baixo.
Esta lâmpada é uma lembrança. Lembro-me de como a cera brilha
quando esquenta, de como se desfaz e cria formas novas e
impossíveis. Lembro-me do zumbido suave e imperceptível da
lâmpada enquanto ela aquece o líquido em seu interior. Mas não
persigo a sensação; não tento forçar a lembrança. Deixo-a me
envolver, mais uma peça do quebra-cabeça que é a minha vida agora.
Ontem – para mim – eu era um perdedor, um fracassado, e todos
me viam fracassando rapidamente. Tudo entre aquele tempo e agora
é um borrão, e eu poderia muito bem ser um alienígena, por tudo o
que sei sobre mim e minha vida, ou sobre por que ver uma lâmpada
de lava pode me virar de cabeça para baixo.
E ainda assim, e ainda assim.
Estou exausto. O dia, a montanha-russa emocional de momentos
meio esquecidos, me deixou exausto. A rotina toma conta e eu entro
no banheiro. A porta se fecha atrás de mim.
Estou sozinho com meus pensamentos.
Um estranho me olha de dentro do espelho, um homem com os
meus olhos. Ele está mais saudável. Mais forte. Seu maxilar está mais
definido, seus ombros mais largos. Há uma força ali que não
reconheço, uma confiança que não me pertence. Este não é o Torey
Kendrick que saiu daquela praia de Vancouver para as sombras frias
de seus fracassos ontem.
A luz projeta um claro-escuro de sombras no meu rosto, uma
metáfora perfeita demais. Eu me inclino mais perto. Meus olhos estão
arregalados, as pupilas dilatadas. Consigo ver meu pulso acelerado.
Passo o dedo pelos contornos do meu reflexo. Talvez eu consiga
tirar deste espelho a pessoa que eu costumava ser. Quero o homem
que pertence a este lugar, não o fracassado. Tento me imaginar como
um homem que tinha tudo planejado, um homem que não
questionava cada movimento. Se eu apertar os olhos, talvez os
pedaços da vida que Blair e eu compartilhamos se tornem nítidos.
O nervosismo volta a me invadir. Minha respiração treme, embaça
o espelho. Consigo fazer isso?
Dividir a cama com Blair, ter intimidade com ele – é um território
desconhecido. Um território que, logicamente, já explorei antes, mas
que, para mim, ainda é terrivelmente desconhecido.
Agarro a borda da pia e me inclino.
— Lembre-se — sussurro — este é o Blair. O seu Blair.
Respiro, inspiro e expiro, deixando o ar encher meus pulmões.
— Você consegue. Você já fez isso antes — sussurro novamente. —
Você já enfrentou coisas piores.
Será que já? Parece mentira. A pior coisa que já enfrentei está lá
fora, me esperando. A confiança e o amor de Blair, seu corpo, tudo
isso é tão íntimo, tão insondável.
Preciso de toda a minha coragem para girar a maçaneta e voltar
para o quarto.
Blair está esperando. Ele já está na cama, sem camisa. — Ei — diz
ele. — Tenho uma coisa para você.
— Ah, é? — A voz que sai é quase a minha. Imagino-o levantando
aquele cobertor, revelando...
Blair dá um tapinha no espaço vazio na cama ao lado dele e se
ajoelha. Ele está de pijama. — Uma massagem. Deite-se. Fique
confortável.
Puta merda.
Faço o que ele diz, deitando-me de bruços, com o rosto virado para
o lado no travesseiro dele. Estou tremendo tanto que acho que vou
desmoronar.
A cama afunda quando Blair monta em minhas coxas. Ouço o
suave estalo de uma tampa de garrafa, e então um fio morno de óleo
escorre pelas minhas costas.
Blair coloca suas mãos quentes e escorregadias em meus ombros.
Um pequeno som escapa de mim, meio suspiro, meio gemido. Suas
mãos são fortes, mas seu toque é suave, e quando ele pressiona os
polegares nos músculos tensos das minhas costas, solto um longo e
lento suspiro.
— Você está tão tenso — ele sussurra. — Relaxe. Eu cuido de você.
Estou tão cansado de me segurar. Dissolvo-me no ritmo dos seus
dedos. Pele com pele, as palmas das mãos nas minhas costas. O seu
toque lento e cuidadoso me desfaz, e enterro o rosto no seu
travesseiro para me permitir desfrutar do seu toque. Estou à deriva.
As nossas respirações sincronizam-se, inspirando e expirando.
A lâmpada de lava brilha, os jogadores de hóquei de plástico
dançam em câmera lenta. As bolhas de luz flutuam e se movem, as
sombras nas paredes balançam como se estivéssemos sob o oceano
em outro mundo.
Olhos pesados, respiração lenta e constante. Nessa penumbra, meio
sonolento, a estrutura da minha consciência se amolece e se desfaz.
Fragmentos de memórias flutuam nas margens da minha mente. Nós
dois, entrelaçados sob os mesmos lençóis. Rindo. Nos beijando.
Movendo-nos juntos no escuro.
Minha respiração fica presa. Ele faz círculos lentos com os
polegares, massageando meus músculos. A tensão começa a
diminuir, nó por nó se desfazendo. Suas mãos dançam entre a firmeza
e a delicadeza, e eu flutuo em algum lugar entre o passado e o
presente. Ele aperta um ponto apertado nos meus quadris. Eu gemo.
— Bem ali?
— Sim. Bem ali.
Ele me faz voltar a mim, uma estocada lenta de cada vez. Solto o ar
com um estremecimento, e meu corpo acompanha, amolecendo no
colchão. É avassalador ter suas mãos em mim assim, saber que meu
corpo se lembra dele mesmo quando minha mente não consegue
conectar todos os pontos.
A cama – a nossa cama – aos poucos deixa de ser um território
desconhecido. Sou dele, todo dele. Cada centímetro de mim está
marcado com o calor dele. Quero engarrafar esse sentimento, essa
intensa e dolorosa sensação de pertencimento.
Se eu pudesse esboçar este momento, eu o faria. Eu capturaria a
forma como a luz da lâmpada pinta as suas mãos de dourado, a curva
dos seus ombros projetada contra a luz. As suas mãos hábeis, a calma
constante que ele sempre traz. Eu capturaria a nossa cama, estes
lençóis macios e o casulo quentinho. Eu rabiscaria o seu perfume, o
sussurro das minhas batidas cardíacas satisfeitas.
Lembre-se disso, digo a mim mesmo. Lembre-se.
Deixo o mundo inteiro desaparecer. Deixo minhas memórias se
perderem na escuridão. Tudo o que me falta está aqui, com ele. Não
preciso de mais nada.
Meu último resquício de consciência está preso ao toque de Blair,
aos seus lábios em meu ombro enquanto ele me beija, lenta e
gentilmente.
Então é assim que parece quando alguém o encontra.
A consciência retorna em estágios turvos. Estendo a mão para Blair,
meus dedos se enredando nos lençóis frios e vazios.
Ele não está aqui.
Abro os olhos, semicerrando-os contra a luz que entra pela porta
entreaberta do banheiro. Vapor escapa pela fresta.
Meu coração tropeça, preso entre a dor e a expectativa.
Blair está lá.
Imagino: água escorrendo por seus ombros largos, descendo pelas
costas e chegando à curva de sua bunda. Minha boca está seca.
Já faz um tempo, e nunca com um homem. Bem...
Meu Deus, isso é muito confuso. Minhas memórias pularam a parte
em que eu aparentemente decidi que isso – e decidi que ele – era o
que eu queria. O Blair de que me lembro é um estranho. O Blair
naquele chuveiro é meu amante. Amá-lo é memória muscular, mas
tocá-lo... Ainda parece um limite que nunca ousei cruzar.
Eu ouso?
Jogo as pernas para o lado da cama. Preciso me lembrar. Quero
tocá-lo, e quero que ele me toque. Sigo a atração que ele me exerce.
Quanto mais me aproximo do banheiro, mais o ar fica mais pesado,
mais quente. É estúpido ficar nervoso, digo a mim mesmo.
Minha mão paira sobre a maçaneta. Posso me virar, rastejar de
volta para a cama, fingir que ainda estou dormindo quando Blair
voltar. Mil perguntas me passam pela cabeça.
Mas além desta porta está Blair.
Estou fazendo isso.
Aperto a maçaneta com mais força e, em seguida, giro-a, abrindo a
porta. Um calor me invade. O banheiro tem bordas suaves e
superfícies brilhantes – espelhos embaçados, azulejos encharcados –
e o chuveiro tem paredes de vidro, envolto em névoa. Blair é uma
silhueta escura atrás do vidro embaçado, com água escorrendo pelos
planos largos do seu corpo.
Nossa, ele é lindo.
A água escorre por ele, pequenos rios percorrendo os contornos do
seu corpo. Ele passa as mãos pelos cabelos, a cabeça inclinada para
trás sob o jato d’água. A água forma gotas em seus cílios, escorre pelo
maxilar, cai até as clavículas e escorre pelo peito, depois desaparece
na trilha escura de pelos que atravessa a barriga, sumindo em...
Estou desesperado para tocá-lo. Ele era mesmo meu amante? Era
ele quem eu tinha permissão para amar? E ele me queria também?
Como isso é possível?
Dê um passo à frente, e talvez eu descubra. Fique, e talvez eu nunca
saiba a verdade.
Tiro as roupas, deixando-as empoçadas no chão. Estou
extremamente consciente do meu corpo, de cada centímetro de pele,
de cada arrepio, de cada expiração trêmula. Memórias confusas
cintilam como miragens de calor: as mãos dele me envolvendo, o
roçar da barba por fazer na parte interna da minha coxa, o prazer me
percorrendo. Já estou meio ereto, tremendo, nervoso como um
novato. Isso é muito mais do que entrar no chuveiro.
Isso é loucura. Eu sou louco. Mas já estou aqui e não posso voltar
atrás. O medo guerreia com minha confiança vacilante. Não tenho
ideia do que fazer. Eu deveria ser amante dele, mas não sei nada sobre
o que estou fazendo.
Uma nuvem quente de vapor me envolve quando abro a porta do
chuveiro. Blair está de costas para mim, com a cabeça sob o jato
d’água. — Blair — digo, minha voz pouco mais alta que o chiado da
água.
Ele se vira e...
Todo o meu terror, todo o meu medo, se dissipam. É Blair; meu
coração e minha alma o conhecem.
Estou hipnotizado por ele. Gotas d’água escorrem por seus braços,
e pequenos rios escorrem por seu torso, deslizam pelo peso de seu
pau e descem por suas coxas grossas. Seus olhos pousam na minha
boca. Eu quero tanto ser beijado, mas não tenho ideia se...
— Imaginei que você ficaria adormecido por mais uma hora — ele
diz.
— Eu não queria desperdiçar a manhã. — Minha pele está muito
esticada, como se fosse uma camada que precisasse ser removida para
chegar ao meu verdadeiro eu.
Ele me puxa para frente até que não haja mais espaço entre nós. Eu
me inclino em sua direção, precisando de mais. Quero catalogar cada
cor em seus olhos, medir como suas pupilas dilatam quando nossos
corpos se alinham.
Ele acaricia minha nuca e passa o polegar sobre meu lábio inferior.
Sua mão desliza pela minha garganta até o peito. Meu coração
dispara sob sua palma, áspero e dolorido.
O primeiro roçar dos seus lábios nos meus é dolorosamente suave.
Levanto as mãos para emoldurar o seu rosto antes que o beijo se
aprofunde e... ah... Ele arrasta a língua pela minha, me atrai, e o prazer
é cru como sal, tão avassalador quanto a fome. Agarro-me a ele, os
nós dos dedos brancos, a água nos afogando.
Meus dedos se fecham em volta do seu pescoço, puxando-o para
mais perto, e meu pau roça contra o músculo duro e a pele quente.
Ele interrompe o beijo, e sua respiração falha, depois se acalma. —
Você veio me aquecer ou roubar a água quente?
Aperto a bunda dele. — Roubar cada parte de você.
Ele sorri no meu pescoço – levemente a princípio, depois com um
sorriso mordaz – atrás do meu maxilar. Fecho os olhos e me deixo
desmoronar sob seu toque.
— O que você quer, amor? — Sua voz já sai áspera e destruída.
O que eu quero? Tudo. Quero recuperar o ano que perdi e quero
que o corpo dele me diga quem eu sou. Quero ser inteiro novamente,
mais do que essa meia-pessoa tropeçando em memórias, e quero me
perder nele até esquecer que esqueci alguma coisa.
Mas como eu digo isso?
Minha boca se choca contra a dele. Blair me acompanha, sua
pegada nos meus quadris me deixando dolorido. Estou tão duro, que
me arqueio contra ele, buscando mais. — Quero você. — Minhas
mãos percorrem, redescobrindo-o. A curva firme na base da sua
espinha, a firme curva da sua bunda sob minhas palmas; estou ávido
por tudo isso.
Suas mãos me mapeiam em troca, confiantes como se já tivessem
mapeado cada parte de mim. Será que fizemos isso tantas vezes que
ele sabe exatamente como e onde se demorar? Talvez sim; talvez já
tenhamos feito isso cem vezes, mil antes, mas, para mim, é a primeira
vez que me permito desejar isso.
O pau de Blair aperta meu quadril. Meu Deus, eu fiz isso com ele,
e ele me quer assim. Estou preso entre a atração do passado e o calor
do presente, entre o homem que eu era e o que eu poderia ser em seus
braços. Preciso das memórias que construímos e das que ainda não
construímos. Preciso dele por inteiro, de todas as maneiras
imagináveis.
Blair desliza a mão entre nós, segurando nossos paus em seu
punho. É obsceno, é indecente, é tudo o que eu preciso e mais, quente,
apertado e molhado. Cada estocada cria um fio branco e quente
dentro de mim. Eu sou dele; eu sou completamente dele.
— Blair... — Seu nome se desfaz em minha boca.
— Eu cuido de você. — As palavras ecoam no meu pescoço. —
Sempre cuidarei de você.
Ele passa o polegar sobre a cabeça dos nossos paus, uma pressão
perfeita, perfeita demais, e meu mundo se estilhaça. Estremeço,
aperto e gozo com tanta força que estrelas explodem atrás das minhas
pálpebras. É uma onda devastadora, me puxando para baixo, e eu me
agarro a ele. Blair fica rígido contra mim, seu orgasmo desencadeado
pelo meu. Eu o abraço forte enquanto superamos as consequências.
Então não há nada além do som da nossa respiração e da água
caindo ao nosso redor. Blair parece tão feliz, como se tivesse tudo o
que sempre quis na vida bem na sua frente.
Seus lábios roçam minha têmpora. Não me lembro de tê-lo amado,
mas assim, com seu coração batendo forte contra o meu, não consigo
imaginar o contrário.
— Você deveria estar descansando — ele diz.
— Estou descansando. Com você.
Sua risada ecoa por mim enquanto ele me puxa para mais perto. —
E lá se vai o protocolo de concussão. — Seus lábios se curvam em um
sorriso contra minha bochecha. — Espero que a Doutora te libere esta
manhã.
— Estou bem.
Preciso encarar a Dra. Lin novamente hoje e convencê-la de que
está tudo bem, que está tudo normal e que eu estou normal. Estou
imerso demais agora para admitir que não consigo me lembrar de
nada. A única maneira de seguir em frente é seguir em frente.
— Então, vamos verificar você e te liberar. — Ele pega o xampu e
começa a lavar meu cabelo. — Precisamos do nosso Kicks de volta
para essa rodada. Temos que garantir a vitória.
Certo. Playoffs. Faltam mais duas semanas para o fim da
temporada regular, e os Amotinados estão lutando pelos playoffs
pela primeira vez em anos, em grande parte graças a Blair e a mim.
É hora de viver minha vida.
Sete
— Kicks, pega!
Agarro a barra de proteína voadora por reflexo. Hollow sorri do
outro lado da sala, já devorando a sua. Ele me olha nos olhos e pisca.
Meu estômago se revira. Isso é algo que fazemos?
Nosso lounge no terminal privativo do aeroporto de Tampa vibra;
a energia pré-voo vibra enquanto meus companheiros de time se
esparramam em poltronas e sofás de couro. Janelas do chão ao teto
emolduram a pista, onde o piloto está em sua última inspeção,
entrando e saindo das sombras.
Um telefone toca. Alguém xinga. O ar está carregado, uma mistura
de nervosismo pré-jogo e animação da viagem. Svoboda está
esparramado, com os longos membros na cintura, roncando baixinho.
Como ele consegue dormir durante a acalorada batalha de FIFA entre
Novak e Fischer em seus celulares é algo que não consigo entender.
As provocações deles se alternam numa mistura de alemão e tcheco.
Mikko revira os olhos.
— Crianças — diz ele. Um energético pela metade está esquecido
ao lado do seu cotovelo.
Olho para Simmer, deitado em duas cadeiras, com o boné
abaixado. Divot está com o nariz enfiado num livro. Hawks mexe no
celular, os polegares voando pela tela. Ele abre um sorriso. Com quem
ele está trocando mensagem? Com uma namorada? Eu deveria saber
disso.
Balanço o pé a todo vapor e mordo uma unha encravada que me
preocupa desde que o ônibus nos deixou no terminal.
E se eu entrar naquele avião e tudo aquilo a que mal consigo me
agarrar se esvair? E se eu acordar amanhã e, desta vez, tiver
esquecido como se joga hóquei? Ou se Blair não estiver gravado na
minha alma, e a memória corporal do seu toque se for, e ele se tornar
apenas o fantasma de um fantasma?
E se eu não estiver nem na metade da reconstrução das minhas
memórias, mas na metade do caminho para perdê-las
completamente?
Porra. Preciso me controlar. Enfio o medo o mais fundo que posso.
Seja lá o que tenha causado isso – e porra, eu queria ter a mínima ideia
do que aconteceu –, não importa. Estou vivendo esta vida, aqui e
agora, e preciso seguir em frente.
Continuo olhando para Blair. Na quinta vez, ele me pega, e eu coro,
olhando para os meus pés. Quando olho de novo, ele está sorrindo
para mim.
Se alguém notar, esse segredo que estamos guardando será
revelado.
Eu entendi a situação: não assumimos o namoro e estamos
mantendo esse relacionamento em segredo, exceto por Hayes. É
assustador e emocionante, e em algum lugar nos destroços da minha
mente, nossa história está escrita.
Blair se senta ao meu lado e pisca.
Eu me inflamo. Quantas vezes ele me olhou daquele jeito no ano
passado? Quantas vezes eu derreti assim, com os joelhos fracos e o
calor percorrendo sob a pele? Ele me dá vontade de me ajoelhar e
abrir suas coxas na frente de todo mundo, foda-se o segredo, foda-se
a NHL, deixe-me enterrar meu rosto no calor do seu...
Ele se mexe e seu braço roça em mim. Seu calor transborda pelo
meu terno. Tremo até os dedos dos pés.
Blair pega seu tablet e abre nosso manual de jogadas. Os Xs e Os
flutuam diante dos meus olhos. — Então, estou pensando se a gente
volta ao ponto aqui...
E tudo se encaixa. A jogada entra em foco. Eu me imagino
recuando, atraindo a defesa, criando espaço. Isso é a prova, não é
mesmo, de que nem tudo está perdido?
Inclino-me para mais perto de Blair, meio para estudar a jogada e
meio para sentir a protuberância rígida dos seus bíceps contra o meu
peito. Ele já me segurou? Me segurou junto a si, me segurou por trás...
Pigarreio. — É, e se eu devolver para você aqui — digo, e minha
voz sai mais firme do que me sinto. — Você terá a linha livre.
Os olhos de Blair brilham. — Exatamente.
Lentamente, isso volta a penetrar. É isso que eu conheço, o gelo e o
jogo.
— Nós combinamos bem com a Filadélfia — diz ele. — O que você
acha da pressão no ataque? Prefere jogar mais fisicamente ou prefere
a perseguição com o disco?
Ele está traçando planos, mas eu estou traçando rotas
completamente diferentes, que terminam com ele de costas e eu em
seu colo. Ele cheira tão limpo, e eu quero ficar sozinho com ele e
deixá-lo imundo. Blair nu, seu corpo duro contra o meu, prendendo minhas
mãos acima da minha cabeça, eu me contorcendo sob ele, seu hálito quente
contra meu pescoço enquanto ele assume o controle...
Minha concentração se esvai. Estou meio aqui, meio perdido no
calor dele. Ele continua me puxando de volta com a voz enquanto
meus pensamentos vagam por lugares perigosos. Estou perdido em
uma visão dele me despindo. Seu joelho roça no meu, acidental ou
não, e meu corpo se inflama; seu toque é uma queimadura que
incendeia tudo o que estou tentando sufocar.
Imagino-o cravando os dedos em meus quadris, puxando-me para
mais perto, seu rosnado vibrando através de mim...
Ele se inclina, abaixando a voz. — Você está bem? Você parecia um
pouco estranho antes.
Meus pensamentos estão em branco, ainda com a visão de Blair
acima de mim. Bloquear essa barreira de luxúria é uma tarefa
hercúlea. Pigarreio. — Estou bem. Vamos ser agressivos lá. Pressiona-
los bem no fundo e marcar o gol.
Ele sorri.
Quero lamber cada centímetro do corpo dele. Quero que ele beije
cada centímetro do meu, até eu ficar solto e implorando.
— E aí, Cap! — Hawks dispara. A atenção de Blair se desvia de
mim. — Qual é a sua opinião sobre a flexibilidade do taco? Juro que
Bauer está mentindo sobre as especificações deles.
E assim, estou à deriva, sem amarras.
Suas vozes se desvanecem em ruído branco, e eu me refugio em
minha mente, tentando resgatar memórias. Não há nada,
absolutamente nada, apenas um vazio onde deveriam estar ontem, a
semana passada, o mês passado e o ano passado.
Pelo menos me lembro desta manhã, então minha memória de
curto prazo parece intacta. Consultei a Dra. Lin conforme solicitado.
Ela já percebeu demais das mentiras que muitos jogadores
despejaram na carreira dela. Ela sabia que eu estava mentindo antes
mesmo de eu abrir a boca.
— Como você está se sentindo?
— Ótimo. Pronto para Filadélfia.
O olhar dela prendeu o meu por um instante a mais.
— Torey, preciso que você seja honesto comigo. Você está sentindo
alguma perda de memória além do impacto imediato?
A verdade estava na ponta da minha língua, mas admitir que perdi
um ano inteiro? Isso significaria ficar no banco, fazer exames,
consultar especialistas. Eu seria tirado do time. Eu seria tirado de...
— Não — dei de ombros. — Foi a pancada. Acho que me abalou
um pouco mais do que eu imaginava.
Ela continuou me encarando. — Isso não é algo para se encarar
levianamente.
Talvez não, mas esta versão de mim é feliz, bem-sucedida, amada.
Não vou perder esta vida, porra. — Estou bem. Sério. Me sinto ótimo.
— Então me conte como foi o primeiro período. Conte-me tudo o
que você lembra.
As palavras saíram de mim de um lugar que eu não sei de onde.
Mas elas estavam lá, e estavam certas, e isso tem que significar alguma
coisa.
— Qual é o nosso histórico contra o Colorado nesta temporada? —
ela perguntou, com um tom de voz coloquial, mas com o olhar alerta.
— Dois-um, para nós.
Posso reconstruir uma vida com base na memória muscular e no
instinto?
— Sua função neurológica parece intacta — disse ela finalmente. —
Mas, Torey — disse ela —, se alguma coisa parecer estranha, me ligue.
Nada de heroísmo.
— Eu irei direto até você.
Ela me observou, procurando por qualquer brecha na minha
armadura. Prendi a respiração. Fiquei calmo. Agi normal. Meu futuro
dependia da qualidade das minhas mentiras.
— Terra para Kicks!
A lembrança desaparece à medida que o ambiente ao redor fica
mais nítido; Hayes está a quinze centímetros do meu rosto.
— Você está distraído, amigo. Já está sonhando com o gol em
Filadélfia? — Hayes dá um tapinha no meu ombro com força
suficiente para me balançar.
Forço uma risada. — É, imaginando o goleiro deles se debatendo
feito um peixe quando eu marcar um no ângulo superior.
Hayes se senta na cadeira à minha frente e a de Blair. — Vamos ser
sinceros. Minhas vitórias na zona defensiva vão viralizar. Eu sou uma
catapulta lá atrás.
Blair bufa. — Ah, é, você é uma verdadeira catapulta, Ems, né? No
último jogo, um disco que você bateu caiu na pipoca de uma criança.
Tá mirando a lanchonete agora?
— E eu aqui achando que você adorava meu molho picante. Torey,
me apoia!
Sorrio. — Se contarmos as assistências de pipoca, você está
liderando a liga.
Hayes solta uma risada. — Tá bom, tá bom, vou diminuir o ritmo,
mas só porque não quero roubar seu holofote, Kicks. Você tem
arrasado no gelo ultimamente. Qual é o seu segredo? Você está
conseguindo repetições extras?
Dou de ombros, olhando para Blair. Seus olhos se voltam para os
meus, rápidos e calorosos.
Hayes acena com a cabeça, inclinando-se para a frente, cotovelos
nos joelhos. — Ahh, uh-huh. Treinos especiais, hein? — Seu sorriso é
aberto, intenso, cheio de besteira.
Blair chuta o tornozelo dele. Hayes ri. Os dois estão relaxados,
felizes, melhores amigos brigando entre si.
A animação supera o medo. Estarei de volta ao gelo, onde pertenço,
com Blair, o homem que eu...
Amo. O homem por quem, pelo menos, estou me apaixonando, se
é que já não estou apaixonado.
Foi assim na primeira vez que me apaixonei por ele? Tão
avassalador, tão obliterante, tão transformador?
— E aí, e os seus movimentos doidos quando a gente tava em
Calgary? — Hayes se estica por cima de Blair e me dá um tapa no
braço. — Kicks, você estava arrasando. Vai fazer isso dessa vez
também?
Calgary? Que porra eu fiz em Calgary? Não tenho a mínima ideia
do que ele está falando, mas finjo que sim, digo a ele que vou destruir
a Filadélfia como fiz com Calgary, e Hayes e Blair parecem felizes com
isso.
Merda, cada segundo é uma corda bamba entre o pertencimento e
a exposição. Preciso me controlar. Não posso deixar que vejam as
rachaduras.
Vou juntar os pedaços deste último ano e lutar por cada momento,
cada sorriso, cada toque. Perder Blair, perder o hóquei, perder tudo o
que aparentemente lutei tanto para conquistar é impensável.
Eu consigo fazer isso, um período de cada vez, uma jogada de cada
vez.
Certo?
A porta se abre e uma comissária de bordo entra. — Senhores —
diz ela — estamos prontos para embarcar.
O caos habitual do embarque me envolve, piadas gritadas, música
sangrenta e mochilas jogadas nos compartimentos superiores. É o
ritmo da viagem, a batida da vida que estou tentando habitar. Eu
ando por isso, procurando meu assento, o que é inútil; minha atenção
se volta para Blair como se ele tivesse me prendido.
O que, sejamos honestos, ele prendeu.
Blair se move pelo avião como se fosse dono dele. A luz do sol entra
pela porta aberta, iluminando o queixo pontudo e o cabelo
desgrenhado de Blair. Por um instante, ele se ilumina enquanto raios
de sol o percorrem da cabeça aos pés. Quero seguir esses raios com
meus dedos, meus lábios.
Nossos olhares se encontram.
Ele fica com esse olhar sempre que me vê. Mantém o olhar fixo no
meu por mais tempo do que deveria, como se não conseguisse se
desvencilhar. Um calor me invade em ondas. Sou um letreiro de neon,
brilhando para ele.
E aquele sorriso. Deus, aquele sorriso. Me acerta como um passe
perfeito de disco a disco, toda vez.
Blair chega à minha fileira. Ele guarda a bolsa, tira o paletó e
arregaça as mangas da camisa social. Os músculos sob o tecido branco
engomado se movem, ondulando por seus ombros largos e descendo
pelos músculos grossos dos antebraços.
Quero traçar as veias daqueles antebraços com minha língua, sentir
o gosto da sua força por baixo.
Eu me forço a respirar.
Ele se acomoda ao meu lado, e o ar se comprime, carregado com
sua proximidade. Não é nada. É tudo. Quero me inclinar para ele,
para fechar aquele milímetro de espaço entre nós. Tê-lo tão perto é
uma dádiva e uma maldição.
O braço dele contra o meu é uma linha sólida de calor. Não ouso
me mexer. Há um mundo inteiro contido naquele simples ponto de
contato.
Hollow se inclina sobre o assento do corredor, já embaralhando um
baralho de cartas. — Kicks, você vai jogar?
— Talvez mais tarde. — Minha voz está firme, mas meu coração
dispara.
Ele encontra minha mão com a dele entre nossos assentos,
escondidos da vista. Viro a palma da mão para cima para encontrar a
dele, e entrelaçamos as mãos no espaço sombreado entre nossos
assentos.
— Às vezes eu olho para você — ele diz, em voz baixa — e esqueço
o quão silenciosa minha vida era antes.
Não consigo formular uma resposta, não consigo encontrar a
versão de mim que saberia como. Ele fala de uma história
compartilhada como se fosse um terreno sólido, enquanto eu tento
não me perder nas rachaduras da minha memória. Como você se
torna a razão pela qual um homem como esse se sente estável?
O que eu fiz para me tornar a pessoa que poderia preencher o
silêncio na vida de Blair Callahan?
Procuro em seu rosto o homem que ele pensa estar vendo. Seus
olhos azuis guardam um pedaço do oceano.
— Eu também — sussurro.
Os motores roncam. O avião treme, e o longo e lento giro para longe
do portão começa, seguido pelo taxiar constante. Então a pista se abre
diante de nós, e o avião avança em disparada.
Por um segundo, a aceleração frenética está completamente errada,
metal gritando, vidro se estilhaçando, o mundo se inclinando em um
eixo que nunca deveria ter. Meu pesadelo surge.
O polegar de Blair se move sobre meus dedos.
Este ângulo de subida, esta vista da Tampa Bay se esvaindo abaixo
de nós, Blair ao meu lado: tudo é tão dolorosamente familiar. A faixa
de areia branca contra o azul infinito é uma visão que eu já vi antes.
Subimos, subimos, subimos, deixando o litoral e o chão firme para
trás.
O mundo lá embaixo fica cada vez menor, e o passado e o presente
colidem. Estou preso em um turbilhão de memórias fragmentadas,
cada uma delas um fragmento de uma vida da qual não consigo me
lembrar. Trechos de conversas, sussurros de risos, o gosto da pele de
Blair.
Deslizo meu olhar para Blair novamente. O que eu sei sobre esse
homem? Que segredos se escondem sob a superfície de sua pele?
Tudo o que entendo agora é que quero pertencer a ele, ser o Torey de
quem ele se lembra, aquele que o ama sem medo ou hesitação. O que
saberei quando me lembrar de tudo?
O avião nivela, a cabine se acalma, o ruído se transforma em um
zumbido constante. A mão de Blair está quente na minha, uma âncora
em céu aberto.
Blair se levanta, e é como se alguém tivesse pausado o avião inteiro.
Ele tem aquela aura de capitão, aquela coisa indefinível que faz você
querer segui-lo para a batalha. Ou para o precipício.
De cabeça e coração rendidos.
— Escutem.
Todos os olhares se voltam para ele, inclusive o meu, sempre o
meu. Sua voz não é alta, mas domina o ambiente. Ele agarra o encosto
do banco da frente. Os músculos da garganta se contraem enquanto
ele engole.
— Muitos times chegam aqui e começam a acreditar que o universo
lhes deve algo. Como se a linha de chegada já estivesse esperando.
Está tão silencioso, tão repentino. Ele percorre o avião com o olhar,
como se estivesse se prendendo a cada um de nós. Há algo ali, em
suas palavras, envolvendo a todos. O que estou perdendo? Droga!
— Nós sabemos que não. A única coisa que nos é devida é a chance
de provar nosso valor amanhã à noite.
Seus olhos encontram os meus. Por um instante, a cabine, o time e
o céu lá fora deixam de existir.
— Todos aqui lutaram por cada posição nesta temporada. Houve
dias em que poderíamos ter desistido, dias em que ir embora teria
feito mais sentido do que aparecer. — Sua voz é forte o suficiente para
cortar a cabine em dois. — Mas nenhum de vocês pegou aquela porta.
— Esta é a nossa hora — diz Blair. — Cada um de nós sangrou por
isso, suou por isso, perdeu por isso. Ninguém te dá uma vaga nos
playoffs. Você se esforça para chegar lá, e passamos o ano todo
fazendo exatamente isso... lutando contra a dúvida, contra... — Ele
hesita, os olhos se voltando para mim e depois para o time. — Com
derrotas que poderiam ter nos soterrado. Não deixamos.
Continuamos lutando.
Meu coração bate forte contra minhas costelas como se quisesse
pular nas mãos de Blair, que é onde ele pertence.
— Eu continuo dizendo isso porque é verdade: você pode desistir
na noite que quiser. Você pode desistir, facilitar, dizer a si mesmo que
já fez o suficiente. Ou você pode se preparar amanhã e pegar o que é
seu: a vitória e a chance de seguir em frente, até o fim. Ninguém vai
entregar isso. Ninguém lhe oferece grandeza. Você precisa se
aprofundar e encontrá-la dentro de si mesmo.
Relâmpago em sua voz, trovão no silêncio que se segue. Hayes
abaixa o queixo em direção ao peito e fecha os olhos.
— E fizemos exatamente isso. E essa resiliência? — Blair abaixa a
voz. — Essa é a nossa vantagem. É isso que vai nos diferenciar dos
times que assistem aos playoffs de seus sofás.
Blair continua, com o olhar focado como um laser, chamando cada
um de nós, destacando as assistências e gols que criaram essa
sequência, como Axel manteve sua rede bem fechada durante toda a
temporada. Ele fala sobre Hollow jogando na defesa de bloqueio e
como Hawks é imparável em desarmes e avanços. Ele termina com
Hayes e Mikko mergulhando na frente dos chutes, sacrificando seus
corpos semana após semana. Todos comemoram. Suas palavras são
uma avalanche, me inundando, me levando para essa irmandade na
qual não me lembro de ter me envolvido.
— Por último, mas não menos importante...
Estou muito consciente de tudo: Hayes olhando de soslaio para
mim, o silêncio que recai sobre a cabine, o crepitar no meu sangue
como bolhas estourando.
Sua voz suaviza. — Kicks.
Ele fala sobre jogadas de vantagem numérica e gols decisivos, mas
suas palavras são um rio com um significado mais profundo. As
manhãs tranquilas, os hematomas congelados, as confissões
sussurradas no escuro estão todas ali, em sua voz. Ele me diz que eu
lhe dou um motivo para acreditar no amanhã novamente.
Sinto as palavras de Blair me penetrando na pele. Ele me chama de
elite – diz isso duas vezes. Não sou chamado de elite desde antes do
recrutamento. Ele está jogando lenha na fogueira dentro de mim que
eu pensava estar extinta há muito tempo. Todos os meus anos
jogando, e não consigo me lembrar do único ano em que me saí bem,
mas aqui, aparentemente, eu me saí. Nós nos saímos. Estamos aqui,
na beira dos playoffs, e eu nos ajudei a chegar lá.
Com ele.
Eu sei, tão profundamente quanto qualquer homem pode saber,
uma verdade fundamental: Blair e eu fomos feitos um para o outro.
No gelo, fora do gelo. Somos duas metades de uma singularidade.
— Essa — diz Blair, e todo o resto desaparece — é a performance
decisiva que vamos apresentar. De novo. E de novo.
O mundo se condensa ao redor das palavras dele – a voz de Blair e
eu, pendurado apenas pelas pontas dos dedos.
Eu já nem respiro mais. Eu quero tanto ser o homem que Blair vê
quando olha para mim. Quero ser esse Torey de um jeito que me
queima por dentro. Eu quero essa vida.
— Estou orgulhoso de todos vocês.
Eu o seguirei para qualquer lugar, para o desconhecido, para as
profundezas da minha alma.
Ele desvia o olhar, e eu consigo respirar novamente. O oxigênio
volta aos meus pulmões.
— Vamos ganhar tudo.
A cabine explode, um rugido único que me preenche. O som
queima as perguntas e a culpa, deixando apenas um propósito claro
e total: não o decepcionarei.
Como eu poderia contar a ele? Como eu poderia confessar que
minha memória está em ruínas e que não posso ser o homem de que
ele precisa agora, quando o time está aqui, à beira da grandeza e da
glória? Olho para Hayes, para Hollow, para todos eles; a esperança
brilha nos olhos de todos.
Não posso ser eu quem vai apagá-la.
Oito
O frio do rinque de treino da Filadélfia cheira a gelo raspado e
borracha úmida. O ar está rarefeito em meus pulmões, e meu corpo
parece estranho dentro da armadura familiar dos meus protetores.
O time é um emaranhado de camisas e capacetes no centro do gelo,
e suas conversas são um turbilhão de piadas internas e confiança.
Ouço a risada de Divot e o murmúrio baixo de Simmer conversando
com Hollow, mas os sons parecem viajar pela água para chegar até
mim.
Ainda posso fazer isso? Posso ser o jogador que eles precisam que
eu seja?
Blair me olha nos olhos e o canto da sua boca se levanta.
— Vamos, vamos lá! — a voz do treinador ecoa pelo gelo, e o grupo
de rapazes se desfaz.
Começamos a dar voltas no rinque. O raspar rítmico de trinta
lâminas no gelo é uma cadência que conheço de cor nos meus
músculos. Sigo Hollow e Hawks, deixando que o ritmo deles me
puxe. Uma queimação começa nos meus pulmões, um grito nas
minhas coxas a cada empurrão, mas é uma dor limpa e aguda, uma
dor boa.
Blair se materializa ao meu lado, com passos impossivelmente
suaves. Cravo minhas lâminas mais fundo, acompanhando-o,
penetrando naquele lugar onde o corpo funciona, onde o pensamento
recua.
— Acelerem o ritmo! — grita o treinador. — Hawks, mantenham o
taco no gelo!
Passamos para curvas fechadas e explosões bruscas de velocidade.
Meus pulmões queimam e minhas pernas gritam, mas é glorioso. É o
fogo de voltar para casa. Blair está ao meu lado, passo a passo, e
estamos voando.
— Certo, rapazes, vamos patinar bastante! Vocês sabem como é!
Espero que sim.
Discos começam a voar, estalos agudos contra tacos e placas. Meus
próprios movimentos são uma surpresa; cada passo, cada chute, cada
passe é uma memória que existe em meus tendões e articulações.
Peguei um passe de costas do taco, aproximo-o. Uma leve finta, um
empurrão do disco por entre os patins de um defensor, um rápido
estalo dos meus pulsos, e a rede balança no fundo do gol.
Começamos os exercícios ofensivos, atacantes pra cima, defensores
recuando. Eu me alinho na linha azul, e à minha frente está Blair,
enfrentando Hayes. Hayes está falando besteira a mil por hora,
prometendo que não vamos passar por ele, que nunca vamos marcar
gols, que vamos envergonhar nossas famílias e nossos futuros filhos.
— Mostra uma coisa legal, Kicks! Cala a porra da boca desse cara!
— grita Hawks.
Nossos olhares se encontram. Uma onda de certeza passa entre nós.
A vasta extensão de gelo se contrai, tornando-se um canal entre nós.
— Vai! — grita o treinador.
Ele não desvia o olhar enquanto disparamos. O disco é um sussurro
de borracha no gelo quando ele o passa, um baque sólido quando o
recebo, o impacto zumbindo pelo cabo do meu taco em direção aos
meus braços. Sua devolução é impecável. Cada passe é uma frase
perfeitamente ponderada em uma conversa que só nós estamos
tendo. Existimos em nosso próprio espaço de tempo, um circuito
fechado de propósitos.
A mudança sutil em sua pegada, a forma como seus dedos apertam
o taco, me diz tudo. Ele quer acelerar o ritmo. Eu acolho isso com
satisfação, anseio por isso.
Ele ziguezagueia, desmonta Hayes, deixa-o lutando para alcançá-
lo e então desfere um golpe em Mikko. Ele inclina o taco – um rápido
movimento de pulso – e a linha está lá. Eu já estou me movendo, meus
patins cravando, levantando uma rajada de gelo. Giro, sinto o torque
no meu núcleo. O disco atinge meu taco, encaixando-se perfeitamente
na curva da minha lâmina.
— Chute, Kicks! — grita o treinador.
Não estou jogando pelo treinador. Estou jogando pelo olhar de
Blair.
Não vejo meu chute passar por cima da tentativa de defesa de
Hayes, nem encontro os milímetros entre o ombro de Axel e o
travessão. Não vejo a rede dobrar ou se virar para comemorar com o
resto do meu time de treino. Meus olhos estão fixos em Blair.
Nunca me senti tão completamente vivo.
O apito do treinador soa, e o momento se rompe. Blair bate a luva
dele na minha.
— Pausa para água!
As placas chacoalham enquanto Blair desliza ao meu lado. Estamos
ombro a ombro, cotovelo a joelho, nossos peitos subindo e descendo,
nosso calor se misturando no ar frio. Nossos patins estão a
centímetros de distância. O mundo fora deste pequeno espaço, fora
do cheiro de seu suor e do som de sua respiração, é um zumbido
abafado.
O suor me encharca, mas por dentro estou queimando. Blair
esguicha água na boca e no rosto todo sem tirar os olhos de mim. —
Parece bom lá fora.
— Você também — consigo dizer.
Cada vez que ele respira, tudo o que consigo fazer é não derreter.
A única coisa que tornaria esse treino melhor seria ele me
empurrando contra essas placas, aqui e agora, gelo esquecido.
Meu Deus, estou obcecado. Quero passar a língua por cada gota de
suor que escorre pelo pescoço dele.
Quero puxá-lo para um canto escuro deste rinque, tirar seu
equipamento peça por peça, aqui em meio aos ecos de tacos, gritos e
apitos do treinador, enfiar minhas mãos dentro daquela calça,
envolver meus dedos em seu pau. Tudo em mim grita para prendê-
lo contra as placas, sentir o gosto salgado de seu suor em meus lábios.
Quero me esfregar nele até que ambos estejamos tremendo, até que...
Estou pulsando, imaginando meus lábios e minhas mãos em cada
centímetro dele, do pescoço para baixo.
Hayes bate nas placas ao meu lado, me cutucando com o ombro. —
Arrasando, Kicks.
Onde diabos eu estou? Certo, treinando. Levo um segundo para
encontrar minha voz. — É?
— Claro que sim. — Hayes sorri. — Você sabe que isso é treino, né?
— É bom forçar a barra. — Mas não é só o hóquei que estou
tentando tirar do meu sistema. É claro. Cada passo, cada jogada, cada
gota de suor é um substituto ruim para o que eu realmente quero. É
tudo um substituto, e não é o suficiente, mas é a única maneira de
evitar que eu entre em combustão aqui mesmo no gelo.
Hayes lança um olhar para Blair, que se virou para falar com Divot.
— Ou — diz Hayes — você gosta de se exibir.
Dou uma cotovelada na barriga dele, e ele ri. Blair olha para trás, e
nossos olhares se encontram novamente.
Como pude viver sem esse sentimento?
O treino finalmente termina com o treinador nos dando um sermão
para o jogo de hoje à noite contra a Filadélfia. Assim que ele termina,
os caras começam a patinar, ansiosos para tomar banho, voltar para
o hotel, almoçar algumas centenas de calorias e tirar uma soneca antes
do jogo.
Eu fico ali, girando em círculos preguiçosos no centro do gelo.
Blair também fica para trás, me observando.
Os caras passam deslizando, suas vozes desaparecendo até que
somos os únicos que restam sob as luzes.
— Me mostre aquele passe e movimento mais uma vez — ele diz.
Nós nos posicionamos, nossos olhares ainda fixos um no outro. Ele
patina com força pelas placas, ultrapassa com precisão, e eu
acompanho cada movimento seu. Ele desliza o passe disco a disco. Eu
o devolvo. Somos duas metades de um único movimento, um ritmo
perfeito e silencioso. Terminamos e paramos bruscamente, peito a
peito, respirando fundo um ao outro.
Ele estende a mão enluvada e roça minha bochecha. Um fio de gelo
do meu cabelo cai e derrete contra sua luva.
— Torey. — Meu nome é uma vibração silenciosa no ar entre nós.
Abro a boca, mas nenhuma palavra sai. Só ouço o subir e descer do
seu peito, o calor do seu corpo tão perto do meu. Ele se inclina para
frente até nossos capacetes se tocarem. Ele traça meu queixo com os
dedos. Fecho os olhos com força, me inclinando para o seu toque.
Beija-me, por favor.
Ele desliza a mão pela minha nuca, me puxando para mais perto.
Nossos lábios estão a um passo de distância.
— Eu te amo — ele sussurra.
Tudo fica parado.
Então não há mais espaço algum. Ele avança, sua boca
reivindicando a minha. Seus lábios estão ásperos de frio, e o sal do
seu suor e o leve amargor do ar do rinque em sua pele me puxam
para mais perto dele. Seu sal e minha adrenalina percorrem por mim
como fogo em minhas veias.
Meu taco bate no gelo enquanto agarro sua camisa com força,
puxando-o para perto de mim. O beijo se aprofunda, sua língua
deslizando quente contra a minha, me provando como se eu fosse
aquilo pelo que ele tanto ansiava. Gemo dentro dele.
Por um momento, não há nada além de nossas bocas, famintas e
carentes, nossas respirações se misturando e o raspar da barba por
fazer. Estou ávido por mais, mais atrito, mais de tudo o que ele está
disposto a me dar sob essas luzes implacáveis.
O calor se acumula em mim, meu pau se estica enquanto ele
encaixa a coxa entre as minhas pernas. Não quero que isso acabe.
Deus, não posso deixar isso acabar. O gelo sob nós e a arena vazia ao
redor desaparecem. Só resta essa fome, essa necessidade insuportável
de estar mais perto dele.
É isso, essa conexão perfeita e escaldante. É isso que eu desejei a
vida toda, essa sensação de finalmente, finalmente estar no único
lugar onde eu sempre deveria estar, com a única pessoa com quem
eu sempre deveria estar.
Uma porta se fecha com força, e o som rompe o silêncio que nos
cerca. Blair se afasta o suficiente para me olhar, com os olhos
arregalados e buscando os meus.
Treinador? Segurança? Um companheiro de time voltando para
buscar algo esquecido? Meu Deus, estamos bem no meio do rinque.
Qualquer um pode nos ver. Esqueça a minha péssima carreira, e o
Blair? As fotos já podem estar sendo carregadas, o mais novo
escândalo secreto da NHL. Tudo muda se a pessoa errada nos vir.
— Blair — sussurro. — Alguém pode ver.
Mas ele não se afasta. Ele expira e deixa o capacete cair no meu
novamente. — Eu não me importo. — Seu olhar é feroz, resoluto.
Meu coração dispara. O mundo se transforma no clarão escuro do
seu olhar e na névoa quente da nossa respiração misturada. Um
tremor percorre sua mão onde ela segura meu queixo, firme, mas o
suficiente para revelar muito mais por trás de suas palavras.
Quero dizer algo corajoso que corresponda à certeza em seus olhos
e responda ao medo que ambos sentimos, mas não consigo. Enrosco
meus dedos em sua camisa, sem vontade de soltá-la.
— Mas sei que precisamos conversar sobre isso — diz ele.
Ele se afasta e pigarreia. O som é baixo, mas ecoa entre nós, agudo
como a lâmina de um patim no gelo fresco. Há uma profundidade em
sua voz, o eco de uma conversa da qual não consigo me lembrar.
Ele deixa a mão cair lentamente, relutante. Minha pele formiga
onde estava sua luva, uma marca fantasmagórica que não me
abandona.
— Os meninos devem estar se perguntando onde estamos.
Quero alcançá-lo novamente, transpor aquela pequena distância.
Dizer algo, algo que dê sentido a todo esse calor e medo entrelaçados
dentro de mim. Mil palavras pairam na minha língua, mas minha voz
morre. O momento se estende e depois se dissolve.
Ele molha os lábios como se fosse falar de novo, mas em vez disso
acena com a cabeça e solta um suspiro que se torna nebuloso entre
nós. Solto sua camisa, sentindo cada fio escorregar por entre meus
dedos.
Nós patinamos juntos no gelo, com 30 centímetros de espaço entre
nós.
Meu coração está disparado enquanto estou do lado de fora do
quarto 214. É o quarto de Blair, e eu traço os números com a ponta do
meu dedo.
Não consigo parar de pensar no treino, nos lábios dele contra os
meus e no calor do seu toque no meio do rinque.
E se não fôssemos mais um segredo? Passei tanto tempo me
escondendo, e a ideia de ser aberto sobre quem eu sou, e quem somos
um para o outro...
Nunca, jamais considerei isso. Nunca, antes de dois dias atrás,
imaginei que estaria aqui, tentando entender o que significa querer se
assumir, ser um atleta profissional apaixonado por um homem. É
tanta coisa, e está acontecendo tão rápido.
Mas não está. Estou trabalhando nisso há um ano, não é?
Como seria amá-lo abertamente? Imagino nós dois em jantares de
time, com o braço dele casualmente sobre meus ombros,
compartilhando pratos e roubando mordidas dos garfos um do outro.
Será que eu conseguiria beijá-lo no centro do gelo depois de uma
vitória?
Imagino contar para o meu pai. Meu pai, meu Deus, por que ele
não ligou nos últimos dois dias? Ele costuma explodir meu celular
antes e depois dos jogos. Eu... ele já sabia? Deu... errado?
Não importa. Blair vale a pena. Nós valemos a pena.
Eu quero isso, eu o quero, e eu quero nós dois, banhados pela luz do
sol em vez de escondidos nas sombras. Ainda estou chapado com o
gosto dele, com o jeito que ele me beijou, um beijo que me conquistou.
O corredor parece estreito demais, e estou muito longe dele. Bato
os nós dos dedos na porta antes que eu possa me questionar. De
dentro dos seus quartos, ouço o farfalhar baixo das TVs dos meus
colegas de time, o som de suas vozes falando ao telefone com suas
esposas, namoradas e pais.
Prendo a respiração, esperando.
Passos se aproximam. A fechadura se abre.
A porta do seu quarto de hotel se abre e lá está ele, preenchendo a
entrada. Blair Callahan, cabelos escuros e ombros largos, olhos do
azul profundo do oceano. Ele veste uma camiseta preta justa nos
ombros, com as mangas justas contra os bíceps, e seu peito é largo o
suficiente para conter o mundo.
Já fizemos isso antes? Nos escondemos no quarto um do outro na
estrada para tirar sonecas antes dos jogos e dormir depois? Parece
certo vir aqui. Meu próprio quarto de hotel estava terrivelmente
vazio, e tudo em que eu conseguia pensar, sentado na beira da cama,
era em voltar para ele.
A tensão se esvai dos seus ombros enquanto ele sorri, aquele ardor
lento que começa nos olhos e se espalha até a boca. Esse é o meu
sorriso, aquele que ele só dá para mim.
— Ei. — Sua voz é áspera e aveludada. Ele não diz uma palavra,
recuando. Eu me movo antes que meu cérebro me alcance, e sua mão
desliza suavemente sobre minhas costas quando passo.
Ele irradia calor. O aroma de coco e limão-chave da Flórida em sua
pele é como verão, raios de sol e areia entre meus dedos. Ele cheira a
casa, e uma parte confusa de mim, um instinto profundo, sussurra:
Sim, aqui. Com ele.
A porta se fecha atrás de mim com um clique. É um quarto de hotel
comum – cama, janela, banheiro – e tudo está em seu devido lugar:
tênis perto do armário, equipamentos encostados na parede. Uma
garrafa de Gatorade pela metade está na mesa de cabeceira, ao lado
de um par de fones de ouvido. Seu terno está pendurado no armário,
esperando o jogo.
A cama está logo ali, e nós dois gravitamos em direção a ela. Blair
senta-se primeiro, e quando me junto a ele na beirada do colchão, ele
afunda sob o nosso peso, como se estivéssemos afundando um no
outro. É tão familiar, tão instintivamente sincronizado, como se já
tivéssemos feito isso mil vezes. Talvez tenhamos feito.
Quero beijá-lo novamente. Quero lhe dizer tudo o que estou
sentindo: o quanto quero essa vida com ele, o quanto o quero, mas
estou sem palavras e paralisado.
Ele se recosta na cabeceira da cama, esticando uma perna comprida
até ela encostar na minha. Nossos joelhos se tocam quando ele se
acomoda.
É fácil relaxar com ele, entrar na sua órbita. Trocamos bobagens
sobre o time, cheias de risadas tranquilas e momentos em que tudo o
que fazemos é olhar um para o outro.
— Jogo mais tarde.
Eu sorrio. — Nós vamos derrotá-los.
Blair dá uma risadinha. É ridículo o quanto eu amo o som da risada
dele. — Quer dizer que você vai acabar com eles?
— Você diz isso como se fosse uma conclusão óbvia.
— É sim. — Ele cutuca meu joelho. — Com você na minha linha?
Somos imparáveis.
Nossa conversa flui sobre o próximo jogo, sobre as conversas
motivacionais do treinador, sobre como Axel sempre consegue comer
três pratos inteiros no bufê.
Ele se inclina em minha direção até nossas coxas se encostarem. Seu
calor penetra na minha perna como o sol penetrando na areia. Ele se
inclina para trás, apoiando-se em um braço, desenhando uma longa
linha ao longo do meu corpo que prende toda a minha atenção.
No intervalo entre as palavras, estudo os contornos do seu rosto, o
formato do seu maxilar, o arco da sua sobrancelha. Ele é uma
escultura que ganha vida, ângulos firmes e curvas suaves. Preciso
esboçá-lo. Aqueles cadernos de esboços da nossa casa; claramente os
retomei este ano. Ele era minha inspiração?
Blair bate o joelho no meu. Um sorriso se forma em seus lábios. —
Torey. — Sua voz é uma carícia. — No que você está pensando?
Só há uma maneira de responder: — Você.
Seu olhar escurece, as pupilas dilatam-se até restar apenas um fino
anel azul-tempestade. O ar muda, carregado. Ele se aproxima, sua
coxa encostada na minha.
Absorvo cada detalhe em cores vibrantes. O jogo de luz da lâmpada
em seu rosto. Cada respiração lenta, a expansão e contração do seu
peito.
Ele desliza os dedos suavemente sobre meus dedos. As mãos de
Blair estão calejadas de uma vida inteira segurando um taco de
hóquei, mas são gentis com a minha pele. Anseio pelo seu toque, pela
sensação de estar ancorado nele. Juntamos nossas testas.
Ele desliza a mão até minha nuca. A pressão suave me aproxima
até que nossas respirações se misturam. O tempo para enquanto
pairamos neste momento.
— Diga — ele diz contra meus lábios, sem chegar a tocá-los. — Diga
o que você quer.
Encurto a distância, pressionando meus lábios nos dele. Meu Deus,
a boca dele parece um retorno ao lar, e eu me derreto nele, relaxado.
O beijo se aprofunda lentamente, como mel escorrendo de uma
colher. Seus lábios foram feitos para me beijar. Ele traça a junção dos
meus lábios com a língua. Quando me abro para ele, o gemido baixo
que ecoa em seu peito vibra no meu.
Suas mãos estão na minha cintura, me puxando para mais perto até
que nossos corpos se encaixem do peito à coxa. Enrosco minhas mãos
em seus cabelos; os fios são uma tábua de salvação me puxando de
volta de alguma costa distante. Eu quero isso, eu o quero, e quero
tudo o que vem depois desse beijo.
As mãos calejadas de Blair são gentis enquanto ele segura meu
rosto. Há algo cru em como ele parece vulnerável agora: suas
bochechas estão rosadas, seus lábios inchados, suas pupilas dilatadas.
— Toda vez — ele suspira. — Toda vez, você abala meu mundo
inteiro.
Deus, não há parte de mim que não seja dele.
Ele me deita contra os travesseiros e me prende entre os braços.
Nossos quadris se alinham. Eu me arqueio contra ele,
desavergonhado, lascivo. Ele traça um caminho pelo meu pescoço
com os lábios, roça os dentes no ponto onde meu coração bate forte.
Seus dedos calejados deslizam pelas minhas costelas, deslizando por
baixo da minha camiseta.
— Tão lindo — ele fala contra minha pele.
Estou desesperado para senti-lo pele contra pele. Ele se recosta
tempo suficiente para que eu arranque sua camisa pela cabeça, tire a
minha e então me deite no colchão novamente.
Ele tem gosto de sal e fome, e eu não me canso, nunca me canso. As
mãos de Blair percorrem meus flancos e agarram meus quadris.
Ele traça um caminho de beijos até minha barriga, mapeando-me
com lábios, dentes e língua. Ele está mapeando – para mim, pelo
menos – território virgem. Cerro os punhos em seus cabelos enquanto
ele morde meu quadril, tonto e embriagado com seu toque e o calor
de sua boca.
— Diga-me o que você precisa.
Jesus. — Eu preciso... — Engulo em seco e forço as palavras a
saírem, com a voz trêmula. — Preciso de você. — Três palavras,
pesadas como um voto.
Os olhos azuis de Blair se inflamam, derretendo. Ele ergue-se, me
agarra num beijo que queima minha alma. — Você me tem — diz ele
contra meus lábios. — Todo eu, sempre.
Seus dedos engancham no cós da minha calça jeans. O botão se abre
e ele abaixa o zíper, centímetro por centímetro, agonizantemente.
Meus quadris se erguem, implorando...
Ele puxa, devagar. Minha calça jeans e cueca boxer se enrolam em
minhas coxas, e ele se agacha e olha da cabeça aos pés.
Eu me contorço. Já estou dolorosamente duro. Seus olhos – azuis e
profundos – fixam-se nos meus.
Ele coloca as mãos sobre minhas coxas e me segura, montando em
meus joelhos. Estou ofegante, tremendo, prestes a sair da minha pele.
Vou gozar, e ele nem sequer me tocou. Ele só está olhando para mim.
Ele beija meu quadril, a parte interna da coxa. Ele não tira os olhos
de mim.
Minhas mãos apertam os lençóis dele com força. — Blair, por
favor...
Ele abaixa a cabeça, dolorosamente devagar. Ele estala a língua
para fora.
Um calor úmido me envolve e eu me empurro contra o colchão.
Estou praticamente selvagem e definitivamente desequilibrado, com
as costas curvadas, a cabeça jogada para trás, uma pontada presa na
garganta. Estou perdido no deslizar escorregadio de seus lábios, sua
língua, sua sucção requintada. Estou tenso o suficiente para estalar.
Ele cantarola, baixo, na garganta. Sinto em todos os lugares. É agonia,
é êxtase. Ele me penetra fundo, até a raiz, e então me engole.
Estrelas. Galáxias. Universos explodem atrás das minhas
pálpebras. Eu me agarro aos seus ombros, puxo seus cabelos. Estou
desesperado por uma âncora; não consigo respirar.
Ele é implacável, me levando cada vez mais fundo, me apertando
cada vez mais. Estou balbuciando, despejando palavras sem controle.
Súplicas, elogios, o nome dele, repetidamente.
Blair mapeia minha alma, navega pelos lugares secretos do meu
corpo. Ele se molda a mim, e eu me enrolo nele, meus tornozelos
entrelaçados na parte inferior de suas costas. Sou descarado,
implorando por mais, mais fundo, mais perto, até não conseguir mais
distinguir onde eu termino e ele começa.
— Blair. — Estou desfeito. Anulado. — Blair, por favor, por favor...
— Eu me estilhaço contra ele, me estilhaçando em um milhão de
pedaços brilhantes. Ele me faz passar por isso, espremendo cada
último tremor e abalo secundário.
Quando finalmente me recupero, ele está estendido ao meu lado,
traçando padrões na minha pele encharcada de suor com a ponta dos
dedos. Sua cabeça está apoiada na outra mão, e ele me observa, com
um sorriso satisfeito curvando seus lábios inchados.
— Voltou para mim? — ele pergunta, sua voz baixa e áspera, cheia
de... porra… desejo por mim.
Ainda estou flutuando, meus nervos cantando, mas preciso senti-
lo e, mais do que isso, prová-lo.
Eu me aproximo, capturo seus lábios, lambo sua boca. Ele se abre
para mim lindamente, gemendo enquanto cai para trás na cama.
É fácil demais subir em cima dele. Nem penso, nem duvido. Tiro
sua calça de moletom com um puxão rápido e me acomodo em seu
colo. De repente, estamos pele com pele, cada centímetro
pressionado, cada plano rígido e cada músculo tenso. Seu calor, sua
força, tudo é meu, tudo embaixo de mim.
Mordisco seu maxilar, sua garganta, beijo seu peito. Quero desfazê-
lo, soltá-lo do mesmo jeito que ele me desfaz. Ele parece esculpido,
cada linha definida, ofegante e corado sob meus lábios. Desço por seu
corpo.
— Torey... — Ele se arqueia ao meu toque e segura o travesseiro
sobre a cabeça.
Envolvo minha mão ao redor do seu pau, sinto o veludo macio
sobre o ferro quente. Ele se contrai e pragueja, um tremor
percorrendo seu corpo enquanto sussurra meu nome. E, meu Deus,
há poder nisso. Estou levando Blair Callahan ao limite com meu
toque.
Quero aproveitar o meu tempo, saborear cada centímetro, como
sempre fantasiei. Também quero tudo, agora mesmo, de uma vez.
Quero tudo, um ano inteiro de tudo o que perdi. Não faço ideia por
onde começar.
Bem aqui. Deslizo para baixo, ajoelho-me entre as pernas dele e o
coloco na minha boca, o mais fundo que consigo.
A sensação dele na minha língua é indescritível. Eu me afasto
lentamente, arrastando meus lábios por seu pênis, saboreando seu
gosto salgado e doce. Rodo minha língua em volta de sua cabeça,
traçando a crista, mergulhando na fenda.
— Porra, Torey...
Olho para cima através dos cílios enquanto o observo novamente,
centímetro por centímetro, agonizantemente. Suas pupilas estão
dilatadas. Encovo as bochechas e chupo. Sua cabeça cai para trás, os
tendões do pescoço se destacando.
Deslizo minhas mãos por suas coxas. Seus músculos tremem sob
meu toque. Cada vez que o toco, vou mais fundo, até que sua cabeça
roça o fundo da minha garganta. Eu me afasto com um estalo
obsceno, meus lábios inchados e úmidos. Preciso recuperar o fôlego.
Ele grita. Está radiante e desesperado, e eu adoro poder quebrar o
controle dele.
Lambo uma faixa longa e lenta da base à ponta, depois pego apenas
a cabeça dele entre os lábios, chupando enquanto minha mão trabalha
seu membro. Encovo as bochechas e giro a língua, me perco no
deslizar e na sucção, deleito-me com a sensação dele deslizando sobre
minha língua. Gemo em volta dele, pressionando a língua contra a
parte de baixo.
Ele está ofegante, sussurrando meu nome sem parar. Ele está perto.
Quão bom eu sou nisso? Quanto eu consigo aguentar? Cantarolo e
o levo mais fundo, engulo-o até o fundo.
Ele solta um grito baixo e inunda minha boca.
Aparentemente sou muito bom.
E eu adoro isso pra caralho. Engulo avidamente, tomando cada
gota, tudo o que ele pode me dar. Ele treme e se contorce, ofega e
geme, enquanto eu continuo chupando até secá-lo.
Quando ele me puxa para cima, eu me derreto em seus braços
enquanto ele me beija, perseguindo seu gosto na minha língua.
Trocamos beijos preguiçosos, aproveitando o brilho do momento até
que ele nos vira, me aconchegando ao seu lado com minha cabeça
apoiada em seu peito. Eu me aconchego mais, entrelaçando nossas
pernas.
Me assusta a profundidade desse amor, mesmo sem me lembrar de
como chegamos aqui. Cada átomo de mim está voltado para ele. Ele
é minha Estrela do Norte.
É assim que parece quando se é querido, quando se é desejado por
tudo o que se é e por tudo o que ainda não se é, mas que se poderia
ser, se apenas...
Se ao menos tivesse chegado. Estou aqui, estou vivendo. Esta é a
minha vida, minha vida linda, maravilhosa e incrível. Com Blair.
As peças que faltam não importam. A incerteza e o medo – tudo
isso desaparece. Isso é tudo.
Estou completo.
O gelo está me chamando e estou pronto para responder.
Nosso vestiário na Filadélfia está pegando fogo. Os caras estão
zumbindo ao meu redor, prendendo tacos com fita adesiva e
amarrando patins. O cheiro de suor e roupas velhas enche o lugar,
misturando-se ao som de fita adesiva rasgada e nossas músicas de
aquecimento. É um cheiro que sinto falta, um cheiro que me lembra
de casa, de onde pertenço.
Hollow grita algo para Axel. Hawks faz beatbox. Divot e Simmer
se alongam, mas o alongamento deles parece que estão tentando
dançar break de patins. Tudo me invade, onda após onda após onda.
Eu faço parte disso, faço parte desta família.
— Kicks, você está bem? — pergunta Hawks, batendo no meu
ombro com o dele.
— Sim, cara. Pronto para ir lá. — Calço meus patins, mas meu olhar
está perdido.
Lá está ele, vestindo a camisa pela cabeça no meio de uma bolha de
defensores. A baia de Blair fica um pouco mais abaixo – longe o
suficiente para não sermos pegos olhando, perto o suficiente para que
eu o sinta. Ele é uma maré, me puxando constantemente.
Seus olhos azuis ardentes encontram os meus. Nossos olhares se
encontram...
Desejo. Essa é a primeira coisa que me invade. As lembranças de
antes, de antes do jogo. Meu Deus, o gosto dele ainda está na minha
língua. Ele está em todo lugar, mesmo quando não está ao meu lado.
Ele respira comigo, a cada inspiração e a cada expiração.
Ele sorri, aquele sorriso lento que desfaz o meu mundo. Seu olhar
penetra direto no meu coração. Um calor percorre minha pele
inquieta. Caio de joelhos, mexendo nos cadarços dos meus patins.
Amarro, amarro de novo.
Essa sensação me invade: fogo e gelo, voo e queda livre, trovão e
silêncio. Não consigo definir, não consigo descrever. É Blair, é o jogo,
é esse time. É tudo, um ano inteiro comprimido nessas respirações,
minha própria vida bem na minha frente, esperando que eu entre
nela.
É uma necessidade primordial: estar no gelo com Blair,
acompanhá-lo passo a passo, estar presente em cada passe, cada
bloqueio corporal, cada respiração. Estar com ele.
O treinador entra a passos largos. — Certo, rapazes, ouçam! — Sua
voz corta a conversa, silenciando a todos. — Temos um grande jogo
hoje à noite. A Filadélfia está com fome, mas nós estamos com mais
fome ainda. Vão lá e façam eles pagarem. — Ele percorre as linhas. —
Emerson, você está com o Simmer. Novak, você está com o Divot. —
Uma pausa. Ele olha para mim. — Kicks, você está centralizando a
linha do Calle.
— Sim, treinador — eu respondo rispidamente.
— Precisamos igualar a intensidade deles desde o início. — O
treinador bate palmas. — Vamos lá, rapazes!
A sala explode. Uma vontade de me mover, de planar, de voar
começa nas minhas pernas.
A arena ruge de vida enquanto descemos o túnel dos visitantes em
direção ao gelo. O rinque está escuro, exceto pelo brilho das cores do
time da Filadélfia rodopiando sobre o gelo enquanto o time da casa
patina. Milhares de vozes se erguem em uma onda de aplausos,
preenchendo cada espaço entre as batidas do meu coração.
Tudo está caindo sobre mim: o rugido da multidão, o frio cortante,
o cheiro de gelo. Eu respiro tudo, deixo que me preencha.
A parte de trás da luva de Blair roça em mim enquanto estamos
ombro a ombro na linha azul. Seu toque me estabiliza, me centraliza.
— Pronto? — ele pergunta.
— Vou te dar tudo — prometo. Tudo, tudo o que tenho, tudo o que
sou.
No centro do gelo, bem antes do lançamento do disco, nossos
olhares se encontram, e vejo o reflexo do meu próprio coração
indomável em seu olhar.
Somos ele e eu.
O disco cai.
Nove
— Droga, quem é você agora? — O braço de Hayes envolve meu
pescoço, e sua voz ecoa no meu ouvido. — Ainda não acredito como
você arrebentou, Kicks! Você estava arrebentando!
O time inteiro está animado, feliz com a nossa vitória contra
Filadélfia. Estamos todos espremidos num elevador, e é apertado.
Estou encostado na parede com Hayes e Jared de cada lado. Os caras
gritam e riem, relembrando os melhores momentos do jogo. Não
consigo parar de sorrir.
Minhas pernas queimam por causa do jogo, aquela dor gostosa que
significa que deixei tudo no gelo. Nós destruímos Filadélfia,
destruímos completamente. E eu fiz parte disso, não fiquei assistindo
do banco nem tentando acompanhar. Eu conduzi as jogadas, criei
chances e acertei meus chutes quando precisou.
Plim.
Saímos para o terraço de um bar em Boston, um grupo de jogadores
de hóquei famintos, recém-saídos de uma vitória.
É um oásis elegante – sofás baixos e cadeiras altas dentro de um
terraço envidraçado com vista para a cidade. Palmeiras em vasos
balançam. Luzes globo refletem nas paredes de vidro e nos prédios
ao redor, e cintilam no lugar do céu estrelado encoberto.
Chegamos ao hotel depois do nosso curto voo da Filadélfia,
largamos os ternos e viemos direto para cá. O sol está se pondo no
horizonte, lançando tudo em dourado e rosa. O ar está inebriante de
fim de primavera, carregado com o sal e a salmoura do porto. Uma
lareira crepita ali perto, e consigo ouvir o farfalhar da cidade lá
embaixo, o trânsito fluindo, as buzinas tocando, uma sirene distante
subindo e descendo.
Eu fico para trás enquanto os rapazes ocupam as mesas, com seus
tapinhas nas costas e vozes roucas ecoando pelo terraço.
A vista, as risadas e o tilintar dos copos, o cheiro de frutos do mar
grelhados... é impressionante, mas isso é normal hoje.
Blair aparece ao meu lado, encostado no corrimão com os braços
cruzados.
— Ei — ele diz. O sol está se pondo atrás dele, banhando seu rosto
em dourado. Ele está radiante, a luz refletindo nas bordas de seu
maxilar e na curva de seus lábios.
— Ei. — Enfio as mãos nos bolsos e deslizo para mais perto dele.
Ele inclina a cabeça na minha direção. — Você jogou muito bem
hoje.
— Eu estava tentando acompanhar você.
Ele bufa. — É o contrário.
Não consigo desviar o olhar.
— Vamos nessa, rapazes! — a voz de Hawks ecoa pelo bar. — A
derrota da Filadélfia merece uma comemoração à altura.
Sigo Blair pelo terraço até onde o time montou acampamento, num
aglomerado de tendas. Hayes ergue um copo enquanto puxamos
duas cadeiras. — Para o Torey! Por ter sido uma estrela do caralho
hoje!
Todos levantam seus copos em minha direção.
— Sério — diz Hollow —, você foi incrível lá.
Mais brindes seguem: à vitória, à defesa insana de Simmer no
terceiro, às habilidades de Reid na disputa de disco.
Eles gritam e comemoram enquanto Blair e eu nos sentamos. Blair
desliza a coxa contra a minha por baixo da mesa e a deixa ali, uma
longa linha de calor.
Quando o garçom chega, os rapazes o bombardeiam com seus
pedidos. Eles estão conversando sem parar, pedindo quantidades
absurdas de comida, e o coitado se esforça para atender ao apetite de
um time de hóquei e todas as suas substituições exigentes.
Quando chega a nossa vez, Blair pede para nós dois: — Duas piñas
coladas sem álcool, por favor.
Levanto as sobrancelhas, surpreso, mas Blair me dá aquele meio
sorriso que faz meu mundo desabar. Ele aperta o joelho com mais
força contra o meu por baixo da mesa. Recosta-se na cadeira,
balançando a cabeça diante das palhaçadas que acontecem ao nosso
redor.
Não consigo parar de olhar para ele. A maneira como ele se move
pela vida é magnética. Tudo o que ele faz me envolve
profundamente. Ele é tão confiante e seguro de si.
Um chute forte de Hayes acerta minha canela. Eu me sobressalto e
solto um palavrão.
Os olhos de Hayes me penetram por cima do gargalo da cerveja.
Muito propositalmente, ele desvia o olhar para Blair e depois volta
para mim.
Mensagem recebida: Preciso relaxar ou esse nosso segredo vai ficar
espalhado por todo o bar.
Ainda não conversamos sobre o que Blair quis dizer quando
afirmou que não se importava se alguém visse. Foi o calor ‘ou o frio’
do momento? Ele realmente falou sério? Ele se assumiria por mim? É
isso que queremos?
Tento parecer casual enquanto a conversa sobre o jogo de amanhã
contra Boston aumenta. Blair está imerso em uma conversa com Axel.
Capto fragmentos... “o colapso da linha azul” e “fraco no lado
direito”... mas estou mais focado no movimento dos lábios de Blair.
A comida chega quentinha: espetinhos de camarão grelhado com
manteiga de alho, lula frita com fatias de limão, rolinhos de lagosta
recheados, travessas de mini-hambúrgueres e cestas de batatas fritas.
Os rapazes se deliciam como se não comessem há dias. Hollow rouba
metade de um rolinho de lagosta do prato de Hawks enquanto Mikko
enfia batatas fritas na boca de Divot. As bebidas de Blair e minhas
chegam, altas, congeladas e cobertas com pequenos guarda-chuvas.
Blair pisca para mim enquanto toma um gole.
— Que diabos é isso? — A risada de Hawks é um grito sonoro.
— Férias na praia num copo — responde Blair, completamente
imperturbável. Ele toma um longo gole pelo canudo, sem tirar os
olhos dos meus.
Coco doce e abacaxi inundam minha boca. Tem gosto de sol de
verão e tardes preguiçosas à beira d’água. Nem me importa que seja
sem álcool; estou bêbado só de Blair.
— Cara, para de monopolizar as batatas fritas, passa elas...
— Aquele passe levantado no terceiro período...
O barulho é ensurdecedor. Eles estão trocando farpas sobre chutes
certeiros e passes perfeitos marcados durante o jogo de hoje, da
semana passada ou do mês passado. Eles estão todos tão à vontade
uns com os outros, e é fácil ver como conseguimos jogar tão bem
juntos nesta temporada. A camaradagem deles me envolve, quente e
forte. Bem, a nossa camaradagem. Eu faço parte disso agora, e é
incrível.
— Ei, Kicks — diz Hayes com a boca cheia de lula. — O que você
quer fazer depois de tudo isso?
Dou de ombros. — Nunca pensei tão longe.
— Você não é um daqueles caras que tem um plano para a vida
depois do jogo?
— Na verdade, não. — Tomo um gole da minha bebida, olhando
para Blair. Ele está falando com Axel novamente. — A vida está
incrível agora.
Além do Blair, ninguém me entende mais do que o Hayes. Poxa,
agora mesmo, ele me entende mais do que eu. Eu confiava nele antes
e ainda confio. Ele é como meu amigo mais próximo. Eu precisava de
alguém, né?
— É? — A mastigação de Hayes diminui.
— É, eu quero tudo o que tenho. Para sempre. — Um rubor queima
minhas bochechas. Eu entendo o que estou dizendo.
Hayes ergue sua cerveja e a estende para um brinde. Eu ergo minha
piña colada sem álcool e brindamos sobre uma bandeja de
hambúrgueres demolida. — Estou feliz por você — diz Hayes. Ele
lança mais um olhar para Blair, mas desta vez, seu olhar é terno, cheio
de algo caloroso e profundo. Fraternidade, se eu tivesse que dar um
nome a isso.
Blair se inclina para mim enquanto pega um punhado de batatas
fritas. Nossos ombros se encostam, e aquela faísca reacende, um raio
intenso que percorre meu corpo sempre que ele me toca.
A conversa flui. Os caras falam alto, suas vozes se sobrepondo
enquanto a conversa muda para o nosso jogo contra Boston. Todo
mundo tem uma opinião, e todos a compartilham ao mesmo tempo.
Quem vai marcar primeiro (Hawks aposta em si mesmo), quem vai
para a área de penalidade primeiro (todos apostam em Blair). As
ideias ficam pingando de um lado pro outro na mesa. Jogadas de
vantagem numérica. Defesa em desvantagem numérica. Minutos de
penalidade. Blair puxa saleiros e facas para a formação, diagramando
jogadas. Ele é tão apaixonado por este jogo e por este time. Ele ama
hóquei como eu o amo.
Hayes aponta a garrafa para Blair. — Calle, você precisa manter a
cabeça no lugar quando estiver lá amanhã. Você não pode deixar que
eles entrem na sua cabeça.
Blair levanta as mãos. — Eu sei, eu sei.
— É? Tem certeza? — Hayes insiste. — Porque eu vi você se
irritando lá na Filadélfia.
— Eles estão tentando me irritar...
— E eles sabem como fazer isso. — Hayes lança um olhar para mim
por uma fração de segundo.
— Você é uma estrela, Calle — interrompe Hollow. Ele está
mastigando um punhado de batatas fritas, mas, claramente, tem
experiência em conversar perto da comida. — Não precisa se
preocupar com nenhum desses caras.
Hayes se recosta na cadeira. — Você se lembra do que aconteceu
da última vez que jogamos contra o Boston? Quando foi isso, logo
antes do Ano Novo?
Blair solta um suspiro pesado e se joga na cadeira, com o olhar fixo
em Hayes. — Lá vamos nós.
Hayes chamou a atenção do resto da mesa, e ele sabe disso. —
Imagine só: faltam cinco minutos, estamos perdendo por dois. A
torcida do Boston está clamando por sangue. Não nos resta mais nada
de energia. — Ele dá um sorriso largo. — Até que algum gênio do
Boston decide irritar o Calle.
Blair revira os olhos. Um rubor surge em suas bochechas, aquele
tom perfeito de marrom que já beijei centenas de vezes.
— Então Boston decide que a jogada mais inteligente que pode
fazer é eliminar o nosso homem aqui. — Hayes aponta para mim com
o garfo. — Wheton avança alto, pega Kicks bem na bochecha.
Não me lembro de nada disso.
As palavras ficam confusas, algo sobre eu ter sido atingido, mas a
história parece distante, como se tivesse acontecido com outra pessoa,
ou ainda não tivesse acontecido, ou ambos.
— O Kicks cai forte — continua Hayes. — E é aí que o nosso capitão
destemido aqui perde a cabeça.
— Eu não...
— Pelo contrário, Capitão, você sim. — Hayes sorri e inclina sua
cerveja para Blair. — Você deixou cair as luvas antes mesmo que
Wheton percebesse o que o atingiu. Arrasou o cara, à moda antiga,
dando a ele justiça no hóquei o dia todo.
Blair encosta o joelho no meu, uma pressão constante que diz que
eu faria de novo.
— Então o Kicks vai para o túnel para ser costurado — continua
Hayes — e entramos no tempo de vantagem numérica. E quando o
nosso garoto volta para a próxima disputa de disco, com três pontos
novos decorando aquele rostinho bonito, o que ele faz?
Todos se viram para olhar para mim.
Procurei esse jogo na minha memória e só encontrei estática.
O fantasma está lá – o taco nas minhas mãos, o suor nos meus olhos,
o peso perfeito de um disco na minha lâmina. Foi Blair quem me
passou o passe? Hayes quem me deu o passe?
— Ele marca com onze segundos restantes! — Hayes dá um tapa
na mesa. — E então... — Hayes faz uma pausa para o máximo de
drama. — Na prorrogação, depois de todo aquele heroísmo, todo
aquele sangue e beleza... Quem faz o gol da vitória?
Não tenho a mínima ideia.
— Maldito Divot!
A mesa explode em caos. Divot tem um coração de ouro, mas é a
definição de um jogador de futebol americano. Ele tem pés no lugar
das mãos e patina como uma geladeira, mas pode rebater como um
trem e atacar, atacar, atacar o adversário. Ele é conhecido por sua
força, não por sua pontuação na temporada.
Três pontos na minha bochecha. Toco meu rosto.
Tudo o que quero neste momento é lembrar. Recorrer às
profundezas obscuras da minha memória e extrair um pensamento
único e sólido.
Mas não há nada lá, apenas um buraco enorme.
— Você está bem? — pergunta Blair.
— É. Só lembrando. — Mentiroso.
Hayes se recosta na cadeira, extremamente satisfeito com seu
desempenho. — A questão é que Boston desperta o que há de melhor
em nós, especialmente em você, Calle.
A mão de Blair pousa nas minhas costas, seus dedos espalmados
acima do cós da minha calça jeans. O calor dele penetra na minha
camisa e na minha pele. Meus pensamentos estremecem, congelam e
desaparecem com um estalo.
— Quando você ri assim…
O calor de sua mão se espalhou, florescendo em minha pele como
aquarela em papel molhado.
— Talvez seja meu som favorito no mundo.
Se ele se inclinasse e roçasse a boca na minha agora mesmo, eu não
o impediria. Afogar-me parece inevitável agora, e me perder
completamente é tudo o que eu quero.
Como ele faz isso? Cria a sensação de que somos as únicas pessoas
no universo com um toque, um olhar? Como se estivéssemos
enrolados em lençóis e sussurrando segredos um contra o outro? Será
que ele vê como estou instável agora, como estou completamente
desfeito?
— Vamos pegar mais bebidas — ele diz.
Ele se levanta. Eu o encaro, absolutamente incapaz de entender o
que ele quer que eu faça. Beijá-lo, sim. Subir em seu colo e me
aconchegar nele, sim. Ficar de pé, se mexer, falar, pensar? O quê?
Eu consigo, no entanto, superar a versão primitiva de mim mesmo
e me tornar um ser humano novamente. Sigo Blair, ziguezagueando
entre as mesas até o bar. É uma parede sólida de corpos, a madeira
quente grudenta de cerveja e rum derramados. O gelo tilinta nos
copos, e o riso cresce e se quebra contra as paredes. Nós dois estamos
acostumados com essa aglomeração, e avistamos uma brecha e um
ângulo, chamando a atenção do barman.
Blair pede mais duas piñas coladas sem álcool. O barman ergue as
sobrancelhas lentamente. Blair sustenta o olhar.
Deslizo minha mão pelo seu peito e a coloco em seu quadril, entre
sua camiseta e sua calça jeans.
Ele se vira para mim quando o barman se afasta. — Sabe — diz ele,
com a voz tão baixa que só eu consigo ouvir —, eu estava pensando
no meu irmão mais cedo.
Seus olhos se suavizam como gelo derretendo na água. Minha
respiração para.
— Estávamos jogando nas ligas adolescentes, na temporada de
estreia dele — continua Blair, fixando o olhar em algum ponto além
da parede de garrafas de bebida. Seu olhar é distante, cego. — Ele
estava sempre falando demais, mas neste jogo, ele estava em outro
nível. Implacável.
Ele está sorrindo agora, mas há algo dentro dele, por baixo. — Ele
decidiu fazer desse cara do outro time, um defensor com um físico de
merda, seu projeto pessoal para a noite.
Um músculo dispara no maxilar de Blair, um elástico estalando. —
Antes de uma disputa de disco, ele patina até ele. Diz: ‘E aí, grandão.
Sua namorada ligou. Disse que deixou suas bolas na mesa de
cabeceira’.
Eu rio quando Blair faz isso, mas parece errado. Há uma ironia no
sorriso de Blair que não condiz com suas palavras.
— Passei os dois períodos seguintes enroscado nele, tentando
impedi-lo de transformar meu irmãozinho em uma mancha no gelo.
Meus pensamentos percorrem memórias que não existem mais e
não chegam a nada além do vazio. Eu já deveria saber de toda essa
história. Claramente, já conversamos sobre o irmão dele. Eu deveria
saber tudo sobre Blair, seus mundos interiores e os segredos que ele
me confiou, todos os detalhes, minúsculos e magníficos, que
preenchem sua vida.
Sinto saudades dele esta noite mais do que nunca. Sinto saudades
de ser o homem de que ele precisa, o verdadeiro Torey que ele ama.
O que aconteceu durante aquele ano perdido? O que fizemos
juntos? Como chegamos aqui? E se eu nunca me lembrar?
E se ele perceber que tantas peças cruciais do nosso passado estão
faltando para mim? Que metade da minha alma é uma estranha
amnésica para este amor?
É aqui que mais importa que eu tenha perdido o meu último ano.
Não, o nosso último ano, porque não perdi apenas as minhas
memórias. Perdi-nos, a história do que construímos, do que
partilhamos, do que confessámos, do que fizemos. Não há sentimento
que me faça atravessar isto, nenhuma memória muscular para seguir.
Este é um cânion que preciso atravessar para voltar a ele – a nós – de
uma forma ou de outra.
Deslizo o polegar sobre sua pele, um arco lento, para cima e para
baixo e para trás. Blair cruza meu olhar, sustentando-o. Ele está me
alcançando através de suas próprias águas turbulentas, desejando,
não, precisando...
Aperto a mão dele. — Ele sabia que sempre poderia contar com
você para apoiá-lo.
Ele solta um suspiro longo e lento. Ele levanta nossas mãos unidas
para apoiá-las no balcão, com os dedos entrelaçados.
Engulo em seco. Era disso que ele precisava, e talvez eu tenha
reconhecido seu redemoinho porque estive perdido no meu por tanto
tempo. Será que Blair me tirou de lá? Ou será que nos resgatamos das
nossas próprias tempestades?
O barman coloca nossas piñas coladas à nossa frente – guarda-
chuvas duplos e uma montanha de cerejas – e Blair paga com uma
nota novinha antes de voltarmos para o grupo. Ele caminha atrás de
mim, me protegendo em sua sombra, perto o suficiente para que
nossos braços se toquem a cada passo.
A mesa ruge quando voltamos. Os rapazes estão animados, suas
vozes se sobrepondo. Divot conta uma história sobre como quase se
envolveu em uma briga com um guaxinim no verão passado em sua
cabana, e reencena tudo como se fosse a final da Copa. Hayes agita a
mão diante do rosto, sem verbalizar. Novak revira os olhos e empurra
a mão na lateral do rosto de Hayes.
Deslizo para o meu lugar ao lado de Blair. — O que estou perdendo
aqui? — ele pergunta. Seus dedos roçam nos meus enquanto ele pega
sua bebida.
Deus, o toque dele me dá vontade de arrastá-lo para algum lugar
privado e deixá-lo me destruir aos poucos. Você poderia ter tudo de mim,
para sempre. Você tem tudo de mim para sempre.
— E aí, Cap — chama Simmer do outro lado da mesa. — Se você só
pudesse comer uma coisa pelo resto da vida, mas tivesse que ser algo
da arena, o que seria? E por que nachos?
Blair defende sanduíches de frango ao molho Buffalo como se
estivesse treinando a jogada de vantagem numérica. Debaixo da
mesa, ele coloca a palma da mão na minha coxa. Desta vez, cubro a
mão dele com a minha.
A noite se desenrola ao nosso redor. Estou em chamas, queimando
vivo na frente de todos, sob seu toque. Se ele deslizasse a mão mais
para cima agora mesmo, eu o deixaria fazer o que quisesse. Quero sua
boca em mim novamente, lenta e voraz, até que eu esqueça meu
próprio nome.
Finalmente, a noite se encaminha para o toque de recolher. Os
rapazes começam a fazer barulho, chamando Ubers e acertando
contas. Cartões de crédito saem, cadeiras raspam no chão. Celulares
e óculos de sol são recolhidos.
— Quem vai ficar de plantão no café amanhã? — pergunta Hayes.
— Não isso! — diz Novak imediatamente.
— O ônibus sai às oito — diz Blair, sua voz se elevando acima do
barulho de vinte jogadores de hóquei. — Não se atrase.
Um grupo de jogadores de hóquei não chega a lugar nenhum
rapidamente. Alguns dos caras vão até o corrimão. Alguns se
distraem com a lareira, outros com o alvo de dardos. Blair segura
minha mão na dele e me leva para dentro do bar, nos levando por um
corredor que mal brilha. Há luz suficiente apenas para traçar as linhas
de seu rosto na sombra, e o resto dele aparece e desaparece.
Ele para abruptamente e me vira em seu corpo. Pressionamos
nossas testas, e o mundo lá fora, nesse pequeno espaço de ar,
simplesmente evapora. Ele expira, eu inspiro. Compartilhamos esse
ar, confinados em nosso universo particular, que não precisa de nada
além de suas fronteiras para ser completo.
Ele se aproxima até que nossos lábios estejam a um passo de se
tocar. Ele tem gosto de beijos de água salgada e noites de verão
passadas entrelaçados em praias onde ninguém mais existe além de
nós. Ele se aprofunda, abrindo a boca, a paciência se transformando
em fome. O beijo se aprofunda como ondas ganhando força antes de
quebrarem na praia.
Enrosco meus dedos nos cabelos grossos da nuca dele, puxando-o
para mais perto, mantendo-o aqui. Nos beijamos, e o tempo voa,
como se não estivéssemos parados num canto escuro enquanto vinte
companheiros de time podem aparecer a qualquer momento.
Aproximamo-nos, cada vez mais, até que nossos corpos se tornam
uma única linha rígida. Tudo o que significa alguma coisa se resume
ao sabor dos seus lábios. Se eu pudesse me unir a este momento, eu o
faria.
— Ei! — a voz de Hayes ecoa pelo corredor. — Se vocês estão aqui,
andem logo. Ubers estão chegando!
Nosso beijo se interrompe. Seus olhos são tão brilhantes, tão
intensos; eles queimam os meus. Eu não desvio o olhar.
Não quero desviar o olhar. Ele é tudo: minha âncora, minha tábua
de salvação, minha razão de ser. O mundo se confunde quando ele
está tão perto.
Como descrever algo que você nunca vivenciou antes? Como
expressar em palavras sentimentos que você nunca sentiu antes?
Quero gravar este momento tão profundamente na minha memória
fragmentada que ele nunca mais possa ser roubado.
Nada está realmente perdido até você esquecer o gosto dos lábios
de outro homem.
E eu nunca o esquecerei.
Dez
O salão de baile do hotel está vazio, exceto por mim. Estou sozinho
com um café da manhã servido em três mesas: salsichas chiando ao
lado de bacon crocante, ovos mexidos fofinhos aninhados entre
panquecas douradas e waffles belgas, e doces dispostos em espirais.
O xarope de bordo reflete a luz sob as lâmpadas de aquecimento, seu
aroma doce se misturando ao sabor salgado da carne e ao aroma rico
do café fresco.
Encho meu prato com ovos, bacon, um muffin de mirtilo e um
croissant amanteigado. Carga de carboidratos antes do jogo. O bufê
do time parece grande demais sem os rapazes para comê-lo. Cheguei
cedo, mas não fazia sentido voltar para a minha cama depois de ter
escapado do quarto de Blair esta manhã.
A noite passada está explodindo dentro de mim, pequenos fogos
de artifício de memórias que brilham e cintilam. O arrastar da boca
de Blair na minha clavícula é um fantasma na minha pele, suas mãos
ainda estão lá nos meus quadris, onde ele me puxou para mais perto.
Meu garfo bate no prato. Blair, com a boca descendo pela minha barriga,
a língua traçando padrões cada vez mais baixos...
Respiro fundo, tentando me concentrar no café da manhã em vez
de em como Blair olhou para mim por entre minhas coxas com um
sorriso malicioso.
Lembro-me de estar montado em seus quadris, observando seus
olhos escurecerem enquanto eu assumia o controle. Lembro-me de
como ele nos virou, e então do deslizar de pele contra pele, e da
maneira como ele demorou comigo. Ficamos grudados juntos pelo
que pareceram horas, nos beijando até ficarmos sem fôlego, e eu
apertei minhas coxas em volta de sua cintura, nossos paus duros,
quentes e se esfregando até que cada terminação nervosa estivesse
dolorida e viva.
Quando gozei, seu nome ficou preso entre meus dentes, seu
suspiro enterrado em minha garganta.
Depois, ficamos deitados, entrelaçados, com as pernas
entrelaçadas. Ele traçou padrões preguiçosos no meu peito. Eu não
conseguia desviar o olhar dele – a curva satisfeita do seu sorriso, o
jeito como seu cabelo escuro caía sobre a testa.
— Fique — ele murmurou, já meio adormecido, e seu braço
pousou, pesado, em minha cintura.
Fiquei assim por horas.
Mordo meu croissant. Camadas folhadas e amanteigadas se
dissolvem na minha língua. Tudo fica mais gostoso quando você está
feliz.
A luz atravessa lustres de cristal, projetando prismas sobre toalhas
de mesa engomadas e refletindo em utensílios de prata. A máquina
de café zumbe suavemente enquanto meu garfo raspa na porcelana.
Ser o primeiro tem suas vantagens.
Meu telefone vibra ao lado do meu copo de água.
O nome de Blair ilumina a tela. Ele enviou uma foto sua ainda na
cama, com o cabelo despenteado e os olhos semicerrados de sono. O
lençol cai sobre seus quadris e seu sorriso é preguiçoso e acolhedor.
A mensagem diz:
Já sinto sua falta.
Eu também sinto falta dele.
Meu polegar paira sobre a tela. O que devo responder? Uma foto
do meu café da manhã? Uma foto minha com bochechas de esquilo
recheadas de panqueca?
Outra coisa me chama a atenção: a última mensagem do meu pai.
Meu pai costumava me mandar mensagens depois de cada jogo –
e às vezes durante –, disparando pensamentos sobre o que eu fazia,
certo ou errado. Ele era um fluxo constante de comentários e
conselhos não solicitados, e sua análise pós-jogo desmembrava cada
jogada minha, dissecando cada chute errado em suas partes
componentes. Isso me deixava louco.
Agora? Ele só me enviou algumas mensagens rápidas desde que
comprei este celular novo, alguns meses atrás.
Nós brigamos? Por causa de... Blair? Mas ele não teria dito alguma
coisa se achasse que o Blair era ruim para mim? Papai nunca perde a
oportunidade de expressar sua opinião.
Então por que esse silêncio todo?
Nossa última conversa foi há alguns dias. Ele mandou mensagem
depois daquela pancada que não me lembro de ter levado.
Vi a pancada. Você está bem?
Eu nunca respondi e, algumas horas depois, acordei de repente na
cama de Blair, com um ano de memórias apagadas.
Eu o afastei? Ele desistiu de mim? Este silêncio parece muito com
uma despedida.
A porta do salão se abre e Hayes entra cambaleando, com o cabelo
espetado em cinco direções. Ele aperta os olhos contra as janelas
iluminadas e se dirige para a cafeteira.
— Bom dia, Kicks — ele diz em meio a um bocejo de estalar o
queixo.
— Bom dia. — A palavra sai abafada pelo croissant. Meus
pensamentos continuam presos em todas as mensagens do meu pai
que não estão lá.
Hayes se senta na cadeira ao meu lado e ataca meu prato. —
Guarda um pouco para o resto da gente, tá? — Ele pega um pedaço
de salsicha e enfia na boca.
— Cara!
Ele dá de ombros, sorri e mastiga.
A porta se abre novamente. Dominik entra, seguido por Mikko e
Simmer. Eles se arrastam em direção ao bufê antes de se dirigirem à
nossa mesa com pratos abarrotados. Reid chega, seguido por Hollow
e Hawks. As cadeiras se enchem uma a uma.
Hayes finalmente se levanta depois de roubar comida do prato de
todos. Hollow grita para ele pegar um bear claw1 para substituir o
que Hayes havia roubado.
— Então — anuncia Hayes à mesa ao retornar. — O que vocês
preferem fazer: comer só tacos por duas semanas ou só tomar
smoothies de couve por duas semanas?
— Ugh. — Reid franze a testa. — Tacos.
— Mas... — Hayes arranca um pedaço de muffin e fala enquanto o
mastiga. — E se você tivesse a garantia de pelo menos um gol e uma
assistência em cada jogo se tomasse o smoothie de couve?
Os caras parecem genuinamente preocupados, como se esse
cenário hipotético exigisse uma séria consideração filosófica. Pontos
garantidos ou liberdade da couve?
— Onde está o Calle? — Hayes se vira para mim e se aproxima.
— Ainda lá em cima, eu acho.
— Você acha. — Seu sorriso irônico demonstra conhecimento. —
Você o deixou com alguma energia para o jogo, ou você...
1 Bear claw é um doce americano em formato de garra de urso, feito de massa folhada e recheado.
Ele se interrompe com um grito, se contorcendo e se remexendo na
cadeira, derramando café enquanto tenta tirar algo da camisa atrás
das costas. Ele tira ovos mexidos da cintura, e a mesa cai na
gargalhada.
Axel estende o punho para Blair bater enquanto Blair se afasta
despreocupadamente de Hayes em direção ao bufê. — Legal, Cap —
diz Reid.
Quando Blair retorna, senta-se à minha frente, e a sala se dissolve.
O volume cada vez maior dos nossos companheiros de time,
alimentados por cafeína e carboidratos, a ausência inexplicável do
meu pai, a indignação teatral de Hayes. Tudo isso desaparece sob o
sorriso de Blair.
Pratos vazios e canecas de café pela metade se espalham pela mesa.
A conversa mudou de debater o melhor sabor de queijo Velveeta para
discutir se os caras preferem lutar contra um pato do tamanho de um
cavalo ou contra dez cavalos do tamanho de um pato.
— Tá bom, tá bom! Tenho um. O que você prefere fazer? — Hayes
interrompe a conversa como uma bala de canhão em uma piscina
infantil. — Lutar contra um hamster do tamanho de um urso-cinzento
ou contra cinquenta ursos-cinzentos do tamanho de um hamster?
Eles iniciam um debate acalorado sobre vantagens de alcance e
força de mordida enquanto uma onda de frio me atinge.
Conheço este momento – este exato momento – como se o tivesse
vivido antes: a risada de Hayes ecoa pela mesa, Blair sorri com
facilidade, Hollow gesticula com os braços abertos, Mikko balança a
cabeça, Hawks revira os olhos, Reid bufa em seu café, Viktor finge
que esqueceu o inglês. Sei o que vem a seguir com tanta certeza
quanto um central sabe qual é a jogada certa na disputa de disco. É
um déjà vu. Mas como? Como me lembro de algo que ainda não
aconteceu?
O pé de Blair toca o meu embaixo da mesa.
Lembre.
Minha respiração fica presa. Um punho frio aperta meu coração.
— Kicks! — Hayes grita na minha cara. Eu pisco e volto à realidade.
— Tá com a gente, cara?
— Sim. — Balanço a cabeça. — Do que você está falando?
— Você prefere ter dedos das mãos no lugar dos pés ou dedos dos
pés no lugar das mãos?
A pergunta é tão absurda que eu rio na cara dele. — O quê? Isso é
ridículo.
— Sério, você tem que escolher — Hollow interrompe.
— Acho que... dedos das mãos no lugar dos pés? Pelo menos eu
ainda poderia jogar hóquei desse jeito.
Isso desencadeia outra rodada de debates sobre a praticidade de
encaixar os dedos dos pés nos patins e se o jogo evoluiria para um
esporte de chute com patins do tamanho de nadadeiras.
— De jeito nenhum — argumenta Hawks. — Você precisa se
enrolar, assim...
Blair balança a cabeça e nós compartilhamos um sorriso sofrido.
O café da manhã termina e os rapazes se afastam da mesa. Pratos
fazem barulho enquanto são empilhados. Copos de água se esvaziam
em longos goles. Eu continuo olhando para o meu prato, onde meu
garfo está em pé, sobre uma panqueca meio comida. Não sei há
quanto tempo ele está ali.
O déjà vu não me deixa. Estou parado na beira de um penhasco
sem fundo à vista.
Hayes agarra meu ombro com as duas mãos. — Você está bem?
Jogo o guardanapo por cima do ombro, mirando vagamente em seu
rosto. Ele o afasta e, em seguida, bagunça meu cabelo com os nós dos
dedos.
Blair espera na porta, com a bolsa pendurada no ombro. O ônibus
para em frente ao hotel, pronto para nos levar à arena.
Procuro minhas memórias, mas não encontro nada. Não dá para
tudo desaparecer para sempre, né? Para onde vão as memórias
quando desaparecem?
Lá fora, o ar da manhã traz o cheiro de fumaça de diesel, café e
equipamentos antigos de hóquei. A luz do sol deixa tudo
intensamente brilhante.
E se eu estiver enlouquecendo? E se meus dias estiverem contados
e, em vez dos playoffs, eu estiver indo direto para um quarto
acolchoado sem cadarços?
Bobagem. Absurdo total. Isso é amnésia transitória pós-concussão.
É assustador, mas é temporário. Está tudo bem. Estou bem.
Eu tenho que ficar bem.
Explodo, uma mola firme finalmente se solta, e ganho a disputa de
disco contra um cara maior que eu, empurrando-o para trás com o
ombro e mandando o disco para Blair. Ele está na frente, correndo
pela ala direita. Ele passa de volta para mim, e eu não hesito. Um
chute rápido pega o goleiro do Boston desprevenido. O disco passa
por ele e entra na rede.
Estamos arrasando esta noite. Estamos incendiando a arena de
Boston, e eles estão furiosos.
O jogo é rápido, contra-ataques, jogadas de vantagem numérica,
faltas marcadas e não marcadas. Sinto Blair ao meu lado o tempo
todo. Quando vou até o canto para pegar o disco, ele está exatamente
onde eu preciso quando passo o passe às cegas.
Estou pronto para tudo – o disco em jogo, a pressão na saída de
jogo, o contra-ataque. Estou concentrado, puro instinto. Só me resta a
perseguição, a vontade de colocar borracha atrás do goleiro. Gritos de
treinadores, companheiros de time e torcedores se confundem na
minha visão periférica. Sou uma flecha disparada do arco, focada em
um único ponto.
Mais rápido. Mais forte. Mais.
O primeiro período termina com a gente ganhando por 2 a 0. Os
caras estão a todo vapor. O intervalo é só combustível de alta
octanagem, energia pura bombeada direto para as veias.
Voltamos para o segundo período e continuamos com contra-
ataques, jogadas de vantagem numérica e gols. O jogo é uma
confusão brutal e linda.
Cada vez que marcamos um gol, cada vez que Blair e eu nos
conectamos, outra parte de mim volta ao lugar.
O terceiro período começa com a gente ganhando por 4 a 0 e
termina com a gente vencendo por 6 a 0.
Foi uma vitória sem sofrer gols para Axel, dois gols para Hollow e
três gols na partida para mim, o que parece uma redenção.
Chegamos ao vestiário e o caos é total. Os caras estão berrando e
gritando, jogando garrafas de água uns nos outros, tocando música
alta. Sou tomado pela euforia. Mas vamos sair de Boston em poucas
horas, então passamos do caos para a correria frenética das rotinas
pós-jogo. Bicicletas, exercícios de relaxamento, alongamentos,
chuveiros.
Finalmente recupero o fôlego sentado em frente ao meu armário. A
descarga de adrenalina está passando, substituída pela dor que se
instala nos meus pulsos, coxas e panturrilhas. É uma dor linda, uma
dor que eu aprecio e da qual sentia falta.
Repito cada momento do jogo desta noite várias vezes. O que
mudou neste último ano? Como me tornei essa pessoa?
O que mudará a seguir?
A cabine do avião é um oco de noite profunda. Um zumbido
constante dos motores percorre o chão, e uma dor forte me
acompanha.
A maioria dos rapazes está adormecido, esparramados em seus
assentos e entregues ao sono, mas Hayes está em uma classe própria,
com máscara de dormir e um pé de meia balançando no corredor.
Estamos sozinhos em nossa fileira, e o ombro de Blair está firme
contra o meu.
— Você foi incrível esta noite. — Sua voz é baixa e só para mim.
Sorrio no tecido macio do seu moletom. — Você também não foi
tão ruim. — Minha voz está embargada por horas de adrenalina e
gritaria.
— Aquela defesa que você fez? Surreal.
Ele roça os dedos nos meus dedos, o fantasma de um toque nesta
cabine adormecida.
Mais uma vez, sou abalado pela pergunta, a mesma pergunta de
sempre: Como chegamos aqui? Por que ele me olha como se eu fosse
tudo o que ele sempre precisou ou sonhou ter na vida?
Como tudo isso pode ser real? Através da janela, estrelas se
espalham contra um preto impossível. É o mesmo céu que pairava
sobre aquela praia de Vancouver, mas o mundo abaixo dele é um
planeta completamente diferente.
O que eu fiz para merecer isso?
E se...
— E se o quê? — pergunta Blair, com a voz suave como um segredo.
Merda. Não consigo falar; minha garganta se fecha. Balanço a
cabeça, tento fingir que estou exausto ou com o cérebro morto,
exausto demais para fazer sentido. Meus pensamentos disparam. E
se pudéssemos contar para o mundo inteiro? Mas e se isso acabar? Ou
se isso durar? E se o chão sob meus pés for um sonho do qual estou
prestes a acordar?
E se não for?
Ele se aproxima. Sua respiração é suave contra meus lábios. — E se
fizermos isso dar certo?
A pergunta paira ali, mais real que o avião, que o céu. Ele segura
minha palma, seu polegar traçando os tendões do meu pulso.
Estremeço enquanto ele massageia os pontos doloridos, aliviando a
dor do jogo.
Ele sabe o que está fazendo, sabe como realmente aliviar a rigidez.
Fecho os olhos e me inclino em sua direção.
Blair tenta, mas não consegue esconder completamente o
estremecimento. Eu me afasto e percebo sua careta, observando-o
girar o ombro e tentar aliviar uma cãibra. No silêncio, seu ombro faz
um som de trituração, de cascalho contra cascalho. O envelhecimento
no hóquei. Acaba chegando para todos.
— Aqui — eu digo, me mexendo. — Deixe-me. — Quero beijar suas
dores para afastá-las, acalmá-las e torná-lo inteiro novamente.
— Estou bem...
— Sério. Você não está. Deixa eu cuidar de você pelo menos uma
vez.
Ele hesita. Há um brilho de algo em seus olhos, surpresa ou...
— Você cuida de mim. O tempo todo.
— Bem, então... — Faço um gesto para que ele se vire, para me dar
um ângulo melhor para alcançar seu ombro.
Afundo meus polegares no músculo denso sobre seu ombro. É uma
paisagem de nós e tensão, e quando encontro um ponto
particularmente brutal, ele respira fundo.
— Bem ali?
Ele assente, de olhos fechados, e expira lentamente. Ele pousa a
mão na minha coxa.
Depois de um longo momento, ele tira minha mão do seu ombro,
leva-a à boca e pressiona os lábios contra a minha palma. — Obrigado
— ele suspira. Ele desliza os dedos entre os meus, calo contra calo.
Descanso a cabeça em seu ombro novamente. Ele toca meus cabelos
com os lábios, deixando-os ali antes de encostar a bochecha no topo
da minha cabeça.
— Eu quero mesmo fazer isso dar certo — eu sussurro.
Ele aperta minha mão com mais força, como se ninguém tivesse
dito sim quando era preciso. Do lado de fora da janela, o mundo é um
oceano negro de estrelas, e estamos suspensos nas ondas, presos entre
onde estávamos e para onde vamos.
Se isso for um sonho, não quero acordar.
Se isso for real, não sei se mereço, mas não vou abrir mão.
Eu me jogo sobre as placas, Blair logo atrás de mim. O gelo está
escorregadio sob meus patins, o ar sufocado de suor e adrenalina.
Meu foco se reencontra, centrado no disco e em Blair.
O capitão do Buffalo, um brigão com fama de fazer um jogadas
desleais, está vindo com tudo. A expressão dele diz que ele quer me
machucar.
A minha diz que ele vai ter que se esforçar mais. Eu giro para longe
da área de gelo aberto, e ele engole ar e lascas de gelo ao cair com
força no gelo. O disco salta para fora, e Blair está lá, pegando-o com
um movimento suave.
Olho para Blair. Ninguém pode nos tocar.
Buffalo se organiza rapidamente depois disso. Eles ganham o disco
e passam com precisão e rapidez pelo perímetro, procurando brechas
na nossa defesa. Um dos atacantes deles mira da linha azul, um chute
fácil se ele conseguir chutar com precisão, mas eu chego primeiro,
avançando pelo espaço.
O disco ricocheteia nas minhas ombreiras e volta ruidosamente
para a briga. Outro jogador do Buffalo o pega e chuta novamente à
queima-roupa enquanto eu ainda estou de joelhos tentando me livrar
da dor.
Mas o disco nunca chega à rede. Blair aparece, derrubando o
jogador do Buffalo com um golpe que ecoa pela arena, e eu quero
beijá-lo. Aqui e agora, na frente de todos.
Depois disso, Buffalo quer sangue, e eles não escondem isso.
O disco cai. Eu o ganho e o jogo para Hayes. Ele afasta, mas Buffalo
avança. O tempo passa. O desespero de Buffalo irradia deles.
Roubo o disco na próxima entrada deles e o jogo com um chute.
Buffalo ataca de volta. O suor arde em meus olhos. Blair aparece ao
meu lado, bloqueando um passe. Trocamos olhares por uma fração
de segundo.
Faltam trinta segundos. Minhas pernas queimam a cada passo.
Blair está com o disco. Ele o desliza direto para o meu taco. Eu
avanço, ziguezagueando entre os jogadores de camisa azul.
Quinze segundos.
Blair hesita, atraindo dois oponentes.
Dez segundos.
O goleiro desafia. Finjo ir para a esquerda e vou para a direita. Ele
morde a isca.
Passe de recuo, de volta diretamente à frente do goleiro...
Cinco segundos.
Blair está lá. Eu sinto. Não o vejo, mas isso não importa. Eu sei que
ele está exatamente onde eu preciso que ele esteja.
A arena silencia quando fazemos o chute...
Três. Dois.
Gol.
Onze
Pittsburgh pisca para mim, um milhão de pequenas luzes
espalhadas contra o céu noturno além da janela do quarto de hotel de
Blair. A cidade se desfoca em dourado e carmesim contra um céu
escuro sem fim.
Eu me inclino para o toque de Blair. Ele está encostado na cabeceira
da cama, e eu estou com a cabeça em seu colo. Nós dois equilibramos
sacos de gelo em algum lugar do corpo, o dele no ombro dele, o meu
na minha coxa.
A exaustão me consome, mas por baixo dela minha mente arde.
Estamos tão perto. Precisamos de mais duas vitórias, e ainda faltam
dois jogos na temporada. Jogamos contra Pittsburgh e depois
voltamos para Tampa, onde o último jogo da temporada decidirá
tudo.
Se vencermos, estamos dentro.
Se perdermos, acabou.
Os Amotinados não vão aos playoffs há mais de duas décadas. Se
conseguirmos, será a primeira vez que este time chega aos playoffs
sob a liderança de Blair, e o próprio Blair.
Preciso levar o Blair até lá. Farei tudo o que for possível dentro de
mim, forçarei cada átomo do meu ser a levá-lo aos playoffs.
— Lembra quando tudo isso parecia impossível?
Estas são as primeiras palavras que ele pronuncia em quase uma
hora. Quando Blair está tenso, ele fica em silêncio, planejando cada
palavra antes de dizê-la.
Não sei se ele está falando da temporada ou de nós. Seguro a mão
dele. Roço os lábios nas costas dos seus dedos.
Ele retribui o beijo e volta a massagear meu couro cabeludo.
Afundo a bochecha em sua coxa coberta de algodão. Sinto o calor dele
embaixo de mim, o toque suave de suas mãos em meus cabelos, e sou
embalado, acalmado.
— Acho que temos uma chance. — Sua voz é rouca e suave, um
som que me lembra treinos tardios e muitas noites sem dormir. Há
um tremor muito leve e silencioso em suas palavras.
A luz do abajur pinta o perfil de Blair em relevo, a linha forte de
seu maxilar, o traçado espesso de seus cílios contra a bochecha. A
tensão se forma em sua boca e uma leve ruga se forma entre suas
sobrancelhas. Ele vinha se esforçando, lutando e ansiando por esta
oportunidade. Agora, ele está prendendo a respiração, o suor e a
esperança entre ele e esta chance. Seu olhar se fixa no meu, um
universo de azul em seus olhos.
— Nós temos — eu falo.
Seus olhos brilham, frágeis, frenéticos e ferozes. Fico arrasado ao
vê-lo parecer algo menos que invencível.
Há uma beleza nisso também. É a forma mais crua de confiança,
ser visto carente, esperançoso, trêmulo e no limite.
Por você, eu penso. Eu vou vencer por você. Eu farei tudo e
qualquer coisa por você.
Alguém bate o punho contra a porta, e a tênue sustentação do
instante se rompe.
Levanto a cabeça de repente, com o maxilar tenso. Blair fica imóvel
por um instante, dois. Então ele se levanta, sai da cama, deixando um
vazio frio para trás.
Ele hesita na porta. Seus olhos se voltam rapidamente para mim e
encontram os meus.
— Quem é? — ele grita.
Não consigo ouvir a resposta, mas a preocupação surge no rosto de
Blair quando ele abre a porta.
É o Hayes.
Toda a tranquilidade habitual, a confiança que é uma segunda pele
para Hayes, desapareceu. Em seu lugar, há uma energia desesperada.
Ele olha descontroladamente para Blair, seu olhar inquisitivo, e por
um momento aterrorizante, acho que ele pode desabar. — Eu... Posso
entrar? Preciso falar com vocês.
Blair arrasta Hayes para dentro do quarto. — O que aconteceu? O
que está acontecendo?
— Ela... Erin... Nós... — Hayes tropeça em meio à respiração
entrecortada, consoantes e vogais. — Porra, gente, a Erin tá grávida.
O silêncio toma conta da sala. Ninguém respira. Ninguém se move.
O rosto de Blair se transforma de preocupação para choque e
alegria em menos de um instante.
— Os médicos disseram que ela não podia... — Hayes balbucia, de
repente, alto e animado. — Achávamos que era só a Lily, sabe? Mas
sempre quisemos uma família grande, e agora...
Blair puxa Hayes para um abraço de urso, e Hayes solta uma risada
que é meio soluço.
— Ela ligou. Mal podia esperar para me contar. Acabei de desligar.
Meu Deus, meu Deus do céu!
Blair está dando tapinhas nas costas de Hayes, e os dois estão
presos numa luta corpo a corpo, abraçando-se com tanta força que
mal conseguem ficar de pé. Blair nunca pareceu tão feliz, e está
balbuciando quase tanto quanto Hayes, uma longa sequência de
‘puta merda’ e ‘parabéns’.
Estou preso em algum lugar no meio, emaranhado em confusão e
felicidade. Minhas memórias lutam para dar sentido a isso, para
entender a alegria, para fazer parte desta celebração inebriante.
Hayes finalmente se afasta e enxuga as bochechas. Ele se vira para
mim e me puxa para um abraço de urso apertado.
— Torey, cara... o que você fez por nós. Não estaríamos aqui se não
fosse por você. Nunca poderei te agradecer o suficiente. — Sua voz
está rouca e suas lágrimas estão encharcando minha camisa.
A alegria dele é tão potente que satura o ar, absorvendo cada gota
de oxigênio. Procuro um fio condutor, uma conexão, algo que me
aterre, que me ajude a entender meu papel nisso. As peças do quebra-
cabeça estão espalhadas, sem sentido. Continuo tentando reorganizá-
las, mas nada se encaixa. Eu não sou... eu sou apenas eu... Torey. Eu
não mereço... eu não posso ter...
Quem é essa versão de mim que poderia ter tanto impacto? Esse
fantasma nas minhas memórias fez tanta coisa consigo mesmo.
Hayes finalmente me solta, respirando fundo e tremendo ao
respirar.
— Parabéns, cara. — Eu seguro seus ombros e aperto.
Hayes se recompõe, enxugando os olhos com uma risada tímida.
— Acho que vamos ter que comemorar de verdade em Tampa, né?
Blair concorda. — Teremos muito o que comemorar.
Há um momento de comunicação silenciosa entre eles que tem
mais significado do que consigo compreender. — Ah, tenho certeza
de que sim — diz Hayes. — Muitas coisas importantes estão por vir,
certo?
Blair puxa Hayes para outro abraço de urso. Um rubor surge em
suas bochechas enquanto ele murmura algo no ouvido de Hayes, e
Hayes ri. Eles se abraçam por um longo tempo. Ambos estão
incrivelmente felizes.
Hayes dá um passo para trás e passa a mão pelos cabelos. —
Desculpem por interromper. Eu ia explodir. Tinha que contar para
vocês. Mal podia esperar.
— Cara, que bom que você nos contou. — Blair segura a nuca de
Hayes e o sacode.
Hayes ri novamente, um pouco mais selvagem agora, como se não
conseguisse conter nada. Seus olhos brilham, avermelhados, mas
intensos. O alívio irradia dele em ondas; parece que estamos todos
suspensos no brilho residual de algum milagre impossível.
Ele aperta meu braço uma última vez antes de se virar para a porta,
já mexendo no celular como se Erin fosse ligar de novo a qualquer
momento. — Sério, eu não consegui segurar. Não de vocês.
Suas palavras ecoam ao nosso redor mesmo depois que Hayes sai
para o corredor e fecha a porta atrás de si. Todo o seu choque se
transformou em brilho, e com ele fora, o silêncio que resta é quente,
denso e pegajoso.
Blair se encosta na parede perto da porta, apoiado em um ombro e
com os braços cruzados sobre o peito. Ele me encara, e parece que um
pouco da alegria de Hayes se esvaiu sob sua própria pele. Ele me olha
como se eu fosse a razão para tudo isso, como se eu tivesse feito algo
para merecer aquilo.
Quero ser merecedor de toda essa alegria que ele está sentindo
agora, mas meu cérebro está em chamas com tantas perguntas. Que
tipo de pessoa eu sou? O que eu fiz por Hayes e Erin? O que ele vê
quando olha para mim?
— Torey — Blair se afasta da parede. — Você está bem?
Não há uma resposta fácil. Cada parte de mim quer dizer sim, quer
encontrar o calor dele com o meu, mas... É demais, é intenso demais,
o desejo, a dor, para ser suficiente para ele?
Sua mão encontra a minha, e ele espera, paciente como sempre,
com o olhar firme. Ele é tão lindo que às vezes dói olhar para ele. É
como olhar diretamente para a luz do sol ou tentar pegar uma estrela
caindo do céu; é um brilho impossível de segurar.
Ele é tudo para mim. Tudo.
— É — sussurro. — Estou bem.
Mas e se eu não for o suficiente? E se essa felicidade não for
realmente para mim?
— O que se passa nessa sua cabeça? — sua voz se reduz a um
sussurro. — Parece que você está carregando o mundo.
Por que é tão difícil acreditar nele, mesmo agora, com a mão dele
na minha? O impulso de confessar surge, de despejar o quanto me
sinto perdido na maré brilhante e imparável do seu amor.
Seus olhos se suavizam. — Seja lá o que for — ele diz — vamos
lidar com isso juntos.
Talvez ele já saiba; parece me conhecer melhor do que eu. Talvez
ele consiga ver cada aresta sob a minha pele, todos os pedaços que
continuo revirando, procurando onde se encaixam.
Eu me inclino em sua direção, apoiando a cabeça em seu ombro.
Ele cheira a casa, a sol, água salgada e felicidade, e eu me aconchego
nele e digo: — Juntos.
São duas da manhã.
Nunca mais voltei para o meu quarto. Nem me dei ao trabalho de
fingir.
Em vez disso, ainda estou esparramado nos lençóis de Blair, uma
perna entrelaçada na dele, meu braço pendurado ao seu lado. Seu
braço está em volta da minha cintura como se soubesse que não vou
a lugar nenhum, e ele tem razão.
Ele deixa um rastro de beijos no meu maxilar, sua voz um calor
áspero contra minha pele. — Você me destrói. — Seus lábios se abrem
sobre a pulsação frenética no meu pescoço. — Cada parte de você.
Não consigo pensar. Só consigo sentir.
Ele traça a junção dos meus lábios com a língua, afastando-os. Sua
língua encontra a minha, e o beijo se aprofunda, passando de desejo
para uma necessidade crua e avassaladora.
Abro-me para ele, puxando-o para perto, e Blair se acomoda entre
minhas coxas, suas mãos fortes agarrando meus quadris como se
estivesse reivindicando território. Envolvo minhas pernas em volta
de sua cintura e o seguro contra mim, porque ele nunca está perto o
suficiente. Ele se encaixa em mim como chave e fechadura, sem
espaços vazios. — Preciso de você — imploro.
Seus olhos são azul-escuros e ardentes. Nossos narizes se tocam. —
Sou seu.
E então ele me beija novamente, desfazendo cada pensamento,
roubando o ar dos meus pulmões e substituindo-o por ele mesmo. Ele
é a única coisa sólida; todo o resto está girando para longe.
Ele desliza as palmas das mãos pelas minhas costelas, e minha pele
pega fogo. Estou tremendo, me desfazendo. Arquejos ofegantes e
gemidos carentes preenchem o ar, arrancados de mim. Ele me desfaz
pedaço por pedaço, me reduzindo a uma massa trêmula e desejosa, e
os lençóis se retorcem sob meus punhos.
Sua língua desliza para baixo, provocando. Eu me engasgo com
seus lábios macios, sua barba áspera, a pressão escorregadia de sua
língua enquanto ele se demora com meu mamilo, circulando-o com a
língua antes de prendê-lo entre os dentes.
Minha respiração falha em um gemido entrecortado. Os dentes de
Blair roçam o suficiente para soltar faíscas em cada nervo. Ele se move
para baixo, traçando meu abdômen com beijos de boca aberta.
Quando sua língua mergulha em meu umbigo, meu pau estremece,
deixando uma mancha de baba na minha pele.
Ele cheira contra a linha de pelos abaixo do meu umbigo e passa a
língua pelo meu pré-sêmen. Sinto seu sorriso contra mim enquanto
tremo. — Por favor — sussurro.
Ele desce pela parte interna da minha coxa, os dentes raspando em
pontos que me fazem estremecer e ofegar. Minhas pernas se abrem
ainda mais. Meu pau está tão duro que dói, vermelho e escuro,
pingando na minha barriga, se contraindo junto com as batidas do
meu coração.
O primeiro movimento de sua língua na parte inferior do meu pau
me arranca um soluço.
É um calor escorregadio e um arrasto aveludado, e ele lambe meu
membro. Cada lambida arranca um novo som de mim, e o mundo se
transforma em cores e dor.
A boca de Blair se fecha sobre a cabeça, a língua percorrendo a
bagunça que encontra ali. Minhas coxas tremem onde envolvem seus
ombros, os músculos se esforçando por mais, por qualquer coisa que
ele me dê. Quero que ele me engula inteiro, para saborear cada
súplica trêmula emaranhada na minha língua.
Ele segura meus quadris com força enquanto me leva para dentro
da boca. Sinto a cabeça do meu pau no fundo da sua garganta, então
sinto o momento em que ele relaxa e me leva mais fundo.
Sinto gosto de cobre na língua de tanto morder cada som que quer
se soltar. Olho para baixo...
Os olhos de Blair se erguem rapidamente para encontrar os meus,
me prendendo enquanto ele afunda ainda mais, e eu desapareço. Os
sons molhados que ele faz em volta do meu pau, a pressão dos seus
polegares cravando nos meus quadris, a visão dos seus lábios
esticados em volta de mim.
Ele se afasta para circundar minha cabeça com a língua,
mergulhando na fenda para saborear meu pré-sêmen. Quando me
penetra novamente, ele coloca minha coxa sobre seu ombro, me
abrindo. Suas mãos deslizam por baixo de mim para segurar minha
bunda, massageando o músculo e me puxando mais para dentro de
sua boca.
Quanto mais fundo ele me penetra, mais meu estômago se revira
como uma mola que já não aguenta mais. Cada lambida da sua
língua, cada aperto dos seus dedos na minha bunda...
Deus, ele está saboreando isso, saboreando como eu gozo sob sua
boca. O quarto cheira densamente a suor e almíscar, o ar denso o
suficiente para me engasgar, e tudo o que posso fazer é me arquear
contra ele, entregando-lhe cada centímetro desesperado de mim.
Blair me bebe como se tivesse todo o tempo do mundo, como se
isso fosse a única coisa que importasse.
Então ele se mexe. O colchão afunda quando ele alcança a mesa de
cabeceira, e ouço o estalo de uma tampa e o som escorregadio do
lubrificante. Ele acaricia meu pau uma, duas vezes, cobrindo-o, então
seus dedos deslizam para baixo, passando pelas minhas bolas.
O primeiro toque do seu dedo escorregadio no meu buraco me faz
ofegar. Ele me circunda lentamente enquanto sua boca retorna ao
meu pau, e seu polegar me penetra enquanto sua boca desce pelo meu
comprimento.
Oh...
A pressão me tira o fôlego.
É demais e não o suficiente, a queimação de uma fração de segundo
dando lugar a um prazer chocante que irradia por mim. Meus
músculos se contraem, resistindo à intrusão, mesmo enquanto meu
corpo implora por mais. Blair aprofunda o polegar, a lenta tragada
um contraponto imundo ao calor úmido de sua boca me levando de
volta à raiz.
Estou preso entre sua boca e sua mão, suspenso no torturante vai e
vem do prazer. Cada leve impulso do seu polegar lança faíscas sob
minha pele. Tudo o que posso fazer é deixá-lo me dominar, deixá-lo
me destruir.
Então, seu polegar se retira e um dedo o substitui, penetrando em
mim. A tensão queima – aguda, ofuscante – antes de se dissolver em
ouro líquido que se espalha pelas minhas veias.
O mundo se fragmenta em torno daquele único ponto de contato.
Meus quadris se contraem contra o colchão, contorcendo-se entre a
pressão implacável de seu dedo e a sucção aveludada de sua boca.
Ele curva o dedo e estrelas explodem atrás das minhas pálpebras.
Um gemido entrecortado escapa de mim, e eu me engasgo com
qualquer súplica áspera que subia pela minha garganta.
Ele engole em seco, os lábios firmemente fechados enquanto se
levanta, apenas para mergulhar novamente, afundando as bochechas.
Seu ritmo nunca falha; cada tragada de sua boca acompanha a força
de seu dedo. Estrelas ainda ardem atrás das minhas pálpebras
cerradas quando ele finalmente retira a boca com um som úmido, me
deixando sem fôlego. Sua respiração desliza pela minha pele
enquanto ele deposita um beijo na parte interna da minha coxa
trêmula.
Abro os olhos com força e o vejo me observando, com o olhar
sombrio e os lábios brilhantes. Um arrepio me percorre.
Seu dedo se curva novamente.
Eu paro de respirar.
Ele me engole até a raiz novamente enquanto enfia dois dedos,
depois três, dentro de mim, e a dupla sensação me faz balbuciar
bobagens. A ereção é maior agora, uma plenitude que beira o exagero,
mas ainda não é o suficiente. Eu o alcanço cegamente, puxando seus
cabelos até que ele solta meu pau com um estalo obsceno e se
aproxima para me beijar.
Ele ainda está me fodendo com os dedos enquanto sua língua
invade minha boca.
Sinto meu gosto em sua língua enquanto ele rebola os quadris, seu
pau se arrastando ao lado do meu em um deslizamento escorregadio
que nos deixa arrepiados. Cravo minhas unhas em seus ombros,
agarrando-me a ele enquanto meus quadris balançam entre a fricção
de seu pau e a invasão de seus dedos.
— Mais — ofego. Os sons úmidos dos dedos dele entrando e saindo
de mim, a respiração ofegante dele, o roçar safado dos nossos paus se
esfregando... preciso de mais.
Ele torce os dedos e eu grito. O prazer aumenta tão bruscamente
que chega a ser dor, antes de se fundir em algo mais profundo e
sombrio. Ele captura minha boca novamente, mordendo meu lábio
inferior antes de acalmá-lo com a língua. Seus olhos estão quase
negros na penumbra, as pupilas dilatadas enquanto ele me observa
desfazer.
— Sim — ofego, balançando-me sobre a mão dele. — Sim, bem ali.
— A pressão dos seus dedos me faz balbuciar, implorar.
Meu queixo cai enquanto ele acelera. Tudo o que consigo fazer é
respirar entrecortado. — Parece... — A palavra se desfaz na minha
boca enquanto ele pressiona com mais força, esfregando
implacavelmente aquele feixe de nervos.
Ele se aproxima, seus lábios roçando a concha da minha orelha. —
Diga. — Sua voz é áspera como lixa.
Não consigo formar palavras, só consigo gemer enquanto seus
dedos trabalham dentro de mim, enquanto seu pau desliza contra o
meu, enquanto a pressão aumenta a níveis insuportáveis dentro de
mim. Estou tão perto, oscilando no limite.
Seus dentes roçam o ponto de pulsação na minha garganta. — Diga
meu nome quando gozar.
É só isso. — Blair! — o nome dele sai arrancado de mim.
Eu me desfaço em uma onda infinita de alívio. Grito, e ele cobre
minha boca com a sua e absorve meu grito. O beijo se torna lascivo,
eu me agarrando a ele, ele me possuindo, minhas mãos agarradas em
seus cabelos, segurando-o contra mim, nenhum de nós jamais
soltando enquanto ele me segue. Seu sêmen se espalha pela minha
pele, escaldante, e desta vez engulo seu gemido enquanto ele se
estremece.
Por fim, um milímetro de espaço se abre entre nossos lábios
enquanto trocamos respirações trêmulas. — Blair — sussurro. —
Porra, Blair.
Estou relaxado, sem peso e flutuando. Blair não está melhor.
Desabamos, entrelaçados. Há uma expiração trêmula; do Blair ou
minha, não sei dizer. Se nossos companheiros ainda estiverem
acordados, nosso segredo foi revelado.
Ah, tudo bem. Não me importo com mais nada depois disso.
O suor esfria na minha pele, e nossos corações começam a bater em
sincronia no nebuloso rescaldo.
— Eu te amo — ele sussurra. — Tanto que às vezes me apavora. —
O medo brilha em seus olhos.
O mundo parece reduzido a isso, nossa pele pressionada contra
pele, nossos corações ainda acelerados.
Passo o polegar pelo seu maxilar. — Eu também — sussurro de
volta. Minha voz está rouca por tudo o que ele tirou de mim esta
noite.
Ele encontra meus lábios com os seus novamente, mais suaves
dessa vez. — Eu te amo — ele sussurra entre beijos. — Eu te amo, eu
te amo.
Fitas prateadas caem sobre o ombro de Blair, raios de luar que
quero traçar com meus lábios, com inveja da pele que elas acariciam.
Lá fora, Pittsburgh está tranquila, e do outro lado da cidade, a arena
aguarda o nosso jogo. Lá dentro, deito-me de lado, apoiado num
cotovelo ao lado de Blair, observando-o dormir. Tiro uma mecha de
cabelo da sua testa.
Estou tão perto de me sentir inteiro novamente. Meu corpo se
lembra do que precisa fazer e meu coração sabe o quanto quer amar.
Mas como é possível me sentir tão completo quando meu passado é
uma fratura de momentos meio lembrados? É assustador como a vida
pode mudar num piscar de olhos e apagar tudo o que você conhece e
ama em si mesmo.
Algo vibra dentro de mim, como asas batendo contra vidro.
— Blair — eu sussurro.
Mesmo dormindo, ele se vira para mim, encosta o rosto no meu
pescoço e me segura com força suficiente para estampar estrelas em
seus olhos quando acordar.
Acho que encontrei a resposta para todas as perguntas que me fiz.
Como saber se você conseguiu tudo o que sempre quis, mesmo as
coisas que nem sabia que precisava? É exatamente assim?
Fecho os olhos, respiro fundo e mergulho na ponta dos pés nas
minhas memórias de Vancouver: a intensidade dos holofotes e o
congelamento do meu fracasso. Meu isolamento desolado. O disco
passando pelo meu taco, mais um erro. O som das vaias da torcida.
O olhar decepcionado de um treinador.
O que aconteceu entre aquele momento e agora, aqui e lá? O que
estou perdendo?
O relógio na mesa de cabeceira pisca: 2h37
Duas da manhã, a hora das perguntas que não têm respostas. Não
havia nenhuma naquela praia ou naquelas ondas negras, e não há
nenhuma aqui comigo esta noite, por mais que eu queira que haja.
A única coisa que sei com certeza é que quero ser esse Torey para
sempre. Nunca quero voltar àqueles dias e noites sombrios em que
eu estava sozinho e quando ninguém dependia de mim, confiava em
mim ou me queria para coisa alguma. Eu quero isso. Quero ser o corpo
quente de Blair na noite, a mão que ele estende e o homem para quem
ele abre os olhos.
O peito de Blair sobe e desce.
E amanhã? E na semana que vem? No mês que vem? Preciso estar
preparado para tudo – outra pancada, outra concussão. Mais um ano
desaparecendo?
Não, não posso pensar assim.
Chego mais perto dele. — Eu te amo.
Você é a parte de mim que eu nunca soube que estava perdida, a parte que
faltava e que eu nunca soube que precisava.
Acordei antes do sol nascer, ainda enroscado nos braços de Blair.
Os lençóis estão quentinhos e têm o cheiro dele, e ele está exalando
no meu cabelo, pequenas baforadas suaves como beijos. Não quero
sair daqui, mas preciso.
Visto minhas roupas de ontem, minha camiseta amassada e minha
calça de moletom que parecem ter passado a noite amassadas aos pés
da cama de outra pessoa. Como se isso não bastasse, estou cheirando
a sexo e Blair, e meu cabelo parece que fui completamente fodido,
como se mãos o tivessem agarrado e me maltratado. O que...
Estamos tentando ser discretos, mas isso é forçar a barra.
O corredor do hotel está silencioso quando saio do quarto de Blair,
até que Hawks me dá um susto danado, aparecendo na esquina com
roupas de academia encharcadas de suor. Ele olha de mim para a
porta de Blair e de volta para mim. — Análise antecipada de jogo em
vídeo, Kicks?
Porra, porra. — Sempre há espaço para melhorias.
— Esse é o meu cara. Sempre se esforçando. É por isso que você
tem mãos de ouro. — Ele estende o punho para um toque ao passar.
Eu engulo em seco e o toco de volta. Ele pisca. — Te vejo no café da
manhã, mano.
O suor escorre pelo meu pescoço, encharcando minha camisa. Meu
coração dispara, mas minha mente está lúcida. Faltam dois minutos
no relógio e estamos empatados. Um gol abre o placar.
— Troca — diz Blair. Estamos encolhidos atrás do ponto. — Mikko,
aperta aí.
A arena do Pittsburgh é ensurdecedora. A torcida está em
polvorosa, pronta para explodir se o time conquistar essa vitória.
O disco cai. Eu cravo meus patins. Mikko avança em disparada, seu
taco borrado enquanto ele luta pelo controle.
Um jogador do Pittsburgh se solta e avança para a nossa zona. Sinto
o ritmo do jogo mudar, ambos os bancos prendendo a respiração, a
torcida do Pittsburgh vibrando.
Eu o alcanço enquanto ele dispara, e Axel mergulha pelo vinco e
levanta seu bloqueador, então chuta por cima da rede.
Hayes a recupera. Grito seu nome, bato meu taco no gelo e ele passa
para mim antes que dois jogadores de Pittsburgh o esmaguem contra
o vidro.
Cada centímetro da pista de gelo se abre sob minhas lâminas.
Precisamos de um gol para fechar o jogo e manter vivas nossas
esperanças de chegar aos playoffs. Ninguém está com vontade de
prorrogação hoje à noite. Precisamos vencer aqui e agora.
— Kicks! — a voz de Hollow. Um taco bate à minha direita.
Finjo para a esquerda e jogo o disco para Hollow. Blair se afasta,
correndo. Eu sigo em frente, lotando o espaço. Hollow vem em alta
velocidade, segurando o disco mesmo com o melhor defensor do
Pittsburgh estrangulando seus ângulos.
Passe de recuo, Hayes aguarda na linha azul. Hayes passa para
Blair. O goleiro se movimenta, deixando o lado direito exposto. Blair
prepara o chute...
O goleiro de Pittsburgh morde a isca.
Em vez de chutar, Blair joga o disco em minha direção.
Sinto o disco atingir meu taco, sinto minhas lâminas cortando o
gelo. Basta uma movimento do pulso, nem forte demais, nem fraco
demais, e eu o levanto bem no ângulo do gol.
O apito soa enquanto o disco explode no alto da rede, o som mais
doce do hóquei. Um gol nos últimos segundos, o fim do tempo
regulamentar, e uma vitória para nós.
Blair se choca contra mim, me abraçando enquanto ruge. Hollow e
Hayes estão chegando com tudo, e só temos um momento entre nós.
— Porra, eu te amo — ele diz. Nossos olhares se encontram.
Hollow e Hayes nos atacam, nos jogando contra as placas. Eles
gritam e gritam a plenos pulmões.
— Só falta mais uma, bebê! — grita Hayes. — Só mais uma, porra!
A mão enluvada de Blair envolve minha nuca. Batemos nossos
capacetes, testa com testa.
— Apenas com você — diz Blair. — Apenas com você.
Doze
Desliguei o motor da caminhonete de Blair. Fiquei sentado por um
longo momento, e o silêncio da entrada da garagem me envolve.
Duas semanas atrás, esta casa era uma pergunta linda e ensolarada
que eu não conseguia responder, um espaço fantástico que não
parecia meu. Agora, uma maré profunda e certa me puxa, uma que
eu seguiria até o fundo sem pensar duas vezes. A maré de Blair.
Abro a porta da caminhonete e a noite de Tampa me envolve.
Estou em casa.
Após o término da nossa viagem, o time tinha dois dias de folga
antes de jogarmos a última partida da temporada. Faltava apenas
uma partida. Uma vitória nos separa dos playoffs.
Essa expectativa era demais para Hayes, que me arrastou para o
rinque naquela tarde num furacão de energia cinética, uma
inquietação que o ajudei a expelir. Blair me beijou na saída,
reclamando de uma torneira pingando que ele não conseguia mais
ignorar.
— Blair? — Minha mochila cai no chão perto da ilha da cozinha, e
suas chaves fazem barulho no granito. Os sons habituais dele – e o
xingamento baixo de uma guerra travada contra o encanamento ou o
barulho de uma torneira quebrada – estão ausentes. Não há
xingamentos debaixo da pia, nem sons de luta, nem água escorrendo.
A casa está silenciosa, as luzes apagadas.
A porta de correr de vidro da varanda está entreaberta,
derramando uma luz trêmula na cozinha escura. O pôr do sol na
Flórida nunca é um evento único; é um lento derramamento de cor
no horizonte, e esta noite o céu está manchado de roxo e um último e
ardente traço de laranja.
Saio para o pátio e minha respiração para.
O mundo lá fora se transformou. Dezenas de velas tremulam em
todas as superfícies, suas chamas dançando em copos de vidro contra
o crepúsculo que se aprofunda. Acima, fios de pequenas luzes
flutuam em padrões soltos. As notas de uma trompete solitário ecoam
pelos primeiros compassos de algo quente e atemporal.
A mesa do pátio está posta para dois. Guardanapos de pano estão
dobrados em formato de aves-do-paraíso. O cristal está exposto,
refletindo a luz das velas e espalhando prismas de cores sobre ele.
Blair.
Ele está de pé ao lado da mesa, um ponto imóvel no coração de toda
essa luz. A luz da vela o esculpe no crepúsculo, suaviza as linhas
duras de seus ombros sob a camiseta justa, acumula-se na cavidade
de seu pescoço. Ela doura as maçãs do rosto e se concentra nas poças
azuis de seus olhos cor de oceano. Ele dá um passo em minha direção.
— Surpresa.
Meu olhar se desvia das velas para a mesa, para o céu e sempre,
sempre de volta para Blair. Minha voz soa estranha quando
finalmente a encontro. — A torneira pingando era um projeto maior
do que eu imaginava.
— Eu precisava de algumas horas. Hayes me deu a distração.
Ele me oferece a mão, com a palma para cima. O resto do mundo
desaparece: os playoffs se aproximando, a vitória única que
precisamos, as perguntas persistentes sobre meu ano perdido de
memórias. É ele. É sempre ele.
Ele me guia pela paisagem dourada e cintilante que ele criou e puxa
uma cadeira para mim, então se acomoda no assento no canto da
mesa, perto o suficiente para que seu joelho encoste no meu e ele
prenda seu pé em volta do meu tornozelo.
Um balde de prata transpira sobre a mesa, com uma garrafa
espreitando. Não bebo uma gota de álcool há duas semanas. Por quê?
Blair tira uma garrafa de Gatorade do gelo e – com a seriedade de
um sommelier – abre a tampa. — Posso te oferecer a nossa
especialidade da casa? Um Glacier Cherry 2025, uma safra excelente,
rico em eletrólitos.
Eu sigo em frente, estendendo minha taça de vinho. — Estou
detectando um sutil aroma de... aroma artificial?
— Seu paladar é impecável, senhor.
Rio. Ele se serve e coloca a garrafa de volta no gelo. O brilho em
seus olhos me cativa.
O último raio de sol se pôs. No crepúsculo, seus olhos se
aprofundaram até a cor de um mar da meia-noite, refletindo a luz de
velas e uma promessa que começo a compreender. As partes
fragmentadas da minha vida estão encontrando seu centro, e esse
centro é ele.
A brisa noturna agita as folhas das palmeiras, seu farfalhar um
sussurro seco contra o suave bater das águas do canal. Blair conta
histórias, e eu me inclino, preso não na narrativa, mas nele.
— ... então estou totalmente perdido em Praga, perdido no metrô,
e essa babushka2 velha está gritando comigo no que eu acho que é
russo...
— Por favor, me diga que você não tentou se safar com um flerte
— eu interrompo, e o leve rubor em suas bochechas é minha resposta.
Terminamos o último sushi e então aproximamos nossas cadeiras
enquanto as primeiras estrelas começam a pontilhar o veludo negro
do céu.
2 Avó
— Como foi quando Lily nasceu? — pergunto, com a voz mais
suave agora.
— Caos — diz ele com uma risada suave. — Hayes parecia ter sido
atropelado por um Zamboni por três semanas seguidas.
Completamente apavorado e completamente apaixonado.
— Aposto que sim. Ele é um ótimo pai.
— Ele é, mas foi uma curva de aprendizado íngreme para ele.
Sorrio. — Deve ter sido incrível estar presente.
Ele aperta minha mão com mais força. — Agora eles vão fazer tudo
de novo.
As velas tremulam, lançando sombras dançantes em seu rosto
enquanto ele se aproxima. Debaixo da mesa, o tornozelo de Blair
ainda está preso ao meu.
— Sabe — ele diz, com a voz firme enquanto o pulso dele pulsa
contra meus dedos —, eu tenho pensado sobre o que vem depois do
hóquei...
— O que você vê?
— Treinador, talvez. Uma maneira de ficar por dentro do jogo. —
As palavras são casuais, mas seus olhos buscam os meus.
— Você seria incrível nisso — digo, e falo sério. — Combinaria
perfeitamente.
— E você?
Hayes me perguntou a mesma coisa. Ninguém jamais perguntou,
na verdade, como será o meu futuro. Sinto o horizonte mudando,
todas as possibilidades se remodelando em torno da chance de
construir algo com ele. Passo o polegar sobre seus dedos. Como
explico que meu futuro é uma pessoa, não uma imagem? —
Sinceramente? Quero estar onde você estiver.
Um longo e lento gole se forma em sua garganta. Quando ele fala,
sua voz é baixa e despojada. — Eu quero tudo, Torey. Você. Isso. Nós.
Para o resto de nossas vidas.
Ele leva minha mão à boca, seus lábios macios beijando meus
dedos. — Estou pronto — continua. — Para contar ao time, à liga, a
quem quiser saber. Estou pronto para tudo.
Uma possibilidade frágil e bela paira no ar entre nós. O medo de
que ela se quebre é uma dor aguda em mim.
— Eu também — falo.
Ele estende a mão e eu me levanto, permitindo que ele me puxe da
cadeira. Ele me puxa para o círculo de luz de velas perto da borda da
piscina, envolvendo-me com os braços até minha testa encostar em
sua clavícula. Balançamos ao som da música, ao ritmo da água. Seu
corpo é uma parede sólida e quente contra o meu. Uma respiração
compartilhada, depois outra. Esta noite parece selvagem e linda.
— Consigo nos ver envelhecendo juntos — diz ele, com o hálito
quente contra meu ouvido. — Ainda provocando um ao outro
quando estivermos grisalhos e enrugados. — Sua voz muda enquanto
ele testa um chilrear. — Sabe, para um cara que passa o tempo todo
no gelo, você é bem gostoso.
Eu gemo em seu ombro. — Isso foi horrível. Talvez eu tenha que
mudar de ideia.
Sua risada é rica e plena. Ele me guia em um giro lento antes de me
puxar de volta, sua palma segurando minha bochecha, seu nariz
roçando o meu. Ele segura minha mão entre nossos peitos, seu
polegar acariciando minha palma antes de traçar a linha do meu dedo
anelar com a ponta de um dedo.
— Também andei pensando — ele sussurra. — Em como este dedo
parece um pouco descoberto.
Tudo para. A música, a brisa, a luz – tudo congela. Será que isso é
real? Esta noite impossível está prestes a se tornar algo mais?
— Você está... Isso é você me pedindo em casamento?
O escudo que ele usava para o mundo se foi, deixando o azul
profundo de seus olhos exposto, cru, intensamente gentil. — Ainda
não — ele diz, e a certeza em sua voz é absoluta. — Quando eu fizer
isso, você saberá. Confie em mim. — Um pequeno sorriso surge em
seus lábios.
Então sua voz fica mais grave, e ela carrega consigo toda a
vulnerabilidade do mundo. — Torey... Você quer que eu pergunte?
Seus olhos ardem com cada tom de azul que carrega. Seja lá o que
for que ele tenha deixado para mim, ele se deixa nu. É impossível
desviar o olhar dele. Aqui está ele, se oferecendo: capitão, edificador,
fiel, apaixonado. O homem que nos lidera, que absorve cada golpe e
pede mais, despiu toda a sua armadura e está simplesmente parado
aqui, esperando. Ele está me dando seu mundo sem condições,
perguntando apenas se eu quero entrar, compartilhar seu horizonte.
Os velhos fantasmas do meu fracasso e medos desaparecem,
deixando apenas esta realidade brilhante: ele, a vida que ele quer
construir e a calma surpreendente de saber que eu também quero
construi-la.
Há uma mudança profunda e definitiva em minha alma quando
ela reconhece sua outra metade e sabe que finalmente está em casa.
Meu futuro tem um nome, e esse nome é Blair, e esta noite define
nossa eternidade.
Todos os meus medos sobre minha carreira, meu nome, minha vida
– eles se fragmentam e se dissolvem, substituídos pelo terror singular
de um mundo sem ele. Esta é a vida que quase perdi, aquela que eu
nunca soube que estava perdendo.
O ar contém a esperança dele e a minha, não mais separadas. Eu o
puxo para perto de mim e despejo cada resposta que tenho em meu
beijo. Seus lábios tremem contra os meus. Eu me aproximo mais e
sinto sua respiração ofegante. Suas mãos apertam minha cintura. Meu
coração está indomável e selvagem; não há onde se esconder, e não
há necessidade disso agora.
Interrompo o beijo, minha testa ainda pressionada na dele.
— Pergunte-me — eu sussurro.
Ele me guia do corredor até o quarto, onde o ar se tornou denso e
dourado. Uma dúzia de pequenas chamas tremulam nas superfícies
da cômoda e das mesas de cabeceira, sua luz refletindo nas paredes
em traços suaves e mutáveis. Ele deve tê-las acendido antes do jantar,
para nós.
Ele me encosta na parede com a delicadeza de uma maré em
movimento, e o calor dele penetra minha pele e minha alma enquanto
sua respiração sussurra em minha bochecha. Suas mãos me levantam
e me emolduram, com as palmas apoiadas na parede. Um músculo se
contrai no alto de sua bochecha. Ele está me observando respirar.
Afundo meus dedos nos músculos densos acima dos seus quadris,
ajeito o jeans desgastado e o puxo para mais perto. Nunca estamos
perto o suficiente.
Ele puxa minha camiseta para cima, a tira pela minha cabeça e a
joga para o lado. Ele desliza o dedo pelos meus braços, e uma
queimação lenta se acende em todos os lugares que ele me toca.
Minhas mãos tateiam sua camisa. Eu deveria ser suave, confiante,
mas Blair me desnuda até as minhas partes mais cruas, removendo a
bravata e a besteira até que tudo o que resta é o meu desejo.
A camisa dele se junta à minha no chão. Ele é lindo nas sombras em
movimento. Ele é a dureza e o pecado, e me olha como se eu fosse a
única coisa que importa.
Sou desfeito pelo simples toque de seus lábios nos meus. Seus
dentes prendem meu lábio inferior antes de sua língua deslizar para
dentro. Minhas mãos percorrem a ampla extensão de suas costas,
traçando a curva de sua espinha. Eu o puxo para mais perto, selando
nossos corpos, e ele se esfrega em mim, lento, lascivo e perfeito. Ele é
requintado, uma paisagem de músculos e sombras que eu poderia
passar a vida inteira explorando. Quero me tornar parte dele, tão
profundamente que ele não consiga respirar sem pensar em mim.
Ele encontra minhas mãos com as suas novamente e me leva para
a cama. — Eu nunca acreditei em almas gêmeas — ele sussurra. —
Mas você...
O colchão cede sob nós enquanto ele me deita e se acomoda em
cima de mim. Acaricio seu rosto, sinto sua barba por fazer grudar em
meus dedos enquanto traço o ângulo de sua maçã do rosto, a curva
de seu lábio inferior. — Você é meu para sempre.
Ele sustenta meu olhar e observa até a medula, todas as minhas
rachaduras e fissuras. Ele vê tudo, cada aresta quebrada e cada
cicatriz que tentei esconder a vida toda. Minha respiração falha
enquanto ele me observa de um jeito que parece adoração.
Meus lábios se chocam contra os dele, e eu me curvo diante dele,
desejando mais, desesperado por tudo dele. Seu gemido ressoa por
entre meus dentes, minha língua enquanto percorro as superfícies
duras de seu peito, meus dedos se prendendo na trilha grossa de
pelos escuros que me leva para baixo. Deslizo por seu corpo, até onde
seus músculos definem as bordas afiadas de seu abdômen, onde sua
pele é quente e queima contra minha língua.
Eu me acomodo entre suas coxas, com as mãos em seus quadris. À
luz bruxuleante das velas, seu pau se ergue grosso e pesado contra
sua barriga, escuro e brilhante na ponta.
Um gemido gutural escapa de sua garganta enquanto minha língua
desliza contra seu pênis. O som é uma vitória. Fecho minha mão em
volta da base de seu membro, sentindo o pulsar de seu sangue sob
minha palma, e o puxo profundamente para dentro da minha boca.
Calor, sal e algo tão essencialmente Blair me inundam, um gosto que
sei que passarei o resto da minha vida buscando.
Ele é um veludo quente contra a minha língua. Eu o adoro,
desmembrando-o com a boca, chupando-o até que seus músculos se
tornem água sob minhas mãos. Não há nada mais no mundo além
deste ritmo: o corpo inteiro dele na minha língua, o esticar dos meus
lábios, o tremor de suas coxas poderosas.
Seus olhos se arregalam, refletindo as chamas dançantes enquanto
ele passa as mãos pelos meus cabelos. Estou preso no espaço entre
sua respiração entrecortada e o aperto cada vez maior em meus
cabelos.
— Espere. — Sua voz falha. — Ainda não. Não assim.
Ele me puxa para cima, e nossas bocas se encontram, famintas,
confusas. Ele sente o gosto de si mesmo na minha língua e rosna.
O quarto se inclina enquanto ele nos vira, e de repente ele me
prende, com os joelhos em volta dos meus quadris, as mãos
segurando meu rosto. Ele roça os dedos na minha bochecha, seguido
pelo calor dos seus lábios, marcando um juramento ao longo do meu
maxilar, da minha garganta, do meu peito. Seus beijos traçam um
caminho pelo meu corpo, os dentes mordiscando, a língua
acalmando. Ele me desmancha por completo, até estar entre as
minhas pernas e suas mãos abrindo minhas pernas.
Então a boca dele está em mim e eu estou perdido.
O calor da sua boca, a sucção perfeita e indecente dos seus lábios,
a ponta afiada dos seus dentes – meu Deus, ele está me desfazendo a
cada lambida, a cada chupada, a cada arrastada áspera da sua barba
por fazer contra as minhas coxas. Agarro-me aos lençóis, à seda
escura dos seus cabelos, a qualquer coisa em que me agarrar,
puxando com força enquanto os meus quadris se empurram contra
ele.
Ele sai do meu pau, deixa uma fileira de chupões na costura da
minha coxa. Ele levanta minhas pernas e me abre completamente,
depois enterra o rosto na minha bunda.
Um grito irrompe de mim enquanto a língua de Blair me penetra,
quente, úmida e implacável. Ele lambe fundo, desleixado, devorando
meu buraco. Cada estocada indecente, cada toque áspero de seus
lábios, me faz contorcer, minha bunda se contraindo. Sua barba por
fazer raspa minha pele, um contraste brutal com o deslizar
escorregadio de seus lábios e sua língua. Estou uma bagunça,
gemendo, xingando enquanto ele me devora como se eu fosse sua
última refeição.
Seus dedos se juntam à boca, empurrando para dentro.
— Por favor. — As palavras me escapam, desavergonhado. Estou
perdido demais para me importar. Preciso dele enterrado dentro de
mim, me preenchendo. Preciso ser tomado, possuído, subjugado por
ele.
A respiração de Blair falha, e seu olhar se fixa no meu por entre as
minhas pernas. Ele me olha como se pudesse ver através do vazio
dentro de mim que só ele pode preencher. Sinto suas mãos tremendo
enquanto ele segura minhas coxas abertas, sinto como ele está se
segurando até agora. O ar entre nós está denso, pesado de suor e
tesão. Espero, exposto, dolorido, desesperado, que ele me dê tudo o
que estou implorando.
Ele pega o lubrificante na mesa de cabeceira.
Aquele primeiro empurrão contra mim – porra, isso quebra algo
fundamental. Minhas costas se arqueiam para fora da cama,
buscando o alongamento, a doce dor se espalhando sob seu toque.
Meus quadris rolam para baixo, buscando o calor doce e pungente
que se desenrola dentro de mim. Ele me massageia até eu tremer, me
desmanchando sob suas mãos. Um dedo, depois dois, depois três.
Os olhos de Blair estão negros sob a luz fraca, as pupilas dilatadas
o suficiente para consumir o brilho da vela enquanto ele me observa
tremer sob seu toque. Meu pau escorre para a minha barriga
enquanto ele se enrola perfeitamente, roçando aquele ponto que faz
estrelas brilharem atrás dos meus olhos.
— Você é tudo — ele diz com a voz rouca, em meio ao silêncio. —
Você é cada parte de mim que eu não sabia que faltava.
Não consigo falar, não consigo fazer nada além de tentar alcançá-
lo.
O suor escorre pela nossa pele, um brilho fino refletido na luz das
velas. A pulsação do meu sangue troveja, percorrendo-me enquanto
ele se ajoelha e alinha seu pau grosso no meu buraco apertado. Ele se
inclina para a frente, apoia-se em uma das mãos e crava a testa na
minha. Meus braços se enrolam em sua nuca. Estou tremendo. Ele
está tremendo.
Ele empurra.
Ele me abre com um calor ofuscante, um estiramento agudo e
abrasador enquanto afunda, centímetro por centímetro,
implacavelmente. Meu corpo se abre em volta dele até que ele esteja
tão fundo que não haja mais espaço. Estou aberto, minha bunda
apertando em volta do calor espesso e pulsante do seu pau. Ele me
estica até o meu limite, e leva tudo em mim para não me estilhaçar ali
mesmo. Cada parte de mim se ilumina com a dor brutal e bela de ser
preenchido.
Não há como escapar da forma como ele me possui agora. Eu
suspiro no calor úmido do seu ombro.
Ele permanece parado, imóvel. Minha mente está turva, os
pensamentos reduzidos à forma como ele me reivindica, como ele
está enterrado nas partes mais profundas de mim. Eu o arranho pelas
costas, desesperado para puxá-lo ainda mais para perto, para me
afogar na sua queimação avassaladora.
— Respire — ele sussurra.
Não sei quem precisa ouvir mais isso. Meu peito arfa,
acompanhando seus suspiros irregulares.
Blair se move para frente, com um movimento lento e safado dos
quadris, me alargando mais, me preenchendo até quase me romper.
A força do seu pau é infinita, arrancando todo o ar dos meus pulmões.
— Quero você — digo com a voz embargada quando consigo ar
suficiente, minhas mãos descontroladas em seus cabelos. — Quero
você por inteiro.
No começo, ele é cuidadoso comigo, mas depois, quando sabe que
não quero nada escondido, fica menos cuidadoso. Ele me idolatra.
Inclino a cabeça para trás, com a boca aberta, e deixo meu corpo se
reorganizar em torno dele, como se tivesse sido feito para isso. Meus
gemidos se derramam em sua boca. O suor nos cola pele a pele. Ele
encontra minha mão, entrelaçando nossos dedos firmemente no
colchão perto da minha cabeça, nos prendendo em um laço
ininterrupto. Sombras de velas nos fundem em uma única forma
contorcida na parede.
Ele se move em movimentos longos e lentos, e eu me transformo
em nada além de sensação. Meus quadris se erguem para encontrá-
lo, ávidos por mais, desejando-o mais fundo. Somos calor contra
calor, um beijo mais intenso do que respirar. Estou me apaixonando
por ele, por nós. Ele se move, inclinando-se mais bruscamente, e algo
se aperta, um nó de desejo se apertando a cada impulso. Engancho
meus tornozelos em volta dele.
— Lá?
Minhas coxas tremem quando concordo. Ele captura meu lábio
inferior num beijo, arfando dentro de mim enquanto me fode com
mais força, bem ali.
— Mais.
Ele obedece. Empurra de novo, de novo, seu pau atingindo aquele
ponto desesperado. Meu próprio pau pulsa entre nós, vazando e
intocado. Blair me curva ainda mais, passando minha perna por cima
do ombro dele. O estiramento me penetra mais fundo, e tão delicioso.
Cada estocada me esfola; nunca me senti tão inteiro.
— Blair — eu digo com voz engasgada.
— É isso aí. Solte-se para mim. — Sua voz roça meu ouvido.
O ritmo dele falha. Ele está perto.
Nós nos olhamos e eu estilhaço.
Blair surge, uma estocada final e possessiva. A onda atinge o ápice,
uma liberação brilhante e brutal que me quebra em um êxtase
irregular. Ele engole meu grito com seu beijo enquanto se derrama
em mim, e eu engulo seu rugido enquanto ele estremece e se desfaz.
Ele desaba, me puxando com força, seu coração batendo forte contra
o meu.
Lentamente, o quarto retorna: velas tremulando, o suor grudado
na minha língua. Sua respiração se acalma contra meu cabelo. Seus
lábios pousam na minha têmpora e permanecem. — Tudo bem?
Concordo com a cabeça contra sua pele, ainda incapaz de formar
palavras. Meu corpo foi reconectado. Estou mais do que bem. Estou...
inteiro. E sei que não foi a minha primeira vez, mas... também foi, de
certa forma.
Enquanto eu tiver isso, enquanto eu o tiver, posso enfrentar
qualquer coisa, fazer qualquer coisa, me tornar qualquer coisa. Até eu
mesmo. Então, deixe o mar me levar para além das ondas e em
direção ao azul selvagem; com Blair me envolvendo, não tenho mais
medo de quão fundo eu possa ir. Ele é maré e praia: cada onda que
ameaça me engolir acabará me levando para casa, para ele.
Seu polegar percorre meu maxilar. Seu toque me centraliza,
controlando a dispersão dos meus pensamentos, e seus olhos azuis se
fixam nos meus, profundos como um furacão, um pouco instáveis. —
Eu te amo. Nunca se esqueça disso.
Uma súplica atravessa essas palavras, áspera como pele rasgada.
Um amor assim queima forte o suficiente para mudar tudo o que toca
– meu passado, meu futuro, os lugares vazios dentro de mim que
escondi até de mim mesmo.
— Diga de novo — falo no escuro.
Seus lábios encontram a concha da minha orelha. — Eu te amo. —
Então, mais suave, como um segredo: — Eu te amo. — Mais uma vez:
— Eu te amo.
— Eu nunca vou te esquecer — eu prometo.
Queda livre.
Não há chão, nem ar, apenas a queda. Eu me penduro, a espinha
presa num parêntesis. A escuridão machucada fervilha de vidro
suspenso, cada lasca iluminada por luzes estilhaçadas. Um grito
metálico atravessa o vazio. Então a água, subindo por todos os lados
ao mesmo tempo, isola o som, fecha-se sobre minha cabeça, escorre
pela minha garganta.
Meus olhos se abrem de repente. O mundo estremece e volta ao
foco enquanto me sento ereto na cama, ofegante, com as mãos no
pescoço, respirando fundo. A escuridão invade as janelas, o quarto
silencioso, exceto pelo meu coração batendo forte nos ouvidos. Cada
respiração é rouca.
Espero, atento ao eco da queda, quase certo de que recomeçará se
eu me mexer. Cada músculo grita, tenso com um terror sem nome,
sem fonte. Se respiro fundo, sinto a queda novamente. Se fecho os
olhos, o quarto erode e a água inunda.
Era um sonho, um pesadelo.
Mas o medo permanece.
Blair. Onde ele está? Minha mão se agita contra os lençóis, o
algodão fresco deslizando pelo meu toque, até que...
Ele está aqui, bem aqui, comigo.
Um brilho suave vindo da varanda invade nosso quarto, pintando
as sombras dos cantos com uma luz fria. Respiro fundo, trêmulo e
entrecortado. Estou em casa. Gradualmente, formas começam a
emergir: as linhas elegantes da nossa cômoda, a silhueta das nossas
bolsas de hóquei jogadas contra a parede. As roupas que deixamos
cair descuidadamente horas atrás.
E Blair, deitado ao meu lado, com o rosto sereno e amassado no
travesseiro.
O cheiro das velas que ele acendeu, o farfalhar dos lençóis macios,
o calor de Blair – tudo isso me puxa, tenta me libertar do meu
pesadelo rançoso, mas as pontas ainda estão lá, recusando-se a me
deixar ir.
Estou acordado. Estou vivo. Estou respirando.
Estou apavorado.
Um gemido agudo rompe o silêncio, e eu estou de volta lá, preso
nos destroços do meu pesadelo. O gosto de sangue e medo inunda
minha boca. Estou engasgando-me com isso, me afogando nele. Uma
dor fantasma queima minhas costelas. Não consigo respirar. Preciso
respirar. As imagens são fragmentadas, cacos de um espelho
quebrado. Tudo o que sei com certeza é a queda.
Casa. Estou em casa com Blair. Ele cheira a casa, me traz segurança.
Ele está tão calmo quanto o oceano depois de uma tempestade.
Mas o pesadelo não vai embora. Aquele cheiro – aquele fedor
químico horrível de borracha queimada – enche meus pulmões e
garganta. Uma voz sussurra: Lembre...
Um ano se apagou da minha memória, e não sei o que está faltando.
Não sei o que aconteceu comigo durante esse ano. Não consigo nem
me lembrar do que perdi. Será que esse pesadelo é uma lembrança?
Não, foi um sonho, apenas um sonho.
Ao meu lado, Blair dorme. As sombras se movem, se alongam, mas
Blair permanece. Sólido. Real. A escuridão no quarto se aprofunda,
sangrando pelos cantos, se contorcendo em formas que piscam na
minha visão periférica. É predatória; me cerca, me corrói. O bater do
canal contra o cais, tão constante e suave antes, soa como ondas
quebrando, como...
Concentre-se. Respire.
Lembre.
É como arrancar uma casca de ferida. Por que parece tão real?
Blair estende a mão para mim enquanto dorme, e sua mão encontra
a minha. O medo desaparece.
Mas algo está errado. O pensamento me atinge, claro, nítido e
inegável. Eu não entendo, não quero entender, mas algo está errado.
Comigo. Com tudo.
Mas o quê?
Treze
O zumbido vibra pelo chão e sobe pelas minhas pernas, subindo
cada vez mais alto, penetrando por cada fenda em mim até se fixar
entre as minhas costelas. Vinte mil vozes entoam nossos nomes além
dessas paredes de concreto, um som que poderia rachar o céu. A
arena respira conosco, pronta para liberar tudo o que vem segurando.
O som de tagarelice ricocheteia no cimento e no aço. Hollow faz
malabarismos com um disco com o taco enquanto Hawks se inclina,
cantando algo que faz a concentração de Hollow vacilar. O disco cai,
quica uma vez, e Hollow o pega de volta sem hesitar.
Blair se move em meio ao caos, nascido para nos estabilizar. Ele
agarra ombros, aperta as mãos, troca acenos que carregam a
temporada inteira. O time orbita em torno dele mesmo quando ele
está em silêncio, especialmente quando ele está em silêncio, porque o
próprio Blair fala mais alto do que qualquer discurso pré-jogo jamais
conseguiria.
Mexo nos cadarços dos meus patins, uma vez, duas vezes, como se
tivesse esquecido como isso funciona. Afundo as palmas das mãos
nos olhos até a cor florescer em flashes neon – azul azedo, dourado
químico, verde tão forte que beira o branco. Quando abro os olhos
novamente, o vestiário se inclina para o lado antes de voltar ao lugar.
Talvez seja a estática. Talvez sejam os rapazes gritando. Talvez eu
não esteja em lugar nenhum. Talvez a temporada tenha me quebrado
e só saia barulho.
Talvez seja esse o gosto do nervosismo do sétimo jogo: cobre
áspero, sem doçura.
Tento inspirar como se isso fosse consertar o que está dentro de
mim. Suor rançoso cobre o fundo da minha garganta; a ponta afiada
da fita adesiva nova e o mentol pungente me acompanham com o
cheiro da antecipação. Engulo, engasgo um pouco, me mantenho
firme. Se eu me mantiver ereto o suficiente, talvez tudo se encaixe
como deveria, fácil e perfeitamente.
É a energia da noite. Só isso. É a risada rouca, o bater dos tacos, o
jeito como Divot quica na ponta dos pés, vibrando como se só ele
pudesse dar energia a esta arena. É este jogo: vida ou morte, aqui
mesmo, esta noite. Meu coração dispara, gemendo.
Este ano é o sonho, aquele sobre o qual escreverão livros. Cada peça
se encaixou, criando esta máquina perfeita e imparável. Os caras
certos, a combinação certa.
Exceto...
Só que a temporada de que falam vive num ponto cego da minha
memória. Os jogos, as vitórias, a jornada que nos trouxe até aqui – é
sombra e fumaça, e quanto mais eu a persigo, mais rápido ela corre.
Gostaria de ter visto, vivido cada batida, cada jogada perfeita. Me
mostre, cérebro. Me mostre qualquer coisa real.
Eu queria poder me lembrar, porra.
Do outro lado da sala, Blair me observa. Todo o resto se turva. Pisco
e seu rosto se fecha; o ruído se reduz a um zumbido. Meus
pensamentos se simplificam. Ele é tudo o que preciso ver.
Minha mente fica em branco com o ridículo disto: que isto, a luta
sangrenta do hóquei, não é nada sem esta pessoa.
Hawks bate o capacete e solta um som que é meio grito de guerra,
meio grito primal. Ele é o nosso animador, aquele que acende o fogo.
Os rapazes se mobilizam, batem os tacos, riem alto e alto para que
ninguém acredite que há medo por perto.
— Esta noite é a noite. — A voz de Blair corta o barulho. —
Nascemos para isso, rapazes, e para fazer isso juntos. Vamos deixar
tudo no gelo. Vamos, vamos!
O rugido que se segue faz a sala tremer até os ossos. Hayes passa o
braço em volta do meu pescoço, me puxando para um abraço de
esmagar os ossos. — Vamos nessa, Kicks!
O túnel nos engole por inteiro, paredes de concreto amplificando
cada som até que nossos passos se tornem trovões. A voz da multidão
se afunila do outro lado, mãos invisíveis nos puxando para frente.
Meus dentes batem. Meu coração bate como um bumerangue nas
paredes. Eu quero que este momento tenha importância. Eu quero ter
importância.
O passo de Blair nunca vacila. Ele carrega a temporada inteira, as
esperanças de uma cidade inteira, e faz com que pareça natural. O C
em seu peito parece ser forjado em ferro, demonstrando a firmeza que
ele nos dá.
— Ei. — Blair me cutuca.
Encontro seus olhos, tão azuis que parecem refletir o horizonte
mesmo na escuridão.
— A gente dá conta — diz ele, com a voz rouca. Ele aperta minha
mão sobre o taco. Então, volta a se mover, caminhando em direção à
luz, e eu o sigo. Saímos como um só, Blair na frente, eu
acompanhando o ritmo.
A multidão é um mar de camisas azuis, um rugido frenético e
agitado, e as luzes do rinque arrancam a cor do mundo. O brilho
causa um curto-circuito em algo no meu cérebro. Por um segundo,
encaro uma memória que não consigo captar, tentando me lembrar
do contorno de algo que continua desaparecendo. É como se eu
estivesse encarando uma mancha solar, tentando desenhar a forma
de uma sombra. Pisco, tentando clarear as bordas borradas do
mundo.
Uma dor fraca se forma atrás dos meus olhos, espalhando-se pelo
meu maxilar. O ar estremece; a fome da arena me atravessa.
Tudo se encaixando, é o que dizem.
Concentre-se. Respire.
Meu corpo inteiro é um instrumento finamente afinado de erro.
Nos alinhamos para o hino. A música tenta abafar o caos na minha
cabeça – e não consegue. Meu ritmo desapareceu, perdido em algum
lugar entre o vestiário e aqui. Eu deveria sentir a adrenalina
crepitando nas veias, mas, em vez disso, tudo o que sinto é aquela
sombra de algo errado se infiltrando em tudo.
O hino termina. A multidão se aglomera e grita em uníssono. O
barulho me atinge, me sacode. Eu quero ir, ir, ir. Patinamos até o
banco e, ao meu lado, Hayes trava a tira do queixo. Não há mais
nenhum vestígio do irmão mais velho brincalhão que ele costuma ser.
Ele é parte astuto, parte artilheiro e parte cão de guarda de ombros
largos rondando a linha azul. Por baixo do capacete, ele parece todo
profissional – atirador de elite, destruidor de corações, homem
comum e homem de ferro, tudo em perfeita harmonia.
Os olhos de Blair estão fixos nos meus, e uma vida inteira se
desdobra neste pequeno espaço entre nós. Ele é a calma no centro da
minha tempestade.
— Você e eu, Kicks. — Ele é um ponto fixo, a única coordenada pela
qual consigo me orientar. — Você e eu, para sempre.
Ele não precisa dizer mais nada. Ele acredita neste time, neste
momento, mas mais do que isso, ele acredita em mim.
Pelos próximos sessenta minutos, nada mais importa. Nem o
passado, nem o futuro.
Somente o jogo.
Somente o gelo.
Somente ele.
O tempo passa em segundos ofegantes. O placar é um nó de luz,
um jogo empatado se arrastando até os minutos finais do terceiro.
É aqui que nossa temporada morre ou encontra sua segunda vida.
Meus pulmões queimam; cada respiração me purifica. Os rugidos
comprimidos de vinte mil pessoas engrossam o ar rarefeito e esticado.
Um apito soa; o som paira no ar por um segundo a mais. Eu vacilo,
cambaleio enquanto deslizo após a jogada. Não, fique aqui. Continue no
jogo. Talvez sejam as luzes. Elas estão brilhantes demais, desbotando
a cor das placas. É o barulho. É a arena.
Forço a respiração, puxando o ar gelado para dentro de mim. Blair
bate na minha canela com o taco. Um gesto simples. Estamos bem. E
eu estou, por um instante. Estou mesmo.
Nos alinhamos para uma disputa de disco. Concentro minha
atenção no disco, na mão do árbitro, na contração no maxilar do
central adversário.
O disco cai. O caos floresce. Sigo o disco preto por uma floresta de
pernas e tacos. Hollow vence a disputa e o chuta de volta. Eu o pego,
de cabeça erguida, observando as linhas se formarem e se
dissolverem. Deixo o jogo fluir através de mim. Sou um canal para
ele, um veículo. Uma jogada perfeita apagará o último resquício de
desorientação.
Blair é um lampejo na minha visão. Sua sombra cruza a linha, e eu
avanço com o disco pelo tráfego, um piscar de olhos de esperança em
uma corda. Ele o toca uma vez – bate, junta, calcanhar com ponta – e
então o chuta para o alto com pura fé.
O mundo se simplifica, transformando-se em um caminho livre até
a rede. Hayes avança pelo espaço alto, recebe o passe como se o
destino já o tivesse escrito. Ele chuta rasteiro, um estalo que bate na
trave e ecoa por todo o meu corpo.
Por um instante devastador, a arena fica em silêncio, cada
respiração presa, cada coração preso entre a esperança e a tristeza. Eu
sou calor, eu sou vazio. A arena se inclina como um navio batendo na
onda.
O mundo explode em luz e barulho. Uma muralha de som vinda
das arquibancadas me atravessa. Hayes grita, abre os braços e me
esmaga num abraço que levanta meus patins do gelo. Blair está lá um
instante depois, nos abraçando e enterrando o rosto no meu pescoço.
Sua luva segura minha nuca, me segurando firme.
Conseguimos. Conseguimos, porra. Esses caras, esse time. A
temporada que não me lembro levou a isso. Soltei um grito do fundo
da minha alma. Movemos o mundo. Vamos para os playoffs.
— Eu te avisei. — A voz de Blair está rouca e enterrada no meu
pescoço. — Você e eu, Kicks. Sempre.
Eu me agarro a ele. Agora, somos invencíveis. Agora, somos
eternos. Que se dane o resto; eu tenho isso, e eu o tenho.
Lembre.
O vestiário explode quando entramos. Corpos colidem, vozes
elevam-se a um tom febril, e a linha de baixo da nossa playlist da
vitória ecoa pelo chão. Gatorade se espalha pelo ar em jatos
alaranjados brilhantes, espirrando nos ombros nus e suados.
Holloway tira a camisa pela cabeça e solta um grito. Hayes despeja
gelo derretido na cabeça de Axel.
O treinador se aproxima o suficiente para nos lembrar que somos
profissionais antes que um sorriso raro se abra em seu rosto. —
Esforço excepcional esta noite. Cada um de vocês. Aproveitem!
Minhas mãos tremem quando finalmente tiro a camisa. Algo sob
minhas costelas se contrai, se aperta.
— Ei. — Blair aparece de repente, atrás de mim, com os braços em
volta da minha cintura, ainda de roupa íntima. Ele apoia o queixo no
meu ombro, a barba por fazer áspera no meu pescoço. —
Conseguimos, porra.
Eu me inclino para trás em seu calor e levo minhas mãos até as dele,
onde elas cruzam minha barriga. Todos podem nos ver. Todos podem
nos ver, e eu não me importo, e ele também não.
Seus lábios roçam minha bochecha. Eu me viro para o contato, meu
cérebro finalmente se acalmando por um momento abençoado.
Ao nosso redor, a comemoração continua inabalável. Hollow olha
em nossa direção e faz um sinal de positivo antes de se virar
novamente para Nolan. Hawks ergue uma sobrancelha e murmura
algo que parece ser ‘finalmente’. Os caras fingem muito mal que não
tinham adivinhado. Nenhum rosto na sala demonstra a menor
sombra de surpresa.
Os braços de Blair se apertam. — Tudo bem? — ele pergunta, tão
baixinho que só eu consigo ouvir.
— Mais do que tudo bem. — digo, virando-me em seus braços. Seu
sorriso, aquele que transparece em seus olhos, me corta. Por um
momento brilhante e suspenso, tudo está perfeito. É tudo o que eu
sempre quis.
Mas o som da música range contra meu crânio. As luzes parecem
tremeluzir, brilhantes demais, zumbindo. Inclino a cabeça para trás,
apoio-a no ombro de Blair, tento trazer sua calma para mim. Não
funciona. O que há de errado está dentro de mim, um espaço frio que
seu calor não alcança.
É como se eu estivesse debaixo d’água, com os sentidos aguçados
demais. O ar está saturado. Meu maxilar fica tenso; a sala gira mais
rápido. O som aumenta e diminui. O rugido da música parece se
distanciar da melodia. As lâmpadas fluorescentes no teto são facas de
luz, estilhaçando o concreto molhado e o brilho do suor na pele.
Por dentro, tudo se quebra, a pressão aumenta. O medo ruge em
meu peito; minha garganta aperta, minha visão se afunila. Meu
coração bate descompassado, perseguindo algo que não consigo
alcançar.
Errado. Algo está errado. Eu deveria estar flutuando. Por que meu
estômago parece estar cheio de lâminas? Estou no coração de tudo o
que sempre quis, e sinto um grito crescendo atrás das minhas costelas.
— Ei — diz Blair, a voz interrompendo o barulho. — Você está
bem?
Concordo automaticamente. Estou bem. Estou bem, mas não
consigo encher meus pulmões completamente, e as bordas da minha
visão oscilam entre o escuro e o claro, o escuro e o claro.
A sala cintila, as bordas se borrando e se esticando como ondas
quebrando com força contra a praia. Rostos se borram, ora se apagam,
ora desaparecem. Até os borrifos de Gatorade parecem desacelerar,
gotículas suspensas como estrelas.
Lembre. Sinto a palavra entalar nas bordas da minha mente
fragmentada.
Gaguejo a respiração, tropeçando na inspiração. Por que aqui? Por
que agora? Isso deveria ser uma bênção, mas meu medo pinta traços
fortes em cada canto deste triunfo; ele uiva e arranha minhas
entranhas.
— Preciso de um minuto — consigo dizer.
A comemoração continua. Svoboda pula do banco para as costas
de Novak, quase jogando os dois contra a parede. Hayes está ao
celular, sorrindo, provavelmente mandando mensagem para Erin.
Por que estou com tanto medo? Isso é vencer. Somos nós. Mas, por
dentro, estou me desfazendo.
Os braços de Blair me apertam. Eu me agarro a ele e aperto
ferozmente de volta.
Lembre.
Sou uma estátua no coração desta tempestade; a alegria aqui é uma
língua que não consigo mais falar. Estou em pé na beira de um
penhasco, a rocha se desintegrando sob meus pés, e todos ao meu
redor comemoram a bela vista.
— Escutem, degenerados! — Hayes está em pé num banco, com a
toalha na cintura e o celular na mão. — Acabei de falar ao telefone
com a minha linda esposa e ela garantiu o nosso lugar para
comemorar. É hora de trocar este Gatorade por margaritas, rapazes!
O Muralha do Mar está nos esperando, e o terraço é todo nosso!
Aplausos irrompem.
O Muralha do Mar. O bar mais novo e badalado de St. Pete Beach,
com vista para o oceano.
— Esposas, namoradas, namorados — continua Hayes, piscando
para Blair e para mim. — Sejam todos bem-vindos. Consegui uma
limusine para nós, então vamos lá, porra! — Seus olhos brilham de
vitória. — Vamos comemorar hoje à noite!
Quatorze
— Ei. — O quadril do Blair bate no meu. — Tá pronto?
A pergunta me puxa de volta para ele, para seus ombros largos e
para a firmeza em seus olhos. — Sim.
Um braço me envolve em volta dos ombros, me envolvendo em um
abraço lateral estrondoso. — Vamos andando, rapazes! — a voz de
Hayes ecoa pelo vestiário, puxando os últimos retardatários em
direção à garagem.
A limusine nos espera na garagem, elegante, preta,
inesperadamente extravagante. Tudo lá dentro é de couro reluzente
e cromo polido.
Meu coração bate forte contra minhas costelas.
Hayes entra cambaleando, me puxando consigo. Blair entra em
seguida e senta-se ao meu lado no banco comprido, com a coxa
encostada na minha.
A porta bate e fecha.
A luz lá dentro é fraca e quente, banhando-nos em ouro. Estou
espremido entre Blair e Hayes, suas risadas se fundindo em um som
vibrante que ecoa nos assentos de couro. Por um instante, o mundo
se acalma.
— É isso aí! — grita Hayes. Um rugido se ergue, o som de um time
que se arrastou para os playoffs, desafiando as probabilidades que
estavam contra nós. Os caras estão vivos com a adrenalina de vencer,
de avançar para os playoffs, de desafiar as expectativas. Hayes me
puxa para um abraço de urso. Ele agarra minha nuca, seu rosto se
abrindo em um sorriso largo. — Você é um campeão, Kicks!
— Trabalho de equipe — digo com a voz embargada. Pisco e me
forço a estar presente neste momento e aproveitar o que a noite
deveria ser: uma celebração louca depois de meses de trabalho duro
e sacrifícios que nos custaram tudo.
Hayes bagunça meu cabelo. Hollow abre uma garrafa de
champanhe e todos comemoram. Blair me passa uma garrafa de
Gatorade.
O champanhe borbulha enquanto as taças passam de mão em mão.
Divot ignora completamente a taça e bebe direto de uma segunda
garrafa. Hawks e Nolan começam a cantar algo desafinado enquanto
a voz grave de Axel se eleva acima deles.
— Porra, sim! Playoffs, aí vamos nós! — grita Hawks.
Dou um longo gole no Gatorade, muito doce e muito gelado.
A mão de Blair cobre a minha. Ele a levanta, seus lábios roçando a
parte de trás dos meus dedos. Ele está tão convicto. Os caras ao nosso
redor estão sorrindo, se cutucando, com os cotovelos encostados nas
laterais do corpo. Meu coração bate forte nos ouvidos. Alguém mais
consegue ouvir? Há muito barulho. Aplausos me envolvem como
arame farpado.
As luzes da cidade passam como manchas de tinta, rápidas demais,
vertiginosas demais. Eu me viro e me concentro em Blair. Inspiro nele
e penso nas ondas quebrando ao luar em algum lugar suave, doce e
distante.
— Você está bem? — pergunta Blair.
Concordo com a cabeça. A mentira está entre nós, frágil como papel
de seda. Não estou bem, mas o que eu poderia dizer que não
estragasse esta noite para todos? Às vezes, nada disso parece real. Isso
cairia bem. Não sei quem eu sou. Isso não vai melhorar exatamente esta
celebração.
Talvez eu devesse ter sido mais honesto com a Dra. Lin.
Lembre.
A limusine balança, sacudindo em um trecho irregular da estrada.
Sinto que vou vomitar.
O que há de errado comigo? Esse medo crescente, essa sensação de
que tudo está se desfazendo – é como tentar segurar água nas mãos.
Escorregando, escorregando, escorregando. A mão dele é uma tábua
de salvação, mas a corda parece estar se desfiando.
O mundo lá fora está manchado. Respira, Torey.
Estou me desfazendo, ponto por ponto, centímetro por centímetro.
A tontura sobe pela minha espinha. Sinto o gosto do sal, ouço o
rugido do oceano, sinto a água enchendo minha garganta.
Reflexos estranhos se movem pelos rostos dos meus companheiros
de time. Tudo está distorcido.
O mundo está se inclinando, num giro lento e nauseante. É como
estar em mar agitado quando o horizonte desaparece e o equilíbrio se
torna uma lembrança. Isso está errado. Isso, tudo isso. Eu não sei o
que está acontecendo.
A ponte sobre a baía é uma faixa de aço e concreto, erguendo-se
sobre águas negras. Reflexos flutuam abaixo de nós, balançando,
saltando, lindos. Meu coração bate em sincronia com o suave baque
dos pneus batendo nas juntas de dilatação.
Conto as bolhas subindo na taça de champanhe de Hayes. Uma.
Duas. Três. Quatro borrões quando a limusine bate num buraco.
Blair entrelaça a mão na minha, entrelaçando nossos dedos. Seus
olhos carregam uma pergunta que não consigo responder. Aperto
com toda a força e seguro os fragmentos azuis de seus olhos.
Acontece muito rápido.
A limusine dá um solavanco. Não é um solavanco na estrada – é
um solavanco violento que nos joga para o lado. Blair aperta meus
dedos com força enquanto a taça de champanhe de Hayes voa de sua
mão. Ela fica suspensa no ar por um segundo, um frágil ponto de
interrogação.
Cristal se estilhaça contra a janela.
Gritos irrompem, emaranhados em confusão. — Que porra é essa?
— Hayes e Axel avançam em direção à divisória que nos separa do
motorista. — Ei! O que está acontecendo aí?
A resposta do motorista é um murmúrio lento e arrastado. —
Desculpe, rapazes. Só um solavanco, tá?
Sua cabeça desliza para o lado, a bochecha caindo em um ombro
que abaixa – e abaixa novamente.
O gelo inunda minhas veias.
— Pare a limusine! — Axel bate o punho contra o vidro.
As mãos do motorista tremem no volante. Sua cabeça pende, os
olhos vidrados. Ele não está lá.
— Pare o carro, porra! — Hayes ruge. Axel bate o ombro na
divisória, uma, duas vezes, tirando-a do caminho enquanto a
limusine desvia novamente, com os pneus cantando.
— Ele está desmaiando. — Axel enfia o braço pela abertura
quebrada, agarrando o volante. — Tire o pé dele do acelerador!
— Olhe!
Nós desviamos, derrapamos, rodopiamos às cegas. O metal range.
Buzinas soam. Blair prende os olhos nos meus, arregalados e intensos,
enquanto o mundo do lado de fora das janelas explode em uma luz
branca e ofuscante.
Estávamos de lado na ponte quando um caminhão nos atingiu em
cheio.
O mundo desaba. O metal grita, o vidro se atomiza e os gritos de
pânico dos meus amigos são abafados por um impacto brutal e
ensurdecedor. Blair e eu somos dilacerados; agarramo-nos às mãos
um do outro até o último instante. Minha cabeça bate contra o batente
da janela, a escuridão escorrendo pelas bordas.
A limusine gira. E gira. Vislumbro Blair – sombra, luz, sombra de
novo – enquanto ele me alcança, mas a distância entre nós aumenta,
dilacerada. Sou jogado contra o teto amassado, e o corpo inerte de
Axel se choca contra mim, o peso morto me prendendo enquanto
guinchamos ao longo do guarda-corpo.
Os destroços gemem, dobrando-se ao nosso redor. O som dos
gritos dos meus companheiros martela uma nota final horrível na
minha cabeça e depois para.
Há um silêncio repentino e absoluto.
O silêncio é mais assustador que o caos. Mangueiras sibilantes, o
tilintar suave de vidros, o gotejamento de fluidos.
Gás. Óleo.
Sangue.
Estou suspenso de cabeça para baixo, preso. Alguns gemidos de
dor ecoam pela cabine devastada. Não há gemidos suficientes. Há
corpos esparramados em ângulos impossíveis.
Blair. Onde ele está?
Ali. Sua mão, com a palma para cima, flácida contra o aço
ensanguentado. Ele está coberto de cacos de vidro, um borrifo de
diamantes encharcados de sangue. Seu peito se agita, um pássaro
com a asa quebrada, mas ele ainda tenta me alcançar. Eu me arrasto
pelo teto rasgado.
Nossos dedos se roçam por um segundo excruciante.
Há muito sangue.
Uma nova buzina soa, e outro conjunto de luzes nos ilumina. Jesus,
ainda estamos na ponte, ainda na metade da estrada, no escuro, e...
Freios rangem. Outro carro nos atinge, ou ao que restou de nós. Sou
jogado para trás, minha cabeça batendo no batente da porta. A agonia
me invade. Os destroços estremecem, um estertor de morte.
O metal se curva, estica e cede.
O guarda-corpo. O que significa...
Queda livre.
O tempo prende a respiração. O rosto de Blair está a milímetros do
meu. Ele tenta dizer alguma coisa, mas as palavras se perdem.
Tento memorizar tudo, gravar cada detalhe na minha alma, como
se, por força de vontade, eu pudesse me agarrar a ele. Concentro-me
nos pontos negros de suas pupilas, no terror nelas que espelha o meu.
Isso não está acontecendo. Isso não pode estar acontecendo.
Deveríamos ter o para sempre.
Seus olhos são profundos como o oceano, um azul no qual eu
poderia me apaixonar e nunca emergir, mas o sol está se pondo
dentro daqueles olhos. Estou observando a luz se esvair dele. Deus,
tínhamos pequenos pedaços do céu em nossas mãos, arrancados do
céu, juntos. Eu me lembro...
O jeito como seus lábios se abriu num suspiro depois do nosso primeiro
beijo, o jeito como suas mãos embalaram meu rosto. Ondas, ondas suaves,
lambendo nossos dedos dos pés. Seus olhos, seus olhos, quando ele olhou para
mim e...
Águas escuras se chocam contra nós e a escuridão devora tudo, me
arrastando para baixo, para baixo, para baixo...
Quinze
Escuridão.
Isso engole o som, sufoca a luz e esmaga a esperança.
Minhas pálpebras tremem. Cada respiração é um esforço. Ofegos
rasgados e irregulares rasgam minha garganta.
Tem alguém aí?
O som paira à beira dessa escuridão, persistente, insistente. Isso
permeia a escuridão, alargando lentamente as rachaduras, deixando
a realidade entrar por entre lascas. Bip. Bip. Bip. Isso me atinge
profundamente, me puxando para fora do abismo, e com ele vem a
dor. Uma dor profunda, implacável, agonizante.
O mundo se filtra de volta em pedaços: lençóis ásperos sob meus
dedos, a luz queimando meus olhos quando os forço a abrir.
Pisco. Uma, duas vezes. Um teto branco entra em foco. Luzes
fluorescentes. Máquinas se aglomeram ao meu redor, junto com
monitores e suportes de soro. O bipe fica mais agudo, se definindo.
Um monitor, acompanhando o ritmo do meu coração.
Estou em um hospital.
Um único pensamento atravessa meu esquecimento: Blair.
Tudo – todos – parece distante. Mas as lembranças – não, o
pesadelo – das luzes ofuscantes e do guincho violento de metal se
partindo em metal me inundam e me pulverizam. Risadas, os caras,
o vestiário. Banhos de Gatorade.
A limusine. Champanhe estourando.
Pneus cantando. Vidros quebrando.
O rosto de Blair, tão perto do meu. Seus olhos, seus lindos olhos,
escurecendo.
Tanto sangue.
Não, não, não, não...
Estou num hospital, mas onde diabos está o Blair? Tiraram ele de
lá? Alguém mais...
Minha cabeça parece estar sendo rasgada em duas. Meu monitor
cardíaco dispara, cada vez mais rápido, num ritmo irregular de terror,
até gemer, alto, constante e sem fim. Um enfermeiro, um rapaz de
cabelos longos presos em um rabo de cavalo, entra no meu quarto. —
Calma, Torey.
Calma. Como é que eu vou conseguir manter a calma? O Blair
estava ali, bem ao meu lado, e então...
… sua mão estendida para mim, o sangue, tanto sangue...
— Blair — eu digo com a voz rouca. — Cadê o Blair?
— Respire fundo agora. — A voz do enfermeiro é firme. — O Dr.
Granholm está a caminho. Respire por mim agora mesmo, está bem?
Inspiro fundo, superficialmente e gaguejando. Onde estou? Tento
falar.
— Torey, como estamos? — Um homem mais velho entra – Dr.
Granholm, presumo – vestindo um uniforme azul e um jaleco branco.
— Você está acordado. Que ótimo. Está se sentindo um pouco ansioso
agora? — Seu rosto é gentil enquanto ele fica ao lado da minha cama.
O enfermeiro se vira para mexer no monitor, silenciando-o. Ele
verifica minhas bolsas de soro e digita no terminal ao lado da minha
cama.
— Onde está o Blair? — Minha voz está falhando. — Onde ele está?
O que aconteceu?
As sobrancelhas do Dr. Granholm franzem. — Blair?
— Blair — ofego, agarrando-o. Estou desesperado, tão
desesperado. — Ele estava bem ao meu lado, nós estávamos... nós
estávamos... — O resto da frase se dissolve. — Por favor, eu preciso
saber... — Seu jaleco treme em minhas mãos. — Eles o tiraram de lá?
Tiraram? Ele está... — Lágrimas escorrem pelos cantos dos meus
olhos. — Por favor, me diga...
Se ele não sabe onde Blair está, então... então...
Não. Eu me recuso a pensar nisso, mas já penso.
A luz se apagando daqueles azuis brilhantes. Nossas testas juntas naquele
momento final e agonizante, seus lábios se movendo contra os meus,
sussurrando suas últimas palavras para mim.
— Onde ele está? — imploro agora, com a voz baixa, entrecortada
e perdida. — Por favor. Por favor, eu preciso dele. Onde ele está?
O Dr. Granholm olha para o enfermeiro. Ele se vira para mim, com
uma expressão cuidadosamente neutra.
Por esse olhar entendo. Então eu sei.
Sua voz é baixa, suave e reconfortante, e ele coloca a mão sobre a
minha. — Vamos focar em você por um instante, Torey.
Ele está calmo demais. Calmo como se tudo estivesse sob controle,
como se nada estivesse errado, e isso me assusta pra caramba, porque
está tudo errado.
— Não, não, por favor. Por favor, eu preciso saber. Onde está Blair?
— Minha voz é um sussurro entrecortado. — Ele está... Ele está... —
Não consigo dizer. Um soluço me escapa.
— Se você está perguntando sobre Blair Callahan, o jogador de
Tampa...
— Sim! — quero gritar, mas tudo o que consigo é um grasnido. —
Por favor — imploro. — Me diga se ele está vivo. — Estou ofegante,
engasgando-me com cada suspiro superficial.
— Os Amotinados estão de volta a Tampa. Tenho certeza de que
ele está com o time dele. — Ele faz uma pausa, me observando. —
Acho que eles voltaram logo depois do jogo.
— O quê? Isso é impossível... ele estava comigo... eu... — Minhas
palavras vacilam. — Nós estávamos... Nós...
— Você o conhece?
Conheço ele? Ele é tudo para mim. Meu parceiro, meu amor, meu
mundo. Como posso começar a explicar o que somos um para o
outro? — Ele é... Nós somos...
Meus pensamentos se chocam com o seguinte. Não consigo
respirar, não consigo pensar. O bipe do meu monitor cardíaco dispara
novamente. — Onde ele está? — pergunto, engasgado.
A mão do Dr. Granholm aperta a minha. — Entramos em contato
com seu pai — diz ele em vez de me responder. — Estamos
mantendo-o informado enquanto ele estiver em Xangai. E falamos
com o Dr. Jackson...
— Dr. Jackson? Não, não, o senhor deveria estar falando com a
médica do meu time. O senhor deveria estar falando com... falando
com...
Médica do time de Tampa. Vejo o rosto dela. Ouço a voz dela. O
nome dela, qual é mesmo?
A expressão do Dr. Granholm é plácida. Ele me observa
atentamente. — O Dr. Jackson é o médico do seu time. Ele está sendo
mantido informado sobre a sua situação.
O Dr. Jackson era o médico do meu time quando eu jogava pelas
Orcas. Mas não estou em Vancouver e não estou mais com as Orcas.
Estou em Tampa, com os Amotinados. Com Blair.
As Orcas e o Dr. Jackson, que era...
Antes.
— Meu celular. Preciso do meu celular. — Droga, meu celular está
no fundo da baía? Eles o tiraram quando me tiraram da água? Da
limusine? Da limusine. Do acidente. Blair. Porra. Onde ele está?
Alguém mais sobreviveu? Não consigo pensar, não consigo pensar.
— Eles tiraram meu celular da limusine? Quando nos tiraram da
água? Alguém mais... — Engasgo com as palavras.
Preciso do meu celular. Preciso ver o rosto do Blair, ouvir a voz
dele, ler as mensagens dele.
O enfermeiro pega uma sacola com meus pertences, cheia de minha
camiseta, leggings, meias, carteira e... meu celular. Mas é meu celular
antigo, de uma vida inteira atrás. De antes... de Blair. Antes de nós.
Isso não pode estar certo. É uma relíquia de outro tempo, de outra
vida. Meus dedos, escorregadios de suor, tateiam para desbloqueá-
lo. Por favor, Deus, por favor, deixe-me ligar isso e ver o sorriso do
Blair.
— Senha.
Por um segundo, minha mente fica em branco. Os quatro dígitos
da minha senha surgem lentamente, como se eu os estivesse
resgatando de um pesadelo. Eu os enfio na tela e, quando o telefone
liga, o chão estala sob mim.
Não. O fundo está errado. Não há nenhuma foto minha e do Blair
sorrindo para a câmera, com nossas testas se tocando.
Meus polegares tateiam em busca da pasta de fotos. Meu peito arfa;
não consigo respirar o suficiente. As fotos se abrem piscando.
Não há nada. Nada de Blair. Nada de Hayes. Nada de Amotinados.
Nada de comemoração. Nada de selfies engraçadas com o time, nada
de fotos do quintal de Hayes e Erin, nada de sorrisos radiantes sob o
sol da Flórida. Deslizo com força, desajeitadamente, e minha visão
fica turva, rios de lágrimas distorcendo tudo.
Nada faz sentido. Meus pensamentos estão se desfazendo em fios
inúteis, sem sentido.
Procuro freneticamente por qualquer sinal da vida de que me
lembro, qualquer vestígio de Blair, de Hayes, do meu time, da minha
família. Não entendo...
Porque não há nada. Nenhuma foto, nenhum texto, nenhuma
evidência. Tudo o que encontro são fotos antigas de Vancouver.
Praias cor de ardósia, uma garrafa de cerveja solitária na mesa frágil
da sacada do meu antigo apartamento. Esses são os restos mortos de
uma vida que deixei para trás, uma vida que odiava.
— O que está acontecendo? — pergunto com a voz rouca. — Que
porra está acontecendo? Onde ele está?
Os lábios do Dr. Granholm se movem, mas não consigo ouvir por
causa da agitação nos meus ouvidos. Algum lugar dentro de mim está
quebrado e sangrando. Meus olhos inchados de lágrimas se fixam na
data no meu celular. Que porra é essa...
É 22 de março, o mesmo dia em que acordei na cama de Blair,
enrolado nos lençóis de Blair, com o cheiro dele na minha pele, com
um ano de memórias perdidas. Era 22 de março, duas semanas atrás...
E era 22 de março, exatamente um ano depois de hoje, quando
acordei na cama do Blair, um ano depois da data que estou vendo no
meu celular. Mas...
A data me olha com malícia. A compreensão se infiltra, lenta e
implacável. Acordei na cama de Blair com um ano apagado da minha
memória, mas esse foi um ano que, aparentemente, nunca aconteceu.
— Não — eu sussurro. — Não, não, não.
Tudo o que eu sabia, tudo o que eu sentia – está evaporando, e
estou à beira de algo perigoso demais, quebrado demais, para
confrontar. Isso não pode estar acontecendo. Não pode. Tudo isso, se
foi. Um ano. Um ano inteiro, se foi, apagado. De novo. Minha vida, se
foi.
Foi real, eu sei que foi real, eu senti, eu vivi, eu amei...
Um grito irrompe de mim. Não consigo contê-lo, não consigo
conter os destroços dentro de mim. — Não! Onde ele está?
— Torey...
Não sou nada além de agonia, rasgando cada nervo, destruindo
cada pensamento. — Me diz onde diabos ele está! — Sem Blair...
Deus, sem Blair, o que eu sou? Quem sou eu? Cada centímetro de
mim está tomado pelo terror. Não posso voltar a ser o Torey que eu
era antes dele.
O rosto do Dr. Granholm flutua diante de mim. Sons se estilhaçam;
nada se conecta. São todos fragmentos, cacos de realidade que não se
encaixam. O telefone escorrega das minhas mãos. Estou caindo,
mergulhando em um abismo sem fundo.
Blair. As lembranças do seu sorriso, do seu toque; elas se estilhaçam
e se dissolvem, se dispersando. Seu toque se esvai. Eu me agarro a
fragmentos tênues – o cheiro de Blair, coco e limão, o estrondo da sua
risada, o gosto dos seus lábios, salgados e doces, o calor da sua
respiração pairando sobre o meu pescoço enquanto nos movíamos
juntos, uma alma em dois corpos –, mas as lembranças estão se
esvaindo, como se tudo fosse um sonho. A escuridão invade as
bordas da minha visão.
Isso não pode ser. Isso não pode...
A angústia é tão profunda, tão insuportável, que rasga minhas
veias, inunda meu coração, afoga minha mente. Estou quebrando, me
estilhaçando em pedaços irregulares. Onde ele está? Onde? Para onde
ele foi?
Meus pulmões estão entrando em colapso, se dobrando sobre si
mesmos. Meu grito se liberta, brotando de algum lugar bem fundo
dentro de mim, de algum lugar que jamais poderá se curar.
Os olhos de Blair eram tão lindamente azuis.
Ele não pode ter ido embora.
O Dr. Granholm está tentando falar comigo. — Torey. Torey, você
está me ouvindo? Torey...
— Onde ele está?
— Torey, me escuta. Seu coração está muito acelerado.
Precisamos... — Ele continua falando, mas suas palavras são estáticas.
Não consigo me concentrar, não consigo pensar além da dor. Meu
coração foi arrancado e estou me despedaçando. Estou chorando.
Gritando. Descontrolado. Convulsionando com a força dos meus
soluços.
— Sedativo. Agora — diz o Dr. Granholm.
— Não — imploro. — Por favor, eu preciso dele. Eu preciso...
Não, não, não, não. Não o tire de mim, não o tire, não...
As paredes se curvam para dentro. Estou perdendo-o, a realidade
dele. Tudo está se dissolvendo lentamente, até que a última coisa que
resta é uma lembrança: uma varanda iluminada por velas, a mão dele
na minha, o polegar dele traçando um caminho sobre meu dedo
anelar como se ele já tivesse feito um voto. Estrelas acima de nós,
estrelas ao nosso redor, estrelas dentro das ondas de seus olhos.
Eu não posso...
Nossas respirações se misturam até nossos lábios se tocarem. O
canal sussurra contra o cais, mas o som está sumindo, uma canção de
ninar que não consigo mais ouvir. Eu o puxei para perto, o beijei até
que a eternidade brilhou entre nós, brilhante e real o suficiente para
ser tocada. Torey... você quer que eu pergunte?
Por favor, por favor. Não o leve embora. Não me faça viver num
mundo onde ele não... onde eu não posso... onde eu...
Eu te amo. Não me deixe. Por favor, não me deixe.
A última coisa que sinto é o calor fantasmagórico dos lábios de Blair
na minha testa.
Depois, nada.
Não há palmeiras aqui.
Um céu cinzento e opaco pinga na janela do meu hospital. É uma
manhã sombria em Vancouver, igual a todas as outras, e eu não quero
chamar este lugar de lar. Eu odeio este lugar. Eu odeio esta cidade.
Sedativos circulam lentamente em minhas veias.
Meu celular está no meu colo, a tela finalmente apagada e a bateria
descarregada. Estou nisso há horas, vasculhando cada centímetro da
internet, cada postagem nas redes sociais. Rolei a tela, cliquei e
pesquisei, concentrando-me em um destaque da ESPN, uma
postagem no Instagram, um artigo brutalmente factual de cada vez.
É 22 de março, um ano antes de eu acordar na cama com Blair.
Lágrimas secam em minhas bochechas. Blair. O nome dele em
minha mente destrói algo dentro de mim novamente.
Ontem à noite, em Vancouver, Zolotarev, um Amotinado de
Tampa Bay, me jogou no gelo e...
Zolotarev. O nome ecoa em espaços vazios dentro de mim. Está lá,
em algum lugar: um traço da voz de Hayes, o estalar de osso contra
osso, mas os detalhes se perdem.
O Instagram de Hayes é um campo minado do que não é. Lá está
ele, sorrisos brilhantes e poses paternas e engraçadas, um ano mais
novo e de uma vida atrás. Erin também está lá, linda como sempre,
com um lenço cuidadosamente enrolado na cabeça. Há fitas rosas no
perfil de Hayes. Lily é mais nova, muito menor.
Não há fotos minhas, de Hayes e Blair, nem risadas
despreocupadas ou hashtags #BFF imortalizadas em pixels e bytes.
Blair não tem presença alguma nas redes sociais. Ele sempre
preservou sua privacidade, mas os artigos que encontro pintam o
retrato de um homem tenso. Falam da temporada inconsistente de
Blair, da licença que tirou, do sumiço dos olhos do público por meses,
deixando apenas especulações e perguntas sem resposta. Agora, ele
está jogando com raiva, dizem os artigos. Há conflitos em todo o
Amotinados. O time está em dificuldades, apático por razões que
ninguém consegue identificar. A temporada deles tem sido uma
decepção, e sua posição na classificação, péssima.
Mas estão mais altos que Vancouver. Um pequeno conforto.
Pensei, por um instante, em ligar para Blair. Ouviria a voz dele,
exigiria respostas e imploraria para que se lembrasse de mim, mas
não consigo lembrar o número dele. Está lá; eu o sinto, mas quando
tento pegá-lo, os números se desintegram. O mesmo acontece com o
de Hayes.
Talvez eu tenha imaginado esse amor avassalador e transformador
por um homem que nunca conheci. Ou talvez seja o contrário; talvez
este seja o sonho.
Mas de qualquer forma, é 22 de março, e Blair não sabe quem eu
sou. Ontem, eu era... Deus, eu era outra pessoa; alguém que Blair
beijaria, embalaria e faria amor, alguém que importava para ele,
alguém que ele amava.
Agora, não sou mais.
Ele não me conhece. Nunca o conheci, nunca falei com ele, nunca
tracei o ângulo do seu maxilar com a ponta dos dedos ou beijei seu
pulso acelerado. Nunca provei o sal em sua pele, nem o ouvi gemer
meu nome enquanto eu o levava ao clímax.
Só que eu fiz isso... Certo? Eu me lembro dele, eu me lembro de nós,
e eu o amo. Eu o amo tão intensamente quanto ontem, quando
acordamos juntos, membros entrelaçados, respirações se misturando.
Só que não foi ontem. Não foi um dia qualquer.
O como e o porquê dilaceram as margens da minha sanidade.
Minhas lembranças de Tampa e de Blair são cacos de vidro, e cada
vez que as procuro, elas se estilhaçam. Estão desaparecendo uma a
uma; os detalhes continuam escapando, mas os sentimentos
permanecem. Eu amo Blair, no presente, ponto final.
Como posso amar um homem que nunca conheci? E como posso
sentir falta do que nunca existiu?
Alguém bate à porta, e então o Dr. Granholm e o enfermeiro da
frente entram. A empatia profissional está estampada em cada linha
de seus rostos.
Eu quero gritar.
— Ei, Torey. Como você está se sentindo agora? — pergunta o Dr.
Granholm, falando comigo daquele jeito cuidadoso que os médicos
reservam para os delirantes, os histéricos e os arrasados.
Dou de ombros. Palavras parecem impossíveis.
— Você se lembra da última vez que estive aqui? — Sua voz é
envolta em algodão e gentileza, e salga as feridas da minha alma.
— Eu me lembro o suficiente.
— Você estava bem desorientado. Quer conversar sobre isso?
Balanço a cabeça. O que há para dizer? Que vivi uma vida
diferente, amei um homem que nunca me conheceu e agora estou
destroçado pela perda de algo que nunca tive?
— Tudo bem. — Ele não insiste, e eu fico profundamente
agradecido. — Pode me dizer onde você está?
— Vancouver General. — Lágrimas ardem em meus olhos; pisco
para afastá-las.
— E qual é a data?
— 22 de março — sussurro. Uma eternidade atrás. Um piscar de
olhos atrás.
Outro aceno. — Por que você está aqui?
— Levei uma pancada feia no jogo ontem à noite e... desmaiei no
gelo. — Irracionalmente, minhas palavras têm gosto de traição, como
se eu estivesse apagando o toque de Blair da minha pele e seu amor
da minha vida.
— Ótimo, ótimo. — O Dr. Granholm sorri. Eu deveria estar tão
orgulhoso. — Você se lembra de ter recuperado a consciência na
ambulância?
Balanço a cabeça.
— Isso é normal — diz ele. — Você ficou inconsciente por uns vinte
minutos depois do impacto no gelo. Não é o ideal, mas estamos
monitorando você de perto desde que chegou ontem à noite. Até
agora, seus exames parecem bons. Não há inchaço significativo no
seu cérebro.
Meus dedos agarram o lençol, com os nós dos dedos brancos.
— Vamos mantê-lo aqui por mais uma noite, continuar
monitorando você e fazer mais alguns exames. No momento, acho
que tudo está indo bem, e há todos os motivos para acreditar que
continuará assim.
Lágrimas queimam o fundo dos meus olhos. Cravo as unhas nas
palmas das mãos, torcendo para que não caiam. Concordo com a
cabeça. Como ele consegue estar tão calmo? Como consegue olhar
para mim e para os destroços da minha vida e discutir exames
cerebrais, inchaços e sintomas como se fossem mais um registro em
sua rotina diária?
— Seu pai está tentando falar com você.
Tenho deixado as ligações do meu pai tocarem até não serem
atendidas, porque como você diz ao seu pai que está com o coração
partido por um homem que não te conhece e por um amor que nunca
existiu? Ah, sim, e a parte masculina disso também.
— Ele está aliviado por você estar melhor. Ele me pediu para dizer
que gostaria de estar aqui com você.
As palavras não vêm ao caso. Estou sozinho nessa. Não tenho
nenhum dos meus companheiros de time das Orcas me apoiando.
Não há mãos para segurar, nem vozes silenciosas de conforto. Em
Tampa, eu não estaria sozinho. Eu não estaria...
Eu esmago esse pensamento antes que ele cresça.
— Torey, quero falar com você sobre algo chamado amnésia pós-
traumática.
Fico muito, muito quieto.
— Não é incomum, após uma lesão cerebral, que alguém fique...
confuso. — O Dr. Granholm escolhe as palavras com cuidado. —
Desorientado. É comum não saber onde você está, ou mesmo quem
você é, como era antes.
Hesito. — Minha desorientação... — hesito. — Por que será que...
O olhar dele se suaviza. — Você foi colocado em coma durante a
noite. Comas costumam ser como sonhos, onde o subconsciente e o
consciente misturam esperanças, medos, experiências e pensamentos
aleatórios e desconexos. — Ele hesita. — Você estava perguntando
por Blair Callahan?
Eu aceno.
— Blair Callahan é o capitão do Amotinados de Tampa Bay, o time
contra o qual você jogava quando foi atingido ontem à noite. É
possível que seu cérebro tenha incorporado alguns elementos do jogo
e dos jogadores de Tampa ao seu coma. E quanto aos sonhos, às vezes
eles não têm sentido. Às vezes, refletem nossos desejos mais
profundos.
Desejos mais profundos. Um soluço surge em mim.
Eu estava apaixonado. Eu tinha tudo. Blair olhou para mim como se
eu fosse a única estrela em seu céu.
E nada disso era real.
O silêncio se estende entre nós. Os últimos fios de esperança se
desfazem dentro de mim.
O Dr. Granholm coloca a mão sobre a minha enquanto minhas
lágrimas escorrem novamente pelo meu rosto. — Volto mais tarde
para ver como você está, Torey. Descanse um pouco. — Ele sai, e a
porta se fecha atrás dele.
Quero me derreter para fora desta cama, para fora da minha
própria pele, gritar até a minha voz falhar, até que o mundo se
transforme na vida que reconheço. Eu me retraio como uma estrela
em colapso. Meu corpo se encolhe, joelhos no peito, testa nos joelhos,
tentando unir os pedaços de mim. Soluços me rasgam. Esta é uma
ferida no centro de mim que derrama uma dor que não tenho o direito
de sentir. Choro até a minha garganta doer, até o meu peito doer, até
não restar nada dentro de mim além de um vazio sem fim.
Duas semanas. Quatorze dias ensolarados e perfeitos. Parecia real.
Tudo parecia tão real.
Mas não era, e não é. Ele nunca me abraçou daquele jeito, e eu estou
apaixonado por uma mentira, o belo e cruel truque de um cérebro
danificado.
Eu tinha tudo e agora não tenho nada. Menos que nada, porque
nunca foi real. Não houve uma grande história de amor, nenhum
romance épico e atemporal entre mim e Blair. Só existe eu,
despedaçado e sozinho, agarrado a esses fragmentos de uma vida que
nunca vivi e de um amor que nunca tive.
Ele se foi, e nunca foi meu para perdê-lo. Os soluços surgem e
param. Não há como escapar. Não há fim. Estou agudo e
devastadoramente sozinho.
Não há palmeiras aqui.
Dezesseis
Já se passaram sete dias desde o ocorrido.
Sete dias desde que o mundo se chocou contra mim e eu me
contorci no escuro, e agora estou preso tentando dar sentido ao
impossível.
Cada vez que fecho os olhos, o tempo que passei em Tampa se esvai
para mais longe. Acordei no hospital, angustiado, e então fui sedado.
Acordei de novo, despedaçado, e tudo o que eu tinha certeza vacilou
como reflexos afundando na água. Tudo está escapando pelos meus
dedos, e quanto mais eu o persigo, mais rápido ele desaparece.
Isso é pior do que desaparecer. É uma erosão completa, e estou
lutando para me agarrar aos pedaços do que conheci, do que vivi. Às
vezes, minhas memórias vêm em flashes. Não são nem imagens. São
texturas, sentimentos, impressões: o calor da pele de Blair, o deslizar
dos lençóis de algodão, o tilintar dos dardos Nerf sob os pés.
Já faz dias que não me preocupo com as luzes do meu apartamento.
Sombras se acumulam nos cantos como tinta derramada. No escuro,
posso fingir que tudo isso é um pesadelo e que em breve acordarei
nos braços de Blair, na nossa cama, na nossa vida.
Mas eu não acordo.
Esta noite, estou banhado pelo brilho do meu celular, assistindo ao
Amotinados de Tampa Bay patinar em uma tela pequena demais para
capturar todo o brilhantismo de Blair. O jogo já passou da metade, e
as chances de Tampa também. Blair está rondando o gelo e os caras
estão frustrados. O gelo sangra com os movimentos deles, cada passe
errado, cada chute mais forte do que o necessário. Hollow grita do
banco, com as mãos firmes no taco. Estou assistindo a um desastre em
câmera lenta, cada passo em falso ampliado.
Eu conheço essas jogadas; sei como ajudar.
Ou será que só eu acho que sim?
Blair desliza pelo gelo enquanto eu me afogo em um silêncio
estático. Conheço o corpo dele. Senti o calor dos seus músculos pós-
jogo me invadirem enquanto estávamos sentados juntos em nosso
avião fretado.
Certo?
Aqui estou eu no escuro, agarrando-o através da estática da tela do
meu celular. Blair em pixels, eu em fragmentos.
Este apartamento é um reflexo malfeito da minha mente. Durante
uma semana, assisti a todos os jogos do Tampa Bay e estudei todos os
vídeos pós-jogo postados no site dos Amotinados. Analisei cada
curva dos lábios de Blair e cada meneio do seu queixo. Não sei o que
esperava encontrar: uma prova definitiva de outro mundo? Uma
confirmação da minha própria realidade? Há noventa e nove
explicações lógicas para o que passei desde o momento em que
Zolotarev me jogou no esquecimento.
Talvez minhas memórias fossem um sonho elaborado, criado pelo
meu cérebro traumatizado enquanto batia em meu crânio. Talvez eu
tenha apagado e Blair tenha sido a última coisa que vi antes de perder
a noção da realidade, e eu tenha construído uma nova a partir do azul
dos seus olhos.
Ou talvez a explicação seja muito mais simples: eu sou louco.
Tentei várias vezes verificar o que me lembro, mas é tudo tão tênue.
Os nomes dos nossos treinadores e técnicos – sumiram. A médica do
nosso time – qual era o nome dela? Meu caderno está ao meu lado, as
páginas manchadas de tinta, todas as minhas tentativas frustradas de
apurar os fatos. Minhas memórias me atormentam, as pontas dos
dedos roçando as bordas antes de sussurrar.
Um sonho. Tudo isso um sonho.
Dormir, preciso dormir, mas toda vez que fecho os olhos ele está
lá. Aperto as palmas das mãos contra as pálpebras, desejando que
algo venha à tona.
Folheio as páginas do meu delírio. Estou me agarrando a nada, não
é?
Mas pelo menos, nestas páginas bagunçadas, Blair está aqui, perto
de mim novamente. Já o esbocei tantas vezes.
Seus olhos me encaram dezenas e dezenas de vezes. Alguns são
esboços rápidos: a curva dos braços, a postura dos ombros. Outros
são meticulosamente detalhados: o padrão exato das sardas no nariz,
a forma como seus olhos se enruga quando ele sorri.
Meu Deus, os detalhes. O jeito como o cabelo dele fica depois de
seco. Um bronzeado fantasmagórico na linha dos óculos de sol. São
esses detalhes que tornam tudo isso tão fodido. A curva do queixo, o
ângulo das maçãs do rosto, a intensidade dos olhos: eu conheço isso
mais do que eu mesmo. O cheiro da pele do Blair depois de um jogo.
A sensação da mão dele na minha. Sua risada, baixa e calorosa, só
para mim.
Estudo meu trabalho. É bom, bom demais. Como posso desenhar
alguém se não o conheço? Quando tento me agarrar às minhas
memórias e trazê-las à tona, elas se esvaem, mas cada detalhe dele
permanece nítido. Mesmo assim, não é o suficiente.
Meu celular toca: uma mensagem do treinador das Orcas. Eu a
deslizo sem ler. Meu mundo real parece frágil como papel. Devo
voltar aos treinos amanhã. Eu deveria ter usado esta semana para me
recuperar. Sem telas. Cuidando do meu cérebro. Malhando. Me
recuperando.
Volto a me concentrar no meu caderno. Os olhos de Blair me
encaram.
Este esboço está se tornando uma obsessão. É uma evidência, digo
a mim mesmo, e viro uma nova página para começar de novo. É isso
que a insanidade parece? Essa fixação obstinada?
O jogo de Tampa continua. Blair está lá, a câmera focada em seu
rosto durante uma chamada de cobertura. Eu o observo, absorvendo
cada detalhe.
Os olhos dele. Começo e termino ali sempre.
Blair está no gelo, fazendo tudo certo, e tudo está dando errado. Eu
deveria estar lá com ele. Eu poderia ajudá-lo, estar lá onde ele precisa
de mim para aquele passe. Agora ele está indo para o canto,
pressionando o defensor do Nashville e não conseguindo nada. A
tensão toma conta dele, o mar recuando antes de uma onda forte.
Se eu pegar esse lápis e marcar os ângulos onde as maçãs do rosto
dele se encaixam no maxilar, talvez eu consiga pegar um pedaço dele
para me agarrar. Talvez eu consiga preservar todo o oceano que fica
preso atrás dos olhos dele.
Quem é esse que estou desenhando? Ele é o Blair da tela ou o da
minha cabeça? São dois homens diferentes?
Nossa! Estou pirando.
Preciso dele aqui comigo, mas quanto mais detalhadas as linhas
que traço, mais agonizante é a sua ausência. Ele está aqui, mas não
está.
Nashville marca novamente; o taco de Blair estala no gelo. Ele
patina até o banco, de cabeça baixa, queixo cerrado e sério. A câmera
acerta seu rosto e meu coração para; é como se ele estivesse me
encarando através das lentes, perguntando por que diabos eu estou
aqui enquanto ele está lá fora.
Quero gritar, dizer a ele que estou tentando, que nada disso faz
sentido, que não se encaixa. Dizer a ele que sinto muito, que sinto
muito mesmo, mas nem sei por quê. Ele está a um milhão de
quilômetros de distância, e eu não consigo alcançá-lo. Não consigo
me lembrar do que devo fazer. Tudo está desmoronando, e tudo o
que me resta são esses esboços de um homem que não me conhece,
que eu amo mais do que o sol ama o céu.
Tampa está perdendo para Nashville e eu estou enlouquecendo.
Se eu consigo lembrar de uma coisa, de um maldito detalhe que
condiz com a realidade, então talvez o resto...
— Eu te amo — sussurro. — Deus, eu te amo.
Minhas palavras pairam. Por um instante, deixei-me acreditar que
talvez, talvez...
Mas a realidade bate de volta: estou sozinho no escuro,
sussurrando para um esboço de um homem que nunca conheci.
Você pode desenhá-lo, mas não pode alcançá-lo.
Ele não é seu.
Ele nunca foi.
Não. Ele existe no grafite sob minhas unhas, nas batidas fortes do
meu coração.
Ele tem que existir.
Lembre.
Lembre.
Esta é a minha casa, lembro a mim mesmo. Esta é a minha casa.
Mentira.
A luz em Vancouver suga a vida de tudo, frágil e prestes a explodir.
O sol e o céu de Tampa, com tudo envolto em alegria sensual e cores
vibrantes e brilhantes, estão a um universo de distância. Mesmo
dentro da arena de Tampa, havia algo a mais, algo que parecia...
Casa.
Não, digo a mim mesmo. Luz é só luz.
A porta do vestiário das Orcas está muito perto, muito grande.
Hesito, um tênis raspando no concreto polido, minha respiração
falhando. Por um momento – um momento ridículo e traiçoeiro –,
espero que, ao passar por aquelas portas, encontre Blair lá dentro, o
olho do furacão que era o nosso time. Ele me verá e me lançará aquele
meio sorriso que me desfaz todas as vezes.
Quando entro na sala, meus companheiros de time Orcas se viram
para mim como um júri diante dos condenados. As conversas
morrem no meio da frase. Tooks e Pugh param de rir. Becky passa
por mim como se eu não valesse a pena o esforço de desviar. Wilhelm
está se inclinando, amarrando seus patins. Ele não olha para cima;
aponta o queixo em direção à minha baia, um cubículo solitário onde
meu equipamento fica, intocado e empoeirado.
Olhos se desviam de mim como água em vidro. Percebo um
lampejo no olhar de Pugh, um leve arrepio em sua expressão. Ele volta
a se concentrar nos próprios cadarços.
Chandy, pelo menos, quebra o silêncio o suficiente para falar
comigo: — Não sei se você dá conta disso, Kicks. Quero dizer… você
tá mesmo disposto a voltar?
— Cara, não faça isso.
— Você está perdendo seu tempo, cara.
Não olho para ver quem está dizendo o quê.
Bem, é a recepção de boas-vindas que eu esperava, não é? Grande
e barulhenta, cheia de amor e alegria pelo seu companheiro de time
favorito – não. Eu deveria estar feliz por não terem trocado as
fechaduras na minha cara.
Eu não pertenço a este lugar. Eles sabem disso, e eu também, e
agora paramos de fingir, eu acho. Não é que me odeiem; eles apenas
seguiram em frente. Sou um passado, um passado que se esqueceu
de ir embora.
Estremeço dentro do meu equipamento. É rotina, memória
muscular, arraigada num lugar em que eu costumava confiar. Mas
memória muscular é uma piada. De que adianta a memória quando
tudo o que ela desenterra para você é um pesadelo (completo, total,
totalmente absorvente, fascinante, perfeito, sedutor, maravilhoso,
pertencimento) do seu desejo mais profundo trazido à vida, apenas
para ser arrancado?
Blair, rindo. Seus olhos brilhando enquanto ele me passa um disco no
treino. Você consegue, Kicks.
Nos últimos dezoito meses, três episódios do meu arsenal de
podcasts que ouço apresentaram jogadores do Amotinados de Tampa
Bay – Hawks, Mikko e Hayes. A ESPN me envia uma dieta constante
de notícias de toda a liga direto para o meu celular, 24 horas por dia,
7 dias por semana. Quantos artigos sobre os Amotinados eu li sem
perceber? As estatísticas e análises de jogadas de Corsi me levaram a
sonhos malucos? Será que minha memória tirou esses fragmentos de
dentro de mim, capturou a sombra de Blair na linha azul deles
naquela noite e cuspiu uma vida que eu jamais admitiria desejar?
Se estivéssemos jogando em Edmonton naquela noite, eu estaria
sonhando com campos de petróleo, planícies de Alberta e neve sem
fim? Estaria olhando para o norte em vez do sul?
Foda-se a memória.
Era real para mim, mais real do que qualquer coisa, mas agora tenho
que continuar vivendo neste mundo, aquele sem ele.
Não sei como. Não sei se consigo.
No gelo, é pior. Este ar, este frio – é como se a arena se ressentisse
de mim. Vancouver me parece hostil até os meus átomos. Este lugar
não se importa se estou aqui para jogar ou morrer.
— Kendrick! — a voz do treinador me corta. — Mete a mão na
massa!
O primeiro exercício começa antes que minhas mãos consigam
segurar meu taco corretamente. Becky espera meio segundo e
pergunta, alto demais: — Pronto, Kicks?
Pegar o passe, entregá-lo limpo, patinar com padrões precisos.
Deveria ser ritmo, puro ritmo, fácil como piscar. Em vez disso, é caos.
Nada gruda. Meu taco raspa como se tivesse velcro grudado. Minhas
bordas escorregam. Eu vacilo, e...
Estou em Tampa. A voz de Hayes corta minha névoa: É isso aí,
Kicks, você consegue! Blair e eu estamos posicionados na linha azul,
prontos para decolar. Seus olhos me penetram, e eu o vejo inspirar e
expirar. Vejo uma gota de suor escorrer por sua têmpora sob o visor.
Percebo o brilho de seus lábios, um sorriso que já passou para mim.
O apito soa. Estamos juntos nisso, varrendo o gelo, duas partes de um
todo. Dançamos em volta da defesa, nossos outros companheiros de
time contra nós. Ele me encontra nas brechas. Eu enterro o disco como
sempre fazemos...
— Acorde, Kendrick! — O grito do treinador me traz de volta, e o
disco desliza pela ponta do meu taco.
Preciso respirar, mas esqueci como. Tenho pés no lugar das mãos,
e não brincamos sobre isso? No café da manhã, né? O que você prefere...
Imagine o tamanho dos seus patins! Bem, não os seus, claro.
Tampa era o meu sonho, mas isso aqui é uma merda. É a quinta,
talvez a sétima vez que tropeço na minha própria inutilidade, e sei
que minha desconexão vai além de terminações nervosas desgastadas
e membros exaustos.
Um passe perfeito, eu e Blair em sincronia, o disco voando do taco dele
para o meu...
A lembrança me atinge como um soco; tropeço num sulco no gelo.
A queda é rápida e bato com força no gelo. Estou caído, sem fôlego, o
disco longe.
Minha mente não consegue se desligar. Tampa ainda está dentro
de mim em lampejos e flashes, fantasmas que se movem no gelo entre
aqui e ali.
O gelo não se importa com a minha dor, nem com meus sonhos
despedaçados, nem com o buraco aberto na minha alma.
Porra, porra. Estou em uma crise. Quando caí, não voltei inteiro.
Não voltei direito. Eu lembro. Eu esqueço. Meu coração não está aqui.
— Pelo amor de Deus, Kendrick!
Nosso último exercício é um contra-ataque. Eu avanço pelo gelo,
sozinho. Vejo as linhas, as brechas, e se conseguir fazer o goleiro
morder a isca...
O taco está errado. Ou o disco está. Não, é você, Torey, seu maldito
perdedor. O rinque se alarga, se aprofunda, se estreita. Minhas bordas
cedem, o disco serpenteia para longe, a rede se ergue, e...
Eu caio.
Minha colisão com as placas rachou o rinque, abrindo um lugar
podre e ferido dentro de mim. Tenho um ano de memórias inúteis
apodrecendo dentro de mim, uma coleção de momentos sem sentido,
e ainda assim, ainda assim, eu quero...
Mas eu não sou nada. Não sou o futuro de ninguém, nem o seu para
sempre, e não sou a luz que ilumina os olhos. Não sou o melhor amigo
de alguém, nem o artilheiro confiável de um time, nem um jogador
decisivo que levou o time aos playoffs.
Eu não sou nada.
Dezessete
Calgary se abre sob o avião, um tapete de boas-vindas para lugar
nenhum.
A janela está fria contra a minha pele quando meu reflexo encontra
meu olhar. Estou pálido e vazio, minha cor drenada.
O resto do time está pronto para jogar. Vancouver não está na
disputa por nada; não há vaga nos playoffs para perseguir, nem
recordes para conquistar, mas alguns deles querem atrapalhar os
outros times. Alguns precisam jogar, estar no gelo, nasceram para
patinar, chutar e se movimentar.
Lembro-me de ter me sentido assim. Uma vez.
Não tem ninguém ao meu lado neste avião, mas, meu Deus, parece
que tem.
Há algo – Deus, há algo – atormentando meus pensamentos. Meu
coração dispara como se reconhecesse o que meu cérebro não
consegue captar. E então, ali – um lampejo, a voz de Blair, surgindo
em meio à estática que consome minha mente há dias.
Era lá que morávamos. Aquela era a nossa casa.
Estávamos no avião. Calgary se estendia à nossa frente quando nos
aproximamos. A sensação dos seus dedos nos meus, a forma como
ele prendeu a respiração quando apontou para a janela. Era precioso,
aquele vislumbre do seu passado. Ele me confiou.
Aquela era a nossa casa. As palavras reverberam através de mim.
Meu coração dispara. A lembrança é real, tão real quanto o
zumbido deste avião, o frio que entra pela janela e bate na minha
testa. É tão claro e inconfundível, e eu...
Estou buscando mais. Procuro qualquer coisa em que possa me
agarrar: o jeito como ele apontou, a inflexão exata em sua voz, nossos
cotovelos roçando entre os assentos. Tento dissipar a névoa com as
mãos para encontrar vaga-lumes que se apagam.
Esta é a prova – eu sei disso.
Meu Deus, estou tremendo pra caramba. Blair. Blair, Blair, Blair...
Talvez eu possa encontrá-lo e lhe contar o que me lembro, como me
lembro. Talvez então...
Talvez isso faça tudo ficar bem.
Eu me agarro à memória, traço seu contorno, desesperado para me
agarrar.
Ouço Blair de novo, de novo.
O avião pousa.
Meu coração se parte.
Meu quarto de hotel é uma caixa bege e estéril. As Orcas saíram do
avião, foram para o ônibus do time e chegaram ao hotel tão rápido
quanto melaço. Eu batia os pés, balançava os dedos e mordia os lábios
durante todo o trajeto, repetindo a voz de Blair em loop para não
perder aquelas duas frases. — Era lá que morávamos.
Blair. Era a voz dele falando comigo. Não pelo YouTube ou por
vídeos pós-jogo, mas ele...
Cartões-chave, elevadores. Tem um monte de merda não escrita na
subcultura de um time de hóquei. Veteranos e mais velhos pegam os
elevadores primeiro. Novatos, caras novos e perdedores vão por
último. Que se dane; eu largo todo mundo e subo as escadas, subindo
de dois em dois, três degraus de cada vez, até o meu andar. Largo
minha bolsa, pego meu tablet. Eu poderia ter pesquisado no meu
celular, mas... preciso fazer isso sozinho.
Preciso do Blair.
Tudo o que consegui fazer foi me agarrar aos restos que restaram:
nossas respirações compartilhadas, sua pele contra a minha, seus
lábios nos meus, em meu queixo, meu pescoço, minha clavícula, meu
peito, minha barriga, ah...
E o jeito que ele olhou para mim.
Posso ter tudo de volta se eu puder provar...
Por favor, por favor…
O Wi-Fi se conecta, e então eu digito, procurando freneticamente.
Blair Callahan, lar de infância, Calgary... Infância em Calgary, jogador da
NHL Blair Callahan...
Mas... Não.
Blair Callahan nasceu e foi criado em Chalk River, Ontário.
Fico olhando para a tela até que as palavras se apagam. Chalk
River, Ontário. Isso se repete, um disco pulando, cada volta cravando
um sulco no meu crânio. Não Calgary. Nem perto disso.
Não. Deus, não. Não, não, não.
Deve haver um erro. Procuro de novo, mas está igual em todas as
páginas de estatísticas: ele é de Ontário, não de Calgary.
Meu coração dispara. Estou perdendo o ritmo, o tom. Tento
conciliar o que estou lendo com o que sei, o que sinto nas veias, nas
dobras e fendas do meu cérebro. Como posso me lembrar de algo que
nunca aconteceu? A voz dele, pelo amor de Deus... Era lá que
morávamos. Aquela era a nossa casa. Eu ainda o ouço; ainda o sinto, tão
real quanto qualquer coisa que já conheci, mais real do que esta
página, esta mentira de merda.
Você sabe por quê. Você está perdendo o controle.
Sinto a respiração arrancada dos pulmões cercados por arame
farpado. Minha pele está muito esticada, como se estivesse tentando
rastejar para fora dos meus ossos.
Esses sussurros dele? Não vêm das minhas memórias; vêm das
rachaduras da minha mente. Aquele tom de azul de um par de olhos
que não consigo esquecer? Essa é a cor da frequência que você ouve
quando a perde.
Sou o eco de um homem, assombrado e assombrando a si mesmo.
Quem sou eu hoje? O fantasma ou o enlouquecido?
Leio artigo após artigo sobre amnésia pós-traumática, lesões
cerebrais, sonhos, os mecanismos de defesa da mente. Uma mente à
beira do abismo, tentando se proteger, racionaliza e justifica. Tenta dar
sentido ao impossível. Muitos artigos tentavam acalmar, diziam: “Tudo
bem que você sonhou com coisas estranhas”. Distorcem o que é familiar
e desconhecido e o tornam seu. “Não se preocupe. Nada disso é real.
Nada disso importa.”
As alucinações são construídas a partir de restos da mente, restos
bloqueados profundamente demais para serem lembrados, tecidos a
partir de detritos que você nem sabia que carregava.
Talvez eu tenha ouvido aqueles episódios de podcast. Talvez eu
tenha visto vídeo dos jogadores de Tampa. E talvez tenha sido só isso
que bastou para acender uma fantasia que brilhou tanto que ficou
gravada na minha mente.
Eu estava vulnerável. Desesperado por conexão. Meu cérebro –
destruído pela pancada, faminto por qualquer coisa em que se agarrar
– se agarrou a Blair e construiu um mundo onde eu importava, onde
eu não era...
Solitário.
O quarto gira, as paredes se fecham. Há uma palavra para isso, para
o que está acontecendo dentro da minha cabeça.
Loucura.
Aí está: a verdade que eu tenho circulado, a verdade da qual eu
recuei, fugindo como se pudesse ultrapassar as marés. Nada disso era
real. A menos que eu tenha deslizado para outro universo, a menos
que dimensões alternativas sejam uma realidade, ou viagem no
tempo seja algo que acontece com as pessoas.
Mas não é. Você sabe disso. Você sabe disso, porra.
O quarto está silencioso demais, vazio demais, para isso. Estou na
porra de Calgary, dentro de uma caixa bege, e minha mente está se
partindo. Estou a milhares de quilômetros de tudo o que era perfeito,
aquecido pelo sol, salpicado de sal e meu... Estou a milhares – milhões
– de quilômetros da sanidade.
Blair era meu porto seguro, meu farol, meu tudo, mas ele se foi. Não.
Pior: ele nunca existiu. Ele não passa de um homem inventado, um
fantasma de uma vida que nunca terei.
Ouço meus companheiros de time no corredor do hotel.
Amotinados? Não, as Orcas, meus verdadeiros companheiros de
time. Eles estão rindo, fazendo planos para sair, jantar. Ninguém bate
à minha porta. Estão me deixando para trás.
Eu também me deixaria para trás.
Minha respiração se transforma num sussurro, depois para
completamente. O ar em Calgary aprendeu a sufocar um homem.
Estou sozinho. Completamente, completamente sozinho, e me
enrolo em mim mesmo como papel em chamas.
Os olhos de Blair, seu sorriso, o calor do seu toque – as memórias,
as fantasias – tremulam e desaparecem, reaparecem e desaparecem.
Eu as seguro, mas elas escapam por entre meus dedos, insubstanciais
como fumaça.
Lágrimas queimam atrás das minhas pálpebras. Engulo em seco,
tento respirar apesar da dor. Não adianta. Nada adianta. A única
pessoa que poderia dar sentido a isso, a única pessoa de quem preciso
mais do que tudo...
Ele nem sabe meu nome.
Eu tremo no gelo, minhas bordas rangendo e instáveis. Eu deveria
sentir força em cada impulso, meus quadríceps se contraindo e
relaxando, mas nada me segura. Blair persegue meu jogo de pés,
acompanhando cada giro, cada curva. Ele está lá quando eu faço o
cruzamento, me desequilibrando.
Está tudo errado sem ele.
Não troco discos com ninguém, redireciono treinos que terminam
em gelo aberto. Minha mente está esgotada, e não sobrou nada.
A voz do treinador corta o gelo. — Se recomponha, Kendrick!
O disco passa voando por mim. Eu me apresso para alcançá-lo, mas
é tarde demais. Estou atrasado para todas as jogadas. O rinque é
pequeno demais, perto demais. O banco não é salvação. Eu me curvo,
agarrando meu taco como se fosse meu único elo com a realidade.
Um fracasso se transforma em outro. — Que diabos você está
fazendo aí, Kendrick? Você está ferrando tudo! — ruge o treinador.
O gelo não segura. O disco me pega na borda errada e passa
correndo por mim.
Calgary avança o disco sobre o gelo, cede e marca um gol. O placar
sobe. Estamos perdendo por um, depois por dois, e eu sou um
espectador do meu próprio colapso.
Quando termino meu próximo turno no gelo, a mão do treinador
cai, dura como granito, sobre meu ombro. — Fique no banco — ele
diz. — Você acabou por hoje.
Estou farto.
Minha chave toca a fechadura, e a porta se abre para um lugar que
eu poderia ter chamado de casa. Lá dentro, meu apartamento respira
um ar sem vida sobre minha pele. Não, este lugar não me acolhe de
volta.
Deixo o pacote que peguei na sala de correspondências do
apartamento no balcão. Estava lá quando voltei do jogo Calgary-
Edmonton, onde joguei parte do jogo em Calgary e nada do jogo em
Edmonton.
Será que eu deveria mesmo abrir?
Meu telefone vibra e a tela me diz o que eu já sei: pai.
Eu sei o que está por vir.
Ele retorna a ligação, é claro.
Não posso ignorar isso para sempre. Respondo.
— Torey. — A voz do meu pai ecoa pelo receptor. Ele sempre foi
grandioso. Quando eu era criança, ele era o meu Super-Homem.
Quando fiquei mais velho, descobri que ele era humano. Acho que
ele nunca percebeu que eu também era.
— Ei, pai. — Mal reconheço minha própria voz.
— O treinador te tirou do banco? Que diabos é isso? Como você vai
contribuir para o time se eles não te dão tempo de gelo?
Engulo em seco. A verdade luta para vir à tona, mas é mais fácil –
mais seguro – não dizer uma palavra sobre ela. — Eu não estou... —
Minha língua tropeça, tropeça numa mentira. — Estou bem. Só tive
um dia ruim.
— É a sua cabeça? Tem certeza de que deveria estar jogando agora?
Talvez precise de mais tempo para descansar.
— Estou bem. 100% curado, pai. — Fisicamente.
— Bem, então, seu treinador precisa acordar, te colocar no gelo,
onde é o seu lugar. Seu lugar é na primeira linha. Que droga, você
sempre foi o melhor. Esse seu treinador... — Ele se perde num suspiro
longo e pesado. — A culpa é deles, Torey.
Eis o problema do meu pai: ele acredita, no fundo do coração, que
eu sou o melhor jogador de hóquei que ele já viu. Ele passou dezoito
anos se gabando de cada uma das minhas conquistas, registrando
minha ascensão nas categorias de mirim, base e juvenil, e postando
com orgulho minhas fotos esportivas e de jogos em todas as paredes
da nossa casa. Ele acredita que eu nasci para erguer a taça da Copa
Stanley.
Eu costumava achar que ele era meu maior e melhor trunfo. Eu
tinha um apoio forte e inabalável. Ele me levava para o rinque às 4 da
manhã para treinar, ou atravessava Saskatchewan para um torneio de
fim de semana, uma viagem de ida e volta de treze horas. Não me
faltava nada: tacos de hóquei, patins e equipamentos de treino, uma
academia em casa, um plano alimentar personalizado. Meu pai,
minha arma secreta.
Ele é a soma de cada noite na estrada, de cada treino matinal, de
cada sorriso radiante recém-saído do gelo, de cada grama de
expectativa que criei, lapidei e coloquei sobre meus ombros,
orgulhoso de carregá-lo. Ele acredita que eu posso fazer tudo. Eu sei
que não posso fazer nada.
Ele ainda não me entendeu.
— Não é... — Minha negação se esvai. Estou cansado demais,
fragmentado demais para discutir. Qual o sentido? Se ele soubesse a
verdade, se visse a ruína do filho que costumava conhecer...
Não, não haveria conserto. Para ele, seria como estilhaçar uma joia
inestimável ou perder poeira estelar de um sistema solar queimado.
Uma vez perdido, nunca mais consertado, nunca mais substituído.
Então deixo isso acontecer: meu fracasso, nosso silêncio.
— Tem certeza de que está tudo bem, Torey? Você vive para isso.
Você é melhor do que isso.
Fico em silêncio. A verdade é um monstro enjaulado dentro de
mim, e se ela vier à tona – se eu admitir que não sou o que ele pensa
que sou, que sou um desastre prestes a acontecer, que estou de
coração partido por um relacionamento que inventei com um homem
– não sobrará nada de mim. Serei um monte de poeira com o qual ele
está tão decepcionado.
— Pai, como está Singapura? — pergunto, engasgado. Nunca
entendi direito o que meu pai faz. Ele é executivo, disso eu sei, e
ganha muito dinheiro – nunca nos faltou nada –, mas ele passou
muitos anos viajando, cada vez mais quando eu era adolescente, e
ainda mais quando eu estava em alojamentos. Agora ele mora em
tempo integral no exterior. Ele assiste a transmissão dos meus jogos
onde quer que esteja e me envia comentários por mensagem.
Meu pai é um falador. Mudar de assunto funciona. Ele mal pode
esperar para me contar sobre Singapura: para onde foi, o que anda
fazendo, o quanto acha que eu gostaria disto ou daquilo. Ele é tão
efusivo. É exatamente o oposto de mim. Não me lembro da minha
mãe – ela foi embora há um tempo –, mas devo ser mais parecido com
ela do que com ele.
Por fim, as necessidades do mundo alcançam meu pai. Ouço sua
assistente interromper, lembrando-o do seu próximo compromisso,
da sua próxima reunião e da necessidade de se preparar para o
primeiro-ministro. — Torey, preciso ir. Mas escuta, me liga, tá? Não
importa a hora, me liga quando puder. — Uma pausa. — Eu te amo.
— Também te amo, pai.
A ligação termina. Eu me jogo contra o balcão, com o telefone ainda
na palma da mão. A tela escurece; o quarto parece mais escuro ainda.
O pacote espera, e o segredo que ele guarda queima em minhas
veias. Eu não deveria ter feito isso. Eu sei, eu sei como é loucura, mas
talvez seja melhor eu ser louco. Você está indo ladeira abaixo.
Rasgo a fita. O papelão se rasga, expondo suas entranhas
pecaminosas: a camisa de Blair, seu nome e número 24 costurados em
branco brilhante sobre azul-escuro. Agarro-me a ela como se segurá-
la pudesse trazê-lo de volta. Se eu apertar com força suficiente, talvez
algo dele transborde e eu o tenha novamente.
Mas cheira a plástico. Não tem sol, nem cheiro de limão-chave da
Flórida, só o cheiro estéril, industrializado, da produção em massa.
Eu desabo, caindo de joelhos no chão frio e duro.
O mundo escurece; minha respiração se emaranha no tecido, e eu
me engasgo com soluços repentinos, de arrepiar a alma. Mais uma
respiração... mais uma. Mais uma lembrança do que nunca realmente
existiu. Agarro mais um punhado da camisa, afundando-me cada vez
mais no que sei ser loucura.
Três segundos. Três segundos de inconveniência. Depois dez.
Vinte. Perco a noção do tempo, segurando a camisa do Blair contra o
rosto enquanto choro no chão da cozinha. Finalmente, me
recomponho o suficiente para me encostar nos armários. Tem álcool
aqui, em algum lugar. Procuro-o, encontro vodca e tomo um gole
profundo direto da garrafa.
Eu queria muito mais do que isso.
Sento-me no escuro e seguro o nome de Blair sobre o coração. Esta
noite, não sou Torey Kendrick. Não sou nada.
Eu bebo. Deus, como eu bebo, mas isso não preenche o vazio.
Nada preenche.
Dezoito
Começa como um acordo: uma bebida para amenizar o
desconforto.
O primeiro gole é fácil. A vodca é barata, fácil, e a queimação no
caminho combina com a forma como minhas entranhas se contorcem
quando penso nele.
Mais um. Inclino a garrafa e despejo mais um pouco no meu copo.
Entorpeça o mundo. Entorpeça a mim.
O caos se acalma. Não preciso pensar no gelo, no jogo ou no meu
time que me odeia, e não preciso pensar em como não consigo
encontrar o meu eu que sabe manusear um disco sem que ele se
transforme em vapor nas minhas mãos.
Não preciso pensar no Blair. Mas há uma pontada nesse último
pensamento; não quero deixar de pensar nele.
Mais um.
De manhã, minha cabeça lateja como se estivesse presa entre o
vidro e o gelo. Gemo e puxo os lençóis sobre o rosto. A camisa de Blair
está amassada, formando uma bola, contra o meu peito.
Treino. Merda. Puta merda.
Tomo uma aspirina e tento engolir Gatorade, mas quando entro no
rinque com meu moletom puxado pela cabeça e fones de ouvido
enfiados nos ouvidos, fica claro que não vou enganar ninguém.
No gelo, nada dá certo. Quando coloco as luvas, elas apertam.
Quando afio os patins, eles arrastam.
— Se recomponha, Kendrick! — grita o treinador.
Não posso.
Depois do treino, é vodca de novo. A garrafa de ontem à noite era
para abafar sussurros, mas hoje, é para o silêncio depois.
Meu copo esvazia mais rápido a cada gole.
Eu nem gosto de vodca. Ninguém gosta de vodca; é um meio para
um fim. Mas eu gosto do nada que ela me dá.
Vejo o rosto dele quando fecho os olhos, e quando os abro – é a
mesma coisa. Ele está em todo lugar. Ele não está em lugar nenhum.
É mais fácil fechar os olhos e deixar a garrafa escorrer do que deixar
a escuridão consumir meus pensamentos. As ondas quebram, e sua
voz está lá – Torey, Nunca esqueça, Lembre-se.
E então, nada.
Minha ressaca é um punho martelando atrás dos meus olhos.
Sento-me na ponta do banco e olho para os meus patins. O resto do
meu time está lá fora, fazendo exercícios e rindo de alguma besteira
que não consigo entender. O apito do treinador corta meu crânio e eu
seguro a onda de náusea que me invade. Preciso me mexer, me
levantar, fazer alguma coisa, mas não consigo.
— Kendrick, sério? — o treinador grita.
— … coloque-o no banco de uma vez por todas, Wilhelm. —
Alguém diz isso, mas parece tão distante.
Eu me despojo em silêncio no vestiário. Ninguém mais fala comigo.
Eles riem, brincam, mas o único som que ouço é esse zumbido
constante nos meus ouvidos que nunca vai embora.
Meu moletom sobe no caminho para a academia. Capuz e fones de
ouvido. Fique invisível. Fique pequeno.
Estou lá, na bicicleta, suando, com o coração disparado, e pisco – e
então não estou mais lá. Não estou em lugar nenhum.
Pisco novamente e o suporte de pesos está na minha frente, e tenho
um haltere em cada mão.
Há quanto tempo estou aqui? Fecho os olhos, aperto-os até as cores
brilharem atrás das minhas pálpebras.
Abro a garrafa e sirvo outra dose. De novo. Novamente.
Levo o copo à testa. Ele transpira, como eu, e goteja uma
condensação tão clara quanto os pensamentos que eu gostaria de
poder engarrafar e despejar na pia. Era real. Não, não era.
As margens desgastadas da minha mente revidam. Estou com um
pé dentro e outro fora da sanidade, preso entre margens que não
existem.
Sal e som, e azul como as ondas suaves sob um céu aberto...
Pare. Blair se foi. Se foi, e nunca mais vai aparecer aqui.
Quem sou eu sem ele? Não sei.
Depois da quarta dose, o mundo começa a desaparecer lentamente
nas bordas. Ótimo. Deixa pra lá, deixa tudo pra lá.
Não há nada de errado. Estou bem.
Está tudo errado.
Dizem que a prática leva à perfeição. Estou praticando, mas isso
está me deixando muito mal. Não tenho certeza se vou conseguir ficar
em pé no gelo hoje. A vertigem me atinge, revirando meu estômago,
e eu tenho que engolir aquela vodca velha e azeda de novo. O disco
escorre para lugar nenhum e eu deveria tentar pegá-lo, mas não
consigo.
Minha garganta arde. Parece que estou engolindo vidro. Minha
cabeça – meu Deus, minha cabeça – lateja com a enxaqueca que se
instalou permanentemente dentro de mim.
Mal consigo me conter.
Quando abro os olhos novamente, estou no chuveiro, sozinho. A
água está congelante e meus dentes estão batendo. Não me lembro de
ter chegado aqui, mas aqui estou eu, tremendo. Para onde foi o
tempo?
A camisa do Blair está na minha cama. Todas as noites, começo com
a vodca na cozinha, jurando que não vou voltar para aquela garrafa
ou para a minha cama e enterrar meu rosto encharcado de lágrimas
na camisa do Blair. Mas eu enterro. Eu enterro todas as noites,
sussurrando para o bordado do nome dele o quanto eu o amo, o
quanto sinto falta dele e o quanto sinto – sinto muito mesmo – por
deixá-lo. Se eu estou aqui, ele está em algum lugar? Sem mim?
Ele também está me esperando?
Agora vivo em pequenos intervalos, em piscadas, segundos que se
transformam em minutos.
Há quanto tempo estou aqui na minha cozinha? Meu dedo aperta
a faca como uma criança aprendendo a cortar pela primeira vez, mas
não há nada na minha tábua de corte, apenas marcas onde arrastei a
faca.
Estou me desintegrando. As paredes zumbem, a geladeira vibra
como se estivesse tentando me dizer alguma coisa. Eu pisco....
… e tomo outro gole, deixo a sensação do álcool descer pela minha
garganta.
A única coisa que posso controlar é quantas vezes levo esta garrafa
aos meus lábios.
Acordo no chão do banheiro. Puta merda, minha cabeça está
prestes a explodir. Levanto-me cambaleando, bato na pia, tomo água
da torneira. Flagro meu reflexo no espelho. Cristo!
Não reconheço o cara que me encara. Olhos vermelhos, bochechas
pálidas, olheiras como hematomas. Quando foi a última vez que
tomei banho? Me barbei?
Meu primeiro pensamento: Que diabos estou fazendo?
O segundo: Quando foi que parei de me importar?
O terceiro: Quando comecei?
O quarto: Blair.
Sempre, sempre Blair.
Eu derreto até virar nada e dou um soco no reflexo de outra pessoa.
— Kendrick! Que porra foi essa?
O disco escorrega do meu taco como água. Perco o passe. Perco a
jogada. Perco o momento.
Blair está lá, no canto do meu olho. Sinto sua falta. A voz de Blair, o
timbre dela como mel e fumaça. Ele disse meu nome como se fosse o
nascer do sol. Ainda consigo sentir seus lábios na minha pele. Ainda
consigo senti-lo em todos os lugares.
— Kendrick, se você não consegue se recompor... — O treinador
não se dá ao trabalho de terminar a ameaça.
Nós dois sabemos onde isso vai dar.
Estou no banco para o próximo jogo.
O jogo depois também.
Tudo está escorregando – minha pegada, meu jogo, minha
sanidade.
Eu quero deixar ir. Eu quero afundar.
— Está na hora, Kendrick.
Estou no meio de um treino, mais um desastre numa longa lista
deles. O treinador aponta para mim e depois para o escritório com
fachada de vidro e vista para o rinque de treinamento. O escritório do
gerente geral.
— Você sabe que é isso, né? — O gerente geral das Orcas, um ex-
jogador, uma lenda da franquia, se recosta, com as mãos grandes
apoiadas na mesa. Ele não a estica. — Você está fora do resto da
temporada.
Eu sabia que isso aconteceria, mas Deus, está aqui, está aqui, está
aqui...
— Você precisa começar a pensar no que vem a seguir.
— Eu tenho, uh... — Engulo em seco, empurrando as palavras para
fora como se elas pudessem mudar alguma coisa. — Mais um ano no
meu contrato...
— Existem maneiras — ele interrompe — de encerrar contratos
mais cedo.
Concordo com a cabeça. Não me lembro da última vez que
consegui respirar.
— Não há um jeito fácil de dizer isso, Kendrick. — Sua voz é firme,
mas há algo escondido por trás da máscara profissional. Exasperação,
talvez, ou cansaço. — Mas chegamos ao nosso fim.
Eu mereço. Meu Deus, eu mereço. O hóquei – aquilo que deixei me
definir, aquilo que eu achava que significava tudo o que valia a pena
neste mundo até encontrar o sol – está me destruindo e jogando o que
sobrou de volta ao mar.
Meu gerente geral suspira. Ele parece cansado, como um pai que
não tem mais como contatar um filho que não quer ouvir. — Você
está uma bagunça. Todo mundo vê. — Há um hematoma vermelho
nos cantos dos seus olhos. — Você precisa de ajuda. — Ele pega um
pedacinho de papel do Programa de Assistência ao Jogador e o
desliza sobre a mesa. — Ligue para eles. Não podemos te forçar a isso.
Você tem que escolher receber ajuda. Mas, Torey, se não pedir? Você
não vai ficar aqui por muito mais tempo.
Eu o encaro.
— Não posso te ajudar — diz ele, um pouco mais suavemente. —
Ninguém neste time pode. Mas se você não se recompor, não estamos
falando apenas do fim do seu tempo neste time ou do fim da sua
carreira.
Ele está me dizendo a verdade. Eu vou, vou, vou embora, e não só
do hóquei.
— O que quer que esteja te perseguindo? Você precisa encarar isso
antes que te devore vivo.
Me perseguindo? Não, é pior que isso; já me pegou.
— Espero por Deus que você ligue — ele diz.
Eu não ligo.
O sol nasce, se põe. Nasce, se põe.
Sirvo mais uma dose e deixo o veneno se instalar em minhas veias.
A sala se inclina. Minha língua sente gosto de sal, e penso em...
Não. É só a vodca.
Eu sou o resultado da minha própria destruição.
É a queda, o afogamento, que sempre volta para mim. A água me
puxando para baixo, as ondas enchendo meus pulmões. Minha vodca
é tanto a onda quanto a água, e ela me puxa para baixo todas as noites.
Quanto mais bebo, menos me importo se vou me afogar.
A água está sempre lá, sempre me chamando. Vancouver fica perto
do mar, e o ar salgado arde meus lábios como lágrimas quando o
vento sopra do oeste. Quero alcançar aquele pedacinho de espaço
entre o oceano e o horizonte, onde não há nada.
Essas águas negras e ondas escuras estão comigo o tempo todo; eu
as vejo quando fecho os olhos. Elas querem tudo, querem tirar e tirar
de mim, me consumir, me puxar para suas profundezas mais
sombrias do que as de hoje.
Eu me pergunto se seria como voltar para casa.
Blair.
Não sou nada sem ele. Tampa se foi, e com ela tudo o que eu me
tornei.
Quero encontrá-lo no horizonte.
Torey, vire-se. Volte.
Está escuro o suficiente na estrada para que tudo o que eu veja seja
uma mancha de asfalto preto entre os meus faróis. O que quer que
esteja me perseguindo esta noite é mais alto do que a voz dentro da
minha cabeça. Tenho cambaleado e cambaleado, esperando e
esperando e esperando, e não consigo continuar assim por muito
mais tempo. Então, é isso...
As ondas decidirão por mim esta noite. Eu nasci para essa água, eu
sei que nasci.
Luzes tremulam à frente, pontinhos na escuridão. A noite é um
problema; há luzes demais que me confundem, e não consigo
distinguir o que é terra, céu, onda ou reflexo. Digo a mim mesmo:
feche os olhos, feche-os, Torey, feche-os bem – e talvez eu acorde em
outro lugar, onde qualquer noção de quem você é e do que se tornou
não esteja em pedaços e onde talvez o mundo não pareça tão quebrado.
A estrada faz uma curva à minha frente, mas não a sigo.
Vire-se.
Não. As luzes ficam mais fortes, e faróis explodem no meu para-
brisa, ecoando o som de uma buzina sobre esta faixa de estrada.
Minhas mãos finalmente puxam o volante enquanto meu pé pisa
fundo no freio. Pneus cantam. Sou jogado para a frente, preso pelo
cinto de segurança, e meu fôlego me escapa enquanto minha
caminhonete chacoalha e treme.
O barulho dos pneus, o estilhaçar dos vidros, o metal a triturar metal...
Meus dedos grudam no volante, os nós dos dedos brancos como
osso. Engasgo, engasgo com o nada e, em seguida, arranco minha
caminhonete para fora da estrada, o instinto tomando conta. Cascalho
jorra quando paro bruscamente no acostamento. Olho para as minhas
mãos, certo de que elas não me pertencem.
Sinto uma contração horrível dentro de mim. Sinto gosto de sal e
sangue, limpo os lábios e espero ver tudo vermelho.
Sair. Preciso sair. Tateio em busca da porta como se estivesse
lutando contra um estranho. Estou ofegante agora, cada respiração
me puxando para baixo, onde a escuridão se abre. Ela me leva; estou
cambaleando, lutando, mas finalmente a porta se abre, e a noite me
engole.
Não me lembro de ter batido no chão, mas sim, caindo de quatro
com a testa no cascalho.
Blair.
Minhas mãos se arrastam na terra, e eu grito, com poeira e areia
grudadas nos meus lábios. Eu grito, grito, grito. A escuridão entra
como a maré, chegando rápido demais, e a água sobe até a minha
garganta.
Não há mais nenhum lugar para ir, a não ser para baixo.
Bato no chão, pego um punhado de cascalho e o jogo, rugindo.
Minha visão fica turva.
Certa vez, acordei e vi Blair dormindo em seu travesseiro, o rosto
meio escondido, um sorriso nos lábios para mim. Nossas mãos se
encontraram no meio da cama, nossos dedos entrelaçados. Uma
cortina atrás dele se moveu, branca e transparente, e ele sussurrou
meu nome.
Torey.
O mundo está estagnado.
— Senhor... senhor, acorde.
Alguém está me sacudindo.
— Senhor. Acorde. O senhor está...?
De repente, uma luz ofuscante atinge minhas pálpebras. Eu me
levanto bruscamente e tento me afastar, piscando contra a claridade
– luz branca, não consigo enxergar, muita luz.
— Senhor. — A voz está mais clara agora. Mais severa. Vejo botas
pesadas, um uniforme. Um distintivo brilhando.
A luz se esvai dos meus olhos, e um policial estadual surge na
minha frente, iluminado por um redemoinho vermelho e azul e um
holofote focado em mim a partir do painel de sua SUV. — Você está
bem?
— Eu-eu... — Balanço a cabeça. — Eu... estava...
— O senhor andou bebendo esta noite? Usando alguma coisa?
Quase tenho vontade de rir. Hoje à noite, não. Em todas as outras
noites, sim, mas hoje à noite, não. Posso estar escorregando e
deslizando em direção ao esquecimento, mas vou afundar sozinho.
Não vou beber e dirigir. — Não, não.
— Você desmaia na beira da estrada com frequência?
Eu fungo.
Ele me submete ao teste completo de sobriedade: andar na linha,
tocar o nariz, recitar o alfabeto. Soprar. Eu passo, mas ele não está
feliz. Ainda estou tremendo e não consigo formar mais de três
palavras.
— O que diabos você tomou esta noite? — ele pergunta novamente.
Balanço a cabeça. — Nada — sussurro. — Nada, eu...
Eu estava indo para a praia.
Estaria ele de plantão quando encontraram meu carro estacionado
na areia? Teria sido ele quem ligou, lendo a placa? Teria sido ele quem
ouviu meu nome sendo cuspido de volta em estática?
Ele não tem ideia do que fazer comigo. — Você é jogador
profissional de hóquei?
Ele verificou minha identidade e sabe que sou Torey Kendrick, do
Vancouver Orcas. Se eu fosse outra pessoa, talvez isso significasse
alguma coisa, mas, como sou eu, provavelmente significa menos.
Concordo com a cabeça.
— Bem, você não vai sair daqui dirigindo. Quem você pode chamar
para vir te buscar?
Para quem posso ligar? — Ninguém — consigo dizer. — Eu não
tenho... não tem ninguém...
— Um companheiro de time? Um treinador? — Ele me olha como
se eu fosse uma vergonha para a cidade, para o lugar de orgulho que
ele serve e protege.
— Eu não...
— Olha, ou você liga para alguém ou você será preso.
É final; a decisão é dele. A escolha é minha.
Olho para o meu celular como se fosse uma arma carregada.
Finalmente, aperto ‘Ligar’. Ele toca uma vez. Duas vezes. Três vezes.
— Sim?
Não há mais espaço para se esconder. — Treinador... — O silêncio
se estende entre nós. Imagino-o, o maxilar tenso, os olhos
semicerrados, completamente cansado de mim.
— Kendrick? O que está acontecendo?
— Eu... — Minha garganta trava. — Eu preciso... — Minhas
palavras morrem antes que consigam sair.
— Deixe-me falar com ele. — O policial estende a mão.
Passo meu telefone para o policial estadual e entrego a ele as cinzas
da minha vida.
O policial e eu esperamos em silêncio. Ele pede para revistar minha
caminhonete, e eu deixo. Ele parece decepcionado quando não
encontra nada – nem bebida, nem comprimidos, nem drogas. O que
posso dizer? Além de estar ficando louco, sempre fui um garoto
chato.
Finalmente, a caminhonete de Wilhelm encosta no acostamento.
Entro no banco do passageiro sem dizer uma palavra.
Ele não diz nada no caminho de volta para a cidade. Nem olha para
mim. O silêncio entre nós é um muro. Os olhos de Wilhelm estão
grudados na estrada. Ele é previsível. Controlado. Um homem que
não se deixa abalar pelos destroços alheios.
Gosto do meu capitão vibrante e vivo. Cala a boca, Torey.
— Você sabe que haverá consequências para isso.
Concordo com a cabeça. Minhas lágrimas continuam subindo, não
importa o quanto eu as segure. — Eu sei — sussurro.
Silêncio novamente; silêncio durante todo o caminho para casa.
Dentro do meu apartamento há um silêncio árido.
Fecho a porta com o clique mais suave que consigo e deixo minhas
chaves deslizarem pelo balcão. A geladeira zumbe. Os postes de luz
riscam o chão através das persianas. Abro a torneira e coloco as mãos
debaixo da água fria. Redemoinhos vermelhos, finos como fios,
depois desaparecem.
Mesmo quando eu queria me tornar uma ondulação, não consegui.
Que piada. Cheguei à beirada e estremeci, e o horizonte continua
sendo uma linha que não consigo cruzar.
Eu tinha um plano que não era um plano. Apontar a caminhonete
em direção à praia. Entrar na arrebentação e continuar caminhando
até o frio desaparecer, até que o limite entre o ar e a água finalmente
me deixe passar.
Mas a praia não me aceitou. A estrada me cuspiu de volta. O oceano
não se abre, não para mim.
Encaro a escuridão e deixo os sentimentos fluírem: a vergonha, o
alívio, a fome, a angústia. Tudo isso flutua e retorna, flutua e retorna,
como uma maré na qual não consigo nadar e uma costa que se recusa
a me esquecer.
Blair é um homem que não consigo alcançar.
Dezenove
A camisa de Blair está pendurada em mim. As mangas roçam meus
pulsos, o nome dele está costurado nas minhas costas como uma
queimadura.
Meus olhos percorrem o caderno de esboço no meu colo. Há
cadernos demais agora. Eles se espalham pelo chão, pelo sofá, pelo
balcão. Meu apartamento é um cemitério de grafite onde ele existe e
eu não.
Minha TV pisca no canto. É Tampa contra Filadélfia em repetição.
Eu sei cada jogada, cada mudança, cada decisão em frações de
segundo, e sussurro junto com os locutores quando eles chamam o
nome de Blair. Blair Callahan no ponto de disputa de disco... vence a
disputa sem problemas.
É estúpido assistir a esse jogo novamente, mas não consigo parar.
Talvez se eu não tivesse me esforçado tanto para me agarrar às
memórias, eu não estaria aqui, com fantasmas destruindo minha
mente em pedaços do que poderia ter sido. Não sei mais quem eu
sou. Quem quer que eu tenha sido em Tampa – o Torey que marcava
gols decisivos, o homem que Blair amava –, eu não sou ele.
Tudo o que sei é que não sou mais um jogador de hóquei.
Há dezenove chamadas perdidas do meu pai no meu celular. Não
consigo nem imaginar o que eu poderia dizer a ele para explicar isso.
Nunca fui tão grato pela imensidão do Oceano Pacífico ou pelas
exigências do seu trabalho. Ele não está aqui e não precisa ver o que
aconteceu com o filho.
Meu polegar roça nos olhos de Blair, borrando o carvão enquanto
meu telefone toca. Olho para a tela. Pai?
Desta vez, não. Não, é o gerente geral das Orcas.
Eles estão oficializando.
Penso por um segundo em não atender, em deixar essa chamada se
juntar às outras em uma pilha de conexões perdidas, mas clico em
aceitar.
— Kendrick. — A voz do meu gerente geral é monótona e
entrecortada, e ele não desperdiça palavras. — Tenho uma novidade
para você. E antes que diga qualquer coisa, você não tem escolha.
Entendeu?
Engulo em seco. Minha língua gruda no céu da boca.
— Você já era.
Eu já sabia disso.
— Estamos te mandando embora. Já nos livramos de você.
Eu pisco. — O quê? Tipo uma troca?
Ele faz uma pausa. — É um descarte salarial. Estão levando você,
seu contrato, tudo.
— Onde... para onde estou indo?
— Tampa.
Não é possível. Isso não pode ser possível. O destino não é tão
perverso assim. — Tampa?
— Sim — ele responde. — Os Amotinados.
O caderno escorrega das minhas coxas. As páginas esvoaçam, e lá
está o rosto de Blair, uma e outra vez. Ângulos diferentes, momentos
diferentes, mas sempre ele. Eu tenho me desmantelado, pedaço por
pedaço, aprendendo a ser nada, e agora Blair vai ver a verdade. Ele
vai ver o que eu realmente sou – o que eu sou sem ele. O fracasso.
Em cada esboço, ele é perfeito, e aqui estou eu, cercado pela
evidência da minha obsessão.
Tampa. Deus. Blair em carne e osso, não esses fantasmas de papel.
A voz de Blair no vestiário. Seus olhos em mim durante o treino. Sua
decepção ao ver quem eu realmente sou.
Não há saída, nem como esconder o que esses meses fizeram
comigo. Meu jogo acabou, e agora tenho que voltar para aquele
mundo vestindo minha vergonha como uma segunda pele.
A camisa dele amassa sob minhas palmas, macia de tantas
lavagens, e eu me odeio por ainda usá-la. Por precisar dela.
— Torey... — A voz do meu gerente geral suaviza. — Não sei o que
aconteceu, nem por quê, mas é isso: sua última chance. Tampa deve
ter ouvido que iríamos rescindir seu contrato, e não sei aonde eles
querem chegar com essa troca. Mas...
Há um longo e silencioso silêncio.
— Esta é sua última chance. Você me entendeu?
— Sim — eu sussurro.
— A Divisão de Hóquei de Tampa entrará em contato com os
detalhes.
A ligação desliga.
Tenho minha vida enfiada em duas malas e estou em um avião, do
outro lado do país, a meio caminho de volta para Blair. O apoio de
braço aperta meu corpo, e o ar do avião arde no fundo da minha
garganta. A janela é um oval gasto de luz, a camada de nuvens
borrada e fina.
Tampa continua se aproximando, quer eu queira ou não. Estou
voltando para a água azul e para o homem que amo, que não me
conhece. O que eu digo quando o encontrar? O que eu posso dizer?
Blair...
Não. Simples demais. Ele vai olhar para mim... Deus, ele vai olhar
para mim... e eu...
Nunca fomos apresentados. Conheço o calor na base da minha
espinha quando sua boca a encontra, conheço o som que ele faz
quando a manhã está suave e ele está mais suave ainda, conheço o
sorriso enviesado dele quando pensa que estamos sozinhos, mas
quando estender a mão e dizer ‘Oi, eu sou Torey’ estaremos
começando do zero.
Blair, preciso te contar uma coisa.
Contar a ele? Contar o quê? A verdade soaria como loucura. Eu me
lembro de te amar. Lembro da sua boca contra a minha espinha em manhãs
que nunca aconteceram. Lembro de morrer com você.
Cada apresentação ensaiada soa pior que a anterior. ‘Oi, sou seu
novo companheiro de time’... formal demais para alguém cujo batimento
cardíaco eu decorei. ‘Oi, você não me conhece, mas’... mas o quê? Mas
eu conheço a sensação da sua respiração na minha nuca no meio da
noite? Oi, estou sonhando com você há meses.
Isso me faz parecer exatamente tão desequilibrado quanto eu sou.
Nada do que eu pratico muda uma coisa simples: ele não me
conhece, e com a bagunça que eu fiz, por que ele iria querer me
conhecer? Eu queimei todas as minhas habilidades e perdi todas as
minhas chances em outra cidade. Não tenho um único motivo para
oferecer a ele que o leve a pensar que sou outra coisa senão uma troca
e uma dor de cabeça.
Mas não há mais como fugir. De um jeito ou de outro, Tampa é o
meu fim. Vendi tudo para chegar aqui. Queimei todas as conexões
atrás de mim. Não resta nada além de seguir em frente.
Dou uma leve mexida na alça desfiada da minha mochila até os fios
soltos trincarem. Lá dentro, há três cadernos de esboço, aqueles
cheios dos meus sonhos favoritos e fragmentados.
O avião inclina, o nariz inclinando para baixo. Os motores mudam
de direção e nos puxam em direção à terra. O trem de pouso se
encaixa com um baque fraco, e a vibração sobe pelo assento, fazendo
meus dentes zumbirem. Meu estômago dá um nó e se contrai. Lá fora,
o horizonte de Tampa se ergue, vidro e água lançando a luz do sol de
volta para o céu. Não reconheço nada disso e reconheço tudo de uma
vez.
O impacto me atravessa, os pneus roçando a pista suavemente no
início, depois com mais força conforme os freios freiam. Pela janela, o
calor de Tampa reflete na pista. ‘Casa’, penso, e então me odeio por
pensar isso.
O avião taxia em direção ao portão, e a janela se enche de
caminhões de serviço, faixas de asfalto e a coreografia das chegadas.
Estou aqui. Depois de tudo – o acidente que não aconteceu, o amor
que não aconteceu, meus meses me afogando em Vancouver –, estou
aqui.
O sinal de cinto de segurança se apaga. Todos se levantam. Os
compartimentos superiores se abrem ao meu redor, mas não consigo
me mexer. Em algum lugar desta cidade, Blair não tem a mínima ideia
de que estou prestes a entrar em sua vida carregando um sonho que
morreu antes mesmo de começar.
Coloco meus óculos escuros no rosto e atravesso o terminal lotado.
Ele está aqui? Claro que não. Por que diabos ele estaria aqui?
— Sr. Kendrick?
Pisco e mal consigo enxergar o logotipo bordado dos Amotinados
na camisa polo do homem à minha frente. Concordo com a cabeça.
O cara – Sam – me ajuda a pegar minhas malas e meus tacos de
hóquei na esteira de bagagens. Ele é eficiente e, quando termino de
carregar minhas malas, diz: Siga-me. Eu sigo, saio do aeroporto e vou
para a luz do sol.
A viagem de carro até o hotel do time é tranquila. Estou hospedado
no centro, perto da arena, o que significa que terei um trajeto curto
até o fim da minha carreira.
Faço o check-in sem dizer muita coisa. O cartão-chave do meu
quarto é um plástico frio entre meus dedos. Seria de se esperar que
houvesse algum momento grandioso nos aguardando no final de
uma odisseia como esta, algum sinal que marcaria seu retorno. Em
vez disso, tudo o que ouço é o bipe fraco da fechadura eletrônica, e
então a porta se abre com um rangido.
O quarto de hotel é um espaço reservado para a vida de outra
pessoa. Estou aqui, mas poderia estar em qualquer lugar.
É aqui que ficam os novatos, os convocados, os que fazem testes e
as trocas até conseguirem a aprovação para um lugar de verdade, e o
hotel está acostumado a hospedar jogadores de hóquei. Eles me
deram um quarto com vista, e eu me aproximo da janela com vista
para a baía. Sempre fui atraído por lugares onde posso me afogar.
Eu vejo...
A ponte, uma fita escura cortando a água. Ela divide tudo – o céu
do mar, o que está a salvo do que se foi. As sombras que ela projeta
parecem erradas, cavando em lugares em mim que ainda estão
sensíveis, ainda tentando cicatrizar. Minha respiração fica presa. Eu
conheço esta ponte?
Minhas mãos são desajeitadas com as cortinas. Puxo com força, os
anéis raspando nos trilhos, e a luz do dia se apaga. O quarto fica em
branco. Apoio o ombro na parede, as panturrilhas tensas, os braços
zumbindo, a mandíbula cerrada com tanta força que meus molares
doem. Espero por um golpe, o jorro de água sobre minha cabeça, um
fim que posso sentir, mas não consigo ver – mas... nada acontece.
Em vez disso, fico no escuro e respiro. Inspiro e expiro, devagar o
suficiente para não acordar o que quer que me persiga, e
silenciosamente o suficiente para que isso passe pela porta e continue.
Vinte
Seria de pensar que tudo aqui ecoaria com memórias – boas e ruins
–, mas tudo o que sinto é frio.
O ar está mais denso do que eu me lembrava no vestiário dos
Amotinados. Bem, eu nunca me lembrei disso.
O layout é parecido com os meus esboços, mas não é exato. Os
bancos estão fora de ordem e as baias não estão na ordem correta.
Não há nenhum taco de hóquei quebrado pregado na parede. Nas
minhas lembranças, eu costumava repetir o som que Axel fazia
quando ria até ficar rouco, ou imaginar as perguntas ridículas que
Hayes fazia na sala. Você prefere ser uma formiga ou um elefante?
É diferente.
Eu sabia que seria. Eu sabia disso, eu sabia mesmo.
Blair não está aqui. Suas roupas estão jogadas na baia e seus
pertences sumiram, o que significa que ele já esteve aqui e foi embora.
Hawks e Hollow riem enquanto calçam os patins. Mikko verifica a
lâmina do seu taco, de costas para mim. Hayes, ao lado, prende as
meias com fita adesiva, a cabeça baixa e concentrado, pouco se
importando com o novato que entrou sambando na sala.
Nada disso me pertence.
Hayes finalmente ergue os olhos. Seus olhos deslizam sobre mim
como água deslizando. — Ei.
— Oi. — Jogo minha bolsa na cabine vazia ao lado dele. Meu
número, 17, e meu nome estão escritos em fita adesiva, facilmente
removíveis e raspáveis. Pigarreio. — Como está a Erin?
Hayes fica imóvel. Ele levanta a cabeça, com o rolo de fita adesiva
na metade da panturrilha. — O quê?
— Sua esposa? Como ela está?
Ele me encara. — Como você conhece minha esposa?
Tanto para andar de patins sem ser notado. A voz de Hayes não é
hostil, mas há uma rispidez nela que eu não esperava, não dele. Se
alguém aqui fosse oferecer simpatia, pensei...
Porra. Eu não devia ter dito isso. Não é como se eu a tivesse
perseguido; eu... lembro. Só que não tem nada pra lembrar, né?
— Eu... — Minhas palavras vacilam. — Vi online... no seu
Instagram. Você tinha fitas cor-de-rosa. Eu estava pensando...
— Você devia estar rolando a página há algum tempo. — Sua voz
é monótona.
— É, é, eu estava. — Tento soltar uma risadinha – ah, que bobo eu,
indo longe demais, sabe como é, tarde demais, perdendo a noção do
tempo, perdendo a noção da razão. — Eu estava curioso sobre o time.
Queria conhecer vocês antes de aparecer. — Dou de ombros. Minto.
Ele nem olha na minha direção; continua enrolando a fita como se
tivesse todo o tempo do mundo, mas o jeito como seu maxilar trava
me diz que ele não está acreditando. Claro que não. Pareço louco.
Bem.
Hayes desenrola o último pedaço de fita adesiva na canela e joga o
restante na mochila. — É. — Ele se levanta, endireitando os ombros.
O ar entre nós congela rapidamente.
Hayes me lança um último olhar antes de se virar. Ele pega o
capacete na prateleira acima da baia e o coloca na cabeça. — Talvez
seja melhor você se apressar. O treinador não gosta de atrasos.
Os passos de Hayes somem atrás de mim enquanto ele sai. Um
punho aperta minhas costelas, mas me concentro em apertar os
cadarços, cada ilhó um lembrete para respirar. Esta é minha única
chance, este último fio esgarçado, e já comecei a desfazê-lo.
— Cara novo! — alguém chama do fundo do túnel. — Você vem
ou não?
A primeira vez que vejo Blair, ele é uma maldita visão parado no
meio do gelo.
Meus patins prendem. Só por um segundo, mas tempo suficiente
para eu ter que me agarrar aos patins para não cair ali mesmo, na
frente de todo mundo. Muito tranquilo, Kendrick.
Ele está se espreguiçando, com um braço cruzado sobre o peito e a
cabeça voltada para o gol mais distante. As luzes do teto captam a
linha acentuada do seu maxilar, a extensão escura do seu cabelo onde
ele se enrola sob o capacete. Mesmo daqui, mesmo com metade do
rinque entre nós, consigo ver o Capitão escrito em cada linha do seu
corpo antes mesmo de você ver o C em sua camisa.
… o barulho dos fãs, patins raspando no gelo, árbitros gritando, discos
quicando na parede lateral, o cheiro de Blair pairando em mim, nossos beijos
como toques fantasmagóricos em meus lábios, lampejos de talvez memórias
passando pela minha mente como velhos rolos de filme presos em avanço
rápido...
Ele ainda não me viu. Ou talvez tenha me visto e não se importe. O
pensamento me queima por inteiro.
Sempre há um pequeno choque em uma pista nova quando você
dá a primeira braçada, quando suas pernas se dobram e seus joelhos
se inclinam para dentro. Você empurra, e suas lâminas deixam
pequenas cicatrizes em um rastro atrás de você. Você se levanta, deixa
o próximo movimento te puxar mais longe e, naquele milésimo de
segundo, você esquece cada erro, cada passe ruim, cada momento em
que você não foi o suficiente. Eu não sentia aquele belo espaço entre
movimento e pensamento há mais tempo do que consigo me lembrar.
Isso não é verdade. Eu me lembro; foi aqui, em Tampa.
O problema é que isso não era uma lembrança. Nunca aconteceu.
Eu me afasto das placas, tentando fazer meu corpo lembrar como
se mover naturalmente e não como se eu estivesse esperando que ele
se virasse e me visse.
Então Blair se vira e nossos olhos se encontram pela primeira vez.
O tempo não para. O mundo não muda. Não há reconhecimento
em seu olhar, nem carinho, nem história, apenas a avaliação fria de
um capitão avaliando um cara novo.
Os olhos dele me percorrem e depois se desviam, e pronto. Só isso.
O que eu esperava? Que ele me olhasse e se lembrasse de algo que
nunca aconteceu? Que ele sentisse o que eu sinto – essa dor
impossível por alguém que eu nunca toquei de verdade?
Não, claro que não. Então é assim que começa. De novo. Pela
primeira vez.
— Manda ver! — o rosnado do treinador ecoa pelo rinque,
temperado por décadas nas trincheiras. Nós nos amontoamos ao
redor dele no centro do gelo.
— Qualquer um consegue amarrar os cadarços, rapazes, mas nem
todos conseguem fazer valer a pena. Não há espaço para passageiros
neste time, e se você acha que consegue se virar com o que já fez, não
vai conseguir chegar ao primeiro corte. Se você acha que os veteranos
estão aqui para te mimar ou vão segurar sua mão durante os treinos?
Errado de novo.
Seu olhar percorre todos nós e, por um segundo, para em mim.
— Todo ano, recomeçamos do zero. O núcleo... — Ele gesticula
para Blair, para Hayes, para Hawks, para Hollow. — Eles estão aqui
para te avaliar. Então, você quer jogar pelos Amotinados? Prove.
Você tem talento? Mostre. Você é rápido? Mostre para nós. Você sabe
chutar? É melhor você se esforçar.
Ele nos livra de desculpas antes mesmo de as dizermos.
Blair se mantém afastado, seus olhos são como fragmentos frios de
azul. Hayes está ao seu lado, tão perto que não há luz do dia entre os
dois homens.
Ele não olhou para mim nenhuma vez.
O tom do treinador suaviza. — Certifique-se de que não é aqui que
tudo termina para você. Arrisque-se, a cada exercício, a cada
repetição. Não me dê um motivo para te cortar.
Engulo.
— Você tem duas semanas — diz ele. — Faça-as valer a pena. —
Ele encerra o discurso com um sorriso. — Boa sorte.
Eu deixo cair o primeiro passe.
O disco quica errado. Meu taco deveria tê-lo pegado e o colocado
em um controle suave, mas não.
O apito do treinador soa estridente. — Não há tempo para essa
merda aqui, Kendrick!
Meu Deus, eu sei como funciona. Já fiz isso mil vezes. Isso não
deveria ser um enigma, mas o disco ricocheteia no meu taco e gira
para longe como se estivesse em um lugar melhor. Essas jogadas
perdidas deveriam sacudir a poeira e me empurrar de volta para o
certo, mas tudo o que fazem é revelar a divisão entre o Torey que eu
pensava ser e o Torey que sou. Este lugar tem expectativas que não
consigo cumprir, e o gelo é o espelho mais implacável do mundo, me
mostrando exatamente o que eu nunca quero ver.
Nós mudamos os exercícios.
Blair corta o gelo como se estivesse cortando o núcleo de um rio em
dois. A agilidade do seu deslizamento, o empurrar e puxar do seu
corpo, como ele une graça e força. Ele me interrompe quando eu
deveria firmar minha posição defensiva, mas estou atrasado, e ele
está ao meu redor antes que eu possa piscar.
Ele bate o disco com uma força esmagadora na rede.
O treino termina e Blair sai direto do gelo.
Dia Seis
Hoje o gelo parece lixa, e minhas lâminas parecem ficar cegas a
cada passada. Ou talvez seja a vodca da noite passada. A mini
geladeira do meu hotel tem shakes de proteína e garrafas de vodca, e
eu tomo um e depois o outro todas as noites no jantar. Não é a melhor
dieta de treino que já fiz.
O gelo puxa minhas lâminas, me desacelerando quando mais
preciso de velocidade. Quando deveria acelerar, hesito. Quando
deveria girar, ainda estou pensando no último movimento.
— Mexa os pés, Kendrick! — grita o treinador do alto do banco.
Mas entre a falta de sono, a vodca e a cratera emocional que estou
circulando, meu corpo se recusa a funcionar. Estou correndo atrás do
disco como se ele me devesse alguma coisa, mas ele continua
escorregando. Chego ao canto, giro tarde demais, ultrapasso devagar
demais. Blair dispara por mim, desaparecendo no borrão de corpos
subindo no gelo. Atrás dele, Hayes entra e sai, com o disco flutuando
entre eles.
— De novo! — o apito do treinador corta o ar. — Pega, Kendrick!
Meus quadríceps doem, meus tornozelos dobram e minha
respiração fica curta e ofegante por entre os dentes cerrados.
Concentre-se.
Patinar com a largura do patins. Puxar com firmeza. Não sei
quantas vezes já fizemos esse exercício, mas a gravidade me atacou
hoje. Estou me arrastando. Minhas bordas travam de forma errada
quando cruzo, e o gelo me morde de volta.
A próxima onda se forma ao meu redor.
Hayes volta, pegando um disco solto, e por meio segundo nossos
olhos se encontram, e...
Não tem nada ali. Ele passa o disco para Blair sem olhar para mim
novamente.
O disco vem na minha direção novamente. Desta vez, estou pronto
– ou digo a mim mesmo que estou. Giro em volta do defensor,
sentindo aquele velho ritmo retornar, aquela sensação de que o jogo
se abre diante de mim. Então Blair ataca a área, ombros retos e o taco
firmemente agarrado com força.
Seu corpo se contorce diante do chute, cada músculo tenso como
uma mola, e quando ele solta o disco, ele o atinge com um grito. O
som que ele faz ao atingir a trave ecoa pela arena como um tiro, e Axel
cambaleia para trás, mesmo sem o disco tê-lo tocado.
Blair gira bruscamente, e o gelo espirra em um arco que atinge
minhas canelas.
Mordo meu protetor bucal e me viro com ele, aproveitando a
rebatida de seus patins. Ele corta a linha, quadris virados para dentro,
mandíbula firme, e chuta outro disco do ponto. Axel o afasta com seu
bloqueador, o rebote driblando para o meu lado. Hayes desliza, pega
o disco solto com mãos ágeis e o tira do perigo.
— Reiniciem — Hayes rosna suavemente.
Esse Blair não acompanha o jogo; ele o ataca.
Lembro-me do Blair que cruzava meu olhar através do gelo, que
me dava um tapinha no ombro durante as pausas para beber água,
seu toque perdurando através do meu equipamento. Aquele Blair
irradiava calor, mas este Blair queima frio e escuro. Ele é o sol que se
tornou negro e frio.
Até a patinação dele mudou – onde ele costumava deslizar, agora
ele atravessa o gelo como se estivesse tentando quebrar alguma coisa,
ou como se estivesse tentando se quebrar. Eu conheço essa sensação.
Estou fazendo a mesma coisa, só que mais silenciosamente. Enquanto
ele se enfurece, eu me dissolvo. Enquanto ele endurece, eu me quebro.
Procuro em seu rosto um sinal, um momento de descuido, um
vislumbre do homem que cheirava a sal e verão, mas não há nada.
Ele construiu um muro ao seu redor tão alto que não consigo ver
por cima, e eu estou do lado de fora, congelando. Somos duas ilhas
separadas de miséria na mesma camada de gelo, com um oceano
inteiro de coisas não ditas entre nós.
O apito soa, encerrando o treino, e Blair e Hayes patinam até o
centro do gelo. Eles se envolvem em uma conversa profunda, com os
rostos tensos enquanto se circulam. Eles já fizeram isso antes – está
na maneira como Hayes inclina o corpo, criando uma barreira entre
Blair e o resto do time, e em como ele não interrompe quando a boca
de Blair se move rapidamente, as palavras jorrando em uma torrente
que ele não consegue conter. Hayes aceita, absorve, do mesmo jeito
que você fica parado em uma tempestade e espera que ela passe. Blair
está com Hayes, mas está completamente sozinho.
E eu estou sozinho observando-o.
Eu deveria estar ali, acalmando sua raiva e dor. Eu ficaria naquele
furacão por ele e deixaria que ele me destruísse se isso significasse
que ele poderia encontrar seu centro novamente. Mas não estou;
estou aqui, inútil, minhas mãos vazias, meu taco pesado.
Os outros jogadores se recompõem, seus movimentos distantes e
nebulosos nas margens do meu campo de visão. O raspar de suas
lâminas, o tilintar de tacos, tudo é um rugido abafado, ruído de fundo
para a cena silenciosa e desesperada que se desenrola entre os dois
homens que eu costumava chamar de meus melhores amigos e meu
parceiro. Meu foco está tão fixo neles que não ouço meu nome na
primeira vez. Só quando o som se transforma num estalo de chicote
no gelo.
— De novo, Kendrick! — grita o treinador.
Minha cabeça se vira rapidamente em direção ao banco. O rosto do
treinador é de granito, seus braços cruzados. O resto do mundo volta
rápido – o frio cortante nas minhas bochechas, o raspar das lâminas
fazendo curvas fechadas, o foco repentino de todos os jogadores em
mim. Mais um fracasso. Mais um motivo para eles verem que eu não
pertenço mais aqui.
Todos esses olhares em mim, esperando a queda. Uma vergonha
quente e inútil queima meu pescoço.
Não, não vou dar essa satisfação a eles. Só resta o gelo agora. Só o
próximo passo, o próximo empurrão, o próximo chute. Nada mais
importa, porque nada mais resta. Não pense. Não estrague tudo.
Entro na onda, mais rápido do que consegui em toda a semana, e
desta vez – finalmente – sinto. O disco está na minha fita enquanto
deslizo, ultrapasso e avanço pela linha azul, observando o espaço se
abrir como uma porta que eu estava esperando. Chute, e...
Pontuação.
Por um segundo, toda a tensão na minha espinha se dissipa. É
puramente física, uma lembrança muscular de como era o sucesso.
Meu primeiro instinto é encontrar Blair. Minha cabeça se vira antes
mesmo que o pensamento se forme completamente. Minha vitória
não é real até que eu a veja refletida em seus olhos.
Mas ele não está olhando. Está de frente para as placas, com os
ombros rígidos e imóveis.
O pequeno e brilhante ponto de triunfo dentro de mim se apaga.
O apito do treinador ecoa pelo gelo. — De novo!
Inconsistente se torna meu novo nome. Perco outro disco. Aí marco
um gol.
Há momentos em que o gelo canta, o disco dança e a jogada se
desenrola como se tivesse sido desenhada para mim. Eu aprecio a
defesa – até mesmo Hayes, que continua sem falar comigo – e minhas
trocas de passes com Hawks e Hollow são limpas e precisas. Quando
tudo se encaixa, parece que voltei no tempo e peguei emprestado o
Torey que eu era da última vez que estive neste gelo, e a primeira
coisa que faço, sempre, é procurar por Blair.
Mas Blair está preso em sua própria tempestade, e eu não sou o
olho dela nem a razão pela qual ela jamais se acalmará. Seus passes
não têm a velocidade necessária, seus chutes saem por cima e, mesmo
quando ele marca, não há triunfo em seu rosto. Isso não é uma fase
ruim... o corpo dele ainda sabe jogar. Mas aquela centelha, aquela
alegria selvagem que costumava irradiar dele a cada período? Se foi.
Falta-lhe um pouco de garra, um pouco de empurrão.
O treinador anuncia as duplas para as disputas de discos. Eu me
posiciono em frente a Hollow e nos preparamos. Ele trapaceia na
disputa; eu contra-ataco, ganho o disco de volta para Hawks e então
giro para fora. Meu joelho zumbe na virada.
Mais uma vez. Ganho, perco, ganho.
Entre apitos, Blair patina voltas extras. Hayes o acompanha,
acompanhando seu ritmo. Hayes fala baixo, com a cabeça inclinada
na direção de Blair. Blair acena uma vez e, em seguida, lança um olhar
rápido para o outro lado da pista. Ele passa direto por mim, com a
mesma nitidez de uma lasca de vidro. Aqueles olhos azuis que antes
continham oceanos agora estão congelados.
Isso é mais uma prova? Não de que era real, mas sim de que não
era? De que eu inventei um homem que não existe? Ele não é o
homem de quem me lembro.
A memória me engana, fazendo-me sentir as mãos de Blair em
meus quadris, fortes e firmes, com sua voz retumbando instruções em
meu ouvido. Arrasto meu taco pelo gelo, cavando sulcos que
combinam com os da minha mente.
Depois do treino, fico lento com meus equipamentos, dedos duros
e desajeitados nos cadarços. Meu joelho lateja. Blair vai embora antes
que eu termine de tirar as meias, e a baia de Hayes também está vazia.
Coloco meu celular na palma da mão, com o polegar sobre a tela
sem desbloqueá-lo. Coloco-o no bolso, pego minha bolsa e saio para
o ar da noite do lado de fora do rinque, o suor esfriando sob um céu
da cor de aço molhado. A brisa da baía tem um cheiro limpo, e a ponte
se arqueia para longe de mim, uma curva para a qual não olho por
muito tempo. Meu joelho lateja com o parar e andar, e quando chego
ao meu quarto, minhas pernas estão ocas e pesadas.
A porta se fecha atrás de mim com um clique e o quarto de hotel
me engole na escuridão. A ponte está lá fora, além das cortinas; eu
nunca abro as cortinas.
Um hematoma recente surge no meu quadril, um roxo profundo
misturado ao amarelo desbotado de um antigo. Contorno sua borda,
a pele sensível e irritada. Coloquei gelo no joelho mais cedo, mas
preciso fazer de novo. Provavelmente também atingi o limite de
analgésicos, ou passei dele. Eu poderia tomar todos e ainda sentir a
dor nos pulsos que me diz que meu corpo já passou da data de
validade. Meu corpo inteiro parece uma coleção de dores e impactos,
um mapa de todos os erros que cometi no gelo desde que cheguei a
Tampa. Cada falha é uma nova cor na minha pele. É uma linguagem
que eu conheço: bater, machucar, curar.
Mas como você se cura de uma ferida que não deixa cicatriz?
Penso na vodca na minha mini geladeira. Está bem ali. Analgésicos
e vodca, agite, mexa e acenda um fósforo. Seria fácil.
Meu telefone vibra, virado para baixo na minha cama. Sei quem é
e, quando o viro, acerto. É o papai.
Eu deveria responder. Engolir a conversa inevitável, engolir a
decepção. Mas ele vai perguntar sobre a troca, sobre Tampa. Ele vai
fazer perguntas que eu não quero responder.
Deixo ir para o correio de voz.
Depois de dois shakes de proteína e nada de vodca, tenho
compressas de gelo enroladas no joelho e nos pulsos. O gelo deveria
me anestesiar, mas meu cérebro continua girando a cada passe
errado, a cada exercício malfeito, a cada momento em que eu deveria
ter agarrado a vida com mais força e não o fiz.
Desabo no colchão e puxo a camisa do Blair para perto do rosto.
Fecho os olhos, torcendo para que o sono me engula, mas ele não vem.
Essa vodca ainda está gelada. Mesmo do outro lado da porta, ela
me chama.
Uma bebida não seria o fim do mundo. Uma bebida para aliviar a
tensão, para borrar os limites entre dor e exaustão. Líquido claro,
pensamentos claros. Uma bebida para me ajudar a dormir, para
silenciar a voz na minha cabeça.
A escolha não deveria ser tão difícil, mas é. Hoje em dia, tudo é.
Eu me levanto, as bolsas de gelo escorregando dos meus pulsos e
batendo no chão com baques molhados. Meu joelho grita quando fico
em pé, mas manco até a mini geladeira mesmo assim. A alça está fria
sob a minha palma. Lá dentro, as garrafas refletem a luz fraca – três
fileiras perfeitas de amnésia temporária. Meus dedos se fecham em
volta de uma das garrafinhas de vodca.
Um giro da tampa. Uma inclinação da garrafa. Um gole.
A tampa gira com muita facilidade.
Penso em Blair no gelo hoje, toda aquela fúria controlada. Será que
ele me reconheceria assim?
Ele se importaria?
A borda da garrafa toca meu lábio inferior. Estou a um passo de
fazer tudo desaparecer por um tempo. Meu joelho lateja. Meus pulsos
doem. Meu peito é um buraco com bordas ásperas e em carne viva.
Em vez disso, coloco a garrafa na testa, fecho os olhos e a coloco na
mesa de cabeceira.
Pego a camisa do Blair, que está empilhada sobre os lençóis, e a
visto pela cabeça. Meu joelho martela a cada batida do coração.
Amanhã vou acordar e fazer tudo de novo – o gelo, os treinos, o jeito
como Blair olha através de mim.
Lá fora, a cidade vibra com uma vida da qual não faço parte. Lá
dentro, sou eu, a escuridão e o fantasma do que Blair e eu éramos.
Traço o nome de Blair na camisa dele e deixo a noite me abraçar,
esperando o amanhã decidir se ainda vale a pena me salvar.
— Você está prestes a ser eliminado, Kendrick.
O treinador está de braços cruzados e pés plantados em frente à
minha baia. Não é para ser hostil. Montanhas não são hostis; elas
simplesmente existem.
O resto do time foi embora e o cheiro do suor de hoje paira no ar
do vestiário.
— Você está na quarta linha da pré-temporada. Por pouco.
Quarta linha, e ainda estou raspando o fundo. O cheiro do rinque
se espalha pelo chão, pelo meu equipamento, pelas malditas paredes.
Mordo a parte interna da bochecha. — Eu posso fazer mais.
— Você não mostrou mais. — Um músculo se contrai na bochecha
do treinador. — Estou te dando esses jogos. Você precisa me dar algo
constante. — Ele hesita. — Você está ficando sem tempo. Você
entende isso, né?
— Eu sei.
— Então mostre-nos que estamos errados sobre você.
Vinte eUm
Empurro os ovos pelo prato, criando pequenas montanhas
amarelas que desabam sob o meu garfo. Hayes não me atraiu para a
pequena bolha de amizade que está construindo com o resto dos
jovens talentos, e sei que é por causa da minha confusão com ele na
sala naquele primeiro dia. Na primeira vez que o conheci de verdade,
eu parecia um esquisito pra caramba.
Às vezes Blair está no café da manhã, às vezes não, e quando ele
está aqui, é porque Hayes o arrastou. Ele e Hayes estão trocando os
papéis de sombra e criador de sombras.
Espeto meus ovos novamente, com mais força do que o necessário.
Algumas cabeças se viram, mas desviam o olhar quando encontram
meu olhar. Sou a personificação ambulante do fracasso neste
momento, e sou contagioso. Ninguém quer o que eu tenho. Forço os
ovos para baixo, combustível para um corpo que está me traindo a
cada turno.
Segundo período, primeiro jogo da pré-temporada. Eu me preparo
para o passe do Simmer: recebo, seguro e empurro.
Só que quando tento encaixar o disco, meu taco balança, e o disco
salta sobre minha lâmina num “foda-se” cósmico. Eu me viro, tarde
demais, e o outro time enfia o disco entre as almofadas do Axel.
O maxilar do treinador tenciona como se ele estivesse mastigando
vidro.
O placar me encara: 0 a 3. Estamos afundando, e cada turno que
assumo piora a situação.
Terceiro período. Outro passe vem em minha direção, e desta vez
eu o pego limpo. Meu taco o joga direto para Hollow, e eu me inclino
para a estrutura daquela jogada que ele e eu já fizemos mil vezes.
Não, não foi nós, não fui eu.
Estamos acelerando a saída do disco em um contra-ataque,
avançando pelo gelo em três contra dois. Com Hayes chamando os
ângulos e Hollow raspando o vidro, Blair deve ocupar o centro.
Mas ele está atrasado. Ele falha na sua tarefa, e a jogada desmorona
como papelão molhado. O disco quica inofensivamente para o
defensor, que o afasta sem esforço algum. Blair não olha para mim,
nem para Hayes.
Ver Blair fracassar é como ver uma montanha desmoronar.
Deslizamos até o banco, um trio derrotado. Blair senta-se duas
posições abaixo, arrancando o próprio capacete com um movimento
brusco e raivoso. Ele encara o gelo, o maxilar rígido, os músculos do
pescoço tensos. Sua imobilidade é uma tempestade contida.
Hayes senta-se entre nós e dá um tapinha no ombro de Blair, mas
ele nem sequer reconhece o toque. Ele está a milhares de quilômetros
de distância, perdido em um fracasso que, pela primeira vez, não é o
meu.
Eu queria dizer algo, mas o que eu poderia oferecer a ele?
Nada.
Aviões. Estradas. Rinques. Saguões de hotéis, quartos meio vazios,
bolsas de viagem e mochilas carregadas e largadas, carregadas e
largadas. Elas se fundem em tons de concreto e neon, uma esteira
rolante de lugares que são apenas versões diferentes do mesmo
fracasso. O zumbido das rodas do ônibus dá lugar ao gemido dos
motores a jato, mas o silêncio permanece o mesmo. É um frio que se
infiltra do gelo em nossos equipamentos. Agora, ele satura o ar
reciclado da cabine do avião, uma febre baixa de uma perda que não
passa. A derrota nos segue, uma passageira por si só. Ela pesa nas
conversas tranquilas, nas cabeças inclinadas contra as janelas. Meus
olhos vagam e pousam, como sempre, nele.
Blair não quer se sentar ao lado de ninguém, nem mesmo Hayes,
nem mesmo Hollow, que tentou por cinco minutos seguidos, antes de
embarcarmos, fazê-lo falar sobre futebol americano e surfe. Em vez
disso, ele se sentou em uma fileira de dois lugares perto do fundo,
criando uma zona de exclusão. A mensagem é clara o suficiente para
que ninguém finja que não entendeu. Todos nós damos ampla
margem de manobra.
Seus ombros se curvam para a frente, a cabeça inclinada contra a
janela. O ângulo o faz parecer menor, como se todos aqueles
músculos e ossos tivessem esquecido como se manter juntos. Os olhos
de Blair permanecem fechados, mas eu sei que ele não está dormindo.
Ninguém dorme com as mãos tão apertadas. Cada respiração dele diz
que tudo está quebrado.
Hayes se mexe no assento três fileiras acima, virando-se como se
quisesse ver Blair novamente, mas se detém. Seus ombros caem e ele
volta a olhar para a frente.
O reflexo de Blair oscila na janela escura ao lado dele.
Eu deveria estar assistindo ao vídeo do jogo no meu tablet, mas a
tela continua escura e no bolso do assento enquanto observo a tensão
nos ombros de Blair.
O avião se inclina, e a cabeça de Blair rola com o movimento, mas
não se levanta. Uma mecha de cabelo escuro cai sobre sua testa.
Não consigo desviar o olhar. É o fascínio mórbido de uma
tempestade se aproximando da água, uma linha escura no horizonte
se aproximando cada vez mais. Estou no final da escalação, jogando
o pior hóquei da minha carreira, e Blair está brandindo punhos em
sombras que ninguém mais consegue ver. Um time se esgueira por
uma fresta quando o capitão recua, e ele está tão perdido que nenhum
de nós consegue acompanhá-lo. Sem ele como nosso centro, somos
satélites girando em direção a um espaço mais frio e escuro.
Meus próprios erros no gelo parecem egoístas e insignificantes
perto do vazio dele. Ele não merece isso.
Por que ele não fala, por que não olha para mim, por que tudo está
se desfazendo? Três fileiras, um corredor e um universo nos separam.
Quero ir até ele e atravessar o abismo do tempo e da memória
esquecidos, e fazê-lo me ver, se lembrar de mim, se lembrar de mim
o amando, para que ele não fique tão devastadoramente sozinho. Mas
eu não sou ninguém para ele. O que eu poderia fazer? Sentar-me ao
lado dele e contar-lhe sobre memórias que só existem na minha
cabeça?
Não. Eu fico parado, cimentado em meu fracasso, enquanto ele
permanece cimentado em sua escuridão.
Fecho os olhos e ele está lá de novo – não esse Blair, quebrado e
distante, mas aquele que existe na minha mente.
Por que você não se lembra de mim como eu me lembro de você?
Mas eu não pergunto. Como eu poderia? Ele não é o louco aqui.
E eu nem o conheço de verdade, não é?
Eu só o imaginei.
A arena de Carolina está agitada. É um rinque como qualquer
outro: placas, lâminas, suor no ar. Minha lâmina raspa o gelo e o
disco, pela primeira vez, desliza com precisão. Rolo a língua na
borracha ácida do meu protetor bucal e sinto o gosto do sangue do
último período no meu molar. O suor escorre sob meu capacete.
O gelo se abre em uma fenda fina, e uma sombra o atravessa: Blair.
Ele atravessa a zona neutra, uma estrela negra traçando seu próprio
caminho.
O passe dele entra na minha fita. Eu o rebato, um toque suave para
mantê-lo em movimento, e ultrapasso com força pelo campo azul. Ele
arremessa o disco entre os tacos da defesa para o espaço que abriu
para mim. É sem olhar, sujo e perfeito, e eu me inclino para ele, de
ponta a ponta, quadris e calor. Chuto o arremesso de uma vez, alto.
Eu estava esperando, Deus, eu estava faminto por isso, por ele
transformar um trecho morto de gelo em um rio que pudéssemos
escorrer.
O disco sobe e cai no ângulo superior, encaixado sob a barra, a rede
estalando e se acomodando.
Eu me viro, procurando por ele. Quero a reação dele. Quero que
aquele olhar nos olhos dele me queime – aí está você –, aquele que
costumava iluminar a minha vida. Quero o sorriso dele que diz que
fizemos isso juntos, que ele me queria ali, que este é um fio condutor
entre nós neste gelo.
Quero que ele me veja vendo-o.
Mas Blair se encolhe, com o protetor bucal enfiado na bochecha. Ele
patina em um círculo lento pelo canto e continua indo para o banco.
Ele já está se preparando para a mudança de linha.
Hawks esbarra em mim. — É isso aí, Kicks! — Ele ri, e eu aceno
para ele, mas tudo o que eu quero é um olhar do homem que me
mandou o mundo numa corda bamba. O que eu perdi? O que mais
eu preciso ser para ganhar a atenção dele?
Sigo Blair enquanto ele se joga no banco. Sua cabeça se inclina para
trás e seu peito sobe e desce. As luzes do teto refletem o suor em sua
garganta. Hayes desliza para perto dele e diz algo em seu ouvido. A
resposta de Blair é um único aceno de cabeça.
Meus patins me levam de volta no piloto automático. O assistente
técnico já está anunciando a próxima linha, e eu deslizo para o meu
lugar quatro corpos atrás de Blair. O árbitro pega o disco do gol e o
joga para o juiz de linha. Nossa segunda linha entra no gelo, e o jogo
continua.
O espaço entre Blair e eu poderia muito bem ser um oceano. Quatro
corpos. Quatro companheiros de time. Um ano de amor que nunca
aconteceu, mil conversas que nunca tivemos, cada beijo que existiu
apenas em qualquer sonho que meu cérebro quebrado conjurou.
No gelo, Mikko acerta um chute na trave, e a torcida vibra. Blair se
levanta, pronto para a próxima jogada, com os ombros firmes.
É isso que me mata: eu o conheço. Sei que ele favorece o tornozelo
esquerdo depois dos treinos de intensidade. Sei que toma o café preto,
mas coloca açúcar às escondidas quando ninguém está olhando. Sei o
som exato dele se despedaçando, baixo, quebrado e bonito. Exceto
que não sei. Cada detalhe, cada momento, nada além de sinapses
disparando errado na minha cabeça depois de levar um golpe na
cabeça.
Blair salta sobre as placas e atinge o gelo, e Novak lhe passa o disco
no canto. Blair gira o gol e protege o disco com o corpo.
Cada jogo é assim, um lembrete de todas as maneiras pelas quais
não nos encaixamos mais. Somos estranhos que usam o mesmo
logotipo, nada mais. Costumávamos nos entender no escuro, entre as
batidas do coração, na forma como nossas vidas se curvavam uma em
direção à outra.
Não. Eu sonhei isso na minha cabeça quebrada.
Faltam vinte minutos para o fim deste jogo. E depois? Se eu entrar
no time – improvável –, o que virá a seguir? Uma temporada com ele
através de um espaço intransponível, carregando memórias do nosso
amor que nunca existiu?
Como lamentar a perda de alguém que está bem na sua frente?
Como abrir mão de um amor que sempre foi só seu?
O jogo continua. Corpos se chocam contra as placas. O barulho da
torcida aumenta e diminui em ondas. Eu assumo outra linha. Minhas
pernas queimam enquanto me esforço mais, mais rápido. Eu me jogo
em um corpo a corpo, sinto a satisfação ao prender um atacante de
Carolina contra as placas. A torcida vaia. Ótimo.
Continuamos perdendo enquanto o relógio avança. Dez minutos.
Cinco. Três. Insistimos e insistimos, mas Carolina segura. Quando o
apito final soa, Blair é o primeiro a sair do gelo, desaparecendo pelo
túnel antes mesmo que eu consiga chegar ao banco.
Ele é uma ilha no vestiário. Nem Hayes tenta falar com ele. Ele se
move como um homem debaixo d’água, inalcançável.
Sento-me na minha baia, tirando camadas de equipamento e suor,
lançando olhares furtivos para o fantasma que me assombra. Sua
cabeça se abaixa enquanto ele destrava as almofadas. Os músculos
das costas se contraem. Conheço essas costas muito bem – eu nem
deveria conhecer. Meu coração bate forte demais para esta sala. Ele
veste a camisa, com os olhos fixos no nada, depois se levanta e sai sem
olhar na minha direção.
Desenho Blair nas margens do meu caderno. Toda vez que penso
ter avistado a curva da sua bochecha ou a articulação do seu pulso,
ele se move, e a imagem se fragmenta em painéis menores que
continuam fugindo de mim. Seu maxilar, a curva do seu ombro, como
seu polegar esfrega a articulação quando ele pensa que ninguém está
olhando – eu o interpreto errado toda vez.
Mas eu observo, e no nosso jantar de equipe, este é Blair:
Ele se senta a uma mesa para quatro, com um garfo atravessando a
massa que ele não come. Alguém ri na mesa ao lado, e Blair não se
encolhe. Seus dedos se fecham na palma da mão e depois se soltam.
Os tendões do antebraço se movem, a pele esticada sobre os músculos
que costumavam me manter no escuro. Só que agora não me mantém.
Seu maxilar se move como se estivesse triturando palavras. Um
tremor percorre o canto da boca – quase imperceptível,
desaparecendo antes que alguém percebesse. As luzes do teto lançam
sombras sobre sua pele que eu quero traçar. Seu peito se ergue
superficialmente, trava, continua. Ele olha fixamente através das
próprias mãos, onde elas repousam sobre a mesa.
O que quer que o esteja matando está enterrado tão fundo que
ninguém mais consegue ver. Ele tenta enterrar, mas enquanto cava,
está desmoronando.
Se eu pudesse alcançar o outro lado do abismo – a mesa, o time,
tudo o que não foi dito –, eu o faria, mas tudo o que posso fazer é
assistir.
Eu queria poder tirar esse peso dele, mesmo que por um minuto,
ou deixá-lo saber que ele não está sozinho na luta que está perdendo.
Que alguém percebe; que alguém se importa o suficiente para
continuar notando, mesmo quando ele tenta tanto desaparecer.
Ele finalmente pousa o garfo e se levanta. Seu olhar não se desvia
enquanto se move pela sala lotada como uma sombra que mal passa
por alguém.
Fico ali sentado por um longo tempo depois que ele se vai, olhando
para o espaço vazio onde ele estava sentado. Todo esse desejo me
aperta as costelas: quero consertar o que está quebrado nele, quero
consertar o que está quebrado em mim, quero qualquer versão de nós
dois onde não estejamos tão impossivelmente distantes.
O bar do hotel em Columbus me engole.
As garrafas de bebida estão empilhadas ordenadamente atrás do
barman do nosso hotel, prontas para alguém como eu, alguém em
busca de uma saída fácil. Acho que deixei metade de mim no fundo
das garrafas nos últimos meses.
Quero uma bebida para acalmar o tremor na minha pele, o barulho
na minha cabeça e todas as coisas em que não quero pensar: quarta
linha e mal conseguindo sobreviver; Blair, de coração partido e
intocável. O jogo se repete atrás das minhas pálpebras. Mais uma
cobertura perdida. Mais um ponto negativo.
Uma bebida e eu vou esquecer.
Deslizo para um banquinho na extremidade oposta do balcão, onde
as sombras são mais profundas. O espelho atrás das garrafas me
mostra o que todos os outros veem: olhos fundos, barba por fazer de
três dias, a postura curvada de um homem que está prestes a desistir.
Atrás de mim, risos irrompem da mesa de canto. Eu conheço esse
riso. Os caras do núcleo estão aqui, espremidos em uma mesa do
outro lado da sala. Hawks e Hayes ocuparam uma mesa de canto.
Suas garrafas transpiram em porta-copos de papelão. Palavras rolam
entre eles em uma maré baixa. Blair está sentado entre eles, mas
afastado, a cadeira inclinada alguns centímetros para trás, o
antebraço enganchado no corrimão superior. Sua mão acaricia a
borda de um rótulo. Ele foi arrastado para fora de novo; sinto o cheiro
de Hayes em tudo isso.
Ouço o ritmo das vozes deles, sinto a forma como se inclinam no
espaço um do outro. Lembro-me de estar lá também.
Sinto um tremor na mão. Puxo-a contra a coxa, escondendo-a sob a
borda do balcão. Eu queria um espaço longe de mim, o que significa
um espaço longe deles e desse maldito time, mas acho que não vou
conseguir isso esta noite. Não há mais falas; o que está acontecendo
agora se confunde com o que eu lembro e o que não lembro.
Quero que Blair olhe para mim. Quero que ele ria como antes.
Quero que ele me pergunte se eu me lembro de Filadélfia, Boston,
Pittsburgh. Meias-noites, telhados e entradas escondidas em
vestiários antes do amanhecer.
Traço um anel de condensação deixado pelo copo de outra pessoa
na madeira.
O barman me avalia, certamente percebendo meu desespero. — O
que você quer?
— Vodca. Com gelo. — Odeio a sensação que tenho ao dizer as
palavras.
O gelo racha no copo como pequenos ossos se quebrando. Minhas
mãos e pulsos doem por causa dessa longa pré-temporada, e eu os
deito no balcão; a superfície está pegajosa de mil derramamentos.
Ele coloca a bebida no descanso de copo à minha frente. A vodca é
uma poça de silêncio líquido e perfeito. Límpida e fria, inocente e
paciente.
É simples, tomar um drinque. Todo mundo faz isso. Que droga,
metade do time está fazendo isso agora. Envolvo o copo com a mão,
a condensação escorrendo pela palma. Meu corpo quer isso. Um
único gole e tudo acaba; posso voltar a esquecer o que sou e o que
nunca mais serei. Não importa o que aconteça depois; qualquer coisa
é mais fácil do que isso. Passo o dedo pela borda. O frio se infiltra
entre as espirais das minhas digitais.
O que é mais um erro? Meu estômago se aperta com o vazio. Em
algum lugar atrás de mim, as pernas das cadeiras rangem e se
acomodam, e Blair se levanta da mesa.
No espelho, ele se move por entre as mesas e corpos espalhados,
uma trajetória lenta mirando o espaço vazio ao meu lado. Medo e
esperança tola se entrelaçam em mim, e tudo no bar desaparece,
exceto ele.
Acompanho cada passo, cada centímetro que se aproxima, e antes
que eu esteja pronto, ele está bem ao meu lado, perto o suficiente para
que seu calor roce meu braço e o leve aroma de coco emane dele. É
claro que ele viria agora. É claro que ele...
— Outra Stella — ele diz ao barman. Sua voz é um ronco baixo ao
meu lado.
… digo a mim mesmo que não vou olhar, não vou lançar um olhar
de lado, não vou deixá-lo me arrastar para baixo...
Claro que sim.
Ele está apoiado no bar, com a cabeça entre os ombros. O tendão
em sua têmpora treme.
O barman lhe serve uma cerveja nova. Ele não a pega
imediatamente, e nós existimos neste vácuo onde tudo o que eu quero
dizer se calcifica na minha língua.
Joguei melhor no segundo período.
Estou tentando.
Em outra vida, você me amou.
A mão de Blair se fecha em volta do gargalo da garrafa. Ele não se
move; permanece no exato ponto que me estripa, perto o suficiente
para me quebrar, distante o suficiente para me matar. É insuportável.
Eu forço meus olhos para o lado.
Seu rosto exibe o brilho inexpressivo e polido da decepção. Seu
olhar se volta para o copo perto da minha mão, depois para mim, e
depois de volta para o copo, onde minha vodca transpira no balcão.
A condenação irradia dele em ondas. Não há luz em seus olhos;
eles são frios e duros quando me veem.
Tudo dentro de mim se agita e afunda, uma maré se revira em mim.
A vergonha sobe pelo meu pescoço, queima as pontas das minhas
orelhas. Olho para a frente e encaro o veneno transparente que me
aguarda no copo.
Meu copo permanece ali, entre nós, intocado. O gelo se move,
tilintando contra as laterais. Um som tão pequeno, mas que preenche
o espaço entre nós como um trovão.
Ele toma um gole de cerveja e vai embora.
O ar frio invade o espaço onde antes estava o calor dele, e fico
olhando para o meu reflexo no espelho. Minha mão paira sobre o
vidro.
O barman limpa a outra ponta, tomando cuidado para não olhar na
minha direção.
Eu poderia beber. Provar que ele está certo. Dar a ele mais um
motivo para me descartar.
Minha mão se fecha em volta do vidro.
A figura de Blair se afastando se borra no espelho, já partindo, já
sumindo. Ele é o homem que me amou, que trouxe luz à minha vida,
que me segurou como um farol que embala a noite. Mas ele não é...
Mas este sou eu. Cada passo em falso, cada tropeço, cada gota de
vergonha que me engoliu. São meus, todas essas memórias, todos
esses fracassos, todas essas cagadas.
Encaro minha bebida como se ela já estivesse dentro de mim,
entorpecendo tudo que toca. Eu quero. Porra, eu preciso disso. Quero
a queimação que apaga as bordas e o espaço morto depois. Tudo o
que preciso fazer é me inclinar para a queda. Deus sabe que já fiz isso
antes. Ninguém aqui vai se importar. Ninguém vai me impedir.
Um gole. Só isso bastaria. Um gole para atenuar a dureza do seu
julgamento. Dois e talvez eu esquecesse como perdi aquele passe no
primeiro período e deixei o atacante deles passar direto por mim para
o gol da vitória. Três e eu pararia de ver a cara do Blair. Quatro e...
Quatro, e eu acordaria amanhã o mesmo fracasso que sou hoje.
Uma voz dentro de mim sussurra as mesmas frases de sempre.
Você não merece nada esta noite. Você já decaiu tanto quanto
qualquer um poderia imaginar.
É tão fácil desaparecer.
Minha mão se move, inquieta, em direção à bebida. Não custaria
nada.
Custaria tudo o que eu ainda poderia ser.
Uma tênue brasa dentro de mim se recusa a se apagar. É a
lembrança de uma vida que segurei por alguns instantes – o vapor
embaçando a porta do chuveiro e o som da risada de Blair, Hayes
cantando para mim, o estalo limpo de um disco passando pela minha
lâmina e saltando para o canto superior da rede.
Mas não era real. Nada disso é, exceto o jeito que eu o amo, e é isso
que me destrói. Meu amor era – e é – a única coisa real em toda essa
confusão, e está alojado em mim como estilhaços. Não consigo afastá-
lo com bebida, não consigo fugir dele, não consigo fingir que não
existe.
Um gole e eu vou embora. Um gole e eu estou livre. Um gole e eu
estou perdido de novo. Eu poderia cair tão facilmente nessas águas.
A luz do balcão transforma a vodca em uma lâmina transparente.
Gotas frias se espalham pelo lado de fora do copo. Em algum lugar,
existe uma versão de mim que não precisa mais disso, que parou de
precisar porque encontrou algo melhor para desejar.
Eu empurro. O vidro raspa a madeira, para longe de mim.
O barman ergue os olhos. Uma sobrancelha se ergue, o pano em
sua mão deslizando sobre o balcão. Seu olhar se move do copo para
o meu rosto antes de me dar um pequeno aceno de cabeça. Ele pega
a bebida sem dizer uma palavra.
A textura da madeira sob minhas palmas guarda mil cicatrizes de
noites como esta. Minhas mãos repousam no balcão, vazias. Eu as
fecho em punhos, depois as solto e observo o sangue fluir de volta
para as pontas dos meus dedos.
Eu pareço exatamente com o que sou no reflexo atrás das garrafas:
um homem se mantendo à beira do abismo.
Mas estou aguentando firme.
Vinte eDois
Rasgo a fita com os dentes e a enrolo na lâmina do meu taco,
seguindo o mesmo padrão que uso desde o ensino fundamental: três
voltas no calcanhar, na diagonal, até a ponta. A playlist de alguém
ecoa em um alto-falante portátil. Estou meio vestido, de bermuda de
compressão e nada mais, quando Blair passa pela minha baia sem
parar. Seus olhos deslizam sobre mim como água sobre pedra. Meu
estômago se contrai com tanta força que preciso respirar fundo,
contar até quatro e soltar o ar lentamente.
Ele veste a camisa de treino pela cabeça, e eu vejo um vislumbre da
pele pálida em seu quadril. Sei que há uma cicatriz ali, de cinco
centímetros de comprimento, de um acidente de patins quando ele
tinha doze anos. Só que eu não sei disso.
Hayes está à minha esquerda, brincando com Axel e Hawks
enquanto eles colocam suas caneleiras.
Meus pensamentos continuam quicando na minha cabeça como
uma bola de borracha em uma sala pequena. Pittsburgh. Hayes. Erin.
As três palavras ricocheteiam umas nas outras. Passo os cadarços
pelos ilhós. Meu cérebro não me deixa esquecer. Vamos jogar em
Pittsburgh a seguir. Pittsburgh. Centro médico. Tratamento de
câncer. Li no Google sobre o centro de câncer de Pittsburgh quando
minha mente não parava de falar sobre Pittsburgh, Hayes, Erin,
Pittsburgh, Hayes, Erin, Pittsburgh, Hayes. Os nomes se repetem, um
ritmo frenético e sem sentido.
Olho para Hayes, para o sorriso largo que ele dá a Axel. Ele está
arrancando risadas de todos ao seu redor, como se nada em seu
mundo tivesse quebrado.
É Pittsburgh, é um centro de tratamento contra o câncer. Erin está
em remissão, de acordo com o Instagram de Hayes, e já faz um tempo,
mas...
Devo perguntar?
Uma parte de mim grita não. Não é da minha conta. É a vida dele,
a história pessoal dele, que ele encobre com piadas barulhentas. Mas
ficar em silêncio é uma traição, e não consigo explicar o porquê.
Pittsburgh. Hayes. Erin. Eu não deveria. Mas...
Porra, porra, porra.
Preciso dizer algo. Se estou certo ou errado, vale a pena perguntar.
Hayes e Hawks estão frente a frente enquanto Hawks tenta
equilibrar a ponta do taco na palma da mão aberta enquanto Hayes o
encara a um centímetro de distância do seu rosto.
— Ei, Ems.
Hayes lança um olhar por cima do ombro e me ignora
completamente. Ele não consegue imaginar que fui eu quem o
chamou.
Respiro fundo e tento de novo. — Ems.
Desta vez, sua cabeça inclina-se para o lado. — Sim, Kicks?
Nossa! Fala logo. — Então, Pittsburgh, né? Nosso próximo jogo é
lá.
As sobrancelhas de Hayes se erguem. — É... — Ele arrasta a
palavra.
Assinto como uma daquelas cabeças de boneco que balançam de
jeito estranho. Diga. Seja normal. Mas hesito. Hawks desistiu de se
equilibrar com o taco e se jogou no banco, nos observando.
— Eu estava lendo sobre a cidade. — Mentira. Eu não estava só
lendo sobre a cidade – eu estava pesquisando, procurando, tentando
entender por que eu não conseguia parar de pensar em Pittsburgh
Hayes Erin Pittsburgh Hayes Erin… porra. — Eles têm atendimento
médico de primeira linha lá, né?
Hayes fica imóvel. — É? — Sua voz permanece calma, mas uma
corrente oculta surgiu. Um aviso, talvez.
Eu deveria parar, fazer alguma piada sobre a vida noturna de
Pittsburgh ou sobre a pizza horrível deles. Mas não consigo, não
consigo...
— Você sabe sobre o centro de oncologia que eles têm, né? É
incrivelmente moderno. — Já estou divagando. — Eles têm esses
tratamentos incrivelmente avançados, imunoterapias personalizadas,
umas coisas muito legais. — Alguém está falando demais: eu.
— Do que você está falando? — Há um tom em sua voz que me diz
para parar, talvez até me diga para voltar atrás, enterrar tudo o que
estou dizendo e fazer isso rápido.
— O centro de oncologia. Pittsburgh é conhecida por isso.
Ele se vira totalmente para mim, não sendo mais o mesmo cara de
dez segundos atrás.
— Vocês já pensaram em dar uma olhada? — A beira do penhasco
está logo ali, e eu estou decolando mesmo assim. — Pela Erin. — Pare.
Pare. Mais palavras não estão ajudando. — Quer dizer... eu pensei...
se você... — Engulo em seco. — Com o time indo para Pittsburgh...
aquela coisa da imunoterapia deveria ser...
Não consigo ficar calado nem que seja para salvar minha vida.
Hayes me olha como se quisesse me abrir a cara e, por meio
segundo, me preparo para o impacto. Todos os olhos estão voltados
para nós agora. A conversa normal de treino se extinguiu, substituída
por um silêncio desconfortável de pessoas fingindo não ouvir
enquanto captavam cada palavra.
— Eu pensei... se você alguma vez quisesse outra opinião ou...
— Você não pensou — Hayes me interrompe. Há algo duro em seus
olhos que eu nunca vi antes. — Você pesquisou alguma coisa no
Google. — Ele se levanta, com os patins meio amarrados. Os caras ao
nosso redor se interessam de repente pelos próprios equipamentos,
cabeças baixas, mãos ocupadas com fitas adesivas, protetores e
qualquer coisa que não seja isso.
Ele tem razão. Foi só isso que eu fiz. Peguei um universo da dor
particular deles e pesquisei em um mecanismo de busca. Um calor
sobe pelo meu pescoço, pelo meu rosto, uma onda de vergonha.
Preciso dizer alguma coisa – desculpe, exagerei, não foi minha intenção –
, mas minhas palavras são cinzas na minha língua.
O maxilar de Hayes se contrai, os músculos se flexionam. Ele é uma
linha de tensão, pronto para explodir. Ele inspira, o peito se
expandindo, e eu me preparo para a explosão.
Mas, sem olhar para mim novamente, ele se vira e se afasta da
minha baia, seus patins meio amarrados batendo no tapete de
borracha. A porta do túnel se abre sob sua mão e bate nas paredes de
concreto, depois se fecha com um suspiro.
Todos os olhares nesta sala estão voltados para mim agora, e a
pretensão de nos ignorar desapareceu.
Abaixo a cabeça, olhando para os meus próprios patins. Que porra
é essa? Sério, que porra foi essa que eu fiz? Ei, Hayes, fiz uma
pesquisa rápida no Google sobre o câncer da sua esposa, deixa eu
resolver todos os seus problemas. Eu estava pensando que seria um
herói? Eu deveria ter ficado de boca fechada. Eu não tinha nada a ver
com isso, não tinha direito.
O relógio na parede avança, me lembrando que o treino começa em
quinze minutos, e eu não estou nem perto de estar pronto. Me forço
a terminar de amarrar meus patins, cada puxão forte o suficiente para
cortar a circulação. — Maldito idiota — murmuro.
O caos habitual de tacos batendo e caras gritando desapareceu.
Alguém do outro lado da sala tosse. Um por um, os caras começam a
se dirigir para o gelo, com os patins batendo no chão. Ninguém nem
olha na minha direção.
Eu não cruzei nenhum limite; eu o bombardeei da órbita.
Em algum lugar atrás de mim, a barra de smoothies se acende por
um instante e apaga de novo, um gemido fraco, e então a risada do
Simmer ecoa pelo refeitório. Sento-me sozinho com uma tigela cinza
de mingau de aveia frio. Minha colher raspa um rastro e continua,
pequenos círculos percorrendo o mesmo sulco.
A TV no canto exibe os melhores momentos no modo mudo.
Hollow está rindo à beça. Hawks provavelmente está com ele, os dois
conversando como se fosse um dia qualquer. Para eles, é. A agitação
da pré-temporada percorre em suas veias, e eles sabem que estarão
patinando na temporada regular. O ar está radiante com o ímpeto dos
outros.
Meus dias estão chegando ao fim. O fim da pré-temporada será o
meu fim.
Blair está sentado do outro lado da sala. Finjo que estou assistindo
TV e falho. Toda vez que ele se mexe, um calor me percorre e eu fico
imóvel para não transparecer no meu rosto.
Dois finais me perseguem: um com meu nome gravado raspado da
minha baia e outro com Blair sempre do outro lado da sala que
dividimos. O Blair em minha mente transita por cômodos aos quais
não consigo retornar – luzes da varanda, uma risada baixa no meu
ouvido, suas mãos nos meus quadris. O homem nesta sala me vê
apenas o tempo suficiente para me ignorar.
O que eu farei quando ambos os caminhos terminarem em derrota?
O que me restará quando tirarem a única camisa que eu sempre quis
e o único homem que eu já amei, mesmo quando eu já sabia, embora
isso tenha surgido do nada?
A pergunta paira sem resposta no vazio atrás dos meus olhos.
Minha colher raspa o fundo da tigela. Levanto a cabeça.
A boca de Blair se curva diante de algo que Divot diz; não alcança
seus olhos. Esse não é o sorriso que eu conheço, aquele que me puxou
com sua onda.
Ele se move, seu olhar percorrendo vagamente minha direção antes
de prosseguir. Eu sou parte da mobília. Eu deveria me levantar, jogar
isso fora e ir patinar até minhas pernas queimarem e minha cabeça
ficar vazia. Mas estou preso a esta cadeira, observando um homem
que não me vê.
Não consigo parar de amá-lo, mesmo esta versão fragmentada dele
que compartilha o rosto com o homem de quem me lembro.
A porta do refeitório se abre bruscamente, e há uma mudança
brusca no ar, como se alguém tivesse batido na mesa com um pedaço
de pau. Olho para cima...
É Hayes, e ele atravessa a sala como alguém com quem você não
quer se meter. Olhares se voltam para mim e depois se afastam. O
barulho na sala diminuiu.
Hayes encurta a distância entre mim e ele sem que ninguém o
atrapalhe. Eu me recosto, com o coração disparado, e inúmeros
cenários malucos passam pela minha cabeça antes que ele se jogue na
cadeira à minha frente.
Merda. — Ems... — Minha voz falha.
— Eu... — Ele começa, mas para. Não há arrogância nele. Ele
balança a cabeça e respira fundo. — Escute.
Há uma longa pausa, e eu não aguento mais. Cada segundo de
silêncio se prolonga. Minhas mãos estão cerradas nas coxas, debaixo
da mesa. Diga. Acabe logo com isso.
— Erin e eu ficamos mais um dia em Pittsburgh.
Então foi para lá que ele foi depois do jogo. Ele não voltou conosco
no avião do time.
— Fomos ao centro oncológico, aquele que você mencionou. Como
você disse, é bom saber, né? E o câncer da Erin... o câncer da Erin
voltou.
O som no refeitório desaparece, substituído por um zumbido
agudo nos meus ouvidos. O olhar de Hayes está fixo no meu. O medo
em seus olhos é insondável.
— Não sabíamos, mas tinha se espalhado. Entrou em... porra. —
Seus olhos se fecham com força. Suas mãos se apoiam na mesa, os nós
dos dedos brancos. Ele respira fundo, trêmulo, e abre os olhos
novamente.
Não há nada em mim além de estática.
— Mas porque nós fomos — diz ele, respirando fundo. — Como
descobriram tão cedo, vão colocá-la naquele tratamento, aquele de
que você falou? Aquela imunoterapia personalizada. Ela começa na
semana que vem. — O medo nos olhos de Hayes ainda existe, mas
outro sentimento persiste: esperança. — E dizem que ela vai ficar
bem. O prognóstico é muito, muito bom. — Seu maxilar treme. Um
músculo em sua bochecha se projeta. — Kicks... — Sua voz falha. —
Torey. Você a salvou.
O refeitório inteiro, o universo inteiro, nada mais é do que o espaço
entre os olhos dele e os meus. O rosto de Hayes fica borrado, e eu
pisco forte e rápido porque não vou chorar na frente dele, na frente
de todo mundo. Mas a ardência atrás dos meus olhos não para.
— Eu não... eu apenas mencionei...
— Não. — A voz de Hayes é grave e ríspida. — Você a salvou. —
Sua mão se estende sobre a mesa, parando antes da minha. — Se
tivéssemos esperado mais um mês, dois meses... Os médicos
disseram que o momento teria sido diferente.
O zumbido nos meus ouvidos fica mais alto. — Hayes... — Todos
fingem não estar nos olhando, mas estão. — Você não me deve nada...
— É, eu sei. Olha, você é esquisito e desajeitado pra caramba, cara,
mas você salvou a vida da minha esposa. E você me salvou, porque
eu não consigo viver sem ela. — Ele se inclina para a frente e diz mais
suavemente: — Seu coração? Está no lugar certo, mas o meu não. Não
com você.
Suas palavras me atingiram onde eu não sabia que ainda havia
espaço para doer.
— Eu não fiz nada de especial...
— Pare. — Minha boca se fecha com um clique. — Pare — ele
repete, mais baixo dessa vez, suplicante. Ele esfrega a mão no rosto.
Por um segundo, parece completamente destruído, um homem
segurando o céu sozinho. — Você precisa ouvir isso, e eu preciso
dizer isso.
Ele se recompõe, juntando seus pedaços bem na minha frente.
— Me desculpe — Hayes diz com a voz engasgada. — Pelo jeito
que eu tenho te tratado. Me desculpe mesmo, porra. Fui um babaca
com você desde o primeiro dia, e você ainda... — Sua voz falha. Ele
parece um homem que correu uma maratona e está prestes a
desmaiar na linha de chegada. — Podemos recomeçar? — Ele estende
a mão. — Oi. Sou Hayes Emerson.
Estendo a mão sobre a mesa para pegar a dele. — Torey Kendrick.
— Prazer em conhecê-lo, Torey Kendrick. — Ele se levanta, com o
olhar mais gentil que eu já vi desde que cheguei em Tampa. — Vamos
fazer umas conversas individuais, ok?
— É. Eu adoraria, claro. É. — Não seja esquisito, Torey.
Hayes sorri. — Até mais, Kicks. — Ele empurra a cadeira para trás,
dá uma batidinha rápida na mesa com os nós dos dedos e vai embora.
As conversas começam em rajadas irregulares, como se alguém
tivesse aumentado o volume um nível de cada vez. Alguns caras
erguem o queixo para ele quando ele passa; ele acena uma vez e
continua andando.
Silencioso como sempre, a sensação retorna: olhos em mim,
penetrando minha pele e tendões do outro lado do refeitório. Blair. A
consciência dele se espalha por mim como água encontrando cada
fresta. Mantenho a cabeça baixa.
Imagino o quanto ele ouviu. O refeitório não é exatamente
reservado, e Hayes não é exatamente silencioso.
A pressão do olhar de Blair é demais. Não consigo me esconder,
então levanto a cabeça e espio em sua direção.
Ele não finge mais assistir à TV sem som. Está olhando diretamente
para mim. A linha do seu maxilar está rígida, o músculo ali, uma
pequena e repetitiva piscada. O olhar em seus olhos contém uma
pergunta que não consigo decifrar. Pela primeira vez em um mês, não
estou invisível para ele, e não sei se sinto alívio ou terror.
Então, tão repentinamente quanto começou, acabou. Seus olhos se
desviaram bruscamente. Um momento depois, sua cadeira range
contra o chão enquanto ele se afasta e se levanta. Ele se move sem
olhar para mim novamente, passando pelas mesas e saindo pela
porta.
Ele se foi. Apesar de todo o seu tamanho e força, ele pode
desaparecer quando quiser.
Fico imóvel como uma pedra e tento recuperar o fôlego sem que
ninguém perceba. O torcicolo da confissão de Hayes ao julgamento
silencioso e cortante de Blair me deixa tonto. Repito aquele piscar de
olhos dele nos meus mil vezes em meio segundo.
A sala volta a ficar nítida, um amontoado de talheres tilintando e
conversas tranquilas. Olhares ainda me percorrem, mas são
diferentes da hostilidade de antes. Sou uma anomalia. Um problema
resolvido e um novo criado no intervalo de cinco minutos.
Uma parte de mim quer afundar nesta cadeira até que o mundo
esqueça que eu existo; outra parte quer se levantar e correr atrás de
Blair. Em vez disso, eu me recomponho aos poucos, soltando um
longo suspiro pelo nariz.
Isso é tudo que tenho.
Quanto mais me aprofundo nas entranhas do rinque, mais escuro
ele fica. Viro numa esquina e as vozes me atingem, rastejando pelas
paredes de concreto.
— … tratando-o assim?
Eu paro. Essa é a voz do Hayes.
Há outra voz também, baixa e entrecortada. — Acabou pra ele. Não
adianta fingir.
E esse é Blair.
Eu nem queria estar naquele labirinto infernal embaixo do rinque.
Precisava gastar energia nervosa, ou foi o que eu disse a mim mesmo
depois do almoço, mas agora tropecei em outros dois que também
estavam usando aqueles corredores para se esconder. Eu me
aproximo e espio pela esquina.
Hayes está vestido com seu uniforme pré-treino, short, uma
camiseta cortada e um boné virado para trás. Blair é quase uma
imagem espelhada, sem o boné e com a legging de base por baixo do
short. Hayes é mais alto e Blair é mais largo, mas Blair olha para
Hayes como se pudesse tirar a Medusa do ramo de fabricação de
pedras.
— Isso é ridículo — zomba Hayes. — Pediram demais dele, cedo
demais, e você sabe disso. Você sabe que ele tem potencial.
Meu nome está todo enredado no que eles não estão dizendo. Meu
Deus, como ainda posso me surpreender com o quão pouco todos
pensam de mim? Fui eu quem provou que os sonhos de todos para
mim estavam errados.
— Não estou errado.
— Ele tem habilidade, Calle, você não pode negar isso.
— Não importa. — Blair solta um grunhido. — De que adianta ter
potencial se você não o usa?
Sinto um frio na nuca.
— Foi você... você, Calle... quem disse que não se desiste de um
jovem tão rápido. Lembra? Por que foi você quem desistiu agora?
Blair cospe sua resposta como veneno: — Ele já desistiu de si
mesmo.
Ele está tão certo que chega a queimar. Eu me inclino com mais
força contra a parede, o bloco de concreto áspero contra minhas
omoplatas, e quero desaparecer ali, quero me tornar parte da
fundação para nunca ter que encarar o que Blair revelou.
— Você está sendo injusto — tenta Hayes novamente.
— Estou mesmo? — Há um movimento – passos, o raspar de um
sapato no concreto. — Quando foi a última vez que ele brigou por um
disco no canto? Quando foi a última vez que ele levou um golpe para
fazer uma jogada? Que droga, quando foi a última vez que ele sequer
pareceu querer estar aqui?
Fecho os olhos, tento lembrar, tento encontrar um momento, um
único momento em que provei que Blair estava errado.
— Ele está assustado — diz Hayes baixinho. — Talvez precise que
alguém acredite nele.
O medo tem sido minha sombra por tanto tempo que esqueci como
é me mover sem ele.
— Acreditar não basta. — A voz de Blair fica mais grave. — Você
não pode salvar alguém que não agarra a corda que você joga.
Kendrick... — Ele suspira. — Ele já decidiu que está perdido.
— Você realmente não gosta tanto assim dele?
Não responda a isso, por favor, por favor, não responda a isso
Desejo me tornar invisível, me dissolver no nada antes que a
resposta de Blair me corte.
— Lá fora, eu vejo... — Blair para e recomeça. — Alguém que deveria
ser ótimo.
O corredor parece pequeno demais, as paredes estão se fechando.
— Talvez se você...
— O quê? Segurar a mão dele? — A risada de Blair é amarga.
— Ele precisa de tempo — insiste Hayes.
— Tempo para quê? Para sumir completamente? Para provar que
todos que disseram que ele era um fracasso estavam certos? — Ouve-
se um baque – o punho de Blair contra a parede, talvez.
— Ele é um cara desajeitado pra caramba, Calle, mas talvez seja
porque ele está afundando há três anos sem uma tábua de salvação.
Liguei para alguns caras da liga. E sabe de uma coisa? — Hayes
suspira fundo. — Ele não tem ninguém. Nem amigos. Nem família.
O pai dele caiu fora depois das categorias de base, se mudou para
algum lugar no exterior, e o Kicks está sozinho desde então.
Isso toca numa raiz feia da qual ninguém fala. Hayes não está
errado, mas ouvir isso dito dessa forma...
— Muita gente está sozinha, Hayes. Elas dão um jeito.
— E você?
— Ele... — A voz de Blair falha. — Ele está jogando tudo fora.
Tudo... Se Cody tivesse metade... não, pelo menos um quarto do seu
talento...
Então há silêncio. Como se a sala inteira morresse.
Eu conheço esse nome. Como? Como eu conheço esse nome?
— Então é disso que se trata.
Blair retruca: — Não.
— Blair...
— Pare. — A voz de Blair vibra perigosamente, quase se
estilhaçando. — Não fale disso.
— Calle... Torey Kendrick não é Cody.
O silêncio que se segue é pior do que qualquer grito. Há
movimento – passos se movendo, o som de tecido raspando em
blocos de concreto.
— Cody teria matado por metade do que Kendrick joga fora.
Metade do tempo no gelo. Metade das chances...
— Isso não é justo para nenhum deles — diz Hayes.
— Nada na vida é justo. — A voz de Blair está grossa e rouca. —
Kendrick só está marcando o tempo até ser rebaixado e mandado
embora. Ele sabe disso. Todos nós sabemos. Não perca seu fôlego,
nem seu tempo.
Rebaixado. Mandado embora. O hóquei sempre foi algo
emprestado, não foi?
Hayes não desiste. — O que você vai fazer para mudar isso,
Capitão?
Não respire, Torey, não respire...
— Aprendi a lição sobre tentar salvar as pessoas de si mesmas.
Estou na metade do corredor e correndo antes que perceba. Meus
tênis rangem, o som ecoando nas paredes de concreto que parecem
estar se fechando. Dou uma volta, depois outra, me distanciando
daquelas vozes até não conseguir ouvir nada além da minha
respiração ofegante.
Cody. Eu conheço esse nome. Eu já ouvi. Eu conheço. As bordas de
algo enorme estão se iluminando na minha mente. Já ouvi Blair dizer
esse nome antes. Mas quando? Onde? Não nesta vida.
Paro em algum lugar bem no fundo do rinque, longe de Blair e
Hayes. As paredes lá embaixo são pintadas de verde-industrial, uma
cor que faz com que pareça doentio e submerso. Minhas mãos
tremem. A adrenalina me inunda demais, e meus dedos estão
desajeitados quando pego meu celular. Ele escorrega, beija o
concreto, desliza. — Merda. — Eu o pego e quase o deixo cair de novo.
Meus polegares ficam selvagens. O Google abre.
Cody Blair Callahan.
A busca leva segundos, mas esses segundos se estendem como óleo
pingando.
O primeiro resultado é um obituário, e parece uma porta fechada.
Cody Callahan, 22 anos, irmão querido, falecido... Há apenas algumas
linhas, um link da funerária e uma lista dos que ficaram.
Minhas pernas cedem. Deslizo pela parede até cair de bunda no
chão, com o celular tremendo nas mãos.
Irmão mais novo de Blair. Morreu aos 22 anos.
Foi uma overdose.
Cody também jogava hóquei. Ele nunca chegou à NHL, mas
passou por ligas europeias e depois... nada.
As peças estão se encaixando na minha cabeça agora. Em outubro
passado, Blair tirou aquela licença repentina. Quatro meses se
passaram, sem explicação. Outubro. O mesmo mês em que seu irmão
morreu.
Há uma imagem tentando emergir na minha mente: uma fotografia
na porta de uma geladeira, um rapaz sorrindo para a câmera com o
mesmo queixo e os mesmos olhos de Blair.
Meu estômago embrulha, e as palavras ásperas de Blair se repetem:
Aprendi a lição sobre tentar salvar as pessoas de si mesmas.
Oh, Deus. Oh, Deus.
Três noites atrás, em Columbus, sentei-me naquele bar com uma
vodca queimando na mão, pronto para deixar tudo para lá, pronto
para parar de lutar contra a ressaca... e ele estava lá.
Eu estava curvado sobre aquela bebida como se ela contivesse
todas as respostas, e ele estava alguns bancos adiante, ombros firmes,
olhos encontrando os meus no espelho e sem se mover. Como ele
estava ali. Como seus olhos se fixaram na minha mão, no copo, na
bebida. Naquela noite, uma história sombria entrou naquele bar
usando meu rosto.
Eu fui uma placa de estrada: marco do quilômetro um. O ponto de
partida, o deslizamento lento. Uma foto de família sem um rosto. Para
ele, era outubro novamente.
Toda vez que Blair olha para mim, o que ele vê? Talento
desperdiçado e tempo emprestado? Alguém determinado a se
autodestruir? Um jovem jogador de hóquei com mais talento do que
bom senso, bebendo demais, isolado, desperdiçando todas as
oportunidades?
Cody e eu, dois jovens se afogando no mesmo oceano em
momentos diferentes.
Deixo a testa cair sobre os joelhos, tentando impedir que a sala se
incline. A bile sobe pela minha garganta. É por isso que Blair mal
consegue olhar para mim. A cada interação, cada vez que eu estrago
tudo no gelo ou apareço parecendo a morte requentada, estou
forçando-o a assistir ao irmão morrer de novo.
Ele já desistiu de si mesmo, Blair disse.
A tela do celular escurece, mas a imagem de um garoto sorridente
que nunca conheci está gravada em minha mente. Um rosto de uma
memória fantasmagórica, um nome que agora parece uma cicatriz.
Vinte e dois anos, quase a minha idade.
Penso em Blair tendo que identificar o corpo do irmão...
Inclino-me para a frente e respiro. O suor escorre pela minha
espinha.
Ele acha que sou mais uma história de irmão com uma camisa
diferente. Mais um funeral esperando para acontecer.
Esfrego as têmporas com a base das palmas até que estrelas
inundem a escuridão. Uma batida ressoa ali, firme e cruel. Quero a
velha cura; lembro-me do estalo do gelo quando levantei o copo.
Quero aquele deslizamento entorpecente, o modo como as margens
se desvanecem até que tudo me perdoe. O desejo vem rápido e nítido,
e esse é o problema se erguendo e acenando sua bandeirinha.
A vodca, o isolamento, o jeito como apareço para o treino já
derrotado; tudo isso foi uma longa despedida. E agora eu sei por que
Blair me observa como se estivesse contando os dias em um
calendário. Toda vez que ele olha para mim, no gelo, na sala, naquele
espelho, o final de Cody está estampado sobre minhas escolhas.
Se Cody tivesse metade... não, pelo menos um quarto do seu talento...
Empurro as palmas das mãos contra os olhos até que estrelas
explodam. A pior parte, a pior parte de tudo, é que ele não está
errado.
Ele me vê; esse é o problema. Ele me vê com muita clareza. Ele vê
exatamente o que eu tenho sido: alguém determinado a se destruir.
Eu estava pronto para me entregar. Estava tão cansado de lutar contra
a ressaca que me afogar parecia uma misericórdia.
O rosto de Cody flutua atrás das minhas pálpebras – jovem,
sorridente, morto. Aprendi a lição sobre tentar salvar as pessoas de si
mesmas.
Penso em Blair parado naquele corredor, a fúria e a dor tão
entrelaçadas na voz que Hayes não conseguia desvencilhá-las. O jeito
como sua voz falhou ao pronunciar o nome do irmão. O jeito como o
silêncio se instalou depois. Ele viu o irmão lutar e perder, viu-o se
perder até não haver mais nada para segurar. Toda manhã eu apareço
com os olhos fundos, toda vez que minhas mãos tremem, cada copo
que pego: é outubro para ele.
Não precisa ser, mas querer não ser algo e realmente mudar são
coisas completamente diferentes.
Meus joelhos protestam quando me levanto. Não sou Cody
Callahan. Não serei o segundo outubro do Blair.
O treino começa em vinte minutos.
Vinte eTrês
O rinque está vazio, nada além de gelo, silêncio e o raspar agudo
das minhas lâminas. É cedo, ainda é madrugada demais para o
mundo lá fora se mexer, mas eu gosto assim. O gelo é meu a esta hora.
Sem apitos. Sem gritos. Sem tráfego nas placas ou discos batendo no
vidro.
Deslizo uma, duas vezes. O gelo gruda e depois cede.
Tudo começou como uma forma de me livrar da minha própria
pele. Minha autopiedade está apodrecendo há tempo demais, e aqui
fora, sozinho, não há espaço para isso. Só há tensão, repetição, suor.
Não há ninguém para me atrapalhar, ninguém para decepcionar.
Olhos para a frente. Eu me inclino para a memória muscular, para
o trabalho. De volta ao básico, e foco nos pequenos detalhes. Giro. As
lâminas dos meus patins cravam mais fundo, mais rápido, com mais
força. Eu resisto à queimação, inclinando-me sobre as bordas
externas.
Tenho feito esses exercícios solitários todas as manhãs,
desembaraçando a bagunça que se acumulou no fundo da minha
psique. O gelo guarda minhas confissões, cada uma cortando uma
conversa entre mim e o que eu costumava ser. Minha respiração se
turva diante do meu rosto. Estou a um passo do fracasso.
Minhas lâminas falam por mim. Cruzamento à esquerda: pergunto
a Blair o que ele precisava de Cody. Cruzamento à direita: digo que
estou tentando ser isso para ele agora. Reta: a raiva me invade,
quente, pesada e dura. Curva: a vergonha me invade, e eu recomeço.
Eu abaixo os quadris e patino. Se você estivesse aqui, Cody, eu diria
que seu irmão ainda lidera na linha de frente e carrega mais do que
qualquer capitão deveria. Estou aqui para amá-lo como ele ama: de
frente, sem atalhos.
O gelo espirra sob minhas lâminas enquanto acelero a curva. Todas
as manhãs, venho aqui e me comparo com um fantasma – com o
irmão que Blair perdeu, com o jogador que eu era antes. Meus
pulmões queimam, mas continuo me esforçando.
As luzes do rinque zumbem acima, projetando longas sombras que
me perseguem. Em duas horas, este lugar se encherá de vozes, corpos
e da atividade de ser um time. Mas agora é meu – meu e do fantasma
do Cody, e todos os votos que estou fazendo. Eu me apresso
novamente, com mais força desta vez, lutando contra a hesitação que
se tornou minha sombra. O raspar do metal no gelo ecoa pela arena
vazia. Para frente. Girando. Para trás.
Tenho um longo caminho a percorrer, mas pelo menos estou indo.
Começo a correr, com passadas curtas e agressivas que cortam o
gelo enquanto voo por toda a extensão do rinque. Deveria ser natural,
eu deveria flutuar, mas não é, ainda não. Balanço para longe, giro com
força, a gelo raspando meus molares. Conserte isso, Torey. Tenho mais
para dar. Mais forte. Mais rápido. Continuo em frente. Força.
Impulsiono os calcanhares com força.
É assim que eu rastejo de volta, um centímetro de cada vez.
Algo coça na base da minha nuca. Giro, impulso para a frente,
continuo...
Não adianta fingir; eu o sinto como um nó puxado no meu
estômago.
Olho para cima e lá está ele, encostado nas placas, cotovelos
apoiados no plástico, o olhar fixo em mim. Ele está esperando que eu
lhe mostre grandeza ou esperando meu colapso?
Mantenho a cabeça baixa, concentrando-me no raspar das minhas
lâminas, no baque silencioso do disco contra o meu taco, mas minha
mente está uma bagunça. O que ele vê agora? Ele vê a sombra do
Cody no meu passo? Ou ele vê as brechas onde o Cody teria sido mais
suave, mais rápido, mais natural com o disco? Cada exercício que faço
parece uma comparação que estou perdendo.
Meu próximo cruzamento pega errado e eu tenho que corrigir, uma
pequena gagueira que Blair definitivamente não vai deixar passar; ele
não deixa passar nada. O disco oscila na minha lâmina por meio
segundo antes de eu ajustá-lo. Esses são os momentos que me matam
– não os grandes fracassos, mas os pequenos, a prova de que ainda
estou lutando contra meu próprio corpo pelo controle.
Talvez ele esteja contando meus erros, catalogando todas as
maneiras pelas quais eu não sou o suficiente. Ou talvez – e esse
pensamento me corta mais fundo –, talvez ele esteja me observando
me esforçar tanto que chega a doer e pensando em como Cody nunca
precisou se esforçar.
O gelo reage quando giro bruscamente, lançando um jato que
reflete a luz.
Preciso fazer direito. Não, preciso fazer mais do que isso. Mostrei a
ele um pouco do que ele estava certo e, justo, também mostrei a ele
um pouco do que ele estava terrivelmente errado. Preciso que ele veja
mais do que erros. Se houver uma chance de provar isso, agora é a
hora.
Ele está esperando por brilhantismo ou fracasso, e eu não sei qual
das duas opções vou lhe dar. Giro o disco para o centro, enrolo meu
corpo e então explodo.
Tento acertar precisamente os cruzamentos, as ultrapassagens
rápidas, as transições mais velozes. A aderência do gelo me segura
enquanto faço a curva mais fechada que me resta.
Passo a dobra, puxo com força e tiro o disco da minha lâmina.
Funciona, e eu funciono. O disco está no fundo da rede.
Eu me viro, respiro o frio, engulo a queimação do ácido lático e
deslizo em direção ao banco.
Deixe-o assistir. Deixe-o decidir.
É dia de decisão, dia de escalação, e o vestiário está lotado. Olho ao
redor, para os caras, para os equipamentos, para a vida ao meu redor.
Minha mão desliza sobre o logotipo da minha camisa de treino,
traçando o contorno. Quero que esta seja minha casa. Então, se isso
significa reaprender a nadar, a respirar ou a jogar hóquei novamente,
então eu reaprenderei.
Estou pulando. Estou saltando. Um bom treino, depois uma boa
mudança, uma de cada vez.
Estou tirando meu equipamento, com as mãos ainda trêmulas,
quando a voz do treinador interrompe o barulho.
— Kendrick! O gerente geral quer te ver.
É isso. O ar sai dos meus pulmões. Essa é a caminhada.
Minhas pernas se movem sozinhas, me carregando pelo corredor
enquanto minha mente dispara. O carpete abafa meus passos,
fazendo com que tudo pareça um sonho prestes a terminar mal.
Esta pode ser a última vez que vejo este lugar.
Minha camisa gruda nas costas, ainda úmida de suor. Será que foi
o suficiente? Será que dei o suficiente?
Penso em Blair me observando das placas esta manhã. Relembro
aquele olhar final, seu olhar indecifrável. Seria desprezo? Pena? Será
que ele entrou na sala do treinador e disse que eu não estava pronto?
Será que ele disse que eu nunca seria o que eles precisam?
Meus pés continuam se movendo, mesmo que todos os meus
instintos gritem para eu me virar, correr, e a porta do gerente geral
aparece na minha frente, no final do corredor.
Bato e entro. Ele acena para a cadeira. Sento-me. Ainda sinto o
cheiro do gelo em mim, aquele aroma forte e limpo que geralmente
significa casa, mas que neste momento pode significar adeus.
A cadeira de couro range sob mim enquanto me inclino para a
frente, com as mãos entre os joelhos. O gerente geral estuda um papel
em sua mesa – uma lista de escalação, talvez, ou minhas estatísticas.
Ele não olha para cima. Conto minhas respirações para mantê-las
regulares. Uma. Duas. Três.
O gerente finalmente ergue os olhos. Sua expressão não revela
nada. — Kendrick — diz ele, e meu nome soa definitivo em sua boca.
— Você conseguiu.
Eu pisco. Minha boca se abre, mas nada sai. O suor esfriando nas
minhas costas de repente parece água gelada.
Ele acabou de...
O gerente continua me observando, esperando por algo, mas meu
cérebro não consegue conectar as palavras ao significado. Consegui.
Consegui?
— Você está no time — diz ele, desta vez mais devagar. — Mas não
vamos nos enganar. É por um triz. — Ele se recosta e bate a caneta na
beirada da mesa. — Você está aqui porque achamos que ainda há uma
centelha em você que vale a pena salvar, mas a rédea está curta. Mais
curta do que você provavelmente pode imaginar.
— Eu sei o que isso significa — digo em vez disso, com a voz mais
firme do que eu esperava. — E o que foi preciso para me dar essa
chance.
— O treinador disse que já viu muita coisa por aí. — Ele se recosta,
cruzando os braços. — Então é nisso que estamos apostando. Não nos
faça repensar. Tem vinte caras que matariam pela sua vaga.
— Não vou desperdiçá-la.
O gerente me observa por mais um instante, depois acena com a
cabeça bruscamente. — Ótimo. Porque aqui vai o que acontecerá. —
Ele tira uma pasta da gaveta da mesa e a desliza sobre a superfície de
mogno. — Você está começando na quarta linha. Minutos limitados.
Jogo especial está fora de questão até você provar que consegue
aguentar o cinco-contra-cinco sem desmoronar.
A pasta está entre nós. Meu contrato, provavelmente. Os termos da
minha sobrevivência.
— Você tem se esforçado bastante. Manhãs bem cedo. Exercícios
extras. — Seus olhos se estreitam. — Isso lhe rendeu exatamente uma
coisa: esta conversa em vez de uma passagem de avião para casa.
Você tem trinta dias para nos mostrar que pertence. Entendeu?
— Claramente.
Ele aproxima a pasta. — Assine e retorne para o seu time.
Pego a caneta e rabisco meu nome na linha inferior sem ler uma
única palavra. Meu primeiro contrato na NHL parecia um bilhete de
loteria. Este parece uma tábua de salvação.
Fora do escritório, demoro um segundo até que me dou conta: eu
consegui. Eu entrei para o time. Estou aqui, ainda estou aqui, e ainda
tenho mais de mim para dar.
Eu darei tudo a eles.
Estou em casa.
De volta a sala, é uma festa. O ar está agitado, uma energia caótica
que entra no sangue. Senti muita falta disso.
Hayes atravessa a sala em três passos tranquilos quando entro. —
Kicks! — sua voz ecoa, e ele estende a mão para um toca aqui, depois
me puxa para um abraço fraternal com tapinhas nas costas. — Você
conseguiu! Bem-vindo aos Amotinados!
Ele está encharcado de suor e ainda com suas camadas de base,
embora a maioria dos outros já tenha se trocado e tomado banho.
Percebo que ele estava esperando por mim. Para me dar as boas-
vindas ao time.
Para Hayes, lealdade nunca é complicada.
Sorrio. — É uma sensação boa, cara. É tão boa. — E é mesmo.
— Vamos arrasar nesta temporada. — Ele passa o braço em volta
dos meus ombros e me arrasta para dentro da sala, me envolvendo
no fluxo e refluxo. — Você é um de nós agora. Vamos fazer valer a
pena, hein?
Nosso vestiário vibra com a energia do dia do jogo. Os jogadores
estão prendendo tacos, ajustando equipamentos e praticando seus
rituais. Hayes está dominando a cena, demonstrando algumas
defesas que fez no treino.
Mas Blair não faz parte de nada disso.
Ele está em sua baia, totalmente vestido, exceto pelos patins,
olhando para suas mãos apoiadas em seus joelhos.
Seus cadarços estão pendurados, as línguas dos patins abertas,
intocadas. A fita para os tacos está empilhada ao lado dele, nova e
branca, e ele nem a pegou. Ele respira, e esse é o único sinal de que há
uma pessoa dentro de todo aquele equipamento.
O barulho vindo da sala ecoa e se quebra, mas nunca parece afetá-
lo. Parece que alguém pegou uma colher e arrancou tudo o que era
vital de dentro dele, deixando uma carcaça ali, com o uniforme dos
Amotinados.
Que dia é hoje? A pergunta surge do nada, um clarão na névoa. O
quadro branco perto da porta tem os detalhes de hoje rabiscados. Que
dia?
É o aniversário. Meu Deus, é o aniversário. Hoje. Eu não... porra.
Cody morreu há um ano hoje. Hoje, porque é outubro – outubro,
overdose – e hoje é o dia...
Onde eu estava um ano atrás? Sentindo pena de mim mesmo em
Vancouver? Lamentando que ninguém do meu time gostava de mim
ou que os torcedores escreviam coisas maldosas sobre mim?
Blair estava identificando o corpo de seu irmão.
A sala continua se movendo ao nosso redor, mas ele permanece em
sua bolha de silêncio, olhando para as mãos como se pertencessem a
outra pessoa. Seus dedos se curvam e se abrem.
Eu deveria desviar o olhar, dar a Blair a privacidade de sua dor.
Mas não consigo parar de observar a maneira cuidadosa como ele
respira, a linha rígida de seus ombros sob a camisa. Ele está se
mantendo tão imóvel.
Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias acordando sem o irmão.
De amarrar patins que Cody nunca mais usará. De marcar gols que
Cody nunca verá.
Eu sei como é perder o centro do seu mundo.
Se o universo fosse diferente, se eu tivesse o poder de distorcer o
tempo e o destino, eu daria a Blair uma nova vida e um mundo sem
feridas.
O polegar de Blair faz pequenos círculos lentos na fita do pulso. O
movimento é hipnótico, como se seu corpo precisasse de algo para
fazer enquanto sua mente está em outro lugar completamente
diferente.
Meu inquebrável Blair está cortado em pedaços.
Os olhos de Blair se erguem por um segundo, não para mim, mas
através de mim, através da parede, através de tudo, e então voltam
para suas mãos. Seu polegar para de girar e começa de novo. O
relógio na parede marca o tempo do jogo. Quinze minutos até a hora
em que precisamos entrar no túnel.
Não vou falhar com você hoje.
Meu voto queima até o último vestígio das minhas próprias
ansiedades – o tempo de trinta dias, a rédea curta, a pressão para
provar que pertenço. Nada disso importa.
Um leve tremor percorre o maxilar de Blair. Um músculo se contrai
e se descontrai. É o único sinal da guerra travada dentro dele, o
esforço sobre-humano para não ser engolido por inteiro. Ele está
lutando. Mesmo sentado, perfeitamente imóvel, ele luta com mais
afinco do que qualquer outra pessoa nesta sala.
A sala se movimenta. Os rapazes se levantam, se espreguiçam,
juntam as luvas. Blair finalmente pega seus patins.
Eu arrancaria esta arena inteira, parafuso por parafuso, se um único
parafuso apresentado a ele pudesse aliviar seu sofrimento. Mas a
raiva dentro de mim é inútil, uma fogueira crepitante sem lugar para
queimar. Não há nada que eu possa lhe oferecer.
Ele coloca um patim no colo e passa o cadarço pelo primeiro ilhó.
Ele está se recompondo, afivelando a armadura sobre o ferimento.
Um nó. Depois o próximo. Ele está reconstruindo o capitão do zero.
Seus ombros, que estavam curvados momentos antes, se endireitam
milímetros.
Ele está voltando. Por nós. Pelo jogo.
É a coisa mais silenciosa e corajosa que já vi.
Serei o escudo dele. Serei as pernas dele. Anteciparei cada passe,
bloquearei cada chute e abrirei caminho para que ele só precise
patinar. Derramarei cada grama da minha energia no espaço ao redor
dele.
Hoje à noite, eu jogarei por ele.
Terceiro período, jogo empatado. Minhas pernas estão mais fortes
do que em toda a temporada. Cada passe que faço é mais preciso,
cada escolha de posicionamento mais precisa. Não estou pensando
em mim, nas minhas estatísticas ou no meu tempo de gelo. Estou
pensando em Blair.
O suor escorre pela minha nuca. Pressão na frente, pressão atrás,
pressão, sempre pressão.
O disco está no canto e eu estou a três passos de distância na
perseguição, lendo os ângulos. A frente deles aperta, mas eu chego
primeiro, e vejo uma brecha se abrir entre seus defensores cansados.
Seguro o disco na minha lâmina, jogo-o para Hawks e avanço com
força para o ponto. Seu passe de retorno vem seguro, e o impacto
atinge o cabo do meu taco. Temos no máximo cinco segundos até que
a defesa nos prenda. Quatro. Eu empurro.
Vai agora, vai.
O momento é perfeito. O disco está leve. O gelo está vibrando. Meu
peso se transfere para o pé de trás. Meu taco flexiona e eu o deixo ir;
é tão simples quanto respirar.
Eu respiro e chuto...
E o disco voa para o fundo da porra da rede. A luz vermelha acende
enquanto o apito soa. É meu primeiro gol como um Amotinado.
Antes que eu perceba, estou nas placas, braços no ar, tonto de
vitória. Hollow me ataca, depois Hawks, depois Hayes.
— Porra, sim! — grita Hayes. Ele agarra meu capacete, me sacode
como se eu fosse uma boneca e provavelmente parte metade dos
meus neurônios ao meio. Eu deixo. Estou sorrindo como não sorria
há anos.
— Isso aí, Kicks! Continua firme, porra! — grita Hollow.
A multidão está de pé, o prédio treme com o barulho.
E no meio de tudo isso, em meio à pilha de companheiros de time
e ao rugido de vozes, encontro Blair.
Nossos olhares se encontram através do gelo. Ele inclina o queixo
para mim, seus olhos de um azul mais intenso do que qualquer
oceano que eu já tentei esboçar. Por uma fração de segundo, o mundo
é só ele e eu, suspensos em holofotes e adrenalina. Eu me permito
respirar fundo, a certeza de que fiz uma coisa certa esta noite por ele;
é a primeira respiração profunda depois de uma longa patinação.
Carreguei um pedaço do seu fardo por um período, uma tacada, uma
batida do coração.
Então Divot bate nas minhas costas, gritando, e o feitiço se quebra.
Blair se vira, patinando em direção ao centro do gelo para a disputa.
Ele bate o taco no gelo ao passar por mim.
O treinador me dá uma pancada no ombro enquanto pulo por cima
das placas de volta ao banco. — É disso que estou falando, Kendrick!
O vestiário explode quando voltamos após o apito final. Vitória por
3 a 2, com meu gol marcado como o da vitória.
Já faz muito, muito tempo que não sinto essa adrenalina
vertiginosa da vitória.
A confusão na sala cessa quando Blair se levanta, segurando um
disco de jogo na mão. Uma fina camada de suor ainda brilha em sua
testa.
— Um jogo e tanto, do primeiro ao último período. — Blair faz uma
pausa e deixa o olhar percorrer a sala. — Isso vai definir o nosso ritmo
na temporada.
Ele segura o disco do meu gol. — Kicks — diz ele. — É a sua
primeira vez como um Amotinado.
A sala explode. Tacos batem no chão. — A primeira de muitas! —
grita Hayes.
Meu rosto fica vermelho. É tradição: o disco do primeiro gol,
apresentado pelo capitão.
Ele atravessa a sala e estende o disco. Quando o pego, nossos dedos
se tocam e seus olhos se fixam nos meus. Estou perdido em seus
oceanos azuis; eles parecem o sol se pondo no horizonte à beira do
oceano. Não consigo respirar. Nossas mãos permanecem
entrelaçadas em volta do disco por um segundo, dois, três, mais
tempo do que o necessário.
Isso é para você, eu penso.
Então ele solta minha mão e dá um passo para trás. — Muito bem,
Kicks.
— Obrigado.
Afundo de volta no banco, girando o disco nas mãos, percorrendo
seus arranhões e marcas. Borracha preta, fita branca onde Blair
escreveu a data, o placar, meu nome. Já marquei gols antes – centenas
deles –, mas este é diferente. Num dia em que outubro significa tudo,
exceto hóquei, ele e eu demos este jogo um ao outro.
Meu primeiro objetivo como um Amotinado de Tampa Bay. O
disco está frio e sólido na minha mão. Cada treino matinal, cada
sessão de treino noturna, cada momento em que forcei meu corpo
além do que eu achava que ele poderia suportar – tudo está
comprimido neste círculo de borracha vulcanizada de sete
centímetros e meio.
Viro o disco e o viro dentro de mim. Será que eu conseguiria
comprimir meu amor por Blair em um disco que eu pudesse passar
para ele, para que ele pudesse pegá-lo, abraçá-lo e mantê-lo por
perto? Será que eu conseguiria enrolar um pedaço de fita adesiva em
volta do meu amor e rabiscar ‘Meu primeiro’, ‘Meu Único’, ‘Meu
Tudo’ para ele?
As bordas do disco cravam na minha palma enquanto o aperto com
mais força. A comemoração continua ao meu redor – toalhas
estalando, música tocando, o caos de um vestiário vitorioso.
Este disco não pesa nada e tudo. São 85 gramas de borracha que
passaram voando pela luva de um goleiro. 85 gramas que fizeram os
olhos de Blair encontrarem os meus através de seis metros de gelo. 85
gramas que fizeram a mão dele chegar até a minha, seus dedos contra
os meus.
Não toquei nele desde…
Hayes se joga no banco ao meu lado. — Que baita chute! No
ângulo, impossível pro goleiro.
— Obrigado. — A palavra sai automaticamente enquanto minha
mente permanece fixa em Blair, em outubro.
Ele dá um tapinha no meu ombro e vai para o chuveiro. Eu também
deveria estar me mexendo, deveria estar tomando banho, mas ainda
não quero. Quando deixar esse momento para trás, ele se tornará uma
lembrança, e as lembranças se provaram instáveis na minha vida.
Fecho a mão em volta do disco. Este é um pequeno círculo de prova
de que eu poderia ser o que ele precisava. Por um período. Por uma
chance. Por esta noite.
Vinte eQuatro
Sento-me na beira da minha cama de hotel, olhando para a fresta
da Baía de Tampa visível entre as cortinas. Abri-as o suficiente para
deixar a luz entrar, mas não o suficiente para mostrar a ponte, e a
água reflete a luz da tarde como vidro quebrado.
Eu deveria ter encontrado um apartamento semanas atrás. O time
me deu autorização, mas em vez disso fiquei suspenso neste quarto
de hotel. Hayes continua dando dicas sobre bairros, sobre praias com
menos turistas, sobre lofts no centro da cidade.
Como seria assinar um contrato de arrendamento e me estabelecer
aqui? Devo escolher um lugar perto de Blair ou longe?
Ajudaria se eu conseguisse me lembrar de onde ele morava, mas, é
claro, memórias inventadas não vêm acompanhadas de detalhes da
vida real. A casa dele – a nossa casa – pisca e desaparece da minha
consciência. Um canal. Uma varanda. Uma alegria banhada pelo sol.
Então, em vez disso, estou preso neste limbo com minhas malas
meio desfeitas em uma vida pela metade. Inspiro. Expiro. Inspiro
novamente.
Estou enrolando.
Viro o celular nas mãos e olho fixamente para a tela. Meu polegar
paira sobre o botão de chamada, hesitante, porque, uma vez
pressionado, não há como voltar atrás.
Talvez a ligação falhe, a conexão caia em algum lugar entre as
torres de celular, e eu terei a desculpa que preciso para...
Não. Chega de brincadeiras, chega de se esconder. Prometi a mim
mesmo.
Clico em ‘Ligar’ e a linha toca uma, duas vezes.
Quase desligo.
— Ei, Torey!
Meu estômago embrulha. — Ei, pai.
— Aquele gol... pura magia, filho. O replay está em todos os canais
de hóquei. Você entendeu o que o Jennings disse sobre o seu manejo
do taco? Tampa está te usando direito, te dando oportunidades de
verdade. Nada como Vancouver...
Ele sempre começa com hóquei, sempre desenrola a fita em que eu
estou patinando como forma de dizer oi. A culpa é minha; adiei isso
por anos demais.
Preciso interromper antes que ele ganhe impulso demais. —
Obrigado. Foi um bom jogo.
— Bom? Foi brilhante. O jeito como você encontrou aquela brecha
no meio do tráfego...
— Pai — interrompo-o novamente. — Preciso falar com você.
— Claro, filho. O que você está pensando?
— Tenho pensado em muitas coisas ultimamente. — Minhas
palavras começam lentamente. — Eu estraguei tudo, pai.
— O que você quer dizer? Os treinadores estão...?
— Não se trata dos meus treinadores nem do time — eu digo. —
Sou eu. Não estou bem. Não estou bem há muito tempo. Estraguei
tudo em Vancouver e... Olha, minha vida não está indo muito bem.
Já estraguei tanta coisa.
— Você teve momentos difíceis. As Orcas não te usaram direito.
— Não, pai, escuta: a culpa é minha. Eu estraguei tudo. A culpa é
minha. — Minha respiração falha. — Toda vez que você achava que
eu estava indo muito bem, pai, eu não estava.
— Torey…
— Você ficou tão irritado com o quão ruim o meu jogo era, e ficou
bravo por mim porque achou que era culpa de todo mundo, mas não
era. Era eu. Cada jogada ruim, cada passe que eu estraguei, a culpa é
minha. O problema nunca foram as Orcas ou meus treinadores. O
problema sou eu. Sempre fui eu. Quase joguei minha carreira fora, e
tenho muita sorte de ter essa chance em Tampa.
— Quero te ajudar. Posso conseguir uma passagem hoje à noite.
Ele não sabe recuar. Nunca precisou. Para ele, eu sempre fui
consertável com bastante sabedoria paterna e tempo.
— Não. Não, pai. Não. Eu sei que você quer ajudar — eu digo, e é
a verdade. — Eu sei que quer, mas eu tenho que fazer isso sozinho.
Consigo imaginá-lo com o celular encostado no ouvido, tentando
processar o que estou dizendo. Tentando entender por que o filho o
está afastando, quando tudo o que ele sempre fez foi me empurrar
para a frente.
— Não entendo. — Sua voz fica mais grave, perde a confiança de
sempre. — O que eu fiz de errado?
Ele não fez nada de errado, na verdade. Ele me amou do único jeito
que sabia, através do hóquei, através dos meus sucessos, sendo meu
maior fã mesmo quando eu não merecia.
— Você não fez nada de errado. Você foi um bom pai. Você é um
bom pai. Mas eu tenho... eu preciso... — Não sei como explicar.
Ouço-o se mexer, provavelmente andando de um lado para o outro
como faz quando está resolvendo um problema. — O que você está
dizendo?
— Estou dizendo que preciso de tempo. — Minha mão livre agarra
a beirada da cama. — Preciso trabalhar em mim mesmo. Preciso...
preciso parar de me preocupar constantemente em decepcionar
você...
— Torey...
— Pai — expiro. — Preciso descobrir quem eu sou e o que eu quero,
e não posso fazer isso se tiver medo de não corresponder ao jogador
ou ao filho que você quer que eu seja. Preciso me entender. Preciso
parar de atuar e começar... a viver de verdade.
— Eu não... eu não sei o que dizer. Você é meu filho. Eu deveria
ter... — Meu Deus, consigo ouvi-lo querendo juntar tudo e me
recompor.
— Não é sua culpa. Você fez tudo o que podia — sussurro.
Sua respiração preenche a linha. — Farei tudo o que você precisar.
Só quero o que for melhor para você.
— Eu sei que sim, mas agora, o melhor é eu aprender a me virar
sozinho. Eu preciso... crescer. Agora, eu preciso de espaço, pai.
Preciso que você me dê espaço para me descobrir.
— Por quanto tempo?
A pergunta é tão simples e tão desesperadora. Quanto tempo até o
filho dele voltar? Quanto tempo até as coisas voltarem ao normal?
— Não sei.
A respiração do meu pai preenche o silêncio entre nós. — Torey,
eu... eu não sabia que você estava com dificuldades. Por que não me
contou?
— Porque eu sabia que você tentaria consertar. Você sempre tentou
consertar tudo, mas desta vez não pode.
Meu pai se definiu como meu maior defensor por tanto tempo que
não tenho certeza se ele sabe ser outra coisa. Pelo que parece uma
eternidade, ele tem sido a única voz positiva na minha vida. E mesmo
quando meu jogo estava apodrecendo, ainda significava tudo ouvi-lo
dizer que eu era incrível, que eu era ótimo, que eu era seu filho
fantástico.
— Certo. — Ele expira lentamente. — O que você precisa que eu
faça?
— Seja meu pai — digo a ele. — E me dê um pouco de espaço.
O silêncio se instala entre nós, repleto de vinte e três anos de
hábitos que nenhum de nós sabe como abandonar. — Ainda posso te
mandar mensagem?
— Sim. — Meu dedo traça o padrão da colcha do hotel. — Mas não
sobre hóquei. Não sobre minhas estatísticas, meus minutos ou o que
algum analista disse. Conte-me sobre o seu dia — digo. — Conte-me
sobre qualquer coisa, menos hóquei.
— Eu posso fazer isso. — Ele faz uma pausa. — Torey? Você vai
ficar bem?
Não tenho uma resposta que não o preocupe mais. — Estou
trabalhando nisso.
— Isso não é... — Ele se interrompe, e um gole na linha interrompe
qualquer resposta de ‘conserto’. — Tá bom. Tá bom, filho. Estou com
saudades — diz ele.
— Sinto sua falta também. — E sinto, muita mesmo. Éramos tão
próximos quando eu era pequeno. Ele era meu herói, e eu era o dele,
mas nos perdemos com o passar dos anos. — Mas eu preciso fazer
isso. Por favor, tente entender.
— Estou tentando. — Sua voz falha na segunda palavra, e fecho os
olhos contra o som do meu pai se quebrando. — Eu te amo, Torey.
Não importa o que aconteça.
— Eu também te amo, pai.
Outra pausa se estende entre nós, repleta de tudo o que não
sabemos como dizer. A tensão em seu silêncio é a tentativa dele de
manter essa conexão, mesmo enquanto eu lhe peço para deixar ir. —
Cuide-se — ele finalmente diz. — E quando estiver pronto... quando
for... eu estarei aqui.
— Obrigado, pai.
— Adeus, filho.
— Tchau.
A linha cai, mas mantenho o telefone pressionado contra o ouvido
por mais um segundo, dois, três. O quarto está silencioso demais
agora, parado demais, como se todo o ar tivesse sido sugado para fora
com aquela despedida. Papai tem sido minha constante desde antes
de eu aprender a andar, antes de eu conseguir segurar um taco. Cada
jogo, cada treino, cada triunfo e fracasso filtravam-se pelos olhos dele
antes mesmo que eu pudesse processá-los.
Deixo meu telefone de lado e me inclino para a frente, com os
cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos.
Passei um ano que não consigo lembrar me tornando um homem
que mal reconhecia. Agora é hora de escolher quem eu quero ser.
Vinte eCinco
A academia é onde os atletas ganham a vida.
O suor paira espesso no ar. Hollow está pulando cordas no canto,
e Reid parece estar a um levantamento terra de um aneurisma.
Hawks está no meio de uma série absurda de saltos em caixa. Minhas
pernas parecem concreto, mas ele continua saltando, alcançando
alturas cada vez maiores. Hayes está à minha direita, empurrando
mais três repetições.
Estou deitado no banco, com halteres nas mãos. O metal frio aquece
minhas palmas enquanto estabilizo minha respiração. Repetições de
cinquenta hoje. Não é meu máximo, mas o suficiente para que eu
precise me concentrar. Afasto os pés; o tapete de borracha adere sob
meus tênis. Eu me levanto, sinto a tensão e o tremor nos antebraços.
Um.
Baixo. Devagar. Controlado. Os halteres tocam as bordas externas
do meu peito antes de eu empurrá-los de volta para cima. Dois.
Minha mente vagueia para o jogo da noite passada. Eu devia ter
mirado no ângulo superior, em vez de tentar passar o disco pelas
pernas do goleiro. — Foco — digo baixinho. Perdi a conta. Cinco?
Seis? A queimação está aumentando, espalhando-se pelos meus
peitorais e ombros.
Blair está aqui. Ele está suado, silencioso e concentrado nos
kettlebells à sua frente como se fossem o peso do mundo. Sua
intensidade é contagiante; estou me esforçando o suficiente? Estou
fazendo o suficiente? Não, ainda não. Ainda não.
— Cotovelos para dentro, Kicks.
Hayes nem está olhando, mas já sabe. Meu olhar cruza com o dele
e giro os pulsos para me estabilizar. Quando termino a série e me
sento, giro os ombros até uma articulação estalar.
Blair grunhe e completa outra repetição impecável. Sua respiração
está perfeita – quatro contagens para dentro, quatro para fora.
Quando me levanto, Hawks pega uma bola e a joga para frente e
para trás como se alguém tivesse colocado um motor nos braços dele.
— Quer exercício de bíceps, Kicks?
Rio. — Claro, mas não grite por misericórdia depois de três
repetições.
— Vai se ferrar.
Estamos amontoados na mesa de canto de uma hamburgueria
minúscula a 800 metros do rinque. Hayes pede um sanduíche com
queijo derretido e carne duplo, bacon duplo, tudo duplo – e uma
cerveja. Os outros seguem, pedindo hambúrgueres, sanduíches com
queijo derretido e carne e frango à parmegiana... e todos pedem uma
cerveja também.
Quando chega a minha vez de fazer o pedido, hesito.
— Sprite — eu digo, e sabe de uma coisa? É mais fácil do que eu
esperava. Ninguém pisca. A garçonete acena e anota, já se virando
para anotar o pedido de Blair. Estou construindo esse momento na
minha cabeça há semanas, esperando que todos parem e me olhem
fixamente quando eu não pedir uma cerveja, mas o mundo continua
girando.
Já se passaram dezenove dias desde o bar em Columbus. Não que
eu esteja contando.
Definitivamente estou contando.
Hawks está contando uma história sobre uma garota que conheceu
num bar no fim de semana passado, gesticulando com um palito de
muçarela. Eu ouço pela metade, concordando com a cabeça nos
momentos certos, mas minha mente continua voltando ao meu
pedido de Sprite.
— E aí, cara — diz Hayes, cutucando meu ombro. — Tá com a
gente?
— É, desculpa. — Balanço a cabeça, me forçando a voltar à
conversa. — Pensando no treino.
A garçonete volta com nossas bebidas, colocando meu Sprite na
minha frente. As bolhas sobem à superfície, estourando uma a uma.
Hayes brinda sua cerveja com meu refrigerante, e eu seguro aquele
Sprite como se fosse um troféu.
A temporada mal começou e cada jogo até agora tem sido uma
batalha. Meu relógio de trinta dias está correndo.
O gelo me chama depois que todos os outros já saíram. Meus patins
abrem novos sulcos na lâmina perfeita do Zamboni, e eu empurro
com mais força, cruzando com precisão o círculo de disputa de disco.
É aqui que eu resolvo o ruído na minha cabeça: as oportunidades
perdidas, as reviravoltas, as hesitações de frações de segundo que nos
custaram gols. Eu inclino uma curva e me acomodo no fogo, afundo
mais fundo no meu fluxo, naquele lugar perfeito onde a dor se
transforma em progresso.
Mais uma volta. Depois outra. Este é o único segredo: continuar em
frente.
Filmes durante o voo significam que a maioria dos caras está em
modo cochilo, especialmente depois da nossa sequência de quatro
jogos em três fusos horários. Não consigo dormir tão facilmente.
Minhas pernas estão muito doloridas, muito rígidas, e mesmo tendo
espaço para nos esticarmos, e estes não são assentos na classe
econômica, nenhum avião é feito para quadríceps como o nosso. Eu
queria que o mesmo silêncio e ruído branco pudessem me embalar,
mas meus pensamentos zumbem tão alto.
Temos perdido jogos a cada ponto conquistado. Um passo para
frente, dois para trás. Os caras estão tentando – todos nós estamos
tentando –, mas a química ainda não está definida. Talvez o jogo de
amanhã mude as coisas. Talvez eu finalmente encontre meu ritmo.
Mas esta noite, estou à deriva, contando derrotas em vez de dias
sóbrios.
Enrolo-me no meu moletom e finjo que estou distraído com o
celular, mas a verdade é que estou de olho em Blair. Ele está afundado
na própria fileira, com a cabeça encostada na janela, os fones no
ouvido. Seu perfil é nítido contra o vidro escuro, os ângulos e as
sombras da cabine escura. Ele também não está dormindo.
Olhar para ele é uma fuga. Não consigo encará-lo em nenhum
outro momento além deste, quando ninguém consegue me pegar,
sem demonstrar o quanto sou esquisito. Quero observá-lo o tempo
todo. Eu deveria desviar o olhar; sei que deveria.
Vinte e seis dias sóbrio, e Blair ainda me deixa bêbado.
Hollow está vindo pelo corredor, voltando de uma ida ao banheiro.
Ele me dá um soco no ombro. — Você vai ficar acordado a noite toda,
Kicks? Cara, fecha seus malditos olhos e deixa o Sandman3 te pegar.
3 “Sandman” é uma figura mítica que “faz as pessoas dormirem”.
Concordo com a cabeça, mas não fecho os olhos. Ainda não. Blair
se mexe no assento, franzindo a testa. Talvez sinta meu olhar. Desvio
o olhar e esfrego os olhos. Hollow tem razão; eu deveria dormir.
Temos um jogo amanhã e preciso estar alerta. Mas dormir significa
sonhar, e meus sonhos são sempre preenchidos por olhos azuis como
o oceano e mãos que sabem exatamente onde tocar.
Isso algum dia desaparecerá?
Eu quero isso?
Mais um quarto de hotel, mais uma noite antes de um jogo fora de
casa. As paredes são bege, o carpete é bege, as cortinas são bege com
um toque dourado que supostamente tornaria este lugar luxuoso.
Mas não é. Estou esparramado em uma cama king-size macia demais.
A TV zumbe, com os melhores momentos dos jogos do dia projetando
uma luz bruxuleante no teto. Minha bolsa de equipamentos está
desfeita em um canto, esperando pela manhã.
Vinte e oito dias. O número se repete na minha cabeça como um
mantra. Vinte e oito dias sentindo tudo – as dores, as perdas, o desejo
– sem nada para me entorpecer.
As paredes nesses lugares são sempre finas demais. Um chuveiro
está ligado em um cômodo próximo, uma conversa é abafada no
corredor, a máquina de gelo range no corredor. Blair está em algum
lugar próximo, cumprindo seu próprio ritual pré-jogo e
completamente alheio ao espaço que ocupa em meus pensamentos.
Pego meu tablet, navegando pelos aplicativos até encontrar o que
procuro: melhores momentos dos jogos. Digo a mim mesmo que é
para estudar, para melhorar, mas isso é só meia verdade. O vídeo
carrega, e lá está ele. Blair. Apoio o tablet em um travesseiro e tiro
meu caderno de esboço da bolsa. Está esfarrapado, gasto e cheio de
desenhos inacabados que nunca mostro a ninguém. Meu lápis paira
sobre a página em branco, a tela mostrando o gol de Blair no contra-
ataque contra o Toronto.
Ele tem uma vantagem impressionante no gelo, e seus patins têm o
poder de iniciar ou interromper algo lindo. Rebobino o vídeo,
obcecado pelos detalhes. O movimento dos quadris dele. O bloqueio
que ele faz para Hawks parece acidental, tamanha a velocidade com
que ele entende o gelo. Meu lápis arranha enquanto traço os
contornos do seu rosto. Sombreio suas maçãs do rosto, tentando
capturar a intensidade dos seus olhos. Ele é maior do que qualquer
esboço que eu pudesse colocar no papel.
Pauso o vídeo em uma imagem em que ele está comemorando, com
os braços erguidos. É um momento de emoção que nunca vejo fora
do gelo, e quero capturá-lo, guardá-lo. Se eu preencher outra página
com ele esta noite, talvez o sono venha mais fácil.
Vinte e oito dias sóbrio, e estou intoxicado por uma imagem
pausada.
Dobro os joelhos e desenho até sentir cãibra na mão, até o rosto de
Blair me encarar de cem ângulos. Não consigo acertar direito. Sempre
falta alguma coisa, alguma centelha de vida que meus esboços não
conseguem captar. Meu lápis consegue imitar seu maxilar ou a curva
de sua testa, mas não consegue recriar a força de sua vontade. Esfumo
a sombra sob seu olho com a ponta do polegar, tentando aprofundá-
la, dar-lhe a história que sei que está ali, mas parece apenas uma
mancha. Estou tentando encontrá-lo nesta página, mas não consigo.
A tela do tablet escurece, adormecendo antes de mim. Deixo o
caderno de lado e flexiono a mão, aliviando a dor.
Vinte e oito dias sóbrio, e Blair Callahan ainda é a única droga que
não consigo largar.
Hayes bate no frasco de ketchup na borda do prato. — Acho que
eles colocam cola nessas coisas. Quem está guardando o ketchup
como se fosse ouro?
— Poderíamos transformar o ato de despejar ketchup em um
desafio de formação de equipe. Quem consegue arrastar a maior tira
de ketchup pelo gelo?
Ele bufa. — Você precisa de ajuda.
— Diga-me algo que eu não saiba.
— Tenho que te mostrar isso. — Hayes ergue o celular. — A Lily
arrasou na trave de equilíbrio ontem. Ela deu uma cambalhota com
uma mão só. Minha filha tem coragem.
Não conheço a Lily; ela só existe para mim nas histórias do Hayes
e nas fotos e vídeos com os quais ele enche o saco de todo mundo. Ele
abre um vídeo, mas eu só assisto até a metade. Um nó se forma em
mim, e ele está lá sempre que ele fala da filha. Mas ele é a definição
de um pai orgulhoso, e pelas histórias dele, ela é uma ótima criança.
O nome de Erin acende na tela no meio do vídeo. Ele interrompe a
reprodução logo antes da cambalhota épica de Lily e responde
imediatamente. — Amor? O que foi? — Então: — Ela o quê? — Sua
voz muda para um tom de pai preocupado. — O que aconteceu?
A voz de Erin chega ao telefone, fraca, mas frenética. Os olhos de
Hayes se erguem rapidamente, encontrando os meus. — Ela está
bem? — Sua voz falha, um som que eu nunca ouvi dele.
Ele se levanta. — Ok, já estou indo. Aguenta firme, tá? — Ele
desliga, guarda o celular no bolso e já está na metade do refeitório
quando o alcanço.
— Ems?
— É a Lily. Ela quebrou o braço. Eu já disse um milhão de vezes
para ela não subir na porra da palmeira, e o que ela faz? — Ele geme
com os dentes cerrados. — A Erin está no pronto-socorro com ela.
— Eu vou com você.
Hayes está quieto; é a primeira vez que ele fica sem palavras. Nós
serpenteamos pelas ruas e passamos os sinais, e finalmente ele
começa a desabafar enquanto amassa o volante. — A Erin não precisa
disso, cara. Ela está... porra... — Ele bate a palma da mão no volante.
— A Erin está tão exausta, Kicks. Essa merda do câncer... Ela está
tentando se recuperar, mas tem sido...
Ele não fala muito sobre isso. Se esses tratamentos funcionarem
como prometeram, talvez ela se cure. É uma palavra difícil de usar, e
ele só a disse uma vez.
— Erin é uma guerreira. — Eu pareço super sem graça. — Mas, é.
Porra.
Ele suga o ar e solta uma risada abafada. — Se eu nunca mais
entrasse num hospital... — Sua garganta se contrai, mas não sai mais
nenhuma palavra.
Hospital é a única palavra que você não deve usar perto dele.
Aprendi isso em alto e bom som. Hospitais podem quebrá-lo. Ele
passou por muitos corredores estéreis, ouviu muitos soluços
abafados atrás de cortinas. Há muito desamparo pairando ali para ele.
Eu tenho meu próprio horror quando se trata de hospitais; a ideia
de acordar em Vancouver é como engolir cacos de vidro. — Você e eu
— digo suavemente.
— Minha filha já passou por hospitais o suficiente. Ossos
quebrados não deveriam fazer parte do acordo.
Entramos derrapando na entrada do pronto-socorro; Hayes mal
consegue parar o carro. — Vai. Eu cuido disso — digo a ele.
Ele deixa as chaves, o motor ainda zumbindo, e corre para dentro.
As portas automáticas o engolem por completo, e fico sozinho com
o motor fazendo tique-taque e minha própria respiração. Minhas
mãos seguram o volante, colocam a alavanca de câmbio no P,
desligam a ignição.
A garagem se estende à minha frente, manchas de óleo e linhas
pintadas se misturando. Vancouver. Três dias naquela cama de
hospital, sem saber em que mundo eu estava vivendo. Lembro-me
das minhas lágrimas, de como pensei que me afogaria nelas, de como
eu desejava poder fechar os olhos e nunca mais acordar. Ou acordar
de volta em uma vida com Blair, porque...
Eu me forço a sair do carro. Tranco-o. O estacionamento ecoa meus
passos de volta.
Paro a três espaços da entrada. Uma mulher me empurra com uma
criança pequena no colo, o rosto da criança vermelho e inchado de
tanto chorar. As portas se abrem para elas e elas desaparecem na luz
fluorescente, engolidas por aquele silêncio pesado que só os hospitais
conseguem suportar. Respiro fundo uma vez, depois outra. Me
preparo para o cheiro – limpo demais, químico forte, antisséptico e
sempre à espreita. Isso me afeta.
Esfrego a mão na boca, xingando baixinho. Há uma placa
indicando os elevadores e outra a loja de presentes. Viro à esquerda,
em direção à loja. É pequena e lotada, e não sei por que me sinto
atraído por ela, exceto que há algo dentro que me atrai.
Água. Pegue água para Erin, para Hayes. Seja prestativo.
Perambulo pelos corredores apertados e, sob uma pilha
desorganizada de bichos de pelúcia, barras de chocolate e chaveiros,
vejo um lampejo de cor: plástico azul-vivo com pontas laranja-neon.
Uma arma Nerf.
… Blair rindo. Eu me escondendo atrás do sofá, Lily caçando como uma
pequena atiradora impiedosa. Suas balas Nerf ricocheteavam no teto, uma
fantástica rajada de espuma. O clique do plástico, o momento logo antes de
mergulharmos de volta na guerra. O chiado suave dos dardos bombeados a
ar atingindo a parede de gesso. Sua risada, alta, indomável. O cheiro de cloro
e Erin rindo sobre a água. Tínhamos invadido castelos de almofadas do sofá,
atravessado a sala de estar com poço de lava, subido as montanhas da
escadaria...
Ao lado da arma Nerf há um ursinho de pelúcia rosa.
… Lily colocando-o debaixo do braço, sorrindo quando puxei o cobertor
até seu queixo...
O ar se move; ele se move de volta. É como deslizar entre mundos,
como a luz se curvando através de um prisma, mas o que quer que
fosse desaparece antes que eu termine de inspirar.
Minha mão paira sobre a arma Nerf. Esses flashes continuam
acontecendo, momentos tão reais que eu poderia jurar que
aconteceram, mas não aconteceram. Não aconteceram...
Esses sentimentos não me pertencem. Minha mão se move sozinha,
fechando-se em volta do cabo da arma Nerf. Pego o urso também. Seu
pelo é de um rosa berrante, seus olhos são duas contas pretas de
plástico. Segurá-los parece ridículo e necessário, como se eu estivesse
coletando evidências. Evidências de que, não sei. Uma falha na minha
cabeça.
Fico ali, olhando para os brinquedos, tentando entender o impulso
que me fez pegá-los.
— Posso ajudar? — A voz do balconista me assusta. Mexo com a
arma Nerf.
— Não. Sim. Eu... — Engulo em seco. — Só isso. — Coloco a arma
Nerf e o urso rosa no balcão.
A cortina em volta da cama de Lily não é grossa o suficiente para
abafar seu choro. — Mas eu tenho que jogar futebol! E nadar! E você
disse que eu poderia fazer ginástica este ano! Você disse!
A voz de Erin falha, e Hayes diz tudo o que pode. — Eu sei,
docinho. Eu sei.
Hesito do lado de fora da cortina, dividido entre entrar e ficar de
fora, agarrado ao saco plástico com a pistola Nerf e o ursinho de
pelúcia. Sou ridículo. Um brinquedo não conserta um braço
quebrado, e um bicho de pelúcia não substitui um verão perdido de
esportes e piscinas. Não é meu lugar aqui. Sou um companheiro de
time, um estranho. Não sou da família.
A cortina ondula por dentro. A sombra de alguém passa perto de
onde estou. Lily soluça, arfando e chorando.
Respiro fundo, agarro o saco com mais força e empurro a cortina
para o lado.
Erin parece exausta. Ela é mãe, fortaleza e sobrevivente, e a tensão
de cada papel transparece. Os calcanhares de Lily chutam a cama. Ela
tem quatro anos e meio e está com medo, mas esse medo está se
manifestando em forma de raiva e desespero. Hayes está
estranhamente exausto, e suas mãos estão entrelaçadas atrás do
pescoço, sob a aba do boné virado para trás. Suas sobrancelhas estão
franzidas e seus olhos estão arregalados, e ele balança de um pé para
o outro enquanto me olha desamparado.
— E aí, Lily. — Não faço ideia do que estou fazendo. — Sou o
Torey. Jogo com o seu pai. Essa coisa do braço é uma merda, né? Eu
também já fiquei no banco por causa de lesões.
Ela me encara, bufando trêmula.
Há uma enfermeira cansada sentada num banquinho no canto da
sala com cortinas, esperando que Lily se acalme o suficiente para
começar o processo de engessamento. Sento-me ao lado de Lily na
maca e me viro para a enfermeira.
— Que opções de cores temos para gesso hoje em dia?
A enfermeira pisca para mim, depois para Lily, cujos soluços se
transformaram em fungadas. — Rosa, azul, verde, roxo...
— Rosa é perfeito. — Arregaço a manga e estendo meu braço
esquerdo perfeitamente saudável em direção à enfermeira. — Eu fico
com o rosa.
A enfermeira arqueia as sobrancelhas. Ela está paralisada entre o
protocolo profissional e a loucura que pensa estar presenciando. —
Você não tem um braço quebrado — diz ela.
Eu mexo os dedos para a enfermeira. — Não podemos deixar a Lily
ser a única usando gesso. — Sorrio para ela, um pouco envergonhado.
— Se nós dois estivermos engessados, podemos ser companheiros de
gesso. Comparar cicatrizes de batalha. Ver quem consegue mais
assinaturas.
Os olhos úmidos de Lily se fixam nos meus, confusos, mas curiosos.
Sua mão boa enxuga o nariz.
A enfermeira não se moveu.
Hayes franze a testa. Ele não tem certeza do que está acontecendo,
e eu também não, mas Lily não está mais gritando. O saco com a arma
Nerf e o urso está guardado ao meu lado, ainda fechado. Lily não sabe
o que eu tenho.
A enfermeira está me encarando como se eu fosse pregar uma peça
ou, pior, fazê-la perder tempo, mas ela dá de ombros como se dissesse
“seu funeral” e começa a me enrolar.
O gesso molhado é frio e mais pesado do que eu esperava. As mãos
da enfermeira envolvem meu braço perfeitamente saudável, camada
após camada. — Rosa é a melhor cor — digo a Lily enquanto a
enfermeira trabalha. — Fato científico. Deixa você pelo menos trinta
por cento mais rápido no gelo.
Ela funga, com o olhar fixo nas mãos da enfermeira enquanto elas
circulam meu pulso. — Não se joga com gesso.
— Normalmente não, não. Mas aposto que eu ainda conseguiria
vencer seu pai numa corrida.
Hayes bufa atrás de mim. — Nos seus sonhos.
A enfermeira alisa a camada final. Meu braço já parece estranho,
preso nesta concha para a qual me voluntariei.
— Dói? — A voz de Lily é baixa.
— Não. Mas é estranho. Como se meu braço estivesse usando um
suéter muito, muito feio.
Isso lhe arranca um sorriso ínfimo, um tique no canto da boca. Os
ombros de Erin caem um pouco, e a respiração de Hayes se acalma
atrás de mim. Hayes se coloca entre a filha e a esposa e passa a mão
nas costas de cada uma delas.
Mexo os dedos quando a enfermeira termina. — Isso é realmente
incrível. — Me espreguiço e, em seguida, rapidamente pego o saco da
loja de presentes. Graças a Deus, ainda consigo segurar a arma Nerf.
É estranho, sem dúvida, mas consigo tirá-la e mirar no joelho da Lily.
Puff. O clique suave precede o som de um dardo disparando. — Eu
ainda consigo fazer coisas legais também.
Os olhos dela se arregalam.
— Você acha que teria alguma chance numa guerra de Nerfs? —
pergunto a ela, tão sério quanto Clint Eastwood ao meio-dia4.
4Comparação com a expressão icônica de Clint Eastwood em filmes de faroeste, geralmente na cena
do duelo ao meio-dia.
As engrenagens giram atrás dos seus olhos: a raiva se transforma
em curiosidade, em competição. Ela é filha do pai por completo. O
tremor em seu lábio inferior se acalma enquanto ela considera meu
desafio. Seu olhar se move do meu braço envolto em rosa para a arma
Nerf e de volta para o meu rosto.
— Eu poderia vencer você com os dois braços engessados — ela
declara, com a voz ainda aguada, mas ganhando força.
Levanto uma sobrancelha, lutando para manter a expressão
impassível. — Afirmação ousada vinda de uma guerreira que nem
recebeu o primeiro gesso ainda.
— Papai! — Lily vira a cabeça bruscamente. — Eu preciso de um!
Hayes bagunça o cabelo dela e beija o topo da cabeça dela. — É,
tigresa, você precisa.
A enfermeira pigarreia. — Posso colocar para você agora, hmm?
Lily estende o braço machucado, e seus olhos não desviam da arma
Nerf que eu seguro desajeitadamente, engessado. Hayes cruza meu
olhar por cima da cabeça da filha. Acho que ele vai chorar. Ele
murmura um “obrigado” baixo enquanto Erin afunda em uma
cadeira ao lado da cama, os ombros caindo enquanto a tensão se esvai
da sala.
— Conseguir o gesso é como subir de nível — digo a ela. — Você
será uma mestre Nerf depois do treinamento.
— Vai doer? — pergunta Lily, com o olhar cauteloso na enfermeira.
— Não — eu digo. — É legal, como se você estivesse
desenvolvendo uma super armadura.
Ela se vira para mim com os olhos brilhando. — Como um
dinossauro?
— Exatamente como um dinossauro.
— Você vai cair! — O grito de Lily significa assunto sério.
Estou agachado atrás da ilha da cozinha, meu braço engessado
apoiado contra a porta do armário aberta. Minha mão livre procura
às cegas o próximo dardo de Nerf. Ela tem pouco mais de um metro
e é rápida, e para mim isso é questão de vida ou morte. Um dardo de
espuma passa zunindo perto do meu ombro e quica na geladeira.
Hayes nem tira os olhos da panela que está mexendo no fogão. —
Ela não vai hesitar em terminar o serviço.
— Acho que ela está falando sério dessa vez. — Lily recarrega a
arma, com a cabeça mal alcançando o encosto do sofá. Ela é uma
atiradora de elite de quatro anos, com o olhar morto de alegria.
— É. — Ele balança a cabeça, mas continua sorrindo. Não parou de
sorrir desde que saímos do hospital.
Estou frito.
Lily – armada até os dentes e rindo – anda pela ilha e dispara uma
rajada de dardos Nerf em mim. Agarro o peito, cambaleio para trás e
coloco drama demais na minha queda. — Ela me pegou! — grito.
Agito meu braço engessado de rosa e desabo no piso da cozinha com
um gemido. — Estou derrotado. — Abro um olho. — Mas... e se eu
tivesse reforços?
Ela arregala os olhos. — Não.
Levanto a cabeça. — Talvez...
Hayes pega o que eu joguei no chão. Ele se vira do fogão e agarra
Lily pela cintura, virando-a de cabeça para baixo e fingindo dar
mordidas enormes em sua barriga. — É o Papai T-rex!
— Papai!
Aproveito a oportunidade para rastejar e escapar pela cozinha até
onde Erin está sentada à mesa. Desabo no chão ao lado dela, de costas
para a parede, enquanto Hayes finge devorar a filha até o umbigo.
Quando voltamos do pronto-socorro para a casa deles, Hayes já
havia acomodado Erin em uma cadeira e assumido tudo. Ele
acomodou Lily, separou seus analgésicos de bebê, trocou uma carga
de roupa para lavar e preparou o jantar. Ele também desenterrou
algumas armas Nerf na garagem, claramente suas. Peguei a dele e dei
a nova para Lily.
— Ela é algo especial. — Estou apenas parcialmente fingindo
recuperar o fôlego.
Erin ri. — Ela é uma versão miniatura do Hayes. Sua mãe acha que
ela é a coisa mais hilária que já aconteceu com ele.
— Tenho certeza de que ele está recebendo exatamente o que deu.
Ela apoia o queixo na mão. — Ele fala muito de você, sabia?
Minha expressão congela. — Não acredite em nada disso.
— Eu acredito em tudo isso porque é tudo ótimo.
Eu coro. Nem tudo pode ser ótimo, mas não sei o que dizer.
— Você é uma dádiva de Deus, Torey.
Estou exausto, é isso que estou. Minha cabeça encosta na parede e
sorrio para ela. — É o mínimo que eu poderia fazer.
Estou confortável aqui, e parte de mim diz que é assim que deveria
ser: Hayes na cozinha, Erin descansando contente e Lily me tratando
como se fosse seu trepa-trepa pessoal e alvo de Nerf. A cozinha cheira
a alho, manteiga e casa. Mas por quê?
Da cozinha, Hayes soa o aviso: — Chegando!
Lily corre ao redor do balcão, recarregada e pronta para terminar o
serviço. Levanto as duas mãos. — Eu me rendo completamente.
Ela para bruscamente e me observa, então lança um soco vitorioso
com o braço, o mesmo braço que está engessado. Isso não a desacelera
nem um pouco.
— Faltam cinco minutos para o jantar — avisa Hayes.
Lily se joga ao meu lado e se encosta, ainda segurando sua arma
Nerf. Estendo meu gesso e nossos antebraços se tocam. É o nosso
novo aperto de mão. — Combinamos — ela sussurra, como se fosse o
nosso segredo.
— Claro que sim, garotinha.
Entre o hospital e ser o alvo móvel de Lily, o dia cobrou seu preço,
e meus músculos protestam quando me levanto do chão. — Vou
ajudar a pôr a mesa. — A cozinha me é familiar, mesmo que não
devesse ser. Os puxadores das gavetas deslizam como se eu
conhecesse o lugar há anos. — Pratos? — pergunto, já sabendo onde
estão. Armário de baixo, lado esquerdo.
— Sim — diz Hayes por cima do ombro, concentrando-se na massa.
— Copos? — Estendo a mão para a prateleira de cima.
— Certo. — Ele nem se vira, mas há um sorriso irônico em sua voz.
— Você deu conta.
Parece que já tivemos nessa situação uma centena de vezes.
Meu estômago ronca vergonhosamente alto, e Hayes ri. — Parece
que alguém está pronto para comer.
O jantar é exatamente como eu imaginava entre Hayes e Lily.
Nenhum deles tem um modo lento. Lily se recusa a sair do meu lado,
mantendo seu prato perto do meu. Comemos e rimos, e o leite quase
sai do nariz de Lily. Aparentemente, é um dos seus principais
objetivos de vida, e Hayes a está ajudando a praticar. Erin me dá um
suspiro sofrido e sorri para sua família.
Quando a mesa finalmente está uma bagunça de pratos vazios e
guardanapos sujos, eu me levanto, empilho os pratos nos braços e
vou para a pia antes que alguém possa me impedir. Hayes me alcança
e despeja o resto dos talheres na bacia. — Você não precisa.
— Preciso mostrar como esse gesso não me atrapalha. Você vai me
agradecer em alguns dias.
— O rosa foi uma excelente escolha — diz ele. — Realmente
demonstra a força e a garra.
Rio. É tão fácil estar aqui. Atrás de mim, Lily está ocupada na mesa
da cozinha, curvada sobre um desenho e colando adesivos com a
mãe. Erin passa a mão pelos cabelos de Lily, observando-a.
Quando termino de lavar a louça, me jogo de volta na cadeira ao
lado da Lily. Ela me estende um adesivo rosa de dinossauro e o alisa
no meu gesso. — Agora você está com uma cara legal.
Concordo com a cabeça. — Este gesso vai arrasar com a minha
camisa. — Entrego a ela um adesivo de um estegossauro sorridente.
— Acha que eles gostam do sabor de girassóis?
— Com certeza. — O estegossauro se aproxima de uma fileira de
girassóis em volta do seu pulso. Ela me passa um adesivo de macaco
caolho. — Você precisa de mais macacos.
Pego o adesivo, e a superfície brilhante reflete a luz da cozinha. O
macaco sorri para mim com seu único olho. Os olhos de Lily seguem
minha mão enquanto a coloco cuidadosamente sobre o gesso, logo
abaixo do dinossauro rosa.
— E este aqui vai aqui. — Ela coloca um polvo roxo no gesso da
minha palma.
— O que você está desenhando agora? — Eu me inclino para mais
perto para ver melhor o papel dela.
— É você. — Ela aponta para um boneco palito com o que parece
ser um taco rosa no lugar do braço. — E essa sou eu. — Outro boneco
palito, também com um taco rosa no braço. Estamos de mãos dadas
no desenho, ou pelo menos nossas mãos boas estão conectadas por
uma linha trêmula. Acima de nós, ela desenhou o que pode ser chuva
ou confete.
Hayes se move atrás de nós, colocando duas canecas de café na
mesa. Uma desliza na frente de Erin, a outra perto do meu cotovelo.
— Ela está desenhando super-heróis — eu digo a ele.
— Obviamente. — Ele espia por cima do ombro de Lily. — Essas
são as nossas capas ou estamos pegando fogo?
— Capas, papai! — Lily não tira os olhos do seu desenho. — Fogo
seria vermelho e laranja.
— Meu erro. — Ele dá um beijo no topo da cabeça dela antes de
voltar para limpar o resto da bagunça do jantar.
Lily adiciona um sol no canto, depois dinossauros no céu. Sua
língua aparece no canto da boca enquanto se concentra. Ela não é
muito detalhista, mas o coração está todo lá. Redemoinhos de tornado
irrompem de armas Nerf e bonecos palito sorriem.
— Somos nós — diz ela, apontando para sua obra-prima. Ela
desenhou uma flor enorme no topo da minha cabeça.
Um nó se forma no meu peito; é difícil falar. — Adorei. Vou
pendurar no meu armário.
Ela sorri.
Na hora de dormir, Lily me arrasta para o quarto dela. Ela insiste
que precisa me mostrar algo importante.
O quarto dela é um museu da sua pequena vida. É macio e
iluminado por fios de luz cintilantes, imerso numa estética de
princesa que se encontra com o paraíso dos dinossauros. Bichos de
pelúcia enfeitam a cama como uma sentinela de pelúcia. Troféus
esportivos estão por toda parte. O ursinho de pelúcia rosa que dei a
ela depois que ela colocou o gesso está na frente e no centro.
Ela se orgulha de tudo. Ela me leva para passear pelo quarto,
mostrando seus triunfos: gols de futebol, medalhas de natação, um
troféu de basquete. Uma pequena estatueta de ginástica com os
braços erguidos no meio de uma estrela.
— Quer ver meus bichinhos de pelúcia? — ela pergunta, me
puxando em direção à cama.
Depois de me apresentar a um exército de pelúcias – ursos, girafas,
unicórnios, macacos –, os bichinhos vão, um por um, para o armário.
Todos, exceto o ursinho rosa, ficam, e ela o enfia debaixo do braço
enquanto se deita na cama. Dou um passo para trás, dando espaço
para Erin aconchegá-la.
Os olhos de Lily me seguem enquanto me aproximo da porta, sua
mãozinha apertando o ursinho rosa com mais força. As luzes de fada
lançavam sombras suaves em seu rosto, fazendo-a parecer ainda
menor na cama grande.
— Espere — ela diz, e eu paro. Sua voz está baixa, já sonolenta. —
Você não viu meu melhor troféu.
Erin alisa o cobertor sobre as pernas de Lily. — Querida, Torey
precisa...
— Está tudo bem. — Digo, voltando para perto da cama. — Onde
está?
Lily aponta para a mesa de cabeceira, onde um prato de papel está
pregado na parede, acima de uma luminária em formato de T-Rex.
Nele está escrito “Melhor Ajudante” com a letra de Hayes.
— Papai me deu — ela sussurra.
Meu peito aperta. Essa garotinha. Essa família inteira.
— Torey? — ela passa a ponta do dedo mindinho pelo adesivo do
macaco caolho no meu gesso. — Você volta para brincar comigo?
Quem me dera, Deus, quem me dera poder engarrafar este
momento e vivê-lo. — Claro que sim.
— Está na hora de você dormir, Lilyzinha — diz Erin. Hayes está
na porta, de braços cruzados e encostado no batente.
Bagunço o cabelo de Lily e depois o topo da cabeça do urso rosa
também. — Boa noite, guerreira.
Um sorriso se espalha por seu rosto. — Eu disse que podia te
vencer.
— Você disse. — Batemos os gessos mais uma vez.
Seus olhos já estão caídos, as pálpebras tremendo enquanto ela luta
para mantê-las abertas. O urso rosa se move debaixo do seu braço, e
ela se afunda ainda mais no travesseiro. Eu ajeito o cobertor dela mais
para cima. Ela já está cochilando, sua respiração se acalmando, aquela
rendição infantil ao sono tomando conta.
A mão de Erin repousa na testa de Lily, afastando mechas de cabelo
que escaparam do rabo de cavalo.
Recuo lentamente, com cuidado para não perturbar o feitiço. Erin
fecha a porta atrás de nós com um clique bem fraco, e a noite cai. Nós
três ficamos parados no corredor, suspensos no silêncio que se segue
ao colocar uma criança na cama.
— Ela vai adormecer rapidinho — sussurra Hayes, sua voz mal
perturbando o ar entre nós. — Quando ela adormecer, ela já era.
Erin assente. — Principalmente depois de hoje. — Ela me olha de
relance. — Você é tão bom com ela, Torey.
Dou de ombros, subitamente constrangido. — Ela é uma ótima
garota.
Caminhamos em direção à escada, nossos passos abafados contra
o carpete. Eu os sigo. A mão de Hayes pousa na parte inferior das
costas de Erin, guiando-a. Ele dá um beijo em Erin ao pé da escada e
diz para ela descansar um pouco, e Erin segue para o quarto deles.
Então, só restamos nós dois, e ele me puxa para um abraço de urso
de tirar o fôlego. — Você é o novo melhor amigo da Lily, cara. — Ele
diz isso como se fosse um sinal de honra. — E você vai ficar com a
gente para sempre.
Vinte eSeis
Rosa.
É a primeira coisa que chama a atenção quando entro.
— Olha que lindeza! — É o Hollow, claro. Então, um assobio agudo
vem da direção de Divot. O vestiário fica parado por um longo
segundo, e então as palmas começam.
A vítima da guerra Nerf chegou.
— E aí, Kicks! — uiva Hawks em meio ao caos. — Você está
parecendo um cara legal!
— Quem diabos precisa de um chute potente quando você tem um
braço de Barbie? — grita Simmer.
Mais risadas, mais barulho. Meu rosto cora até eu ter certeza de que
estou fluorescente tanto quanto esse gesso bem enrolado. Seguro o
gesso como se estivesse exibindo um troféu. É ridículo, mas
funcionou com a Lily, então foda-se. Aceito a provocação.
— Isso é glitter? — Divot sobe no banco para ver melhor.
— O que diabos aconteceu com você? — Reid ri, olhando para
meus adesivos.
— Senhores — anuncia Hayes, caminhando em direção ao centro
da sala. — Permitam-me explicar.
Ele passa o braço em volta do meu pescoço e me puxa para perto.
Está de roupas térmicas e meias até o joelho com sandálias, e seu
sorriso é daqueles que só travessos sabem dar.
Deus, aqui vamos nós.
— Vocês nem sabem... nem sabem... o que realmente aconteceu com
esse herói ontem. Estou no pronto-socorro, pirando com a minha
filhinha e o braço quebrado dela. A Erin está estressada, a Lily está
em colapso, e aí esse cara... — Ele aponta para mim, prolongando a
frase. — Essa lenda em pessoa... — ele faz um gesto grandioso da
minha cabeça aos pés — ... entra no hospital e decide, sabe de uma
coisa? Ser jogador de hóquei não é foda o suficiente.
Ele está em pleno modo showman. Sua voz sobe, soando nos
momentos certos. — Não, o Kicks não está aqui dando autógrafos ou
beijando bebês. Não, não. Esse herói entra, senta-se ao lado da minha
garotinha chorosa e diz à enfermeira que precisa do próprio gesso,
um que combine com o dela, porque ele também quer ser um dos
caras legais.
Risadas estrondosas. Até os treinadores, que estavam no meio da
arrumação dos equipamentos, pararam para me olhar.
Uma voz grita: — Você está falando sério, Kicks?
— Sério mesmo — esbraveja Hayes. — Meu amigo viu uma criança
de quatro anos chorando e disse que essa garota não vai entrar
sozinha na vida de gesso. Me coloca no gesso, treinador!
Passo a mão sem gesso pelos cabelos, na esperança de esconder o
rubor que ainda se espalha pela minha pele. — É só um gesso.
— Só um gesso? Kicks, você mandou direto para a enfermeira: ‘Me
coloque um rosa’. Me diz se isso não é a coisa mais real que você já
ouviu? — Hayes abre os braços, perguntando para a sala.
Eu finalmente desisto, e o riso escapa. Hollow se curva, batendo
uma toalha nos joelhos.
Então Hayes presenteia os rapazes com a Guerra Épica de Nerfs na
Cozinha, descrevendo de forma excruciante como fui atingido por
uma chuva de dardos atrás da porta do armário. — Foi uma queda
da Força Delta!
— Futuro astro do time, logo ali — grita Hollow.
— Melhor que o pai dela! — Hawks e Hollow dão um soquinho.
Hayes nem desacelera. — Kicks entra em cena de morte total, e eu
te digo, havia luz entre sua alma e seu corpo.
Simmer se levanta e começa a bater palmas. Hollow vem em
seguida, e Hawks, depois Divot. Mais aplausos, mais gritos, e os caras
sobem nos bancos, gritam e cantam meu nome. Nunca passei por isso,
nunca, em nenhum time. Torey Kendrick, desastre emocional. Torey
Kendrick, cavaleiro do caos das guerras Nerf.
Acima da cascata de barulho, avisto Blair.
Ele está sentado em frente à sua baia, de braços cruzados. Um fogo
arde sob todo o seu aço frio e controle, mas uma risadinha escapa de
sua garganta, seguida pela curva de seus lábios. Seus olhos, aquele
olhar firme de farol, fixam-se nos meus.
Não consigo desviar o olhar. Seus olhos me prendem no lugar, e o
ambiente ao nosso redor escurece e se torna turvo. Somos os únicos
dois pontos de clareza em uma névoa rodopiante. O canto da boca de
Blair se ergue um pouco mais.
Isso é perigoso. Esse sentimento se espalhando por mim como um
incêndio é perigoso.
Consegui contrair os lábios em resposta, esperando que isso não
traia a revolta dentro de mim. Meu gesso rosa está muito apertado.
Flexiono a mão contra a rigidez, precisando de uma distração para
não me afogar em seu olhar. Hayes continua falando, mas perdi
completamente o fio da meada. Só consigo me concentrar na maneira
como os ombros de Blair relaxam, em como sua mão bate em um
ritmo lento contra seu bíceps, em como sua cabeça se inclina como se
estivesse tentando me entender. A que conclusões ele está tirando, em
que itens estou marcando ou deixando de marcar?
Obrigo-me a desviar o olhar, a concordar com um ponto que Hayes
está levantando e que não percebi. Estou me despedaçando, com
fraturas atingindo a alma.
A porta se abre e entra o treinador, quebrando o feitiço.
Ele foca direto no meu gesso. — Kendrick, que porra é essa? Você
quebrou o braço e esqueceu de avisar a equipe médica, porra?
Há um silêncio de meio segundo em que todos olham de mim para
o gesso e de volta para o treinador.
— Não, treinador, tudo bem, tudo bem. — Hayes vem em meu
socorro. — Nosso cara, o Kicks, foi um verdadeiro herói, senhor. O
senhor deveria convidá-lo para um prêmio. Homem da Semana da
ESPN.
O treinador arqueia uma sobrancelha. — Explique. Rápido.
— Foi pela Lily — eu digo. — Ela quebrou o braço. Precisava de
apoio emocional.
As sobrancelhas do treinador se erguem cada vez mais, e ele me
encara como se já tivesse visto muita coisa, mas nunca isso. Estou
sendo julgado, comparado a anos de salas, confusões e insanidade.
Atrás de mim, todos riem baixinho e escondem o rosto nas toalhas e
camadas de base.
— Sabe de uma coisa? Eu nem quero saber. — Claramente, não tem
como nos conter esta manhã. — Todo mundo no gelo em dez
minutos! E tira esse gesso, Kicks.
A porta se fecha com força atrás dele, e a sala explode novamente.
Um cântico começa, meu nome, repetidamente. Kicks, Kicks, Kicks.
Hayes me dá um tapinha no ombro. — Vamos lá, cara. Vamos tirar
esse rosa de você.
Quando chegamos à suíte médica, Hayes aparece na mesa ao meu
lado. — Essa persona de ‘melhor companheiro de time de todos os
tempos’ pode ser sua nova marca.
O treinador entra, e Hayes presenteia sua plateia cativa com uma
grandiosa recontagem da origem do meu gesso rosa. A cada reconto,
a história se torna mais dramática, meu heroísmo ainda mais
cavalheiresco. O zumbido da serra de gesso percorre meu braço
enquanto a lâmina rompe as camadas de gesso. Passo a passo, a
pressão diminui e, com ela, uma pequena parte de mim.
Quando o treinador se afasta, eu puxo as duas metades e as encaro.
Aqueles adesivos – o macaco de um olho só, os dinossauros – eram a
armadura de batalha de uma garotinha. — Vou ficar com isso.
— Ah, já sente falta?
— Preciso guardá-lo para a nossa guerra de Nerfs. Preciso
descobrir como colocá-lo de volta.
Hayes passa o cotovelo em volta do meu pescoço e esfrega os nós
dos dedos na minha cabeça. — Cara, hóquei é o máximo. Onde mais
você encontra companheiros de time tão loucos assim?
O vestiário está vazio quando voltamos, com todos os outros caras
já no gelo. O lugar é um desastre, com roupas e equipamentos
sobrando, garrafas de água e barras de proteína, sandálias, cabos de
carregamento e bonés, tudo deixado para trás. Hayes caminha até sua
baia para terminar de se vestir, sem pressa nenhuma, quando uma
voz atrás de mim diz: — Tive uma ideia.
Viro-me e Blair está ali, com um punhado de velcro na mão. —
Trouxe isso da sala de equipamentos.
Meu cérebro trava, incapaz de conectar o homem à minha frente
com o pacote de tiras pretas que ele segura. Ele deve ter me ouvido
falando com Hayes. Ele foi e encontrou uma solução sem dizer uma
palavra.
— Para o gesso?
— É. — Ele se aproxima, e o espaço entre nós se reduz a nada. —
Posso?
Concordo com a cabeça, sem confiar na minha voz, e estendo as
duas metades de gesso rosa. Ele pega as duas e vira cada uma como
se estivesse manuseando um artefato frágil. Não ouso me mexer, não
digo uma palavra.
— Segure isso. — Ele me passa uma metade enquanto trabalha na
outra.
Ele se move com cuidado, alinhando as bordas, costura por costura.
Ele é tão cuidadoso, como se estivesse consertando uma fratura.
Observo a linha entre suas sobrancelhas, o amolecimento que se
forma ali enquanto ele se concentra. Ele ajusta o adesivo das tiras de
velcro ao longo das marcas de serra; meu olhar está fixo em suas
mãos, no toque delicado de seu polegar.
Ele trabalha, e eu memorizo a curva do seu maxilar, a forma como
seus cílios projetam sombras em suas bochechas quando ele olha para
baixo. Tão perto, seu aroma de coco e sol me alcança, interrompendo
o cheiro perpétuo do vestiário.
Quando ele termina, posso prender o gesso de volta no meu braço
com velcro quando quiser. — Agora você pode perder para ela de
novo. — Os lábios de Blair se curvam nos cantos, e ele me devolve o
gesso.
— Obrigado. — Minha voz está baixa demais para a velocidade
com que meu coração bate. Uma corrente elétrica passa entre nós,
quente e silenciosa como o espaço entre as estrelas.
A realidade volta ao lugar, muito alta e muito rápida, na forma de
Hayes. — Ei. Estamos atrasados. O treinador vai nos comer vivos.
Merda. Nós nos apressamos. Vestimos nossos equipamentos e
descemos o túnel o mais rápido que conseguimos, atingindo o gelo
num piscar de olhos.
— Pontual como sempre. — O treinador nem olha para nós. —
Deem voltas. Patinem até eu cansar de olhar para vocês.
Nós patinamos, volta após volta e volta.
A queimação retorna. Eu me inclino para isso, deixo que isso
alimente meu deslizamento, minhas curvas. À minha direita, Blair
surge, combinando meu passo por passo, nossas lâminas cortando o
gelo como uma só. Ultrapassamos a curva ao mesmo tempo, voltando
ao centro como ímãs se encaixando; nos movemos como se
estivéssemos presos na mesma onda.
Os olhos de Blair encontram os meus enquanto damos a volta
seguinte. O canto da boca dele se ergue e ele balança a cabeça, e uma
gargalhada escapa antes que ele consiga contê-la. Eu rio de volta, sem
fôlego, e continuamos patinando, passo a passo, lado a lado.
Já é tarde. A maioria dos caras já foi embora, mas estou na academia
porque sempre tenho mais coisas para fazer. Posso reconstruir minha
vida se fizer o trabalho direito.
Não estou sozinho. O peso de Blair, que a maioria de nós não
deveria nem olhar, é impressionante. Sua forma física é perfeita –
costas retas, ombros firmes, a barra subindo em um arco suave
enquanto ele se agacha e depois se levanta. O suor escurece sua
camisa entre as escápulas. Conto cada respiração dele, combinando
minha inspiração com a expiração dele.
Eu deveria ir embora. Eu sei que deveria. Mas meus pés
permanecem presos ao chão e meus olhos fixos nele. Seus ombros são
largos o suficiente para carregar um time. Uma vez, eles me
carregaram...
Não, não carregaram. Preciso manter a cabeça no lugar. Não estou
aqui para me perder no passado ou em ‘e se’. Estou aqui para
reconstruir, para me impulsionar de volta para onde preciso estar.
Não vou implorar ao passado para me dar um futuro fácil.
E a verdade é que essas memórias às quais me agarro não são
memórias; são fantasmas que me assombram. São sussurros de uma
vida que nunca existiu.
Quero ser melhor. Quero ser digno – das expectativas do meu pai,
das aspirações da liga, da empolgação dos fãs por mim quando fui
convocado. Quero ser melhor por mim, por todos os meus sonhos,
esperanças e desejos perdidos.
E... quero ser digno do amor e do orgulho que costumavam existir
nos olhos de Blair, mesmo que esse amor nunca tenha sido real, e
mesmo que tenha vivido apenas nas sinapses superexcitadas do meu
cérebro contundido. A fantasia se disfarça de memória. A memória
se disfarça de desejo. De qualquer forma, quero que ele me conheça
por inteiro: as partes que enterrei, os pedaços que trabalhei para
esquecer e os lugares que ainda preciso descobrir dentro de mim.
Os olhos de Blair se erguem rapidamente. São infinitos, de um azul-
marinho, o oceano em um dia sem vento, estendendo-se até a borda
do mundo. Um oceano de inverno; é isso que ele é, águas escuras e
turbulentas que te levariam embora se você pisasse em falso. Seu
olhar costumava me encontrar, e havia calor nele, uma faísca que
dizia que estávamos juntos nisso. Agora, seu olhar desliza por mim,
fixo em algum ponto distante que só ele consegue ver.
Ele está carregando algo pesado e não quer largá-lo. Quanto mais
ele segura, mais endurece em torno dele.
Quero ser o lugar onde ele exala. Quero dar a ele um motivo para
se inclinar sem hesitar diante da palavra. Quero dizer: ‘Me dá um
pedaço, eu consigo segurar e não vou deixar cair’. Meu cérebro
escreve frases que eu nunca digo, conversas inteiras em que ele me
deixe apoiá-lo. Nessas, sua voz fica suave novamente, como acontece
quando ele fala comigo sozinho, e o frio dentro dele se aquece o
suficiente para brilhar.
Eu quero ser tudo para ele.
Não facilitei isso. Vodca não é exatamente uma carta de amor.
Inconsistência também não. Se eu fosse ele, olharia para mim e me
perguntaria se posso contar comigo.
Seu olhar se fixa no meu por um segundo. Dois. Três. Ele não fala,
e eu também não, mas estamos entrelaçados agora, e meu silêncio
responde ao dele.
Então seus olhos caem e o momento se estilhaça.
Viro-me, fingindo estar ocupado. Minhas mãos estão firmes, mas
meu interior treme. É isso que nos tornamos: uma coleção de quase
momentos, de olhares que se prolongam por um segundo a mais.
Blair volta a arremessos limpos. Sua linguagem corporal é áspera e
crua, seus movimentos são duros e brutais.
Tenho que acreditar que a escuridão em que ele se encontra não é
permanente. É temporária. E mesmo na quietude, e mesmo quando
ele não me dá nada, sou reescrito por ele.
Então eu fico aqui. Eu fico com o homem que costumava ser o meu
mundo, mesmo que eu tenha sido exilado, mesmo que minhas
memórias sejam um mosaico de cacos de vidro. Sou um homem
caminhando por uma praia desconhecida. O lugar que deixei ficou
para trás e o que está à minha frente não me pertence. A areia se move
sob meus pés, instável e traiçoeira, como tudo o mais na minha vida
agora.
Eu o amo. É um amor que quer carregar água para ele, afiar suas
lâminas e resistir a qualquer vento que esteja cortando seu rosto.
Nadarei nessas águas escuras para sempre enquanto Blair estiver
aqui comigo.
Vinte eSete
A temporada ganha ritmo. Conquistamos uma vitória em Detroit,
um ponto em Chicago e perdemos uma disputa de pênaltis em Jersey.
Meus minutos na quarta linha se mantêm estáveis. Jogo após jogo,
o gelo começa a fazer sentido novamente. Escolho jogadas mais
limpas, recupero minhas habilidades no meio do período, paro de
ficar pensando duas vezes no disco quando ele se encaixa na minha
lâmina. Acumulo pontos; pequenos, assistências secundárias e
avaliações positivas e negativas que sobem lentamente. Não é nada
chamativo, mas minhas estatísticas estão subindo.
Ainda não é o suficiente. Ainda há uma lacuna entre o que sou e o
que preciso ser.
Eu mexo nas placas durante o treino, um toque atrás do outro,
fingindo que o disco é tudo o que importa, mas Blair está na minha
visão periférica, encostado no vidro. Ele não me diz mais do que dez
palavras por semana, e eu vivo dessas dez palavras como se fossem
calorias.
— Você não está no ponto — Blair finalmente me diz durante a
patinação matinal, sua voz me prendendo no meio da curva.
Paro rápido demais. — Como?
— Você não é rápido o suficiente na sua lâmina interna — ele diz,
com o queixo apontando para o meu patim esquerdo.
Mudo de posição, testando sua flexibilidade contra o gelo sulcado.
— Não sabia que você estava observando.
— Estou sempre observando. — Seus olhos estão nos meus quando
ele diz isso, e eles demoram um segundo a mais antes que ele vá
embora.
— Cabeça erguida, Kendrick. Você está olhando demais para o
disco.
Dou mais uma volta no gelo, e a ardência nas minhas coxas
aumenta, meus tendões se arrastam como cabos desgastados.
— Seu pivô é uma merda. — Sua voz corta o rinque, cortando o
som dos discos e tacos. — Você está preso nos joelhos.
O gelo chacoalha sob o golpe forte com o taco de Hollow atrás de
mim. Blair está à minha frente, esperando na linha azul. — Seu
trabalho de ponta é preguiçoso — ele diz quando me aproximo. —
Você está jogando de forma suave.
Suave. Mordo o metal dentro da minha bochecha, flexionando os
dedos em volta do meu taco. Ele não está errado.
— Vá de novo.
As placas se desfocam na minha volta seguinte. Eu acelero a curva,
forçando mais nas placas. Peso nos calcanhares, flexão mais
acentuada nos joelhos. Eu me abaixo com mais força, impulsiono.
Quadris baixos, tronco firme. Meu passo é mais preciso e meu
equilíbrio se mantém quando me inclino na curva Ele está lá quando
eu me endireito nas marcações distantes da linha de gol, terminando
minha volta.
— De novo — ele diz. — Desta vez, mantenha o taco no gelo
durante toda a curva.
Eu empurro antes que ele termine. Meus quadríceps gritam na
transição, mas mantenho a lâmina do meu taco plana no gelo,
sentindo o arrasto, a forma como ele quer se levantar quando eu
acerto a curva. Cada parte do meu corpo quer se levantar, para
enganar o ângulo em busca de velocidade. Mas eu a seguro,
avançando com força pelo arco.
Quando volto, ele ainda está observando minha aproximação.
Seu olhar me prende enquanto deslizo na frente dele. Aperto o taco
com mais força e patino para mais perto.
Blair sustenta meu olhar. — Pronto?
Eu aceno.
— Prove.
Eu consigo um apartamento.
Não é nada chamativo, um apartamento de um quarto ao norte de
Punta Gorda. Minhas coisas ainda estão em malas e eu como cereal e
laranjas em pé na minha cozinha compacta. É vazio, silencioso e
solitário.
Não durmo muito. Fico deitado no escuro, minha mente dando
voltas que nunca terminam.
Eu ainda o desenho durante os vídeos de jogos e replays. Linha
após linha, seus ombros emergem, a maneira como ele fica em pé com
o corpo inclinado para um lado, aquela leve inclinação da cabeça
quando analisa uma jogada. Não quero preencher tantas páginas,
mas minha mão continua se movendo enquanto meus olhos
acompanham suas jogadas com vantagem numérica e penalidades na
tela.
Mais tarde, quando o quarto está escuro e o jogo já terminou há
muito tempo, abro meu caderno de esboço novamente, para verificar
se a linha do seu queixo está correta, se capturei seus olhos um pouco
mais fielmente hoje do que ontem.
O grafite borra sob meu polegar. Traço a sombra sob sua maçã do
rosto, a curva onde seu pescoço encontra seu ombro. Todas as versões
estão erradas – suaves demais ou acentuadas demais, sem perceber
exatamente como a luz atinge seus olhos quando ele se vira. Volto a
percorrer semanas de tentativas. Blair de perfil. Blair a meio passo. As
mãos de Blair agarrando seu taco.
Fecho meu caderno de esboço e o coloco no chão ao lado da cama.
Meu ventilador de teto balança, projetando sombras irregulares
nas paredes. Conto as rotações – uma, duas, três – até meus olhos
arderem. Amanhã Blair corrigirá minha postura novamente. Amanhã
fingirei que a voz dele não me segue até em casa. Amanhã adicionarei
mais uma página à coleção que nunca mostrarei a ninguém.
Os lençóis se enrolam nas minhas pernas. Eu os chuto para longe e
olho para os números vermelhos no meu despertador. 2h47. Em
quatro horas, estarei de volta ao gelo. Em quatro horas, ele também
estará lá, prestando atenção às bordas dos patins, catalogando meus
erros.
Pego novamente o caderno de esboço.
— Você está no ângulo errado, Kendrick — grita Blair. — É por isso
que você está perdendo todas as suas disputas de discos.
Eu fico agachado no ponto, com uma mão segurando meu taco
enquanto ele patina em minha visão periférica.
— Pé esquerdo.
Ele entra no círculo, o corpo se inclinando na mesma postura que
eu deveria ter: quadris baixos, postura inclinada para a frente, joelhos
flexionados, coluna firme. — Mais baixo — ele diz.
Eu o espelho