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Ficção Meritocrática

O livro 'A Ficção Meritocrática' analisa a construção de um novo capitalismo no Brasil, focando na origem social, estilo de vida e posicionamento político de executivos. Organizado por Fabrício Maciel e colaboradores, a obra critica a meritocracia como uma ideologia que oculta desigualdades sociais e legitima a hierarquia de classes. A pesquisa, realizada entre 2016 e 2019, busca enfrentar o negacionismo e promover uma compreensão crítica da realidade social contemporânea.
Direitos autorais
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Ficção Meritocrática

O livro 'A Ficção Meritocrática' analisa a construção de um novo capitalismo no Brasil, focando na origem social, estilo de vida e posicionamento político de executivos. Organizado por Fabrício Maciel e colaboradores, a obra critica a meritocracia como uma ideologia que oculta desigualdades sociais e legitima a hierarquia de classes. A pesquisa, realizada entre 2016 e 2019, busca enfrentar o negacionismo e promover uma compreensão crítica da realidade social contemporânea.
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A FICÇÃO MERITOCRÁTICA

Executivos brasileiros e o novo capitalismo

Fabrício Maciel (org.)

Colaboradores:

Carine Passos, Gabriel Duarte, Carolina Zettermann, Kimberly Gutierrez


EdUENF:
Editora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro

Conselho Editorial:
Leonardo Rogério Miguel; Maura Cunha; Sérgio Arruda de Moura;
Claudia Lopes Prins; Roberto Trindade F. Junior; Ana Bianca Rocha
Miranda

Revisão:
Letícia Cunha Braga

Capa, projeto gráfico e diagramação:


Maycon Lima Aguiar

© Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro

*Os capítulos são de inteira responsabilidade dos autores.

FICHA CATALOGRÁFICA
Preparada pela Biblioteca do CCH / UENF

A ficção meritocrática : executivos brasileiros e o novo capitalismo [recurso


F444
eletrônico] / organizado por Fabrício Maciel, com a colaboração de
993
Carine Passos, Gabriel Duarte, Carolina Zettermann, Kimberly Gutierrez. –
Campos dos Goytacazes, RJ : EdUENF, 2022.
Ebook
Formato: PDF.
ISBN : 978-65-87726-12-0.

1. Meritocracia. 2. Capitalismo. 3. Executivos. 4. Classes Sociais. I. Maciel,


Fabrício (Org.). II. Passos, Carine (Colab.). III. Duarte, Gabriel (Colab.). IV.
Zettermann, Carolina (Colab.). V. Gutierrez, Kimberly (Colab.).

CDD : 658.407
Para Leon, cuja presença em nossas vidas não se explica com palavras.
Agradecimentos:

Agradecemos ao CNPq e à FAPERJ pelos financiamentos concedidos, sem os


quais a realização deste estudo teria sido impossível. Também registramos
nossos agradecimentos a toda a equipe da editora da UENF, que não mediu
esforços para a viabilidade deste projeto. À Letícia Cunha Braga, pela árdua e
atenciosa revisão do texto, ao Maycon Lima Aguiar, pela cuidadosa e paciente
elaboração da capa e do designer gráfico como um todo, e também ao secretá
rio Júlio César Soares Dias e à assessora de imprensa, Francielle Mesquita de
Souza, fica aqui a nossa gratidão. Em especial, agradecemos ao editor, Prof.
Leonardo Rogério Miguel, por toda a seriedade e responsabilidade no enca
minhamento dos trabalhos necessários para esta publicação.

SUMÁRIO
07 SUMÁRIO
Apresentação
Apresentação Fabrício Maciel
Fabrício Maciel

Nota metodológica
11
Nota metodológica
13 Fabrício Maciel
Fabrício Maciel

Introdução — A perversa construção de um novo capitalismo do bem, politicamente correto e


Introdução - A perversa construção de um
ultrameritocrático
novo capitalismo do bem, politicamente 19
correto e ultrameritocrático Capítulo 1 - A mentalidade do mercado:
Fabrício Maciel origem de classe, estilo de vida e posiciona
Fabrício Maciel
Capítulo 1 — A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento po
lítico de executivos brasileiros mento político de executivos brasileiros

Fabrício Maciel
59
Fabrício Maciel
Capítulo 2 - Rachel Maia é a regra do
Capítulo 2 — Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil
atual jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual

Carine Passos e Fabrício Maciel


75
Carine Passos e Fabrício Maciel

Capítulo 3 — Raça, classe, gênero e mérito: trajetórias de pessoas negras em posições de gerên
cia Capítulo 3 - Raça, classe, gênero e

101
mérito: trajetórias de pessoas negras
em posições de gerência
Carine Passos Carine Passos
Capítulo 4 - Formação ou habitus
Capítulo 4 — Formação ou habitus de classe? A qualificação social dos
executivos de classe? A qualificação social dos
executivos
Gabriel Duarte e Fabrício Maciel

Gabriel Duarte e Fabrício Maciel


127
Capítulo 5 — A origem de classe e o acesso às altas rodas: trajetórias de altos e médios executi
vos brasileiros

175
altas rodas: trajetórias de altos e médios
Gabriel Duarte executivos brasileiros

Capítulo 5 - A origem de classe e o acesso às


Capítulo 6 — Biografias de sucesso ou habitus de classe? Trajetórias de celebridades da elite
Capítulo 6 - Biografias de sucesso ou habitus
brasileira
de classe? Trajetórias de Carolina Zettermann
celebridades da elite brasileira Gabriel Duarte
Carolina Zettermann

Capítulo 7 — A reprodução do novo capitalismo: mapeamento das maiores empresas no estado

211
do Rio de Janeiro em 2015 e 2016

229 Capítulo 7 - A reprodução do novo capitalismo:


Kimberly Gutierrez mapeamento das maiores empresas no estado do
Conclusão - A ficção meritocrática como a
Conclusão — A ficção meritocrática como a grande patologia social de nosso tempo
grande patologia social de nosso tempo Rio de Janeiro em 2015 e 2016 Kimberly
Fabrício Maciel
Gutierrez
Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
77

Apresentação
Fabrício Maciel

Publicar um livro nos dias de hoje tornou-se cada vez mais um grande desafio.
Estes são tempos nos quais as pessoas acompanham muito mais as dis cussões
acaloradas e sem rigor teórico nas redes sociais do que a produção cien tífica
sistematizada. Diante disso, acreditar no valor de um material científico de
qualidade torna-se algo que exige a convicção de que a ciência e, especial
mente, a ciência social, realizada com método e disciplina, ainda tem algo a di
zer no mundo atual. Neste exato momento, um negacionismo cognitivo,
afetivo e político domina a esfera pública e já afeta seriamente a ciência como
um todo na prática, e especialmente as ciências sociais. Não por acaso, essas
são agora diretamente negligenciadas pelas agências de fomento no Brasil,
relegadas a segundo plano e até mesmo retiradas da agenda ou subjugadas ao
condiciona mento de se articularem às outras ciências para provarem o seu
valor.
Nesse contexto, produzir um livro sociológico, e especialmente um livro
coletivo como este que agora apresentamos ao público, baseado em pesquisa
teórica e empírica, torna-se um ato utópico. A pesquisa que apresentaremos
aqui na sequência é um resultado de um trabalho sistemático, realizado co
letivamente entre os anos de 2016 e 2019, no âmbito do NUESDE, o “Núcleo
de Novos Estudos sobre Desigualdade Social”, que coordeno na Universidade
Federal Fluminense. Na companhia de meus orientandos e colaboradores
deste livro, pude exercer o que acredito ser a atitude mais importante no
âmbito das ciências sociais contemporâneas: o enfrentamento do
negacionismo cognitivo, afetivo e político com a produção de conhecimento
científico de qualidade, baseado em método de estudo empírico e teórico.
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 8
Sou profundamente grato a Carine Passos, Gabriel Duarte, Kimberly Gu
tierrez e Carolina Zettermann por terem aceitado o desafio da participação na
pesquisa que gerou este livro coletivo ao meu lado. Nossa harmonia e afinação
intelectual se assemelham a uma banda de jazz que não precisa ensaiar para
tocar. Espero que o resultado de nossas inúmeras “jam sessions” seja
apreciado pelo público. Também agradecemos a Maria Carolina Gonçalves e
Henrique Rodrigues pela presença e participação ativa em nosso grupo
durante boa parte de nossa pesquisa.

Por fim, agradecemos às agências de fomento que financiaram a pesqui


sa por diversos caminhos, ressaltando aqui o valor da utilização de recursos
públicos para a pesquisa social. Eu mesmo contei com a aprovação de edital
universal do CNPq, de 2016, para o projeto “O habitus corporativo: um estudo
teórico e empírico sobre a origem de classe de executivos no estado do Rio de
Janeiro”, que se conformou como a coluna vertebral da pesquisa, além da
aprovação da bolsa de produtividade CNPq, edital 2018, para dar continuidade
ao projeto. Gabriel Duarte foi bolsista FAPERJ durante o doutorado e Carine
Passos também foi bolsista FAPERJ durante o mestrado, ambos no Programa
de Pós-Graduação em Sociologia Política da UENF. Além deles, Kimberly Gu
tierrez foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq e da FAPERJ, e Carolina
Zettermann foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Todos os capítulos
são frutos de pesquisas individuais articuladas à pesquisa coletiva do grupo.

Com isso, convidamos a todas e todos para que dediquem algum tempo
de leitura atenta e conheçam um pouco deste público tão desconhecido, que
são os executivos e diretores de empresas no Brasil, em seus diversos níveis.
Ao longo da pesquisa, descobrimos que esses compõem boa parte de nossa
“alta classe média” e, no caso dos níveis superiores, uma parte da “fração de
baixo” de nossa elite. A discussão sobre as classes dominantes sempre esteve
presente na sociologia crítica, a começar por seu fundador Karl Marx,
passando pela atualização de autores de diversas vertentes, como Wright
Mills e Pierre Bourdieu, que influenciaram diretamente esta pesquisa. Aqui,
seria impossível e desnecessário reconstruir tamanha tradição, já amplamente
conhecida pelo público. Assim, apresentaremos o precioso material empírico
que encontra mos e as possíveis interpretações críticas que, a partir dele, a
teoria social nos permite. Com isso, desejamos desde já uma boa leitura e
reflexão, em tempos tão difíceis.

Para tanto, é preciso que a leitora e o leitor procurem escapar do


negacio nismo, nosso principal inimigo que, dentre outras coisas, nos nega a
possibilidade
Fabrício Maciel
9
de pensar criticamente a partir da pesquisa social empiricamente
fundamentada. Também é necessário fugir da novelização da política, que se
tornou a especiali zação da grande mídia atual, a qual caricatura o tempo
inteiro o campo político, prendendo-nos literalmente a uma grande novela
semanal, escondendo com isso sistematicamente o real funcionamento do
campo econômico e de seus atores do minantes.
Em outras palavras, é preciso compreender a reprodução real do capita
lismo contemporâneo, identificando a responsabilidade efetiva de suas clas ses
dominantes. Dentre essas, encontram-se os executivos de diversos níveis,
público-alvo de nossa pesquisa. Além de esses mesmos serem objetos diretos
da reprodução social, por conta de sua origem privilegiada de classe, como
veremos, ele são também atores ativos na construção deste “novo” capitalismo,
ultraconservador, autoritário, que procura se mostrar como um capitalismo do
bem e politicamente correto, escondendo suas reais mazelas para a vida social
em sua totalidade. Para compreender essa dura e complexa realidade, convida
mos a leitora e o leitor a prestar detida atenção aos resultados desta pesquisa.
É urgente.
11

Nota metodológica
Fabrício Maciel

Nossa pesquisa empírica foi inspirada especialmente em métodos qua


litativos desenvolvidos por Pierre Bourdieu e ampliados por Bernard Lahire,
ao longo de inúmeras pesquisas realizadas por estes autores. No Brasil, avan
çamos com esse método nos livros coletivos “A ralé brasileira” e “Os batalha
dores brasileiros”, organizados por Jessé Souza (2009, 2010), também frutos de
pesquisas qualitativas nas quais eu mesmo participei. Aqui, procuramos ir
além com o método qualitativo e também nos adaptar às especificidades da
pesquisa com os executivos.
No primeiro capítulo, assinado por mim, o questionário aplicado baseia-
-se em questões semiabertas e fechadas, caracterizando a pesquisa qualitativa
em profundidade. Optei por uma descrição exaustiva dos resultados, analisan
do cada questão e mobilizando a teoria social pertinente a elas. Nos capítulos
empíricos assinados por Carine Passos e Gabriel Duarte, foi utilizado o
mesmo questionário, que desenvolvemos em nossas discussões no âmbito da
rotina do NUESDE. Entretanto, os autores adaptaram e acrescentaram
questões especí ficas sobre seus temas de estudo, no caso da primeira, a
questão do racismo e sua relação intrínseca com a dinâmica das classes
sociais no Brasil, no caso do segundo, a qualificação social dos executivos.
Para o capítulo assinado por Carolina Zettermann, foi feito um levanta
mento inicial de um amplo número de biografias de figuras de destaque da
elite empresarial brasileira. Diante disso, selecionamos aquelas que mais nos
chama ram a atenção pelo conteúdo e pela presença de seus protagonistas no
cenário empresarial e na esfera pública. Por fim, o capítulo assinado por
Kimberly Gu tierrez apresenta o levantamento inicial da pesquisa coletiva, que
serviu de base para todo o restante de nosso trabalho coletivo. Mais detalhes
das pesquisas indi viduais serão encontrados nos respectivos capítulos.
Fabrício Maciel
13 13

Introdução — A perversa construção de um novo


capitalismo do bem, politicamente correto e
ultrameritocrático
Fabrício Maciel
A reprodução, a naturalização e a legitimação do capitalismo se
encontram entre os temas mais urgentes para o pensamento crítico atual.
Neste exato mo mento, o mundo enfrenta uma cruel pandemia, que desafia a
ciência e toda a nos sa capacidade em se perpetuar como humanidade digna.
Como sairemos daqui ainda é um enigma que nos perseguirá e tirará o sono
por algum tempo. Como chegamos é uma pergunta para a qual a ciência
social de qualidade pode oferecer alguma resposta. Nesse cenário, o
negacionismo cognitivo, afetivo e político se apresenta como nosso maior
inimigo, que precisa ser enfrentado urgentemente, com pesquisa empírica e
teoria sociológica articuladas. Esse é um dos grandes desafios que
procuramos enfrentar neste livro, a partir dos resultados empíricos da
pesquisa que o embasa.

Nosso objetivo central é compreender a reprodução, a naturalização e a


legitimação do capitalismo contemporâneo no Brasil atual, que definiremos
aqui como um “novo capitalismo”, considerando sua lógica econômica especí
fica e suas bases ideológicas e morais modificadas, em comparação com perío
dos anteriores. Para tanto, partiremos da análise de nosso material empírico,
dividida em três eixos: a origem social, o estilo de vida e o posicionamento po
lítico de executivos brasileiros de diversos níveis. Tomamos a expressão “novo
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 14

capitalismo” emprestada de Richard Sennett (2006b), em sua tentativa de defi


nir o atual sistema global no qual vivemos.

Para o autor, a principal característica da cultura deste capitalismo atual


é a ideologia da flexibilidade, o que na verdade esconde a rigidez da hierarquia
de classes, que agora se estabelece como nunca. Em sua acurada análise, Sen
nett (2006b) considera como principal efeito humano desse novo capitalismo
aquilo que ele define como “corrosão do caráter”. Com esse conceito, o autor
procura dar conta do perverso individualismo e da perda de capacidade em
agir coletivamente e produzir solidariedade, que surge como efeito do mito da
flexibilidade e da consequente promessa de felicidade do novo capitalismo.
Segundo a ideologia da flexibilidade, basta que cada um de nós esteja disposto
a se adaptar às exigências atuais do sistema, ou seja, “vestir a camisa da em
presa”, como já alertava André Gorz (2004), para que sejamos “empregáveis” e,
com isso, consigamos nosso “lugar ao sol”. Nada é mais perverso e fantasioso.

Neste momento, no qual vivenciamos uma pandemia global sem prece


dentes, o novo capitalismo digital e de plataformas mostra sua verdadeira face.
Empresas como a Uber e o I-Food, que já se encontram entre as que mais em
pregam no Brasil, ainda que procurem sistematicamente negar qualquer vín
culo empregatício, colocam-se como “intermediárias” entre uma elite e uma
classe média, cada vez mais enjauladas em sua condição de privilégio, e uma
massa de uma nova “ralé digital”, a qual se espreme e se arrisca nas ruas para
tentar garantir diariamente a sua dignidade.

Esse mesmo novo capitalismo — perverso, indigno, predatório, insen sível e


hipócrita — procura mostrar-se como seu extremo oposto, ou seja, um
capitalismo do bem, sustentável, politicamente correto, empregador, inclusivo,
preocupado com a desigualdade e as questões sociais. Ao longo deste livro,
mostraremos como e por que esse novo capitalismo precisa o tempo inteiro
sustentar esse discurso totalmente oposto à realidade, bem como o papel que
os executivos brasileiros exercem na construção dessa grande fantasia.

Neste ponto, a obra sociológica mais importante é, sem sombra de dúvi das, o
grandioso livro de Boltanski e Chiapello (2009) “O novo espírito do capi
talismo”, uma obra ainda pouco compreendida no Brasil. Diferente de algumas
leituras, especialmente sobre a obra individual de Boltanski, com ênfase na
discussão, por vezes estéril, sobre o que é “teoria crítica” e “teoria da crítica”,
aqui procuraremos ressaltar o que de fato parece mais urgente neste importan
te trabalho. O que ficou claro para nós, ao longo de sua leitura, é que seu
objeto

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
15

central se conforma na transição de um capitalismo explicitamente desigual,


o qual sofreu sérias críticas sociais e estéticas — como definem os autores, es
pecialmente a partir da década de 1960 —, para um novo capitalismo, que tem
como uma de suas características centrais a capacidade e necessidade de en
golir as críticas e mostrar-se como um sistema social justo, honesto, tolerante,
inclusivo e sustentável.

Essa é a tonalidade da fantasia conscientemente montada que encontra


mos em inúmeras falas de nossos entrevistados, além de outras fontes às quais
recorremos ao longo do estudo como, por exemplo, as revistas Exame, Você S.A.
e Forbes Brasil, defensoras explícitas do que estamos chamando aqui de “men
talidade do mercado”, como veremos adiante.

Entretanto, nossa análise ficaria incompleta e abstrata demais se nós


não procurássemos identificar os indivíduos e as classes sociais específicas
envol vidas ativamente na reprodução, na naturalização e na legitimação deste
novo capitalismo em toda a sua perversidade. Um dos principais
ensinamentos que toda a sociologia crítica nos lega desde seus clássicos é que
nenhuma “estru tura social” em abstrato se reproduz e eterniza sem a ação de
indivíduos, ou seja, pessoas reais com sentimentos e ambiguidades, que se
tornam suportes e, ao mesmo tempo, atores ativos na construção e na
reprodução dos padrões de mentalidade e comportamento vigentes nas
sociedades em que habitam. Toda a discussão sociológica, ao longo do século
XX, que procurou dar conta da síntese entre estrutura e ação e, ao mesmo
tempo, entre indivíduo e sociedade, passando por escolas distintas como o
funcionalismo, o interacionismo simbó lico e o marxismo freudiano da escola
de Frankfurt, buscou situar o indivíduo dinamicamente diante das estruturas
sociais.

Com isso, o que aprendemos é que precisamos identificar a ação real de


indivíduos e classes sociais na reprodução das sociedades sem reduzi-la a
maniqueísmos, o que é uma tentação constante no atual cenário político, mas
também sem deixar que indivíduos e classes sejam apagados pelo abstracio
nismo teórico das “estruturas”. Em termos simples, indivíduos e classes sociais
podem ser responsabilizados diferencialmente pelos rumos da sociedade na
qual vivem, dependendo das posições de poder que eles ocupem. Não por aca
so, nossa principal referência e influência ao longo da pesquisa nesse aspecto
foi a obra do sociólogo norte-americano Charles Wright Mills.

Autor bastante conhecido e lido no Brasil, especialmente no passado,


Wright Mills atualmente se tornou um autor familiar do público acadêmico
bra-

Introdução
A perversa construção de um novo capitalismo do bem, politicamente correto e ultrameritocrático
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 16

sileiro particularmente por seu texto “Do artesanato intelectual”, um apêndice


de um de seus grandes livros, intitulado “A imaginação sociológica” (1975b),
sem dúvidas um texto com o qual muito aprendemos. Entretanto, o Mills que
recuperamos aqui é o grande teórico das classes sociais nos Estados Unidos na
década de 1950, conhecido de fato apenas por especialistas sobre o tema das
classes no Brasil. Seus dois grandiosos livros, intitulados “A nova classe
média” (1976) e “A elite do poder” (1975a), se lidos em conjunto, conformam
uma das mais profundas interpretações sobre a cultura capitalista ao longo de
todo o século XX.

Para Mills, no livro sobre a nova classe média, que ele vai tematizar a
partir de seu símbolo central, o “white collar”, ou seja, o “colarinho branco”,
era importante perceber essa nova classe tanto como um objeto empírico novo
quanto em seu significado profundo. Para ele, era através dela que se poderia
ver toda a mudança cultural do capitalismo em seu tempo. O mote central de
sua análise, o que é de fundamental importância para nossa pesquisa, é que a
busca por prestígio, poder e status se coloca como a principal meta moral do
capitalismo, imposta não apenas para a elite, como ele verá depois, mas
também para as classes médias, inclusive em suas camadas mais baixas. Tal
percepção é decisiva, no sentido de compreendermos a “moralidade do
capitalismo”, que se constrói especialmente nos Estados Unidos, nação que
evoca para si como nenhuma outra o símbolo de sociedade exemplar, o que
pode ser visto através de slogans como o American Way of Life. Como veremos
ao longo deste livro, tais metas se colocam de maneira arbitrária pela cultura
capitalista, compondo o cerne do que chamaremos aqui de “mentalidade do
mercado”.

Com isso, todos os executivos que entrevistamos e analisamos, desde os


“altos diretores”, ou seja, as “altas rodas” das quais falava Wright Mills, que
tomam de fato as decisões sobre os rumos do capitalismo, até as camadas mais
baixas, ou seja, “a massa de gerentes”, vão reproduzir essa mentalidade e a bus
ca incessante, por vezes insana, como veremos, por tais metas, muitas vezes hu
manamente inatingíveis. Compreender esse fato é de grande importância pois,
ao longo da pesquisa, entendemos que os executivos, principalmente aqueles
do alto escalão, são as pessoas que mais produzem e reproduzem o “espírito do
capitalismo” atual. Nos termos de Pierre Bourdieu, um dos autores que mais
influenciaram esta pesquisa inicialmente, eles são as principais “estruturas es
truturantes” e, ao mesmo tempo, “estruturas estruturadas” do novo
capitalismo do bem e politicamente correto. Não por acaso, Bourdieu foi um
dos principais autores que melhor sintetizaram a relação entre estrutura e
ação individual.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
17

Entretanto, para sairmos do plano puramente teórico e compreendermos na


prática essa relação, precisamos ver com pesquisa empírica quais atores pro
duzem e reproduzem especialmente quais estruturas.
No geral, os executivos são os principais responsáveis pela construção
objetiva e consciente da cultura e da moralidade do capitalismo em nossos
dias, tendo suas ações consequências muitas vezes perversas e irreversíveis.
Tome mos apenas um exemplo bastante emblemático: no crime político,
econômi co, humano e ambiental de Brumadinho, uma réplica do crime de
Mariana, os executivos da Vale sabiam de antemão do risco de fratura da
barragem e até quantas pessoas aproximadamente poderiam morrer.
Quando alguns dos principais executivos da Vale e da Tüv Süd, empresa
alemã de consultoria responsável por relatórios e pareceres sobre a segurança
de casos como o de Brumadinho, foram denunciados por crime doloso pelo Mi
nistério Público de Minas Gerais, as duas empresas procuraram dissociar a sua
imagem do crime em questão1. O presidente da Vale no momento, um reconhe
cido alto executivo no cenário brasileiro que ironicamente assumiu a empresa
com o lema “Mariana nunca mais”, foi acusado de negligência e contratou uma
equipe privada de excelentes advogados para sua defesa. Essa é a verdadeira
face do capitalismo do bem e politicamente correto, apresentado pelo discurso
de fachada do mundo empresarial, que também analisaremos ao longo do
livro.
Por fim, procuraremos mostrar aqui como a fachada discursiva desse
novo capitalismo se conforma como uma verdadeira “ficção meritocrática”, no
sentido de esconder e negar sistematicamente sua verdadeira face, ou seja, a
de um capitalismo que se especializou na perpetuação perversa de uma
desigual
dade de classes ainda mais invisível do que em períodos anteriores. Ao mesmo
tempo, a nova dominação social capitaneada pelos executivos engana o
público sistematicamente, quando afirma absorver todas as demandas sociais
de nosso tempo.

1 - Conferir a reportagem sobre o fato aqui:


[Link]
-[Link]

Introdução
A perversa construção de um novo capitalismo do bem, politicamente correto e ultrameritocrático
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 20
O envolvimento de altos executivos brasileiros em esquemas de corrup ção
colocou recentemente a ação dos dirigentes do mercado em evidência na
mídia e na esfera pública brasileira. Nesse contexto, talvez nenhum outro epi
sódio tenha ganhado tanta atenção como a famosa “delação do fim do mundo”,
envolvendo 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht, que citou nada menos
do que 415 políticos. O episódio é apenas um dentre muitos outros da mesma
natureza. Independente dos desdobramentos do fato, é interessante analisar o
tipo de protagonismo exercido por altos executivos no cenário político brasi
leiro atual, bem como o papel que eles assumem em nosso imaginário. O pró
prio Marcelo Odebrecht, herdeiro de um império familiar, é um interessante
exemplo desse protagonismo empresarial no Brasil. Sua prisão foi considerada
como uma daqueles “peixes grandes”, quase inimaginável em tempos anterio
res. Esse espanto naturalmente não é sem razão. Ele diz bastante sobre a
forma como nós percebemos os grandes homens de negócios em nosso
imaginário, ou seja, a maneira específica como representamos a nossa
meritocracia. Quando Marcelo foi preso, um número considerável de
funcionários da Odebrecht ma nifestou-se nas redes sociais exprimindo
consternação e solidariedade.

Um breve olhar na polêmica biografia de Marcelo, “O príncipe” (CA BRAL;


OLIVEIRA, 2017), ou em qualquer edição de revistas voltadas ao merca do
como Forbes Brasil, Exame e Você S.A. deixa claro a forma como percebemos os
executivos e empresários bem-sucedidos em nossa sociedade: eles são ver
dadeiros super-homens, exemplos de sucesso, empenho, esforço, honestidade
e realização pessoal. Eles são a encarnação perfeita da maneira como a vida
deve ser vivida em uma sociedade moderna e meritocrática, na qual as
chances são iguais para todos. Um editorial da Forbes Brasil chegou a definir
os altos exe cutivos como pessoas “iluminadas”, responsáveis pela condução
dos assuntos mais importantes do país. A representação de negros, mulheres,
trans e outras minorias em diversas capas dessas revistas sugere a existência
de um capitalis mo do bem e politicamente correto, produtivo, inclusivo e
sustentável, no qual qualquer pessoa esforçada pode ascender e vencer na
vida. Uma capa recente da Forbes Brasil com Rachel Maia, mulher negra e
ex-CEO de várias grandes em presas no Brasil, tem como título “Sim, é
possível”, sugerindo que o caminho da meritocracia está aberto para todos. A
pesquisa empírica que baseia este livro comprova que essa é a grande falácia
do mundo moderno, uma verdadeira “fic ção meritocrática”, e procura
apresentar alguns elementos teóricos e empíricos para a compreensão de sua
conformação específica no contexto brasileiro atual.
Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
21

Entre os anos de 2016 e 2019, realizamos a pesquisa intitulada “O


habitus corporativo: um estudo teórico e empírico sobre a origem de classe de
executi vos no estado do Rio de Janeiro”, contemplada pelo edital Universal do
CNPq de 2016 e tendo continuidade com bolsa de produtividade do CNPq.
Inspirada inicialmente em obras de Pierre Bourdieu, Richard Sennett,
Boltanski e Chia pello, a pesquisa realizou um mapeamento inicial de
executivos de empresa de diversos níveis no estado do Rio. Para tanto, foi feito
um levantamento das maiores empresas sediadas no estado a partir de um
ranking das 1000 maiores empresas do Brasil, divulgado anualmente pela
revista Exame2.

Com isso, foi feito um levantamento dos organogramas de todas essas


empresas, sendo que a maioria, mas nem todas, disponibilizam-nos em seus
sites. Nos organogramas, foi possível mapear e compreender em parte a estru
tura da hierarquia das empresas, bem como identificar alguns padrões que
nem sempre são generalizáveis (por exemplo, a identificação de conselhos
adminis trativos e consultivos, bem como de diretorias financeiras, jurídicas,
de marke ting, etc.). Nesse ponto, encontramos um dos problemas iniciais da
pesquisa: a estrutura dos organogramas, composta por cargos e funções,
esconde a real estrutura de classe que os preenche.

A partir de então, foi feito um levantamento de todos os contatos encon trados


de todos os membros dos organogramas, incluindo e-mails, telefones e perfis
na rede social LinkedIn, voltada para contatos profissionais. Em seguida, foi
elaborado um questionário de estilo survey, com questões fechadas e semia
bertas, buscando identificar os diversos aspectos da vida social e do perfil de
nosso público-alvo. O questionário foi dividido nas seguintes fases: questões
iniciais; perfil profissional e econômico; formação; estilo de vida; posiciona
mentos e opiniões. Com isso, iniciamos a aplicação do questionário online,
hospedado no Google Forms. A pesquisa na prática aconteceu tanto de forma
impessoal quanto através de contatos pessoais. Enviamos e-mails para mais
de 400 contatos extraídos das empresas mencionadas acima, ao mesmo tempo
em que contamos com algumas respostas de pessoas conhecidas e de amigos
de amigos3. Assim, ao longo do ano de 2018, registramos 40 respostas, a partir
das quais segue a análise que farei adiante. Como o questionário é longo, exi
gindo entre 20 e 25 minutos para sua resposta, e tentando mapear uma ampla
diversidade de aspectos do perfil dos entrevistados, procurarei focar a discus
2 - Para mais detalhes, ver o capítulo de Kimberly Gutierrez.
3 - Agradecemos especialmente a todos e a todas que responderam ao questionário e também aos
que colaboraram gentilmente indicando contatos. Agradeço especialmente a Ricardo Visser pela
valiosa colaboração nessa direção.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 22

são nas questões que considero mais fundamentais para o debate no contexto
brasileiro atual. A teoria social será mobilizada apenas na medida em que for
realmente útil para problematizar as questões empíricas apresentadas.

No geral, a discussão será estruturada a partir dos três eixos centrais


que guiaram a pesquisa, bem como na forma pela qual eles se articulam: a
origem social, o estilo de vida e o posicionamento político de executivos de
empresas de diversos níveis no Brasil. Ainda que a pesquisa empírica tenha
como recorte inicial o estado do Rio de Janeiro, quero propor, a partir dela,
uma análise sobre o mundo corporativo brasileiro como um todo,
considerando que o perfil de executivos hoje é muito padronizado não só no
Brasil, mas em qualquer parte do mundo (NECKEL; HOFSTÄTTER;
HOHMANN, 2018). Com isso, há boas razões para considerar que os
imperativos econômicos e morais que regem a ação do mercado hoje são
globais. Também será preciso perceber o que o mun do corporativo hoje nos
diz sobre a sociedade brasileira e seus dilemas atuais.

Para tanto, proponho como mote central a forma como o problema da


meritocracia se atualiza no Brasil, bem como o que ele tem a dizer sobre a
especificidade do contexto autoritário que agora vivenciamos. Não por acaso,
um dos aspectos centrais do discurso tanto da campanha quanto do presidente
eleito, Jair Bolsonaro, é exatamente sua tonalidade ultrameritocrática. Sabemos
que não foi diferente com Donald Trump, um presidente empresário tipo
ideal. Também não é por acaso que o aspecto central da “mentalidade do
mercado”, que surge como aspecto central da pesquisa, é exatamente o que eu
gostaria de denominar aqui como uma “moralidade ultrameritocrática”, o que
veremos ao longo do livro.

A maior parte da pesquisa, 30 respostas, foi realizada no primeiro se


mestre de 2018, ou seja, pouco antes da eleição, no calor dos acontecimentos,
momento no qual Bolsonaro se fortaleceu na reta final, dando o golpe de mise
ricórdia no “centrão” ao mesmo tempo em que o campo progressista se encon
trava dividido. Curiosamente, nesse momento, diante da pergunta “qual é o seu
candidato para presidente do Brasil nas eleições deste ano?”, nenhum dos nossos
entrevistados respondeu que votaria em Bolsonaro. A maioria respondeu que
não sabia ou que ainda não tinha candidato. Dentre os nomes citados,
surgiram apenas os representantes explícitos do mercado: Álvaro Dias (3),
João Amoedo (2), Henrique Meirelles (2), Geraldo Alckmin (2) e Flávio Rocha
(1). Além dis so, houve uma menção a Ciro Gomes. Depois da eleição, dentre
dez respostas, duas pessoas assumiram que votaram em Bolsonaro.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
23

Esse dado é bastante sintomático sobre o contexto político e econômico


brasileiro atual e aponta para o que Wright Mills, em sua clássica análise sobre
as elites norte-americanas, definiu como o “espírito conservador” do mercado
e, consequentemente, da sociedade na qual ele vivia (MILLS, 1975a). Não por
acaso, um dos aspectos centrais da análise de Mills é que os grandes dirigentes
do mercado norte-americanos na realidade recorriam a uma “retórica liberal”
para esconder seu espírito conservador, pois este não seria útil e prático para
seus objetivos naquele contexto. Diante do resultado da eleição de Bolsonaro,
parece que uma retórica liberal, muito semelhante àquela analisada por Mills,
defendida pelos candidatos explícitos do mercado, citados acima, não surtiu
efeito no cenário brasileiro atual. Há boas razões para considerar que Bolsona
ro foi, para grande parte da população, o candidato implícito do mercado,
sendo boa parte de seu sucesso devido à sua retórica conservadora e
autoritária, mo
bilizando uma série de valores conservadores da sociedade brasileira.
Ao mesmo tempo, Bolsonaro criou uma linguagem dúbia e híbrida, mes
clando seu conservadorismo assumido com uma tonalidade do que estou cha
mando aqui de “moralidade ultrameritocrática do mercado”, que será figurada,
mais do que ninguém, pelo economista Paulo Guedes. Enquanto Guedes encar
na a face mais propositadamente confusa e obtusa da campanha e do governo
de Bolsonaro (“não entendo de economia”, “qualquer coisa eu pergunto ao Gue
des”), Sérgio Moro é quem vai representar sua face mais explicitamente assu
mida, não por acaso, aquela que nos remete a uma espécie de “estética Tropa
de Elite”, representando o problema estrutural da desigualdade e da violência
no Brasil como uma questão de polícia, e não de política. Diante da pergunta
“qual a figura pública atual que você mais admira?”, nas vésperas da eleição, a
resposta dos meus entrevistados é previsível: Sérgio Moro é o mais
mencionado, sendo que a grande maioria não admira ninguém, o que sugere
uma apatia diante da esfera pública atual.
Esse é o panorama inicial do contexto no qual a pesquisa se situa. O que
pensam os executivos brasileiros sobre os principais assuntos do Brasil atual?
Por quê? Será que seus posicionamentos têm alguma relação com sua origem
social e de classe? Essa origem tem alguma relação com sua posição de classe
atual, ou seja, seu lugar na hierarquia de prestígio e de status da sociedade
brasileira? Esse lugar em nossa hierarquia moral pode determinar seu estilo de
vida e suas opiniões? E, por fim, o lugar ocupado em nossa hierarquia moral
de prestígio e reconhecimento, bem como suas consequentes opiniões, pode
influenciar nos rumos de nossa sociedade? Essas são questões que guiaram a
elaboração da pesquisa e agora servirão de orientação para esta análise.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 24

Com isso, nossa hipótese central é a de que os diretores de empresa no


Brasil, enquanto representantes fiéis do mercado, são a encarnação viva de
nosso espírito conservador, o que se mostra explicitamente em sua “mentalida
de de mercado”, ou seja, suas opiniões sobre os diversos assuntos políticos da
sociedade brasileira atual, como veremos na parte final do texto. Antes disso,
na segunda parte, seu estilo de vida precisa ser compreendido enquanto con
dicionado por seu lugar em nossa hierarquia de prestígio e tendo como função
em grande medida a reprodução desse lugar. Para tanto, na primeira parte do
texto, procuro mostrar que seus posicionamentos políticos possuem afinidade
direta com sua origem social de classe privilegiada, o que é um aspecto central
para a compreensão de sua atual posição social igualmente privilegiada, consi
derando aqui a grande maioria dos entrevistados.

Origem de classe: sua importância e significado

A origem social é um dos aspectos mais importantes e menos explorados


para a compreensão da reprodução das sociedades modernas. Tanto a partir
da teoria quanto diante dos resultados de nossa pesquisa, podemos entender
origem social como sinônimo de origem de classe. Nessa direção, Pierre Bour
dieu é uma referência central. Seu conceito de “habitus” procurou tematizar
um conjunto de disposições adquiridas conscientemente ou não, desde a in
fância, que determinam em grande parte nossas formas de pensar e de agir ao
longo da vida (BOURDIEU, 2007). Bernard Lahire, um dos principais críticos
de Bourdieu, procurou avançar com a concepção da dimensão dinâmica do ha
bitus com sua ideia de patrimônio de disposições individuais (LAHIRE, 2006).
A importância do habitus, nesse sentido, para o entendimento da desigualdade
de classes brasileira já foi demonstrada em pesquisa empírica com as nossas
classes populares, organizadas por Jessé Souza (SOUZA, 2009, 2010).
Nesse contexto, eu gostaria de propor, como chave analítica central, a ideia de
um “habitus corporativo” para tematizar a condição de classe e, ao mesmo
tempo, o lugar na hierarquia de prestígio e reconhecimento de execu tivos
brasileiros. Não por acaso, uma de nossas hipóteses iniciais da pesquisa se
confirma quando perguntamos aos nossos entrevistados “A qual classe social
você pertence?”. A maioria respondeu pertencer à “classe média alta”. Também
é bastante sintomático que, em nosso levantamento inicial, um grande número

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
25

dos executivos possua sobrenome estrangeiro, indicando claramente sua ori


gem e reprodução familiar. A partir desses e de outros dados, que descreverei
na sequência, gostaria de tematizar o habitus corporativo como um conjunto de
disposições específicas que permitem aos executivos a transferência imediata
de habilidades de classe para a ocupação de um lugar altamente privilegiado e
prestigiado na hierarquia moral do trabalho.

Para tanto, fizemos um mapeamento de questões básicas na primeira


fase do questionário. Nossos entrevistados se encontram na faixa etária de 31
a 66 anos. De 40 entrevistados, apenas 5 são mulheres, o que não deixa dúvidas
quanto à situação empírica de gênero na sociedade brasileira. Quando pergun
tados “em qual cidade e bairro seus pais moravam quando você nasceu?”, a grande
maioria respondeu que moravam em bairros considerados nitidamente como
de classe média alta. A pergunta seguinte, “em qual cidade e bairro você passou a
maior parte da sua infância?”, teve a grande maioria das respostas confirmando
o resultado da resposta anterior. Na sequência, diante da pergunta “em qual
cidade e bairro você mora atualmente?”, a maior parte das respostas também se re
portou para bairros de classe média alta. A relação entre essas perguntas e
suas respectivas respostas deixa bem claro um dos principais resultados de
nossa pesquisa, que é a nítida reprodução da condição socioeconômica de
classe des de a situação familiar na infância até a situação familiar e individual
atual.

A origem de classe se confirma quando perguntamos sobre a profissão


do pai, a ocupação profissional atual e o cargo/atividade que ele mais exerceu
ao longo da vida. Uma quantidade expressiva das respostas remete-se a
profissões e ocupações típicas da classe média alta: engenheiros, advogados,
adminis
tradores, empresários, gerentes, diretores de empresa, bancários, professores
universitários, dentistas, produtores rurais e jornalistas. Quando perguntados
sobre o cargo/atividade que a mãe mais exerceu ao longo da vida¸13 pessoas
responderam: “do lar”, um número alto, sendo as demais ocupações das mães
também típicas da classe média e média alta, o que deixa claro o recorte pro
fissional de gênero mesmo dentro de classes privilegiadas no Brasil. Quanto
ao número de irmãos e o número de filhos dos entrevistados, a grande maioria
tem apenas um ou dois irmãos e um ou dois filhos, o que caracteriza o
tamanho pequeno das famílias de classe média alta. 31 dos entrevistados são
casados, sendo a profissão e ocupação que mais exerceu ao longo da vida,
também típica da classe média alta, como advogadas, economistas, psicólogas,
engenheiras, etc. Um detalhe importante nesse dado é que, enquanto 13 das
mães de nossos entrevistados foram “do lar” ao longo de toda a vida, esse
número cai para 4 no

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 26

que diz respeito às esposas, o que reflete o aumento da inserção de mulheres


de classe média alta no mercado de trabalho altamente qualificado.
A segunda fase do questionário procurou mapear o perfil profissional e
econômico dos entrevistados. Dentre as profissões que mais se destacam,
surge a de engenheiro (13), seguida por administradores (4) e economistas (4),
além de analista de sistema, bancários e empresários. Esses dados são muito
interes
santes, pois confirmam estarmos lidando aqui com profissionais liberais, ou
seja, com um perfil normalmente de classe média alta. O fato de engenheiros
liderarem o ranking confirma o protagonismo que esses profissionais exercem
historicamente no mundo corporativo brasileiro4. Entretanto, o dado da pro
fissão não é exatamente o que explica a situação social dos executivos. Essa se
explica muito mais por sua origem de classe, ou seja, seu habitus corporativo.
Quando perguntamos aos entrevistados qual o cargo exercido na empre
sa, surgiram diversas denominações: Superintendente, Business Development
Executive, Diretor comercial, Diretor de Distribuição de Líquidos para a Amé
rica do Sul, Gerente, CEO, Diretor de Recursos Humanos, Diretor executivo /
Conselheiro consular, Diretora de RH, Riscos, Compliance e Auditoria
Interna, Business development, Presidente, Gerente de Divisão, Gerente
Jurídico, Geren te Regional de Rede / Gestão da cadeia de suprimentos e
serviços de logística, Superintendente de Auditoria Interna, Superintendente
de tecnologia da infor mação, Diretor-Presidente.
Com isso, encontramos um problema empírico de difícil solução, pois
na prática essas denominações variam muito de acordo com o tamanho da em
presa e o ramo, também se a empresa é nacional ou multinacional. O salário e
o lugar na hierarquia de poder e prestígio também varia muito a partir dessas
gradações empíricas5. Provisoriamente, também se remetendo a classificações
vigentes em revistas direcionadas ao mercado como Exame e Você S/A,
podemos identificar três níveis na hierarquia da gerência empresarial, que
proponho aqui como esboço analítico. O nível 1 é o que normalmente se
chama de gerentes, cujo trabalho envolve o acompanhamento e a
operacionalização de atividades determinadas por decisões vindas dos níveis
superiores. O salário neste nível pode variar, grosso modo, entre R$ 14.000,00
a R$ 20.000,00. O nível 2 é um nível intermediário, normalmente composto por
diretores, que possuem uma autono
mia relativa de decisões e precisam responder ao nível superior. Nesse nível, os

4 - Neste ponto, ver o capítulo de Gabriel Duarte e Fabrício Maciel neste volume.
5 - Vale lembrar que os salários normalmente são acompanhados por bonificações e prêmios que
sobem de acordo com a hierarquia de poder e prestígio dos executivos.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
27

salários podem variar de R$ 20.000,00 a R$ 50.000,00. Por fim, o nível 3 envolve


o alto escalão administrativo, ou seja, presidentes, vice-presidentes, CEOs, COOs,
CFOs, etc.6. Nesse nível, os salários podem chegar a valores exorbitantes, de
acordo com o tamanho da empresa. Segundo matéria da revista Veja de 26 de
junho de 2018, o presidente do ITAÚ, por exemplo, chega a ganhar mais de 3
milhões e quatrocentos mil reais por mês, totalizando mais de 40 milhões de
reais por ano7.
Quando perguntados quantos anos possuem em funções de gerência /
direção¸ as respostas variaram entre 1 e 39 anos, sendo que esse número
normalmente aumenta do nível 1 para os demais níveis, o que reflete bastante
a estrutura hie rárquica da fase do capitalismo industrial no Brasil, dentro da
qual a maioria dos meus entrevistados, principalmente dos níveis 2 e 3,
estabeleceram-se. Essa fase do capitalismo pode ser definida, conforme
Boltanski e Chiapello (2009), pela predominância do que chamam de “segundo
espírito do capitalismo”, no qual a figura do executivo como chefe e
organizador da empresa é fundamental para a expansão do capitalismo
industrial. A reprodução dessa figura e de seu significado no cenário
brasileiro, no qual muitos dos participantes dessa pes
quisa iniciaram carreira, talvez explique em grande medida a mentalidade con
servadora desses, conforme veremos adiante na reconstrução de suas opiniões.
Atualmente, ainda segundo Boltanski e Chiapello, o capitalismo pode
ser compreendido através de seu “terceiro espírito”, cuja característica
principal é a preocupação em negar as hierarquias e a dominação social. Não
por acaso, neste terceiro espírito a figura do executivo “chefão” tende a
desaparecer e dar lugar ao “líder” amistoso e colaborativo, cuja função não
seria mais “mandar”, mas organizar e liderar suavemente projetos em rede.
Essa mudança funda
mental no espírito do capitalismo teria sido, para os autores, uma resposta às
críticas sociais recebidas aos fundamentos da dominação social que marcaram
os períodos anteriores. Nesse sentido, os autores realizaram uma pesquisa em
pírica de grande importância, comparando exatamente o que estou chamando
de “mentalidade do mercado” nas décadas de 1960 e 1990, mediante análise de
ampla literatura empresarial direcionada aos gestores dos dois períodos.

6 - Chief executive officers, chief financial officers e chief operating officers. Além dessas, existem
vá rias outras nomenclaturas do que se convencionou chamar de C-Level. Aqui cabe ressaltar que o
que estou definindo como nível 3 remete-se aos altos executivos das empresas. O termo executivo é
muito genérico, também é utilizado normalmente para se referir aos diretores e gerentes dos níveis
1 e 2.
7 - Matéria acessada em [Link]
-da-vale-itau-e-petrobras/.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 28

Essa análise de Boltanski e Chiapello se afina bem com a descrição que


Richard Sennett (2006a) realiza sobre o mundo corporativo atual. Para ele, o
princípio da “flexibilidade”, ou seja, aquele que sugere o trabalho em equipe
como estrutural moral central do capitalismo, na realidade esconde um am
biente autoritário, hierárquico e individualista, cuja característica principal é
o que o autor chama de “corrosão do caráter” (SENNETT, 2006a). Os anos de
ex periência em funções de direção dos nossos entrevistados mais velhos
refletem o início de carreira no contexto do capitalismo anterior ao atual
capitalismo “flexível”, no qual mesmo os executivos não têm mais carreiras de
longo prazo e normalmente “lideram” projetos com prazo específico de
duração, como mos traram Boltanski e Chiapello (2009) com sua análise das
“cidades” por projeto.
Quando perguntados se são sócios e possuem ações de alguma empresa, 13
pessoas responderam que sim, sendo que algumas delas possuem ações das
próprias empresas nas quais trabalham, aspecto esse comum do capitalismo
financeiro atual. Quando perguntados se fazem alguma aplicação no mercado
financeiro, a maioria respondeu que sim, citando ações, debêntures, CDB,
renda fixa, multimercados, títulos, fundos, criptomoedas, previdência privada,
renda variável, bolsa de valores, títulos do tesouro, carteira diversificada,
letras de crédito. Aqui nos deparamos com uma característica típica da classe
média alta, que também é definida pela discussão sobre a economia do
conhecimento como uma “classe do conhecimento” (BITTLINGMAYER,
2005), tanto no sen tido dos serviços que podem oferecer à elite proprietária do
capital quanto no sentido do conhecimento que possuem sobre o
funcionamento do capitalismo financeiro, sugerido aqui por sua familiaridade
com o mercado de aplicações. Diante da questão sobre se prestam algum serviço
de consultoria¸ 12 pessoas res
ponderam que sim, o que também é uma característica da “classe do conhe
cimento”. A atividade de consultoria muitas vezes se resume ao empréstimo
do nome, ou seja, do capital simbólico do consultor a alguma empresa, para
legitimar algum empreendimento, o que muitas vezes ocorre por meio de re
des de capital social das elites e da classe média alta (MACIEL, 2021; VISSER,
MACIEL, 2017).
Quando perguntados se já receberam alguma herança, a maioria dos
nossos entrevistados respondeu que não, o que se explica em grande parte
pelo fato de que a maioria dos pais ainda serem vivos8. Além disso, a maioria
respondeu

8 - Agradeço a Carolina Zettermann por ter me chamado a atenção para a excelente questão do
papel dos “in vivo transfers”, termo muito em voga nos Estados Unidos, que se remete a heranças
como casas e apartamentos ainda em vida, que não surgiram explicitamente em nossa pesquisa e
que são essenciais para a reprodução dos privilégios de classe.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
29

possuir casa, apartamento e carro próprios, sendo que vários deles possuem
patrimônio que ultrapassa o valor de R$ 1.000.000,00, o que também
caracteriza um perfil de classe média alta. Esse dado se complementa, na
caracterização do perfil de executivos, com o valor da renda bruta dos
entrevistados, que varia de R$ 8.000,00 a R$ 100.000,00, sendo que 14 deles
ganham acima de R$ 20.000,00 e 7 dos entrevistados ganham salário acima de
R$ 40.000,00. Além disso, a maio
ria tem como principal fonte de renda a empresa na qual trabalha, sendo que 23
deles receberam alguma participação de lucro referente ao ano anterior ao da
pesquisa. O dado importante aqui é que se torna, com isso, difícil mapear a
renda real de muitos executivos, restando a nós aqui apresentar uma estimativa
por alto. Quando perguntados sobre quantos funcionários estão sob sua gerência /
direção¸ as respostas variam bastante, chegando a 7 mil pessoas, sendo que o
número de pessoas sob a gerência sobe de acordo com o nível hierárquico
empresarial no qual o entrevistado se encontra. 23 dos entrevistados possuem
mais de 40 pessoas sob sua responsabilidade.
Quando indagados sobre a filosofia da empresa na qual trabalham, prati
camente todas as respostas reproduziram um discurso decorado do mundo cor
porativo, remetendo-se a conceitos como ética, bons resultados, boa
qualidade, eficácia, baixo custo e alto rendimento, boas soluções, aprimorar o
desempe nho do setor, respeito, integridade, segurança, sustentabilidade,
compromisso, desenvolvimento de pessoas, atingimento de metas, respeito ao
indivíduo e a relações pessoais, transparência e honestidade, meio ambiente,
diversidade, confiabilidade, prestar assistência, fazer diferença, respeito ao
cliente, produ tividade, colaboração, inovação, eficiência operacional, valorizar
o corpo fun cional e de acionistas, cuidar do que é valioso para as pessoas,
satisfação de usuários, transparência.
Diante dessas respostas, podemos começar a mapear o que estou cha
mando de “mentalidade do mercado” e que se confirma nas duas questões se
guintes. Diante da pergunta sobre qual é o maior desafio de um executivo / diretor
/ gerente¸ as respostas são totalmente afinadas com a pergunta anterior: liderar
pelo exemplo, motivar a equipe, trazer as melhores pessoas, expandir o negó
cio, manter-se competitivo no mercado, criar um time que trabalhe em sinto
nia, atender aos anseios dos clientes, reduzir custos, aguentar a pressão por
resultados, etc.
A pergunta seguinte, “O que é fundamental para o êxito de um projeto pro
fissional?”, obteve respostas no mesmo sentido: planejamento, dedicação, foco,
liderança estratégica, liderança agregadora, pessoas engajadas e motivadas,

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 30

paciência e perseverança, honestidade e ética, metas adequadas, mobilização


de pessoas, etc.
Na sequência, a terceira fase do questionário versa sobre a formação dos
entrevistados. A grande maioria cursou o ensino fundamental e o médio em
escolas de classe média alta. Uma parcela numerosa também cursou
graduação em boas universidades públicas, sendo a maioria em cursos de
Engenharia, ten
do surgido também Economia e Administração, dentre outros. Quando pergun
tados sobre sua formação complementar, a maioria fez alguma pós-graduação
ou MBA em gestão de negócios ou finanças, em boas universidades e institutos
como a FGV ou o COPPEAD da UFRJ. Essas informações confirmam o valor
da formação na composição do habitus de classe média alta, conforme consta
tado em outras ocasiões (MACIEL, 2021; VISSER; MACIEL, 2017)9.
Com isso, encerramos a parte inicial da análise, que versa sobre o tema
da origem social. Diante dos dados apresentados, podemos perceber que a ori
gem de classe tem um peso decisivo no destino de nossos entrevistados, na
reprodução da classe média alta e, consequentemente, na reprodução do capi
talismo brasileiro em sua totalidade. A equação decisiva aqui que vai explicar
o destino de privilégio dos executivos, ou seja, uma fração bastante
significativa da classe média alta no Brasil, precisa reunir analiticamente o
peso da herança familiar, ou seja, o capital familiar, que é também um capital
de classe, com as possibilidades de acesso a bens e recursos imateriais que são
negados às classes populares, como já mostraram pesquisas anteriores sobre
as classes populares no Brasil (SOUZA, 2009, 2010).

Estilo de vida: o que ele nos ensina sobre a condição de


privilégio dos executivos

A quarta fase do questionário dedicou-se à investigação do estilo de vida


dos executivos. Esse aspecto da pesquisa mostrou-se de profunda importância
para a compreensão do habitus corporativo. Isso porque o estilo de vida nos
mostra como nossos entrevistados vivem em seu dia a dia, ou seja, como é a ro
tina e vida pessoal daqueles que se situam em uma posição de prestígio e
poder na hierarquia moral do trabalho e das classes sociais. Quando
perguntados se

9 - Ver também o capítulo de Gabriel Duarte.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
31

praticam algum esporte regularmente, a maioria respondeu corrida e musculação,


o que demonstra um estilo de vida de quem tem tempo e energia para cuidar
do corpo de forma lúdica, diferente das classes populares, cuja natureza da
maioria dos trabalhos ainda é braçal. Esse é um detalhe bastante interessante
para uma análise de classe, pois tem a ver com disposições lúdicas das classes
médias e altas em relação ao corpo, como já notara Pierre Bourdieu (2007).
Diante da questão “com qual regularidade você viaja a trabalho?”, 42% res
ponderam mensalmente e 27% responderam semanalmente, o que reflete a mobi
lidade da ocupação de executivos e a condição cosmopolita da classe média
alta (RECKWITZ, 2019). Quanto à pergunta seguinte, “com qual regularidade
você viaja a lazer?”, 55% responderam semestralmente, enquanto 32%
responderam anualmente. Esse é um dado muito curioso, pois vale lembrar
que as viagens de trabalho dos executivos normalmente são financiadas pelas
empresas e in cluem excelentes estadias em ótimos hotéis. Aqui, vale ressaltar
a hipótese de que as viagens de trabalho incluem uma dimensão lúdica e não
há uma separa ção muito clara entre o tempo de trabalho e de vida pessoal dos
executivos. Ou seja, podemos considerar as viagens de trabalho também como
viagens de lazer e como tempo de investimento no capital social e nas
carreiras individuais. O “investimento em si”, nesse nível de não separar
tempo privado de tempo de trabalho, foi também percebido por Osvaldo
Lópes-Ruiz (2017) em sua pesqui sa com executivos brasileiros.
Diante da questão “quais são os seus hobbies?”, as respostas são muito va
riadas, indo desde esportes conhecidos e leitura até atividades menos conven
cionais e pouco conhecidas, como coleção de moedas ou leituras e pesquisas
sobre a evolução do comportamento humano, o que reflete a busca por
autenticidade e a intensificação da individualização do gosto. Esse aspecto do
estilo de vida atual, típico da classe média cosmopolita, foi muito bem
percebido por An dreas Reckwitz (2019) como uma característica central do
que ele definiu como a “sociedade das singularidades”, referindo-se ao
período atual da modernida de tardia, no qual não apenas as pessoas, mas tudo
é singularizado, incluindo viagens, bens, objetos, coisas e também hobbies
individuais.
Quando perguntados “de qual rede social você participa regularmente?”, o
Facebook surge como utilizado pela grande maioria, enquanto que uma con
siderável parcela também utiliza o Instagram e a rede profissional LinkedIn. O
dado de que o Facebook surge como a rede mais utilizada não é casual. Os
escândalos envolvendo vazamento de dados e o envolvimento político por par
te da rede social mais conhecida do mundo tiveram bastante repercussão na

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 32

esfera pública global. O poder político que gigantes da tecnologia dessa di


mensão exercem no mundo atual, influenciando diretamente o resultado de
eleições e fornecendo ao mercado perfis detalhados de seus usuários, já tem
sido amplamente analisado tanto pelas ciências sociais quanto pela arte.
Oliver Nachtwey e Philipp Staab (2016), por exemplo, procuraram tematizar a
ação política e econômica de empresas como Amazon, Google e Apple por
meio do conceito de “capitalismo digital”. O que todos esses gigantes têm em
comum é o poder de influência sem precedentes na história sobre a vida
pessoal e profis sional de indivíduos de todas as classes sociais no mundo
inteiro atualmente.
A influência das redes sociais na vida pessoal não se resume à invasão de
privacidade e ao vazamento de dados pessoais para além do controle de seus
proprietários. Ela vai além no sentido de determinar em grande medida o
estilo de vida, inclusive dos executivos, quando nos coloca em uma bolha de
contatos e de interesses, determinando e isolando cada vez mais os perfis
individuais, de milieus e de classes. Esse aspecto da ação dos gigantes da
tecnologia pode ser articulado com a compreensão da “sociedade
singularizada” de Andreas Reckwitz (2019), como tematizada acima.
A pergunta seguinte, “quais são suas revistas preferidas?”, também apresen
ta respostas bastante significativas sobre o perfil e o estilo de vida dos executi
vos. As revistas mais mencionadas foram aquelas direcionadas especialmente
ao público interessado nos assuntos do mercado, como Exame, Você S/A, The
Economist, Financial Times, Harvard Business Review, Isto É Dinheiro. Dentre elas,
a mais mencionada foi a Exame, e esse é um dado bem curioso e interessante.
Ao longo de nossa pesquisa, assinamos e acompanhamos atentamente as
revistas Forbes Brasil, Exame e Você S/A. A principal descoberta diante dessas
leituras é que elas operam uma divisão de trabalho na construção ideológica
do que estou chamando aqui de “mentalidade do mercado”10. A Forbes Brasil,
versão e braço tupiniquim da Forbes americana, é visivelmente direcionada a
um público de alto poder aquisitivo, ou seja, a classe média alta e a elite
brasileira.
Para um leitor minimamente distanciado, é difícil levar a sério o con teúdo da
Forbes Brasil. Ela é a revista preparada cuidadosamente para o rico da
periferia. Dentre vários “serviços” que ela presta à elite brasileira, um de les, e
talvez o mais importante, é manter essa elite como seguidora fiel da

10 - Além dessas revistas defensoras explícitas do mercado, vale lembrar que a Veja e a Isto É também
fazem parte dessa divisão de trabalho como defensoras implícitas do mercado, atuando muitas vezes
de maneira decisiva na caricatura, desmoralização e deslegitimação do campo político. Aqui assisti
mos a um trabalho constante de assassinato da esfera política e de consequente pavimentação para
a legitimidade da ação do mercado.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
33

elite norte-americana. Regularmente, todo ano, a revista atualiza, seguindo a


tradição de sua matriz, a lista dos maiores milionários e bilionários do mundo
e, naturalmente, a lista dos maiores nos Estados Unidos. Algo que ela tem em
comum com a Exame e a Você S.A é a produção regular de capas politicamente
corretas, valorizando a presença de pessoas negras, gays, trans e outras mino
rias como tendo sucesso no mundo dos negócios. Naturalmente, essas capas
servem como “capa” não apenas para alguns exemplares das revistas, mas para
o próprio capitalismo atual, cujas características centrais são exatamente o
contrário do que as revistas sugerem.
Na prática, o que essas revistas fazem é ressaltar algumas exceções de
sucesso no mundo corporativo, como Raquel Maia, mulher negra que já foi exe
cutiva de várias empresas multinacionais importantes no Brasil e já protagoni
zou algumas dessas capas, além de diversas matérias de jornal. Uma delas, da
Forbes Brasil, teve como manchete principal a frase “Sim, é possível”, sugerindo
que qualquer pessoa negra pode vencer no mundo corporativo, meritocrático
e neutro11. Algumas capas da Forbes Brasil são marcantes, como, por exemplo,
“Under 30, os jovens talentos que brilham no Brasil”, trazendo entre eles Kim
Kataguiri e a atriz Isabelle Drummond; “Bezos sem limites”, contendo uma
entrevista “com o homem mais rico do mundo”; “100 maiores mentes empresa
riais”, chamando de “ícones vivos” e valorizando o pensamento de figuras
como Warren Buffett, Bill Gates, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Donald
Trump, den tre outros; “Os segredos de Pedro Parente”, definido pela revista
como “o maior gestor de crises do país” (um histórico recente de dificuldades
do empresário sugere o contrário); “O líder dos livres mercados”, trazendo
como destaque de capa Emmanuel Macron; “Melhores CEOs do Brasil” e
outras.
Por outro lado, a Você S/A é a revista defensora da mentalidade do
mercado visivelmente voltada para “a massa da classe média”, como
recentemente definiu Jessé Souza (2018), e para a classe trabalhadora, não
sendo especificamente des tinada para a alta classe média, como parecem ser a
Forbes Brasil e a Exame. Uma observação atenta do conteúdo da Você S/A deixa
claro que se trata de um minucioso trabalho de pedagogia para a massa
trabalhadora que ainda deseja ter uma inserção mais alta e privilegiada no
mundo corporativo. Enquanto a Forbes Brasil é uma revista assumidamente
direcionada para pessoas “chiques e distintas”, mostrando o que acontece no
mundo dos “ricos e famosos”, como destaca seu caderno “Forbes Life”,
trazendo dicas de viagens para os melhores lugares do mundo, a Você S/A se
dirige à massa e suas necessidades objeti

11 - Ver o texto com Carine Passos neste volume.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 34

vas e subjetivas. Ao mesmo tempo que a primeira trabalha conscientemente


na construção de uma espécie de pedagogia da autenticidade, ensinando à alta
classe média brasileira como ser chique e distinta, a segunda atua no plano de
uma pedagogia da dignidade, supostamente ensinando à massa da classe média
e trabalhadora como se manter “empregável” para o novo capitalismo flexível
e imprevisível.

É o que nos mostra a análise de algumas capas da Você S/A, como, por
exemplo, “Transforme-se num talento digital”, “A nova liderança”, “O mito da
democracia”, “Carreiras múltiplas”, “Seja um profissional ágil”, “Como ganhar
dinheiro em 2019”, “Negócios da perifa”, “Chame a atenção do mercado”,
“Com trabalho e sem emprego”, “150 melhores empresas para trabalhar”,
“Bombe suas finanças”, “As piores empresas para trabalhar” e assim por
diante. En
quanto a Forbes Brasil e a Exame se direcionam para a alta classe média e para
os altos executivos, ou seja, quem exerce funções de controle no novo
capitalismo, a Você S/A completa o trabalho pedagógico de construção da
mentalidade do mercado direcionando-se para a massa de dominados
diretamente conectada ou que almeja se conectar ao mundo corporativo.

Como se não bastasse a produção ideológica de questões referentes ao


“mundo do trabalho”, essa construção de adesões afetivas por parte dessa di
visão de funções ideológicas das revistas também fornece a seus leitores um
conteúdo normativo referente a questões do “mundo da vida”. Enquanto a For
bes Brasil ensina à elite e à alta classe média brasileira como ser rica, distinta,
chique e famosa (como os americanos!), a Você S/A se encarrega de amenizar os
impulsos e acalmar os ânimos da massa, naturalizando e tornando palatáveis
os princípios do novo capitalismo flexível, como tematizado por Richard
Sennett (2006b). Algumas capas, como “Por que estamos tão ansiosos?”,
“Assédio sexual no trabalho” e “O guia atual do autoconhecimento”, atestam
bem esse trabalho de construção de uma personalidade dócil para o mercado,
que precisa enfren tar as dificuldades atuais do “mundo da vida” (provocadas
pelo próprio merca do!) ao mesmo tempo em que aprende a ser flexível e
aceitar a vulnerabilidade do novo capitalismo.

Por fim, campeã entre nossos entrevistados, a Exame se distingue nitida mente
das demais pelo nível de sofisticação e pela qualidade das matérias e en
trevistas, incluindo pesquisas baseadas em institutos e literatura
especializada, o que a confere ares de legitimidade. Esse talvez seja o aspecto
que explique por que ela é a mais lida entre os executivos. A tonalidade de sua
defesa da menta lidade do mercado é menos caricatural do que na Forbes Brasil,
por exemplo —

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
35

revista essa que possui uma estética semelhante à da revista Caras em algumas
de suas matérias e que apresenta matérias de defesa do mercado pouco funda
mentadas teoricamente, como os artigos de Flávio Rocha, figura que ganhou
evidência na esfera pública brasileira especialmente por ter se anunciado
como pré-candidato à presidência da república no pleito de 2018.
A Exame também se distingue da Você S/A pela qualidade das matérias,
que possuem normalmente um verniz de aparência científica enquanto a Você
S/A apresenta um perfil de conteúdo nitidamente pedagógico para a massa da
classe média (que também podemos chamar de baixa classe média) e para a
classe trabalhadora. No geral, a principal construção ideológica que a divisão
do trabalho perfeitamente conjugada dessas revistas realiza consiste na sus
tentação da imagem de um novo capitalismo do bem e politicamente correto,
sensível aos problemas ambientais e seriamente empenhado em enfrentar o
problema da integração social das minorias. Nada poderia ser mais ideológico
do que isso.
Acredito que a obra de Boltanski e Chiapello (2009) é a mais propícia
para a interpretação desse fato. Um dos principais problemas teóricos
colocado por seu livro é que um dos aspectos centrais do novo capitalismo se
encontra exata mente na sua capacidade de reagir e tentar responder às
críticas sociais e esté ticas por ele recebidas desde a década de 1960. A
principal forma de responder a tais críticas tem sido exatamente a construção
ideológica desse capitalismo do bem, sustentável e inclusivo, exatamente o
contrário da realidade do novo capitalismo global e de sua moralidade
ultrameritocrática, conforme compro vada por nossa pesquisa.
Quando perguntados sobre qual seu blog preferido, a maioria respondeu
“nenhum”, o que provavelmente reflete um recorte geracional, considerando a
média de idade dos executivos, que ainda leem em sua maioria as mídias
impressas. Entretanto, dentre os que leem algum blog, o mais mencionado foi
O antagonista, conhecido blog de direita, o que não deixa dúvidas sobre o con
teúdo da mentalidade do mercado que aqui se apresenta. Na sequência, o
jornal mais lido é O Globo, seguido de perto pelo Estadão e pela Folha de São
Paulo, o que mostra o protagonismo dos três jornais na formação da opinião
pública brasileira e a conexão dos nossos executivos muito mais com a grande
mídia nacional do que com a mídia estrangeira.
Quando perguntados se fazem parte de algum clube social ou associação,
a maioria respondeu que faz parte apenas formalmente de clubes privados ou

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 36

associações profissionais, sendo que apenas cinco possuem algum cargo de


conselho, direção ou gestão. A pergunta seguinte versou sobre a participação
ativa em alguma federação, sindicato ou partido político. A maioria respondeu
não participar de nenhuma dessas instituições. Esse dado deixa claro um
aspecto relevante da natureza política do habitus corporativo, mostrando uma
ausência de participação na dimensão formal da política. Por outro lado,
sabemos que os altos executivos possuem uma atuação informal muito
influente nos rumos da política atual, interferindo em decisões da esfera
política ou atuando pessoal mente como políticos, por meio de um
intercâmbio de altas posições de poder entre as esferas do Estado e do
mercado, como já mostrava Wright Mills (1975a) nos anos de 1950 nos Estados
Unidos.

Na sequência, o questionário inquire sobre o uso de substâncias


psicoativas e sua regularidade. A maioria respondeu que consome álcool
semanalmente, e al guns responderam também consumir tabaco diariamente.
Não houve nenhuma resposta positiva sobre o uso de substâncias ilícitas. A
presença do álcool na sociedade moderna, em todas as classes, não é
novidade. Erich Fromm (1970) já havia considerado a sua função na
reprodução de uma sociedade que se considera sã, mas que na verdade sofre
profundamente do mal-estar que ele definiu como “patologia da
normalidade”. O dado importante aqui é a ausência de menção a drogas
ilícitas em uma amostra de quarenta pessoas de classe mé dia alta. Esse dado
pode ser interpretado através da moralidade conservadora das classes altas,
incapazes de admitir e muito menos de explicitar que também podem ser
vítimas da patologia da normalidade.

Uma pesquisa realizada no Brasil, com executivos das 500 maiores em


presas do país, mostrou que a maioria dos executivos é propensa ao compor
tamento agressivo, bem como à depressão e infelicidade, caracterizados como
“Tipo A” de comportamento — especificação dada por uma metodologia
muito comum nos estudos dessa natureza —, o que seria, segundo os
pesquisadores, o tipo preferido pelas empresas para o cargo de executivo
(MOTA; TANURE; CARVALHO NETO, 2008). Diante desse quadro, apenas
um de nossos entre vistados assume que toma rivotril diariamente.

Em seu livro “A banalização da injustiça social”, Christophe Dejours (2006)


percebeu com maestria como o mundo corporativo realmente funciona. Para
ele, a lógica da imposição do medo, de cima para baixo, ou seja, a manipu
lação desse sentimento negativo por parte dos dirigentes de empresa em rela
ção a seus subordinados, é o principal motor do capitalismo. Essa manipulação
funciona diretamente articulada a uma estratégia de distorção comunicacional

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
37

e de institucionalização de mentiras que negam para os empregados, em todos


os níveis, incluindo os executivos, a realidade das empresas diante dos reveses
do mercado. Essa estranha lógica, escondida sistematicamente pelos discursos
e ideologias oficiais do novo capitalismo, poderia muito bem ser definida
como um mecanismo de produção e reprodução da “patologia da
normalidade”, como definida por Erich Fromm (1970).
Com esse conceito, Fromm procura perceber, ao longo de seu grandioso
livro “Psicanálise da sociedade contemporânea” (1970), a condição de insani
dade mental coletiva vivida pelas sociedades modernas. Tal definição procura
mostrar que, contrário ao senso comum ocidental de que a maioria das
pessoas em nossas sociedades é mentalmente sadia, a insanidade mental não
se encon tra simplesmente em indivíduos isolados, presos nos hospitais
psiquiátricos, mas é uma condição existencial generalizada em alguma
medida a todas as pessoas. Onde se situam os executivos nessa discussão? Um
ponto em comum nas análises de Fromm e Dejours é perceber o mundo
corporativo como um sistema central na construção da patologia da
normalidade. Dentro desse, para ambos os autores, os executivos exercem um
papel decisivo, ou seja, na lingua gem de Pierre Bourdieu, seriam ao mesmo
tempo estruturas estruturantes e estruturadas na reprodução da cultura
capitalista.
Para Fromm (1970), com a separação entre a propriedade e a gerência
das grandes empresas capitalistas, ainda no século XIX, os principais
diretores de empresa passam a lidar com cifras e abstrações gigantescas, as
quais estabele cem um distanciamento entre aqueles e os diversos setores sob
sua gestão. Em termos simples, os altos executivos dirigem algo sobre o qual
não podem ter uma noção exata e um controle preciso. Com isso, a burocracia
empresarial desen volve certo distanciamento e uma frieza impessoal em
relação aos seus subor dinados, o que pode ser visto no gesto simbólico de um
alto executivo demitin do um grande número de pessoas apenas com uma
assinatura. Em consonância com isso, Dejours (2006) vai chamar de
“perplexidade dos gerentes” a condição desses em reproduzir as mentiras
oriundas da distorção comunicacional, vinda dos altos escalões das empresas,
exercendo a dominação sobre seus subordi nados ao mesmo tempo em que
reproduzem sobre si mesmos toda a farsa do mundo corporativo que prega
felicidade, mas constrói medo, angústia, estresse e agressividade. Diante
disso, é muito sintomático que o uso de substâncias psicoativas ilegais
simplesmente não apareça em nossa pesquisa.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 38

Uma matéria de 17 de julho de 2011, da Folha de São Paulo12, intitulada


“Profissional esconde dependência”, fez interessantes apontamentos
nessa di reção. Segundo a matéria, altos executivos sob pressão muitas
vezes se negam a procurar ajuda médica ou psicológica para não afetar
sua imagem de super- -homens e super-heróis e para não se mostrarem
como pessoas frágeis que não aguentam pressão. Além disso, a matéria
mostra a imagem do executivo como indivíduo solitário em um
ambiente altamente competitivo, no qual não se pode demonstrar
fraqueza. Uma das pesquisas que embasa a matéria constatou que os
executivos só falam sobre uso de remédios quando, em entrevistas
pessoais, são abordados com temas como insônia, ansiedade e depressão.
Na sequência, perguntamos se os entrevistados têm convívio com amigos
de infância, obtendo 75% de respostas positivas. Essa pergunta é de
grande im portância para o mapeamento do habitus de classe, conforme
percebemos em pesquisa coletiva realizada sobre a reprodução das
desigualdades de classe na Alemanha e como a posse diferenciada de
capitais é essencial nesse sentido (VISSER; MACIEL, 2017). Nessa
ocasião, percebemos que o convívio com ami gos de infância é um
aspecto decisivo na reprodução de redes de contato das classes médias e
altas, o que em muitos casos pode converter capital social em capital
econômico. Não por acaso, 25% responderam ter parcerias profissionais
com amigos de amigos, o que mostra que boa parte da inserção
profissional no topo do mundo corporativo se reproduz pela lógica de
redes de capital social, desmontando, assim, o mito da meritocracia,
menina dos olhos da moralidade do mercado.
Quando perguntados se têm religião e quais os princípios centrais dela, den
tre quarenta executivos, 15 responderam que são católicos¸ o que reflete
bem o mapa das religiões no Brasil e também pode nos remeter a uma
questão ge racional, considerando o recorte de idade dos entrevistados.
Dentre os princí pios católicos, surgiram os seguintes: praticar o bem e
ajudar o próximo, crença no poder de Deus, respeito ao próximo, amor a Deus
e ao próximo, fraternidade e fé. Além do catolicismo, cinco pessoas
disseram não ter religião; uma kardecista, quatro espíritas, uma
muçulmana, e as demais deram respostas diversas, como, por exemplo,
autoconhecimento e crer na ideia de Deus. Essa questão pode susci tar
indiretamente várias discussões. Sabemos que a última eleição
presidencial no Brasil teve um forte apelo a conteúdos religiosos e
conservadores de to das as classes sociais, inclusive da elite empresarial.
Também foi marcante, na campanha do presidente, a presença militante
de vários grandes empresários

12 - Matéria acessada aqui: [Link]


Fabrício Maciel

Fabrício Maciel
39

religiosos e conservadores. Independentemente da positividade dos princípios


religiosos aqui mencionados, algumas lideranças religiosas contribuíram para
a eleição da extrema-direita, cujas atitudes e conduções políticas no que diz
respeito ao combate à desigualdade social muitas vezes contrariam os prin
cípios de amor ao próximo não só católicos, mas cristãos no geral e também
presentes em outras religiões.
Ao longo de nossa pesquisa, ao nos depararmos com a literatura de au
toajuda direcionada para executivos e para o mundo corporativo como um
todo, percebemos em livros como “O monge e o executivo” (HUNTER, 1998),
dentre outros, um conteúdo de apelo fortemente religioso. Alguns desses
livros sugerem alguma forma de conexão com a espiritualidade e procuram
trabalhar habilidades de ordem comportamental e cognitiva, o que nos faz
considerar fortemente a hipótese de que toda essa literatura é planejada para
construir o habitus, a mentalidade e o espírito flexível do novo capitalismo,
como percebido por Richard Sennett (2006b) e Boltanski e Chiapello (2009).
Além disso, algumas imagens muito simbólicas do mundo corporativo
sugerem uma analogia das empresas com as religiões, como, por exemplo, a
performance de Luciano Hang, conhecido apoiador inicial de Bolsonaro,
diante de seus empregados, em uma forma de animação catártica, conforme
mostrado em entrevista ao SBT. Outro exemplo é a performance de Leonardo
DiCaprio no filme O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, no qual DiCaprio
interpreta um empresário que adestra seus colaboradores segundo os
princípios viscerais do alto escalão empresarial. Ainda que de forma
caricatural, o filme sugere uma total insanidade e irracionalidade, regada a
alto consumo de drogas pesadas, no alto escalão do mundo corporativo. Essa
irracionalidade, articulada à ideologia da cooperação e da flexibilidade, parece
procurar mobilizar o engajamento dos funcionários da empresa por meio da
incitação da busca por vitória e sucesso a qualquer preço, simbolizada
perfeitamente pelo personagem over, emocional mente desequilibrado e sem
limites de Leonardo DiCaprio.
Com tudo isso, temos boas razões para considerar a possibilidade de que as
grandes empresas hoje tenham se tornado as principais “instituições totais”
da sociedade, formatando para seus objetivos tanto as mentes quanto os cor
pos de seus súditos. Em sua belíssima análise da sociedade moderna, Erving
Goffman (2015) considerava como instituições totais os hospitais
psiquiátricos, as prisões e os conventos. Em sua profunda inserção e análise
empírica dos primeiros, ele constatou um processo de desconstrução da
carreira moral e da identidade dos internos na medida em que, ao dar entrada
nos hospitais, têm

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 40

seus pertences pessoais retirados de sua posse. Além disso, ao longo do pro
cesso, os internados têm seus principais vínculos sociais e afetivos destruídos
na medida em que vão perdendo a confiança em familiares e amigos próximos.
Da mesma forma, fazendo uma analogia, a internação no mundo corpo rativo
pode fazer com que seus colaboradores passem por um processo qua se
religioso se considerarmos as catarses e performances de muitos de seus
líderes, de formatação de suas identidades. Não é outra coisa o que sugerem
grandes autores que estudamos ao longo da pesquisa. André Gorz (2004), autor
da conhecida tese da sociedade do conhecimento e do imaterial, vai definir tal
processo como “vestir a camisa da empresa”. Richard Sennett (2006a), em sua
bela análise da falácia da flexibilidade do novo capitalismo, vai perceber esse
fenômeno como nada menos do que a “corrosão do caráter”, entendendo
caráter aqui como a identidade mais profunda do indivíduo e suas capacidades
de convívio coletivo. Boltanski e Chiapello (2009), por sua vez, vão analisar a
mudança na literatura de autoajuda que procura conformar a mentalidade do
terceiro espírito do capitalismo, cuja marca principal é exatamente tentar des
construir as figuras da hierarquia e da autoridade no novo capitalismo.
Por fim, a clássica análise de Erich Fromm (1970) vai mostrar que a
marca principal da cultura capitalista é sua “patologia da normalidade”. Com
isso, o autor está dizendo que as sociedades capitalistas são coletivamente
insanas ao mesmo tempo em que acreditam no mito da racionalidade. Não
por aca
so, Fromm vai atribuir aos grandes dirigentes de empresa um papel decisivo
na condução da patologia coletiva das sociedades modernas. Sua análise das
empresas enquanto gigantes abstratos que fogem do controle de qualquer ser
humano corrobora a hipótese de que estamos lidando com instituições totais,
portadoras de imperativos morais que se impõem arbitrariamente às nossas
forças individuais. Com isso, as semelhanças com uma instituição religiosa po
dem não ser mera coincidência. Não por acaso, Erich Fromm, especialmente
no final da carreira, tinha um interesse explicitamente religioso na interpreta
ção das sociedades modernas. Em resumo, para ele, o espírito do capitalismo
estava doente.
Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
41

“O espírito conservador”: sobre o posicionamento político dos


executivos

Nesta parte final, reconstruiremos as opiniões e os posicionamentos po


líticos de nossos entrevistados, relatados na quinta e última fase de nosso ques
tionário. Diante da pergunta “como você se define em termos raciais?”, apenas um
respondeu negro¸ cinco responderam mestiço ou pardo, quatro afirmaram não
ter nenhum tipo de preconceito e os demais se identificaram como brancos. Esse
resultado não surpreende e reflete bem a radiografia social brasileira, na qual
raça e classe são um só objeto teórico e empírico. A elite brasileira é branca,
como se sabe desde sempre, contendo a presença tímida de negros, mestiços e
pardos13. Sobre a pergunta seguinte, “qual é a sua orientação sexual?”, apenas
um homem respondeu ser gay, e todos os demais responderam heterossexual.
Em resumo, somando esses dados com o recorte de idade que apresentamos no
início, podemos ver que os executivos brasileiros são, em sua grande maioria,
homens brancos de meia-idade.
Quando perguntados “qual é o seu posicionamento político?”, 19 pessoas,
ou seja, 47,5% responderam centro, enquanto nove responderam direita, o que
equivale a 22,5%. Além desses, dois responderam ser de esquerda. As demais
respostas, contabilizando uma de cada, foram: esquerda, centro e direita no Bra
sil não existem; honesto; não acompanho; tudo pela igualdade; social democrata/es
querda; centro-direita; prefiro não falar; não tenho posicionamento político e centro
esquerda.
Alguns apontamentos podem ser feitos de imediato diante desse panora
ma. Faz todo o sentido que a maioria responda “centro” exatamente no
momento político anterior à eleição de Bolsonaro, no qual o conceito de
“centrão” ganha visibilidade com a articulação de partidos de centro-direita e
o protagonismo de políticos como Rodrigo Maia. Sabemos que o discurso de
centro-direita se volta explicitamente para a defesa do mercado, como
protagonizado por figuras do perfil de Geraldo Alckmin, em um plano mais
tradicional, e por figuras da autointitulada nova política, encenada talvez
melhor do que ninguém por João Amoedo e seu partido novo. Não por acaso,
são esses os nomes, além de outros como Meirelles, que surgirão em nossa
pesquisa na pergunta seguinte, como os candidatos a presidente dos
executivos, ou seja, os candidatos do mercado.

13 - Ver o capítulo com Carine Passos.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 42

Nesse ponto, é importante perceber que existe uma relativização e uma


redefinição de posições no espectro político brasileiro, refletindo um
cená rio global, mudança essa que se impõe com a ascensão e o
fortalecimento da extrema-direita na atual conjuntura. Diante dos
posicionamentos radicais de Bolsonaro, uma série de políticos
tradicionalmente de direita no Brasil passa a assumir o papel de
moderados em nosso espectro político, tentando se vender como uma
alternativa para os posicionamentos considerados radicais tanto de
esquerda quanto de direita. Vale lembrar que, antes da conjuntura atual,
essa série de políticos sempre compôs a direita clássica no Brasil,
polarizando com o campo da esquerda ou, como se convencionou dizer
hoje, o campo “progres
sista”.
Com isso, o que temos como resultado de nossa pesquisa é um perfil de
executivos conservadores, considerando-se a soma dos que se
identificam como “centro” (ou seja, a direita que procura se afastar do
estigma de extrema- -direita) com aqueles que se definiram
explicitamente como “direita”. Não por acaso, diante da pergunta sobre
o candidato para presidente, os nomes mencio nados foram exatamente os
candidatos do mercado: João Amoedo, Henrique Meirelles, Geraldo
Alckmin, Flávio Rocha e Álvaro Dias, além de uma menção a Ciro
Gomes, do campo progressista. Curiosamente, 30 questionários foram
respondidos antes da eleição, nos quais a maioria não respondeu em
quem vo taria, e alguns mencionaram os nomes acima. Não houve, nesse
momento, ne nhuma menção a Jair Bolsonaro. Incertezas do mercado?
Medo ou vergonha de assumir o voto na extrema-direita? São hipóteses
de interpretação. Nos 10 questionários aplicados após a eleição, dois
assumiram o voto em Bolsonaro, e a maioria continuou sem assumir. A
hipótese plausível aqui é que Bolsonaro não foi a primeira opção para os
executivos, cuja preferência explícita é pelos nomes citados acima. O
capitão se torna a saída em cima da hora para boa parte do mercado,
apenas quando se percebe que o “centrão” não vai levar a fatura.
A pergunta seguinte toca no assunto que dividiu o Brasil na conjuntura
dos governos do PT. Diante da questão “Você é a favor ou contra os
programas sociais no Brasil?”, as respostas se dividem entre sim, não e sim
com condicio nalidades14. Dentre elas, oito pessoas responderam a favor
sem nenhuma restri ção ou condicionalidade. Seis entrevistados
responderam ser contra. Dentre as alegações apresentadas para essa
opinião, encontram-se: por eles não proverem conhecimento que os torne
desnecessários, sou contra do jeito que são desenhados e geridos; contra os
atuais, mas a favor de programas responsáveis; não há incentivo

14 - Sobre a condicionalidade dos programas sociais, ver Josué Pereira da Silva (2014). Fabrício Maciel

Fabrício Maciel
43

para que as pessoas lutem para não precisar desses programas; reforçam o posiciona
mento da vítima; esses programas fazem as pessoas viverem de esmola e as deixam
acomodadas. Podemos notar que essas afirmações têm muito mais a ver com o
senso comum sobre o tema, que se desenvolveu na conjuntura anterior, do que
com a tentativa de elaboração de ideias e propostas efetivas para o enfrenta
mento da desigualdade.
Os demais responderam ser a favor com alguma condicionalidade. Dentre
as alegações apresentadas, encontramos: a favor, com cláusula de saída; sim,
desde que objetivando a inserção no mercado por conta própria; desde que sejam
sérios e de vidamente controlados quanto à efetividade; com responsabilidade fiscal,
ou seja, sem populismo; devidamente lastreados e gerenciados; com moderação, a
ideia é auxiliar pessoas em momentos difíceis e não sustentar famílias por toda a
vida; com seriedade, sem corrupção e falcatruas; contrapartida para conseguir o
benefício; sou a favor de programas que incluam os menos favorecidos em educação e
trabalho; preferiria ver meus impostos investidos em educação de qualidade para
todos; sou a favor do contro
le efetivo de natalidade e não de programas que só incentivam a miséria; dar o peixe
não resolve, o mais eficiente é ensinar a pescar.
A questão da desigualdade social brasileira se mostra aqui em toda a sua
nitidez. Boa parte da compreensão de nossa desigualdade se encontra nas difi
culdades em seu enfrentamento, e essas residem na mentalidade do mercado,
ou seja, no espírito conservador que habita boa parte de nossa sociedade.
Quem acompanhou a evolução recente da conjuntura econômica e política no
Brasil sabe que a questão do Bolsa Família foi um dos principais motivos de
polariza ção entre os projetos de governo do PT e do PSDB. No exato
momento em que escrevo esta parte do texto, a pandemia do coronavírus
impõe uma revisão do pacto social e da necessidade imediata de
implementação de políticas públicas contra a desigualdade. A questão se
mostra inclusive em sua dimensão econô mica, assumida por economistas
liberais como Armínio Fraga. A sociedade não pode parar como um todo, e
muitas pessoas precisam continuar trabalhando. Ao mesmo tempo, a morte
pede carona em cada esquina. O que fazer?
De imediato, a questão da renda básica universal vem à tona, mas não porque
a elite e a alta classe média romperam de repente com seu espírito con
servador e com sua mentalidade de mercado. Uma parte do pensamento liberal
inteligente, mas não necessariamente progressista, compreendeu três coisas:
primeiro que, sem uma renda mínima, muita gente vai morrer, e as sociedades
não vão dar conta de seus mortos. Segundo, o caos e a violência podem aumen
tar ainda mais em países como o Brasil e sair de fato do controle. Terceiro,

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 44

uma renda mínima entre os pobres faz circular a economia popular e ajuda a
dinamizar a economia como um todo. Ou seja, a renda mínima não é um favor,
é uma questão de ordem econômica e política imediata. Por que boa parte da
elite não compreendeu isso antes, na conjuntura anterior, e sempre foi contra
o Bolsa Família? Porque aqui reside antes de tudo uma questão de ordem
moral e ideológica. A elite nunca foi a favor do enfrentamento real da
desigualdade simplesmente porque não acha justo, como vemos nitidamente
nos depoimen
tos acima. Aqui, chegamos ao limite de um alto executivo brasileiro ser a favor
do controle de natalidade dos pobres.
Dentro das respostas acima, as pessoas que são contra assumiram expli
citamente seu espírito conservador e sua mentalidade de mercado. Essas repre
sentam o eleitorado de Bolsonaro, capitaneado por empresários militantes da
extrema-direita como Flávio Rocha e Luciano Hang. Entretanto, a mentalidade
do mercado se mostra, de fato, se observarmos com atenção as respostas daque
les que são a favor com condicionalidades, ou seja, impondo regras e
restrições. Um dos clichês clássicos da mentalidade de mercado, isto é, o
liberal que sem pre votou no PSDB e agora se identifica com o centrão se
resume em repetir o jargão de Cristovam Buarque: “educação é solução!”15.
Qualquer pessoa sensata e em sã consciência não discordará que a educação
formal é importante, espe cialmente em uma sociedade desigual. Mas isso não
significa que você é contra a desigualdade. A educação para todos, como
igualdade de oportunidades, é um dos pilares do pensamento liberal e
meritocrático moderno. Ainda que esse pensamento não esteja errado, ele não
tem nada de progressista. Aqui, é preci so ir além.
A questão da renda básica universal pode nos ajudar a avançar com a
discussão claramente, senão acharemos que o governo Bolsonaro está fazendo
um favor ao implantar a renda básica. Se voltarmos um pouco no tempo, nós
iremos lembrar de que a questão do programa Bolsa Família foi o principal
elemento simbólico da polarização de opiniões na conjuntura dos governos do
PT. Para além da simples defesa de um programa partidário, que não é o caso
aqui, a questão importante é: por que o espírito conservador brasileiro sempre
foi radicalmente contra o Bolsa Família? Aqui, retornamos à questão do méri
to. Ainda que o programa custasse um valor mínimo diante do PIB brasileiro,
a parte mais conservadora da sociedade brasileira nunca achou justo dar
alguma ajuda aos mais pobres e continua não achando.

15 - Como veremos no texto com Gabriel Duarte neste volume, a educação formal não é o que
explica o sucesso dos executivos.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
45

Com isso, a ideologia do mérito consegue criar um total distanciamento


cognitivo e uma insensibilidade moral que não permitem ver a dor do outro.
Também cria uma dificuldade de compreensão sobre como a economia funcio
na, na medida em que não vê como qualquer renda injetada nas classes popu
lares pode dinamizar e economia popular, ou seja, parte essencial da economia
real da sociedade, que funciona aquém da lógica do capital financeiro. Em re
sumo, no que diz respeito à discussão sobre a renda básica universal, que
agora se esboça, a mesma está sendo levada a cabo apenas porque o sistema
chegou ao limite, com a pandemia global, e não porque a elite mudou a sua
mentalida de de mercado.
A questão seguinte se afina diretamente com essa discussão. Diante da
pergunta “você concorda com a reforma trabalhista aprovada recentemente no
Brasil?”, a maioria concorda incondicionalmente. Dentre as justificativas apre
sentadas, encontram-se as seguintes: os países com legislações trabalhistas menos
complexas são os que mais empregam; é preciso mudar, tirar o gesso, facilitar o em
preender; necessário para o desenvolvimento do país; início de transformação neces
sária; as leis trabalhistas precisam ser modernizadas e flexibilizadas de acordo com as
novas demandas do mercado de trabalho, algumas regras estavam ultrapassadas e
atrapalhavam novos modelos de relacionamento entre patrão e empregado; a lei deve
facilitar o aumento da contratação por parte da empresa e redução do desemprego;
ainda temos uma legislação trabalhista totalmente ultrapassada (era Vargas) que vai
continuar gerando taxas elevadas de desemprego; a justiça trabalhista é tendenciosa,
fazendo elevar o custo das contratações; quando uma empresa em situações de crise
precisa demitir, ela é penalizada com um custo insuportável!; a desoneração é neces
sária para atrair investimentos; a justiça do trabalho é tendenciosa e onera empresas
mesmo em falta de culpa.
Essas respostas vão na linha da questão anterior. Como sabemos, a re forma
trabalhista é um dos temas mais polêmicos da atual conjuntura, e não é difícil
percebermos de qual lado os executivos se encontram. Eles são os
representantes fiéis e militantes do espírito conservador e da mentalidade do
mercado. Suas respostas se remetem, no geral, ao senso comum e aos clichês
sobre o tema, os quais não possuem nenhum fundamento científico em estu
dos de economia política, senso comum esse pelo o qual os executivos são em
grande parte responsáveis, criando e reproduzindo esse discurso dentro das
empresas e fora delas. Tais respostas demonstram apenas um sentimento das
elites do mercado, e não uma racionalidade econômica concreta. A discussão
e a produção acadêmica sobre a reforma trabalhista e seus ataques evidentes

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 46

à condição material e à dignidade dos trabalhadores já são amplas no cenário


brasileiro, e não pretendo reproduzi-las aqui16.
Essencialmente, a reforma desarma totalmente o trabalhador de
qualquer defesa, na medida em que deixa nas mãos “das partes” envolvidas a
possibili dade de qualquer negociação sem nenhuma regulação. Nesse cenário,
o mais forte engole o mais fraco, ou seja, os empresários e executivos fazem o
que con siderarem correto e justo a seu bel-prazer. Com isso, não há nenhuma
forma de intervenção institucional capaz de impedir que a natureza humana
mostre o seu pior lado em tempos de crise econômica, moral e espiritual. Os
mais fra cos ficam totalmente à mercê da vontade daqueles que ocupam
posições altas de poder. Essa é, inclusive, uma das características centrais que
Wright Mills (1975a) atribuía ao exercício de poder sem limite por parte das
elites.
Uma discussão séria sobre a reforma, para além dos clichês e da irracio
nalidade das elites, deveria considerar duas coisas: que a reforma é improdu
tiva e imoral. Na primeira dimensão, deveria ficar claro que deixar uma massa
de gente abandonada ao seu bel-prazer, como vemos agora radicalizado com o
coronavírus, é desperdício de capital humano. Simples assim. As empresas po
deriam compreender a proteção social de seus empregados como
investimento. Mas a irracionalidade, o medo e as concepções de justiça
distorcidas da elite não permitem essa compreensão. Aqui já tocamos no
segundo ponto.
Os fundamentos morais da reforma, pautados em concepções
totalmente vagas de modernidade e mérito, são na verdade imorais, pois
legitimam o aban dono em massa dos trabalhadores e a institucionalização de
sua indignidade. Em termos simples, se um raciocínio econômico lógico não é
capaz de enxergar a proteção social como um bom investimento, algum
sentimento de justiça e solidariedade poderia enfrentar a situação. Aqui,
presenciamos um problema teórico de ordem maior. Na verdade, as duas
dimensões da questão se articu lam. A irracionalidade econômica da elite é
apenas a dimensão mais visível de sua irracionalidade social. Com isso, a
acumulação econômica e política irra cional e imoral das elites têm aumentado
em escalada veloz a sua rapina em relação ao resto da sociedade17.

16 - Ver, por exemplo, José Dari Krein, 2018.


17 - Para uma análise precisa desse mecanismo predador, nenhum livro é melhor do que “A era do
capital improdutivo” (2017), do grande Ladislau Dowbor. A didática do autor impressiona ao
mostrar claramente e com referência a dados e pesquisas atuais como a elite desenvolveu um
mecanismo imbatível de rapina, drenando todas as forças produtivas da sociedade para suas
grandes fortunas.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
47

A questão seguinte não poderia ser diferente. Quando inquiridos se são


a favor ou contra a reforma da previdência¸ a maioria respondeu ser a favor.
Dentre as justificativas: há como ser realista e contra?; necessária para ajustar o
rombo na previdência; não tem cabimento a discrepância existente entre o regime
geral e o regi
me do funcionalismo público; a conta não fecha; o sistema atual é totalmente injusto
pois uma parcela de privilegiados (políticos, juízes, funcionários públicos e outros que
vivem de nossos impostos) recebem aposentadorias de primeiro mundo ao passo que
o restante da população recebe uma miséria. Mais uma vez, podemos ver com ni
tidez a seletividade da mentalidade do mercado. O Estado e o funcionalismo
público surgem como os principais inimigos. Não por acaso, essa é a opinião
de ninguém menos do que Paulo Guedes, principal representante do espírito
conservador no Brasil atual. Na última fala, podemos ver que “os
privilegiados” são apenas ocupações do Estado.
Essa questão deveria ser clara como a luz do dia, mas não é. Aqui, o
papel da sociologia crítica é não reproduzir um teoreticismo vazio, mas dizer
as coi sas que precisam ser ditas com toda a clareza. Qualquer executivo de
nível mé dio ganha mais do que um juiz no Brasil, tem melhores
aposentadorias e outras vantagens. Isso sem falar dos altos executivos, que
chegam a ter salários de mi lhões, fora outras formas de renda. Isso sem falar
da elite propriamente dita... Além disso, a forma como a elite drena
gigantescos volumes de recursos do Es tado é o que foi mostrado com maestria
pelo economista Ladislau Dowbor, em seu livro “A era do capital
improdutivo” (2017). Aqui começa a ficar claro quem é o verdadeiro inimigo
do Estado e como ele se esconde. Também fica cada vez mais claro o sentido
da fala de nossos entrevistados.
Se, no plano da economia, a identificação afetiva de nossos executivos é
com Guedes, no plano da moralidade não poderia ser com outra figura senão
com Sérgio Moro. Quando perguntados “qual a figura pública atual que você mais
admira?”, a maioria respondeu que não sabe ou não admira ninguém, repro
duzindo talvez um espírito de insatisfação geral, reflexo do espírito de nossa
época, desacreditada com a política, sistematicamente desmoralizada e desle
gitimada pela grande mídia. Entretanto, dentre os que mencionaram alguém,
surge a figura de Moro como a mais citada. As justificativas mencionadas con
vergem no sentido de ele ser o herói da Lava Jato e da moralidade no Brasil
atual. Curiosamente, Moro acaba de sair do governo, pouco antes do momento
em que escrevo essa parte do texto. Uma lição importante aqui é que não deve
mos ficar presos nas ilusões da conjuntura, ainda que precisemos acompanhar
os fatos. Aqui, precisamos perseguir o sentido mais profundo da ordem social
e do espírito da época que agora se esboça e se aprofunda.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 48

A briga entre Moro e Bolsonaro, ainda que tenha algum significado e


talvez imprima um novo momento ao governo, é mais um episódio, talvez um
capítulo especial, da novela da política, que, em grande parte, mais ofusca do
que explica a forma como o capitalismo está agindo neste exato momento e
como ele reestrutura, ressignifica e aprofunda seus padrões de desigualdade.
Com isso, quero dizer que, mais importante do que o assunto do momento, pre
cisamos perceber como a mentalidade do mercado atua para esconder a ação
do mercado sistematicamente. Nesse sentido, o herói da moralidade, Sérgio
Moro, representa e atribui significado a um momento confuso no qual todo o
foco na política e na moralidade esconde a rapina sistemática da elite, como
mostrada por Dowbor, e os crimes sem precedentes operados pelo novo capita
lismo, como em Mariana e Brumadinho.
Com isso, o significado mais profundo da identificação afetiva e irra
cional com Sérgio Moro tem profunda conexão com uma estética “tropa de
elite” incorporada por ele e com a política de criminalização do pobre que ela
representa. Na prática, no Brasil atual o combate à pobreza foi substituído
pelo combate ao pobre. Essa estética e consequentemente sua política
também é representada por gestos simbólicos, como a comemoração de
Wilson Witzel diante do assassinato de um homem no trágico episódio da
ponte Rio-Niterói. Quando foi lançado o primeiro filme “Tropa de Elite”, de
José Padilha, muitas questões foram levantadas e muita gente achou o filme
realmente crítico. Na verdade, sua linguagem de “entrar para matar”, ao invés
de tematizar os fun
damentos profundos da desigualdade brasileira, parece muito mais naturalizar
um sentimento agressivo de combate ao crime, sem mostrar que esse é
produto da desigualdade de classes no Brasil. O sucesso do filme não é casual.
Sua tona lidade tem profunda sintonia com o sentimento de ódio aos pobres
desenvolvi do por boa parte das classes privilegiadas no Brasil. Não por acaso,
o Capitão Nascimento, herói do Brasil naquele momento, sai das telas e vence
as eleições para presidente. Com isso, também não é por acaso que Sérgio
Moro tenha se tornado o herói da elite e da classe média alta no Brasil.
A questão seguinte tem a ver com um problema teórico de grande im
portância para nossa pesquisa. Gostaríamos de compreender qual é a relação
entre dinheiro e reconhecimento para nossos executivos e se um predomina
sobre o outro. Trata-se de uma questão difícil que se reflete em suas respostas.
Com isso, perguntamos para eles “o que é mais importante para você, dinheiro ou
reconhecimento?”. A maioria respondeu reconhecimento, seguidos de perto por
aqueles que responderam ambos, enquanto que a minoria respondeu dinheiro.

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
49

Dentre as justificativas: reconhecimento traz o dinheiro, você vale a raridade que a


sociedade reconhece; reconhecimento é consequência; ambos na medida certa; ambos
são consequências das escolhas que fazemos; preciso de dinheiro para viver, me
motivo com reconhecimento; ambos em proporções equilibradas; reconhecimento,
pois com ele vem o dinheiro.
Essa é uma questão complexa, e as respostas apontam para uma nebulo
sidade na relação entre as duas coisas. Por isso, é importante articular a pes
quisa empírica com reflexões teóricas a partir delas. Para Stephan Voswinkel
e Gabriele Wagner (2013), existe atualmente um processo de “desinstituciona
lização” e “reinstitucionalização” dos padrões de reconhecimento na esfera do
mercado. Com isso, os autores procuram mostrar que a flexibilidade das
relações e das condições de trabalho impõe novas formas de reconhecimento
que são também “flexíveis”. A partir da análise de Richard Sennett (2006b), que
compreende a flexibilidade do novo capitalismo como uma ideologia na verda
de escondendo suas rígidas hierarquias, procurei em outra ocasião definir os
novos padrões de reconhecimento do mundo corporativo como um “reconhe
cimento fake” (MACIEL, 2017).
Ou seja, o incentivo por buscar reconhecimento no mundo corporativo
na verdade se resume no estímulo a uma competição agressiva, desleal e insa
na, causando frustração e burnout, como alguns autores já vêm demonstrando
(NECKEL; WAGNER, 2014). Essa competição desleal é o fundamento e a causa
do que Richard Sennett (2006a) perfeitamente definiu como a “corrosão do ca
ráter”. A promessa de felicidade e realização ao se “vestir a camisa da
empresa” vai sendo frustrada na medida em que se percebe que a escalada na
hierarquia do mundo corporativo é um funil no qual muitas vezes não se leva
em conta o “mérito”. Como percebeu Wright Mills (1975a) em sua pesquisa, o
passaporte para a entrada nas “altas rodas” é restrito e depende estritamente
de política e relações pessoais, quando não se trata de quem já é nascido na
elite, o que para ele era 94% da elite americana nos anos de 1950. Com isso,
ainda que o estímulo às nossas vaidades e à realização pessoal seja
instrumentalmente usado pelo mundo corporativo, é difícil considerar a
hipótese de que este seja movido por uma ingênua “luta por reconhecimento”,
como a teoria pura da moralidade de Axel Honneth (2003) sugeriria.
Assim, podemos problematizar que talvez a verdadeira questão não
tenha surgido aqui. As respostas dos entrevistados em uma pesquisa
qualitativa como esta muitas vezes são difíceis de mapear, por seu alto grau de
subjetividade. Sendo assim, precisamos recorrer a alguns dados mais
objetivos da pesquisa,

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 50

como, por exemplo, os salários dos executivos. Aprendemos nesta pesquisa


que, no limite, a recompensa mais objetiva assegurada aos executivos, o que
vai aumentando na medida em que se sobe de nível, é um alto salário, além de
outras gordas vantagens financeiras como prêmios, boas possibilidades de
compra de ações das empresas nas quais trabalham, etc. Isso também foi per
cebido por Boltanski e Chiapello (2009) na melhor parte de seu clássico estudo,
que é exatamente a empírica. Para eles, assegurar um alto salário e inclusive
boas possibilidades para os filhos dos executivos, garantindo assim a fidelida
de dos “melhores rebentos da burguesia”, é uma das principais estratégias do
patronato capitalista para a construção de sua dominação social.
Também é muito intuitivo para nossa pesquisa que, no final de seu gran
dioso livro “A elite do poder” (vale aqui o spoiler), Wright Mills (1975a) encerre
sua análise de forma trágica, revelando que no fundo a elite é imoral porque
tem no dinheiro sua motivação última, apesar de sua rica análise ao longo do
livro mostrar que as metas culturais do capitalismo são a busca por prestígio,
poder e status. Considero muito pertinente a hipótese de Mills, levando em
conta a profundidade de sua investigação e que seu livro muito provavelmente
é a maior análise sobre as elites feita em toda a história das ciências sociais.
Também é preciso levar em conta aqui que falar em dinheiro é um tabu na
sociedade moderna. Qual a razão disso? Por que, por exemplo, as pessoas que
ganham bem normalmente não gostam de revelar suas rendas? Por que tocar
no assunto da renda é sempre delicado, como aconteceu nesta pesquisa e em
outras nas quais participei? (SOUZA, 2009, 2010; REHBEIN, 2015). Por que
não conseguimos nem mapear precisamente a renda da verdadeira elite,
emprega
dora de nossos executivos, renda essa que magistralmente Ladislau Dowbor
(2017) definiu como “renta”, ou seja, fruto do rentismo?
Para além do medo de ser roubado, por revelar sua alta renda, a hipótese
mais provável aqui, se compreendermos a posse de dinheiro como tabu, é que
revelar uma alta renda seja algo imoral e vexaminoso. É incômodo assumir um
alto salário diante da brutal desigualdade na qual vivemos. É simplesmen
te imoral, como compreendia Wright Mills em sua definição última sobre as
elites. É insustentável e inaceitável. “Pega mal”, como dizemos no senso co
mum, pois no fundo a ideologia do mérito, por mais que procure justificar o
esforço pessoal e a honestidade (que não existe se compreendemos a rapina da
elite), não consegue explicar a grande diferença entre os níveis de renda na
sociedade. Atualmente, um executivo pode ganhar até 100 vezes mais (ou
muito mais!) do que seus subordinados, e isso sem contar a verdadeira elite,
patroa

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
51

dos executivos. Por isso, é bem provável que a verdade sobre o dinheiro tenha
timidamente se escondido na fala de nossos entrevistados18.
Diante da questão seguinte, “quais são os valores mais importantes para ven
cer na vida?”, as respostas também não surpreendem, remetendo-nos ao nú cleo
de valores da “família burguesa”. Dentre as principais respostas, a ideia de
ética foi a mais mencionada, seguida de perto pelos conceitos de integri dade e
honestidade¸ ou seja, valores centrais da moralidade do capitalismo e que são
pregados especialmente pelo discurso do novo capitalismo sustentado pelo
mundo corporativo. É no mínimo curioso que esses sejam os principais
valores e virtudes defendidos por executivos para se ter sucesso na vida
quando tematizamos a série de imoralidades realizadas pelo capitalismo
desde sem pre, especialmente em sua fase atual, camuflada pelo discurso do
capitalismo do bem e politicamente correto. Basta lembrar crimes ambientais
cometidos por grandes empresas, como os emblemáticos casos de Mariana e
Brumadinho, além da evasão de impostos, não pagamento de direitos
trabalhistas, etc. Se há algo que fica muito claro, especialmente neste contexto
de pandemia, é que o capitalismo, enquanto sistema econômico e moral, não
tem nada de ética, in tegridade e honestidade.
Para não ficarmos no plano do denuncismo vazio, vamos à teoria. Umas
das principais discussões contemporâneas sobre o capitalismo é acerca de sua
moralidade. Para Charles Taylor (1997), a ideia de moralidade nos remete a um
conjunto de valores que define a hierarquia moral do Ocidente e suas concep
ções do que é bom e do que é mal, que vai determinar o que é uma boa vida a
ser vivida. Procurei avançar criticamente com essa discussão mediante a ideia
de um horizonte moral de valores que é fake, especialmente na fase atual do ca
pitalismo, na qual as metas culturais de realização pessoal, impostas a todos os
indivíduos e prometidas pelo novo capitalismo, são simplesmente
inalcançáveis para a grande maioria (MACIEL, 2017). Para Axel Honneth
(2015), a ideia de moralidade do capitalismo tem a ver com uma interação
ética entre todos os indivíduos, que pode servir como base para o
reconhecimento e motor para o progresso social.
Eu gostaria de sugerir um plano de análise mais concreto sobre a morali
dade do capitalismo. Para Wright Mills (1975a), em seu clássico “A elite do po
der”, a principal marca da elite é exatamente a sua imoralidade, no sentido mes
mo do senso comum. Mais simples do que uma teoria abstrata da moralidade
do

18 - Vale lembrar que a clássica análise de Simmel (2005) sobre o dinheiro já o sugeria como o prin
cipal mediador das relações na modernidade.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 52

capitalismo, o que Mills realizou foi uma brilhante descrição analítica de


como boa parte da reprodução do poder e da riqueza da elite deve-se a
relações espú rias, imorais, com altas evasões de impostos e concessões ilícitas
do Estado ao mercado, para além do discurso falacioso do “trabalho” e do
“mérito”. Veremos, ao longo deste livro, que a reprodução da condição de
classe privilegiada dos executivos se deve muito mais à sua origem social, ao
seu habitus, às suas redes de relações, etc. do que ao princípio vazio e falacioso
do mérito. Com isso, é muito curioso que princípios como ética, integridade e
honestidade sejam os principais no discurso de nossos executivos. Eles
compõem com isso o núcleo duro do discurso do “terceiro espírito do
capitalismo”, que esconde sistemati
camente sua imoralidade.
Quando perguntados se descendem de uma família de prestígio, a grande
maioria respondeu que não, considerando que provavelmente o termo pres
tígio seja muito forte, remetendo-nos à ideia de famílias muito poderosas na
sociedade brasileira, o que não faz parte da autorrepresentação da classe
média alta. Ela é percebida muito mais pelos valores do mérito e da
honestidade (éti ca), como estamos vendo ao longo da análise. É o que
confirmamos diante da pergunta seguinte: “você acredita que qualquer pessoa
que se esforce pode obter su cesso?”. A maioria respondeu que sim enfaticamente,
alguns inclusive evocando o próprio exemplo. Apenas alguns demonstraram
consciência sobre a desigual dade do ponto de partida, e outros relacionaram o
sucesso a outros fatores, como oportunidades educacionais e chances na vida.
Com isso, se existe uma palavra que resuma toda a discussão que travamos
neste livro, ela é o mérito, ou seja, a ideia de que todo o sucesso no fim das
contas depende do esforço pessoal. Todas as outras respostas de alguma
forma dependem desta, pois toda a avaliação que se faz da ação e das
obrigações do Estado, dos limites e possibi lidades do mercado e, por fim, da
vida social como um todo serão balizadas por esse princípio central,
explicitamente ou não.
Na sequência, diante da questão “qual é o maior problema da sociedade
brasileira?”, os mais mencionados foram problemas na educação, corrupção, desi
gualdade e violência. Esse ponto é interessante, pois trata de uma questão difícil
para a qual pode haver várias respostas conjugadas. O problema da educação
surge como um dos mais citados por estar intimamente articulado à questão
do mérito. Ninguém em sã consciência diria ser equivocada a defesa do acesso
democrático à educação de qualidade para todos. Essa é uma bandeira
universal praticamente inquestionável. O que quase nunca é discutido sobre o
tema, a não ser por especialistas e pesquisadores críticos, é a desigualdade de
possibilidades

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
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na utilização produtiva das chances iguais. Mais uma vez, vale no geral o
jargão de Cristovam Buarque: “educação é solução!”, o que isenta as empresas
de sua responsabilidade social e coloca novamente a culpa... no Estado.
Sobre a questão da corrupção, seria quase impossível que ela não figurasse
entre as principais, especialmente no atual contexto. Vale lembrar que, desde o
primeiro escândalo do mensalão, envolvendo o PT, não se construiu outra lin
guagem política no Brasil a não ser a obsessão antipetista e,
consequentemente, antiesquerdista e antiprogressista social em qualquer
sentido. Trata-se de nada menos do que 15 anos de lavagem cerebral
sistemática na população brasileira, encabeçada pela grande mídia. Com isso,
não é por acaso que a palavra cor rupção esteja acriticamente decorada na
cabeça de cada brasileiro mediano e especialmente no discurso daqueles que
são militantes em defesa do mercado e da sua própria representação simbólica
de carne e osso, no caso dos executivos.
Ainda, para além dos contornos específicos da conjuntura, a questão da
corrupção faz parte do imaginário brasileiro desde sempre, determinado pelo
mito da brasilidade e seu complexo de vira-lata, pintando um quadro no qual o
Brasil e a América Latina seriam o reino da corrupção, do patrimonialismo e
do populismo, enquanto os países centrais do Atlântico Norte seriam o berço
da democracia, da seriedade e da virtude política. Uma crítica contundente a
este tipo de interpretação equivocada e seus efeitos políticos nocivos sobre nós
vem sendo feita há vários anos por Jessé Souza (2009, 2017). Eu mesmo
construí uma crítica ao conteúdo específico da ideologia da brasilidade e
como ela vem sendo construída no Brasil desde nossa independência jurídica
e política (MA CIEL, 2020).
Sobre a desigualdade social, também não é surpreendente que ela sur ja
como um problema central. Basta abrir qualquer grande jornal brasileiro para
constatar que a desigualdade está na ordem do dia. Há tempos já não é
novidade que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e até mesmo
o mais desigual, a partir de alguns critérios objetivos como a concentração de
renda e o Índice de Gini. Tais informações estão amplamente acessíveis à po
pulação, o que não significa que possamos dizer o mesmo acerca das razões
que as explicam. Uma coisa é a população ter conhecimento de dados sobre a
nossa desigualdade, outra muito diferente é compreender suas razões
profundas e sua parcela de culpa na construção e reprodução dela. Outra
coisa, além disso, é desejar o fim da desigualdade e agir coerentemente sobre
isso. O imaginário e as consequentes ações ultrameritocráticas que estamos
analisando aqui dei xam claro que esse não é o espírito dominante entre os
representantes fiéis do mercado enquanto seus beneficiários diretos.

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 54

Por fim, não é nenhuma surpresa que a violência surja como um dos pro
blemas centrais do Brasil. Apenas o medo objetivo que as classes média e alta
no Brasil sentem contra os pobres já justificaria essa resposta, para aquém da
tematização precisa das razões da violência no Brasil. Além disso, na atual
conjuntura, a linguagem política antiesquerdista e antiprogressista distorceu
sistematicamente a questão da violência no Brasil. Enquanto na conjuntura
anterior à era Temer-Bolsonaro houve algum progresso na compreensão
básica de que a violência, bem como seu aumento ou diminuição, está
intimamente ligada à estrutura da desigualdade de classe, racial e de gênero,
bem como as suas alterações, no contexto atual a violência se torna culpa nua,
crua e exclu
siva de quem a pratica. Uma estética “tropa de elite” se consolida, na qual o
capitão Nascimento, herói do imaginário brasileiro atual, sai da telinha e se
torna presidente da República.
Quando perguntados se contribuem ou participam de alguma forma de ca
ridade ou trabalho social, a grande maioria respondeu que sim. Para além do
simples julgamento de valor de que nossos entrevistados podem com isso es
tar apenas anistiando suas consciências diante de sua situação de privilégio e
da gritante desigualdade social brasileira, precisamos tematizar uma questão
sociológica de ordem maior. Já é bastante conhecida a polêmica discussão so
bre a filantropia no capitalismo, tendo sido tematizada tanto pelos acadêmicos
quanto pela arte no geral. Também é conhecido o fato de que algumas formas
de filantropia podem acarretar em isenção de impostos e forte propaganda em
favor de quem as realiza. Basta se lembrar de algumas cenas clássicas da trilo
gia de “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, para uma bela
ilustração crítica sobre o tema. Entretanto, o ponto sociológico em questão é
que, inde pendentemente da ação de caridade, ou filantropia individual, ou
empresarial, que pode até expressar boas intenções e de fato ajudar pessoas, o
imaginário meritocrático permanece intocável diante de tais ações e pode ser
até reforça do, criando a distinção entre o bom capitalista, que ajuda o
próximo, e o mau capitalista, frio e egoísta. Ou seja, não é um problema em si
ser um capitalista se você pensa no próximo.
Diante da provocativa pergunta “qual o papel das empresas na sociedade?”, todas
as respostas foram unânimes em consonância com o discurso decorado do
mundo corporativo no novo capitalismo. Em resumo, as empresas devem
fomentar desenvolvimento econômico, social e sustentável, gerar riquezas e produzir
empregos. Novamente, o discurso idílico de nossos entrevistados não condiz
com a realidade. As discussões sérias da economia, ao longo do século XX, já

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
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deixaram há muito tempo claro que o desenvolvimento econômico e a geração


de riquezas nunca dependeram apenas da virtuosidade do mercado, mas sem
pre de intervenção ativa do Estado. Nesse ponto, não precisamos ir muito lon
ge, basta olhar para a crise global de 2008 e para a atual crise da pandemia do
coronavírus para ver que o Estado socorreu e continua socorrendo a economia
em momentos vitais, como já tem sido amplamente registrado.
Quando questionados sobre o que é preciso para melhorar a política no Bra
sil, as respostas também são previsíveis, remetendo-nos a questões recentes
no imaginário nacional. Dentre elas, destacam-se o combate à corrupção, trans
parência e ética, reforma política e o reforço da educação no Brasil. Não por acaso,
o combate à corrupção é o discurso da ordem do dia na mídia brasileira já há
bastante tempo, sendo defendido especialmente pelo mercado. O surgimento
de valores como transparência e ética, os quais vimos surgir acima também
diante de outras questões, reforçam nossa análise aqui no sentido de que o
mercado cria uma grande ficção acerca de si mesmo e de toda a sociedade,
com especial foco no campo político. A novelização atual do campo político
pela grande mídia consiste em sua banalização, deslegitimação e
desmoralização sistemática, isentando o mercado de toda a responsabilidade
sobre a desigual dade e a não sustentabilidade produzida pelo novo
capitalismo, especialmente agora em tempos de pandemia. Para tanto, nada
mais eficaz do que a defesa de valores caros à sociedade brasileira e moderna
como um todo, como “transpa rência e ética”. A defesa da reforma política
também não é casual, pois esse é um debate vigente na esfera pública
brasileira atual e, sem dúvida, um debate bastante importante.
Infelizmente, esse debate foi reduzido em vários momentos aos erros do PT,
na conjuntura anterior, como se o partido simplesmente não tivesse desejado
realizar a reforma, quando na verdade sua efetivação depende de en frentar
estruturas profundas tanto da política quanto da própria sociedade bra sileira.
Curioso, entretanto, é que não haja um debate sério sobre a “reforma do
mercado”, no sentido de que ele assuma todas as responsabilidades sociais,
econômicas e éticas que são atribuídas apenas ao Estado. Por fim, a defesa do
fortalecimento da educação de base nos remete a outro senso comum profun
damente arraigado no imaginário brasileiro, isto é, o de que nossa população é
pouco instruída e não madura o suficiente para decidir o futuro do país pelo
voto. Novamente, ninguém discordaria de que uma educação de base é funda
mental para os rumos de uma sociedade. Vamos ouvir esse discurso tanto no
campo da esquerda quanto no da direita. Entretanto, o ponto que me parece

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 56

mais importante aqui é que, quando todo o foco está de maneira distorcida na
política, nossa percepção acerca dela é fundada em respostas vagas sobre a mu
dança social e na isenção completa da responsabilidade do mercado por suas
ações. Com isso, permanecemos com todo o foco na “novela da política” e com
esperanças distorcidas sobre a melhora dela.
Na sequência, permanecemos no mesmo tom diante da importante ques
tão “quais são as causas da desigualdade brasileira?”. Novamente, as respostas não
surpreendem, levantando aspectos centrais de nosso imaginário como nossa
origem escravocrata, egoísmo generalizado, corrupção, incompetência, e especial
mente dificuldades em nossa educação. Caminhando para o final de nossa aná
lise, podemos perceber que algumas questões convergem no sentido de nosso
senso comum, e a questão da educação aparece como chave central para todos
os problemas. Não poderia ser diferente. A defesa da educação universal, em
abstrato, é o principal escudo da moralidade ultrameritocrática que permeia
nossas sociedades em todas as suas dimensões e especialmente nos defensores
do mercado. A educação seria o principal acesso, a única maneira de se demo
cratizar a chance para a realização de tudo o que é prometido pela sociedade
meritocrática: o cuidado de si, o sucesso e a realização pessoal. Todas as metas
sociais impostas a cada um de nós, como brilhantemente nos mostrou Robert
Merton em seu clássico texto “Social structure and anomie” (MERTON, 1938),
seriam simplesmente alcançadas por todos se a educação de qualidade fosse
universalizada.
Entretanto, como o próprio Merton mostrou, existe uma dissociação, no
mundo moderno, entre tais metas e os caminhos reais para que todas as
pessoas possam alcançá-las. Esse seria o sentido mais profundo da ideia de
anomia, indo além da noção de patologia durkheimiana. Um olhar para os
países ricos já desmontaria este castelo de areia de nosso senso comum.
Mesmo em países como a Dinamarca ou a Noruega, louvados em nosso
imaginário como exem
plos de tudo, a universalização da educação não acabou com a desigualdade
entre as classes, ainda que em tais países essa seja, por razões históricas,
menor do que a nossa. O fato é que o discurso da educação é muito
conveniente, pois nos remete a um caminho impessoal para o enfrentamento
da desigualdade, quando isso depende de intervenções diretas do Estado,
como a história dos mesmos países centrais que tanto louvamos já deixou
clara há tempos.
Diante da questão também central “qual é a sua opinião sobre a Operação
Lava Jato?”, nossos executivos também são incisivos. A grande maioria foi a
favor dela, com ênfase na fala de que a operação seria um divisor de águas no

Fabrício Maciel
Fabrício Maciel
57

combate à impunidade e à corrupção do Brasil. A despeito de sérias discussões


sobre o tema, a tonalidade aqui reproduz a empobrecida esfera pública brasi
leira atual, movida mais pelas emoções do que pela elaboração de argumentos
racionais. Alguns poucos responderam que a operação é correta, mas foi dis
torcida, apresentando alguma noção sobre a realidade. No geral, reproduziu-se
o discurso implantado na cabeça do brasileiro há pelo menos 15 anos, no con
texto do imaginário antipetista, antiesquerdista, antiprogressista e antissocial,
que pariu o bolsonarismo. Não por acaso, como vimos acima, a figura
admirada pelos executivos é Sérgio Moro, no contexto da eleição do
bolsonarismo.
Vale lembrar que a Operação Lava Jato é o principal marco simbólico e
prático institucional que confere corpo ao bolsonarismo, se compreendermos
este como um movimento e um imaginário social que se consolida diante da
desconstrução e distorção sistemática do papel da esquerda no Brasil, levado a
cabo pela grande mídia, neste momento arrependida. Não poderíamos esperar
outro tipo de resposta diante dessa importante questão. Também não preciso
lembrar ao leitor das confusões evidentes da Lava Jato, seu evidente viés po
lítico e suas contradições, como ficaram claras recentemente, especialmente
depois da saída do ex-presidente Lula da prisão, o que se configurou como
sendo o grande objetivo da operação, tendo como consequência direta a elei
ção de Jair Bolsonaro e seus efeitos irreversíveis para a sociedade brasileira. A
atual política de morte, capitaneada conscientemente pelo presidente, bem
como sua política de ataque a qualquer ideia básica de sociedade (e não em de
fesa da sociedade, como diria Michel Foucault), não será esquecida pelos livros
de história, nos quais a Lava Jato há de ser lembrada, sim, como um divisor de
águas, não no combate à corrução, mas sim na interrupção de um projeto de
sociedade e no início de uma necropolítica que não será esquecida.
Por fim, em resposta à nossa última pergunta, “o que é preciso para di
minuir a violência no Brasil?”, surge com todo vigor o imaginário Sérgio Moro e
a estética “tropa de elite” quando nossos executivos afirmam que é preciso
reforçar o combate à violência, aumentar o número de presídios e a punição. Nosso
imaginário punitivo, intensificado no contexto do bolsonarismo — no qual não
por acaso o superministro e agora ex-amigo ganha proeminência — não deixa
a desejar. É preciso apertar a cobrança, exigência e punição para o Estado
como vimos e agora para a própria sociedade. Apenas o mercado continua
escapando isento de cobranças e punição. Entretanto, se o punitivismo é a
resposta de imediato, em curto prazo, novamente confirmando a objetividade
da pesquisa sociológica com método, surge aqui a educação como solução, em
médio prazo,

Capítulo 1
A mentalidade do mercado: origem de classe, estilo de vida e posicionamento político de executivos brasileiros
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 58

em consonância com as outras questões aqui abordadas. Ou seja, à guisa de


conclusão deste capítulo, fica claro como a luz do dia que a principal dimensão
do discurso ultrameritocrático continua sendo a de que basta o acesso a opor
tunidades iguais para que todos os problemas sociais sejam solucionados
como em um passe de mágica. Espero que os resultados desta pesquisa, como
vere mos também nos demais capítulos, deixem claro que esta é a grande
viseira, ou seja, nossa grande ficção meritocrática, que impede a percepção
dos reais caminhos para o enfrentamento dos problemas cruciais da sociedade
brasilei ra. Sigamos adiante.

Fabrício Maciel
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 60

Rachel Maia ou, como comumente ela é identificada no espaço corpora


tivo que ocupa, “Reichel Maia”, para designar a pronúncia do nome na língua
inglesa, é hoje uma das poucas mulheres negras do país a ter chegado ao alto
escalão da hierarquia corporativa. Essa constatação por si só já denuncia certa
apropriação da imagem de Rachel em troca de aceitabilidade no mundo dos
negócios. Nada disso é apenas culpa ou responsabilidade da própria Rachel.
Ela está inserida em uma estrutura de desigualdades que procura o tempo todo
parecer menos desigual e construir histórias que legitimem uma pretensa bus
ca por igualdade e inclusão no novo capitalismo.
Mulher negra, nascida em um bairro periférico na zona sul de São Paulo,
ela é a mais nova de uma família de sete irmãos. Formada em Ciências Con
tábeis pelo centro universitário FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), fez
cursos de Liderança e Negócios na Universidade de São Paulo (USP), na
Harvard Business School e na Fundação Getúlio Vargas. Além disso, apresenta
experiência de sete anos como Chief Financial Officer (CFO) na Tiffany & Co,
empresa norte-americana do ramo de joias, e oito anos no cargo de Chief Exe
cutive Officer (CEO) na Pandora. Dessa forma, Rachel fincou sua carreira nos
negócios de luxo e uma trajetória reconhecidamente de destaque no universo
das maiores empresas do Brasil.
Ao deixar o cargo na joalheria Pandora, Rachel assumiu mais uma vez
um cargo na alta hierarquia do luxo, dessa vez na empresa francesa de roupas
Lacoste. Sua passagem na marca durou dois anos, e, logo após esse período, Ra
chel anunciou que se dedicaria a projetos pessoais voltados para consultorias e
capacitação de mulheres periféricas. É nesse ponto que a trajetória de Rachel
parece demonstrar fragilidades que não compõem o dia a dia dos grandes dire
tores executivos. A volatilidade com a qual ela passeia no mercado não mostra
a solidez identificada nesse meio social, círculos fechados de poder, prestígio e
dinheiro nos quais os membros não têm preocupações comuns que atravessam
toda a sociedade e não estão em busca de lugares na hierarquia do trabalho, já
que os lugares que ocupam são solidificados.
Logo após a sua saída da Lacoste, Rachel se posiciona publicamente em
busca de novas oportunidades. Essa ação não costuma ser atrelada a quem de
fato ocupa espaços de poder e decisão. A trajetória de Rachel apresenta o de
bate da representatividade e da diversidade, fortemente reiterados pelo marke
ting das empresas, mas não consegue alterar relações estruturais.

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
61

O passo a passo da história familiar e profissional de Rachel é sistemati


camente repetido pelas mídias jornalísticas ao abordarem, em capas de revis
tas e em longas matérias, o tópico da representatividade e da necessidade de
tocar no assunto da diminuição de desigualdades. As publicações geralmente
entoam o aspecto da meritocracia para legitimar a retórica de que a
mobilidade social e a respeitabilidade moral estão disponíveis a todos os
indivíduos que se esforçam no desenvolvimento pessoal e profissional de
habilidades. A partir de capas como as que trazem os slogans “Sim, é possível?”,
a exemplo da edição de nº 70 da Forbes Brasil, publicada em 2019, o mundo
corporativo se utili za desses exemplos para descrever como as estatísticas são
contrariadas nessa trajetória e como está disponível a todas as pessoas negras
a possibilidade de ocuparem o lugar de destaque que hoje Rachel ocupa.
É comum que, ao analisar os lugares sociais que as pessoas negras
ocupam no Brasil, haja uma memória histórica a respeito das trajetórias
advindas de um passado recente que ainda é pulsante no cotidiano brasileiro.
Observar o entorno através do que a mídia nos oferece, por exemplo, é
perceber que a sociedade caminha no sentido de uma violação constante do
direito de pessoas que compõem grupos minoritários, negação da sua
existência por meio de linchamentos públicos e legitimação pelo próprio
Estado da eliminação das características culturais específicas desses grupos.
Para além do que é visível na superfície, o debate mais complexo do que
deve ser feito pelo conjunto da sociedade está nas entrelinhas. Em um
ambiente no qual as pautas de diversidades ocuparam as redes sociais e as
prateleiras de mercado através de produtos que imprimem e vendem as
especificidades da cul
tura negra, o mercado de trabalho também foi permeado pelas demandas colo
cadas por movimentos sociais que se opõem à aniquilação de culturas
históricas.
Nesse processo de atualização do mercado financeiro por meio das pau
tas sociais, a sociedade tenta apresentar um espaço aparentemente mais igua
litário ou que está buscando equalizar suas desigualdades, mesmo que, para
isso, seja necessário esquecer o passado recente da escravidão e não levar em
consideração que heranças estruturais foram mantidas.
Ao olhar para as aparições midiáticas de Rachel, é possível apontar o dito e o
não dito pela retórica meritocrática. Ao ganhar espaço, ela se transforma em
exemplo para todas as pessoas negras que almejam alavancar suas carreiras e
com prova que o esforço pessoal abre caminho nos mercados, ao mesmo
tempo em que dá aos gestores que comandam as empresas a sensação de
dever cumprido.

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 62
No dito, encontra-se sempre a história de vida contada a respeito da
garota humilde e seus esforços para alcançar o espaço público e privado. No
não dito, a lacuna que fica é: como é possível ser Rachel o exemplo de
superação e a certeza de que os negros podem, sim, ocupar esse lugar se, na
sociedade brasileira, encontram-se 56% de pessoas autodeclaradas negras
(IBGE, 2013), enquanto apenas 4,7%19 estão presentes na liderança das
empresas? Os dados escancaram as enormes distâncias entre aquilo que é
explorado através da figu
ra de Rachel e aquilo que é realizado de maneira efetiva.
Não é possível negar que a presença dela, em um meio de difícil acesso,
abre discussões a respeito da representatividade de gênero e raça. Não se trata
aqui de desconsiderar sua trajetória, dificuldades enfrentadas e experiências
vivenciadas, mas, sobretudo, é igualmente impossível negar as deficiências por
trás do discurso encampado pela mídia a partir da figura de Rachel. Embora
os esforços da ex-CEO caminhem no sentido de uma militância ativa na luta
contra as desigualdades, estrutural e sistematicamente, há um engolimento
das pautas em torno das disparidades sociais refletidas no mercado.

Rachel é a regra do jogo!

Comumente relacionada à exceção do mundo corporativo, Rachel é sem


pre lembrada como referência de representatividade por trazer consigo carac
terísticas estigmatizadas no contexto brasileiro e mundial: a de ser mulher e
negra. O referencial no qual se apoia a retórica através da figura de Rachel
posiciona o mercado em um processo de aprendizagem de inclusão. Um certo
work in progress sem plano ou metas concretas para se realizar. É nesse
processo que o mercado finge uma inclusão mediante peças de marketing,
mas que na prática não entrega efetivamente resultados bem traçados.
Ao ser lida como exceção, a trajetória de Rachel esconde o que, na ver dade, é a
regra do jogo: prosseguir com a manutenção restrita dos espaços de poder,
dificultando a mobilidade e ascensão de pessoas negras na estrutura da
hierarquia ocupacional. O debate sobre representatividade vem tomando cen
tralidade na esfera pública a partir de demandas históricas dos movimentos

19 - Ver página 22 do relatório Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil
e suas ações afirmativas, publicado pelo Instituto Ethos em 2016.

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Fabrício Maciel
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que compõem o grupo dos marcadores sociais de diferença, como gênero e


raça, que reivindicam direitos e reconhecimentos negados ao longo de suas
trajetórias sociopolíticas.
Dessa maneira, têm sido cada vez mais comum que a presença de mulhe
res, negros e negras, pessoas LGBTQI+ e pessoas com deficiência tornem-se
pauta de jornais, capas de revistas e organizações corporativas. O barulho que
emerge das insatisfações denunciadas pelas ditas minorias reivindica, sobre
tudo, respeitabilidade moral e vai ecoando em todas as esferas, obrigando que
instituições, indivíduos e estruturas adentrem ao debate e deem conta de pro
por maneiras de diminuir as discrepâncias e tratamentos desiguais encontra
dos no mundo do trabalho e na sociedade de modo geral.
Quando Nancy Fraser (2011) nos convoca à reflexão sobre a
redistribuição e o reconhecimento, ela nos aponta a encruzilhada moral em
que se encontram os indivíduos que precisam reafirmar suas identidades
quanto à respeitabilida de e, ao mesmo tempo, eliminá-las no que diz respeito
às questões de classe. Ou seja, os aspectos simbólicos versus os materiais e
econômicos parecem impor certo paradoxo analítico em um primeiro
momento, que precisa ser resolvido. Fraser nos leva a pensar como as
mudanças na ordem moral da sociedade aju dam a explicitar os desafios que
não estão apenas circunscritos na redistribui ção material e econômica.
Esse cruzamento nos leva à discussão teórica de Kimberlé Crenshaw
(2004), quando criva a abordagem da interseccionalidade para dar conta de re
solver os atravessamentos sociais que estão disponíveis às pessoas que carre
gam estigma de gênero e de raça. É nesse contexto cheio de chamados
reflexivos e teóricos que posicionamos a perspectiva de compreender como a
estrutura capitalista engole todos esses pontos e passa a operar a partir deles,
vendendo uma retórica moderna de inclusão e meritocracia, tal como se vê no
caso de Rachel Maia. Dentre os periódicos das principais revistas voltadas ao
mundo corporativo como Forbes Brasil, Exame e Você SA, é possível observar
como as pautas sobre inclusão circulam as capas das revistas, porém outras
reportagens denunciam o tamanho do problema estrutural da desigualdade.
Durante o ano de 2017 e primeiro semestre de 2018, observamos o con
teúdo dessas revistas com o intuito de avaliar as informações passadas por es
ses veículos a respeito da diversidade nas grandes empresas. O índice publica
do pela revista Forbes em 2017 sobre os 25 maiores CEOs do Brasil não traz,
em sua lista, nenhum profissional negro. Entre as edições de nº 1129 a 1166 da

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 64

revista Exame, publicadas entre janeiro de 2017 a julho de 2018, houve ape nas
uma reportagem contendo dados relacionados à presença de mulheres em
cargos de liderança, sendo que dessas mulheres apenas uma era negra (Edição
1148). Na mesma linha, a revista Forbes Brasil publicou, em sua edição nº 55
de 2017, a lista das 40 mulheres mais poderosas do país, elencando as mulheres
que fazem diferença de acordo com suas posições em grandes empresas ou no
meio social de modo geral. Dessa vez, a publicação trouxe também Maju Couti
nho, primeira apresentadora negra da TV Globo a assumir a previsão do
tempo no Jornal Nacional, como uma das mulheres mais poderosas do país.
Como nas revistas Exame e Você SA, a Forbes também destacou, inclu
sive na capa da edição 55, a ex-CEO Rachel Maia (na época, ainda CEO da
Pandora) dando destaque a sua trajetória de carreira, apontando que ela veio
das classes mais baixas e também para o fato de ela representar uma exceção
no mundo corporativo, como já demonstrado aqui anteriormente.
Na mesma linha de debate, a revista Exame republicou uma reportagem
do portal Na Prática — site pertencente à Fundação Estudar e ligado ao grupo
AMBEV20 — em seu site, com o título “Como vim parar aqui? Tenho uma resposta
pra isso”, analisando as falas de Rachel em uma palestra ocorrida na cidade de
São Paulo.
Rachel abriu a palestra pontuando um dado levantado na pesquisa reali
zada pelo Instituto Ethos sobre ela representar 0,4%21 do universo de presiden
tes das grandes empresas brasileiras enquanto mulher e negra. Na sequência
de sua fala, por fazer parte, à época, de uma das maiores joalherias do mundo,
ela pontua que “O luxo é loiro, magro e tem olhos azuis” (MAIA, 2018). A re
portagem não dá continuidade à provocação levantada por Rachel a respeito
da presença dela no lugar que ocupa, mas denuncia as questões simbólicas pre
sentes nessa afirmação: na constituição da interpretação valorativa das pessoas
que compõem o seleto grupo da alta classe no Brasil, não há espaço para pes
soas negras. Isso aponta a possível falácia no debate da responsabilidade
social, difundida pelas grandes empresas.
O que não sobressai para além do marketing é o fato de que, dentre as
500 maiores empresas do Brasil, apenas 3,4%22 possuem um plano com metas e

20 - Empresa brasileira de capital aberto produtora de bens de consumo.


21 - Ver página 23 do relatório Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil
e suas ações afirmativas, publicado pelo Instituto Ethos em 2016.
22 - Ver página 47 do relatório Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil
e suas ações afirmativas, publicado pelo Instituto Ethos em 2016.

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
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ações planejadas com o objetivo de diminuir as desigualdades (ETHOS, 2016).


A pretensa representatividade elaborada pelo mercado desaparece à medida
que não se assume o compromisso por ações que toquem nas condições
estruturais da desigualdade no país. Há uma falsa representação por trás de
uma cortina de fumaça, pela qual o campo da economia sobrepuja os demais
interesses ape
nas resolvendo pequenos impeditivos. As demandas criadas pelos movimentos
negros, ao ganharem projeção, criam certo desconforto no campo das relações
interpessoais, ao passo que não é mais permitido que grandes empresas não
mostrem suas preocupações com o problema da desigualdade racial.
Em uma entrevista23 para o canal Um Brasil24 com o tema Diversidade no
mundo corporativo, Rachel expôs uma situação ocorrida em uma das palestras
que costuma dar em eventos voltados para executivos. Segundo ela, ao falar de
diversidade e abrir para que a plateia se manifestasse, um dos maiores exe
cutivos do país, presidente de uma operadora de cartões de crédito, o qual ela
não revelou o nome, levantou-se em meio à plateia e questionou: “Rachel, me
ensina como fazer inclusão”, posicionando-se como um possível influenciador
que incentiva outras lideranças a fazerem o mesmo. Segundo Rachel, é dessa
maneira, abrindo-se ao não saber, que as coisas podem acontecer.
Assumir o compromisso de elaborar as saídas para um problema histó
rico deveria estar na ordem do dia das empresas que detêm legitimidade e po
der na sociedade. A correlação de forças precisa ser um grande conglomerado
entre a esfera do mercado, a política e a sociedade, ao contrário disso, o que se
resolve pontualmente é a questão da propaganda negativa que as empresas
podem gerar a si mesmas ao negligenciar demandas pressionadas pelos movi
mentos sociais.
Dessa forma, a presença de pessoas negras na mídia jornalística e na re
tórica construída pelo marketing das empresas soa como um “mise-en-scène”
para esconder a realidade de que não há interesse real e efetivo em dirimir
desigualdades que sustentam as bases do novo capitalismo.
O cenário que temos hoje nos mostra que, dentre as 500 maiores empre sas do
Brasil, o maior cargo da hierarquia ocupacional é formado por 95,1% de
pessoas brancas contra 4,9% de pessoas negras (ETHOS, 2016). A enorme dife
rença tende a diminuir ao longo da pirâmide, embora não apresente resultados

23 - Entrevista publicada no dia 23 de outubro de 2018, no canal Um Brasil da plataforma de vídeos


YouTube.
24 - Plataforma multimídia composta por entrevistas, debates e documentários com grandes nomes
do meio acadêmico, intelectual e empresarial.
Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 66

satisfatórios ou o mínimo de equidade, se considerar que, segundo dados da


Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (IBGE, 2015), os negros, consi
derando pretos e pardos, representam mais da metade da população brasileira
(56%).

Tabela 1 - Composição por cor ou raça: distribuição do pessoal por cor ou raça (%)
Cargo Brancos Negros

Conselho de Administração 95,1 4,9

Quadro Executivo 94,2 4,7

Gerência 90,1 6,3

Supervisão 72,2 25,9

Quadro Funcional 62,8 35,7

Trainees 41,3 58,2

Estagiários 69,0 28,8

Aprendizes 41,6 57,5

Fonte: (ETHOS, 2016, p. 22).

A pesquisa realizada pelo Instituto EtWhos traz informações acerca do


universo das corporações e é a única desse nível no Brasil. Sua última edição é
de 2016 e traz subsídios para analisar qualitativamente os aspectos centrais do
novo capitalismo presentes no dia a dia das instituições.
Dentre os gestores entrevistados, 41,4% acreditam de fato que as empre
sas não têm conhecimento para lidar com o assunto da inclusão. No entanto,
considerável parcela acredita que a proporção de negros está adequada nos
níveis da hierarquia da empresa. Sobre a proporção de pessoas negras no nível
executivo, 36% dos gestores responderam que a presença de negros é suficien
te. Nos níveis de gerência, supervisão e quadro funcional, 45%, 54,1% e 62,2%
dos gestores entrevistados responderam, respectivamente, que a presença de
pessoas negras está adequada nesses postos. estarem adequadas à presença de
negros nesses respectivos postos (ETHOS, 2016, p. 58).
Ainda nos quadros de supervisão e no quadro funcional, 0,9% e 1,8%,
respectivamente, responderam que a presença de negros nesses setores está
acima do que deveria. O total de negros nos cargos de supervisão é de 25,9% e

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
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no quadro funcional, 35,7%, enquanto no país representam mais da metade da


população.
O engodo das instituições meritocráticas e inclusivas vai se desmontan
do na medida em que as estruturas de legitimação de poder vão sendo analisa
das nas suas entrelinhas. Se, por um lado, há um discurso de que a educação é
unicamente responsável pela ascensão das pessoas no mundo empresarial, na
prática os processos seletivos parecem ignorar as especificidades e recortes
que tangenciam raça, classe e gênero.
O Antropólogo Pedro Jaime de Coelho Junior (2011), ao analisar a tra
jetória de executivos negros na tese Executivos Negros: racismo e diversidade no
mundo empresarial, ajuda-nos também a pensar esse cenário por meio da
análise de percepções sutis da vida cotidiana dos entrevistados dentro do
mundo cor porativo e assume uma perspectiva que desconstrói a ideia de que a
formação acadêmica é o principal impeditivo de desenvolvimento de carreira
de pessoas negras nesse universo.
Os resultados observados por Coelho Junior (2011) a partir de uma en
trevista com um executivo negro que coordenou o Comitê de Negros de uma
corporação transnacional do setor financeiro, concluem que os negros são
uma peça de marketing nos programas de diversidade. A análise apresentou
um exemplo a respeito da inserção de trainees na empresa, que, segundo o
entrevis tado, era o único cargo que possuía um plano de carreira estruturado,
no qual o ingressante deveria chegar a um cargo executivo cerca de quatro
anos após a contratação.
No entanto, as exigências do cargo não correspondem à realidade educa
cional da maior parte dos negros do país, pois exigia alta qualificação e inglês
fluente. O entrevistado afirmou, ainda, segundo Coelho Junior, que uma das
dificuldades para a inserção do negro encontrava-se na resistência da média
gerência. Ainda no caso da inserção de trainees na empresa analisada, Coelho
Junior descreve uma situação vivenciada pelo entrevistado:

A Matriz exigia que os candidatos a trainee tivessem inglês fluen


te. Ele considerava importante incluir jovens negros no progra
ma, mas sabia que era difícil encontrar negros que
preenchessem esse requisito. Sugeriu então que esse critério
fosse retirado do processo seletivo. O seu argumento para tentar
convencer os res ponsáveis pelo Comitê de Diversidade e pelo
departamento de RH era que a empresa tinha condições de
financiar, ao longo do

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 68

programa, a formação no idioma para o negro com talento que


eventualmente chegasse com essa lacuna. Ou seja, defendia que
se a empresa tinha o propósito de promover a diversidade, seria
importante adaptar as exigências do recrutamento. Não encon
trou boa vontade desses profissionais, que decidiram que as re
gras seriam mantidas. Ainda assim conseguiu colocar três jovens
negros para participar do processo seletivo. Um deles havia sido
estagiário da ONU nos EUA, outro atuara no Lloyds Seguros, na
Inglaterra, e o terceiro trabalhara na Holanda. Todos três, por
tanto, possuíam inglês fluente, mas nenhum deles foi recrutado
(COELHO JUNIOR, 2011, p. 64).

Dessa forma, implementar um programa de ação afirmativa que tem


dentre seus critérios pontos que destoam da realidade da maioria das pessoas
negras é uma tentativa de não alcançar de fato o objetivo inicial da ação. Seria
necessário não apenas flexibilizar as regras e adequá-las à realidade de negros,
para que efetivamente as ações pudessem ser concluídas, mas também formu
lar ações que rediscutam a cultura organizacional e influencie os gestores a
pensar a implementação da diversidade de maneira real e efetiva.
Silvio Almeida discute, em seu livro “Racismo Estrutural” (2018), como a
ideia de representatividade serve a um debate capitalista de meritocracia quan
do indica que a presença de um indivíduo estigmatizado se deve individual
mente a seu esforço e, portanto, os demais indivíduos que carregam marcas
parecidas conseguiram adentrar nesse universo. É nessa caricatura da merito
cracia que a sociedade consegue esvaziar a pauta e naturalizar a desigualdade
racial (ALMEIDA, 2018, p. 84).
A representatividade negra ou a posição de liderança não confere ao in
divíduo relação de poder real. Almeida nos fala:

Porém, por mais importante que seja, a representatividade de


minorias em empresas privadas, partidos políticos, instituições
governamentais não é, nem de longe, o sinal de que o racismo e/
ou sexismo estão sendo ou foram eliminados. Na melhor das hi
póteses, significa que a luta antirracista e antisexista está produ
zindo resultados no plano concreto, na pior, que a discriminação
está tomando novas formas. A representatividade, insistimos,
não é necessariamente uma reconfiguração das relações de
poder que mantém a desigualdade. A representatividade é
sempre ins titucional e não estrutural, de tal sorte que a
representatividade exercida por pessoas negras, por exemplo,
não significa que os negros estejam no poder (ALMEIDA, 2018.
p. 86).

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
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Os detentores do poder pertencem a um estrato social elevado, no qual


convivem em atividades sociais e de negócios e, consequentemente, tomam
decisões que mantêm esse círculo fechado. É essa classe social que provoca
também uma distinção entre quem pode estar entre seus membros e quem não
pertence efetivamente a uma classe superior, relacionando-se entre si de ma
neira restrita, defendendo suas prioridades e, se necessário, combatendo a en
trada de quem não se associa a seus interesses. Não por acaso, Charles Wright
Mills (1975a) chamou esse seleto grupo de altas rodas, descrevendo a rotina de
privilégios e tomadas de decisão que interferem no cotidiano de toda a popula
ção, mas que está sob a responsabilidade de poucos.
A nova configuração moral da sociedade do trabalho, circunscrita nas
tomadas de decisão das grandes instituições, tende a invisibilizar as relações
de poder (Sennett, 2006) e torna mais cruel a exploração do indivíduo dentro
do sistema onde ele acredita ter liberdade de decisão, de criação e fruição das
regras constitutivas dos ambientes corporativos, os quais, por sua vez, exigem
dos funcionários o desenvolvimento das habilidades para um bom trabalho em
equipe. As mudanças que o novo capitalismo impõe ao campo das relações ga
nham forma através de uma cultura que dita os parâmetros da vida cotidiana e
tende a modificar todo o espectro das relações sociais.
Há um número crescente de microempreendedores no Brasil que incen
tiva o crescimento de cursos voltados para o desenvolvimento de habilidades
do self e para a ideia de uma autorrealização profissional. Hoje, de maneira
mais cruel, o discurso da autorresponsabilização da carreira, que vende cursos
de liderança, de autoconhecimento e de técnicas super-heroicas para alta pro
dutividade, joga no indivíduo a responsabilidade pelo desenvolvimento de suas
carreiras e retira de quem está no comando o compromisso por medidas que
diminuam as desigualdades.
Personificando a discussão, o novo capitalismo relega ao indivíduo a res
ponsabilidade pela construção de sua trajetória no mundo do trabalho descon
siderando fatores socio estruturais que atravessam os indivíduos de maneiras
diferentes. Richard Sennett (2006) extraiu, em “A cultura do novo capitalismo”,
as experiências de uma fluidez contemporânea do mundo do trabalho, reme
tendo à afirmação marxista de que “tudo que é sólido se desmancha no ar” e
percebendo que, se antes as corporações esperavam de seus funcionários uma
perspectiva de carreira a longo prazo, agora, espera-se que a fluidez dê conta
das mudanças cotidianas nas demandas de produção e que as pessoas estejam
aptas a moldarem-se a um redemoinho de transformações, sendo essa a carac
terística mais importante do capitalismo atual.

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 70

Os que não conseguem demonstrar que podem modificar-se e fazer tudo


que é necessário para auxiliar o processo produtivo são facilmente
descartáveis, remetendo à máxima citada de que não há mais solidez, carreiras
estruturadas e horas bem demarcadas de trabalho.
A percepção de um novo capitalismo globalizado, que incentiva o em
preendedorismo e o desenvolvimento de características pessoais para se des
tacar no novo mercado de trabalho, vem também acompanhada de agendas
neoliberais de desmonte de direitos trabalhistas e garantias fundamentais an
tes atribuídas aos empregos formais e tende, no Brasil, a esconder um passado
sócio-histórico que organiza a sociedade atual e não oportuniza a todos que se
desenvolvam de maneira igualitária.
O capitalismo está sistematicamente escondido na opinião pública e no meio
social, ou seja, ele mobiliza suas dimensões simbólicas e morais e pro move
uma espécie de cooptação para que a lógica de dominação seja reprodu zida.
Embora estejamos situando as novas conformações ditadas pelo sistema
capitalista e dissecando uma análise do momento atual, é necessário ressaltar
que o capitalismo não é apenas conjuntural, pois possui estruturas muito bem
consolidadas que se atualizam com o intuito de repetir a lógica da dominação.
Com isso, o situar histórico dos interesses que levaram às mudanças eco
nômicas e estruturais no período escravocrata brasileiro e a maneira como a
conformação social determina lugares cativos a determinados grupos de pes
soas estão para além do desenvolvimento de suas habilidades pessoais.
Sendo o Brasil um país que não elaborou e discutiu seus traumas histó
ricos e, ao contrário, cunhou o mito das três raças e fez nascer uma retórica de
um país plural, coeso e, portanto, resolvido no que tangencia as questões
raciais, colhemos como resultado a manutenção de uma estrutura que parece
abstrata ao corpo da sociedade. O sistema capitalista fundamenta essa noção
ao introjetar a ideia de que cada indivíduo pode criar a sua realidade, como se
vivêssemos deslocados de um contexto político e histórico-social.
Essa percepção ganha espaço justamente porque encontra um terreno
fértil para explorar as consciências que não rememoram a situação integrativa
do negro no pós-abolição e nem consideram que essas discussões são relevan
tes para entender o status das desigualdades do Brasil atual.
A análise da formação do povo brasileiro e suas consequentes relações en tre
raça e classe têm, no curso da história, interpretações diversas, calcadas nas
referências de cada tempo. Vários autores brasileiros debruçaram-se a expor
um

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
71

retrato da formação social do Brasil na tentativa de estabelecer conexões e


inter pretações científicas que pudessem dar sentido ao emaranhado de
referências presentes no país no período pós-abolição.
Esse período incutiu, no aspecto social e econômico, um novo problema
a ser enfrentado: a inserção do negro na vida social do país e a relação econô
mica estabelecida a partir de então. Os parâmetros da vida escravocrata não
deveriam ser mais as referências de assimilação do negro na sociedade. No
entanto, o que surge são releituras do modo de vida do trabalho compulsório,
agora inserido no sistema capitalista de produção, mantendo as estruturas do
período anterior e dificultando o entendimento da liberdade individual de
cada ator social.
Dessa problemática surgem as necessidades de resistência e de discutir
as questões políticas de um país ainda frágil na concepção da sua identidade
nacional. As noções de integração e coesão vão sendo desenhadas sociologica
mente, ao mesmo tempo em que a sociedade não consegue identificar o negro
como detentor de respeito mínimo.
A respeitabilidade negada interfere na autonomia corporal dos indiví
duos no meio social, uma vez que priva a expressão de suas características pes
soais e atrapalha no desenvolvimento de sua autoconfiança no mundo externo.
É dessa maneira que a cor da pele pode influenciar na agência dos sujeitos
negros que estejam buscando concretizar suas metas de ascensão na carreira.
Essa questão evidencia um problema de reconhecimento tanto do indivíduo
para si mesmo quanto nos relacionamentos primários com as outras pessoas.
É necessário que os companheiros que compõem o universo circundante das
pessoas negras também reconheçam e reafirmem socialmente que eles são in
divíduos portadores iguais de direito.

O capitalismo sustenta as desigualdades raciais


As estruturas modernas do capitalismo dependem da não interação co
letiva da sociedade com seu passado histórico. Uma vez que as formas de vida
social são elaboradas através do mercado, do Estado e de suas ramificações, a
maneira como o povo brasileiro se identifica tende a naturalizar aspectos da
desigualdade.

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 72

No Brasil, negros ainda ocupam os postos de trabalho mais subalternos


da pirâmide ocupacional. As relações de desigualdade incutidas na cor da pele
se cruzam com as questões de classe e disponibilizam ao capitalismo um vasto
número de indivíduos em condição de serem explorados. O nascimento de um
Brasil pós-escravidão ampliou a percepção sobre como as dinâmicas econômi
cas determinam os lugares sociais de cada pessoa.
A constituição da ideia de nação no Brasil passa por uma transição de
império para Estado moderno, coordenada pelas elites, no qual as estruturas
de poder são mantidas. Mais tarde, o mito da democracia racial elabora a
retórica de que o Brasil conseguiu superar suas diferenças de origem
enquanto povo e, portanto, não vive dilemas raciais.
No livro “O Brasil-nação como ideologia” (2020), Fabrício Maciel percor
re algumas das principais referências que teorizam, in loco, o que foi a funda
ção do povo brasileiro na transição para uma sociedade moderna. Dois
autores, em especial, abrem uma discussão sobre os principais aspectos da
fundação do povo brasileiro e sua relação com o processo de escravidão.
José Bonifácio, conhecido como o patriarca da independência, forjou a
ideia de que o brasileiro tem um traço acolhedor e generoso, que convive har
monicamente com diferenças políticas e sociais (MACIEL, 2020). A elaboração
da identidade brasileira naquele contexto precisou ser incutida no povo para a
construção de unidade nacional, mas também para provar a outras nações que
aqui se estabelece coesão social.
As fundamentações que levam Bonifácio a defender a ideia de nação uni ficada
passam pela defesa da abolição da escravidão, porque esta está atrelada a
critérios e objetivos econômicos que não condiziam com as necessidades da
época. Mais à frente, Octavio Ianni (1987) vai analisar como essas fundamenta
ções foram uma grande força propulsora pelo fim da escravidão no Brasil.
Pautado por uma referência liberal, Bonifácio defende que a liberdade é
um importante elemento da constituição de uma civilização (MACIEL, 2020),
e é a partir desses pressupostos que essa sociedade não pode mais suportar o
peso da escravidão.
O caminho traçado por Joaquim Nabuco, posteriormente, na luta aboli
cionista, versava a ideia de que não é possível a constituição de uma
pátria-mãe sem que essa acolha todos os seus cidadãos, portanto, a escravidão
impedia o desenvolvimento da nação, uma vez que excluía da condição de
dignidade uma parte de seu povo que se encontrava escravizado.

Carine Passos | Fabrício Maciel


Fabrício Maciel
73

Nabuco traz, ainda, o argumento de que a escravidão estrutura todos os


campos de relação da sociedade brasileira e, portanto, pondera as questões de
classe e as coincidências com as desigualdades raciais na hierarquia moral da
constituição desse povo (MACIEL, 2020).
O autor trabalha com a ideia de que só seria possível a dignidade nacio
nal quando essa nação estabelecesse condições de respeitabilidade a todos os
indivíduos, em todas as classes que compõem a vida social.
Quando Octavio Ianni (1987) discute a construção das variáveis de raça e
classe social no Brasil, ele pontua que a reestruturação das bases econômicas
passa pelas possibilidades de expansão do trabalho na estrutura social. Ao se
esgotarem as chances de expandir o trabalho baseado na relação escravocrata,
fazem-se necessárias mudanças profundas que sirvam como resposta às exigên
cias criadas a partir do trabalho livre.
A extinção da escravidão tem suas motivações instruídas no setor eco
nômico para além da luta abolicionista, em torno da libertação dos escravos.
Por conta disso, de maneira disfarçada, alguns elementos escravocratas conti
nuaram presentes no corpo social. O trabalho livre foi se constituindo pouco a
pouco, mas é necessário considerar que, nesse contexto, quando se apresenta
vam possibilidades de desenvolvimento ou expansão econômica, os governos
incentivavam a imigração para ocuparem áreas desabitadas e dinamizar a
força de trabalho (IANNI, 1987).
O abolicionismo redefiniu o trabalho e o elevou a uma condição de ativi dade
dignificante (IANNI, 1987), o que era uma exigência do capitalismo indus trial
que estava se formando. A liberdade do escravo é a resposta às lacunas e
necessidades de uma sociedade que demandava força de trabalho e mão de
obra nas unidades produtivas visando a reorganização na produção do lucro.
Com isso, a regra da dominação é trazer as pessoas para dentro do sis
tema e convencê-las do discurso da meritocracia, fazendo-as reproduzir nas
hierarquias abaixo. Essa reprodução é feita através das bases estruturais do
capitalismo, que são muito bem consolidadas na vida social.
Essas discussões, partindo de grandes autores que, ao longo da histó ria,
pensam o Brasil e suas características que vão surgindo nessa trajetória,
parecem ser um entendimento distante da sociedade atual, que opera esque
cimentos e apagamentos históricos e sociais. Ainda iludidos com o mito das
três raças que convivem cordialmente, o Brasil do senso comum e de alguns
mal-intencionados descarta as tragédias cometidas ao longo da história como

Capítulo 2
Rachel Maia é a regra do jogo: capitalismo e racismo no Brasil atual
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 74

determinantes da leitura do Brasil [Link] muitos, o Brasil do passado não


traz interferências para o agora, e é justamente sem essas referências que fica
incompleto alcançar todas as razões históricas, políticas e sociais que nos tra
zem até Raquel Maia e os 4,7% de pesoas negras que ocupam os maiores
cargos das grandes empresas brasileiras, contra 94,3% de pessoas brancas.
Nesse contexto, a trajetória de Rachel Maia, juntamente aos números so
bre a inserção de pessoas negras no capitalismo discutidos aqui nesse capítulo,
não pode figurar-se deslocada da realidade social brasileira. Não somos uma
nação refundada por meio do mito da coesão social e da miscigenação. Somos
uma nação que esconde suas bases de formação identitária e faz desaparecer a
crítica e a perversidade do capitalismo, que mantém intacta a dinastia dos pos
tos de poder e tomada de decisão. Com isso, não interessa a esse sistema que
sejam enfrentadas as bases da desigualdade, que alimenta o lucro e mantém na
condição de subalternos negros, pobres e mulheres.
Carine Passos | Fabrício Maciel
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 76

Este capítulo é um resultado de minha pesquisa de mestrado, que resul


tou na dissertação intitulada Raça, classe e desigualdade: um estudo sobre pessoas
negras em posições de gerência, defendida em 2021, no âmbito do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia Política da UENF. O trabalho faz parte da pes
quisa coletiva do NUESDE sobre executivos brasileiros, que resultou neste li
vro coletivo. As análises aqui apresentadas são parte de uma investigação que
buscou comparar trajetórias de pessoas negras que ocupam cargos de gerência
e liderança em corporações privadas, a fim de apontar as dinâmicas presentes
nesse espaço social que reflitam questões estruturais apontadas por marcos
teóricos do novo capitalismo.
As entrevistas desse levantamento foram guiadas através de um roteiro
explicativo, que continha questões separadas em quatro grandes blocos, sendo
eles: (1) trajetória de carreira; (2) vida pessoal; (3) subjetividade e trabalho; (4)
opiniões, vida social e política.
A proposta foi identificar aproximações e distanciamentos nas entrevis
tas no que diz respeito ao acesso, às barreiras e aos incômodos encontrados
no universo dos executivos em um mundo pautado pela lógica do mérito e do
esforço pessoal e ocupado majoritariamente por pessoas brancas.
Os nomes de todos os informantes estão trocados para preservar suas
identidades. A análise a seguir tem enfoque, principalmente, na formação edu
cacional, no nível de influência exercida dentro da empresa e na percepção
das barreiras ou ausência delas na ascensão de carreira. Todos os informantes
dessa pesquisa são autodeclarados negros.

Tereza*, 27 anos, Gerente de Vendas de uma empresa do ramo


de tabaco

Vou falar pra você a minha percepção: a única coisa que depende é de
contatos (...). Isso é escancarado, escancaradíssimo e ninguém finge.
Precisa de contato, precisa ter uma boa formação acadêmica, você não
precisa ser competente, não, não assim, vamos melhorar, não é questão
que você não precisa ser competente, você pode fazer o mínimo só pra
mostrar que você está ali, mas o que importa é quem te conhece. Isso
não saiu da minha boca, saiu da gerente regional. Então, até um deter
minado nível, você mostra o que você é com os seus resultados, depois
disso não mais, tá? (Tereza*).

Carine Passos
Fabrício Maciel
77

Tereza é uma jovem mulher negra e já ocupa um espaço de bastante des


taque em uma das maiores empresas do Brasil. A trajetória dela é composta
por todos os signos enunciados pelo novo capitalismo: boa formação
educacional em grandes instituições do país, experiências no exterior e
inserção em progra mas voltados para o desenvolvimento de carreira. Ela é
formada em Engenha ria Agrícola Ambiental e cursava Engenharia de
Produção no momento dessa entrevista.
Mesmo tão jovem, Tereza conseguiu adentrar em um universo muito res
trito, já que tem diante dela uma equipe de vendas para gerenciar em uma das
maiores empresas do ramo de tabaco do Brasil. Sua trajetória é composta por
experiências em programas de trainee, descrito por ela como um acelerador de
carreira para jovens recém-formados, que a levou ao cargo que ocupa hoje na
gigante do ramo do tabaco.
A empresa faz parte de um conglomerado (...) que é um grupo multi
nacional de tabaco. É o maior grupo global de tabaco. Então, a gente
detém toda a operação da Europa e da Oceania. E aí eles acabaram
de comprar a (...), que é, era né, era a maior dos Estados Unidos. E
agora, como a gente a comprou, a gente virou a maior! (Tereza*)

Sua trajetória envolve vantagens sociais, reconhecidas por ela ao falar


de sua experiência em escolas privadas e na Universidade de Nebraska, nos
Estados Unidos. Mesmo com essa bagagem, a corrida pela inserção encontrou
dificuldades e percalços que, mais tarde, fizeram-na perceber a existência de
algumas barreiras para além das habilidades desenvolvidas e a formação edu
cacional.
A história de Tereza demonstra uma importante questão discutida por
Ri chard Sennett (2006b): a adaptabilidade frente às necessidades do mercado.
Em toda sua narrativa, a ideia de “correr atrás” perpassa sua trajetória apesar
das vantagens; foram inúmeras tentativas de se inserir nos programas de
aceleração de carreira das empresas, e o resultado só veio por meio de um
projeto chamado “Empodera”25, que visa aproximar empresas e candidatos
através da consultoria de diversidade e inclusão.

Eu sempre tive acesso educacional em escolas particulares, então eu


nunca tive problema com essa questão...é ...racial, digamos, e reparei
isso, eu nunca tive consciência disso. E eu tive consciência quando eu
25 - Plataforma dedicada a identificar e desenvolver jovens talentos, sempre considerando a diver
sidade.

Capítulo 3
Raça, classe, gênero e meritocracia: trajetórias de pessoas negras em posições de gerência
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 78

comecei a participar dos processos (de trainee). E eu vi que do meu


lado só tinham pessoas que não eram iguais a mim! Fisicamente,
digamos, né. Digamos não, fisicamente! E eu vi, eu falei assim: “opa!
Tem algu ma coisa estranha aqui. Será que eu sou diferente? Não sei!”
(Tereza*)

As percepções de Tereza vão ao encontro das hipóteses levantadas por


essa pesquisa a respeito das barreiras simbólicas que pessoas negras vão en
frentar na sociedade. Em outro trecho da entrevista, ela destaca:

Uma coisa que eu sinto é uma estatística. É igual ao PCD26... É


aquela estatística, e aí ele vai falar que... que ele está tendo
diversidade, por que ele tem 5% de PCD, 5% de negro, 5% de mulher...
Então é só pra dizer que a gente está seguindo aquele número. Não é à
toa que do meu trainee, de quinze que entraram, só quatro eram
negros! Dois saíram, só tem dois agora. Então, de quinze, quatro
entraram, dois saíram e dois ficaram (Tereza*).

Ao debater especificamente a questão da diversidade, Tereza conta que o


acesso aos níveis de cima passa por uma triagem interna que em nada tem a
ver com o quanto você consegue desenvolver suas habilidades. Ela conta que
tem a percepção de que as decisões são tomadas no setor de Recursos
Humanos, de forma que indivíduos sejam escolhidos por questões que não
estão relaciona
das à sua competência, mas que o retorno do Recursos Humanos responsabi
liza o indivíduo que não conseguiu passar para o próximo nível explicando as
aptidões que ainda precisam ser desenvolvidas.
Ela aponta também os incômodos relacionados ao fato de ser mulher,
negra e jovem e as formas de tratamento que recebe dos clientes, em sua tota
lidade, gerentes varejistas do Brasil, e que, na maioria das vezes, não reage ao
incômodo e ao preconceito disfarçado de piada. Tereza é uma mulher negra e
jovem de posicionamento progressista e que tenta compreender as variáveis
das relações raciais, bem como o papel dela na posição que ocupa. Ela relata
que, por conta da posição privilegiada no mundo, demorou a perceber a forma
como as relações raciais interviam nas decisões de carreira. O próximo relato
de Tereza diz respeito a uma tentativa de ocupar uma vaga em aberto com um
(a) profissional negro (a):

26 - Sigla para pessoa com deficiência.

Carine Passos
Fabrício Maciel
79

E aí, em termos de quando a gente fala de meio corporativo, que é o


seu foco, só pra você ter uma noção, quando você chega no próximo
nível, o que importa são contatos, e não a sua expertise. Eu gerencio
vendedo res. Então eu sou gerente de vendas e gerencio vendedores e
eu precisei fazer uma troca muito drástica de pessoas por conta de
performance. E aí eu abri processos seletivos para vendedores. [...] A
minha gerência é Bauru, interior de São Paulo. E aí eu abri o processo
na empresa de recrutamento, e a primeira coisa que eu falei foi: “Eu
quero uma pes
soa negra!”. Aí eu falei assim: “Cara, eu não vou falar que é homem ou
mulher, porque aí eu… eu só quero uma pessoa negra! Pode ser homem,
pode ser mulher, eu só quero uma pessoa negra!”. Passou um mês, pas
sou um mês e meio. Eu falei: “Cara, e aí? Eu preciso fechar. Eu preciso
trocar as pessoas! Eu preciso ter tempo para treinar, para trocar as pes
soas”. Aí ele: “então (...), eu não estou achando!”, e aí eu falei: “Cara,
não é possível! 55% da população é negra, não é possível que você não
esteja achando! Não é possível!”. Ele disse: “Não, realmente com as fer
ramentas que a empresa me dá, eu não estou achando”. Então entra a
parte em que eu estou tentando fazer uma diferença, mas ninguém está
vendo que eu estou tentando fazer a diferença! E aí entrou a questão, a
minha gerente regional ligou, falou: “(...) porque você está demorando
muito para fechar?”. Ela entrou em contato comigo e falou isso. Eu
falei: “(...) Então, está demorando a fechar porque eu estou tentando
achar uma pessoa negra para o meu time”. E aí, depois disso, eu parei
de tentar. Porque eu vi que estava lutando por uma coisa que agregaria
para mim enquanto pessoa e gerente de pessoas, porém, para empresa,
não agregaria. Pra que eu ia ficar me queimando? Ela (a gerente regio
nal) falou simples e curta: “(...) Eu entendo e concordo plenamente com
você, porém eu não posso esperar!” E foi assim (Tereza*).

O relato de Tereza endossa questões já encontradas no trabalho de


Jaime (2011) sobre a falta de preocupação das empresas em flexibilizar as
formas de seleção de maneira que se adeque à realidade de mais indivíduos. O
debate sobre diversidade precisa construir novos pressupostos de valorização
e sele
ção de pessoas. Vagas que carregam em seus pré-requisitos definições que só
cabem a um determinado perfil não dialogam com a diversidade de maneira
efetiva e deixam espaço para o argumento utilizado pela gestora do banco di
gital Nubank, a respeito de não “nivelar por baixo” para efetivar a inserção de
negros em mais cargos da corporação.

Capítulo 3
Raça, classe, gênero e meritocracia: trajetórias de pessoas negras em posições de gerência
A FICÇÃO MERITOCRÁTICA - Executivos brasileiros e o novo capitalismo 80

Lincoln*, 41 anos, Gestor de Contratos de uma empresa


brasileira do ramo de perfurações.

A (...), ela tem uma postura muito, como é que eu vou lhe dizer, muito
diferenciada de fato disso. Ela não tem essa de “ah, tem que ser
mulher, tem que ser negro, tem que ser branco”. Não! Ela quer
realmente criar profissionais de performance. Então, assim,
independente de sexo, de gênero, de cor, ela não tem isso não. Ela
investe muito, vamos dizer, nas pessoas que realmente entendem a
filosofia da empresa (Lincoln*).

Lincoln é, dentre os nossos informantes, um dos que mais se aproximam


dos grandes cargos da hierarquia ocupacional. Não apenas pelo salário que,
segundo ele, está na faixa salarial de um cargo de direção, mas por estar abaixo
apenas do diretor geral, com quem mantém contato diário, de uma das
maiores empresas privadas do ramo petrolífero do país.
Nascido em Salvador, Lincoln tem quinze anos de carreira nessa
empresa. É formado em Administração e tem formação técnica na área de
contabilidade. No que diz respeito à formação educacional, ele relata o MBA
incentivado pela empresa e realizado no IBMEC, instituição de ensino
superior reconhecida por formar os maiores gestores do país. Há também em
sua trajetória formações na área de coach27 e experiências de formação fora do
Brasil.
Aparece aqui a questão da nomenclatura, que pode causar confusões no
momento de analisar as questões da inserção. O cargo de Lincoln é o de gestor
de contratos, no entanto, por equivalência, ele ocupa um espaço de alta gerên
cia, já que acima dele encontra-se apenas o diretor geral e dono da empresa.
As falas de Lincoln estão sempre focadas nas esferas da gestão de pes
soas, da experiência e da liderança. Toda a sua trajetória está sustentada numa
lógica de excelência no trabalho para se atingir melhores resultados e conse
quente crescimento de carreira. A retórica de Lincoln destaca a confiança, a
interação e a liderança como as variáveis centrais no debate da ascensão
dentro da empresa.

27 - Uma forma de desenvolvimento na qual alguém, denominado coach, ajuda um aprendiz ou


clien te a adquirir um objetivo pessoal ou profissional específico através de treinamento e
orientação.

Carine Passos

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