Uniformidade de Tratamento
Eis que a língua que falamos se encontra submetida a um conjunto de leis combinatórias.
Tal noção nos remete, portanto, à modalidade escrita da linguagem que, como tal, deve
estar em pleno acordo com tais leis. Por isso, quando falamos em uniformidade de
tratamento estamos fazendo referência a nada mais nada menos que a utilização de
maneira uniforme dos pronomes que ora se adequam a uma dada pessoa gramatical.
Partindo desse pressuposto, ocupemo-nos em compreender como se dá de forma efetiva
essa adequação, de modo a nos tornarmos conhecedores das peculiaridades que nutrem os
fatos gramaticais. Assim sendo, vejamos alguns exemplos:
Não concordo com você, por isso não te apoiei.
Ao analisarmos os pronomes empregados, constatamos a não uniformidade entre eles,
haja vista que a forma que melhor se adequa é:
Não concordo com você, por isso não o apoiei.
Ou também podemos dizer:
Não concordo contigo, por isso não te apoiei.
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Vejamos agora alguns casos relacionados aos pronomes “eu” e “mim”:
A pesquisa é para eu fazer.
Convimos que se trata de uma uniformidade de tratamento, visto que o pronome “eu” é
do caso reto, funcionado, portanto, como sujeito da oração.
Dessa forma, nunca diga: isso é para mim fazer.
Agora, observe esta outra colocação:
Os trabalhos foram entregues para mim.
Nesse caso, a uniformidade também foi evidenciada, dada a condição do pronome pessoal
do caso oblíquo “mim” representar o objeto direto da oração.
Seguimos com nossa análise, atendo-nos a outro exemplo:
Desentendimentos surgiram entre eu e tu.
Ora, nada de conveniente, pois vejamos as formas que melhor cabem nesse contexto:
Desentendimentos surgiram entre mim e ti.
Desentendimentos surgiram entre ti e mim.
Desentendimentos surgiram entre mim e você.
Desentendimentos surgiram entre você e mim.
Desentendimentos surgiram entre nós.
E se disséssemos que desentendimentos surgiram entre ele e eu?
Por certo que seria mais conveniente dizermos que desentendimentos surgiram entre mim
e ele ou entre ele e mim.
Uniformidade de Tratamento
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A uniformidade de tratamento se refere à
adequação do pronome à pessoa gramatical
O conceito de uniformidade de tratamento nos remete à ideia de que existem pronomes pessoais do caso reto e do
caso oblíquo. Assim, tal uniformidade nada mais é do que a adequação dos pronomes a uma dada pessoa gramatical.
Nesse sentido, tendo em vista o padrão formal da linguagem, atenha-se aos enunciados aqui retratados que podem lhe
servir de base. Destacamos, portanto:
Não concordo com você, razão por que não te aplaudi.
Constatamos que a uniformidade de tratamento não foi efetivamente materializada. Assim sendo, constatemos as duas
formas que melhor se adequam a esse discurso:
Não concordo contigo, razão por que não te aplaudi.
OU
Não concordo com você, razão por que não o aplaudi.
Esse trabalho é para mim fazer. (colocação inadequada)
Esse trabalho é para eu fazer. (correta)
Com o pronome mim:
Para mim, esse trabalho não é difícil.
Alguns contratempos surgiram entre eu etu (forma incorreta).
Percebas as colocações que melhor cabem nesse contexto:
Alguns contratempos surgiram entre mim e ti.
Alguns contratempos surgiram entre ti e mim.
Alguns contratempos surgiram entre mim e você.
Alguns contratempos surgiram entre você e mim.
Alguns contratempos surgiram entre nós.
Analisemos outro caso:
Entre ele e eu já ocorreram várias brigas. (colocação errônea)
Entre mim e ele já ocorreram várias brigas.
Uniformidade de tratamento
1) É de regra que, na fala e na escrita, o pronome escolhido para tratamento das pessoas espraie seus
efeitos para todos os elementos envolvidos.
2) Assim, se se trata o interlocutor por vós, além de concordarem os verbos nessa pessoa, só se
podem usar os pronomes oblíquos e os pronomes possessivos que a ela correspondem (vos, convosco,
vosso, vossa, vossos, vossas); se, por outro lado, a pessoa for tratada por tu, os pronomes oblíquos
haverão de ser teu, tua, teus, tuas (jamais seu, sua, seus, suas, não podendo, assim, haver mistura de
pronomes). Exs.:
a) "Se você quer, vou até teu gabinete" (errado);
b) "Se você quer, vou até seu gabinete" (correto);
c) "Se tu queres, vou até seu gabinete" (errado);
d) "Se tu queres, vou até teu gabinete" (correto);
e) "Vou te contar uma coisa para você..." (errado).
3) Nesse exato sentido se dá a lição de Vasco Botelho de Amaral: "Misturar pronomes ou formas
verbais na segunda pessoa do plural com pronomes ou formas verbais da terceira constitui um erro
crasso".1
4) Em outra obra, o referido autor é ainda mais didático acerca do problema analisado: "Certa carta
de um conhecido ministro estrangeiro publicada nos jornais portugueses, entre outros deslizes de
tradução apresentava este: 'Foi com grande pesar que recebi a vossa decisão de não aceitar o cargo
que lhe ofereci na remodelação do Ministério...' Onde se pôs vossa, devia estar evidentemente - sua.
O inglês your não corresponde só a vosso, vossa, vossos, vossas; deve traduzir-se, não só às vezes por
teu, tua, teus, tuas, mas, como ali na carta, por seu, sua, seus suas, de V., de V. Exa., etc".2
5) Não menos clara é a lição de Júlio Nogueira: "Não há, pois, redigir frases em que, sendo tu a forma
de tratamento, se usem em relação à mesma os possessivos seu, sua e as variações o, a, lhe".3
6) No exemplo trazido pelo leitor, vê-se que o sujeito de achariam é vocês (o qual, embora da
segunda pessoa do discurso - aquela com quem se fala - leva o verbo para a terceira pessoa); apesar
disso, traz-se, mais ao final, o pronome vossas, que só poderia referir-se a um vós (inexistente no
caso). Há, portanto, no período, um erro de concordância, já que não se guarda a uniformidade do
tratamento.
7) Tecnicamente, a correção do exemplo pode dar-se de dois modos:
a) "Não creio que acharíeis o fato hilário se fosse com vossas mães" (os interlocutores estariam sendo
tratados por vós);
b) "Não creio que achariam o fato hilário se fosse com suas mães" (os interlocutores estariam sendo
tratados por vocês).
8) Em termos práticos, como não é comum que, no linguajar diário, se tratem interlocutores por vós,
a opção normal de uso deve ficar para o segundo modo de expressão.
Modo Imperativo (e uniformidade de tratamento)
Embora a palavra imperativo esteja ligada à ideia de "comando", nem
sempre usamos esse modo verbal para dar uma ordem. Quase sempre, nossa
intenção, ao utilizar o imperativo, é estimular ou exortar alguém a cumprir
a ação indicada pelo verbo. Mas também usamos o imperativo para proibir,
rogar e convidar.
Os dois imperativos existentes em português, afirmativo e negativo, são
utilizados somente em orações absolutas, em orações principais, ou em
orações coordenadas, podendo exprimir:
a) ordem ou comando:
Cavem, cavem depressa!
(Luís Jardim)
b) exortação, conselho:
Não olhes para trás quando tomares
O caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.
(Guilherme de Almeida)
c) convite, solicitação:
Vinde ver! Vinde ouvir, homens de terra estranha!
(Olegário Mariano)
d) súplica:
Não me deixes só, meu filho!...
(Luandino Vieira)
e) sugestão de uma hipótese:
Suprima a vírgula, e o sentido ficará mais claro.
f) ordem:
Saiam da chuva, meninos!
(Luís Jardim)
Observação: devemos levar em conta que as
ideias expressas pelo imperativo dependem
não só do significado do verbo, mas também
do contexto em que a frase é falada (ou lida);
e, também, da entoação que se dá às
palavras. A depender do tom da voz, o que,
aparentemente, é um comando, pode se
transformar em súplica.
Uniformidade de tratamento
Na língua portuguesa falada no Brasil - ou seja, na linguagem coloquial
brasileira -, o pronome você praticamente derrotou o tu. Muitas vezes, no
entanto, as duas formas de tratamento se misturam na frase, causando erro, o
que se torna cada vez mais comum quando utilizamos o modo imperativo.
Vejamos, por exemplo, esta frase:
Faze para ti e seus filhos uma casa na parte mais alta da colina.
O pronome ti (forma que o pronome tu assume em alguns casos)
corresponde, corretamente, ao verbo fazer, usado na 2ª pessoa do imperativo
afirmativo (faz, faze tu). O mesmo não ocorre, entretanto, com o
pronome seus (que corresponde à 3ª pessoa).
Dessa forma, para que haja uniformidade de tratamento, devemos colocar
toda a frase ou na 2ª pessoa, ou na 3ª. Assim:
Faze para ti e teus filhos uma casa na parte mais alta da colina. (2ª pessoa)
Faça para você e seus filhos uma casa na parte mais alta da colina. (3ª
pessoa)
Não esqueça: em vestibulares, provas e concursos, exige-se sempre o
conhecimento da norma culta (formal, erudita) da língua - e não a norma
informal, que usamos no dia a dia.