12ª Classe Filosofia
Noções básicas de lógica.
Importância da Lógica
o O conhecimento da lógica permite organizar os nossos pensamentos de forma
lícita e certa;
o Do seu conhecimento, e das suas leis surgem as aplicações, procurando o
sentido prático e normativo;
o Sem o conhecimento da lógica pensamos e julgamos guiados por uma lógica
inata “do senso comum” que está já dentro de nós. Por isso, é que muitas vezes
podemos cair no erro sobretudo em situações problemáticas.
o Ela ajuda-nos a adquirir competências que nos permite avaliar a validade dos
argumentos que nos são apresentados, contribuindo assim para desenvolver a
autonomia e o espírito crítico.
o Ela proporcionaa-nos meios que possibilitam a orgaanização coerente dos
pensamentos, desenvolvendo competências argumentativas e demonstrativas, a
fim de os podermos comunicar com rigor, coerência e inteligibilidade.
o Ela permite-nos analisar diversos tipos de discurso, do científico ao político,
para nos certificarmos da sua validade formal.
o Finalmente, elaa possibilita-nos a análise de ideias, juízos, raciocínios e métodos
de inferir, permitindo representar, através de uma linguagem rigorosa, conceitos
que pela subtileza escapam a toda determinação precisa com a linguagem
corrente. É por meio desses recursos que pensamos a realidade e a podemos
conhecer.
Evolução da lógica
1. A lógica tem 24 séculos de existência.
2. Período clássico vai do século IV a.C – séc. XIX d.C.
3. Período Moderno vai do séc. XIX – séc. XX.
4. Período Contemporâneo vai do séc. XX-...
O período clássico começa com Aristóteles e antes deste período temos os
intentos da lógica com Platão e Parmênides.
IV a.C.← XIX XX XX ↓ →
Platão [Link]ássico P. ↓→ P.
Parmênides Moderno Contemporâneo
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Aristóteles não só sistematizou e definiu a lógica também a constitiu uma
ciência autónoma. Durante muitos séculos falar da referia a lógica aristotélica. Também
hoje, apesar dos avanços que se deram nos períodos Moderno e Contemporâneo,
permanece a matriz aristotélica.
Aristóteles escreveu muito sobre a lógica, os seus escritos serão reunidos pelos
seus discípulos num compêndio chamado “organon” que quer dizer instrumento,
ferramenta de investigação.
Contribuições de Aristóteles na Lógica
o A superação da validade formal do pensamento e do discurso da sua verdade
material. Isto é, não interessa a realidade material mas aquilo que se diz sobre
ela. Exemplo: a folha é branca. Não interessa o material de que é feita a folha,
mas sim interessa demonstrar que ela é mesmo branca.
o A identificação de conceitos básicos da lógica: premissa ˃, premissa ˂,
conclusão, indução, dedução, são todos termos que devemos à Aristóteles.
o A introdução de letras para denotar os termos: João “sujeito” é “cópula” feio
“predicado”...
o A introdução de termos fundamentais como: válido, não válido, contraditório,
particular, universal...
Objectivo da lógica aristotélica
Mostrar o caminho certo para a investigação, para o conhecimento e paraa a
demonstração ciêntífica.
Método da lógica aristotélica.
o A lógica de Aristóteles assentava-se nas seguintes fases:
o A observação de fenómenos particulares;
o A intuição de princípios gerais;
o A dedução das causas a partir dos fenómenos particulares.
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[Link]ção da lógica
O homem atingiu a fase racional quando seus pensamentos começaram a se
processar com certa ordem, quando pôde tirar conclusões, transformando-as num
poderoso instrumento de trabalho. Dessas observações concluiu, finalmente, que a
regularidade nos pensamentos lhe mostrava que uma ordem presidia aos mesmos, o que
lhe permitiu construir uma ciência dos pensamentos.
A esses conjuntos de regras é que se chama lógica, ou seja, a ciência dos
pensamentos enquanto pensamentos, prescindindo dos outros aspectos e dos outros
elementos que se relacionam com eles e que formam os objectos de outras
ciências1. Ou ainda, a ciência das formas válidas do pensamento.
O seu estudo é imprescindível porque permite a melhor aplicação do
pensamento, evitando erros comuns.
Se pensarmos na cronologia da Lógica enquanto ciência, a sua origem deve ser
localizada na Grécia Antiga, no séc. V a.C., através dos trabalhos de Aristóteles de
Estagira, com a sua obra Organon, constituída por seis livros e quer dizer
«instrumento do pensamento correcto»2. Da palavra grega logos derivou em
português a palavra lógica para significar «razão, lei, estudo, princípios,
regularidade, discurso».
A lógica divide-se actualmente em duas partes: formal ou teórica ou pura e
material ou aplicada ou metodologia.
A primeira parte estuda as leis3 que devem regular as diferentes formas do
pensamento (ideia, juízo e raciocínio), considerando em si próprio, isto é, abstraido da
matéria à qual se pode aplicar; considera a forma que deve ser revestir o pensamento
para se exercer devidamente e, assim, evitar a contradição.
A segunda parte, determina as leis do pensamento nas suas relações com este ou
aquele objecto, com esta ou aquela ciência; estuda o acordo do pensamento do
1
SANTOS, Mário Ferreira dos. Lógica e Dialética: Decadialética. São Paulo, Ed. Paulus, 2007, pp.29-30
(Introdução e notas de Luís Mário Sá Martino)
2
MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia: Obras, Sistemas, Escolas e Autores, 12ª edição, São Paulo,
Ed. Paulus, 1980.
3
Estas leis têm um carácter de generalidade, sendo válidas para todo o homem que queira pensar como
deve ser.
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pensamento com a realidade4. Ou ainda, a ciência das condições da descoberta e
processos de demonstração da verdade.
[Link] e método do estudo da lógica.
Após a incursão feita sobre a definição de Lógica, cabe agora explicitar o que ela
estuda e como ela estuda seus problemas. Ora, é objecto de estudo da lógica, «o
pensamento correcto», ou seja, o pensamento enquanto instrumento de conhecimento
correcto, a que usualmente associam a designação de raciocínio5.
O objecto da lógica tem uma dupla caracterização: a 1ª refere-se ao objecto
material e a 2ª refere-se ao objecto formal. É considerado objecto material da lógica,
aquilo que o pensamento tem por percepção no objecto: o conteúdo, a ideia sobre
aquilo que é pensado, a verdade e o seu oposto, sua validade e coerência. O objecto
formal da lógica é conjunto de leis, regras e princípios que se observa no pensamento e
no acto de pensar, que garantem a verdade, a forma da ideia, a coerência desse
pensamento.
Em termos práticos, para a análise das operações lógicas, usa-se dois métodos:
dedutivo e indutivo. O 1º criado por Aristóteles, consiste em chegar a uma verdade
particular a partir de uma outra mais geral. O 2º criado Francis Bacon, consiste em
chegar a uma verdade geral a partir de outra partícula
[Link] princípios lógicos
A finalidade da razão é estabelecer a ordem na multiplicidade dos fenómenos,
reduzindo-os a classes expressas pelas ideias gerais e relacionando-os pelos juízos e
raciocínios. Para tal, serve-se de um certo número de princípios lógicos, denominados
primeiros princípios.
O termo princípio é de origem latina: principǐum; que significa: origem, causa
póxima, início; o que vem antes de todos, o que está no começo.
4
Aplica as regras formais à matéria ou à investigação da verdade, indicando os processos a seguir na
procura da mesma. Na lógica material ocupamo-nos da verdade “fim das nossas operações intelectuais” e
do caminho a seguir para atingir essa verdade, ou seja, do método.
5
BORTOLAMI, Gabriel. Apontamentos de Lógica. Seminário Maior Arquidiocesano de Luanda, Sagrado
Coração de Jesus. 2011.
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Princípio em sentido lato, é aquilo de onde procede qualquer coisa, por isso,
princípio do conhecimento é aquilo de onde procedemos para o conhecimento de outra
coisa.
Em sentido restrito, primeiros princípios são juízos da máxima universalidade,
primeiros e necessários, que são reconhecidos pelo espírito, como condições para que
alguma coisa exista e se possa conhecer.
Princípios do conhecimento, foram enunciados por Aristóteles na lógica clássica
em termos de coisas e, são modernamente enunciados em termos de proposições6,
(identidade, contradição e terceiro excluído) e princípios do ser (razão suficiente,
causalidade7, finalidade8, lei9, substancialidade10 e silogismo).
Princípio de identidade
Em termos de coisas:
Uma coisa é o que é.
O que é, é; o que não é, nao é.
Em termos de proposições:
Uma proposição é equivalente a si mesma.
Princípio da não contradição e a negação das proposições
Em termos de coisas:
Uma coisa não pode se e não ser simultaneamente, segundo uma mesma
perspectiva.
Em termos de proposições:
Uma proposição nao pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, segundo uma
mesma perspectiva.
Duas proposições contraditórias nao podem ser simultaneamente verdadeiras.
6
Uma proposição é a expressão verbal do juízo, ou seja, uma proposição lógica é uma frase declarativa
pela qual se expressam juizos e sobre a qual se Pode afirmar a falsidade ou verdade.
7
Segundo este princípio: tudo o que começa a existir tem a sua causa, ou não há efeito sem causa
proporcionada. Este princípio abrange só seres contingentes, por isso, é menos geral que o princípio da
razão suficiente que se aplica também ao ser necessário. (RIBEIRO, J. Bonifácio e Da SILVA, José.
Compêndio de Filosofia. Lisboa, Cogito Ergo Sum, 10ªedição, pág. 167.)
8
Segundo este princípio: todo o agente actua com vista a um fim. O fim é a primeira causa na intenção e a
última na execução, (Idem…, p. 167).
9
Para este princípio: as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, postas nas mesmas
circunstâncias, (Idem…, p. 167)
10
Para o princípio da substancialidade: todo o acidente supõe uma substância, ou então: toda a mudança
supõe alguma coisa de permanente, (Idem…, p. 167)
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Princípio do terceiro excluído (ou do meio excluido) e a negação dos conceitos
Em termos de coisas:
Uma coisa deve ser, ou então não ser; não há uma terceira possibilidade.
Em termos de proposições:
Uma proposição é verdadeira, ou então é falsa; não há outra possibilidade.
Princípios do ser – o fundamental é o princípio da razão suficiente: Tudo o que
existe tem a sua razão razão de ser. – A razão de ser de uma coisa é aquilo que a
explica e a torna inteligível, isto é, a sua substância, a sua causa eficiente, o seu fim, a
sua lei. Por isso, o princípio da razão suficiente pode considerar-se sob vários aspectos.
[Link] novos domínios de aplicação da lógica: cibernética, informática e
inteligência artificial.
A lógica pode ser aplicada em várias áreas do conhecimento e da vida humana:
nas ciências da computação a elaboração de programas pelo profissional de informática
obedece as regras lógicas de desenvolvimento; no campo do direito as petições dos
advogados, por exemplo, devem ser coerentes, sem equívocos lógicos, de modo a que
mais difícil seja a sua contestação; na elaboração de teorias científicas é condição
necessária, embora não suficiente que haja coerência interna.
A cibernética, a informatica e a inteligencia artificial constituem novos domínios
da aplicação da lógica. Isto. revela-nos que a lógica também tem aplicação prática, isto
é, aplicação no campo técnico científico, dado que a inteligência artificial, a cibernética
e a robótica são alguns dos inúmeros e novos dominios dc aplicação da lógica.
Cibernética
A palavra "cibernética, tem origem no grego (kiberneties), que, segundo Platão,
dcsigra a arte de pilotar navios. Como ciência, a origem da cibernética remonta aos anos
trinta do século XX, quando a comunidade científica e filosófica debatia a questão das
novas máquinas. São de grande importância para o surgimento da cibernética as
contribuições dc A. Osenbluth (especialista em fisiologia nervosa) e as de Norbert
wiener (matemático), que se dedicaram a construção de máquinas electrónicas. Este
último teve a idcia de criar uma ciência interdisciplinar para o estudo dos sisternas dc
controlo e comunicação nos animais e nas máquinas (como se organizam, regulam,
reproduzem, evoluem e aprendem).
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Em geral, a cibernética é a ciência da comunicação e do controlo de homens e
máquina. Os computadores sao fruto da aplicação desta ciência, bem como toda a
robotização actual existente. Um dos ramos mais importantes dcsta ciência tcm sido o
ramo que estuda a inteligência artificial.
lnformática
O desenvolvirnento dos computadores acabou conduzindo A criação de uma
nova ciência aplicada, a informática. Esta ciência dedica-se ao estudo do tratamento
automático da informação, que é fornecida a uma máquina a partir do meio exterior.
O conceito de informática, provém da combinação de duas palavras: informação
e automática. Informática é, portanto, a ciência que trata do processamento racional da
informação, por meio de máquinas automáticas. A palavra foi criada por Philippe
Dreyfus em l962, para se referir as disciplinas vocacionadas para o tratamento
automático da informação.
Inteligência artificial
O desenvolvimento dos computadores acabou por impulsionar o aparecimento
de uma nova ciência nos anos cinquenta do século XX a inteligência artificial. Esta
ciência aplicada dedica-se ao estudo da construção de máquinas capazes de simular
actividades mentais, tais como a aprendizagem por experiência, resolução de problemas,
tomada de decisões, reconhecimento de formas e compreensão da linguagem.
As linhas de investigação são essencialmente três: simulação das funções
superiores da inteligência; modelização das funções cerebrais explorando dados da
anatomia fisiologia ou até da biologia molecular; e reprodução da arquitectura neuronal
de um cérebro humano, de forma a produzir numa máquina condutas inteligentes.
1.1.4.O pensamento e o discurso
A maior parte das ciências questiona a dada altura do seu percurso, se existe
alguma relação entre o pensamento e a realidade, no sentido de verificação do
conhecimento. Ou seja, se o conhecimento surge como resultado da relação entre o
pensamento e a realidade.
Filosoficamente, o pensamento é considerado em duas acepções: em sentido
extenso e em sentido restrito. No primeiro, “estão envolvidos todos os fenómenos do
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espírito” (Santos, 2010, p.19). Assim, é tudo o que tem em si um carácter de
racionalidade e de inteligibilidade, mesmo sem uma consciência atual. Em sentido
restrito, podemos chamar pensamento “ao conjunto de ideias ou significado que o
intelecto humano elabora e atribui aos objetos reflectidos no interior da mente” (Idem,
p. 19).
É importante salientar a distinção entre pensamento e pensar: o primeiro é
objeto da Lógica e o segundo da Psicologia. Pensar é uma palavra de origem latina
pensᾱre, que significa: “pesar, avaliar, comparar, é meditar, discorrer, cogitar,
reflectir” – é julgar segundo uma certa medida, regras e princípios. Este possui como
característica essencial: “relacionar o particular de modo coerente com o geral”.11
O discurso, por outro lado, é a tradução do ato de pensar e do pensamento
que resulta desse ato, etimologicamente a palavra discurso deriva do latim dis cursus,
que significa: “discorrer da razão”. O pensamento é assim expresso pelo discurso,
numa forma de comunicação linguística. Ora, para clarificar isso, apresentaremos a
seguir a concepção discursiva do linguista russo Roman Jacobson.
Modelo de explicação de Roman Jakobson
Roman Jakobson (1896 1982), propôs um modelo de comunicação, que marcou
uma época e que continua a ser estudado ate hoje. Relativamente aos modelos anteriores
que consideravam como factores da comunicação apenas o emissor, mensagem e
receptor, este acrescentou três elementos com a mesma importância que aqueles outros.
Trata-se do contexto, do código e contacto.
Além de ter acrescentado estes três elementos, Jakobson atribuiu uma função de
linguagem a cada um dos elementos da comunicação.
Função referencial - está centrada no contexto. Neste tipo de discursos, o
emissor centra a sua mensagem de forma predominante no contexto.
Função expressiva - está centrada no emissor. Predomina, neste tipo de
discursos, a atitude do emissor, perante o referente produzindo, uma apreciação
subjectiva.
11
BORTOLAMI, Gabriel. Apontamentos de Lógica. Seminário Maior Arquidiocesano do Sagrado
Coração de Jesus de Luanda, 2011.
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Função persuasiva - está centrada no destinátario. Trata-se de um tipo de
discurso em que o emissor procura influenciar, seduzir, convencer o receptor,
provocando nele uma dada reação.
Função estética - está centrada na mensagem- Embora tenha especial evidência
na poesia, esta ocorre em qualquer tipo de mensagem.
Função fática - está centrada no contacto, ou seja, no canal.
Função metalinguística - está centrada no código. Com o discurso os
interlocutores procuram definir ou clarificar o sentido dos signos para que sejam
compreendidos entre si.
Função referencial - nos permite representar ou descrever factos, estados ou
relações entre as coisas.
Função persuasiva - permite-nos combinar enunciados, frases ou proposições e
estruturar os respectivos argumentos justificativos ou comprovativos.
Linguagem, pensamento e discurso
Há uma estreita e indissociável relação entre estas três realidades: linguagem,
pensamento e discurso:
Linguagem é um instrumento e meio ao serviço do pensamento. A linguagem é
o suporte do pensamento.
A linguagem regula o pensamento. Só com recurso A linguagem o ser humano
pode formular conceitos.
Os seres humanos dispoem de uma linguagem, podendo expressar, em forma de
discurso, os seus pensamentos aos outros e comunicar
Também por disporem de uma linguagem que os seres humanos podem
expressar, em forma de discurso, os seus pensamentos e dessa forma conhecer e
apreender a realidade circundante.
[Link] três dimensões do discurso: Sintaxe, Semântica e Pragmática.
O discurso é um “conjunto de códigos que inclui o objeto, o nome e a ideia
para transmitir, para comunicar aos outros sujeitos pensantes, o produto do processo
do conhecimento”.
Defender que o discurso humano é pluridimensional aceitar que existem diversas
dimensões que o constituem. Dessas, umas podem ser consideradas mais relevantes e
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fundamentais do que outras, tendo em conta o nosso objecto de estudo imediato que a
lógica é o caso das dimensões: sintáctica, semantica e pragmática.
Dimensão sintáctica
Etimologicamente, sintaxe deriva do grego syn+ taxis (co-ordem, coordenado).
Tradicionalmente, define-se a sintaxe como a “parte da gramática que trata das regras
combinatórias entre os diversos elementos da frase” (Geque & Biriate, 2019, p.147).
Assim, por razões de carácter sintáctico ou de sintaxe: letras expostas ao acaso nao
formam uma palavra; palavras expostas ao acaso não criam uma frase; frases expostas
não criam textos ou um discurso.
Dimensao semântica
O termo semântica encontra a sua raiz no grego: semantiké - que literalmente
significa “arte da significação" ou “ciência do significado". Michel Bréal (1832-1915),
linguísta francês fundador da semântica, define-a como, “a ciência que se dedica ao
estudo das significações” (Bréal, apud Geque & Biriate, 2019, p.129). A semântica trata
das relações dos signos com os seus e destes com a realidade a que dizem respeito.
Dimenção pragmática
A palavra pragmática encontra a sua raiz no grego pragmatiké ou pragma:
“acção”. Entre os precursores da pragmática destaca-se, entre outros, o filósofo e crítico
literário alemão von Humboldt (1767-1835), que afirma que a essência da linguagem é a
acção.
Michel Meyer define a pragmática como a disciplina que se prende com os
signos na sua relação com os utilizadores. Pode considerar-se como fundador da
disciplina Charles Morris, que exigiu à pragmática certo complemento da sintaxe e da
semântica na comunicação, segundo Morris, há um «signo», «um significado» e «um
intérprete», desenrolando-se entre eles uma tríplice relação.
A pragmática é o estudo do rso das proposições, mas também Pode definir-se
como estudo da linguagem, procurando ter em consideração a adaptação das expressões
simbólicas aos contextos referenciais, situacionais, de acção e interpessoal. A atitude
pragmática diz respeito A procura de sentido nos sistemas dos signos, tratando-os na
sua relação com os utilizadores, considerando sempre o contexto, os costumes e as
regras sociais.
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[Link] e o termo.
. A concepção é o acto pelo qual a inteligência obtém uma ideia, sem nada
afirmar ou negar a seu respeito.O conceito a representação intelectual da essência de
um objecto; representa aquilo que há de permanente, imutável e comum em todos os
objectos de uma espécie.
No conceito, temos apenas a essência, as características determinantes de um
objecto, e não o próprio objecto. O conceito constitui a forma mais simples e elementar
do pensamento, na medida em que se limita na apreensão da essência de uma
determinada classe de objectos. O termo e a expressão externa da ideia.
[Link]ção de conceitos12
O processo de formação dde conceitos acontece por meio de cinco operações
distintas, a saber: análise, síntese, comparação, abstração, generalização.
Extensão e compreensão dos conceitos
A extensão é o “conjunto de seres ou objectos abrangidos pelo conceito”. A
compreensão de um conceito é o “conjunto de propriedades que o caracterizam e são
comuns a todos os seres ou objectos que formam a sua extensão”.
Relação entre extensão e compreensão dos conceitos
Entre a extensão e a compreensão de um conceito estabelece-se uma relação
quatitativa, podendo, por isso, variar na sua razão inversa: quanto maior for a extensão,
menor será a compreensão: quanto menor for a extensão, maior será a compreensão.
Classificação de conceitos e do termo – as ideias e sua expressão podem classificar-se:
Quanto à perfeição com que representam o objecto, podem ser: clara, quando
nos permitem reconhecer o objecto com nitidez, e obscuras, se isto, não se verifica;
distintas e confusas, consoante conhecemos ou não todos os atributos que o compõem.
Quanto à compreensão, dividem-se em simples e compostas consoante
constam de um ou muitos caracteres.
12
SANTOS, Mário Ferreira dos. Lógica e Dialéctica. São Paulo, editora Paulus, 12ª edição, 2007, p. 88.
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Quanto à extensão13, podem ser singulares, que se aplicam apenas a um
indivíduo; particulares, que se aplicam a uma parte de um todo; universais, que se
aplicam a todos os indivíduos de um grupo.
Quanto às suas relações mútuas, dividem-se em contraditórias e, quando uma
exclui a outra sem que se possa existir qualquer ideia intermédia; contrárias, quando se
opõem, mas entre elas existem outras ideias intermediárias.
1.2.2. A Definição.
A definição é a operação intelectualconsiste em indicar os caracteres que
constituem a compreensão de uma ideia14.
A definição é uma palavra de etimologia latina: definĭre - significa: marcar
limites, delimitar, circunscrever15. A definição possui dois elementos que a
caracterizam: primeiro aquilo que se define e o segundo é aquilo que define o
conceito.
Homem
Ex: O é um é Animal racional
↑ ↑
Definindo (Dfd) definidor (Dfn)
A definição se constrói com auxílio do género próximo, diferença específica.
Portanto, em virtude da complexidade do assunto, urge a necessidade de apresentarmos
em síntese os aspetos essenciais da definição definindo-os em seguida16.
o Género próximo: grupo no qual todos os indivíduos em número indefinido, i.é,
não determinado, e dotado de certos caracteres comuns, estão idealmente
reunidos.
o Diferença específica: é o carácter pelo qual uma espécie se distingue das outras
que pertencem ao mesmo género.
13
Alguns autores não consideram esta classificação de ideias, pois entendem que toda a ideia é universal;
usam-na, no entanto, quanto aos termos.
14
RIBEIRO, J. Bonifácio e Da SILVA, José. Compêndio de Filosofia. Lisboa, Cogito Ergo Sum,
10ªedição, pág. 280.
15
GUETMANOVA, Alexandra, Lógica, Publicações Progresso, Moscovo, 1980.
16
SANTOS, Mário Ferreira dos. Lógica, São Paulo, Ed. Paulus, 2007, p.56.
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1.2.3 Tipos e regras de definição
Há duas espécies de definições: nominal (exprime o sentido de uma palavra).
Esta é subdividida em três partes: etimológica, sinonímica e estipulativa. E a real
(exprime a natureza do próprio objecto que a palavra representa); a última pode ainda
ser: essencial «metafísica», operacional, descritiva, final.
Há três regras fundamentais da definição essencial:
o A definição deve ser mais clara do que o definido: não deve conter o termo a
definir; deve ser feita em termos precisos e distintos, deve ser e não pode ser
negativa.
o A definição deve aplicar-se a todo o definido e só ao definido, quer dizer, não
deve ser muito restrita (o homem é um animal racional de cor negra), nem
demasiado larga (o homem é um animal).
o A definição deve ser recíproca, isto é, sendo o definido o primeiro membro de
igualdade e a definição o segundo, devem poder trocar o seu lugar.
Estas são as principais regras de uma boa definição e, com elas, se pode
construir uma que realize sua finalidade, que é responder à pergunta: que é isso?
1.2.4 Conceitos indifiníveis.
Como acabámos de ver, definir um concejto é explicá-lo, é transformá-lo de
obscuro a claro, para que se possa distinguir dos outros; acabanlos tambem de ver que
em geral a definição faz-se indicando o seu género mais próximo e a sua diferença
específica. Entretanto, nem sempre isso é possível por outras palavras, nem todos os
conceitos são definíveis, Assim, os conceitos considerados indefiníveis são agrupados
em três espécies:
Géneros supremos
Se toda a definição começa pela inclusão do termo a definir no seu género mais
próximo, os géneros supremos sao indefiníveis por excesso de extensão, daí não
possuírem os seus géneros mais próximos por onde se possam incluir.
Indivíduos
Se os géneros supremos são indefiníveis por excesso de extensão, os indivíduos
são indefinidos por excesso de compreensão. Em virtude disso, torna-se muito dificil,
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senao impossível, descobrir num indivíduo, uma característica que seja suficiente para
que se possa distinguir dos outlos individuos conhecidos ou por conhecer. Sendo assim,
os indivíduos só podem ser nomeados ou descritos.
Dados imediatos da experiência
Os dados imediatos da experiência são por si só claríssimos, nao havendo, por
isso, nenhuma definição que possa clarificá-los ainda mais. Por outras palavras, se
definir um conceito ou termo é clarificá-lo por meio de outros conceitos ou termos,
então, dada a sua clareza imediata e intuitiva, nao é possivel obter d0os dados imediatos
da experiência uma definição que os torne mais claros ainda.
1.2.5 Juízo e proposição.
O juízo é a operação pela qual o espírito afirma ou nega uma relação e
conveniência entre duas ideias ou objectos do pensamento.
O juízo, como acto do pensamento, tem a sua expressão verbal na proposição ou
no enunciado, da mesma forma que o conceito se materializa o termo. Contudo, é
necessário distinguir o sentido gramatical do sentido lógico do termo "proposição", pois
nem todas as proposições gramaticais sao proposições lógicas ou correspondem a
juizos.
Assim,
As proposições interrogativas
As imperativas
As interjeições
Não exprimem juízos, precisam ente porque não traduzem uma afirmação ou negação e,
como tal, não podem ser consideradas nem verdadeiras, nem falsas. Por outras palavras,
só os enunciados ou frases que exprimem verdades ou falsidades recebem o nome dc
juízos, dado que expressam urna relação de concordância ou discordância entre dois
conceitos ou termos considerados sujeito e predicado.
Estrutura do juízo
O juízo é constituído pelos seguintes elementos:
Quantificador: partícula que indica se o predicado é ou não, atribuído a todos
os membros da classe do sujeito.
Sujeito - o ser de que se afirma ou nega qualquer coisa.
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Cópula: elemento de ligação entre o sujeito e o predicado
Predicado: qualidade que se afirma pertencer ou não ao sujeito
1.2.6 Classificação dos juízos
Os juízos classificam-se de diferentes maaneiras, consoante o ponto de vista
em que nos colocamos:
o Quanto a extensão ou quantidade do sujeito, dividem-se em universais,
particulares e singulares.
São universais aqueles cujo sujeito é tomado em toda a sua extensão, isto é,
qunando se aplica a todos os indivíduos da classe considerada.
Exemplo: todos os homens são mortais.
São particulares, quando o sujeito é tomado em parte da sua extensão.
Exemplo: alguns homens são mortais.
São singulares aqueles cujo sujeito designa apenas um indivíduo.
Exemplo: A Olívia é psicóloga.
o Quanto a qualidade ou a forma, podem ser:
Afirmativos, quando o predicado convém ao sujeito.
Exemplo: a Gilda é linda.
Negativos, quando o predicado lhe não convém.
Exemplo: A Luzia não é ladra.
Quanto à relação, podemos classificá-los em:
o Categóricos, se a afirmação ou negaçao é absoluta e sem reservas.
Exemplo: Hoje é segunda-feira.
Hipotéticos, se a afirmação é condicional ou disjuntiva. Os juízos hipotéticos
subdividem-se em: condicionais e disjuntivos, segundo a hipótese a forma de
proposição condicional ou disjuntiva.
Exemplo: se estou atento, aprendo melhor (condicional); ou falo ou estou calado
(disjuntivo).
o Quanto à modalidade, dividem-se em:
Apodícticos ou necessários, quando o predicado convém necessariamente ao
sujeito, isto é, lhe é essencial.
Exemplo: Deus é perfeito; o círculo é redondo.
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Assertóricos ou contingentes, quando o predicado convém, mas não
necessariamente, ao sujeito, isto é, lhe é acidental.
Exemplo: a mesa é redonda.
Problemáticos ou duvidosos, quando a afirmação ou negação envolve simples
possibilidade.
Exemplo: passarei no exame?
[Link]ções das proposições
As proposições classificam-se da mesma forma que os juízos, visto serem a sua
expressão verbal. Mas à lógica interessa principalmente fazê-lo de harmonia com a sua
qualidade e quantidade e, este processo dará o surgimento de quatro proposições
representadas por quatro vogais «A, E, I, O», retiradas das palavras afirmo e nego.
o Quanto à qualidade – e esta depende da extensão do sujeito – podemos
distinguir:
Proposições universais - quando o sujeito é tomadas universalmente, isto é, em
toda a sua extensão.
Exemplo: os fenómenos psíquicos são qualitatitivos
Proposições particulares – quando é apenas considerada uma parte da extensão
do sujeito17.
Exemplo: alguns hábitos são úteis ou algum A é B.
Proposições singulares – quando o sujeito é apenas um indivíduo18.
Exemplo: esta caneta é preta.
o Quanto à qualidade – e esta epende da natureza da cópula – temos:
Proposições afirmativas – quando o predicado convém ao sujeito.
Exemplo: Os actos morais são livres. Algumas sensações são agradáveis.
Proposições negativas – quando o predicado não convém ao sujeito.
Exemplo: nenhum crime é louvável; algumas tendências não são pessoais.
17
A particularidade é indicada pela palavra algum, ou expressões equivalentes, como: nem todo, a
maioria, muitos, certos, poucos, poucos, há etc.
18
As proposições singulares representam-se como as universais, porque o sujeito, apesar de singular ou
porque é singular, é tomado em toda a sua extensão, isto é, está todo incluído na extensão do predicado. É
por isso que em lógica se dividem as proposições quanto à quantidade apenas em universais e
particulares.
Elaborado por Olívio Santana Página 16
12ª Classe Filosofia
Tipo Quantidade Qualidade Exemplos
A Universal Afirmativa Todo S é P: Todo vivente é mortal
E Universal Negativa Nenhum S é P: Nenhum vivente é imortal
I Particular Afirmativa Algum S é P: algum estudante é aplicado
O Particular Negativa Algum S não é P: alguns estudantes não humildes
1.2.8 Conceito de inferências.
Até aqui limitámo-nos a estudar as proposições isoladamente, classificando-as
quanto à quantidade e qualidade e indicando a extensão dos respectivos termos.
Mas as proposições não valem apenas em si mesmas. Com efeito, podemos
passar de uma proposição a outra ou a outras e a isso se chama inferir.
Inferência: é a operação que consiste em tirar de uma ou mais proposições
outra ou outras que aí estavam implicitamente contidas.
1.2.9 Classificação de inferências.
Inferência imediata – consiste em tirar uma proposição de outra, sem
recorrer a nenhuma intermediária; reduz, como dissemos, ao mínimo o número de
termos e de proposições. Esta inferência reveste-se de duas formas: a oposição e a
conversão.
[Link]ências simples ou imediatas por oposição entre proposições.
A oposição das proposições consiste em tirar de uma proposição outras pela
alteração da qualidade ou qualidade (…), mantendo sempre os mesmos termos como
sujeito e como predicado.
Colocando as proposições A, E, I, O em relação umas com as outras, obtermos
uma série de oposições entre estas proposições que, tendo o mesmo sujeito e o mesmo
predicado, diferem entre si pela quantidade ou pela qualidade, ou pela quantidade e
qualidade ao mesmo tempo. São quatro, as formas de oposição:
Inferências por oposição contrárias19: (A e E) são duas proposições universais
que, tendo o mesmo sujeito, diferem apenas na qualidade.
Exemplo: «todos os homens são mortais», (A); «nenhum homem é mortal» (E).
19
SANTOS, Mário Ferreira dos. Lógica e Dialéctica: Lógica, dialéctica, decadialéctica. São Paulo,
Paulus, 6ª edição, 2007, p. 53.
Elaborado por Olívio Santana Página 17
12ª Classe Filosofia
Lei das proposições contrárias
Duas proposições contrárias nao podem ser verdadeiras simultaneamente, elas
podem ser ambas falsas. Veja-se o seguinte exemplo: «todos os africanos são negros» e
«nenhum africano é negro». Estas duas propoções são contrárias e ambas são falsas.
Inferências por oposição subcontrárias20: (I e O) - são duas proposições
particulares que, tendo o mesmo sujeito, diferem na qualidade.
Exemplo: «Alguns animais aquáticos são mamíferos» (I); «alguns animais
aquáticos não São mamíferos» (O).
Lei das proposições subcontrárias
Duas proposições subcontrárias podem ser simultaneamente verdadeiras;
todavia, não podem ser simultaneamente falsas: se uma proposição é falsa, a outra
proposição é verdadeira.
Inferências por oposição subalternas: (A e I, E e O) - são duas proposições
que apenas diferem na quantidade: «Todos os homens sao mortais» (A) e «Alguns
homens são mortais» (I); ou «Nenhum homem é mortal» (E) e «Alguns homens não são
mortais» (O).
Lei das proposições subalternas
Os dois exemplos anteriores mostram-nos que sempre que a proposição
universal for verdadeira a particular também o será; se a universal for falsa, a particular
pode ser verdadeira ou falsa. Por outro lado, e como consequência, quando a particular
for falsa a universal também será necessariamente falsa; quando a particular for
verdadeira, o valor da universal poderá ser verdadeiro ou falso.
Inferências por oposição contraditórias: (A e O; E e I) são aquelas que, tendo
o mesmo sujeito e o mesmo predicado, diferem simultaneamente em qualidade e em
quantidade.
Por exemplo: «todos os homens são mortais» (A) e «Alguns homens não são
mortais» (O); ou «Nenhum filósofo é louco, (E) e «Alguns filósofos são loucos» (I).
Lei das proposições contraditórias
Duas proposições contraditórias não podem ser simultaneamente verdadeiras ou
falsas; se uma é verdadei ra, a outra é falsa, e vice-versa.
20
Idem, p. 53.
Elaborado por Olívio Santana Página 18
12ª Classe Filosofia
Relações de oposição Valores de verdade
Contrárias A (V) → E (F) E (V) → A (F)
A↔E A (F) → E (?) E (F) → A (?)
Subcontrárias I (V) → O (?) O (V) →I (?)
I ↔O I (F) → O (V) O (F) → I (V)
Subalternas A (V) → I (V) I (V) →A (?)
A↔I A (F) → I (?) I (F) → A (F)
E↔O E (V) → O (V) O (V) → E (?)
E (F) → O (?) O (F) → E (F)
Contraditórias A (V) →O (F) O (V) → A (F)
A ↔O A (F) → O (V) O (F) → A (V)
E↔I E (V) → I (F) I (V) → E (F)
E (F) → I (V) I (F) → E (V)
1.2.11. Inferências simples ou imediatas por conversão
Converter uma proposição é passar o sujeito para o lugar do predicado e o
predicado para o lugar do sujeito, sem lhes alterar o valor, obtendo assim, uma nova
proposição que é imediatamente inferida da primeira. Os termos da proposição formada
não devem ter maior extensão do que tinham na proposição a converter, mas podem ter
uma extensão menor. Esta é a regra geral da conversão.
A conversão das proposições consiste em tirar de uma proposição uma outra
pela transposição dos seus termos, de modo que o sujeito se torne predicado e o
predicado sujeito.
A conversão pode ser: simples, por limitação, por negação e por
contraposição.
o Conversão simples – consiste apenas em mudar a posição do sujeito e do
predicado. As proposições particulares afirmativas (I) e as universais negativas
(E) são as que se convertem deste modo, porque os seus sujeitos e predicado têm
igual extensão21.
Exemplo: nenhum metal é gás, converte-se em: nenhum gás é metal; algum metal é
sólido, ficará: algum sólido é metal.
21
Convertem-se também simplesmente as proposições chamadas recíprocas ou equivalentes “definições”.
Exemplo: o triângulo é um polígono de de três lados, converte-se em: o polígono de três lados é um
triângulo
Elaborado por Olívio Santana Página 19
12ª Classe Filosofia
Conversão por limitação ou por acidente – este modo aplica-se às
proposições do tipo A em geral, que depois de convertidas ficam reduzidas a
proposições do tipo I.
Exemplo: todos os homens são seres, convertendo, teremos: alguns seres são
homens.
Conversão por negação – as proposições do tipo O não se podem converter
simplesmente, porque o sujeito, tomando o lugar do predicado, ficaria com uma
exterior maior. Recorremos a um artifício para as converter, por uma forma indirecta, a
qual consiste em transformar primeiramente a proposição a converter numa afirmativa
particular que lhe seja equivalente (consegue-se isto, tirando a negação da cópula e
passando-a para o predicado) e depois converter simplesmente a proposição obtida.
Exemplo: alguns homens não são sábios e, feita a conversão, teremos: alguns
não sábios são homens.
Conversão por contraposição – esta consiste em juntar uma negação ao
sujeito e outra ao predicado da proposição a converter, fazendo em seguida a
conversão simples. Pode aplicar-se às proposições de tipo A e O.
Exemplo: «todo o homem é mortal» - «todo não homem é não mortal» -
«todo o não mortal é não homem».
Para o caso da proposição de tipo O, teremos como exemplo: «alguns homens
nãao são sábios» - «alguns não homens não são não sábios» - alguns não sábios não
são não homens».
1.2.12. Raciocínio e argumentação.
Se certas relações entre as ideias são apreendidas imediatamente pelo nosso
espírito, outras há, e estas são a maior parte, que só mediante o raciocínio se tornam
conhecidas.
O raciocínio é a operação pela qual a inteligência, partindo de duas ou mais
relações conhecidas, afirmadas ou negadas, conclui uma nova relação que nelas estava
implicitamente contida e delas deriva logicamente. Como as relações se exprimem por
juízos, podemos também definir o raciocínio como sendo a operação mediante a qual de
dois juízos dados se tira um novo juízo; ou a operação mental que infere conhecimentos
novos a partir de conhecimentos dados.
Elaborado por Olívio Santana Página 20
12ª Classe Filosofia
Só há raciocínio quando inferimos um pensamento de outro pensamento.
Podemos começar de um fato singular para chegar a uma conclusão geral, ou desta para
concluir que o singular está contido naquele.
Durante muito tempo admitiram-se duas formas de raciocínio – a dedução e a
indução – a que depois ainda se acrescentou a analogia.
Dedução: é a operação do espírito que conclui, de uma ou mais proposições,
uma nova proposição que é a sua consequência necessária, isto é, vai da lei aos factos.
A dedução emprega-se para expor e demonstrar o que já sabemos: é o raciocínio da
demonstração e da exposição. E, é muito empregado nas ciências hipotético-dedutivas:
matemática, álgebra...
A dedução pode apresentar duas modalidades: formal e matemática ou
construtiva.
Na dedução formal a conclusão esta implicitamente contida nas proposições
dadas e é menos extensa. A sua expressão verbal é o silogismo, que apresenta a seguinte
forma:
Os bons poetas devem ser lidos.
Agostinho Neto é um bom poeta.
Agostinho Neto deve ser lido.
Na dedução matemática o espírito parte de princípios gerais para outros tão
gerais ou mais gerais ainda que são a sua consequência.
Indução: é a operação do espírito que, partindo da observação de certo número
de factos, conclui uma lei geral. Na indução o pensamento segue dos factos para as leis,
das consequências para os princípios; pelo exame dos factos procura descobrir as causas
que os explicam. É o raciocínio da investigação e da descoberta, pois serve para
descobrir o que se ignora.
A indução pode ser completa ou formal ou incompleta ou amplificante22.
A indução é completa quando, de todos os casos particulares examinados se
tiraa uma conclusão que é mera soma dos casos em questão.
A indução é incompleta, quando da observação de alguns casos particulares se
conclui uma lei geral. Esta espécie tem grande importância científica, porque a
observação de todos os fenómenos seria fastidiosa e tornaria impossível a ciência.
22
Toma o nome de amplificante porque neste modelo, estende-se a toda classe a propriedade que foi
observada num certo número de fenómenos dessa classe.
Elaborado por Olívio Santana Página 21
12ª Classe Filosofia
Analogia: é um raciocínio que, de certas semelhanças observadas, conclui
para outras semelhanças não observadas.
O raciocínio por analogia pode ser mais ou menos provável, mas não atinge
uma conclusão tão certa como a dedução ou mesmo a indução, porque, concluindo por
força das semelhanças, nada impede que existam diferenças que levem a resultado
diverso.
Para fazer bom uso da analogia e para evitar os perigos a que ela conduz, é
preciso respeitar as seguintes regras: não basear as conclusões em semelhanças raras e
secundárias, não desprezar as diferenças existentes e não confundir as conclusões
prováveis da analogia com as conclusões da indução e da dedução.
Nas ciências biológicas, a analogia substitui a indução, porque nestas ciências
não se trata de subir dos factos às leis, mas dos indivíduos aos tipos. Ora, é pela
analogia que o biólogo conclui da presença de outros caracteres cujo conhecimento se
não poderia chegar por outro processo, atingindo, assim, a determinação do tipo
biológico, que não é mais do que um conjunto de caracteres que se implicam e supõem
recíprocamente, isto é, coexistem e são essenciais.
O argumento é a expressão é expressão verbal do raciocínio. Ele é concebido
como sendo, um procedimento mediante o qual se pretende provar ou refutar uma tese,
convencendo alguém de sua veracidade ou falsidade. O mesmo serve para: convencer,
ser convencido, justificar, explicar e demonstrar e, podem ser: demonstrativos ou
persuasivos.
O argumento é demonstrativo, quando a conclusão segue necessariamente as
premissas. E, torna-se persuasivo quando se persuadir a aceitar a conclusão a partir das
premissas.
Usa-se também a esse respeito o vocábulo argumentação.
A argumentação é o processo que consiste em expor e justificar as ideias que
constituem um dado [Link] duas formas de exposição e justificação de nossas
ideias: directa e indirecta.
1.2.14. Validade formal e validade material.
Acabamos de ver que a lógica tem como preocupação, determinar a validade de
um pensamento a concordância do enunciado consigo mesmo, não sendo seu escopo
averiguar se o seu conteúdo é ou não verdadeiro, E dado que em qualquer argumento há
Elaborado por Olívio Santana Página 22
12ª Classe Filosofia
que considerar os seus aspectos formais e materiais, temos, então, de distinguir validade
formal, da validade material.
Do ponto de vista lógico, a validade formal refere-se a estrutura ou a articulação
dos elementos de um raciocínio ou argumento, isto é, a sua estrutura formal, A
adequação do conteúdo do nosso raciocinio ou argumento A realidade pensada ou ao
mundo real chama-se validade material ou verdade. Assim, um enunciado será formal e
materialmente válido se os elementos que o constituem formarem um todo coerente e o
seu conteúdo estiver em conformidade com a realidade por ele expressa. Por exemplo:
Nenhum ser vivo é imortal.
Para melhor compreensão do que acabamos de dizer, convém que escareçamos a
priori os termos «forma e matéria».
A forma refere se a estrutura do raciocínio ou pensamento sendo como tal,
sujeito a validade ou a não validade.
A matéria refere-se ao conteúdo de determinado raciocínio ou pensamento,
sendo, por isso susceptível de ser verdadeiro ou falso.
Partindo dos exemplos acima apresentados, podemos concluir que:
A validade ou invalidade de um argumento ou pensamento diz respeito a
conformidade ou incorformidade com as regras gramaticais e com as regras
lógicas de inferências ou pensamento válidos;
Certos argumentos ou pensamentos apresentam-se formalmente válidos, embora
os seus elementos constituintes não sejam verdadeiros;
A verdade das premissas ou da conclusão de um argumento resulta do confronto
do seu conteúdo com a realidade referida, portanto, logicamente falando, a
verdade diz respeito ao conteúdo ou matéria do argumento.
1.2.15. As falácias.
Embora acabássemos de indicar aas regras do raciocínio correcto, a verdade é
que elas, por vezes, não são observadas na linguagem. E, ainda que fossem, o homem
continuaria sujeito a erro e não deixaria de se enganar, tomando o falso por verdadeiro.
É que, frequentemente, o homem raciocina mal.
É preciso não confundir o erro em si próprio com o raciocínio que lhe deu
origem. São mais ou menos desta espécie os raciocínios defeituosos que vamos estudar,
Elaborado por Olívio Santana Página 23
12ª Classe Filosofia
para precaver o espírito humano, aos quais costuma dar-se o nome de sofismas e a que
os antigos chamavam falácias.
De etimologia latina, fallacia, significa em termos gerais «ardil» ou «engano»,
coincidindo também com o sentido de uma ideia resultante de uma ilação incorreta, ou
de uma forma de pensar incorreta, pré-definida ou espontânea.
De um modo geral, o sofisma ou falácia é uma raciocínio errado com
aparência de verdadeiro.
Conforme o erro provém da linguagem ou das ideias que formam o
raciocínio, assim podemos dividir os sofismas em: sofismas de palavras ou verbais ou
da gramática e sofisma lógicos ou do pensamento.
Sofismas de palavras – baseiam-se na identidade aparente de certas palavras.
Os principais são:
o O equívoco ou ambiguidade – consiste em empregar o mesmo termo em dois
sentidos diferentes.
o A confusão entre sentido diviso e composto – quando damos o mesmo valor
ao todo que têm as partes consideradas separadamente e vice-versa.
o A metáfora – consiste em tomar a figura pela realidade. Esta variedade de
sofismas e frequente ao falar de coisas espirituais, pois como as exprimimos por
imagens sensíveis, facilmente a imagem se constitui à própria coisa.
o Anfibologia – é o sofisma em que se emprega uma frase com dois sentidos.
Sofismas lógicos – que derivam da ideia expressa, dividem-se, segundo
resultam de uma indução ou dedução ilegítimas, em sofismas de indução23 e sofismas de
dedução.
Sofismas de indução – os principais são:
o Sofisma de acidente – consiste em tomaar por essencial o que é apenas
acidental ou inversamente.
Este sofisma também se pode dar na dedução, quando atribuímos ao sujeito
um predicado acidental e o tomamos como essencial.
o Sofisma de ignorância de causa – consiste em tomar por uma causa um
simples antecedente ou qualquer circunstância acidental.
23
Todos estes sofismas são matérias, por pecarem contra a matéria do raciocínio; obedecem a todas as
regras da lógica formal, mas não atendem à realidade.
Elaborado por Olívio Santana Página 24
12ª Classe Filosofia
o Sofisma de falsa analogia – quando concluímos de um objecto para outro sem
olharmos à diferença existente entre eles, baseando-nos apenas nalgumas
semelhanças.
Sofismas dedução – estes sofismas podem dividir-se em dois grupos:
24
formais e materiais.
o Sofismas de conversão – consistem em converter as proposições sem observar
as regras da conversão.
o Sofismas de oposição – são aqueles em que se infringem as leis da oposição
concluindo, por exemplo, da falsidade de uma proposição a verdade da sua
contrária.
o Sofismas de silogismo – quando se infringem as regras do silogismo, tanto dos
termos como das proposições.
Sofismas materiais:
o Petição de princípio – consiste em supor já demonstrado aquilo que é objecto
da questão ou em resolver a questão com a própria questão. É sofisma deste tipo
incluir o definido na definição.
o Círculo vicioso ou dialelo – e, em última análise, uma dupla ou tripla petição de
princípio, que consiste em provar uma questão por outra ou outras que têm
igualmente necessidade de ser demonstradas, provando, por sua vez, esta ou
estas pela primeira.
o Ignorância da questão – é muito frequente nas discussões humanas, e consiste
em provar coisa diversa daquela que é o objecto da discussão ou em afastar a
questão – quer insensável, quer rapidamente, até a tornar esquecida.
1.2.16. Silogismo.
O silogismo é, com disse Aristóteles, um raciocínio formado de três
proposições de tal modo dispostas que, expressas as duas primeiras, chamadas
premissas, se segue necessariamente a terceira, denominada conclusão. Por outras
palavras, podemos dizer que o silogismo é um argumento pelo qual, de um antecedente
que liga dois termos a um terceiro, se tira um consequente que une esses dois termos
entre si.
24
São aqueles que pecam com a forma ou estrutura do raciocínio.
Elaborado por Olívio Santana Página 25
12ª Classe Filosofia
Todo o silogismo regular é formado por três proposições, sendo as duas
primeiras as premissas e a última e a conclusão, e por três termos comparados dois a
dois
Exemplo: Toda a ciência normativa é prática.
A lógica é uma ciência normativa.
Logo, A lógica é prática.
Os termos, que são a expressão verbal das ideias que entram em cada juízo e,
portanto, os elementos da proposição, classificam-se da forma seguinte:
Termo maior (T) – é aquele que tem maior extensão e é o predicado da
conclusão.
Termo menor (t) – é aquele que tem menor extensão e é o sujeito da conclusão.
Termo médio (M) – é aquele cuja extensão é intermediáriaa entre o maior e o
menor ou aquele que serve de comparação entre os termos maior e menor e, por
isso, se repete nas premissas.
As três proposições que entram no silogismo, chamadas premissas e conclusão,
classificam-se da maneira seguinte:
Premissa maior – a proposição que contém o termo maior ou predicado da
conclusão e o termo médio; geralmente é a primeira.
Premissa menor – a proposição que contém o termo menor ou sujeito daa
conclusão e o termo médio, em geral é a segunda.
Conclusão – a proposição que contém os termos menor e maior. O sujeito daa
conclusão é o termo menor; o seu predicaado é o termo maior. O termo médio
não entra na conclusão, mas repete-se naas premissas.
Sintetizando, fica:
O angolano é homem ← premissa maior.
Antecedente
O luandense é angolano ← premissa menor.
________________________________________________
Consequente: O luandense é homem ← conclusão.
Elaborado por Olívio Santana Página 26
12ª Classe Filosofia
Princípios do silogismo
Tal como os princípios da razão, os princípios do silogismo sao os fundamentos
e garantes da possibilidade da coerência do pensamento e, porque não, do raciocínio. A
sua observância permite a formulação correcta e lógica do raciocínio. Assim, podemos
falar de dois principios fundamentais do silogismo, isto é, do raciocínio: o de
compreensão e o de extensão.
A=B; B=C; logo, A=C. A=B; B≠C; logo, A≠C
Princípio de compreensão - duas coisas ou ideias idênticas a uma terceira são
idênticas entresi. Duas coisas ou ideias em que uma é idêntica e a outra não é idêntica a
uma terceira não são idênticas entre si.
Princípio de extensão - tudo o que se afirma ou se nega universalmente de um
sujeito afrrma-se ou nega-se do que está contido na extensão desse sujeito; o que se
afirma ou se nega do todo afirma-se ou nega-se das partes.
1.2.17. Tipos de silogismo.
Os silogismos podem dividir-se de harmonia com o quadro seguinte:
Regulares (3 termos e 3 proposições)
Categóricos Entinema
Silogismos Irregulares (+ ou – de 3 proposições) Epiquerema
Condicionais Polissilogismo
Hipotéticos Disjuntivos Sorites
Dilema
Silogismo categórico é um raciocínio constituido por proposições categóricas
(absolutas e incondicionais).
Exemplo: todas as cobras são répteis.
Alguns animais são cobras.
Logo, alguns animais são répteis.
Silogismos irregulares: são formas de silogismo comuns, não correspondendo
à forma categórica clássica. Nos silogismos irregulares, há uma abreviatura ou
ampliação do silogismo perfeito; são aqueles que pecam por defeito (quando são
Elaborado por Olívio Santana Página 27
12ª Classe Filosofia
formados por menos três proposições), ou por excesso (quando são formados por mais
de três proposições e daí alguns autores chamarem-lhes complexos ou complexos). São
este que vulgarmente utilizamos na linguagem. Os mais frequentes são:
Entinema – é o silogismo em que uma das premissas está subentendida,
geralmente a menor, ou até as duas; é por isso um silogismo incompleto. Para sabermos
qual das premissas falta, examine-se na conclusão qual dos extremos não aparece no
antecedente, se o maior, se o menor25.
Exemplo: todo o corpo é material; portanto a alma não é um corpo – falta a
premissa menor: a alma não é material.
Epiquerema - é o silogismo no qual uma ou as duas premissas são
acompanhadas das suas provas.
Exemplo: Todo B é C porque é D
Todo A é B porque é H
____________________
Todo A é C
O epiquerema é o «silogismo dos advogados», porque estes fundamentam as
suas argumentações nos artigos da lei e nas provas testemunhais.
Polissilogismo – é argumentação constituída por dois ou mais silogismos, de
tal maneira dispostos que a conclusão do primeiro seja uma premissa (maior ou menor)
do segundo e, assim, por diante.
No primeiro caso o polissilogismo chama-se progressivo e no segundo
regressivo.
Exemplo: os bons hábitos são saudáveis.
Beber muita água é um bom hábito.
Beber muita água é saudável.
Outro exemplo:
A liberdade permite o desenvolvimento da cultura; todo desenvolvimento da
cultura é uma elevação do homem; a elevação do homem é um dever de todos e se a
liberdade permite esse desenvolvimento, facilitá-la é o nosso dever; logo, pugnar pela
liberdade é o dever de todos nós.
25
É bom notar que o facto de faltar uma premissa no entinema não significaa que ela falte também no
pensamento, pois, se assim fosse, em vez de um entinema teríamos, uma inferência imediata. Este tipo do
silogismo é conhecido por «silogismo do orador».
Elaborado por Olívio Santana Página 28
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Sorites: é o argumento que tem pelo menos quaatro proposições com os seus
termos convenientemente ligados.
Há a considerar dois casos: o sorites regressivo e o sorites progressivo.
No sorites regressivo26, também chamado aristotélico, o predicado da primeira
proposição é sujeito da segunda, o predicado da segunda é sujeito, e, assim,
sucessivamente, até à conclusão, na qual se encontram ligados o sujeito da primeira e o
predicado da última.
Exemplo: os coelhos são herbívoros. AéB
Os herbívoros são mamíferos. BéC
Os mamíferos são vertebrados. CéD
Os vertebrados são animais. DéE
Logo, Os coelhos são animais. Logo, A é E
No sorites progressivo27, o sujeito da primeira é o predicado da segunda, é
predicado da terceira e assim por diante até que, em conclusão, se encontram ligados o
sujeito da última e o predicado da primeira.
Exemplo: o vertebrado tem sangue vermelho. AéB
O mamífero é vertebrado. CéA
O carnívoro é mamífero. DéC
O leão é carnívoro. DéE
Logo, o leão tem sangue vermelho logo, D é B
Silogismos hipotéticos: são aqueles cuja premissa maior não afirma, nem nega
de uma maneira absoluta, mas em que se afirma ou nega sob condição ou, então, em que
nessa premissa se estabelece uma alternativa.
Há duas espécies de silogismos hipotéticos, como são também duas as
proposições hipotéticas: condicional e disjuntivo. O dilema é um silogismo disjuntivo
especial.
Condicional: é aquele cuja premissa maior é uma proposição condicional,
dividida em duas partes (condição e condicionado). Há dois modos válidos: um positivo
e outro negativo.
26
Para a formação de um sorite regressivo obedece-se a seguinte regra: 1ª nenhuma premissa pode ser
negativa excepto a última; 2ª nenhuma premissa pode ser particular, excepto a primeira; 3ª não pode ter
termos equívocos. (RIBEIRO, J. Bonifácio e Da SILVA, José. Compêndio de Filosofia. Lisboa, Cógito
Ergo Sum editora, 10ª edição, 1962, p. 314).
27
Para a construção e um sorite progressivo, obedece-se a seguinte regra: 1ª nenhuma premissa pode ser
negativa, excepto a primeira; 2ª nenhuma premissa pode ser particular, excepto a última; 3ª não pode ter
termos equívocos (Idem…, p.315).
Elaborado por Olívio Santana Página 29
12ª Classe Filosofia
O modo positivo consiste em afirmar a condição na premissa menor, seguindo-
se a afirmação do condicionado na conclusão. É o silogismo condicional positivo ou
modus ponens.
Exemplo: se eu tiver dinheiro amanhã, então comprarei um carro.
Tenho dinheiro.
Logo, eu comprarei um carro
O modo negativo consiste em negar o condicionado na premissa menor,
negando a condição na conclusão. É o chamado silogismo negativo ou modus tollens.
Exemplo: se tiver boa nota no teste, então irei à Ilha de Luanda.
Não fui à Ilha.
Não tive boa nota no teste.
Silogismo disjuntivo – é aquele cuja premissa maior é uma proposição
disjuntiva, isto é, uma proposição que tem dois ou mais atributos, dos quais um poderá
convir ao sujeito com exclusão do outro.
Menor afirmativa, conclusão negativa ou modus positivo-negativo (modus
ponendo-tollens).
Exemplo: esta estação é inverno, primavera ou Outono.
É inverno.
Logo, não é primavera, nem verão, nem Outono.
Menor negativa, conclusãao afirmativa ou modo negativo-positivo (modus
tollendo-ponens).
Exemplo: agora é dia ou é noite.
Não é dia.
Logo, é noite.
Dilema28 – é o silogismo, sob forma disjuntiva, chamado argumento de dois
gumes, em que se estabelece na premissa maior uma alternativa, conduzindo cada uma
das partes à mesma conclusão contra o adversário; ou é um argumento em que a
conclusão é sempre a mesma, quer a premissa menor seja afirmativa quer negativa. É
nisto que difere do silogismo disjuntivo vulgar.
28
Para a construção de um dilema, obedecem-se os seguintes passos: 1º a disjunção deve ser completa
para que o adversário não acrescente terceiro ou quarto caminho; 2º a refeutação de cada uma das
hipóteses deve ser válida para que o adversário não negue a consequência: 3º as partes do dilema devem
ser tais que não possam voltar-se contra o arguente, isto é, o dilema não deve ser retorquível.
Elaborado por Olívio Santana Página 30
12ª Classe Filosofia
Exemplo: a sentinela, que deixou passar o inimigo, ou estava ou não estava no
seu posto.
Se estava, faltou ao seu dever; logo merece castigo.
Se não estava, abndonou o seu posto e faltou ao seu dever; logo merece castigo.
1.2.18. Regras e figuras de silogismo.
As regras do silogismo são em número de oito, referindo-se quatro aos termos
e as restantes às proposições.
A – regras dos termos
O silogismo tem três termos: maior, médio e menor. Esta regra justifica-se pela
própria definição de silogismo que se compõe de três termos, comparados dois a
dois; e isso mesmo está indicado no princípio da compreensão. Peca-se contra
esta regra, quando se emprega um termo equívoco, ou quando existem dois ou
quatro termos.
Exemplo: As rosas são plantas.
Há mulheres angolanas que são Rosas.
_________________________________
Não podemos concluir: Há mulheres angolanas que são plantas.
Nenhum termo deve ser mais extenso na conclusão do que nas premissas. Se
na conclusão fosse considerado como universal um termo que nas premissas
fosse particular, isso infringiria o princípio da extensão, pois do que dissemos se
infere que a conclusão é tirada das premissas.
Exemplo: Os angolanos são homens.
Os congoleses não são angolanos.
___________________________
Não podemos concluir: os congoleses não são homens.
O termo médio deve ser tomado pelo menos uma vez em toda a sua extensão,
isto é, universalmente29. Se o termo médio fosse particular nas duas premissas,
nada nos garantia que a parte considerada na primeira premissa fosse a mesma
que tomávamos na segunda e isto daria origem à existência de quatro termos no
silogismo, o que seria contrário à primeira regra e, portanto, ao princípio da
compreensão.
29
Tomar um termo universalmente é o mesmo que dizer que ele é distribuído e tomar um termo
particulamente é idêntico a dizer que ele é indistribuído
Elaborado por Olívio Santana Página 31
12ª Classe Filosofia
Exemplo: As angolanas são negras.
As congolesas são negras.
________________________
Não pode concluir-se: As congolesas são angolanas.
A conclusão nunca deve conter o termo médio. Se, como já dissemos, o termo
médio serve para ligar os extremos, e, se na conclusão desejamos obter a relação
entre os termos maior e menor, é claro que o termo médio não pode aí entrar,
pois só assim cumprirá a sua função do elo entre os extremos. Também esta
regra se justifica pelo princípio da compreensão.
Exemplo: A Luzia é estudiosa
A Luzia é feliz.
________________________
Não pode concluir-se: a Luzia é uma feliz estudiosa.
B – Regras das proposições.
Se as duas premissas são negativas, nada se pode concluir. Com efeito, pelo
facto de não existir relação entre o termo maior e o médio, nem entre o termo
menor e o médio, não se pode concluir se existe ou não relação entre o maior e o
menor, pois o princípio da compreensão não o autoriza. Duas ideias diferentes
de uma terceiraa podem convir ou não entre si, o que nós desconhecemos.
Exemplo: nenhum whisky é cerveja.
A cerveja não é sumo.
Logo:________________________
Duas premissas afirmativas não podem produzir uma conclusão negativa.
Dois termos idênticos entre si, são iguais a um terceiro.
Exemplo: Todo peixe é aquático.
O tubarão é peixe.
_____________________
Não se pode concluir que: o tubarão não é aquático.
A conclusão segue a parte mais fraca. Chama-se mais fraca a premissa
particular ou negativa. Esta regra se reduz a 4ª. Os termos não podem ter maior
extensão na coclusão do que nas premissas. Ora, se uma das premissas for
Elaborado por Olívio Santana Página 32
12ª Classe Filosofia
negativa ou particular a conclusão tem de ser necessariamente particular ou
negativa.
Exemplo: todos os diamantes são minerais.
Alguns diamantes são preciosos
Logo, alguns minerais são preciosos.
Nada se conclui de duas premissas particulares. Se dizemos: alguns A são B.
Alguns B são C, não podemos saber se os alguns B da segunda premissa são
precisamente os B da primeira, o que levaria a existir, então, quatro termos em
vez de três, o que infringiria a primeira regra.
Exemplo: Há muitos animais que respiram por traqueias.
Muitos invertebrados não respiram por traqueias.
____________________________________________
Não podemos concluir: Muitos invertebrados não são animais.
Figuras do silogismo30 – são aspectos que ele toma consoante a função
exercida pelo termo médio nas premissas, quer como sujeito, quer como predicado.
Como o termo médio pode exercer a função de sujeito ou predicado em ambas as
premissas ou sujeito de uma e predicado da outra, são quatro os aspectos possíveis.
Essas quatro figuras ou esquemas são as seguintes:
Iª figura – o termo médio é sujeito da primeira premissa ou premissa maior e
predicado da segunda ou premissa menor.
Exemplo:
Todo o homem é mortal.
Vieira é homem.
Vieira é mortal
IIª figura – o termo médio é predicado nas duas premissas.
Exemplo:
Todo o homem é racional.
O mocho não é racional.
_____________________
30
Sintetizando o exposto acima, fica: considerando sub como abreviatura de subjectum “sujeito” e prae
como abreviatura de praedicatum “predicado”, podemos estabelecer a mnemónica seguinte, derivada da
posição do termo médio:
Iª figura (sub, prae); IIª figura (prae, prae); IIIª figura (sub, sub) e IVª figura (prae, sub).
Elaborado por Olívio Santana Página 33
12ª Classe Filosofia
O mocho não é homem.
IIIª figura – o termo médio é sujeito nas duas premissas.
Exemplo:
Os angolanos são africanos.
Os angolanos são homens.
_______________________
Alguns homens são africanos.
IVª figura – nesta figura, o termo médio é predicado na primeira premissa e
sujeito na segunda.
Exemplo: Os angolanos são africanos.
Os africanos são mortais.
_____________________
Alguns mortais são angolanos.
Elaborado por Olívio Santana Página 34
12ª Classe Filosofia
IIº - FILOSOFIA AFRICANA
Importância do estudo da filosofia Africana
Uma das fontes de maior criatividade do final do século foi a filosofia africana,
que se expressou principalmente em três vertentes:
o Sobre a possibilidade e sentido dessa filosofia;
o Sobre os aportes das cosmovisões ancestrais africanas ou etnofilosofia;
o Sobre a sistematização do pensamento africano letrado.
As discussões filosóficas estão ligadas, na primeira vertente, àquelas sobre a
possibilidade das ciências económico-sociais para a região; na segunda, às discussões da
teologia e da ciência da religião e, na terceira, a múltiplos autores e escolas do
pensamento africano que servem de base paara o seu desenvolvimento.
Uma das grandes importâncias da filosofia é a valorização do homem africano,
tendo em conta que este não é consumidor das outras culturas ou princípios ocidentais,
mas sim, um que é chamado a contribuir em primeira pessoa enquanto ser racional. O
homem africano é capaz de sonhar e criar, mudar e orientar.
O comportamento bantu deve ser compreendido como um comportamento
racional, que se apoia sobre um sitema de pensamento corrente.
O negro é simplesmente homem, e que o grande pecado do colonizador foi tê-
lo reduzido à dimensão de criança ou de um semi-homem, de pensar que ele era
inferior, e de tratá-lo como tal. O homem africano até certo ponto – sempre foi
entendido com um ser que faz uso daquilo que é criado por outros, como meio de
concretização de ideias de outros povos.
Com o aparecimento da Filosofia da Libertação o homem africano aparece e
valoriza-se como ser pensante, homem racional e com uma lógica igual a dos outros
povos. O africano tem alma, o africano é racional, o africano é amigo do saber e procura
sempre mais.
A filosofia é uma propriedade só do homem, pelo homem e para o homem,
porque é ela que faz dele um ser especificamente humano, racional, estético, crítico e
eticamente empenhado. Porém, a filosofia africana é o modo específico de existir e de
ser do africano que vive sempre segundo uma filosofia que lhe é própria, favorecendo a
comunhão, a unidade, a diversidade, a intersubjectividade e o carácter social da
existência humana. A filosofia africana forma implicitamente os conceitos metafísicos e
religiosos através da tradição oral, dos provérbios, pela ética e pela moral.
Elaborado por Olívio Santana Página 35
12ª Classe Filosofia
A filosofia africana corresponde ao “leque de ideias, opiniões e produções
críticas e racionais produzidas por africanos e africanistas que contribuíram ou
procuram o progresso humano, cultural, científico, tecnológico, material de África e do
africano com o meio para auto-afirmação do negro-africano no contexto mundial”. Ou
ainda, “a interpretação da realidade que os africanos dão para satisfazer as enormes
exigências daquilo que eles são”; como por exemplo, a necessidade de adquirir os
meios de subsistência e o crescimento numérico, a necessidade de gerar generosidade, a
defesa do território ou da sua expansão, a necessidade para ser corajoso e indómito
guerreiro, e da necessidade de um bom guia.
Existe uma filosofia africana?
Quanto a resposta dessa pergunta não há unanimidade está em afirmar que
existe um modo de pensar próprio africano mas em termos de condições para o arranque
de um penamento filosófico não há unanimidade.
A razão foi sempre considerada como aquilo que separa o homem dos outros
seres, instituindo o “LOGOS” como juiz de todo o discurso, de todo o pensamento e de
toda a conduta. Platão considera a razão como valor supremo sinal metafísico da
presença do divino no homem. Contudo, a razão foi completamente extirpada da África.
O mundo tradicional africano foi considerado mau, primitivo e pré-nacional: ele é o
reino da indigência sob todas as formas. Equivale a ignorância e ao desconhecimento da
verdade.
Importa reafirmar que, o povo africano foi vítima da colonização europeia.
Com viagens apelidadas por “descobrimento”, os europeus conheceram outros povos,
que foram julgados em comparação com os costumes da cultura ocidental. Buscando
denegrir a personalidade do negro africano, os europeus empenharam-se na construção
de teorias que sustentassem seus ideais e, as mesmas foram de âmbito: «teológico,
filosófico e jurídico»31.
No quesito teológico, eles definem o homem negro como descendente de
Cham/Cam32. No âmbito filosófico, encontramos vários depoimentos de índole
31
BORTOLAMI, Gabriel (2010). Apontamentos de Filosofia e cultura africana. Seminário
Arquidiocesano do Sagrado Coração de Jesus de Luanda.
32
Filho de Noé e, este reza a estória, terá visto seu pai nú, portanto, o homem negro apparece como
símbolo de maldição. Neste caso, o negro pertenceria à geração dos condenados de Deus.
Elaborado por Olívio Santana Página 36
12ª Classe Filosofia
pejorativa que buscam pintar o negro da pior forma possível, entre eles ressaltam as
posições de Voltaire, Levy Brhul, Hegel (…) e Jaka Jamba.
Voltaire afima que, “o povo mais elevado é o francês e o mais baixo é o
africano”. Levy-Brhul sustentava que as sociedades inferiores eram guiadas por uma
mentalidade pré-lógica e mística qualitativamente diferente da lógica do homem
europeu civilizado. Os primitivos não atingiram o nível de conceito, portanto, da razão.
As sociedades africanas são citadas como sociedades inferiores. Hegel, por sua vez, faz
da filosofia, monopólio exclusivo do ocidente.
A liberdade, expressão mais elevada do pensamento, supõe que o homem se
libertou da finitude e de naturalidade e aprendeu o infinito e a totalidade. Este facto
expressa-se numa organização política e social orientada e guiada pelo princípio de
liberdade.
A África é o país da infância, diz Hegel, e o negro representa a natureza no
seu estado mais selvagem. Para entender Hegel tem que se abstrair de todaa a
moralidade e de todo o sentimentalismo. O filósofo alemão vai muito mais longe e
afirma mesmo que no carácter do negro, não podemos encontrar nada que nos recorde o
homem.
O angolano Jaka Jamba afirma que, “se realmente quisermos ter uma
filosofia africana será preciso submeter as novas gerações à muita investigação” No
âmbito jurídico, o Rei Luís XIV escreveu o Código Negro “uma espécie de direitos dos
senhores sobre os negros”
De modo oposto, encontram-se aqueles que afirmam existir racionalidade
genuína africana, são eles: Muanamosi Matumona e Kwasi Wiredu. Para Matumona, “a
filosofia africana já não é uma possibilidade mas sim, uma realidade, fruto da reflexão
de tudo o que marca a vida e a mentalidade do homem africano”. Wiredu vai mais
longe sustentando ser “um absurdo questionar a existência da filosofia africana pois,
qualquer grupo de bípedes que seja suficientemente racional, terá algumas concepções
gerais sobre as cousas”
Portanto, a existência de uma filosofia africana depende da existência de
filósofos africanos e estes se não escrevem as suas obras, não poderão fundar uma
verdadeira filosofia. É importante recuperar as migalhas filosóficas dispersas na nossa
tradição oral, conscientes que a verdadeira filosofia há-de iniciar no preciso momento
desta transcrição.
Elaborado por Olívio Santana Página 37
12ª Classe Filosofia
Deste modo, a filosofia africana não será uma visão colectiva do mundo, mas,
como filosofia, ela existirá na condição de confrontação do pensamento individual de
discussão e de debate. Portanto, a filosofia africana, deve ser uma história e em
consequência disso, um processo essencialmente aberto e descontínuo. Isto significa
que tudo deve constituir uma investigação contínua, porque a filosofia é uma
investigação perene, que se faz através de textos os quais nos permitem e servem de
elementos de confrontação e de discussão quer entre os africanos como com o resto do
mundo.
2.1 As principais correntes da filosofia africana
2.1.1 Panafricanismo.
É um movimento que teve início entre o final do século XIX, princípio do
século XX e atingiu seu apogeu particulramente na época das independências africanas.
A unidade africana é, de acordo com a época do início da «cisão», a ideia
central da ideologia política do pan-africanismo. Assim, dizer pan-africanismo (pan
significa todo (a), em grego) é dizer «unidade africana», e é o mesmo, hoje que dizer
«união africana».
Teve como artífice principais Edward Wilmat Byden (1837-1893) e W.E.
Burghardt Du Bois (1868-1963), Marcus Mosiah Garvey e Henry Silvester Williams.
Estes lançam o conceito de “African Personality”33. Edward Byden, é uma personagem
de grande importância para a cultura negra do século XIX, podendo ser considerado
como o pai do pensamento político africano.
O ponto de partida de Blyden, foi a procura de um passado sobre o qual fundar
a própria dignidade humana. Com as suas obras queria uma cultura provar que a raça
negra tinha uma história e uma cultura das quais podia orgulhar-se.
Por outra, ele refuta as teorias a cerca da inferioridade racial do negro, e
sustenta que os negros tunham um papel importante na edificação da civilização
egípcia.
33
A noção de African Personality, segundo George Sheeperson, teria sido utilizada pela vez em 1903 por
Edward Blyden. O termo foi utilizado por ocasião da inauguração da African Church, criado pelo
Nigeriano Majola Agbedi, desejo de dar força a uma Igreja Africana Independente na tradição, assim, o
termo fica lançado. Mais tarde seria utulizado, tal como a noção de Negritude forjada logo em 1930 por
Cesaire em CHAIER d un retour au pays natal. Posteriormente com Nkrumah a African Personality
adquire realmente todo o seu relevo e todo o sentido opolítico.
Elaborado por Olívio Santana Página 38
12ª Classe Filosofia
Mas, o papel da raça negra na história da civilização não se devia procurar
unicamente no passado, pois grande parte de grandeza da Europa e da América
deveriam da exploração da raça negra.
Outro grande artífice é, com certeza, William E. B. D. Bois, diferente de
Blyden, negava que no movimento aderissem mulatos, queria que no movimento
participassem simplesmente os “negros puros”, atingido assim posições racistas de
matiz ocidental. No entanto, havia uma pequena controvérsia entre ambos os
pensadores, mas eles lançaram o conceito de African Personality «personalidade
africana» com o objetivo de: lutar pelos direitos dos Negros e seus descendentes.
Du Bois defendeu o direito à educação para os afro-americanos, tal como
Marcus Garvey, outro defensor do acesso dos afro-americanos à possibilidade de
educarem e terem melhores condições de vida.
Este advogava de forma mais radical que Du Bois, o regresso em massa a
África, dando origem a um movimento que lhe herdou o nome, o «garveyismo».
A tendência do panafricanismo suscita projeto de renascimento, tanto
nacionalista, como integracionista ou assimilacionista, no seio da diáspora. Ele é uma
tomada de consciência por parte dos africanos da sua personalidade, das suas raízes e da
sua identidade.
Escrevia Blyden: “ para cada um de vós, para cada de nós, existe um dever
especial a cumprir, um trabalho terrivel, necessário e importante, um trabalho para a
raça à qual pertencemos. A nossa personalidade e a nossa raça pressupõem a
existência de uma responsabilidade. O dever de cada um, e de cada raça é lutar pela
própria individualidade, para mantê-la e desenvolvê-la. Portanto, orai e amai a vossa
personalidade”34.
Em suma, panafricanismo é o “processo de transformar todos os reinos da
África em um único bloco, onde o respeito e a valorização das características culturais
de cada reino sejam valorizadaos, buscando um melhor desenvolvimento do continente
como um todo” (Mambu, 2015, p. 123).
Apesar do nome, o panafricanismo não nasceu na África, não foi idealizado e
nem dirigido nos primeiros anos por africanos. Este movimento foi idealizado por
negros norte-americcanos e negros antilhanos, com o objetivo de expressar seu apoio a
34
Cfr NGOENHA, Severino Elias. Filosofia das Independências à Liberdade, pp. 67-69.
Elaborado por Olívio Santana Página 39
12ª Classe Filosofia
algumas comunidades africana que estavam sendo vítimas de expropriação de suas
terras.
Contudo, a partir da I guerra mundial, com a ocorrência da divisão dos
territórios africanos entre algumas potências ocidentais, vai se verificar a crescente
dimensão da ideologia pan-africanista, atribuida a líderes africanos, onde o sentido e o
objetivo da organização política dos africanos solicitavam o desenvolvimento deste
ideal.
Numa visão de conjunto, a ideologia panafricanista articula-se em torno dos
seguintes objectivos35:
o África para os africanos;
o Criação dos estados unidos africanos;
o Renascimento dos valores autênticos da cultura africana;
o Restauração da personalidade africana;
o Abandono do tribalismo e construção de um verdadeiro nacionalismo africano;
o Rejeição da exploração do homem e adopção do socialismo económico;
o Fé na democracia;
o Negação da violência como forma de luta;
o Mentalidade positiva frente aos problemas próprios das grandes potências.
2.1.2. Negritude.
A negritude é um movimento cultural que viveu e demonstrou que o problema
essencial da África não era um problema de desenvolvimento tecnológico, de progresso
material, mas sim um problema espiritual, isto é, uma tomada de consciência do próprio
negro Africano. Teve como cultores: Aimé Cesaire; Leopold S. Senghor36.
O mérito principal da negritude não foi o de ter dado aos africanos o orgulho
de si, do seu passado e uma esperança no futuro, mas sim, o de acreditar que a Àfrica é
lugar possível para o africano, isto é, viver a sua africanidade como tal.
35
BORTOLAMI, Gabriel (2010). Apontamentos de Filosofia e cultura africana. Seminário Maior
Arquidiocesano do Sagrado Coração de Jesus de Luanda.
36
Nasceu em 1906 no Senegal desenvolveu, docente e político, tornando-se professor de Línguas e
Civilizações Africanas em Africana em França, na Escola em França, após o exercício parlamentar de
França, vindo a ser Presidente da República do Senegal e morreu em 2002.
Elaborado por Olívio Santana Página 40
12ª Classe Filosofia
Para Aimé Cesaire: “a negritude é simplesmente o reconhecimento do facto de
ser e a aceitação desse facto, de nosso destino de negro de nossa história e de nossa
cultura37”.
Para Senghor38, a negritude consiste na realização do ethos negro africano,
sobretudo, no domínio das artes, mais tarede, dirá que a negritude não é um projeto, mas
é um Estado39.
A palavra negritude surgiu pela primeira vez com o antilhano Aimé Cesairé,
como um grito. Cesairé na sua obra aconselhava os negros das mais distintas partes a
regressarem a África, uma vez que a igualdade e a liberdade dos negros no estrangeiro
era pouco provável ou mesmo impossível.
Com o decorrer do tempo percebeu-se que o regresso evocado por Cesairé, não
era um regresso territorial, mas sim um recúo cultural dentro do estrangeiro.
Na visão de Leopold Sédar Senghor, seu expoente máximo, a negritude é uma
concepção ideológica através da qual se deve exaltar a civilização e os valores da
tradição africana, distintos obviamente, dos de outras culturas “é uma espécie de
renascimento africano”.
O pensamento de Senghor conflui na ideia renascentista do negro, a tese de
uma nova vida para o negro: ensinai o africano que renasce a ser um homem. Dize-lhe
que trouxe uma contribuição maior para a história da humanidade. Isto leva-nos
afirmar que, a maioria dos pensadores cujas ideias jazem na ideologia não pretende
fazer ciência ou filosofia. Antes criam argumentos, discussões, reunindo exemplos e
elementos de carácter social necessária para contrapor a crítica ocidental sobre a ideia
da «não contribuição, não participação da cultura negra na cultura universal».
Logo que a Negritude nasceu foi submetida a duas concepções:
1º Negritude dos fenómenos culturais: a negritude é considerada como um
património cultural, um conjunto de valores e sobretudo um espírito de civilização que
deve ser exaltado face ao mundo.
37
Cfr. NGOENHA, Severino. Filosofia Africana desde as Independências. Pp. 74-75.
38
Apresentando o conceito de Negritude, opora-se a razão do negro à europeia: “a razão negra não é
discursiva, mas sintética. Não é antagónica, mas simpática. Implica uma modalidade distinta do
conhecimento. A razão negra funda-se na participação, é intuitiva. A razão Negra não é a razão discursiva
da Europa, a razão vista mas a razão simpática, que possui mais de logos que de ratio”.(Cfr. ALTUNA,
Raul, Cultura Tradicional Bantu, pp. 74-76.)
39
Ibidem
Elaborado por Olívio Santana Página 41
12ª Classe Filosofia
2º Negritude revolucionária: é um grito de revolta contra a escravatura sofrida
e a colonização. A poesia da Negritude teve como objectivo tirar da mente do negro o
complexo de inferioridade, a vergonhaa da cor, a passividade, a preguiça.
A negritude tornou-se um humanismo humanizado. Aparce enfim como
recuperação pelos poetas negros, de maneira provocadora, da palavra ofensiva «negro»
até que, rejeitada por aqueles que designavam.
Enquanto movimento poético, a Negritude, reclamou a libertação cultural e
política dos povos oprimidos. Lutou contra o racismo e os preconceitos, a arrogância da
raça branca, rejeitou a aculturação, a alienação e a assimilação, mas promoveu a
mestiçagem cultural.
Os maiores impulsionadores desse movimento resumiram o referido entre
conceitos fundamentais:
o Identidade;
o Fidelidade;
o Solidariedade.
No mundo da lusofonia, o movimento foi difundido por vários órgãos, como: A
junta de defesa dos direitos de África, a tribuna de África e a mensagem todos,
formados por africanos e europeus favoráveis à promoção da cultura negro-africana. Foi
neste contexto que, em 1920, nasce em Lisboa, a Liga africana com os seguintes
objectivos:
o Promover, através de todas mudanças políticas, o progresso físico, mental e
económico da raça africana nas colónias portuguesas;
o Conseguir a revogação de todas as leis e regulamentos de excepção contra os
africanos ainda existentes na legislação colonial portuguesa, especialmente non
que respeita ao direito de propriedade;
o Conseguir que se torne realidade o livre acesso de indivíduos de raça africana a
todas as situações sociais e cargos públicos, nas mesmas condições exigidas aos
indivíduos de raça branca.
Contudo, vale apresentar as linhas gerais em que se cingiu o objetivo deste
movimento. Segundo os precursores da negritude, constituem objetivos deste
movimento três aspectos fundamentais, a saber:
Buscar o desafio cultural do mundo negro (identidade cultural negro-africana);
Protestar contra a ordem colonial;
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12ª Classe Filosofia
Lutar pela emancipação dos seus povos oprimidos;
Representação cultural ou negação da assimilação;
Representação do essencial da civilização africana;
O vislumbramento da sua obra a nível literário, artístico e poético.
2.1.3 Etnofilosofia.
A expressão etnofilosofia é de origem grega: o termo ethnos tem sentido de
«raça, tribo, nação ou povo», como já sabemos, philosophia significa «amor ao saber,
ao conhecimento»; a palavra etnofilosofia refere-se ao estudo do saber, do
conhecimento das diferentes raças dos diferentes povos, da sua visão de mundo.
É uma corrente do pensamento que defende que as tradições africanas
espelham a racionalidade do africano podendo estas ser consideradas por filosofia
africana.
O expoente máximo dessa corrente é o Padre Placide Tempels, belga de
nacionalidade, desenvolveu alargados estudos sobre a cultura bantu e publicou diversas
obras das quais a mais conhecida viria a ser, Bantu Philosophy, que durante décadas
serviu de base de sustentação ao argumento da existência de uma filosofia africana em
particular.
Trata-se de um do “grito” de afticanos e africanistas pelo reconhecimento do
negro como homem. Estes produziram obras em defesa do homem negro. Uma das
formas de realizar essa defesa é através da etnofilosofia. Os etnofilósofos defendem que,
toda a filosofia cultural, isto é, ninguém faz filosofia sem se basear em alguma cultura.
Portanto, a missão do filósofo africano é comprender e explicar os princípios
sobre os quais se baseia cada uma das culturas africanas.
A partir de dada altura, a etnofilosofia passou a ser alvo de várias
discordâncias, dado por um lado colidir com ciências autónomas como a etnologia ou
antropologia cultural e por outro como já vimos, não poder ser considerada, ela própria,
nem uma ciência autónoma nem filosofia.
2.1.4 Filosofia da libertação.
A filosofia da libertação é uma corrente de pensamento que visa libertar o
homem de tudo que o oprime e reprime. É o campo da filosofia que analisa que
processos podem tornar um indivíduo oprimido livre. É considerada uma filosofia da
Elaborado por Olívio Santana Página 43
12ª Classe Filosofia
práxis pois, não se preocupa com questões especulativas mas, com processos que
podem levar o indivíduo de estado para o outro.
Nasceu na América do Sul com Enrique Dussel na segunda metade do século
XX. Este movimento é voltado para a filosofia das luzes “o iluminismo”. O pressuposto
básico do iluminismo afirma que “todos os homens são dotados de uma espécie de luz
natural, de uma racionalidade, uma capacidade natural de aprender, capaz de permitir
que conheçam o real e ajam livres e adequadamente para a realização de seus fins”
(Marcondes, 2012, p. 256).
A tarefa da filosofia, da ciência e educação é, permitir que essa luz natural
possa ser posta em prática removendo os obstáculos que a impedem e promovendo o se
dedenvolvimento.
O seu principal objectivo consistiu em repensar os direitos humanos na visão
latino-americana. Sua principal missão consiste em superar o etnocentrismo dos direitos
humanos, permitindo um diálogo entre culturas, superando a ideia eurocêntrica dos
direitos humanos e ampliando a visão de direitos humanos além do ocidente, de forma a
evitar uma limitação da experiência a um único processo. Este movimento libertador
promove a universalidade e universalização dos direitos humanos a partir dos processos
de luta próprios de cada povo e cultura.
Elaborado por Olívio Santana Página 44
12ª Classe Filosofia
IIIº - CONVIVÊNCIA POLÍTICA ENTRE OS HOMENS
[Link]ção de política.
Etimologicamente a palavra política é de origem grega “polis40” que significa
«cidade» ou «estado», ou mais propriamente «sociedade», já que para os Gregos só
eram, polis as cidades-estados (Atenas e Esparta). Política, portanto é tudo o referente à
organização da sociedade em função do homem todo e de todos os homens.
Mas concretamente: a política é o conjunto de princípios, leis, instituições e
ações referentes à organização, vida e administração da sociedade (a nível local,
regional, nacional e internacional), ao bem comum, ao exercício do poder, aos
direitos e deveres dos cidadãos, às relações entre si e com a autoridade (e vice-
versa), de modo que tudo concorra da melhor maneira para o bem do homem41.
O conceito de política, entendido como forma de actividade ou práxis humana,
está estreitamente ligado ao de poder. O poder é tradicionalmente entendido como “o
meio adequado à obtenção de qualquer vantagem" ou como “conjunto dos meios que
permitem alcançar os efeitos desejados" (Russell, apud Geque & Biriate).
Segundo Norberto Bobbio, existem três formas de poder: “poder económico,
ideológico e político” (Bobbio, 2015, p. 245).
O poder económico: assenta na posse de bens, levando aqueles que não os tem a
manter um certo comportamento.
O poder ideológico: baseia se na influência que os detentores do poder exercem
sobre os demais, determinando lhes o comportamento.
O poder político: uma das formas de exercício deste tipo de poder é a força.
A política, enquanto necessidade humana, tem uma finalidade: discernir os fins
sociais considerados prioritários para a sociedade. Portanto, a política nao tem um fim
fixo; ela é condicionada pelas circunstâncias do momento.
40
“Polis significa em grego: cidade-estado, cidade autónoma, cujo quadro insttucional é constituido por
uma ou várias magistraturas, por uma assembleia de cidadãos, relacionados com os regimes oligárquicos
e democráticos” (TEIXEIRA, Evilázio Borges Francisco (2006). A educação do homem segundo Platão,
São Paulo, Ed. Paulus, p. 26ss).
41
VEIGA, Américo Martins (2005). A educação hoje: A realização integral e feliz da pessoa humana.
Vila Nova De Gaia, Perpétuo Socorro, p. 320.
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3.2. Ética e política.
A expressão ética vem do grego, ethos que significa: costume, hábito. Porém,
segundo Tugendhat (1997, p. 35), o termo ética possui duas acepções possíveis; a
primeira é a palavra grega ethos com o “ĕ”que pode ser traduzido por costumes; a
segunda se escreve “ē”, que significa “propriedade de carácter”.
A primeira serviu de base para a tradução latina de moral (mos, ris) = costume;
enquanto a segunda de alguma forma orienta a utilização que damos hoje a palavra
ética.
A ética é a disciplina filosófica que investiga os diversos sistemas morais
elaborados pelos homens, buscando compreender a fundamentação das normas e
proibições próprias a cada concepção sobre o ser humano e a existência humana que o
sustentam.
O problema aqui discutido prende-se com a possibilidade de aliar a ética à
prática política. Os homens estabelecem relações sociais que compreendem a
organização do poder e, a articulação entre o dever e o poder ajuda-nos a compreender a
relação entre o acto moral e a política. E assim podemos perguntar-nos: será que a
política age de acordo com as normas morais?
Em quase todas as sociedades, parece haver uma aceitação de que o politico
pode comportar-se a margem da moral; que o que não é permitido na sociedade em
geral, é, pelo menos, tolerável quando se trata de um político. Norberto Bobbio afirma
que, “o problema das relações entre moral e política faz sentido apenas se
concordarmos em considerar que existe uma moral e se aceitarmos, na generalidade,
alguns preceitos que a caracterizam” (Bobbio, apud Geque & Biriate, 2019).
Convém, no entanto, precisar que, quando se fala de moral em política, nos
referimos a moral social, e não a moral individual, a moral que concerne nas acções de
um indivíduo e que interferem na esfera de actividade de outros individuos, e não
aquela que diz respeito as acções de, por exemplo, aperfeiçoamento da própria
personalidade, independentemente das consequências que a procura desse ideal de
perfeição possa ter nos outros.
A ética tradicional sempre fez distinção entre os deveres para com os outros e os
deveres para consigo mesmo. No debate sobre o problema da moral em política,
Ievantam-se questões exclusivamente relacionadas com os deveres para com os outros.
A política e a moral, prossegue Bobbio,
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Estendem-se pelo mesmo domínio comum, o da acção ou da práxis humana:
pensa, se que diferem entre si em virtude de um princípio ou critério diverso
de justificação e avaliação das respectivas acçõoes e que, por isso, o que e
obrigatório em moral nao se pode dizer que o seja em política, e o que é lícito
em política não se pode dizer que o seja em moral; em suma, pode haver
acções morais apolíticas e acções políticas amorais (Idem, p.60).
Só há duas concepções de ética humana e estão em pólos opostos. Uma delas é
cristã e humana, declara o indivíduo inviolável, e afirma que as regras da aritmética não
se devem aplicar a unidades humanas. A outra parte do princípio basico de que um alvo
colectivo justifica todos os meios e não apenas permite mas exige que o indivíduo, sob
quaisquer condições, se subordine e se sacrifique ao bem da comunidade.
Deste modo, avaliar-se-ia a acção política por medida diversa da acção moral,
sendo que, para o político, prevaleceria o critério da oportunidade. Ao mencionarmos as
relações estabelecidas socialmente pelos homens, não podemos deixar de verificar que
são relações que envolvem a organização do poder na sociedade.
A articulação entre o dever e o poder leva-nos a perceber a relação entre moral e
política. O dever estabelece-se na pólis, numa determinada organização social, em que
se estruturam diversas formas de poder. A actividade política distingue-se, portanto, de
algo que ocorre na esfera do natural.
A possibilidade que tenho de exercer influência sobre algo da Natureza é
fundamentalmente distinta da minha possibilidade de exercer influência sobre alguém,
através de princípios estabelecidos socialmente. O ethos realiza-se na instância da pólis.
É, em função de um determinado bem que os homens vivem em sociedade.
Trata-se, então, de saber que bem é esse, em função do qual os homens se
decidem a constituir uma comunidade política. E aqui se delineia um outro horizonte de
investigação, que vai no sentido de definir esse bem. É praticamente impossível separar
o problema da constituição da comunidade política da determinação de certos fins éticos
que se caracterizam pela busca dos ideais de justiça, de felicidade, etc., sempre
considerados como um bem ao qual todos aspiram.
Assim, mesmo as pessoas adultas e autónomas estão sujeita as leis dos políticos,
as sentenças dos juízes e a autoridade das forças policiais. Quer queiram, quer não, as
pessoas são obrigadas a obedecer e, caso não o façam, podem ser julgadas e castigadas.
Deste modo, mesmo que sejamos adultos, a nossa vida é largamente condicionada e
controlada por decisões de pessoas que muitas vezes nem sequer conhecemos.
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3.3. O cidadão e a política.
Para muitas pessoas, quando se fala de política, as ideias que lhes surge
imediatamente são as do estado, do governo, de personalidades nos postos de comando
ou de decisão, de eleições, partidos, discursos, comícios ou de confrontações, intrigas e
negociações entre partidos ou entre indivíduos para a conquista do poder.
Daí o cepticismo, a desconfiança, o desinteresse e o desdém com que muitos
cidadãos actualmente encaram a política, que consideram uma actividade na qual se
envolvem aqueles que querem fazer subir seu estatuto social ou simplesmente ganhar
dividendos e influências. Outros ainda crêem que a política é um mundo extremamente
complicado, opaco, reservado a um pequeno número de iniciados, a uma elite de
técnicos e de doutores.
Diante deste dilema, convém explicitar certos aspectos ligados ao tema em
abordagem, como: o estado, suas funções e os elementos que o caracterizam, tipologias
de governo.
Segundo Aristóteles, o Estado é,
Um aparelho orgânico que exerce certo número de funções soberanas (defesa
nacional, polícia, justiça, moeda, impostos, estradas e comunicações) bem
como importantes tarefas económicas e sociais (desenvolvimento económico,
justiça social), mas que deixa um largo campo à actividade privada de cada
um, não interferindo o menos possível – nos aspectos da vida afetiva
(casamento) moral (aperfeiçoamento de cada um, virtude) ou religiosa
(AMARAL, 1998, p. 126ss).
Tipologia de governo segundo Aristóteles
Formas lícitas Formas corrompidas
Monarquia Tirania
Aristocracia Oligarquia
Democracia Demagogia
As funções do Estado podem ser analisadas a partir de duas perspectivas
fundamentais: funções jurídicas e funções não jurídicas. Por sua vez, esta classificação
subdivide-se em duas áreas, respectivamente: “criação do direito e função executiva;
função política e função técnica”.
De um modo geral, constituem funções de um Estado soberano os seguintes
aspectos:
A defesa e segurança do território;
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Garantir a justiça entre os cidadãos;
Garantir o bem-estar social.
O estado democrático deve ser caracterizado por três elementos considerados
essenciais, a saber42:
A população;
O território;
Organização política.
Vale referir que, a política foi sempre importante, porque importantes foram
sempre os problemas do homem e da sociedade. Mas nunca, como hoje, assumiu tanta
seriedade devida laços que ligam aos outros homens, da interdependência dos povos, da
luta entre projectos de sociedade diferentes e mesmo diametralmente opostas.
Na política é o estilo de sociedade que está em jogo. E, nele, o estilo de homem
e a maior ou menor possibilidade de este se realizar em plenitude em todo o vasto leque
das suas dimensões humanas43.
3.4. Política e globalização.
Falar de Política é obviamente falar da organização das sociedades,
organização que, ao longo dos tempos, tomou diferentes formas; estas formas foram
sendo alteradas conforme a ideologia44 política num determinado tempo e lugar e as
circunstâncias das pessoas vivendo nesse respectivo tempo e lugar. Podemos inclusive
partir do exemplo das sociedades tradicionais africanas, para analisar alguns aspectos
relacionados com a rápida transformação das sociedades contemporâneas e com o
conceito de globalização.
42
TEIXEIRA, Eviazio Borges Francisco. A educação do homem segundo Platão. São Paulo. Ed. Paulus,
2006, p. 38.
43
VEIGA, Américo Martins. A educação hoje. Vila Nova de Gaia. Edições Perpétuo Socorro, 2005, p.
319.
44
Conceito de ideologia origina-se da obra do pensador iluminista francês Antoine Destutt de Tracy,
autor do tratado Les élements de l´idéologie (1754-1836) e que pertenceu a um grupo de pensadores que
incluía o filósofo Dégerando, o médico Cabanis e o matemático Condorcet, que passaram a ser
conhecidos nesse período como “ideólogos”.
“Em sentido negativo do termo “ideologia” deriva de fato da obra de Max e Engels, que o entendem
como “falsa consciência”, em sua crítica aos hegelianos de esquerda sobretudo Feuerbach e sua análise da
religião. Segundo Marx e Engels, a interpretação de Feuerbach acaba por ser ideológica e não
verdadeiramente crítica, porque não chega às verdadeiras causas do fenómeno religioso”
(MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da Filosofia: Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein, Rio de
Janeiro, Zahar editora, p. 235).
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Este conceito surgiu ainda na década de 1980, substuindo outros conceitos
como internacionalização. Com ele se tenta classificar o fenómeno natural da evolução
das sociedades que passou, desde o início da Humanidade, por várias etapas: aldeias,
tribos, cidades, cidades-estados, países, continentes e, actualmente, uma grande «aldeia
global».
Tal fenómeno traz desafios para o ser humano, numa época em que a própria
existência da vida sobre o planeta parece ameaçada, dados os graves problemas
ambientais e de sustentabilidade causados pela gestão que a nossa espécie tem feito dos
recursos naturais. Os seres humanos são actualmente convocados a pensar em conjunto
no seu futuro.
De uma forma muito simplificada, podemos dizer que a globalização
corresponde ao fenómeno de repercussão à escala do planeta dos grandes eixos da
actividade humana: o eixo económico, social e político, o eixo científico-tecnológico, e
o eixo da cultura da cultura.
Convém sublinhar que, a globalização não é um fenómeno novo. A primeira
globalização corresponde à própria criação da humanidade. A grande diversidade
humana não nos deve fazer esquecer a nossa origem comum. Somos todos, brancos,
negros, vermelhos, amarelos e todas as combinações possíveis de cor de pele, oriundos
de um grupo humano que surgiu em África e que, rapidamente, se expandiu por todo o
planeta, na verdadeira globalização da espécie, ao ponto de praticamente já não haver
recanto desabitado ou, pelo menos, onde o homem não tenha estado45.
Em épocas anteriores era possível organizar sociedades de menor dimensão em
moldes diferentes em função da realidade que se vivia, com o passar do tempo e com a
evolução nos vários domínios da vida essas diferentes formas de conceber as sociedades
foram perdendo sua razão de existir, dando lugar a novos padrões sociais.
Actualmente, quase todas as sociedades têm nas suas estruturas de
funcionamento político um ou vários partidos políticos.
45
PATRICIO, Manuel. SEBASTIÃO, Luís Miguel. Conhecimento do mundo social e da vida: Passos
para uma pedagogia da sageza. Lisboa, Universidade Aberta, 2004, p. 53.
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3.5. Democracia e cidadania.
Se até hoje temos nos contentado com a democracia representativa, não há
como deixar de sonhar com mecanismos típicos da democracia direta que possibilitem a
presença mais constante do povo nas decisões de interesse coletivo.
A palavra democracia vem do grego (demos: povo) e Kratia de Krátos
(governo, poder, autoridade). Historicamente, consideram-se os atenienses como o
primeiro povo a elaborar o ideal democrático, dando ao cidadão a capacidade de decidir
os destinos da polis (cidade-estado).
A cidadania se aprende no exercício mesmo da cidadania. Embora a escola seja
aliada importante, não é nela fundamentalmente que se dá a aprendizagem, pois há risco
da ideologia e do discurso vazio, quando o ensino não é acompanhado de fato pela
ampliação dos espaços de actuação política do cidadão na sociedade.
A participação popular se intensifica com as já referidas organizações saídas da
sociedade civil. Essas organizações ao colocarem seus representantes com o poder
constituido tornam-se verdadeiras escolas de cidadania.
O importante do processo é que, ao lado dos outros poderes, como o poder
oficial do município, do estado e poder das elites económicas, desenvolve-se, o poder
alternativo.
Ou seja, o esforço colectivo na defesa de interesses comuns transforma a
população amorfa, inexpressiva e despolitizada em comunidade verdadeira.
Na luta contra a tirania e o poder arbitrário, nem as regras da moral, nem
apenas as leis impedirão o abuso do poder. Na verdade, como já dizia Montesquieu, só
o poder controla o poder.
Segundo Marilena Chauí, as três características da democracia são as ideias de
conflito, abertura e rotatividade46.
O conflito: se a democracia supõe o pensamento divergente; i.é, os múltiplos
discursos, ela tem de admitir uma heterogeneidade essencial. Então o conflito é
inevitável. A palavra conflito sempre teve sentido pejorativo, de algo que devesse ser
evitado a qualquer custo. Ao contrário, divergir é inerente a uma sociedade pluralista. O
que a sociedade democrática deve fazer com o conflito é trabalhá-lo de modo que, a
46
ARIANA, CAMILA, LISIANE, MATEUS. Actividade de introdução à Filosofia e Filosofia Política.
Rio Grande do Sul. Universidade Santa Maria, 2009, p. 22.
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partir da discussão, do confronto, os próprios homens encontrem a possibilidade de
superá-lo.
A abertura: significa que na democracia a informação circula livremente, e a
cultura não é privilégio de poucos.
A rotatividade: significa tornar o poder na democracia realmente o lugar vazio
por excelência, sem o privilégio de um grupo ou classe. É permitir que todos os setores
da sociedade possam ser legitimamente representados.
Vale referir que, a autêntica democracia é aquela que, embora imperfeita,
procura superar as suas deficiências através de, pelo menos, três princípios:
O princípio de eficácia
O princípio da participação
Princípio do multi-partidarismo
Existem alguns princípios inalienáveis que os cidadãos devem conhecer, para
melhor participarem no exercício democrático com consciência plena. Eis alguns deles:
A educação cívica e moral dos cidadãos: consiste numa consciencialização
dos cidadãos sobre os seus direitos e obrigações, tanto no plano social quanto pessoal.
Participação política dos cidadãos: a questão política é dirigida a todos os
cidadãos que de consciência plena dão tudo o que melhor possuem para um
desempenho eficaz dos governantes.
Direito à liberdade: liberdade em termos humanos significa direito de cada
cidadão manisfestar as suas ideias, o seu pensamento em público; quando estas ideias
dizem respeito ao grupo em que está inserido, devem ser analisadas em conjunto,
prevalecendo o consenso da maioria.
Direitos cívicos: são os que decorrem da vida em comunidade, em interação
com os outros. Estes direitos contam-se:
Direito da liberdade de pensamento e de consciência;
Direito à privacidade e à autonomia pessoal;
Direito à liberdade de expressão e de associação;
Direito à liberdade de circulação e de residência.
Direitos políticos: resultam de um acordo entre os cidadãos e o Estado.
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Ditadura
Ditadura47: é uma palavra de origem latina derivada de dictare, “ditar ordens”.
Comparando com suas origens históricas, o conceito de ditadura conservou apenas esse
caráter de poder excepcional, concentrado nas mãos do governante. Atualmente, um
Estado costuma ser considerado ditatorial quando apresenta as seguintes características:
Eliminação da participação popular nas decisões políticas: o povo não tem
nenhuma participação no processo de escolha dos ocupantes do poder político. Não
existem eleições periódicas e se proíbem as manifestações públicas de caráter político;
Concentração do poder político: o poder político fica centralizado nas mãos
de um único governante (ditadura pessoal) ou de um órgão colegiado de governo
(ditadura colegiada). Geralmente, o ditador é membro do poder executivo. O poder
legislativo e o poder judiciário são aniquilados ou bastante enfraquecidos.
Inexistência do Estado de direito: o poder ditatorial é exercido sem limitação
jurídica. As leis só valem para a sociedade. O ditador está acima das leis. E, nessa
condição, costuma desrespeitar todos os direitos fundamentais do cidadão,
principalmente o direito de livre expressão e a liberdade de associação política.
Além das caraterísticas anteriores, as ditaduras se sustentam mediante dois
fatores essenciais:
Fortalecimento dos órgãos de repressão: as ditaduras montam um forte
mecanismo de repressão policial destinado a perseguir brutalmente todos os cidadãos
considerados adversários do regime.
Controle dos meios de comunicação de massa: as ditaduras procuram
controlar todos os meios de comunicação de massa, como programas de rádio e de
televisão, etc. Monta-se um departamento autoritário de censura oficial destinado a
proibir tudo aquilo que é considerado contra o governo. Somente são aprovadas as
mensagens públicas julgadas favoráveis ao governo ditatorial.
[Link]. Campos do exercício democrático.
Ao abordarmos os campos do exercício democrático, importa complementar o
que já foi supracitado sobre as ações democráticas em que participam os cidadãos, com
os seus direitos e deveres.
47
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e grandes temas. São Paulo, Saraiva, 2006,
pp.270-271.
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No entender de Pasquino,
Participação política é o conjunto de actos e de atitudes que aspiram a influenciar
de forma mais ou menos directa e mais ou rnenos legal as decisões dos
detentores do poder no sistema político ou em organizações políticas
particulares, bem como a Própria escolha daqueles, com o propósito de manter
ou modificar a estrutura e, consequentemente, os valores do sistema de intercsses
dominante (Pasquino, apud Geque & Biriate, 2019, p. 64).
Se o problema político diz respeito a toda a sociedade, o cidadão que compõe a
sociedade temde participar nela como algo que lhe diz respeito. A vida social é
condicionada sobremaneira pela política.
O direito de estudar, por exemplo, está politicamente autorizado e legalmente
fundamentado na Constituição da República, tal como sustenta o artigo 79º, no nº 1 e 2:
“O Estado promove o acesso de todos à alfabetização, ao ensino, à cultura e ao
desporto, estimulando a participação dos diversos agentes particulares na sua
efectivação, nos termos da lei. O Estado promove a ciência e a investigação científica e
tecnológica” (C.R.A, 2010, p.28).
Outra forma de participação política é a formação e participação cívica através
de partidos políticos48. O partido político consiste num agrupamento de individuos
unidos por ideias e actividades comuns, com vista a consecução de certos fins políticos
ou e eleição de funcionários para o Estado, quer se trate de órgaos para o Governo
central ou para as autarquias locais.
A política existe porque há diferenças entre os seres humanos e entre os grupos
de seres humanos e, porque também há relações que transformam diferenças em
separações. Estas relações são relações de poder as quais impõem cisões entre
indivíduos: ricos e pobres, sábios e ignorantes, fortes e fracos. Estas separações
implicam conflitos e a existência destes postula a política como instrumento de
remissão do conflito, ou seja, há politica onde há conflitos sociais e, como é do
conhecimento geral, não há sociedades tem conflitos.
Ora, se a nossa forma de agir é regulada por leis e estas são operacionalizadas
por outros órgaos, é nossa obrigação estabelecer uma relação constante com tais órgãos
do Estado, participando nos eventos de interesse do Estado e contribuindo com ideias
do que se refere as decisões a serem tomadas para o bom funcionamento do Estado; por
48
O partido político consiste num agrupamento de individuos unidos por ideias e actividades comuns,
com vista a consecução de certos fins politicos ou e eleição de funcionários para o Estado, quer se trate de
órgaos para o Governo central ou para as attarquias locais.
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exemplo, participando nos debates públicos, exercendo o direito de voto, dando a nossa
opinião sobre algum problema que perturba a sociedade, tal como sustenta oo artigo
54º, no nº 1: “Todo o cidadão, maior de dezoito anos, tem o direito de votar e ser eleito
para qualquer órgão electivo do Estado e do poder local e de desempenhar os seus
cargos ou mandatos, nos termos da Constituição e da lei” (Idem, p.20).
Aliás, Jurgen Habermas afirma que, “o espaço público é o lugar onde os
cidadãos discutem ideias, para o bom funcionamento da sua sociedade” (Habermas,
apud Geque & Biriate, 2019, p. 64). Através da participação dos cidadãos na vida
pública, novas e vastas perspectivas abrem-se para uma democracia verdadeira e
duradoira. A democracia permite uma forma de organização social contrária ao
monopólio do poder, seja por razões de castas, económicas, religiosas, de raça, etc.
Em regimes democráticos, os partidos políticos sobem ao poder através de
eleições49. Na eleição, o povo escolhe o programa do partido que acha que resolverá
melhor os problemas do seu grupo social. O partido eleito adquire o poder de
implementaro seu programa de governo, legitimado pelo voto do povo
Em democracia, o poder e partilhado em vários campos, na medida em que
todos os sujeitos podem ascender a ele, e é exercido por delegação. Convém apresentar
em linhas gerais os pressupostos basilares sobre as eleições. Participam do mesmo
processo50:
Todo o cidadão que tem a nacionalidade do país onde se fazem as eleições;
Ter a idade mínima estabelecida pela lei do país;
Estar recenseado, para os cadernos ou listas eleitorais.
Estar na posse dos seus direitos políticos.
Elas constituem um ato muito importante porque através delas os cidadãos
propõem e colocam as exigências de vida democrática, reformas ou aceitação do
sistema político. O cidadão tem oportunidade de escolher os candiddatos e programas
de governo, como também os pode rejeitar quando não favorecem o bem comum.
As eleições são ocasiões para mudanças profundas ou parciais da comunidade
nacional.
Existem 3 tipos de eleições nas sociedades democráticas e multi-patidárias. Em
sociedades democráticas costumam existir eleições para os órgãos administrativos
49
Eleição é a escolha, por meio de sufrágios ou votos, de pessoas para ocupar um cargo ou desempenhar
certas funções.
50
SCARPA, Luís Pedro (1991). O cristão e a Política. Luanda, Oficinas Gráficas, São José, p. 26 ss.
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locais (município e comuna, por exemplo), órgãos de administração regional (por
exemplo província) e órgãos de administração nacional. As eleições a nível nacional
podem ser:
Eleições constituintes
Eleições legislativas
Eleições presidenciais
Quem vota deve continuar a acompanhar a atividade dos dirigentes eleitos.
Quer isto dizer que, o voto não esgota a responsabilidade de participar, os eleitores
devem estar sempre atentos quanto ao cumprimento das promessas feitas durante uma
campanha eleitoral.
Qualquer eleição com a participação de pessoas que não usufruem direito de
voto pode ser considerada nula. Do mesmo modo, pode dizer-se nula se a liberdade de
voto, como valor importante dos eleitores, for violada.
O voto deve ser livre para os cidadãos que atingiram a maioridade, isto é, sem
coação; deve portanto ser absoluto e secreto. Contudo, para a sua realização obedece-se
algumas regras, a saber:
Marcação do dia das eleições pelo Presidente da República de acordo com a
lei eleitoral;
Liberdade de propaganda, respeitando as normas cívicas, mora e jurídicas;
Igualdade de tratamento e oportunidades dos distintos candidatos, com
direito a tempo de antena regular e equitativo nos meios de comunicação
social;
Fiscalização das eleições, inclusive das contas eleitorais por parte dos
tribunais.
Contudo, vale referir que, a política é feita por todos os cidadãos; mas temos de
distinguir entre «fazer a política» e «participar na política». Este «fazer política»
compete exclusivamente a grupos de pessoas especializadas, cujo papel é exercer
funções políticas, segundo um conjunto de regras; ao passo que «participar na
política» é extensivo a todos os cidadãos, também segundo um determinado conjunto
de regras.
[Link] e cultura: os riscos da democracia.
Há sempre certa inquietação, quando se abordam alguns conceitos, que
parecem surgir sempre aos nossos olhos com alguma ambiguidade. Tal advém do facto
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de, em geral, sermos ensinados a ver as coisas que fazem parte da nossa vida
separadamente.
No campo da filosofia, a cultura é definida como um conjunto de
manifestações humanas que divergem da natureza (comportamento natural). Dentro do
contexto da filosofia, a cultura é um conjunto de características de uma sociedade que a
distinguem de outra: desde os padrões comportamentais, as crenças, os valores morais e
materiais, as diversas actividades no campo das artes, da literatura, da música, a todo
um acervo de conhecimento técnico ou científico.
A cultura tem sido categorizada em vários tipos de manifestações, tal como
foram estruturadas em termos sociais e antrpológicos: a cultura erudita (produzidas
por sectores de uma sociedade ligados a instituições acadêmicas) e popular (produzidas
por sectores da população não ligados a instituições acadêmicas), cultura material
(objetos de arte, o vestuário, tradicional ou contemporâneo) e não material (ideias,
crenças e valores), entre outros.
Todos estes valores materiais ou não materiais, são parcialmente transmitidos
colectivamente de uma geração para outra.
Portanto, se entendermos a cultura como um conjunto de valores, a
democracia não deixa de ser mais um valor criado pelo ser humano, cabendo
naturalmente aos cidadãos valorizarem a sua ligação à sociedade. Dizer ainda que,
anteriormente se descreveu a democracia como um regime que garante a estabilidade
dos cidadãos, desde que bem aplicada, segundo os seus próprios principios.
A vida política compartilhada numa nação na via da democracia pode englobar
uma grande variedade de significados. Quando ensinámos hábitos democráticos a
crianças, a jovens e até mesmo a adultos estamos a criar um compromisso
compartilhado com certas formas sociais, cuja soma poderá dar o nome de cultura
política.
A prova de que o ser humano não vive apenas em função do instinto, como
acontece nas outras espécies animais, de que não vive predestinado a uma determinada
forma de vida é a diversidade cultural, há prova de que existem diversas possíveis
formas de viver em cada época.
Foi através das diversas culturais e, das diversas formas de ligação entre
cultura e política, que o Homem foi evoluindo, foi aprendendo a viver. Tomada neste
sentido amplo, a cultura não é uma herança genética, resulta da transmissão social, ela
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abarca a totalidade da experiência humana acumulada e socialmente transmitida no
espaço e no tempo às gerações, em sociedades cujas formas de organização política e de
participação dos cidadãos na política têm também evoluído.
3.5.3. Violência e política: tipologia de democracia.
A violência, como agressão ou como manifestação activa de um conflito por
ideias ou interesses contrários, é a forma de violência analisada há mais tempo, sendo
desde há séculos alvo de estudo por parte de filósofos e pensadores. Já na antiguidade,
Heródoto, historiador grego, considerava alguns modelos políticos mais propensos à
violência do que outros, escrevendo que a monarquia, por exemplo, predispunha à
inveja, conduzindo à queda dos soberanos através de meios violentos.
Os gregos distinguiam claramente um modelo violento de um modelo não
violento de sociedade e de mudança de regime, modelos tipificados nas figuras do
tirano e do legislador. Alguns outros pensadores foram, ao longo do tempo,
considerando que a violência se encontra associada à fundação de um Estado, visto que
o mesmo num mesmo modelo democrático, o Estado concentra em si a possibilidade de
exercer violência, ou seja, de fazer a guerra.
A democracia, porém, foi sendo considerada o modelo mais afastado da
violência, já que nele se encontram mecanismos para uma convivência pacífica entre
cidadãos, que incluem uma frequente alteração das leis e estruturas, de modo a
acompanhar as necessidades da sociedade que rege.
A violência social distingue-se da violência política, propriamente dita, em
diversos aspectos. A violência política pode traduzir-se em formas como a
propaganda, ou seja, a manipulação da informação divulgada a uma população, em
determinadas circunstâncias, até formas de formas de agressão muito violentas, como
tortura, o terrorismo e a guerra.
O terrorismo é uma forma de violência que pode ser considerada
simultaneamente física e política, infelizmente muito presente na época actual.
A designação «terrorismo» teve origem num período histórico, no decorrer da
Revolução Francessa, no qual se verificou um estado de «guerra total», levando ao
pânico da população. Consiste em usar várias formas de violência numa situação que
não é de guerra aberta, de modo a causar o pânico, visto que os atentados terroristas são
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imprevistos, nunca se sabendo onde poderão ocorrer sendo principais vítimas as
populações civis.
A última forma, a guerra, pode ter consequências a um nível desmensurado,
como aconteceu com a Iª e IIª Guerras Mundiais, que causaram a morte, o sofrimento e
as sequelas que ainda hoje se sentem, em populações inteiras de muitos países.
Tipologia da violência51
Além da violência física vulgarmente conhecida, existem outras formas de
violência, mais ou menos directas. A violência física caracteriza-se por formas de
agressão física, com maior ou menor grau de danos materiais ou fisiológicos causados,
podendo ir da agressão individual a um conflito armado entre dois países.
A violência psicológica, por seu lado, consiste em formas de comportamento
menos evidentes, com danos que podem ser também menos evidentes, mais igualmente
letais para os seres humanos que dela são alvo.
Além destes dois tipos existem ainda outras variantes: violência individual,
colectiva, espontânea, organizada, institucional, estrutural, de género, étnica,
juvenil, cultural ou religiosa.
Violência individual: é associada às ações de um indivíduo contra outro. A
violência colectiva se apresenta como atos de um grupo. Esta pode ser subdivida em
violência colectiva espontânea, a que surge num daddo momento não tendo sido
premeditada, e violência organizada, indicando algo planeado, adaptado previamente a
um determinado assunto ou situação.
Institucional: quando provém de uma ou várias instituições, podendo estar
associadas a situações de guerra ou não, ou estrutural: quando não existe
concretamente uma entidade na sua origem.
De género: exercida sobre mulheres. Violência étnica: actos violentos
exercidos sobre pessoas de uma etnia por pessoas de outra etnia. Violência juvenil:
associada a grupos de jovens que procuram afirmar-se através de actos agressivos,
derivando muitas vezes para a delinquência.
Uma outra forma de violência e a cultural ou religiosa, presente em ações de
imposição de uma cultura ou de uma religião sobre outra (o colonianismo, que consistia
51
LAU, Rafael Lando e KAPARAKATE, Pacheco. Filosofia 12ª classe. Luanda, Texto editores, 2006, p.
124.
Elaborado por Olívio Santana Página 59
12ª Classe Filosofia
precisamente na sublevação da cultura europeia e consequentemente no menosprezo da
cultura africana).
3.6. Sobre a concórdia: significado e dimensões da paz em Angola.
Como já vimos, a paz é uma palavra pequena, mas das mais presentes em todo o
mundo, hoje, tal como em muitos outros países, um longo caminho foi percorrido, até
chegarmos ao presente momento. Foi um caminho da conquista da paz e para a paz.
Obviamente, falar da paz em Angola leva-nos a rever a história dos conflitos
que aconteceram ao longo dos anos, onde muitos compatriotas perderam as suas vidas
derramando tanto sangue em prol da conquista da paz.
Portanto, a paz em Angola trouxe um novo sentido, e um sentido muito
positivo à vida de muitas pessoas:
Através do restabelecimento da paz, pudemos conhecer e viver momentos
históricos regidos pala bondade de muitos cidadãos, aqueles que sacrificaram as
suas vidas, em conquista da liberdade e da justiça social e económica do país,
também defendendo os valores básicos da sua cultura tradicional;
A causa da paz levou ao envolvimento de todos os angolanos, incluindo temas
como a violação dos direitos humanos;
A convicção de que a paz deve ultrapassar os limites da restrita justiça, de modo
a continuar a ser consolidada e construída através de ações concretas de todos os
cidadãos;
A promoção de valores como a tolerância, a fraternidade, o respeito mútuo entre
partidos das diferentes ideologias e o amor à Pátria52.
3.7. A construção da paz em Angola.
Foi no final do periodo colonial a partir de meados da década de 70 do século
XX, que começaram a decorrer algumas iniciativas para repor a paz em Angola, com o
acordo de Alvor, assinado 15 de Janeiro de 1975. A essa data, por causa de alguma
instabilidade e divergências existentes entre os três Movimentos de libertação (MPLA,
UNITA e FNLA), não foi possível estabelecer a independência do país de forma
unânime, embora tivesse sido declarada a 11 de Novembro de 1975.
52
LAU, Rafael Lando. KAPARAKATE, Pacheco. Filosofia, Luanda, Texto editores, 2006, p. 127.
Elaborado por Olívio Santana Página 60
12ª Classe Filosofia
A partir dessa contradição entre os Movimentos de libertação no referido Acordo
de Alvor, Angola entrou num período de conflito sem precedentes uma guerra que
vitimou milhões de angolanos, deixando o país aos escombros em todos os domínios
(social, económicas, culturais...).
Após a independência, a jovem nação de Angola entrou num conflito sem
prcedentes, numa funesta e destruidora guerra civil, vitimando seus filhos mais valentes,
entre os três Movimentos que haviam assinado o Acordo do Alvor.
Este facto levou embora seja uma verdade desconhecida, a proclamação de três
independências pelos três movimentos em zonas distintas desta imensa Angola. A
UNITA e a FNLA ficaram fora de Luanda, sendo esta ocupada pelo MPLA,
protagonizando uma das cerimónias da proclamação da Independência até então
conhecida, pois no momento a UNITA, na voz de seu líder Jonas Savimbi, proclamava
independência de Angola na província do Huambo. Já, a FNLA, também teve o
privilégio de praticar tal ato na vila do Ambriz na província do Bengo.
Este facto denota bem as relações azedas que esses legítimos representantes do
povo angoano viviam, apresentando todas as condicionantes para um conflito a sério.
A época, o país, o conflito e as suas circunstâncias despetraram o interesse de
outros países, que nele tiveram intervenção de diversa ordem, levando ao
prolongamento da guerra civil.
Em finais de 1975, foi formado um governo pelo MPLA, liderado por
Agostinho Neto, na altura reconhecida pelo Brasil, reconhecimento que viria a alargar-
se em 1976, sendo o governo reconhecido pela Organização das Nações Unidas, embora
esse reconhecimento não se tivesse estendido a países como E.U.A ou África do Sul.
Entretanto, a situação económica e social do país agravous-se dando origem a
um período caótico e de grandes carências para a população em geral, continuando a
guerra a alastrar-se por todo o território. A UNITA juntou-se a FNLA, combatendo o
MPLA, tendo a UNITA sido expulso de seu quartel-general no Huambo; mas após a
reorganização das suas forças, iniciou-se um novo período de guerra contra o governo
do MPLA. Contudo vale, apresentar as diferentes fases que deram o surgimento da paz
em Angola, delineada nos variados acordos de Paz assinados pelos três contendores.
Elaborado por Olívio Santana Página 61
12ª Classe Filosofia
3.7.1. Acordos de alvor.
As negociações para a Independência iniciaram-se após 25 de Abril de 1974 e,
logo em Junho do mesmo ano na Conferência de Lusaka e, em Agosto, na ONU, se
deram os passos decisivos para o processo de descolonização.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1975, após a reunião de Mombaça (Quénia, 2-
5 de 1 de 1975), estavam finalmente satisfeitas todas as condições para que fosse
possível a formalização de um acordo para a Independência e transferência do poder.
A cimeira teve lugar em Alvor, Portugal, entre os dias 10 a 15 de Janeiro d
1975, reunindo as quatro delegações, o português liderado pelo chefe da junta militar e a
dos três movimentos de libertação, considerado como os legítimos representantes
políticos do povo angolano·.
De salientar que foi nesses acordos que se legitimaram os três Movimentos de
Libertação de Angola. Infelizmente, os designados acordos de Alvor, em termos de
pacificação, não surtiram efeitos entre os três Movimentos, pois cada um deles mantinha
forças militares. Essa incongruência, de certa forma, não possibilitou alcançar a
independência de foma pacífica e estável de Angola.
As delegações dos movimentos de Libertação foram chefiadas pelos seus
respectivos presidentes e integravam todos os seus dirigentes mais destacados.
A delegação portuguesa foi chefiada pelo Major Melo Antunes, que depois de
ter concluido as negociações relativas a Moçambique, passara de facto a coordenar todo
o processo angolano.
As negociações decorreram no hotel da Penina, em cujas instalações ficaram
alojadas todas as delegações. Serviram de plataforma de base, as negociações acordada
pelos três movimentos em Mombaça, Quênia.
O capítulo I do acordo definiu princípios como:
a) Reconhecimento pelo Estado português da FNLA, MPLA e UNITA como os
únicos e legítimos representantes do povo angolano, (artigo 1);
b) A proclamação do direito angolano à Independência (artigo2);
c) A afirmação de que Angola constitui uma entidade, una e indivísivel, nos seus
limites geográficos e políticos actuais e neste contexto, Cabinda é parte
integrante e inalienável do território angolano (artigo 3);
Elaborado por Olívio Santana Página 62
12ª Classe Filosofia
d) Nos artigos 4 e 5 fixava para 11 de 11 de 1975, a data da proclamação da
Independência pelo presidente da República de Angola, eleito e definia como
órgãos de poder para o período de transição;
e) Pelo artigo 6, o Estado português e os três movimentos de libertação formalivam
um cessar-fogo geral53.
Em 31 de Janeiro de 1975, em Luanda, o Alto-Comissário dava posse ao
governo de transição, com a significativa presença de delegados da ONU e da OUA.
Este governo era composto um colégio presidencial de três membros (três Ministros):
Lopo Ferreira do Nascimento (MPLA), Dr. José Ndele (UNITA) e John Eduardo
Pinock (FNLA). Cada um dirigia e presidia o Conselho de ministros trimestralmente.
Esse governo compreendia treze Ministérios e nove secretarias de Estado.
Durante o mês de Março e princípios de Abril de 1975, a situação evoluiu para
uma luta aberta entre FNLA e MPLA, enquanto a UNITA se mantinha numa aparente
neutralidade, da qual viria colher seguros dividendos.
Alguns meses depois, realizou-se a Cimeira de Nakuru (Quénia, de 16 de a 21
de Junho de 1975), com a participação dos três movimentos, notando-se a ausência de
Portugal. O acordo foi assinado a 21 de Junho para evitar a guerra civil. Os três
movimentos comprometeram-se a renunciar ao uso da força como meio de solucionar os
problemas e honrar os compromissos resultantes do Acordo de Alvor.
3.7.2. Acordos de bicesse.
Em Abril de 1990 realizaram-se em Évora, no sul de Portugal, conversações
secretas entre as delegações do MPLA e da UNITA. Essas negociações prosseguiam até
Maio de 1991, sob a presidência portuguesa e com a presença, na qualidade de
observadores, de representantes dos Estados Unidosda América, da União Soviética e
das Nações Unidas. Finalmente, a 31 de Maio de 1991, uma semana depois da retirada
dos últimos cubanos de Angola, o MPLA e a UNITA assinaram um acordo em Bicesse,
perto do Estoril, nos arredores de Lisboa.
O acordo tinha em vista a criação de um exército nacional unificado a partir
das forças militares dos dois adversários e o seu calendário para as eleições nacionais
trouxe inevitavelmente à memória o Acordo de Alvor.
53
Idem.
Elaborado por Olívio Santana Página 63
12ª Classe Filosofia
A situação em 1991 era, no entanto, diferente sob muitos aspectos, da que
existia em 1975. Por um lado, havia apenas duas partes interessadas, uma vez que a
FNLA havia desaparecido da cena nacional, pelo menos militarmente. Por outro lado,
nenhuma das superpotências defendia os interesses dos seus seguidores com algo que se
parecesse com o entusiasmo de 1975.
O que era mais importante, depois de 16 anos de guerra, era que nenhuma das
partes tinha grandes ilusões quanto às probabilidades de uma vitória decisiva no campo
de batalha. Os acordos trouxeram um cessar-fogo, o aquartelamento das tropas da
UNITA, a formação de novas Forças Armadas, a desmobilização da tropa não
requerida, a restauração da administração do Estado em áreas controladas pela UNITA e
as eleições multipartidárias e presidenciais.
O processo de Bicesse iria mais longe do que o de 1975 no que se refere às
eleições realizadas em Setembro de 1992, livres e equitativas, mas que perderam o seu
sentido quando Savimbi recusou aceitar a vitória, por estreita margem, de José Eduardo
dos Santos e do MPLA.
De entre os vários factores que contribuiram para o fracasso de Bicesse,
Margareth Anstee, mediadora das Nações Unidas no processo, avançou com aspectos:
A falta de instrumentos institucionais que assegurassem o seu respeito, que não
podia assentar apenas na boa-fé das partes;
A demasiada rigidez e exiguidade do prazo para as eleições;
Terem-se realizado as eleições sem que tivesse assegurado a total
desmobilização e desarmamento dos anteriores beligerantes e a constituição das
forças nacionais;
O facto de os acordos se terem baseado no princípio de que «quem ganha tudo
fica com tudo», não salvaguardando convenientemente os direitos do vencido.
Tal como em 1975, iniciava-se com grandes dificuldades o processo de
desmobilização das forças militares e a sua reconversão num exército unificado e o
regresso à guerra civil era cada vez mais possível. Com o malogro de Bicesse, Portugal
perdeu o seu papel de mediador e juntou-se aos E.U.A. e à Rússia na qualidade de
observador, deixando o MPLA e a UNITA a procurarem um novo diálogo político.
Depois de ter sido presidido a dois acordos falhados no espaço de 17 anos, era
pouco provável que Portugal tentasse confrontar-se outra vez com aquilo que o
representante da ONU, considerou «uma tragédia humana sem precedentes».
Elaborado por Olívio Santana Página 64
12ª Classe Filosofia
3.7.3. Protocolo de lusaka.
Com o reinício da guerra Anstee tentou deseperadamente negociar um cessar-
fogo, mas sem êxito. Conversações tiveram lugar inicilamente no Namibe, depois em
Adis Abeba, antes de falir em Abidjan. Com a nomeação de um novo representante
Especial das Nações Unidas, Alioune Blondin Beye, novas conversações de paz
começaram em Lusaka de Novembro de 1994.
Os acordos de Lusaka foram assinados formalmente em 20 de Novembro de
1994, com alguns dias de atraso em relação à data de 15 de Novembro, inicialmente
prevista. Este atraso fez com que o acto se rodeasse de certa expectativa, pois estavam
ainda vivas as ameaças da UNITA de não os assinar. O governo concretiza a sua
pretensão de reconquista do Huambo.
Reconquista que acabava de ser concretizada. A expectativa transferiu-se
depois para a presença ou ausência de Savimbi, em torno de cujo estado de saúde se
tinha tecido um verdadeiro enigma. Ao contrário de Eduardo dos Santos que pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros, em nome do Governo e pelo Secretário-Geral da
UNITA, em deste Movimento.
Os equívocos das declarações de abertura das negociações, evidenciadas um
ano antes, repetiam-se e tinham agora expressão na cerimónia de encerramento. Foram
estes e outros incidentes que denunciaram fragilidades latentes, se não no texto do
acordo, pelo menos nos estados de espírito dos contratantes que não tardariam a vi à
superfície.
O texto acordado em Lusaka seguia, na sua concepção global, os do Alvor e
Bicesse, isto é, no fundo, da formalização de um cessar-fogo, como condição de uma
plataforma política de reconciliação nacional entre os anteriores beligerantes.
Há, à partida, um aspecto essencial que merece ser realçado. Enquanto em
bicesse se desprezaram os ensinamentos que o Alvor poderia ter em atenção às lições de
Bicesse, salvaguardando os riscos de repetição das suas fragilidades.
Outro aspecto a salientar é que o Protocolo de Lusaka54 não ignora nem anula
os acordos de Bicesse, pelo contrário, revalida-os e apresenta-se como resposta à
54
“O protocolo de Lusaka é o mais importante depois dos acordos de Bicesse e introduziu algumas
inovações, incluindo a partilha de poder, a não realização de eleições antes de concluir questões militares,
a implementação do processo de paz e o envio duma força de capacetes azuis das Nações Unidas era da
responsabilidade directa da ONU” (FERNANDES, João Pedro. CAPUMBA, Pedro Almeida. História,
Luanda, Textos editores, 2006, p. 76ss).
Elaborado por Olívio Santana Página 65
12ª Classe Filosofia
necessidade da sua conclusão, para que se ponham em funcionamento as instituições
resultantes das eleições de 29 e 30 de Setembro de 1992.
Como os precedentes, é exclusivamente um acordo entre os anteriores
beligerantes. Mas vai muito mais longe que os acordos anteriores na pormenorizada
calendarização dospassos e prazos a serem cumpridos. Nas disposições relativas ao
cessar-fogo formaliza a data em que deve entrar em vigor e define a integração dos
aparelhos militares que até aí se confrontavam numas formas armadas unificads sob
comando único, constituidas com oficiais oriundos das duas partes.
A modalidade para a reconciliação nacional tratava-se de definir como e quem
participava no poder tendo em respeito os resultados de eleições.
O protocolo de Lusaka consigna ainda a conclusão do processo eleitoral com a
realização da segunda volta das presidenciais, no que, mais uma vez, recupera os
anteriores Acordos de Paz de Bicesse.
Este protocolo foi baseado no «Protocolo de Abidjan», com o qual se tinha
conseguido um acordo. Enquanto isso, no campo militar os primeiros avanços da
UNITA fizeram com que controlasse cerca de 70% do território, incluindo áreas
urbanas importantes como o Huambo e o Uíge.
Quando o governo conseguiu reorganizar-se militarmente, conseguiu
reorganizar-se militarmente, conseguiu retomar muitas posições que havia perdido para
a UNITA como, por exemplo, o Huambo, Ce ntro-sul de Angola, e por sinal a
«segunda» cidade do país.
Depois de quase dois anos, a UNITA entrou numa fase de regressão,
começando a recuar em várias posições militares na região, acabando depois por perder
a cidade do Huambo. Com a retoma desta cidade, as tropas governamentais assumiram
uma forte ascendência, obrigando a UNITA a aceitar a via diplomática. Assim,
negociou-se o protocolo de Lusaka, que foi assinado a 20 de Novembro de 1994, numa
altura em que as forças governamentais, reanimadas, se preparavam para derrotar as
forças militares da UNITA, nos vários teatros da guerra.
Elaborado por Olívio Santana Página 66
12ª Classe Filosofia
3.7.4. Acordo de Luena55.
Continuando com os esforços dos acordos foi empreendido um Memorando de
Entendimento Complementar para a cessação das hostilidades e resolução das demais
questões militares pendentes nos termos do Protocolo de Lusaka. Assinado no dia 04 de
Abril de 2002, na cidade do Luena, Moxico, passou a designar-se vulgarmente por
acordo de Lusaka de Luena, resultando na desmobilização de quase cel mil militares.
Este acordo incidiu também na resolução dos factores, de ordem militar, que
impediram que o protocolo de Lusaka fosse plenamente posto em prática. Entre os
princípios fundamentais nele assentes destacam-se:
O respeito pelo Estado de Direito, pelas instituições democráticas de Angola, a
observância da Constituição e demais legislação em vigor;
A aceitação inequívoca da validade dos instrumentos jurídico-políticos
pertinenetes, em particular, o Protocolo de Lusaka e as resoluções do Conselho
de Segurança da ONU;
O reconhecimento de que o respeito pela democracia é essencial à paz e
reconciliação nacional.
O governo de então garantiu também neste memorando a criação de uma lei de
Amnistia que abrangesse todos os crimes cometidos durante o conflito armado, no
sentido de dissipar ressentimento e promover a concórdia entre os angolanos.
Para além da cessação de hostilidades, deu-se um novo passo ao acordar a
destruição de armamento e a garantia das pessoas e seus bens e a livre circulação das
mesmas, de modo a implementar um regresso à normalidade das populações civis. No
mesmo sentido, o governo decidiu proceder à integração social dos militares
desmobilizados da UNITA, através de um programa com carácter de urgência.
3.7.5. Acordos de Namibe56.
A 01 de Agosto de 2006 seria assinado um novo acordo, um Memorando de
Entendimento para a Paz e Reconciliação, em Namibe, cidade litoral do sul de Angola,
ficando conhecido como acordo de Namibe. Previamente tinham decorrido negociações
55
LAU, Rafael Lando. KAPARAKATE, Pacheco. História 12ª classe, Luanda, Texto editores, 2006, pp.
130-131.
56
Idem, p. 131.
Elaborado por Olívio Santana Página 67
12ª Classe Filosofia
entre o Governo e o Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD), já que a esta data a
província de Cabinda se tinha tornado o foco de discórdia maior em Angola.
O memorando previa então um estatuto especial para a província, embora no
âmbito da Constituição angolana.
No documento determinava-se também a desmilitarização da FLEC (Frente
Libertação do Enclave de Cabinda), sob autoridade do FCD. O Governo criou
novamemente, com o FCD, uma Comissão Militar Mista, de modo a proceder à
fiscalização do cessa-fogo. A FLEC, no entanto, através do seu líder de então,
considerou «nulo» o Memorando, opondo-se, portanto à sua celebração, o que não
impediu este novo passo para a consolidação da paz no país.
Elaborado por Olívio Santana Página 68
12ª Classe Filosofia
IV - FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO
4.1. Definição compreensão da filosofia da educação.
Todo ser humano por natureza deseja saber, conhecer. Este conhecimento parte
do nível mais elementardo sentido, passando progressivamente da experiência à ciência
propriamente dita e, desta à filosofia. Ensinar é produzir a ciência no educando
ajudando-o nessa busca da verdade ou cooperando com ele.
O educando só por si não conseguiria grandes resultados, necessitando deste
modo, da presença de um guia que o oriente naquilo que a que mesmo se propõe a
seguir.
A palavra educação, segundo Sánchez Buchon, deriva do verbo latino
«educare», que, no seu sentido mais primitivo, significa: criar, alimentar; outros, de
um verbo mais antigo: «educere», composto da preposição ex, que indica direção para,
e do verbo «ducere» “conduzir”, significando, por isso, tirar de dentro para fora,
fazer sair57.
Esses dois significados etimológicos, apesar da sua aparente falta de
conciliação, unem-se e completam-se para nos dizerem que a educação se compõe de
dois movimentos: um de dentro para fora: o desenvolvimento; o outro, de fora para
dentro: a ajuda, o alimento, o apoio, a orientação dos outros.
Tendo em conta esssas duas raízes etimológicas e a nossa visão do homem,
podemos definir a educação como o desenvolvimento integral, harmonioso e
progressivo da pessoa humana até a sua plena maturidade.
A filosofia começa onde as coisas já não são tão claras, onde o que para todos
era evidente deixa de o ser. Uma filosofia da educação tem de provocar uma reflexão
derminada, rigorosa e de conjunto de problemas que a realidade educacional apresenta.
Ela não estabelece métodos ou técnicas da educação; não visa fornecer os meios da
educação, antes funciona como elemento aglutinador do edifício pedagógico, tentando
levantar as questões no domínio da existência humana.
A filosofia da educação será antes de mais, uma interrogação; não um corpo de
saberes, mas o princípio de pôr em causa tudo o que sabemos ou julgamos saber sobre a
educação. Não procura construir um esboço, mas a filosofia interroga-se sobre o que
57
VEIGA, Martins Américo. A educação hoje: Realização integral e feliz da pessoa humana. Vila Nova
Gaia, Edições Perpétuo Socorro, 2005, p.13.
Elaborado por Olívio Santana Página 69
12ª Classe Filosofia
vale a pena ser ensinado e por quê. Não busca os meios mais seguros e mais eficazes,
não é esse o seu fundamento, mas interroga-se sobre quais os fins da educação.
Entre as questões que ela nos apresenta, salientam-se as seguintes58: O que a
educação? Por que e para que educar?É possivel educar?Quem é o homem? Será que
necessita ou não de ser educado? Que é ser educador? Quem pode ser educado?
Em termos gerais, não existe um significado exclusivo para termo “educação”,
em virtude de haver certa variação ao longo do tempo nos princípios que
definemdeterminada forma de educação, tendo em conta as condições diacrónicas;
diatópicas e diastrácticas.
4.1.1. Conceito e fim da filosofia da educação.
Na realidade, constatamos que diferentes pessoas conferem diferentes sentidos
ao quedesignamos por «filosofia da educação», dado que é sempre possível terem
diferentes perspectivas do que é a filosofia educação.
Se quisermos estabelecer uma definição adequada a uma abordagem filósofica,
temos de nos reger por moldes filossofia. Assim, podemos definir a filosofia da
educação como sendo um ramo do pensamento que se dedica ao estudo ou à
reflexão sobre as relações entre o funcionamento da sociedade e a educação; tendo
em conta os aspectos abrangidos por esta, como o são os processos educativos, as
diversas teorias educacionais, os diversos sistemas pedagógicos.
Diante desta realidade, dizer que, as formas de educar e as finalidades da
educação mudam com os tempos, de acordo com as exigências da respectiva sociedade,
levando a ajustes e acréscimos no que a filosofia da educação tem como fins.
Um fim da filosofia da educação foi sempre, o de pensar sobre a melhor forma
de levar até à escola um conjunto coerente de objectivos, na dupla perspectiva de uma
coerência interna e externa.
A filosofia da educação não pode, portanto, limitar-se à análise das finalidades
da educação. Outro fim deve ser o de procurar esclarecer antinomias que residem no
acto educativo “cultura e natureza” e “liberdade e condicionamento”, ou seja, investigar
as condições, as possibilidades da educação59.
58
TEIXEIRA, Evilázio F. Borges. A educação do home segundo Platão. São Paulo, Paulus, 2006, p. 25.
59
PHILIPPE, M.D. Aristóteles e a Educação, Rio de Janeiro, Vozes, 2009, p. 47.
Elaborado por Olívio Santana Página 70
12ª Classe Filosofia
Está na origem da filosofia da educação procurar aprofundar e compreender o
processo educativo tal como é vivido, é, no fundo uma filosofia aplicada aà educação.
A filosofia da educação tem também como finalidade estabelecer relações
com as várias ciências da educação, por exemplo; a psicologia da educação; a
sociologia da educação, a ética, só p´ra citar algumas.
Importa referir que a filosofia da educação é de extrema importância no tocante
a formação e modelagem do homem dentro de determinada comunidade, pois facilita a
compreensão entre o fenómeno educativo e o funcionamrnto da sociedade.
4.1.2. Função, objetivo e objeto da filosofia da educação.
A função da filosofia da educação é, como já vimos pensar sobre a
educação, de modo a contribuir com novas perspectivas. A educação, por seu lado,
tem como objetivo desenvolver competências necessárias para realizar diversos actos,
em diversos papéis, que dignificam o ser humano em todas as suas dimensões. O
homem deve ser reflexivo e solidário com os outros, entrando na dimensão ética. Esta
dimensão é essencial porque através dela caminha-se para o nível da excelência, em
todas as facetas humanas.
Em todos os objetivos, um dos principais e primordiais da filosofia da
Educação no Sistema de ensino Nacional é ser capaz de conferir aos conteúdos da
ética uma moral dos valores e da responsabilidade que permeiam a prática
pedagógica e a formação de sujeitos activos, participantes e conscientes na
construção da sua própria identidade individual e coletiva.
Por isso, é imprescindível que a Educação e a Ética caminhem juntas, pois não
se pode falar de educação sem ter em conta uma ética que possa regular o
comportamento das pessoas formadas num processo educativo.
Em qualquer país se constata falta de respeito entre ciddãos no seu quotidiano:
nos locais de trabalho, nos autocarros nas escolas, etc., ou seja, quase em todas as
dimensões da vida humana e social.
Mas recentemente, com as rápidas transformações tecnológicas nas sociedades
contemporâneas, têm ocorrido sucessivas transformações nas propostas pedagógicas e
métodos de ensino adoptados nos diversos sistemas de ensino. Mas as questões
principais que rodeiam o conceito de educação mantêm-se, embora aas respostas
encontradas tenham sido diferentes em cada época, em cada civilização.
Elaborado por Olívio Santana Página 71
12ª Classe Filosofia
No mundo da globalização60 em que estamos inseridos, facilmente se percebe
que os meios de comunicação em larga escala são muito importantes para a inclusão ou
exclusão dos conceitos de moral e de ética. A crise da ética e da moral e dos valores
atinge hoje, grande dimensão, constituindo tema de ampla discussão e tornando-se um
factor de contribuição dos alunos do Ensino Secundário.
Sendo assim, a ética para os alunos e jovens não deve ser separada da vida em
família e da vida na escola, uma vez que a educação está relacionada com a construção
de uma nova sociedade, em função da participação de seus cidadãos na realização
concreta na política social, económica e cultural do País.
4.2. Dimensão da filosofia da educação no contexto das ciências da educação:
relação entre educação, pedagogia e política.
Se durante largo tempo a filosofia dominou a educação, importa agora
conceptualizar a relação existente entre disciplinas afins. Como se pode ver, não é
possível falar de educação sem intercalar a pedagogia e, num determinado âmbito, sem
analisar também a política.
Posto de outro modo, a palavra educação designa um processo de conduzir,
guiar o ser humano, consistindo em adoptar, cuidar, cultivar, tendo atenção às condições
de crescimento do ser humano, desenvolvendo as suas capacidades. Quando falamos no
produto desse processo, falamos em educação como actividade de modelar, formar,
moldar, isto é, o ajustar à forma padrão da actividade pessoal e social. Desta feita, não
se pode falar em educação sem ter em conta a pedagogia.
A pedagogia é, pois, uma teoria prática, isto é, um ateoria que tem por objecto
reflectir sobre sistemas e procedimentos do processo do ensino aprendizagem com o fim
de avaliar seu valor, como eliminar e dirigir a acção dos docentes. A ação pedagógica,
pelo esforço que o professor faz para se compreender a si próprio, deveria possibilitar,
então, a articulação do conhecimento do facto humano com a noção do sentido do ser
humano em liberdade, deixando o outro entregue ao que ele tiver de vir a ser.
Finalidade da pedagogia moderna
A pedagogia moderna altera rradicalmente a relação tradicional entre o mestre
e o discípulo, confirmando o papel primário deste último no processo da sua educação,
60
Segundo Anthony Giddens, um eminente sociólogo, define a globalização como “a intensificação de
relações sociais mundiais que unem localidades distantes, de tal modo que os acontecimentos locais são
condicionados por eventos que acontecem muitas milhas de distância e vice-versa”. (Anthony GIDDENS,
Sociology, Polity Press, Oxford, 1990, P. 64).
Elaborado por Olívio Santana Página 72
12ª Classe Filosofia
frente ao próprio mestre professor. O pensamento pedagógico moderno cunha a
expressão «revolução copernicana da educação», para indicar que a mudança
substancial ocorre nas relaões entre discípulo e o mestre.
Ainda dizer que, a revolução copernicana da educação, consiste no facto de
que, assim como, Nicolau Copérnico afirmou a posição central do sol em relação a
todos os planetas do sistema solar, do mesmo modo, no campo pedagógico, a partir do
século XX, o sujeito da educação passou a ser o próprio aluno como ser activo e, não
mais o professor.
Nessa perspectiva os professores enquanto ensinam aprendem e os alunos
enquanto aprendem ensinam. A escola e a sala de aula enquanto espaço temporal de
formação para os alunos tornam-se também laboratório de pesquisa de formação
continuada para professores.
Do ponto de vista teórico e científico, consideram-se três aspectos
fundamentais para educação: pessoal, social e cultural.
Portanto, os três aspectos mencionados interagem entre si. Diante disso,
convém salientarque, para o alcance dos desideratos preconizados, urge a utilização de
métodos para a facilitar o processo em questão.
A própria palavra deriva do grego métha: através; hodos: caminho;
significando «através de um caminho, de um procedimento». Em pedagogia, existem
diversos métodos, usados para conduzir o processo de ensino e aprendizagem. Cada
método educativo implica um modo específico de organizar e comunicar os
conhecimentos, tendo em conta os objectivos, os mesmos são usados em função da sua
passividade ou da sua actividade dentro do processo de ensino e aprendizagem.
Segundo uma classificação comum consideram três grupos de métodos: afrimativos
(expositivos e demonstrativos), métodos interrogativos e métodos activos.
Métodos afirmativos: neste tipo, a transmissão dos conhecimentos é,
sobretudo oral, verbal, a mais clássica forma de comunicação.
Interrogativos: a transmissão dos conhecimentos consiste em mostrar algo, de
modo que o educando possa intuir o conhecimento que se pretende transmitir.
Métodos activos: os conhecimentos são transmitidos de várias formas, em
adaptação às características dos educandos.
Na escolha dos métodos pedagógicos, dever-se-ão ter em conta as
características dos alunos, dos conhecimentos a transmitir, da realidade envolvente, dos
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objectivos a curto prazo e a longo prazo, embora existam limitações, em determinadas
circunstâncias.
Pedagogia e política
Se a pedagogia tem como função conduzir, guiar, ou formar o indivíduo na
sociedade, é óbvio que tem de estar interligada com a política. Se nós entendermos que
a política é uma arte de bem governar os cidadãos na sociedade, também é verdade que
apolítica desempenha um papel preponderante na orientação das linhas pedagógicas do
sistema de ensino vigente em determinado país.
As correntes pedagógicas e as ideias políticas estão interligadas entre si,
apresentando mais ou menos aspectos em comuns. As ideias políticas acompanham e
oferecem argumentos objectivos para sustentar a educação, as diferentes teorias
pedagógicas trazem implícitas ou explicitas diferentes representações ideais da
sociedade, conjuntos de valores e pautas de conduta.
Pensadores como, Louis Althusser, consideram mesmo a educação como um
aparelho ideológico do sistema político. A educação tem umafunção, pois ela pode
também lutar e ajudar a lutar de forma esclarecida por melhores condições de vida
contribuir para formação dos cidadãos, dos dirigentes políticos representantes de massas
populares, elevar o nível da consciência das pessoas, socializar o conhecimento, etc.
4.3. Agentes da educação e sua influência no ambiente familiar, social e cultural.
4.4. Repensando a educação em Angola: possibilidade e limites.
“Vivemos uma cultura negativista, que transmite mal-estar e descrença, em que
o desânimo parece subjugar a nossa faculdade de pensar. Assim, não educamos para a
vontade de viver com alegria e optimismo, sorrindo e fazendo sorrir no meio de uma
multidão que parece já não saber o que isso é”61.
Como isso queremos ressaltar que, a educação actual do nosso país encontra-se
sob graves problemas, em função da desarticulação que as nossas famílias vão tendo
nestes últimos tempos, devido a vários factores que por razões alheias a sua vontade
parte de suas vidas.
Um desses problemas cingiu-se pela falta de condições sócio-económicas, que
muitas famílias vão vivendo, pois estes na tentaiva de savaguardar a vida de seus filhos,
61
BASTOS, Ana Paula. Um sentido para a Vida: O equilíbrio no infinito do ser. São Paulo, edições
paulinas, 2007, p. 22.
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ocupam grande parte de seu tempo a trabalhar com vista a cobrir as despesas básicas de
casa, acabando desta forma por esquecer seus filhos na idade mais crucial de suas vidas,
deixando de receber a chamada educação de berço, passando a ser uma lacunas que vai
ter grandes repercussões na vida desta criança que possivelmente o adulto de amanhã62.
Já na antiguidade clássica, Platão célebre filósofo grego, nos alertava sobre os
cuidados a ter com esse fenómeno tipicamente humano dizendo que “o homem pode
transformar-se na criatura mais divina sempre que se eduque correctamente, converte-
se na criatura mais selvagem das que habitam a face da terra, em caso de ser mal -
educado”, pois a educação quando mal empregada ou administrada pode tornar-se
numa das mais poderosas armas de destrição maciça.
A formação de qualquer homem começa no seio familiar, assim também é a do
homem angolano, isto é, no seio ou colo da mãe e termina somente nos braços da morte.
Entretanto, é necessário dizer que por educando não se deve
62
Idem...
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12ª Classe Filosofia
[Link]ÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MONDIN, Battista (2006), Introdução à filosofia, 13ª edição, Paulus, São Paulo.
MONDIN, Battista (2011), O homem, quem é ele? 14ª edição, Paulus, São
Paulo.
BERTEN, A. (2004), Filosofia social, 2ª edição, Paulus, São Paulo.
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socráticos a Wittgenstein, 13ª edição, Zahar editora, Rio de Janeiro.
TEIXEIRA, Evilázio F. Borges (2006), A educação do homem segundo Platão,
4ª edição, Paulus, São Paulo.
COSTA, Paolo Dalla (1998), Teologia moral fundamental, Arquidiocese de
Luanda, Luanda.
VEIGA, Américo Martins (2005), A educação hoje: A realização integral e feliz
da pessoa humana, 7ª edição, Vila nova de Gaia.
SANTOS, Mário Ferreira dos (2007), Lógica e dialética: Lógica, dialética,
decadialética, 11ª edição, Paulus, São Paulo.
LAU, Rafael Lando & KAPARAKATE, Pacheco (2006), Filosofia 12ª classe,
Texto editores, Luanda.
FERNANDES, João Pedro & CAPUMBA, Pedro Almeida (2006), História 12ª
classe, Texto editores, Luanda.
PHILLIPE, M. D (2009), Aristóteles e a educação, Vozes editora, Rio de
Janeiro.
AMARAL, Diogo Freitas do (1998), História das Ideias Políticas, Edições
Almedina, Lisboa.
SCARPA, Pedro Luís (1991), O cristão e a política, Oficinas Gráficas São José,
Luanda.
PATRÍCIO, Manuel e SEBASTIÃO, Luís Miguel (2004), Conhecimento do
Mundo Social e da Vida: Passos para uma pedagogia da sageza. Universidade
Aberta, Lisboa.
COTRIM, Gilberto (2006), Fundamentos da Filosofia: História e grandes temas.
Saraiva, São Paulo.
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12ª Classe Filosofia
Índice
Noções básicas de lógica. ................................................................................................. 1
Importância da Lógica .................................................................................................. 1
[Link]ção da lógica ................................................................................................. 3
[Link] e método do estudo da lógica. ............................................................ 4
[Link] princípios lógicos ........................................................................................... 4
[Link] novos domínios de aplicação da lógica: cibernética, informática e
inteligência artificial. .................................................................................................... 6
1.1.4.O pensamento e o discurso .................................................................................. 7
[Link] três dimensões do discurso: Sintaxe, Semântica e Pragmática. ..................... 9
[Link] e o termo. ............................................................................................... 11
[Link]ção de conceitos....................................................................................... 11
1.2.2. A Definição. ...................................................................................................... 12
1.2.3 Tipos e regras de definição ................................................................................ 13
1.2.4 Conceitos indifiníveis. ....................................................................................... 13
1.2.5 Juízo e proposição. ............................................................................................. 14
1.2.6 Classificação dos juízos ..................................................................................... 15
[Link]ções das proposições .......................................................................... 16
1.2.8 Conceito de inferências. ..................................................................................... 17
1.2.9 Classificação de inferências. .............................................................................. 17
[Link]ências simples ou imediatas por oposição entre proposições. ................. 17
1.2.11. Inferências simples ou imediatas por conversão ............................................. 19
1.2.12. Raciocínio e argumentação. ............................................................................ 20
1.2.14. Validade formal e validade material. .............................................................. 22
1.2.15. As falácias. ...................................................................................................... 23
1.2.16. Silogismo. ....................................................................................................... 25
1.2.17. Tipos de silogismo. ......................................................................................... 27
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1.2.18. Regras e figuras de silogismo. ........................................................................ 31
IIº - FILOSOFIA AFRICANA ....................................................................................... 35
Importância do estudo da filosofia Africana ............................................................... 35
Existe uma filosofia africana? ..................................................................................... 36
2.1 As principais correntes da filosofia africana ......................................................... 38
2.1.1 Panafricanismo. .............................................................................................. 38
2.1.2. Negritude. ...................................................................................................... 40
2.1.3 Etnofilosofia. .................................................................................................. 43
IIIº - CONVIVÊNCIA POLÍTICA ENTRE OS HOMENS ........................................... 45
[Link]ção de política. ............................................................................................ 45
3.2. Ética e política. .................................................................................................... 46
3.3. O cidadão e a política........................................................................................... 48
3.4. Política e globalização. ........................................................................................ 49
3.5. Democracia e cidadania. ...................................................................................... 51
[Link]. Campos do exercício democrático. ................................................................ 53
[Link] e cultura: os riscos da democracia. ................................................ 56
3.5.3. Violência e política: tipologia de democracia. .................................................. 58
3.6. Sobre a concórdia: significado e dimensões da paz em Angola. ......................... 60
3.7. A construção da paz em Angola. ......................................................................... 60
3.7.1. Acordos de alvor. .............................................................................................. 62
3.7.2. Acordos de bicesse............................................................................................ 63
3.7.3. Protocolo de lusaka. .......................................................................................... 65
3.7.4. Acordo de Luena. .............................................................................................. 67
3.7.5. Acordos de Namibe........................................................................................... 67
IV - FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO .............................................................................. 69
4.1. Definição compreensão da filosofia da educação. ............................................... 69
4.1.1. Conceito e fim da filosofia da educação. ...................................................... 70
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4.1.2. Função, objetivo e objeto da filosofia da educação. ..................................... 71
4.2. Dimensão da filosofia da educação no contexto das ciências da educação: relação
entre educação, pedagogia e política. ......................................................................... 72
4.3. Agentes da educação e sua influência no ambiente familiar, social e cultural. ... 74
4.4. Repensando a educação em Angola: possibilidade e limites. .............................. 74
[Link]ÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ............................................................................. 76
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