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Minha Querida Paris - Lucy Diamond

Minha querida paris - Lucy Diamond

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marcisiane
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A Editora Arqueiro agradece a sua escolha.

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O Arqueiro
GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi
trabalhar com seu pai, o célebre editor José Olympio, publicando obras marcantes como O
menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.

Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de
leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992,
fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que
deu origem à Editora Sextante.

Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser
lançado nos Estados Unidos. A aposta em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o
título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos.

Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo
desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão.

Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e
despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária,
capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o
idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida.
Título original: I Remember Paris

Copyright © 2023 por Lucy Diamond


Copyright da tradução © 2025 por Editora Arqueiro Ltda.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito
dos editores.

coordenação editorial: Gabriel Machado


produção editorial: Guilherme Bernardo
preparo de originais: Caroline Bigaiski
revisão: Milena Vargas e Suelen Lopes
diagramação: Guilherme Lima e Natali Nabekura
imagem de capa: Becky Thorns
adaptação de capa: Natali Nabekura
foto da autora: © Lou Abercrombie
e-book: Marcelo Morais

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
D528m
Diamond, Lucy, 1970-
Minha querida Paris [recurso eletrônico] / Lucy Diamond ; tradução Ana Rodrigues. -
1. ed. - São Paulo : Arqueiro, 2025.
recurso digital

Tradução de: I remember Paris


Formato: ebook
Modo de acesso: world wide web
ISBN 978-65-5565-871-2 (recurso eletrônico)

1. Ficção inglesa. 2. Livros eletrônicos. I. Rodrigues, Ana. II. Título.


25-99420.0 CDD: 823
CDU: 82-3(410.1)
Carla Rosa Martins Gonçalves - Bibliotecária - CRB-7/4782

Todos os direitos reservados, no Brasil, por


Editora Arqueiro Ltda.
Rua Artur de Azevedo, 1.767 – Conj. 177 – Pinheiros
05404-014 – São Paulo - SP
Tel.: (11) 2894-4987
E-mail: [email protected]
www.editoraarqueiro.com.br
Hannah, querida, este é para você –
te vejo no Le Mélange
Sumário

Parte Um
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Catorze
Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis

Parte Dois
Capítulo Dezessete
Capítulo Dezoito
Capítulo Dezenove
Capítulo Vinte
Capítulo Vinte e Um
Capítulo Vinte e Dois
Capítulo Vinte e Três
Capítulo Vinte e Quatro
Capítulo Vinte e Cinco
Capítulo Vinte e Seis
Capítulo Vinte e Sete
Capítulo Vinte e Oito
Capítulo Vinte e Nove
Capítulo Trinta
Capítulo Trinta e Um
Capítulo Trinta e Dois
Capítulo Trinta e Três
Capítulo Trinta e Quatro
Capítulo Trinta e Cinco
Capítulo Trinta e Seis
Capítulo Trinta e Sete
Capítulo Trinta e Oito
Capítulo Trinta e Nove
Capítulo Quarenta

Parte Três
Capítulo Quarenta e Um
Capítulo Quarenta e Dois
Capítulo Quarenta e Três
Epílogo

Agradecimentos

Sobre a autora

Sobre a Arqueiro
Parte Um
Capítulo Um

É ele de novo?, pergunta-se Adelaide ao ver alguém se aproximando da


casa. O vidro das enormes janelas está sujo, mas, ainda assim, não há
dúvidas em relação à altura, ao andar, à maneira como ele movimenta a
cabeça enquanto olha para Adelaide. Ela sente algo se revirar por dentro, a
náusea se torna mais forte. Como ele sabia onde encontrá-la? E por que não
a deixa em paz?
Ela o ouve abrir a porta. O que deve fazer? Toda a situação tinha se
agravado com uma rapidez enervante. Alguns meses antes, o homem não
passava de um rosto na multidão, alguém que Adelaide vira encarando-a no
Prince of Wales, a algumas mesas de distância. Depois, ela continuou a
percebê-lo: uma figura solitária esperando na mesma plataforma do metrô,
passeando pelas lojas do lado de fora do ateliê dela, matando tempo perto
da padaria onde Adelaide sempre compra pão. Coincidência, disse a si
mesma, na primeira vez que lhe ocorreu que o homem parecia estar em
todos os lugares onde ela estava. Ou talvez fosse um fã tímido, que se
mantinha por perto até ganhar confiança para dizer que admirava o trabalho
dela. Afinal, esse tipo de coisa realmente acontecia. Mas, à medida que o
tempo passava e ela continuava a notar a presença dele – do lado de fora de
uma galeria ou de um teatro, no mesmo vagão que ela –, uma sensação
crescente de pavor se instaurou. Uma certeza de que a situação só iria
piorar.
E a sensação se provou verdadeira. Na semana anterior, Adelaide
estava no andar de cima de casa, fechando as cortinas do quarto, quando viu
o homem sentado no muro do vizinho da frente, olhando fixamente na
direção dela. Foi como se uma fronteira tivesse sido ultrapassada. O que ele
queria?
– Aquele homem está lá fora de novo – disse ela a Remy.
Mas ele simplesmente afastou as cobertas, revelando o corpo nu, e
disse:
– O único homem em quem você precisa pensar está aqui, meu bem.
Adelaide não é o tipo de mulher que se assusta com facilidade, mas foi
difícil dormir naquela noite, imaginando quem seria aquele cara que a
vigiava e qual seria seu próximo passo.
– Você deveria ligar para a polícia – insistiu Margie quando Adelaide
lhe contou o que estava acontecendo, mas a sugestão parecia absurda
demais para ser levada a sério.
– E o que vou dizer? Vão rir da minha cara. O homem não fez nada –
protestou ela.
– Ainda não fez – retrucou Margie, em tom sombrio. – Tenha cuidado,
Addie. Me promete.
Aquele “ainda” ressoa na cabeça de Adelaide como um presságio
terrível, porque agora o homem está ali, na remota Little Bower, o lugar
para onde ela sempre vai quando quer fugir de tudo. Antes parte de uma
fazenda, se tornou um lar longe de casa para ela e para os amigos mais
próximos, e o cômodo onde está é usado como ateliê compartilhado. É um
local tranquilo, cercado de campos e sebes, com um braço sinuoso de rio
próximo, onde Adelaide gosta de nadar nos dias quentes. À noite há corujas
e morcegos, e o céu mais escuro que ela já viu, pontilhado pelo brilho das
estrelas. Mas a tranquilidade de estar ali sozinha foi destruída, e a
adrenalina dispara pelas veias de Adelaide enquanto ela escuta os passos
nos degraus da escada. Olha ao redor – o salão empoeirado e bagunçado,
tintas e pincéis espalhados pelas superfícies, o rádio tocando jazz – e se
pergunta o que vai acontecer. Como vai acabar.
Adelaide sente o coração disparado. Assuma o controle, diz a si
mesma. Os jornalistas que a entrevistam sempre a descrevem como feroz,
como se ela fosse algum tipo de animal selvagem – chegou a hora de testar
se é capaz de usar isso a seu favor. O homem aparece na porta, e Adelaide é
tomada por uma onda de raiva.
– O que você pensa que está fazendo aqui? – grita, atravessando o
ateliê. – Responde logo!
O homem a encara, depois estica um dos braços para trás, para se
apoiar na solidez do batente da porta, como se tivesse perdido a coragem.
Ótimo.
– Srta. Fox... – começa ele, e se interrompe.
Adelaide se dá conta de que, até agora, nunca ouviu a voz dele.
Também nunca esteve tão perto do homem – ele sempre se manteve à
espreita, na visão periférica dela, uma figura nas sombras. Deduz que o
homem tem 30 e poucos anos, reparando no cabelo castanho desgrenhado,
nos olhos bem espaçados, no nariz grande e na pele do rosto marcada. Tem
um quê de maltrapilho, desleixado. É um fracassado.
– Então? – Os olhos dela cintilam. – O que está acontecendo? Porque
já cansei de ver você em todo lugar a que vou. E me recuso a continuar
aturando isso, está me ouvindo? Este lugar é uma propriedade privada e
você a invadiu.
– Eu...
Ele continua a encará-la. O efeito é perturbador.
– E aí?
O homem dá um passo até ela. O instinto diz a Adelaide para recuar,
para manter distância, mas ela se força a se manter firme.
– Você não se lembra de mim? – pergunta o homem.
Adelaide não tem a menor ideia de quem ele é, do que está falando.
– Eu gostaria que você fosse embora – ordena. – Antes que eu chame a
polícia.
Essa última frase é um blefe, claro. Não há telefone ali, nenhum meio
de comunicação. Foi assim que eles sempre preferiram, é a forma como ela
consegue trabalhar melhor. Ou pelo menos era, até hoje.
– Mas sou eu – insiste ele, em tom queixoso. – Da galeria.
– Que galeria? Do que está falando?
Adelaide abre e fecha as mãos ao lado do corpo, a adrenalina correndo
ainda mais rápido nas veias. Não está gostando nada da situação.
– Nós nos amamos – diz o homem. Ele até enrubesce um pouco com a
declaração, desviando os olhos dos dela. – Adelaide, você sabe disso.
Ele está delirando, então. Será que isso o torna perigoso?, pergunta-se
ela, sentindo uma pontada de vulnerabilidade. Seria tarde demais para
improvisar uma arma usando algum objeto?
– Sinto muito, mas está enganado – responde Adelaide com a maior
frieza de que é capaz. – E sou uma pessoa muito ocupada, como tenho
certeza de que você sabe, por isso, se não se importa...
– Só quero ficar com você – diz o homem, se aproximando.
Seus olhos estão úmidos, assim como a boca grande, de lábios
vermelhos. Ele não vai tentar beijá-la, vai? Adelaide recua um passo,
mesmo sem querer. Ele não iria realmente colocar as mãos nela ou
machucá-la. Iria?
– Vai embora – ordena Adelaide, mas ele continua a se aproximar. O
homem está sorrindo, parece feliz, e estende as mãos, sem tirar os olhos
dela. Agora Adelaide está realmente assustada. – VAI EMBORA!
Então...
Adelaide acorda com um sobressalto. O pesadelo de novo. Ela pisca
várias vezes e repara que Jean-Paul, seu cão da raça staffordshire bull,
marrom e atarracado, está de pé no travesseiro ao lado dela, o hálito quente
em seu rosto. O quarto toma forma ao seu redor – é de manhã cedo, e uma
luz rosa suave se insinua pelas persianas. Adelaide acaricia o corpo
compacto e musculoso do cachorro enquanto sua frequência cardíaca
diminui aos poucos.
– Obrigada, querido – murmura ela, se sentindo reconfortada com a
lealdade dele.
Adelaide vem sendo atormentada por esse mesmo pesadelo há anos, e
nunca deixa de ser assustador. Em parte, é por isso que ela deseja ver aquele
dia horrível registrado no papel, na esperança de enfim poder superá-lo.
Daria tudo para se livrar desse fantasma de uma vez por todas.
✳ ✳ ✳

Pouco depois, ela e Jean-Paul saem para o passeio habitual dos dois. É uma
manhã dourada de verão em Paris, e a luz cintila nas janelas da Place des
Vosges enquanto eles caminham sob as tílias. Isso não ajuda muito a manter
a imagem de Adelaide como uma velha raposa difícil de lidar – as pessoas
logo mudariam de ideia se vissem como ela é gentil com o cachorro. Ele
tem uma excelente dieta de cortes selecionados da boucherie local e dorme
na cama dela todas as noites (mandou fazer uma rampinha para ele subir até
o colchão, agora que as pernas envelhecidas do cãozinho estão menos ágeis
do que antes). Mas Jean-Paul merece tudo aquilo. Ela não tinha ideia de que
era possível amar tanto um cachorro.
Este é o exercício físico diário dos dois: uma caminhada em diagonal,
passando pelo centro da praça, para que Jean-Paul possa aproveitar a grama,
seguida de um circuito lento pelo entorno. Os garçons da brasserie fazem
um cumprimento respeitoso com a cabeça para o cachorro e, de vez em
quando, surgem com uma linguiça para ele ou tentam convencer Adelaide a
se sentar por um instante para saborear um café espresso.
– Uma cortesia da nossa parte, madame! – adulam, embora ela sempre
recuse.
Adelaide passa pelo hotel elegante e pelas galerias, pela casa de Victor
Hugo e por todos os turistas que fazem fila com suas mochilas enormes e
vozes altas. Às vezes – com menos frequência atualmente – ela ouve seu
nome ser mencionado: Ei! Não é a Adelaide Fox? Olha! É ela, não é?
Também já ouviu – de forma menos lisonjeira – os comentários que se
seguem: Espera, ela ainda está viva? Achei que tinha morrido!
– Ainda não, meu bem – Adelaide gosta de responder, em tom
sarcástico, só para ver a expressão de quem falou, seja de forma
constrangida e contrita, seja de forma emocionada.
Não, ainda não, repete para si mesma no momento, embora às vezes se
pergunte por que se preocupa em permanecer viva. A velhice – ela fará 80
anos em breve – não é para os fracos. Para ela, os últimos anos parecem as
terras áridas de uma vida: um território sombrio, com poucos motivos para
sair da cama. Se não fosse pelo cãozinho... Adelaide olha para Jean-Paul,
que se deteve para farejar um banco com otimismo infalível. Certa vez, ele
encontrou restos de uma baguete de presunto naquele local específico e
sempre faz questão de voltar, apesar de ter se frustrado todas as vezes desde
então. Pelo menos um dos dois ainda tem uma visão positiva da vida,
supõe.
Uma garotinha se aproxima. Jean-Paul é um ímã para as meninas, até
porque Adelaide fez uma coleira cintilante para ele, usando pedaços de
plástico transparente colorido que parecem pedras preciosas. É uma
bobagem, mas a faz sorrir. A menina está usando uma legging rosa de
aparência barata, uma camiseta com estampa de flores amarelas e aqueles
tênis brancos feiosos que têm luzes piscando no calcanhar. Um horror.
– Qual o nome do seu cachorro? – pergunta a criança em francês.
Adelaide lança um olhar intimidador para ela.
– Ele se chama “Eu como criancinhas” – responde em tom severo e se
afasta com Jean-Paul, mas não sem antes ver o rosto da criança se contorcer
de horror.
Bem feito para ela. Talvez a partir de agora pense duas vezes antes de
falar com estranhos.
Adelaide ouve o choro alto, mas não olha para trás. Ela é uma artista,
isto é o que sempre fez: cria um instante, um impacto, um drama. Ao longo
dos anos, seu trabalho forçou as pessoas a verem o mundo com outros olhos
– e, se seu livro de memórias algum dia sair do papel, fará o mesmo.
Ela franze a testa ao pensar nesse projeto aparentemente condenado ao
esquecimento. Houve muitos editores farejando suas histórias ao longo dos
anos, mas Adelaide manteve um silêncio arrogante – afinal, toda mulher
tem segredos. Então, seis meses atrás, foi publicada no Le Monde uma
matéria brutal, em que o jornalista basicamente descartava o trabalho da
vida de Adelaide, julgando-o infantil e narcisista. Magoada, ela não excluiu
imediatamente o e-mail persuasivo que chegou no mesmo dia, por acaso, de
mais um editor. Adoraríamos ajudá-la a contar a sua história com as
próprias palavras, ofertava. Remy contou a versão dele da história, mas e a
sua? Não gostaria de esclarecer as coisas?
Mais tarde, enquanto se dedicava a desenhar furiosamente o jornalista
do Le Monde em um instrumento de tortura com vários lápis enfiados nos
olhos – você não parece mais tão presunçoso agora, não é mesmo, meu
caro? –, Adelaide refletiu sobre as muitas fantasias de vingança que já havia
capturado com tintas ou carvão ao longo dos anos, sobre como era catártico
se vingar com seus pincéis. Talvez pudesse haver alguma vantagem naquela
história de livro de memórias, no fim das contas. Uma nova arma para
abater seus agressores. A arte da vingança, é como chama o livro
mentalmente, e o título parece satisfatoriamente adequado.
Seu sobrinho, Lucas, um advogado corporativo, vem sendo bem útil
com o contrato e a papelada. Além disso, após uma recente demissão,
alugou um apartamento perto de Adelaide, para ajudá-la não só com a
contratação de um ghost-writer como também com a triagem do arquivo de
obras dela e da documentação associada até então negligenciada. Com um
pouco de sorte, talvez consigam organizar uma nova exposição para
coincidir com a publicação do livro – ou essa era a ideia inicial.
Infelizmente, nenhuma das tarefas vem se revelando simples. É
impressionante o número de pessoas irritantes que eles conheceram e
descartaram na busca por um escritor decente – pessoas que reclamavam
das condições de trabalho, que discordavam de Adelaide sobre o conteúdo e
sobre o foco do texto... Foi um prazer se livrar delas. Aquelas pessoas mal
são dignas de dizer o nome de Adelaide em voz alta, menos ainda de serem
encarregadas de contar sua história de vida para o mundo. Quanto ao
arquivo, vale apenas dizer que Lucas tem muito trabalho pela frente. Como
é uma pessoa metódica e meticulosa por natureza, ficou vários minutos sem
palavras quando foi apresentado às salas de Belleville repletas de décadas
da arte de Adelaide, além das pilhas de correspondência e outros
documentos.
– Isso vai manter você ocupado – disse a tia com encorajamento, antes
de tropeçar em uma pilha de telas e provocar uma crise de tosse nos dois
com a nuvem de poeira que se ergueu e rodopiou até seus rostos.
Adelaide passa pela brasserie – está quase em casa – e Jean-Paul faz
uma pausa para beber água, com o habitual entusiasmo espalhafatoso, na
tigela de metal que os garçons sempre deixam ali para uso dos cachorros. O
joelho irritante está começando a doer, o quadril também – o corpo dela
parece protestar a cada passo.
– Rápido, Jean-Paul – diz ao cachorro, porque às vezes Adelaide tem a
sensação de que vai travar como uma máquina velha e enferrujada se parar
de se mover por muito tempo. – Vamos para casa, vem.
Para casa, ou seja, para o apartamento silencioso, com as lembranças e
os segredos, e com os rancores que ardem silenciosamente, em fogo baixo.
Mas não por muito tempo, diz Adelaide a si mesma ao chegar à porta e
procurar a chave. Depois que escolher um ghost-writer que esteja realmente
à altura da tarefa, todas as histórias virão à tona, abrasadoras, fazendo arder
as páginas em que serão contadas. Então, ninguém mais terá dúvidas se ela
ainda está viva ou não. Porque a vida dela – e daqueles que a cruzaram –
vai dominar todas as conversas.
Capítulo Dois

Jess Bright está sentada no Eurostar, que já começa a sair da estação


(próxima parada, Paris!), e não consegue conter a sensação de que a
qualquer minuto uma mão pesada vai apertar seu ombro – um fiscal do trem
ou até mesmo um policial – e ela vai ouvir as temidas palavras:
– Com licença, madame. Parece que a senhora está na vida errada.
Ela tem 47 anos e a síndrome do impostor continua profundamente
arraigada. Se a cortassem ao meio, encontrariam impressas, do começo ao
fim, as palavras “Na verdade, não é tão boa assim”. Ela é jornalista
freelance e mãe solo de três filhas adolescentes, nada tem de especial. Mas
hoje, para a surpresa de todos, Jess está a caminho de Paris para conhecer a
famosa Adelaide Fox, na esperança de escrever as memórias da artista. É
seu trabalho dos sonhos. Será que isso está mesmo acontecendo? Por mais
incrível que pareça, pelo jeito a resposta é sim.
Ela franze os lábios quando se lembra da reação do ex-marido à
novidade, na semana passada.
– Sem querer ofender, mas por que acha que ela convidou você? –
perguntou ele em voz alta quando Jess mencionou a oportunidade.
Sem querer ofender, David, mas por que você acha que eu não quero
mais estar casada com você?, ela sentiu vontade de retrucar. (Mas não
retrucou. Veja só como tinha evoluído! Além do mais, precisava estar em
paz com David para que ele ficasse com as meninas enquanto Jess estivesse
fora.) Por isso, ela se limitou a calmamente lembrar ao ex-marido que, anos
antes, quando Mia ainda era um embrião em seu ventre, Jess tinha
entrevistado a artista reclusa para o jornal de domingo em que trabalhava na
época.
– E, agora que Adelaide quer escrever um livro de memórias, o
sobrinho dela entrou em contato para perguntar se eu estaria interessada no
trabalho – completou Jess.
Engole essa, David.
Por Deus, como ela tinha amado aquele antigo emprego... Era
jornalista da área de cultura, e sua vida era um turbilhão de inaugurações de
exposições, entrevistas com autores e estreias de filmes. Jess tinha
influência naquela época, estava fazendo seu nome. Mas então se tornou
mãe – primeiro de Mia, depois de Edie e, por fim, de Polly – e passou a
trabalhar como freelancer, pegando um trabalho aqui, outro ali, sempre que
podia. Ela escrevia há anos uma coluna de conselhos em um dos jornais de
Kent (“Olhando pelo lado bom”), além de uma coluna sobre criação de
filhos para a Glorious, uma revista mensal (“Mamãe tem a palavra!
Mensagens da linha de frente da maternidade”). Muito bem, é verdade que
comitês de prêmios jornalísticos não estão batendo à sua porta, mas ela
havia conseguido seguir em frente. Quer dizer, até mês passado, quando a
revista Glorious decidiu adotar um modelo exclusivamente digital e
dispensou vários dos fiéis colunistas. Esse foi o fim das mensagens da linha
de frente da maternidade de Jess. (“Graças a Deus!”, exclamou Mia em tom
teatral quando Jess deu a notícia durante o jantar. “Não aguento mais ser
chamada de ‘piolhenta’ depois que as pessoas descobrem aquela história
dos piolhos.”)
As filhas sempre reclamaram porque Jess compartilhava mensalmente
as travessuras delas como conteúdo humorístico, mas a verdade é que a
coluna cobria grande parte das despesas que, no cenário pós-separação, não
são poucas. Além do mais, a maior parte dessas colunas acabava sendo
criação ficcional. Jess jamais mencionou a série de ataques de pânico de
Mia antes das provas do último verão, nem as amizades infelizes e tóxicas
com que Edie vive se envolvendo, nem mesmo a revelação desagradável de
que Polly andara roubando pertences de colegas de classe por dois períodos
inteiros no sexto ano. Bom, isso não importa: Jess se sente profundamente
grata pela sorte de ter recebido o e-mail de Lucas Brockes, sobrinho de
Adelaide, falando sobre o livro de memórias. Se tudo der certo, isso é o que
salvará Jess e as filhas da miséria iminente. Será que Jess estaria disposta a
ir a Paris, com hospedagem inclusa, para trabalhar com Adelaide em um
livro de memórias – a princípio durante um período de experiência de uma
semana, com a possibilidade de voltar e ficar por um mês? Claro que sim,
Lucas!
Ao que parece, o destino está sorrindo para Jess pela primeira vez – se
ela estiver à altura do trabalho, é claro. Escrever uma biografia séria é meio
que um salto de qualidade em relação às suas colunas de mãe e de conselho
sentimental, certo? Jess não consegue deixar de se sentir um pouco... bem,
enferrujada, por um lado. E intimidada, por outro.
– Eu tenho uma ideia – disse David, anos atrás, quando ela estava na
primeira licença-maternidade. – Coloco a minha carreira em primeiro lugar
enquanto você tira um tempo, passa alguns anos sem trabalhar. Aí você
pode fazer o mesmo quando estiver pronta para voltar ao trabalho, e vou
apoiar seja qual for o sonho que você tenha.
David é jornalista esportivo e, no momento em que deu a sugestão,
estava ansioso para acompanhar um colega mais velho em uma viagem à
Austrália, para cobrir o torneio Ashes de críquete – e provavelmente mais
ansioso ainda para escapar por quatro semanas, enquanto Jess se virava
sozinha para cuidar de um bebê de 3 meses que odiava dormir. Mas a oferta
de ter uma oportunidade semelhante mais adiante, para ir atrás das próprias
ambições, a fez aceitar. Jess fantasiou que um dia conseguiria aproveitar o
tempo prometido, sem culpa, e trabalhar em algo de fato significativo. Um
romance erudito e emocionante, talvez na disputa por numerosos prêmios
literários. Um roteiro incrível que a faria ser cortejada por diretores de
Hollywood, cercada de gente bonita. Ou um conjunto contundente de
investigações jornalísticas que mudariam a sociedade para melhor – seu
legado para o mundo.
Só que nada disso aconteceu. Havia sempre algo mais urgente que os
impedia de colocar a carreira de Jess no centro das atenções: vários
problemas com as meninas; os pais de David adoecendo um após o outro;
os torneios de críquete no exterior que ele era obrigado por contrato a cobrir
à medida que ficava cada vez mais conhecido. Ainda não é o momento
certo, dizia David, se desculpando, e depois da separação Jess começou a
acreditar que aquele indescritível e misterioso “momento certo” nunca
chegaria. Mas será que enfim chegou a vez de Jess? E se esse for o trabalho
que vai mudar tudo?
Ela toma um gole de café, observando a paisagem rural de Kent passar
pela janela, e se pega recordando a promoção para a qual se candidatou
certa vez quando trabalhava no jornal de domingo, lembrando como andara
pelo corredor após a entrevista, acreditando que tudo tinha corrido muito
bem. Porém, depois de se dar conta, constrangida, de que havia deixado a
bolsa para trás, Jess voltou e chegou à sala de entrevista bem a tempo de
ouvir a chefe, Lucinda, e a funcionária do RH, Maxine, falando sobre ela. O
problema com a Jess, dizia Lucinda, é que ela é pouco refinada. Será que
tem a seriedade necessária para conquistar a credibilidade dos nossos
leitores?
Desde então, essas palavras estão gravadas em sua mente, impossíveis
de esquecer. Mas imagine se ela for aceita para escrever as memórias de
Adelaide, e o livro for publicado em uma edição linda e sofisticada? Se isso
acontecer, na primeira oportunidade ela irá até a seção de cultura do jornal
onde trabalhava para entregar um exemplar à antiga chefe. Isso é refinado o
bastante para você, meu bem?, dirá, soltando o livro na mesa de Lucinda
com um baque surdo. Meu Deus, vai ser um momento lindo!
Jess volta a checar suas anotações, tomada por uma determinação
renovada. Ela vai trabalhar muito para aproveitar essa oportunidade. “O
trabalho árduo é o ingresso de vocês para uma vida boa”, gosta de dizer às
filhas, embora, infelizmente, nenhuma das três pareça disposta a levar o
conselho a sério. Mia prefere sair com um bando de amigos escandalosos
(“sua galera”) e Edie é capaz de passar horas deitada na cama vendo vídeos
no YouTube. Já Polly é inteligente e tem raciocínio rápido, então faz o
dever de casa com o mínimo de esforço possível. “Pronto!”, costuma
cantarolar, fechando o caderno e jogando-o no chão com alívio evidente.
Jess pega uma caneta na bolsa e sublinha algumas palavras em suas
anotações.
– Adelaide Fox? Aquela feminista que fazia parte de um grupo muito
legal de mulheres artistas, né? Não foi ela que destruiu a exposição do
marido em Berlim ou coisa parecida? – indagou sua amiga Becky, quando
Jess lhe contou sobre a proposta de trabalho.
Mas há muito mais em Adelaide além disso. De acordo com a pesquisa
de Jess, a artista deixou a casa dos pais e a escola aos 16 anos e se mudou
para uma ocupação com um grupo de amigos, então fez o próprio nome aos
20 anos com uma série inovadora chamada “Trabalho”. Adelaide se tornou
uma figura-chave no movimento London Bohemian, um coletivo de
mulheres na vanguarda da onda de contracultura dos anos 1960, que se
tornaram notáveis artistas conceituais, designers e escultoras, transitando
por círculos underground radicais.
Depois disso, há algumas lacunas nas versões on-line da biografia de
Adelaide. Na pesquisa que fez para a entrevista anterior, Jess encontrou
vários boatos sobre a artista: casos amorosos tempestuosos, um filho
misterioso, vícios e um desentendimento qualquer com Margie Flint, uma
colega – ao que parece, as duas ainda não se falam, mesmo tantos anos
depois. Há também um período passado em Berlim (um colapso nervoso?),
além do misterioso suicídio de um homem em uma casa no campo que era
usada como ateliê pelas Bohemians.
Adelaide é um enigma há décadas. Apesar dos numerosos artigos e
entrevistas, de alguma forma sempre conseguiu transitar entre perguntas
sem nunca revelar muito. Quando Jess a conheceu, a artista se mostrou uma
pessoa interessante e animada, mas disposta a falar apenas sobre sua
exposição na Tate e pouco além disso. Ela também pareceu meio irritada, a
princípio, ao descobrir que a entrevista seria conduzida por uma repórter
júnior (Jess), e não pela jornalista principal de cultura do jornal, como
prometido (Lucinda infelizmente estava com uma crise de gastroenterite).
Verdade seja dita: Jess falou que ela “não conseguia sair do trono” para
tentar explicar por que a chefe realmente não podia estar presente.
(Pensando bem, talvez isso tenha sido pouco solidário de sua parte, mas ao
menos Lucinda nunca saberia.)
– Uau, que vida – disse Becky depois de ouvir as histórias. – Você tem
que conseguir a vaga, Jess. Uma viagem de trabalho a Paris, sua sortuda!
Cuidado, vou começar a odiar você se isso ficar ainda melhor.
Apesar do incentivo de Becky, Jess teve algum receio de passar tanto
tempo fora de casa. A sensação piorou quando, na manhã seguinte, viu
aquele garoto, Zach, saindo inesperadamente do quarto de Mia, que só tem
17 anos (“Meu Deus, mãe, a gente é só amigo, não me olha desse jeito!”),
sem falar na tornozeleira de ouro que recentemente encontrou no bolso da
saia de Polly e que definitivamente não pertence à filha (“Ganhei de
presente, mãe, não estou mentindo!”). No entanto, por mais estranho que
pareça, ela agora está no trem e os receios ficam para trás como folhas ao
vento. Vai ser como reviver o ano sabático que passou em Paris depois da
universidade, pensa Jess, feliz: a liberdade deliciosa de fazer exatamente o
que quer no tempo livre. Longas caminhadas noturnas pelas ruas antigas
enquanto as brasseries se enchem de clientes, a Sacré-Coeur cintilando
como uma linda pérola na encosta escura, as luzes brilhando na Torre Eiffel
para um milhão de fotos turísticas...
E todo mundo vai ficar perfeitamente bem sem ela por alguns dias,
lembra a si mesma. Becky prometeu alimentar a gata Albertine, e as
meninas vão estar seguras com David. Além disso, ele já trabalhou no
exterior inúmeras vezes, e ela teve que se virar sozinha. Jess se pega
lembrando de novo do trabalho árduo dessas semanas, só ela e uma
bebezinha que não dormia, enquanto o marido aproveitava a vida em
Brisbane. Está incrível aqui!, dizia ele nas mensagens que mandava
periodicamente, e Jess ficava com vontade de jogar o celular pela janela.
David realmente deve muito a ela.
– Mesdames et messieurs – diz o sistema de som do trem. – Nous
arrivons à Paris maintenant.
No momento, Jess sente uma onda de emoção percorrer todo o seu
corpo. Está acontecendo. Está mesmo acontecendo!
✳ ✳ ✳

É claro que Jess já esteve em Paris com David e as meninas em vários


momentos ao longo dos anos – viagens de fim de semana, férias na
Disneyland Paris, estadas de alguns dias na cidade a caminho de
acampamentos mais ao sul –, mas naquelas ocasiões estava sempre
cuidando de outras pessoas. Eram os desejos e as necessidades dos outros
que tinham prioridade: ver o Mickey em vez de dar um passeio tranquilo
pelo Louvre, por exemplo. A insistência de David para que subissem pela
escada da Torre Eiffel, em protesto contra os preços do elevador, quando a
preferência de Jess teria sido não apenas pegar o elevador, como também
esbanjar em uma taça de champanhe cara no topo do monumento.
Agora ali está ela, chegando sozinha à cidade, deslizando a mala pela
plataforma, sentindo um arrepio causado pela mais pura alegria. Jess passa
rápido pela catraca e entra na estação como se nunca tivesse ido embora,
com imagens de si mesma aos 22 anos caminhando a seu lado. Aquele tinha
sido um período muito feliz de sua vida – recém-formada, determinada a
aproveitar algum tempo no exterior antes de pensar em algo mais adulto,
como encontrar um emprego decente. Ela trabalhou por um período em
uma sorveteria (quem diria que era possível enjoar de sorvete?) e depois
conseguiu um emprego como camareira em um hotel elegante no chique 6o
arrondissement, perto do Jardim de Luxemburgo. E se apaixonara por
Georges, um homem mais velho e bonito que a instruíra em relação a tudo o
que havia de mais interessante – principalmente nos quesitos sexuais, mas
também a levou à ópera e ao balé no Palais Garnier e lhe ensinou sobre o
vinho francês. Jess frequentou bares decrépitos com a nova amiga, Pascale,
e dominou a arte de andar de bicicleta em ruas de paralelepípedos, além de
ter aperfeiçoado seu francês – incluindo a habilidade de dar de ombros e
gesticular.
Além de fazer Jess assinar um contrato e um acordo de
confidencialidade, o sobrinho de Adelaide, Lucas, também providenciou
acomodação em um hotel no bairro do Marais, então ela pega o metrô até
chegar à estação Saint-Paul. Na saída, o calor da cidade envolve sua pele
enquanto ela olha ao redor para se orientar. Parece um sonho admirar de
novo os edifícios elegantes, cor de marfim, com suas venezianas e
varandas, os cafés e as tabacarias com toldos, o carrossel infantil girando ao
som de uma música alegre em uma área central pavimentada bem à sua
frente. Um casal toma champanhe em taças de haste longa em um bar do
outro lado da rua; ciclistas passam, os pés ágeis nos pedais; mulheres de
terninhos chiques e óculos escuros deixam rastros de perfume de angélica
por onde passam.
Oi, Paris, sua linda, pensa Jess, sentindo-se momentaneamente
impactada com tudo. Mesmo se o trabalho acabar sendo só um bico de uma
semana, parece o melhor tipo de presente, daqueles de que ela não sabia que
precisava até agora. Ela checa o mapa no celular, se vira e começa a andar.
O hotel fica em um encantador edifício antigo, em uma rua tranquila, a
dez minutos do metrô. Há buquês de flores de cerejeira ao redor da porta da
frente – artificiais, obviamente, mas ainda assim o efeito é muito bonito.
Por acaso, o quarto dela fica no último andar.
– Peço desculpas, madame, mas o elevador não está funcionando – diz
o homem atrás do balcão da recepção enquanto lhe entrega a chave com um
movimento expressivo das sobrancelhas escuras.
O homem parece determinado a falar com ela em um inglês com
sotaque forte, embora Jess só tenha falado com ele em francês, e com uma
fluência que considera bastante decente. Além disso, ela é
inquestionavelmente uma “madame” agora, percebe, e não consegue
impedir uma pontada de nostalgia por seus dias de “mademoiselle”, mas
então diz a si mesma que está sendo ridícula.
Depois de subir com a mala os cinco lances da escada antiga e já
bastante gasta, Jess chega ao quarto suando. Porém, ao abrir a porta, vê o
lindo sótão pintado de branco com vigas de carvalho no teto, persianas na
janela e um minúsculo banheiro privativo, e logo esquece o cansaço. Ela
larga a mala e corre até a janela, que dá para uma pequena praça de
paralelepípedos com árvores e bancos no centro, rodeada pelo que parecem
ser uma crêperie, uma boulangerie e uma brasserie. Há guarda-sóis com o
logotipo do refrigerante Orangina do lado de fora de um café, e dá para
ouvir música e vozes, risos de crianças, o zumbido de uma lambreta
próxima... É perfeito, pensa, quase chorando com a súbita onda de
felicidade que a invade.
Cheguei bem. Essa é a vista do meu quarto!, diz ela, mandando uma
foto da janela para as meninas. Tudo bem aí em casa? Estão sobrevivendo
sem mim?
BONJOUR, PARIS!, manda para Becky junto com emojis da bandeira
francesa, de um croissant, de uma baguete, de uma garrafa de vinho e da
Torre Eiffel. Cheguei!
Depois, ela não resiste e manda a foto também para a mãe, Samantha.
De volta a Paris para um trabalho de uma semana – vou entrevistar uma
artista famosa, conta ela, com uma indiferença estudada. Jess aperta
“Enviar”, tentando não se retrair diante da própria carência. O que isso diz
sobre ela... uma mulher de mais de 40 anos, ainda buscando a aprovação da
mãe? Pensando bem, é melhor nem pensar a respeito.
– Ah, meu bem... – disse Samantha, quando Jess lhe contou que perdeu
a coluna “Mamãe tem a palavra!”. – Essa é uma profissão tão instável, não
é? Tão precária!
Sim. Muito inconstante e precária em comparação com medicina, a
carreira escolhida pelo irmão de Jess, Owen.
“Meu filho é médico, sabe?” sempre foi o bordão de Samantha
Stanton; é surpreendente que ainda não tenha mandado imprimir as palavras
em uma camiseta. O menino de ouro Owen estudou medicina em
Newcastle, onde ainda mora. Agora o Dr. Stanton, um ortopedista, é casado
com Deanna, uma geriatra, e eles têm dois filhos pequenos. Praticamente no
instante em que Deanna anunciou que estava grávida, a mãe de Jess já
começou a esvaziar a casa em Gravesend, onde Owen e Jess cresceram, e
logo colocou a propriedade à venda para poder se mudar para perto deles,
no norte.
Hoje a casa de Samantha fica a cinco minutos da elegante rua
residencial do filho, onde vivem médicos e advogados. Ela mora em uma
propriedade recém-construída, e um dos quartos impecáveis é descrito
como “o quarto dos meninos”, e sobre a lareira são expostas fotos de Jake e
Ollie, as estrelas em torno das quais o mundo da mãe de Jess gira.
– Aqueles meninos me deram uma vida totalmente nova! – Samantha
gosta de dizer, até mesmo para Jess, cujas três filhas maravilhosas mal
recebem atenção da avó.
Jess está sempre com a sensação de que ainda tem 7 anos e está se
roendo de ciúmes da bicicleta cintilante que o irmão ganhou de Natal. No
mesmo ano, ela recebeu apenas uma boneca de plástico com cabelo de
náilon flexível e um olho que nunca fechava direito, de forma que sempre
parecia piscar de um jeito sarcástico. Sim, parecia dizer aquela piscadela.
Mau negócio. Nós duas sabemos disso, garota.
As filhas não responderam – talvez David as tenha levado ao Nando’s
e ao cinema para assistir ao último filme da Marvel, e todas agora queiram
viver com ele o ano todo em vez de morar com a mãe velha e chata. Eles
ainda estão tentando encontrar o caminho ideal como uma família de pais
separados, mas não está sendo fácil. Depois de toda a questão com Bella,
Jess tinha se esforçado ao máximo para fazer o casamento arruinado
funcionar, para os dois continuarem juntos, mas seu amor-próprio se esvaiu.
Ela não conseguia dormir, sentia que estava enlouquecendo e desatava a
chorar em intervalos regulares. Então, no mês de maio, quando faltavam
duas semanas para completarem vinte anos juntos, Jess decidiu que o
relacionamento vinha agonizando havia tanto tempo que já estava além da
reanimação. David chorou e prometeu mudar, mas ambos sabiam que ele
não era capaz. As meninas ainda se ressentem por acharem que Jess
desmembrou a família. “Pelo amor de Deus, mãe, por que não sabota logo
as minhas provas finais também?”, reclamou Mia amargamente na época,
enquanto Edie, pelo que pareceram meses a fio, respondeu a todas as
reclamações ou críticas com um estridente “Meus pais são separados, me
deixa!”. Essa situação faz a culpa atormentar Jess todos os dias, mas ela se
mantém firme em sua decisão. É melhor assim.
Sentada na cama, olhando para a tela estática do telefone, ela tem um
súbito instante de clareza. Não é disso que se trata sua viagem a Paris, não é
mesmo? São quatro da tarde e ela só precisa se encontrar com Adelaide
amanhã – o resto do dia é todo dela. Primeiro vai se refrescar rapidamente.
E mudar de roupa. Depois vai retocar o batom, borrifar perfume nos pulsos
e se aventurar pelas ruas ensolaradas que vai chamar de lar ao longo da
próxima semana. Ou por mais tempo, se der a cartada certa. Vai tomar um
café espresso e ficar vendo o mundo acontecer enquanto escolhe sem pressa
em que restaurante jantar mais tarde.
É disso que se trata. A aventura em Paris está começando.
Capítulo Três

Adelaide espera na sala do apartamento, sentada no sofá de veludo cor de


ameixa estilo Luís XVI. O cômodo dá vista para a praça, com duas janelas
enormes que permitem a entrada da luz da manhã – um espaço grandioso,
pensado para impressionar, contendo lareira de mármore, lustres de cristal,
mobília antiga e grandes espelhos dourados.
A campainha toca exatamente às dez horas, e o som logo é seguido
pelos passos pesados de Marie-Thérèse, que vai atender a porta. A
governanta é uma pessoa lúgubre, de pele malcuidada, com um resfriado
permanente. Se foi batizada em homenagem à musa carismática e atlética
de Picasso, então decerto foi a escolha de nome mais desastrosa de todos os
tempos. Ela está com Adelaide há seis semanas e sua presença é um pouco
repulsiva, mas a mulher é meticulosa na limpeza (até as lâmpadas foram
espanadas) e ainda não quebrou nada, o que é mais do que se pode dizer de
suas antecessoras. Por ora, ela fica.
Logo soa uma batida na porta, e as orelhinhas de Jean-Paul se erguem
de onde ele está enrodilhado no chão, perto dos pés de Adelaide.
– Entrez – diz ela.
Aqui vamos nós.
Por favor, que isso dê certo, pensa quando a porta se abre. Em geral,
Adelaide gosta de pouquíssimas pessoas, e Jessica foi uma das exceções.
Ela a considerou séria e atenta, alguém que sabia muito sobre arte, bem
diferente dos muitos jornalistas idiotas que conheceu desde então, que só
lhe fazem perguntas banais e se fixam no relacionamento de Adelaide com
Remy. Não é de se admirar que ela evite a imprensa há tanto tempo...
Marie-Thérèse entra e anuncia a recém-chegada com um murmúrio, e
Adelaide pede que sirva uma bandeja de café. Atrás dela, surge outra
mulher, usando um vestido verde-oliva de aparência um tanto barata, com
cinto e sandálias de salto anabela e uma bolsa preta grande pendurada no
ombro. Mas essa não é Jessica Martindale, a ex-redatora da New Yorker,
eloquente e de uma inteligência impetuosa. Adelaide franze a testa, sem
saber o que pensar. A menos que a mulher tenha feito uma cirurgia corretiva
drástica. Quem é essa?
– É bom revê-la – diz a recém-chegada, parecendo nervosa mas
determinada.
A mulher está com os longos cabelos castanhos presos em um rabo de
cavalo e seus olhos brilham quando observa ao redor. O coração de
Adelaide pesa quando ela se lembra de Jessica Martindale e de seus cabelos
muito curtos e grisalhos, os penetrantes olhos azuis por trás dos óculos sem
aro e uma infinidade de anéis, mais parecendo um soco-inglês. A mulher
diante dela parece uma estudante desajeitada. Talvez seja a assistente de
Jessica e chegou antes da chefe? Adelaide supõe que não é exagero
imaginar Martindale com uma comitiva.
– Meu Deus – comenta a criatura, boquiaberta –, que sala linda...
Ela não continua porque Jean-Paul se levanta, latindo. Ele às vezes
sente uma aversão violenta pelas pessoas sem motivo aparente, embora no
geral seja um bom juiz de caráter. Talvez Jean-Paul também estivesse
esperando Jessica Martindale.
– Obrigada – diz Adelaide ao cão, em tom severo.
Isso costuma ser o suficiente para silenciá-lo, mas não hoje – Jean-
Paul continua a latir e avança em direção à mulher, que cambaleia para trás,
assustada, e solta um grito nervoso, torcendo um tornozelo por causa
daquelas sandálias absurdas. Ah, por Deus. Então a mulher não gosta de
cachorros; a situação só fica pior a cada minuto. Adelaide se lembra de
Jessica Martindale, que, depois de tomar duas taças de champanhe, pegou o
celular para mostrar fotos de seu galgo. Só então Adelaide se dá conta de
que a mulher à sua frente disse “É bom revê-la”. Então elas provavelmente
já se encontraram em alguma ocasião – mas quando?
– Jean-Paul, já chega! – exclama Adelaide, frustrada tanto com o
cachorro quanto com a própria mente agitada. – Venha cá agora mesmo.
Ele solta um último latido desafiador antes de se virar, relutante, na
direção dela. A mulher, entretanto, se mantém à distância, já não tão
sorridente.
– Desculpe, eu...
– Você tem medo de cachorros? Ele nunca mordeu ninguém –
interrompe Adelaide e, incapaz de resistir, acrescenta: – Pelo menos, ainda
não.
Quem fala é o lado sombrio nela que reage com prazer ao desconforto
de outras pessoas. Custa ser gentil?, implorava desesperadamente a mãe
quando Adelaide era uma garotinha. Bem, não existe mesmo uma forma
gentil de perguntar “Desculpe, mas quem é você?”. Que Deus a ajude, ela
não está conseguindo pensar em nenhuma.
– Não é que eu tenha medo de cachorros – diz a Jessica errada, sem
muita convicção. – É mais porque... Bem, eu sempre tive gatos, então...
Ela se interrompe, por causa do desprezo que vê no rosto de Adelaide.
Malditas sejam as pessoas que gostam de gatos. Picasso, Warhol,
Dalí... todos renomados amantes de gatos e, a julgar pelas histórias que se
contam sobre eles, também completos idiotas. E podem dizer que falei isso
mesmo, pensa ela, dando uma palmadinha carinhosa em Jean-Paul enquanto
ele se deixa cair no chão ao lado de Adelaide mais uma vez, soltando um
suspiro.
Ela gesticula, incentivando a outra mulher a se aproximar.
– Venha e sente-se. E não ligue para o Jean-Paul, na verdade ele é um
bobão, como todos os staffies.
Jessica lança um olhar cauteloso para o suposto bobão e se senta na
poltrona que Adelaide indica. Neste momento, entra a arfante Marie-
Thérèse, tum-tum-tum, com uma bandeja de chá e café, e há certa agitação
enquanto o leite é servido e mexido, dando a Adelaide tempo para pensar.
Se a mulher à sua frente fosse assistente de Martindale, é de se imaginar
que ela já teria mencionado a chefe. Ela teria dito Jessica vai se juntar a
nós em vinte minutos ou algo assim, certo? Além disso, a mulher não é
glamorosa o bastante para trabalhar para Jessica Martindale. Assim, volta-se
à velha questão: quem é ela? Sentindo-se cada vez mais desesperada,
Adelaide vasculha a memória, retornando à conversa em que ela e Lucas
discutiram quem tentar como ghost-writer.
– É um tiro no escuro, porque ela sem dúvida vai estar ocupada, mas
tem aquela tal de Jessica que escreveu uma matéria quando eu estava
divulgando a exposição Escuridão – falou Adelaide.
Era início da noite, dois fins de semana atrás, e Lucas chegara com
caixas de comida vietnamita para que pudessem planejar uma nova
estratégia.
– Jessica... – murmurou ele, digitando rapidamente no computador. –
Você está falando da matéria na...
A memória de Adelaide falha um pouco naquele momento, porque
agora ela está se perguntando se ele realmente disse New Yorker ou se ela
apenas presumiu que sim, porque era aquilo que estava na sua mente.
Adelaide lembra que se sentia cansada naquela hora. Um tanto dispersa por
causa dos terríveis tremores em suas mãos que haviam recomeçado, e
acabara tomando uma grande quantidade de conhaque na esperança de que
pudesse ajudar. (Uma ilusão, infelizmente.) É possível que ela também
estivesse distraída porque eles estavam na sala de jantar e Jean-Paul sempre
gosta de rolar no tapete áspero favorito dele, arqueando as costas de alegria.
Na maioria dos dias, Adelaide tem a sensação de que há poucos motivos
para sorrir no mundo, mas um cachorro que rola alegremente sempre é
capaz de conquistá-la.
Será que foi esse o erro?, pergunta-se agora, sentindo a apreensão
aumentar. Será que, sem querer, eles acabaram convidando a Jessica errada
para ir a Paris porque Adelaide estava ocupada demais olhando com ternura
as contorções de seu cachorro e acabou não prestando a devida atenção à
conversa? Ah, céus.
A esta altura, as duas já estão com as xícaras na mão e a outra mulher –
a Jessica errada misteriosa – aguarda em expectativa.
– Então... seja bem-vinda – diz Adelaide finalmente.
Por ora, ela vai ter que seguir em frente, supõe. Mas a verdade é que,
agora que está examinando de novo a mulher, nota algo vagamente familiar
nela. Aqueles olhos castanhos sérios, o formato do rosto... alguma coisa
surge em sua memória distante, embora ela não consiga localizar mais
detalhes. Mas provavelmente Jessica escreveu sobre ela no passado (É bom
revê-la) e fez um trabalho bom o bastante para estar no banco de dados de
Lucas.
– Jessica, certo? – arrisca Adelaide, apostando que suas suposições
estão corretas. – Fez boa viagem ontem? O hotel é adequado?
Ela só está perguntando por educação, sem se importar muito com a
resposta, mas Jessica – que não contesta o nome – subitamente começa a se
derramar em elogios ao hotel e à generosidade de Adelaide, enrubescida
como se estivesse se martirizando por ainda não ter agradecido. Meu Deus,
ela parece mesmo inquieta, fica mexendo na pulseira com dedos nervosos e
cruzando e descruzando as pernas na altura do tornozelo. A campainha de
alerta continua a tocar em um canto escuro da mente de Adelaide. Aquela
mulher já fez isso antes, certo? É só um nervosismo inicial, certa agitação
no começo da entrevista, como Adelaide lembra. Algo a deixara insegura
por um tempo. Ela vai se recuperar.
Adelaide levanta a mão porque Jessica ainda está tagarelando.
– Que bom. Fico feliz que esteja tudo bem. Agora... vamos começar?
Os minutos estão passando e ela não tem tempo nem paciência para
conversa fiada. Não vê a hora de comentar com Lucas a respeito.
– É claro. – Jessica abre a bolsa e pega um notebook, um caderno e
uma caneta. Também pega o celular e o ergue no ar. – Tudo bem para você
se eu gravar essas sessões?
– Com certeza – responde Adelaide. – E eu farei o mesmo.
Ela estreita os olhos para a mulher para deixar claro o que quer dizer:
Você pode parecer um amorzinho, mas é jornalista e sei que não devo
confiar no seu tipo. Adelaide se atrapalha para colocar o próprio celular
para gravar, e suas mãos começam a tremer como de costume. Inferno.
Pelo menos Jessica não dá sinais de reparar nos tremores. Ela já parece
mais confiante, mais à vontade com os apetrechos de trabalho ao redor.
Adelaide sempre foi assim também. Quando a colocavam diante de um
microfone, congelava. Mas bastava enfiar um pincel na mão dela e era
como se estivesse protegida por uma armadura. Não que tenha usado muito
o pincel desde que seu corpo tolo e envelhecido começou a lhe pregar
peças.
– Então, como você gostaria de fazer? – pergunta Jessica. – Imagino
que já tenha ideias sobre a estrutura e o tom do texto... Poderíamos
construir a narrativa em torno de obras suas particularmente significativas,
talvez, ou de lugares onde você viveu ou trabalhou, ou...
– Como se trata de um período de experiência – interrompe
Adelaide –, sugiro que eu comece falando sobre os meus primeiros anos,
então você pode redigir esse material como um capítulo de amostra. Sim?
A Jessica errada provavelmente não vai ter que se preocupar com a
estrutura do livro porque não vai ser ela a escrevê-lo, pensa Adelaide,
enquanto se pergunta em quanto tempo vão conseguir convocar Jessica
Martindale.
Jessica assente, obediente.
– Sim, é claro. – Então, sua expressão passa da seriedade para uma
empolgação radiante. – Sinceramente... muito obrigada por me convidar
para vir aqui. Esse é o trabalho dos meus sonhos e estou determinada a dar
tudo de mim para tornar esse livro um enorme sucesso. Sei que a última vez
que nos encontramos foi para conversar sobre a exposição na Tate, e foi
basicamente só uma conversa de negócios, por isso me sinto muito
emocionada por você confiar em mim para escrever a história da sua vida.
Pode contar com a minha total boa vontade para o que funcionar melhor! –
Ela se interrompe e volta a enrubescer. – Isso se eu for aprovada no período
de experiência, é claro.
A exposição na Tate... Ahhh, sim. A última exposição de Adelaide em
Londres. Ela passou uma semana dando entrevistas exaustivas para TV,
rádio e imprensa escrita antes da inauguração – e jurou a si mesma que
nunca mais repetiria aquilo. Agora, Adelaide se lembra vagamente de ter
conhecido Jessica em um hotel gelado, com sofás excessivamente macios e
funcionários obsequiosos. Na verdade, as lembranças estão voltando com
uma plenitude gratificante, principalmente a indiscrição um tanto duvidosa
de Jessica, que explicou que a chefe não pôde comparecer por conta de um
problema gástrico repulsivo qualquer. Mas o resultado da entrevista foi uma
matéria muito boa – sem os ardis ou as críticas veladas que já tinham sido
usados tantas vezes, sobretudo se o profissional em questão fosse um
homem invejoso e inseguro.
– Obrigada – responde Adelaide em tom rígido. – Se você estiver
pronta, podemos começar, então. A minha infância. Bem...
Ela faz uma pausa quando uma série de imagens passa por sua mente.
Os locais bombardeados no East End, onde costumava brincar com os
irmãos. Os verões no campo, em Pickering, recolhendo ovos recém-postos
pelas galinhas cacarejantes da avó. A sala de aula com cheiro de giz, a
coceira insuportável do sarampo, a emoção de sair de casa e ir morar com o
grupo com que se identificava, os anos na escola de artes. Além de outras
coisas secretas que ela nunca contou publicamente: o rubor no rosto
magoado do irmão mais novo quando ele lhe dera as costas pela última vez;
o pai batendo na mãe com tanta força que ela ricocheteou na porta; a
sensação da caixa de fósforos na mão, com o diabo sussurrando em seu
ouvido, incitando-a a se vingar...
Ah, meu Deus. Ela se lembra de uma coisa terrível. A abertura da
exposição na Tate: um evento grandioso, glamoroso, com flashes de
câmeras, champanhe e críticos inclinando a cabeça para fazer anotações
enquanto examinavam as telas. E também a mulher pálida e magra, em um
terninho creme, correndo para se apresentar, a enviada do jornal de
domingo que fora originalmente escalada para entrevistá-la. Lindsay
alguma coisa? Louisa? Uma mulher cheia de desculpas abjetas, que se
mostrara uma terrível bajuladora. E Adelaide... Ah, minha nossa. Àquela
altura, ela já estava arrebatada, tonta com a beleza da exposição, lisonjeada
pelos elogios que soavam tão gloriosos em seus ouvidos a noite toda. Mas
isso não era desculpa para o que ela disse.
No presente, Adelaide escuta a tosse baixa e educada de Jessica.
– Deve ser difícil saber por onde começar – diz ela. – Mas suas
histórias não precisam estar em nenhum tipo de ordem cronológica neste
momento... Posso resolver isso quando editar o texto. Talvez possa começar
me contando sobre os seus pais?
Adelaide se abaixa para dar uma palmadinha em Jean-Paul, tentando
se concentrar no momento, naquela sala, em vez de voltar novamente
àquele dia na Tate, quando humilhara desnecessariamente a chefe de Jess.
– Ah, sim, ouvi dizer que você pegou algum vírus terrível – respondeu
à mulher (Lilian? Lorraine?). Algo no rosto bonito e sorridente da outra a
fez se lembrar de Coco, o que talvez explicasse a crueldade por trás das
palavras seguintes: – Para ser sincera, estou surpresa por estar usando uma
roupa creme, levando em consideração o que me contaram – continuou
Adelaide. – Ficou o dia no trono, não é mesmo?
A mulher (Lucille? Lucinda, é isso) engoliu em seco antes de colocar
um sorriso artificial no rosto, com os olhos cintilando de vergonha, ou
talvez de raiva. Ou mesmo lágrimas, pelo que Adelaide se lembra agora. Ela
torce – tardiamente – para que a jornalista sentada à sua frente não tenha
sofrido as consequências. Opa. Seria o carma finalmente chegando para
puni-la por seus pecados? Será que Jessica está ali em busca de uma
oportunidade de se vingar através de um texto cruel?
– Meus pais, sim... – apressa-se a dizer Adelaide. – Robert e Geraldine
Brockes.
Então ela embala na história, a compostura retornando gradualmente
enquanto narra com tranquilidade o temperamento explosivo do pai e as
mudanças de humor monumentais da mãe, relembrando as histórias mais
engraçadas e cativantes sobre os irmãos. Entre uma coisa e outra, ela ainda
está em dúvida sobre essa Jessica, embora, levando em consideração o que
acabou de recordar, provavelmente tenha uma dívida com a mulher. No
entanto, Adelaide ainda não pretende revelar nada muito pessoal. Seus
segredos terão que esperar.
Capítulo Quatro

À tarde, quando Jess sai do apartamento de Adelaide – um espaço de uma


grandiosidade intimidante –, parece quase impossível acreditar em algo do
tipo “Olhe pelo lado positivo”. Ela não consegue pensar em nada positivo
para tirar da experiência. Primeiro foi o cachorro correndo em sua direção e
sua reação constrangedora e assustada. Então – pior – a expressão de “quem
diabo é você?” no rosto de Adelaide. Jess não estava esperando exatamente
um reencontro amigável ou algo do gênero, mas o vazio total foi enervante,
para dizer o mínimo. Além disso, havia a própria Adelaide – reservada e
difícil de lidar. A mulher usa os cabelos, agora da cor de estanho, em um
corte muito curto, quase hostil, e sua própria natureza parece hostil. Várias
vezes, quando Jess se atrevia a aprofundar alguma história, Adelaide se
fechava e uma máscara ocultava sua verdadeira expressão. Não é da sua
conta, dizia a máscara.
Se aquilo fosse uma entrevista, não haveria problema – 1.500 palavras
para publicar on-line ou impressas. Elas poderiam se limitar a remar em
águas rasas, evitando as profundezas mais turvas. Mas, para um livro de
memórias, com certeza o objetivo era elaborar, revelar mais de si mesma,
certo? Ainda assim, Jess sente que passou o dia inteiro tentando obter mais
informações em vão.
– Você pode me contar sobre alguns objetos que havia no quarto da sua
infância? – perguntou, na esperança de conseguir alguns detalhes do cenário
com os quais pudesse evocar uma cena. – Como era a cozinha? Você
associa algum cheiro àquela época? O que vestia para ir à escola? Você
tinha uma melhor amiga, ou amigo? Já amava desenhar?
Foi um trabalho árduo, tirando leite de pedra. Mas faz surgir em sua
mente uma pergunta: o que Adelaide está escondendo dela? Afinal, nem se
quisesse Jess poderia revelar qualquer segredo, não depois do contrato
rigoroso que precisou assinar. Talvez Adelaide relaxasse nos próximos dias,
assim que o vínculo entre as duas se estreitasse um pouco mais. Jess torce
muito para que isso aconteça.
Ainda assim, há um lado bom: são apenas duas da tarde e ela já está
liberada pelo resto do dia. Seria melhor digitar logo as gravações dessa
manhã, enquanto tudo ainda está fresco na memória. Mas... Seus passos se
tornam mais lentos à medida que ela se aproxima do hotel. Jess pensa que
seu lindo quarto no sótão vai estar muito quente a esta hora. Então se
lembra da pracinha na rua mais adiante, de como foi empolgante passear
por ela na noite anterior – da bela taça de vinho que degustou com prazer na
brasserie, dos deliciosos moules frites. Que se dane, já se passou muito
tempo desde o café da manhã e Adelaide não lhe ofereceu almoço. Jess está
desanimada e morrendo de fome, apostando que o estabelecimento faz um
croque-monsieur arrasador, sem economizar no queijo. O trabalho pode
esperar.
A brasserie Les Amours está bem cheia quando Jess entra, mas, para
sua alegria, algumas mesas ao ar livre ainda estão desocupadas. Ela vai
direto para um lugar com uma boa vista da praça. Relaxa na cadeira,
deixando o sol aquecer seu rosto e seus braços, e é recepcionada instantes
depois por um garçom de avental branco que murmura “Madame” e deixa
na mesa uma cesta de pães deliciosos e uma garrafa alta de vidro com água
gelada. Jess consegue sentir o retorno gradual do equilíbrio, as decepções
da manhã já se aplacando. Qualquer novo trabalho tem seus desafios no
primeiro dia, lembra a si mesma. E ela certamente é capaz de lidar com um
cachorro latindo e com uma chefe brusca se o outro lado da moeda for o
que está tendo no momento: um almoço tardio em uma linda praça
parisiense, pardais voando por entre os raios de sol, a cidade ao alcance da
ponta dos dedos. Jess solta o ar lentamente e mordisca um pedaço de pão. É
claro que é capaz, diz a si mesma, mais encorajada. Ainda mais quando o
pão tem um gosto tão bom.
– Madame? Já quer fazer o pedido?
O garçom está de volta à mesa, absurdamente bonito com os cabelos
escuros penteados para trás, olhos castanhos bem-humorados e dentes
brancos uniformes. Infelizmente, o rapaz tem metade da idade dela, mas
ainda é bom admirar a beleza de outra pessoa.
Jess pede um croque-monsieur em francês, embora, como o gerente do
hotel no dia anterior, o garçom responda em inglês.
– Uma salada para acompanhar, madame? Uma porção de fritas? – Ele
percebe a hesitação dela e dá uma piscadela. – São batatas fritas muito
saborosas – sussurra, como se fossem cúmplices. – Famosas por serem
muito boas.
É uma tolice, mas Jess se dá conta de que está enrubescendo como
uma garota de 20 anos.
– Bem, nesse caso – ela responde –, eu com certeza aceito as famosas
batatas fritas. Les frites célèbres! – acrescenta. – Merci, monsieur.
Jess se recosta na cadeira, de óculos escuros, e fica vendo o mundo
passar, como se fosse apenas mais uma francesa descolada com a vida sob
controle. Duas jovens – estudantes? – passam por ela de bicicleta, com
pastas e livros enfiados nas cestinhas do veículo, as pernas magras e
bronzeadas abaixo dos shorts jeans. Um homem de cabelos brancos, usando
um terno marrom desbotado, toma café do lado de fora da crêperie próxima
e ergue a mão nodosa em cumprimento quando percebe o olhar de Jess.
Uma vespa zumbe, talvez atraída pelos refrigerantes na mesa vizinha, onde
uma mulher tenta acalmar o bebê apoiado em seu ombro enquanto duas
crianças pequenas brigam irritadas.
A vespa se aproxima de Jess, que dá um tapa no inseto. Mas ela bate
com força demais e acaba derrubando sem querer o copo de água no chão, e
o objeto se estilhaça em uma explosão de cacos brilhantes. Ah, meu Deus!
É isso que dá querer bancar a francesa descolada, pensa, gemendo
silenciosamente enquanto começa a catar os cacos de vidro maiores e deixa
os óculos escuros caírem. Como se isso não bastasse, no instante seguinte
ela ouve uma voz masculina dizer seu nome:
– Como assim, a Jessica errada?
Na mesma hora, ela se vira para ver quem é e bate com a cabeça na
perna da mesa.
Jess vê apenas de relance um homem alto, de cabelos escuros,
passando com o celular no ouvido, antes de registrar uma estranha umidade
em sua mão. A tontura a envolve quando ela vê duas manchas vermelhas
nas pedras abaixo – nunca lidou bem com sangue.
Não desmaie, diz a si mesma, encolhendo-se ao perceber que o homem
mais velho do outro lado da rua está se levantando, aparentemente
preocupado com ela. De alguma forma, conseguiu transformar o momento
tranquilo em um drama, garantindo a si mesma o papel da protagonista
menos chique e sofisticada possível. Esse não é o cenário de “Jess em
Paris” de seus devaneios.
– Madame? Está tudo bem?
Jess não sabe o que é mais mortificante – ter quebrado o copo da
brasserie, ter feito um senhor octogenário se levantar preocupado ou o
garçom sexy estar agora agachado ao lado dela, tão perto que Jess consegue
sentir o perfume da colônia de especiarias dele.
– Sinto tanto, je suis désolée! – lamenta Jess, enquanto o rapaz
pressiona um guardanapo limpo na mão ensanguentada dela e a ajuda a se
sentar na cadeira.
– Imagine! Foi um acidente. – Ele pega uma vassoura e uma pá de
lixo, recolhe os cacos, então se vira para ela com uma sobrancelha erguida e
a expressão bem-humorada. – Eu acho... Ou talvez você tenha odiado
aquele copo e quisesse mesmo acabar com ele. Copo idiota!
Apesar de tudo, Jess ri.
– Pessoa idiota – corrige, apontando para si mesma.
– De jeito nenhum, madame. De jeito nenhum. – Ele aponta para a
mão cortada, na qual ela pressiona um guardanapo. – Só um instante. Já
volto para cuidar disso.
Jess fica sentada, tentando se recompor, então se lembra de olhar de
relance para a crêperie, onde vê o homem de terno marrom ainda olhando
em sua direção. Mesmo àquela distância, a inclinação da cabeça dele
transmite sua preocupação. Ao encontrar o olhar dela, o homem levanta o
polegar com uma expressão questionadora. Jess assente, com um sorriso
débil. Para ser sincera, ela deveria simplesmente aceitar que nunca vai
conseguir passar por uma pessoa descolada e ponto-final. O único consolo é
que está longe de casa e nunca mais vai ter que ver nenhuma dessas
pessoas.
O garçom reaparece com um kit de primeiros socorros e se senta à
mesa.
– Posso? – pede ele, apontando para a mão dela.
Jess assente e respira fundo enquanto ele afasta o guardanapo
ensanguentado e começa a limpar o ferimento com delicadeza.
– Você não vai morrer – informa o rapaz, o ar solene, e ela engole uma
risada que é quase um soluço. – Nada de hospital para você hoje, madame.
– Obrigada – diz ela, sentindo-se como uma criança enquanto ele abre
um curativo adesivo e o coloca com cuidado.
– Voilà. Ok? Ahhh, e olha só, a sua comida está chegando.
Um segundo garçom aparece e deixa um croque-monsieur dourado e
cheiroso na mesa, junto com um recipiente de metal com batatas fritas
douradas. O primeiro garçom pega outro copo de uma mesa vazia próxima
e o enche de água.
– Acho que agora vai ficar tudo bem, certo? – pergunta ele, com uma
das lindas sobrancelhas erguidas.
Jess assente em agradecimento enquanto sente o cheiro bom de seu
almoço. O garçom faz uma pequena reverência e a deixa a sós.
O croque tem uma quantidade extravagante de queijo, as batatas estão
perfeitamente fritas. Por alguns instantes, Jess se recusa a pensar em
qualquer outra coisa enquanto come. Acho que agora vai ficar tudo bem,
certo?, ela ouve o garçom dizer mais uma vez em sua mente, com aquela
convicção comovente. E, ao menos por ora, ele está certo. Afinal, ela está
em Paris. O sol brilha no céu. O homem idoso de terno marrom se levanta
da mesa e acena para ela antes de seguir em uma caminhada lenta pela
praça. Ela acena de volta, já se sentindo melhor. É a mulher mais sortuda do
mundo, diz a si mesma.
Capítulo Cinco

Já revigorada pelo sanduíche de queijo e pelas batatas fritas – por algum


motivo, parece muito mais sofisticado quando chamamos de croque-
monsieur et frites –, Jess passa o resto da tarde no hotel, transcrevendo a
conversa gravada com Adelaide. Embora tenha muitas entrevistas em seu
currículo, o som da própria voz a faz estremecer, principalmente agora,
quando ouve o titubear nervoso nas primeiras perguntas. Também é
frustrante ouvir de novo a forma como Adelaide evita assuntos difíceis com
ar experiente, escapando dela vezes sem conta. No áudio, Jess aceita
educadamente os becos sem saída da conversa em vez de desafiá-los. Uma
jornalista melhor teria pressionado com mais força aquele muro, diz a si
mesma com um suspiro. Uma jornalista melhor não teria se deixado abalar
pelo glamour, pelo cachorro, pelo cenho permanentemente franzido de
Adelaide.
Há também o fato de que as duas têm personalidades completamente
diferentes. Ao contrário de Jess, Adelaide parece... bem, muito austera, para
ser franca. Amarga mesmo. Enquanto ouvia sobre a infância turbulenta e
barulhenta de Adelaide no East End, Jess se lembrou com melancolia da
própria infância mais tranquila e dissera:
– Deve ter sido delicioso e aconchegante ter tanta gente na família.
Mas aquilo só serviu para fazer Adelaide encará-la como se estivesse
louca.
– Aconchegante? – repetiu, fuzilando Jess com o olhar. – Naquela
época não havia aquecimento central, Jessica. Na metade do tempo, não
tínhamos dinheiro nem para comprar lenha.
Jess engoliu em seco, sentindo-se incompreendida.
– Eu só quis dizer...
Mas Adelaide estava balançando a cabeça.
– Não era aconchegante – afirmou categoricamente, como se
encerrasse o assunto.
Mesmo assim, ainda há muito tempo para as duas se conhecerem
melhor, lembra Jess a si mesma. Elas terão sessões juntas em todos os dias
úteis, e depois, na tarde de sexta-feira, Jess vai voltar para casa e terminar o
capítulo de amostra, que deve entregar até domingo. Ela tem esperança de
conseguir escrever algo bom a ponto de garantir o trabalho – se isso
significa evitar romantizar a vida de Adelaide com palavras como
“aconchegante”, que seja.
Quando Jess enfim tira os olhos do computador e do bloco de notas, já
são sete da noite, e seus olhos estão começando a doer. Ela precisa de um
pouco de ar fresco e de comida, pensa, e estica o corpo ao se levantar da
pequena escrivaninha.
Jess veste uma blusa bonita e calças curtas e desce os vários lances de
escada mais uma vez.
– Bonsoir, monsieur – cumprimenta de passagem o homem na
recepção, apenas para ouvi-lo responder com “Boa noite, madame” em
inglês.
Jess promete a si mesma, sorrindo, que vai continuar a insistir em falar
francês. Do lado de fora, no Marais, a tarde tropical se tornou uma noite
amena. Os prédios ganham um tom cor de mel enquanto o sol se põe no
céu, e as ruas estão cheias de casais, famílias e grupos de amigos em busca
de bares e restaurantes, de diversão para a noite que se inicia. Jess sente
suas preocupações desaparecerem ao seguir em direção ao rio e absorve o
clima alegre ao redor. Ela atravessa a Pont des Arts e segue caminhando
pela margem esquerda do Sena, sob as árvores, enquanto se lembra de uma
noite em que caminhou até ali de mãos dadas com Georges. Ele a levou
primeiro a uma exposição no Palais des Beaux-Arts, em seguida a um jantar
no Les Deux Magots, antigo ponto de encontro de celebridades como Joyce,
Sartre e Picasso.
– E agora... nosso também! – disse ele, erguendo a taça de vinho tinto
com uma piscadela, aparentemente apreciando a expressão fascinada dela.
Ah, Georges... O alto e belo Georges, com seu queixo bem marcado e
sotaque sexy. Ele tinha 28 anos na época e, para a Jess inexperiente, de
apenas 22, parecia um homem de verdade se comparado aos estudantes
imaturos com quem ela namorara. De todos os lugares icônicos onde
poderia conhecer um lindo francês, os dois tinham começado a conversar
enquanto examinavam as prateleiras da Shakespeare and Company, a
famosa livraria, não muito longe dali. Um debate bem-humorado sobre se
Hemingway era ou não um idiota (conclusão: sim) levou ao convite dele
para um drinque, então... Bem, àquela altura, Jess já estava fisgada e se
afogando naqueles expressivos olhos castanhos.
Ela olha tolamente ao redor, esperançosa, como se fosse possível se
deparar com Georges caminhando ali naquele momento, seus destinos se
cruzando mais uma vez. Em todos os anos desde então, ela nunca namorou
ninguém tão culto, tão atraente ou tão másculo quanto Georges. Será que
ele ainda mora em Paris?, pergunta-se, com uma pontada de saudade da
própria juventude, e da dele também. Georges provavelmente se casou com
uma francesa deslumbrante que faz sexo oral nele sempre que ergue uma
sobrancelha para ela. Jess consegue até imaginar o apartamento chique dos
dois em um bairro belissimamente descolado, com obras de arte nas paredes
e muitos amigos boêmios que passam por lá para desfrutar de conversas
intelectuais. Ora, boa sorte para ele.
A essa altura, Jess já chegou à grande área do Faubourg Saint-Germain
e atravessa a rua para cortar caminho pela Esplanade des Invalides, vendo
os gramados exuberantes cheios de turistas tirando fotos do pôr do sol na
Torre Eiffel. O hotel onde ela trabalhava como camareira ficava perto dali, e
Jess leva a mão rapidamente ao pescoço, procurando o cordão da amizade
barato que usou por meses a fio, a metade dourada de um coração aninhada
entre suas clavículas. Pascale, sua melhor amiga na época, havia comprado
os cordões – um de cada, com metades que se encaixavam. Jess ainda deve
ter a peça em algum lugar em casa, não a jogaria fora. Quanto a Pascale e
sua metade...
Ela para abruptamente, então se vira para que o hotel e as ruas ao redor
fiquem para trás mais uma vez. O sangue lateja por seu corpo enquanto Jess
se afasta depressa. Tantos anos se passaram, mas ela nunca superou o
choque do término de sua estadia em Paris, pensa ela, sentindo as lágrimas
embaçarem repentinamente a visão. Depois de tudo, uma escuridão se
instalou nela, um espaço cheio de tristeza e remorso. Não pense nisso,
ordena a si mesma, e acelera o passo.
Quando está a uma distância segura, Jess se senta em um bar à beira do
rio, com mesas na calçada e uma música de Stevie Nicks ao fundo, e pede
uma taça de vinho tinto. Então, para se distrair das lembranças de Pascale,
pesquisa o nome de Georges no celular e examina os resultados até chegar
aos perfis dele nas redes sociais. À medida que vai juntando as peças do
quebra-cabeça da vida de Georges nas décadas que se seguiram ao período
em que ficaram juntos, Jess não consegue conter uma deliciosa sensação
palpitante. Você.
Ele ainda é bonito, percebe, demorando-se em uma foto dele com
amigos em um bar. Os cabelos agora ostentam mechas grisalhas, mas seus
olhos cintilam na tela, com a boca em uma expressão de divertimento,
como se estivesse sorrindo para ela. É apenas uma imagem, mas é
impossível não sorrir de volta. O que houve entre os dois nunca passou de
uma aventura de verão – nunca evoluiu para um relacionamento sério, com
discussões, concessões ou atritos. Talvez por isso Georges sempre tenha
sido uma boa lembrança, um padrão elevado estabelecido em uma idade
impressionável. Quando Jess começou a sair com David, alguns anos
depois, foi o estilo despojado de Georges que lhe veio à mente quando viu a
roupa de cama preta de David e aquela toalha de banho horrível com a
palavra “CARA” de um lado e “BUNDA” do outro. Pensando bem, as
pistas de que o ex-marido de Jess sempre seria um garotão estavam
presentes desde o início.
Quando ela conheceu Georges, ele estava fazendo doutorado. No
entanto, de acordo com a investigação na internet, ele abandonou o meio
acadêmico e agora trabalha como arquiteto. Na verdade – e o coração de
Jess acelera quando lê isso –, a empresa dele parece ter sede na Praça da
Bastilha, bem pertinho do hotel dela. O destino não poderia ter facilitado
mais. Oh là là, ela imagina Pascale dizendo em sua cabeça, porque a amiga
sempre tinha opiniões fortes sobre como viver a vida ao máximo. O tempo
foi generoso com esse aí. O que você está esperando?
Jess toma outro gole de vinho, sentindo-se inesperadamente abalada. E
curiosa também. Seria ousado demais enviar uma mensagem para Georges,
mandar um oi simpático? Não faria mal algum, certo? Afinal, ela não está
mais casada – e quanto a ele... Ora, ela não viu nenhuma foto de esposa ou
namorada nas redes sociais, mas mesmo que ele esteja envolvido com
alguém, não seria uma tentativa de assédio da parte dela. Pelo menos não
imediatamente, admite para si mesma, os lábios se curvando à medida que
novas lembranças vêm à mente. Principalmente, na verdade, a lembrança de
como ele sempre a fazia se sentir muito feminina. E desejada. Às vezes, os
dois mal conseguiam manter as mãos longe um do outro.
Oi, Georges, digita Jess. Talvez esta mensagem pareça vir direto do
passado, mas na verdade estou em Paris a trabalho no presente mesmo –
sim, aquilo parece importante, como se ela fosse uma pessoa muito bem-
sucedida profissionalmente – e me peguei pensando se por acaso você teria
algum tempo livre nos próximos dias para a gente colocar o papo em dia.
O que acha? Tudo de bom, Jess.
Ela relê a breve mensagem e pressiona “Enviar”. Com certeza se
arrependeria se voltasse para casa sem pelo menos ter tentado, pensa
consigo mesma. Além do mais, só de estar ali já se sente diferente, como se
estivesse tirando férias da vida cotidiana. O que acontece em Paris fica em
Paris.
Começa a tocar “Hotel California” e Jess fica arrepiada; Pascale
adorava essa música, e é estranho ouvi-la logo depois de pensar nela. Jess
consegue imaginá-la dando um sorriso marcado por covinhas ao ouvir os
acordes de abertura, mudando a letra e adaptando-a ao hotel onde
trabalhavam, gritando a plenos pulmões: Bem-vindo ao Hotel d’Or em
Paris! Que merda de lugar, se olhar pra minha cara vai sacar.
Ah, Pascale... Jess daria qualquer coisa para ver a amiga de novo, com
aquelas covinhas e os olhos sorridentes, e adoraria até mesmo ouvi-la
cantando pessimamente. O que aconteceu com você, Pascale? Então seu
celular apita com a chegada de uma mensagem e Jess prende a respiração.
Seria Georges? As meninas estão bem? Não, é Becky, respondendo à voz
um tanto infeliz de Jess num áudio que mandou mais cedo. Eu acredito em
você!, escreve ela. Você vai conseguir, Jess! P.S.: Petiscos para cachorro na
sua bolsa amanhã = sua arma secreta.
É exatamente do que Jess precisava para afastar o humor melancólico
que a envolveu, e ela sorri. Becky está certa – ela vai conseguir. É claro que
vai! Amanhã é outro dia.
✳ ✳ ✳
Na manhã seguinte, Jess desce para tomar café da manhã e se pergunta onde
pode comprar petiscos para cachorro no bairro do Marais. Atrás do balcão
da recepção, há uma mulher negra muito elegante, mais ou menos da idade
dela, usando um vestido de linho branco impecável com um crachá que
indica o nome Beatrice.
– Bonjour – diz Jess com educação. – Posso perguntar uma coisa? –
continua em francês. – Você conhece algum lugar por aqui onde eu possa
comprar... – Ela hesita, sem saber como dizer “petiscos para cachorro”,
então recorre à língua materna. – Hum... comida de cachorro? Petiscos?
– Comida de cachorro? – repete Beatrice, parecendo confusa. – Você
está com um cachorro aqui?
– Não! – exclama Jess, já se imaginando expulsa do hotel por suspeita
de ter contrabandeado um companheiro canino. – Hum... Estou aqui para
fazer um trabalho para uma mulher... Adelaide Fox, já ouviu falar dela?
– A artista? Mas é claro! – responde Beatrice, então franze o cenho. –
Ela pede para você comprar comida de cachorro?
– Não, mas ela tem um cachorro que é muito... – Jess mostra os dentes
e rosna, e Beatrice, assustada, dá um passo para trás como se estivesse
preocupada com a saúde mental da mulher. Jess continua: – Quero que o
cachorro goste de mim. Quero comprar algo gostoso... délicieux!... para o
cachorro, para que ele pense: mon Dieu! Essa mulher é incrível.
Jess diz isso em uma mistura distorcida de inglês e francês, sem saber
se está fazendo algum sentido ou não, mas felizmente Beatrice sorri e
depois levanta um dedo no ar.
– Ah! Eu tenho a solução pra você. Vem comigo.
Jess a segue até a salinha de café da manhã. É um espaço informal,
com seis ou sete mesas, e um balcão para que os hóspedes se sirvam, com
máquina de café, jarras de suco e uma seleção de pães, doces e frutas.
Beatrice vai até o balcão, pega um guardanapo de pano e usa uma pinça
para selecionar duas fatias gordas de presunto da bandeja de frios.
– Voilà – diz ela, colocando o presunto no guardanapo e estendendo-o
para Jess. – O cachorro vai comer o presunto e... – Ela beija os dedos da
outra mão teatralmente. – Vai se apaixonar por você para sempre. Simples!
Jess cai na gargalhada, aceitando o guardanapo.
– Beatrice, você é um gênio – elogia. – Tudo bem mesmo se eu levar o
presunto? Você não se importa?
Beatrice olha ao redor com um ar cúmplice e dá uma batidinha no
nariz.
– Vai ser o nosso segredinho – diz ela. – Não vamos contar a ninguém,
certo?
– Jamais – garante Jess. – Muito obrigada. Você pode ter salvado o
meu dia.
Às dez horas da manhã, ela aperta a campainha de Adelaide com uma
expressão confiante. Redatora profissional apresentando-se para o serviço!
Está usando seu segundo vestido favorito (amarelo-mostarda) e um batom
vermelho poderoso, e tem um guardanapo cheio de presunto suculento na
bolsa. O sol está brilhando, e ela, Adelaide e Jean-Paul serão grandes
amigos em pouco tempo, Jess tem certeza disso.
– Bom dia – cumprimenta ela quando a governanta a acompanha até
Adelaide. Elas estão na mesma sala do dia anterior, mas agora Jess está
preparada para a grandiosidade e não se deixa intimidar. – Nossa, está um
lindo dia lá fora – continua a tagarelar, apontando para a janela. –
Absolutamente lindo!
Adelaide a encara com olhar desconfiado, mas não responde logo,
provavelmente porque Jean-Paul saltou de onde estava cochilando para latir
ferozmente. Jess encarna sua nova amiga Beatrice e enfia a mão na bolsa.
– E bonjour para você também, Jean-Paul – diz, tentando conter o
tremor na voz. – Tenho um presente para ele – comenta com Adelaide,
precisando falar alto, acima dos latidos. – Suborno descarado, infelizmente.
– Jess ergue o guardanapo. – Um pouco de presunto do café da manhã do
hotel. Posso?
Ela espera que Adelaide desaprove, talvez até que retruque que seu
precioso cão está em uma dieta especial e não pode comer nada tão
gorduroso, mas, para seu grande alívio, os olhos da mulher subitamente
parecem um pouco menos duros. E há, talvez, um brilho no olhar dela?
– Ah, meu Deus, Jean-Paul – fala Adelaide. – Você está prestes a ser
um garoto muito feliz. Agora, SENTA!
Jean-Paul, ao que parece, é facilmente manipulável quando se trata de
fatias de jambon. Ele senta, gira, deita, dá a patinha – faz quase qualquer
coisa que Jess pede – só para conseguir aquela recompensa altamente
desejável. Seus olhos castanho-escuros estão fixos nela o tempo todo em
que há presunto entre seus dedos, como se estivesse pronto para pular e
começar um show em um instante. Se ao menos fosse tão fácil conquistar as
pessoas...
– Somos amigos agora? – pergunta Jess, fazendo carinho nas orelhas
de Jean-Paul depois de ele devorar todo o presunto. – Vamos ser parceiros,
hum?
– Pelo amor de Deus, não conte a nenhum ladrão como é fácil
conquistar esse cachorro – diz Adelaide em tom irônico, mas pelo menos
não está fazendo caretas depreciativas sobre pessoas que gostam de gato,
como na véspera.
Elas começam a trabalhar, e Adelaide agora conta seus primeiros anos
de adolescência – ela descreve o professor de artes do ensino médio que lhe
ensinou perspectiva e estimulou sua criatividade – antes de passar para seu
período rebelde: a rejeição ao cristianismo da mãe e a recusa em frequentar
as cerimônias religiosas (“Foi um escândalo na família na época”, comenta
Adelaide com certo prazer), seguidas pelo tabagismo e pelo consumo de
bebidas alcoólicas quando ainda era menor de idade, além dos amigos
subversivos mais velhos com quem se envolveu.
– E seus irmãos? – interrompe Jess. Ela já ouviu aquelas histórias
antes, em outras entrevistas, e está ansiosa para ir mais fundo. – O que eles
acharam disso? Vocês quatro ainda eram próximos ou você também estava
se afastando deles?
– Eles... – Até o momento, Adelaide estava a todo vapor, mas as
perguntas de Jess a fazem vacilar. – Bem... digamos que meus irmãos mais
velhos não estavam de acordo. Eles eram pessoas sensatas e cautelosas.
Muito diferentes de mim.
– E o William? – pressiona Jess, mencionando o irmão favorito de
Adelaide. – Ele foi mais receptivo à pessoa que você estava se tornando?
Os olhos dela faíscam.
– Ele estava morto – retruca, irritada. – Não quero falar sobre ele.
– Ah!
Jess fica confusa. William morreu? Apesar da vasta pesquisa que fez
sobre a vida e a carreira de Adelaide, essa é uma lacuna nas informações
que coletou, e pode dizer, pela reação da mulher, que tocou em um ponto
que ainda a abala, mesmo décadas depois.
– Sinto muito – diz Jess em tom submisso, mas logo hesita.
Não basta para um leitor – nem para ela, a escritora – simplesmente
encobrir o que deve ter sido um momento importante e traumático na
infância da personagem central do livro. Jess se lembra da própria voz débil
na gravação do dia anterior e de como desejara ter sido mais firme, ter
pressionado mais Adelaide.
– Deve ter sido horrível – acrescenta ela, então respira fundo. Seja
corajosa. Insista. – Você diria que isso foi um catalisador para a mudança
no seu comportamento? O que aconteceu com a garota que adorava aulas de
artes, que nunca quis parar de desenhar?
Adelaide contrai visivelmente o maxilar.
– Eu disse que não quero falar sobre isso. Você tem algum problema
ou é só estúpida?
Jess engole em seco, o rosto quente com a grosseria da mulher, e leva
alguns segundos antes de conseguir responder:
– Eu entendo, e não precisamos falar objetivamente sobre a morte dele.
– Ao menos por hoje, embora ela garanta a si mesma que vai fazer o
possível para desvendar a história. – Mas estou interessada em você quando
era uma menina, uma jovem. O impacto que a perda do seu irmão teve em
você. E até como isso pode ter aparecido nos seus primeiros trabalhos.
Jess já ouviu entrevistas suficientes com artistas para saber que a arte
pode ser um meio de processar experiências e emoções pessoais, e muitas
vezes há um gatilho por trás de obras importantes. É uma pergunta
perfeitamente razoável.
Mas Adelaide baixa os olhos, entrelaça os dedos nodosos no colo e
cerra os lábios de um jeito aparentemente definitivo. Jess prende a
respiração e se pergunta se foi longe demais, se aborreceu a mulher ao
pressionar um ponto ainda dolorido. No entanto, pelo bem do livro de
memórias, ela precisa fazer isso, certo? Ninguém quer ler uma história de
vida totalmente inócua e higienizada, não é mesmo?
– Bem... – fala Adelaide por fim, com a voz rouca e baixa, como se
fosse necessário um grande esforço para pronunciar as palavras. – Foi
devastador. Ficamos todos... perdidos.
Jess permanece em silêncio. Esta já foi muitas vezes a ferramenta mais
eficaz em seu repertório de jornalista: deixar um vazio na conversa que o
entrevistado não consegue suportar e, por isso, o preenche. E, como
esperado, depois de vários segundos, Adelaide continua, com a cabeça
baixa, aparentemente perdida nas lembranças.
– Ele era meu norte – diz ela. – Um ponto estável e fixo na minha vida,
em torno do qual a minha criatividade... e o meu caos... podiam fluir. Tudo
mudou depois da morte do William.
Se essa fosse uma conversa com uma amiga, Jess já estaria
murmurando algo em solidariedade, com um braço ao redor dos ombros da
artista, mas ela se força a ficar quieta. Adelaide não é uma amiga – na
verdade, Jess se sente mais como uma caçadora observando a presa.
Qualquer movimento repentino, qualquer comentário fútil, e Adelaide
escapará, tornando-se cautelosa mais uma vez.
– E sim, você está certa, acho que houve uma correlação. Perder meu
irmão me deixou... sem amarras. Minha mãe ficou obcecada com o trabalho
doméstico e com a igreja. Meus outros irmãos estavam ocupados com as
próprias vidas. De repente, eu tinha um espaço e uma liberdade que não
existiam antes. E me sentia consumida por aquela raiva terrível e pela...
Ela se interrompe, sem concluir o pensamento, porque algo terrível
acontece: o celular de Jess acaba de emitir um som breve e alegre de
notificação, quebrando a magia. A expressão de Jess é de pura mortificação
– empolgada porque Jean-Paul não a atacara mais cedo, ela se esquecera
completamente de colocar o aparelho no modo “Não perturbe”. E agora o
clima confessional melancólico está destruído, e é tudo culpa da estupidez
dela. Jess sente vontade de se dar um chute!
– Pelo amor de Deus! – diz Adelaide, enfurecida.
– Desculpe – diz Jess, envergonhada, desligando o celular.
Droga! Logo quando estavam evoluindo também na relação entre elas.
No momento em que começava a atravessar a carapaça da mulher. Mas
então Jess vê o que está na tela e acha impossível não reagir. Georges
respondeu!
– O que foi? – pergunta Adelaide.
Nossa, e ela achando que estava mantendo uma expressão neutra...
Mas nunca foi boa em esconder os próprios sentimentos.
– Não é nada. Lamento ter interrompido – diz Jess, já passando o dedo
na tela para descartar a notificação.
Mesmo assim, sente uma pressão nos ouvidos e todo o corpo
esquentar, com uma empolgação crescente. O que ele escreveu? Não,
chega. Ela precisa se concentrar.
– Onde estávamos?
Adelaide franze os lábios.
– Talvez você possa se certificar de que não sejamos interrompidas
novamente. É muito perturbador ouvir barulhos bobos quando estou
tentando pensar.
– É claro – responde Jess, arrependida. E tira Georges dos
pensamentos. – Você estava me contando sobre sentir raiva e... – Ela faz
uma pausa porque Adelaide interrompeu a conversa sem terminar a frase...
teria que ouvir novamente aquele momento, para ver se conseguia adivinhar
o que a mulher estava prestes a dizer. – Sobre o período turbulento que você
estava passando – fala Jess. – Podemos continuar daí?
– Acho que eu já disse tudo o que precisava a respeito disso – responde
Adelaide, resistindo a ser guiada. – Talvez agora possamos seguir em frente,
para quando eu saí de casa?
Jess suspira. Obviamente ela preferiria descobrir o que aconteceu com
William e passar mais tempo investigando as emoções que a morte dele
provocou em Adelaide, mas se sente impotente para protestar. Sua
prioridade nesses primeiros dias tem que ser manter Adelaide dócil, mostrar
que é confiável.
– É claro. Que tal me falar como isso aconteceu? Como estava se
sentindo naquele momento? Me conta sobre o período que antecedeu a sua
partida.
Adelaide começa a contar uma história que Jess já conhece, detalhando
a arrumação da pequena mala amarela, o roubo de vinte libras da carteira do
pai enquanto ele estava bêbado, depois fala sobre o imóvel abandonado e
infestado de ratos na Poland Street, no Soho, que se tornou o lar dela e de
várias outras futuras celebridades daquele movimento artístico e cultural
que se iniciava.
– Então, depois que você se mudou para a Poland Street... – diz Jess,
deixando de lado sua frustração anterior. Ela sabe que é a partir dali que a
narrativa de Adelaide começa a mudar. – O que aconteceu?
Capítulo Seis

A ocupação na Poland Street era uma espelunca, não há dúvidas disso. A


cozinha ficava permanentemente úmida, por mais que acendessem um fogo
fumegante na lareira. A janela do quarto dos fundos estava quebrada e
deixava o ar gelado do inverno entrar, cortante como uma faca; cristais de
gelo formavam padrões cintilantes nos dois lados do vidro nas manhãs frias.
O mofo colonizava as paredes com manchas azuis exóticas, as roupas
ficavam bolorentas se fossem deixadas no mesmo lugar por muito tempo, e
o banheiro sempre cheirava tão mal que todos se tornaram especialistas em
banhos-relâmpago. Mas, para Adelaide, aquele lugar marcava uma clara
delimitação entre sua vida antiga e aquela outra, nova e emocionante, em
que não havia regras, onde podia fazer o que quisesse.
Seus companheiros de moradia eram dos tipos mais diversos – havia
Esme, amiga de escola de Adelaide, além do irmão de Esme, Bob, e alguns
amigos dele, todos unidos pelo desejo de escapar da casa dos pais e seguir a
vida sozinhos. Assim como Adelaide, Esme tinha talento para a arte,
enquanto um dos rapazes, Tony, queria atuar, e a namorada dele, Jeanette,
adorava moda e fazia roupas para todos. Eles tinham amigos que juntaram
guitarristas e cantores para formarem bandas, outros que tocavam piano em
pubs.
Eram tempos inebriantes. Tempos felizes. O Soho vibrava, a pílula
anticoncepcional acabara de ser disponibilizada, e o mundo parecia se abrir
diante dos olhos de Adelaide. Ela e Esme conseguiam trabalho de vez em
quando, ajudando a pintar cenários de teatro, e Adelaide também fazia
turnos como operadora de máquina em uma confecção, tal qual sua mãe
fizera antes dela, embora sua mente fervilhasse com ideias mais ambiciosas.
Ela divertia os colegas de trabalho nos intervalos fazendo desenhos dos
supervisores da confecção, e logo aqueles mesmos colegas a estavam
contratando para elaborar caricaturas deles mesmos e de seus entes
queridos. Mas ela ainda queria mais.
Adelaide vislumbrou uma oportunidade e começou a guardar retalhos
de tecido da confecção para fazer seus próprios itens em casa. Era fácil
costurar aventais em sua máquina, e eles eram itens populares no dia a dia –
sobretudo em uma época em que toda dona de casa que se prezava vestia
um avental todas as manhãs, como se fosse um uniforme. Logo Adelaide
tinha o estoque necessário para arriscar montar uma barraca no mercado de
sábado, onde seus aventais eram vendidos com uma rapidez gratificante.
Mas, em conflito sobre criar mais roupas de uso doméstico e escravizar
ainda mais o próprio gênero, não demorou muito para Adelaide começar a
fazer adendos secretos nos aventais. NÃO, OBRIGADA, ela costurou com linha
clara ao longo da bainha interna de um avental. NÃO SIRVO PRA ISSO. Ela
gostava da ideia de as mulheres usarem os aventais que costurava, com suas
mensagens subversivas, e involuntariamente se tornarem parte de um grupo
secreto de resistência. VOCÊ MERECE MAIS, ela as incentivava com linha de
bordar.
Logo a imaginação de Adelaide a levou ainda mais longe, e a voz
rebelde dentro dela foi ficando mais alta. Ela usou fios mais brilhantes,
colocou seus slogans em lugares de maior destaque. PREFERIA ESTAR LENDO
reivindicava em um. FAÇA VOCÊ. Mulheres jovens davam risadinhas juntas
quando viam o trabalho de Adelaide na barraca, embora também houvesse
lábios franzidos e resmungos das matriarcas mais velhas quando reparavam
nos produtos. Adelaide não deixou que isso a detivesse. Ela bordou lindas
flores na parte inferior de alguns aventais e escreveu a palavra LUTA na parte
de dentro da bainha superior, para que ficasse visível apenas para quem o
usava.
Foi uma ótima época, apesar de tudo. Ela estava pintando, produzindo,
se apaixonando e se desapaixonando... vivendo de verdade pelo que parecia
ser a primeira vez. O melhor de tudo é que parecia se esquivar da culpa e da
perplexidade que a sufocavam desde a morte de William – finalmente
conseguia respirar outra vez. Não que tenha mencionado esse último ponto
à ávida jornalista à sua frente, é claro.
Mesmo assim, Jessica dá a impressão de gostar da história.
– E foi naquele mercado específico... Berwick Street, certo?... que a
sua vida deu uma guinada inesperada, creio – diz ela, sorrindo como quem
já conhece o final feliz de uma história.
Ah, sim. E que reviravolta transformadora se provara aquela!
Encorajada por Esme, Adelaide tinha feito alguns aventais novos que
diziam apenas FODA-SE no bolso da frente em grandes letras vermelhas.
– Para contextualizar, isso foi no início da década de 1960, quando os
palavrões eram vistos como ultrajantes e ofensivos – esclarece Adelaide,
ainda capaz de visualizar as expressões chocadas dos frequentadores do
mercado de sábado quando ela pendurou os aventais à vista de todos.
Uma idosa colocou a mão enluvada diante dos olhos, como se a visão
das palavras pudesse cegá-la. Então, entrou em cena Ursula, à primeira
vista uma fada madrinha improvável – alta e de nariz adunco, aproximando-
se da barraca com as mãos atrás das costas, como um vigário em visita ao
mercado.
– A minha mãe comprou um dos seus aventais na semana passada –
começou a dizer sem preâmbulos, em tom severo. – E ficou muito
aborrecida quando descobriu a frase VOCÊ NÃO PRECISA SERVIR NINGUÉM
bordada na parte de dentro.
Adelaide já estava empinando o queixo, prestes a dizer que não dava a
mínima para o que a mãe daquela mulher achava, mas Ursula continuou.
– Mas eu adorei. E adorei aquele – declarou ela, apontando para o
avental de FODA-SE. – Foda-se mesmo, eu adorei.
Assim era Ursula. Uma alma gêmea.
– E fiquei aqui pensando – continuou ela, dando um sorrisinho ao ver a
expressão de alegria atordoada de Adelaide – se você tem alguma...
formação? Tem algum outro trabalho que possa me mostrar, um portfólio?
– Um portfólio? – repetiu Adelaide.
Não tinha muita certeza do significado da palavra. Seria algum
xingamento?
– Você é estudante de artes? – esclareceu Ursula. – Sabe pintar e
desenhar?
– Infelizmente, não tive tempo de responder às perguntas dela – conta
Adelaide a Jess no presente –, porque naquele momento um policial
apareceu e me disse que eu tinha que arrumar as minhas coisas e sair do
mercado, falou que eu estava infringindo as leis de decência em público.
Felizmente, isso não desanimou Ursula. Ela colocou algumas libras na mão
do policial, me ajudou a arrumar a mercadoria, então me levou ao pub mais
próximo. E aí...
Nesse instante, para irritação de Adelaide, alguém toca a campainha,
bem no momento em que ela se aproximava do fim da história. O ápice que
todo mundo conhece, a projeção de Adelaide de costureira de avental a
estrela da escola de artes. Ela ouve o tradicional ruído dos passos de Marie-
Thérèse, que se arrasta para atender a porta. Enquanto isso, os olhos de
Jessica estão cintilando.
– Sempre achei que a Ursula parecia uma lenda – comenta ela. – Que
mulher... É verdade que vocês duas ficaram sentadas lá no pub usando os
aventais de FODA-SE depois de alguns gins?
Adelaide não consegue conter o riso, porque a imagem ainda a anima.
– Com certeza. Eu estava totalmente disposta a usar o meu como uma
capa. – Ela imita o gesto de colocar a capa e Jessica dá uma gargalhada. –
Mas Ursula teve medo de que eu fosse presa, então...
Elas escutam uma batida na porta, que logo é aberta. É Lucas.
Jean-Paul fica louco de alegria e corre para encontrar sua bola de tênis
mais velha e nojenta para dar de presente ao seu príncipe. Foi Lucas quem
sugeriu a Adelaide que pensasse em arranjar um cachorro quando ela estava
passando por um momento especialmente sombrio e, embora Jean-Paul não
tivesse como saber desse detalhe, sempre agia como se estivesse em êxtase
quando via Lucas, como se fosse grato ao homem por ter dado aquela
excelente ideia. Enquanto isso, Jessica, que estava recostada na cadeira,
imersa na narrativa, apruma o corpo e desliga o gravador.
Os olhos de Adelaide encontram os de Lucas e ele balança levemente a
cabeça. Droga. Isso significa o que ela acha que significa?
Então a artista se lembra dos bons modos.
– Jessica... esse é Lucas, o meu sobrinho. Lucas, Jessica... hum,
desculpe, me lembra do seu sobrenome de novo?
– É Bright – diz Jessica. – Jess Bright. É um prazer te conhecer, Lucas,
estou adorando ouvir as histórias da sua tia.
Adelaide percebe que Lucas está se sentindo mal com toda a situação,
porque seu sorriso é breve quando ele murmura um oi. Depois, aponta para
a porta.
– Vamos...? Com licença, Jess, mas preciso falar com Adelaide por um
instante.
– É claro – responde Jessica educadamente.
A mulher deve querer mesmo pegar o celular, pensa Adelaide, para
poder checar a mensagem que a deixou tão agitada antes. Deve ser um
homem, com certeza. Adelaide termina o café e segue Lucas até a sala de
jantar.
– E então? – pergunta ela, sentando-se à mesa.
– Ela não tem interesse – diz ele categoricamente.
– Não tem interesse? – Adelaide mal consegue falar, tamanha a sua
indignação. – Como assim? Por que não?
Depois de ligar furiosa para Lucas na véspera e contar a ele sobre a
situação absurda em que se encontrava, ele prometeu localizar Jessica
Martindale e levá-la até Paris. As palavras exatas do sobrinho foram: “Vou
resolver isso, não se preocupe. Em alguns dias estaremos rindo dessa
história.”
Ora, ela não está rindo no momento. Como Jessica Martindale ousava
se recusar a escrever seu livro de memórias, sendo que a remuneração era
tão boa – e o trabalho tão bom? A oportunidade de trabalhar com a própria
Adelaide Fox! Como Lucas conseguiu fazer toda essa confusão?
Ele deixa escapar um suspiro e afunda em uma cadeira diante dela.
Quando Adelaide se mudou para aquele apartamento, logo após a morte de
Remy, época em que tudo parecia triste e desolador, tinha esperança de que
um dia a vida se tornaria divertida novamente e imaginou que aquele seria o
cômodo onde poderia reunir e entreter as melhores pessoas de Paris.
Adelaide pintou as paredes em um tom de berinjela e pendurou suas obras
nelas, escolheu a longa mesa de jantar de cerejeira e as elegantes cadeiras
combinando, que eram limpas diligentemente por Marie-Thérèse todas as
semanas. Em um armário em algum lugar estavam guardadas as toalhas de
mesa brancas, engomadas, e taças de champanhe em caixas, além de um
conjunto de pratos de porcelana fina com bordas douradas. Nada disso
jamais foi usado. Adelaide janta ali sozinha todas as noites e sente o espaço
zombar dela, diante de tamanho vazio.
– Ela é muito amiga da Elin Burling – responde Lucas, se referindo à
última jornalista que eles haviam convidado para fazer um teste para o
posto. – Pelo que pude deduzir, a Burling deve ter feito algum comentário...
hum... pouco lisonjeiro sobre o tempo que passou aqui.
Adelaide faz uma careta ao se lembrar da mulher sem humor e de voz
estridente, que reclamava o tempo todo. Não é difícil imaginá-la ainda
reclamando da experiência.
– Então, quem é a próxima na nossa lista? – pergunta ela, irritada.
A expressão de Lucas é tensa.
– Talvez seja necessário elaborar uma nova lista – diz ele. – Se essa
outra Jessica não estiver funcionando, é claro.
– Bem...
A verdade é que Adelaide já a descartou. Ela checou alguns trabalhos
daquela Jessica na noite anterior e só encontrou uma coluna de conselhos
no jornal e uma série de artigos muito prosaicos sobre maternidade. (É claro
que ela seria uma conselheira sentimental, pensa Adelaide, revirando os
olhos. É claro.)
– Quer dizer, ela não é a Joan Didion – fala, torcendo o nariz, depois
de um instante.
– Essa Joan estava na nossa lista? – pergunta Lucas, e Adelaide está
prestes a repreendê-lo por sua ignorância, até reparar em seu tom
impassível. – Vamos ser sinceros, Jess Bright escreveu um ótimo artigo
sobre você da última vez – continua ele. – Foi por isso que presumi que era
ela a pessoa que você tinha em mente.
– Sim, mas... Veja bem, ela é absolutamente agradável... e isso não é
necessariamente um elogio... mas há mais alguma coisa nessa mulher? –
Adelaide não quer que seu livro de memórias seja “agradável”. Sua
intenção é que seja como um punhal cravado no coração de todos que a
prejudicaram. – Só não acho que seja o meu tipo de pessoa – acrescenta.
– Mas... – Lucas se interrompe e cerra os lábios por um instante. – Mas
quem é o seu tipo de pessoa? Porque, sem querer ofender, parece que
estamos tendo bastante dificuldade para encontrar o escritor certo.
O tipo de pessoa dela? É uma pergunta justa. Na verdade, houve
apenas algumas poucas dessas pessoas ao longo de sua vida, e todas já estão
fora de seu alcance no momento. Ela acompanha os veios da mesa com o
dedo, sentindo-se subitamente desconsolada. Será que esta superfície algum
dia será coberta por uma toalha de mesa de um branco intenso e por pratos
elegantes?, pergunta-se. Será que algum dia esta sala de jantar estará
cheia de gente, de almas irmãs? Adelaide se dá conta de que as chances de
isso acontecer são mínimas.
– Você só está dizendo isso porque quer que esse trabalho acabe logo,
para que possa voltar para Londres – retruca ela, magoada.
– Só precisamos de alguém que escreva bem e consiga retratar
fielmente você e a sua história – diz ele, ignorando a alfinetada da tia.
Adelaide pode ver que o sobrinho está farto dela. Está se arrependendo de
ter oferecido ajuda. – Poderíamos muito bem deixar a Jess escrever o
capítulo, ver o que achamos do resultado e continuar a partir daí. Que tal?
Adelaide está prestes a questionar, mas então suas mãos começam a
tremer e ela precisa escondê-las debaixo da mesa antes que o sobrinho
perceba.
– Você está bem? – pergunta Lucas quando ela não responde.
Aquele corpo frágil e as peças que prega nela! Adelaide viu a mãe se
deteriorar terrivelmente com Parkinson e está convencida de que a mesma
doença está em seu futuro. Envelhecer é viver em um estado permanente de
pavor, se perguntando que parte do corpo será a próxima a desistir de você.
– Sim, estou bem – retruca ela, juntando as mãos na esperança de
acalmá-las. – Muito bem... – continua, derrotada. – Vamos seguir até o final
da semana.
Jessica pelo menos trouxe um pouco de presunto para Jean-Paul de
manhã, lembra Adelaide, o que é um ponto a favor da jornalista. Mas qual é
o sentido de tudo aquilo, se a mulher não tiver coragem de tocar nas feridas
das pessoas em prol de Adelaide?
Capítulo Sete

Jess franze o cenho assim que a porta se fecha atrás de Adelaide e Lucas.
Com base nos e-mails em tom profissional que haviam trocado, ela havia
esperado que o sobrinho de Adelaide fosse muito mais velho – um homem
de terno, antiquado e reservado. Mas ficou duplamente surpresa ao
conhecê-lo cara a cara. Antes de mais nada, Lucas deve ter a idade dela e,
na verdade, parece bastante acessível: usa camisa azul, jeans e tênis Vans.
Além disso, Jess tem a estranha sensação de que o caminho dos dois já se
cruzou antes. Mas como é possível?
Enquanto espera o retorno de Adelaide, a jornalista se ocupa relendo a
mensagem de Georges (ele quer se encontrar com ela!), até que uma série
de mensagens chateadas de Edie começam a chegar. Mãe, posso te ligar?,
diz a última. Jess disca no mesmo instante o número da filha do meio –
deve ser hora do intervalo da escola –, e a menina atende chorando e
precisando de consolo depois de um drama com amigos tóxicos. Jess
escuta, murmura todos os sons certos na hora certa e declara, em lealdade à
filha, “Mas é mesmo uma vaca”, pois sabe que é desse apoio unilateral de
que Edie precisa no momento.
– Que cretina.
Mas então ela escuta um som e se vira, encontrando Lucas parado ali,
encarando-a com uma expressão chocada. Ah, não. Ele não acha que ela
estava se referindo a Adelaide, acha?
– Preciso ir – murmura para Edie, com o rosto muito quente. – Era a
minha filha, ela brigou com uma amiga – explica rapidamente a Lucas. –
Estava falando dessa amiga, não de...
Lucas não está ouvindo. Parece um homem no limite da paciência.
– A Adelaide está cansada, para ela já basta por hoje – diz, antes de
chamar o cachorro. – Vamos dar um passeio, Jean-Paul?
– Você me ouviu? – pergunta Jess, enquanto guarda as coisas na bolsa
e sai correndo do apartamento atrás dele. – Lucas! Eu não estava me
referindo à Adelaide quando falei aquilo, ok?
Eles estão na escada fria e escura, e ele passa a mão pelos cabelos e
encolhe os ombros. O homem provavelmente seria bonito se sorrisse um
pouco mais, pensa Jess.
– É claro – fala Lucas, já descendo os degraus de pedra com o
cachorro.
Será que ele acredita nela? Jess não quer que o sobrinho de Adelaide
tenha uma ideia errada.
– A minha filha está passando por momentos difíceis, ok? – insiste,
correndo atrás dele.
Na verdade, Jess gostaria de falar com o orientador educacional da
escola e ter apoio profissional, mas Edie não arreda pé em relação a isso. Os
dedos-duros se dão mal, mãe, sempre argumenta a filha, como uma
presidiária cansada do mundo, quando Jess sugere falar com um professor
sobre o que está acontecendo.
– Eu estava tentando mostrar solidariedade, só isso – insiste ela, atrás
de Lucas. – Estava tentando fazer minha filha se sentir melhor!
Jess está tão agitada que sua voz aumenta de volume quando eles
chegam ao térreo. Jean-Paul a encara, alarmado, e Lucas também parece
surpreso.
– Lamento ouvir isso – diz ele, e para diante da enorme porta do
imóvel. Eles chegaram ao saguão do prédio, onde há um conjunto de
escaninhos de madeira para a correspondência e a bicicleta de alguém está
apoiada na parede. – Ela está bem?
– Está... Não sei – admite Jess, e seus ombros se curvam um pouco
quando ela imagina o rosto pálido e infeliz da filha. – A Edie tem só 15
anos. É uma idade difícil. Eu costumo estar em casa o tempo todo, então ela
deve estar achando a distância tão difícil de lidar quanto eu.
– Você quer voltar? – pergunta ele, examinando com atenção o rosto
dela com os olhos castanhos.
Jess repara que ele tem sobrancelhas muito bonitas e se pergunta se são
desenhadas por um profissional. Então o impacto da pergunta de Lucas
a atinge.
– Não! De jeito nenhum! – apressa-se em garantir, e logo se lembra da
conversa particular que Adelaide e Lucas acabaram de ter. O que foi aquilo,
afinal? – A Adelaide quer que eu volte pra casa? – pergunta em um
rompante, subitamente paranoica.
A capacidade dele de manter uma expressão neutra não é muito melhor
do que a dela.
– Não! De jeito nenhum – responde Lucas, em tom pouco convincente.
– Ela vai receber você amanhã no horário de sempre. – Ele abre a porta do
prédio e a luz externa invade o espaço. – Foi um prazer te conhecer – fala, e
sai com o cachorro.
Nesse momento, vendo-o se afastar, Jess se dá conta de onde o viu
antes: na véspera, quando estava agachada no chão na brasserie, depois de
quebrar o copo. Ele dissera o nome dela enquanto falava no celular, por isso
chamara sua atenção. Mas o que tinha dito? Para irritação de Jess, as
palavras exatas lhe escapam, por mais que ela vasculhe a memória. Que
final de manhã frustrante, pensa. Principalmente por ter sido dispensada
pelo resto do dia bem no momento em que Adelaide estava chegando a um
ponto crítico da narrativa, quando Ursula Fontaine, uma professora
influente da Universidade Goldsmiths, estava prestes a aceitá-la como sua
protegida. Esse trabalho não está sendo nada simples, pensa Jess, enquanto
abre caminho pelas ruas movimentadas do Marais.
– Madame! A mesa de sempre? – escuta alguns minutos depois,
quando chega à praça próxima ao hotel em que está hospedada.
O belo garçom da brasserie, o mesmo do dia anterior, acena e a
chama, e Jess fica tão lisonjeada por ser reconhecida, tão encantada com a
ideia de ter uma “mesa de sempre” em Paris, que não pode deixar de sorrir
em resposta e se aproximar. E que sensação de déjà-vu... porque lá está o
mesmo senhor da véspera, sentado na área externa da crêperie. Ele finge
tirar um chapéu para cumprimentá-la e Jess sorri de volta. Menos de 48
horas ali e ela já se sente quase uma moradora da cidade. Assim que deve
ser.
– Bonjour! Prometo que não vou quebrar nada hoje – garante ela ao
garçom, enquanto ele se apressa em puxar a cadeira para Jess e arruma os
potes de sal e pimenta com um exagero divertido.
O rapaz inclina a cabeça, fingindo não entender.
– Como é? – diz ele depois de um momento. – Não sei do que está
falando, madame. Não me lembro de nada quebrado. – Seus lábios se
curvam em um sorriso por um instante, e fica claro que ele está adorando a
brincadeira. – E, pelo que vejo, a sua mão ainda está aí, madame. Fico
satisfeito. Devo servir uma taça de vinho para comemorar?
Jess ri da óbvia tentativa de lhe vender uma taça de vinho. Na verdade,
não deveria aceitar, principalmente porque tem muito trabalho a fazer de
tarde, mas ainda está desnorteada depois daquela conversa com Lucas e se
vê incapaz de resistir à ideia de uma taça deliciosa e gelada de sauvignon
blanc. Ah, dane-se, pensa, e se vê aceitando na mesma hora o vinho
oferecido.
– A propósito, meu nome é Jess – diz, quando o garçom está prestes a
se afastar. – E você é...?
– Sou o Valentin – responde ele, estendendo a mão em um gesto
solene. – É uma honra te conhecer, Jess.
– Digo o mesmo, Valentin – comenta ela, piscando para ele enquanto
trocam um aperto de mão.
– Vou pegar o seu vinho, depois pode me dizer o que gostaria de
comer. Só um instante, por favor – fala Valentin, antes de fazer uma
pequena reverência e desaparecer novamente de vista.
O avental branco amarrado na cintura faz Jess pensar na primeira série
revolucionária de Adelaide, intitulada simplesmente “Trabalho”, que a
lançara com estrondo no mundo da arte em meados da década de 1960.
Àquela altura, ela já pintava mais do que criava arte têxtil, mas os aventais
originais do mercado de sábado figuravam na coleção principal, que se
tornara uma prévia do que se seguiria: o interesse da artista em subverter o
doméstico através da arte. Jess já espera ansiosa pela sessão do dia seguinte,
pela próxima parte da história.
Valentin retorna, deixa o vinho na mesa – dá pra ver que a bebida está
bem gelada porque a taça está embaçada –, e Jess pede uma omelete de
cogumelos e salada. Então, ela se permite ler a mensagem de Georges pela
terceira vez, sentindo uma vibração e uma expectativa deliciosas. Jess! Que
bom ter notícias suas!, escreveu ele, antes de sugerir que jantassem juntos
em determinado bar na quinta-feira à noite. Ela pesquisa o lugar que ele
sugeriu e a primeira coisa que lê na descrição é “bistrô romântico à beira do
rio”. Na mesma hora um arrepio percorre seu corpo. Aquilo significa...? O
que aquilo significa? Provavelmente é só um bar agradável, que se
autodenomina romântico para atrair turistas, lembra a si mesma, mas
mesmo assim está animada. Por causa disso definitivamente vai ter que
dedicar um tempo para debater possíveis escolhas de roupas com Becky no
FaceTime – e possíveis consequências da escolha também. Ela não
consegue se lembrar da última vez que teve uma noite como essa em seu
horizonte: um encontro com um homem sexy, e talvez o cheiro de romance
no ar... Sem dúvida foi antes de se casar.
Jess vacila um pouco ao se lembrar de David se mudando para aquela
casa nova e sem graça que está alugando e se pergunta como as meninas
estão se saindo durante a sua ausência. Na única vez em que Jess esteve na
casa, o ex-marido preparou um café para ela na cozinha sem alma, e seu
coração se partiu um pouco quando ele abriu o armário e revelou quatro
canecas solitárias, uma caixa de saquinhos de chá e um pote de café
instantâneo. Quem olhasse para aquele armário saberia na mesma hora que
estava na casa de um homem recém-separado. Ou talvez na de um serial
killer.
Mas no instante seguinte lhe vem à mente uma imagem da primeira
vez que ela viu a foto de Bella no celular de David: os longos cabelos
ruivos, a pele de porcelana, a boca sorridente realçada pelo batom. Na
época, parecia que a mulher estava rindo da Jess idiota e confiante. Da Jess
chata, de meia-idade e com a cintura cada vez mais grossa. Ela afasta Bella
dos pensamentos e toma um gole de vinho gelado. Vá embora, demônio. E
David que vá para o inferno também. Que venha o épico romance de verão
2.0, pensa.
Enquanto espera o almoço ser servido, ela folheia o caderno de
trabalho e relê as anotações que fez nos últimos dois dias. As conversas
com Adelaide foram todas gravadas e arquivadas por segurança, mas muitas
vezes ela anota lembretes, perguntas que nem sempre consegue fazer na
hora. O QUE ACONTECEU COM WILLIAM??? é a primeira que se
destaca, e Jess morde o lábio. Deve haver uma forma de conseguir
descobrir mais sobre ele, imagina – o registro de mortes, talvez as notícias
locais.
Outros pontos de interrogação estão espalhados por suas anotações.
Ela precisa – de algum jeito – checar a veracidade do que Adelaide lhe
contou. Será que o pai da artista realmente cozinhou e serviu o coelho de
estimação dos filhos no jantar de domingo, como castigo, por eles terem se
comportado mal? O diretor da escola de Adelaide foi mesmo preso por ter
relações sexuais com menores de idade? Ou essas são armadilhas astutas
pensadas para testar Jess, um meio de provar que ela não fez o dever de
casa e não investigou direito?
É possível, mas os poucos vislumbres da vida de Adelaide que Jess viu
até o momento apenas serviram para aguçar seu apetite por mais
informações. Talvez Adelaide, assim como Jean-Paul, só precise ser
persuadida. Provavelmente não com fatias de presunto tiradas de dentro da
bolsa, mas deve haver uma forma de Jess conquistar sua confiança, certo?
Capítulo Oito

– O mundo da arte – entoa Fiona Bruce dramaticamente. – Um lugar de


prosperidade escandalosa. Mas abaixo da superfície se esconde o perigo...
Adelaide está deitada em sua chaise-longue azul-petróleo muito macia
e solta um suspiro de satisfação enquanto os créditos de abertura de Fake or
Fortune passam na tela da TV. Ela assiste a um dos primeiros episódios
desse programa de investigação de história da arte, ambientado em Paris, no
qual Fiona Bruce e seu companheiro Philip Mould tentam determinar a
procedência de uma bela pintura de Degas. Seria o quadro falso ou
verdadeiro? A única vantagem da memória envelhecida de Adelaide é que
ela muitas vezes esquece o fim dos programas, assim, é sempre uma
emoção descobrir o desfecho, não importa quantas vezes assista.
– Esse caso será um dos mais desafiadores que já enfrentamos –
declara Fiona na tela, e Adelaide cruza as mãos sobre o peito em uma
expectativa satisfeita.
Não duvida nem por um instante.
O programa começa com alguns teasers do que está por vir, e Adelaide
deixa a mente vagar. Conversar com Jessica naquela manhã foi
surpreendentemente agradável, levando tudo em consideração. Comparada
com outros jornalistas que tentaram o cargo, Jessica é menos agressiva – ela
não interrompe a cada dois minutos ou tenta fazer com que tudo gire ao
redor de si mesma... ainda que pergunte o tempo todo “E como isso faz
você se sentir?”, como uma psiquiatra amadora.
Isso faz Adelaide se lembrar do tempo que passou naquele hospital
horrível em Berlim, das perguntas incessantes sobre seus sentimentos – seus
malditos sentimentos. Na verdade, deram-lhe tantos sedativos que ela mal
sentia alguma coisa. Todas aquelas tardes tranquilas em que ficava vendo os
raios do sol distorcidos percorrerem a sala, com a mente dopada e vazia. Os
gritos e lamentos intermitentes dos pacientes ao longo do corredor eram
como fantasmas que ela nunca via. “Um episódio”, foi como a imprensa
chamou timidamente a desgraça pública de Adelaide na Berlinische Galerie,
embora Monica, sua empresária na época, tenha sido mais direta. “Seu leve
colapso nervoso”, disse ela, embora, na opinião de Adelaide, não tivesse
havido nada de leve em todo o “episódio” – para não mencionar a conta que
a galeria enviou para cobrir os custos de limpeza depois que ela desfigurou
a pintura de Remy exposta. A antiga empresária já morreu, é claro, assim
como a maioria dos personagens-chave da vida de Adelaide, que um dia
foram tão importantes: Esme, Ursula, Colin... Não, ela se corrige quando o
rosto dele paira em sua mente. Colin, não. Ele não era ninguém, não era
nada.
Adelaide volta a se concentrar na tela da TV e fica envolvida na
jornada para checar a procedência da pintura. Degas nasceu e viveu em
Paris, e Adelaide se anima quando Fiona e seu coapresentador passeiam
juntos pelo Musée d’Orsay. Meu Deus, olha só o autorretrato dele, aos 21
anos... como já era talentoso, pensa, encantada, e se inclina mais para a
frente para ver o rosto jovem e de lábios carnudos do pintor, com uma
pitada de incerteza – apreensão? – no olhar.
Ela se pega pensando de novo na própria juventude e naquele encontro
transformador com Ursula. Será que Degas teve uma Ursula, alguma
estranha com olhos de águia que viu seu potencial e o arrebatou? Foi Ursula
que sugeriu que Adelaide se matriculasse para o próximo semestre na
Goldsmiths, e também foi ela que disse não se importar com o fato de
Adelaide não ter qualquer formação, porque fazia anos que não ficava tão
entusiasmada com o potencial de uma artista emergente. Mesmo depois de
tanto tempo, Adelaide ainda fica sem fôlego ao imaginar como sua vida
teria sido se a mãe de Ursula não tivesse comprado um de seus aventais
naquele dia fatídico, se Ursula não tivesse prestado atenção nem ficado
intrigada.
– Estou arriscando o meu pescoço, porque é óbvio que você nunca
recebeu nenhuma instrução adequada, mas tem alguma coisa bruta e
intuitiva no seu trabalho que realmente me agrada – disse Ursula, sentada
naquele pub velho e imundo, enquanto folheava o pequeno bloco de
desenho que Adelaide sempre carregava, cheio de esboços de operárias da
fábrica e cenas ocasionais da rua.
Ela anotou um número em um descanso de copo e colocou-o na mão
de Adelaide.
– Ligue para esse número na segunda-feira. Peça para falar com a
Carole no balcão de admissão e diga que quero você na minha turma.
– Mas... – Adelaide hesitou, sentindo-se lisonjeada e também
consternada, porque Ursula parecia estar fazendo todo tipo de suposições.
Será que podia confiar naquela mulher e nas suas declarações grandiosas? –
Mas e o meu trabalho? – perguntou enfim, desconfiada. – Eu não tenho
muito dinheiro. Não posso comprar equipamentos nem nada. Por que acha
que vendo aventais?
– Vamos dar um jeito. Há bolsas de estudo disponíveis e... escuta, a
gente vai dar um jeito, eu prometo. – Ursula pegou o descanso de copo que
Adelaide colocara na mesa e devolveu-o com força à palma da mão da
artista. – Liga pra Carole. E espero ver você na próxima semana. Por favor,
tenta não ser presa nesse meio-tempo. – Ela virou o resto da bebida e se
levantou. – Foi um prazer te conhecer, Adelaide. E estou animada para
conhecer ainda mais você e o seu trabalho.
No fim das contas, Carole acabou desempenhando um papel mais
importante do que qualquer uma delas poderia ter previsto. Quando
Adelaide telefonou para ela na segunda-feira seguinte, encorajada pela
curiosidade dos colegas de casa (“O que você tem a perder?”), a ligação
ruim acabou sendo responsável pela construção da nova identidade de
Adelaide.
– Adelaide o quê, meu bem? Adelaide Box?
– Não, Brockes. Adelaide Brockes.
– Desculpa, a ligação está falhando... É Adelaide Fox?
Por fim, Adelaide, que ainda tinha dúvidas sobre as expectativas
artísticas de Ursula, mentiu e disse que sim, seu nome era Adelaide Fox.
Instantes depois, as moedas que tinha para o telefonema acabaram, a
ligação caiu e ela recolocou o fone no gancho, sentindo-se surpresa porque
parecia que aquilo estava de fato acontecendo.
Porque, maravilha das maravilhas, Ursula parecia não ser uma
impostora – Carole aguardara mesmo sua ligação e já havia sido
encarregada de providenciar formulários de subsídio para Adelaide
preencher. As engrenagens estavam girando com uma velocidade
emocionante. Além do mais, ela acabou gostando do nome Adelaide Fox –
parecia mais elegante, mais urbano do que o velho e banal Brockes. Ela saiu
da cabine telefônica deixando o novo nome – e suas novas perspectivas – a
envolverem como o vestido de baile da Cinderela. Preste atenção, Londres,
pensou. Adelaide Fox chegou e vai longe.
Apesar de tudo, ela está ansiosa para contar a Jessica a próxima parte
de sua história, no dia seguinte.
✳ ✳ ✳

De manhã, quando Jessica chega, o ingênuo Jean-Paul a cumprimenta como


se ela fosse sua melhor amiga há muito perdida, late empolgado e chega a
rolar para ganhar carinho na barriga.
– Sinceramente, Jean-Paul, onde está a sua dignidade? – pergunta
Adelaide, mas não consegue evitar um sorriso indulgente enquanto Jessica
tira da bolsa outra fatia grossa de presunto e faz com que o cachorro bobo
exiba todo tipo de truques pelo privilégio de recebê-la.
Adelaide volta ao ponto em que parou na véspera e conta sobre as
semanas que antecederam sua matrícula na escola de artes. A incrível
capacidade de Carole de arrancar até o último centavo disponível do
conselho, por meio de subsídios e permissões especiais, foi uma revelação
para os amigos de Adelaide, que não tinham ideia de que tais fundos
estavam disponíveis, e isso os estimulou a buscar cursos universitários
semelhantes e formulários de bolsas de estudo para si. Esme reuniu um
portfólio de trabalho e conseguiu um lugar em Camberwell. Jeanette foi
direto para a London College of Fashion com vários projetos. Eles
arrancaram as cortinas cinzentas do sótão vazio e transformaram o cômodo
em um estúdio, ousando se levar a sério.
– E para você? Como foi começar na Goldsmiths? – pergunta Jessica.
– Me conte todos os detalhes de que puder lembrar sobre suas primeiras
semanas e meses lá. Acho que essa vai ser uma parte realmente fascinante
para os leitores.
É estranho pensar na própria vida sendo segmentada em partes para os
leitores, mas Adelaide continua, contando histórias sobre suas primeiras
incursões na pintura, o módulo de arte têxtil que ela adorava, as mulheres
com quem fez amizade. A vida na Goldsmiths era intensa e hedonista, com
novos pubs favoritos a descobrir e festas cheias de pessoas fascinantes.
Mas, acima de tudo, estava o trabalho artístico. O modo como ela se
dedicara de corpo e alma ao aprendizado – determinada a melhorar, a
impressionar, a absorver tudo o que pudesse.
– Parece que você foi muito feliz durante esse período – comenta
Jessica.
– Feliz? – diz Adelaide com uma risadinha. – Ora, fui estuprada por
um colega no meu segundo ano e quebrei o tornozelo ao cair de uma janela
em uma bad trip de ácido, mas fora isso...
Ela solta essas informações sem querer, só para contradizer Jessica,
para colocá-la em seu lugar. Mas acaba caindo na própria armadilha, porque
Jessica se inclina para a frente na mesma hora, com uma expressão
preocupada, mas também interessada. Sem dúvida acha que isso vai ser
realmente fascinante para os leitores, dispostos a se deleitarem de forma
deplorável com os piores e mais aterrorizantes momentos da artista sobre
quem estão lendo. Embora Simon Dunster definitivamente vá aparecer em
seu livro de memórias – que ele apodreça no inferno –, Adelaide ainda não
está disposta a entregar a história à doce Jessica. Verdade seja dita, a mulher
provavelmente só tentaria acrescentar um final feliz, e definitivamente não
havia um.
– Meu Deus, Adelaide, sinto muito – fala a jornalista, antes de
empregar aquele truque irritante de permanecer em um silêncio
enlouquecedor na esperança de atrair mais confidências.
Melhor esperar sentada.
– No verão, depois do primeiro ano, economizei e fui para a Itália com
as minhas amigas Esme e Margie – continua Adelaide, se deleitando com o
lampejo de frustração que passa pelo rosto de Jessica. – Fomos a Florença,
Siena e Roma, para ver com nossos próprios olhos os afrescos e a
arquitetura de que nossos professores tanto falavam. Voltei à Galeria Uffizi
três dias seguidos porque não me cansava.
– Deve ter sido incrivelmente inspirador – comenta Jessica. – E
divertido também, aposto. Quem não gosta de uma viagem só de garotas?
Adelaide bufa diante de um comentário tão brega. Será que Jessica
Martindale ou qualquer outra jornalista de peso se referiria àquele verão
crucial como “uma viagem só de garotas”? Nunca, nem em um milhão de
anos. Adelaide não consegue imaginar Martindale, séria e de voz grave,
sequer pensando em juntar aquelas palavras como um conceito, menos
ainda dizendo-as em voz alta. Martindale estaria interrogando Adelaide
sobre arte, querendo saber mais da viagem em um nível puramente
intelectual, para determinar seu impacto nas três amigas como artistas e
criadoras.
Só que, no instante seguinte, Adelaide se dá conta de que, por mais
estranho que pareça, a Jessica à sua frente tem razão, na verdade.
– Ninguém nunca me disse isso dessa forma – confessa Adelaide,
falando devagar –, mas você está certa. Nós nos divertimos muito. Foi a
primeira vez que viajamos para o exterior. Nos sentimos livres, sem freio. O
mundo parecia se estender diante de nós e, pela primeira vez, não havia
ninguém no nosso caminho.
Agora ela está perdida na nostalgia, revisitando momentos em que não
pensava há anos. As três com blocos de desenho e carvão nos pontos mais
turísticos para ganhar algumas liras desenhando retratos dos turistas de
verão. E também se apresentando cantando canções dos Beatles na Piazza
della Signoria, na esperança de aumentar os fundos escassos,
reconhecidamente com mais entusiasmo do que talento, mas se divertindo
muito. Elas subindo na traseira de vespas pilotadas por belos rapazes
italianos, gritando enquanto eles disparavam pelas esquinas da cidade em
uma velocidade emocionante.
– Foi maravilhoso – diz Adelaide por fim, com uma risadinha. Queria
que vocês estivessem aqui, elas tinham escrito em cartões-postais para
Jeanette, Rita e outros amigos, mas, na verdade, não tinham desejado mais
nada quando estavam tendo dias tão incríveis. – E, sim – acrescenta ela
como um incentivo à entrevistadora otimista –, estávamos todas muito
felizes.
– Lá estava você em belíssimas cidades italianas... jovem, linda,
talentosa, sem qualquer preocupação... – estimula Jess, claramente
querendo mais.
Mas Adelaide não consegue dizer nada de imediato, porque algo
peculiar acontece dentro dela. As emoções se elevam como um rio
transbordando. Ela está pensando em Esme e Margie, as melhores
mulheres, as melhores amigas, e não consegue evitar o desejo de revisitar
aquela época por um dia – até mesmo uma hora –, para que pudesse ver
seus rostos animados e sorridentes mais uma vez, em uma ensolarada praça
italiana. Para que pudessem beber vinho tinto barato e sonhar grandes
sonhos juntas, chamar a atenção de homens lindos que passavam e abafar
risadinhas com as mãos. Naquela época, a amizade entre elas era tudo.
– Ah, Adelaide... – ela ouve Jessica dizer, e só então se dá conta das
lágrimas escorrendo pelo rosto. Mulher idiota! Velha boba e ridícula! –
Deixa eu achar um lenço para você – murmura Jessica, já revirando a bolsa
enorme, o que imediatamente deixa Jean-Paul animado, pois acha que vai
ganhar mais presunto.
Que belo exemplo de lealdade canina, pensa Adelaide, em meio às
próprias emoções tumultuadas. Por que não ignorar completamente a
tutora chorosa?
– Você gostaria de fazer uma pausa? – sugere Jessica, ainda
vasculhando a bolsa. – Quer um copo d’água?
Para grande constrangimento de Adelaide, um soluço escapa de sua
garganta. O que está acontecendo com ela? Pelo menos agora Jean-Paul está
sintonizado com sua angústia e pressiona a cabeça na perna dela em
solidariedade, fitando-a com olhos castanhos melosos.
– Toma, pega aqui – diz Jessica, enquanto deixa um pacote surrado de
lenços de papel na mesa à sua frente. – Vou pegar um copo d’água, tá certo?
Quer mais alguma coisa?
Adelaide balança a cabeça, sem confiar em si mesma para dizer algo.
Mas sente-se grata pelas pequenas bênçãos – afinal, não houve nenhuma
tentativa de abraçá-la, ou algo horrível assim, enquanto Jessica sai da sala e
fecha a porta silenciosamente. Graças a Deus, também, que a jornalista teve
a sensibilidade de deixá-la sozinha para se recompor, em vez de ficar por
perto tentando consolá-la com uma agitação constrangedora. Adelaide ouve
a voz divertida de Margie em sua mente – Pelo amor de Deus, Addie, que é
isso? Parece que estou de volta na Fontana di Trevi, com você
transbordando água por toda parte, amiga! –, acompanhada de uma de
suas habituais risadas roucas de cigarro, mas o comentário imaginário só a
faz se sentir pior.
Ah, cala a boca, Margie, pensa ela, cansada, secando os olhos.
Adelaide acaricia as orelhas macias de Jean-Paul enquanto expira
lentamente. Mulher boba. Não é do feitio dela perder a compostura. Sempre
soube que teria que falar sobre Margie, mas não esperava ser emboscada
por antigos sentimentos tão cedo – e com tanta violência. A pergunta
inocente de Jessica sobre como haviam se divertido... aquilo a pegou
desprevenida, só isso. Adelaide geralmente se proíbe de pensar naquele lado
das coisas – é mais fácil sentir raiva.
A imprensa sempre demonstrou interesse pelo coletivo de artistas do
qual Adelaide fez parte – suas exposições conjuntas, as casas
compartilhadas e a confusão de relacionamentos entre eles. Jeanette e Esme
chegaram às primeiras páginas dos tabloides nos anos 1970, quando
trocaram de maridos como parte de uma peça performática sobre o
casamento moderno, e isso ainda é mencionado, de forma ofegante e
lasciva, sempre que se escreve sobre o grupo. Naquela época, circulavam
boatos sobre traições e falsidade entre eles na disputa pela glória. Até hoje,
ninguém nunca perguntou sobre quanto se divertiam, sobre a camaradagem
entre eles. A franqueza de Jessica, embora ingênua, é bastante revigorante.
As pessoas às vezes são reverentes demais com os artistas – bajulando,
fingindo e sorrindo. Esquecem que ela também já foi jovem e
despreocupada.
Adelaide ouve uma batida discreta na porta e Jessica volta com um
copo de água gelada na mão.
– Você está bem?
– Sim, perfeitamente – responde Adelaide com firmeza. – Obrigada. –
Mas ela não confia mais em sua firmeza diante das reações desarmantes de
Jessica. – Talvez seja melhor pararmos por aqui – diz, tomando a decisão no
calor do momento. – Você já deve ter bastante material para o capítulo de
amostra. Talvez seja melhor seguir com o texto, para que Lucas e eu
possamos tomar uma decisão sobre... sobre os próximos passos. Sim?
É evidente, por sua expressão desapontada, que Jessica não esperava
ser dispensada tão cedo.
– Ah. Certo. Sim, claro – responde ela. A mulher está tentando parecer
otimista e profissional, mas não há como disfarçar o desânimo expressado
por seus ombros caídos. – Sim, com certeza. Bem, obrigada pela
hospitalidade. Foi ótimo passar os últimos dias com você. Agradeço a
oportunidade e... – Adelaide percebe que Jessica está refletindo sobre
alguma coisa. Talvez queira saber se pode ficar o resto da semana no hotel?
– E... bem, não é da minha conta, mas tenho certeza de que se você quisesse
ver a Margie novamente, poderia fazer isso. Não valeria... sabe, não valeria
a pena fazer as pazes?
A mudança no rumo da conversa é tão inesperada que Adelaide leva
algum tempo para assimilar o comentário dessa mulher estúpida. Quem ela
pensa que é?
– Como é? – pergunta ela, em tom tão frio que o ar ao redor delas
parece ficar mais gelado.
Jessica engole em seco, mas aparentemente não se intimida com a
frieza de Adelaide.
– Vi como ficou chateada quando falou sobre a Margie... e sei que
você é uma pessoa orgulhosa, mas pode ser que... ajude? – insiste ela. – Se
ao menos tentasse acertar as coisas com ela... Talvez você não ficasse assim
tão... sabe, tão solitária e... – Ela está vacilando, aparentemente perdendo a
coragem à medida que a expressão de Adelaide se torna cada vez mais
severa. Mesmo assim, segue em frente, como um bombardeiro kamikaze
imprudente em uma última missão: – ... tão infeliz?
Adelaide mal consegue falar, tamanha sua indignação. E raiva
também, diante da ousadia daquela arrivista.
– Infeliz? – repete, incrédula. – Você acha que sou infeliz, né? E
solitária? Em que diabo – Jean-Paul gane quando ela aumenta o tom de voz
– está se baseando para dizer isso? Em algumas manchetes chocantes que
leu? Em uma ideia para a sua coluna de consultório sentimental? Você não
sabe nada sobre mim... não sabe nada sobre o que aconteceu com a Margie,
está entendendo?
No entanto, isso ainda não é suficiente para dissuadir Jessica.
– Mas é essa a questão, não é? – retruca ela, com o rosto vermelho. –
Achei que estava aqui para saber mais sobre você, para contar a sua história
com todos os detalhes e nuances e... com a sinceridade que merece. Mas
cada vez que você se aproxima de uma curva no caminho, você me afasta.
E diz que não sei de nada. Então me conta! Descreve o que eu não sei!
Porque estou aqui para te ajudar, lembra? Para te ajudar com as suas
memórias!
Adelaide não gosta de receber sermões – de ninguém, e menos ainda
de alguém que, por direito, nem deveria estar naquela sala. Como aquela
mulher ousava?
– Você só está aqui porque o Lucas cometeu um erro – Adelaide a
corrige com desdém. – Você é a Jessica errada... errada em todos os níveis.
E agora eu gostaria que fosse embora.
O coração dela está disparado, a adrenalina acelerando seu corpo. Se
ao menos Jean-Paul não fosse um apreciador de presunto tão ganancioso,
ela o faria avançar naquela mulher desgraçada, faria, sim. Que atrevimento!
Jessica engole em seco, parecendo abalada.
– Adelaide, me desculpe, eu...
– Saia, ou vou colocar você para fora. E que Deus me ajude, vou fazer
isso com as minhas próprias mãos, então não me provoque! – grita
Adelaide, apontando para a porta para não deixar dúvidas. – Fora! Agora!
Vá!
Com uma expressão angustiada, Jessica abaixa a cabeça e pega o
celular, o bloco de notas e a bolsa.
– Sinto muito mesmo...
– Não estou interessada! – brada Adelaide. – Vá embora.
Ela permanece rígida na cadeira e nem olha enquanto Jessica atravessa
a sala e sai pela porta. Só quando escuta a porta principal se fechar é que se
permite afundar o corpo no assento. Adelaide leva a mão ao peito e sente o
coração bater com tamanha violência que quase teme que ele possa saltar de
seu corpo. Inferno. Maldição.
Jean-Paul gane e se apoia nela – ele odeia vozes elevadas –, e Adelaide
o acaricia suavemente, com os dedos trêmulos.
– Desculpe, querido – fala baixinho, sentindo-se sem fôlego. – Não se
preocupe. Mais uma que se vai, hein, Jean-Paul? – Ela está se esforçando ao
máximo, mas sua voz não parece tão destemida quanto suas palavras. –
Enfim, não gostávamos mesmo dela, não é mesmo? Já vai tarde!
Capítulo Nove

– Que psicopata! – brada Becky do outro lado da linha, quando Jess,


abalada e chorosa, liga para contar o que aconteceu. – Como assim, ela
simplesmente expulsou você? Isso é uma afronta! De todas as... Bem, quem
perde é ela, Jess. Uma perda enorme, uma cratera. Maldita prima-dona
idiota!
Jess está se sentindo tão arrasada que não consegue sorrir, menos ainda
se animar com a indignação de Becky. A Jessica errada, pensa, como se
estivesse dando um tapa na própria cara com as palavras. Enfim relembrou
o instante em que estava catando os cacos embaixo da mesa da brasserie:
Como assim, a Jessica errada?, dissera o homem ao celular. Ela apostava
que era Lucas falando com Adelaide, sendo inquirido sobre fosse qual fosse
o erro cometido.
Jess fecha os olhos e solta um gemido. E que erro! Ela nem deveria
estar ali! Sua antiga chefe, Lucinda, estivera certa – ela simplesmente não é
boa o bastante para o mundo da alta cultura. Esteve iludida o tempo todo. E
como é esmagador cair de uma altura tão grande. Ter o nariz esfregado no
próprio erro antes de ser expulsa porta afora! Uma ideia para a sua coluna
de consultório sentimental, zombara Adelaide, como se a menosprezasse.
Por Deus, que sensação horrível.
– E, a propósito – continua Becky, entusiasmada com a defesa de sua
ideia –, antes de sair da cidade, certifique-se de deixar a conta de serviço de
quarto mais gigantesca do mundo. Champanhe, ostras, tudo. Para ensinar
uma lição àquela vaca cruel.
– Estou tão arrasada, Becks... – lamenta Jess, tropeçando na calçada. –
Eu estava me sentindo tão adulta vindo para cá. Como uma verdadeira
mulher bem-sucedida, madura... como se tudo estivesse prestes a mudar. Eu
me esforcei tanto para fazer a Adelaide gostar de mim, mesmo quando ela
era grosseira. Mas ela simplesmente jogou tudo de volta na minha cara.
Quando eu estava só tentando... – a voz dela falha – ajudar!
– Ela não merece a sua ajuda, meu bem. Você é um milhão de vezes
melhor que ela. Um bilhão de vezes!
– E agora tenho que voltar para casa antes da hora e admitir que não
deu certo... – Novas lágrimas ardem em seus olhos porque essa é quase a
pior consequência de ter sido dispensada; ela imagina a expressão
presunçosa no rosto de David. Merda! Ele vai se sentir tão superior, não
vai? Vai adorar. – Estou mortificada.
– Não fica! Se alguém deve ficar mortificada, é ela, por se comportar
como uma criança jogando brinquedos para fora do carrinho de bebê,
quando tem quase 80 anos, pelo amor de Deus! Foi bom você se livrar dela.
Um golpe de sorte, acho.
Mas o problema é que ainda dói demais para parecer um golpe de
sorte. O orgulho de Jess está despedaçado por ter um trabalho tão bom
arrancado de suas mãos antes mesmo de ter a chance de provar seu valor. A
ideia de um retorno forçado à vida normal – à maternidade, à cozinha, às
roupas para lavar – sem ter aquele outro espelho dourado para olhar com
admiração... ela não consegue ver aspectos positivos na perda.
– E tem um lado bom. – Becky, como sempre, está heroicamente
tentando encontrar o lado positivo para a amiga. – Você não vai voltar até
sexta-feira, certo? Então tem basicamente um dia e meio só para você. Em
Paris. E antes que diga qualquer coisa, eu te proíbo terminantemente de
voltar para casa mais cedo. Suas filhas estão bem. A Albertine está vivendo
a vida dos sonhos, com a casa só para ela e comigo à disposição para
atender a todos os seus desejos felinos. Além disso, você tem um encontro
amanhã à noite, não é? Então...
– Não é um encontro, é só...
– Então, fique onde está e divirta-se. Vão aparecer outros trabalhos.
Deixa o David passar uma semana inteira cuidando das filhas para variar e
volta na sexta-feira com sacolas do Duty Free e um sorrisinho secreto pós-
encontro. A Albertine e eu insistimos.
Becky talvez tenha razão, pensa Jess depois que desligam, sentindo-se
um pouquinho melhor. Seu quarto de hotel está pago até sexta-feira de
manhã, que é para quando também está reservada sua passagem de trem.
Durante o resto da estadia, ela pode ser turista. Adelaide que vá para o
inferno.
Enquanto falava com Becky, Jess caminhou até metade da Rue de
Rivoli, e ela decide continuar andando em direção ao Louvre e ao Jardin
des Tuileries. Que se dane a alta cultura e a arte erudita: ela vai ser uma
pessoa normal, comum, e dar uma volta na roda-gigante, apreciar a vista da
cidade e lembrar a si mesma que há mais na vida do que uma artista
petulante e seus acessos de raiva.
Daquele momento em diante, o dia de Jess melhora
consideravelmente. Um passeio na roda-gigante é o pontapé inicial, então
deixar a dieta de lado com um cheeseburger com fritas em um café
próximo. Ela compra algumas lembrancinhas para as meninas – um lindo
lenço de seda para cada uma e uma caixa de macarons em tons pastel para
dividirem – e manda uma foto para Polly em que está fazendo pose de
modelo com uma boina laranja. Exagerei?, escreve, acompanhado de um
emoji dando uma piscadela. (Polly é a fashionista das três filhas e tem
opiniões fortes.) Então, Jess se permite fazer um passeio de barco pelo rio
Sena, até a Torre Eiffel, onde sobe de elevador até o topo e pede uma taça
de champanhe no bar chique do monumento, como sempre quis fazer. O
preço é exorbitante, é claro, e muito mais do que ela deveria gastar em uma
bebida nas atuais circunstâncias, mas decide que só se vive uma vez. Fez
por merecer. Depois de expirar até seus ombros relaxarem, Jess tenta
aproveitar o momento e tira uma foto mental de si mesma. Aqui estou eu,
me divertindo muito em Paris, pensa, e aconteça o que acontecer, olhe só
pra mim agora com a minha taça de champanhe Moët & Chandon e uma
vista espetacular. Isso é bom.
No instante seguinte, seu celular toca. Um número desconhecido
aparece na tela, e o coração de Jess dispara.
– Alô? Jess Bright falando – diz, rezando para que um milagre tenha
acontecido e Adelaide esteja ligando para se desculpar.
– Oi. Hum... Jessica? Aqui é o Lucas Brockes.
– Ah. – Jess desanima. Ele provavelmente vai pedir para ela sair do
hotel e ir embora logo, não é? Ou vai acusá-la de perturbar a tia velha e
neurótica. – Oi – acrescenta, com a voz abatida.
Vamos em frente, então, pensa Jess. Vamos ouvir o que você tem a
dizer. Mas tome cuidado, parceiro, porque ela já tomou meia taça de
champanhe e pode muito bem revidar com algumas verdades
desagradáveis.
– Entendo que houve um pequeno desentendimento hoje de manhã –
começa Lucas.
É uma forma de se dizer. Não há dúvida de que Adelaide acabou com
ela. É um milagre que as orelhas de Jess ainda não tenham pegado fogo,
depois das palavras cáusticas que imagina terem sido ditas.
– Sim – responde.
– Se vale de alguma coisa... sinto muito – diz ele. – A Adelaide é
minha tia e já estou acostumado com o jeito dela, mas reconheço que ela
pode ser... – Há uma pausa, e Jess o imagina tentando encontrar uma forma
diplomática de dizer “um pesadelo”. – Bem... obstinada, vamos ser sinceros
– ele finalmente consegue chegar a uma palavra. – A minha tia não é a
pessoa mais fácil do mundo.
– Não mesmo – concorda Jess.
É o eufemismo do ano, pensa ela, enquanto se lembra da voz imperiosa
de Adelaide expulsando-a da casa. Mas por que Lucas está ligando para
dizer coisas que Jess já sabe?
– Escuta... você está no hotel? – pergunta ele. – Talvez seja mais fácil
conversarmos pessoalmente.
No hotel? Não, meu bem, ela está bebendo champanhe no alto da Torre
Eiffel. Mas ele não precisa saber desse detalhe.
– Não – responde Jess. – Estou... – Ela não tem coragem de revelar a
localização exata, porque tem a terrível sensação de que ele receberia essa
informação com desdém. Na Torre Eiffel? Que programa de turista! – Estou
no Faubourg Saint-Germain – continua, citando a área da cidade onde o
monumento fica.
Afinal, o que Lucas tem a ver com aquilo?
– Tudo bem – diz ele. – Consigo chegar aí em vinte minutos, estaria
bom para você?
Jess revira os olhos, exasperada, porque ele está arruinando totalmente
o momento dela ali. E se Lucas acha que ela está disposta a devolver seu
champanhe caro por causa dele, depois da forma como a tia se comportou,
pode esperar sentado.
– Que tal quarenta minutos? – propõe ela com os dentes cerrados.
Lucas concorda, então sugere que se encontrem em um café próximo.
Jess desliga e deixa escapar sem querer um gemido alto e tão frustrado que
dois homens de terno na mesa ao lado se viram e olham espantados para
ela, com as sobrancelhas erguidas. Jess ergue a taça para eles, em um
brinde, sentindo-se um pouco fora de si. Será que deve beber o resto do
champanhe, mesmo tendo combinado de encontrar o arrogante Lucas em
menos de uma hora? Não seria mais sensato se manter totalmente sóbria?
Tarde demais para ser sensata, decide, e toma um gole em desafio.
Ninguém, ninguém mesmo, vai tirar dela o champanhe da Torre Eiffel, e
ponto-final.
✳ ✳ ✳

– Oi de novo – diz Lucas, quando Jess chega ao café depois de chupar duas
pastilhas de hortelã e jogar um pouco de água fria no rosto no banheiro do
último andar da Torre Eiffel. – Lamento que a gente esteja se encontrando
nessas circunstâncias. O que posso pedir para você?
A expressão nos olhos castanhos dele é tão firme e tranquilizadora, em
vez de combativa, que Jess sente a tensão se dissipar enquanto Lucas vai
pegar um espresso com leite vaporizado para ela. Talvez ele não esteja
prestes a repreendê-la em público pelo que aconteceu. Ou, se estiver, pelo
menos está lhe pagando um café primeiro.
Jess checa o celular e vê que chegou uma mensagem de Polly. Essa
cor fica horrível em você!!! Mas ficaria tão bem em mim... Na sequência há
um emoji de mãos postas e um coração apaixonado, e Jess tem que conter
uma risada quando vê Lucas voltando com a bebida dela.
– Então, você quer me contar o que aconteceu? – pergunta ele,
sentando-se diante dela. – Quero dizer, a Adelaide já me contou a versão
dela da história, mas sei que isso não significa que ouvi uma versão
ponderada dos acontecimentos.
Talvez seja o champanhe falando, mas Jess não consegue se conter.
– Ela disse que você cometeu um erro ao me contratar – deixa escapar
em um rompante, ainda magoada com a revelação. – Que eu era, e cito
literalmente, “a Jessica errada”. Isso é verdade?
Ela está pronta para acrescentar que tinha ouvido parte da ligação dele
naquele dia na brasserie, caso Lucas tente negar, mas basta olhar para ele
para saber a verdade.
– Ah, certo. Que maravilha – diz Jessica, em tom sarcástico.
De repente, tem a horrível sensação de que está prestes a começar a
chorar. A decepção, a humilhação... é demais.
– Não é tão ruim quanto parece – responde ele. – Quando estávamos
conversando sobre quem convidar, a Adelaide disse “a Jessica”, e presumi
que ela se referia a você porque tinha lido a ótima entrevista que fez com
ela. No que me diz respeito, você era uma candidata confiável.
Jess não gosta do uso do pretérito em relação a ela ser confiável.
– Mas na verdade ela estava se referindo a...?
Ele brinca com uma colher de chá, retardando o golpe.
– Bem... não que isso seja relevante, mas... Tá certo. Jessica
Martindale – explica ele.
Ao ouvir aquilo, Jess geme e apoia a cabeça entre as mãos. Pronto.
Agora ela entende por que Adelaide a fitou de cima a baixo daquele jeito no
primeiro dia. Agora entende por que a mulher foi tão rápida em expulsá-la
porta afora. Porque Jessica Martindale é uma potência intelectual, uma
jornalista americana que está sempre aparecendo em programas culturais
com suas opiniões, escrevendo artigos de opinião para jornais de grande
porte, sem mencionar as biografias com excelentes avaliações que já
escreveu. É claro que Adelaide queria que Jessica Martindale escrevesse
suas memórias. Quem não gostaria?
– Era melhor não ter perguntado – murmura.
Bem quando ela achava que já havia chegado ao fundo do poço
naquele dia. Errado!
– Ela não quer o trabalho, se isso faz você se sentir melhor – revela
Lucas, com uma expressão resignada. – O livro de memórias da Adelaide
não está sendo uma jornada muito tranquila, para ser sincero.
Jess bufa.
– Por que será, não é mesmo? – provoca. – Afinal, é uma delícia
trabalhar com ela...
É uma declaração nada profissional, mas Jess não se importa mais.
Aliás, por que está perdendo tempo nessa conversa – que até agora só fez
com que se sentisse pior – quando está em Paris, livre e desimpedida?
Quando há um milhão de outras coisas que poderia estar fazendo naquele
momento? Deveria ter pedido outra taça de Moët & Chandon na Torre
Eiffel quando teve oportunidade e dito a Lucas que estava ocupada demais
para encontrá-lo.
– Não posso argumentar contra isso – admite ele. – Mas não estou aqui
para falar sobre outros jornalistas, e sim para saber se há alguma forma de
ter você de volta. Se consigo te convencer a pelo menos escrever o capítulo
de amostra, como foi planejado a princípio.
Jess ri na cara dele.
– Você está brincando comigo? Porque acho que sua tia não iria quer,
nem por um minuto.
Lucas suspira, mas não parece surpreso com a resposta dela.
– Sabe, na segunda-feira, quando nos demos conta do que tinha
acontecido... de toda a confusão da “Jessica errada” – diz ele, o que a faz
estremecer de novo. – Desculpa... mas me escuta. Àquela altura, eu já tinha
entrado em contato com a editora que está trabalhando conosco e
mencionado o seu nome. E disseram... e juro que não estou inventando
isso... disseram que estavam muito satisfeitos com a nossa escolha, se
referiram a você como “uma escritora confiável” e disseram que você tinha
uma boa reputação no meio.
Jess estreita os olhos enquanto se pergunta se essa é apenas uma
tentativa de bajulação, mas ele parece bastante sincero.
– Humm.
Se o que Lucas diz é verdade, ela não pode negar que são palavras bem
agradáveis de se ouvir. Talvez alguém na editora se lembre dela dos tempos
de correspondente da seção de cultura, embora seu orgulho a impeça de
pedir mais detalhes.
– Enquanto isso, alguns outros jornalistas, que se consideram a última
bolacha do pacote... sem citar nomes, obviamente... se comportam como
divas: perdem todos os prazos, não se dão nem ao trabalho de se esforçar e
irritam todo mundo – continua ele.
– Você não precisa dizer isso para mim – responde Jess, pensando nos
supostos colunistas famosos com quem já trabalhou, alguns tão
unanimemente odiados que era possível ouvir um assobio baixo varrendo o
escritório sempre que seus nomes eram mencionados.
– Enfim, o que estou dizendo é que se você entregar um primeiro
capítulo brilhante, que deixe os editores felizes, então... Bem, a Adelaide
talvez mude de ideia.
Ah, claro...
– Tenho quase certeza de que a Adelaide não quer que eu escreva o
livro de memórias dela – declara Jess. – E, veja só, eu também não quero
mais o trabalho, agora que já tive uma amostra da experiência. Então...
Ela dá de ombros, sem se preocupar em terminar a frase.
– Bem, tenho uma notícia pra você – retruca ele. – Está em seu
contrato que você tem que escrever o primeiro capítulo antes de pagarmos o
resto do valor da semana de teste. Então...
Lucas encolhe os ombros e Jess sente o rosto quente.
– O quê? Não está, não – argumenta ela, mas quando as palavras ainda
estão saindo de sua boca já se sente abalada, pois se lembra muito bem de
que foi ele que redigiu o documento. – De qualquer forma, mesmo que
esteja – continua Jess, recuperando-se depressa –, então, uma notícia pra
você: talvez eu ignore isso e não receba o pagamento. Porque qual é o
objetivo de escrever o capítulo se não vou conseguir o trabalho?
Esse dia não está fazendo muito bem à sua pressão arterial, pensa Jess,
ao se dar conta na mesma hora de que, na verdade, ela precisa do dinheiro –
já o incluiu no orçamento. Inferno.
– Esta sem dúvida está sendo uma tarde cheia de notícias de última
hora – comenta Lucas com ironia, e Jess se sente enrubescer ainda mais.
– Desculpe – murmura ela. – Foi um dia meio difícil. Frustrante.
– Posso imaginar. Já fui alvo do temperamento difícil da Adelaide –
comenta ele. – Mas se isso faz você se sentir melhor, ela pareceu lamentar a
forma como as coisas aconteceram.
– Ah, claro – retruca Jess, em tom sombrio, sem acreditar nem por um
segundo. Lucas está tentando colocar panos quentes, pensa. Mas o estrago
foi grande demais, não? – Enfim, me fala sobre você – continua,
subitamente cansada de estarem insistindo em falar de seu fracasso. – Você
está trabalhando no arquivo da Adelaide, certo? Como está indo, já
encontrou alguma coisa realmente interessante?
– Bem...
Ah, uau, ele está mesmo prestes a divulgar alguns segredos?,
pergunta-se Jess, tentando disfarçar a ansiedade enquanto ele faz uma pausa
tentadora.
– Se você conseguir o trabalho, vai poder ver tudo por si mesma, não
é?
E isso é tudo o que ele lhe oferece, a discrição obviamente levando a
melhor.
Jess solta um gemido de frustração e Lucas sorri para ela, o primeiro
sorriso de verdade que ela vê no rosto dele. É um belo sorriso.
– E se eu precisar ficar um pouco mais tentada para realmente escrever
o capítulo, se precisar de uma dica do que está por vir? – rebate ela,
levantando uma sobrancelha, esperançosa.
Ele ri, mas não morde a isca.
– Está tudo lá esperando pelo escritor que ficar com o trabalho – diz
ele.
– Então, quando você diz “está tudo lá”, está se referindo
especificamente aos anos com o Remy? Ao que aconteceu com o William?
Ao rompimento com a Margie?
– Está tudo lá – repete Lucas, insistindo na mesma discrição irritante.
Então ele franze o nariz. – Para ser sincero, não cheguei muito longe –
confessa. – É um trabalho gigantesco, especialmente por causa da forma
caótica como a Adelaide cataloga os documentos. Estamos falando de
caixas e mais caixas de coisas, amontoadas aleatoriamente.
Apesar de tudo, Jess sente uma pontada de curiosidade diante da
possibilidade de ter permissão para folhear os cadernos, as cartas e os
diários de Adelaide. Deve haver muitos tesouros naquelas caixas, alguns
deles, sem dúvida, que passaram anos, ou mesmo décadas, guardados. É o
sonho de todo jornalista bisbilhoteiro.
– Mas por que você está fazendo isso? – pergunta ela. – Quero dizer,
você teve que deixar de lado o seu trabalho de verdade ou está conseguindo
combinar os dois? Aliás, só por curiosidade, o que você faz?
– Sempre trabalhei com direito corporativo – responde ele. Faz
sentido, pensa Jess, lembrando-se do contrato excessivamente zeloso. – E...
bem, passei por algumas dificuldades nos últimos anos, pessoalmente e em
relação à minha carreira, então, na primavera, Adelaide sugeriu que eu
viesse trabalhar para ela por alguns meses.
– Lamento ouvir isso – diz Jess, e abaixa os olhos para a mão dele por
um instante, reparando na ausência de uma aliança.
Ela fica em silêncio, esperando que ele dê mais informações. Mas não
é o que Lucas faz.
– Ah... também queria dizer que posso mudar a sua passagem de volta
– diz ele, enquanto pega o celular e entra no site do Eurostar. – Amanhã de
manhã estaria bom para você? Às onze horas?
Jess leva um instante para responder, porque só consegue pensar (para
seu constrangimento) no encontro com Georges no dia seguinte à noite –
não é um encontro, se corrige na mesma hora – e como terá que cancelar se
for embora pela manhã.
– Hum...
– Se você quiser? – diz ele em tom de pergunta, quando ela continua
calada. – Só presumi que você gostaria de voltar para perto das suas filhas
logo.
É claro que ela quer voltar para perto das filhas logo. É claro que elas
são muito mais importantes que Georges. Claro que sim.
– Sim, isso mesmo, eu gostaria – responde Jess por fim, enquanto sua
mente está em disparada, se perguntando se eles não podem remarcar o
encontro do dia seguinte para hoje à noite. Se há alguma forma de ela salvar
aquilo. – Às onze parece perfeito.
– Sem problemas – fala ele, já digitando. – Pronto. Tudo certo. Vou te
encaminhar a nova passagem e a confirmação. – Ele guarda o celular e
toma o café. – Então... você vai aceitar?
– Aceitar o quê? – Ela ainda está pensando em Georges e demora um
instante para voltar a se concentrar na conversa. – Ah... o capítulo.
É irritante, mas parece que ele conseguiu colocá-la em uma
encruzilhada. Antes de mais nada, Jess precisa do dinheiro, mas toda aquela
conversa de Lucas sobre o arquivo e os segredos guardados ali também
serviu para despertar consideravelmente seu interesse. E se for verdade que
ainda não perdeu totalmente a possibilidade de conseguir o trabalho, então
não deveria pelo menos se esforçar ao máximo pela oportunidade?
– Acho que sim – concorda Jess, com os dentes cerrados.
Capítulo Dez

É quinta-feira de manhã. Adelaide e Jean-Paul caminham lentamente pela


Place des Vosges, como sempre, embora os pensamentos de Adelaide
estejam muito distantes da cena de verão à sua frente. Desde que ela
concordou com a ideia do livro de memórias, Simon Dunster está à espreita
no fundo de sua mente, esperando o momento de reaparecer como um vilão
de desenho animado. Ela o conheceu na escola de artes – um rapaz bonito
de cabelos cacheados dos Home Counties, a região abastada ao redor de
Londres, que se achava especial porque o pai era importante na política.
Adelaide não ligava muito para ele ou para o pai dele, mas, quando
começou o segundo ano na escola de artes, o caminho dos dois continuou a
se cruzar, e não no bom sentido. Antes, ela precisara se esforçar muito,
aprendendo tudo o que podia para alcançar os outros alunos, e tinha
demorado um pouco para ficar confiante, para sentir que talvez houvesse
um lugar para ela ali, afinal. Mas à medida que o período letivo de outono
avançou, Adelaide sentiu que estava ultrapassando os colegas de turma,
como se fosse movida a combustível de foguete. Todos lhe diziam que suas
produções eram boas. Agentes começaram a sondá-la. O Times publicou
uma matéria depreciativa sobre a natureza radical dos aventais que ela
criava, o que levou dezenas de mulheres a procurarem a barraca de
Adelaide na Berwick Street para comprar suas criações como nunca.
Simon Dunster pareceu não gostar do fato de ela receber tanta atenção.
A primeira coisa de que Adelaide se lembra de ele dizer é “Você não é tão
boa assim”, com as mãos nos bolsos, diante de um dos quadros de natureza-
morta dela. Isso aconteceu depois do fim da aula, quando a professora já
havia saído e estavam todos guardando as coisas.
Adelaide deu apenas uma olhada de relance para ele, imperturbável.
– Eu sei – falou. – É por isso que estou aqui. Estudando para ser boa.
A resposta dela foi totalmente sincera – não se importava se Simon
gostava ou não de seu trabalho –, mas ele interpretou como sarcasmo.
– Você se acha melhor do que todo mundo, não é? – perguntou em tom
zombeteiro.
– Na verdade, não – disse Adelaide, antes de reparar na expressão
irritada dele, no olhar de alguém que não estava acostumado a ser rebatido
por uma mulher. – Mas acho que sou melhor que você – acrescentou, então,
em tom frio.
Alguns colegas de Simon que estavam por perto riram ao ouvir aquilo
e, quando ele passou com o rosto rígido de raiva, eles o empurraram de
brincadeira. Outros deram risadinhas enquanto continuavam a limpar os
pincéis e a guardar as tintas. Simon agia como um cara influente, mas não
era muito benquisto. E então uma garota com longas tranças cor de linho –
Heidi, como todos a chamavam, embora seu nome verdadeiro fosse Pam –
disse em voz baixa:
– Cuidado com ele, viu? Simon tem um lado asqueroso.
Adelaide não gostava que lhe dissessem o que fazer, mesmo que fosse
a doce e bem-intencionada Heidi. Afinal, já tinha enfrentado o pai bêbado e
beligerante várias vezes, sem falar na vez em que usou um atiçador para se
livrar de um pretenso ladrão que invadira a ocupação artística; certamente
não tinha medo de um pirralho mimado como Simon Dunster, que só queria
parecer importante. Ele parecia determinado a irritá-la, criticando com
frequência seu trabalho e murmurando comentários cifrados sobre ela para
os amigos sempre que Adelaide estava perto o suficiente para ouvi-lo.
– Ignora ele – disse Margie, quando Adelaide reclamou da situação no
bar depois da aula.
– Tenho a impressão de que Simon está a fim de você – avaliou
Jeanette. – Apesar de ter um jeito esquisito de demonstrar isso.
Adelaide estava ocupada demais com os aventais, os trabalhos do
curso e os eventos sociais da faculdade para perder o sono por causa de
Simon. Mas então aconteceu a festa de Natal organizada por um grupo
popular naquele ano, em um armazém abandonado em Deptford. Havia
velas acesas por toda parte, litros de ponche e o toca-discos Dansette de
alguém ligado a um pequeno gerador para garantir a música. Todos
dançavam e Adelaide estava feliz, realmente feliz. Tinha encontrado sua
turma, sabia o que queria fazer pelo resto da vida. Era 1964 e Londres
parecia o centro do mundo, pulsando com transformações, um lugar onde
tudo era possível.
Mais tarde naquela noite, chegou um momento em que ela estava
cambaleando na escuridão do lado de fora, tentando encontrar o banheiro
que ficava no pátio. Sua respiração formava nuvens de vapor no ar de
inverno quando ela sentiu a mão de alguém agarrar subitamente seu braço e
segurá-la com tanta força que deixaria um hematoma ali no dia seguinte.
– Mas o que você...? – gritou Adelaide quando foi empurrada contra
uma parede de tijolos e mantida presa ali. A lua estava cheia, mas a luz não
era forte o bastante para revelar a identidade da pessoa que a agarrara, que
permanecia encoberta pelas sombras. – Ei! – bradou ela, tentando se soltar.
– Cala a boca – disse uma voz que Adelaide reconheceu muito bem, e
sentiu o peso dele pressionando-a contra a parede para que ela não pudesse
se mexer.
– Simon, o que você tá...?
– Eu mandei calar a BOCA!
Adelaide estremece ao se lembrar daquela conversa, mesmo sessenta
anos depois, sob o sol quente de julho. Simon repugnante com os lábios
carnudos, rasgando suas roupas e batendo nela na escuridão gelada, porque
na imaginação limitada dele aquela era a única forma de levar a melhor
sobre ela. Depois, Adelaide tinha cuspido bem na cara dele, que lhe
respondera com uma bofetada.
– Vaca suja – xingou Simon, abotoando as calças, enquanto ela ficava
ali tremendo.
Ele achou que a história tinha terminado ali, que tinha vencido, mas
estava errado. Nossa, como estava errado.
– Vamos, Jean-Paul – diz Adelaide, puxando a guia do cachorro, que se
mantém parado, determinado a alcançar algumas batatas fritas caídas sob
uma das mesas da brasserie.
É impressionante como Jean-Paul consegue empacar quando está em
busca de uma iguaria tão valiosa quanto uma batata frita na calçada.
O olhar de Adelaide encontra um fósforo usado no chão e isso basta
para levá-la de volta no tempo, para a noite em que estava do lado de fora
do apartamento de Simon Dunster em New Cross com uma caixa de
fósforos na mão, algumas semanas depois da festa. O toque áspero de um
fósforo sob o manto da escuridão, o rápido clarão de luz laranja que logo se
tornou um fogo crescente e envolvente, devastando a casa e os pertences de
Simon. Às vezes, a vingança é um prato que se come quente, no fim das
contas.
Em sua defesa, ela havia presumido que ele não estaria lá naquele
momento – era véspera de Ano-Novo e Simon com certeza estaria em
alguma festa, disse a si mesma. Como poderia saber que ele tinha pegado
uma gripe e se deitara cedo para dormir? Simon não morreu, embora seu
lindo rosto nunca mais tenha sido o mesmo. Ele abandonou a faculdade e,
da última vez que Adelaide teve notícias, estava trabalhando para o pai,
fazendo alguns trabalhos de escritório a portas fechadas, onde não
assustaria o público com as queimaduras. Isso era o melhor que poderia ter
acontecido com ele, na opinião de Adelaide. Não, ela não se arrependia. Por
que deveria?
– Vamos – ordena a Jean-Paul, que finalmente cede, parecendo
derrotado.
Adelaide se solidariza. Não foi uma boa semana, no geral. Falar sobre
o passado tinha despertado algumas lembranças desagradáveis que ainda
não haviam voltado a afundar na lama. E Lucas estava irritado com ela por
ter dispensado Jessica tão depressa. Até chegou a ir atrás da mulher quando
soube o que havia acontecido.
– Estou começando a achar que você não quer que esse livro de
memórias seja escrito – irritou-se ele, mal conseguindo disfarçar a
impaciência. – Foi tudo um projeto para alimentar a sua vaidade? Devo
mesmo continuar a me preocupar em organizar o seu arquivo? No ritmo que
vão as coisas, não vai haver ninguém para examiná-lo. E eu tenho a minha
vida em Londres, é bom você se lembrar disso.
Não é típico dele ficar tão zangado. Lucas sempre foi calmo e
equilibrado, desde a infância. Adelaide sabe que ele tem muita coisa na
cabeça e que acabou deixando as próprias preocupações um tanto de lado
recentemente por causa dela. Sabe que tem pedido muito dele. Talvez
demais? Ah, por que tudo tem que ser tão complicado?
Capítulo Onze

Mais tarde na mesma manhã, enquanto Paris se afasta pela janela do trem,
Jess sente um emaranhado de emoções. Também está com uma dor de
cabeça forte e implacável depois de beber vinho demais na noite anterior,
quando afogou as mágoas na brasserie. Graças a Deus por Valentin, seu
novo amigo, que, além de recomendar o tartare de salmão para um último
jantar delicioso (grande ideia), também chamou o namorado, Nicolas, para
fazer companhia a Jess quando ele mesmo ficou ocupado demais com o
trabalho para cuidar dela. Nicolas é divertido, mas talvez divertido até
demais, pensa Jess, relembrando os drinques que ele pediu depois que a
primeira garrafa de vinho terminou. Sem falar nas doses de Pernod pelas
quais insistiu em pagar quando ela começou a fraquejar.
O estômago de Jess se revira com a lembrança, e ela apoia a cabeça na
lateral do trem, com os olhos fechados. Não pense no Pernod. Nem imagine
o cheiro daquela bebida, Jess, pelo amor de Deus! Seu novo amigo da noite
anterior, Nicolas, era alto e bonito, com cabelos castanhos desarrumados,
sobrancelhas perfeitamente desenhadas, com fendas em cada extremidade, e
uma cruz dourada em uma orelha. E se provou extremamente habilidoso na
arte de arrancar segredos das pessoas.
– Você também deveria ser jornalista – disse Jess, em um misto de
horror e admiração, depois de se dar conta de que Nicolas a havia feito
contar toda a história do fim de seu casamento. – Ou espião. Ou
interrogador.
Pior, apesar de ter reconhecido esse talento em Nicolas, havia
continuado a falar, aparentemente incapaz de esconder qualquer coisa, já
que no instante seguinte se pegou confessando tudo sobre Georges,
incluindo o fato de que fora obrigada a cancelar o encontro porque ele não
poderia encontrá-la mais cedo. Se você for a Londres em algum momento...
dissera Jess em uma mensagem, com um emoji sorridente para encobrir seu
desapontamento, mas ficou com a forte sensação de que estava apelando.
– Olha como ele é lindo – lamentou com Nicolas, enquanto mostrava a
página de Georges no Facebook, e Nicolas assobiou em aprovação.
– Mas ele é bonito mesmo, hein? Isso é uma tragédia! Destino, você
está acabando com a gente! – gritou Nicolas, erguendo o punho para o céu.
– Por que está fazendo isso com a Jess?
Ela sorri com tristeza no trem, lembrando-se do lamento fervoroso
dele, e fica muito feliz por não ter ficado tão bêbada a ponto de aceitar a
sugestão insana de Nicolas de ligar para Georges e convidá-lo para se juntar
aos dois para uns drinques. Pelo menos alguns instintos de autopreservação
continuam sãos e salvos.
De manhã, Beatrice, a recepcionista gentil do hotel, fez o possível para
se igualar a Nicolas em extravagância, levando as mãos à altura do coração
e se declarando arrasada com a partida antecipada de Jess.
– Vamos sentir a sua falta, Jess. Esperamos te ver de novo em breve.
– Eu também, Beatrice. Obrigada por tudo, especialmente pelo
presunto – disse Jess, enquanto devolvia a chave com relutância.
Ela olha pela janela agora, à medida que o trem avança, deixando Paris
para trás, junto com seus sonhos de evolução na carreira. Levando-a para
casa, de volta à sua vida banal e caótica, onde vai ter que se dedicar às
contas a pagar, à roupa a ser lavada, ao que precisa cozinhar para o jantar e
aos dramas complicados que fluem e refluem em torno das filhas como
marés vivas.
No entanto, Jess mal pode esperar para revê-las. Havia conversado
com as três quase todas as noites, mas não é a mesma coisa de estarem
juntas pessoalmente, compartilhando o dia a dia. Ela faz o possível para
acompanhar os interesses em constante mudança das filhas – Edie no
momento está obcecada por mangá, enquanto Polly cita um número
desconcertante de influenciadores que Jess precisa procurar secretamente
para se atualizar. Os gostos de Mia se voltam para bandas obscuras,
podcasts horríveis sobre crimes reais e técnicas de maquiagem, e Jess não
consegue entender nada disso direito.
Depois de entrar em contato com David e dar sua desculpa oficial – Já
tenho todo o material de que preciso para o capítulo de amostra, por isso
pensei em pegar um trem mais cedo de volta para casa –, os dois
concordaram que as meninas voltarão para casa naquela tarde. Jess está
encantada com a ideia e, lendo nas entrelinhas, percebe que o ex-marido
também ficou bastante aliviado. Todo mundo saiu ganhando.
Jess vê que recebeu um novo e-mail de Lucas e clica para abri-lo.
Espero que seu trem tenha chegado na hora e que esteja tudo bem, escreveu
ele. Encontrei um monte de fotos antigas no arquivo hoje de manhã e achei
que talvez possam te inspirar para o capítulo de amostra.
O e-mail tem três anexos, com as legendas Poland Street, Festa da
faculdade e Fim de semana em Little Bower, e Jess amaldiçoa o wi-fi do
Eurostar enquanto espera o download dolorosamente lento das fotos. Além
disso, o que é, ou onde fica, Little Bower? A primeira imagem se abre na
tela: uma foto em preto e branco de quatro mulheres sentadas diante de uma
mesa de cozinha cheia de garrafas e taças de vinho, cada uma delas com um
cigarro na mão. Jess dá zoom e reconhece Adelaide (a mais alta, com
cabelos compridos e franja cortada reta), Esme (de óculos grossos e um
sorriso tímido), Margie (de cabelos curtos, dando uma gargalhada) e
Jeanette, que tem o rosto obscurecido por uma nuvem de fumaça, mas
parece estar usando uma blusa de veludo bastante ousada com partes
decotadas, sem dúvida desenhada e costurada por ela mesma.
Ali estão elas, pensa Jess, olhando emocionada para os rostos daquelas
mulheres. É possível dizer pela linguagem corporal relaxada como são
próximas umas das outras – mulheres incríveis, jovens que ainda deixariam
sua marca no mundo da arte. E que também davam boas risadas juntas, se
aquela foto servia de referência. Imagine fazer parte do grupo delas.
Imagine passar pelos altos e baixos pelos quais as quatro passaram, coletiva
e individualmente, sem que nenhuma delas tivesse a mais remota ideia,
naquele momento, de que estavam destinadas à grandeza.
Jess suspira, desejando que Adelaide tivesse sido um pouquinho mais
gentil com ela. Que tivesse lhe oferecido uma fração que fosse da ternura
evidente naquela foto. Poderia ter sido o melhor trabalho da vida de Jess,
escrever a porcaria do livro daquela mulher. Ah, não importa.
A segunda foto revela outra cena em preto e branco, com dez ou mais
pessoas no que parece ser uma festa à fantasia. Procurando com atenção,
Jess acha Adelaide usando peruca e um vestido em estilo Maria Antonieta,
conversando com um homem bonito vestido de pirata. Há uma Cleópatra
(Esme, talvez?), o rosto de alguém saindo de um gigantesco tubo de pasta
de dente de papelão e um homem que parecia ter se fantasiado de Salvador
Dalí, considerando o grande bigode curvado para cima.
Como só tinha visto Adelaide em sua versão atual, séria e ameaçadora,
era bom ver aquele lado mais jovem e divertido dela entre amigos, pensa
Jess. Com que frequência ela deve relembrar aqueles momentos e como
será que eles a fazem se sentir? Encantada, melancólica, triste?
Então, a terceira foto. Fim de semana em Little Bower é a legenda, o
que faz Jess pensar em um jardim, talvez uma pérgula coberta de vegetação,
mas quando abre a foto vê uma praia de seixos. Lá está o famoso quarteto
mais uma vez – Adelaide, Esme, Margie e Jeanette –, todas vestidas como
antigas beldades em trajes de banho: de biquíni, batom e salto alto (um
pesadelo nas pedras, imagina Jess) enquanto fazem poses provocantes.
Apesar da ressaca, apesar de tudo, Jess ri alto da cena, pois não consegue se
conter; ela ama a atitude desafiadora delas. Essa fotografia em particular é
colorida – o que é fantástico, porque os biquínis são vermelhos, amarelos,
laranja e verde-azulados, então realmente se destacam nas pedras e no céu
azul de verão. É glorioso!
Mas alguma coisa continua martelando na mente de Jess. Little
Bower... ela já ouviu esse nome antes. É o nome da praia? Certamente não,
não soa nem remotamente marítimo, pensa, e recorre ao Google, onde
digita as palavras. O resultado principal vem de um artigo sobre a
propriedade no Times, com data de cinco anos antes, e ela lê as seguintes
palavras: “... Little Bower, antigo estúdio compartilhado pelo coletivo de
arte London Bohemian, está de volta ao mercado imobiliário como uma
casa para uso familiar, após uma cuidadosa reforma...”
Ahhh, deve ser por isso que ela se lembra de ter ouvido o nome do
lugar.
O segundo resultado da lista é um pouco mais sinistro. “Little Bower,
o local misterioso onde a arte encontrou a morte”, lê Jess, e lembra com um
arrepio que sim, claro, foi naquele lugar em que se deu uma cena infame:
anos antes, o corpo de um jovem fora encontrado do lado de fora. Na
década de 1980, talvez? A história completa lhe foge, mas ela lembra que
pesquisou a respeito e que havia uma janela quebrada no andar de cima e
um bilhete de suicídio escrito em uma máquina de escrever. Jess abre a
matéria, sentindo-se um tanto macabra, lembrando-se dos detalhes mais
importantes. Colin Copeland, o rapaz morto, tinha 26 anos, era do East End
de Londres, estava desempregado e era considerado uma pessoa “solitária”.
Sua morte foi registrada como suicídio, apesar de a irmã dele, uma tal de
Eleanor Copeland, insistir que o veredicto estava errado. Ele era feliz, tinha
planos!, é a descrição do que ela teria dito. Um bilhete de “suicídio”
datilografado? Ah, para com isso. Meu irmão não conseguia nem soletrar
“suicídio”, menos ainda cometer um. E por que ele pularia de uma janela
fechada, e não de uma janela aberta? Me respondam isso!
Ainda restam dúvidas se havia mais alguém na propriedade no
momento da morte de Colin, afirma a matéria. As artistas envolvidas foram
todas interrogadas, mas tinham álibis sólidos, segundo o inquérito policial.
Little Bower fica em uma rua sem vizinhos próximos, mas, no dia em
questão, um homem que passeava com cães afirmou ter visto um carro
estacionado em frente à propriedade, que fica a pouco mais de três
quilômetros de Hythe Beach.
Os olhos de Jess se arregalam um pouco quando ela lê esse último
detalhe. Seria Hythe Beach na fotografia, então? Se fosse esse o caso, Little
Bower estaria a menos de uma hora de carro da casa dela em Canterbury.
Quarenta e cinco minutos, provavelmente, em uma boa velocidade. Ela
tenta se lembrar do que mais sabe sobre a casa – que alguém do grupo,
possivelmente Jeanette, comprou o lugar ainda como um casebre decadente,
depois de sua primeira grande exposição no final dos anos 1960. Ou será
que a herdou? Fosse como fosse, ela e várias amigas passaram o verão
reformando e redecorando a casa, transformando-a em um segundo lar, um
lugar para pintar, desenhar e pensar, longe da agitação da vida londrina.
Mas por que Colin Copeland foi parar lá?, pergunta-se Jess, olhando para a
foto alegre da praia em sua tela. Como a morte dele se encaixa na história
de Little Bower?
Inferno, ela se deixou fisgar novamente, mesmo sabendo que não pode
se dar a esse luxo. Ela já perdeu o trabalho, não pode se permitir voltar a se
conectar emocionalmente. No entanto, não há nada que a impeça de fazer
uma viagem rápida até Hythe, certo? Para encontrar a casa e descobrir mais
sobre a história, só por curiosidade. Nada a ver com o livro... talvez consiga
produzir uma matéria para o jornal, se conseguir desenterrar bastante
informação. Por que não?
✳ ✳ ✳

Você pode achar que já me conhece, mas lamento dizer que isso
não é verdade. Você não tem ideia. E ainda nem tenho certeza do
quanto vou contar da minha história, da minha vida, porque não
sou de confiar facilmente em ninguém. Quando terminar de ler
esse livro de memórias, você vai entender por quê. Mas uma
coisa posso prometer: tudo o que você vai encontrar nestas
páginas é verdade. Foi exatamente o que aconteceu. E se quiser
me julgar por algum comportamento, vá em frente. Não vou me
importar.

Jess está em casa e tudo parece bem agora que ela abraçou cada uma
das filhas, se inteirou das novidades, tomou um banho e se recostou no sofá,
com um merecido copo de gim-tônica na mão e uma Albertine mal-
humorada ao seu lado, balançando o rabo. Já é a manhã seguinte, sexta-
feira, e ela está decidida a colocar a mão na massa – pelo menos enquanto a
voz de Adelaide ainda está fresca em sua cabeça. Se conseguir montar o
esqueleto de um capítulo de amostra logo, enquanto as meninas estão na
escola, vai poder se dedicar a elas no fim de semana. Quem sabe até sugerir
uma viagem de bate e volta a Hythe no dia seguinte, com um breve desvio
até Little Bower no caminho para casa?
Ela relê as palavras que acabou de digitar na tela, com o nariz franzido.
O tom que capturou certamente soa como o de Adelaide, mas será que a
mulher vai discordar do estilo não convencional, quase agressivo, que Jess
está estabelecendo? Será que vai achar que Jess está sendo debochada se o
capítulo de amostra começar desse jeito? Bem, que seja.
– Se não consegue lidar com a verdade, Adelaide – murmura Jess, com
os dedos pairando acima do teclado –, sinta-se à vontade para parar de ler.
Eu nasci em janeiro de 1945, na Rudge Street, em um quarto
gelado, nos fundos de uma casa geminada apertada. Era noite e a
minha mãe jura que emergi ao mundo no exato instante em que a
casa do outro lado da rua estava sendo bombardeada. Todos na
sala gritavam muito alto, então minha primeira impressão do
mundo foi provavelmente de total pandemônio. Encare isso como
quiser.

Jess sente que está entrando no ritmo. Ela está gostando bastante de
assumir o tom direto e objetivo de Adelaide, embora obviamente ajude ter
páginas e mais páginas da fala dela transcrita para se inspirar.
Eu fui a terceira de quatro filhos, tinha dois irmãos mais velhos,
Robert e Peter. William, meu irmão favorito, nasceu no ano seguinte. Não
vou contar o que aconteceu com William porque não é da sua conta, mas eu
o amava.
Jess morde o lábio. Será que passou do limite? Os editores hesitariam
em adotar uma linha tão deliberadamente combativa em um livro
finalizado, mas com sorte a frase vai deixar claro para Adelaide (e Lucas) a
posição absurda que a artista adotou até ali, protegendo os momentos mais
dolorosos de sua vida com um zelo excessivo em manter certas informações
sigilosas. Quem sabe isso talvez até a force a se superar e ser mais acessível
com a pessoa que for escolhida para escrever aquele maldito livro. Às
vezes, milagres acontecem.
A porta se abre de repente. Os dedos de Jess escorregam no teclado, e
ela estremece de surpresa. Que...? São só onze e meia da manhã, ninguém
deveria ter chegado da escola ainda.
– Oi? – chama Jess, já se levantando e saindo apressada na direção do
hall de entrada. – Quem é... Mia! O que aconteceu?
Ali está a filha mais velha chorando muito e se deixando cair no
tapete, com a mochila ainda pendurada em um braço. Mia se inclina para o
lado como se tivesse levado um tiro, colocando as pernas em posição fetal.
Jess corre até ela.
– Meu bem! O que aconteceu? Você está machucada? – Alguém
esfaqueou a minha filha, pensa na mesma hora. Ela foi assaltada, agredida.
– Ah, meu amor... – diz Jess, ajoelhando-se ao lado de Mia e esfregando
suas costas. Não há nenhum ferimento visível, nada óbvio. – O que
aconteceu?
– É o Zach – responde Mia, soltando as palavras entre soluços. – Ele...
ele tá saindo com a Georgia Greene. Achei que ele... – Mais soluços a
agitam, e ela mal consegue falar. – Achei que ele gostasse de mim.
Ahhh. Eram ferimentos invisíveis, então – mas quase tão graves
quanto os físicos quando se tem 17 anos. Jess se abaixa para embalar Mia.
Graças a Deus ela está ali, e não em Paris, graças a Deus pode abraçar a
filha nesse momento em que a menina tanto precisa.
– Ah, não... – diz, solidária.
Jess se dá conta então de que, apesar da declaração de Mia de que ela e
Zack eram “só amigos!” na outra semana, a menina estava claramente
esperando por algo a mais, algo mais profundo. Pobre Mia. Jess se lembra
muito bem da dor da rejeição na adolescência. A agonia de ver alguém por
quem se está apaixonada se envolver com outra pessoa.
– Eu me sinto uma idiota, mãe – lamenta Mia, em meio a uma
enxurrada de lágrimas. – Sou muito burra!
– De jeito nenhum – retruca Jess. – Burro é ele por escolher outra
pessoa em vez de você. Um bobo. E vai ficar muito envergonhado quando
se der conta do erro que cometeu.
Mas essas palavras parecem não tocar a filha, que continua
inconsolável. É assim que tudo começa, pensa Jess, enquanto elas
permanecem abraçadas no chão do corredor, com o rosto de Mia
encharcado de lágrimas. Esse terrível endurecimento por que todos temos
que passar quando se trata de amor, as surpresas desagradáveis que podem
nos surpreender quando menos esperamos.
Jess franze o cenho quando se lembra do sorriso afetado de Zach
naquela manhã em que o pegara saindo do quarto de Mia. Se visse aquele
garoto de novo, ele com certeza sentiria a rajada ardente de sua fúria
materna.
– Mas sei bem como dói na primeira vez que isso acontece –
acrescenta Jess, porque nesse momento Mia provavelmente precisa de
suavidade, e não da ferocidade de uma mãe leoa. Então hesita. – Você...
Você foi cuidadosa quando esteve com ele, não é?
Mia soluça, passa o braço nos olhos e faz uma careta.
– Mãe. Por favor. Agora não.
– Vou deduzir que isso significa que você foi, mas... Tá certo. Não vou
me meter. Você não precisa me dizer nada. Apesar de que obviamente possa
dizer, a qualquer momento... você sabe disso, certo?
Mia revira os olhos de uma forma tão melodramática que é um milagre
que permaneçam nas órbitas. Mas pelo menos parou de chorar.
– Como se eu fosse pedir conselhos sobre relacionamento para você.
Ela se desvencilha dos braços de Jess e funga com vontade.
Isso magoa Jess. Ela passa um lenço de papel para a filha, que assoa o
nariz com um som que mais parece uma buzina. É sempre assim com as
filhas: Jess se sente aceita em um momento, mas é empurrada para longe no
instante seguinte. É preciso aproveitar a proximidade que consegue ter
enquanto ela está sendo oferecida, ao mesmo tempo que tenta absorver as
ondas de culpa. Ainda assim, ela também tem sentimentos. Não é fácil
encontrar um ponto de equilíbrio em relação a isso.
– O que te ajudaria agora? – pergunta Jess com calma, depois de contar
até dez mentalmente. – Uma xícara de chá? Um abraço da gata? Quer que
eu te dê uma carona de volta para a escola? – Ela cruza os braços. – Porque
nós duas sabemos que você não deveria estar em casa a essa hora, então...
Mia dá de ombros como quem diz “e daí?”.
– Eu disse que estava passando mal e pedi dispensa médica, não estão
me esperando de volta – explica ela. Então sua expressão se altera. – Aliás,
mãe, o que tá acontecendo com o papai? Ele tá saindo com alguém?
A mudança de assunto é tão rápida e inesperada que Jess quase sente o
impacto físico.
– Como assim? – pergunta ela, antes de acrescentar: – Não que eu
saiba.
É como se o chão tivesse estremecido sob o tapete gasto do hall de
entrada. David e outra mulher de novo? Como ela deveria se sentir sobre
aquilo?
– Não sei, eu só... – Mia encolhe os ombros. – Ele estava agindo de um
jeito meio esquisito. Meio misterioso.
Esquisito. Misterioso. Isso não parece um homem delirando de amor,
mas o que Jess sabe? Afinal, na última vez ela não tinha percebido
nenhum sinal.
– Eu... hummm. Sei tanto quanto você.
Ela examina a filha com mais atenção.
– Você ia ficar chateada, se ele estivesse com alguém?
– Eu? Não. Não ia, não. Desde que não seja uma pessoa horrível. Por
quê? Você ia ficar chateada?
Jess hesita enquanto tenta encontrar as palavras certas.
– Não sei se eu ia ficar chateada – responde com cautela.
Com Mia, nunca se sabe o que vai ser repassado nem para quem. As
meninas não sabem de todos os detalhes da separação dos pais – no que
lhes diz respeito, a mamãe e o papai simplesmente não se amam mais
daquele jeito (“Como acontece com muitas pessoas. Mas ainda amamos
muito vocês”).
Um caso amoroso breve e desprezível era uma coisa, mas saber que
David estava em um relacionamento maduro e assumido publicamente...?
Com certeza isso faria a situação parecer mais definitiva, conclui Jess. Mas
talvez fosse... bom?
– No começo, eu ia achar meio estranho – continua ela.
Jess se sente incomodada, sem dúvida, como um gato que teve o pelo
acariciado do jeito errado, mas fora isso não consegue nomear seus
sentimentos.
Mia se apoia nela, afável de novo.
– Homens, não é? Malditos homens! – Elas riem, sem muito humor,
então Mia repete o que Jess lhe perguntou: – O que te ajudaria agora, mãe?
Uma xícara de chá? Um abraço da Albie? Ou nós duas enlouquecermos e
abrirmos uma sidra juntas?
Jess bufa.
– Definitivamente não. – Então, tem uma ideia. Uma ideia capaz de
desviar a mente das duas dos assuntos frustrantes do coração. – Mas
devolvo a sua sugestão da sidra com uma das minhas: que tal dar uma
olhada em uma casa onde ocorreu uma morte misteriosa?
Os olhos de Mia cintilam. É óbvio que sim. A menina se diverte
ouvindo histórias sangrentas de serial killers.
– Jura? O que aconteceu?
– Bem – diz Jess –, essa é a questão.
Nossa, ela está morrendo de vontade de ver aquela casa, e se Mia já se
liberou da escola, então... Jess se levanta, pega um casaco e as chaves do
carro e as agita no ar.
– Posso te contar a história no caminho – acrescenta ela. – Vamos?
– Óbvio que sim – é a resposta da filha. – Partiu, mãe. Uma road trip!
Capítulo Doze

Adelaide sabe muito bem por que está tendo uma semana tão turbulenta.
Ela sempre teme os dias que antecedem o aniversário de Remy, porque ele
ocupa sua mente de antemão e afeta suas emoções. É hoje – e não só isso:
seria o octogésimo aniversário dele. Adelaide imagina como Remy teria
aproveitado ao máximo as comemorações: uma grande festa em algum
lugar glamoroso, com ele no centro, atraindo todas as atenções. Ela costuma
pensar que ele teria se tornado um idoso muito alegre... de cabelos brancos,
elegante como sempre, em um terno sofisticado e sapatos bem engraxados.
O homem era tão estiloso que teria ficado bem até usando óculos de lentes
grossas e um par de aparelhos auditivos. Ele teria adquirido uma bengala
com castão prateado para fazer pose, quer precisasse dela para fins de
mobilidade ou não.
Em vez disso, pensa Adelaide, enquanto abre o pesado portão de
madeira na entrada do cemitério Père Lachaise, Remy foi sepultado ali,
havia mais de vinte anos, enquanto a chuva escorria pelos colarinhos dos
enlutados e as lágrimas respingavam nos sinuosos caminhos de
paralelepípedo. Os filhos dele, esguios e delicados, se colocaram um de
cada lado de Coco, sob guarda-chuvas pretos, e os três ignoraram Adelaide,
que fez o mesmo em relação a eles. Que tragédia, murmuravam as pessoas,
enquanto a chuva caía. Que desperdício.
Não está chovendo no momento e Adelaide sente apenas o cheiro de
terra seca, o leve movimento de uma brisa por entre as folhas das árvores.
Será que ainda resta alguma coisa de Remy ali, pergunta-se ela, ou ele é
apenas uma lembrança? Se existe alma, ela acha que a dele talvez já tenha
voltado para Roquefort-les-Pins, a aldeia onde cresceu. Imagina Remy
assobiando pelas casas de pedra ensolaradas e pelas florestas de pinheiros.
Ele sempre amou o sul.
– Vamos, Jean-Paul – chama Adelaide quando o cão fica para trás,
farejando o pilar do portão.
São oito horas da manhã de sábado, e eles foram prestar suas
homenagens mais cedo porque a emissora de TV francesa Canal+ vai
reexibir um documentário sobre Remy hoje à noite, para celebrar o dia, e o
programa está sendo muito divulgado. É quase certo que haverá multidões
vagando pelo cemitério para visitar o túmulo dele mais tarde, e ela não quer
ser notada. A ida tão cedo também se deve à previsão de que o dia será mais
quente, mesmo para os padrões parisienses. Os jornais estão repletos de
notícias sobre os incêndios florestais que assolam a Europa, os céus cheios
de fumaça, e Adelaide começou a sonhar com cenários congelados, com
vendavais tão fortes a ponto de tirar o fôlego. A maioria dos parisienses
com algum bom senso já deixou a cidade, mas ali está ela, ainda se
arrastando como uma idiota. Ela passa a mão na testa, que já começa a ficar
úmida de suor.
– Vamos, querido, antes que nós dois derretamos – pede ela.
Sua história de amor com Remy começou em Nice, quando sua
primeira exposição francesa foi inaugurada em uma galeria da cidade.
Adelaide tinha 28 anos e era verão; o dia longo e quente enfim começava a
refrescar quando a exibição privada começou, na noite anterior à
inauguração oficial. As mulheres presentes pareciam usar apenas
minivestidos fofos ou terninhos descolados, com óculos escuros no alto da
cabeça, acima dos cabelos em cortes chanel elegantes. Adelaide usava um
kaftan branco que ela mesma havia confeccionado, com enormes mangas
drapeadas e decote profundo. CORAGEM, ela havia bordado por dentro da
bainha, em homenagem aos velhos tempos, e, por algum motivo estranho,
isso ajudou. Seu nariz estava queimado de sol devido a uma tarde passada
na praia e seus pés estavam descalços – por um instante, Adelaide teve
medo de parecer mais uma órfã vitoriana de camisola do que a artista do
momento, mas então tomou duas taças de champanhe e em poucos goles
endireitou os ombros e decidiu parar de se importar tanto. No lugar onde
estavam, perto da Promenade des Anglais, era possível ouvir as gaivotas
através das grandes janelas abertas enquanto o céu lentamente ficava
rosado.
Adelaide estava com um humor estranho naquela noite... tudo parecia
um pouco onírico, extremamente colorido. Em meio aos vertiginosos ventos
da boa sorte que fustigavam sua carreira, ela também precisava aceitar a
morte recente do pai – de insuficiência hepática, após décadas de
alcoolismo. Um dia ela estava no funeral dele, pela primeira vez em anos ao
lado da mãe de rosto fino e dos irmãos; e, no dia seguinte, estava num avião
para Nice. Era como se tivesse deixado algo para trás na Inglaterra, uma
parte de si mesma. No fim, Adelaide nem gostava do pai, já fazia muito
tempo que não gostava dele, mas ainda não conseguia assimilar o fato de
que nunca mais o veria. Isso a deixou desequilibrada, como se ela tivesse
perdido o norte. Mas então lá estava Remy caminhando em sua direção e,
mesmo naquela época, Adelaide reconheceu o momento como de profundo
significado.
O ar parece um pouco mais fresco naquela parte do tranquilo
cemitério, e Adelaide levanta o rosto, grata pela brisa. Essa é a melhor hora
do dia para visitar o lugar, antes que os turistas cheguem com suas
mochilas, ticando itens da caça ao tesouro de lápides que eles próprios
estabeleceram: Piaf, Chopin, Wilde, Morrison, Proust e todos os outros.
Remy também, é claro. Ele teria ficado emocionado por ter um lugar ali,
pensa Adelaide, fazendo uma pausa para assentir respeitosamente para o
túmulo de Georges Seurat ao passar (descanse em paz, Georges). O
cemitério é enorme, mas, mesmo assim, atualmente não permitem mais que
qualquer Tom, Dick ou Harry seja enterrado ali – há uma lista de espera e
valores de locação a serem pagos para garantir tal privilégio. Após a morte
de Remy, Adelaide havia feito a solicitação para que ele fosse enterrado ali,
com o apoio de Coco, sua outra ex-mulher. Mas, ao longo dos anos,
perguntou-se se foi egoísmo da parte delas mantê-lo em Paris, por mais
grandioso que fosse seu local de descanso final. Ele tinha uma relação
complicada com a cidade, por assim dizer.
Remy tinha sido convidado para a exposição particular de Adelaide em
Nice, junto com vários outros artistas locais emergentes, e ela ainda
consegue visualizá-lo: franzino mas musculoso, a camisa mostarda com
estampa paisley e calças justas, sexy em sua postura orgulhosa e ereta. Ela
tinha 1,70 metro e ficava mais alta do que ele se usasse salto alto – a
estatura modesta de Remy nunca deixava de espantá-la, porque ele tinha
uma personalidade grandiosa, do tipo que poderia conquistar todo um salão
em segundos. O coração de Adelaide disparou quando ele se apresentou a
ela, dizendo que a achava muito talentosa, fitando-a com olhos cinzentos
cintilantes enquanto os dois conversavam. Desde Simon Dunster, Adelaide
evitava qualquer envolvimento com homens – “Ando ocupada demais”,
dizia em tom de desdém –, mas mesmo assim se pegou sentindo-se atraída
por Remy. Bastante atraída.
Naquela época, ainda era uma raridade um homem responder à arte
dela com elogios e perguntas ponderadas, em vez de simplesmente dizer o
que achava que ela estava tentando fazer (ou, mais comumente, o que
achava que ela deveria fazer). A carreira de Adelaide estava decolando – um
quadro dela tinha sido comprado pelo Museu de Arte Moderna de Nova
York (uma grande emoção e honra), havia boatos de que a artista
representaria o Reino Unido na Bienal de Veneza – e ela estava se
divertindo muito experimentando mais estilos gráficos em seu trabalho. No
entanto, alguns homens – muitos homens – ainda pareciam determinados a
lhe explicar as obras que ela própria criava, como se Adelaide fosse
estúpida demais para decodificá-las sozinha. (“Então as partes douradas da
peça representam o capitalismo, presumo? Entende o conceito de
capitalismo, Srta. Fox?”) Nem é preciso dizer que ela adorava confundir as
expectativas deles – sempre argumentava, mesmo que eles estivessem
certos, e inventava respostas falsas, se necessário. (“Sinto muito, mas você
está redondamente enganado, o uso do dourado é uma referência à arte
bizantina, em que simbolizava a luz divina e transcendente, incorporando o
mundo espiritual invisível. Você sabe do que estou falando quando me
refiro à ‘arte bizantina’?”)
Os críticos não sabiam lidar com ela e muitas vezes recorriam a
comentários sarcásticos. Ingênuo. Simplista. Mas isso é arte?, perguntavam,
deixando claro seus pontos de vista. Remy, por outro lado, era tão seguro de
si que não se sentia degradado por elogiá-la como uma grande artista, à
altura dos colegas homens.
– Sim, meu bem, mas eu também estava tentando te levar pra cama,
não se esqueça – respondeu Remy, quando Adelaide comentou isso com ele
certa vez.
Fosse como fosse, no espaço vertiginoso e irreal que de alguma forma
conseguiu transpor a escuridão da morte em sua família, e com a joie de
vivre daquela cidade linda e ensolarada, Adelaide se apaixonou rápida e
perdidamente por Remy, quase desde o primeiro instante em que seus
caminhos se cruzaram. Durante o resto da noite, ela permaneceu consciente
da presença dele onde quer que estivesse na sala, seu corpo respondendo a
ele como em uma reação química, o coração acelerando cada vez que Remy
a olhava. Assim, quando a exposição privada terminou e o galerista sugeriu
um aperitivo num bar próximo, pareceu a coisa mais natural do mundo
convidá-lo para ir também.
Aquele foi o começo dos dois, doce e verdadeiro – uma única flecha
atingindo diretamente o alvo –, mas o relacionamento nunca mais foi tão
tranquilo. A paixão entre Adelaide e Remy era como uma fornalha – às
vezes ardia, às vezes destruía. Eles se separavam e voltavam a ficar juntos;
gritavam, berravam e se amavam com igual intensidade. A carreira de cada
um os levou a viagens por todo o mundo – Nova York, Veneza, Melbourne,
Tóquio –, mas ambos faziam um trabalho primoroso na casa que acabaram
comprando em um pequeno vilarejo provençal nos arredores de Avignon. A
casa foi o presente de casamento de um para o outro, um espaço onde a
criatividade reinava e era suprema, onde o resto do mundo se fundia no
horizonte atrás deles.
Adelaide chega por fim ao túmulo de Remy, uma pedra de mármore
cinza, e felizmente parece que ela é a primeira pessoa ali hoje.
– Olá de novo, meu velho amigo – cumprimenta ela, com a voz
embargada, porque mesmo nesse momento, mais de vinte anos depois, dói
lembrar que Remy não está mais ali.
Dói lembrar que ele nunca mais vai olhar para ela, que nunca mais vai
inspirá-la, fazê-la rir, nem sussurrar algo ultrajante em seu ouvido. Adelaide
se apoia no topo da lápide enquanto se curva cuidadosamente para colocar o
buquê de rosas brancas na base, torcendo para que seus joelhos não cedam
na metade do caminho.
– Seu velho idiota – continua ela, em tom triste. – Sempre
desaparecendo da minha vida, não é? Sempre dando a última palavra. Ah,
Jean-Paul... não!
Tarde demais. O cachorro acaba de levantar a perna sem cerimônia na
direção da pedra de mármore, e o jato de xixi salpica os caules das rosas.
– Ah, por Deus.
Adelaide sente uma risada surgir. Pelo menos Remy também adorava
cães. Ela tem certeza de que ele não se importaria que fizessem xixi em seu
túmulo. Deus sabe que os dois tinham passado por coisas muito piores
juntos.
Os dedos de Adelaide apertam a lápide quando ela se lembra da morte
de Remy, algo que sempre foi um enorme peso para ela. O que mais poderia
ter feito? Assim como o pai dela, Remy estava determinado a viver
mergulhado em uma garrafa, e ninguém parecia capaz de resgatá-lo. Então,
é claro, depois da morte dele, Monica, aquela cretina, só piorou seu
sofrimento.
Adelaide endireita o corpo, tentando se recompor, mas não adianta, seu
coração está transbordando de emoções e ela precisa enxugar os olhos e
assoar o nariz, depois respira fundo algumas vezes na esperança de
controlar seus sentimentos. Perdida em seu próprio mundo, Adelaide não se
dá conta dos passos se aproximando atrás dela até ouvir um pigarro suave e
uma voz hesitante.
– Adelaide? Achei que te encontraria aqui.
Capítulo Treze

– Mãe, acho que encontrei alguma coisa! – grita Mia, correndo para a
cozinha.
É hora do almoço de sábado e Jess está fazendo ovos mexidos no
fogão. Aqui vamos nós, pensa. Embora não se arrependa de ter ido com a
filha a Hythe na véspera, para visitar Little Bower, não contava com o
entusiasmo com que Mia se lançaria nas investigações depois que
voltassem. Nesse ritmo, a menina já vai ter o primeiro episódio de seu
podcast sobre crimes reais gravado e lançado até o fim do dia.
– Mais trabalho de detetive? – pergunta Jess, colocando sal e pimenta
moídos na panela, bem no instante em que quatro fatias de pão saltam da
torradeira. – Você pode passar manteiga nas torradas pra mim, meu bem?
– Sim, mais trabalho de detetive – confirma Mia, e faz a gentileza de
pegar uma faca. – Extra! Extra! Encontrei a irmã do Colin Copeland.
– Uau! – Jess se vira e vê uma expressão de triunfo no rosto da filha. –
Muito bem, Sherlock. E...? O que descobriu sobre ela?
– Bem, a mulher já está bem velha. – Isso pode muito bem significar
que a irmã de Colin Copeland tem a idade de Jess, pois ela sabe muito bem
o que a filha classifica como “velha”. – Mas ainda não se conformou com o
que aconteceu. Ela criou um site sobre a injustiça da morte do Colin,
e adivinha?
– O quê? E como vão essas torradas? – pergunta Jess, baixando o fogo
da panela.
– A sua amiga Adelaide é mencionada nas divagações dela... mais de
uma vez. E Eleanor, a irmã do Colin, encontrou alguém da cidadezinha
mais próxima que viu a Adelaide no local no momento da morte do Colin!
“A morte do Colin”, sinceramente. Mia está falando sobre o homem
como se ele fosse o personagem de um dos podcasts que ela escuta, em vez
de uma pessoa real que morreu tragicamente jovem.
– Na hora exata da morte? – insiste Jess.
Mia nunca manifestou qualquer desejo de ser jornalista, mas Jess faz
questão de incutir em todas as filhas um respeito saudável pelos fatos.
– Bem, não, não na hora exata, a mulher não viu a Adelaide
empurrando o Colin pela janela nem nada parecido, mas ela estava no local
perto da hora em que ele morreu. Tipo, no dia anterior.
Jess demora um pouco para responder. Mia está completamente
convencida de que Adelaide é uma assassina, e Jess, embora ainda tenha
sentimentos conflitantes em relação à artista, provavelmente deveria se
esforçar mais para desencorajá-la. Se Mia começar a propagar suas teorias
na internet, Jess pode imaginar Lucas revidando pesado com ações judiciais
e ordens de silêncio.
– Lembre que ela tem um álibi – diz, então, antes de enfiar a cabeça no
vão da porta e gritar: – ALMOÇO! – Uma tentativa de chamar as outras
filhas.
– Sim, um álibi que a Eleanor Copeland diz ter sido totalmente
inventado depois do que aconteceu – responde Mia, com os olhos
cintilando. – Ele estava apaixonado por ela, sabia? O Colin. Era louco por
ela.
– Louco pela Adelaide?
– Sim. A Eleanor diz que o quarto dele era quase um santuário
dedicado a ela. Muitas fotos coladas na parede. E ele também guardava
recortes de jornais sobre a Adelaide dentro de um livro.
– Certo. Como um grande fã?
Jess serve os ovos em cima das torradas com manteiga.
– Mais como um stalker. Obcecado. Então, o que acho que aconteceu
foi o seguinte: o Colin seguiu a Adelaide até a casa em um fim de semana e
ela disse: “Quer saber? Que se foda...”
– Ei, olha como fala, por favor.
– Aí ela matou o Colin. Talvez acidentalmente, mas ainda assim... ela
matou. Quer dizer... poderia ter acontecido assim, certo?
Edie e Polly entram na cozinha, discutindo acaloradamente sobre um
vidro de esmalte que ambas reivindicam como seu.
– Vamos conversar sobre isso mais tarde – diz Jess a Mia, sabendo que
suas habilidades de mediação estão prestes a ser postas em prática.
Mesmo ela, experiente em ser multitarefa, não consegue gerenciar
duas conversas que exigem atenção plena.
Ainda assim, ao longo do almoço, Jess se vê obrigada a admitir que
está intrigada com o mistério que cerca Little Bower. Na véspera, ela parou
o carro na rua, a uma curta distância do lugar, e sentiu um calafrio por estar
ali, no estúdio dos famosos artistas. A casa ficava afastada da estrada, uma
propriedade que não foi feita para ser encontrada facilmente, mas que
chamava a atenção assim que surgia à vista, com seus tijolos vermelhos e
telhado de telhas. O tijolo dava lugar a algumas partes em estilo enxaimel
sob os beirais, e as janelas na frente e nas laterais eram enormes – tinham
facilmente o dobro da altura das janelas comuns –, com molduras de
madeira.
– Ele deve ter caído dali – supôs Mia em voz baixa, apontando para a
janela no lado leste do prédio. Ela havia passado toda a viagem de carro
buscando notícias arquivadas no celular e se tornou autoridade no que se
refere aos detalhes da descoberta do corpo. – Graças a Deus que as pessoas
passeiam com cães, certo? Eles parecem farejar todos os cadáveres. Será
que a gente devia arranjar um cachorro?
– O quê? Pra você levar o bicho para farejar cadáveres? Pode esquecer.
Antes de mais nada, é bom lembrar que nós temos um gato.
– Enfim, foi sorte que aquele cachorro realmente tenha farejado o
corpo de Colin, se não o pobre homem poderia ter ficado ali, morto, por
dias – continuou Mia, imperturbável. – Calculam que ele quebrou o pescoço
e morreu na mesma hora. Pelo menos isso.
O lugar estava silencioso quando elas se aproximaram – o único
barulho era o som do vento nas árvores. Após a casa havia um campo onde
ovelhas pastavam de cabeça baixa, mas, fora isso, Jess e Mia estavam
sozinhas. Jess sabe, graças às suas pesquisas na internet, que a casa foi
reformada por dentro, mas a vista dela da rua ainda deve ser a mesma que
Adelaide e as amigas tinham quando chegavam ali, vindas de Londres, para
passar algum tempo livre. Ela imaginou todas descendo de um carro na
entrada da garagem, com malas e cavaletes, ou relaxando no jardim,
bebendo dry martínis e fofocando. A foto que Lucas lhe enviara, das quatro
posando de biquíni e rindo na praia, voltou à mente, e ela sentiu certo
anseio pelo tanto que provavelmente haviam se divertido.
Jess estava tão imersa na própria imaginação que levou um instante
para reparar em um rosto espiando pela janela superior. Por uma fração de
segundo insana, teve a sensação de ter voltado no tempo e achou que a
pessoa era Adelaide ou Margie, prestes a levantar o caixilho da janela e
chamá-la, convidá-las a entrar para tomar um drinque. Jess sentiu um
arrepio percorrer seus braços na mesma hora. No entanto, voltando ao
mundo real, a mulher de meia-idade carrancuda era provavelmente a atual
dona da casa, que devia estar se perguntando por que Jess e Mia estavam
bisbilhotando.
– É melhor a gente ir embora – murmurou Jess, pois não queria ter que
se explicar.
Em casa, agora, Jess coloca uma garfada de ovo mexido na boca
enquanto tenta negociar um tratado de paz sobre esmalte de unhas,
pensando nas descobertas emocionantes de Mia, no site de Eleanor
Copeland e nas alegações que a filha leu lá. Uma coisa é certa:
definitivamente há mais nessa história do que parece. Mas cabe a ela ir mais
fundo na investigação?
Capítulo Catorze

É Coco, claro, ao lado dela diante do túmulo, com o próprio buquê de flores
– muito mais luxuoso do que o de Adelaide, com folhagens, tudo envolvido
em celofane. Cerca de duas vezes o tamanho e sem respingos de xixi de
cachorro. Isso é um bom resumo de como sempre foi a relação com a rival,
pensa Adelaide, tentando não revirar os olhos.
Coco já deve ter quase 70 anos, mas poderia passar por muito mais
jovem, vestida de preto, com o cabelo loiro imaculado. Ao seu lado,
Adelaide parece um elefante envelhecido e suado.
– Olá – diz ela, torcendo para que Coco não tenha testemunhado o
pequeno ato questionável de Jean-Paul momentos antes. – Como vão você e
os meninos?
Coco era a outra esposa de Remy, a mulher por quem ele abandonara
Adelaide no fim dos anos 1980. Furiosa e ferida como nunca, Adelaide
reagira deixando a França para aceitar uma encomenda de trabalho que
havia surgido no momento perfeito, em Tóquio, onde pintava jardins para
uma galeria durante o dia (o que se mostrou estranhamente reconfortante) e
exagerava no saquê à noite. Quando esse trabalho chegou ao fim, ela
escolheu a nova oferta mais distante possível de Remy e Coco (já grávida) e
aceitou lecionar na fantástica escola de artes de Ottawa – e se surpreendeu
ao perceber que adorava a nova ocupação. Enquanto Remy e Coco tinham
um filho depois do outro, Adelaide trabalhou muito, se dedicou aos alunos e
se inspirou na grandiosidade das paisagens ao seu redor. Também se
envolveu em um relacionamento com um fotógrafo canadense robusto e
bem-humorado chamado Brad (a imprensa os apelidou de “Bradelaide” por
um tempo, o que ele amava e ela odiava), mas no fundo Adelaide sabia que
seu coração ainda estava em Paris.
– Estamos muito bem – responde Coco, ao pousar seu buquê no
túmulo de modo a quase cobrir o de Adelaide. – O Maxime está trabalhando
como jornalista do Le Figaro atualmente, e o Romain trabalha na Opéra
Bastille. – Ela encolhe os ombros, como se dissesse que obviamente seus
filhos incríveis encontraram as merecidas posições de destaque na cultura
francesa. – Já eu me ocupo com o trabalho de caridade.
– Fantástico – diz Adelaide com rigidez.
Parece uma fadinha linda. Foi assim que Remy a descrevera pela
primeira vez em seu diário execrável, mas tal adoração não duraria.
Infelizmente, não passa de uma boneca, uma boneca com o cérebro vazio.
Nada que me interesse ou me divirta, voltara a escrever já para o final. Não
que Adelaide possa se dar ao luxo de ser presunçosa, pois Remy dissera
coisas muito piores sobre ela, o velho desgraçado. Na verdade, a publicação
altamente contestada dos diários dele, dois anos após sua morte, tinha sido a
única vez em que ela sentira algum tipo de afinidade com Coco. Remy as
tratara pessimamente ao longo dos anos. E seus diários brutalmente
sinceros, vendidos pela oferta mais alta por aquela Monica, aquela Judas,
humilharam igualmente as duas quando os exemplares chegaram às
prateleiras. (Adelaide ainda não perdoou Monica por isso. Jamais deveria
tê-la apresentado a Remy, menos ainda o encorajado a aceitá-la como sua
empresária também. Nem é preciso dizer que Monica será retratada com o
devido desprezo no livro de memórias de Adelaide.)
Ela olha fixamente para o túmulo, sentindo o pulsar da raiva causada
pelas múltiplas traições do ex-marido, o coração ainda machucado. Ele a
decepcionara demais e apenas agravara suas traições ao morrer sem sequer
tentar se redimir. Mas Remy a amava, lembra Adelaide a si mesma, e se
lembra dele chegando a Berlim para buscá-la quando ela finalmente estava
bem para deixar o hospital. Ele a tirou de lá e a levou para a Provença, para
que terminasse de se recuperar com tranquilidade, só os dois – e era
exatamente disso que ela precisava.
– A propósito – diz Coco –, eu estava arrumando alguns pertences dele
outro dia e encontrei algumas coisas que deveriam ficar com você. Há uma
pequena aquarela com seu nome escrito no verso. Diz “Para Adelaide”, só
isso. Há também uma carta para você, o envelope ainda lacrado, presa ao
quadro com um pedaço de fita adesiva.
– Uma carta? – repete Adelaide, assustada. – Do Remy? O que diz?
– Eu não abri – fala Coco, envolvendo mais o corpo com o cardigã
preto drapeado. – Acabei de dizer que o envelope está lacrado. Você pode
não ter muita consideração por mim, Adelaide, mas pelo menos respeito a
privacidade das pessoas.
É uma pena que você não tenha respeitado o casamento de outra
mulher, Adelaide tem vontade de dizer, mas não diz.
– Bem... obrigada – responde, um tanto relutante. Mesmo tantos anos
depois, ela se ressente de ter que agradecer a Coco por qualquer coisa. –
Você quer que eu passe lá para pegar ou...?
– Talvez pudéssemos nos encontrar para tomar um drinque. Colocar a
conversa em dia – sugere Coco, para grande surpresa de Adelaide.
Que diabo as duas têm a dizer uma à outra, depois de tanto tempo? Ele
me amou mais! Mas eu dei a ele dois filhos preciosos!
– Você parece desconfiada – comenta Coco –, mas não se trata de
nenhum ardil. – Ela suspira e aponta para o túmulo diante delas. – A vida é
curta, certo? Curta demais para termos inimigos, para cultivarmos a
amargura. Podemos beber alguma coisa juntas, não acha? Reclamar do
marido terrível que tivemos. Talvez também falar sobre como amamos esse
homem.
Adelaide engole em seco, sem saber como responder. Seu orgulho está
dizendo: Prefiro morrer! No entanto, ela também sente certa curiosidade
pelo que as duas, as esposas de Remy, poderiam conversar. Você não se
sente solitária?, pergunta Jessica, preocupada, em sua mente (cala a boca,
Jessica), mas é verdade que ela se tornou deliberadamente uma ilha na
última década, repelindo o contato social quando o mundo se mostrou
excessivo. Adelaide pode até discordar de Coco sobre a vida ser curta
demais para se ter inimigos (jamais), mas vem descobrindo nos últimos
tempos que ser uma ilha pode se tornar cansativo.
– Muito bem – concorda ela por fim. – Sim. Vamos fazer isso.
Pouco tempo depois, ela dá uma desculpa para ir embora, de modo que
Coco possa ficar com Remy só para si. Apesar de tudo, sente-se intrigada.
Uma pequena aquarela, com “Para Adelaide” escrito no verso, uma última
carta... O que será que diz? E será que ela quer mesmo saber?
Capítulo Quinze

Com o fim de semana chegando ao fim, Jess tem a forte sensação de que
gostaria de um segundo fim de semana para se recuperar do primeiro. Ela
lavou três levas de roupa – a máquina de lavar de David aparentemente não
teve nenhum trabalho enquanto as meninas estavam com ele –, reabasteceu
os armários de comida e assumiu o habitual papel de motorista, deixando as
filhas no centro da cidade e na casa de amigos, conforme solicitado.
Também comprou shorts de educação física novos para Polly e um
carregador de celular novo para Mia, para substituir o que foi perdido (Jess
está convencida de que, em algum lugar do mundo, há uma enorme pilha de
itens perdidos que pertencem às meninas Bright). Como se tudo isso não
fosse suficiente para uma única mulher, ela também terminou e enviou o
capítulo de amostra para Adelaide e Lucas, junto com a fatura do valor que
ainda deve ser pago. Às vezes, muito ocasionalmente, Jess tem a sensação
de que está no controle da própria vida. Mas é muito cansativo fazer todo
esse gerenciamento sozinha, pensa, enquanto esvazia a lava-louças naquela
noite. Por mais satisfatórias que sejam as conquistas, não é a mesma coisa
que ter alguém com quem compartilhá-las.
No instante seguinte, o comentário enigmático de Mia sobre David
volta à sua mente. Será que ele ainda está sozinho?, se pergunta. Ou uma
nova pessoa apareceu em seu mundo, uma pessoa importante para ele,
como Mia parecia sugerir? Então, ela se vê de volta àquela noite terrível
dois anos antes – Jess... Preciso te contar uma coisa –, vê David
constrangido e na defensiva, andando de um lado para outro na sala, com
ela tão atordoada que mal conseguia entender as palavras.
Talvez os amigos dele estivessem empenhados em lhe arrumar alguém,
arranjando jantares e saídas à noite, como os amigos dela haviam tentado.
Talvez David tivesse conhecido uma colega linda, a versão feminina dele,
que vive para os esportes e sente prazer em ficar debatendo estatísticas de
arremessadores rápidos e médias de rebatidas até as estrelas brilharem no
céu. Não, espera, essa era Bella, a publicitária de 25 anos de Brisbane. Eu
fui infiel, dissera David novamente, andando de um lado para outro, incapaz
de encará-la nos olhos. Ela tem quantos anos? Jess se lembra de ter
balbuciado, a repulsa revirando seu estômago em meio ao choque intenso.
Os olhos dela não tinham se desviado nem uma vez para outro homem
durante os anos de casada. Só de pensar no marido tirando a roupa de outra
mulher, passando as mãos por todo o corpo dela, os telefonemas e as
mensagens de texto secretos, os encontros escondidos em quartos de hotel...
Era como se David tivesse arremessado uma bola de demolição contra o
mundo dela e tudo estivesse desmoronando, virando escombros. Meu Deus,
David!, gritara Jess, mal conseguindo assimilar o que estava ouvindo. Como
você pôde fazer isso com a gente?
Mas há algumas perguntas para as quais não há respostas, pensa ela
ainda magoada, enquanto arruma os talheres na gaveta. E há algumas
revelações das quais não há como voltar atrás, quer a pessoa goste ou não.
Seus pensamentos se voltam para Adelaide, e ela imagina como deve ter
sido difícil para a mulher quando aquele idiota do Remy a trocara por Coco,
muito mais jovem. Pelo que Jess lembra dos diários explosivos dele, Remy
já tivera vários casos com integrantes da sociedade parisiense, mas saber do
envolvimento dele com a bela e vazia Coco, depois de conviver com a
inteligência afiada e apaixonada de Adelaide, deve ter sido o golpe
derradeiro. Ainda assim, Adelaide acabara perdoando-o, não é mesmo? E
voltou a amá-lo. Jess não consegue imaginar uma reviravolta daquelas, mas
sente uma pontada de tristeza porque não vai poder ouvir a história contada
pela própria Adelaide, para essa parte do livro de memórias. Deixa pra lá.
Ela fecha a porta da lava-louças depois de esvaziá-la, sentindo-se
cansada. Se David tem uma nova parceira, então boa sorte para ele – e para
aquela mulher misteriosa também. Jess, por outro lado, está ocupada demais
para pensar nesse tipo de coisa.
✳ ✳ ✳

Uma semana se passa e uma quantia substancial entra na conta de Jess, da


parte de Adelaide, mas não há nenhuma palavra, nem mesmo de
agradecimento, em relação ao capítulo. Tudo bem. Talvez seja melhor
assim, já que Edie foi pega matando aula de novo, Mia ainda está com o
coração partido e Polly fraturou um osso do pulso em uma partida de
críquete, o que tornou necessária uma corrida ao pronto-socorro. Jess está
feliz por poder estar ali, como a mãe confiável que trabalha em casa,
enquanto as filhas seguem aos trancos e barrancos até o fim do ano letivo.
Às vezes, por mais que a pessoa deseje que um trabalho seja a versão
idealizada de seus sonhos, é preciso reconhecê-lo pelo que é, depois pegar o
dinheiro e seguir em frente. E é exatamente isso que ela vem tentando fazer
nos últimos dias: escrever e enviar sua coluna de consultório sentimental e
apresentar várias ideias de matérias – incluindo uma sobre viajar sozinha
aos 40 anos e redescobrir uma cidade favorita mais de vinte anos depois,
além de uma matéria bem-humorada sobre experiências como ghost-writer.
Desesperada, Jess sugeriu até um artigo sobre pessoas que gostam de gatos
versus pessoas que preferem cães para a revista Our Pet.
Ela recebeu alguns retornos tímidos – um editor de reportagens
especiais de um jornal pareceu bastante interessado no artigo sobre ghost-
writers, até Jess deixar claro que “Não, ela não podia divulgar qualquer
dado pessoal sob risco de ser processada”, e depois disso o homem perdeu o
interesse. A revista sobre animais de estimação nem se deu ao trabalho de
responder. Agora, Jess está pensando em propor uma matéria sobre as
London Bohemians e sua influência duradoura na arte contemporânea. Uma
rápida releitura do contrato redigido por Lucas a faz lembrar que ela não
tem permissão para revelar qualquer informação recolhida na conversa com
Adelaide – ou seja, não é permitido divulgar nada que manche a reputação
de Adelaide usando aquelas informações –, mas não há qualquer cláusula
que a impeça de pesquisar aquele período específico da história da arte.
Infelizmente, várias integrantes do grupo não estão mais vivas: Esme
sofreu um acidente vascular cerebral há vários anos e morreu em um lar de
idosos na Costa Sul; Rita teve um infarto em sua casa, em Galway, quando
tinha 60 anos; e Jeanette teve câncer na garganta, se recuperou, mas acabou
pegando Covid na primeira onda e morreu sozinha em um hospital de
Londres. Pelo menos Margie ainda está viva, embora more em Pasadena –
ela se aposentou da vida de artista e passa seu tempo com alguns cães que
resgatou e muitos netos, pelo que Jess pôde descobrir na internet.
Em um reflexo, Jess fecha os dedos ao redor do globo de neve em
cima de sua mesa enquanto faz um apanhado geral da situação. Ela adora
globos de neve desde que era bem pequena e sua babá de Essex lhe dera um
de Natal. Nele, o Papai Noel caminhava por uma paisagem nevada, com um
saco de presentes nas costas e um pequeno tordo empoleirado no ombro.
Esse globo morou no quarto de Jess durante toda a infância, um oásis
pequeno e tranquilo em cima da cômoda, até o dia – Jess devia ter uns 13
anos – em que ela deixou um dicionário de francês cair em cima dele,
estilhaçando o globo em fragmentos minúsculos e irreparáveis. Adeus,
Papai Noel. Boa sorte, pequeno tordo.
Jess vira o globo de neve na mão, fazendo os minúsculos flocos
brancos se agitarem e assentarem. Esse ela ganhou de Polly de presente de
aniversário alguns anos antes, e tem a London Eye, o Big Ben e a Tower
Bridge todos amontoados (de um jeito impossível), junto com um típico
ônibus de Londres e um táxi preto.
– Porque você ama Londres e adora neve! – exclamou Polly em
triunfo, quando Jess abriu o presente, enquanto David dizia um “desculpe”
silencioso, ao fundo, provavelmente achando que tinha ajudado na compra
de um presente particularmente ruim. Mas...
– Que esperta, eu adorei! – agradeceu Jess, abraçando a filha com o
mesmo entusiasmo que tinha abraçado a babá de Essex naquele Natal tantos
anos antes. – Agora posso ter neve sempre que eu quiser.
No instante em que ela se pergunta, um tanto desesperada, se algum
editor de jornal ou revista poderia estar interessado em uma matéria sobre
globos de neve (em julho? Provavelmente, não), seu celular toca. O coração
de Jess dá um salto nervoso quando ela vê o número de Lucas na tela,
porque Jess não pode mentir, o capítulo que enviou na semana anterior
traçou um retrato nada favorável de Adelaide. Ninguém leria aquilo e
pensaria: Ela parece uma pessoa legal.
Será que ele está ligando para me dar uma bronca pelo que escrevi?,
pergunta-se Jess, sentindo-se desconfortável. E se as palavras afiadas que
usou no texto fizeram Adelaide ter um infarto, ou a jogaram direto nos
braços da morte? Mas a verdade é que ela foi paga pelo trabalho, e
prontamente, portanto seria estranho ele ligar para reclamar agora, certo?
Só há uma forma de descobrir. Ela leva a mão à altura do coração e
respira fundo. Em seguida, desliza o dedo pela tela para atender a chamada.
– Alô?
Capítulo Dezesseis

Adelaide olha da janela da cozinha para a praça abaixo, perdida em


lembranças. O aniversário de Remy passou, mas o ex-marido permanece
em sua mente, até porque, ironicamente, ele sempre sonhou com um
apartamento na Place des Vosges. Ela havia feito uma oferta por aquele
imóvel no fim dos anos 1990, movida pela ansiedade e pelo desespero,
esperando dar a Remy uma razão para viver, mas ele morreu antes mesmo
de ela assinar a papelada. Típico de Remy. Um último golpe já na porta de
saída.
Lá embaixo, um guia turístico com uma bandeira da República Tcheca
presa à mochila conduz um grupo protegido por chapéus de sol pela praça,
e Adelaide se vê de volta em Praga, revivendo uma noite que preferiria
esquecer. Ela e Remy estavam em uma festa pós-exposição na cidade, onde
a mostra dele, Le Temps du Monde, havia sido lançada – com uma recepção
um tanto conflitante, como se viu, pois alguns críticos começaram a chamá-
lo zombeteiramente de “Monsieur Adelaide”. (Nem é preciso dizer que
aquilo foi tão bem-recebido quanto um condenado em fuga batendo à
porta.) Mas aquilo ainda ia acontecer – o lançamento da mostra em si estava
repleto de grandes pensadores e pesos pesados da cena cultural de Praga, o
burburinho era positivo e, embora Remy tivesse ficado pálido de raiva no
início da semana por causa da distribuição das pinturas no espaço (ele
levara pelo menos um pobre membro da equipe da galeria às lágrimas),
acabara relaxando no papel de estrela da noite, o peito visivelmente
estufado enquanto os elogios continuavam a fluir em sua direção.
Era uma noite de novembro e Praga estava fria e escura, com uma
camada espessa de neve no chão e cobrindo os telhados. Postes de luz
solitários pontilhavam as antigas pontes de pedra como sentinelas acesas,
enquanto os bares e restaurantes tinham as janelas embaçadas, prometendo
o conforto do calor e da alegria lá dentro. A galeria havia organizado uma
festa para depois da inauguração da exposição no restaurante de um hotel
da Cidade Velha, com mesas cobertas por toalhas brancas e serviço de prata,
e um trio de jazz tocava em um canto. O clima era de euforia até logo
depois de os pratos principais serem retirados, quando Remy desapareceu
sem dizer uma palavra.
– O Sr. Lavigne está se sentindo mal? – perguntou o galerista de Praga
enquanto as garçonetes começavam a distribuir a sobremesa: fatias
gigantescas de bolo com camadas de chocolate e creme, além de café
servido em finos jatos escaldantes de bules altos de prata.
– Está tudo bem, senhora? Acha que foi algum problema com a
comida? – perguntou também o maître, em voz baixa e preocupada, com as
mãos às costas enquanto se inclinava na direção de Adelaide.
– O que aconteceu com o Remy? – indagou um jornalista do Prague
Post, com os olhos cintilando em expectativa. – Onde ele está? Há algo que
deveríamos saber?
Adelaide não tinha como responder às perguntas – estava tão confusa
quanto todos eles. Seus olhos se desviavam o tempo todo para a saída do
restaurante, para as portas dos banheiros, esperando que Remy reaparecesse
com um sorriso de desculpas, uma história, alguma explicação. Ela até
deixou o salão e saiu andando pela recepção do hotel procurando por ele –
será que Remy tinha ido fazer alguma ligação? Talvez precisasse de um
momento a sós? –, mas não o encontrou em lugar algum.
Será que ele também humilhou Coco publicamente alguma vez?,
pergunta-se Adelaide. É claro que Coco há muito ocupa um lugar de
destaque na lista de desafetos d’A arte da vingança de Adelaide, portanto
ela não vai começar a sentir pena da mulher, mas não consegue evitar
algumas especulações aleatórias. Graças aos diários de Remy, Adelaide
sabe que ele dormiu com uma dançarina do Moulin Rouge no dia seguinte
ao nascimento do filho Maxime (seria possível a infidelidade ficar ainda
mais vulgar?), mas ela imagina que, na época, Coco estava encasulada em
uma ala de maternidade com seu bebê, abençoadamente ignorante do
comportamento atroz do marido. Após ver Coco, Adelaide está
inesperadamente interessada em tomar aquele drinque com ela. A
perspectiva de trocar histórias de guerra com alguém que lutara no mesmo
front vem se tornando mais interessante a cada dia. E, é claro, ela está
encantada com a ideia daquele último quadro, daquela última carta com seu
nome. A parte irritante da história é que ela e Coco não conseguiram achar
um horário conveniente para se encontrarem, e agora a mulher deixou a
cidade e foi à Île de Ré, onde Maxime organizou férias de quinze dias para
toda a família.
A cafeteira sibila como um gato furioso e Adelaide a desliga, tentando
não pensar em Coco andando de bicicleta pela ilha com os filhos e noras ou
genros. Ela provavelmente ainda tem pernas lindas, sem varizes à vista, e
fica sensacional com um enorme chapéu de sol e óculos escuros no estilo
Jackie Onassis. Será demasiado cruel ter esperança em um ônibus
desgovernado, um motociclista distraído ou um motorista bêbado ao
volante depois de um segundo copo de vinho à hora do almoço? Ela supõe
que sim.
Lá em Praga, Adelaide tinha tomado um conhaque no bar antes de
voltar para a mesa, sentindo uma energia nervosa se apoderar dela. Sim, era
estranho, disse para a mulher ao seu lado, tentando manter a compostura.
Não, ele nunca tinha feito nada parecido. O vestido elegante de lã que ela
usava colava às suas costas por causa do suor; a tentativa de atenuar o rubor
excessivo do rosto com uma camada grossa de pó facial no banheiro
feminino se mostrou inútil. Felizmente o jantar terminou. Adelaide voltou
depressa à recepção do hotel, com um sorriso fixo que fazia o maxilar doer,
e perguntou se alguém poderia verificar discretamente os banheiros
masculinos e os outros bares ao redor do hotel. Nada ainda.
Remy estaria no hotel onde estavam hospedados, do outro lado da
cidade, certo? Ela entraria no quarto e ouviria as desculpas dele, o pedido
de perdão. Mas, um pouco mais tarde, quando enfim abriu a porta do
quarto, ela constatou que estava escuro e silencioso, a cama
cuidadosamente arrumada, irritando-a com seu vazio. Parada na porta, com
a neve derretendo nos ombros do casaco, Adelaide de repente se lembrou do
modo como o marido e uma garçonete sorriram um para o outro naquela
noite e sentiu algo se contrair em seu âmago. Ele não teria feito uma coisa
daquelas, não é mesmo?
Ah, Adelaide.... Ela sente vontade de voltar no tempo e se sacudir por
ser tão confiante. É claro que ele faria uma coisa daquelas. E é claro que
tinha feito. E Remy continuaria, iria além, tomando atitudes semelhantes
vezes sem conta.
O porteiro eletrônico toca e Adelaide é arrancada de suas lembranças.
Deve ser Lucas, que ligou cedo pela manhã, sugerindo se juntar a ela em
sua caminhada matinal “para que possamos conversar”. Só Deus sabe o que
isso significa. Será que ele esbarrou em alguma coisa crítica no arquivo? Ou
também está prestes a abandoná-la?
– Já vou – diz Adelaide, enquanto ela e Jean-Paul descem a escada.
É outro dia escaldante. Ainda não são nove horas e o ar já parece
pegajoso. A cidade vai estar úmida e lenta, e as ruas, abarrotadas de turistas
suados. Pela primeira vez em anos, ela se vê recordando com saudades os
chuvosos verões ingleses, em que todos reclamam do clima terrível. Vai
acabar deitada no piso de cerâmica frio da cozinha, ofegante como Jean-
Paul, se a temperatura subir ainda mais.
– Então... boas notícias. Os editores adoraram o capítulo de amostra da
Jess – conta Lucas ao atravessarem a praça.
As árvores estão cheias de folhas e garantem uma sombra abençoada
quando as pessoas param embaixo delas, mas eles estão no centro, sem um
galho sequer entre suas cabeças nuas e o céu. Adelaide percebe com o
coração apertado que o sobrinho tem uma expressão severa no rosto.
Experiências anteriores lhe dizem o significado disso: ele já tomou uma
decisão e não aceitará argumentos.
– E devo dizer que também adorei! – continua Lucas. – O texto é
vibrante e divertido, e acho que ela realmente pegou o seu tom, do início ao
fim... tem um toque rabugento que é muito cativante.
– Humm – murmura Adelaide.
Na verdade, o capítulo a pegara de surpresa. Quem diria que Jessica,
com aquele rostinho inocente, tinha também um traço tão maldoso? Não
havia nada reconfortante no texto, nenhuma romantização, apenas as
palavras enérgicas de Adelaide, fielmente reproduzidas e ordenadas em
frases articuladas e cheias de ímpeto. As amostras de capítulos que vieram
dos escritores testados antes de Jessica eram de um sentimentalismo
efusivo.
– Não tenho certeza – continua ela.
Transcrever algumas histórias de infância é uma coisa, imagina
Adelaide, mas empunhar a faca contra Simon, Remy, Coco, Monica e todos
os seus profundos desafetos... isso é outra coisa bem diferente. Será que
Jessica conseguirá atingir os níveis de crueldade que Adelaide gostaria de
infligir?
– Acho que deveríamos seguir com ela – diz Lucas –, mas, por favor,
pelo amor de Deus, seja mais gentil com a mulher. Chega de ataques de
pirraça. Chega de esconder o jogo.
– Ataques de pirraça? – repete Adelaide, erguendo-se em toda a sua
altura com tanta indignação que quase dá um jeito nas costas.
Seja mais gentil, sinceramente..., pensa, irritada. No dia em que
Adelaide adotasse “Seja mais gentil” como mantra, ela poderia muito bem
dar um tiro na própria cabeça.
– Não é de admirar que a sua esposa tenha te abandonado, se é assim
que você fala com as mulheres – revida ela, incapaz de se conter.
Algum tempo se passa e Lucas permanece calado, mas sua expressão,
com os lábios cerrados, deixa evidente para Adelaide que a resposta dela foi
um golpe baixo. E foi mesmo. Ele tem razão.
– Desculpe – murmura ela, mas o sobrinho já está falando de novo.
– A Jess esteve em Little Bower, sabia? – comenta ele. – Tem fotos no
Instagram dela. Espero que isso seja um sinal de que ainda está interessada
em você e no livro.
Adelaide sente um arrepio desconfortável percorrer sua espinha, apesar
da manhã abafada de julho. Jessica anda bisbilhotando Little Bower? Ela
não gosta nada daquilo. O que espera encontrar lá?
– Humm – é tudo que Adelaide volta a murmurar.
Para crédito de Jessica, as pequenas armadilhas que Adelaide preparou
para ela – as mentiras, as omissões deliberadas – tinham sido claramente
percebidas e evitadas todas as vezes. A mulher não é tão ingênua quanto
parece.
– Você não concorda que o capítulo foi bem escrito? – pergunta Lucas.
Eles ainda estão no meio da praça, esperando Jean-Paul farejar ao
redor das pernas de um banco, e no instante seguinte percebem um jovem
com cabelos castanhos e desgrenhados correndo em direção a eles,
parecendo muito determinado. Ah, por Deus. Deve ser um fã alucinado,
sem dúvida. Ela consegue identificá-los a quilômetros de distância.
– Srta. Fox? É você, certo? – pergunta ele, a voz trêmula de
empolgação. Inglês, elegante, do tipo que espera conseguir tudo o que
deseja... Adelaide já conheceu homens como ele o suficiente. – Posso tirar
uma selfie?
– Não, certamente não pode – responde ela.
Como detesta essa moda de câmeras enfiadas na cara, de estranhos
invadindo seu espaço pessoal, esperando que ela abra um sorriso forçado
para uma lente. Podem muito bem ir para o inferno, todos eles.
O homem parece desapontado, mas mesmo assim recua. Pelo menos
ele não está murmurando que ela é uma vaca como alguns fazem.
– Certo... – diz ele, e se inclina para cumprimentá-la. – Desculpe
incomodar. Acho seu trabalho surpreendente. É uma verdadeira honra te
conhecer.
– Obrigada – diz Adelaide com gentileza, e logo dispensa o homem ao
se virar para o cachorro. – Pelo amor de Deus, Jean-Paul, esse é o mesmo
banco que você cheira todos os dias.
O rapaz entende a deixa e se afasta, sem dúvida para tentar tirar fotos
clandestinas à distância. Que seja. Ela não tem energia para se importar.
– De volta ao livro de memórias... – insiste Lucas, e Adelaide solta um
gemido.
Ela está cansada de pensar em Jessica, no livro de memórias, em toda
aquela ideia estúpida. Gostaria de viajar no tempo e voltar à Provença –
pintar maçãs como Cézanne, mergulhar em uma piscina da cor de uma
água-marinha, deixar a água encobrir sua cabeça. Se desligar do mundo.
Adelaide se lembra da piscina que ela e Remy tinham em sua casa na
Provença, como ele mergulhava bem, o corpo ágil desenhando um arco
perfeito da terra para a água, deixando apenas uma ondulação. Tem vontade
de voltar no tempo e fazer escolhas diferentes. Tentar de novo.
– Os editores estão interessados – repete Lucas, como se Adelaide se
importasse com o que um monte de gente de Londres que ela nunca viu
pensa. – Eles são mesmo a favor dessa parceria com a Jess. Pense no que
isso pode significar para você... um interesse imenso e renovado no seu
trabalho. A sua história alcançando milhares de pessoas em todo o mundo...
milhões até. Isso vai ser um tapa na cara de qualquer um que já agiu mal
com você, não vai? – acrescenta ele, em tom persuasivo. – Os idiotas que
não acreditaram em você.
Adelaide o encara com desconfiança. Ela não disse a Lucas – nem a
ninguém, aliás – que pretende que seu livro de memórias seja um último ato
de vingança. Será que ele adivinhou suas intenções?
– Talvez eu deva conversar com ela – admite Adelaide depois de um
instante, quando Jean-Paul finalmente conclui suas explorações no banco e
eles voltam a caminhar mais uma vez. – Para ver se conseguimos suportar a
ideia de trabalharmos juntas por mais algum tempo.
– Ou talvez eu pudesse falar com ela, que tal? – sugere Lucas. –
Sondar o terreno.
– Ah, tudo bem – concorda Adelaide. – E você também pode tirar esse
sorriso do rosto – acrescenta ela, sem nem mesmo olhar para ele. – Não
pense que me tornei uma criatura influenciável na velhice.
– Eu jamais pensaria isso – responde ele.
Parte Dois
Capítulo Dezessete

Depois de algumas semanas, Jess está de volta ao Eurostar, mais uma vez a
caminho de Paris, só que agora parece diferente. Ela se sente diferente. Que
emoção ter algum poder, para variar, poder dizer a Lucas que não, na
verdade ela não podia voltar imediatamente para a França, mesmo que a tia
velha e irritadiça dele estivesse estalando os dedos para chamá-la –
precisava entregar outro trabalho importante antes. Jess presumia que seria
capaz de voltar a trabalhar no livro de memórias em agosto. (Para ser
sincera, o suposto trabalho importante não existia: ela ia levar as filhas para
uma semana de férias em Norfolk, mas Lucas e Adelaide não precisavam
saber disso. Que pensassem que ela estava sendo muito disputada e fazendo
um favor a eles aceitando escrever o livro.)
O momento também é fortuito, pois David já ia ficar com as meninas
na segunda quinzena das férias escolares. Durante o resto do verão, ele vai
cobrir jogos-teste de críquete em todo o país, depois, no outono, vai para a
Índia, para a Copa do Mundo de Críquete Masculino, ou seja, essa é
praticamente a única quinzena em que Jess pode se comprometer com
Adelaide em Paris. Será que vai ser suficiente para ela reunir todas as
informações de que precisa sobre a mulher? Vai ter que ser, pensa. Além
disso, elas sempre podem fazer videochamadas, mesmo que Adelaide
aparentemente as deteste.
Jess ainda não está acostumada a dividir as férias escolares com o ex-
marido dessa maneira – é apenas o segundo verão em que se organizam
assim. A ideia de David viajar só com as meninas, sem ela, parece muito
estranha. Os quatro partiram no dia anterior, de manhã, para a Itália, onde
ele aparentemente alugou uma villa toscana que parece chique e tem até
piscina, segundo Polly. Não se trata de uma competição, mas isso sem
dúvida vai superar a organização das férias que as filhas tiveram
recentemente com Jess, hospedadas em uma casa de campo com um cheiro
embolorado (mas, fora isso, maravilhosa!), a um quilômetro da praia mais
próxima.
– Jura? Preciso mesmo dividir o quarto com a Edie e a Mia? –
questionou Polly, consternada, quando chegaram. – Meu Deus, mãe, isso é
um castigo, não férias! – (Jess às vezes pensa que Polly deve ter sido uma
princesa em outra vida... A filha sem dúvida tem o ar de alguém que se
sente permanentemente prejudicada.) – Cada uma de nós vai ter um quarto
na Itália, sabia? E todos são suítes e tudo mais. Não é como...
– Cala a boca, Polly – repreendeu Edie e, por um instante, Jess achou
que estava prestes a receber alguma lealdade da filha do meio, até ela
acrescentar: – Como se a gente quisesse dividir o quarto com você!
Quanto a Mia, que passou a semana em Norfolk exibindo o cansaço de
uma garota de 17 anos que estava lá contra a vontade, ela preparou uma
surpresinha para Jess e David: comunicou que não vai pegar o avião de
volta da Itália com o pai e as irmãs no fim das férias; em vez disso,
embarcará em um trem para Nice no dia anterior, pois combinou de se
encontrar com um grupo de amigas para umas férias só das meninas.
– Não se preocupem, economizei e vou pagar por tudo! – avisou,
quando jogou aquela bomba.
– Essa não é a parte que mais me preocupa – respondeu Jess.
Ainda assim, depois de algum debate, ela e David consentiram com o
plano. Afinal, Mia vai fazer 18 anos em setembro e prometeu a) ser sensata,
b) cuidar de si mesma e c) atender o maldito celular quando a mãe precisar
checar como ela está. Os tempos estão mudando, pensa Jess, olhando pela
janela do trem enquanto o interior da Inglaterra passa velozmente.
Nesse meio-tempo, ela tem as próprias aventuras em que pensar, com
duas semanas completas em Paris no horizonte, além de mais quatro meses
de escrita depois, já que o objetivo é entregar o primeiro rascunho do livro
até o Natal. Renda garantida! Uma equipe editorial fantástica! Trabalho
estável pelo resto do ano! Além do mais, com o incentivo de Becky, ela
estabeleceu algumas regras básicas.
– Não se atreva a deixar aquela velha ranzinza gritar com você ou te
tratar como lixo de novo – exigiu a amiga. – Você é um ser humano com
sentimentos, mesmo que ela não seja.
Jess não foi tão direta quanto Becky, mas explicou a Lucas – ou Luc,
como ele sempre assina os e-mails – que se a ideia é escrever um bom livro
de memórias, ela precisa ter acesso a todos os fatos disponíveis.
– Sei muito bem que Adelaide estava escondendo informações na
metade do tempo que passamos juntas – disse ela quando os dois
conversaram ao telefone. – Não posso fazer meu trabalho se a sua tia
continuar guardando os detalhes importantes.
Bem, agora é esperar para ver se as coisas vão ser diferentes na
segunda vez. Jess fez uma reserva no mesmo hotel de antes e já está ansiosa
para conversar com Beatrice, sem mencionar ver Valentin na brasserie.
Mais emocionante ainda, ela não perdeu tempo e marcou logo um novo
encontro com o lindo Georges, o que a deixa agitada (de um jeito bom)
sempre que pensa a respeito. Jess colocou na mala seu macacão preto
favorito para a ocasião, a roupa que sempre faz com que se sinta glamorosa
e sexy. É verão! É Paris! Ele é uma antiga paixão e muito bonito! De
quantos motivos uma mulher precisa para se vestir bem?
Jess toca o pingente dourado pendurado no cordão em seu pescoço, e
os dedos se fecham na metade de um coração escurecida pelo tempo.
Depois de revirar todas as caixas guardadas no sótão, onde havia diários
antigos, revistas escolares, álbuns de fotos, redações da época da
universidade e coisas do gênero, ela enfim encontrou o que procurava: o
colar que completava o de Pascale, comprado havia mais de duas décadas,
naquele fatídico verão em Paris. Ela provavelmente nunca vai saber a
verdade sobre o que aconteceu com a amiga, mas talvez possa revisitar
alguns lugares que frequentavam naquela época, como forma de honrar sua
memória.
Mas isso é para a Jess do futuro. No momento, ela tem um romance
delicioso para ler, além de uma xícara de chá e um grande pain au chocolat
crocante do vagão-buffet para degustar. À medida que o trem mergulha no
túnel, Jess se pega ansiosa pela próxima quinzena do outro lado do Canal da
Mancha.
Capítulo Dezoito

Dizer que Adelaide está nervosa com o retorno de Jessica ao apartamento


na segunda-feira de manhã parece absurdo, mas... bem, o fato é que ela se
sente bastante agitada com a perspectiva de começar tudo de novo, ainda
mais sabendo que dessa vez é para valer. Nada de fugir das perguntas de
que não gosta. Nada de evitar verdades difíceis.
A campainha toca na hora certa, e Jean-Paul se levanta com um pulo
de seu refúgio fresco no chão da cozinha para soltar uma saraivada
estridente de latidos, e lá vai Marie-Thérèse, tum-tum-tum, atender a porta.
E, assim, elas começam de novo.
– Bom dia, Adelaide. Bom dia, Jean-Paul! – diz Jessica, entrando.
Ela está muito elegante em uma camisa de cetim branca de manga
curta e calças curtas azul-marinho. Carrega uma bolsa grande, de onde tira
não apenas uma embalagem de petiscos para cachorros (“Somos amigos
agora, não somos, Jean-Paul?”), mas também uma caixa de chá inglês,
alguns crumpets, um pote de Marmite e uma barra de chocolate ao leite da
Cadbury.
– E algumas guloseimas da Inglaterra para você – completa ela,
colocando os presentes na mesinha de centro.
É tão atencioso da parte da jornalista que Adelaide se pega brevemente
sem palavras. Nos bons tempos, ela se habituou a grandes gestos – buquês
de flores, prêmios, recepções com champanhe –, mas já faz muito tempo
que ninguém pensa em lhe oferecer pequenos mimos como esses. É
ridículo, na verdade, que um pacote de pãezinhos de supermercado e alguns
saquinhos de chá possam fazer seus olhos arderem com lágrimas contidas,
mas é o que está acontecendo.
– É muita gentileza da sua parte – diz Adelaide. – Nossa, faz anos que
não como Marmite. – Ela tem um sorrisinho no rosto quando estende a mão
para tocar a tampa amarela do pote da pasta escura e salgada. – Décadas.
Obrigada. Eu sempre soube que você era a pessoa certa para esse trabalho.
É uma piada, claro, uma piadinha às custas de ambas, e não é
particularmente engraçada, mas serve para quebrar o gelo, porque Jessica
sorri em resposta e diz:
– Ah, com certeza, eu também!
Então elas se entreolham, a princípio um tanto apreensivas, mas é
como se tudo o que aconteceu antes tivesse passado e as duas pudessem
seguir em frente. Ao menos essa é a esperança de Adelaide.
Marie-Thérèse é convocada para preparar um bule de chá com o
presente que Adelaide acabou de ganhar, depois elas começam a trabalhar.
Jessica começa sugerindo que passem algum tempo conversando sobre o
livro de memórias como um todo, para pôr todos os pingos nos is, por assim
dizer, desde o início. É preciso pensar sobre a estrutura, diz ela, determinar
o que Adelaide deseja com o livro e se há áreas específicas nas quais ela
gostaria de se concentrar mais. Jessica teve a ideia de dar a cada capítulo o
nome de um quadro de Adelaide e já fez uma lista provisória.
– É só uma ideia – comenta Jessica, tirando da bolsa um pedaço de
papel datilografado. – Além disso, gostaria que você me dissesse o que está
fora de questão. Sei que há certos pontos que você não quis abordar da
última vez, o que é justo, e é claro que a palavra final sobre tudo será sua.
Mas...
– Nada está fora de questão – interrompe Adelaide. – Vou te contar
tudo o que quiser saber. Tudo. Na verdade, estou ansiosa para tirar algumas
coisas do peito, esclarecer certos assuntos de uma vez por todas.
Jessica arregala os olhos.
– Até... o que aconteceu com o seu irmão? – confirma. – E... bem, peço
desculpas por parecer indelicada, mas você mencionou um estupro...
– Sim, vou te contar sobre isso. E também vou contar como coloquei
fogo no apartamento dele depois. E como o incêndio arruinou o rosto do
homem para sempre – diz Adelaide bruscamente, o que faz Jess parecer
ainda mais espantada. Chocada, talvez. Aperte o cinto, garota, pensa
Adelaide. Esse é só o começo. Então ela respira fundo porque, apesar da
bravata, as próximas palavras vão ser mais difíceis. – E vou falar tudo sobre
o William.
Jessica encontra o olhar dela.
– Tem certeza?
Adelaide faz uma pausa e reconsidera. Ela tem certeza? Recontar essa
parte de sua vida vai parecer mais uma autoflagelação, contrastando com os
ataques a outras pessoas que vão ocupar boa parte do livro. Adelaide
carrega a história de William consigo há tantos anos que já se acostumou a
suportar o fardo sozinha. E se ela soltar aquela história, se contar em voz
alta, em uma página impressa, e todo aquele fardo parecer menos pesado?
Seria bom, ou seria mais nobre continuar suportando o castigo? Adelaide
fecha os olhos brevemente e respira fundo. Endireita os ombros. Então,
aponta para o celular de Jessica.
– Essa coisa está gravando? – pergunta.
✳ ✳ ✳

William foi o garoto mais bonzinho que já existiu. Era apenas catorze meses
mais novo que Adelaide, e os dois foram melhores amigos desde o primeiro
dia.
– Cara de um, focinho do outro – costumava dizer a mãe dela, com
uma expressão afetuosa nos olhos, quando estava de bom humor. – Farinha
do mesmo saco – murmurava com desaprovação sempre que eles
aprontavam alguma coisa.
William tinha cabelos castanhos rebeldes, olhos azuis, sardas e, na
memória de Adelaide, sempre lhe faltava um dente. Ele ria alto e sabia ser
exuberante, embora também fosse dado à timidez – costumava se esconder
atrás das pernas da mãe sempre que as tias tagarelas que gostavam de
beliscar bochechas apareciam de visita. Ele e Adelaide adoravam brincar na
lama, nos antigos locais de bombardeio ao redor de Stepney, com os outros
meninos e meninas das ruas vizinhas, embora tal atividade fosse
estritamente proibida pelos pais de todos.
– A gente gostava de brincar nas docas de St. Katharine, que foram
fortemente bombardeadas na Blitz e estavam abandonadas – conta
Adelaide.
Ela evoca o lugar em sua mente: os armazéns vazios com as janelas
quebradas, deixando quem entrava ali com a permanente sensação de estar
sendo observado, a água turva batendo nas paredes do cais, o horizonte com
espaços vazios onde antes existiam prédios.
– No verão, às vezes íamos a Yorkshire visitar os meus avós, ou
ficávamos com uma de nossas tias que tinha uma casa em Surrey... com um
jardim de verdade, que nós achávamos muito elegante – continua ela.
É como se voltasse para lá enquanto fala, como se estivesse correndo
para cima e para baixo no gramado com os irmãos de novo, tentando subir
na macieira, as mãos ficando verdes com o líquen do tronco e dos galhos.
Os quatro deviam parecer uns moleques esfarrapados, pensa Adelaide,
enquanto Jessica pontua a conversa com perguntas precisas: onde em
Yorkshire, e como eles chegavam até lá? Ela consegue se lembrar do nome
da rua onde a tia morava? Mais alguma lembrança em relação à casa –
cheiros? Animais de estimação? Como Adelaide se sentia sempre que ia
para lá? – Feliz, com saudades de casa, livre?
Adelaide responde a tudo o melhor que pode, conta tudo de que
consegue se lembrar, o que é bastante coisa. Mas chega um momento em
que ela finalmente precisa encarar o final da história de William e dizer as
palavras em voz alta.
– Então, no verão em que eu tinha 10 anos e William, 9, meus pais
disseram que tinham uma grande surpresa para nós dois – continua ela. –
Eles economizaram o ano todo e, pela primeira vez, iríamos passar as férias
à beira-mar, em Margate, durante uma semana. Nossa! Você pode imaginar
a empolgação. Ficamos animadíssimos. Nunca tínhamos visto o mar, era
algo de que só se ouvia falar nas histórias. – Uma profunda melancolia a
invade quando ela evoca mais uma vez o prazer vertiginoso que sentiram,
como ela e William se abraçaram, felizes, quando a mãe deu a notícia. –
Então chegamos, e foi uma grande emoção ver aquela enorme extensão de
azul pela primeira vez. Ver como o céu parecia vasto acima do mar. Um céu
digno de Turner – acrescenta, embora, é claro, na época ela não fizesse
ideia de quem era Turner.
Adelaide se vê de novo ainda menina, olhando as gaivotas gritando,
com os cabelos presos em tranças e sardas espalhadas pelo nariz.
– O trem estava lotado e também atrasado, acho – segue Adelaide –, e
por isso estávamos todos com muito calor e irritados quando chegamos a
Margate. Mas nosso ânimo melhorou quase de imediato quando descemos
até a orla... a novidade, o lugar, a aventura de simplesmente estar ali. Meu
irmão Robert disse: “Até o ar tem um cheiro diferente aqui!” e todos
erguemos o nariz como cachorros, farejando, até minha mãe nos mandar
parar com aquilo, dizendo que crianças educadas não farejavam, e que se
não parássemos de fazer bagunça, voltaríamos direto para Londres, no
próximo trem. – A cena se desenrolou em sua cabeça com tanta clareza
como se tivesse acontecido na véspera. Isso é surpreendente, considerando
que muitas vezes ela não consegue se lembrar do que estava fazendo na
terça-feira anterior. – Faz décadas que não penso nisso – confessa Adelaide.
– É uma ótima imagem – comenta Jessica, com um sorriso
encorajador.
– Estávamos hospedados em uma pensão a uma ou duas ruas da praia
principal – volta a falar Adelaide. – E, nos primeiros dias, foi como se
estivéssemos no paraíso. O clima estava perfeito... passávamos horas na
praia todos os dias, construindo castelos na linda areia dourada e entrando e
saindo correndo da água. O Peter e o Robert sabiam nadar, mas o William e
eu não, então... – Ela vacila pela primeira vez e respira fundo. – Desculpe –
murmura, entrelaçando os dedos no colo quando o resto da frase fica preso
em sua garganta.
Parece difícil encontrar as palavras.
– Não precisa ter pressa – comenta Jessica. – Conte quanto quiser
agora. Podemos voltar a esse assunto mais tarde, se preferir.
Adelaide assente, dobrando as pregas da saia entre os dedos, enquanto
se lembra do sol quente em seus membros nus, do brilho em seus olhos. Ela
quase consegue sentir a areia molhada escorrendo entre os dedos dos pés de
novo, agachada na beira da água, cavando fossos e canais com as mãos. O
sabor dos sanduíches de ovo e agrião e das batatas fritas salgadas,
embaladas em papel vegetal para eles pela proprietária da pensão todas as
manhãs. Como um dia eles desembrulharam o piquenique e descobriram
pãezinhos doces macios e gelados com cerejas cristalizadas por cima, e
todos comemoraram, felizes.
– Então, uma tarde, estávamos jogando críquete na praia com outras
crianças... – diz ela.
E consegue sentir o peso da bola de tênis úmida na curva da palma da
mão. Um dos irmãos, Peter, louco por esportes, tinha lhe ensinado
pacientemente como arremessar a bola, movendo o braço direito para trás e
para a frente em círculos, e Adelaide havia começado a jogar como se
tivesse feito aquilo a vida toda. Bom trabalho!, gritou um garoto mais velho
do grupo quando ela eliminou William na primeira tentativa, e Adelaide
sentiu o prazer inebriante de receber um elogio de um garoto mais velho
percorrer seu corpo enquanto tentava parecer indiferente.
– O William não queria mais brincar – conta ela.
Ele era pequeno para a idade e um dos mais novos, e algumas das
meninas mais velhas riam sempre que ele agitava o taco ou se atrapalhava
com uma pegada. Adelaide hesita quando se lembra do rosto ruborizado do
irmão, do brilho em seus olhos que deixava nítido que ele estava à beira das
lágrimas. Isso é chato, vamos brincar de fazer castelos de novo, disse ele a
Adelaide, puxando-a pelo braço.
– E eu me senti dividida – confessa ela, baixinho. – Porque eu adorava
brincar de fazer castelos de areia com o meu irmão mais novo, mas também
adorava estar com as crianças mais velhas. E senti que tinha subido no
conceito daquele grupo. Que estava sendo aceita.
No silêncio pesado que se segue, Adelaide percebe que Jessica parou
de contribuir com suas intermináveis perguntas. Ela está sendo sensível,
sem dúvida, mas isso só serve para fazer Adelaide se sentir profundamente
solitária. Ela fecha os olhos por um instante, mas a carinha de decepção de
Will está gravada em sua mente, com uma expressão triste, como se a
rejeição da irmã tivesse sido a gota d’água. Adelaide volta a abrir os olhos
na mesma hora, porque ainda dói imaginar aquele garotinho magrelo
implorando pela atenção dela.
– Eu disse que não – continua Adelaide, com um esforço para dizer
aquelas palavras. – Virei as costas para ele.
Ela está tremendo muito, e Jean-Paul, percebendo a angústia da tutora,
vai até seu lado e pressiona o corpo na perna dela. O carinho faz Adelaide
ter vontade de chorar, e ela pousa a mão no cachorro, sentindo-se
reconfortada com essa bondade tão pura. O que os humanos fizeram para
merecer o amor dos cães?
– O William entrou no mar sozinho, mesmo sabendo que não tinha
permissão – diz ela para a sala silenciosa, como se as próprias paredes
estivessem ouvindo. – Nenhum de nós estava olhando para ele.
Adelaide engole em seco, imaginando o corpo franzino do irmão
entrando na água traiçoeira, com os ombros nus rosados pelo sol e rígidos
em desafio. Ele estava chorando?, ela sempre se perguntou. Como William
deve ter se sentido rejeitado naquele momento...
– Mais tarde, um homem disse que uma onda o derrubou assim que ele
entrou. O William deve ter sido puxado para o fundo antes de saber o que
estava acontecendo. – Ela cerra os lábios. – Podem levar apenas segundos
para uma criança se afogar, sabe? Acontece de estarem na superfície em um
instante e no minuto seguinte terem desaparecido no fundo. E foi... foi isso
que aconteceu com o Will.
Adelaide não consegue se conter: um soluço escapa quando ela diz o
nome dele, e ela cobre o rosto com a mão, porque ainda é doloroso demais
pensar nele lutando para respirar enquanto seus pequenos pulmões se
enchem de água. Então, se lembra do grito que ouviu, do calafrio que a
percorreu como se soubesse, no fundo de seu ser, que sua vida estava
prestes a mudar para sempre. O jogo parou. Eles se viraram. Alguém estava
gritando, depois a mãe de Adelaide estava correndo na areia em direção a
um homem de calção vermelho que cambaleava ao sair do mar segurando o
corpo pálido e flácido nos braços. Meu bebê!, gritava a mãe de Adelaide.
Meu filhinho!
– Ah, Adelaide... – diz Jessica em algum lugar próximo. – Que terrível.
Sinto tanto...
Adelaide não consegue mais falar. Ela se sente oprimida pela
tempestade emocional que assola seu íntimo, e é como se as lembranças que
trancou dentro de si por tanto tempo a atacassem com a intensidade de um
raio.
– Eu sempre me culpei – confessa ela, engasgando com as palavras. –
Se eu não tivesse dispensado o meu irmão...
– Ah, não! Você não deve se culpar – insiste Jessica em tom fervoroso,
e deve ter se levantado da cadeira porque, no instante seguinte, está
pressionando um lenço de papel na palma da mão de Adelaide e pousando a
mão com gentileza em suas costas. – Você era só uma criança. Uma
criança, Adelaide, e não deve assumir nenhuma culpa. Todo mundo que
teve um irmão nessa vida já passou pela experiência de escolher outra
pessoa para brincar em algum momento. É claro que o que aconteceu não
foi culpa sua.
Adelaide tenta corajosamente se recompor, mas demora um pouco.
– Obrigada – consegue dizer por fim, enxugando os olhos e assoando o
nariz.
Jessica volta para a cadeira, onde espera em um silêncio respeitoso,
com expressão preocupada, que Adelaide só vê quando enfim se arrisca a
levantar os olhos.
– Desculpe – murmura ela, e dá uma palmadinha carinhosa em Jean-
Paul, só para ter algo para fazer. – Santo Deus. É como se eu estivesse
numa sessão de terapia.
Ela pisca algumas vezes, afastando as lembranças do que se seguiu: as
tentativas desesperadas – e sem qualquer esperança – de reanimar William
na areia. A caminhada entorpecida de volta à pensão, a cabeça dela
zumbindo de choque e culpa. Durante muito tempo, não pareceu real. Como
poderia ser? As tias chegando, tagarelando, para ajudá-los a fazer as malas e
para dar apoio à mãe de Adelaide no vagão do trem. Então eles chegaram
em casa, no vazio terrível que era a casa deles sem Will, e uma saudade
dolorosa se instalou no peito de Adelaide e permaneceu ali por todos
aqueles anos desde então.
– É difícil perder alguém – conforta Jessica, em voz baixa. – Deve ter
sido devastador para você. Mas podemos prestar uma homenagem à
natureza encantadora do William no livro, não podemos? Podemos registrar
o lugar dele no mundo, imortalizar o seu irmão no papel. Sei que não é a
mesma coisa... – Ela se interrompe quando Adelaide volta a enxugar os
olhos. – Quer que eu prepare uma xícara de chá? Ou prefere fazer uma
pausa e tomar um pouco de ar fresco?
Adelaide se sente sem energia depois de contar essa história – uma
história que nunca chegou a contar inteira nem para Remy – e não tem
certeza do que quer. É como se todo o seu corpo fosse um enorme
hematoma. Mas precisa reconhecer que Jessica é gentil. Gentil de uma
forma que não deixa Adelaide se sentindo constrangida ou vulnerável em
relação às próprias emoções.
– Ar fresco parece uma boa ideia – concorda ela depois de algum
tempo.
Uns dez minutos depois, Jessica a leva, com Jean-Paul, até o Chez
Louis, um pequeno café com confortáveis cadeiras de vime na calçada e
uma tigela de água do lado de fora para cães sedentos. Foi uma boa ideia,
pensa Adelaide, já se sentindo renovada por estar ao ar livre, em vez de
presa dentro de casa com suas piores lembranças.
– Beatrice, do hotel onde estou hospedada, disse que os doces aqui são
sensacionais – anuncia Jessica, quando elas se acomodam em uma mesa
livre.
Ela ajusta o guarda-sol acima das duas para que Adelaide seja banhada
por uma sombra refrescante.
– Ora, estamos em Paris – Adelaide não resiste a lembrar. – Não é
difícil encontrar doces excelentes.
No entanto, enquanto prende a guia da coleira de Jean-Paul ao braço
da cadeira, ela se sente tentada ao ver um pain aux raisins rechonchudo
sendo servido em uma mesa próxima. Jessica, por sua vez, depois de ter ido
checar dentro do café para conferir tudo o que é oferecido, retorna decidida
a experimentar uma chouquette, um pãozinho de massa choux dourado
cravejado de cristais de açúcar.
– Deux, peut-être? – sugere a garçonete que se aproxima para anotar o
pedido. – Eles são muito pequenos, madame.
– Absolument – aceita Jessica, sorrindo. – Merci.
– E para a madame? – continua a garçonete, se virando para Adelaide.
Então leva a mão ao peito e arregala os olhos. – Ah, madame Fox! Que
honra! Adoro o seu trabalho!
– Muito obrigada – diz Adelaide, já temendo o inevitável pedido de
uma selfie.
Mas a garçonete apenas solta um ofegante:
– Estou muito feliz em conhecê-la, madame.
Depois, se lembra do que está fazendo ali e anota o pedido, com o
rosto enrubescido.
Isso já é distração o bastante para diminuir a tensão que dominava o
corpo de Adelaide até o momento, embora ela não se sinta nada ansiosa
pelo instante em que Jessica dirá daquele jeito animado dela: “Então! Onde
estávamos?”, para empurrá-las de volta ao rescaldo da morte de Will. Só
que, em vez disso, a jornalista na verdade parece bastante deslumbrada.
– Uau! – exclama ela. – Isso acontece com frequência?
– Quase todo dia – responde Adelaide.
Ela começa a descrever alguns dos encontros mais estranhos que já
teve com fãs: completos estranhos pedindo que ela autografasse partes de
seus corpos (incluindo uma mulher que chegou a fazer uma tatuagem do
autógrafo), outros que a presentearam com desenhos, flores, declarações de
amor...
Mas então algo terrível acontece. Ela ouve um latido e percebe que
Jean-Paul disparou de debaixo da mesa em direção a um west highland
terrier, arrastando a guia.
– Jean-Paul! – grita, alarmada.
A rua ali é só para pedestres, então não há carros; ainda assim, há
bicicletas passando em disparada por aquelas ruas e idiotas em patinetes
elétricos, em uma velocidade alta o bastante para atropelar um cachorrinho
que não está olhando para onde vai.
– Jean-Paul! – grita outra vez.
Quando se levanta freneticamente da cadeira, Adelaide esbarra na
mesa, o que sem dúvida a deixará com um hematoma do tamanho de um
pires no dia seguinte. Felizmente Jessica é mais ágil, se levanta de um pulo
e corre para pegar a ponta da guia da coleira do staffbull.
– Jean-Paul, seu idiota! – brada Adelaide, cambaleando na direção
deles, seu coração disparado com o esforço.
Mas a culpa é dela, por não ter amarrado a guia na cadeira com a
firmeza necessária. Estava concentrada demais nas próprias desgraças, nas
suas lembranças carregadas de culpa! Mas Adelaide logo vê que Jean-Paul
está bem, então se inclina um pouco e leva a mão ao peito, na altura do
coração. Na verdade, o cachorro está se divertindo muito, saltitando com o
outro cão, fingindo brigar enquanto os dois se revezam correndo e girando
um na direção do outro. Jessica – e a dona do westie – mal conseguem se
manter de pé enquanto os cachorros correm ao redor.
– Sinto muito – diz Adelaide em francês, principalmente para Jean-
Paul, mas também para a dona do westie, uma mulher de certa idade, de
aparência muito elegante, com cabelos brancos bem penteados e óculos de
sol enormes, usando um vestido longo rosa-escuro e sandálias Birkenstock.
– Pensei que ele estava bem amarrado à minha cadeira, mas... Jean-Paul! –
Ela se pega mudando para o inglês quando o cachorro salta na outra mulher
com grande exuberância. – Já chega.
A mulher sorri e se abaixa para brincar com o animado staffbull.
– Tudo bem – responde ela com sotaque americano. – Você é um
amorzinho, não é? Que amor de menino!
Jean-Paul costuma ser bastante reservado com outros cães, e também
com humanos que não são Adelaide, mas no instante seguinte está rolando
ali mesmo na calçada, o que permite que aquela mulher de cabelos brancos
faça carinho em sua barriga, uma honra normalmente reservada apenas a
Adelaide. Desde quando ele se tornou tão dado? Jessica entrega a guia a
Adelaide, que dá um pequeno puxão.
– Agora vamos – diz Adelaide ao cão. – Desculpe – volta a falar para a
mulher, que entende a deixa e se levanta.
– Foi um prazer conhecer vocês – fala a mulher.
– Vocês também! – ecoa Jessica, dando uma palmadinha camarada no
westie.
Jessica e Adelaide voltam para a mesa, onde a garçonete está servindo
as bebidas e os doces, ainda com uma expressão fascinada no rosto.
– Jesus, Maria, José! Você está bem? – pergunta Jessica. – Essa manhã
deve estar sendo uma montanha-russa para você.
Adelaide dá um sorrisinho ao ouvir o “Jesus, Maria, José”, uma frase
que a mãe costumava dizer e que ela não ouvia há anos. Adelaide deixa o
corpo afundar no assento, ainda segurando com firmeza a guia, enquanto o
coração finalmente desacelera depois do susto. Jean-Paul, o cara de pau,
está deitado de novo, como se nem sonhasse em sair em disparada para
lugar nenhum.
– Estou bem – diz ela, em seguida parte um pedaço do pain aux raisins
e coloca na boca.
A massa amanteigada, crocante e folhada se dissolve na língua e, por
um instante, William está de volta à sua lembrança, lá na praia, exclamando
em êxtase por causa do pãozinho doce gelado, como se fosse a melhor
iguaria do país. Como o irmão mais novo, que amava doces, teria adorado
os bolos e as sobremesas de Paris, pensa Adelaide com súbita ternura. E o
que ela daria para tê-lo do outro lado da mesa naquele momento, com os
olhos cintilando ao contar seus últimos feitos! Adelaide sempre teve
curiosidade sobre o homem que ele teria se tornado quando crescesse, como
suas vidas poderiam ter se interligado ao longo de todos os anos após
aquele dia de Margate. Tudo poderia ter sido tão diferente com William ao
seu lado. O pai dela talvez não tivesse bebido tanto. A mãe teria sido mais
feliz. Quanto à própria Adelaide, será que ela teria saído de casa aos 16
anos, como tinha acontecido? Teria se tornado a pessoa que é?
Jessica está certa, conclui. Ela deve a William o testemunho da vida
dele e da dela, o registro de tudo para a posteridade. Adelaide dá um
sorrisinho para Jessica e indica o celular da jornalista com um aceno de
cabeça. Respira fundo, Adelaide. Você consegue fazer isso.
– Vamos continuar? – diz ela. – Estou pronta quando você estiver.
Capítulo Dezenove

Será que Jess deve ousar dizer isso? Até agora, está gostando da nova
relação de trabalho com Adelaide. Nada de comentários sarcásticos. Ou de
insinuações para fazê-la se sentir desajeitada como uma caipira idiota. São
educadas uma com a outra. Respeitosas, até. Jess também tem certeza de
que Adelaide enfim está sendo sincera com ela. A versão da infância que a
artista lhe deu no primeiro dia foi muito mais completa, muito mais rica do
que as poucas migalhas oferecidas anteriormente.
Tudo bem que apenas um dia se passou dos quinze que terão juntas.
Ainda resta muito tempo para as coisas darem errado – para gritos e ataques
de mau humor, para Jess ser mandada para casa mais uma vez em um
capricho petulante. Ela não deve se precipitar. Mas, quando sai do
apartamento de Adelaide, às duas da tarde daquela primeira segunda-feira,
depois de várias longas sessões de conversa, seus passos estão leves,
naquele ritmo específico que vem de saber que está no caminho certo. Que
há uma boa história a ser contada e ainda muito mais por vir. Se Jess fizer
tudo certo – se as duas conseguirem se manter naquele rumo –, o livro de
memórias pode ser o passaporte dela para o sucesso. O material original já é
incrível – inspirador, inesperado e profundamente comovente. Às vezes,
terrivelmente comovente, para dizer a verdade.
Os olhos de Jess se nublam quando ela se lembra do sofrimento de
Adelaide de manhã. A dor na expressão da mulher, as lágrimas escorrendo
por seu rosto em luto por causa do precioso irmão perdido. Jess a
incentivou a abandonar o sentimento de culpa, mas percebeu que a artista
vinha se castigando pela perda durante todos aqueles anos. A veia
jornalística de Jess ficou empolgada, sim, ao ver a história se desenrolar
com uma sinceridade tão crua, mas, enquanto mulher, Jess só conseguiu
sentir empatia e tristeza pela angústia de Adelaide. (E, no papel de irmã,
Jess também pretende ligar para o irmão para uma boa conversa em breve.
Talvez até proponha que combinem de se encontrar para conversar
pessoalmente ainda nesse verão.)
Ela espera que Adelaide fique bem após aquela sessão tão intensa.
– Sabe, eu moro bem perto de Margate – Jess se pegou dizendo em um
rompante, ao se despedirem. – Se algum dia você quiser... – Ela hesitou.
Afinal, por que diabos uma pessoa iria querer revisitar um lugar associado a
um trauma daqueles? Não era como se Adelaide fosse ter um dia animado
em Margate, para depois voltar para casa com um estoque de
lembrancinhas. – Desculpe, não sei por que disse isso – se viu forçada a
concluir. – Me ignora.
A expressão de Adelaide lhe disse que era exatamente aquilo que ela
planejava fazer, e elas apenas combinaram um horário para se verem no dia
seguinte. É difícil revisitar lembranças difíceis. Jess sem dúvida sabe muito
bem daquilo.
– Você já vai se sentar para escrever sobre o que conversamos? –
perguntou Adelaide quando Jess já estava prestes a partir. – Ou vai passear
primeiro?
Uau, Adelaide puxando um assunto casual, pensou Jess, encantada, e
tentou disfarçar a surpresa. Mas também pareceu significativo que, pela
primeira vez, a mulher estivesse se esforçando para conhecê-la melhor.
– Provavelmente vou voltar para o hotel e fazer algumas anotações,
sim – respondeu Jess. – Embora... – Ela hesitou. – Bem, em algum
momento quero voltar ao lugar onde trabalhei por um tempo, quando saí da
universidade. O Hotel d’Or, você conhece? Fiz uma grande amiga lá, na
época.
– No Faubourg Saint-Germain? Sim, eu costumava fazer muitos
desenhos de cafés nas calçadas por lá, anos atrás. Sempre havia
personagens fascinantes para desenhar.
– Nossa, posso imaginar! – falou Jess, já pensando em alguns dos
clientes abastados com quem a artista devia ter esbarrado, os homens em
ternos sob medida, as mulheres carregadas de joias e casacos de pele.
É engraçado pensar em Adelaide sentada por perto, observando as idas
e vindas dos belos e famosos da alta sociedade, enquanto gente como Jess e
Pascale saía furtivamente para fumar e tomar café em seus uniformes preto
e branco.
– Eu me pergunto se nossos caminhos chegaram a se cruzar naquela
época... – acrescentou Jess com um sorriso tímido. – Enfim. Estou indo
agora. Até amanhã.
Jess acelera o passo, e uma lembrança retorna: ela entrando no
minúsculo quarto dos funcionários no porão, que dividia com Pascale, e
vendo a amiga parada diante do espelho, aplicando rímel.
– Jess, se eu te pedisse para me ajudar com um negócio meio
perigoso... – começou a dizer Pascale, em tom cauteloso.
Mas naquele momento Jess reparou que a amiga estava usando o
vestido novo dela – de Jess –, o vestido preto justo, com decote ombro a
ombro, que ela ainda nem tinha usado.
– Ei! Sua cretina abusada – interrompeu Jess. – Quem disse que você
podia pegar isso emprestado?
– Ahhh. – Pascale fez uma pausa, os cílios de um dos olhos grossos e
destacados, os do outro, macios e suaves. – Você não se importa, né? Por
favor! Estou linda demais nele, non?
O Hotel d’Or podia ser um refúgio glamoroso para seus hóspedes, mas
para a equipe que fazia a limpeza, era um trabalho árduo. Naquela ocasião,
Jess estava exausta depois de um longo turno que tinha envolvido limpar
inúmeras marcas nojentas de vasos sanitários, remover preservativos usados
da roupa de cama e evitar não apenas um, mas dois hóspedes do sexo
masculino excessivamente simpáticos que consideravam as camareiras um
alvo legítimo. Em resumo, ela não estava com a menor disposição para
admirar a beleza da amiga, ainda mais porque Pascale tinha o dom irritante
de parecer melhor do que Jess em qualquer coisa que usava. E era
particularmente irritante quando o vestido em questão era da própria Jess, o
que significava que agora ela sempre se lembraria de como Pascale ficava
muito mais sexy nele.
– Fica à vontade – grunhiu, e entrou no banheiro.
Só mais tarde, lavando o cabelo, enquanto a água fumegante caía ao
seu redor, é que Jess se lembrou do comentário inicial de Pascale. Se eu te
pedisse para me ajudar com um negócio meio perigoso... O que será que
ela quisera dizer com aquilo? Mas quando Jess saiu do banho, limpa e
perfumada, enrolada em toalhas, Pascale já tinha saído, deixando apenas um
leve aroma de perfume de sândalo.
Ora, para onde ela foi?, perguntou a chefe da limpeza, Sylvie, na
manhã seguinte, quando Pascale não apareceu para o turno.
O que ela falou pra você?, indagou o policial de barba bem-aparada
alguns dias depois, quando os pais de Pascale o acionaram. As pessoas não
desaparecem do nada, mademoiselle. Quem ela estava indo encontrar?
Jess não sabia. Não teria como responder. Só o que conseguia ouvir em
sua mente era a estranha pergunta inacabada de Pascale. Ajuda com o quê?,
se perguntava, preocupada. No que exatamente a amiga tinha se metido?
As pessoas não desaparecem do nada, dissera o policial, mas
aparentemente desapareciam, sim. Podiam só desaparecer, com o vestido
preto novo da amiga e tudo. Caminhando pela rua agora, Jess sente os
dedos se fecharem em torno do pingente dourado do colar, que se tornou a
única metade do coração desde aquele dia, sem nunca mais se reunir com
sua outra parte. Ah, Pascale... O que aconteceu com você? Para onde você
foi?
Ela estava vagando durante todo aquele tempo, imersa em velhas
lembranças, mas logo se dá conta de que está prestes a passar pela brasserie
Les Amours. Vai colocar a cabeça para dentro e ver se Valentin está
trabalhando naquele horário, decide, porque precisa ver um rosto amigo. E
se ele estiver trabalhando e decidir convencê-la a tomar uma taça de vinho
gelado e comer um almoço tardio, quem é Jess para dizer que não?
Infelizmente – para ela, pelo menos –, aquele deve ser o dia de folga
de Valentin, porque Jess vê outro garçom de avental atendendo às mesas
externas. Não importa. De qualquer forma, vinho na hora do almoço
provavelmente seria má ideia, já que ela tem um material bastante
comovente e intenso para transcrever naquela tarde. Então Jess repara que o
senhor idoso que tinha visto antes na crêperie ali perto está lá mais uma
vez, tomando café espresso em uma das mesas na calçada. Hoje, ele está
usando uma camisa de linho branca e calça bege, os pés calçados com
mocassins estilosos, marrons, muito bem engraxados. Seus cabelos brancos
têm um corte elegante, e ele usa óculos de armação preta enquanto lê o
jornal na mesa à sua frente, umedecendo com cuidado um dedo na língua
antes de virar a página. O homem está sempre ali, sozinho, repara Jess com
o cenho franzido, enquanto se pergunta sobre a história dele. Como se
sentisse o olhar dela, o homem se vira na direção de Jess e levanta a mão
em um aceno.
– Bonjour, madame – cumprimenta ele, da crêperie, e Jess ruboriza ao
ser flagrada encarando-o antes de acenar de volta.
– Bonjour – responde, e depois, em um impulso, se vira na direção
dele. – Ça va? – pergunta educadamente, tentando compensar o fato de ter
sido flagrada encarando-o.
– Ça va bien, merci – responde o homem. Ele tem olhos castanhos
simpáticos e se levanta quando Jess se aproxima. – Et vous?
O que você está fazendo?, pergunta-se Jess. Afinal, o trabalho a espera
– aquele depoimento sobre o que acontecera em Margate não vai se
transcrever sozinho. Mas quando o homem aponta para a cadeira em frente
à dele com um sorriso simpático, ela se vê retribuindo o sorriso e se
sentando.
– Merci! – diz Jess, então acrescenta em resposta à pergunta dele: –
Bien, merci. – Ela faz uma careta diante daquela resposta tão básica. –
Pardon. Je suis anglaise et...
– Ahh! Fiquei em dúvida sobre isso – fala ele em inglês quando ela
vacila de novo, e Jess o encara, surpresa com o sotaque americano em sua
voz. Estivera certa de que o homem era um local. – Meu nome é Alain, sou
franco-canadense. Eu cresci no Québec, mas conheci a mulher mais linda
de Paris há quarenta anos, então.... – Ele encolhe ombros. – A vida me
trouxe até aqui.
– Que romântico! – exclama Jess com um suspiro, encantada. Ora, se
ele está ali há quarenta anos, então pode ser considerado um local. – Há
tantas histórias de amor nesta cidade.
– Ahhh! – O homem sorri e se aproxima um pouco mais. – Isso quer
dizer que há uma história de amor aqui para você também?
Quem dera ela tivesse essa sorte.
– Não – começa a responder, mas no instante seguinte se pega
pensando em Georges e no macacão matador que está pendurado no quarto
do hotel, pronto para o encontro em dois dias. – Embora... bem, talvez. –
Ela fica muito ruborizada. – Quer dizer... provavelmente não. Mas nunca se
sabe, não é mesmo?
Os olhos dele parecem cintilar mais do que nunca.
– Nesta cidade tudo é possível – diz o homem em tom cúmplice. – E o
amor é sempre a resposta, eu acho.
– O amor é uma boa resposta – concorda Jess, embora se sinta um
tanto hipócrita por dizer aquilo quando as ruínas de seu casamento ainda
ardem. Nesse instante, ela ouve o toque que definiu para as ligações das
filhas. – Opa, meu celular – explica, enquanto procura o aparelho na bolsa.
– Desculpe, mas vou ter que... – Ela encontra o celular e se levanta
novamente. – Foi um prazer te conhecer, Alain – diz, já deslizando o dedo
pela tela para atender a ligação. É Edie. – Se cuida. – Então ela dá as costas
e o deixa sozinho. – Oi, meu bem – fala Jess para a filha. – Tá tudo bem?
✳ ✳ ✳

Edie é a filha mais sensível de Jess, sempre foi. A menina é capaz de


sintonizar o humor das pessoas com a precisão de um sismógrafo
detectando tremores de terra. Aos 3 anos, deixava Jess nervosa com
algumas declarações assustadoras que davam a impressão de que a menina
se lembrava de uma vida passada. Uma dessas declarações foi: “Meu nome
antes era Gwendoline e eu tinha dois irmãos.” Outra: “Sinto falta de ter
cavalos.” Talvez por isso, Jess costuma dar muita importância às intuições
da filha do meio.
– Tem alguma coisa acontecendo com o papai – foi o veredicto de Edie
ao celular, e Jess sentiu um arrepio percorrê-la ao ouvir palavras tão fortes,
porque logo se lembrou de que Mia também havia comentado sobre o
comportamento estranho de David.
Mais tarde, voltando do mercado com algumas provisões – um pouco
de pão crocante, uma fatia muito macia de queijo brie, tomates escarlates
quase explodindo de tão maduros e um saco de nectarinas rosadas –, ela se
pergunta o que deve fazer, se é que deve fazer alguma coisa. Ao contrário
da irmã mais velha, Edie não acha que David está necessariamente
apaixonado, mas parece convencida de que tem algo acontecendo que ele
não contou às filhas.
– O papai anda muito quieto – disse Edie. – Fica distraído e não escuta
quando estamos todos conversando. Como se ele estivesse em seu próprio
mundo.
Será que Jess deveria se preocupar? Comentar algo com ele? Afinal, só
tem a palavra das filhas de que há algum problema – não é como se ela
mesma tivesse visto evidências de qualquer alteração de comportamento.
Talvez o ex-marido estivesse passando por um período depressivo pós-
separação – Deus sabe que, desde a separação, há momentos em que ela se
sentiu profundamente desamparada, insegura. Momentos em que não tem
certeza de quem realmente é, sem David para lembrá-la. Jess se pergunta
com quem ele conversou sobre a separação, se conseguiu ir além de toda a
conversa barulhenta sobre futebol com os amigos e desabafar. Perdida em
pensamentos, ela demora um instante, quando entra no hotel, para perceber
que Beatrice está na recepção e parece satisfeita em vê-la.
– É você! Vi seu nome na lista de hóspedes esta manhã e pensei: “Será
que há outra Jessica Bright hospedada conosco em tão pouco tempo?” Não
é outra! E estou feliz!
– Ah, também estou feliz, Beatrice! – responde Jess, contente,
esquecendo por um instante seu dilema. – Como vai? Aliás, essa blusa é
linda, combina muito com você. Ah, e como foi a prova de piano da sua
filha, correu bem?
Beatrice pisca várias vezes, num trejeito afetado.
– Obrigada. E sim, a Mathilde passou na prova e ficou muito feliz. –
Ela finge secar o suor da testa, embora, fiel ao estilo Beatrice, esteja
imaculadamente maquiada e arrumada, como se tivesse seu próprio
microclima, mais fresco do que a onda de calor que todos estão
enfrentando. – É bom te ver de novo, Jess.
– Digo o mesmo. Estou ansiosa para colocar o assunto em dia –
comenta, antes de se lembrar, tarde demais, de que é uma hóspede, e não
uma amiga de verdade de Beatrice. O que é uma pena, já que gosta muito
da mulher. – Acho que você não... – continua a falar, sem se conter. – Não.
Estou sendo boba.
– O que foi? Você quer me pedir alguma coisa? Não é possível que
haja outro cachorro que precise alimentar – diz Beatrice, fazendo uma
careta engraçada. – Talvez seja um leão desta vez?
– Não, nada de cachorros ou leões. – Jess sente que está enrubescendo.
– Eu só ia... Bem, você pode não aceitar, obviamente, mas gostaria de saber
se você gostaria de sair para tomar um drinque um dia desses, só isso. Mas
sei que você é muito ocupada – acrescenta, dando a Beatrice uma desculpa
fácil para que ela possa recusar.
– Você quer sair para tomar um drinque? Comigo?
Ah, Deus! Ela teria ultrapassado os limites?, pensa Jess, envergonhada.
Com certeza o convite que está fazendo é pouco convencional.
– Bem... sim, mas só se você...
– Eu vou amar! A gente precisa fazer isso – interrompe Beatrice,
radiante. – E eu vou te levar a um bar muito legal. O mais incrível. Deixa eu
ver... – Ela checa o celular. – Que tal quinta-feira à noite?
– Perfeito! – responde Jess. Georges na quarta, Beatrice na quinta... dá
só uma olhada na vida social dela em Paris! – Vamos torcer para que o seu
bar incrível tenha vinho suficiente para nós.
– Cuidado, Paris! – brada Beatrice em tom teatral, bem quando dois
turistas grandes, carregados de malas, entram pela porta e parecem
surpresos com a declaração.
Jess abafa uma risadinha e deixa Beatrice com os turistas. Ah, mas
aquilo foi legal, não foi?, pensa, enquanto sobe a escada até o quarto. Ela
pode ter uma biografia para escrever, mas com certeza também vai se
divertir no tempo livre.
Capítulo Vinte

Quando Adelaide se matriculou na Goldsmiths, não foram apenas as aulas


de desenho e pintura que acenderam suas sinapses como se fossem as
luzes de Natal da Oxford Street. Ela logo descobriu como adorava conhecer
também o trabalho de outros artistas, descobrir quem a precedera e o
contexto histórico em que haviam feito suas criações.
Até então, ela nunca tinha colocado os pés em uma galeria de arte, mas
Ursula, sua mentora, decidiu mudar isso e a mandou visitar a National
Gallery, o Courtauld Institute, a Tate e uma série de instituições menores
localizadas em Londres. Isso também incluía a Whitechapel Gallery, situada
a poucos minutos de onde Adelaide havia crescido. Poderia muito bem ter
sido em outro país.
Com aquelas portas se abrindo diante dela, seus olhos também se
abriam. Todos aqueles retratos renascentistas que desprezara, por considerá-
los um pouco rígidos ou enfadonhos, assumiram uma perspectiva
totalmente nova quando ela soube que os artistas da época tinham
desfrutado de uma influência impressionante, já que eram as únicas pessoas
capazes de criar uma imagem lisonjeira (ou não) da realeza, do Papa, dos
membros abastados da sociedade. Quanto poder devia ter havido por trás
dos pincéis daquelas pessoas! Adelaide também adorava ver o trabalho
inacabado dos artistas – o que o underpainting, a pintura de base, de
Gainsborough, revelava, o que os esboços de Schiele lhe diziam.
Seu cérebro vibrava com estilos e épocas, comportamentos e humores,
à medida que ela os absorvia. Adelaide mudava de artista contemporâneo
favorito toda semana, enquanto visitava exposições com obras de Miró,
Freud, Dalí. Em pouco tempo, porém, ela passou a focar em artistas
femininas antigas e novas – Morisot, Kahlo, Boty –, atraída pela sabedoria
que eram capazes de transmitir. Adelaide se apaixonou pela fotografia de
Diane Arbus. Ficou obcecada pela arte abstrata de Hilma af Klint; fez
experiências com produtos botânicos durante sua fase Georgia O’Keeffe.
Aquela parecia uma forma tão boa quanto qualquer outra de aprender seu
ofício, emulando as obras de seus artistas mais queridos, por isso dedicou
horas ao estudo das técnicas deles, examinando as marcas, tentando
descobrir como exatamente eles haviam chegado às suas melhores obras.
Então, naquele primeiro verão no exterior com as amigas, andando a
esmo pela Galeria Uffizi, ela se deparou com uma das obras-primas de
Artemisia Gentileschi: Judite decapitando Holofernes. Ao ler no guia que o
quadro havia sido pintado após Gentileschi ter sido estuprada pelo pintor
italiano Agostino Tassi, sentiu na mesma hora um arrepio percorrer sua
espinha. Sim, podia ver a raiva fria e justificada estampada no rosto de
Judite, a força em seus braços, os nós dos dedos esbranquiçados com o
esforço enquanto segurava a cabeça de Holofernes. E também a
solidariedade da criada ao seu lado, a urgência das duas. Quase dava para
ouvir o sangue borbulhando da garganta do homem e sentir o cheiro forte
de ferro no ar. Tudo aquilo continha a violência e a paixão de uma mulher
do século XVII! A obra mexeu muito com a cabeça de Adelaide.
No mês de dezembro seguinte, quando ela foi estuprada, sentiu-se
entorpecida durante dias, como se sua chama interior tivesse sido apagada
de alguma forma. Adelaide se perguntou se havia sido um erro ingressar na
escola de artes, se de fato havia um lugar para ela ali, no fim das contas. E
começou a faltar às aulas. Passou dias a fio na cama, com a sensação de que
seu espírito tinha sido reduzido a um minúsculo ponto morto, que flutuava,
perdido, dentro da casca que se tornara seu corpo. Por fim, Margie a
convenceu a assistir às aulas do último dia do semestre de inverno e
Adelaide se arrastou até lá, com a sensação de estar tendo uma experiência
extracorpórea enquanto caminhava pela rua, incapaz de se lembrar de como
voltar a ser Adelaide Fox. Então, quem ela viu, atravessando a entrada da
faculdade à sua frente, em um passo arrogante, senão o próprio Dunster, o
macho alfa, sem nenhuma preocupação no mundo? O que tinha mudado
para ele? Nada. Como era possível que o homem pudesse seguir a vida
tranquilamente quando a deixara arrasada e apequenada, sem pensar duas
vezes?
Foi então que Adelaide a sentiu: a mesma raiva que ardera em
Gentileschi tantos séculos antes. A mesma raiva sentida por tantas mulheres
injustiçadas e abusadas ao longo dos anos. Foi isso que a incitou a incendiar
o apartamento de Dunster pouco tempo depois – uma iniciativa gratificante,
mas que não foi capaz de aplacar por completo a sede de vingança que
rugia dentro dela. Adelaide se viu atraída pela arte de Gentileschi – pela
coragem de Judite, pela vingança de Artemisia. Não seria recomendável dar
sequência à vingança e decapitar Simon Dunster, por mais que apreciasse a
ideia de acertar um golpe de machado naquele pescoço rosado, mas ela
talvez pudesse atualizar a famosa pintura de Gentileschi.
– Foi aí que comecei a pintar a mim mesma como Judite em uma nova
versão do trabalho de Artemisia Gentileschi – diz ela a Jessica, que está
estranhamente silenciosa. – E o Simon como Holofernes. Há sangue de
verdade na pintura... meu sangue, me cortei e misturei ao vermelho. E sabe
de uma coisa? É incrivelmente gratificante criar a pintura da morte dolorosa
e horrível do seu inimigo. Realmente muito agradável. Recomendo a
todos... Certifique-se de colocar isso no livro – acrescenta Adelaide,
apontando um dedo.
Os olhos de Jessica têm um brilho de solidariedade.
– E ajudou? – pergunta ela, baixinho. – Você passou por uma
experiência horrível. Quer conversar sobre seus sentimentos a respeito...?
– E mais – continua Adelaide, sem se deter. Não, ela com certeza não
quer falar sobre “sentimentos”. – Inscrevi a obra para a exposição da
faculdade naquele verão, com uma nota explicativa. Que o mundo visse o
rosto do meu estuprador e o que eu desejava para ele, decidi. Que meus
sentimentos fossem conhecidos por todos!
Jessica engole em seco.
– E... a faculdade exibiu a peça? – murmura. – Quais foram as
repercussões? Todos reconheceram o Simon?
Adelaide deixa escapar um suspiro e revive, tantos anos depois, a
frustração que sentiu na época.
– A faculdade foi negligente até para se envolver mesmo que
minimamente – responde, com a voz cheia de desprezo. – Covarde demais.
Teve medo de enfrentar qualquer questão legal, principalmente por causa do
pai do Simon. Eles tentaram me enrolar, é claro... disseram que achavam
que o quadro não era tecnicamente bom o bastante para ser incluído no
programa porque... Nem consigo lembrar o que disseram, a desculpa que
inventaram. O quadro era, sim, bom o bastante para ser exposto, e todos nós
sabíamos disso.
Jess se ajeita no assento.
– Escuta, falando de questões legais, nós realmente deveríamos
considerar...
– Mesmo assim, eu não ia deixar que me impedissem – continua
Adelaide, antes que Jessica possa estourar sua bolha. – E, embora o quadro
ainda não tenha sido exibido ao público porque, ao que parece, todos ficam
aterrorizados com a menor possibilidade de litígio, ele se tornou o primeiro
de uma série que gosto de chamar de “Vingança”.
Ela lança um sorriso largo e duro para Jessica, que parece bastante
nervosa. (Ótimo. Adelaide levou anos para aperfeiçoar aquele sorriso.)
– E essa série... – diz Jessica, tão absorta na história que se permitiu
desviar do assunto. – Você ainda tem os quadros? – Sua expressão se altera
quando algo mais lhe ocorre. – E devo considerar que outras pessoas
importantes são retratadas neles?
– Correto – confirma Adelaide. – Eu ainda os tenho. E sim, todos os
meus inimigos estão nas telas, sendo assassinados ou torturados de uma
forma ou de outra pela minha mão. – Ela une os dedos, mantendo contato
visual. – Pode acreditar em mim, é uma verdadeira galeria de canalhas.
Como será detalhado no nosso livro.
– Uau! Que incrível – comenta Jessica. – E onde estão esses quadros?
O plano original é exibir todos juntos?
Ela se anima, e inclina o corpo para a frente com entusiasmo. Olhe só
a jornalista, pronta para disparar mais perguntas.
– Tenho esperança de conseguir fazer algo assim, logo que o livro de
memórias for publicado – responde Adelaide. – Os quadros expostos ao
lado dos trechos correspondentes do livro, talvez. Apesar de que, por
enquanto, a maior parte deles está no meu arquivo. No meu antigo estúdio,
do outro lado da cidade.
– Uau! – diz Jessica mais uma vez. – Talvez eu possa... Quer dizer,
seria incrível ver esses quadros, se possível. Poderíamos reproduzi-los no
livro, talvez? Apesar de que... – Ela faz uma careta antes de prosseguir com
a ideia. – A questão é que posso imaginar os advogados dos editores ficando
bem nervosos com isso, exatamente como aconteceu com a Goldsmiths. Na
verdade, infelizmente, todo esse episódio com o Simon Dunster aciona um
alerta de problemas jurídicos. Mais cedo, quando você falou sobre, hum, ter
incendiado o apartamento dele... Preciso avisar que é quase certo que os
editores não vão querer o nome dele publicado, ou qualquer coisa que possa
causar problemas a você... ou a eles.
Naturalmente, Adelaide já pensou sobre isso.
– É verdade – responde. – Concordo que eles não vão querer
problemas. Mas estou disposta a assumir total responsabilidade pelas
minhas palavras. Essa é a questão... eu quero citar nomes. Quero punir
todos que já me fizeram mal. E se essas pessoas decidirem me processar...
deixe que processem. Vai ser um prazer ter o meu momento em um tribunal
e ver a verdade registrada. Estou velha demais e guardo rancor demais
dessas pessoas para deixar alguém me intimidar.
Jessica morde o lábio, sem parecer convencida.
– Certo – diz ela com cautela. – Bem...
– Você não precisa se preocupar com questões legais – garante
Adelaide. – Está aqui para escrever a minha história. E é isso que estou
tentando lhe dar, se você me deixar continuar. Tudo bem?
– Tudo bem – concorda Jessica, mas mantém uma expressão cautelosa.
O que aconteceu com o lado ousado da mulher? – Isso tudo é muito sério,
Adelaide – continua depois de um instante. – E eu estava tão envolvida com
o que você contava que pareceu errado te interromper para perguntar sobre
detalhes. Mas podemos retornar para o momento em que você pintou a sua
primeira peça da série “Vingança”, por favor? Seria ótimo incluir algumas
linhas sobre o que estava passando pela sua cabeça. É diferente pintar algo
assim quando as suas emoções estão tão intensas? Você consegue se
desligar do tema durante o processo... para pensar nas pinceladas, digamos,
em vez de na história por trás delas? – As perguntas saem apressadas, em
um fluxo tão intenso que Adelaide acha que corre o risco de esquecer as
primeiras. – Além disso, você conseguiu trabalhar de memória quando
estava pintando o rosto de Simon? Ou usou fotografias? Com certeza não o
fez posar para você, né?
– Eu me senti...
Adelaide faz uma pausa para refletir, para retornar àquele momento.
Ali, em seu minúsculo espaço de trabalho na faculdade, vestida com o
macacão marrom de operário que ela preferia naquela época, com os
cabelos presos no alto da cabeça enquanto o antigo aquecedor portátil era a
única coisa que fornecia um mínimo de calor para evitar que ela congelasse
no ateliê gelado. Sempre dava para ouvir o rádio de alguém tocando – a
Radio Caroline acabara de ser lançada; os Beatles e canções beat tocavam o
tempo todo. A tela em que ela trabalhava era grande para os padrões
anteriores – quase dois metros de altura – e, ao fim de uma sessão, os
músculos de seus braços doíam por causa do esforço físico necessário para
colocar tanta tinta na tela enorme. As pessoas não costumam pensar na
fisicalidade que envolve uma tela grande – subir e descer escadas, o esforço
de trabalhar com muita tinta... Muitas vezes o artista termina o dia com o
corpo e a mente igualmente exaustos. Ainda assim, as horas desapareciam
sem que ela realmente se desse conta de qualquer outra coisa a não ser a
imagem que se formava diante dela.
– Eu sentia raiva, sim – continua Adelaide –, mas quando encontrei
uma forma de canalizar essa raiva, ela se transformou em uma energia
cinética incandescente. Uma força, de um tipo que eu nunca tinha
experimentado. Na verdade, fiquei empolgada, como se surfasse em uma
onda tão poderosa que só precisava aguentar firme e seguir em frente.
Ela sente uma súbita pontada de saudade por seu antigo ímpeto, pelo
vigor que já teve.
– A paixão só pode levar a gente até certo ponto – acrescenta. – É a
concentração nos detalhes... nas pinceladas, como você diz, na luz incidindo
na cena, no modo como compreendemos a textura do tecido, na forma de
fazer o sangue parecer convincente, no delineamento das mechas de
cabelo... tudo isso é que nos coloca em uma espécie de... bem, de transe.
Um lugar diferente, onde o cérebro está se esforçando muito para registrar
tudo exatamente como vemos na nossa mente. Na verdade, me sinto muito
calma quando estou profundamente imersa nesse processo. Nada mais
parece importar... nem o Simon, nem o Remy, nem o C... – Adelaide se
interrompe. – Nada se acumula na minha mente. A minha mão se torna o
meu cérebro... só o que conta é a tinta e o que faço com ela.
Ela encara as mãos, felizmente livres de tremores hoje, e amaldiçoa o
processo de envelhecimento que lentamente vem tirando a arte dela. Que
saudade dos tempos em que podia se dedicar a uma tela e esquecer o resto
do mundo.
– Uau! – É a terceira vez que Jessica solta essa exclamação de surpresa
no espaço de dez minutos, percebe Adelaide, enquanto a mulher a observa,
balançando ligeiramente a cabeça. – Isso foi... Nossa, é maravilhoso ouvir
você falar sobre isso. Tão interessante. Não quero de forma alguma parecer
grosseira ou hipócrita, mas às vezes eu meio que esqueço que você é esse...
esse gênio, Adelaide. Por isso, me ver sentada aqui, ouvindo você descrever
o seu processo criativo... – Os olhos da jornalista estão arregalados. – A
verdade é que me sinto impactada por estar... bem, na presença de tamanha
grandeza. Da sua grandeza.
Adelaide não sabe como reagir àquilo. Como está há muito tempo
imersa no mundo da arte, seu detector de mentiras está permanentemente
em alerta e ela sabe que não deve aceitar elogios efusivos sem
questionamentos. No entanto, há tanta sinceridade nas palavras de Jessica
que é possível acreditar em tudo o que ela disse.
– Obrigada – responde Adelaide depois de um instante, embora com
desconfiança. – Enfim. Talvez nós devêssemos...
Mas Jessica, que está folheando um bloco de notas, ainda não parece
pronta para continuar.
– Antes de prosseguirmos – diz ela, em tom gentil –, eu estava
montando um cronograma ontem e percebi que houve uma omissão
bastante significativa na narrativa até agora: você não me contou muito
sobre como nasceu a sua amizade com Margie Flint. Sei que esse também é
um assunto delicado – balbucia, e ergue a mão como se quisesse evitar
qualquer discussão futura, que sem dúvida vai acontecer, pensa Adelaide –,
mas você poderia pelo menos falar sobre as suas primeiras impressões a
respeito dela, sobre como a amizade entre vocês se desenvolveu, sobre as
coisas boas dos primeiros momentos? – Há uma pausa em que Adelaide
reflete sobre como responder àquilo, até que Jessica insiste mais um pouco.
– Seguindo o combinado de me contar a verdade, toda a verdade e nada
além da verdade?
Adelaide suspira. Isso, sim, é saber encurralar alguém... E embora
haja, obviamente, muitas “coisas boas”, como Jessica disse, isso não é algo
em que se permita pensar com frequência. Ela se abaixa para fazer carinho
em Jean-Paul enquanto protela a resposta.
– Talvez a gente deva fazer uma pausa? – diz, por fim. – Marie-
Thérèse? – chama no instante seguinte. – Você está por aí? Estamos
morrendo de sede. Alguma chance de nos trazer uma bebida gelada?
Jessica se levanta.
– Eu mesma posso pegar – oferece, já se inclinando para colocar as
xícaras usadas de volta na bandeja.
– Não, você não vai fazer isso – fala Adelaide. – Eu pago um bom
dinheiro àquela mulher para... Marie-Thérèse! Onde diabo ela está?
Jessica se senta e faz uma careta, sem se preocupar em ser discreta.
– O que foi? Por que está com essa cara? – Adelaide se ouve bradar.
– Porque... Bem, seja você quem for, gênio ou não, há maneiras e
maneiras de falar com as pessoas, não é? – As palavras explodem de Jessica
como se ela estivesse tentando contê-las há algum tempo. – Maneiras
educadas. Boas maneiras. E... falando sem rodeios, também há maneiras
bastante agressivas. Que podem ser horríveis para a outra pessoa.
Adelaide se irrita. Espera um pouquinho, ela tem vontade de retrucar,
dois minutos atrás eu supostamente era uma presença de enorme grandeza.
Agora você vem me dar um sermão sobre boas maneiras? Então ela volta
os olhos para Marie-Thérèse quando a mulher enfim entra na sala com a
expressão azeda de sempre.
– Ah, aí está você. Gostaríamos de uma jarra de água gelada, Marie-
Thérèse. Por favor – acrescenta com firmeza, sentindo os olhos de Jessica
sobre ela. Maneiras bastante agressivas. Ah, pelo amor de Deus. – E alguns
biscoitos também, se tiver. – E ali estava aquele olhar de novo. – Por favor.
– Não é tão difícil, né? – murmura Jessica.
Ou melhor, Adelaide acha que é isso que Jessica diz. Ela fixa os olhos
na mulher e pergunta com sua voz mais gelada:
– O que foi?
Mas Jessica apenas a encara com uma expressão surpresa e responde:
– O quê? Eu? Nada.
Bem quando Adelaide estava começando a gostar dela. Deveria ter
imaginado que era bom demais para durar.
✳ ✳ ✳
Margie chamou a atenção de Adelaide na primeira vez que se viram, ambas
novas na faculdade, esperando diante do balcão da recepção para pegar suas
carteirinhas de estudante. Margie usava um vestido preto e laranja com
estampa geométrica e um cardigã amarelo-mostarda contrastante, quase tão
longo quanto o próprio vestido. Seus cabelos loiros quase brancos, na altura
dos ombros, estavam afastados do rosto por uma faixa de tecido com
estampa paisley, e ela usava brincos de argola dourados, ousadamente
grandes. Por alguma razão, havia uma caveira preta desenhada nas costas de
uma das mãos. Em meio a um mar de jovens com vestidos em tons pastel,
saias rodadas e bolsinhas elegantes, Margie se destacava como alguém
diferente, alguém interessante. Adelaide, que se sentia cada vez mais
deslocada com as risadas daquelas garotas bem-articuladas que passavam os
verões pintando aquarelas na Cornualha e em Norfolk, na mesma hora viu
na garota ao seu lado uma alma gêmea e uma possível amiga. E foi o que
aconteceu.
Margie era da classe trabalhadora de Southend, alta e franca, e criava
peças ousadas e impressionistas com uma grande variedade de cores. Tinha
sempre um cigarro no canto da boca – e não eram poucas as vezes em que,
concentrada no trabalho, deixava o cigarro arder até queimar seu lábio.
Estava sempre coberta de bijuterias, a tal ponto que alguns dos rapazes do
período delas a apelidaram de Jingle Bells, por causa do tilintar
dos acessórios.
– Nos tornamos próximas como irmãs – conta Adelaide a Jessica, em
tom melancólico. – Teríamos feito qualquer coisa uma pela outra... e com
frequência realmente fazíamos.
– Me descreve alguma dessas vezes – insiste Jessica. – Em que
encrenca vocês duas se meteram?
– Quanto tempo você tem? – responde Adelaide.
Ela ri, mas o som logo fica preso em sua garganta quando se lembra
mais uma vez do rosto da amiga tão querida, do brilho em seus olhos, da
boca larga e sorridente. Como as duas passavam horas fazendo roupas
novas para sair à noite – vestidinhos minúsculos com cintos e botões
grandes, os cabelos penteados em enormes coques-colmeia, a maquiagem
caprichada no lápis preto e no batom.
– Ai, meu Deus, por favor, me diz que há fotos de vocês duas –
implora Jessica enquanto Adelaide as descreve.
– Eu com certeza tenho algumas, mas ela provavelmente tem ma... –
Adelaide se interrompe, sem vontade de terminar a frase.
Ela sabia que teria que falar sobre Margie para o livro, mas, enquanto
conta “as coisas boas” para Jessica, se surpreende ao se dar conta de como
foram boas. Tão boas que de repente parece insuportável que as duas não
sejam mais próximas, que ela não possa ligar para Margie e relembrar os
velhos tempos. Não pode simplesmente perguntar: Ei, você tem alguma foto
nossa com as nossas melhores roupas? Adelaide engole a emoção.
– Sim, tenho certeza que tenho algumas – diz ela, abrindo e fechando
os dedos no colo. – Isso basta por enquanto? – pergunta, ciente do tom
suplicante em sua voz. – Talvez possamos voltar a Margie em outro
momento, quando eu me sentir menos...?
Menos...? Ela não sabe bem que palavra usar. Frágil? Instável? Para
quem se diz uma cínica cansada do mundo, parece que sim; os últimos dois
dias a abalaram como se tivesse ocorrido um terremoto.
Jessica se apieda dela.
– É claro. Com certeza. Vamos deixar isso de lado por enquanto, então.
Talvez pudéssemos falar sobre o seu último ano de faculdade, sobre as suas
lembranças favoritas e momentos significativos daquela época.
É um terreno mais seguro... Adelaide aceita com gratidão a rota mais
fácil e começa a compartilhar algumas histórias interessantes para fazer a
vontade de Jessica. Ver os Beatles no Astoria em Finsbury Park; Margie
sendo expulsa do show quando tentou subir no palco durante “I Wanna
Hold Your Hand”. O apartamento horrível para onde tinham se mudado,
cheio de mofo e ratos, além do maior rato de todos, a praga que era o
senhorio, um assediador sexual. As duas invadindo uma festa em Kings
Road e conhecendo Julie Christie e Peter Blake. Ficar chapada pela
primeira vez e se apaixonar por um modelo escocês chamado Alastair, que
tinha os malares mais lindos de Londres. Ser abordada por Jonty, um agente
promissor que usava gola alta e óculos estilo Michael Caine com lentes
grossas, quando estava organizando a exposição final na faculdade. Ela e
Margie se mudando do apartamento horrível, mas não sem antes pintarem
imagens obscenas e nada lisonjeiras do proprietário assediador em todas as
paredes, além de avisos sobre o comportamento dele em letras gigantes.
– Não acredito! – exclama Jessica, rindo (de uma forma nada
profissional, Adelaide não consegue deixar de reparar). – Incrível. Que vida
você viveu, Adelaide. Que vida extraordinária!
Adelaide também sorri, porque gostou de contar tantas histórias de
travessuras e exuberância. Quando foi a última vez que se permitiu dar
tantas gargalhadas? Às vezes a pessoa fica tão concentrada nos momentos
difíceis e nas mágoas que se esquece de olhar para trás, para os dias
gloriosos e dourados da juventude. Mas ali estão eles de novo, recém-
escavados da memória e muito divertidos de lembrar. Sim, divertidos!
Ainda assim, esse é apenas o prelúdio em muitos aspectos, supõe
Adelaide, quando se despede de Jessica, pouco depois. Ela tem plena
consciência de que histórias mais complicadas ainda estão por vir... como
icebergs se aproximando. Ao embarcar nesse livro de memórias, sua
intenção sempre foi arrancar tudo do fundo de si mesma e colocar no papel,
como se estivesse extirpando um tumor. Adelaide continua a acreditar que
um artista deve ser capaz de confrontar a verdade com firmeza, por mais
monstruosa que seja. Mas, agora que está ali, com menos de quinze dias
para contar sua história e vendo o tempo passar... será que ainda tem o olhar
ousado necessário, ou vai acabar vacilando no final, desistindo antes de
concluir sua história?
Capítulo Vinte e Um

Jess sai da sessão de terça-feira zonza com tudo o que ouviu, a cabeça cheia
de Swinging London e Carnaby Street, além da terrível vingança infligida a
Simon Dunster. Claro, tudo isso é um ótimo material de trabalho, mas
algumas histórias parecem uma bomba prestes a explodir em suas mãos, e
ela não sabe o que fazer com elas. Assim que sai da Place des Vosges, Jess
pega o celular e digita o número de Luc. As informações são importantes
demais para lidar sozinha com elas.
– Oi, é a Jess Bright, que está escrevendo o livro de memórias da
Adelaide...
– Eu sei quem você é – interrompe ele, parecendo achar divertida a
apresentação dela. – Está tudo bem?
– Na verdade, não – solta Jess. – Pra ser sincera, estou um pouco
preocupada com algumas coisas que a Adelaide me contou nos últimos dias.
– Ahhh. Entendo. Onde você tá? Já saiu do apartamento, né?
– Acabei de sair. A questão é que a Adelaide fez algumas coisas bem
graves, de acordo com o que me contou. E eu alertei à sua tia que os
editores com certeza vão surtar com alguns detalhes, mas ela diz que quer
contar tudo mesmo assim. Sério, estou meio preocupada que ela acabe
encrencada por se expor tão abertamente. – Um pensamento novo e terrível
lhe ocorre. – E, na verdade, eu também posso me encrencar, se souber de
tudo e não fizer nada a respeito. Quer dizer... ela incendiou o apartamento
de um homem, Luc. Poderia ter matado o cara. Parece que ela o desfigurou,
possivelmente para o resto da vida. O que devo fazer com essa informação?
O editor vai se sentir obrigado a falar com a polícia? Depois, tem também o
caso do Colin Copeland...
Ela se interrompe ao lembrar de como Adelaide quase disse o nome
dele ao falar sobre sua série de pinturas “Vingança”. A mulher recuou
rapidamente ao se dar conta de seu erro, mas Jess entendeu muito bem do
que se tratava, ainda mais depois das alegações sinistras que Mia andara
fazendo.
– Quer dizer, em relação a isso só estou supondo, mas, pelo que
Adelaide já deixou escapar, ela sabe mais sobre a morte do homem do que
disse anteriormente. Então, se a sua tia me confessar alguma coisa...
Jess vê mentalmente uma imagem granulada de si mesma, pálida e
ansiosa, em uma sala de interrogatório da polícia de Kent, sua consciência
forçando-a a contar o que sabe. Para ser justa, ela havia pedido a Adelaide
que lhe contasse a verdade, mas nunca poderia imaginar que a verdade seria
tão... bem, incriminatória.
– Hum – diz Luc. – Vocês terminaram por hoje? Já almoçou? Eu
estava indo comer alguma coisa, se quiser me acompanhar... meu
apartamento não fica longe do de Adelaide. Podemos conversar mais.
Neste momento, duas jovens passam por Jess segurando caixas de
isopor abertas com falafel e batatas fritas cheirosos, e o estômago dela na
mesma hora ronca de fome.
– Seria ótimo – responde Jess.
A esta altura, seu cérebro tolo já se imagina atrás das grades por
ocultar informações sobre um caso antigo de incêndio criminoso e
possivelmente sobre a tentativa de assassinato de Simon Dunster. Para não
mencionar o que aconteceu com Colin Copeland. Jess viu Orange Is the
New Black e sabe que seria absolutamente patética na prisão, que se
deixaria intimidar até morrer.
Ela procura recuperar a compostura. Com sorte, a situação não vai
chegar a esse ponto.
– Ah, e eu também queria te perguntar sobre o arquivo dela.... se posso
dar uma olhada nele em algum momento. Adelaide disse que por ela tudo
bem.
Um arrepio sobe por seus braços enquanto ela se visualiza diante das
pinturas da série “Vingança”. Vai ser muito assustador ver a imagem de
Adelaide decapitando Simon, com tudo o que sabe agora.
– Claro, quando quiser. Talvez amanhã? – sugere ele. – Vou estar livre
a tarde toda, se for bom pra você. Mas, para o almoço de hoje, você
conhece o Monsieur Pélican? É só procurar um restaurante em uma
barcaça, não muito longe da casa da Adelaide. É meio turístico, mas a pizza
deles é bem decente. Consigo chegar lá em dez minutos, o que acha?
– Gosto da ideia – diz Jess. – Até logo.
✳ ✳ ✳

O Monsieur Pélican fica em uma barcaça na beira do rio, atracada perto da


Pont Marie e com uma varanda adjacente, à sombra de guarda-sóis, como
Jess descobre pouco depois. Os bancos de piquenique da varanda estão
cheios de famílias em férias comendo hambúrgueres, enquanto jovens de 20
e poucos anos tiram fotos de seus drinques coloridos, em um ângulo que
inclui o rio como cenário. Por um momento, quando vê uma mulher com
três filhas, todas falando acaloradamente ao mesmo tempo, Jess sente uma
pontada de saudade das próprias filhas, que estão de férias sem ela, mas
então vê Luc e deixa o sentimento de lado com determinação. Os negócios
primeiro.
O restaurante está movimentado, mas graças a um milagre Luc
encontrou um lugar na sombra, no meio do convés. Ali, os bancos dão lugar
a mesas menores com cadeiras de vime de aparência confortável, e Jess
sente o nó no estômago começar a diminuir quando ele a vê se aproximando
e acena. Um garçom passa com algumas pizzas de cheiro incrível, tão bom
que a faz franzir o nariz e tocar o amuleto em volta do pescoço, lembrando-
se de como ela e Pascale às vezes escolhiam fatias de pizza marguerita de
massa grossa para o almoço, em seu café italiano favorito, perto do Hotel
d’Or. Mas é melhor Jess também não pensar em Pascale nesse momento.
– Que lugar legal – elogia ela, sentando-se.
É como se Luc tivesse conseguido adivinhar exatamente do que ela
precisava naquele dia de verão: se sentar em um lugar bonito, bem distante
da escuridão da história de Simon Dunster. O ar cheira a protetor solar e
batatas fritas, e barcos de passeio lotados de turistas tirando fotos passam
em alta velocidade. Mais dois minutos e ela mesma não vai conseguir
resistir a um drinque.
Eles pedem a comida e as bebidas, depois Jess respira fundo e conta
em detalhes suas preocupações. Os dedos-duros se dão mal, ouve Edie
alertar em sua mente e fica ligeiramente nauseada, até se lembrar de que seu
trabalho é supostamente contar ao mundo todos os segredos de Adelaide. Se
o mundo conseguir suportá-los, é claro.
– Eu sei que toda essa divulgação supostamente é boa e, sim, Adelaide
venderia um monte de livros com tanto drama, mas não consigo imaginar
que isso vá trazer alguma consequência feliz para ela, você consegue? E
isso é apenas o que me contou até agora. A Adelaide já deu a entender
várias vezes que há muitas outras histórias fortes por vir.
Luc tamborila na mesa, pensativo. Ele está usando uma camisa branca
de manga curta e, enquanto espera que fale, Jess admira o bronzeado dos
braços dele.
– Acho melhor eu ler tudo antes de enviarmos o primeiro rascunho
para a editora – diz ele depois de um instante, e Jess tem que se forçar a
voltar a prestar atenção, pois se dá conta de que ainda está olhando
fixamente para os braços de Luc. Constrangedor. – Posso alertar a minha tia
em relação a qualquer trecho que eu considere mais arriscado – continua
ele. – Mas, enquanto isso, talvez seja bom para ela desabafar em relação a
essas coisas.
– Sim, mas... – Jess não quer se colocar no centro da situação, mas Luc
não parece ter compreendido as possíveis repercussões mais amplas. –
Bem, para ser mais objetiva, eu também não quero ir para a prisão, Luc.
Ela deve ter falado um pouco alto demais, porque no instante seguinte
a mulher na mesa mais próxima se vira e a encara com interesse. Jess
responde com sua melhor cara fechada, inspirada em Adelaide, depois,
felizmente, a garçonete chega com as bebidas, uma cerveja Pelican para
Luc e um jus de pamplemousse para ela.
– Quem disse alguma coisa sobre prisão? E por que você está se
colocando em uma cela de repente? Não estou entendendo – diz ele quando
os dois estão sozinhos mais uma vez.
Jess toma um gole do suco: agridoce e gelado, perfeito.
– Eu seria cúmplice dos delitos dela! – sussurra em resposta. – Isso
não me torna corresponsável ou algo assim? Eu não deveria ter dado uma
“voz de prisão por cidadã comum” no instante em que ela me contou que
ateou fogo no apartamento daquele bosta do Simon, e a levado para a
delegacia mais próxima?
– De jeito nenhum – assegura ele. – Estou começando a achar que
você não leu aquele contrato que passei séculos redigindo. Ele te exonera
especificamente de qualquer forma de cumplicidade, porque tive a intuição
de que uma situação semelhante a essa poderia acontecer. Escuta, você
definitivamente não vai acabar na prisão. Pode guardar as faixas de
“Liberdade para Jess Bright” e as petições ao Parlamento.
– Ah. – Jess sente um peso sair de seus ombros, e a brisa que bate em
seu rosto subitamente parece um grau mais fresca. – Jura? Tudo bem.
Obrigada. E a Adelaide também vai ficar bem? Quer dizer, não vou entregar
a sua tia se você estiver preocupado com isso, mas... – Ela para, sentindo
como se estivesse participando de um filme ruim.
Não vou entregar a sua tia... sinceramente, pensa, encolhendo-se
diante da própria linguagem melodramática.
– Também vou me certificar de que ela não seja presa – garante Luc. –
De qualquer forma, não consigo imaginar a Adelaide usando um conjunto
de moletom cinza de presidiária.
– Meu Deus, não – diz Jess. – Apesar de que... bem, eu investiguei a
respeito e...
– Você investigou? Porque pensou seriamente que poderia ser uma
possibilidade?
Jess percebe que ele está contendo uma risada e sente a nuca ficar
quente.
– Bem... – repete, mas não consegue pensar em nenhuma explicação
além da verdade. – Sim, tá certo, eu investiguei. Sim – continua, na
defensiva. – E, pelo menos no Reino Unido, as mulheres não precisam usar
uniforme na prisão, então... – Ela se sente enrubescer porque percebe que
Luc está precisando se esforçar muito para se manter sério. – O que eu
posso fazer se tenho uma imaginação fértil?
– É o que estou descobrindo – responde ele, mas ao menos seu sorriso
é bem-humorado, e não o de alguém que a considera uma completa idiota.
Ou pelo menos Jess torce para que esse seja o caso. – Bem, fico grato pela
sua preocupação com o traje de presidiária da Adelaide. É bom saber.
– Ah, fica quieto – diz Jess, constrangida com a brincadeira dele.
– E o que você está achando da minha tia dessa vez? – continua Luc. –
Ela está se comportando?
– Hum... – Jess faz uma pausa, dividida entre a diplomacia e a
sinceridade. – Bem, pelo menos a Adelaide ainda não voltou a me perguntar
se eu sou surda ou só estúpida...
– O quê? Ela não fez isso!
– E ela sem dúvida está me contando tudo, e tenho quase certeza de
que nada do que está falando é fictício – continua Jess, gostando bastante de
ver a expressão horrorizada no rosto de Luc. Então ela cede. – Hoje nós
rimos muito juntas sobre algumas histórias da juventude dela. A sua tia é
bem engraçada, às vezes.
– A Adelaide estava rindo?
– Sim! Até com lágrimas nos olhos em certo momento, lágrimas de
riso, por causa de uma história sobre ela e as amigas levando a melhor em
cima de um antigo senhorio. – Jess sorri ao se lembrar do momento,
Adelaide com a mão no peito, mal conseguindo falar enquanto tentava
terminar a frase. – Apesar de que isso é raro – admite. – Na maior parte do
tempo... bem, a sua tia é bem sombria, né? Não pode ser descrita como uma
dessas pessoas naturalmente otimistas em relação à vida. E parece muito
interessada em se vingar de qualquer um que já a tenha irritado. A Adelaide
falou por pelo menos quinze minutos sobre o primeiro agente dela, Jonty,
explicando em detalhes por que ele se revelou um imbecil.
Luc assente.
– Ela tem seus motivos para ser rígida – fala ele. – A Adelaide passou
muito tempo deprimida depois da morte do Remy, e sei que o lockdown foi
horrível para ela. A minha tia ficou muito ensimesmada... quase não pintou,
quase não viu ninguém durante dias. Graças a Deus tinha o Jean-Paul como
companhia, porque ela deve ter se sentido muito solitária.
Jess sente uma pontada de culpa por ter chamado Adelaide de solitária
na vez anterior que esteve em Paris. Não admira que a mulher tenha
explodido com ela.
– A Catherine, minha irmã, e eu... a gente estava torcendo para que a
nova exposição e o livro de memórias pudessem animá-la um pouco, mas
talvez a gente tenha sido simplista demais – continua Luc. – Mas fiquei
feliz em saber que ela estava rindo hoje. Isso me soa mais positivo.
– Concordo – diz Jess. Ela faz uma pausa, mas logo a curiosidade leva
a melhor. – Onde você se encaixa em toda essa situação, se não se importa
que eu pergunte? Você também está passando o verão aqui, certo? O que
deixou pra trás no Reino Unido?
Ele parece surpreso ao ver os holofotes subitamente virados em sua
direção.
– Uau... tudo bem – responde ele depois de algum tempo. – Hum...
bem, acho que deixei pra trás um divórcio. Uma demissão por causa de
corte de equipe. Alguns vasos com plantas que estão secando aos poucos.
Todas as coisas importantes.
– Ahhh. Desculpa – diz Jess, já arrependida de sua intromissão. – Eu
também – acrescenta. – Apesar de que no meu caso é apenas uma
separação, não um divórcio, mas mesmo assim é uma confusão.
– Eu não sabia disso – comenta Luc, e ela se pergunta por que ele
saberia, quando ouve: – Li a sua coluna sobre maternidade. E a do
consultório sentimental também. Achei que tudo estava ótimo no front
doméstico.
Ele andou lendo o trabalho dela? Que constrangedor...
– Ah, Deus, você não fez isso... – diz Jess, sentindo-se subitamente
envergonhada.
Todos aqueles recortes pessoais e íntimos da vida dela, de sua
família... era como descobrir que alguém tinha mexido em sua gaveta de
calcinhas.
– Sim, logo que a Adelaide sugeriu você para o trabalho... ou melhor,
quando eu achei que ela estava sugerindo você... chequei a entrevista que
você tinha feito com ela e alguns dos seus outros trabalhos, antes de entrar
em contato – explica Luc, e se apressa a continuar, antes que eles se
desviem para a sombria história da Jessica errada: – Mas antes de mais nada
foi o que eu li que me fez achar que você seria boa para escrever as
memórias da Adelaide, porque a sua escrita é muito precisa, muito
perspicaz – continua ele. – Você escreve com o coração e dá vida a tudo tão
bem... O que foi? Por que está me olhando assim? Adorei aquela coluna que
você escreveu sobre a praga dos piolhos, foi brilhante! Realmente me fez
rir.
– Ah, para com isso – diz Jess, sem saber se ele está rindo da cara dela.
Provavelmente. David sempre tinha tratado o trabalho dela publicado
nas revistas como se fosse de baixo nível, para um público sem sofisticação
intelectual, em comparação com o mundo profundamente importante do
jornalismo esportivo. Como se bastasse reunir alguns chimpanzés em uma
sala e eles escreveriam uma das colunas de Jess – o marido tinha deixado
isso implícito muitas vezes. Apesar das palavras gentis, no fundo Luc
provavelmente pensa o mesmo.
– Você é boa! – insiste ele. – Sabe disso, né?
Ainda desconfiada, Jess precisa examinar com atenção a expressão
dele, mas Luc parece sincero.
– Hum... obrigada? – responde ela com cautela.
Nesse momento, as pizzas chegam, e também a salada de tomate e
muçarela que ele pediu para os dois dividirem. As pizzas estão um
pouquinho chamuscadas nas bordas, do jeito que Jess gosta, e, depois que a
garçonete lhes deseja um animado “Bon appétit” e se vira para sair, Jess
começa a cortar fatias com gosto.
– Boa escolha – fala enquanto o cheiro de queijo derretido e
manjericão invade suas narinas. – Eu precisava disso. – Então, para mudar
de assunto, pergunta: – E você tem algum trabalho aqui, além do que está
fazendo para Adelaide?
– Alguns trabalhos de consultoria – responde Luc. – Mas, nesse verão,
eu não estou conseguindo evitar a sensação de que... Bem, eu fico me
perguntando se não preciso mudar um pouco as coisas... Se estar aqui não é
o catalisador para eu tomar algumas decisões importantes...
– Tipo o quê?
– Tipo... – Ele faz uma pausa enquanto mastiga, pensativo. – Trabalho
na área jurídica desde que me formei – continua, por fim. – E tem sido
ótimo, um trabalho interessante e relevante. Colegas e salários decentes.
Uma profissão respeitável, sabe. Provavelmente eu teria continuado para
sempre na empresa em que trabalhava, se não tivesse havido aquela onda de
demissões. Mas, agora que estou fora desse estilo de vida... das longas
horas no escritório ou no tribunal, dos processos, da rotina, do mesmo
trajeto todo dia... não sinto muita pressa em retornar a ele.
– Crise de meia-idade? – brinca Jess.
– Ah, meu Deus, provavelmente é isso, né? Mas é estranho. Com a
demissão e o fim do meu casamento no ano passado, tenho a sensação de
que alguém apertou um botão de pausa na vida que eu conhecia. A esteira
parou e aqui estou eu em Paris, me perguntando para onde vou...
– E...? Conseguiu chegar a alguma conclusão? Qual seria o seu sonho
se não tivesse nada no seu caminho?
Luc franze o nariz.
– Pergunta típica de alguém com uma coluna de consultório
sentimental – brinca ele, o que a deixa envergonhada. Por favor, que ele não
tenha lido nenhuma das colunas em que ela dava conselhos sexuais. Jess
preferiria morrer. – Ah, não sei. Ainda não cheguei tão longe – confessa
Luc, mas logo desvia os olhos, e ela se pergunta se aquilo é verdade. – E
você?
Jess pega um pedaço de tomate da salada e coloca na boca enquanto
pensa. Está maduro e suculento, temperado com azeite e pimenta-do-reino...
o puro sabor do verão.
– Houve um problema parecido com a esteira da minha carreira este
ano – diz ela. – Mas devo confessar que sempre odiei esteiras ergométricas.
Não suporto correr e correr e nunca chegar a lugar nenhum.
– Além disso, há sempre aquele pânico de que um dos cadarços do
tênis fique preso de alguma forma e ela trave – concorda ele.
– Nem fala! Esse é um dos meus pesadelos recorrentes!
Ele dá um risinho meio envergonhado.
– Eu sei, li isso em uma de suas colunas. Desculpa! – diz, quando Jess
joga a cabeça para trás com um gemido. – Não consegui resistir. Mas
continua, você estava prestes a me contar sobre a vida dos seus sonhos.
Jess ainda está constrangida por ter alguém citando suas próprias
palavras para ela, mas, por outro lado, também é meio lisonjeiro. Luc tinha
lido mesmo o trabalho dela, o bastante para se lembrar de trechos inteiros.
– Bem, qualquer sonho que eu tenha precisa levar em consideração
três adolescentes, o que exclui coisas empolgantes ou excêntricas demais –
responde ela –, mas em termos de trabalho, eu adoraria realizar alguma
coisa... – Jess faz uma careta. – Eu estava prestes a dizer “impressionante”,
o que soa tragicamente carente. Mas você sabe, algo que fizesse outras
pessoas dizerem “Uau!”, que me desse a sensação de ter chegado lá, de ser
um sucesso.
– Eu diria que escrever duas colunas durante anos a fio, e todo o
restante do seu trabalho como jornalista, é bastante impressionante –
comenta ele.
– Sim, você talvez ache isso, mas pode acreditar em mim, há toda uma
hierarquia no mundo da palavra impressa, e algumas pessoas adoram
colocar os outros no lugar que acham que cabe a eles – explica ela,
sentindo-se ruborizar de novo. – Esnobes com olhos críticos, que
desprezam qualquer um que escreva conteúdo popular como eu, em vez de
matérias eruditas e dignas de prêmios. – Na mesma hora, o rosto de sua
antiga chefe, Lucinda, volta à sua mente. O problema com a Jess... Isso
ainda a irrita, mesmo depois de todos aqueles anos. Por que ela não
consegue deixar a história para trás? – Por isso fiquei feliz em conseguir o
trabalho com a Adelaide, mesmo que tenha sido um acidente. Porque enfim
vou ter algo mais profundo no meu currículo de novo. Ninguém vai chamar
essa biografia de “banal”, ou “superficial”, ou qualquer uma daquelas
outras palavras condescendentes que parecem ser usadas só para os textos
das mulheres. – Jess sente a voz vacilar com uma súbita indignação, e tenta
voltar a um estado emocional em que se sinta menos exposta. – Bem, pelo
menos vamos torcer para que não, pelo bem da Adelaide.
– Eu não me dei conta disso – confessa Luc. – Meu Deus. Como isso
deve ser irritante... Diz o homem, afirmando o óbvio ululante – acrescenta
ele, e ergue o copo. – Bem, um brinde a você e a sua escrita inteligente e
divertida, Jess. E foda-se todo o resto.
Aquela última frase é tão inesperada – e tão o que ela não achava que
ele diria – que Jess cai na gargalhada.
– Vou brindar a isso – fala, rindo, enquanto também ergue seu copo e
encosta no dele. – Fodam-se todos eles. Principalmente a Lucinda.
– Sim, definitivamente ela. Não tenho ideia de quem seja, mas ela
parece uma pessoa terrível – diz Luc, solidário.
– A pior.
Eles sorriem um para o outro, então algo desconcertante acontece.
Aquilo não foi... não foi um arrepio, foi? Por um momento insano, Jess
tem a sensação de que suas terminações nervosas estão gritando para
chamar sua atenção. Como se seu coração estivesse se expandindo dentro
da caixa torácica e...
Bem, isso não pode ter acontecido, se apressa a concluir, e desvia os
olhos. Por um lado, um coração em expansão seria biologicamente
impossível. Por outro, ela não tem 14 anos, não está mais na idade de ter
paixonites por alguém. Está ali para trabalhar, para agir de forma
profissional. Só está sem prática com esses arrepios, só isso –
provavelmente é má digestão, por estar comendo rápido demais. Além do
mais – alô! –, ela tem um encontro com Georges na noite seguinte. Então,
se for para haver arrepios e sensações estranhas no coração, ela
definitivamente deveria guardar todas essas coisas para ele.
– De qualquer forma – diz Jess, ciente de que um silêncio estranho se
instalou entre os dois. Ela não está acostumada com a companhia de
homens, é isso, diz a si mesma. Não é de admirar que algo em seu corpo
enlouqueceu por estar diante de um cara bonito em Paris. – Então... sobre o
arquivo. Como faço para chegar lá amanhã?
Luc explica onde fica o arquivo, em um antigo estúdio alugado por
Adelaide, e os dois combinam um horário para se encontrarem. Então, ele
começa a contar sobre algumas fotos que encontrou em meio ao conteúdo
de cartas antigas e amassadas em uma caligrafia comprida e fina, e os
folhetos de exposição jogados descuidadamente em uma sacola. Está
tentando organizar tudo cronologicamente, explica, mas o material é uma
grande confusão.
– Quanto aos quadros... – continua Luc, e faz uma expressão de horror
fingido.
Parece que há apenas pilhas e mais pilhas de telas antigas, algumas da
época em que Adelaide ainda era estudante – quadros antigos, cheios de
teias de aranha, que nunca receberam os devidos cuidados. Ele está
catalogando tudo da melhor forma possível, comparando as telas com as
listas das exposições, mas algumas nunca foram expostas – neste momento,
Jess respira fundo, lembrando-se da série “Vingança” –, e outras foram
pintadas por cima do original, ou precisam de restauração profissional.
A conversa está tão interessante que é um choque quando a garçonete
reaparece para recolher os pratos e copos vazios, e Jess percebe que, sem se
dar conta, eles já estão ali há uma hora e meia. Como é possível?
– Nossa, é melhor eu ir – diz ela, ciente de que seu computador a
aguarda e de que pretende falar com as filhas. Luc provavelmente também
tem coisas a fazer à tarde. – Mas obrigada pelo seu tempo... por tudo isso.
Ela faz um gesto amplo com a mão, abrangendo a barcaça, o almoço,
os dois. Não “os dois” daquele jeito, se corrige Jess mentalmente, sentindo-
se nervosa de novo. (Ah, pelo amor de Deus, o que há de errado com ela?)
Eles têm uma breve discussão sobre quem vai pagar a conta, e Luc
acaba vencendo, mas só depois que Jess afirma que vai pagar na próxima
vez, seja quando for. Então os dois saem da barcaça e descem até a margem
do rio.
– Obrigada mais uma vez – diz Jess, e se pergunta se eles vão se
abraçar ou talvez dar um beijinho no rosto um do outro ou...
Não. Luc está destrancando o cadeado de uma bicicleta presa ali perto
com a expressão concentrada... ele não parece disposto a fazer nada
daquilo.
– Foi bom conversar, Jess – fala ele, e guarda o cadeado da bicicleta
em uma mochila. – Ah – acrescenta, em tom um tanto brusco. – E uma
fazenda, por sinal.
– Uma fazenda? – repete Jess, sem entender.
– Meu sonho. Se não houvesse nada no meu caminho.
Ainda assim, ela leva um instante para entender.
– Ah! Uau, isso é um salto e tanto. Você realmente quer ser
fazendeiro?
Ele encolhe os ombros, parecendo um pouco tímido.
– Bem, sim, eu teria uma pequena propriedade. Talvez um pomar. Um
lindo porco peludo, também. E cultivaria muitos legumes e verduras. Com
certeza teria um trator. Reflorestaria alguns acres... – Ele abre as mãos
timidamente. – Isso seria o bastante pra mim. Esse é o sonho.
Jess sorri, sentindo-se encantada – lisonjeada – por Luc ter
compartilhado isso com ela.
– Gosto do seu sonho. Consigo te ver com facilidade em um trator –
fala.
Então tem que se afastar, porque agora ele está com uma expressão
satisfeita no rosto e há um momento estranho entre eles – outro! –, no qual
parece que estão muito próximos. Por causa de um porco peludo e alguns
vegetais, pelo amor de Deus. Ela não está imaginando essas coisas, está?
– Bem. Vejo você amanhã – diz ela, para desfazer qualquer estranheza
que esteja acontecendo entre os dois. – Tchau!
Capítulo Vinte e Dois

– Ele me parece esquisito demais – diz Margie, soltando uma longa


baforada do cigarro. – O que você vai fazer a respeito?
– O que eu posso fazer? Não tem como eu confrontar o cara, né? Tô
torcendo para que ele fique entediado e acabe desistindo. Que se concentre
em outra pessoa – responde Adelaide.
O ano é 1980 e as duas foram passar o fim de semana em Little Bower,
junto com outras amigas, mas está muito cedo e, por enquanto, só Adelaide
e Margie acordaram. As duas estão na cozinha – Margie serviu uma xícara
de café para cada uma (acabou o leite), e Adelaide acaba de confessar sobre
seu estranho “fã”, expressando alívio por sair de Londres e ir a um lugar
onde não espera vê-lo espreitando em todos os cantos. Na noite anterior,
Adelaide dormiu seu sono mais profundo em anos. Ela está com coisas
demais na cabeça.
– Talvez você devesse confrontar o homem. Eu faria isso. É só
perguntar: O que você pensa que tá fazendo? – Margie golpeia o ar com o
cigarro para enfatizar as palavras. – Porra, cara, qual é o seu problema?
Adelaide dá um sorrisinho, porque poderia ter adivinhado, quase
palavra por palavra, que essa seria a sugestão da amiga tão destemida. As
duas têm 30 e poucos anos e a faculdade parece ter acontecido muito tempo
atrás, já que ambas tiveram sucesso em suas carreiras. Depois da exposição
em Nice, o trabalho de Adelaide também viajou para galerias em Berlim e
Amsterdã, enquanto Margie está se destacando no mundo da escultura –
uma de suas peças chegou a integrar recentemente uma exposição no
Museu Guggenheim, em Nova York. Elas continuam a ser melhores amigas,
mas se veem menos agora, até porque Margie se casou, tem um filho de 3
anos e mora no subúrbio, enquanto Adelaide e Remy têm uma casa em
Primrose Hill, totalmente imersos na vida de Londres. Elas ainda têm Little
Bower para se encontrarem, e Adelaide se sente cada vez mais grata pela
oportunidade de deixar tudo para trás e se reconectar com suas amigas mais
fiéis. É a primeira vez que ela fala sobre o homem que costuma segui-la por
toda parte, a primeira vez que reconhece em voz alta como isso a incomoda.
– A questão é... – diz Adelaide, então se interrompe. – Você vai me
achar uma idiota.
– É claro que não. Bem, não mais do que já acho. Fala.
Adelaide encara a amiga – o rosto que conhece tão bem, os cabelos
loiro-claros curtos, as olheiras que agora se devem aos terríveis hábitos de
sono do filho pequeno, e não às longas noites trabalhando no ateliê.
– Outro dia eu fiquei olhando pra ele e... tem alguma coisa no rosto do
cara. Por um instante, achei que ele fosse o Will.
– Ah, Addie...
Margie entende na mesma hora, sem necessidade de mais explicações.
Às vezes é como se os pensamentos das duas estivessem sincronizados,
conectados em um plano no qual as palavras são desnecessárias.
– Sim. Quer dizer, ele não é o meu irmão, obviamente. Mas pensei
muito claramente: Olhe lá o William. Isso complicou e muito as coisas na
minha mente. Meu rosto deve ter demonstrado meus sentimentos...
provavelmente até olhei para ele de certa maneira... com saudade,
esperança... Agora fico me perguntando se ele interpretou errado a minha
expressão e...
Adelaide esfrega os olhos, desejando pela milionésima vez que o
homem pudesse de fato ser o seu irmão. Seu amor perdido. Olha você aí!,
ele poderia ter dito com aquele seu sorriso travesso, e corrido para abraçá-
la. William sempre apareceu em seus sonhos ao longo dos anos, e ela
sempre ficava emocionada ao vê-lo, mas agora ele está presente todas as
noites. É quase como se estivesse tentando lhe dizer algo.
– Não sei – continua Adelaide. – É complicado. Eu não acredito em
reencarnação ou qualquer outra bobagem desse tipo, mas... O que você acha
que acontece com a alma de uma pessoa quando ela morre?
Margie apaga o cigarro na grande concha de vieira que usam como
cinzeiro.
– Nada. Deixa de existir – responde ela, encolhendo os ombros. Ainda
está de camisola (na verdade, uma camisa grande listrada em rosa e
branco), que desliza por um ombro com o movimento. – Ah, por favor,
Addie. O homem não é o seu irmão. Ele só é meio esquisito mesmo, e você
não deveria deixar que ele te perseguisse sem falar nada. E espero que você
não esteja se culpando por isso também, porque, não importa como olhou
pra ele, tenho quase certeza de que a expressão em seu rosto não dizia Fica
à vontade para me seguir como um doido obcecado. – Ela estreita os olhos.
– E aquele seu namorado francês, ele não pode dar um susto no esquisito e
mandar o cara de volta pra caverna de onde saiu?
Adelaide abaixa os olhos, porque Margie e Remy não gostam um do
outro, e ela nunca soube ao certo por quê.
– Vou dar um jeito – diz ela. – Não se preocupe comigo.
✳ ✳ ✳

Jessica chega, como sempre, às dez horas em ponto e, como sempre, é


levada até a sala pela lúgubre Marie-Thérèse.
– Uma bandeja de chá com acompanhamentos, Marie-Thérèse – pede
Adelaide em francês, antes de sentir o olhar de Jessica sobre ela e
acrescentar: – Por favor. Se não for muito incômodo. Se você puder fazer
esse esforço.
Mais tarde, à noite, relembrando a cena, ela perceberá que só foi
sarcástica por causa de Jessica – porque não suporta que lhe digam o que
fazer, como se comportar. Mas, para Marie-Thérèse, o sarcasmo parece ser
a gota d’água.
– Fazer esse esforço? – repete a mulher, com a expressão furiosa. –
Madame Fox, eu sempre me esforço! Eu me esforço todos os dias nesta
casa para atender a senhora e sou tratada como a sujeira que sempre estou
limpando. A senhora não consegue ser educada por um segundo sem ser
desagradável logo depois. Então, não! Não vou trazer o seu chá. – Nesse
momento, ela arranca o avental e o joga no chão, empinando o nariz
vermelho. – Não vou limpar, cozinhar, lavar e passar, não vou comprar
comida para o seu cachorro fedorento. Não vou arrumar a sua cama nojenta.
Estou indo embora e a senhora vai ter que fazer todo esse trabalho sozinha.
Pra mim, chega!
Ela bate com o pé no chão uma última vez, para marcar o fim do
discurso, depois se vira e se retira.
– Nossa! – exclama Adelaide, surpresa.
– Quer que eu vá atrás dela? – pergunta Jessica, parecendo
preocupada. – Ou você vai?
– Ir atrás dela? Depois desse showzinho? Com certeza não vou fazer
isso – responde Adelaide, e seus trejeitos ingleses se intensificam por causa
da indignação.
Como a mulher tinha ousado chamar Jean-Paul de fedorento? E a cama
dela não é nojenta!
– Mas você não acha que... Talvez se tentasse se desculpar... – Esse se
mostra um argumento irrelevante, já que, no instante seguinte, elas ouvem a
batida da porta, tão alta que Jean-Paul levanta as orelhas, alarmado. –
Talvez não – continua Jessica, desanimada. – Hum... Bem, quer que eu
prepare chá para nós? Ou prefere sair de novo? – Ela dá uma olhada em
Adelaide. – Você tá bem? Essa cena foi bem horrível. Apesar de que...
– Estou perfeitamente bem – diz Adelaide, antes que Jessica se atreva a
começar a culpá-la.
O clima no apartamento acaba se desanuviando, e elas continuam a
trabalhar. Adelaide começa a contar histórias de quando estava na casa dos
20 anos. Por onde começar? Talvez retomando o ataque prazeroso a Jonty, o
agente dedicado que lhe prometeu mudar sua vida, mas, em questão de
semanas, ela iria descobrir que ele dedicava todo o seu tempo aos artistas
homens que também agenciava.
– Talvez já tenhamos o bastante sobre o Jonty – comenta Jessica,
interrompendo uma história especialmente mordaz que Adelaide já
começava a contar. – Talvez você pudesse falar sobre... hum, o que estava te
deixando feliz naquele período.
– Me deixando feliz? – repete Adelaide, tentando não revirar os olhos.
Mas então se lembra de por acaso encontrar David Hockney, que foi tão
gentil em relação a uma das obras dela que a deixou emocionada demais
para falar. – Fiquei muito feliz com isso – admite.
Em seguida, Adelaide descreve os vários trabalhos de pagamento
irrisório que aceitou para conseguir sobreviver enquanto pintava: um tempo
como assistente em uma galeria de Kings Road, um bico como
recepcionista em um teatro do West End, um curto período trabalhando
como faxineira no turno da manhã na Royal Academy. A menção a esse
último trabalho a faz lembrar de Marie-Thérèse e da saída intempestiva da
mulher, então sua voz falha. É muito irritante saber que agora terá que
suportar o cansativo processo de encontrar outra pessoa para cuidar dos
afazeres domésticos. Adelaide já teme a ligação para a agência, afinal, o
gerente arrogante foi bastante desdenhoso com ela da última vez. Madame,
temos recebido muitas reclamações a seu respeito, dissera, em tom de
censura. E já lhe enviamos mais da metade de nossa equipe!
– Adelaide...? – chama Jessica, trazendo-a de volta à sala.
– Sim, sim, desculpe. Onde eu estava? Sim, na Royal Academy. Olha
só uma história para você. Em primeiro lugar, só comecei o trabalho de
faxina porque um amigo meu da Goldsmiths estava trabalhando lá e
conseguiu a vaga pra mim. E, no fim, passar aspirador naqueles grandes
salões, tirar o pó e limpar o chão sob algumas das maiores obras do
mundo... era simplesmente uma oportunidade tentadora demais para alguém
como eu, que desejava ter seu trabalho visto e admirado, ainda mais porque
o Jonty não parecia ter nenhuma pressa em fazer isso acontecer. Então... –
Ela sorri, sentindo uma onda de carinho pela jovem impulsiva e ousada que
foi um dia. – Então eu coloquei furtivamente um quadro meu na exposição
de verão deles. Troquei uma paisagem sombria por ele... só Deus sabe por
que um quadro tão chato foi escolhido... e imprimi um pequeno cartão com
os detalhes e o preço da minha pintura, para combinar com todas as outras
que estavam ali.
Jessica se inclina para a frente, com os olhos cintilando. Faz muito
tempo que Adelaide não conta essa história em particular... e a jornalista
nunca ouviu a respeito.
– Não creio! – exclama ela, encantada. – Isso é muito divertido! Como
você definiu o preço? Alguém comprou? Quanto tempo demorou até
perceberem que seu trabalho nem deveria estar ali?
– Quinhentas libras – responde Adelaide, animada. – O equivalente a
cerca de dez mil hoje. Admito que foi muito ousado da minha parte.
Extremamente questionável. Meu coração batia tão forte quando troquei os
quadros que juro que houve um momento em que achei que estava tendo
um infarto. Mas eu me safei.
– Ai, meu Deus, adorei isso. É fantástico. Conta mais sobre a pintura.
Era algum quadro de que você se sentia particularmente orgulhosa? A sua
atitude foi alguma espécie de declaração?
Adelaide dá uma risadinha zombeteira.
– Na verdade, não – admite. – Talvez tenha servido como uma
declaração de que eles deveriam ter tido mais cuidado com as medidas de
segurança. Quanto ao quadro... Bem, naquela época, havia muitas obras
bobinhas, Natureza-morta com flores, Primavera na campina, esse tipo de
bobagem. O meu quadro era um retrato da Margie, de rosto inteiro, com um
cigarro nos lábios e uma expressão perversa nos olhos. Mulher fumando um
cigarro, foi como chamei.
Ela consegue ver claramente o quadro, pintado a óleo em uma tarde
tranquila, quando as duas estavam entediadas. Margie não gostou, disse que
seu nariz parecia muito bulboso, mas Adelaide ficou bastante satisfeita com
a tonalidade, com o olhar direto que conseguira capturar na tela.
– E o quadro ficou pendurado lá por... meu Deus, vários dias, pelo
menos, antes que alguém tentasse comprá-lo. O que foi bastante lisonjeiro.
É claro que, quando o misterioso comprador perguntou sobre como seguir
com a compra, meu pequeno castelo de cartas caiu. A administração da
Royal Academy ficou absolutamente furiosa, me demitiu na hora, disse que
eu tinha sorte de eles não me acusarem criminalmente por... não me lembro,
fraude, talvez... ah, e por roubar a paisagem sombria. Como se eu quisesse
aquilo na minha parede! Não, eu coloquei no fundo de um armário de
arquivo, em uma sacola.
– Ah, então tudo bem – balbucia Jessica.
– A Royal Academy queria abafar todo esse assunto, mas, infelizmente
para eles, eu tinha um amigo que trabalhava no Evening Standard na época.
Passei a história adiante como fofoca e, quando dei por mim, um jornalista
já estava entrando em contato querendo os detalhes. No dia seguinte,
publicaram uma foto minha e do meu quadro no jornal, então alguns outros
também publicaram, porque acharam que era o tipo de história divertida
para fechar a edição. O assunto também foi tema de um programa de artes
qualquer da Radio 4. O melhor de tudo é que alguém do Palácio de
Buckingham entrou em contato com o Standard para dizer que a própria
princesa Margaret estava interessada em ver a pintura!
– Não acredito! – exclama Jessica. – Jura? Essa história só fica melhor.
Então você vendeu o quadro para a princesa Margaret? Ai, meu Deus! Você
a conheceu?
– Não, não, nada disso. E devo dizer que a minha mãe nunca me
perdoou por isso. – Adelaide até consegue ver a mãe, a pobre e velha
Geraldine, parada com as mãos apoiadas na pia, enquanto a filha contava a
história. E você disse não? Para a princesa Margaret? Não me diga isso.
Por favor, me diga que você tá brincando. Ah, eu desisto, Adelaide. Desisto
mesmo! – Não tinha nada errado com a princesa Margaret. Na verdade, eu
adorava a ideia de ela, entre tantas pessoas, ser dona de um quadro chamado
Mulher fumando um cigarro. Mas àquela altura o Jonty já tinha esticado
aquele dedo suado e estava ao telefone com os contatos dele. Recebemos
uma oferta de um colecionador extremamente rico, de quem não me lembro
o nome, que se ofereceu para pagar mil libras pela pintura. Como eu
poderia recusar?
– Uau, Adelaide. Uau – diz Jessica. – Isso deve ter sido incrível. Você
consegue lembrar em que gastou o dinheiro? Se comemorou a venda de
algum jeito especial? E o que a Margie disse sobre um retrato dela receber
tanta atenção?
– Na verdade, ela ficou furiosa, porque nem gostava do quadro –
responde Adelaide. – Disse que eu a desfigurei publicamente. Então, a mãe
da Margie, a Edna, ficou sabendo da história toda, mesmo morando em
Southend, e também ficou furiosa, porque não sabia que a Margie fumava.
– Seus lábios se curvam em um sorriso, porque ela ainda se lembra do
telefonema que recebeu, de como todos na casa conseguiram ouvir a fúria
de Edna Flint do outro lado da linha. – Quanto à comemoração, pelo que
me lembro, fomos à casa noturna do Ronnie Scott. – É como se, por um
instante, ela estivesse de volta ao clube de jazz mal iluminado no Soho. – É
claro que, naquela época, o próprio Ronnie tocava saxofone quase todas as
noites lá – acrescenta Adelaide, quando Jess parece não entender. – Acho
que me lembro de algumas de nós subindo no palco para dançar com a
banda depois de alguns uísques a mais.
– Isso é sempre um sinal de uma boa noite – comenta Jessica, com a
expressão de quem já fez coisa parecida.
– Mas eu me lembro muito bem da retaliação da Margie – continua
Adelaide. – Com um retrato pintado por ela... um retrato horroroso meu, em
carvão, que me fazia parecer uma bruxa. Mulher contando suas trinta
moedas de prata, foi como ela chamou – diz ela, rindo da lembrança. – Um
quadro absolutamente horrível. Na verdade, a Margie foi até a Royal
Academy e perguntou ao presidente da época se ele gostaria de ter o quadro
pendurado no escritório. “Te faço por dez libras”, ofereceu ela, mas o
homem recusou, o que é engraçado. – Adelaide dá uma risadinha debochada
enquanto se lembra da indignação fingida da amiga. – Meu Deus, nós nos
divertíamos muito naquela época, realmente nos divertíamos.
– Parece que sim – diz Jessica. Então hesita. – Talvez eu pudesse... –
Ela se interrompe de novo. Abre a boca e volta a fechá-la. – E se eu entrasse
em contato com a Margie? – sugere timidamente. – Para ver se ela ainda
tem o quadro. Não seria incrível se pudéssemos colocar os dois no livro?
Acho que os leitores adorariam...
– Ah, não – rejeita Adelaide na mesma hora, antes mesmo de Jess
terminar a frase. – De jeito nenhum. Por favor, não faça isso.
– Talvez eu pudesse só...
– Não – repete Adelaide. – E não me pergunte de novo. – Ela limpa
uma sujeira imaginária da saia, já sem o humor alegre de antes. – Acho que
por hoje já basta, não é? Você provavelmente vai precisar escrever um
pouco enquanto eu... – Adelaide fica ainda mais desanimada quando se
lembra de que não tem mais Marie-Thérèse para preparar o almoço, limpar
e arrumar, organizar o jantar, esvaziar a lata de lixo. – Eu também tenho
muito o que fazer – diz, em tom sombrio.
– É claro – responde Jessica, e se levanta da cadeira com certa
relutância, como se esperasse uma mudança de ideia de última hora. O que
não acontece. – Até amanhã.
Capítulo Vinte e Três

O Hotel d’Or não mudou muito nos últimos vinte anos, pensa Jess, parada
na calçada diante da antiga mansão de pedra branca, com as altas portas
pintadas de preto e dourado ladeadas por arbustos bem-cuidados em
distintos vasos de pedra. Tudo na fachada grandiosa transpira elegância.
Pelas portas, ela consegue ver de relance uma parte da silenciosa área do
lobby com pilares de mármore, tapetes grossos e claros e um piano de
cauda. O restaurante deve estar lotado para o almoço a essa hora, imagina
– a equipe de garçons carregando travessas com tampas prateadas em
meio ao estampido das rolhas, ao tilintar suave de talheres pesados. Bem-
vindos ao seu refúgio do resto do mundo. Tentem não pensar nos
trabalhadores mal pagos organizando tudo depois de cada movimento seu.
Adelaide terminara abruptamente a sessão do dia, então Jess cedeu a
um impulso e pegou o metrô para o Faubourg Saint-Germain antes que
pudesse mudar de ideia. De pé ali – se perguntando se deve entrar
furtivamente, em nome dos velhos tempos, ou se os porteiros uniformizados
já a identificaram como Não Rica –, vê um Bugatti preto parar em frente às
portas e os funcionários voltarem a atenção para o carro. Um deles se
adianta para ajudar os recém-chegados com a bagagem, enquanto outro
pega a chave do carro com uma pequena mesura e se prepara para
estacioná-lo. Jess examina os recém-chegados – ambos de óculos escuros,
ele com as roupas típicas de quem trabalha na área de tecnologia: camiseta
branca amassada, jeans escuro e tênis, que provavelmente custam mais do
que a parcela mensal da hipoteca da casa dela. A mulher está usando um
vestido preto com gola alta e sandálias de salto anabela; seus braços
tonificados e a cintura fina são, sem dúvida, um patrimônio arduamente
conquistado em sessões diárias com um personal trainer.
É difícil não ficar olhando fixamente para as pessoas glamorosas, que
exalam privilégio e entram de braços dados pelas portas do hotel sem uma
única palavra de agradecimento à equipe de funcionários que torna tudo
isso possível. Ela não consegue deixar de lembrar do desdém de Pascale
pelos hóspedes ricos, e muitas vezes rudes, que as duas atendiam quando
trabalhavam como camareiras ali.
– Eles acham que, porque podem se dar ao luxo de se hospedar nesse
lugar, somos inferiores – dizia Pascale, torcendo o nariz e revirando os
olhos. – O jeito como mal nos olham... como se não fôssemos pessoas de
verdade, como se não merecêssemos nem um mero olhar de verdade.
Àquela altura do desabafo, ela sempre batia no peito.
– Não somos humanas também, com corações batendo e mentes
capazes de alegria, amor e dor? Mon Dieu! Eles não sabem nada sobre o
que é existir no mundo real. Nada, estou te dizendo!
Jess concordava. E por isso continua a se preocupar em ser
particularmente simpática com a equipe de serviço em todos os lugares a
que vai – bares, restaurantes, hotéis –, já que ela mesma desempenhou essa
função um dia. Provavelmente é também por isso que os modos arrogantes
de Adelaide com Marie-Thérèse a irritaram desde o primeiro momento.
– Eles não sabem nada – respondia Jess – e ainda assim têm tudo.
Como pode ser justo?
– E são bagunceiros como porcos! Tão descuidados com tudo! E têm o
pior gosto! Argh. Me dê o dinheiro deles e vou saber gastar muito melhor.
Pode acreditar!
Jess não conseguia contra-argumentar. O descuido dos hóspedes do
hotel com seus bens sempre a chocava. Eles faziam o checkout, iam embora
e deixavam roupas novas e sem uso no guarda-roupa, e jamais, até onde ela
sabia, ligavam para o hotel depois, pedindo para que aquelas roupas lhes
fossem enviadas. Joias eram com frequência descartadas, frascos de
perfume eram abandonados nas penteadeiras, ainda pela metade. O hotel
tinha regras rígidas sobre a devolução desses itens pelos funcionários, mas a
chefe de Jess e Pascale, Sylvie, muitas vezes fazia vista grossa para
pulseiras ou frascos de perfume ocasionais que acabavam escondidos no
bolso de uma das funcionárias.
Para Jess, isso era apenas parte do trabalho, mas Pascale se deixava
afetar por aquelas coisas. Pior ainda, ela começou a procurar maneiras de
revidar.
– Estou te dizendo, um dia vou seduzir um homem rico – gostava de
dizer Pascale, depois de um turno de trabalho, enquanto trocavam os
uniformes nos alojamentos compartilhados no porão do hotel, que cheirava
a mofo. – Vou seduzir o cara, pegar todo o dinheiro dele, depois vou partir
seu coração. Talvez até mate o homem. Aí vamos ver quem vive melhor. –
Tudo isso era acompanhado de um sorriso confiante. – Você também pode
participar do plano. Seríamos como Thelma e Louise. – Jess se lembrava
que a amiga dissera certa vez.
– Ah, claro... porque olha só como tudo terminou bem pra elas – disse
Jess com um risinho zombeteiro em resposta.
Pascale empinou o nariz.
– Essa Thelma aqui não vai se dar mal – retrucou ela, majestosa,
cutucando a bochecha e fazendo beicinho.
Jess se lembra das palavras ousadas da amiga e, mesmo anos depois,
sente um arrepio percorrer seu corpo, embora o dia esteja quente. Pascale
tinha só 22 anos na época, só um pouco mais velha do que Mia agora. Cheia
de bravata e atrevida, mas esguia o bastante para ser facilmente dominada
por um homem furioso, se foi o caso. Ferida. Morta e jogada no rio... Ah,
Pascale... Você não tentou nada estúpido, não é? Jess ouve novamente a
amiga fazendo aquele último pedido enigmático – Jess, se eu te pedisse
para me ajudar com um negócio meio perigoso... – e sente a bile subir pela
garganta com a lembrança.
Então, Jess escuta alguém se dirigindo a ela:
– Madame? Puis-je vous aider, madame?
Um dos porteiros uniformizados aparece subitamente ao lado de Jess, e
ela endireita o corpo. O homem é alto, de ombros largos, o corpo de um
jogador de rúgbi. Jess supõe que tenha 20 e poucos anos, e é bonito – pele
dourada, cabelos escuros bem cortados sob o quepe vermelho que é parte do
uniforme. A mãe dele deve ter orgulho do filho elegante, pensa Jess,
imaginando uma fotografia do rapaz de uniforme no parapeito da lareira.
– Non, merci – responde ela, mas ainda assim se vê empacada ali.
Afinal, é jornalista e não há nada pior do que uma história inacabada. – Se
bem que... eu mesma trabalhei aqui em 1998 – continua em francês. – E
estou tentando localizar uma amiga com quem trabalhei naquela época.
Pascale Bernard, já ouviu esse nome?
Ele parece surpreso com a pergunta.
– Pascale Bernard? Não, sinto muito – responde o porteiro.
– E a Sylvie, ela ainda trabalha aqui? – insiste ela. – Na limpeza?
Pequena, negra, com uma gargalhada gostosa.
Ela o perdeu. O homem agora apenas a encara, parecendo perplexo.
– Sylvie? – repete o rapaz.
– Sim... na limpeza? Eu só estava me perguntando...
Ele balança a cabeça, desviando os olhos para uma idosa de cabelos
brancos armados que se aproxima do hotel carregada de sacolas de compras
de LaCroix e Dior.
– Sinto muito, madame. Sou novo aqui. Com licença.
O rapaz se afasta apressado na direção de seu novo e elegante alvo de
atenção, para ajudá-la com as compras.
Jess expira com força, e só então se dá conta de que estava prendendo
a respiração. É claro que o porteiro não pode lhe dar nenhuma resposta. O
que ela estava esperando? Não há respostas, esse é o problema. Ela se
afasta, sentindo a pele vibrar. Deixa isso pra lá, diz a si mesma. Pascale
nunca apareceu em nenhuma pesquisa na internet e, no fundo do coração,
Jess sabe que a amiga provavelmente está morta. Por que vasculhar o
passado agora? Além do mais, um arquivo e Luc a esperam, se lembra, e
acelera o ritmo.
✳ ✳ ✳

O arquivo de Adelaide fica no antigo ateliê da artista, em Belleville, a


nordeste da cidade. A Rue Sainte-Marthe é estreita e sombreada, as
fachadas das lojas quase todas pintadas em cores vivas. O som de um
clarinete tocando jazz sai de uma janela aberta no segundo andar de um
prédio, dois rapazes passam em bicicletas motorizadas, e um idoso que
fuma um cigarro diante de uma porta fica olhando enquanto Jess passa. Ela
estende a mão para acariciar o pelo quente de um gato preto debruçado no
parapeito da janela e se pergunta como Albertine está, sozinha em casa.
Becky lhe enviou algumas fotos até o momento, além de uma história
emocionante sobre Albertine colocando uma raposa para correr no outro dia
– para ser sincera, parece que a gata não se importa com o fato de a família
estar ausente de novo.
Jess quase passa direto pela porta marrom porque é muito sem-graça –
ela esperava algo muito mais grandioso, impressionante. Porém, alguns
instantes depois de bater, Luc abre a porta, alertando-a para tomar cuidado
com os degraus porque o tapete está bastante surrado, e ela o segue até o
segundo andar do que já foi uma casa antiga. Ele conta que os quartos
foram todos convertidos em ateliês, e Jess sente a curiosidade se aguçar à
medida que passa pelas outras portas fechadas, imaginando o que estaria
sendo criado por trás delas.
No auge do sucesso, Adelaide tinha um estúdio muito maior em
Montparnasse, conta Luc quando chegam ao segundo andar, e enfia uma
chave na porta. Ela e Remy compartilhavam o lugar, mas depois, quando se
separaram, ela levou tudo para o estúdio onde estão, antes de partir para
trabalhar no Japão.
– E aqui estamos – anuncia ele, abrindo a porta.
Jess respira fundo, imaginando uma Adelaide mais jovem subindo
esses mesmos degraus, com os braços cheios de telas e o coração partido.
Enquanto segue Luc até o estúdio, ela antecipa a cena: um espaço claro e
arejado, com paredes brancas e limpas, talvez um frigobar cheio de
champanhe para os dias bons. Prateleiras de tintas e pincéis. Uma enorme
claraboia para deixar a luz do sol entrar. Mas em vez disso...
– Ai, meu Deus...
Jess engole em seco, porque o salão enorme é o completo caos. Há
caixas empilhadas sobre caixas. Pilhas de quadros apoiados uns nos outros.
Um armário de arquivo verde-garrafa empoeirado com pilhas oscilantes de
papel em cima. Sacolas cheias de... de quê? Desenhos, blocos de notas,
correspondência? Ela olha ao redor, estupefata. Até onde sabe, Luc é um
homem organizado e competente, alguém que presta muita atenção aos
detalhes. Como ele consegue suportar trabalhar no meio de tanta bagunça?
– Parece um depósito de lixo, eu sei – diz ele, em tom animado. –
Melhor irmos até onde começa a parecer um pouco menos com uma grande
cena de crime.
Luc aponta para a frente e Jess vê, através de uma porta aberta, que há
um segundo salão parcialmente escondido por uma pilha de caixotes azuis.
– Ahh – diz ela instantes depois, aliviada, porque aquele segundo salão
é uma mudança bem-vinda diante do caos do primeiro.
Antes de mais nada, o espaço é muito mais claro, com uma enorme
janela-guilhotina, pela qual entra a luz amarelada da tarde. Há uma
escrivaninha e uma cadeira de escritório perto de uma parede, com um
notebook, um par de alto-falantes e uma linha do tempo impressa e presa na
parede acima, no nível dos olhos. Jess também vê uma chaleira elétrica e
uma pequena máquina de café sobre outro armário de arquivo, esse
vermelho e com aparência de novo. E um grande ventilador no chão.
Alguns desenhos emoldurados na parede, e também fotos de Luc com um
menino. Filho dele? Ela pretende descobrir mais tarde.
– Aqui está bem melhor – comenta ela. – Graças a Deus. Tive visões
terríveis de você tendo que trabalhar naquele buraco lá atrás durante todo o
verão, e...
– Sim, percebi isso pela expressão no seu rosto – fala Luc, com um
sorriso. Ele abre a janela-guilhotina. – Pois bem, a Adelaide largou tudo
aqui, foi para Tóquio e depois disso aceitou o emprego em Ottawa. A
verdade é que este lugar ficou abandonado por anos. Não tinha nem seguro,
dá pra acreditar? Ela voltou para Londres em meados dos anos 1990, cuidou
da mãe que estava morrendo e parou de pintar por um tempo. O Remy já
tinha deixado a Coco àquela altura e estava rondando a Adelaide de novo...
não que ela estivesse interessada a princípio. Por fim, ela retornou para
Paris, veio para este mesmo estúdio e voltou a se dedicar à arte.
Ele indica o espaço ao redor com um gesto, e só então Jess percebe
que as tábuas do piso estão salpicadas de manchas de tinta em todos os tons.
– Ela trabalhou em toda a série “Pássaro” aqui – continua Luc. – Muito
legal, né? Você está parada bem no meio de um cenário autêntico da história
da arte.
– Que incrível! – concorda Jess.
Ela já viu as fotos icônicas de Adelaide daquela época, de macacão,
com os cabelos presos no alto da cabeça, descalça e fumando um cachimbo.
A série “Pássaro”, como Lucas chama, é uma coleção de quadros que
apresentam imagens relacionadas a voo e liberdade, com figuras femininas
sombrias. É possível perceber que o conjunto foi pintado em um momento
de mudança pessoal porque, mesmo aos olhos de uma pessoa amadora
como Jess, há uma paixão concreta visível nas pinceladas, uma atitude de
“foda-se” que transparece em cada tela. E algo nessa paixão claramente
ressoou com força no público, porque a série provou ser um grande
momento de retorno, e as pinturas foram exibidas em todo o mundo ao
longo da década seguinte. Críticas de arte feministas em particular
abraçaram as obras. Eram a prova de que um homem fraco jamais iria
conseguir esmagar uma mulher forte, disseram. Exultem, porque outra
grande mulher está livre de seus grilhões! Bem... ao menos até Adelaide
retomar seu relacionamento com Remy quando ele estava morrendo.
– Bem – diz Lucas –, deixa eu te mostrar até onde cheguei.
Ele se senta diante da escrivaninha e começa a mostrar a Jess seu
sistema de organização – a datação das obras, a catalogação da
correspondência.
– Além de cuidar do arquivo, a Adelaide me pediu para compilar uma
lista de obras significativas, na esperança de que a gente consiga abordar
galerias sobre uma grande, e possivelmente última, exposição, a ser
montada quando o livro for publicado. – Luc afasta o cabelo dos olhos. Está
quente no salão, apesar da brisa que entra pela janela. – Portanto, trata-se de
um trabalho enorme, para dizer o mínimo. Mas maravilhoso também.
Extraordinário. Um sonho para quem gosta de organizar coisas.
Ele aponta os polegares para o próprio peito, com um sorriso
autodepreciativo.
– Posso imaginar – responde Jess. – É empolgante também, com tanto
material para trabalhar. Você encontrou alguma pérola escondida? Ah, e
encontrou um quadro chamado Mulher fumando um cigarro?
– Aquele que ela colocou clandestinamente na Royal Academy? Não,
esse quadro é propriedade privada – explica Luc –, mas posso te mostrar
uma fotografia e também os recortes de imprensa da época, se quiser.
– Ah, eu quero muito, por favor – aceita Jess na mesma hora. – Ela me
contou a respeito agora de manhã... Eu nunca tinha ouvido essa história
antes.
– É uma boa história, né? Imagine ter a coragem de fazer uma coisa
dessas – diz ele, rindo, e se acomoda diante do computador. Luc flexiona os
dedos teatralmente acima do teclado. – Muito bem, então. Me dá um minuto
para colocar em ação o meu sistema incrivelmente complicado... Pode dar
uma olhada ao redor enquanto espera.
Jess não precisa de um segundo convite e volta para o outro salão. Não
vai bagunçar nada que Luc já tenha arrumado, diz a si mesma, mas, mesmo
assim, a ideia de ser a primeira a tropeçar em algo que está enterrado ali há
anos é realmente empolgante. É como vasculhar uma liquidação, pensa,
enquanto para diante de uma pilha de caixas e abre aleatoriamente a de
cima. Ali dentro, encontra pelo menos dez blocos de notas e pega um para
folhear. Não há data em nenhuma das páginas, mas ela acha que se trata de
um bloco de notas antigo – talvez da época de faculdade de Adelaide? –,
porque o estilo é ingênuo e imaturo, os traços a lápis muitas vezes
hesitantes. Os esboços são em grande parte naturezas-mortas – arranjos de
flores em vasos; frutas em uma tigela; uma coleção de utensílios de cozinha
dentro de um jarro –, intercaladas com um retrato ocasional que ela
examina com mais interesse. Um menino bonito com o colarinho levantado,
fazendo beicinho para quem vê a imagem. Uma jovem soprando um dente-
de-leão, de olhos fechados. Uma mulher mais velha com óculos de lentes
grossas e uma expressão severa (a mãe de Adelaide, talvez?). As páginas
seguintes só provocam mais perguntas. Será que aquela cena de uma rua era
uma vista que Adelaide conhecia bem? E aquele pub desenhado às pressas,
será que era um lugar que frequentava?
Jess pega um caderno diferente e começa a folhear. Esse deve ser de
um período posterior, porque é perceptível que a mão que trabalhou ali está
mais confiante, que as composições são mais pensadas. Nele, às vezes é
possível detectar um humor evidente no desenho, até mesmo na narrativa,
pensa Jess, sorrindo enquanto se detém em um retrato de um senhor
lambendo um sorvete com uma expressão de felicidade. Ela tira uma foto
do esboço e pensa que seria ótimo escolher algumas das primeiras obras
para entrar no livro. Se esses primeiros desenhos são fascinantes para ela,
que não entende de arte, sem dúvida serão de interesse ainda maior para os
fãs de Adelaide, ou mesmo para qualquer entendido do assunto.
Então, Jess repara em um pedaço de papel com um desenho solto em
tinta preta, de um homem sentado diante de uma mesa com uma taça de
vinho. Remy quando jovem, talvez? Jess percebe o olhar atento do modelo,
o leve erguer da cabeça em uma atitude quase desafiadora. A linguagem
corporal é lânguida, sem medo, e ela sente intuitivamente que há intimidade
entre o tema e a artista. Se aquele não é Remy, Jess quer muito saber quem
é, pensa, tirando outra foto rápida.
– Consegui – diz Luc. Jess devolve com certa relutância o bloco de
notas para onde estava e volta ao salão principal, onde vê que ele colocou
vários recortes de jornal em cima da mesa. – O sistema funciona!
– Fantástico – responde ela, e se inclina para examinar os recortes
amarelados, agora protegidos por envelopes plásticos.
A manchete de um deles é “Por que o quadro pintado por essa
universitária destemida é a obra mais comentada da exposição de verão?”.
“A afronta da farsa da faxineira”, brada um editorial menos aprovador.
“Quem é A mulher fumando um cigarro?”, questiona outro, e Jess contém
uma risada enquanto se pergunta se essa teria sido a matéria que a mãe de
Margie leu – imagina o espanto da mulher ao ver o rosto da filha
encarando-a do jornal. Jess examina com atenção o último artigo, onde a
pintura foi reproduzida, e adora a expressão capturada nos olhos de Margie.
Mesmo em preto e branco, quase dá para sentir o cheiro da fumaça
ondulante do cigarro que emoldura o alto da cabeça dela.
– Tenho o quadro em uma foto colorida aqui, se quiser ver – diz Luc, e
balança o computador.
É claro que ela quer ver.
– Nossa! – diz Jess, absorvendo a imagem na tela e imaginando a tarde
preguiçosa em que foi criada.
O fundo de um laranja queimado faz com que o cabelo platinado e os
lábios vermelhos de Margie saltem da imagem, os tons de pele são
fabulosos, a fumaça lindamente nebulosa em contraste com as linhas nítidas
em outras partes do retrato. Ouvindo Adelaide falar sobre seu aprendizado,
seus estudos, Jess aprendeu a olhar mais de perto para as pinturas, em busca
das formas e contrastes, e percebe ali que as espirais de fumaça são
sutilmente refletidas pelas ondas do cabelo de Margie e pelos vincos da
blusa branca que ela usa. É verdade que o nariz é um pouco pesado, mas de
alguma forma isso só torna a imagem ainda mais atraente.
– Adorei – declara Jess. – É tão vibrante. Tenho a sensação de que
conheço a Margie, só de olhar para ela na tela. De que estou lá com as duas,
no momento em que foi pintada.
– Também adoro esse quadro – diz Luc. – E quando a gente vê como é
fantástico, como chama a atenção, não consigo acreditar que não foi visto
mais cedo na exposição de verão.
– Exatamente! O quadro teria praticamente saltado da parede. Você
poderia me enviar a imagem por e-mail, por favor? A editora vai incluir
algumas fotos e ilustrações no livro, certo? Acho bom começarmos a fazer
uma lista.
Então ela faz uma pausa e olha de novo para o quadro. Ajuda aqui,
amiga, parece estar lhe dizendo Margie. Em nome da solidariedade
feminina, Jess não deveria pelo menos tentar intervir no afastamento das
duas?
– A propósito – continua, cautelosa. – Eu estava pensando em entrar
em contato com a Margie para ver se ela ainda tem o retrato da Adelaide,
aquele que ela desenhou em retaliação. O que você acha? Seria bom
mostrar os dois, não seria? É uma conclusão brilhante para essa história.
Luc a encara.
– Não sei se a Adelaide ia gostar disso.
– Ela não gostou nem um pouco quando sugeri – confessa Jess com
um suspiro.
Ela não entende. Se fosse sua vida, daria qualquer coisa para rever a
antiga amiga que desapareceu – e Adelaide só precisaria pegar o telefone,
enviar um e-mail e poderia retomar o contato com a antiga amiga dela.
– Você não acha triste que as duas continuem sem se falar, mesmo
depois de todos esses anos? Seria ótimo reuni-las... as duas eram tão
próximas.
Ele faz uma careta.
– Sim, mas...
– E às vezes, se as pessoas são teimosas ou orgulhosas demais para se
reaproximarem por conta própria, você não concorda que é justo que outra
pessoa intervenha?
– E, nesse cenário, presumo que você seja essa outra pessoa? –
pergunta Luc, sem parecer convencido.
– Com certeza! Uma boa amizade é uma das coisas mais preciosas do
mundo. Principalmente entre mulheres. Não vejo qual seria o problema em
tentar resgatar o relacionamento delas, mexer os pauzinhos nos bastidores
para ajudar as duas a encontrarem uma forma de voltar à vida uma da outra.
– Posso ser sincero? Se eu fosse você, não me envolveria. Se a
Adelaide quisesse retomar essa amizade, já teria resolvido isso sozinha. Ela
deve ter uma boa razão para ter rompido relações com a Margie. E não vai
te agradecer se você interferir.
Jess não diz nada, mas não está convencida. E se a suposta “boa razão”
for apenas o fato de Adelaide ser teimosa demais para fazer as pazes? Ou
talvez Margie que fosse. Ela tem certeza de que, se conseguir reunir as duas
de novo, depois de elas superarem a confusão que causou a briga, o
sentimento que vai restar será de alegria. Se aprendeu alguma coisa sendo
uma conselheira sentimental é que todo mundo precisa de ajuda de vez em
quando. Talvez pudesse fazer uma pesquisa secreta, ver se consegue
encontrar algum contato de Margie. Adelaide não precisa saber, não é
mesmo?
– Então, que tipo de coisa seria útil para você aqui? – pergunta Luc,
encerrando o assunto. – Quer que eu encontre o que já consegui dos
primeiros anos, se você estiver trabalhando cronologicamente? Para
começar, tem um monte de fotos de quando ela era universitária e alguns
relatórios escolares divertidíssimos.
– Isso seria fantástico – responde Jess. Então, como não consegue
controlar a curiosidade, pergunta: – Ah, e falando em fotos, quem é a
criança nessas fotos com você?
Ela indica as imagens com um gesto e aproveita a oportunidade para
olhar mais de perto. Luc e o garoto em uma praia, molhados e segurando
pranchas de bodyboard, os dois rindo. Luc e o garoto em uma lanchonete
qualquer, compartilhando um milk-shake de chocolate gigantesco com um
canudo para cada, usando bonés de beisebol combinando. Os olhos de Jess
retornam à foto da praia e ela aproveita para dar uma conferida rápida no
corpo de Luc: músculos bem-marcados...
– É seu filho? – pergunta ela, desviando novamente os olhos.
– Não, esse é o Hen, meu sobrinho. Henry, na verdade – diz ele. – É
filho da Catherine. Ele tem 18 anos agora, acabou de terminar as provas do
ensino médio. – Luc continua a mexer no computador enquanto fala. – Não
tenho filhos – acrescenta, antes de abrir um novo documento e se inclinar
na direção da tela. – Muito bem, vamos ver o que temos aqui.
✳ ✳ ✳
A tarde passa de um jeito muito agradável. Luc se dedica a examinar uma
nova caixa e cataloga e cruza informações de tudo o que encontra. De vez
em quando, levanta alguma coisa particularmente interessante – uma
fotografia, um esboço – para mostrar a Jess. Enquanto isso, ela começa a
examinar os documentos que ele lhe passou, e todos acrescentam cor e
contexto às gravações que ela fez com Adelaide. Um livreto da exposição
Trabalho é particularmente empolgante – em suas páginas, é possível
encontrar detalhes de todas as obras incluídas na mostra e alguém (a própria
Adelaide?) fez anotações e acrescentou comentários breves e animados.
VENDIDO, viva!, está escrito ao lado da listagem com o preço de um
avental nomeado Quanto lixo. Jess se depara com uma fotografia de
Adelaide com os pais – e sim, o desenho da mulher mais velha que viu
antes sem dúvida é da mãe, conclui, enquanto compara as duas com a
satisfação de um detetive desvendando um mistério.
– Caramba, olha só esse cara – comenta Luc.
Ele mostra o retrato de um homem tão corpulento que parece prestes a
explodir as costuras do terno. Ele tem pescoço grosso, sobrancelhas pesadas
acima dos olhos semicerrados, e foi pintado com os cotovelos
perpendiculares ao corpo, segurando o punho direito com a mão esquerda
de maneira ameaçadora. Luc está limpando uma teia de aranha do rosto do
homem, e só quando a poeira baixa é que Jess dá uma boa olhada nele e
sente algo dentro dela vibrar em resposta.
– Espera, eu acho... – murmura ela, ao se aproximar. Examina com
atenção a testa alta do homem, o nariz proeminente e a boca maliciosa. – Já
vi esse homem antes – diz. – O retrato tem data? Algum outro detalhe? –
Ela experimenta uma sensação ruim, um sentimento que não consegue
explicar. – É estranho, mas acho que conheço esse homem.
– Como é possível? Esse quadro é muito antigo. Talvez ele nem esteja
mais vivo – argumenta Luc, virando a tela.
– De quando eu morei em Paris antes. Trabalhei como camareira aqui,
anos atrás – explica Jess.
No mesmo momento, ele diz:
– O quadro é de 1998, está datado.
– É da época em que eu estava aqui – fala Jess. E sente a pele
vibrando, como se seu corpo soubesse de algo que ela não sabe. – Acho que
ele talvez frequentasse o bar do hotel onde eu trabalhava.
Sim, deve ser isso. Jess consegue imaginar o homem com um
conhaque e um charuto, encostado no balcão do bar, gargalhando com um
grupo de homens ao seu redor. Ela e Pascale às vezes tomavam uma bebida
lá depois do trabalho, embora a administração não gostasse de que os
funcionários se misturassem aos hóspedes. Delphine, uma amiga delas,
trabalhava atrás do balcão, sempre servia enormes taças de vinho às duas e
cobrava uma fração do preço normal quando o chefe dela, Thierry, não
estava olhando. Jess tira uma foto da pintura e planeja perguntar mais a
Adelaide sobre o homem. Provavelmente não é nada, diz a si mesma, e
volta a atenção para a pilha de papéis que está examinando. Sua imaginação
deve estar lhe pregando peças.
– Nossa, o Valentin ia amar isso – comenta, alguns minutos depois,
quando descobre uma foto de Adelaide em um vestido de baile sendo
ajustado por duas mulheres... colegas de faculdade, talvez? Jeanette? – O
Valentin trabalha na brasserie perto de onde estou hospedada. Ele estudou
moda na escola de artes daqui – explica ela, vendo a expressão perplexa de
Luc.
– Você já fez um amigo? – pergunta ele, confuso. – Jess, você acabou
de chegar!
– Já fiz muitos amigos, meu caro – responde Jess, rindo, e começa a
contar nos dedos. – Tem a Beatrice, a recepcionista do hotel... na verdade,
nós vamos sair amanhã à noite; o Valentin e o namorado superlegal dele, o
Nicolas; o Alain, um senhor que é um doce e está passando por um
momento difícil desde que a esposa desenvolveu demência... – Jess sente os
olhos marejados quando se lembra da última conversa com ele na crêperie.
– Há um mês, a família tomou a decisão de transferir a esposa dele para
uma casa de repouso – continua ela. – Por um instante, achei que o Alain
fosse começar a chorar enquanto me contava, Luc. Lendo nas entrelinhas,
dá para ver que ele está bastante perdido sem ela... está sempre sozinho na
crêperie, quando antes os dois estariam... O que foi? Você tá rindo de mim?
– Não! – diz Luc, o que obviamente não é verdade. – Bem, tá certo,
estou, sim, mas é de surpresa. Nossa, estou aqui há quase dois meses e
ainda não conheci ninguém, muito menos fiz amizade com uma pessoa
aleatória e ouvi a história da vida dela. Como você faz isso?
– Como assim? Eu é que quero saber como você conseguiu passar dois
meses aqui e não conhecer ninguém! Nem mesmo um vizinho, ou alguém
do seu café favorito, ou...? – Ele balança a cabeça. – Ah, Luc... – brinca
Jess. – Que triste! Eu simplesmente sou simpática, me interesso por outras
pessoas.
– Eu nunca vou sair por aí conversando com estranhos. Sou londrino,
não vou fazer isso – protesta ele. – E não é nada triste. Gosto da minha
própria companhia, obrigado. Tenho amigos que vêm da Inglaterra a cada
poucas semanas... a Catherine e o Hen também vão vir para cá na semana
que vem. Então, pode tirar essa expressão do rosto, estou perfeitamente
bem. Na verdade, estou me divertindo muito!
– Hum – diz ela. – Bem, se você ficar entediado, me avisa, porque
tenho certeza de que o Alain gostaria de companhia. Ele é muito legal e teve
uma vida muito interessante, mas dá para perceber que se sente solitário.
– Obrigado, mas passo – responde ele, com uma expressão divertida
nos olhos escuros. Depois de um tempo, acrescenta: – Sabe, por um instante
achei que você estava prestes a me convidar para sair, em vez de tentar me
empurrar para o Alain solitário.
Ele desvia os olhos para o relógio na parede – o que é uma sorte,
porque o poupa de ver a expressão surpresa no rosto de Jess. (O Luc está
brincando, não é, sobre a possibilidade de ela convidá-lo para sair?)
– Falando nisso, são quase seis horas, dá pra acreditar? Você tá com
fome? Tem um bom restaurante italiano mais acima na rua, ou o Dixième
Degré, na esquina, que é ótimo.
– Já são seis horas mesmo? – Jess não consegue acreditar na rapidez
com que o tempo passou. Ela nem mencionou ainda as pinturas da série
“Vingança”, que são o motivo de ter ido até o estúdio. – Como isso
aconteceu? Juro que ainda eram três e meia, tipo, dez minutos atrás.
– O tempo sempre parece voar aqui – justifica Luc.
Ele se levanta de onde estava ajoelhado, diante de uma caixa, e se
espreguiça. A camisa que está usando sobe com o movimento e Jess tenta
não olhar para a faixa bronzeada de abdômen à mostra, mas não consegue
parar de lembrar como o corpo de Luc parecia bonito na foto da praia.
– Então... vamos comer alguma coisa?
– Ah. Merda, não, não posso – diz Jess, agitada. – Já marquei um enc...
– Ela não consegue terminar a palavra “encontro” porque neste exato
momento seu celular anuncia a chegada de uma mensagem e ela vê que é
do próprio Georges Sexy. – Ou não? – murmura, enquanto pressiona a tela
para ler a mensagem.
Jess sente o coração afundar no peito, porque parece que Georges está
lhe dando um bolo em cima da hora. Jess! Désolé!, é como começa a
mensagem, seguida por uma explicação complicada em um francês
abreviado que o cérebro dela não consegue traduzir imediatamente.
– Droga – diz Jess, mais para si mesma.
Ela está ansiosa por um jantar sedutor desde que entrou em contato
com Georges – até mudou de ideia sobre a roupa que usaria, optando pelo
vestido maxi azul-claro em estilo grego, que é drapeado o bastante para
disfarçar todas as frites e os vins blancs que tem consumido nos últimos
tempos. É terrível admitir que ela também já planejou que lingerie e que
perfume vai usar? Afinal, está em Paris, e se não puder usar roupas íntimas
sexy em Paris, onde vai usá-las, então?
– Está tudo bem? – pergunta Luc. – É uma mensagem do Alain, ou do
Valentin, ou de algum outro galã parisiense?
– Espera um pouquinho, eu só...
Ela lê de novo a mensagem... diz algo sobre drinques com colegas,
consegue entender. Só então se dá conta de que Georges Sexy não está de
fato cancelando o encontro, mas se desculpando porque só vai conseguir
chegar às nove, não às oito como tinham marcado.
– Ah! Tudo bem. Desculpa por isso – diz, enquanto digita rapidamente
uma resposta. Sem problemas. Nove horas tá ótimo pra mim. Até mais. Seu
coração acelera um pouco. – Tudo ótimo. Sim, vou encontrar uma pessoa
pra jantar às nove, mas... – Jess faz uma careta. – Meu Deus, às nove, não
consigo aguentar tanto tempo sem comer alguma coisa – confessa,
pensando em voz alta.
Se vai se encontrar com Georges às nove horas, vai ter que esperar
séculos – pelo menos até as nove e meia – antes que qualquer comida de
verdade seja colocada à sua frente. E, até lá, já vai estar fraca de fome.
Possivelmente nada atraente de fome. Se comer alguma coisa com Luc
agora, pode aplacar o pior da fome, imagina.
– Ah, que se dane, sim. Vamos comer alguma coisa. Boa ideia!
Eles guardam e arquivam com cuidado todos os documentos que
examinaram e, quando saem para a rua, Jess se sente muito animada. Está
mais movimentado agora, com um agradável burburinho de verão no ar.
Casais e grupos de amigos estão sentados nas mesas da calçada com
cervejas e drinques diversos, e música toca nos bares e restaurantes – parece
que todos estão saindo do trabalho com vontade de se divertir.
– Dizem que esse lugar é bom – comenta Luc, apontando para uma rua
lateral.
No final da rua, eles encontram um bar simpático, ao ar livre, com
guarda-sóis de cores vivas e trepadeiras subindo pelas paredes pintadas de
branco, enquanto “Love Again”, da Dua Lipa, brada de um alto-falante.
– Perfeito – diz Jess, até porque ela e as filhas adoram essa música.
No instante seguinte, ela se vê transportada para uma viagem de carro
com as meninas, todas cantando a música a plenos pulmões. Na verdade, o
clima de férias ali em Paris é tão alegre que Jess não resiste e pede um
Aperol Spritz quando o garçom hipster se aproxima da mesa. Sim, e
algumas azeitonas e queijo, para aproveitar. Ah, e por que não também uma
porção de fritas para dividirem?
– Então – diz Luc, quando já estão comendo. – Com quem você vai
jantar mais tarde? É outro novo amigo, ou...?
– Não exatamente – responde Jess, enquanto coloca uma azeitona na
boca. Nossa, que delícia. – O Georges e eu costumávamos sair quando eu
trabalhava aqui e... bem, na verdade é isso. Combinamos de nos encontrar.
– Ela percebe um súbito constrangimento entre eles. Ou o Aperol Spritz está
embaçando tudo? – Não é exatamente um encontro romântico – afirma Jess,
sentindo-se na defensiva. – Só dois velhos amigos se revendo.
Luc está ocupado espetando uma azeitona e não responde
imediatamente. Então pergunta:
– Você já saiu com outra pessoa desde que se separou do seu ex? Ou
ainda não está nesse estágio?
– Não saí. Na verdade, não foi... Não – responde ela.
Então Jess se lembra das ocasiões em que as amigas tentaram lhe
arrumar um par, e em como ela se sentiu totalmente desinteressada. Além
disso, anda ocupada com as filhas, determinada a colocá-las em primeiro
lugar enquanto todas se adaptam ao novo modo de vida pós-separação.
– Não que eu esteja com muita pressa – completa Jess. – E você?
Eles conversam por algum tempo a respeito – sobre como é horrível
passar pelo fim de um casamento, mas também sobre o alívio de se ver
saindo do outro lado desse túnel; o prazer inesperado de perceber que o
mundo ainda gira, que a vida continua a oferecer alegrias cotidianas: pôr do
sol, risos, ronronar de gatos. A conversa se volta, então, para as filhas dela e
depois para as experiências de infância de cada um; na sequência, Jess
pergunta mais sobre o sonho dele de ser um pequeno proprietário rural e
implica só um pouquinho quando Luc confessa ter feito uma planilha com
links para suas máquinas e seus equipamentos agrícolas favoritos. Talvez
ela se sinta encorajada pela segunda bebida, porque se admite que andou
pesquisando cursos de agronomia tendo ele em mente.
– Só porque eu lembrei que um amigo tem um vizinho que trabalha na
universidade perto de mim – explica Jess, tropeçando um pouco nas
palavras ao ver a expressão perplexa dele. – Agronomia e ciência, ou
alguma coisa parecida, em Canterbury. Universidade de Kent. Mas
investiguei um pouco mais e há muitos lugares fantásticos onde você pode
estudar. A Universidade de Hadlow, que fica perto de Tonbridge, parece
ótima também, e... – Ela se interrompe. – O que foi? Por que está me
olhando desse jeito?
– Estou só... – Luc balança a cabeça. – Surpreso. Quer dizer, você não
precisa me considerar um candidato aos seus conselhos sentimentais, Jess,
se é disso que se trata. Sou capaz de resolver a minha vida.
– Eu sei disso! É claro que você é! – Ela se sente constrangida. –
Desculpa, eu só estava tentando... – Ela deixa outra frase inacabada e dá de
ombros, sem saber como sair desse buraco que conseguiu cavar.
– Do que você acha que se trata tudo isso? – pergunta ele, e desvia os
olhos brevemente para o garçom, que se aproxima com um prato enorme de
nachos cheios de molho picante, guacamole e queijo para a mesa vizinha. –
Se não se importa que eu diga, você parece muito interessada em se
envolver na vida de outras pessoas.
– Só para ajudar! – protesta Jess, porque a crítica parece um pouco
íntima demais. – Não há nada de errado com isso, certo? Aliás, eu gostaria
de ter conseguido ajudar mais pessoas! – As palavras escapam em um
rompante, e há lágrimas em seus olhos, porque está pensando em Pascale.
Jess aperta as mãos por baixo da mesa, tentando se recompor.
Luc parece – compreensivelmente – um pouco assustado com a
explosão, mas não pergunta nada.
– Tudo bem – diz ele depois de um instante. – Bem, obrigado.
Universidade de Hadlow, você disse? Vou dar uma olhada. – Então desvia
novamente os olhos para os nachos próximos, como se estivesse sendo
atraído magneticamente para o prato. – A propósito, você ainda está com
fome? Posso pedir alguns desses, se quiser dividir comigo?
O coração de Jess volta a bater em um ritmo normal, e ela assente.
– A noite é uma criança – fala. – Com certeza.
A noite é uma criança, ela diz a si mesma no banheiro, enquanto joga
água no rosto para tentar suavizar o rubor intenso. Ainda tem muito tempo
antes de precisar ir embora. O problema é que, de repente, depois de nachos
realmente gostosos e um desvio hilariante para contarem histórias
constrangedoras da universidade, já são oito horas e Jess ainda está com as
roupas que usou o dia todo, sua maquiagem já saiu e seus pés
provavelmente estão fedendo nas sandálias. Nunca vai ter tempo para o
banho e a escova que vinha planejando, nem para a aplicação cuidadosa de
uma maquiagem sexy nos olhos, que sempre leva mais tempo do que ela
imagina.
– Merda! – grita Jess, e se levanta de um pulo. – Ah, meu Deus,
desculpa, Luc, preciso ir.
– Tem certeza? – pergunta ele, parecendo desapontado. – Você não
poderia... ficar?
Ela está tão agitada, tentando chamar um garçom para pedir a conta –
não, é a minha vez, você pagou as pizzas, lembra? –, que não responde. E
já está checando no aplicativo de mapas o caminho mais rápido de volta ao
hotel e amaldiçoando sua péssima capacidade de gestão de tempo. Só
alguns minutos mais tarde, depois que Luc insiste em pagar – não, sério, tá
tudo bem – e ela se despede rapidamente com um abraço e sai correndo pela
rua, é que as palavras dele voltam à sua mente. Você não poderia... ficar?
Jess estaca na rua, e o rosto bonito dele surge em sua mente. A
pergunta em seus olhos escuros.
– Merda – diz ela em voz alta.
De repente, tudo está ficando um pouco complicado demais. Confuso
demais. Será que ela está vendo coisas onde não há nada? Luc
provavelmente estava apenas sendo simpático, certo? Curtindo a conversa.
Sim, é quase certo que tenha sido só isso, nada mais.
Jess continua a andar e afasta Luc da mente. Não seja tão boba, diz a
si mesma. Além disso, em pouco tempo, ela vai reencontrar o lindo
Georges. Não faz sentido complicar as coisas.
Capítulo Vinte e Quatro

– Como assim, você não tem ninguém? – pergunta Adelaide, irritada,


tamborilando na mesa da cozinha.
É quinta-feira de manhã e essa é a terceira agência de serviços
domésticos para a qual já ligou. Como previsto, a empresa que ela sempre
utilizou se recusou terminantemente a lhe enviar uma nova governanta, ou
mesmo uma faxineira. Marie-Thérèse deve ter contado a boa e velha
história triste para eles, pensa Adelaide, com o maxilar cerrado.
– É verão, senhora – responde a mulher, um tanto ácida. – Nossa
equipe também tem direito a férias.
– Não estou dizendo que não devem ter, só que...
– Até mais, madame – retruca a atendente, e desliga na cara dela.
Desliga na cara de Adelaide Fox. Quando só o que ela está tentando
fazer é pagar um bom dinheiro a alguém para limpar seu apartamento e
cuidar de suas necessidades domésticas! Aqueles idiotas não querem
trabalhar para ela? Até parece que a colocaram em alguma lista proibida
para evitar problemas para as agências de serviços domésticos! Um relance
de paranoia toma conta de sua mente. Será que ela está em uma dessas
listas?
– É melhor que eu não esteja – murmura para Jean-Paul.
Por ora, vai ter que abandonar a busca e cuidar ela mesma do que
precisa ser feito no final da manhã. É preciso levar Jean-Paul para passear,
comprar provisões, lavar toda a louça do jantar da noite anterior, arrumar a
cama, fazer uma limpeza rápida no banheiro... Céus. Como as pessoas
conseguem fazer tudo isso? Adelaide manda uma mensagem para Jessica
pedindo para que chegue uma hora mais tarde do que o habitual e chama o
cachorro. Ar puro e uma caminhada – vamos torcer para que seja o
suficiente para apaziguar seu humor exaltado.
Perto do rio, a brisa parece um pouco mais fresca, com a agitação da
cidade mais distante. Há poucos barcos turísticos na água a essa hora e o
cenário é sereno. Ela e Jean-Paul andam na sombra sempre que podem,
caso contrário a calçada fica quente demais para as patas pequeninas do
cão. É especialmente durante o verão que Adelaide sente falta dos grandes
espaços verdes de Londres e se pega imaginando como Jean-Paul adoraria a
oportunidade de ficar sem a guia e brincar nos campos gramados dos
Parliament Fields. Como o cachorrinho ficaria encantado ao se deparar com
tantos piqueniques com churrasqueiras portáteis – tantos cheiros deliciosos
para farejar, tantas salsichas e sanduíches tentadores para tentar roubar!
O pensamento a faz sorrir antes que uma onda de melancolia a atinja.
Será que algum dia retornará a Londres, ou mesmo à Inglaterra? É possível
que não. Uma lembrança se infiltra em sua mente: ela deitada em Fordham
Park, o espaço verde mais próximo da Goldsmiths, com um grupo de
amigos em uma noite de verão, o sol baixo parecendo bronze líquido no
céu. Cinco ou seis deles fumando cigarros de enrolar e bebendo vinho
barato da garrafa (Meu Deus, não eram nada sofisticados...), enquanto
resolviam os problemas do mundo. Todas aquelas grandes questões
existenciais a que respondiam com tanta paixão, vistas através das lentes da
lealdade e da justiça... Eles estavam preparados para dar a vida por uma
causa. Ah, imagina ser jovem e idealista de novo!, pensa ela, olhando para
Jean-Paul, que tinha feito uma pausa para farejar uma lata de lixo de cheiro
particularmente pungente.
Adelaide se lembra de que, quando chegou o momento crítico, uma
das amigas tinha realmente colocado seu futuro em risco pelo bem de
Adelaide, e sem pensar duas vezes. A amiga se adiantara em seu socorro na
hora certa, mesmo que as consequências tivessem sido mais terríveis do que
qualquer uma delas poderia esperar. Será que Adelaide tinha ouvido o
motor do carro naquele dia? Já não consegue lembrar. Só consegue ver
Colin Copeland vindo em sua direção com uma expressão de determinação
terrível, e ela mesma gritando com um medo repentino, uma súbita certeza
de que aquilo não acabaria bem. Então veio o som misericordioso de passos
subindo as escadas. Um grito de raiva. E quando se deu conta do que estava
acontecendo... Adelaide pisca várias vezes para esquecer a antiga lembrança
e se dá conta de que Jean-Paul descobriu, perto da lixeira, uma caixa de
comida abandonada que deseja investigar mais detalhadamente. A caixa um
dia serviu para armazenar frango frito, mas agora não passa de um caixão
para seus ossos.
– Ah, não, nem vem – diz ela, afastando-o, porque todo dono de
cachorro conhece as histórias horríveis de ossos de galinha entalados, e ela
nunca se perdoaria se esse fosse o destino de Jean-Paul.
O cão, por outro lado, parece muito disposto a correr o risco e firma as
patas no chão, recusando-se a se afastar.
– Ah, nossa – comenta uma voz atrás dela, parecendo achar a cena
divertida. – Tem um cheiro bom demais, não é, querido? Será que essas
pessoas que jogam lixo na rua desse jeito não pensam nos cachorros? A
propósito, é bom revê-la.
Adelaide se vira, um tanto nervosa, e vê uma mulher de cabelos
brancos com um vestido esvoaçante laranja e rosa e um westie na coleira ao
seu lado. Ela demora um instante para se lembrar de onde já a viu – ahhh,
sim, é a mulher que estava com o cachorro que Jean-Paul disparou para
cumprimentar no outro dia –, mas pelo menos a atenção de Jean-Paul é
desviada para o westie e ela pode arrastá-lo para longe da tentação.
– Oi – diz Adelaide, enquanto os cães se cumprimentam farejando os
traseiros um do outro, o que faz com que suas guias rapidamente se
embolem.
– Ei, vocês! – chama a mulher. – Pelo amor de Deus, imagine ficar tão
animada com o cheiro da bunda de alguém... Vocês dois vão nos fazer cair!
– Rindo, ela desenrola a guia em torno da de Adelaide e puxa gentilmente o
westie para o lado. – Você está indo por aqui? Que bom! Vamos
acompanhar vocês, se não for incômodo.
Em outro dia, Adelaide talvez tivesse dito um não educado – ou,
sinceramente, até mesmo um não nada educado –, mas já está cansada de
todas as tarefas que ainda tem pela frente e acaba concordando.
– Claro – responde, em tom bastante rígido, embora a mulher já tenha
sincronizado o passo com o dela e a fala não pareça realmente ter sido uma
pergunta.
– Você está em Paris há muito tempo? Viemos apenas para o verão,
mas eu disse ao Jim, o meu marido, que não podíamos ficar longe da Meg,
a cachorra, por tanto tempo... Achei que ela ficaria muito confusa se
sumíssemos de repente. Preciso contar que fui adotada quando era bebê,
então estou sempre projetando meus problemas de abandono em todos ao
redor, até mesmo na cachorra. Ela provavelmente ficaria bem, mas como
poderia correr esse risco? De qualquer forma, viemos de Montreal e aqui
estamos. Não é maravilhoso? Os edifícios, a história, a comida! Estou me
divertindo muito!
Na mesma hora, passa pela mente de Adelaide um filme com os
destaques de Montreal – as cores do outono da ilha de Sainte-Hélène
refletidas no amplo rio Saint-Laurent, muito azul; o esplendor gótico da
Basílica de Notre-Dame; Brad insistindo para que ela experimentasse o
poutine e rindo enquanto jurava pela vida da mãe que o gosto era melhor do
que a aparência (felizmente, ele estava certo). A apenas algumas horas de
Ottawa, aquele lugar havia se tornado um destino divertido para eles
passearem nos fins de semana. Ela leva um instante para voltar ao seu
corpo, à conversa, e não tem certeza de qual parte do monólogo da mulher
deve responder primeiro.
– Bem, a primeira vez que morei aqui foi nos anos 1980 – diz
Adelaide, no fim. – Mas já me mudei bastante.
– Nos anos 1980! Agora me sinto uma idiota. Então é claro que sabe
como este lugar é maravilhoso. Ontem levamos a Meg ao jardim suspenso,
não é fabuloso? Parece um jardim secreto lá em cima, perto dos edifícios. E
as catacumbas também são incríveis, né? Fomos lá na semana passada e
ainda estou tendo pesadelos. Ao que parece, meu marido encontrou um
museu de taxidermia incrível que ele quer que a gente visite hoje à tarde...
Já estou sentindo que o verão não será longo o suficiente para nós. – Ela dá
uma cotovelada em Adelaide, de um jeito camarada. – Desculpe, olha como
estou tagarelando. Sou a Frieda. Devemos ter a mesma idade, não acha?
Tenho 70 anos, mas estar aqui me faz sentir como uma adolescente outra
vez. Há tanto romance no ar!
Adelaide está pensando que Frieda é animada demais para o seu gosto
quando dois jovens de patins passam pelas duas em alta velocidade, quase
perto o bastante para derrubar Frieda.
– Ei! Seus babacas! – grita Frieda para as costas deles, sem se deixar
abalar, e ergue o dedo médio para garantir.
Talvez a mulher não seja tão desagradável, afinal.
– Eu sou a Adelaide – se apresenta ela, enquanto as duas continuam a
andar. – Adelaide Fox. – Frieda claramente não é uma amante da arte,
porque o nome não tem qualquer efeito sobre ela. Não provoca nem uma
contração muscular. – Parece que você está se divertindo muito. Já esteve
em alguma...? – Adelaide hesita, mas não consegue se conter. – Em alguma
galeria de arte nesse período em que está aqui?
– Eu? Ah, não, eu não gosto desse tipo de coisa. Tanto o Jim quanto eu
trabalhamos no ramo de construção... não sei distinguir uma ponta de um
pincel da outra. Prefiro qualquer prédio grande.
– Mas um edifício é uma espécie de arte, não? – Adelaide se sente
obrigada a dizer.
Ela nunca esteve no jardim suspenso ou nas catacumbas e nunca ouviu
falar do tal museu de taxidermia, mas se pudesse escolher, sempre iria
preferir uma visita ao Louvre, ao Musée d’Orsay, ao Pompidou... ou a
qualquer uma das galerias de renome mundial da cidade, na verdade.
– Será? Ou se trata de uma proeza da física e do trabalho
especializado? Tá certo, provavelmente um pouco dos dois – admite Frieda.
Ela sorri para Adelaide, que, surpresa com a camaradagem nos olhos de
Frieda, sorri de volta. – Então, me conta, você se sente em um êxtase
permanente, morando em uma cidade como essa? Sem levar em
consideração os cretinos de patins, é claro. A vida é uma maravilha atrás da
outra?
– Nossa, não – diz Adelaide com uma risadinha de desdém. – Estou
sempre enfrentando centenas de aborrecimentos, assim como qualquer ser
humano.
– Que tipo de aborrecimentos? Seus croissants de café da manhã são
perfeitos?
– Quem dera! Está mais para passar meia hora ao telefone, como
aconteceu esta manhã, tentando encontrar uma faxineira em vão. Ou ter que
abrir caminho entre multidões de turistas toda vez que saio do meu
apartamento. Ou ainda o artista de rua na praça que parece só conhecer “La
Vie en Rose” ou “Non, Je Ne Regrette Rien”. Não sei nem dizer quantas
vezes tive vontade de fazer com que ele se arrependesse disso.
Frieda ri.
– Ele vai estar tocando “Oui, Je Regrette Tout” quando você acabar
com ele.
– Ah, sem dúvida – diz Adelaide, rindo.
Apesar da reticência inicial, ela começa a sentir certo afeto pela
mulher enquanto as duas seguem pela margem do rio, conversando. Há algo
revigorante e cheio de energia nela que faz Adelaide se sentir um pouco
mais viva. Talvez esteja calejada de viver na cidade mais bonita do mundo,
porque ver Paris através dos olhos de Frieda é surpreendentemente
inspirador.
Por isso, é com certa decepção que Adelaide se dá conta de que as duas
foram muito mais longe do que ela costuma ir.
– É uma pena, mas preciso voltar para casa – explica, ciente de tudo o
que ainda precisa fazer antes de Jessica chegar. – Mas foi bom conversar
com você.
– Digo o mesmo! Espero que nossos caminhos se cruzem de novo, ou
ao menos os dos nossos cachorrinhos – responde Frieda. – Ah, e por falar
nisso, você quer o número da nossa faxineira? Ela é muito boa, apesar de
ser meio assustadora e monossilábica.
– Posso viver com alguém assustador e monossilábico se houver
também um “muito boa” junto – declara Adelaide, satisfeita. – Sim, por
favor.
Elas param e pegam os celulares, porque Frieda, assim como Adelaide,
não consegue andar ao mesmo tempo que faz qualquer coisa tecnológica.
Frieda primeiro precisa encontrar os óculos no fundo da bolsa preta enorme,
então digita com dificuldade o número de Adelaide para lhe passar os
detalhes.
– Pronto – diz por fim, e o celular de Adelaide emite um sinal de
confirmação um instante depois. – E se quiser tomar um drinque ou uma
taça desse delicioso rosé francês, é só avisar, porque estou dentro. Foi um
prazer te conhecer, Adelaide. E você também, Jean-Paul, querido.
– Tchau, Frieda – se despede Adelaide, com um sorrisinho, enquanto
se vira e volta na direção oposta.
É raro encontrar alguém que não tenha ideia de quem ela é, mas
também é estranhamente revigorante falar de igual para igual com uma
pessoa pela primeira vez, sem a bajulação ou a subserviência bobas de
sempre. E, além disso, ela agora tem o número de uma faxineira. O dia
definitivamente deu uma guinada para melhor.
Capítulo Vinte e Cinco

PARA: Agência de Talentos Rook Associates S/A.


A/C: Margie Claremont, nascida Flint – favor encaminhar

Prezada Sra. Claremont,

Estou em Paris no momento, no processo de escrever as


memórias de Adelaide Fox. Não é de surpreender que seu nome
tenha surgido várias vezes até agora (de uma forma boa, apresso-
me em acrescentar). Adorei ouvir as histórias sobre as suas
façanhas, os seus triunfos e sobre como se divertiram juntas. Por
isso estou entrando em contato, porque...

É nessa parte que Jess empaca toda vez que tenta escrever um e-mail
para Margie. Ela se sente desencorajada ao lembrar do olhar de advertência
de Luc – até mesmo de desaprovação – quando a ouviu sugerir entrar em
contato com a antiga amiga de Adelaide. Mas então Jess se lembra de
Adelaide desatando a chorar ao falar de Margie, e parece a coisa mais óbvia
do mundo que Jess deveria facilitar o caminho para a reconciliação.
Simplesmente perguntar se Margie ainda tem um desenho antigo que fez de
Adelaide é válido, certo? Ninguém pode contestar isso. Ainda assim, ela
não consegue encontrar as palavras.
Jess suspira e afasta o computador. Talvez não esteja no estado de
espírito para fazer isso. Na noite passada... bem, a palavra “montanha-
russa” vem à mente, se não for um clichê. Depois de deixar com relutância
o bar em Belleville e Luc, ela voltou para o hotel, preparada para a
mudança de visual mais rápida de todos os tempos... só para descobrir,
assim que chegou, que Georges havia mandado uma nova mensagem,
daquela vez dizendo que não poderia encontrá-la naquela noite. Ele
lamentava muitíssimo. Estava arrasado. Esperava poder se redimir
convidando-a para um jantar dos sonhos na semana seguinte, talvez na
segunda-feira?
– Ah, vai à merda, Georges – quase uivou Jess, e jogou o celular do
outro lado do quarto.
Depois de ficar largada cinco minutos na cama, ela fez, sim, a
mudança de visual mais rápida de todos os tempos, e foi direto para a
brasserie Les Amours, seu lugar feliz mais próximo. Lá, pediu uma taça
grande de vinho e filé com fritas, seguida de outra taça grande de vinho que
tomou na companhia de Valentin quando ele terminou seu turno.
– Esse Georges não presta – argumentou Valentin. – Já o monsieur
Luc... bem, ele parece legal...
– Talvez o problema seja eu – disse Jess, triste, ignorando a segunda
parte da frase de Valentin. – Não sou especial o bastante. Nem boa o
bastante.
Essa sempre foi uma de suas aflições secretas: que ela simplesmente
não merecia o amor e a atenção de ninguém. Sem dúvida, um terapeuta
atribuiria isso ao fato de o pai de Jess ter abandonado a família quando ela
era criança, mas na verdade a sensação se tornara realmente incômoda ao
longo de seu casamento com David – quando se deu conta de que parecia
amá-lo mais do que ele a amava. Jess não era apenas o motor da casa, a
pessoa que impulsionava a família, era também a pessoa – a única – que se
dedicava a manter a bateria do relacionamento deles carregada. Era Jess que
organizava jantares a dois com o marido, ou reservava ingressos para verem
o comediante de que gostavam. Era ela que enviava resignadamente uma
mensagem de texto para o marido com links para um par de botas bonito
quando ele confessava, envergonhado, em toda véspera de Natal, que não
conseguia ter ideia do que lhe dar de presente. A questão era que David
estava sempre muito ocupado pensando em si mesmo – ou melhor, em seu
pênis e em como queria enfiá-lo na bela publicitária australiana mais
próxima.
Agora Georges a dispensa no último minuto. Jess está começando a
achar que há um denominador comum: ela.
– O quê? Não! – protestou Valentin com fervor, batendo com o punho
na mesa. – Eu discordo completamente!
– Mas por que as pessoas não se apaixonam por mim, Val? Tipo, do
jeito certo? O bastante pra me comprar um belo presente de Natal? Eu não
sou... tão incrível assim?
Valentin pareceu perplexo – provavelmente por causa da referência ao
presente de Natal, já que ela não tinha comentado a respeito em voz alta.
Mas se recuperou depressa com a pergunta final de Jess.
– Você é incrível, meu bem. Eu sei que é! E o Nicolas também sabe!
Vamos adotar você e te dar presentes de Natal, mas, Jess, preciso te dizer
uma coisa: estamos em agosto, não em dezembro.
Jess riu porque ele estava sendo um amor e era bom demais ouvir
aquelas coisas de alguém.
– Obrigada – murmurou, e se apoiou nele com uma cutucada afetuosa.
Valentin retribuiu o cutucão.
– E, da próxima vez... se você decidir dar uma nova chance a esse
bosta do Georges, devo dizer... que tal ficar com o Luc? Acho que seria uma
boa ideia. Team Luc!
– Não tem nenhum Team Luc – Jess se sentiu obrigada a declarar. –
Enfim, chega de falar da minha vida amorosa deprimente. Me conta as
novidades da sua.
No ritmo em que as coisas estavam indo, chega de falar da minha vida
amorosa deprimente ia acabar sendo a inscrição na lápide dela, pensa Jess,
diante do computador, enquanto volta a abandonar temporariamente o e-
mail para Margie. Então se volta para um público que ao menos está ligado
a ela pelo sangue. Bom dia, meninas, como vocês estão hoje?, escreve Jess
no grupo da família, e sente uma leve pontada de saudade ao ver os rostos
animados das filhas na foto do aplicativo. Espero que estejam se divertindo
muito, estou ansiosa pra saber de tudo quando a gente voltar pra casa. Não
se esqueçam de me mandar fotos! Amo todas vocês. Bjs
Na mesma hora chega uma mensagem de Mia. Pergunta pra Adelaide
sobre o carro vermelho que foi visto perto de Little Bower na época em que
o Colin morreu!!!, é só o que diz, e Jess revira os olhos, já sabendo que não
vai perguntar nada. A Adelaide não sabe dirigir!, dispara ela de volta, sem
paciência. Elas ainda não chegaram à morte de Colin, mas Jess já está
apreensiva sobre como Adelaide vai contar esse capítulo específico de sua
vida.
A resposta de Edie é mandar uma selfie dela ainda na cama, fazendo
uma careta. Polly, por sua vez, envia um emoji de boina, para lembrar à mãe
que ela havia lhe prometido uma. Pelo menos ninguém mencionou que
David voltou a se comportar de maneira estranha, diz Jess a si mesma,
enquanto manda um último Um ótimo dia pra vocês! Talvez a gente possa
se falar mais tarde? Em seguida, ela pega a bolsa e segue até o apartamento
de Adelaide para a sessão do dia. É hora de mergulhar mais uma vez na vida
bem mais emocionante de outra pessoa.
✳ ✳ ✳

Confie em uma mulher – esse é o novo lema de Jess. Não perca tempo com
homens não confiáveis. Porque hoje, depois do trabalho, é claro que
Beatrice, do hotel, está pronta para sair e tomar um drinque, exatamente
como combinado. Não houve nenhuma mudança vertiginosa de planos ou
cancelamento da parte dela.
Beatrice está com a aparência impecável de sempre quando Jess a
encontra no saguão do hotel – nem um fio de cabelo fora do lugar, a
maquiagem dos olhos perfeita. Está usando uma calça palazzo preta de
corte amplo, combinado com um top cinza amarrado com um enorme laço
atrás do pescoço, e trocou os discretos brincos de brilhante por grandes
argolas douradas. Nunca em um milhão de anos Jess – em seu vestido maxi
de um rosa desbotado e sandálias gladiadoras – conseguiria parecer chique
assim, mas é empolgante ser vista por aí com uma pessoa tão linda.
Enquanto seguem caminhando em direção ao Le Mélange, o bar favorito de
Beatrice, Jess percebe que todos os homens – e muitas mulheres – se viram
e olham quando passam. Olham para Beatrice, obviamente, não para ela,
mas mesmo assim Jess se pega um pouco envaidecida com a atenção que
sobra.
O Le Mélange é um bar de vinhos, sem nenhuma grande placa
anunciando sua localização – definitivamente o tipo de local que a pessoa
só encontra se souber que ele está ali. Jess deve ter passado por lá todos os
dias desde que chegou a Paris e nunca imaginou que haveria um espaço tão
vibrante escondido ali. O interior do bar é decorado com luzinhas cor-de-
rosa, as paredes são cobertas por estampas gráficas descoladas – uma
galeria própria –, e há assentos mais reservados para acomodar os clientes,
além de algumas mesas centrais maiores. A clientela, para a alegria de Jess,
não é composta exclusivamente de jovens parisienses modernos – o lugar
quase passa a sensação de um pub inglês. Dois homens mais velhos estão
sentados diante do balcão do bar, com grandes copos de conhaque na mão;
um grupo grande de mulheres de meia-idade de excelente aparência (é com
elas que Jess se identifica) balança seus drinques em uma das grandes
mesas compartilhadas; e pessoas na faixa dos 20 e poucos, 30 anos, recém-
saídas do escritório, ao que parece, tomam vinho. Ela também vê um casal
de 50 e poucos anos com uma mulher loira mais jovem (a filha deles?) –
todos rindo de algo que a filha mostra no celular –, e a alegria
despreocupada dos três faz Jess sorrir. O lugar tem uma energia boa.
Beatrice atravessa o bar com Jess até chegarem a um pátio com
enormes plantas tropicais em vasos de terracota entre as mesas. Há ainda
bancos ao redor, cheios de almofadas de cores vivas, e lanternas penduradas
em um dossel elevado, além da batida alegre de um hip-hop ao fundo.
– Yes, Beatrice! – exclama Jess, empolgada, enquanto elas se
acomodam na área externa, sob um guarda-sol vermelho. – Eu sabia que
você ia conhecer o melhor bar de Paris. Este lugar é fantástico!
– Mas é claro que conheço o melhor bar de Paris – retruca Beatrice,
abrindo as mãos e piscando várias vezes de modo afetado. – E agora vou
recomendar o melhor drinque: um Soixante-Quinze. Acho que vocês
ingleses chamam de “French 75”. É um clássico! Champanhe, gim e xarope
de limão, pode ser?
– Delicioso... perfeito – diz Jess, animada.
Ela começa a pensar que gostaria que Beatrice assumisse o papel de
sua guia permanente ao longo da vida, se esse é o padrão dela.
Depois que a garçonete serve os drinques, Beatrice levanta o copo em
um brinde.
– À amizade. É bom poder conhecer você melhor, Jess. Muitos dos
nossos hóspedes vêm e vão, e nunca sabemos nada sobre eles, a não ser que
acharam a cama dura demais ou que deveríamos investir em novos ar-
condicionados. – Ela faz uma careta. – Mas você é diferente. Você é
interessante! Gosto que esteja aqui, uma mulher da minha idade, e que
esteja se divertindo em Paris. – Ela dá uma cotovelada brincalhona em Jess.
– Talvez eu vá para Londres trabalhar lá por algum tempo, hein? E
conversar com todos no meu hotel, como você, eu acho.
Jess ri.
– Boa sorte com isso! Antes de mais nada, se for trabalhar em Londres,
vai ficar hospedada comigo. E segundo, ninguém fala com ninguém
em Londres.
– Em Paris é a mesma coisa. A não ser por você. E é por isso que eu
gosto de você!
Jess sorri para ela, comovida, e levanta o próprio copo.
– À amizade – diz, e toma um gole. Obviamente o French 75 é
delicioso. Dois de dois para Beatrice. – Falando em amizade – continua Jess
–, posso te pedir um conselho?
– Mas é claro! Do que se trata?
É um alívio conversar com Beatrice sobre Adelaide e Margie – um
alívio receber uma resposta diferente das que ela recebeu até agora de
Adelaide (lágrimas e silêncio) e de Luc (cenho franzido e tentativas de
dissuadi-la da ideia). A empática Beatrice entende na mesma hora.
– Isso é terrível! – exclama. – E elas ainda não voltaram a se falar? Por
que brigaram?
– Na verdade, não sei – confessa Jess. – Não chegamos tão longe.
Os principais assuntos da sessão do dia com Adelaide incluíram
pérolas como a aparição no descoladíssimo programa Late Night Line-Up,
no qual a artista foi entrevistada por Joan Bakewell (“um amor”); o fato de
ter tido duas obras selecionadas para fazer parte de uma exposição do
British Council chamada New British Creatives, que percorreu a Europa por
dezoito meses no fim dos anos 1960 (“até a minha mãe ficou
impressionada”); e sua primeira exposição individual em Nice, no verão,
onde conheceu Remy. Até esse momento da narrativa, Margie ainda é a
melhor amiga de Adelaide.
– O que você faria? – continua Jess. – Já me peguei várias vezes
prestes a mandar um e-mail para ela, quer dizer, para Margie, na tentativa
de colocar essa história para andar de novo, mas alguma coisa sempre me
impede. Mas eu quero ajudar.
– Então acho que sim. Ajudar é bom. Com certeza!
Ajudar é bom. Exatamente, esse é o mantra pessoal de Jess. Ajudar é
bom. Como alguém pode argumentar contra isso?
– Então vou fazer isso – diz ela. – Vou reunir essas duas mulheres
magníficas novamente e pronto!
Beatrice levanta o punho no ar.
– Sim, Jess! Você vai conseguir. Sei que vai! – Ela aponta para o
celular de Jess, que está aparecendo no alto da bolsa. – Vamos, faz logo
isso. Vou pegar um cardápio pra gente... eu já disse que a comida aqui
também é divina? Enquanto isso, você escreve a mensagem para ela, antes
que mude de ideia. Não me decepcione!
Beatrice se levanta sem mais nem uma palavra e se afasta,
cumprimentando alguns conhecidos pelo caminho. Enquanto isso, Jess,
encorajada pela segurança de Beatrice, obedece à nova amiga e procura um
de seus rascunhos de e-mail incompletos. Qual a pior coisa que pode
acontecer? Um: Adelaide ficar irritada com ela (de novo). Dois: Margie não
responder. Nenhuma das possibilidades é exatamente o fim do mundo.
Seus dedos digitam na tela, terminando de redigir o e-mail. Seria ótimo
ter a chance de incluir o seu desenho de Adelaide no livro de memórias, se
você ainda o tiver, ela escreve, então hesita. Algo mais? Ora, já que
começou... Ela acrescenta ao texto: Me avise se também quiser que eu passe
alguma mensagem para Adelaide.
Jess morde o lábio enquanto relê tudo. O e-mail está breve, educado e
profissional, a não ser por aquela última frase capciosa. De qualquer forma,
é provável que essa mensagem seja lida por uma assistente de Margie, que
não vai dar qualquer importância a ela. Não há nenhum dano real
no que está fazendo, diz a si mesma. Então, respira fundo, prende o ar –
para acalmar o nervosismo – e pressiona “Enviar”.
– Pronto? – pergunta Beatrice, voltando com os cardápios e dois novos
drinques para elas. – Ótimo! Sabe, você me lembra o meu pai. – Ela ri,
provavelmente da expressão confusa de Jess. – Não estou dizendo que você
se parece com um homem alto, de 65 anos, do Senegal...
– Eu estava mesmo me perguntando como... – comenta Jess.
– Mas ele também gosta de reunir as pessoas. Isso deixa meu pai muito
feliz.
Beatrice segue descrevendo o projeto beneficente que o pai – Moussa
– criou, na década de 1980, quando acabara de chegar à França e não
conhecia ninguém. É uma organização na qual homens se sentindo à deriva
socialmente – divorciados, ou novos na cidade, ou talvez desempregados –
podem consertar coisas numa grande garagem, no 18o arrondissement.
– Adorei! – exclama Jess. – Seu pai parece ser um cara incrível. Que
ótima ideia. – Então a inspiração surge. – Ah! Posso contar ao Alain sobre
isso? O senhor que mencionei outro dia, aquele com a esposa que sofre de
demência e que ele se viu obrigado a internar em uma clínica. Ele era
engenheiro, isso tem tudo a ver com ele.
– Mas é claro – responde Beatrice. – Na verdade, no sábado o projeto
vai estar aberto a visitantes. Talvez ele possa aparecer por lá. E você
também, se quiser saber mais a respeito. – Ela sorri. – Olha só pra nós,
reunindo todo mundo. Tentando deixar todos mais felizes. Acho que somos
as melhores pessoas, não?
Jess ri.
– Com certeza somos as melhores – concorda, cruzando os dedos
debaixo da mesa.
Resta torcer para que Adelaide concorde quando descobrir o que sua
ghost-writer acabou de fazer, pensa.
✳ ✳ ✳

As horas passam em um agradável borrão de bons drinques, comida


deliciosa – “a comida africana mais gostosa desse distrito”, segundo
Beatrice – e muita conversa sobre a família e a vida de cada uma delas. Luc
está perdendo tanta coisa, pensa Jess, enquanto ela e a nova amiga
compartilham histórias, pintando imagens de seus mundos uma para a
outra. Só no fim da noite, quando ela já está bem bêbada e na fila do
banheiro feminino, é que Jess percebe um rosto familiar saindo de um dos
cubículos.
– Marie-Thérèse! Como vai?
Marie-Thérèse está quase irreconhecível sem o avental, sem o cabelo
preso para trás e sem os olhos vermelhos. Nada daquele ar oprimido e
infeliz – ela está parecendo dez anos mais jovem usando jeans e uma linda
bata cor-de-rosa fechada com um cordão na frente, o cabelo castanho solto
ao redor dos ombros. A mulher parece surpresa ao ver Jess, então abre um
sorriso cauteloso.
– Jessica. Oi – diz ela, lavando as mãos na pia.
– Tá tudo bem? Andei pensando em você. Já conseguiu outro
emprego? – pergunta Jess em francês. – Lamento que você tenha decidido ir
embora.
Adelaide já parecia arrependida de ter perdido a governanta, a julgar
pelas reclamações e bufos da mulher pela manhã, enquanto preparava
alguma coisa para elas beberem. Jess não pôde deixar de notar que havia
louça do jantar sem lavar, além de uma tábua de passar roupa abandonada
na cozinha. Não demorou muito para que os padrões da artista se tornassem
menos exigentes, por assim dizer.
Marie-Thérèse encolhe os ombros.
– Ainda não. Mas não lamento ter ido embora. – Ela ergue o queixo
pontudo, na defensiva, enquanto passa as mãos sob o secador pouco
potente, sacudindo-as impacientemente sob o ar morno. – Porque ela é uma
mulher desagradável. Uma mulher grosseira! E ruim também, acho. Uma
mulher má. Aquele quadro nojento guardado dentro do guarda-roupa...
Quase soltei um grito no primeiro dia que o vi.
– Quadro? – repete Jess, sem entender. – Dentro do guarda-roupa? Que
quadro?
– Ahh... então você ainda não viu. Sorte a sua. Ainda tenho pesadelos...
com o quadro e com ela! – Marie-Thérèse desiste do secador com um
último movimento dos pulsos. – Toma cuidado – acrescenta, caminhando
em direção à porta. – Você não sabe do que ela é capaz, mas eu sei.
– Espera, me conta mais! – Jess está louca para ouvir a história toda,
mas chegou à frente da fila para usar o banheiro, e a urgência de sua bexiga
vence a batalha. – Eu te alcanço! – grita para Marie-Thérèse enquanto se
afastam, se perguntando o que aquele quadro poderia retratar (e por que
estaria dentro do guarda-roupa de Adelaide?).
Infelizmente, quando ela sai do banheiro, Marie-Thérèse parece já ter
ido embora do Le Mélange, apesar de Jess dar duas voltas cuidadosas pelo
lugar. Inferno!
Ela volta para o pátio, ansiosa para contar a Beatrice sobre essa curiosa
informação, mas seu celular apita com a chegada de uma mensagem de
David. Você tem um minuto para conversar?, é só o que diz. Ah, merda. Por
que ele tem que ser tão irritantemente vago? As meninas estão bem?, replica
ela na mesma hora, a adrenalina já disparando nas veias. Enquanto está
parada ali, esperando a resposta dele, Jess vê de relance o casal de meia-
idade e a filha abrindo uma garrafa de champanhe, e a mulher abraça a
jovem parecendo orgulhosa e chorosa. Ela não tem certeza se é capaz de
suportar a felicidade de outras pessoas naquele momento, se sua própria
está em jogo, pensa, desviando o olhar. David??, digita Jess, impaciente,
quando ele não responde de imediato. Pelo amor de Deus! É muito injusto
mandar uma mensagem daquela e não imaginar que ela vá entrar em pânico
um segundo depois.
Finalmente ele responde. As meninas estão bem. Desculpa, não tive a
intenção de te assustar, o que já é alguma coisa. Jess leva a mão ao peito e
sente o coração diminuir a marcha, então, olha para fora e vê Beatrice
conversando animada com as pessoas na mesa ao lado. David deve ter
alguma coisa importante para dizer, imagina, ou não estaria pedindo para
conversarem. Então, os comentários que as filhas fizeram sobre o
comportamento estranho dele voltam à mente de Jess. Será que está tudo
conectado? O que está acontecendo?
Estou com uma amiga, mas posso falar rapidamente se você quiser,
digita ela, e no instante seguinte seu celular toca. Ele está mesmo
precisando falar com ela...
– Oi – diz Jess. – O que foi?
– Jess – fala David, e com aquela única palavra ela percebe que ele
está nervoso. – Obrigado. Eu não sabia com quem mais falar.
– Sobre o quê? Você tá bem?
– Não tenho certeza. Eu... – Ela consegue ouvir o suspiro que o ex-
marido deixa escapar, mesmo com o baixo grave da música e as muitas
conversas que acontecem ao redor. – Marquei uma consulta com um
médico para a próxima semana, porque... Bem, porque encontrei um
caroço. E não desaparece. Na verdade, acho até que ficou maior.
– Um caroço? Onde?
Ah, não. David sempre foi meio hipocondríaco, ninguém no mundo
sofre tanto com um resfriado quanto ele, mas um caroço é diferente. Um
caroço é um caroço.
– Bem... nos testículos, na verdade. Então... sim. Obviamente eu tô me
sentindo um pouco nervoso.
A súbita brusquidão em seu tom fica entre a defensiva e o medo.
Jess o imagina curvado, com os ombros tensos, um lampejo de
vulnerabilidade nos olhos. David não gosta de se ver em uma posição
vulnerável. Bem, quem gosta? Mas ele, entre todas as pessoas, quer sempre
passar uma imagem de competência. De ser invencível.
– Posso imaginar.
– Estou aqui com as meninas e não consigo... não consigo aproveitar
as férias porque fico pensando... – Aquilo foi um soluço? – Não paro de
pensar que... que esse pode ser o meu último verão com elas, e se eu morrer
e deixar as meninas sem pai, e...
– Tenho certeza que não vamos chegar a esse ponto – afirma Jess, bem
no momento em que Beatrice olha ao redor, procurando-a. Jess faz uma
careta e aponta para o celular, então levanta dois dedos, enquanto diz
apenas com o movimento da boca: deux minutes. – E é claro que você está
pensando essas coisas, qualquer um pensaria. – Ela mesma já está
imaginando as filhas vestidas de preto no funeral do pai e precisa lidar com
as emoções complexas que a imagem provoca. – Mas na semana que vem o
médico vai te dar uma noção mais clara do que se trata – continua, tanto
para si mesma quanto para ele. – Aposto que é alguma coisa inofensiva
como um cisto, ou algo do tipo... – Jess vasculha a mente em busca de
possíveis informações médicas. – Ou... um pelo encravado, talvez, ou...
– Sim, claro. Com certeza – concorda ele. – Sim. Desculpe, eu não
devia ter te incomodado. É só que... isso tá na minha cabeça e eu tomei um
drinque, e...
– Tudo bem – garante Jess.
Ele soa tão diferente de sua personalidade bombástica habitual: o
David que embarca em um avião para o outro lado do mundo para trabalhar,
que fala com confiança e fluência sobre esporte, política, sobre as últimas
novidades em tecnologia. O David que conscientemente atraiu a atenção de
uma relações públicas australiana ruiva, de 25 anos, em uma sala lotada e
pensou: Ora, por que não? Pois esse mesmo homem agora soa abatido,
derrotado. Ou talvez ele só esteja arrasado depois de cinco dias como pai
solo no exterior. As filhas têm o poder de fazer isso.
– Mas as meninas notaram que tem alguma coisa acontecendo –
continua Jess. – A Mia e a Edie me contaram que acham que você está
saindo com alguém.
– Ah, merda, é mesmo? Bem, não estou – responde David. –
Obviamente não. – Ela ouve a hesitação na voz do ex-marido, percebe a
dúvida em seu tom. – Você já contou para elas...?
– Não – responde Jess, antes que ele diga o nome daquela mulher.
– Tá certo. Obrigado.
Ele está aliviado agora – e ela também, de um jeito engraçado.
Aliviada por poder responder com sinceridade, por ter cumprido a promessa
de não lavar a roupa suja do casamento deles diante das filhas. Deus sabe
que já houve muitos momentos em que se sentiu tentada, em que as
meninas tomaram o partido do pai, culpando a mãe pela separação, e Jess
teve vontade de gritar: Vocês não sabem da missa a metade!
– Cabe a você contar a elas, se decidir fazer isso – diz ela, porque às
vezes é difícil ser tão boazinha. – Me dá notícias de como você tá, na
semana que vem, viu? – acrescenta. – Ou se... – Jess se pega prestes a cair
no velho e péssimo hábito de abrir mão das próprias necessidades para
priorizar as dele. Ou se precisar que eu volte mais cedo está na ponta da
língua. Ela engole as palavras não ditas. Não precisa mais fazer isso. – Ou
se precisar conversar novamente – fala, e é o máximo que está disposta a
oferecer.
– Obrigado – agradece David. – Vou fazer isso. – Ele hesita. – Você tá
se divertindo aí? O trabalho tá indo bem?
– Sim, muito bem, na verdade – responde Jess. – Falando nisso, é
melhor eu voltar agora. Deixei a minha amiga sozinha na mesa, então...
– Claro – diz David. – Tá certo, se cuida, então. Tchau, Jess.
Ela franze o cenho ao voltar à mesa, repassando a conversa
mentalmente. David vai ficar bem, não vai? Ela pode não querer mais
continuar casada com ele, mas não há como apagar os sentimentos que
acumulou pelo ex-marido, camada em cima de camada, ao longo dos anos
que passaram juntos. Além do mais, isso é a última coisa que ela deseja
para as meninas, que passem pela preocupação e pela tristeza de terem um
pai muito doente, ou pior.
– Aí está você! Tudo bem? – pergunta Beatrice.
Jess força um sorriso. Vai deixar para pensar em David mais tarde.
– Tudo bem – mente, então lembra à amiga que ela havia prometido
contar uma história interessante sobre alguns hóspedes malcomportados que
estavam no hotel na semana anterior.
– Meu Deus! Sim, os Janviers... agora, isso vai chocar você, Jess. Se
prepara pra ficar chocada!
Jess fica tão fascinada com a história dos Janviers e de outros
hóspedes, além de continuar pensando no que David contou, que esquece
completamente da conversa com Marie-Thérèse até elas irem embora do
bar. Já está escuro, apenas o brilho perolado da lua atravessa as nuvens.
Uma brisa faz uma lata de Coca-Cola vazia chacoalhar em uma sarjeta
próxima, e o barulho repentino faz as duas mulheres se abraçarem, dando
risadinhas. Convenientemente, o marido de Beatrice combinou de buscá-la
na frente do hotel, então as duas voltam juntas para lá, de braços dados,
com os passos um pouco instáveis depois dos drinques.
– Ah! Eu não te contei com quem esbarrei no banheiro! – exclama
Jess, antes de relatar toda a conversa com Marie-Thérèse. – E pode apostar
o seu último euro que vou dar uma olhada nesse quadro no guarda-roupa,
assim que tiver uma chance – conclui.
– Uau! Bem, e você pode apostar o seu último euro que vou te
perguntar a respeito todos os dias até você fazer isso – responde Beatrice,
com os olhos arregalados. – Agora estou imaginando o pior possível da sua
Adelaide. Mas quanto você acha que pode ser ruim?
– O bastante para fazer a Marie-Thérèse ter pesadelos – diz Jess, e, de
repente, se lembra de Adelaide falando sobre as pinturas da série
“Vingança”. A maior parte dos quadros está no meu arquivo, dissera ela. A
maior parte... isso significa que um deles está escondido no apartamento? –
Por enquanto, é um mistério. Mais um mistério em Paris para mim –
acrescenta, pensando em Pascale, como acontece tantas vezes. Mas, no
instante seguinte, as engrenagens de sua mente giram e surge um novo
pensamento. – Beatrice! Posso te mostrar a foto de uma pessoa?
– Chérie, você pode me mostrar qualquer coisa – declara Beatrice,
apertando o braço de Jess com carinho.
– Provavelmente não é nada – fala Jess, enquanto procura no celular o
retrato do homem corpulento que a pegou de surpresa no arquivo no dia
anterior. – Você por acaso não reconhece esse homem, né?
É a segunda vez que ela faz essa pergunta hoje, já que mostrou a
mesma foto a Adelaide na última sessão que tiveram.
– Ah! Nossa. Sim, ele – tinha dito Adelaide. – Esse homem
encomendou um retrato e depois se recusou a pagar. Reclamou que eu fiz
ele parecer muito feio e gordo. Idiota. Depois disso, fiz questão de incluir o
quadro na minha próxima exposição, só para irritá-lo.
– Você consegue se lembrar do nome dele? Ou de mais alguma coisa
sobre ele?
Adelaide tinha examinado Jess por cima dos óculos.
– Por quê? O que isso tem a ver com você?
– Não sei bem...
Como poderia colocar em palavras o arrepio que subia até sua nuca
quando olhava para o quadro, a certeza de que aquele homem estava ligado
de alguma maneira ao Hotel d’Or, e talvez até ao desaparecimento de
Pascale? Parece exagero, mas ela vê as mãos gigantescas do homem, seus
ombros largos, a expressão cruel em seu rosto, e toda vez surge a mesma
pergunta em sua mente: Você matou a minha amiga? Jess teve um lampejo
de lembrança dele no bar, se gabando para o grupo com quem estava.
Talvez o homem tivesse mandado uma bebida para a mesa delas? Talvez
tivesse flertado com a linda Pascale e quem sabe saído com ela depois, só
os dois? Ela certamente estava se vestindo para encontrar alguém naquela
última noite em que Jess a viu. Mas quem?
Parada ali, debaixo de um poste de luz, mostrando a foto para Beatrice,
Jess tem a sensação de que sabe o nome dele, está na ponta da língua.
Didier? Laurent? Victor? Victor, pode ser isso, e é como se uma campainha
distante tocasse em sua mente.
– Ele talvez se chame Victor – diz Jess, experimentando o nome em
voz alta, embora consiga ouvir a dúvida na própria voz.
Além disso, mesmo que seus instintos estejam corretos e o homem
tenha alguma ligação com o desaparecimento de Pascale, o que ela pode
fazer? Tomar o problema para si e vingar a amiga? Talvez esteja passando
tempo demais com Adelaide, pensa Jess, enquanto Beatrice examina a foto.
Nesse ritmo, ela mesma vai acabar acrescentando uma adaga ao quadro,
cravada no pescoço grosso do homem.
Beatrice balança a cabeça.
– Sinto muito, mas não estou reconhecendo. Se você me encaminhar a
foto, posso perguntar por aí. Por quê? Qual é a história dessa foto?
Jess se inclina contra a amiga, começando a sentir o cansaço do longo
dia e da noite.
– Ele me parece familiar – explica –, mas não consigo imaginar por
quê. Só tenho a intuição de que preciso descobrir tudo o que puder sobre
ele.
Jess se encolhe, sentindo-se subitamente constrangida. Normalmente,
faz questão de trabalhar apenas com fatos, não com intuições ou palpites,
mas, pelo bem de Pascale, precisa tentar todos os caminhos que se abrem.
Não estava fazendo brindes à amizade ainda hoje? Mas já basta de falar
sobre o assunto. Está na hora de agir, de uma vez por todas, e ver se
consegue chegar mais perto de descobrir a verdade. Custe o que custar, jura
para si mesma.
Capítulo Vinte e Seis

Depois, lembra Adelaide, foi como se o ar vibrasse por muito tempo com o
estrondo. Um cachorro latiu em algum lugar distante e as duas
estremeceram.
– Você acha que ele está morto? – perguntou ela com voz rouca.
Aquele dia terrível, tão terrível, pensa Adelaide, está tentando roubar
sua atenção das palavras cruzadas no iPad. Esse é seu ritual do início da
noite: preparar um gim-tônica (sempre com limão e com gelo, o drinque é
uma das poucas coisas que gosta de preparar para si mesma), o prazer de
deixar o corpo afundar em sua poltrona mais confortável com vista para a
praça e, em seguida, um treino gratificante para o cérebro. Depois, talvez se
permita um episódio de Fake or Fortune, ou um drama policial pavoroso,
dependendo de seu humor. O que as palavras cruzadas lhe reservam esta
noite? Má fortuna, desgraça (10), ela lê, mas as palavras dançam sem se
conectar em seu cérebro. É difícil se concentrar quando acabou de reviver
um momento de trauma extremo, quando as lembranças a bombardeiam
incansavelmente, por mais que tente mantê-las afastadas.
Adelaide olha para Jean-Paul, deitado aos seus pés, como sempre, com
as patas flexionadas durante o sono – talvez ele esteja sonhando em fugir
dela e roubar todos os ossos de galinha que quiser. Mas fugir, como ela
mesma sabe, nem sempre é a coisa certa a fazer.
– É claro que ele está morto – disse Margie, parada ao lado do que
segundos antes fora o vidro de uma janela, mas que naquele instante era um
buraco irregular, no formato de um homem, com triângulos de vidro
formando sentinelas distorcidas ao redor da moldura. – Olha como o
pescoço dele está torcido. Não tem como esse homem se levantar de novo.
Graças a Deus.
– Cacete – praguejou Adelaide. Ela estava tremendo da cabeça aos pés,
e seu coração parecia prestes a escapar da caixa torácica. – O que a gente
vai fazer?
Isso não é bom. Não é o início das palavras cruzadas. Ela precisa sair
desse ciclo terrível de reminiscências. Afinal, não pode mudar nada agora,
não é?
Adelaide toma um gole do drinque, então passa para a próxima pista e
se força a se concentrar. Parece um pássaro asmático (8, 2, 3). Ahh – essa é
fácil. PAPAGAIO-DO-MAR, digita, e se lembra da viagem de carro pela
Escócia que fez com Remy, ao longo de um mês de junho. Eles tinham
planejado uma viagem para pintar paisagens inspiradoras, embora, se a
memória não lhe falhava, também tivesse havido muita discussão sobre a
leitura de mapas durante os longos períodos dentro do carro, além do
consumo de grandes quantidades de uísque barato e paradas para um sexo
cheio de energia em pensões insípidas. De vez em quando, sexo também
sobre um cobertor xadrez na charneca, uma pausa nas discussões caso
estivessem em um local particularmente remoto. No dia que lhe vem à
memória, os dois fizeram um passeio de barco em algum lugar no
promontório, a leste de Edimburgo, e avistaram papagaios-do-mar fazendo
ninhos nas cavidades escondidas nos penhascos, com aquelas carinhas fofas
e cômicas, tão parecidos com desenhos animados. O jeito que Remy
pronunciava o nome dos pássaros a fazia rir todas as vezes.
Adelaide se lembra de que ele amava a Escócia. É melhor do que a
Inglaterra, gostava de provocar, para a alegria de qualquer escocês que
passasse, que o parabenizava pelo bom gosto. As semanas em que os dois
estiveram lá agora parecem um sonho. Tinham encontrado uma fita cassete
de música country esquecida no carro que alugaram, mas, assim que a
colocaram no aparelho, ela travou e se recusou a ser desligada, de modo
que, por mais gloriosa ou dramática que fosse a paisagem ao redor – os
majestosos picos cobertos de urze, as florestas, as remotas ilhas de areia
branca –, a trilha sonora que acompanhava cada vista era de traição e
tristeza plangente. Pelo menos pintar lá era uma delícia. Os dois montavam
os cavaletes ao ar livre, desafiando tudo o que a terra lhes lançava – rajadas
de vento, chuvas repentinas, aqueles mosquitos intermináveis – em nome da
arte. Ainda deve haver uma área inteira no arquivo com as aquarelas que
pintou lá, pensa Adelaide, e se pergunta se Lucas já a encontrou.
Então ela se lembra das fotos que Jessica lhe mostrou outro dia após
sua visita a Belleville: aquele homem agressivo e corpulento (qual era o
nome dele?), e também um desenho a lápis de um velho com um sorvete e
um desenho que fizera de Remy. Nos últimos tempos, ela praticamente
parou de desenhar – em parte por causa dos tremores que afligem suas mãos
(por favor, que não seja Parkinson, pensa o tempo todo, com medo demais
para perguntar a um médico), mas também porque não consegue mais ver
motivo para isso. Para ser justa, a verdade é que já faz alguns anos que não
vê sentido em nada além de seu cachorro. Adelaide imagina um pequeno
esboço de si mesma, curvada melancolicamente sobre um iPad, com os pés
descalços e retorcidos em cima da chaise-longue. Seria bom desenhar
aqueles pés, pensa com distanciamento. Suas mãos e seu rosto também. O
corpo em declínio: um estudo em andamento.
Mas, enfim. Está divagando de novo. Onde estava? A próxima pista
parece um anagrama, pensa Adelaide, e pega seu bloco de notas para
organizar as letras de modo a atender o espaço. ROTA DE FUGA, é isso.
Que apropriado... afinal a rota de fuga que ela e Margie tomaram tantos
anos antes anda mesmo em sua mente.
– O que a gente vai fazer? – repetiu Margie, já recuando para o outro
lado do cômodo. – Vou te dizer o que a gente vai fazer. Vamos entrar no
meu carro e voltar para a minha casa, é isso que vamos fazer. Ninguém sabe
que eu estou aqui. Você contou a alguém além de mim que estava na casa?
Adelaide balançou a cabeça, sem dizer nada, enquanto se esforçava
para compreender o que tinha acabado de acontecer. O homem está morto.
Ele atravessou a janela e agora está morto. Um zumbido horrível dentro de
sua cabeça aumentou de intensidade. Ela se sentia fora de si. Como é que
Margie estava conseguindo ficar tão calma?
– Muito bem, então nós vamos para a minha casa e vamos dizer a
quem perguntar que passamos o fim de semana todo lá. Não vimos nada,
não fizemos nada, entendeu? Certo, vamos.
Se Adelaide pudesse voltar no tempo e mudar alguma coisa, seria
aquele dia em Little Bower. Se as coisas tivessem sido diferentes, ela e
Margie ainda seriam amigas, tinha certeza disso. O esquisito Colin
Copeland teria vivido. Mas em vez disso...
– Argh, para com isso – ela se repreende em voz alta, e toma outro
grande gole de gim-tônica.
Infelizmente, não está tão bom como sempre... ela se esqueceu de
encher a bandeja de gelo na véspera, porque só sobrou um cubo para o
drinque da noite, quando normalmente gosta de pelo menos três, tilintando.
Esse é o problema quando se perde uma empregada – é uma chatice tentar
manter o controle de tudo. Adelaide já mandou mensagens e ligou várias
vezes para a faxineira de Frieda, Clothilde, mas ainda não recebeu resposta.
Deveria implorar por ajuda? É a isso que se rebaixou?
Nesse meio-tempo, Adelaide se pergunta se seria ultrajante descer até a
brasserie mais próxima e pedir um pouco de gelo para viagem. Afinal, eles
são praticamente vizinhos. Seus pensamentos voltam à conversa com
Frieda. Sorte a sua, morar aqui, comentara a mulher, entusiasmada. Tanta
beleza bem na sua porta! Todos esses bares e restaurantes maravilhosos
para experimentar! Frieda não pensaria duas vezes antes de descer e pedir
gelo, diz Adelaide a si mesma. Com certeza, a mulher pediria um gim-
tônica de verdade e se divertiria vendo o mundo passar enquanto bebia.
Mas o problema de morar em qualquer lugar é que muitas vezes a
pessoa para de reparar na beleza, já não experimenta os maravilhosos bares
e restaurantes. Ao menos se essa pessoa for Adelaide. Nesse caso, a pessoa
em questão passa as noites discutindo com Fake or Fortune na TV; gasta
horas em uma batalha silenciosa contra palavras cruzadas em uma tela e
tendo conversas unilaterais ocasionais com o cachorro. O que Frieda está
fazendo agora?, pergunta-se Adelaide. O que Jessica está fazendo? Sem
dúvida as duas estão por aí, pela cidade, se deleitando com as vistas,
aproveitando uma noite de verão com um visual esplêndido e uma taça de
um bom vinho. E ali estava ela, franzindo o cenho de novo para aquela
primeira pista das palavras cruzadas – Má fortuna, desgraça (10) –
enquanto a vida passa por ela.
– A gente nunca é velha demais para se divertir, não é mesmo? –
declarou Frieda, quando falava com Adelaide sobre os motivos de sua vinda
para a França (a aposentadoria de Jim; o “episódio cardíaco” da própria
Frieda, que os tirara da zona de conforto). – A gente nunca é velha demais
para uma aventura!
Rá. DESVENTURA, essa é a resposta, percebe Adelaide, e digita a
palavra com satisfação. Então solta uma risadinha irônica. Será que o
universo estava lhe dando um empurrãozinho? Ela não é uma mulher
supersticiosa, mas não consegue evitar a sensação de que tanto o criador de
palavras cruzadas quanto Frieda conspiraram para lhe mandar uma
mensagem.
Adelaide se levanta, fecha a porta da cozinha para não ver a bagunça
ali dentro (a arrumação fica para amanhã, ela jura) e vai checar seu reflexo
no espelho do banheiro. Ah, que se dane tudo, pensa, enquanto tira a tampa
de seu batom vermelho favorito e aplica duas camadas. Arruma o cabelo,
depois corre até o quarto para encontrar um belo colar e borrifar um pouco
de perfume. Por mais que não goste de estar errada, precisa admitir que
Frieda tem uma atitude melhor do que a dela, mais coragem. Desde quando
se tornou tão velha a ponto de abrir mão do próprio senso de aventura? Em
algum ponto ao longo do caminho, ela se permitiu navegar nas águas mais
calmas da vida, avançando como uma velha barcaça.
Bem, não hoje à noite. Jean-Paul ficará bem sozinho por uma hora se
ela deixar o rádio ligado (ele parece gostar do tom educado e contido da
estação de notícias). Enquanto isso, ela vai incorporar a nova amiga e sair
para tomar um drinque com bastante gelo enquanto observa as pessoas
passando. Talvez até leve também um caderno e um lápis bem apontado e
desenhe alguns transeuntes, como sempre gostou de fazer. Por que não?
Suas mãos ainda não desistiram completamente dela.
– Vou me divertir, Jean-Paul! – declara Adelaide, pegando a bolsa
alguns minutos depois. – Será que ainda consigo me lembrar de como se faz
isso?
Capítulo Vinte e Sete

Quando chega sábado, Jess está mais do que pronta para uma pausa no
trabalho do livro de memórias de Adelaide – e também para ter uma folga
da própria artista, por sinal. Por mais incrível que seja mergulhar na vida
fascinante de outra pessoa e em todas as histórias surpreendentes, a
experiência com certeza é menos incrível quando a pessoa em questão fica
o tempo todo fazendo pedidos inesperados que não fazem parte da
descrição do trabalho. Como comprar peixe fresco, carne e fruta no
mercado (“Está tão quente... e estou muito cansada hoje”). Ou passar a ferro
uma pilha de panos de prato (“Não sei passar roupa!”). Ou ainda passar o
aspirador na sala (“O Jean-Paul perde muito pelo nessa época do ano e a
minha vista não está boa para ver todos. Você não se importa, não é?”).
Para ser sincera, Jess não se importa muito – por um lado, está mesmo
muito calor, e os tornozelos de Adelaide de fato estão muito inchados, e se
ela diz que está cansada, Jess acredita. Então não se importa em passar
roupa nem em aspirar o chão, porque Deus sabe que já é especialista
naquelas tarefas. É só que... Ora, ela tem outras coisas para fazer. Como
escrever um livro, o trabalho pelo qual está sendo paga. Mas como pode
dizer não?
Talvez o aborrecimento de Jess seja em parte porque ainda não
conseguiu dar uma olhada no guarda-roupa, tampouco consegue imaginar
uma forma de fazer isso sem algum subterfúgio caprichado. O quarto de
Adelaide fica no último andar do apartamento e não há absolutamente
nenhuma razão para Jess subir até lá. Além do mais, ela não se considera
uma pessoa com qualquer talento para a espionagem – é barulhenta,
desajeitada, e vai se denunciar em dois segundos se tentar bisbilhotar.
Também se sente perturbada depois do telefonema de David na outra
noite... os possíveis ecos da revelação ainda ressoam na sua mente. Ele vai
ficar bem, não vai? David joga futebol com os amigos toda semana, corre e
anda de bicicleta. E come de forma saudável. Mas ela não consegue deixar
de se preocupar. Depois de passar tantos meses tentando se desapegar dele,
tentando se reinventar fora do casamento dos dois, é desconcertante vê-lo se
apoiando nela de novo, como se ainda fossem marido e mulher. Ou é
egoísmo da parte dela? Provavelmente.
Ainda assim... David vai voltar para casa com Edie e Polly hoje – na
verdade, Jess se dá conta de que eles devem estar voando naquele exato
momento. Ele vai a uma consulta médica e terá algumas respostas.
Enquanto isso, o membro restante da família conseguiu chegar bem a Nice
no dia anterior (muito bem, Mia), onde está com as três melhores amigas,
com sorte prestes a ter uma semana realmente divertida sem se meter em
muitos problemas. Ou em nenhum, de preferência.
Agora Jess tem o fim de semana só para si e pretende aproveitá-lo ao
máximo. Ela passou uma manhã agradável no ambiente refrigerado do
Pompidou, passeando pela seção de arte contemporânea, tentando refinar
sua cultura, especialmente em relação aos colegas de Adelaide, e agora está
a caminho de encontrar Alain. O plano é irem juntos até a “Pequena
África”, como é conhecida a região onde está acontecendo o dia aberto ao
público da oficina administrada pelo pai de Beatrice.
A Rue de Rivoli está lotada de pessoas fazendo compras a essa hora de
sábado, e Jess desvia com agilidade pelas ruas laterais para evitar a
aglomeração, até voltar ao Marais. Ela se pergunta o que Luc tem feito e se
lembra da noite de quarta-feira em Belleville, de como tinha achado
agradável a companhia dele. Luc entrou em contato algumas vezes para
passar informações que ela havia pedido, mas não perguntou sobre o
encontro dela. Talvez seja melhor assim. Ninguém gosta de admitir que
levou um bolo.
Falando em encontros com franceses, ela se dá conta de que só tem
tempo para comprar algo para comer em uma padaria antes de se encontrar
com Alain. Mas, no instante seguinte, Jess percebe que seu celular está
tocando no fundo da bolsa e fica surpresa ao ver o nome da filha mais velha
na tela.
– Oi, meu bem! Tudo certo? Como está Nice esta manhã? – Ela
continua seguindo em direção à padaria na Rue des Rosiers, uma
recomendação de Beatrice, mas aguça os ouvidos quando ouve o que parece
ser uma fungada do outro lado da linha. – Mimi? Você tá bem, filha?
– Ah, mãe – diz a filha com um soluço. – Deu tudo errado. Eu tô...
O que quer que ela esteja tentando dizer se perde em um gemido, e
Jess para na rua, alarmada.
– O que aconteceu? Você tá machucada? Onde você tá?
Imagens terríveis invadem sua mente – um acidente de vespa, pensa,
com o coração disparado. Um assalto. Uma péssima decisão em relação a
uma tatuagem.
– Eu... tô indo pra Paris – anuncia Mia, ainda soluçando. – Estou no
trem.
Jess pisca várias vezes, tentando processar a informação.
– Mas... as suas férias – argumenta tolamente. – Com a Clara, a Erin
e...
– Não diga os nomes delas! Odeio todas! – brada Mia, as palavras
saindo em um fluxo nervoso. – Você não vai acreditar no que elas fizeram!
– Mas, meu amor... – No que ela não vai acreditar? Que diabo
aconteceu? Jess tem um milhão de perguntas, mas opta pela mais urgente. –
Você disse que está vindo pra Paris?
Ela ouve o som abafado de uma adolescente chorosa assoando o nariz.
– Sim, pra Gare de Lyon – responde Mia, pronunciando “Lyon” mais
parecido com “leão”. – Mãe, posso ficar um pouco com você? Eu tô me
sentindo tão... – Uma fungada gigantesca encerra aquela frase em particular.
– Eu não acredito que ele teve coragem de fazer aquilo... Estou tão
envergonhada, mãe, e humilhada e...
– Ah, meu bem.
Então tem alguma coisa a ver com aquele garoto. Aquele maldito
Zach, que Jess tinha visto pela última vez saindo correndo do quarto de Mia
– o garoto cujo lindo pescoço Jess pretende torcer na primeira chance que
tiver. E agora a filha está chorando dentro de um trem, em algum ponto
entre Nice e Paris, sozinha.
– É claro que você pode ficar comigo – diz Jess, a mente em disparada
enquanto tenta encaixar seus dois mundos. – Quer dizer, eu vou estar
trabalhando a maior parte do tempo...
Ela também vai sair com Georges na segunda-feira, se o encontro
realmente acontecer dessa vez, e planejou conhecer a irmã de Luc,
Catherine, e Henry, que aparentemente vão chegar à cidade hoje. Todas as
coisas de que mais gostava em sua gloriosa viagem de independência
parecem se afastar lentamente diante de seus olhos, um sonho se
despedaçando e evaporando. Mas Mia tem prioridade.
– Não se preocupa – consola Jess, passando a mão pelo cabelo. – Nós
vamos dar um jeito. Agora me diz a que horas chega o seu trem, vou te
encontrar na estação. Vai ficar tudo bem, tá ouvindo?
✳ ✳ ✳

Felizmente, Alain se mostra solidário quando Jess conta sobre o telefonema


de Mia, as lágrimas, a chegada iminente da filha, e se desculpa por não
poder mais acompanhá-lo à “Pequena África”.
– Meus filhos já são adultos – diz ele –, mas me lembro muito bem da
turbulência da adolescência. Tudo é um drama, não é mesmo? É claro que
você precisa encontrar a sua filha, Jess. A família vem em primeiro lugar.
Ele vai sozinho e Jess deixa escapar a energia nervosa em um longo
suspiro. Muito bem, então. Ela tem pouco menos de duas horas antes de
encontrar Mia. Duas horas para ser apenas Jess, antes de vestir novamente o
sobretudo um pouco mais pesado de “mãe”. Sua mente se volta para o
computador e as pilhas de anotações que a aguardam no hotel. A verdade é
que deveria aproveitar esse tempo para dar uma adiantada no trabalho, visto
que seu tempo está prestes a ser seriamente afetado de agora em diante.
Por outro lado, pensa Jess, essa pode ser sua última oportunidade, por
algum tempo, de se permitir um momento agradável sozinha... De se deixar
ficar ociosa ao sol com um livro e possivelmente um ótimo sorvete. Decisão
tomada. Ela vai curtir sua última tarde livre em Paris, e ponto-final. Depois,
vai até a Gare de Lyon encontrar a filha chorosa e descobrir como Mia
pretende se vingar lenta e dolorosamente dos que a magoaram.
✳ ✳ ✳
Mais tarde, ela está na Gare de Lyon, esperando a chegada do trem de Nice,
quando recebe uma mensagem de Beatrice. Acho que seu amigo está se
divertindo, escreveu ela, e mandou junto uma série de fotos: Alain espiando
por cima do capô de um carro aberto, com alguns outros homens da idade
dele. Alain tomando café em um espaço ao ar livre, concentrado na
conversa com outro homem. Um homem negro alto, com barba grisalha,
vestindo uma camiseta onde se lê SENEGAL CALLING (o pai de Beatrice,
Moussa, sem dúvida), se dirigindo a vinte ou trinta participantes, com o
rosto animado, os braços estendidos como se fizesse uma apresentação. O
rosto de Alain, de perfil, aparece no canto inferior direito da imagem, e ele
está ouvindo atentamente.
Jess está tão acostumada a ver o novo amigo sozinho que demora um
pouco para contextualizá-lo nesse novo ambiente. E, obviamente, uma
imagem às vezes conta apenas metade da história – até onde ela sabe, ele
pode ter passado o resto do tempo entediado –, mas seu coração se enche de
alegria ao ver esses vislumbres de um Alain que parece se divertir. Pelo que
Beatrice explicou, a oficina não se limita a consertar coisas. Equipes de
voluntários participam juntas de trabalhos comunitários – pintando escolas
e lares de idosos, por exemplo. Plantando árvores em uma nova “floresta
comestível”, no 20o arrondissement. Há aulas de culinária para homens que
nunca aprenderam a cozinhar e se viram vivendo sozinhos e despreparados
para cuidar de si mesmos. Há um grupo de corrida e um clube de ciclismo
para amantes desses esportes. Mesmo que Alain não faça os melhores
amigos da vida lá, com sorte pelo menos vai conhecer algumas pessoas com
quem pode conversar sobre o momento que está passando, além de se
envolver em atividades interessantes. Isso. Bom trabalho, Jess. Ela ajudou
alguém.
– Oi, mãe – diz uma voz, e ali está a filha na frente dela, bronzeada das
férias italianas, com os cabelos presos com uma bandana turquesa que Jess
não reconhece e uma enorme mochila vermelha quase engolindo seu corpo
esguio. – Bonjour – acrescenta Mia timidamente.
– Oi! – Jess a envolve em um abraço, do jeito que dá com aquela
mochila gigantesca se enfiando entre as duas. – Oi, linda. Você tá bem?
Ela beija o topo da cabeça da filha, sentindo a forte conexão visceral
entre elas com a mesma intensidade do momento em que a filha foi
colocada pela primeira vez junto ao seu seio nu. Naquela época, quando
estava com os olhos turvos de cansaço e o corpo respingado de sangue do
parto, Jess nunca teria acreditado se alguém lhe mostrasse uma foto do
momento atual – ela abraçando aquela jovem de pernas compridas com os
cabelos ruivos e piercings, os braços fortes e jovens, as panturrilhas
douradas e os tênis de cano alto sem dúvida fedorentos – e dissesse: Escuta,
vocês duas vão se encontrar em Paris daqui a alguns anos. Você vai estar
escrevendo o livro de memórias de uma artista famosa; ela vai ter viajado
sozinha por seis horas de trem. E, ainda assim, ali estão elas.
– Ah, meu bem – fala Jess, ao sentir o corpo da filha se sacudir em um
soluço.
Porque, quando se tem 17 anos, é possível aguentar firme por algum
tempo – no confronto com os amigos, durante a caminhada chorosa até a
estação, em uma longa viagem sozinha por outro país –, mas algo em
receber a gentileza de alguém que te ama pode fazer a pessoa desmoronar
em um instante.
– Tá tudo bem. Vai ficar tudo bem. O que quer que tenha acontecido, a
gente vai dar um jeito.
Mia se afasta depois de um instante e funga, com os olhos úmidos. Ela
parece exausta, Jess repara com pena. Não importa a energia que a fez
chegar até ali, já está se dissipando.
– Você comeu alguma coisa? – pergunta Jess. – Quer beber algo?
Vamos caminhar um pouco ao longo do rio, em direção à Notre-Dame...
tem um milhão de lugares pra gente sentar e conversar. Quer que eu
carregue essa mochila um pouquinho?
Mia enxuga as lágrimas com os nós dos dedos.
– Tá tudo bem. Obrigada, mãe.
✳ ✳ ✳

Já é meio da tarde e o ar está úmido, o céu nublado. Parece que uma


tempestade está ganhando força quando Jess sai da estação com a filha, e as
duas seguem em direção ao rio Sena. Há hordas de turistas em cada esquina
– aglomerando-se em frente às lojas; parando para tirar fotos uns dos
outros, com sorrisos largos no rosto; a bordo dos barcos turísticos, sentados
em filas, protegidos por chapéus de sol.
– Meu Deus – murmura Mia –, é como se o mundo inteiro tivesse
vindo pra cá de férias.
Depois de caminharem por algum tempo, elas encontram um bar à
beira do rio que tem tudo o que a dupla “mãe de meia-idade e filha
adolescente perturbada” precisa: uma mesa ao ar livre desocupada, uma
vitrine com bolos de ótima aparência e uma banda grunge de trilha sonora.
Vendo que todas as necessidades delas serão atendidas ali, Mia desvencilha
os braços da mochila e a deixa cair no chão com um baque.
– Então – diz Jess, depois de pedirem as bebidas e algo para comer –,
quer me contar o que aconteceu? Quem devo colocar na minha lista
de alvos?
Ela finge empunhar uma arma imaginária, estreitando os olhos na
mira. Está brincando, mas nem tanto. Jess se lembra de quando Edie estava
sofrendo bullying no sétimo ano e ela, a mãe, fantasiava jogar as pirralhas
envolvidas no chão, enfiar os polegares nos olhos delas, chutar suas
barrigas e seguir em frente – até que se lembrou de que as ditas pirralhas
eram meninas de 11 anos, e ela era supostamente uma adulta responsável.
Ainda assim... que ninguém se metesse entre aquela leoa e seu filhote, ou ia
se arrepender.
Mia franze os lábios.
– Não é brincadeira, mãe – retruca, com os olhos fixos na mesa.
– Desculpa. Eu não estava sendo engraçadinha. – Não, ela estava
falando sério. – Vamos lá, me conta. O que aconteceu?
A menina deixa escapar um suspiro pesado.
– Bem, o que aconteceu foi que...
Mia apoia o queixo na palma da mão e dá uma rápida olhada na
direção da mãe antes de abaixar os olhos novamente para a mesa de metal.
Há uma expressão nua e crua de tristeza em seu rosto, e Jess sente o
estômago se revirar. Ah, Deus, o que está acontecendo? A Mia não está
grávida, não é?
– O que foi, querida? – pergunta, apreensiva.
– O que aconteceu foi que, quando a gente estava junto... – O rosto de
Mia fica muito vermelho e sua voz sai em um murmúrio. – O Zach tirou
umas fotos minhas.
Ah, não. Portanto, não grávida, ao que parece, mas com fotos na
internet. Em um disco rígido, a nudez gravada para sempre em pixels.
Sinceramente, quem gostaria de ser um adolescente nos dias de hoje?
– Que tipo de fotos? – indaga Jess, embora já imagine que não se trata
de uma selfie normal, completamente vestida. Merda.
– Uns...
Mia engole em seco, e Jess sente os olhos marejarem de repente,
quando olha para o rosto da filha e vê todas as outras Mias que ela foi um
dia. O bebê radiante gorgolejante, com um único dente perolado na
boquinha. A menina de 3 anos com o gorro de lã vermelho tão amado que,
quando Jess ia checar como ela estava à noite, a encontrava dormindo com
ele. Aos 7 anos, com longas tranças e um espaço vazio entre os dentes. E
agora olhe para ela – linda e desengonçada com o corpo bronzeado, o
piercing roxo cintilante no nariz, tropeçando nas palavras que está tentando
dizer.
– Uns nudes – consegue dizer Mia, por fim.
– Entendi – diz Jess, determinada a se mostrar neutra, mesmo que
esteja morrendo de vontade de falar o nome da filha em voz alta, de gritar
com ela por ser tão imprudente. – Deixa eu adivinhar, ele prometeu que não
mostraria a ninguém. Que as fotos eram só para vocês dois.
A cabeça baixa de Mia é resposta suficiente.
– Eu sei que foi burrice da minha parte, mãe, por favor, não me trata de
um jeito condescendente, não me diz coisas que eu já disse a mim mesma –
responde ela, cerrando os punhos. – Não é como se fosse culpada por não
ter tido um ótimo modelo de relacionamento.
– Ei! – diz Jess, magoada. – Estou fazendo o melhor que eu posso
aqui, tá certo?
A garçonete aparece ao lado da mesa, como um árbitro anunciando o
intervalo e servindo os pedidos delas: uma Coca Diet, um croque-monsieur
e fritas para Mia, um doce de maçã e um café para Jess. Mia ataca
vorazmente seu sanduíche, deixando escapar um gemido de “QUEIJO”,
como se estivesse morrendo de fome, e cabe a Jess retomar a conversa mais
uma vez. Ela respira fundo.
– Então, presumo que outras pessoas tenham visto as fotos – conclui,
estremecendo em nome da filha.
– Não, mas... – Lágrimas cintilam nos olhos de Mia. – O Zach fica o
tempo todo dando pistas nas redes sociais dele de que tem as fotos, e todo
mundo do nosso ano na escola está dando força pra ele postar. Quando
encontrei a Erin e as outras meninas, até elas estavam rindo e debochando,
perguntando se eu podia dar uma prévia para elas. – Mia larga o sanduíche
abruptamente e pega um guardanapo para enxugar os olhos úmidos, antes
de continuar com a voz baixa e trêmula: – Todo mundo sabe, mãe. E tá todo
mundo rindo de mim. E se ele postar e todo mundo acabar vendo? Não vou
poder voltar pra escola. Não quero nem voltar para Canterbury. Só quero...
– Ela coloca a cabeça entre as mãos. – Quero morrer.
– Ah, meu amor – diz Jess, pousando a mão no braço da filha. Por
Deus, ela não inveja os adolescentes de hoje com vida social na internet,
incapazes de relaxar depois que saem da escola, já que o resto do mundo
está sempre presente em um smartphone. – Esse Zach, sinceramente, que
merda de pessoa ele se provou ser.
– Eu sei. – Outra fungada enorme. – E as minhas amigas também. Não
são mais minhas amigas.
Uma nova lágrima escorre pelo rosto dela.
– Ele ameaçar você assim... isso está dentro da lei? Tenho certeza de
que os pais desse garoto não veriam com bons olhos o comportamento dele
– continua Jess. – Muito menos a polícia. Aposto que a escola também não
ficaria feliz.
– Mãe! Nem pensa em chamar a polícia! – grita Mia, parecendo
horrorizada. – Ou falar com a escola. Ai, meu Deus, eu sabia que não
deveria ter te contado. Essa é a última coisa que eu quero.
– Tá certo, mas... – Jess se lembra, desolada, do bordão de Edie, “os
dedos-duros se dão mal”, mas com certeza às vezes é a única opção, não? –
Tá certo, bem... tem algum jeito de roubar o celular dele? – sugere, tentando
pensar rápido. – Daí destruir o aparelho, jogar o cartão SIM no fogo,
invadir a nuvem dele ou seja lá como se chama? Ou ficar do lado do Zach
com uma arma apontada para a cabeça dele até ele apagar as fotos?
Mia olha irritada para ela.
– Isso tudo é uma grande piada pra você, né? Pelo amor de Deus, mãe!
– Não! Por que você tá dizendo isso? Eu tô tentando ajudar!
– Como? Fazendo sugestões idiotas sobre armas e colocar fogo nas
coisas? – Mia enfia o croque-monsieur na boca e mastiga furiosamente. –
Deixa pra lá.
Elas estão de volta ao território familiar do “você não sabe de nada”, e
Jess expira com força, com a sensação de que deu a cartada errada. Com
certeza é muito mais fácil responder aos problemas enviados para a
“Querida Jess” em sua coluna de consultório sentimental.
– Desculpa – diz Jess, com saudades dos dias em que conseguia
resolver qualquer problema das filhas com um abraço consolador. –
Poderíamos pedir ao seu pai pra dar uma circulada e ter uma conversa com
ele, talvez?
– Não – recusa Mia com um gemido. – Olha, esquece que eu contei
qualquer coisa, tá? Não quero mais falar disso.
– Tudo bem. – Jess entende a mensagem de “recuar”, embora sua
mente continue pensando em possibilidades. Deve haver algo que ela possa
fazer. Nesse meio-tempo, decide que se mostrar otimista e prática é sua
melhor opção imediata. – Bem, não podemos mudar o que aconteceu, mas
agora você está aqui comigo... e sabe qual é a melhor vingança? Se divertir.
Aproveitar muito a vida – sugere ela. – Temos Paris inteira aqui, aos nossos
pés, e estou de folga até segunda-feira. Podemos fazer o que você quiser.
– Vou conhecer a Adelaide? – pergunta Mia, se animando. – É só que
andei pesquisando mais sobre a morte daquele cara e tenho perguntas pra
ela. Pro podcast que vou fazer.
Pelo amor de Deus.
– Bem... se você conhecer a Adelaide, tem que me prometer que não
vai começar a interrogar a mulher. E também não tenho certeza se quero
que você faça um podcast de verdade sobre isso. Ela tem um sobrinho com
muita intimidade com o sistema jurídico e ele provavelmente
entraria com um belo de um processo. – Luc não faria isso, obviamente,
mas Mia não precisa saber. – Promete?
Jess vê um brilho nos olhos de Mia por um instante, em seguida a
menina responde:
– Prometo. – Elas sorriem uma para a outra. – Por sinal, a gente pode
andar na roda-gigante enquanto estou aqui? – pergunta. – Ah, e ir à
Boulangerie Moderne?
– Qual é essa?
– É onde a Emily de Emily em Paris sempre vai tomar café da manhã...
e é uma padaria de verdade – diz Mia, empolgada. – No caminho pra cá,
descobri um site em que dá para ver todos os lugares icônicos da série.
Como o café onde a Emily e a Mindy comem, o parque onde ela corre e
onde fica o prédio do trabalho dela...
Jess balança a cabeça. Nunca viu a série, nada disso significa algo para
ela, mas se vai deixar a filha feliz...
– Com certeza – concorda. – Podemos fazer todas essas coisas. Agora
come! Vamos deixar a sua mala no hotel e então teremos toda uma cidade
para explorar.
Quanto ao Zach, é melhor ele tomar cuidado, pensa Jess. Porque de
uma forma ou de outra ela vai dar um fim naquela maldade, é só esperar
para ver.
Capítulo Vinte e Oito

– O mundo da arte – diz Fiona Bruce. – Um lugar de fortuna absurda. Mas


abaixo da superfície esconde-se o perigo...
É início da noite de sábado e Adelaide está de novo em sua chaise-
longue, com os pés para cima e uma tigela de uvas nas mãos, assistindo a
outro episódio de Fake or Fortune. Qualquer coisa para evitar o trabalho
doméstico, pensa. A pia da cozinha ainda está cheia de pratos, e o cesto de
roupa suja já está transbordando, enquanto tufos de pelo de Jean-Paul se
elevam do chão da cozinha sempre que sopra uma brisa. Ao menos ela
enfim recebeu um retorno da faxineira de Frieda, Clothilde, mas a mulher
disse, um tanto rispidamente, que só tem disponibilidade na sexta-feira, é
pegar ou largar. Sexta-feira é melhor do que nada, mas até lá ainda falta
quase uma semana. Enquanto isso, Adelaide vai ter que descobrir como usar
o aspirador e a máquina de lavar. Inferno! Talvez depois do programa, diz a
si mesma, de um jeito nada convincente.
Nesse episódio são apresentadas três pinturas que são supostamente de
Turner – e Adelaide não se lembra de já tê-las visto antes. Conforme o
programa avança, ela entende a razão: é porque as três telas aparentemente
foram pintadas em Margate, onde Turner tinha uma amante, a Sra. Booth.
Duas das pinturas são chamadas Off Margate e Margate Jetty, e Adelaide
precisa fechar os olhos brevemente ao ouvir isso. Ela nunca mais voltou a
Margate desde aquelas férias terríveis em que William morreu, e sempre
tenta evitar ver fotos da cidade ou mesmo ler sobre ela.
Mas é só um lugar, diz a si mesma, com a mão ainda erguida sobre o
controle remoto antes de colocá-la de novo no colo. Um lugar na tela da TV,
por sinal. Não pode machucá-la a essa distância, quando o pior já
aconteceu, quase setenta anos atrás.
Palavras corajosas, mas não demora muito para que as câmeras
cheguem a Margate, e lá está a praia mais uma vez em sua tela, com o
amado céu “azul Kent” de Turner como uma ampla faixa de luz acima da
orla marítima. Adelaide percebe que está prendendo a respiração. Ali está.
Foi ali que aconteceu.
É estranho, mas depois de se abrir com Jessica sobre aquele dia
terrível, ela consegue sentir um pouco mais de compaixão por seu eu mais
jovem, como se a ferida tivesse começado a cicatrizar. Você era só uma
criança, dissera Jessica, e o engraçado é que Adelaide nunca levou esse fato
em consideração antes. Mas é relevante. Ela era mesmo só uma criança.
Uma menina que queria continuar jogando críquete. Não fez nada de
errado.
O ar escapa por suas narinas, e é como se um pedaço de gelo que
estava alojado em seu coração durante todas essas décadas rachasse e se
rompesse. Derretesse. Alguma coisa no fato de estar revivendo os velhos
tempos para o livro de memórias a está mudando, pensa Adelaide. É como
se ela estivesse abrindo as cortinas de um quarto escuro, lembrando a si
mesma de que existe um mundo lá fora. De que, mesmo em tempos difíceis,
a vida ainda pode ser – na verdade, vem sendo – incrível. De certa forma, é
uma pena que ela tenha evitado revisitar Margate, pois o lugar agora abriga
a maravilhosa galeria Turner Contemporary, além da nova e empolgante
escola de artes de Tracey Emin. (Adelaide tem uma queda por Tracey Emin,
cujo trabalho admira muito.) Ela se entrincheirou em seu próprio espaço,
como se todos os outros lugares estivessem fechados para ela. Mas
conversar com Jessica sobre suas viagens – à Galeria Uffizi, a Nice, até a
Margate – despertou algo em seu íntimo, levantando dúvidas sobre se ela
voltará a viajar para esses lugares um dia. Já faz tempo que ela presume que
não, mas por que tem que ser assim? O que a impede?
O telefone toca e ela pausa o programa para atender. É Lucas. O
sobrinho parece reparar em seu humor estranho, porque, em tom um pouco
preocupado, pergunta:
– Você tá bem?
– Ah... – Adelaide procura alguma desculpa, porque não está disposta a
contar a verdade. – Para ser sincera, estou um pouco farta dessa situação em
relação à limpeza – diz, e seus olhos pousam na camada de poeira ao longo
da lareira. – A Marie-Thérèse me abandonou há alguns dias e estou tendo
dificuldade em conseguir uma substituta. Vai vir uma pessoa aqui no final
da semana, mas...
– Humm – diz ele. O sobrinho gosta de ter um problema para resolver,
e é um grande alívio quando ela o escuta dizer: – Deixa comigo, vou ver o
que posso fazer. Mas, antes disso, a Catherine e o Hen estão hospedados
aqui. Estamos prestes a sair para jantar e queria saber se você gostaria de se
juntar a nós.
– Ah – fala Adelaide novamente.
Tempos atrás, seu instinto costumava ser dizer “sim” a qualquer coisa
– mais um drinque, uma festa, uma encomenda de trabalho –, mas
atualmente a palavra “não” está sempre na ponta da língua. Não, estou
cansada demais. Não, estou velha demais. Quando isso aconteceu? Quando
parou de dizer “sim”?
– Tenho uma reserva no Chez Janou, podemos colocar mais uma
cadeira.
Adelaide olha de relance para a tela da TV, onde os apresentadores
acabam de chegar à Tate Britain, ainda com a missão de determinar a
procedência daqueles supostos Turners. Não foi bom sair na noite anterior,
para tomar aquele gim-tônica e fazer a sessão improvisada de esboços?
Gostou de voltar a interagir com a cidade em que morava em uma noite de
verão. Ela ainda pode dizer “sim” à vida, certo?
– Sim, tudo bem – responde, em um impulso.
O Chez Janou costumava servir um prato muito bom de peito de pato
com alecrim, lembra Adelaide. Sem mencionar a coleção de pastis do lugar.
E ela não vê Catherine há... meu Deus, cinco anos ou mais. E torce para que
o filho da sobrinha, Henry, não seja tão chato quanto o ex-marido de
Catherine. De um modo geral, o clã Brockes não parece muito bom em
relacionamentos duradouros.
Adelaide pega o controle remoto e desliga a TV. Já basta de Margate
por um dia. Ela e Luc combinam como se encontrar, então ela se levanta,
subitamente revigorada com a ideia de sair mais uma vez.
– E, para você, a estação de notícias de novo, velho amigo – diz a
Jean-Paul, que também se levanta, na esperança de uma caminhada não
programada. – Mas, se for bem bonzinho, trago um pouco de pato para você
enrolado no meu guardanapo. E um pouco das minhas batatas fritas.
Capítulo Vinte e Nove

– Mia, o que acha de ter um trabalho enquanto está aqui? – pergunta Jess no
domingo à noite.
Elas estão prestes a sair para comer, e o quarto que agora
compartilham – o hotel foi bastante flexível com a situação – está com
várias roupas de Mia espalhadas, peças que foram experimentadas e
rejeitadas. Enquanto espera que a filha conclua o que parece ser uma sessão
exaustiva de aplicação de maquiagem, Jess está sentada em seu lado da
cama, lendo uma mensagem que acabou de chegar.
– Que tal ganhar alguns euros por pouco tempo de trabalho todos os
dias?
Mia faz um biquinho diante do espelho.
– Fazendo o quê?
As duas se divertiram muito juntas até agora, mesmo que tenham
passado grande parte do tempo visitando lugares que aparecem em Emily
em Paris, para Mia postar em sua conta do Instagram (“Você não acredita
como está todo mundo morrendo de inveja de mim!”). Ela parece abalada
em alguns momentos, mas pelo jeito as garotas com quem deveria passar as
férias pediram desculpas, e uma delas disse até que ameaçou denunciar
Zach à polícia se ele não excluísse as fotos e deixasse Mia em paz. (Ao que
parece, não há problema em amigas fazerem esse tipo de coisa, mas as mães
não têm permissão.) Enfim, houve reconciliações e amizades reconstruídas.
Jess espera que dali a poucos dias toda aquela história sejam águas
passadas. Caso isso não aconteça, sem que Mia saiba, Jess conseguiu o
número da mãe de Zach, graças a Becky, e está com tudo pronto para fazer
uma ligação, se for necessário. A informação que ela recebeu de Becky é
que a mãe de Zach, Rose, é uma feminista de carteirinha que partiria com
tudo para cima do filho se soubesse o que ele anda fazendo. De um jeito ou
de outro, a sororidade está a seu lado.
– Boa pergunta – responde Jess. – Bem, tudo começou, e espero que
você não se incomode, porque eu perguntei ao Luc, sobrinho da Adelaide,
se ele precisava de ajuda no arquivo na próxima semana, tendo você em
mente. Só para você não ficar entediada, sem ter o que fazer, enquanto eu
estiver trabalhando com a Adelaide – acrescenta, quando Mia se vira sem
parecer muito satisfeita.
– Em um arquivo velho e empoeirado? Eca, não, obrigada – diz, e
volta à importantíssima tarefa de curvar os cílios. – Não é esse cara que vai
me processar quando meu podcast for lançado? Talvez seja melhor eu
manter distância.
– Ninguém vai te processar, porque esse podcast não vai acontecer,
lembra? – retruca Jess. – E é uma sorte você não querer trabalhar no
arquivo, porque ele não tem nada para você fazer lá de qualquer maneira. –
O que é bastante justo, reconhece. Jess também não tem certeza se aceitaria
tranquilamente uma desconhecida de 17 anos “ajudando” no trabalho dela.
– Mas vou te dizer quem precisa de ajuda, quem ele acabou de sugerir: a
Adelaide.
– Fazendo o quê? Ajudando com a pintura e outras coisas?
– Não, é para... – Jess hesita, porque já tem certeza de que Mia vai
recusar. – Seria para fazer o trabalho de limpeza. A governanta que
trabalhava para ela foi embora recentemente, então...
– Trabalho de limpeza?
– Só passar o aspirador de pó e lavar a louça. Talvez passar alguma
roupa...
A voz de Jess perde a força, porque ela nem tem certeza de que a filha
sabe passar roupa, menos ainda se ela deveria ter a liberdade de mexer nas
roupas (presumivelmente caras) de Adelaide. Mas então algo lhe ocorre.
Roupas. Armazenadas no guarda-roupa de Adelaide. Desde aquela conversa
intrigante com Marie-Thérèse no banheiro do Le Mélange, Jess está ansiosa
atrás de uma desculpa para espiar lá dentro. Se Mia estiver aspirando o
quarto de Adelaide, então...
– Ah, aceita – insiste Jess. – Ela vai te pagar, obviamente. E talvez
você possa me ajudar também. Fazer um pouco do seu trabalho de detetive.
– Para o meu podcast? É brincadeira, relaxa. – Mia vira a cabeça de
um lado para outro, checando os cílios no espelho. – Quanto ela vai
me pagar?
– Vou descobrir – responde Jess, embora no instante seguinte decida
manter silêncio sobre o mistério do guarda-roupa. Se a pintura lá dentro for
tão tenebrosa assim, ela provavelmente não deveria encorajar Mia a
bisbilhotar. A menos que queira ser responsável pelos pesadelos da filha
pelo resto da vida. – Então, está interessada? Hipoteticamente?
– Se ela não tirar o meu couro nem gritar comigo, e se eu não tiver que
fazer nada, tipo... nojento, então... tá certo. Acho que sim.
– Ótimo – diz Jess, e se volta de novo para o celular. – Ah, além disso,
o sobrinho do Luc, o Henry, está aqui em Paris essa semana, se você quiser
sair com alguém da sua idade. Ao que parece, ele tem 18 anos.
– Henry, sobrinho do sobrinho... parece tão empolgante – fala Mia, em
tom sarcástico. – Não, obrigada.
– Como quiser.
Jess está prestes a responder a Luc quando percebe que um novo e-
mail chegou em sua caixa de entrada. É de alguém chamado Raph
Claremont e, como não conhece ninguém com esse nome, já está prestes a
ignorá-lo como spam quando repara no que está escrito no assunto: Re:
Margie Claremont. Meu Deus. Finalmente uma resposta. Ela abre o e-mail
na mesma hora.

Prezada Jessica,
Obrigado por seu e-mail para a minha mãe, Margie, sobre
um desenho que ela fez de Adelaide Fox. Meu nome é Raphael e
sou o filho mais velho de Margie. Antes de prosseguir, lamento
dizer que tenho más notícias...

– Ah, não – lamenta Jess quando lê aquilo.


– O que foi agora? Ela passou o trabalho para outra pessoa? – arrisca
Mia.
– O quê? Não – responde Jess, distraída, ainda concentrada na
mensagem.

A minha mãe está muito doente e, embora se lembre do


desenho que você mencionou (com muito carinho, devo
acrescentar), ela está morando comigo e com a minha esposa
enquanto se recupera e, assim, não tem como revirar seus
arquivos em busca do desenho. Desculpe não poder ser mais útil
neste momento. Desejamos a você tudo de bom. Raph e Margie.

Margie está doente... essa é realmente uma má notícia. Qual será a


gravidade?, pergunta-se Jess, mordendo o lábio. Grave o bastante para que
precise de cuidados enquanto se recupera. Mas o trecho “enquanto se
recupera” lhe dá esperança de que pelo menos não seja nada terminal.
Quanto à frase “com muito carinho”... ora, isso também é motivo para Jess
se sentir otimista. Se Margie não se sente consumida pelo ódio e pelo
ressentimento em relação à antiga amiga, então certamente há um caminho
de reconciliação para as duas, certo? Não está tudo perdido, não é?
✳ ✳ ✳

Na manhã seguinte, Jess ainda não decidiu o que deve fazer – se é que deve
fazer alguma coisa – com as novas informações que tem sobre Margie.
Quer contar a Adelaide o que sabe, na esperança de que isso possa levar a
artista a tomar alguma atitude e deixar o passado para trás – se um bando de
adolescentes furiosas consegue resolver suas diferenças, por que duas
mulheres de quase 80 anos não conseguiriam, afinal? –, mas já sabe que
Adelaide não vai ficar nada feliz quando souber do envolvimento de Jess.
Ela ainda está pensando no assunto quando sai do hotel com Mia.
Beatrice está na recepção após um fim de semana de folga e, ao vê-las, solta
um gritinho de empolgação.
– Ahh! A sua filha... Mia, certo? Nossa, você é linda, ma chérie! E a
sua maman, ela tem tanto orgulho de você. Não parou de falar sobre como
você é fantástica!
Isso é obviamente um exagero, mas Jess aprecia o comentário, porque
a filha fica radiante de um jeitinho tímido.
– Oi – diz Mia. – Você deve ser a Beatrice. A minha mãe também falou
sobre você.
– A sua mãe gosta de falar, hein? Mas gostamos disso nela, certo? –
Beatrice ri. – A propósito, Jess, sobre o seu homem da pintura – continua
ela. – O meu tio Babacar acha que ele se parece com um homem chamado
Doof.
– Doof? – Jess sente o peso do desapontamento abatê-la. Afinal, tem
certeza de que nunca ouviu esse nome. – Esse nome não me diz nada.
Beatrice dá de ombros.
– É assim que ele é conhecido... ou era, porque o meu tio acha que o
homem já morreu. E, Jess, fico feliz que você não tenha conhecido esse
cara, porque ele não era uma boa pessoa. – Ela desvia os olhos depressa
para Mia, como se estivesse escolhendo as próximas palavras. – Era
violento, eu acho. Uma espécie de, como vocês dizem... de gângster?
– Gângster, isso. Doof – repete Jess para si mesma, para ver se o nome
lhe traz alguma lembrança, mas nada... Será que ela esteve focando na pista
errada o tempo todo? – Tá certo. Obrigada de qualquer forma.
– Do que ela estava falando? De que pintura? – pergunta Mia enquanto
elas saem do hotel e seguem pela rua.
A jovem está usando camiseta e short, com os cabelos compridos
presos em coques duplos, um de cada lado da cabeça, com sombra verde
brilhante nos olhos e brincos de argola dourados.
– É... – Jess não quer entrar nesse assunto agora. Deveria ter pensado
melhor antes de confiar em um palpite. – Só uma das pinturas de Adelaide.
Achei que tinha reconhecido alguém de muito tempo atrás, da época em que
trabalhei em Paris. Falando nisso – continua ela, porque vai ter que dar a
notícia em algum momento –, vou sair hoje à noite. Com uma pessoa que
conheci naquela época.
Mia lança um olhar para a mãe.
– O quê, um homem? O papai sabe disso?
Às vezes, Mia pode ser definitivamente vitoriana quando se trata da
moral dos pais. E, sinceramente, Jess está cansada de ver as filhas tratando
David como um mártir, enquanto ela é colocada no papel de vilã do século.
– Não, ele não sabe, porque não há nada para saber – responde com os
dentes cerrados. Em seguida, se lembra da ligação da semana anterior e se
pergunta quando será a consulta médica de David. – A pessoa que vou
encontrar, Georges, é um antigo amigo, nada mais. Para com isso! – diz
Jess, rindo, porque Mia está fazendo biquinho e dizendo silenciosamente
“Georges”, de um jeito supostamente sexy. – Enfim, chegamos, esta é a
Place des Vosges, onde a Adelaide mora – fala, feliz por mudar de assunto.
Jess tem sentimentos conflitantes sobre o encontro de hoje à noite –
será mesmo só um encontro entre amigos? Ou mais do que amigos?
– Chique, não é? – continua, e indica a área ao redor com um gesto,
abrangendo a grandiosidade e a simetria das casas de tijolos vermelhos, os
arcos que margeiam a praça, as árvores e os gramados centrais bem
aparados.
Mia faz uma careta.
– É legal – comenta ela. – Mas achei que seria mais elegante. Ela não
é, tipo, super-rica?
Mia anda assistindo a episódios demais de Real Housewives – ela acha
que “elegante” é sinônimo de vidro fumê e cromo, de uma piscina azul no
quintal dos fundos e um Range Rover na frente.
– Toda essa praça foi construída por um rei francês no início dos anos
1600, para sua informação – diz Jess para a filha. – Bem... tá certo que não
foi construída pelas próprias mãos do rei, mas para ele. Difícil ser muito
mais chique do que isso, meu bem.
Elas seguem até a porta de Adelaide, e Jess está prestes a apertar a
campainha quando hesita.
– Então, só para recapitular: a Adelaide pode ser rabugenta, mas, por
favor, não revide. Seja educada, mesmo que ela te irrite. Trata-se de uma
idosa obstinada. E, pelo amor de Deus, não comece a fazer perguntas sobre
o Colin Copeland ou sobre Little Bower, tá certo? Você não está aqui para
fazer uma investigação para um podcast, entendeu?
Mia revira os olhos.
– Sim, manhêêê – responde ela, em tom sarcástico. – Alguma outra
ordem? Devo fazer uma reverência toda vez que sair da sala, como fazem
com a família real? Limpar os sapatos dela com a língua?
– Basta você agir como faz com as suas avós, é só o que eu estou
pedindo. Ou com o professor mais severo na escola. Certo? Muito bem.
Vamos entrar.
Ela aperta a campainha e cai na gargalhada ao ver a expressão
exagerada de garota simpática de Mia, com olhos muito arregalados e um
sorriso falso.
– Perfeito – balbucia Jess, tentando conter a agitação crescente.
Já dentro do apartamento, elas são recebidas por Jean-Paul, e Mia cai
de joelhos na mesma hora e faz um grande estardalhaço com ele. Todas as
filhas de Jess são apaixonadas por animais – ter um cachorro é o objetivo de
vida delas. Até quando Jess estava grávida de Polly, Mia, aos 4 anos,
perguntava se elas não poderiam só comprar um cachorrinho em vez de ter
um bebê. E mantenho o que disse, fala Mia sempre que a história é contada.
– Ai, meu Deus! Você é tão lindo! – elogia ela, enquanto coça atrás das
orelhas triangulares e caídas de Jean-Paul. – Você é um menino tão lindo!
Pode me dar a patinha? Ah, mãe, olha só pra ele! – Não satisfeito em lhe
dar uma pata, Jean-Paul se inclina para lamber o rosto dela e Mia ri,
subitamente parecendo ter 12 anos de novo. – Ei, você está lambendo o meu
blush – reclama ela, se contorcendo e rindo.
– Mia, e essa é a Adelaide – interrompe Jess, com certa ironia. –
Adelaide, minha filha Mia, que vai fazer toda a sua limpeza enquanto
trabalhamos. Tudo o que você precisar que seja feito. Não só brincar com o
cachorro. Certo, Mia?
A garota se levanta com dificuldade.
– Ah. Desculpa – diz ela. – Oi.
– Oi – cumprimenta Adelaide, com o vislumbre de um sorriso. – Na
verdade, se você não se importar de levar esse senhor para um P-A-S-S-E-I-
O mais tarde, me ajudaria muito. – Ela soletra a palavra, mas mesmo assim
Jean-Paul ergue os olhos, ansioso, como se fosse capaz de soletrar tão bem
quanto sabe dar a patinha. Jess percebe que Mia parece tão ansiosa quanto o
cão. – Mas, primeiro, talvez você pudesse dar uma boa arrumada na
cozinha. Deixa eu mostrar onde está tudo...
Jess se senta enquanto Mia sai animada para receber instruções e torce
para que aquilo dê certo. Minutos depois, ela e Adelaide ouvem o som fraco
de música vindo da cozinha.
– Isso é um problema pra você? Posso pedir pra ela abaixar – consulta
Jess, preocupada, mas Adelaide descarta a ideia com um gesto de mão,
parecendo tranquila, então as duas retomam o trabalho.
Cronologicamente, elas estão no fim dos anos 1970, com Adelaide na
casa dos 30. A carreira dela está deslanchando, assim como a das amigas, e
a imprensa começou a chamá-las de as London Bohemians.
– Mesclando todas, como se uma mulher fosse incapaz de ter sucesso
sozinha – comenta Adelaide, irritada.
Não que alguma delas parecesse se importar com a “mescla”, já que
ainda eram uma força a ser considerada. Elas expunham juntas, saíam
juntas para se divertir e continuavam a passar períodos em Little Bower
quando possível. Porém, à medida que várias delas, incluindo Esme e
Margie, começaram a constituir família, essas ocasiões foram se tornando
menos frequentes e um abismo pareceu começar a dividir o grupo. As
procriadoras e as artistas, como supostamente descreveu Rita – o que não
deve ter ajudado em nada.
Adelaide já falou mais sobre Remy a essa altura – a natureza
tempestuosa do relacionamento deles, como ele demorou a se mudar para
Londres para ficar com ela (“A França nunca vai te perdoar por me roubar”,
diz ela, citando-o). O que mais se nota é a crescente falta de respeito de
Remy pelo trabalho de Adelaide, apesar de – ou talvez exatamente por
causa disso – ser muito mais valorizado do que a arte que ele criava.
– Era difícil para ele – admite Adelaide. – Naquela época, os homens
queriam se sentir no comando das mulheres... eram vistos como fracos ou
pouco viris se não dominassem suas esposas ou parceiras.
– Ele não conseguia lidar com o seu sucesso – acrescenta Jess. – E
minou você.
Ela pensa em David, em como o marido jamais conseguia elogiar o
trabalho que ela fazia também, como se isso fosse sugar parte da glória da
carreira dele.
– Sim, ele me minou – repete Adelaide. – E eu deixei que fizesse isso,
o que faz de mim uma tola maior ainda. – Ela está usando uma túnica cinza
e aperta a bainha entre os dedos. – Por que nós, mulheres, fazemos isso? –
se pergunta em voz alta. – Por que toleramos o mau comportamento em
nome do amor? Eu segurei a mão de Remy quando ele estava morrendo,
fiquei ao lado dele até o amargo fim, mas... – Adelaide balança a cabeça. –
Ele nem sempre esteve presente para mim. – Então ela volta seu olhar de
águia para Jess. – Você tem um casamento feliz, Jessica? Se tem, qual é o
seu segredo?
– Não olha pra mim em busca de informações privilegiadas sobre esse
tema – responde Jess, e ergue as mãos, mostrando a ausência de uma
aliança. – Nós nos separamos há pouco mais de um ano. Ele foi infiel e... –
Ela encolhe os ombros, ciente da presença de Mia no cômodo ao lado; e
ciente também da necessidade de ser profissional. Ainda assim, sempre
adorou um bom papo de mulher para mulher. – Isso meio que me quebrou,
pra falar a verdade. Tentamos ficar juntos, mas nisso perdi todo o meu
respeito próprio. Cheguei a um ponto em que não conseguia mais fingir e
disse isso a ele.
– Bom pra você – comenta Adelaide. Um lampejo de compreensão
surge entre as duas. – É de se imaginar que uma artista, entre todas as
pessoas, seria capaz de traçar um limite entre as coisas, mas esse nunca foi
o meu caso. Quando eu descobri, lá em 1980, que Remy havia sido infiel
mais uma vez, também fiquei arrasada. E, como artistas estão sob o
escrutínio do público, todo mundo sabe da nossa vida, todo mundo comenta
aos sussurros sobre a nossa humilhação, a nossa queda. É horrível. – Jess
percebe com pena que as mãos da mulher estão tremendo. – Mas fica pior:
o Remy não apenas foi infiel como também pintou aquele nu incrível da
mulher em questão e incluiu em uma exposição em Berlim... – Ela balança
a cabeça, com olhos endurecidos pela mágoa de décadas. – Bem, você já
deve ter lido a respeito na sua pesquisa, mas resolvi destruir a pintura na
exposição e joguei uma lata inteira de tinta prateada para carro em cima
dela.
Jess ouviu mesmo a história e, além disso, também viu as fotos. Esse é
um momento da vida de Adelaide frequentemente citado em reportagens
sobre a artista, em parte porque foi o início de um grande colapso, que logo
a levou a ser internada em um hospital psiquiátrico. O ano de 1980 foi
traumático para Adelaide em outros aspectos: Jess ouviu boatos de que ela
deu à luz uma criança enquanto estava no hospital, uma criança que havia
desaparecido de sua vida. Também foi o ano do suposto suicídio de Colin
Copeland.
– Aposto que foi uma delícia jogar a tinta daquele jeito, arruinando o
grande momento dele – comenta Jess.
A expressão de Adelaide estava tempestuosa, mas nesse momento seus
lábios se curvam em um sorriso inesperado.
– Com certeza – confirma. – Ninguém nunca me disse isso antes, desse
jeito, mas sim, foi maravilhoso. Eu me senti tão feliz. Como se o poder
corresse por todas as minhas veias.
– Você era boa demais pra ele – afirma Jess.
– E você, obviamente, era boa demais para o seu ex-marido traidor –
responde Adelaide. – Portanto, se precisar de um pouco de tinta...
Jess ri e há uma sensação genuína de amizade no ar, possivelmente a
primeira vez que Jess experimenta isso de verdade ali. Seria assim com
Adelaide e Margie?, ela se pergunta, se lembrando do e-mail. Talvez deva
tentar conduzir a conversa para a velha amiga de Adelaide, para conseguir
dar a notícia sobre a doença de Margie e ver se isso inspira uma ideia de
reconciliação... se tiver coragem, é claro.
– Curiosamente, recentemente encontrei a Coco, a última esposa de
Remy – continua Adelaide, e o sorriso desaparece de seu rosto. – Ela não é
a minha pessoa favorita no mundo, mas pelo menos temos em comum o
fato de termos sobrevivido a ele. Ela me contou que encontrou uma carta
antiga de Remy endereçada a mim, além de uma tela ou outra.
– Nossa – diz Jess, intrigada. – Quando você acha que vai conseguir
pegar essas coisas? Já combinou com ela? – A jornalista hesita quando uma
ideia lhe ocorre, mas resolve falar mesmo assim. – Eu poderia pegar pra
você, caso se sinta desconfortável para fazer isso.
– Obrigada, Jessica, mas a Coco está fora da cidade no momento. É
típico dela... a mulher sabe como me irritar. Talvez ela se arrependa quando
souber do livro de memórias... – Aquele brilho está de volta aos olhos dela.
– Porque uma determinada mulher vai receber chumbo grosso, é só esperar
para ver.
Elas se desviaram do caminho, por mais interessante que tenha sido o
desvio, e Jess tenta conduzi-las de volta a 1978 – antes de Berlim e do
colapso de Adelaide, e uma década inteira antes da entrada de Coco em
cena. Jess não tem interesse em ouvir Adelaide descascar Coco antes da
hora.
– Então, voltando ao que estávamos falando: você e o Remy moravam
em Chalcot Road, dividiam um ateliê perto dali, em Fitzroy Road... Com
quem você passava seu tempo livre naquela época? O que fazia à noite? Eu
sei que Little Bower ainda fazia parte da sua vida, mas e nos dias de
semana, qual era sua rotina? – Jess respira fundo. – Você ainda via muito a
Margie?
– Me deixa pensar... Bem, a gente saía muito para jantar... havia uma
turma boa que morava por ali, e saímos muito juntos. A Rita e o Fred em
Camden, a Jeanette e o Archie no caminho de Chalk Farm. Íamos ao cinema
e ao pub da esquina... como se chamava? O Prince of Wales, talvez? E
éramos convidados para todas as mostras e lançamentos, é claro. Era muito
raro ficarmos em casa, só nós dois, à noite... o que era bom, na verdade, já
que passávamos o dia juntos no estúdio.
Jess a pressiona em relação a alguns detalhes – a comida que teriam
comido em alguns jantares (muito fondue e moussaka, aparentemente;
muitos bolos floresta negra), histórias curiosas sobre pessoas famosas ou
interessantes que Adelaide havia encontrado, qualquer exposição de arte
que tenha sido especialmente significativa ou memorável. Ela não consegue
guiar a conversa para Margie, mas tudo é muito interessante e alto-astral.
Ao menos até Adelaide voltar a um dos eixos que gosta de remoer, no caso,
falar mal de um crítico. O alvo do dia é Walter Burroughs, um crítico que
aparentemente a atacou na mídia impressa por volta daquela época. A essa
altura, Jess já passou a detestar profundamente esses ataques, os disparos a
esmo contra colegas artistas, críticos, figuras da classe dominante. Talvez
Adelaide pense que isso renderá uma leitura interessante, mas Jess acha
tudo terrivelmente negativo e deprimente.
– E outra coisa sobre Walter Burroughs – acrescenta Adelaide, se
mantendo naquele ritmo. Mas, talvez, a frustração de Jess esteja aparente
em seu rosto, porque ela para no meio da frase. – O que foi? Por que está
com essa expressão? Você ao menos está me ouvindo?
Faz tanto tempo que Adelaide não usa esse tom com ela que Jess se
encolhe.
– Estou ouvindo, mas... Bem, não consigo entender como o hálito de
cebola de Walter Burroughs... ou o fato de você odiar como o pomo de adão
dele se movia em seu pescoço, ou a fofoca que ouviu sobre ele ter um caso
com a secretária... pra ser sincera, não acho que nada disso seja relevante
para a sua narrativa.
– É relevante porque ele foi vil a meu respeito nos textos que publicou
na imprensa! – retruca Adelaide, com o rosto já ruborizado. – Esta é minha
chance de dar o troco, Jessica. É o objetivo de todo o projeto do livro!
– É? Achei que o objetivo era contar a história da sua vida – responde
Jess. – Não pegar um viés vingativo por causa de ressentimentos triviais,
ou... – Adelaide solta um arquejo tão profundo que Jess de repente perde a
coragem. – Quer dizer...
– Ressentimentos triviais? – esbraveja Adelaide. – Você não diria isso
se soubesse como o texto que ele escreveu sobre o meu trabalho foi
maldoso. Como foi ofensivo!
A música parou de tocar na cozinha – Jess tem a horrível sensação de
que Mia está ouvindo. Um mês antes, talvez ela tivesse se acovardado
diante do temperamento de Adelaide, mas agora se mantém firme.
– O que eu quero dizer – volta a falar, em um tom que se esforça para
ser conciliatório – é que a vida continua, certo? Às vezes é preciso deixar as
coisas pra trás.
– Ah, você acha mesmo isso – diz Adelaide com sarcasmo.
Na mesma hora, Jess se sente uma hipócrita, porque ela não “deixou
pra trás” o que David fez com Bella, não é mesmo? Nem a amargura em
relação à antiga chefe, Lucinda. E definitivamente nunca abandonou a
convicção de que falhou com Pascale, naquela que foi, quase com certeza, a
última noite da vida da amiga.
– Olha, sinto muito se... – Jess está dizendo quando a porta se abre e
revela Mia parada ali, correndo os olhos da mãe para Adelaide e vice-versa,
como uma espectadora em Wimbledon.
– Hum.... – começa a jovem, em tom cauteloso. – Terminei a cozinha.
– Na mesma hora, Jean-Paul se joga em cima dela, quebrando a tensão. –
Oi, querido – cumprimenta Mia de novo, e se inclina para brincar com o
cachorro. Então, endireita o corpo e encontra o olhar de Jess, com a
expressão entre a intromissão e a solidariedade. – Tá tudo bem, mãe?
– Tá sim. Obrigada.
Jess sente o rosto muito quente. É desconcertante que a filha ouça a
mãe recebendo uma bronca daquelas. Vergonhoso também. Por que Mia
não podia estar do outro lado da porta quando ela e Adelaide estavam rindo
juntas mais cedo, se dando tão bem? Nossa, a mamãe é muito boa nisso, a
filha teria pensado. Agora ela deve estar com a impressão de que Jess está
fazendo um péssimo trabalho. Que ótimo...
Adelaide se levanta com uma expressão indecifrável.
– Talvez esse seja um bom momento para você levar esse tonto
preguiçoso para dar a caminhada dele – sugere a Mia, e Jean-Paul fica
andando entre as duas. – Vou buscar a coleira e as guloseimas dele.
Jess afunda na cadeira enquanto as duas saem da sala. E percebe,
desconsolada, que não há como tocar no assunto de Margie agora. Como
vai conseguir contar a Adelaide o que sabe sem que se abram os portões do
inferno?
Capítulo Trinta

Adelaide ainda está furiosa ao dar instruções à garota a respeito do passeio


com o cão – ela precisa tomar cuidado com os ciclistas e também evitar um
poodle preto excessivamente amigável por quem Jean-Paul tem uma
antipatia irracional. Sinceramente! Ela entende que é função da jornalista
escrever uma boa história, mas tinha contratado Jessica para contar uma
versão específica das memórias, e nada mais. Como Jessica ousa começar a
dar opiniões não solicitadas, criticar Adelaide por seus sentimentos?
Ressentimentos triviais... até parece. Se Jessica não se cuidar, haverá um
capítulo inteiro dedicado às falhas dela, descrevendo a dor de cabeça
interminável que está sendo trabalhar com a mulher.
Quando Adelaide retorna para a sala, Jessica se levanta.
– Adelaide, sin... – começa a dizer, em tom humilde, com o batom rosa
que costuma usar já quase apagado da boca, tamanha sua agitação.
Adelaide levanta a mão para silenciá-la; não está com a menor vontade
de continuar a discutir o assunto.
– Não. Está bem? Vou “deixar pra trás”, como você parece tão
interessada em fazer, e falar sobre meu trabalho em 1978. Deixa eu ver...
Ela segue descrevendo a série de autorretratos “Chamas”, que pintou
durante aquele período. Obras que mostram a própria Adelaide segurando
fósforos acesos em vários cenários, várias poses. Embora Adelaide prefira
morrer a admitir em voz alta qualquer arrependimento pelo que fez a Simon
Dunster, seu ato de vingança ainda consome sua consciência. O som das
tábuas pegando fogo, o rugido repentino das chamas quando o carpete de
náilon começou a queimar – as lembranças parecem pedaços chamuscados
de sua alma. Pintar a si mesma segurando um fósforo várias vezes – vestida,
nua, dentro de casa, ao ar livre – foi uma espécie de confissão. De
penitência.
– A tia Adelaide contratou uma pessoa para escrever um livro sobre ela
porque é uma artista de muito sucesso – explicara Catherine ao filho Henry,
enquanto todos jantavam juntos, na outra noite, no Chez Janou. – Vamos
ficar muito chocados com as coisas que você vai revelar, Adelaide?
A sobrinha fizera a pergunta com um sorriso, o rosto emoldurado de
forma graciosa pelos longos cabelos escuros, obviamente – e
equivocadamente – presumindo que a tia velha e decrépita não poderia ter
muitos segredos ultrajantes no armário.
Aperte o cinto, minha cara, pensara Adelaide.
– Você vai ficar absolutamente horrorizada – respondera Adelaide,
com uma tranquilidade malévola.
Agora, ela se pergunta se deveria ter se mostrado tão alegre. Porque
eles provavelmente vão, sim, ficar horrorizados, convenhamos, quando tudo
vier à tona. Enojados, até. Vão lamentar o vínculo que têm com ela.
Adelaide se lembra da publicação dos diários de Remy, de como foi
devastador para os que ficaram, de como ela e Coco foram deixadas
ensanguentadas na beira da estrada enquanto o rolo compressor que era o
livro do ex-marido arruinava suas vidas. Ela tem a capacidade de chocar
muita gente com as revelações que pretende fazer. E também vai magoar
algumas delas. É irritante como os comentários de Jessica não param de se
repetir em sua mente. Será mesmo apenas rancor da parte dela desencavar
brigas antigas para conseguir ter a última palavra? Alguém além dela
mesma vai se importar com o fato de Adelaide ter passado anos planejando
como humilhar seus inimigos?
A narrativa chega ao ponto mais deprimente de sua vida, e Adelaide
sente a energia – e a coragem – a abandonarem. Ela suspira e passa a mão
pelos cabelos.
– Sabe, posso guardar os acontecimentos de 1980 para outro momento
– sugere. A cronologia que se dane. – Prometo que vou te contar tudo, mas
não hoje. Podemos passar para 1982, quando troquei Berlim pela Provença?
Foi um bom período. Eu gostaria de falar a respeito. Não vou nem precisar
falar mal de ninguém – acrescenta, sarcástica.
Talvez Jessica ainda esteja se sentindo mal pelo que falou mais cedo,
porque não protesta.
– É claro – diz, abrindo uma nova página do caderno. – Vamos para
1982, então. O que estava acontecendo naquela época?
Após os acontecimentos tumultuosos de 1980 e suas repercussões
aparentemente intermináveis, 1982 acabou sendo um dos melhores anos da
vida de Adelaide. Depois que ela saiu do hospital psiquiátrico, Remy a
levou para a Provença para convalescer. Foi uma época muito prazerosa. Os
dois compraram juntos uma casa no alto das colinas, com vista para a
floresta, onde a escuridão noturna era tão intensa que fazia Adelaide se
sentir como um ser primitivo no início dos tempos, muito distante do resto
do mundo. Eles mergulharam em novos trabalhos artísticos – estudos
botânicos minuciosos da parte de Remy, enquanto Adelaide se dedicava a
paisagens exuberantes e ondulantes, desprovidas de qualquer traço da
humanidade problemática, apenas a natureza em sua beleza madura e
abundante. Eles nadavam, iam de bicicleta até o vilarejo próximo nos dias
de mercado comprar comida e vinho e viviam principalmente na própria
bolha de felicidade, como se todas as antigas discussões e traições tivessem
acontecido com outras pessoas. Adelaide e Remy se perdoaram e se
casaram. Era como se as coisas ruins nunca tivessem acontecido.
Depois de cerca de um ano, eles decidiram se aventurar e também
alugaram um apartamento em Paris.
– Talvez um dia a gente tenha dinheiro para comprar um apartamento
na Place des Vosges – comentou Remy com um suspiro esperançoso.
Os dois expuseram seus novos trabalhos e foram recebidos com
aclamação. Aquela era a primeira vez que Adelaide morava em Paris, e ela
se apaixonou pela cidade. Lembra de ter pensado na famosa frase de
Cézanne – “Com uma maçã surpreenderei Paris” –, e trabalhou arduamente
para encontrar sua própria “maçã” para oferecer à cidade. Começou a pintar
retratos de parisienses interessantes que conhecia, tentando capturar suas
vidas, contar suas histórias com o pincel. E também montou uma série de
autorretratos em miniatura que chamou de “Uma artista chegando à
cidade”, em que retratava imagens alegres dela mesma por Paris, como uma
carta de amor visual ao novo lar.
– Ah! – Adelaide se lembra, a memória ainda funcionando, mesmo que
com atraso. – Victor Dufresne, era isso – diz ela. – O homem daquela
pintura que você me mostrou.
A obra tinha sido produzida muito mais tarde, obviamente, e é claro
que foi uma encomenda do homem, mas ela manteve por muitos anos a
prática de ter várias pessoas posando para seus retratos.
Jessica fica bastante pálida.
– Tem certeza? Esta manhã me disseram que ele se chamava “Doof”.
– Sim, abreviação de Dufresne – responde Adelaide, enquanto se
lembra do homem entrando com arrogância no ateliê, corpulento, com o
pescoço muito grosso, olhando ao redor como se estivesse investigando um
roubo. – Ele não era uma pessoa agradável.
– Você sabe o que aconteceu com ele?
– Não, e não quero saber – rebate Adelaide. Dufresne tinha ficado
parado no ateliê com pose de machão, encaixando o punho de uma das
mãos na outra, como se mal conseguisse conter a própria violência. –
Espero que ele tenha tido um fim horrível... ou isso é mesquinho demais pra
você?
Jessica balança a cabeça com uma expressão estranha.
– Não. De forma alguma.
A essa altura, Mia já voltou há muito tempo com Jean-Paul, depois de
também comprar na boulangerie algumas coisas para o almoço, conforme
solicitado, e elas já fizeram uma pausa. Então, o banheiro foi limpo e a
roupa lavada, enquanto Adelaide continuava sua narrativa. Ela está tão
imersa que se assusta quando Jessica pergunta:
– O que acha de encerrarmos por aqui?
Só então se dá conta de que, de uma forma ou de outra, são três da
tarde, muito além do horário em que costumam terminar as sessões.
– Meu Deus, sim, claro – responde.
E percebe que ficou bastante rouca de tanto falar.
Jessica e Mia vão embora logo depois, e um clima sombrio toma conta
do apartamento silencioso, como se as histórias que Adelaide contou hoje
ainda perdurassem enquanto ela se acomoda em sua chaise-longue. A vida
continua!, ouve Jessica dizendo mais uma vez daquele jeito exasperado, e
franze a testa para si mesma. A interrupção a pegou de surpresa. No geral,
Adelaide preferia quando Jessica a chamava de gênio ou ria de suas
histórias, em vez de fazer críticas impacientes. Deixar pra trás! Mas não é
tão fácil assim. Certo?
Ela mastiga um pedaço de maçã, sentindo-se subitamente insegura.
Havia embarcado naquele livro de memórias totalmente determinada em
sua busca por vingança. Mas as águas vinham ficando turvas. Agora ela se
sente... Bem, essa é a questão. Adelaide não tem muita certeza de como se
sente em relação ao livro, o que deseja dele. Toda essa experiência a faz se
lembrar de todas as vezes em que começava uma nova pintura e ela acabava
completamente diferente do que tinha sido o plano original.
O celular apita com a chegada de uma mensagem, interrompendo seus
sentimentos de dúvida. Provavelmente alguma propaganda, pensa ela, ou
um golpista tentando enganá-la e tirar suas economias. Mas não é nada
disso.
Oi, Adelaide, aqui é a Frieda, é o que lê Adelaide. O Jim e eu vamos
jantar em um restaurante libanês hoje à noite e eu queria saber se você está
livre pra vir com a gente. Adoraria conversar mais um pouco com você. Me
responde quando puder!
Jantar com uma turista tagarela que ela mal conhece – além do marido,
que sem dúvida deve ser um chato de galocha... Há duas semanas, Adelaide
teria respondido com um breve Não, obrigada, ou ignorado completamente
a mensagem. Mas alguma coisa deve ter mudado em seu íntimo, porque,
para sua própria surpresa, ela se sente tentada a aceitar. Bem, por que não?
Talvez isso lhe dê algo em que pensar além das próprias dúvidas.
Vai ser um prazer, obrigada, responde, antes que mude de ideia.
Pronto. Isso não tem nada de vingativo ou mesquinho, é apenas agradável.
A vida continua. Está feliz agora, Jessica?
Capítulo Trinta e Um

Adelaide não é a única pessoa com humor contemplativo. Assim que


voltam ao hotel de tarde, Jess se senta diante do computador para tentar
descobrir algo sobre Victor Dufresne. À primeira vista, há muito pouco
sobre ele na internet, mas ela promete a si mesma que vai continuar
investigando. Talvez ele não tenha nenhuma relação com seja lá o que for
que aconteceu com Pascale, mas por ora Jess pretende continuar seguindo
seu faro. Afinal, não há outros caminhos a explorar no momento.
Mia solta um gemido quando a mãe não dá sinais de largar o
computador.
– Tá chato aqui – diz. – A gente não pode sair e fazer alguma coisa?
– Bem... – Jess se sente dividida. – Eu estou aqui pra trabalhar,
lembra? Preciso digitar algumas anotações depois da sessão de hoje com a
Adelaide.
Jess torce para que a mulher não fique muito irritada por ela ter se
intrometido mais cedo. Como ghost-writer, não cabe a Jess guiar a
biografada, mas há um limite para quanto uma pessoa consegue ouvir
alguém xingando e falando mal dos outros.
– Tá, mas eu tô entediada – reclama Mia, e se deixa cair de volta na
cama.
– Muito bem – fala Jess, a paciência se esgotando. – Olha, como eu já
sugeri, posso checar o que o sobrinho do Lucas está fazendo, se você
quiser...
– Ai, para de oferecer esse cara desse jeito. Não! Por que eu ia querer
sair com um garoto que nem conheço? – Mia pressiona um travesseiro
contra o rosto com tanto drama que é uma pena que nenhum integrante do
conselho responsável pelo Oscar esteja passando para testemunhar a
atuação. – Eu queria estar com o papai – acrescenta com a voz abafada.
Jess sabe que está sendo manipulada, mas é difícil não morder a isca.
– Bem, então talvez você devesse ter voltado para casa em vez de vir
pra cá – retruca, sem pena. – Agora, se não se importa, eu preciso...
– Meu Deus, mãe! Obrigada por fazer eu me sentir indesejada! –
reclama Mia, e joga o travesseiro no chão.
– Não estou tentando fazer com que se sinta indesejada, mas gostaria
que você parasse de tentar me jogar contra o seu pai o tempo todo – diz Jess
em um rompante, e é como se a represa cedesse. – Não é justo, Mia. Eu sei
que o rompimento foi difícil para todas vocês, mas estou dando o meu
melhor, tá certo? Eu tô tentando!
Esse é o tom mais ríspido que usou com a filha em muito tempo. Parte
da autopunição de Jess pela separação incluiu deixar que as filhas a
atacassem com palavras, e aguentar, aguentar, aguentar durante todos
aqueles meses. Mas há limites.
– Desculpa – diz, quando Mia não responde de imediato. – Olha, eu
também não queria que o meu casamento terminasse... Eu provavelmente
teria ficado com o seu pai para sempre, se... – Jess se interrompe bem a
tempo, ciente da promessa que fez a David.
– Se o quê? O que aconteceu?
Jess cerra os lábios.
– Não cabe a mim dizer – responde por fim. – E não é esse o
problema. – Ela suspira. – Juro que estou tentando ao máximo fazer com
que fique tudo bem pra todo mundo. Então, me dá uma folga de vez em
quando, tá?
Mia se senta e, apesar de não encarar a mãe, assente. Jess se contenta
com aquilo. E como vai sair com Georges à noite, acha que é justo passar
algum tempo com Mia agora. Resignada, ela fecha o computador e
se levanta.
– Vamos, então. Vamos encontrar outro marco icônico de Emily em
Paris, tomar um sorvete ou algo do tipo – sugere, em tom mais suave. – E
você pode me ajudar a escolher uma boina para a Polly e procurar algumas
lembrancinhas. Gosta da ideia?
Mia assente de novo, agora com um sorrisinho.
– Obrigada, mãe – fala ela.
✳ ✳ ✳

À noite, Jess está se sentindo absolutamente eufórica enquanto se arruma. A


terceira vez é a da sorte: nem ela nem Georges cancelaram, e o jantar está
marcado para acontecer na casa dele. Ela vai querer uma entrada de oh là là
e um acompanhamento de va va voom, pensa, enquanto aplica delineador
marrom cintilante em um olho e depois no outro. Não, não vai querer nada
disso, se corrige no instante seguinte, quando Mia exclama da cama,
reagindo a alguma coisa na tela do celular. Como ela pode ficar tendo ideias
de va va voom sabendo que vai ter que voltar para esse quarto, para essa
filha, que sem dúvida será cáustica em sua desaprovação se detectar
qualquer traço revelador de sexo recente?
– Ai, meu Deus, adivinha só? – diz Mia, sentando muito aprumada na
cama. – Adivinha o que ele fez, mãe. O Zach.
– Ele... – Jess sente o sangue gelar nas veias. Por que não tinha
telefonado para a mãe daquele menino quando teve a oportunidade? – O
que foi? Ele postou as fotos?
– Não, apagou tudo. A Erin mandou o irmão dela, o Dougie, que tem
tipo... 1,90 metro e é um tonto, ir até a casa do Zach, e ele basicamente
forçou o Zach a se livrar de todas as fotos. – Mia dá uma risadinha
presunçosa quando chega outra mensagem. – Rá! Melhor ainda. A mãe dele
voltou do trabalho e encontrou os dois discutindo, então o Dougie contou
tudo para a mãe do Zach. Ela ficou furiosa e agora ele tá de castigo pra
sempre. E parece que vai se desculpar comigo na frente de todo mundo. A
mãe dele insiste!
– Ah, meu bem! – A tensão abandona o corpo de Jess na mesma hora.
– Que notícia incrível! Isso é fantástico. Estou tão feliz que as suas amigas
tenham mudado o rumo dessa história...
– Sim – concorda Mia, feliz, enquanto digita depressa. – Eu também.
– É melhor eu ligar logo para aquele assassino de aluguel então, né? –
brinca Jess. – Dizer que ele já pode sair de cena. A gente não precisa de
você, camarada, a sororidade tá com tudo sob controle.
Mia sorri, mas então seus olhos se estreitam um pouco quando ela
percebe Jess remexendo na bolsa de maquiagem.
– Falando em homens – diz. – Esse cara que você vai encontrar hoje.
O que sabe sobre ele? Porque... sem querer ofender, mas ele pode ter se
tornado um assassino desde a última vez que vocês se viram. Tem algumas
pessoas ruins andando por aí, mãe. Você pode estar fora desse jogo há
algumas décadas, mas eu não tô. – Ela deixa o celular de lado para
examinar Jess com mais atenção. – E me conta: é um encontro romântico?
É uma pergunta sincera.
Ah, socorro... Agora Jess vai ter que dar uma resposta sincera.
– Provavelmente não é romântico – responde com cuidado, enquanto
passa um pouco de batom e avalia seu reflexo no espelho. Vermelho
demais? Vermelho demais. – É mais um encontro para colocar a conversa
em dia. Como quando você encontrou a Josie de novo, depois que ela
mudou de escola.
A expressão de Mia é tão fulminante que é pura sorte não haver nada
que pegue fogo por perto.
– Mãe, não... não é a mesma coisa. Antes de mais nada, eu não tive
vontade de usar o meu vestido favorito e muita maquiagem, nem passei um
tempão arrumando o cabelo antes de ver a Josie.
A filha tem certa razão. Jess tira o batom excessivamente vermelho e
experimenta um tom diferente. Melhor.
– Tá certo, resposta sincera... não sei – confessa ela. – Serve? Eu fui
perdidamente apaixonada por ele quando tinha 22 anos, mas agora sou uma
pessoa diferente. Ele também. O mais provável é que vamos relembrar a
nossa juventude, isto é, se ambos conseguirmos lembrar de tanto tempo
atrás.
Ela fica arrepiada ao se dar conta de que pode mostrar a Georges o
retrato de Victor Dufresne, para ver se ele reconhece o homem. Ou quem
sabe ele ouviu alguma coisa sobre Pascale depois do desaparecimento dela.
Jess tampa o batom, guarda-o na bolsa, em seguida se afasta do espelho e
alisa o vestido. Depois de muito hesitar diante do guarda-roupa, ela havia
mudado de ideia mais uma vez e agora está usando seu vestido rosa-claro
máxi, que realça seu bronzeado, além de um colar dourado “clipe de papel”
e sandálias gladiadoras douradas. Nada mau, conclui, e se vira para encarar
a filha.
– Agora... tem certeza de que não tem problema eu sair? Você vai ficar
bem? Não vou chegar muito tarde nem...
– Tenho certeza – responde Mia. – Provavelmente vou comprar falafel
e passear um pouco. Ver se consigo encontrar algum beco do crack ou uns
criminosos armados pra passar o tempo.
– Rá, rá. Por favor, não faça isso. – Elas sorriem uma para a outra. – Tá
certo, então, te vejo mais tarde. Não faça nenhuma bobagem e me ligue se
precisar de mim, ok? Caso contrário...
Jess hesita, subitamente em dúvida. Não é um pouco sórdido deixar a
filha de 17 anos sozinha em Paris enquanto sai pra jantar com um cara do
passado?
– Tchau, mãe – diz Mia, quando Jess não termina a frase. – Por que
você ainda tá aqui? Vai embora, anda! E não faça nenhuma bobagem.
✳ ✳ ✳

As palavras sarcásticas da filha ressoam nos ouvidos de Jess quando ela sai
do hotel e segue para a casa de Georges. Apesar dos altos e baixos, está
gostando de ter Mia ali com ela. A filha não apenas é uma boa companhia,
como também é divertido tê-la feito uma espiã no apartamento de Adelaide
enquanto faz a limpeza, embora, como sempre, a imaginação mórbida de
Mia já tenha assumido o controle mais de uma vez. Evidências de outros
assassinatos?!, dizia a mensagem que a garota mandou para Jess hoje de
manhã, acompanhada de uma foto de cerca de uma dúzia de facas de
cozinha reluzentes. Veneno!!, dizia outra mensagem, com a foto de uma
garrafa de terebintina em um armário. Pelo menos ela ainda não enfiou um
microfone na cara de Adelaide e começou a interrogar a mulher sobre a
morte de Colin Copeland, mas Jess passa o tempo todo com os nervos à flor
da pele, meio que esperando isso acontecer.
O apartamento de Georges fica no 11o arrondissement, a cerca de vinte
minutos a pé do hotel, e Jess compra uma garrafa de Sancerre no caminho.
Está uma noite amena e, quando ela chega, as tiras da sandália estão
irritando a pele macia de seus pés e gotas de suor se acumulam ao longo da
linha do cabelo. Que maravilha... Suada e com bolhas nos pés, exatamente o
visual que ela queria. Depois de enxugar o rosto com um lenço de papel,
Jess bate com a aldrava de metal na porta, enquanto seu coração ecoa o som
em um galope repentino e frenético. Muito bem. Aqui vamos nós.
A porta se abre e ali está ele, iluminado pela luz quente do
apartamento. Alto e ainda bonito, com mechas grisalhas nos cabelos
castanho-claros na altura do queixo, Georges está usando jeans e uma
camisa branca e tem uma corrente de ouro cintilando ao redor do pescoço.
Também está descalço, como se tivesse vindo de um rancho hippie. Sexy
como o diabo.
– Jessica! Mon Dieu! É você?
– Oi – diz ela, e sua voz sai muito aguda, porque Georges a puxa para
um abraço que a deixa sem fôlego.
Ele tem um cheiro delicioso de sabonete e vinho, e, presa em seu
abraço, Jess sente os anos desaparecerem por um instante – ela é jovem de
novo, inebriada por esse homem bonito e carismático. Seu corpo parece
leve, quase líquido, com a lembrança, e um tremor de empolgação a
percorre. Como adorava Georges naquela época... E ali está ela de novo,
sentindo o coração dele bater junto ao seu. Olá.
Georges pousa as mãos no ombro de Jess e se afasta um passo.
– Deixa eu olhar pra você – diz ele, então assobia. – Jessica, somos
viajantes do tempo, non? De repente me sinto jovem de novo. O tempo foi
gentil com você, minha cara.
– Caramba, Georges, ele também foi muito gentil com você – ela se
ouve dizer baixinho, enquanto ele pega uma de suas mãos e a beija.
A pele de Jess se arrepia com o toque dos lábios dele, e seu coração
dispara de novo, porque ela se lembra dos dois entrelaçados no futon do
antigo apartamento dele... de como Georges gostava de ir tirando a roupa
dela, peça por peça. Ele está com uma aparência incrível, repara Jess,
encantada, enquanto Georges a leva até a cozinha, onde alguns bifes
sangrentos aguardam em um prato e jazz toca ao fundo. O corpo dele ainda
é magro e rijo – ah, se ela pudesse dizer o mesmo sobre o seu –, e a pele do
rosto é lisa, sem rugas, embora ele já deva ter, o quê... 50 e poucos anos?
A cozinha parece saída de uma revista de decoração – organizada,
minimalista, tudo em branco e creme, o tipo de cômodo em que Jess
provavelmente poderia ter um orgasmo só com alguns minutos de intensa
contemplação. Pare de pensar em orgasmos, ela se repreende, enquanto
corre os olhos pelas bancadas de mármore, pelo fogão antigo, pela mesa de
pinho escovada posta para dois. Até mesmo os vasos de temperos ao longo
do parapeito da janela estão cheios e verdejantes – muito diferentes do
manjericão de supermercado e do coentro de aparência miserável que
morrem de sede na cozinha dela.
– Vinho? – oferece Georges, e ergue uma garrafa de vinho tinto em
uma das mãos.
Jess repara que ele já começou a beber, pois vê uma taça de haste
longa meio cheia ao lado de uma tigela de salada. Ela o imagina preparando
a comida ali, com jazz tocando ao fundo, vinho à mão, a luz da noite
entrando pela janela... e há uma distância tão gigantesca entre essa imagem
e sua própria realidade ao preparar o jantar em casa que a inveja que sente é
como um chute na boca do estômago.
Porém, como dizia às meninas, Não é uma competição!
– Sim, por favor – responde. – Então... nossa. Isso é meio esquisito,
né? Ah, eu trouxe uma coisa pra você – lembra Jess.
Ela lhe entrega o Sancerre. Infelizmente a bebida não está mais tão
gelada quanto quando a tirou da geladeira do supermercado, quinze minutos
antes. Também é meio inútil, já que ele acabou de abrir o vinho tinto, mas
não importa.
Georges a convida com um gesto a se sentar em um dos bancos diante
da bancada da ilha da cozinha, então serve o vinho. Eles brindam, sorrindo
um para o outro. Será que ele fez botox?, pergunta-se Jess distraidamente.
Ou será que aquele rosto liso é pura sorte na loteria genética, talvez com o
auxílio de alguns retinóis decentes? Provavelmente é melhor ela não
perguntar, mas se tiver a chance de bisbilhotar o banheiro, com certeza vai
anotar todos os produtos para a pele que encontrar.
– Um brinde aos velhos amigos – diz Georges, com uma expressão
suave nos olhos. – Então... Como tem sido a sua vida? Você disse que é
jornalista, que está escrevendo um livro de memórias, certo? – Ele assobia
baixinho. – Impressionante, Jess.
Como é gratificante e estimulante para o ego ter essa frase como
introdução ao seu trabalho, em vez do consultório sentimental e da coluna
de maternidade!
– Sim – responde Jess, aprumando-se um pouco na banqueta. Sim, sou
impressionante, Georges. Sim, na verdade, posso ser uma intelectual. – Da
Adelaide Fox, a artista, você conhece o trabalho dela?
– Humm... a que foi casada com Remy Lavigne, é essa? – pergunta
Georges, enquanto coloca uma frigideira no fogão e acende o fogo a gás.
Jess se encolhe por dentro em nome de Adelaide – sua biografada
odiaria uma descrição tão simplória, em associação ao ex-marido, sem que
seu trabalho e sua carreira sejam citados.
– Sim, ela provavelmente é mais famosa pela série de pinturas
“Pássaro” – Jess se sente obrigada a acrescentar. – A última grande
exposição dela, há cerca de dezoito anos, se chamava Escuridão, depois que
o Remy morreu – continua, adicionando a última parte para ajudar Georges
a se localizar. – Eu a entrevistei quando a exposição chegou a Londres e nos
demos bem. Então, quando ela precisou encontrar alguém para escrever
suas memórias, entrou em contato comigo. – Tá certo, não foi bem assim
que os acontecimentos se desenrolaram, mas Georges não precisa saber dos
detalhes. – E aqui estou – conclui Jess com um dar de ombros modesto.
– E aqui está você – repete Georges, e seus olhos encontram os dela
enquanto ele coloca um pedaço de bife sangrento após o outro na panela.
(Jess tenta não pensar no fato de que ele simplesmente presumiu que ela
come carne. Na verdade, poderia ser vegana há vinte anos, mas não
importa. Talvez Georges seja um pouco antiquado em relação a essas
coisas.) Como se lesse a mente dela, ele olha da carne escaldante para o
rosto de Jess e pergunta: – Tá tudo bem, né? Você ainda gosta de bife,
certo?
E ali estava ela, achando que ele era presunçoso, se repreende Jess,
quando o homem estava apenas sendo atencioso, se lembrando de como ela
adorava bife com batata frita no passado, quando eles estavam juntos.
– Sim, com certeza – responde Jess. – Obrigada. – Ela toma um gole
de vinho. – Então... fala de você. Tem filhos? Teve alguma madame
Georges na sua trajetória?
– Eu? Não. Definitivamente não. – Ele olha ao redor de forma teatral e
gesticula com a espátula. – Consegue imaginar crianças aqui? Não,
obrigado. Tenho amigos que seguiram esse caminho... a vida deles ficou
limitada da noite para o dia. Se transformou em uma vida pequena, com
espaço só para preocupações com os filhos... não, isso não é pra mim. Sou
um espírito livre, prefiro a vida boa... viajar, explorar o mundo, sair quando
quero. Posso ir ao teatro, comer nos melhores restaurantes, ficar fora a noite
toda dançando, se eu quiser. Com filhos, isso não é possível.
Georges está fazendo com que a vida sem filhos pareça muito nobre –
viajar, explorar o mundo e jantar em lugares elegantes –, mas vamos ser
sinceros, pensa Jess, será que ele ainda passa mesmo a noite toda dançando,
com a idade que tem? Isso não soa meio bobo agora? Aos ouvidos dela,
parece uma declaração batida, que ele vem usando nas últimas décadas,
uma justificativa que, a essa altura, passou do prazo de validade. Ou talvez
ela esteja sendo mesquinha, depois de passar tanto tempo se preocupando
com as três filhas.
– Acho que é só diferente – diz Jess com tranquilidade. – Tenho três
filhas e sim, quando elas eram pequenas, a vida girava totalmente em torno
delas, mas agora são todas adolescentes, então tenho a sensação de ter
cruzado esse túnel. Afinal, olha só, estou aqui em Paris sozinha, por
exemplo! E estou me divertindo muito. – Aqui em Paris, sozinha, se você
não levar em conta minha filha de 17 anos, se corrige Jess mentalmente.
Mas ela também não vai contar isso a ele.
– Aposto que você é uma boa mãe – comenta Georges.
– Bem...
– Você sem dúvida é uma esposa sexy – continua ele, virando os bifes.
Georges levanta uma sobrancelha e, para seu constrangimento, Jess
sente o rosto quente.
– Hum... talvez já tenha sido – diz ela, tentando rir da sensação de frio
na barriga. Quando foi a última vez que alguém a chamou de sexy? Ele
acha mesmo que ela é sexy? – Mas não estou mais casada – apressa-se a
acrescentar.
Georges volta a erguer a sobrancelha.
– Você não está mais casada – repete ele. – Ahh. Isso me interessa.
Ah, Deus. Ele quis mesmo dizer isso, ou está só dizendo o que acha
que ela quer ouvir? E é isso que ela quer ouvir? Jess se sente confusa, sem
saber se deve retribuir o flerte ou esperar até que se conheçam melhor de
novo. Será que ele acha que ela está ali só para jantar e transar? (Ela está ali
só para jantar e transar?)
– Acho que muita coisa mudou depois de tantos anos – comenta Jess,
com certa afetação. O sangue parece disparar por seu corpo, junto com um
galão de adrenalina, e ela pousa as palmas das mãos espalmadas sobre a
bancada da ilha da cozinha, tentando se ancorar. – Vi que você está
trabalhando como arquiteto agora, deve ser interessante.
Ele cai na gargalhada.
– Ahh, Jess, eu te deixei tímida, né? Chamando você de sexy... Estou
vendo que você está sem graça. Mudando de assunto. – Ele tira a frigideira
do fogo, deixa a carne descansar, depois se senta na bancada, balançando as
pernas enquanto sorri para ela. E agita o indicador. – Não pense que eu não
percebi.
– Georges, eu...
Então Jess ri também, porque ele está certo, e é como se nada tivesse
mudado, como se ele ainda pudesse ver através dela.
Porém, ela passa algum tempo tentando levar a conversa para águas
mais profundas – a carreira dos dois, as esperanças, os arrependimentos, até
mesmo política, enquanto ele continua levando tudo de volta à sedução e às
insinuações –, e então se corrige. As coisas mudaram, não é mesmo? Ela
mudou, por exemplo – é adulta agora, não mais a garota deslumbrada
daquela época, satisfeita em permanecer à sombra dele. Neste momento,
está à altura de Georges, em termos de resultados e experiência – então por
que ele continua a tratá-la como uma estudante ruborizada? Pior, por que
ela ainda está reagindo como uma estudante ruborizada?
Georges serve o jantar – filé-mignon, algumas batatas assadas
pequenas e salada verde picante com ervas – e faz um gesto para que ela se
sente à mesa pequena, enquanto ele vai buscar molho de mostarda em
grãos, molho para salada e uma jarra de água gelada. Todo o cenário parece
saído direto de uma postagem do Instagram – simples, elegante, perfeito.
Por um instante, Jess tem vontade de tirar uma foto escondida para mandar
para Becky, que, assim como ela, mora em uma casa bagunçada e
barulhenta, onde na metade do tempo os jantares são queimados ou são só
uma porcaria mesmo.
– Obrigada, isso é muito gentil da sua parte – agradece Jess, quando
Georges enfim se senta à sua frente.
Ele levanta o copo.
– O que posso dizer, sou um homem realmente encantador – responde
Georges. – E acho você uma mulher realmente encantadora.
Ela ergue o copo em um brinde também.
– Ora, não vou questionar nenhuma das afirmações. Mas obrigada. É
bom te ver de novo. Obviamente a vida está muito boa.
De onde está sentada, Jess consegue ver um violão apoiado no canto
da sala, e isso a faz lembrar de como Georges costumava fazer serenatas
para ela no passado – Neil Young, U2, Crowded House. Que bom que ele
ainda toca, pensa, e está prestes a mencionar isso quando se sobressalta.
Uma jovem loira apareceu de repente na porta dos fundos e está testando a
maçaneta enquanto espia pelo vidro e bate.
– Nossa! – diz Jess, surpresa. – Você tem uma visita.
Se não soubesse que não é uma possibilidade, teria presumido que a
jovem era filha dele, pensa, enquanto Georges se vira para olhar, depois se
levanta da mesa. Com os cabelos soltos e ondulados caindo até a metade
das costas, e usando um vestido branco de alcinha, a mulher – menina, na
verdade, já que ela não deve ser muito mais velha que Mia – tem olhos
grandes e expressivos e está maquiada com esmero. A recém-chegada solta
um grito de alegria quando Georges abre a porta e tenta passar os braços ao
redor do pescoço dele, mas ele parece menos empolgado com a chegada
dela e se desvencilha delicadamente, balançando a cabeça.
Ainda sentada à mesa, Jess não consegue acompanhar a rápida
conversa em francês, mas a ideia geral, pelo que consegue captar pelo tom e
pela linguagem corporal, é que a mulher conhece Georges muito bem. Ela o
toca constantemente, o adula com a cabeça inclinada e piscando de um jeito
provocador, enquanto ele parece menos interessado em retribuir o carinho.
Ou parece menos interessado em retribuir enquanto Jess está em cena,
pensa ela, cortando um pedaço do bife com a expressão carrancuda. Quem é
a mulher? Ela sem dúvida conhece o apartamento de Georges, a julgar pela
maneira como apareceu nos fundos, como se esperasse entrar direto. Uma
vizinha? A filha de um amigo?
A garota loira enfia um dedo no passador do cinto da calça jeans dele e
puxa-o em sua direção com um biquinho. Georges parece irritado. Ele olha
na direção de Jess e balança a cabeça de novo. Então, sai pela porta, com a
mão no ombro da garota para conduzi-la pela lateral do imóvel. Como
assim?, pensa Jess, boquiaberta, enquanto eles desaparecem de vista. Que
diabos...? Ela fica revendo mentalmente aquele pequeno puxão íntimo no
passador do cinto, um gesto tão pessoal, tão consciente... sem dúvida o
gesto de um caso amoroso. Mas a garota deve ter metade da idade de
Georges, se tanto. Jess larga os talheres, sentindo o apetite abandoná-la.
Talvez seja uma sobrinha? Não... definitivamente havia algo sexual na
maneira como ela não parava de tocá-lo. Ah, Georges... Que diabo ele está
fazendo?
O homem reaparece nesse momento, com os lábios franzidos, os olhos
semicerrados como se estivesse perturbado. Mas essa expressão só dura um
instante, porque ele logo volta a se sentar, relaxado como sempre.
– Desculpe por isso – diz ele. – Era uma colega... ela queria
informações sobre um cliente.
Jess não acredita nisso nem por um segundo. Inventa outra, querido,
pensa. Já não é mais a garota ingênua que ele conheceu.
– Uma colega, hein? – repete, encarando-o. – De onde estou parecia
um pouco mais do que isso.
Agora é a vez dele de ficar sem graça.
– Bem... nós saímos algumas vezes, mas foi só diversão, sabe.
Na verdade não sei, não, pensa Jess. Não posso dizer que sei. E talvez
a garota também não saiba, a julgar pela expressão de decepção em seu
rosto quando Georges não a convidou para entrar.
– Claro – diz Jess, em tom neutro, com os olhos fixos no prato.
Por Deus. É meio esquisito, não é? Um homem na casa dos 50 anos
ainda saindo com mulheres muito mais jovens? Ela morde o lábio, se
lembrando da garota em seu vestido de verão branco esvoaçante, franzido
na parte de cima, sobre seios pequenos, e terminando em uma bainha em
zigue-zague acima dos joelhos. Jess tem quase certeza de que Mia e as
amigas têm vestidos parecidos, provavelmente da Zara ou da H&M, baratos
e alegres, comprados para o verão. A garota também está ali só para passar
o verão, como Jess?
– Vejo que você não está satisfeita – comenta Georges, em tom
provocante, cutucando o pé dela por baixo da mesa com o dele. – Eu te
choquei, Jess?
– Não, eu... – Sim. Ela está chocada. E definitivamente não quer
transar com esse homem, se a preferência dele é por mulheres tão jovens,
sem estrias ou rugas. Mas a verdade é que, se for esse o caso, então ele
provavelmente também não quer transar com ela. – Bem, um pouco –
admite.
– Mas eu não sou casado, não estou traindo ninguém – retruca ele. –
Não estou fazendo mal a ninguém.
– É verdade – concorda Jess.
Georges parece pensar que o choque dela foi causado apenas pelo fato
de outra mulher ter aparecido na porta dos fundos enquanto ele jantava com
ela... como se Jess estivesse chateada porque ele a desrespeitara. Georges
acha mesmo que sua convidada está encarando aquele jantar como o grande
evento romântico do verão dela ou algo assim? Bem, é verdade, Jess
reconhece que estava se sentindo assim antes, mas não mais. Você não é
tudo isso, querido, sente vontade de dizer.
– O bife está uma delícia – comenta ela, em uma tentativa pífia de
mudar de assunto. Agora está desejando não ter ido ao jantar. E pensar que
tinha ficado parada na porta do hotel, imaginando se deixar a filha para ir
àquele encontro não seria meio sórdido, quando todo o estilo de vida dele
parecia bem mais sórdido. – Me fala em que você tá trabalhando no
momento – pede Jess, já começando a ficar desesperada.
– Jess, é só diversão. Só sexo e diversão – diz ele, revirando os olhos.
– A expressão no seu rosto... você está olhando pra mim como se eu fosse
uma pessoa má. Não sou uma pessoa má!
– É claro que não – concorda ela, fazendo jus ao papel da pessoa que
gosta de agradar.
Jess se lembra então que Georges não suportava qualquer forma de
crítica, não suportava ser ridicularizado ou não ser levado a sério. Há um
homem frágil e inseguro sob aquela bela fachada, dentro de uma casa
elegante. Ela é convidada dele ali, não deveria criticá-lo. Mas,
sinceramente, é uma mulher com três filhas que não gosta nada de homens
predadores de um modo geral, que mastigam e cospem jovens pela suposta
combinação de “sexo e diversão”. Ela está fazendo projeções? Fazendo
suposições malucas? Sim. Mas seu instinto lhe diz que é assim que as
coisas são.
– É só que a sua “colega” pareceu muito jovem – Jess se pega dizendo.
– Você não preferiria namorar alguém... sabe como é... com um pouco mais
de experiência de vida? Alguém da sua idade? Da nossa idade – acrescenta,
então se encolhe por dentro, torcendo para que não pareça que está dando
em cima dele.
Não se preocupe, Georges, você está totalmente a salvo dos meus
avanços, acrescenta Jess mentalmente, com ironia.
Georges encolhe os ombros.
– A idade não me importa – diz ele, colocando uma garfada de salada
na boca. – É a pessoa que me interessa. A energia, a vibração.
Ele estreita ligeiramente os olhos, como se estivesse descobrindo de
repente que Jess não tem isso, como se ela não tivesse passado no teste.
Sim, não importa. Ele já recebeu um zero dela.
– Hum, e uma boa conexão também – comenta Jess, em tom leve
agora, porque não quer transformar isso em uma discussão. – É isso que
dizem nos reality shows de namoro, não é? Vocês têm esse tipo de coisa por
aqui ou a TV francesa é sofisticada demais?
Antes que ele possa responder, Jess começa a descrever um programa
a que ela e as filhas assistiram no início do ano, explicando em detalhes
como ficavam fascinadas com os dramas entre os casais. Ela está falando
demais, mas mantendo o assunto em um território seguro e neutro, o que
pelo menos ajuda a finalmente relaxar a tensão entre eles.
Os perigos da nostalgia, pensa consigo mesma, enquanto a conversa se
volta para os filmes que os dois amam, e então para as dicas dele sobre o
que ela deveria ver e fazer agora que está de novo em Paris. As lembranças
que tem de Georges sempre foram preciosas para Jess, mas por mais que ele
tenha permanecido sexy e charmoso mesmo depois de tantos anos, não
houve amadurecimento emocional. Às vezes, uma lembrança deve ser
deixada como está, em vez de ser trazida novamente à tona e reexaminada à
luz fria de um novo dia. Embora... Jess se lembra de outra intenção com
aquela visita.
– A propósito, você se lembra da minha amiga do hotel naquela época,
a Pascale? – pergunta. – Imagino que você não tenha tido notícias dela
desde aquela época, né?
– Pascale... – Georges franze o cenho, parecendo incapaz de lembrar. –
Refresca a minha memória.
– Cabelo escuro, sempre preso em um rabo de cavalo; lindos olhos
castanhos, seios grandes, risada alta – diz Jess, listando atributos que ele
registraria. – Ela desapareceu.
Ele assente e um relance de solidariedade passa por seu rosto. Jess
tinha ficado tão preocupada depois do que acontecera... chorara de soluçar
no peito dele por dias a fio antes de enfim decidir voltar para a Inglaterra,
algumas semanas depois.
– Eu lembro. Não, acho que não soube de nada sobre ela, sinto muito.
– Não tem problema. E quanto a esse homem? – Ela se atrapalha com
o celular. – Victor Dufresne. Você sabe alguma coisa sobre ele?
– Jess, o que tá acontecendo? – responde Georges. – Não. Nunca ouvi
falar dele.
– Sem problema – diz ela, em tom decidido.
Outro beco sem saída. Ele se adianta para servir mais vinho, mas Jess
tapa o copo com a mão. Eles já terminaram o jantar e ela está pensando na
caminhada de volta ao hotel, quer se manter sóbria.
– Café? Conhaque?
– Obrigada, mas vou passar. Acho melhor eu ir, Georges. Tenho
trabalho pela manhã.
A desculpa não sai muito convincente, mas Georges não a pressiona,
como se soubesse que não adianta. Ele também não se oferece para
acompanhá-la de volta ao hotel, ou para chamar um táxi. Provavelmente já
está se perguntando quando vai poder chamar a mulher loira de volta, pensa
Jess ao se despedirem.
– Foi bom ver você, Jess – diz Georges, e dá dois beijinhos no rosto
dela.
– Foi bom ver você também, Georges – responde ela. – Obrigada pelo
jantar delicioso.
Então Jess vai embora, as sandálias batendo na calçada enquanto desce
a rua depressa, sem saber se deve rir ou chorar.
Ela ri. Depois geme alto. Depois ri. No fim das contas, foi uma noite
nostálgica e divertida.
Capítulo Trinta e Dois

Alguns minutos depois, Jess passa pelo restaurante Mezze Saida – ela está
perdida em pensamentos, mas, se tivesse olhado pela janela, para além das
lanternas coloridas penduradas ali, teria visto Adelaide sentada em uma
mesa lá dentro, com Frieda e Jim. Frieda está fabulosa em um longo vestido
trapézio cor de açafrão com enormes contas de madeira em volta do
pescoço, enquanto Jim, longe de ser o chato que Adelaide temia, usa uma
extravagante camisa em estampa paisley e logo se mostra um contador de
todo tipo de histórias extraordinárias (e hilariantes).
É verdade que houve certo constrangimento no início da noite, quando
Adelaide chegou e encontrou Jim e Frieda sentados no fundo do
restaurante, perto do banheiro masculino. O garçom – que reconheceu
Adelaide na mesma hora – pediu desculpas profusamente e transferiu o
grupo para uma mesa muito melhor, perto da janela.
– O quê, em nome de Deus...? – murmura Frieda, quando o garçom
reaparece com shots de araque para cada um deles.
– Uma cortesia para a senhora e seus amigos, madame.
– O que está acontecendo? – sussurra Frieda assim que o garçom se
afasta. Ela arregala os olhos. – Você é alguma celebridade por aqui ou algo
parecido?
– Bem...
Só que Jim é mais rápido e encara Adelaide boquiaberto.
– Ai, meu Deus. Você é a artista, não é? A artista muito famosa... Sabe,
achei mesmo que havia algo familiar em você assim que entrou. Frieda,
pelo amor de Deus?! Você não perguntou nada à Adelaide sobre a vida
dela? – Ele se recompõe e ri, então abre um sorriso fascinado para Adelaide
e estende a mão. – Não acredito. Peço desculpas pela falta de cultura da
minha esposa. É um verdadeiro prazer te conhecer. E um privilégio
também. Seu quadro... Alvorada na Provença, não é? É um dos meus
favoritos de todos os tempos.
Adelaide sente um nó na garganta porque essa também é uma de suas
obras favoritas. E ela não estava pensando exatamente na Provença poucos
dias antes? As palavras de Jim a levam de volta para lá na mesma hora, para
o lugar no alto das montanhas onde colocava seu cavalete, o cheiro de
pinheiros no ar, com uma manta ao redor dos ombros, enquanto o
amanhecer se esgueirava acima do horizonte em uma faixa dourada
cintilante.
– Obrigada – diz Adelaide. – É muito bom ouvir isso.
Frieda, por sua vez, ainda está com a mão na boca e com os olhos
arregalados e assustados.
– Adelaide! Você é famosa! E também me deixou fazer papel de boba.
– Então ela dá uma risadinha e de repente parece uma menina. – Mas isso é
muito legal. Você é uma dama modesta. Nossa, se eu fosse famosa, seria a
primeira coisa que eu diria às pessoas, quer elas quisessem saber ou não.
– Concordo – fala Jim, e faz uma careta engraçada do outro lado da
mesa. – A propósito, posso te perguntar uma coisa como artista, Adelaide?
O que você acha da minha camisa? Porque eu adoro, mas a minha amada
esposa tem opiniões fortes sobre o assunto e eu nunca posso usar essa
camisa sem ouvir essas opiniões fortes dela.
– É uma camisa muito bonita – elogia Adelaide diplomaticamente, e ri
da expressão presunçosa que surge na mesma hora no rosto dele. – De
muito bom gosto.
– Ah, Adelaide! – brada Frieda, fingindo irritação. – Logo quando eu já
estava achando que nós seríamos amigas. Pelo amor de Deus, Jim, ela está
sendo educada, você não percebe? – acrescenta, enquanto ele se faz de
envaidecido e finge tirar uma migalha imaginária de um braço. – Agora seja
sincera. Todos sabemos que essa camisa é uma abominação. Um verdadeiro
vômito de cores!
Seria difícil para Jim parecer mais triunfante do que neste momento.
– Se é bom o bastante para uma artista famosa...
– Preciso dizer que alguns dos meus melhores trabalhos foram criados
sob o efeito de drogas alucinógenas – continua Adelaide com uma piscadela
para Frieda –, e não estou dizendo que o designer desse tecido também
estava sob o mesmo efeito, Jim, mas...
– Rá! Yes, Adelaide! – Frieda solta um brado de vitória.
– Mas, como artista, sou totalmente a favor da experimentação. Além
disso, sou grata por existirem pessoas como você, ousadas o bastante para
defender... – Jim aperta o próprio rosto como se estivesse sentindo uma dor
extrema, e é difícil continuar a falar de tanto que ela ri – ... para defender o
trabalho dos estudantes de escolas de artes experimentais...
– Estou arrasado – confessa Jim com um gemido, as mãos ainda
cobrindo o rosto. – Completamente arrasado.
– É brincadeira – diz Adelaide, e dá uma palmadinha carinhosa no
braço dele. – Só estou implicando com você. Quem quer viver em um
mundo onde todos se vestem como modelos de catálogo? Eu não quero. –
Ela pega o shot de araque. – De qualquer forma, saúde. Obrigada por me
convidarem para jantar com vocês.
– Obrigada por ter vindo, Artista Famosa, principalmente porque já
conseguiu drinques grátis pra nós – fala Frieda, erguendo o próprio copo. –
Não tenho ideia de que diabo é isso, mas estou disposta a virar o copo goela
abaixo em nome de uma boa noitada, vocês também?
Frieda e Jim agem de um jeito tão caloroso e agradável que Adelaide
tem a sensação de que já conhece os dois, de que já assiste às suas
implicâncias afetuosas há anos.
– Inferno, sim – diz (e quando foi a última vez que ouviu dizer
“Inferno, sim”, percebe encantada. Uma década atrás?). – A uma boa
noitada!
E é mesmo o que está acontecendo. Depois que Frieda supera a
questão dos artistas famosos, eles conversam sobre tudo. Sobre Montreal e
Ottawa (“Você foi professora na escola de artes, é claro, você tinha
comentado alguma coisa a respeito. Nossa, que fantástico. Você gostou do
Canadá? Acha que vai poder voltar para nos visitar algum dia?”), então
sobre a paixão de Frieda pelo hóquei no gelo (“Não deixa ela começar a
falar, Adelaide”, alerta Jim), e ainda sobre os vários lugares onde moraram e
trabalharam.
No caminho para lá, Adelaide tinha se sentido um pouco apreensiva,
insegura em relação a quanto seu talento para conversas sociais estaria
enferrujado. Mas tanto Frieda quanto Jim são bons conversadores,
envolventes, e guiam a conversa com tanta habilidade que logo Adelaide
tem dificuldade de lembrar por que estava tão preocupada. Ela se dá conta
de que, de certa forma, Frieda a faz lembrar de Margie – as duas mulheres
têm a mesma vivacidade, o mesmo riso fácil. Certo espírito travesso que faz
com que Frieda peça uma rodada de doses de tequila para todos, só porque
é segunda-feira e, como ela diz, por que não, caramba?
Mas, à medida que a noite avança, Adelaide descobre que nem tudo foi
fácil na vida de Frieda. O primeiro marido dela era um piloto de helicóptero
que morreu em um trágico acidente, quando os dois já estavam juntos havia
vinte anos. Frieda também perdeu uma filha por causa de uma meningite
quando a menina tinha 5 anos, embora também tenha um filho. Ao longo
desses abalos sísmicos da vida, de alguma forma ela havia seguido em
frente: enfrentando o mundo masculino da indústria da construção, criando
o filho, montando cavalos e torcendo pelo Habs, seu time de hóquei do
coração.
– Então ela me conheceu e a vida ficou realmente boa – brinca Jim,
com uma expressão carinhosa nos olhos. – Ou devo dizer que a minha vida
ficou realmente boa quando ela me conheceu? Sim, acho que é isso que eu
quero dizer.
Adelaide gosta de verdade de Frieda. Gosta dos dois. É possível ter
uma paixonite por um amigo? Se for possível, é o que está acontecendo. A
vida pode ser divertida, pensa, encantada, enquanto eles comem um
delicioso meze, e Frieda decide que todos vão experimentar uma garrafa de
vinho libanês. A vida pode nos surpreender... Frieda e Jim fazem perguntas
interessantes sobre a carreira de Adelaide, e ela se vê desabrochando ao
contar a eles os momentos mais importantes.
– Uau! – exclama Frieda. – O que acha de a gente organizar uma
exposição em Montreal para você poder ir ao Canadá? Poderia ficar
conosco e eu te levo para passear a cavalo. Ei, e você poderia ligar para o
Brad, para relembrar os velhos tempos... – acrescenta, com uma piscadela,
porque é claro que, a essa altura, eles também já ouviram sobre aquele
capítulo da vida de Adelaide.
– Nossa, eu... – Adelaide não sabe o que dizer. Viajar de novo, e ainda
mais longe do que Margate ou Uffizi. – Faz anos que não saio da França –
diz, como que se desculpando. – A última vez foi... Deus, deve ter sido em
2019, para conferir a exposição de Hilma af Klint no Guggenheim.
– Pra ver o quê? – pergunta Frieda, antes de continuar. – Tá certo,
alguma coisa de arte, deduzo. Mas... olha só, eu entendo, estamos todos
tentando viajar menos mesmo, por causa das mudanças climáticas. Bom pra
você. Mas quando se chega à nossa idade e... bem, às vezes, a gente
simplesmente tem que ir aos lugares que quer ir. Enquanto ainda podemos.
Você não acha? Admito que o jet lag é um problema, mas, meu Deus, estou
tão feliz por ter conhecido Paris. Estou tão feliz por estar aqui durante o
verão, vivendo o presente, conhecendo pessoas como você, alegrinha de
tequila, comendo como uma rainha foda do meze, desculpe o palavreado.
– Para de perturbar a Adelaide – diz Jim à esposa, talvez porque
consiga ver pela expressão de Adelaide que a decisão de viajar envolve
mais do que a mera distância. – Agora, o que estamos pensando em relação
à sobremesa?
Eles se ocupam com o cardápio e se questionam se um café os
manteria acordados a noite toda, caso resolvam tomar um. Porém, sob a
conversa, Adelaide está experimentando o que parece ser uma pequena, mas
significativa, reacomodação tectônica dentro dela. É estranho, mas ela só
consegue pensar em passear a cavalo com Frieda. Só pensa nisso, embora
não monte em um cavalo desde a juventude, quando o dono de uma fazenda
ao longo da estrada de Little Bower permitia que Adelaide e os amigos
levassem os cavalos dele para um galope por Kent Downs. Embora
provavelmente fosse ter bastante dificuldade para subir no lombo de um
cavalo no momento.
A vida continua!, exclamou Jess mais cedo. Mas, na verdade, foi só
nas últimas semanas que Adelaide começou a vislumbrar uma vida no
futuro, em vez de ficar focada no passado. E, de repente, começam a se
desdobrar em sua mente os caminhos que poderia seguir. Se ela tiver
coragem, é claro. Ela tem?
Capítulo Trinta e Três

Na terça-feira de manhã, Jess e Mia partem em direção à Place des Vosges


para mais um dia de trabalho. Jess tinha ficado meio triste na noite anterior,
quando voltou para o hotel e viu a expressão de alívio no rosto da filha ao
saber que o encontro com Georges havia sido horrível.
– Meu bem... você sabe que eu e seu pai não vamos voltar a ficar
juntos, não é? – disse Jess, mais tarde, com o máximo de gentileza possível,
enquanto elas se preparavam para dormir. – O fato de eu não me apaixonar
de novo por Georges não muda isso.
Mia, que estava colocando um camisetão de algodão macio para
dormir, não respondeu de imediato.
– Sei – murmurou a garota depois de algum tempo. – Mas eu meio que
gostaria que você voltasse com o papai. Não vou me meter – se apressou a
acrescentar, talvez se lembrando da briga anterior. – É só o que eu sinto.
– Eu sei – falou Jess, procurando na nécessaire uma caixa de curativos
para cuidar dos pés cheios de bolhas. – E sinto muito. Às vezes... bem, às
vezes uma história não termina do jeito que a gente quer, acho. A vida é
complicada.
Mia foi até o espelho e se sentou de pernas cruzadas diante dele.
– Lembra que eu disse que achava que o papai estava saindo com outra
pessoa? – perguntou ela, fechando um dos olhos enquanto começava a tirar
a maquiagem. – Não tenho mais certeza disso. Uma noite, quando a gente
estava na Itália, ele ficou muito bêbado e disse que sentia muito a sua falta.
Então...
Mia encolheu os ombros, e ali, no movimento dos ombros da filha,
Jess pôde ver a esperança que ela nutrira desde então. Uma esperança
ardente que abriu um buraco no coração da própria Jess, que pesou em sua
mente enquanto ela se revirava na cama, tentando dormir, mais tarde
naquela noite. Sim, ela e David já haviam se amado, tinham sido felizes
juntos. Mas, no fim do relacionamento, Jess se sentia tão profundamente
infeliz, tão abalada pela dúvida, que era como se tivesse se tornado metade
de uma pessoa, e não mais a mulher que fora um dia. Neste verão, ela sente
que está voltando a ser inteira, que está redescobrindo a verdadeira Jess,
aquela que encontra alegria nos outros, que ama a vida. Seria egoísmo não
se dispor a sacrificar isso para tentar retomar seu relacionamento com
David, como as filhas claramente desejavam?
Assim que chegam à casa de Adelaide e a sessão do dia começa, Jess
escuta sobre o segundo rompimento doloroso de Adelaide e Remy, seguido
pelo romance vertiginoso dele com Coco, que culminou no casamento dos
dois. Jess, já preparada para presenciar por um longo tempo o assassinato
da reputação e do caráter de ambos, fica surpresa quando o assunto se
encerra rapidamente. Adelaide parece estar com mais energia hoje e passa a
descrever com vívidos detalhes o tempo que passou no Japão, depois o
trabalho que conseguiu em Ottawa. Por volta de uma da tarde, a campainha
toca.
– Ahh. Sinto muito, mas vou ter que deixar para amanhã a parte sobre
o período Bradelaide – explica ela, já se levantando para atravessar o salão
e atender ao interfone. – Devem ser o Lucas e a Catherine, os dois estão
vindo ver se você quer almoçar com eles. Desculpa, eu tinha a intenção de
mencionar isso quando vocês chegaram, mas com todo o resto na minha
cabeça...
– Ah – diz Jess, ainda concentrada nas descrições de um inverno
nevado em Ottawa.
Bradelaide?, se pergunta, confusa, antes de compreender exatamente o
que Adelaide acabou de dizer. Jess não vê Luc desde a noite em Belleville e
ainda guarda a sensação de que o chateou naquela ocasião, com a história
da Universidade de Hadlow e dos cursos de agronomia. Do que você acha
que se trata tudo isso?, disse ele, e Jess faz uma careta ao se lembrar de
como havia se defendido, possivelmente com um ardor excessivo. Enquanto
Adelaide aperta o botão que abre a porta do prédio para deixar os sobrinhos
entrarem, Jess decide que vai dar o seu melhor para agir como uma pessoa
normal.
– Vou chamar a Mia, então – acrescenta, já se levantando. – Se ir
embora um pouco mais cedo não for problema pra você...
– É claro que não – garante Adelaide. – Acho que essa semana fizemos
um bom progresso. E tenho umas coisas pra resolver.
Com certeza há algo diferente em Adelaide, percebe Jess enquanto
entra na sala de jantar para chamar Mia, que está limpando copos e prataria.
Ela até iria mais longe e diria que a artista parece... ora, alegre – um
adjetivo que Jess acha que nunca aplicou a Adelaide. Ela está vestindo uma
túnica rosa, a peça de roupa mais bonita que Jess já a viu usar, e um colar de
ouro chamativo também, cravejado com peridotos cintilantes. O que está
acontecendo?
– Oi de novo, desculpe por todos esses degraus, Henry... entrem – diz
Adelaide, cumprimentando os recém-chegados. – Catherine, Henry, essa é a
Jessica, que está escrevendo o meu livro de memórias. Jessica, minha
sobrinha Catherine e seu filho, Henry. Ah, e essa é a Mia, a filha da Jessica
– acrescenta, quando Mia aparece com um balde de limpeza na mão.
A garota está usando um macacão de gola alta e enormes sandálias
plataforma rosa, com o cabelo trançado em volta da cabeça, e fica muito
vermelha quando entra no salão para as apresentações. Ou será que ela
ruborizou desse jeito porque Henry, de 18 anos, é alto e muito bonito, com
cabelos pretos e camiseta dos Ramones?
– É um prazer conhecer vocês – fala Jess, tentando amenizar o
constrangimento da filha. – E vai ser ótimo sair para almoçar. Certo, Mimi?
Mia a encara irritada ao ouvir o apelido. Ah, puxa, será que Jess a
deixou ainda mais constrangida? O olhar não demora muito, porque Mia
volta apressada para a cozinha, murmurando algo sobre guardar as coisas.
Jess conversa um pouco com Catherine, que é simpática e bonita – ela está
usando um short cargo e uma camiseta azul desbotada –, e com Henry, que
faz graça carinhosamente com a pronúncia da mãe quando ela diz
“Montmartre”. (“O que foi isso mesmo, mãe? Tem alguma coisa na sua
garganta por acaso?”)
O “guardar as coisas” de Mia aparentemente incluiu uma aplicação
rápida de batom e rímel, além de um novo penteado, porque ela surge um
instante depois com o cabelo caindo em ondas sobre os ombros, como um
anjo da Renascença. O efeito não passa despercebido por Henry, como Jess
bem repara quando ele apruma subitamente o corpo e guarda o celular no
bolso.
– Mia, certo? – Jess ouve o rapaz dizer enquanto todos descem as
escadas. – Eu sou o Henry. Tudo bem?
Luc leva o grupo até uma brasserie com mesas à sombra e uma boa
seleção de hambúrgueres e batatas fritas. Ele é o mais velho dos irmãos e
Jess logo percebe a dinâmica entre os dois, com Luc assumindo a liderança
e Catherine se deixando levar de bom humor pelas decisões dele. Mas, dito
isso, basta Jess perguntar como era Luc na adolescência para que um brilho
travesso se acenda nos olhos de Catherine, e ela logo começa a compartilhar
histórias do péssimo comportamento do irmão, como a típica irmã caçula.
Enquanto isso, Mia e Henry descobriram que ambos pretendem ir ao
Reading Festival no fim do verão e estão concentrados em uma conversa
sobre quais bandas estão mais ansiosos para ver.
A comida chega.
– Então, o que você está achando de Paris, Mia? – pergunta Luc, se
virando para a garota.
– É legal, estou me divertindo – responde ela. – Aluguei uma daquelas
trottinettes ontem à noite e fui até a Sacré-Coeur e Pigalle...
– Você alugou? – pergunta Jess, porque tudo isso é novidade para ela.
– O que é mesmo uma trottinette?
Mia faz uma careta.
– Mãe! Se liga. É um daqueles patinetes elétricos que a gente vê em
tudo quanto é canto... como aquele – diz ela, apontando para o outro lado da
rua, onde um jovem passa com fones de ouvido enormes, desviando dos
pedestres com certa imprudência, na opinião de Jess.
– A gente pode pegar uma dessas? – Henry já está perguntando a
Catherine.
Enquanto isso, Luc parece confuso.
– Ué, vocês não estavam juntas ontem à noite? – pergunta a Jess,
olhando para Mia. – Quer dizer, vocês estão hospedadas juntas ou...?
– A mamãe foi num encontro – se apressa em dizer Mia, em um tom
absolutamente dramático. Ao que parece, é a vingança por Jess tê-la
chamado de Mimi, quando ela estava tentando parecer descolada. – Com
um velho tarado nojento.
– Mia!
– O que foi? Ah, qual é, você mesma usou basicamente essas palavras.
Ele é mais velho que a mamãe e sai com garotas de 20 e poucos anos –
conta Mia de uma vez só. – Me diz se isso não é bizarro? – Jess ainda está
se recuperando da alfinetada do “mais velho que a mamãe” quando a filha
coloca a mão sob o queixo e pisca. – Na verdade, vou sair com ele hoje à
noite – continua ela. – Assim que ele soube que a mamãe tinha uma versão
dela mais jovem e mais gata na cidade, ele...
– Ei, não, você não vai sair com ele, nem brinca com isso, mocinha –
repreende Jess, se sentindo ferver. Catherine deve estar tendo uma péssima
primeira impressão, pensa ela, chateada. – Eu saí para colocar a conversa
em dia com um velho amigo, só isso – explica, olhando para a filha com
uma expressão irritada de “fica de boca fechada”.
– Ah, esse é o cara com quem você ia sair naquela outra noite? –
pergunta Luc.
Ele parece incomodado, como se estivesse se perguntando se o tipo de
Jess são velhos pervertidos. É claro – ele não sabe que Jess não chegou a se
encontrar com Georges na semana anterior, apesar de ter saído apressada do
bar em Belleville.
– Sim, só que, quando voltei para o hotel naquela noite, ele cancelou
comigo, então... – A situação parece piorar a cada minuto. – Enfim, chega
de falar sobre ele. Mudando de assunto... Vocês estão se divertindo em
Paris? – pergunta Jess, dirigindo a pergunta a Catherine e Henry. – O Luc
está sendo um bom guia turístico?
Catherine salva Jess com uma história sobre o irmão ter atravessado a
cidade com eles no domingo, para levá-los ao seu restaurante favorito, só
que, quando chegaram lá, o lugar estava fechado.
– E ele fez a gente se perder nas Toalherias – diz Henry, disfarçando o
riso.
– É Tuileries – corrigem Catherine e Luc ao mesmo tempo.
Luc acrescenta, claramente na defensiva:
– A gente não estava perdido, eu sabia exatamente onde estávamos, foi
só que...
– Sim, sim, alguns portões estavam trancados quando deveriam estar
abertos, acreditamos em você – fala Henry, atrevido.
– Movimento clássico dos adultos – diz Mia, se juntando à brincadeira.
– A minha mãe é muito boa em fingir que sabe para onde a gente está indo
no metrô, por mais que eu consiga ver que ela não tem a menor ideia.
– Ei! – interrompe Jess. – Estou sentindo um complô se formando
aqui.
– Nem me fala – diz Henry a Mia. – E toda aquela história de comprar
lembrancinhas...
– Ai, meu Deus, as lembrancinhas! – exclama Mia, e joga as mãos para
o alto. – A minha mãe passou uns vinte minutos tentando decidir se deveria
ou não comprar um globo de neve em Montmartre ontem.
– Não foram vinte minutos!
– Vinte minutos, e ela nem comprou o globo depois de todo esse
tempo. Ou seja...! – A expressão de Mia é a de alguém que se viu obrigada a
ouvir Ring Cycle, o longo ciclo de óperas de Wagner, sentada em uma
cadeira desconfortável, quando na verdade esperou por cinco minutos em
uma loja de souvenirs. – Eu já estava, tipo, por favor, me mate agora. Me.
Mate. Agora.
– Vou te matar agora, com as minhas próprias mãos, se você não tomar
cuidado – murmura Jess. – E, de todo jeito, o globo de neve estava lascado,
então...
– Um globo de neve? – começa a dizer Henry para Mia, rindo, mas
depois olha para Jess e parece pensar melhor. – Na verdade, adoro globos
de neve – diz, os lábios tremendo com a vontade de rir. – Não tem nada de
errado com globos de neve.
– Ah, fiquem quietos, vocês dois – ordena Catherine com um gemido,
rindo também. – Estou com você, Jess. Também adoro globos de neve, ímãs
de geladeira e camisetas com a estampa “I Paris”, e a gente não pode se
apressar quando está comprando coisas importantes. E se o ingrato do meu
filho não tomar cuidado, esse vai ser o único presente dele no próximo
Natal. Entenda isso como um alerta oficial, garoto.
Depois que o almoço termina, Henry sugere, irônico, que ele e Mia
abandonem os idosos para ir andar de patinete elétrico. Mia parece tão
empolgada com a ideia que Jess não tem coragem de dizer não. Obviamente
ela não consegue evitar pedir que a filha tome cuidado, quando Henry está
fora do alcance de sua voz. Não comece a se exibir só para acabar fazendo
alguma besteira, é o que ela realmente quer dizer, mas se contém. Depois
que os dois saem apressados, Catherine pede licença e vai ao banheiro,
deixando Jess e Luc sozinhos à mesa. Sem a presença dos adolescentes
brincalhões, o clima muda e eles sorriem, um pouco constrangidos.
– Como estão indo as coisas? Tá tudo certo? Lamento saber que seu
encontro acabou sendo uma porcaria – diz ele.
– Ah, não se preocupa – responde Jess. Ele não está zombando dela,
está?, pergunta-se ela, subitamente paranoica. – Na verdade não foi nada
demais, só meio decepcionante, descobrir que... hum...
– Que o cara era um velho tarado?
– Basicamente, sim. O tipo de cara raso sobre quem eu alertaria as
minhas filhas. E o fato de ele continuar a ser do mesmo jeito que era 25
anos atrás... – Ela faz uma careta. – Eu não entendo, mas não importa. Cada
pessoa é de um jeito. Enfim...
– Fico feliz que você não tenha gostado dele – diz Luc. – Acho... – De
repente, o olhar dele é muito direto. – Acho que eu teria ficado com um
pouco de ciúme.
– Ah... – diz Jess, porque é pega de surpresa. Ele está dizendo...? –
Hum...
Antes que ela possa responder, eles ouvem a voz de Catherine.
– Je suis de retour, mes amis! – exclama ela, e no instante seguinte está
pousando uma bandeja na mesa diante deles, com uma jarra de bebida cheia
de folhas de hortelã e gelo e três copos. – Tomei uma decisão quando estava
passando pelo bar – continua ela, animada, parecendo muito satisfeita
consigo mesma ao se sentar. – Alguém quer mojito?
Acho que eu teria ficado com um pouco de ciúme, Jess ouve Luc dizer
novamente, e seu coração acelera quando ela olha para ele. Luc sorri para
ela, que sorri de volta, sentindo-se subitamente zonza.
– Ah, sim, boa ideia – diz ela a Catherine, sentindo a adrenalina
disparar por sua corrente sanguínea.
De repente, é difícil agir normalmente, quando parece que Luc está
apostando nos dois. O que deveria fazer com essa revelação? Ela gosta dele
e o acha atraente, mas a ideia de entrar em um novo relacionamento é
realmente assustadora. Aterrorizante, na verdade. Jess não tem mais ideia de
quais são as regras.
Felizmente, ela é distraída por Catherine, que está servindo os
drinques, e em poucos minutos os três estão erguendo os copos cheios,
brindando à sorte de estarem sentados ali em Paris em uma tarde
ensolarada. É quase como se aquele momento estranho e tenso entre ela e
Luc nunca tivesse acontecido.
– Esse mojito está fantástico – comenta Jess, depois de tomar o
primeiro gole da bebida gelada.
Neste momento, uma lembrança repentina surge em sua mente. Ela e
Pascale, tomando mojitos no bar do Hotel d’Or.
A imagem a atinge como um tapa na cara: é óbvio. É lá que deveria
tentar agora. Se ela se lembra de Victor Dufresne rondando o bar, será que
outra pessoa também se lembra? Com certeza vale a pena investigar.
Capítulo Trinta e Quatro

Na quarta-feira, Mia já se sente bem menos intimidada por estar no


apartamento majestoso de Adelaide. Em parte porque ela adora ver Jean-
Paul o dia todo (ele é tão fofinho!), e em parte porque não quebrou nada
nem cometeu erros horríveis nos primeiros dois dias de trabalho lá.
Adelaide até disse “Muito bem” e “Obrigada” para ela no dia anterior, o que
pareceu um grande avanço.
Mia também está de bom humor porque esse vai ser seu último dia de
trabalho, embora a mãe e Adelaide ainda não saibam. Agora que já foi tudo
esclarecido com as amigas, Mia prefere aproveitar o resto da semana em
uma praia com elas do que ficar passando aspirador de pó no apartamento
de uma idosa; por isso, planeja voltar para Nice no dia seguinte. Embora,
como sempre acontece nesses casos, no momento em que estava
organizando seus planos, foi apresentada a Henry, que no fim das contas é o
garoto mais gato – e mais legal! – que ela já conheceu na vida. Um milhão
de vezes mais legal e divertido do que os fracassados de Canterbury, sem
sombra de dúvida. Na véspera, enquanto disparavam juntos nos patinetes
motorizados, eles não pararam de imitar vozes bobas e arrogantes ao
gritarem coisas um para o outro. À noite, o maxilar de Mia chegou a doer
de tanto rir com Henry.
– Oh, YAH, minha cara! – Não parava de dizer o garoto, e toda vez
parecia a coisa mais engraçada do mundo.
A única desvantagem é que ele mora em Devon, irritantemente longe
da casa dela, mas Mia espera encontrá-lo no Reading Festival, em agosto.
Se ela tiver tomado sidra suficiente quando o vir (o que é bem provável),
vai tentar beijá-lo, é só esperar para ver.
Adelaide lhe pediu para passar o aspirador na escada e no último andar
do apartamento, onde fica o quarto da artista.
– Sem problema – falou Mia com toda a educação, disfarçando sua
empolgação.
Ela nunca teve permissão para subir lá antes. Essa é sua chance de
bisbilhotar com mais detalhes.
Já no topo da escada, Mia pega o celular e faz uma gravação rápida.
– Estou do lado de fora do quarto de Adelaide Fox – diz em uma voz
baixa e dramática, sentindo um arrepio ao imaginar milhares de pessoas
atentas a cada palavra se (quando!) ela acabar tendo seu próprio podcast
sobre crimes reais. – Será que vou encontrar alguma coisa interessante lá
dentro?
Então, com o coração disparado, Mia abre a porta do quarto com um
leve rangido, depois empurra o aspirador para dentro e fecha a porta de
novo. Seus olhos percorrem o cômodo, passando pela cama grande com
uma rampinha para ajudar o cachorro a subir (que fofo), a cômoda antiga
com o tampo coberto de estojos de joias e frascos de perfume e um guarda-
roupa enorme que a faz lembrar do mesmo móvel em A Bela e a Fera, todo
cheio de curvas e espirais, com uma grande chave de ferro na porta.
Então, por onde deve começar? O que está procurando? Ela não é
idiota, sabe que não está prestes a encontrar uma carta de confissão
assinada, mas todo mundo guarda alguns segredos no próprio quarto, certo?
Mia liga o aspirador para parecer que está trabalhando, depois se agacha
para espiar embaixo da cama. Há chinelos de veludo cor de ameixa e uma
tigela de água para o cachorro, além de algumas caixas com tampa
transparente que parecem estar cheias de suéteres. Nada muito empolgante.
Em seguida, ela abre as gavetas da mesinha de cabeceira para dar uma
checada rápida – há um cartão de aniversário escrito em francês dentro
(Mia não faz ideia do que diz), uma máscara para os olhos, meio pacote de
pastilhas para tosse. Então, começa a fazer o mesmo com a cômoda, mas
recua na mesma hora ao se deparar com um monte de calcinhas (que
nojo...). Quando enfim chega ao guarda-roupa, Mia solta um suspiro,
porque não está se sentindo particularmente otimista e, por pouco, nem se
dá ao trabalho de olhar lá dentro. Mas, afinal, já que está ali, não custa nada
checar, decide, e gira a chave para abrir a porta.
À primeira vista, também não há nada interessante ali, apenas um
monte de roupas em cabides e alguns pomanders com aroma de lavanda.
Mia está prestes a fechar a porta e abandonar a investigação quando alguma
coisa cintilando entre duas peças de roupa chama sua atenção. Ela afasta
alguns vestidos e descobre um quadro escondido bem no fundo do móvel.
Mia pega o celular na mesma hora.
– Pessoal, encontrei uma pintura secreta – sussurra ao microfone, com
o coração disparado, enquanto se esforça para tirar o quadro de dentro do
guarda-roupa e o leva até a luz. Então, solta um arquejo quando vê a cena
como um todo. – Meu Deus – fala. Suas mãos tremem tanto que ela quase
deixa o objeto cair. – Meu... Cacete.
A respiração de Mia sai entrecortada enquanto ela coloca o quadro em
cima da cama de Adelaide e tira várias fotos rapidamente.
– Ca... ra... ca – murmura, e assobia baixinho, esquecendo a ideia de
registrar qualquer coisa coerente ou descritiva, porque sua cabeça está
totalmente zonza.
A pintura é horrível, mas também é incrível, porque é real e terrível
demais. São duas mulheres, uma de cada lado de um homem – elas são
mulheres-monstro, na verdade, vestidas de preto, com cobras nos cabelos e
enormes asas de morcego nas costas. Escorre sangue de seus olhos e elas
empunham chicotes enormes. O parco conhecimento de Mia de mitologia
grega vem dos livros da série Percy Jackson, mas ela acha que as mulheres-
monstro talvez sejam as Fúrias, encarnando vingança e ameaça. O rosto de
uma delas é claramente reconhecível como o de uma Adelaide muito mais
jovem, enquanto a outra é retratada com o cabelo loiro curto e uma
expressão sorridente e maliciosa. Entre elas, o homem – Colin Copeland,
Mia tem certeza – tem marcas de sangue no rosto e terror nos olhos, e
parece cambalear para trás em direção a uma janela enorme. É fácil deduzir
que no instante seguinte ele mergulhará no vazio. Exatamente como
aconteceu com o verdadeiro Colin, em 1980. Meu Deus. Será que esse
quadro está dizendo o que Mia acha que está dizendo?
– Cacete.
Ela engole em seco, tremendo dos pés à cabeça.
Mal consegue acreditar que a senhora corpulenta de cabelos grisalhos
que está no andar de baixo, alguém por quem uma pessoa passaria na rua
sem olhar duas vezes, foi capaz de pintar algo tão violento e bárbaro. Que
tinha se retratado como uma Fúria, golpeando com um chicote o pobre e
apavorado Colin Copeland. Mia está se sentindo tão assustada – será que
vai vomitar? – que não consegue gravar nada para o podcast, porque sabe
que sua voz vai sair abalada. Com os dedos trêmulos, ela manda uma
mensagem para a mãe com uma foto: Você não vai acreditar no que eu
descobri. Acho melhor a gente sair daqui. Estou falando sério!!!
Mas ela sabe que a mãe, já um pouco irritada com as mensagens e
fotos de Mia sobre possíveis evidências, deve estar com o celular no modo
“Não perturbe”. O que ela deve fazer? Bem, para começar, colocar a pintura
de volta no lugar, decide Mia. Porque a última coisa que ela quer é que
Adelaide surja ali de repente, veja o que ela encontrou e decida que terá que
matá-la, assim como fez com o bom e velho Colin. O quarto da artista fica
no quarto andar – é um longo caminho até a praça abaixo.
Nossa, que intenso, pensa Mia, enquanto guarda o quadro atrás dos
vestidos e tranca a porta do guarda-roupa. Depois, vai pegar o aspirador,
ainda atordoada, quando seu celular apita com a chegada de uma
mensagem. Ah! Graças a Deus. Será a mãe?
Não, é o Henry. Ei, Meems, diz ele e, apesar do horror dos últimos
minutos, Mia sente uma agitação interna. Como parte das imitações esnobes
da véspera, eles deram apelidos bobos um para o outro (o dele é Hen-Hen),
e só ler as palavras já basta para que o lindo rosto do garoto surja em sua
mente. Que horas você termina o trabalho?
Subtexto: ele quer vê-la, deduz Mia, praticamente flutuando do chão.
Ele quer vê-la! Mas os acontecimentos da manhã não a deixam pensar em
outra coisa no momento. Espero que seja o mais rápido possível, responde.
Sua tia-avó é doida de verdade, sabe. Tipo... acho que ela matou
alguém???
Ela envia a foto só para garantir que ele entenda, e então move
rapidamente o aspirador para a frente e para trás antes que o aparelho faça
um buraco no carpete. Henry responde quase de imediato. Socorro. Que
merda é essa?????
Eu sei, né?!?! E tô presa no apartamento com ela! Em parte, é
brincadeira, porque é tudo muito louco, mas ao mesmo tempo Mia está
mesmo com medo. Porque... como isso vai acabar? O que ela deve fazer
com uma informação tão perturbadora como essa? De repente, a garota se
sente como uma criança, e não das mais corajosas. Ela se sobressalta ao
ouvir o som de vozes elevadas no andar de baixo. Adelaide parece estar
berrando com a mãe dela por algum motivo. Uau. E agora? Falo com você
mais tarde, Mia manda para Henry, depois desliga o aspirador e enfia o
celular no bolso. Com o coração batendo forte, ela desce correndo a escada
e descobre que a gritaria só ficou mais alta, agora também com o acréscimo
de alguns latidos de Jean-Paul.
Mia para do lado de fora da porta fechada, sem saber se deve entrar ou
não, mas então a porta é aberta, quase derrubando Mia, e a mãe sai, com o
rosto vermelho.
– Nunca mais volte aqui! – grita Adelaide atrás dela.
A mãe de Mia parece estar à beira das lágrimas ao fechar a porta, a
bolsa escorregando pelo braço na pressa.
– Pega as suas coisas – diz a mãe. – Estamos indo embora.
Capítulo Trinta e Cinco

O coração de Jess está tão acelerado quando elas saem do apartamento que
ela até acha que pode estar tendo um ataque de pânico. Ah, Deus. Deu tudo
tão errado... De novo! Ela perdeu o trabalho. De novo! E justamente quando
achou que as duas haviam avançado tanto. Que as coisas estavam indo bem
de verdade.
– O que aconteceu? – pergunta Mia, preocupada, enquanto elas descem
os degraus de pedra pela última vez. – Por que ela ficou tão brava com
você?
É um alívio sair para o ar fresco da rua, mas também é uma tragédia,
porque Jess sabe que nunca mais voltará ao apartamento.
– Eu estraguei tudo – responde ela, desolada.
– Mas como? O que aconteceu?
As duas começam a caminhar em direção ao hotel, e Jess ainda se
sente atordoada com a rapidez com que tudo desandou.
– Tentei resolver as coisas entre a Adelaide e a melhor amiga – fala, a
voz embargada. – Mas ela ficou furiosa por eu ter agido pelas costas dela.
Jess balança a cabeça, imaginando a expressão arrogante que veria no
rosto de David se o ex-marido estivesse lá para ouvir aquilo. Quantas vezes
isso já aconteceu?, diria ele, revirando os olhos. Você simplesmente não
sabe a hora de parar, Jess, esse é o seu problema!
Ela se sente idiota ao explicar o resto da saga à filha, em tom
embotado. Jess conta que, sentada no salão de Adelaide de manhã, tinha
achado que, embora ainda não tivesse chegado ao desfecho da história de
Pascale – e talvez nunca chegasse –, devia a Adelaide ao menos comentar
sobre a antiga amiga. Depois de a artista contar algumas histórias sobre seu
tempo como professora na escola de artes de Ottawa, Jess decidiu agir.
– E... a Margie? – incitou. – Como ela se encaixava na sua vida nessa
época?
A pergunta saiu fora de contexto e, apesar de lhe lançar um olhar
desconfiado, Adelaide respondeu mesmo assim.
– Já tínhamos perdido contato – disse ela, o tom sério. – A Margie
tinha um filho pequeno na época, o Raphael, e estava ocupada com ele, e
depois a família se mudou para Pasadena. Não frequentávamos mais os
mesmos círculos.
– Mas vocês ainda eram amigas naquela época? – insistiu Jess, embora
já soubesse a resposta.
É uma pena que elas tivessem rompido de forma tão radical! Entre
todas as pessoas, Jess se pegou pensando na mãe, Samantha, que sempre
valorizou a companhia de outras mulheres. Noites de bingo, tricô e
conversa, o grupo de canto-coral, o Pilates das aposentadas (como
Samantha chama) – Jess sabe que essas interações com as amigas são o
cimento que mantém o mundo da mãe de pé. É uma das poucas coisas que
Jess e Samantha têm em comum, a alegria vinda das amizades femininas.
Com certeza, apesar de sua natureza espinhosa, há uma parte de Adelaide
que também sente falta disso.
A artista baixou os olhos para o colo, parecendo subitamente triste.
– Não – falou. – Não estávamos mais nos falando. – Ela ficou em
silêncio por um instante, antes de endireitar os ombros e retomar o fio do
depoimento. – Agora, seguindo em frente: falando da arte que eu estava
criando em Ottawa... – começou a dizer Adelaide, mas Jess não conseguiu
se conter.
– Ela está doente... – As palavras escaparam antes que ela conseguisse
se conter, estourando como projéteis no ar.
Jess se arrependeu na mesma hora e cobriu a boca com a mão, porque
se deu conta de que havia caído na armadilha do sensacionalismo, das
táticas de choque, e isso não era justo. Era cruel, até. Adelaide virou a
cabeça com uma expressão indecifrável.
– Quer dizer... – gaguejou Jess, sentindo a boca seca.
Ela se deu conta, então, de que deveria ter se preparado melhor para
aquele momento, mas logo se lembrou do que estava em jogo. Todos os
bons momentos que as duas haviam tido. Convença-a, Jess!
– Como você sabe disso?
– Eu... – Hora da confissão. – Então... hum... Eu tinha a esperança de
conseguir o desenho que a Margie fez de você, na sequência daquela
história de Mulher fumando um cigarro – começou Jess, sentindo-se
ruborizar sob o olhar duro de Adelaide. – E entrei em contato com ela na
esperança de...
– Eu pedi para você não fazer isso. – A voz de Adelaide era
devastadora em sua frieza. – Me lembro claramente de ter pedido para você
não fazer isso.
– Sim, mas...
– “Sim, mas” coisa nenhuma! – Adelaide bateu com o punho no braço
da cadeira. – Você tem tão pouco respeito por mim a ponto de ir contra
minha vontade?
Jess engoliu em seco, tentando acalmar o coração disparado.
– Adelaide, tenho muito respeito por você – retrucou com sinceridade.
– Um respeito sem limites. E ouvir sobre a sua amizade com a Margie me
deixou de coração partido, e quando eu soube que...
– Não é da sua conta! E de forma alguma cabe a você começar a
interferir. Não acredito que você traiu a minha confiança dessa maneira!
Jess engoliu em seco.
– É um pouco da minha conta quando estou escrevendo a história da
sua vida – argumentou. – E só estou mencionando isso agora porque essa
pode ser sua última chance de vê-la. – Tinha ido longe demais? Que fosse,
decidiu Jess. – Parece que... sem querer ofender, mas parece que você
desistiu da amizade. Quer dizer... tem uma diferença entre ser teimosa e
ser...
– Desistir da...? – Adelaide ficou boquiaberta por um instante, e algo
dentro de Jess murchou e morreu por ter falado tão diretamente. – Como
você ousa dizer uma coisa dessas? Para sua informação, eu não desisti de
nada. Embora Deus saiba que já me senti tentada muitas vezes a desistir
desse maldito livro de memórias, especialmente porque é você escrevendo!
– Eu não... – tentou dizer Jess, mas Adelaide continuava a falar, as
palavras saindo altas, em tom ardente.
– Não acredito que você entrou em contato com ela. Simplesmente não
consigo acreditar que você teve a audácia de fazer uma coisa dessas pelas
minhas costas.
De repente, havia lágrimas nos olhos de Adelaide; ela parecia
totalmente perturbada. Jess começou a se sentir péssima. O que tinha feito?
– Quem você pensa que é para interferir desse jeito? – gritou Adelaide.
– Para decidir que sabe o que é melhor para mim? Você não sabe de nada!
Ela estava chorando de verdade àquela altura, com lágrimas
escorrendo pelo rosto, e Jess se sentiu arrasada pela culpa, por saber que era
a causa daquela angústia.
– Por favor, me perdoa, eu...
– Não chega perto de mim! – bradou Adelaide, e jogou os braços para
o alto. – Vai embora, só isso. E também não quero que você volte mais. Está
entendendo? Você está demitida. Está fora desse trabalho. E desta vez é sem
volta. Agora sai!
Mia permanece em silêncio por algum tempo quando Jess termina de
contar a história.
– Meu Deus, mãe – diz, por fim. – Eu realmente acho que ela é meio
louca. Não sei se isso melhora ou piora as coisas – acrescenta Mia depois de
um instante –, mas você viu a mensagem que eu te mandei? Sobre o que
encontrei no guarda-roupa da Adelaide?
– No...? – Jess não compreende de imediato o que a filha conta, de tão
consumida que está pela autorrecriminação (como pôde ser tão estúpida?),
mas então as palavras penetram sua consciência. – O guarda-roupa... não! O
que... o que tinha lá dentro?
Ah, merda. Olha só o quanto adiantou a tentativa de proteger a filha de
qualquer descoberta horrível que pudesse fazer... Tarde demais!
– Isso. – Mia coloca o celular diante de Jess, e um quadro surge na
tela. – Olha... bem, ela com certeza matou o cara, certo? – declara a garota
com uma nota de triunfo na voz. – Ou melhor, foram as duas, Adelaide e
essa outra mulher, seja ela quem for.
Jess congela na rua.
– Merda, acho que é a Margie – conclui, examinando o rosto da
mulher. Então, sente o estômago se revirar enquanto analisa a foto como um
todo. – Cacete.
Mesmo reduzida ao tamanho de uma tela de celular, a pintura é tão
impressionante que deixa Jess arrepiada. Não admira que o quadro tenha
causado calafrios em Marie-Thérèse, pensa, enquanto leva os dedos à tela
para ampliar os rostos: Adelaide, Colin, Margie. Os três juntos no que
parece ser um ateliê de pintura – um cômodo no andar de cima de Little
Bower, imagina – com a tensão dramática da enorme janela ao fundo, ainda
intacta. Mas por quanto tempo? O que aconteceu no instante seguinte? E no
outro?
Apesar de tudo, é emocionante ver a imagem, vislumbrar o que pode
ser a verdade por trás da história. Então Adelaide estava lá, apesar do álibi –
e Margie também. Elas teriam matado o homem juntas? Jess se sente
enrijecer quando outro pensamento lhe ocorre. Aquilo teria algo a ver com o
desentendimento e o subsequente afastamento entre as duas mulheres?
– Uau – sussurra, enquanto observa como Adelaide pintou as duas.
São as Fúrias, pensa, deusas da vingança. Escorre sangue dos olhos de
Adelaide, que está com o braço arqueado para trás, pronta para estalar o
chicote, aparentemente em cima do aterrorizado Colin. Ela o pintou como a
vítima, o que é interessante por si só, já que, pelo que Mia descobriu na
internet, o homem era meio que um stalker de Adelaide, atormentando-a
com sua atenção indesejada. Ah, Deus, ela tem tantas perguntas que – que
raiva! –, e agora nunca serão respondidas. Não menos importante é a
questão de quando Adelaide planejava revelar essa obra de arte em
particular. É fácil deduzir que, assim como o quadro da decapitação de
Simon Dunster, esse também faz parte da série “Vingança”, da qual ela
falou – uma confissão em tinta.
Jess e Mia ficam em silêncio por um instante, absorvendo a imagem
impressionante. É tortura para Jess saber que há uma história complexa e
fascinante por trás da obra, e que ela não vai mais poder contá-la. É
devastador ter chegado tão tentadoramente perto da verdade.
Mia a cutuca.
– Então... e agora? – pergunta, enquanto as duas voltam a andar.
– Bem, em poucas palavras, acho que vamos voltar para casa. E eu vou
procurar um novo trabalho.
Esse é o resumo do verão dela em duas frases curtas e deprimentes,
pensa Jess, arrasada. Vai ter que trocar a data da passagem de trem para o
dia seguinte, providenciar uma passagem para Mia também, depois, quando
já estiver em casa, vai precisar fazer uma redução de gastos imediata, até
conseguir encontrar algum trabalho novo para pagar as contas. Em outras
palavras, a festa em Paris acabou.
– Não adianta ficar por aqui. Apesar de que... – Jess se dá conta de que
ainda não pode ir embora. Não quando ainda não avançou na verdade sobre
o que aconteceu com Pascale. – Bem, há um lugar aonde preciso ir primeiro
– diz ela. – Lançar a sorte uma última vez.
– Você tá falando da Adelaide? Não tô entendendo, mãe.
Jess solta um suspiro. O dia está muito quente e ela ainda está de
ressaca depois da tarde de drinques ao sol. Então, vê um banco logo
adiante, à sombra, e aponta para ele.
– Vamos sentar aqui um minuto – sugere. – Você se lembra de eu ter
comentado sobre a minha amiga Pascale, daquela outra temporada que
passei aqui?
– Sim, a moça com quem você trabalhava no hotel?
– Isso. Bem, a Pascale era incrível. Você com certeza teria gostado
dela. Era divertida, ousada e... simplesmente incrível – conclui Jess, quando
as palavras a abandonam. Um pardal está pulando debaixo de uma árvore
próxima e ela fica olhando para o corpinho marrom, para as pernas que
parecem palitos. – Bem. A questão é que eu pisei na bola com ela.
– Como assim?
Jess cerra os lábios e se prepara para a confissão. Ela se dá conta de
que nunca falou sobre a história com ninguém, nem mesmo com David.
– A Pascale estava prestes a sair uma noite e me perguntou se eu
poderia ajudá-la e... e eu não ajudei.
– Certo. – Mia não chega a dizer “É só isso?” em voz alta, mas nem
precisa, porque as palavras estão escritas em seu rosto. – Ajudar com o
quê? – pergunta depois de um instante.
– Não sei – admite Jess. – A Pascale foi meio evasiva... disse até que
poderia ser uma coisa perigosa. Eu estava de mau humor naquele dia, tinha
tido um turno de trabalho longo e, quando entrei no quarto, lá estava ela,
usando um dos meus vestidos sem pedir...
– Eu odeio quando a Edie faz isso – declara Mia, solidária.
– E me recusei a ajudar a Pascale. Quer dizer, entrei no chuveiro
bufando alto, sem responder à pergunta dela. E isso... – A voz de Jess falha
e novas lágrimas surgem em seus olhos. – Isso me assombra desde então. O
fato de a Pascale ter pedido a minha ajuda e eu não ter ajudado. Depois
disso, eu nunca mais vi minha amiga. A polícia procurou por ela, mas não
tivemos notícias. Continuei no emprego por mais algumas semanas, mas ela
nunca apareceu. É quase certo que esteja morta, mas não sei o que houve. –
O pardal bica uma migalha, então uma mulher de patins passa em disparada
e o pássaro voa para longe. – Você entende? – continua Jess, e se lembra de
como aquele último mês tinha sido horrível para ela, com o peso
insuportável da culpa que carregava. – Se eu tivesse dito sim, se tivesse
ajudado em qualquer coisa que ela estivesse planejando, então...
– Sim, mas se fosse perigoso, então você poderia ter morrido também
– argumenta Mia. – Desculpa – acrescenta ao ver a mãe estremecer. – Mas e
se ela estivesse encrencada e fosse te pedir para fazer alguma coisa muito
ruim? Tudo poderia ter dado errado pra vocês duas. Você poderia ter
acabado na prisão. Ou machucada. Poderia não ter voltado para a Inglaterra
nem conhecido o papai, eu poderia nem ter nascido... Ou seja, um pesadelo.
Jess funga e procura um lenço de papel na bolsa.
– Sempre me senti péssima por causa dessa história – confessa em voz
baixa, e assoa o nariz.
– Estou vendo, mas, mãe, na minha opinião, não foi nada realista da
parte da sua amiga dizer Você pode me ajudar? Pode ser perigoso, e menos
ainda esperar que você dissesse: Ah, claro, pode contar comigo! O que eu
estou querendo dizer é que não é assim que acontece, certo? Ninguém diria
sim para uma pergunta dessas sem saber com o que estava concordando.
Jess não consegue evitar a sensação de que elas estão discutindo sobre
semântica e não sobre a culpa real, mas não tem energia para discordar.
– Acho que sim. Mesmo assim...
Mia continua a todo vapor.
– Olha, você não pode ajudar todo mundo... isso é simplesmente um
fato. E você ajudou um monte de outras pessoas, né? Tipo eu, a Edie e a
Polly, e todas aquelas pessoas fracassadas que escrevem pra sua coluna de
consultório sentimental – prossegue a filha, e Jess se encolhe em
solidariedade às “pessoas fracassadas”. – Sem querer bancar a psicóloga,
mãe – acrescenta Mia –, mas você não acha que talvez seja por isso que
você tem a coluna de consultório sentimental?
– Não, eu... – começa a responder Jess, mas se interrompe, perturbada
com a observação da filha.
É estranho, mas ela nunca colocou as duas situações lado a lado, e
agora se pergunta se não existiria mesmo uma ligação entre elas. Será que é
isso? Seria mesmo assim tão simplista? No fim das contas, é verdade que
ela sempre exagerou ao tentar ajudar outras pessoas, porque tem Pascale no
fundo de sua mente.
– Hum – diz Jess depois de um instante. – Não sei. Talvez?
Ela passa o lenço nos olhos, um depois do outro, mas Mia segura sua
mão com gentileza.
– Você tá borrando rímel pra todo lado – repreende a garota. – Então...
qual é o tal do último lugar aonde você precisa ir? Quer que eu vá com
você? – Ela dá um aperto carinhoso na mão da mãe, que ainda segura. –
independentemente do que você descubra, talvez a gente possa fazer uma
pequena cerimônia pra Pascale depois, que tal? Tipo... você poderia me
contar todas as coisas doidas que vocês duas fizeram, a gente poderia ouvir
as músicas favoritas dela ou comer alguma comida que ela realmente
adorasse. Poderia ser uma despedida digna de Paris para ela. O que acha?
O coração de Jess parece prestes a explodir naquele momento. De
onde veio essa jovem adulta e empática, capaz de fazer uma sugestão tão
perfeita? Jess tenta engolir o nó na garganta, passa os braços ao redor da
filha e beija o alto de sua cabeça.
– Acho uma ótima ideia – responde. – Obrigada. Vamos brindar à
Pascale, para eu me despedir.
Capítulo Trinta e Seis

Não são apenas as mãos de Adelaide que tremem após a partida de Jessica.
Todo o seu corpo parece estar reverberando de angústia. Depois que ela
para de chorar e se recompõe, liga para Luc para atualizá-lo sobre
a situação.
– Ah, não... – diz ele com um gemido.
A reação do sobrinho faz com que emoções correspondentes a atinjam
em cascata: culpa por ele parecer tão cansado (tanto dela quanto de Jessica,
ao que parece), e também raiva, mágoa e frustração pelas táticas
dissimuladas de Jessica. Como ela pôde fazer isso? Ainda mais quando
Adelaide lhe disse especificamente para não fazer! Que parte da palavra
“não” a mulher não entende? Adelaide demora um pouco para perceber que
também há tristeza em seu coração. Tristeza por toda essa história ter
acabado em confusão (de novo). Tristeza também, apesar de tudo, diante da
possibilidade de a velha amiga estar muito doente.
É estranho, porque Adelaide sempre presumiu que seus sentimentos
em relação a Margie já estivessem gravados em pedra àquela altura.
Imaginou que permaneceria indiferente em relação à antiga amiga pelo
resto da vida. Afinal, já se passaram anos desde a última discussão entre
elas – décadas. Pessoas nasceram e morreram desde então. Houve guerras,
líderes foram derrubados. Houve uma pandemia global, um colapso
climático, o planeta foi atingido por incêndios e inundações. No entanto,
talvez por Adelaide ter reexaminado tantas memórias de sua longa e agitada
vida – os altos cintilantes e os baixos lúgubres, a alegria e o desespero –, ela
passou a olhar para o passado, para os anos com Margie, sob uma
perspectiva diferente. Por um lado, se lembrou do quanto amava a amiga.
Como estar com ela era um de seus maiores prazeres. Nunca riu tanto com
ninguém, antes ou depois, como ria com Margie. E quanto àquela camada
de gelo que pareceu derreter no coração de Adelaide outro dia? Pois se
tornou um degelo sem ela perceber, diluindo a amargura e o ressentimento
que guardara por tanto tempo.
Ela deixa escapar um suspiro ao se lembrar do período que passou
cuidando da mãe moribunda durante as últimas semanas de vida dela,
quando a pneumonia se instalou e nunca mais foi embora. Geraldine estava
muito fraca naquela época, com os músculos rígidos por causa do
Parkinson, e foi vítima também de um AVC que lhe roubou grande parte das
habilidades de comunicação. A indomável Geraldine Brockes, mulher de
ombros largos, mãe de quatro filhos, adolescente campeã de natação,
cozinheira, bebedora de chá, hábil com uma máquina de costura, dona de
um temperamento que ardia como uma fornalha – ver aquela mulher antes
tão forte reduzida a pele e ossos em uma cama de um hospital para doentes
terminais partiu o coração de Adelaide. Será que Margie está sofrendo da
mesma forma?, se pergunta. Mesmo com tudo que aconteceu entre elas no
passado, é horrível imaginar essa possibilidade.
A morte é tão impiedosa, tão indigna... Adelaide se lembra, então, de
quando perdeu Remy, quatro anos depois da mãe, quando o consumo
excessivo de álcool começou a afetar seu fígado e ele passou a sofrer de
amnésia – perdia a noção de dias e noites inteiros e acordava com o lábio
cortado ou um olho roxo, depois de se meter em uma briga em algum lugar.
No fim, Remy estava irreconhecível: muito magro, com a pele pálida,
determinado a se autodestruir por causa daquela sede incessante por outro
drinque. Por mais que Adelaide tentasse salvá-lo e lhe mostrar que valia a
pena viver com ela – inscrevendo-o em clínicas de reabilitação, prometendo
viagens de férias e até comprando o apartamento dos sonhos de Remy, pelo
amor de Deus –, foi tudo em vão. Ele não se interessou por nenhuma das
suas tentativas.
Adelaide se recosta na cadeira e permite que um espaço se abra em sua
mente, para que possa examinar seus sentimentos em relação a Margie,
após a notícia dada por Jessica. É bobagem se sentir chocada com isso, já
que as duas estão na casa dos 70, mas, mesmo assim, para Adelaide, uma
parte de Margie sempre vai ser uma mulher de 30 e poucos anos: vibrante,
obstinada, cheia de energia. É claro que, no presente, a antiga amiga deve
ter as mesmas rugas e os mesmos vincos que Adelaide, dores e dificuldades
semelhantes quando se levanta da cama pela manhã. O enrijecimento e a
desaceleração que acontecem com todos. Como será a Margie idosa?,
pergunta-se Adelaide. Será que se dedica desafiadoramente ao trabalho e
usa um vestido com lantejoulas de vez em quando, ou será que, como
Adelaide, se ensimesmou ao longo dos anos? Qualquer que seja a resposta,
ela percebe que não quer que Margie morra – ainda não, não com um
silêncio arrogante pairando entre elas.
Adelaide se abaixa para acariciar Jean-Paul, sentindo-se entorpecida.
Essa pode ser sua última chance de vê-la, dissera Jessica. Seria verdade?
Por onde Adelaide começaria, se elas se vissem de novo? As amigas tinham
se magoado demais. E de forma irreparável – ou ao menos foi o que
pareceu na época.
– Eu confiei em você! – Adelaide ouve Margie gritar, enquanto retorna
mentalmente à última briga terrível entre as duas. – Como pôde me
decepcionar desse jeito?
– Ah, Jean-Paul... – fala Adelaide com um gemido de infelicidade, e
acaricia o delicioso pescoço aveludado do cãozinho.
Para onde irão dali? Não apenas no que diz respeito à velha amiga,
mas no que diz respeito à vida de Adelaide, às suas memórias infelizes. Ela
não sabe se consegue suportar a ideia de recomeçar com uma nova
escritora. Quanto ao resto de sua vida... parece que já faz muito tempo
desde aquele dia em que estava às gargalhadas com Frieda e Jim no
restaurante libanês, olhando para o futuro e sentindo uma energia positiva
se revelar em seu coração. Mas quando se chega à nossa idade e... bem, às
vezes, a gente simplesmente tem que ir aos lugares que quer ir. Enquanto
ainda podemos, defendera Frieda em um tom apaixonado. Você não acha?
– Eu não sei, Frieda – diz Adelaide agora, em voz alta. – Eu realmente
não sei mais nada.
Ela baixa os olhos e percebe que seu celular ainda está gravando
fielmente os sons do apartamento, mesmo que Jessica já tenha partido há
muito tempo, então pressiona “Parar”. É quando a ideia lhe ocorre. Talvez
ela não precise trabalhar com um escritor – afinal, já tem seus próprios
arquivos de áudio das sessões com Jessica, que podem ser transcritos
oportunamente. Adelaide promete a si mesma terminar o trabalho sozinha.
Então decidirá o que fazer em relação ao futuro, se é que vai fazer alguma
coisa, e se isso incluirá Margie ou não.
Adelaide respira fundo, se acomoda na cadeira e tenta deixar para trás
o desconforto da manhã. Então pressiona “Gravar” outra vez. Vamos em
frente.
– O ano de 1980 foi muito difícil – diz ela. – O pior ano da minha vida.
Quando terminou, eu estava em um hospital psiquiátrico na Alemanha, meu
relacionamento com Remy havia chegado a um fim dramático e a minha
melhor amiga não falava mais comigo. Além disso, duas pessoas estavam
mortas...
Capítulo Trinta e Sete

Jess insiste em que elas deem uma passada no hotel para jogar uma água no
rosto, tomar uma bebida gelada e reaplicar a maquiagem. Ela troca a blusa
que está usando por outra, rosa, leve, com mangas bufantes, e acrescenta
brincos e o colar com o pingente de metade de um coração, como se
estivesse envergando uma armadura. O que está vestindo não deveria
importar, mas Jess quer se sentir confiante, o tipo de mulher que consegue
obter respostas. Agora que foi mandada de volta para casa, talvez seja sua
última chance.
As duas estão saindo da estação de metrô quando o celular de Jess
começa a tocar. Luc, ela lê na tela, e sente um sobressalto. Ah, não... Ele
provavelmente vai lhe dar uma bronca por ter perturbado Adelaide e agido
pelas costas dela. É o mínimo que ela merece, pensa Jess ao atender a
ligação.
– Oi – diz, com a voz arrasada, e para ao lado de uma banca de cigarro,
onde não vai atrapalhar ninguém. Ela tampa o outro ouvido com a mão,
pois está bem perto da rua, o trânsito intenso. – Imagino que você já soube
o que aconteceu.
– Jess, eu... não entendo – fala ele, soando igualmente desconsolado. –
Você entrou em contato com a Margie? Eu te avisei que a Adelaide não ia
gostar disso.
Um ônibus passa e Jess pressiona o celular junto ao ouvido.
– Eu sei, mas...
– Mas o quê? Você pensou “vou fazer isso assim mesmo”? Jess, tô
arrasado. Achei que estava indo tudo tão bem...
Por algum motivo, ouvir Luc dizendo que está arrasado parece o pior
castigo de todos.
– Eu também achei – diz ela, impotente, fazendo uma careta para Mia.
– Eu só...
– Você não se aguentou e teve que fazer o papel de consultora
sentimental, né? – conclui ele. – Teve que se envolver.
O semáforo abre para os carros no cruzamento próximo e um cara em
uma moto acelera, impedindo que Jess escute o que Luc diz a seguir. Talvez
seja melhor assim.
– Desculpa – diz ela, em tom débil. – Eu só estava tentando...
– Sim, ajudar, eu sei – interrompe ele. – Mas às vezes a coisa mais útil
a fazer é não se meter na vida das pessoas, já pensou nisso?
– Luc, eu só... – balbucia ela.
Mas ele a interrompe com “Tenho que ir”.
E a ligação é encerrada.
Ele realmente desligou na cara dela? Isso se parece tão pouco com Luc
que Jess precisa olhar para a tela do celular para acreditar. Sim. Ele desligou
na cara dela. Quer distância dela, assim como Adelaide. Ela decepcionou os
dois.
– Mãe, não começa a chorar de novo – pede Mia, depois segura o
braço de Jess e a puxa pela calçada. – Pensa no seu rímel e esquece o Luc
por enquanto. Pra que lado fica o hotel?
Jess funga e tenta se controlar. Esse não está sendo o melhor dia da sua
vida. Foi mesmo na véspera que ela bebeu mojitos com Luc e Catherine,
rindo sob o sol e se sentindo tão bem? É impressionante a velocidade com
que tudo desmoronou, e a culpa é toda dela. Perdeu o emprego – e a
amizade de Luc – graças à própria intromissão equivocada. Que belo
exemplo de autossabotagem!
– Vamos – chama Mia. – Para de sentir pena de si mesma. Você precisa
estar bem dona de si quando a gente entrar no bar, nem que seja pela
Pascale.
Jess assente e tenta tirar a ligação de Luc da mente. Mia está certa. É
melhor deixar para se preocupar e se culpar mais tarde. No momento, ela
tem perguntas a fazer.
✳ ✳ ✳

O bar do Hotel d’Or é o mesmo refúgio elegante de sempre, com paredes


apaineladas, luminárias elegantes que garantem uma luz suave e amarelada
ao anoitecer e poltronas de couro confortáveis dispostas ao redor de mesas
baixas. A música de um piano soa nos alto-falantes quando as duas se
aproximam do bar, e Jess precisa de um instante para se recompor, porque é
como se tivesse voltado no tempo. O bar está iluminado como um cenário
de teatro, impecável; garrafas de bebida estão dispostas uma ao lado da
outra preenchendo as prateleiras que vão até o teto, como livros em uma
biblioteca bem abastecida. Um rapaz bem jovem está polindo taças de
vinho no bar, e Jess sente o pessimismo dominá-la ao ver que ele é o único
funcionário ali. Até parece que vai saber alguma coisa sobre um homem que
costumava beber ali 25 anos antes! Ele provavelmente ainda nem tinha
nascido.
– Oi – diz ela quando as duas chegam ao bar, e as palavras “mais uma
tentativa inútil” ecoam em sua mente. Então jura para si mesma que essa é a
última vez que faz alguma coisa por impulso. – Un Coca light, s’il vous
plaît – pede. – Et... Mia, o que você vai querer?
– Hum... uma cerveja?
– Tenta outra.
– Vodca com Coca-Cola?
– Não. Mais uma vez?
Mia revira os olhos, mas não insiste.
– Un Coca light aussi, s’il vous plaît – pede ela lindamente.
O barman sorri para as duas.
– Sem problemas – diz ele, já pegando dois copos.
– Ah, e... – Jess pega o celular e mostra a foto do quadro de Victor
Dufresne. – Esse homem – fala ela, voltando ao francês. – Victor Dufresne.
Imagino que você não saiba nada sobre ele, não é?
O barman olha fixamente para a foto e balança a cabeça. O coração de
Jess afunda. Sabia que não daria em nada. Obviamente era querer demais
aparecer ali e conseguir alguma resposta depois de tantos anos.
– Non – responde o rapaz. Mas então... – Mais mon oncle Thierry est
ici. Un moment...
– O que ele disse? – pergunta Mia, quando o barman levanta um dedo
e desaparece em uma sala nos fundos.
– O rapaz disse que o tio dele, Thierry.... Nossa, com certeza não pode
ser o mesmo, não é? Tinha um Thierry que tomava conta do bar quando eu
trabalhava aqui – diz Jess, sentindo um frio na barriga.
Ela leva a mão ao rosto, que tinha ficado muito vermelho. Por favor,
que seja ele, pensa. Por favor. Ia ser muito bom sair daquela viagem com
alguma vitória, agora que perdeu o trabalho.
O barman retorna com um homem mais velho. Seus cabelos estão
grisalhos, e ele engordou alguns quilos desde que Jess o conheceu, mas sem
dúvida é o mesmo Thierry que trabalhava ali na época dela.
– Thierry! – exclama Jess, surpreendendo-o com seu entusiasmo. –
Ah... pardon. Meu nome é Jess. Eu trabalhei como camareira aqui no hotel
há muito tempo. Em 1998 – explica ela, em francês.
Thierry estreita um pouco os olhos e fita Jess de cima a baixo, então
assente lentamente.
– Sim – diz ele. – Você vinha aqui com uma amiga, não é isso? Patrice,
era esse o nome dela?
– Pascale – corrige Jess, quase num sussurro.
Seu coração dispara.
Ele assente e fica em silêncio por um instante, aparentemente perdido
em pensamentos.
– Você estava perguntando sobre Victor Dufresne, certo? – volta a falar
Thierry, com uma expressão difícil de decifrar. – Por favor, vamos nos
sentar. O Eric vai trazer suas bebidas. Tenho uma história para contar.
Capítulo Trinta e Oito

– Para deixar registrado – diz Adelaide para o gravador do celular –, nós


nunca tivemos a intenção de que o Colin morresse. Não foi de propósito.
Foi tudo um acidente terrível. Um acidente trágico? Para a família dele,
talvez. Acho que havia uma irmã que o amava. Mas para mim? Não, na
verdade não. Fiquei feliz em vê-lo cair, e pode me julgar como achar
melhor por essas palavras.
Adelaide tinha ficado apavorada naquele dia em Little Bower, quando
Colin apareceu daquele jeito, dizendo aquelas coisas insanas,
desequilibradas. Declarando que a amava. Que queria que eles ficassem
juntos e que sabia que ela sentia o mesmo.
– Mas eu não sinto o mesmo! – exclamara Adelaide em resposta, cada
vez mais nervosa, enquanto ele avançava pela sala até ela, com as mãos
estendidas como se quisesse tomá-la nos braços.
Ela não era de forma alguma uma mulher pequena e delicada, mas
Colin era um homem corpulento e determinado e, naquele momento, tinha
um brilho maníaco nos olhos. Adelaide não apostava em si mesma se
houvesse algum tipo de embate físico.
Graças a Deus, Margie chegou do nada, alegando ter tido um sexto
sentido, um arrepio de alerta, por conta da descrição que Adelaide fizera do
comportamento do homem. Adelaide nunca tinha se sentido tão grata por
ver a amiga – ou qualquer pessoa –, quando Margie apareceu na porta,
gritando “Ei!” com tanta estridência que até fez Colin estacar onde estava.
– O que aconteceu em seguida é um pouco indistinto na minha mente –
admite Adelaide para o celular. – Foi tudo muito rápido, muito intenso.
Colin me agarrou e eu tentei me desvencilhar. Margie correu e tentou tirar o
homem de cima de mim, mas ele era forte, não estava disposto a ceder. Só
Deus sabe o que se passava na cabeça dele. Nós três estávamos ali, em um
embate físico intenso, todos gritando a plenos pulmões. Sai de cima de
mim! Deixa ela em paz! E havia ainda alguma insanidade que ele estava
gritando, não consigo me lembrar agora. Então...
Ela engole em seco. Fecha os olhos. Se lembra do rosto vermelho do
homem, das veias da cabeça salientes, outra veia pulsando na garganta. Ela
respira fundo e se permite um instante antes de ouvir o barulho do vidro
quebrando voltar mais uma vez à sua memória, tantos anos depois.
– Eu me lembro de pensar, muito claramente, que ele iria me matar.
Porque o Colin estava furioso... furioso comigo por não ter dito as coisas
que ele queria que eu dissesse. Furioso com a Margie também, por ela ter
interrompido o grande momento dele quando veio em meu socorro. E
houve alguns empurrões, definitivamente alguma luta física, mas juro que
nenhuma de nós o empurrou daquela janela.
Adelaide tem as mãos no colo, os dedos entrelaçados, e baixa os olhos
para eles, para a pele quase translúcida por conta da idade.
– Já faz muito tempo, está tudo confuso na minha cabeça agora, mas
acho que o Colin deve ter perdido o equilíbrio, porque no instante seguinte
ele tropeçou e... – Ela engole em seco mais uma vez, sentindo a boca seca.
– Ele caiu.
PLAFT. Lá vai ele, pela centésima, talvez milésima vez, na mente
dela. E Adelaide vê de novo aquela expressão de pânico quando Colin
cambaleou para trás e caiu da janela. Ele se desequilibrou com o impacto,
seus braços giraram freneticamente no ar, mas ele não conseguiu endireitar
o corpo e começou a tombar, depois caiu. Até encontrar a morte.
Quem visse a reação de Margie imaginaria que ela estava
acostumada com pessoas morrendo acidentalmente em sua frente, a julgar
pela rapidez com que recuperou a compostura e começou a traçar um plano.
Elas colocaram luvas para evitar deixar mais impressões digitais,
datilografaram um bilhete de suicídio e colocaram em cima da máquina de
escrever. Então, com um puxão que quase machucou o pescoço de
Adelaide, Margie tirou as duas dali, disse a Adelaide para entrar em seu
carro vermelho, avisou que iriam para a casa dela e que criaria um álibi. Só
quando já estavam a caminho, deixando Colin abandonado para trás, com o
corpo todo contorcido, sem poder jamais incomodar outra mulher, foi que
Adelaide recobrou o juízo e a discussão começou.
– Devíamos contar à polícia – disse ela, fazendo Margie vacilar no
volante, alarmada.
– Você tá maluca? Não vamos contar à polícia. Não vamos contar pra
ninguém o que acabou de acontecer, entendeu, Adelaide? Vamos levar essa
história com a gente pro túmulo.
– Mas a gente não matou ele! – gritou Adelaide. – A culpa não é nossa.
Ele caiu! E se a gente contar isso à polícia, então...
– Você não tá me ouvindo! O que você acha que a polícia vai dizer se a
gente parar na delegacia mais próxima e disser: ah, tem um homem morto
em Little Bower, mas não fomos nós, seu guarda, com certeza não. Sim,
somos duas artistas, mas não use isso contra a gente, tá certo? Seria o nosso
fim, Addie. A gente estaria atrás das grades em dois segundos. Daí... –
Margie agarrou o volante com mais força, os nós dos dedos agora brancos.
– Bem, estou tentando conseguir meu Green Card, certo? Essa é a última
coisa que eu quero na minha ficha. Se vamos nos mudar para os Estados
Unidos, eu preciso estar com a ficha totalmente limpa.
– Ah, tá, entendi. Então isso tem a ver com a sua ficha limpa, né?
Adelaide tinha ficado arrasada com a notícia de que a amiga se
mudaria para os Estados Unidos, depois que o marido recebera uma
excelente oferta de emprego em Pasadena. Naquele momento, parecia que
Margie estava reafirmando a decisão, priorizando mais uma vez a família
em vez da amizade.
– Bem, adivinha só, você estava lá quando um homem morreu –
continuou Adelaide. – E se a gente não for à polícia e falar a verdade, que
foi um acidente, que ele caiu, só vai ser pior pra nós duas depois. Se
descobrirem que a gente mentiu...
– Não vão descobrir que a gente mentiu! Pelo amor de Deus, Adelaide,
desde quando você ficou tão santinha?
– Ah, sei lá, provavelmente desde que aquele cara esquisito caiu e
morreu bem na minha frente!
Ela sentiu o coração disparar ao se lembrar de Colin com o pescoço
torcido no chão, com as pernas dobradas em ângulos terríveis. A expressão
no rosto dele era de choque, os olhos e a boca abertos. Adelaide se
perguntou quanto tempo demoraria até que uma raposa o encontrasse ali, ou
um corvo curioso bicasse um globo ocular.
– Ah, meu Deus, vamos parar o carro, vou vomitar – pediu, sentindo o
estômago revirar no instante seguinte.
Adelaide ainda sente o gosto da bile, décadas depois. E se lembra
perfeitamente de como se debruçou na beira da estrada, tremendo e
vomitando, com a sensação de estar presa em uma alucinação terrível.
– Isso é tudo culpa minha – disse, quando voltou para o carro instantes
depois, limpando a boca com um lenço de papel velho.
– É claro que não é culpa sua! Você não pediu àquele cara pra te seguir
e pra te importunar, pediu? Você nunca incentivou o doido.
– Mas se eu não estivesse lá, ele não teria me seguido e... – Adelaide
olhou pela janela, para o cenário da zona rural de Kent, ainda incapaz de
acreditar que Colin estava morto. – Ele estaria vivo agora, se não fosse por
mim.
– Isso é bobagem. Você não pode se culpar. É como dizer que se eu
não tivesse aparecido, ele ainda estaria vivo. Sim, claro, teoricamente, mas
talvez você não estivesse. Ele poderia ter te matado ou te estuprado... o
homem com certeza parecia disposto a te machucar, Addie. Como eu
poderia deixar isso acontecer depois do que o Simon fez? – Mas Adelaide
percebeu que o que acontecera estava começando a afetar Margie... o
choque tardio finalmente alcançava a amiga. – Por Deus, aquilo aconteceu
mesmo? Que horror...
Agora, segura em seu apartamento, Adelaide se obriga a contar ao
gravador os detalhes do resto daquele dia – de como elas haviam chegado à
casa de Margie, de como tinham jurado uma à outra que nunca contariam a
ninguém sobre o incidente. O marido e o filho de Margie estavam fora na
época, mas elas se certificaram de que um vizinho visse Adelaide lá, e
Margie comentou com ele que as duas estavam tendo um “fim de semana só
de meninas” para consolidar o álibi.
– Sabe como é, quando o gato sai... – dissera ela, piscando para o
vizinho, que riu na hora.
A polícia foi falar com Adelaide depois de descobrir que Copeland
tinha fotos dela no apartamento, e também interrogou as outras artistas de
Little Bower para saber onde estavam no momento da morte, até
concluírem que não houve crime e cravarem um veredicto de suicídio.
– A investigação foi um fracasso, se quer saber – diz Adelaide para o
gravador. – Qualquer detetive com dois neurônios certamente teria
questionado um suposto suicídio em que o morto se atira por uma janela de
vidro, mas nenhuma de nós voltou a ser procurada para dar qualquer outro
esclarecimento. Me sinto mal pela irmã dele, por não termos contado a
verdade na época, mas foi um acidente.
Ela sente um nó na garganta quando se lembra da culpa que sentiu
depois. Tinha sido difícil trabalhar, com a morte de Copeland pesando em
sua consciência, e Adelaide se viu desenhando a cena vezes sem conta para
tentar assimilar o que havia acontecido, embora sempre fizesse questão de
queimar os esboços, com medo do que poderia acontecer se o segredo
escapasse. Ela passou a beber muito, a discutir com Remy e a ter
dificuldade para se concentrar. Então, como se o universo lhe pregasse uma
peça sórdida, Adelaide descobriu que estava grávida.
– Sei que isso vai parecer estranho – diz ela, hesitante, para o
gravador –, e, pensando melhor, acho que eu não estava muito bem, mas de
certa forma me convenci de que estava grávida da alma de Colin Copeland.
É uma bênção confessar isso para a neutralidade do celular, e não para
o rosto expressivo de Jessica, porque só Deus sabe como a jornalista teria
reagido a essa pequena pérola. Adelaide acha que não teria suportado se
Jessica tivesse rido, porque, na época, aquele delírio parecera muito real e
muito assustador.
– Sei que há boatos sobre eu ter tido um filho – continua ela. – Ouvi
isso com meus próprios ouvidos, de pessoas que deveriam ter mais bom
senso. Contei a alguns amigos e à minha gerente, a Monica, em total sigilo,
mas alguém deve ter espalhado. A Monica, eu aposto. – Adelaide cerra os
lábios, ainda aborrecida com a traição. – Mas àquela altura eu já tinha dado
um fim à gravidez. A segunda morte naquele ano.
Se Colin Copeland havia assombrado os pesadelos dela nos anos
seguintes, seu filho não nascido também permaneceu como um
companheiro fantasmagórico que caminhava como uma figura acusadora ao
seu lado ao longo da vida. Uma criança que já estaria com seus 40 e poucos
anos, quase da idade de Lucas e Catherine, construindo seu caminho no
mundo, talvez também como artista – provavelmente como músico, escritor
ou escultor. Ela nunca vai saber. E Adelaide também não queria que Remy
soubesse que ela havia retirado o feto antes que ele fosse maior do que um
damasco. Não deveria ter contado a ele, mas, num ataque de frustração
quando Remy não conseguiu aceitar que ela não queria transar certa noite,
Adelaide se viu jogando o segredo do bebê-fantasma na cara dele, só para
fazê-lo calar a boca.
É verdade que o calou. Mas também o mandou direto para os braços
de Nadia Esposito, uma artista ítalo-americana com quem Remy passou a
noite seguinte e a quem acabou pintando para a exposição em Berlim.
– Então – lembra Adelaide em voz alta –, como se isso não bastasse,
logo depois a Margie e eu tivemos a nossa maior briga de todos os tempos.
Uma briga da qual não havia volta.
Uma lágrima escorre por seu rosto e ela desliga o gravador. Ainda há
muito a contar sobre aquele ano terrível – a briga com Margie e suas
repercussões, as consequências do incidente com a pintura em Berlim e sua
internação forçada no hospital psiquiátrico... Adelaide enxuga os olhos,
exausta, e se pergunta para quem está fazendo isso. Se pergunta por que
achou que começar o livro de memórias seria uma boa ideia. Talvez, no fim
da contas, algumas histórias devam permanecer enterradas.
Capítulo Trinta e Nove

Thierry tem uma história e tanto para contar a Jess e Mia no bar do Hotel
d’Or. Ele não sabe o que aconteceu com Pascale, mas sabe o que aconteceu
com Victor Dufresne na noite em que ela desapareceu, porque, quando a
história enfim veio à tona, foi assunto no bar por semanas. Dufresne não era
um homem benquisto, conta Thierry, optando por um eufemismo irônico.
Era violento e imprevisível, ganhou muito dinheiro com negócios
duvidosos e tratava as outras pessoas – particularmente as mulheres –
como lixo.
Jess assente, lembrando que Adelaide fez observações semelhantes.
– Então, o que aconteceu com ele? – pergunta, tentando conter a
impaciência.
Thierry abre as mãos, pedindo que ela aguarde o que vem pela frente.
– Antes, preciso dizer que tudo aconteceu há muito tempo e é difícil
lembrar os detalhes – começa ele. – Mas o Doof... o Dufresne... não foi
visto por um tempo depois que a sua amiga desapareceu. Era quase como se
tivessem desaparecido juntos.
– Ah, não... – diz Jess, temendo o pior.
Com certeza nada de bom poderia sair desse cenário.
Thierry continua, dizendo como uma explicação para o sumiço do
homem finalmente acabou surgindo.
– ... mas isso foi depois de algumas semanas, porque o Dufresne estava
envergonhado, sabe? Ele não queria que ninguém descobrisse.
Ao que parece, Dufresne foi depenado por uma mulher com quem
tinha saído para jantar. Talvez ele tenha sido desagradável com ela, supõe
Thierry, quem sabe, mas ao que parece Dufresne acordou no dia seguinte
com a pior dor de cabeça da sua vida.
– Então, ele descobriu que sua carteira tinha sumido, o carro também,
e, sim, uma de suas contas bancárias estava quase vazia – conclui.
Jess mal consegue respirar.
– E a Pascale... Espera, o que você está dizendo?
Thierry dá de ombros.
– Como eu disse, descobrimos isso semanas depois. Um mês, talvez. A
polícia já tinha parado de fazer perguntas sobre Pascale. Mas um barman vê
muita coisa, sabe? Somos os olhos e os ouvidos de um lugar como este. Eu
já tinha reparado na Pascale e no Dufresne juntos no bar e fiquei pensando
se as duas coisas não estariam ligadas. E, se estivessem, se tivesse sido ela
quem o enganou e conseguiu escapar, bem... – Ele faz um gesto de
cumprimento. – Então, boa sorte para ela. Muitas mulheres antes da sua
amiga não tiveram um fim de noite tão agradável, por assim dizer.
Jess sente lágrimas ardendo nos olhos, porque, se isso for verdade, o
destino de Pascale foi absurdamente melhor do que qualquer suposição que
ela já fez.
– Ela pode mesmo ter feito isso – comenta Jess, encantada.
Estou te dizendo, um dia vou seduzir um homem rico, ela ouve Pascale
dizer de novo. Vou seduzir o cara, pegar todo o dinheiro dele, depois vou
partir seu coração. A carteira, o carro, a conta bancária de Dufresne... se
tivesse sido mesmo Pascale, ela apostara tudo.
– Ah, torço tanto para esse ser o motivo do desaparecimento!
– Também torço – diz Thierry com um brilho nos olhos. – E escolho
acreditar que sim.
Jess precisa se esforçar para não abraçar o homem, mas consegue se
conter, até porque não quer um incidente com seu rímel na camisa branca
imaculada dele.
– Muito obrigada, Thierry – agradece ela, as lágrimas escorrendo. – Eu
também escolho acreditar nisso.
– Mãe, o que tá acontecendo? Vocês dois estão falando rápido demais
– reclama Mia, então Thierry, ainda sorrindo, aperta carinhosamente o
braço de Jess e diz que foi bom vê-la de novo. – As bebidas são por conta
da casa, é claro – acrescenta, e deixa as duas a sós.
Jess não sabe se ri ou se continua chorando ao contar a história para a
filha, mas no fim está sorrindo. As duas estão.
– Ai, meu Deus, que mulher fantástica – diz Mia. – Uau, Pascale! Você
acha que ela drogou o cara? Adoro a ideia de ela ir embora no carro dele!
– Eu também – responde Jess. – A Pascale sempre brincava sobre nós
sermos... – Ela se interrompe por um instante e, então, acrescenta: – Thelma
e Louise – diz, baixinho.
Ela se recorda de Pascale sugerindo que as duas se tornassem bandidas
como no filme.
– Sim, porque olha como tudo terminou bem – replicara Jess na época.
Mas Pascale empinara o nariz.
– Não essa Thelma – respondera a amiga.
Uma ideia ocorre a Jess. Não essa Thelma. E se...? Ela pega o celular e
abre o Instagram em um impulso. Qual era o sobrenome de Pascale?
Bernard, era isso. Thelma Bernard, digita Jess, então prende a respiração.
Provavelmente é uma ideia louca demais, mas...
– Mãe, o que você tá...? – pergunta Mia, enquanto os resultados vão
surgindo.
Ali está ela. ThelmaBernard1998. Deve ser Pascale.
– Encontrei ela – diz Jess, com a voz um pouco mais alta do que um
sussurro enquanto clica no nome. – Acho que encontrei a Pascale.
Jess percebe que ThelmaBernard1998 abriu a conta na rede social doze
anos antes. Ela não tem nenhum seguidor e postou só uma foto. Mas a foto
é um close do pescoço e das clavículas de uma mulher, com um colar
dourado com um pingente de metade de um coração, como o de Jess,
cintilando contra a pele. Jess se dá conta, atordoada, que Pascale deixou um
cartão de identificação digital, para o caso de a amiga aparecer. Pascale não
morreu naquela noite; a amiga viveu para contar a história, realmente
escapou. E, mais do que isso, pensa Jess, chorando de novo. No fim ela nem
precisou da ajuda de Jess – ou de qualquer outra pessoa – para se sair bem.
✳ ✳ ✳
Na manhã seguinte, Jess e Mia fazem checkout no hotel e se despedem com
um abraço. Mia está indo para a Gare de Lyon, onde vai pegar o trem para
se reunir às amigas, e Henry apareceu para acompanhá-la até lá. (Alguém
está interessado, repara Jess com um sorriso enquanto ele coloca a mochila
de Mia no ombro.) Ela, por sua vez, está a caminho do terminal do Eurostar,
na Gare du Nord. Jess é adulta e não precisa de ninguém para segurar sua
mão; mesmo assim, quando encontra seu lugar no trem e olha para a
plataforma pela janela, não consegue evitar certa melancolia por estar
partindo tão abruptamente. Adelaide e Luc devem estar felizes em vê-la
partir, e é justo. Ela sabe que passou dos limites. Estava tão envolvida na
própria narrativa sobre Pascale que projetou seus sentimentos em Adelaide,
uma pessoa que mal conhece. Fez todo tipo de suposições e acabou ferindo
os sentimentos da mulher, o que nunca foi sua intenção. Intrometeu-se
quando deveria ter respeitado os desejos e a privacidade da artista. Lição
aprendida, pensa Jess com um suspiro.
Quando chegar em casa, vai pedir desculpas tanto a Adelaide quanto a
Luc, promete a si mesma, enquanto o trem deixa a estação. Vai fazer o
possível para se explicar e para ser perdoada. Não vai mudar nada, mas Jess
acha que deve aos dois ao menos isso.
O trem ganha velocidade e ela olha pela janela, sem prestar atenção,
enquanto se pergunta se algum dia voltará a Paris. Na noite anterior, ela
criou uma conta no Instagram complementar à de Pascale –
LouiseStanton1998 – e depois postou uma foto semelhante à da amiga,
também usando seu colar de coração. Ela e Pascale curtiram as fotos uma
da outra, depois trocaram mensagens breves – É você mesmo? Você tá bem?
– e desejaram tudo de melhor uma à outra. Trocaram números de celular e
esperam se encontrar pessoalmente um dia. Jess já aguarda ansiosa pela
primeira vez que vão cantar “Hotel California” juntas, o mais alto possível.
Por ora, porém, ela está feliz por enfim se livrar dessa culpa de anos.
No fim, não abandonou Pascale. Já pode seguir em frente.
E é exatamente isso que faz nos dias e semanas que se seguem. Ela
fica feliz ao ver as fotos que chegam do sul da França, de Mia com as
amigas, o rosto feliz da filha enquanto todas riem juntas para a câmera.
Coloca as novidades em dia com Edie e Polly, ambas bronzeadas da
temporada na Itália, subitamente parecendo mais altas e adultas do que
antes, se é que isso é possível. Polly se inscreveu em um grupo de teatro
com vários amigos com a duração de uma semana, enquanto Edie pediu
para passar alguns dias em um clube de mangá. Enquanto isso, Jess se
concentra em um longo e-mail de desculpas para Adelaide e outro mais
curto para Luc. Trabalhar com você foi um dos pontos altos da minha
carreira, diz a Adelaide, e não é nenhum exagero. Lamento muito ter traído
a sua confiança, ter me deixado levar pelas minhas próprias ideias sobre o
que seria o certo a fazer. Não era responsabilidade minha me envolver, e
agora sei disso.
Depois, Jess arregaça as mangas e tenta deixar tudo para trás como
uma oportunidade perdida. Ela cerra os dentes e dispara uma série de
propostas para todo mundo. Consegue vender uma matéria sobre o projeto
de Moussa em Paris, de apoio aos homens, para uma revista de saúde
masculina; além disso, em uma esfera bem menos glamorosa, assume
alguns trabalhos de redação para uma empresa que fabrica comprimidos
contra vermes para animais de estimação. Não pode mais se dar ao luxo de
ser seletiva, precisa aceitar o que puder – embora, para seu alívio, uma
quantia de dinheiro caia em sua conta bancária, depositada por Adelaide
(indenização por dispensa do trabalho, presumivelmente), assim como uma
quantia menor, como pagamento a Mia. Portanto, ao menos por ora elas não
vão afundar em desespero.
Antes de transferir o dinheiro para Mia, Jess pede à filha que apague
do celular as fotos da pintura das Fúrias de Adelaide.
– Eu sei que é um furo, sei que é impressionante, mas... bem, lembra
como você odiou que o Zach tivesse fotos privadas suas, porque sabia que
ele poderia mostrar a qualquer pessoa a qualquer momento? Acho justo
aplicar a mesma regra a essa situação – afirma com firmeza. – Não sabemos
a história por trás da pintura, e a Adelaide nunca expôs o quadro
publicamente, pelo que sei. Infelizmente, temos que respeitar isso.
– Mas, mãe...
– Sinto muito, Mia, mas é a coisa certa a fazer. Além disso, preciso te
lembrar que você deveria estar trabalhando, não mexendo nas coisas dela.
Depois de muitos resmungos, Mia acaba excluindo as imagens, depois
de jurar com a mão no peito que não mostrou a mais ninguém. Bom, é o fim
daquela história, pelo menos.
Durante esse período, Jess sabe por David que a consulta médica foi
tranquilizadora, embora ele ainda precise esperar o resultado de uma bateria
de exames, só para ter certeza de que está tudo bem. Ela entra na casa dele
para tomar um café, num domingo, quando passa para pegar as filhas, e os
dois têm a conversa mais cordial até o momento – David aproveita para
confessar como achou difícil as férias na Itália como pai solo. Ele precisou
lidar com uma situação particularmente delicada, quando Polly pegou
“acidentalmente” o par de sandálias de outra garota ao lado da piscina; e
houve também uma noite em que Edie lhe confidenciou sobre as amizades
tóxicas na escola e como isso a está deixando infeliz. Ao que parece, David
lidou muito bem com ambas as situações, para não falar da partida abrupta
de Mia e de todos os aspectos práticos que se seguiram. Talvez encorajada
por ele, Edie parece ter se tornado um pouco mais corajosa em buscar novas
amizades, em vez de ser sugada pelos mesmos dramas, e recentemente
conheceu uma garota no clube de mangá que parece ser tão excêntrica e
doce quanto a própria Edie. Talvez, apenas talvez, pensa Jess, ela e David
consigam lidar decentemente com essa história de pais separados, no fim
das contas.
Por outro lado, Jess e Beatrice continuam a trocar mensagens e fazem
planos ainda vagos para uma visita de Beatrice com os filhos, talvez no
outono. A nova amiga também enviou uma selfie dela com Alain, os dois
juntos tomando café na crêperie. Ele te mandou um abraço, Jess, e diz que
fez muitos amigos no grupo do meu pai, escreve Beatrice, e Jess fica
radiante ao ver o rosto sorridente de Alain. Ela pede a Beatrice que
transmita seu amor ao amigo e também que fale com Valentin na brasserie
e lhe dê um abraço em seu nome. Ele diz que vai procurar você quando
suas criações chegarem à London Fashion Week, é a resposta.
Então, mais perto do fim do verão, o irmão de Jess, Owen, chega com
a esposa, Deanna, e as crianças, para passar uma semana em sua casa. Com
a casa cheia, Paris parece mais distante do que nunca, já que Jess organiza
passeios de bate-volta à cidade de Whitstable, a Londres e ao Wingham
Wildlife Park, e também visitas a alguns pontos turísticos locais: a catedral
de St. Augustine para Deanna, que é fã de história, depois o museu Beaney,
que Jake e Ollie adoram.
É bom passar um tempo de qualidade com o irmão e Deanna, que,
além de atenciosa e engraçada, também parece amar sinceramente as
meninas de Jess (“as filhas que eu nunca tive!”) e se empenha em se
reconectar com cada uma individualmente – o melhor tipo de cunhada.
Uma noite, enquanto Deanna coloca os meninos para dormir, Jess abre uma
garrafa de vinho e também consegue abordar um assunto complicado com o
irmão: confessa que tem a sensação de que a mãe deles sempre favoreceu
Owen e os filhos dele em detrimento dela e da família dela. Para surpresa
de Jess, Owen balança a cabeça e balbucia dentro do copo de vinho que isso
não corresponde nem remotamente à realidade dele. Para Owen, Samantha
está sempre suspirando por Jess e pelas filhas maravilhosas dela –
especialmente quando Jake e Ollie estão fazendo bagunça demais.
– Mas que coisa...?! – exclama Jess, perplexa. – Mas você é o menino
de ouro! O modelo de perfeição que deu a ela os melhores netos do mundo.
– Enquanto você é uma jornalista com trabalhos publicados que passou
o verão em Paris! – retruca ele. – A mamãe fala pra todo mundo do seu
trabalho, sabia? Ela tem muito orgulho.
– Comigo, o assunto sempre é o meu filho, o médico – conta Jess. –
Ah, já mencionei o meu filho? O médico? – Os dois riem, mas Jess acha
que também há algum consolo compartilhado. – Ela obviamente não ousa
dizer essas coisas na nossa cara, para que a gente não fique arrogante –
conclui, no fim.
Owen dá uma risadinha debochada.
– Não há a menor chance de isso acontecer, não depois de todos os
complexos de inferioridade que ela despertou em nós dois. Por Deus! E eu
que passei esse tempo todo ressentido com você...
– Digo o mesmo! Pra ser sincera, já estou enjoada de tanto ouvir falar
de você!
No fim das contas, foi ótimo receber o irmão e a família dele em casa,
e já estão planejando uma nova reunião antes do Natal, prometendo se ver
mais dali em diante. Jess e Owen também fazem um pacto de compartilhar
qualquer elogio que Samantha faça sobre o outro.
– Prepare-se para se tornar profundamente arrogante, indo contra todos
os desejos dela – diz Owen rindo, e Jess solta uma gargalhada.
– Bem, é melhor você se preparar para que seu celular derreta com
todos os elogios que vão surgir – devolve ela.
Chega a manhã do último dia de estadia deles e estão todos tão
cansados que dormem até tarde. Jess sugere que eles tomem um brunch
demorado em casa antes de irem até o centro da cidade para talvez fazer um
dos passeios de barco ao longo do rio. Ela está preparando massa de
panqueca quando a campainha toca.
– Eu atendo! – grita Polly.
A garota andou comprando e vendendo muitas roupas usadas durante
todo o verão – com sorte todas dela mesma, e não de outras pessoas –, em
um conhecido brechó on-line, e aparentemente está ganhando uma pequena
fortuna. Deve ser o carteiro à porta, sobrecarregado com novos pacotes para
Polly, pensa Jess – e é pega de surpresa um instante depois quando a filha
mais nova entra correndo de volta na cozinha e diz:
– É pra você, mãe... uma senhora e um homem, e também o staffbull
mais fofo do mundo, usando uma coleira brilhante incrível!
– Xi... – diz Mia, ainda de pijama, de onde estava lendo para Ollie uma
história de Julia Donaldson. – Isso parece...
Jess pensou a mesma coisa. Mas não pode ser, certo? Adelaide não sai
de Paris há anos. Ela certamente não se deu ao trabalho de ir até Canterbury.
Ou será que sim?
Capítulo Quarenta

A briga final e mais violenta de Adelaide com Margie aconteceu algumas


semanas depois do aborto, uma desgraça depois da outra. Ela estava no
fundo do poço, um buraco que ela mesma cavara, então Margie apareceu à
sua porta certa manhã, com o rosto pálido e furioso e, de repente, parecia
que o buraco havia ficado um metro mais fundo.
– Não acredito que você contou para ele – disse Margie, entrando sem
sequer cumprimentar Adelaide quando a porta foi aberta. – Eu
simplesmente não acredito!
– Contei para quem?
Adelaide tinha passado os últimos quinze dias sofrendo os
desconfortos de uma infecção pélvica, sangrando, com dores, e todo o seu
corpo parecia sensível enquanto ela levava a amiga até a cozinha e, exausta,
começava a preparar um bule de chá. Até aquele momento, só Remy sabia
sobre o aborto, e a reação dele tinha sido tão violenta que Adelaide ainda
não se abrira com mais ninguém. Mas, a julgar pela expressão irritada de
Margie, não era o momento de mencionar isso.
– Contou ao Remy, é claro. Sobre o Colin. Você tá maluca? Porque fez
isso? Nós prometemos uma à outra!
– Eu não contei nada a ele – retrucou Adelaide, magoada com o tom de
acusação na voz da amiga.
– Não foi isso que ele disse ontem à noite – argumentou Margie,
irritada, sentada à mesa, enquanto acendia um cigarro e soprava uma nuvem
de fumaça na direção do teto. – Remy anunciou que sabia todos os meus
segredos, com aquele olhar maldoso. Eu podia chamar a polícia agora
mesmo pra te levar, disse ele, aquele maldito com cara de fuinha. Que
diabo, Adelaide? Pretendo me mudar em duas semanas, então é melhor
você segurar a língua dele. Não vou deixar que o Remy sabote a minha
mudança, tá certo? Isso não vai acontecer!
– Mas eu não disse nada a ele! – bradou Adelaide.
Porém, naquele exato momento, se lembrou de todos os desenhos
incriminatórios que havia feito... ela e Margie, lá em Little Bower, com
Colin. Tinha queimado todos eles, não é?
– Quer dizer...
O pânico a dominou e a náusea tomou conta de seu corpo. E se ela
tivesse deixado escapar um e Remy o encontrou? E se ele estivesse
planejando chantageá-la ou puni-la com aquela informação? Adelaide
engoliu em seco enquanto se lembrava das muitas noites de bebedeira nos
últimos tempos, noites das quais ela mal conseguia se lembrar. Será que ela
falou demais em algum momento, ou deixou o álcool falar por ela?
– Não xinga o Remy – foi só o que conseguiu dizer, com a voz
trêmula, incapaz de encarar a amiga nos olhos.
– Eu chamo o Remy do que eu quiser, ele é um merda. Me ameaçando
daquele jeito. Ele pode estragar tudo, Adelaide! Você não entende? Sou
mãe! Tenho responsabilidades! Deus! Estou tão... – Ela bateu com o punho
na mesa. – Você prometeu!
A culpa e a vergonha por ter inadvertidamente decepcionado a melhor
amiga se avolumavam dentro de Adelaide. Mas ouvir Margie soltar aquele
“Sou mãe!” logo após o aborto foi a gota d’água.
– E daí se você é mãe, cacete? – gritou Adelaide, sentindo a fúria arder
dentro dela. – Você realmente acha que isso te torna superior, que você deve
ser especial, só porque o seu corpo expeliu outro corpo, como a porra de um
bicho? Grande coisa! Quem se importa?
E dali em diante a discussão foi ladeira abaixo, com gritos e palavras
cruéis, ambas dizendo coisas terríveis uma para a outra. Logo depois,
Margie e a família se mudaram para a Califórnia sem que as duas
chegassem a se reconciliar, e pouco tempo mais tarde Adelaide teve o
colapso nervoso em Berlim. Quando ela saiu do hospital, cerca de um ano
depois, a ausência de Margie era como uma ferida mal cicatrizada em sua
pele – superficialmente curada, mas em carne viva, sangrando por baixo.
Só quando ela mergulhou em sua série “Escuridão”, depois de perder
Remy, finalmente conseguiu exorcizar seus sentimentos sobre Colin
Copeland em uma pintura. Aquela obra – mórbida, sombria e incriminatória
– nunca foi vista, mas parecia algo que ela precisava colocar na tela, uma
forma de libertação. Desde então, Adelaide sente uma eventual pontada de
culpa pelo fato de o quadro em questão estar guardado em seu guarda-
roupa, como uma bomba-relógio. Se ela cair dura amanhã, vítima de um
AVC ou de um infarto, o que isso significará para Margie? Mas uma parte
de Adelaide se agarra ao rancor e prefere não se importar com o destino da
antiga amiga. E daí?, sempre argumenta essa parte dela. Se tivéssemos ido à
polícia quando eu sugeri, não estaríamos mais nessa posição. A culpa é
dela!
Mas agora, depois de enfim se encontrar com Coco – bronzeada e com
uma aparência saudável após sua excursão à Île de Ré –, Adelaide se vê
obrigada a repensar aquela tempestuosa briga final. Porque, no espaço de
uma tarde, uma nova luz foi lançada sobre o que aconteceu. Uma luz que
muda tudo.
Adelaide e Coco agiram com muita civilidade ao se encontrarem para
tomar um drinque em um bar elegante em Saint-Germain-des-Prés. Elas
chegaram mesmo a fazer um brinde. A termos sobrevivido ao desgraçado,
como disse Coco em tom sarcástico e com um brilho sombrio nos olhos.
Mas, assim que achou que seria educado ir embora, foi um prazer para
Adelaide entrar no táxi que a levou de volta à Place des Vosges, carregando
a sacola laranja do Le Bon Marché que a mulher lhe dera. Que respostas
havia ali dentro?
Nas últimas semanas, Adelaide se tornara presença constante na
brasserie mais próxima de seu apartamento. Ela ainda não está no mesmo
nível de Frieda no que se refere a aventuras, mas gosta de ter um lugar onde
os funcionários a recebem bem e são simpáticos na medida certa, onde pode
se sentar e se sentir de novo parte do mundo – ora, isso já é um começo. Era
exatamente ali que queria estar.
– Madame Fox! Que bom revê-la! Por favor, sente-se – celebrou um
dos garçons, e saiu apressado na mesma hora para buscar a garrafa de água
gelada dela, um copo e um cardápio.
O tempo que passou com a simpática e efervescente Frieda – as duas
fizeram vários passeios com os cachorros, saíram para jantar mais uma vez
e também tiveram um almoço agradável – devia ter contagiado Adelaide,
porque ela se pegou sorrindo para o garçom.
– Me chame de Adelaide – respondeu ela.
O garçom – enrubescido e com uma expressão emocionada – lhe
serviu um café muito saboroso e ela tomou um gole enquanto observava a
praça, os turistas que voltavam da casa de Victor Hugo, os casais que
passeavam pelas galerias e os dois idosos que jogavam xadrez em uma
mesa à sombra, na calçada. Tantas vidas girando em torno daquele lugar.
Tanta gente ocupada passeando, tirando fotos, admirando a arquitetura,
saboreando momentos de cumplicidade. E ela ali, entre aquelas pessoas,
apreensiva e nem um pouco animada por ter recebido duas mensagens
póstumas e inesperadas de Remy.
Adelaide enfiou as mãos trêmulas na sacola para pegar o quadro.
Imagens antes de palavras, afinal, foi assim durante toda a sua vida. Era
uma tela pequena, de quinze por vinte centímetros, mas quando seus olhos
pousaram sobre a composição, o impacto fez com que parecesse imensa em
suas mãos. Ah, Remy! Quando ele pintou aquilo? Era uma cópia da
fotografia favorita dela e de Margie, as duas com 20 e poucos anos,
esparramadas no sofá com a cabeça e os braços de uma apoiados na outra,
ambas absolutamente relaxadas ali, tão próximas. O quadro de Remy era
simples e belo, o espaço branco ao redor da imagem dava a impressão de
que as duas eram as únicas pessoas no mundo. Ele tivera muito ciúme da
amizade entre Adelaide e Margie, chegando até a ser desdenhoso, mas ali
havia representado as duas com tanta ternura que Adelaide sentiu os olhos
marejados.
– Obrigada, querido – murmurou, profundamente comovida.
Ela não conseguia desviar o olhar dos rostos jovens e radiantes dela e
da amiga e experimentou uma sensação quase dolorosa. Chegou a se pegar
pensando que era uma pena não poder enviar uma cópia para Margie, mas
logo se controlou. Não se empolgue.
Era a hora da carta. O envelope estava amarelado pelo tempo, bastante
surrado. Quando ela deslizou um dedo por baixo do lacre, ele se soltou
facilmente, como se estivesse esperando ser aberto há tempos.
A data era maio de 1990, um ano depois do rompimento deles, e
Adelaide sentiu o coração bater mais forte ao ver a caligrafia inclinada tão
familiar. Muito bem. Vamos lá, pensou.
Minha cara Adelaide, estou escrevendo isto na véspera do meu
casamento, começava a carta, e naquele momento ela quase guardou de
novo as folhas de papel no envelope. Meu Deus. Se acabasse sendo uma
carta declarando como Remy estava loucamente apaixonado por Coco, ia
mesmo parecer uma piada de mau gosto vinda do além-túmulo. Ou seria na
verdade uma falsificação engendrada por Coco para que pudesse rir por
último? Era melhor que não fosse.
Adelaide respirou fundo e tentou de novo.

Estou escrevendo isso na véspera do meu casamento e, é


claro, estou relembrando o tempo que passei com você. Com
carinho, mas também com arrependimento. Éramos uma união de
iguais, um casal que compartilhava amor e paixão verdadeiros,
mas talvez tão parecidos que acabamos quase nos destruindo.
Antes de fazer meus votos a Coco, quero deixar tudo em
pratos limpos. Confessar nestas páginas que não fui uma boa
pessoa para você. Eu sentia ciúmes. Fui infiel.

Seguia-se uma lista de exemplos da infidelidade dele que não era nada
fácil de ler. Talvez por isso Remy nunca tenha enviado a carta, pensou
Adelaide, desanimada, à medida que a lista de nomes se estendia. Ele não
poderia ter conversado com um padre a respeito? Pelo amor de Deus, aquilo
era a última coisa que ela queria ler. Adelaide passou os olhos pelos nomes,
tentando não deixar que a magoassem, mas então um deles saltou da página
como um golpe particularmente violento: Margie.
Ah, não. Por favor, não. Adelaide apertou o peito com força, como se
seu coração pudesse se partir ao meio. Por isso Margie sempre odiara Remy
– ou ao menos dizia que o odiava? Será que, na verdade, dizia aquelas
coisas para encobrir a culpa de um caso de longa data? De repente, o quadro
que ele lhe deixara pareceu zombar dela, e Adelaide teve que guardar a tela
de volta na sacola para tirá-la de seu campo de visão. Ela suportaria saber
os detalhes? Seus dedos tremiam no papel, com um desejo instintivo de
amassá-lo, de deixá-lo de lado, mas então ela suspirou com relutância. O
que torna uma pessoa uma grande artista é sua capacidade inabalável de
olhar a verdade nos olhos. E ela sempre se orgulhara da própria coragem.
Por isso, continuou a ler, com uma obstinação sombria.

Também preciso lhe dizer, com grande pesar, que traí você e
Margie. Fiquei muito chateado com você depois do aborto e,
quando encontrei com a Margie em uma festa, logo depois, quis
magoar você por vingança. O pior que pude pensar em fazer foi
minar a amizade de vocês. Eu menti que você tinha me contado
um segredinho sujo misterioso dela – e, quando a Margie me
encarou alarmada, aproveitei e floreei ainda mais a mentira,
chegando mesmo a declarar que poderia contar à polícia o que
ela tinha feito. Claro que eu não sabia de nada, estava mentindo,
mas ela não sabia disso. Você nunca quis conversar sobre a
Margie nos últimos anos (e, para ser sincero, chérie, eu também
não), mas peço desculpas se a minha farsa acabou contribuindo
para o desentendimento entre vocês.
Escrever esta carta foi um exercício de reflexão. Será que eu
realmente deveria me casar amanhã, agora que me lembrei das
minhas tendências cruéis e desleais? Será que mereço amor, uma
esposa, uma família? Isso ainda será decidido, mas tenho a forte
sensação de que não mereci você. E sinto muito, Adelaide, pela
minha fraqueza e pela forma como a prejudiquei. Talvez eu nunca
envie esta carta, mas se você chegar a lê-la algum dia, espero
que aceite as minhas desculpas.
Com amor e para sempre seu,
Remy.
Parte Três
Capítulo Quarenta e Um

– Nossa, por essa eu não esperava – diz Jess.


Ela fica parada à porta, diante de Adelaide, Luc e Jean-Paul, com o
coração disparado. É como estar em um sonho, só que tudo é vívido e real.
Que diabo eles estão fazendo ali?
– Hum... Vocês gostariam de entrar? – pergunta, lembrando-se
com atraso das boas maneiras. – Por favor, não reparem no nosso estado,
já que...
Neste momento, aparece Jake, de 8 anos, correndo, perseguido com
determinação pelo monstro das cócegas (Polly), e Jess se interrompe.
– Desculpe se a gente apareceu em um momento inconveniente – diz
Luc.
Ele está vestindo uma camiseta cinza-escura e jeans, e mantém os
olhos fixos no rosto dela. Jess sente as próprias feições se enrijecerem em
resposta, porque se lembra daquela última ligação terrível: a frieza na voz
de Luc, o modo como ele tinha desligado na cara dela. E como ela havia
merecido.
– Podemos voltar outra hora – acrescenta Adelaide, em um tom
estranhamente educado. – Se o momento for inconveniente.
– Hum... – Jess engole em seco mais uma vez, ainda sem palavras.
– A gente pode dar oi pro seu cachorro? – pergunta Polly, se
adiantando antes que Jess consiga dizer mais alguma coisa.
– Sim, claro – fala Adelaide. – O nome dele é Jean-Paul e ele é muito
simpático.
– Jean-Paul! Você é tão lindo! – elogia Polly, já se agachando com
uma das mãos estendidas para acariciar as orelhas do cão. – Vem, Jake, vem
fazer carinho nele.
– Entrem – diz Jess, já se sentindo exausta, embora o dia mal tenha
começado. – Estamos fazendo um brunch, se quiserem se juntar a nós.
Crianças, vocês podem paparicar o Jean-Paul dentro de casa.
O constrangimento diminui um pouco quando Luc e Adelaide se
reúnem com todos na cozinha, embora a portinhola do gato chacoalhe
violentamente no momento em que Albertine faz uma saída rápida (e sem
dúvida indignada). Jess se ocupa preparando chá e café, recolhendo pedidos
de coberturas para panquecas e incumbindo Edie de correr até a loja da
esquina e trazer mais ovos. Ela apresenta Adelaide e Luc ao irmão e à
cunhada (“Eles são médicos, sabia?”, diz, imitando a mãe), e Owen e
Deanna conversam um pouco com Adelaide e Luc sobre a viagem e sobre
onde estão hospedados, enquanto Mia e Polly mantêm os meninos
entretidos. Todos parecem se comportar da melhor maneira, com uma
educação impecável, o que só deixa Jess mais nervosa. O que aqueles dois
estão fazendo ali? Por que foram até a casa dela? No entanto, é impossível
começar qualquer tipo de conversa séria e mais profunda enquanto as
crianças correm por ali, gritando e rindo. Talvez não seja algo ruim,
reconhece, quando enfim reúne todos à mesa.
Depois de comerem, Owen anuncia que ele e Dee vão levar os
meninos ao parque para gastar um pouco de energia, e que talvez haja até
sorvete no caminho, se alguma das primas quiser ir também.
– Vamos te dar um pouco de espaço – murmura ele para a irmã
enquanto organizam a lava-louças juntos.
Embora se sinta grata pelo tato de Owen, Jess também se sente um
pouco nauseada, ainda se perguntando que diabos a aguarda.
– Por favor, a gente pode levar o Jean-Paul também? – pergunta Polly
a Adelaide com seu sorriso mais cativante. – Prometo que vamos cuidar
muito bem dele.
Para surpresa de Jess, Adelaide sorri de volta.
– Isso seria uma grande gentileza da sua parte, querida, tenho certeza
que ele vai adorar – diz ela enquanto revira a bolsa grande atrás de petiscos
e sacolas para dejetos de cachorros. (Querida! Jura? Jess tem que se
controlar para não ficar boquiaberta.) – Obrigada.
Logo a casa está vazia, e Jess se senta outra vez à mesa da cozinha
com seus convidados inesperados.
– Então... – diz, em tom cauteloso. – Acho que essa não é apenas uma
visita social. – Ela deixa escapar um suspiro triste porque ainda se sente mal
pela forma como deixou os dois. – Olha, sinto muito por...
Adelaide levanta a mão.
– Não se preocupe. Você já disse tudo no seu e-mail e... – Ela hesita,
depois encontra o olhar de Jess com uma expressão intensa. – E está
tudo bem.
Jess olha desconfiada de Adelaide para Luc, que assente em
confirmação, embora sua expressão permaneça inescrutável.
– Não sei se outros ghost-writers criticam tanto seus biografados como
você – continua Adelaide em tom severo, e Jess se retrai, porque logo se
lembra de todos os terríveis comentários pessoais que fez no calor do
momento. – Mas sempre fui fã da verdade. E aquilo que você me disse...
como foi mesmo? Que eu tinha desistido da vida e me sentia solitária e
vingativa... – Jess baixa os olhos e sente o rosto quente. – Bem, eu não diria
que foram as palavras mais agradáveis de ouvir, mas, depois de um tempo,
tive que admitir que você fez uma avaliação bastante justa da situação. Eu
realmente desisti de tudo por um tempo. Era como se estar sempre com
raiva... e, sim, um tanto vingativa também... fosse só o que me restava. –
Ela junta as ponta dos dedos. – Mas tenho me sentido diferente nos últimos
tempos.
Jess se atreve a erguer os olhos mais uma vez. Seu coração está
batendo forte. Ela não tem a menor ideia da direção em que essa conversa
pode seguir.
– Diferente como?
– Em parte, acho que foi por causa de uma conversa com você sobre
tempos mais felizes – responde Adelaide. – Lembrei que tive uma vida boa.
– Você teve uma vida incrível! – declara Jess. – Fez tantas coisas
extraordinárias.
– Sim – concorda Adelaide, com um sorrisinho. – Fiz mesmo, não é?
Mas acabei preferindo esquecer esse lado. Não completamente, é claro, mas
nunca pensava muito sobre aqueles anos da minha vida, quando eu viajava,
trabalhava e tinha excelentes amigas...
Adelaide desvia o olhar e Jess fica rígida, porque tem a horrível
sensação de que sabe o que está por vir. Toda essa história é fruto do
arrependimento, não é? Tristeza porque Margie deve ter morrido e Adelaide
acabou deixando para entrar em contato com a amiga tarde demais.
– Então... – começa Jess, mas não consegue fazer a pergunta.
– Então eu conversei comigo mesma – continua Adelaide. – E já
chega. De que serve a teimosia quando a sua melhor amiga pode estar
gravemente doente? – Ela volta os olhos para a mesa por um instante e
deixa o ar escapar com força. – Então superei meu orgulho e fiz o que
deveria ter feito há muito tempo: entrei em contato com a Margie.
Jess prende a respiração. Ela não tem certeza se vai suportar ouvir que
Adelaide chegou tarde demais.
– E? Ela está... ela está bem?
– A Margie está bem, Jess – esclarece Luc, como se adivinhasse o que
está se passando pela cabeça dela. – Está muito melhor. Além do mais,
ficou feliz em receber notícias da Adelaide.
– Ah! – Jess sente um imenso alívio, seguido pela mais pura alegria. –
Nossa, isso é mesmo uma ótima notícia – diz, com os olhos marejados. – A
melhor notícia, Adelaide.
A mulher sorri brevemente, mas também há um toque de pesar em seu
rosto.
– É, sim, uma ótima notícia – confirma. – Apesar de que eu descobri
há pouco tempo que a grande briga que tivemos... – Ela suspira, cerrando os
lábios por um instante. – Bem, descobri que ela nunca precisava ter
acontecido. Que foi tudo fruto de um mal-entendido. De uma mentira
descarada.
– Ah, não – solta Jess com um gemido, horrorizada por Adelaide.
As amigas tinham mesmo passado as últimas quatro décadas sem se
falar por causa de um mal-entendido?
– Não me interprete mal, nós duas dissemos coisas horríveis uma para
a outra na última vez que estivemos juntas, mas, em resumo, a situação não
era como pensávamos. – Adelaide toma um gole de chá. – De qualquer
forma, assim que soube disso, mandei um e-mail pra Margie, explicando
tudo, e pedi desculpas. Cinco minutos depois, ela me ligou e passamos duas
horas conversando ao telefone. Só paramos quando o filho dela a
repreendeu, dizendo que ela estava ficando muito cansada.
– Ah, Adelaide! – Dá para ver o quanto isso é importante para ela. –
Estou tão feliz por vocês duas...
– Jessica... Jess, se me permite... não tenho como dizer o quanto eu
estou feliz – responde Adelaide. E são mesmo lágrimas brilhando nos olhos
dela? – Só agora que a Margie voltou à minha vida é que percebi o vazio
que ela deixou durante todo esse tempo. Senti muita falta dela. – É evidente
que a mulher está precisando se esforçar para controlar as próprias
emoções. – Na verdade, tenho planos de visitá-la no outono – continua
Adelaide depois de um instante. – Já faz muitos anos, mas estamos
determinadas a recuperar o tempo perdido.
Jess está com a mão no peito, profundamente comovida ao imaginar
aquelas duas mulheres fabulosas se reunindo de novo.
– Melhor ainda – diz ela. – Que incrível! Que bom pra você.
– E foi conversando com a Margie, e com a Frieda, a minha nova
amiga, que está me atormentando para fazer outra exposição no Canadá... e,
mais uma vez, depois de passar tanto tempo conversando com você sobre a
minha carreira e os meus quadros... Por causa de tudo isso, eu meio que... –
Adelaide hesita, então continua: – Eu meio que me apaixonei pela vida de
novo. E pela arte também. Tenho passado um tempo no estúdio com Luc,
dando uma olhada em tudo. Na verdade, está sendo empolgante tentar
reunir com ele uma coleção adequada de obras para uma exposição.
Maiores sucessos de Adelaide Fox, como um álbum com as músicas mais
famosas de uma banda, se preferir.
– Acho que ela deveria chamar a exposição de “Adelaide Fox: Uma
sobrevivente” – acrescenta Luc.
– Obrigada, querido – diz Adelaide em tom condescendente, e Jess
contém uma risada. – Passei muitas tardes folheando cadernos de desenho e
revendo correspondências antigas, imersa na nostalgia. – Ela pega a bolsa
aos seus pés e tira um pequeno objeto retangular, embrulhado em um papel
de um rosa vívido. – Resumindo uma longa história: encontrei isto e acho...
– Adelaide dá um sorrisinho misterioso e passa o pacote para Jess. – Acho
que é para ser seu.
Intrigada, Jess pega o pacote e desembrulha o papel rosa. Dentro há
um esboço emoldurado – um esboço original de Adelaide Fox – de...
– Ai, meu Deus – diz, mal conseguindo falar por causa de um nó
repentino na garganta.
Jess leva a mão à boca enquanto examina as figuras do desenho: duas
jovens com uniforme de camareira, sentadas em um banco, apoiadas uma
na outra, rindo.
– Essa sou...
As palavras lhe faltam porque ali está ela, capturada em pinceladas
rápidas e seguras, e ao seu lado está Pascale.
– É você, certo? Porque me lembro de você ter dito que trabalhou
perto do Faubourg Saint-Germain, e acho até que cheguei a te contar que
costumava passar algum tempo lá, desenhando, no fim dos anos 1990.
– Sou eu mesma – confirma Jess. – Eu e a minha amiga. – Ela não
consegue desgrudar os olhos do desenho, impressionada com a forte
emoção que ele provoca. – Ah, Adelaide, isso é o melhor presente, o mais
incrível... – É difícil conter as lágrimas. – Muito obrigada. Você não tem
ideia do quanto isso significa para mim. Estou profundamente grata.
Adelaide parece encantada.
– De nada. Eu estava torcendo para que você gostasse, porque... – Ela
olha para Luc, que assente. – Bem, porque eu também quero pedir
desculpas. Por ter sido tão agressiva com você. Mais de uma vez, se bem
me lembro.
Jess balança a cabeça.
– Sinceramente, você não precisa...
– Preciso, sim – interrompe Adelaide. – Quero que tudo fique bem
entre nós duas de novo porque... – Ela hesita mais uma vez, então continua:
– Porque, se houver alguma chance de você estar interessada, ainda preciso
de uma escritora para o meu livro. Eu tentei gravar alguns arquivos de
áudio, mas não é a mesma coisa que ter alguém comigo... que ter você
comigo... me instigando e me cutucando para tentar conseguir algum
detalhe a mais. Fazendo as suas perguntinhas intrometidas.
Ela sorri para Jess, que retribui o sorriso.
– Quanto a todos os meus... como foi mesmo que você disse? Bem, os
meus ressentimentos triviais... Acho que você vai gostar de saber que eu
meio que já tirei esse peso do peito. Além disso, pretendo estar ocupada
demais para perder tempo sendo processada.
– Obviamente, o texto pode ser feito nos seus termos, Jess – acrescenta
Luc, enquanto o jornalista processa tudo aquilo. – Vamos passar algumas
semanas na Inglaterra, assim podemos nos adaptar à sua disponibilidade. –
Ele faz um gesto indicando o espaço ao redor. – Compreendemos que as
férias de verão ainda estão a todo vapor, e que você está ocupada.
– De qualquer forma, pense a respeito – pede Adelaide. – Sem pressa.
Jess ri, porque não precisa pensar a respeito, e não precisa de tempo.
Essa é a decisão mais fácil que já teve que tomar em muito tempo.
– Eu adoraria trabalhar com você e terminar o livro. Nem tento me
impedir. Pode contar comigo!
Antes que a casa vire um caos novamente, elas já começam a agendar
alguns dias juntas ao longo da próxima quinzena e combinam uma nova
agenda de trabalho.
– Além disso, enquanto estou por aqui – fala Adelaide, parecendo
subitamente nervosa –, Lucas se ofereceu gentilmente para me levar a
alguns lugares que foram importantes para mim. Seria um prazer se você
quisesse se juntar a nós.
– É claro – responde Jess, os pensamentos em disparada.
Será que Adelaide está falando de Little Bower? Ou ela quer dizer...?
– Sim – diz Adelaide, como se estivesse lendo a mente de Jess. –
Quero voltar a Margate.
Capítulo Quarenta e Dois

No dia em que chegam, é como se Margate tivesse se enfeitado para recebê-


los. O céu está vasto e azul, entrecortado por apenas um punhado de nuvens
brancas como plumas, e a praia está repleta de turistas. Adelaide se apoia na
grade verde-escura que dá para a areia e fica em silêncio por um instante,
observando a cena. Lá embaixo, famílias montaram acampamento com
toalhas e barracas de praia coloridas ao lado de casais mais velhos com suas
cadeiras dobráveis e garrafas térmicas. Gaivotas voam alto, soltando gritos
ocasionais, e os aromas de protetor solar, batatas fritas e algas marinhas se
misturam em uma fragrância distinta de beira-mar. De certa forma, é como
se ela nunca tivesse ido embora.
O olhar de Adelaide vagueia até a orla, passando pelos construtores de
castelos de areia, por banhistas e pelas pessoas com pranchas. Ela não tem
certeza do que está procurando, até encontrar. Ali está ele. Um garotinho
com cabelos castanhos desgrenhados e calção vermelho, agachado na beira
da água com um balde e uma pá. Tenha cuidado, pequenino, pensa, mas
logo aparece uma mulher ao lado dele, com uma garotinha loira encaixada
no quadril, e Adelaide fica olhando enquanto o menino mostra às duas o
conteúdo do balde. Estão longe demais para Adelaide ouvir qualquer coisa,
mas ela consegue ler a linguagem corporal deles – amorosa, afetuosa,
próxima. Aquele menino vai ficar bem, diz a si mesma. Vai ter férias
deliciosas na praia com a família. Neste momento, isso basta para Adelaide.
Ela se vira e vê Lucas observando-a, preocupado, como se esperasse
que a tia desmoronasse e começasse a chorar. Jess também. Ela surpreende
os dois abrindo um sorriso.
– Bem, isso é esplêndido, não é? Vamos andar ao longo da orla
primeiro? Gostaria de dar uma olhada na galeria Turner.
Os anos passaram, mas Adelaide percebe que a vista do calçadão quase
não mudou desde que ela era jovem, e eles começam uma caminhada lenta
seguindo a curva da baía. Por muito tempo, ela fez o possível para nem
pensar neste lugar e no que tinha acontecido, mas com o sol quente em seu
rosto e a agitação das férias no ar, novas lembranças começam a surgir
inesperadamente. O pai lhe ensinando os nomes de aves marinhas, como
ostraceiro, maçarico, cormorão. A mãe entusiasmada caçando conchas com
ela por longos períodos. Eles também foram a Shell Grotto, uma gruta de
conchas, recorda Adelaide de repente, e sente o impacto imediato de uma
lembrança visceral: ela passando as mãos pelas paredes irregulares e
incrustadas de conchas do túnel com uma sensação de profundo espanto. Os
dias anteriores à perda de Will foram provavelmente os mais felizes de sua
infância, com o pai e a mãe contentes e cordiais, todos unidos em um
sentimento incomum de intimidade. Adelaide decide que hoje, antes de
voltarem para casa, vai novamente até o mar. Vai olhar para a distante faixa
índigo no horizonte e dar um último adeus ao irmão, à infância. Vai tirar as
sandálias, sentir o movimento das ondas em seus pés e permanecerá forte. É
uma sobrevivente.
Ela e Lucas passaram momentos agradáveis em Kent. Depois de
conversarem com Jess naquele primeiro dia, acabaram passando a tarde
toda na casa da jornalista e ainda ficaram para jantar com o irmão de Jess e
a família dele. (“Quanto mais, melhor”, disse Jess, obviamente habituada a
cuidar de uma casa cheia.) Depois da vida tranquila que levava em Paris,
Adelaide a princípio achou o jantar um tanto excessivo – tantas pessoas!
Tanto barulho! –, mas, passado o choque inicial, se viu estimulada pela
conversa e pelas personalidades de todos ao redor da mesa. E também
gostou de ver Jess sob aquela nova luz: como anfitriã, mãe, irmã; se
desviando das tentativas das filhas de provocá-la com sorrisos bem-
humorados e respondendo às implicâncias afetuosas na mesma medida.
E a verdade é que as filhas dela são maravilhosas. Mia se mostrou um
pouco reservada no início, mas, depois de receber permissão para tomar
uma taça de vinho no jantar, logo relaxou, chegando até a admitir, com os
olhos arregalados e em voz baixa, que tinha visto a pintura escondida no
guarda-roupa de Adelaide.
– Ah, é mesmo? – respondeu Adelaide, achando graça. – Isso está
prestes a se transformar em uma tentativa de chantagem? Que emocionante.
Envergonhada, Mia protestou, negando, mas confessou estar
interessada na história.
– Ahh... uma jornalista nata, assim como a mãe – comentou Adelaide.
– Bem, o negócio é o seguinte, Mia: gravei toda a história em um arquivo
de áudio e, quando todos os envolvidos morrerem, você pode ficar com a
exclusividade da divulgação. – Então, quando a garota soltou um arquejo
empolgado, acrescentou: – Embora eu não esteja planejando morrer ainda,
portanto prepare-se para esperar.
Edie, a filha do meio, acabou se revelando uma artista dedicada do
mangá, e Adelaide, que nunca teve qualquer interesse particular no gênero,
ainda assim se pegou perguntando se a garota poderia lhe dar uma aula
sobre o estilo de desenho, o que lhe rendeu um olhar de gratidão de Jess,
assim como um “É claro!” da garota ruborizada. Que Deus a ajudasse, mas
estava se tornando cada vez mais branda na velhice, pensou Adelaide,
enquanto as duas começaram a trabalhar juntas na criação de um
personagem em um bloco de desenho. Surpreendeu-se ao perceber como
era agradável fazer aquilo. Como achou divertido! Quem poderia
imaginar?!
Já Polly tem dedicado uma enorme energia a ensinar truques a Jean-
Paul, com um nível de paciência que Jess confidenciou a Adelaide, em
particular, nunca ter imaginado ser possível. Para a surpresa de todos, nos
últimos dias, Jean-Paul aprendeu a ficar de pé nas patas traseiras e a pousar
duas patinhas na mão das pessoas, e também a “falar” (com o mais doce e
educado dos latidos), além de pular através dos braços de Polly. Adelaide
deixou o cachorro aos cuidados das meninas hoje e já se pergunta o que
mais o fiel amigo terá aprendido quando ela voltar para casa. Colocar a
roupa para lavar? Apontar alguns lápis para ela?
Talvez a parte mais impactante de tudo tenha sido uma conversa breve,
mas esclarecedora, com Deanna, cunhada de Jess. Depois do jantar naquela
primeira noite, as crianças desapareceram no andar de cima e Jess preparou
café para todos. Luc, Jess e Owen começaram uma conversa meio tediosa
sobre o melhor caminho para voltar à cidade, enquanto Adelaide divagava
um pouco e tomava um gole de café. Ela percebeu tarde demais que suas
mãos estavam tremendo de novo, tanto que por pouco não derramou a
bebida quente sobre si. Adelaide pousou a xícara e escondeu as mãos
debaixo da mesa, torcendo para que ficassem imóveis, mas a perspicaz
Deanna já havia notado.
– Você está bem? É a cafeína que faz suas mãos tremerem? –
perguntou. – O café está bem forte, né?
Eles são médicos, sabia?, Adelaide se lembrou de ouvir Jessica dizer, e
talvez a abordagem de Deanna tenha sido particularmente correta naquela
noite, porque, antes que se desse conta, Adelaide se viu confessando seu
medo de ter Parkinson e de os sintomas começarem a piorar logo, como
aconteceu com sua mãe.
Deanna ouviu com atenção antes de dizer que Parkinson não é
necessariamente hereditário.
– Na verdade, apenas quinze por cento das pessoas com Parkinson têm
histórico familiar da doença – explicou –, e os tremores podem ser causados
por uma série de motivos. A cafeína é um deles, o fumo, outro, mas também
o estresse de forma geral e o envelhecimento. Você precisa investigar qual é
o motivo dos seus tremores em particular, mas talvez seja algo de fácil
solução, com medicamentos ou mudanças no estilo de vida. E, mesmo que
você tenha Parkinson, houve grandes avanços desde a época da sua mãe, os
tratamentos melhoraram consideravelmente.
Por um acaso fortuito, Deanna, aquela mulher gentil e perspicaz, é
geriatra e sabe do que está falando! Adelaide estava tão convencida do
próprio diagnóstico que não lhe ocorreu que poderia haver outras causas.
Será mesmo que seu amor pelo bom café francês poderia ser parte do
problema? Com sorte, descobrirá em breve, porque Jessica entrou em
contato com seu médico de família, que concordou em ver Adelaide. E, seja
qual for o resultado, ela vai lidar com o problema da forma adequada,
conclui. Antes cedo do que tarde demais, como disse Deanna – e vale a
pena o esforço, ainda mais agora que há tanta coisa que ela quer fazer.
Falando nisso, Adelaide tem feito muitos planos nos últimos dias. Já
marcou uma reunião com o diretor de uma exposição futura, Mulheres dos
anos 1960, que vai acontecer na Tate em janeiro. Depois de passar muitos
dias em seu arquivo, Adelaide enfim se viu diante de sua primeira pintura
da série “Vingança”, aquela em que ela decapita Simon Dunster, e sente que
chegou a hora de mostrar a obra ao mundo. Ela chamou o quadro de
Adelaide e o Estuprador e pretende colocá-lo em leilão após a exposição e
destinar o valor arrecadado a uma instituição de apoio a vítimas de estupro.
A vingança é muito boa, mas o dinheiro que ajudará outras mulheres... é
ainda melhor. O curador da exposição, já prevendo páginas de divulgação e
um verdadeiro furo, se diz muito empolgado. Na verdade, Adelaide também
está empolgada. Como se sente orgulhosa da jovem corajosa que pintou
aquela cena sangrenta e que se recusou a deixar o incidente definir o resto
de sua vida!
Apesar de suas intenções anteriores, Adelaide decidiu não mencionar
Dunster diretamente no livro de memórias. Em parte porque não quer que o
nome dele manche a história de sua vida, mas também porque sempre
prefere deixar a arte que cria falar por si. Se as pessoas quiserem tirar
conclusões, que tirem. “Era um zé-ninguém sem talento”, é só o que vai
dizer, caso alguém lhe pergunte sobre a identidade do estuprador. Se ele
ainda estiver vivo e souber da resposta dela, vai ficar profundamente
irritado. Ótimo.
Com o livro de memórias replanejado e a participação de Adelaide
prevista para ser concluída até o final de setembro, ela e Margie estão
fazendo planos para se encontrarem em Pasadena em outubro (“A luz na
Califórnia é maravilhosa para a pintura”, Margie não para de repetir), e elas
estão programando passeios rápidos juntas até o Norton Museu Simon e o
Eaton Canyon. Adelaide mal pode esperar – e esse é apenas o começo das
viagens que pretende fazer. Também entrou em contato com Frieda e Jim
sobre a possibilidade de visitá-los em Montreal na próxima primavera. A
ideia de voltar ao Canadá a deixa absurdamente feliz. Talvez até procure
Brad para saber se ele está livre, nem que seja para comerem poutine juntos
novamente. Tanto Lucas quanto Catherine se ofereceram para ficar com
Jean-Paul enquanto ela estiver viajando, embora Adelaide tenha a sensação
de que Polly também possa vir a ser uma forte candidata ao privilégio.
Seja como for, todos eles vão ficar bem. Ela vai ficar bem. Há um
futuro para ela cheio de boas pessoas e de bons momentos, tão amplo e
ilimitado quanto o horizonte à sua frente. Quando as ondas atingem a costa
mais uma vez, ela sente uma onda correspondente de expectativa feliz pelo
que ainda está por vir. Como dizem os jovens: que venha com tudo!
Capítulo Quarenta e Três

Adelaide parece exausta depois de seu dia em Margate: ela visitou a galeria
Turner Contemporary, então deu um passeio ao longo da mureta do porto,
visitou a linda livraria independente local, fez uma viagem nostálgica à
Shell Grotto e deu um passeio muito agradável pela cidade velha com suas
butiques lindamente pintadas e galerias menores. Há artistas por toda parte
na cidade.
– Estou no céu – disse Adelaide, feliz, a certa altura, enquanto
comprava mais uma gravura e sorria para uma selfie com o jovem artista
encantado (“Este é o melhor dia da minha vida!”).
Ela até entrou um pouco no mar e ficou olhando para a água com uma
expressão melancólica, enquanto Jess e Luc se mantinham mais para trás
para lhe dar privacidade.
Já de volta a Canterbury, Luc busca um Jean-Paul igualmente exausto.
O cachorro agora é capaz de remover as meias de Polly, que não consegue
parar de rir, e também de se fingir de morto (com a ajuda, talvez, do cheiro
das meias). A intenção de Luc é deixar Adelaide e Jean-Paul no apartamento
alugado onde estão hospedados.
– O que você vai fazer depois? – pergunta Jess quando eles se
despedem. É início da noite e ela está pensando no que preparar para o
jantar das meninas. – Você pode voltar pra cá e comer com a gente, ou...?
Ele parece tímido de repente.
– Talvez eu pudesse levar você para jantar em algum lugar? – sugere
ele. – Você pode escolher.
Jess finge considerar a sugestão friamente, embora seu coração tenha
começado a bater um pouco mais rápido. Eles ainda não tiveram uma
conversa de verdade, só os dois, desde que Luc chegou a Kent, e ela não
sabe bem como se sente.
– Deixa eu pensar... bem, tem um lugar muito elegante e caro logo
depois da universidade – brinca Jess, nem que seja para ganhar tempo. Ela
sente uma agitação começar a dominá-la de tal forma que é difícil manter a
compostura. – Ou... a gente podia ir ao pub aqui perto pra comer o bom e
velho empadão com fritas...
– Agora você está falando a minha língua – diz ele.
Jess sorri e eles fazem os arranjos necessários. Quando ela volta a
entrar em casa, vê que as filhas estavam escutando a conversa escondidas e
agora encaram a mãe com expressões idênticas, de lábios torcidos.
– O que foi? Que caras são essas? – pergunta Jess, e passa direto para a
cozinha, para que as meninas não percebam o rubor em seu rosto.
– A mamãe vai ter um encontro! – cantarola Edie. – Ele gosta de você,
mãe, tenho certeza.
– E ela gosta dele – declara Polly com certa euforia. – Eu disse pra
vocês. Não disse?
– Vamos torcer para que tudo corra melhor do que naquela noite com o
nojento do Georges – acrescenta Mia, enquanto as três se acomodam diante
da bancada e na mesa da cozinha, ainda olhando para Jess.
– Caramba, é como ter o meu próprio coro grego, com vocês três
comentando cada movimento meu – fala Jess, se divertindo. – Seja como
for, não é um encontro romântico, aposto que é mais um jantar de trabalho.
Ela abre a porta da geladeira e fica olhando sem ver o que está ali
dentro. Mas será que é um encontro?, se pergunta. Ela gostaria que fosse?
Afinal, teve aquela reação física estranha quando ele a convidou. Jess ainda
sente certo frio na barriga.
– Apesar de que, para ser sincera... – Ela fecha a porta da geladeira, se
vira e fica encostada ali como se estivesse diante de um pelotão de
fuzilamento. – Um dia, não sei quando, eu provavelmente vou querer
namorar de novo, sabe. E sim, acho que vai ser estranho pra todas nós
quando isso acontecer, mas... – Ela hesita, para escolher as palavras com
cuidado. – Mas quero que saibam agora que vocês três sempre vão ser a
minha prioridade. Sempre. Tá certo? E mesmo que o divórcio tenha sido
difícil para todos, a gente é capaz de fazer as coisas funcionarem entre nós,
certo? A gente vai fazer as coisas funcionarem.
– Bem-vinda ao meu TED Talk – diz Mia, imitando Jess, mas não de
um jeito maldoso.
– A gente pode pedir comida, já que você vai sair? – É só o que Edie
tem a dizer sobre o assunto.
– Ah, é, a gente pode? – Polly se junta à irmã, sentindo o momento de
fraqueza da mãe, então todas começam a gritar sugestões: pizza, Nando’s,
comida chinesa.
Será que as filhas compreenderam a mensagem que ela quis passar?
Jess espera que sim, apesar da aparente indiferença das três, mas de
qualquer modo está determinada a continuar deixando bem claro seu amor
por elas. Reconheça os sentimentos dos seus filhos, ela se lembra de ter
declarado em uma de suas colunas sobre parentalidade, e planeja fazer
exatamente isso, mesmo que, neste momento, se veja obrigada a reconhecer
que o que as meninas realmente querem é pedir comida.
– Por mim, sem problema – diz, então.
✳ ✳ ✳

Mais tarde, ela e Luc estão no The Brewer’s Tale, um pub aconchegante à
beira do rio, com uma grande e ensolarada área ao ar livre. Sentada ali sob o
sol matizado do fim de tarde, com uma cerveja gelada para cada um e a
satisfação de saber que seu jantar está sendo preparado por outra pessoa,
Jess sente uma onda de pura felicidade. A vida parece caminhar melhor do
que ela poderia ter planejado. As meninas estão contentes. Ela tem um
agradável período de trabalho planejado para os próximos meses e, quem
sabe, se esse livro der certo, pode até escrever outro. Enfim fazer seu nome
nesse meio. Já não parece um sonho irrealizável, agora que chegou até ali.
– Você parece alegre – comentou a mãe dela ao telefone outra noite. –
Não é fácil ser mãe solo às vezes, não é mesmo? Mas parece que você está
fazendo um ótimo trabalho.
Desde que recebeu o irmão e a família em casa, Jess mudou a forma de
pensar em relação à mãe. Porque não, não é fácil ser mãe solo, mas
Samantha administrou isso muito bem por anos a fio, depois que o pai de
Owen e Jess foi embora, quando ele tinha 8 anos e ela, 6. Ele se mudou para
Singapura e nunca mais deu notícia – nem sequer uma carta, um telefonema
ou um cartão de aniversário para mostrar que em algum momento pensava
na esposa e nos filhos. Como qualquer mulher seguia em frente depois
daquilo? Mas Samantha seguiu em frente mesmo assim – trabalhando em
dobro para manter sua pequena família bem. E talvez ela achasse que os
filhos deviam se tornar pessoas duras diante de um mundo cruel e
incentivava o espírito competitivo para transformá-los em batalhadores.
Ouvir a mãe falar com aquele tom terno, algo que raramente acontecia,
deixou Jess sem palavras. Será que Owen tinha comentado alguma coisa
com ela?, se perguntou.
– Obrigada, mãe – falou Jess, então se lembrou dos pensamentos
afetuosos que teve recentemente, comparando a energia vibrante de
Samantha com a personalidade mais pessimista de Adelaide. – Eu poderia
dizer o mesmo de você – continuou. – Você e todas as suas amigas e
atividades interessantes... você construiu uma vida muito boa.
– Mas eu gostaria que a gente morasse mais perto uma da outra –
comentou Samantha. – Essa é a única desvantagem. Será que a gente
consegue combinar de eu te visitar? Fiquei com tanto ciúme quando soube
que o Owen ia ficar hospedado com você...
– É claro, mãe, eu vou adorar!
Agora, ali está ela com Luc, muito bonito em uma camisa leve azul-
clara e jeans. Ele está usando uma colônia que cheira a grama e couro –
vetiver, será que é essa a fragrância?, se pergunta Jess, distraidamente,
enquanto eles conversam. Ela, por sua vez, escolheu um vestido novo que
comprou na liquidação da Zara e, pela primeira vez, conseguiu fazer uma
escova vagamente decente no cabelo. Está se sentindo bem com a própria
aparência.
– Estou feliz que esteja tudo dando certo – comenta ele. – Está tudo
bem entre nós dois, Jess?
– Como assim, depois que fiz a Adelaide chorar com a minha
bisbilhotice e você me deu uma bronca e desligou na minha cara? –
responde Jess, brincalhona. – Sim, Luc, tudo bem. Tudo está bem quando
acaba bem. – Ela cutuca o pé dele por baixo da mesa. – A gente tá de boa. –
No instante seguinte, Jess imagina as filhas rindo daquela declaração
específica (Ai... sério, mãe?, implicam as meninas, rindo, na cabeça dela) e
se vê forçada a recuar. – Bem... de boa no sentido de que... Você sabe o que
eu quero dizer – acrescenta ela, nervosa.
Luc sorri.
– De boa em todos os sentidos da expressão, eu diria – responde ele,
com os olhos fixos nos dela enquanto ergue o copo de cerveja. – Enfim, um
brinde a nós, Jess. Foi uma ótima ideia vir aqui. Canterbury é ótima, né?
Não acredito que nunca estive aqui antes.
– Se vocês tiverem tempo, quero levar você e a Adelaide para conhecer
os pontos turísticos da cidade enquanto estiverem aqui – oferece ela. – Você
pode gastar uma pequena fortuna em um chaveirinho colorido da Catedral
de Canterbury para se lembrar de nós, ou enlouquecer e comprar logo uma
camiseta de “I Canterbury”.
– Não me tente – diz ele, então pega o blazer que deixou de lado e
procura alguma coisa em um dos bolsos. – Falando em lembranças
refinadas... – Luc pega um pequeno saco de papel, fechado com um adesivo
da Torre Eiffel, e pousa na mesa entre eles. – Isto é pra você.
– O que é? – pergunta Jess, surpresa.
– Acredite ou não, há uma forma muito simples de descobrir – fala ele,
com uma expressão impassível, e indica o pacote com um gesto.
Jess enrubesce, ri, então descola o adesivo, abre o saco e espia.
– Ah, Luc! – exclama, e tira de dentro do embrulho um lindo globo de
neve vintage. A base de estanho é um círculo de marcos parisienses em
miniatura: a Sacré-Coeur, o Arco do Triunfo e a Notre-Dame, entre outros.
Há uma Torre Eiffel bem no meio do globo e, quando ela o agita
suavemente, surge um redemoinho de flocos de neve. – É perfeito –
comenta ela, desviando o olhar para o rosto dele, mas logo voltando a
observar o cenário coberto de neve do globo, encantada. – E muito melhor
do que aquele que eu quase comprei em Montmartre. Adorei, Luc.
Obrigada.
Jess sente um nó na garganta, porque esse é um gesto muito atencioso
da parte dele, tão pessoal... Luc se lembrou, pensa, atordoada. Ele prestou
atenção em mim e se lembrou. Ele gosta de você, mãe, tenho certeza, ela
ouve Edie dizendo em sua cabeça e sente o rosto quente.
– De nada – diz ele, com o joelho apoiado no dela, embaixo da mesa.
Embora Jess tenha sido a primeira a iniciar o contato físico com o pé
alguns minutos antes, há algo no fato de ele dar continuidade à ideia que
provoca o equivalente a uma descarga elétrica na pele dela. Eu também
gosto dele, se pega pensando, e fica ainda mais ruborizada.
– Então... – fala Jess em um rompante, no exato momento em que ele
diz:
– Enfim...
Os dois se interrompem e se entreolham.
– Você primeiro – diz ele.
– Eu... hum... – balbucia Jess, porque a pressão contínua do joelho dele
no dela (como a sensação de um joelho pode ser tão sexy?) fez com que ela
já esquecesse o que queria dizer. – Hum. Então, quais são os seus planos
para o resto do verão? Sei que você e a Adelaide vão se dedicar a finalizar
os preparativos para a exposição dela, mas, depois disso, você vai continuar
em Paris ou pretende voltar para Londres? – Já mais recomposta, ela ergue
uma sobrancelha com uma expressão provocadora. – Ou quer se instalar na
fazenda mais próxima para começar a viver o seu sonho?
– Engraçado você perguntar – começa a responder Luc, mas, antes que
ele possa continuar, a proprietária do pub, Donna, chega com a comida e
serve um empadão de carne para Luc e um de frango para Jess, ambos
acompanhados de batatas fritas e ervilhas, com um cheiro divino. – Na
verdade, talvez eu só me mude pra cá – diz Luc, inalando o aroma da
comida.
– Ah, eu é que não vou te impedir, meu bem – brinca Donna, que é
uma senhora pequenina e toda tatuada de 70 e poucos anos. Ela pisca para
Jess. – Aproveitem!
Jess sorri e coloca sal nas batatas enquanto Donna se afasta, meio
cambaleante.
– Continua, você estava prestes a me contar os seus planos – lembra
ela.
– Sim. Bem, acontece que você tinha razão – diz Luc, enquanto parte
um pedaço do empadão e deixa escorrer no prato o molho escuro e
suculento.
– É claro que eu tinha – responde Jess, brincalhona. – Mas sobre o que
em particular?
– Sobre Kent ser um ótimo lugar para estudar agronomia – explica ele,
deixando Jess sem fôlego. – Há tantos terrenos cultiváveis lindos, pomares
incríveis, e alguns cursos universitários de primeira linha... Andei
investigando.
De repente, Jess se vê com muita dificuldade de manter a compostura,
porque o ar entre eles está carregado de muitas coisas ainda não ditas.
– Ah, sim – consegue responder de forma neutra. – Parece legal.
– Apesar de que... – Ele passa uma batata frita pelo molho do empadão
e dá uma mordida. – Seria muito imprudente da minha parte, não seria,
deixar tudo para trás em Londres para começar de novo em Kent? – Os
olhos dele se fixam nos dela, e Jess sente um arrepio de empolgação se
espalhar por todo o seu corpo. – A menos, é claro, que alguém de quem eu
goste demais já morasse na área. Nesse caso, a ideia de estar em qualquer
outro lugar pareceria... bem, a ideia mais estúpida de todas.
Jess engole em seco, porque o contato visual é tão intenso que ela mal
consegue se lembrar de como respirar.
– Você está dizendo...?
– Estou dizendo... Acho que estou dizendo isso – responde Luc e, no
instante seguinte, está se inclinando por cima da mesa e beijando
suavemente os lábios dela.
O beijo demora só um segundo, mas o corpo de Jess reage com
tamanha descarga de adrenalina (e paixão) que seu coração parece uma
britadeira.
– Estou dizendo que acho você fantástica, Jess – continua ele. – E eu
seria louco se não tentasse descobrir se... se há alguma chance de acontecer
alguma coisa entre a gente.
– Luc, eu... – Jess tem a sensação de que não cabe mais em si, como se
seu corpo fosse pequeno demais para conter todas as grandes emoções que
está experimentando. Seu primeiro instinto é beijá-lo de novo, passar os
braços ao redor do pescoço dele e sentir seu corpo pressionando o dela, mas
então se lembra dos rostos doces das filhas e o conflito se instala. – Tenho
que ser sincera, não sei se já estou no momento certo para um
relacionamento – confessa.
– Também não sei se eu estou – admite Luc. – Mas a gente pode
descobrir, não pode? Entre nós. Sem pressão. Só dando risada juntos.
Passando algum tempo juntos. Pra ver se alguma coisa acontece.
Jess acha que deveria manter um muro erguido para proteger seu
coração frágil, mas o problema é que não parece haver nada de frágil nesse
coração agora, do jeito forte e saudável que está batendo. Ela se vê incapaz
de parar de sorrir por causa de Luc – desse verão – e de todas as coisas
grandes e inesperadas que aconteceram com ela nos últimos meses.
– Acho que eu também gostaria disso – afirma ela. – Acho que eu
gostaria muito disso, Luc.
Epílogo

Adelaide sai do avião se sentindo cansada, mas também cheia de energia,


com aquela emoção de pousar em outro país após um longo voo. Ela está
ali. Realmente cruzou o oceano e chegou. Era uma manhã fria de outubro
quando saiu de Paris, e em Los Angeles a temperatura aparentemente é de
28 graus, a julgar pelos anúncios finais do piloto. Vinte e oito graus!
– Traz o seu biquíni – disse Margie, que tem uma piscina nos fundos
de casa.
A princípio, Adelaide riu, achando aquilo bastante improvável, mas de
uma forma ou de outra, três biquínis diferentes acabaram em sua mala. Que
se dane, essa pode ser a última vez que ela vai à Califórnia. Embora, a
julgar pelo que disse o médico que consultou em Canterbury, ela ainda
possa ter muitos anos de uso de biquíni pela frente. É tudo questão de
atitude, diz a si mesma, e a dela mudou radicalmente nos últimos meses.
Foi difícil deixar Jean-Paul com Lucas, mas ela sabe que ele está em
boas mãos. Quando terminou o trabalho no arquivo dela, o sobrinho estava
cogitando a ideia de voltar para a faculdade, só que, depois de vender seu
apartamento em Londres mais rápido do que o esperado, aparentemente
mudou de planos. A última coisa que ela soube foi que Lucas pretendia se
arriscar, comprar algumas terras e aprender na prática como ser um pequeno
fazendeiro. Para a alegria de Adelaide, ele e Jess têm se visto com bastante
frequência nos últimos tempos, e no momento ele está alugando uma
propriedade na pequena cidade de Faversham, a dezesseis quilômetros de
Canterbury, enquanto procura um lugar adequado para si mesmo. Luc e Jess
estão indo devagar, garantiu ele a Adelaide, mas, do ponto de vista dela,
parece que os dois estão correndo um em direção ao outro, radiantes e com
os braços abertos. E boa sorte para eles, pensa, quando chega finalmente à
esteira de bagagens. Desde que ele não distraia Jess do prazo para concluir
o livro, os dois têm sua bênção.
Enquanto isso, a exposição de Adelaide começa a tomar forma. Depois
de selecionar as obras das quais mais se orgulha e de conseguir que seus
atuais proprietários se comprometam a emprestá-las, ela e Lucas estão
negociando com a National Gallery e outras galerias ao redor do mundo
sobre datas e agenda. O clínico geral com quem ela conversou prescreveu
alguns medicamentos que, junto com o café descafeinado, eliminaram os
tremores com uma rapidez surpreendente. Como resultado, para sua grande
alegria, Adelaide voltou a pintar e a desenhar. Na verdade, ela passou o
último mês trabalhando em algumas telas totalmente novas para a
exposição. (Ela não quer se gabar, mas sua pintura de Jean-Paul usando a
técnica do chiaroscuro é absolutamente magnífica.) Depois de pensar por
algum tempo, também decidiu cobrir toda a tela Fúrias com uma camada de
tinta branca aquosa e renomeou o quadro de Um novo começo. Se a pessoa
olhar de perto, vai conseguir distinguir os formatos das figuras abaixo do
branco, onde o original tinha sido feito com tinta a óleo, mas, se alguém
quiser saber mais sobre a obra, vai ter que tentar descobrir, porque Adelaide
não pretende contar. Ela orientou Jess a omitir completamente qualquer
menção à pintura no livro de memórias – que ninguém diga que Adelaide
Fox não é capaz de cumprir suas promessas. Quanto à história sobre a
morte de Colin, seu advogado a alertou que provavelmente seria melhor se
ela mantivesse a versão que deu à polícia na época. Por Adelaide, tudo bem.
Em sua opinião, como qualquer boa obra de arte, um livro de memórias
sempre deve conter alguns mistérios não resolvidos.
Ali está a bagagem dela, uma elegante mala vermelha chacoalhando ao
longo da esteira.
– Com licença, você faria a gentileza...? – pede ela a um homem jovem
e bastante atraente, apontando para a mala.
Ele age na mesma hora, tira a mala da esteira e começa a procurar um
carrinho de bagagem para Adelaide.
– Obrigada, meu caro – agradece ela, enquanto ele coloca a mala no
carrinho e pergunta se ela precisa de mais alguma coisa. – Não, acho que
me viro bem de agora em diante.
As palavras ecoam na cabeça de Adelaide ao empurrar o carrinho com
determinação até o portão de desembarque. Acho que me viro bem de agora
em diante. Sim. Ela vai se virar. Com certeza vai.
Então passa pela alfândega com o carrinho de bagagem – nada a
declarar, exceto a minha genialidade, rá, rá – e entra finalmente no vasto e
bem-iluminado saguão de desembarque. Há rostos por toda parte. Muito
barulho e uma enorme agitação. Ai, meu Deus, pensa, examinando a
multidão em busca de Margie. Parece que metade dos Estados Unidos está
ali esperando a chegada de alguém. Como vão conseguir se encontrar?
Mas então...
– Adelaide! Adelaide!
Adelaide vê uma senhora de cabelos brancos, mais à frente da
aglomeração, apoiada em uma bengala, com um sorriso largo. Ver aquele
rosto lindo e amado novamente é como voltar para casa.
– Margie! – exclama Adelaide, com o coração parecendo prestes a
pular do peito.
Não consegue acreditar que alguma vez possa ter achado que a vida
tinha acabado para ela, pensa, enquanto se adianta para cumprimentar a
amiga. No instante seguinte, está abraçando sua querida Margie, e as duas
choram e riem ao mesmo tempo. A vida está só começando, pensa
Adelaide, feliz.
Agradecimentos

Realmente espero que você tenha gostado deste romance – acho que gostei
de escrevê-lo mais do que qualquer outro livro, sobretudo por causa das
oportunidades de pesquisa que ele me ofereceu! Além de aproveitar uma
ótima viagem de verão a Paris com meu marido, desfrutando das delícias da
cidade (incluindo o passeio por muitas excelentes brasseries, afinal, não se
pode fazer esse tipo de investigação com pressa), também me inscrevi na
mais maravilhosa aula noturna de História da Arte na Universidade de Bath,
com Andrew Foyle, que abriu meus olhos para obras incríveis semana após
semana. Muito obrigado, Andrew, pelas suas orientações inspiradoras.
Como alguém que definitivamente não é uma artista (quisera eu), posso ter
cometido erros ao escrever sobre arte e artistas – por favor, tenha paciência
comigo (e me perdoe) se for o caso.
Agradeço como sempre a Lizzy Kremer, que me guiou ao longo deste
livro com muita paciência e gentileza. Agradeço também à colega dela, Orli
Vogt-Vincent, pelos comentários excelentes e perspicazes, e à equipe de
David Higham como um todo, especialmente Margaux Vialleron e Ilaria
Albani, por todo o trabalho árduo que fazem em meu nome.
Um enorme agradecimento a todos na Quercus – é uma alegria
trabalhar com vocês. Stef Bierwerth, Kat Burdon e Emma Capron – seu
talento editorial e a atenção aos detalhes foram muito apreciados. Ella Patel,
Patrice Nelson, Katy Blott, Ella Horne e Ellie Nightingale, agradeço por
todas as críticas, por todos os eventos, por todas as newsletters e por todo o
talento criativo – que equipe! Agradeço também a Dave Murphy e Izzy
Smith pelo excelente trabalho na área de vendas. Meu muito obrigada a
Sharona Selby e Rhian McKay pela fantástica edição e revisão também.
Amor e gratidão aos meus maravilhosos editores estrangeiros – com um oi
especial à equipe da Hachette Austrália: mal posso esperar para conhecer
todos vocês!
Agradeço a Alexandra Heminsley, que teve a gentileza de conversar
comigo sobre a arte de ser ghost-writer. Sua generosidade foi essencial – e
nem é preciso dizer que Jess e Adelaide são personagens totalmente
fictícias.
Obrigada, Sue Garrett e Florence Richardson, consultoras de arte
fabulosas, por me darem dicas úteis sobre a linguagem relacionada à arte.
Mais uma vez, qualquer possível erro é inteiramente meu.
Também gostaria de agradecer a Therese Bonath, cuja mensagem no
Facebook me inspirou a criar Jean-Paul, como penitência por alguns
estereótipos preguiçosos meus em relação a staffbulls em um livro anterior!
Obrigada, Therese – espero que você goste dele.
Agradeço a Hannah Powell, que leu o original logo no início e fez
comentários muito ponderados e perspicazes (além de uma playlist
personalizada!), e que continuou a debater ideias comigo por semanas. Foi
muito importante! Agradeço também a Rachel Delahaye, outra leitora beta,
pelo seu incentivo e entusiasmo. Nosso próximo almoço é por minha conta!
Meus agradecimentos ao Fort Road Hotel em Margate pela incrível
hospitalidade enquanto eu estava lidando com a primeira edição do
rascunho – não sei se já trabalhei em algum lugar que tivesse uma vista
melhor do que a janela dos sonhos desse hotel. Espero poder voltar um dia.
Desejo amor e ótimos dias de escrita para os Swans – Ronnie, Harriet,
Cally, Jill, Emma, Rosie, Mimi, Kirsty, Kate e Victoria. E meu amor
imenso, como sempre, à maravilhosa Milly Johnson por ser tão parceira.
Meu amor e agradecimento aos livreiros que me apoiaram tanto ao
longo dos anos, em particular Lindsay, da Ledbury Books and Maps; Sarah,
da Mostly Books; Octavia, da Octavia’s Bookshop, e toda a equipe da The
Bookery, em Crediton. Um agradecimento especial aos brilhantes livreiros
da Mr Bs e Toppings, em Bath, por me ajudarem a gastar meus royalties em
suas maravilhosas livrarias. Acredito sinceramente que é impossível sair de
qualquer uma dessas lojas de mãos vazias.
Finalmente, montanhas de amor para toda a minha família,
especialmente para Martin, Hannah, Tom e Holly. Vocês são os melhores –
obrigada por tudo.
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Um verão que mudaria tudo
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Uma terrível descoberta leva Rosa a largar uma carreira de sucesso em
Londres e, num impulso, recomeçar a vida como sous-chef em Brighton. O
trabalho é árduo e estressante, mas a distrai. Bem, pelo menos até ela
conhecer a adolescente emburrada que mora no apartamento ao lado, que a
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A princípio, a cidade parece recebê-la de braços abertos, mas não vai
demorar muito até ela se meter em várias enrascadas.
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andar, tem outros planos para ela. Querendo ou não, Charlotte vai precisar
encarar o mundo real... e todas as suas possibilidades.
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Aos 14 anos, Tully Hart era linda, alegre e popular. O que ninguém
imaginava era o sofrimento que ela vivia: nunca conhecera o pai, e a mãe,
viciada em drogas, costumava desaparecer por longos períodos.
Mas sua vida se transformou quando ela se mudou para a alameda dos
Vaga-lumes e conheceu Kate Mularkey. A garota era inteligente,
compreensiva e tão amorosa que logo fez Tully se sentir parte de sua
família.
Ao longo de mais de trinta anos, Tully ajudou Kate a descobrir a própria
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enxergar além das aparências e a fez entender que certos riscos não valem a
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frenesi dos anos 1970, às reviravoltas políticas das décadas de 1980 e 1990
e às promessas do novo milênio, até que algo abalou a confiança entre elas.
Será possível perdoar uma traição da melhor amiga? Neste livro, Kristin
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Para sempre seu
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A Dra. Briana Ortiz é uma mulher forte, mas está muito cansada. Ela
acabou de se divorciar, seu irmão precisa de um transplante de rim... e sabe
a promoção no trabalho que ela estava esperando? Pelo jeito, é o novato
intrometido quem vai conseguir o cargo.
Jacob Maddox sabe que já ganhou a antipatia de Briana. Por isso, decide se
explicar de forma incomum: numa carta escrita com caneta-tinteiro e papel
especial. Bem, parece que, no fim das contas, ele não é tão ruim assim.
Briana começa a trocar cartas com Jacob e passa a conhecer melhor o
médico caladão que prefere uma vida sossegada a grandes eventos sociais.
De repente, eles estão almoçando juntos e debatendo as vantagens de se
ganhar um pônei e percebem que têm muito em comum, desde o encanto
pela natureza até o gosto por histórias bizarras de hospital.
Quando Jacob decide dar a Briana o melhor presente imaginável, ela se
pergunta como poderá resistir a esse simpático médico… especialmente
quando ele pede um favor que ela não pode recusar.

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Sobre a autora
Lucy Diamond cresceu em Nottingham e estudou literatura inglesa
na Leeds University. Trabalhou em algumas editoras e na BBC e hoje é
autora de mais de 20 romances, sendo publicada em 15 idiomas e sempre
figurando na lista de mais vendidos do The Sunday Times. Lucy mora em
Bath com o marido e os três filhos.
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A casa dos novos começos

O café da praia

Os segredos da felicidade

Uma noite na Itália

Minha querida Paris

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Table of contents

1. Capa
2. Créditos
3. Parte Um
1. Capítulo Um
2. Capítulo Dois
3. Capítulo Três
4. Capítulo Quatro
5. Capítulo Cinco
6. Capítulo Seis
7. Capítulo Sete
8. Capítulo Oito
9. Capítulo Nove
10. Capítulo Dez
11. Capítulo Onze
12. Capítulo Doze
13. Capítulo Treze
14. Capítulo Catorze
15. Capítulo Quinze
16. Capítulo Dezesseis
4. Parte Dois
1. Capítulo Dezessete
2. Capítulo Dezoito
3. Capítulo Dezenove
4. Capítulo Vinte
5. Capítulo Vinte e Um
6. Capítulo Vinte e Dois
7. Capítulo Vinte e Três
8. Capítulo Vinte e Quatro
9. Capítulo Vinte e Cinco
10. Capítulo Vinte e Seis
11. Capítulo Vinte e Sete
12. Capítulo Vinte e Oito
13. Capítulo Vinte e Nove
14. Capítulo Trinta
15. Capítulo Trinta e Um
16. Capítulo Trinta e Dois
17. Capítulo Trinta e Três
18. Capítulo Trinta e Quatro
19. Capítulo Trinta e Cinco
20. Capítulo Trinta e Seis
21. Capítulo Trinta e Sete
22. Capítulo Trinta e Oito
23. Capítulo Trinta e Nove
24. Capítulo Quarenta
5. Parte Três
1. Capítulo Quarenta e Um
2. Capítulo Quarenta e Dois
3. Capítulo Quarenta e Três
4. Epílogo
6. Agradecimentos
7. Sobre a autora
8. Sobre a Arqueiro

Guide

1. Cover
2. Beginning
3. Table of Contents

1. 1
2. 2
3. 3
4. 4
5. 5
6. 6
7. 7
8. 8
9. 9
10. 10
11. 11
12. 12
13. 13
14. 14
15. 15
16. 16
17. 17
18. 18
19. 19
20. 20
21. 21
22. 22
23. 23
24. 24
25. 25
26. 26
27. 27
28. 28
29. 29
30. 30
31. 31
32. 32
33. 33
34. 34
35. 35
36. 36
37. 37
38. 38
39. 39
40. 40
41. 41
42. 42
43. 43
44. 44
45. 45
46. 46
47. 47
48. 48
49. 49
50. 50
51. 51
52. 52
53. 53
54. 54
55. 55
56. 56
57. 57
58. 58
59. 59
60. 60
61. 61
62. 62
63. 63
64. 64
65. 65
66. 66
67. 67
68. 68
69. 69
70. 70
71. 71
72. 72
73. 73
74. 74
75. 75
76. 76
77. 77
78. 78
79. 79
80. 80
81. 81
82. 82
83. 83
84. 84
85. 85
86. 86
87. 87
88. 88
89. 89
90. 90
91. 91
92. 92
93. 93
94. 94
95. 95
96. 96
97. 97
98. 98
99. 99
100. 100
101. 101
102. 102
103. 103
104. 104
105. 105
106. 106
107. 107
108. 108
109. 109
110. 110
111. 111
112. 112
113. 113
114. 114
115. 115
116. 116
117. 117
118. 118
119. 119
120. 120
121. 121
122. 122
123. 123
124. 124
125. 125
126. 126
127. 127
128. 128
129. 129
130. 130
131. 131
132. 132
133. 133
134. 134
135. 135
136. 136
137. 137
138. 138
139. 139
140. 140
141. 141
142. 142
143. 143
144. 144
145. 145
146. 146
147. 147
148. 148
149. 149
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