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Revista Domingo

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Teo Duarte
Direitos autorais
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2 Domingo Jornal de Fato

O protagonismo Balada do Impostor


P3

de Eva Potiguara O protagonismo


de Eva Potiguara
Conheça a trajetória da indígena

“E
ao lutar por direitos usurpados
u não sou apenas comedora de camarão como disse Câmara
dos povos originários.
Cascudo, sou uma mulher indígena.” A declaração repleta de P4
personalidade é da escritora Eva Potiguara proferida em 2023,
ao ser semifinalista da 65ª edição do Prêmio Jabuti, o mais
importante prêmio literário do Brasil, quando concorreu na categoria Poesia
com o livro Aby Ayala Membyra Nhe’Engara: cânticos de uma filha da terra,
publicado pela editora UK’A Editorial, e na categoria Fomento à Leitura, com
Álbum Guerreiras da Ancestralidade do Mulherio das Letras Indígenas, anto-
logia que organizou e com o qual venceu. No mesmo ano, recebeu o Prêmio
Literatura de Mulheres Carolina Maria de Jesus 2023, na categoria Romance,
com a obra “Os Herdeiros de Jurema”.
Evanir de Oliveira Pinheiro, ou Eva Potiguara, como prefere ser chamada,
é uma mulher indígena pertencente ao Povo Potiguara Sagi Jacu, em Baía
Formosa/RN, mas nascida em Natal, capital do Rio Grande do Norte, no dia 8
de fevereiro de 1966.
O protagonismo de Eva advém do ativismo, liderança indígena e pela par-
ticipação em debates sobre os direitos dos povos indígenas. Os espaços ocupa-
dos por ela são bem distantes do que a maioria do povos originários – e por
que não dizer de nós mulheres – consegue ocupar, diria que quase uma exce-
Luís Elson
ção por tamanho destaque.
O traço que reconstrói
DOMINGO conversou com Eva Potiguara que, gentilmente concedeu a
nacos da nossa história.
entrevista. Confira. P10

Boa leitura!
Artigo de Opinião:
Ângela Karina
Um grão de felicidade
P14

Receita P15

• Edição – C&S Assessoria de Comunicação


• Dia­gra­ma­ção – Augusto Paiva
• Projeto gráfico – Augusto Paiva
• Im­pres­são – Grá­fi­ca De Fa­to
• Editora e Re­vi­são – Ângela Karina

Re­da­ção, pu­bli­ci­da­de e cor­res­pon­dên­cia

Av. Rio Bran­co, 2203 – Mos­so­ró (RN)


Fo­nes: (0xx84) 3323-8900/99836-5320
Si­te: www.de­fa­to.com/do­min­go
E-mail: [email protected]

Do­min­go é uma pu­bli­ca­ção se­ma­


nal do Jor­nal de Fa­to. Não po­de ser
ven­di­da se­pa­ra­da­men­te.

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 3

BALADA DO IMPOSTOR

O forró silenciou: a despedida


de João Mossoró
JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS
Jornalista
@paiva_reboucas

A
música nordestina amanheceu
mais silenciosa no dia 23 de
abril de 2025. A notícia da mor-
te de João Mossoró chegou de forma
tímida, quase sussurrada, contrastan-
do com o som forte de sua trajetória.
Foi assim, discretamente, que o Rio
Grande do Norte soube da partida de
um dos pilares do Trio Mossoró — um
grupo que ajudou a construir a história
do forró, mas que, como tantos artistas
populares, foi mais celebrado pelo po-
vo do que pelas manchetes.
No Rio de Janeiro, cidade que aco-
lheu tantos talentos do Nordeste, João
encerrou sua jornada de cantor, com- última apresentação do Trio Mossoró Hoje, sua ausência é sentida não só
positor e defensor incansável da cul- em Mossoró foi em 2018, durante o nos acordes que cessaram, mas no si-
tura popular aos 78 anos. É o segundo espetáculo “Chuva de Bala no País de lêncio que ficou entre nós. Perdemos
membro do trio a partir, após Herme- Mossoró”. Um palco simbólico, sem uma voz que falava de amor, de sau-
linda, falecida em 1º de abril de 2023. dúvida, mas aquém da grandeza de dade, de terra. Uma voz que nos lem-
Agora, apenas a lenda Carlos André quem merecia ser celebrado no espaço brava de onde viemos e do valor de
segue nos palcos, mantendo viva a principal do Mossoró Cidade Junina nossa cultura.
memória e o legado desse trio que em- — evento que, ano após ano, deixa Sentiremos falta do artista, sim —
balou gerações. passar a oportunidade de reverenciar mas também do homem que resistiu
João Mossoró foi mais que um mú- quem ajudou a moldar a identidade com dignidade, que lutou até o fim
sico: foi um guardião das raízes nor- sonora do Nordeste. para manter viva a chama do Nordes-
destinas. Até seus últimos dias, seguiu A morte de João, como a de Her- te. E agora, enquanto Mossoró respira
trabalhando, cantando, compondo — melinda, passou quase despercebida em melancolia e os fãs do trio se cur-
sempre ao lado do amigo e produtor pela grande imprensa, sempre ávida vam diante dessa perda, resta-nos a
Chico Roque — com a paixão de quem por novidades e distrações fugazes. saudade. Essa saudade que não cala,
vive para o que acredita. Sua voz sua- Mas João era o oposto disso: ele repre- que canta baixinho e que talvez seja o
ve e afinada, que por vezes lembrava sentava a permanência, a raiz, o cui- tributo mais sincero que podemos ofe-
o timbre de Luiz Gonzaga, carregava dado com a tradição. Era um contador recer.
a alma do sertão em cada verso. de histórias, um apaixonado pelo can- Descanse em paz, Joãozinho. O
É doloroso perceber que, apesar de cioneiro popular e pela música portu- forró perdeu uma de suas notas mais
tudo, sua terra natal ainda deve um guesa, que soube dividir com o forró doces — mas sua música, essa conti-
tributo à altura de sua importância. A de maneira única. nuará tocando em nossos corações.

sábado, 26 de abril DE 2025


4 Domingo Jornal de Fato

ENTREVISTA:
Eva Potiguara

ABRIL
INDÍGENA

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 5

Por Ângela Karina


Da Redação

A
colonização forçada, im-
posta aos povos originá-
rios, redundantemente
aqui destacada com o in-
tuito de evidenciar as violências,
sejam elas físicas, culturais ou so-
ciais por eles sofridas deixou seque-
las profundas, porém, não o sufi-
ciente para aniquilá-los. Ainda
bem.
Desse modo, pautas que resga-

Eraldo Gomes
tem a memória social e indígena do
Rio Grande do Norte e além-fron-
teiras devem ter espaços de divul-
gação como forma, mínima que
seja, de reparação, mas também de
reconhecimento da capacidade ad-
vinda da nossa gente-irmã. Iniciati-
vas como o Abril Indígena reafir-
mam a importância de abrir espaços
para a divulgação da cultura indí-
gena, tão rica e necessária que a
conheçamos e, sobretudo, respeite-
mo-la e a valorizemos.
Logo, a ascensão social e cultu-
ral dos povos indígenas é, antes de
tudo, uma forma de resistência à
tentativa cruel de dizimá-los para
se apossarem das terras e provocar
o ‘quase’ apagamento cultural dos tou ao lutar por direitos usurpados mio literário do Brasil, quando
nossos ancestrais. Não consegui- dos povos originários, reconheci- concorreu na categoria Poesia com
riam. Houve resistência. mento e acesso a políticas públicas o livro Aby Ayala Membyra
Assim, nas últimas décadas que permitam uma vida com dig- Nhe’Engara: cânticos de uma filha
emergem personalidades que fa- nidade. da terra, publicado pela editora
zem ecoar o pertencimento e a UK’A Editorial, e na categoria Fo-
valorização da cultura indígena, EVA POTIGUARA mento à Leitura, com Álbum Guer-
como bem fazem Eva Potiguara, “Eu não sou apenas comedora reiras da Ancestralidade do Mulhe-
Lúcia Paiacu Tabajara, Luiz Katu de camarão como disse Câmara rio das Letras Indígenas, antologia
e tantos outros que resgatam e ele- Cascudo, sou uma mulher indíge- que organizou e com o qual venceu.
vam a nossa ancestralidade, ou na.” A declaração repleta de perso- No mesmo ano, recebeu o Prêmio
seja, as nossas gerações anterio- nalidade é da escritora Eva Poti- Literatura de Mulheres Carolina
res, mundo afora. guara proferida em 2023, ao ser Maria de Jesus 2023, na categoria
Conheça a trajetória de Eva Po- semifinalista da 65ª edição do Prê- Romance, com a obra “Os Herdei-
tiguara e o que a indígena conquis- mio Jabuti, o mais importante prê- ros de Jurema”.

sábado, 26 de abril DE 2025


6 Domingo Jornal de Fato

Evanir de Oliveira Pinheiro, ou Luninescence da devoção das Artes bras da própria flora, da natureza
Eva Potiguara, como prefere ser e Letras da França – sucursal Brasil. em que se inserem; também utili-
chamada, é uma mulher indígena É membro imortal da cadeira 13 da zando suas cerâmicas, pinturas
pertencente ao Povo Potiguara Sa- Academia de Letras do Brasil – ALB, milenares, como nós temos até ho-
gi Jacu, em Baía Formosa/RN, mas seccional Campos de Goitacazes/ je vários povos que se identificam
nascida em Natal, capital do Rio RJ; membro do Núcleo Acadêmico pelo tipo de cerâmica e de artefatos
Grande do Norte, no dia 8 de feve- de Letras e Artes de Portugal – Na- que produzem, e nós temos tam-
reiro de 1966. A ancestralidade lap; membro da Sociedade dos Po- bém uma diversidade de ferramen-
materna de Eva vem do Brejo Pa- etas Vivos e Afins do RN – SPVA e tas indígenas tanto de guerra como
raibano, da aldeia Potiguara; do da Associação Literária e Artística também para cultivo, plantio, ali-
lado paterno, suas origens estão em de Mulheres Potiguares – Alamp. mentação, produção de alimentos
Goianinha, no agreste do Rio Gran- Também é membro da Associação e também para engenharias total-
de do Norte, e também em Rio Tin- Internacional de Literatura e Arte mente ecológicas, sustentáveis que
to, Paraíba, fronteira com Baía – Literarte e do Mulherio das Letras são utilizadas no que a gente po-
Formosa, todas estas regiões tradi- Nísia Floresta. deria chamar hoje de ecoflorestas,
cionalmente habitadas pelos poti- ecoagriculturas.
guaras. DOMINGO conversou com Eva
O protagonismo de Eva advém Potiguara que, gentilmente conce- Como são produzidas as eco-
do ativismo, liderança indígena e deu a entrevista a seguir: agriculturas?
pela participação em debates sobre São agriculturas que não ferem
os direitos dos povos indígenas. Os Como a senhora vê o papel a mãe terra, não poluem, não en-
espaços ocupados por ela são bem da cultura e das tradições indí- venenam com agrotóxicos, não
distantes do que a maioria do povos genas na sociedade contempo- invadem os espaços dos outros ani-
originários – e por que não dizer rânea? mais, das outras camadas da natu-
de nós mulheres – consegue ocu- Não há uma cultura indígena, reza. Por exemplo, que não invade
par, diria que quase uma exceção há culturas indígenas. Nós somos os mangues, não destrói lagoa, rio,
por tamanho destaque. Graduou- 305 povos, pela última estatística floresta para poder fazer pasto. Nós
se em Artes visuais, Mestre e Dou- do IBGE, e falamos 274 idiomas temos estruturas agrícolas milena-
tora em Educação pela UFRN, pro- indígenas. As culturas indígenas res que mostram que todo tudo que
fessora e pesquisadora do IFESP- são necessárias para que as pesso- os povos originários produzem tem
SEEC, atuando nos cursos de Pe- as possam compreender que essa uma sintonia íntima e matriarcal
dagogia e Letras. É produtora terra pindorama chamada Brasil é com a terra-mãe, porque nós de-
cultural audiovisual da EP Produ- terra de vários povos, de vários sa- pendemos dela pra tudo; nós so-
ções, pesquisadora de literatura beres, de várias cosmovisões e de mos terra, nós somos filhos dela,
indígena, escritora, ilustradora e existências espirituais, artísticas, por isso somos terra da Bia Ayala.
contadora de histórias especial- culturais. Aqui nós temos diversi- As pessoas, sejam professores, es-
mente das cosmovisões Potiguara. dades artísticas no grafismo dos tudantes de todas as áreas e as fa-
Muita coisa, né? E tem mais: povos originários, cada povo tem mílias também poderiam aprender
É fundadora e articuladora na- seu grafismo, suas simbologias, os nossos cânticos, os nossos contos
cional do Mulherio das Letras In- suas formas de praticar suas espi- que não são folclóricos, que não
dígenas, membro da UBE/RN, da ritualidades, suas religiosidades, são lendas; as nossas histórias que
SPVA e de várias academias de Le- suas formas culturais de organiza- são histórias de coletividades, de
tras no Brasil e em Portugal. Tem ções coletivas que devem ser res- memórias – de dores, de lutas, de
10 livros solos publicados no Brasil peitadas. Cada povo também tem guerras, de vitórias, de sonhos –
e em Portugal e coautoria em di- suas formas de plantar e cuidar da essas histórias estão implicadas nas
versas coletâneas nacionais e inter- sua terra; tem suas formas de pra- nossas literaturas da contempora-
nacionais. ticar seus artesanatos de acordo neidade pelas nossas escritoras e
É titular de várias academias de com o contexto em que vive, seja escritores indígenas de várias et-
Letras e Artes, entre elas Académie usando penásteo, seja usando fi- nias. Eu acredito que a contempo-

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 7
Damião Paz

raneidade poderia aprender a amar tituição de 1988, e sofríamos ame- capitalista colonial, mais amplia-
mais essa terra pindorama chama- aças de sermos atacadas durante a ção do império dos coronéis do
da Brasil. Amar mais o planeta, a nossa marcha, a nossa manifesta- gado, da cana-de-açúcar, da soja,
nossa pátria mama, e pudesse dia- ção totalmente democrática, pací- dos coronéis da contemporaneida-
logar melhor com a diversidade dos fica, legítima. Também estava co- de que hoje andam em caminho-
saberes da epistemiologia dos po- nosco a caravana Do Rio Grande netes luxuosas e estão com repre-
vos originários. do Norte com o nosso parente Luiz sentantes fortes no Planalto, no
Katu, a Cacica Eva Jacu, a Cacica Senado, na Câmara Federal, eleitos
Pode compartilhar uma ex- Francisca Tapará e vários outros por esses coronéis para na hora de
periência marcante que tenha parentes, e, nós estávamos ali, lu- votar ser contra a demarcação das
vivido em sua trajetória de ati- tando pelo bem viver não só de nós terras indígenas e a favor do Marco
vismo? indígenas, mas de toda a população Temporal, votando contra a pró-
Uma das experiências marcan- humana para que nós possamos pria Constituição que coloca que
tes foi a minha participação na lutar juntos. Então, isso foi mar- nós temos o direito à terra e que a
Marcha das Mulheres Indígenas cante na minha vida. terra deve ser administrada por nós
em 2021 e poder estar com várias indígenas, mas eles querem ter o
mulheres de vários povos originá- Quais são suas expectativas direito de invadir as nossas terras
rios do Brasil lutando contra o Mar- para o futuro dos povos indíge- pra colocar mais soja, mais pasto,
co Temporal e, muitas vezes ali, nas no Brasil? ou seja, desmatar mais árvores cen-
arriscando nossas próprias vidas, Eu queria que fossem melhores, tenárias para produzir mais produ-
em plena pandemia, usando más- porque eu vejo que a bancada ru- tos em grande escala, mas que não
cara e naquele calor. Saímos do ralista – da Bíblia, do boi e da bala, é para alimentação da população
acampamento onde estávamos ali como assim dizem também – que brasileira, é para exportação. A
no centro de Brasília em direção ao está no Planalto é a favor do Marco gente sabe que grande parte da so-
Planalto e andamos gritando em Temporal, que é a invasão das ter- ja do Brasil vai para China e grande
prol dos nossos direitos: direito à ras indígenas, e isso significa mais parte também do gado, do agrone-
terra, à vida, à demarcação, à Cons- desmatamento, mais exploração gócio vai pra Europa. A gente tem

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8 Domingo Jornal de Fato

que tem que desmascarar essa hi- ções, marchas, vamos para as redes
pocrisia. Eles só querem ficar cada sociais, e pedimos que também a
vez mais ricos, e não estão preocu- sociedade se alie a nós em prol da
pados com o aquecimento global, vida, da terra, porque quando a
não estão preocupados com as mi- sociedade se junta em favor dos
norias que estão passando fome povos indígenas estão também em
porque não tem nem terra para favor da mãe terra, estão a favor
plantar. Eles são contra também o de não derrubar mais nenhuma
Movimento Sem Terra porque o árvore, a favor dos pássaros, dos
MST que começou no início dos mamíferos que vivem nas matas, a
anos 70 também envolve os povos favor das nossas nascentes de águas
indígenas, porque lutava em favor que precisam ser preservadas, por-
da terra produtiva, terra que foi que ninguém pode viver sem água
desmatada, invadida e que depois e nós podemos amanhã não ter
foi esquecida e abandonada por mais água potável. Então quando
muitos coronéis quatrocentrões, vocês lutam em favor dos direitos
famílias quatrocentronas que mui- dos povos indígenas, vocês lutam
tas delas se tornaram prefeitos, a favor também dos seus direitos.
governadores e até presidente des- Essa é a nossa luta, mas é uma luta
se país, mantendo essa estrutura de todos nós.
colonial capitalista que já passa de
mais de cinco séculos. Nós quere- A senhora vem se destacando
mos uma perspectiva de vida e pa- como escritora, dentre tantas
ra isso temos que nos confrontar atividades que tão bem desem-
com a bancada ruralista e o que eu penha. Quantas obras já foram
queria é que isto tudo fosse real- lançadas?
mente uma realidade que nós so- Eu tenho dez livros solos (Os
ciedade toda, indígenas, não indí- Herdeiros de Jurema; O Guardião
genas e quilombolas, negros, ciga- das Goiabas; Abyayala Membyra
nos todas as pessoas de todas as Nenhe’garas: “Cânticos de uma fi-
etnias se juntassem contra a ban- lha da Terra.”, Gatos Diversos, são
cada ruralista, contra essas forças alguns) e um livro acadêmico, “A
do Senado e do Legislativo que que- Ludoipoiese na Educação Infantil”,
rem causar um grande genocídio à voltado especialmente para educa- traz uma saga da luta das mulheres
nossa natureza, em favor do enri- ção infantil, para crianças de 0 a 10 da Paraíba e do Rio Grande do Nor-
quecimento dos seus próprios bol- anos. Ele traz uma proposta de uma te no enfrentamento do latifúndio
sos, porque são eles que enrique- educação ecossistêmica, que dia- dos coronéis da cana-de-açúcar na
cem e o país cada vez fica pobre e loga com a terra, com a vida, com invasão das terras dos povos poti-
miserável. A minha perspectiva é a natureza e com o outro, fruto da guaras e é uma história que ainda
a de lutar, de continuar lutando e minha tese defendida em 2021, se desdobra nessa contemporanei-
de convidar a todo e toda cidadã a mas gostaria muito que esse livro dade porque a luta segue, nunca
lutar conosco. chegasse a ser discutido, debatido parou. Essa obra também foi lan-
com os professores nas escolas. Ou- çada em Portugal no ano passado,
Como as pessoas que não fa- tra obra que me chama atenção é na Feira do Livro de Lisboa e, lá,
zem parte das comunidades in- o meu primeiro romance, “Os Her- nós tivemos a oportunidade de
dígenas podem ajudar na luta deiros de Jurema”, e que recebeu também conversar com vários pes-
por seus direitos e reconheci- o Prêmio de Literatura de Mulheres soas portuguesas que tinham inte-
mento? do Ministério da Cultura e Carolina resse de conhecer mais sobre as
Nós fazemos nossas manifesta- Maria de Jesus em 2023. Esse livro culturas dos povos originários e

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 9

Damião Paz

eles ficaram assim um tanto curio- zona agreste do Rio Grande do Nor- tir as dores e transformá-las em
sos e até emocionados quando a te. E “A Dimensão Social do Dese- palavras e luta, e por eu não estar
gente falou de que as nossas lutas nho”, pela INM Educação. só, porque ao meu lado eu tenho
elas se mantêm desde o século 16. mais de trezentas mulheres do Mu-
Foi importante esse encontro com Qual a sensação de vencer o lheril das Letras Indígenas nessa
eles lá. Prêmio Jabuti 2023 na catego- batalha; eu tenho ao meu lado ins-
ria Fomento à Leitura? tituições públicas e privadas, esco-
Alguma obra no prelo? Vencemos o prêmio com o Ál- lares e não escolares que lutam em
Têm alguns livros infantis para bum Guerreiras da Ancestralidade favor desse movimento, que fazem
serem lançados em breve. Um deles do Mulherio das Letras Indígenas. parte das nossas lutas e isso quer
é o “Biguru”, pela Companhia das Esse prêmio foi com muita lágrima, dizer que nós estamos caminhando
Letrinhas, que conta um pouco da com muita dor e também com mui- rumo a uma ressignificação contra
minha história aos cinco anos de ta alegria e muita gratidão. Eu sin- o colonial, porque a gente precisa
idade com a minha querida avó to que foi dado pelos nossos ances- confrontar, resistir e superar todas
paterna numa experiência que eu trais. Eu louvo aos meus ancestrais essas estruturas patriarcais, colo-
vivi com ela em São José de Mipibu, em gratidão por essa dádiva de sen- niais, capitalistas, racistas e misó-

sábado, 26 de abril DE 2025


10 Domingo Jornal de Fato

Daiany Dantas

Escritora Eva Potiguara e a mestranda Júlia Batista no programa “Entre no Clima” da TCM

ginas que tentam nos apagar, silen- line ou presencial, assistam víde- terra. Que possamos cuidar de
ciar-nos e nos deter. Mas nada nem os, filmes e ouçam músicas de quem cuida de nós antes mesmo
ninguém detém aquelas e aqueles povos indígenas, de artistas indí- que nascêssemos, a terra mãe; e
que caminham sobre as raízes dos genas. Dialoguem com esses olha- que possamos aprender uma edu-
seus ancestrais guiados pelas me- res diferenciados, façam esses cação contra colonial que nos vê
mórias, dores do solo encharcado entrelaçamentos sagrados conos- como sistemas vivos num ambien-
do sangue dos nossos ancestrais. co e se reconstruam em novas leis te ecossistêmico em que os pássa-
Nós somos alimentados pela dor, matriarcais, busquem uma educa- ros, os mamíferos, os peixes não
mas também pela força que nos une ção contra colonial, que não é uma são inferiores a nós, são nossos
e pelo o amor que temos em comum educação para preparar a criança irmãos e que nós fazemos parte de
pela mãe terra. para ser operária, nem preparar a uma grande cadeia viva, a teia vi-
criança para ser um ditador, um va ecossistêmica da vida. E que
Que mensagem a senhora domador de outras pessoas. É não nenhum de nós somos melhores
gostaria de deixar para as novas preparar o jovem para ser apenas que o outro, mas que todos nós
gerações indígenas e para a so- mais um na multidão proletária. somos filhos da mesma mãe. As
ciedade em geral? Não preparar o jovem apenas para árvores são nossas irmãs mais ve-
Gostaria de dizer que nós, ho- ser um CEO, um presidente de lhas, o sol e a lua são os nossos
mens e mulheres indígenas, só uma grande empresa. Precisamos avós, rios são os nossos avós. Os
pedimos aos jovens e às crianças: preparar nossas mentes, corpos, mares são também nossos grandes
leiam mulheres indígenas, leiam territórios para sermos sistemas bisavós; nós somos uma família.
homens indígenas, leiam a litera- vivos que cuidam da mãe terra, Lutemos um pelo outro, porque
tura indígena. Tragam indígenas que cuidam da flora, da fauna, que assim estaremos lutando em favor
para conversar com vocês, seja on- cuidam da sua primeira casa, a de nós mesmos. Muito obrigada!

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 11

Artista

Luís Elson: o traço


que reconstrói nacos
da nossa história

sábado, 26 de abril DE 2025


12 Domingo Jornal de Fato

Por Márcio de Lima Dantas


Especial

L
uís Elson (Angicos, 1963)
iniciou sua carreira como
artista visual desenhan-
do quadrinhos, depois
passou a desenvolver diferentes
técnicas. Logo, aos 16 anos, ini-
ciou a dar aulas de desenhos. Es-
tudou desenho com Aucides Sa-
les e Emanuel Amaral, pintura
com Jomar Jackson e aquarela
com o grande mestre Vicente Vi-
toriano.
Podemos iniciar a análise e
interpretação fracionando o ma-
terial em dois grupos. Há um ar-
ranjo no qual predominam pai-
sagens ou elementos do rural e
da sua vida bucólica, e também
o seu antípoda, que seria a revis-
ta MATURI e suas inúmeras his-
tórias de cangaceiros no inóspito
da Caatinga. O segundo grupo diz
respeito aos passeios públicos, ao
cinema, às casas com uma rural
estacionada.
Continuando, a revista MATU-
RI foi criada por Aucides Sales e
Enoch Domingos. A cada número
havia artistas convidados, diver- “Saudades e lembranças de um mas se faz necessário caminhar
sificando o traço, o roteiro, os sertão do nunca mais” (roteiro e pelas rodagens da vida.
temas, trazendo uma dinâmica arte do autor). São quadrinhos Outro trabalho muito curioso
que fez nossa revista ser conhe- extremamente bem elaborados, de Luís Elson é a reconstituição,
cida em muitas partes do país. As tanto na expressão dos animais do por meio de quadrinhos, da tela
capas detinham um primor na sua terreiro, da vaca sendo retirado o “O julgamento de Frei Migueli-
elaboração, no colorido, e, sobre- leite, do galo-de-campina que pi- nho, de Antônio Parreiras”. Mui-
tudo na captação da transparên- pila anunciando a chegada de tos pensam que a tela centrada no
cia de um sol inerente ao nordes- mais uma jornada com seus tra- frade foi pintada aqui no Brasil.
te, bem como uma diversidade no balhos, suas responsabilidades, e Faz parte do acervo da Pinacoteca
desenho, mudando sempre de o que nunca falta: o que fazer. De do Estado (Natal, RN). Na verda-
artistas, por exemplo, “Labareda: toda maneira, essa vida bucólica de, foi elaborada por Antônio Par-
um cangaceiro de Lampião”, de nos faz conjugar certos verbos reiras, em Paris, a partir de uma
Luís Nelson. passados, mesmo sabendo o quão complexa reconstituição, na qual
Com relação ao que foi elabo- irreversível é. Já foi, pisamos no havia não sujeitos históricos, mas
rado por Luís Elson, encontramos futuro que não nos anunciaram, atores vestidos consoante a moda

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 13

na qual Frei Miguelinho foi julga-


do. É um dos mais belos quadros
de Parreiras, em suas cores dra-
máticas, sombrias, de que algo vai
acontecer, e não é necessário
pompa e circunstância.
Posso falar do que julgo como
as obras-primas de Luís Elson. São
telas retratando cenas da cidade,
com seus passeios públicos, os ci-
nemas e as gentes no aguardo. O
que sobressai são as luzes notur-
nas vindas dos postes, com seu
amarelo que faz resplender o que
de amarelo for: automóveis, pa-
redes, vestimentas. Há um bulício
de uma tranquilidade, uma segu-
rança e confiança, pessoas lendo
os jornais diários.
Com efeito, o cuidado com o
trato da pintura, seu desenho e
suas cores, nos fazem buscar os
detalhes, sobretudo o reflexo da
água nos calçamentos, de uma
grande verossimilhança. Como
disse, um tempo que se foi e que
só existe na obra de arte, mas, de
toda maneira, a obra de arte vem
nos mostrar uma era na qual os
homens habitavam as cidades e se
divertiam na diversidade de cine-
mas, bares e restaurantes, impon-
do uma forma que emanava do
íntimo e que também busca, do
lado de fora, formas de ser, viver
e estar.
Há muito, tudo isso escorreu
para as lagoas do passado, levadas
pelas chuvas. Assim, pouco a pou-
co, o tempo vai exaurindo, desfa-
zendo um Espírito do Tempo, al-
ternando ou impondo novas for-
mas de habitar o fora e o dentro,
sabendo todos da impossibilidade
de retorno, pois o tempo não para,
não freia, segue em grandes pas-
sos, indo mostrar aos pósteros
como são agora as coisas, os nú-
meros, o alfabeto.

sábado, 26 de abril DE 2025


14 Domingo Jornal de Fato

Artigo de Opinião sência de doença ou enfermidade.

Um grão de
Como a Paz não é a ausência de con-
flitos. Pode-se afirmar que a felicidade,
tal almejada, não é a falta do ter, mas

felicidade
é um estado íntimo, defluente do bem-
estar que a vida digna, e sem sobressal-
tos proporciona.
Mesmo na ausência do dinheiro,
posição social de relevo e saúde, pode
pode ser a soma dessas pequenas dádi- haver felicidade, vivendo com resigna-
Artur Leite vas, pintará a Felicidade com a tinta de ção e confiança em Deus.
Expositor Espírita uma nova aquarela. Ser feliz não está no fim de uma
[email protected] O homem está cada vez mais ob- longa jornada, mas sim em cada passo
cecado por possuir o melhor. Tem conquistado no caminho percorrido
que ser o melhor computador, o me- para encontrá-la. Ela não deve ser o
“Bom Mestre, que hei de lhor carro, o melhor emprego, a me- objetivo final, mas sim o resultado da
fazer para herdar a vida eterna?” lhor dieta, a melhor operadora de caminhada.
(Lucas; 18,18) celular, o melhor tênis, o melhor vi- Assim é a felicidade em doses ho-
nho. Tal atitude tem se transformado meopáticas. Na aquisição de pequenos
Perde-se na esteira do tempo o so- em verdadeira tormenta. grãos para edificar uma Felicidade ro-
nho do Ser com a felicidade no super- O ideal é ter o top de linha, aquele busta com F maiúsculo.
lativo; a busca, desenfreada e ilusória, que deixa os outros para trás e que o Cuidando para não passar a vida
pode se tornar em pesadelo. distingue, o faz sentir importante, por- esperando por momentos espetacula-
Mas ao contrário do que os contos que, afinal, está com “o melhor.” E, vem res, por amores inimagináveis ou por
de fadas e os filmes infantis nos ensi- o outro “melhor”, é uma questão de grandes acontecimentos. Sem a ilusão
naram, esse estado de pleno contenta- dias ou de horas até isso acontecer. No- de que será feliz quando tiver filhos,
mento não é mágico nem duradouro. vas marcas surgem a todo instante. quando tiver uma condição financeira
Mais das vezes, há uma preocupa- Novas possibilidades, também. E o que melhor, quando tiver uma casa... tudo
ção, ou desejo, no Ser humano em con- era melhor, de repente, é superado, isso faz parte da felicidade humana.
seguir esse ou aquele objetivo, acredi- modesto, aquém do que pode ter. Acon- São conquistas imensuráveis.
tando estar depositada, ali, uma imen- tece, quando o desejo pelo melhor in- É natural desejar uma vida de plena
surável alegria, mas amanhã passa a vade o imaginário, passa o homem a alegria. Buscar alcançar as aspirações
euforia e ver que a alegria não tinha viver inquieto, numa espécie de insa- faz parte da realidade humana, porém,
sustância, era efêmera, volta, então, a tisfação permanente, num eterno de- o Ser consciente não condiciona sua
buscar nova ilusão. sassossego. felicidade à realização de todos os de-
Há um adágio que reza: de grão em Quem não agradece o pouco que sejos pessoais. Também não condicio-
grão a galinha enche o papo; tem alegria possui, jamais alcançará o que deseja. na seu estado de alegrias ou felicidade
maior, para uma ave, que seu papo Não desfruta do que tem ou conquis- nas coisas, nos lugares, nem nas pesso-
cheio? Ela só consegue tal proeza de tou, porque está de olho no que falta as, a fim de que não se decepcione.
pouco a pouco. Assim, pois, que o ho- conquistar ou ter. Cada comercial na TV Lembra que a paz íntima é uma das
mem poderia proceder, alegrar-se com o convence de que merece, mesmo ser mais importantes dádivas para uma
as pequenas coisas e conquistas do dia poder, ter mais do que já possui. vida feliz.
a dia. Pequenos acontecimentos ou sim- Cada artigo que ler mexe com seu Um pensamento:
ples atitudes podem fazer a diferença. orgulho, e faz imaginar que os outros “Há dias que da Vida desejamos
Contemplar o alvorecer ouvindo a me- estão vivendo melhor, comprando me- muito, que pode ser pouco. Mas esse
lodia dos pássaros; curtir o pôr do sol ao lhor, amando melhor, ganhando me- pouco, naquele momento, é tudo. E,
lado de alguém de sua estima; por meio lhor. Portanto, não relaxa, porque tem queremos tudo como se nada quisésse-
das páginas de um livro edificante, fazer que voltar a correr atrás do melhor. mos. Basta-nos um sorriso, um olhar,
uma longa e satisfatória viagem; desfru- Não que ele deva se acomodar ou se e no silêncio do abraço amigo se faz
tar da companhia de um grande amigo. contentar sempre com menos. Mas o me- ouvir, na voz do coração, a mais bela
Caminhar em meio à natureza, ouvir nos, às vezes, é mais do que suficiente. canção da Vida.
uma música ou, simplesmente, desco- A Organização Mundial da Saúde Para nossa reflexão:
brir como provocar um sorriso na face (OMS) define saúde como um estado “Sofremos demais pelo pouco que
de alguém. Portanto, quando o homem de completo bem-estar físico, mental, nos falta e alegramo-nos pouco pelo
entender que a felicidade tão almejada social e espiritual, e não apenas a au- muito que temos.”

sábado, 26 de abril DE 2025


Jornal de Fato Domingo 15

Ravioli com molho


branco de calabresa

Ingredientes (6 porções) Modo de preparo


500 g de ravioli Modo de preparo: 40 min
Cozinhe o ravioli em água até ficar al dente.
300 g de linguiça calabresa defumada picadinha em cubos
Reserve.
150 g de azeitona verde picada
Em uma panela grande, adicione o óleo, a calabresa e a ce-
1 cebola grande picada bola, refogando bem.
3 colheres de sopa de óleo Adicione o amido de milho e mexa bem.
200 g de requeijão culinário Adicione o leite, sempre mexendo, até levantar fervura.
Coloque a noz moscada, a azeitona picada e por último o
1 l de leite
requeijão, mexa até engrossar.
3 colheres de sopa de amido de milho
Por último, adicione o ravioli reservado e polvilhe com o
1 pitada de noz-moscada queijo na hora de servir.
Queijo ralado a gosto Bom apetite!

Fonte: Tudo Gostoso

sábado, 26 de abril DE 2025


Estado registra aumento em
produtos da extração vegetal
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