Geol Neotectonica
Geol Neotectonica
NEOTECTÔNICA
Por
Allaoua Saadi
Manifestações de notável sismicidade foram cos da formação Barreiras (os sedimentos aqui
registradas no estado da Bahia, no início do século, referidos como formação Barreiras pertencem, na
por Sampaio (1916, 1919, 1920), tendo sido inter- realidade, a uma unidade litoestratigráfica em ní-
pretadas por Branner (1920) como resultado de mo- vel de grupo, quando analisados no litoral do
vimentação de falhas. Por outro lado, o reconheci- Nordeste setentrional. O nível de formação é aqui
mento do papel da tectônica na evolução geológica utilizado apenas para não gerar confusões e por-
cenozóica do litoral nordestino encontrou, desde a que não há espaço para discutir o assunto a con-
década de 50, forte argumento nos espraiamentos, tento). Ao descreverem a morfologia onde predo-
em direção ao litoral, dos sedimentos do grupo Bar- minam topos aplanados, isolados por uma densa
reiras. Estes foram, desde então, interpretados como rede de drenagem, que dissecou fortemente a su-
depósitos correlativos de pulsos de soerguimentos perfície de aplainamento por agradação pliocêni-
continentais (Dresch, 1957; Demangeot, 1960; Ma- ca, ressaltaram três tipos de feições hidrogeomor-
besoone et al., 1972; Castro, 1979), cuja posterior fológicas, cuja associação evidencia a atividade
emersão, acompanhando o levantamento do litoral, neotectônica como um dos fatores que controlam
permitiu a formação das falésias que caracterizam a o processo de dissecação fluvial.
morfologia de vários trechos da linha de costa O primeiro tipo é representado pelo secciona-
(Freitas, 1951; Ghignone, 1979). mento da unidade pelos rios de maior porte (Doce,
Ao enfocar mais especificamente o litoral baia- Mucuri, São Mateus), com padrão de drenagem pa-
no, deve-se relembrar os trabalhos que forneceram ralelo a subparalelo. Em segundo lugar, citam a
argumentos sobre feições ou efeitos localizados e/ou ocorrência de basculamentos de blocos, como “nas
específicos da atividade neotectônica. Dentre outros, proximidades da cidade de Porto Seguro, onde rios,
sobressaem os de King (1956), Tricart (1957), cujas nascentes se localizam próximo ao vale do rio
Howard (1962) e Tricart & Silva (1968) sobre a cau- Buranhém, não pertencem a sua bacia, vindo a ser
sa tectônica do afogamento plio-pleistocênico da afluentes do rio João de Tiba, localizado a norte”
baía de Todos os Santos; Hartt (1870) e Ghignone (p. 183). A ilustração utilizada é a reprodução de um
(1979) sobre o levantamento pleistocênico-holocê extrato da imagem de radar em escala 1:250.000
nico do litoral; Grabert (1960) sobre deslocamentos (Folha SE.24-V-B), onde interpretam o vale do rio
de terraços fluviais, durante a passagem do Plioceno Buranhém como “vale alargado e alinhado indi-
para o Pleistoceno, e, finalmente, Suguio & Martin cando adaptação a falha, com basculamento de blo-
(1976) e Martin et al. (1986) sobre a deformação de co para NE, demonstrado pelo escarpamento de sua
níveis marinhos holocênicos, no litoral próximo a margem esquerda onde a drenagem é dirigida na-
Salvador. quela direção integrando outra bacia” (Foto 5.1). O
No tocante à região enfocada neste trabalho, ou terceiro tipo de feição é a própria geometria dos va-
seja, a parte setentrional do litoral sul do estado da les dos rios que, a exemplo do Buranhém e Jucuru-
Bahia, englobando as áreas dos municípios de Porto çu, cortam os tabuleiros dentro de “vales largos e
Seguro e Santa Cruz Cabrália, situadas entre a foz profundos, com talvegues chatos preenchidos por
do rio Jequitinhonha, ao norte, e a Ponta de Corum- aluviões, onde os cursos divagam formando mean-
baú, ao sul, a única referência notável anterior é a dros” (Fotos 5.1, 5.2 e 5.3). Acrescentam a isso o
dos trabalhos do Projeto Radambrasil (Mendes et al., caráter de assimetria apresentado pelo vale do rio
1987). Buranhém, como confirmação do controle neotectô-
Neste trabalho, os autores inseriram a região nico.
na unidade geomorfológica dos Tabuleiros Costei- Desse modo, Mendes et al. (1987) estavam con-
ros, cujos contornos correspondem, espacialmente, firmando as hipóteses feitas por Silva & Tricart
aos limites dos sedimentos continentais pliocêni- (1980), os quais já tinham se referido à atuação de
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tectônica plioquaternária, usando como argumentos Essa breve retrospectiva bibliográfica demonstra
as anomalias de drenagem que ocorrem sobre a co- o quanto a atuação da neotectônica na faixa litorânea
bertura sedimentar pliocênica, bem como as caracte- do estado da Bahia constitui um consenso no meio
rísticas geométricas dos vales, em especial as dos acadêmico. Fica claro também que as pesquisas fo-
baixos cursos (retilinearidade e assimetria marcada ram concentradas na região da Baía de Todos os
por diferenças morfológicas entre margens). Quanto Santos, ou seja, nos arredores da cidade de Salvador.
aos basculamentos, também citados, Tricart (1957) No que diz respeito à área em apreço, não exis-
já tinha relatado sua existência nos arredores de Sal- tem estudos com enfoque específico e em escala de
vador, onde afirmava que “pequenas falhas em de- detalhe adequada. Houve, no entanto, um conjunto
graus, variando de 2 a 5m”, afetando a “série Bar- de observações sobre feições hidrogeomorfológicas,
reiras” deviam ser “posteriores aos movimentos tec que resultaram em interpretações prudentes, mas à
tônicos mais importantes”, sugerindo a ocorrência primeira vista acertadas. Estas constituíram a base
de vários eventos sucessivos, associados ao desen- inicial de reflexão que se utilizou para desenvolver
volvimento da “flexura continental” desde o Cretá- este estudo sobre a neotectônica da região, usando
ceo até os dias atuais. um método próprio, que será descrito a seguir.
Para o desenvolvimento deste trabalho, adotou- sentido da largura expressa a influência de uma
se o método composto pela seqüência das seguintes zona de falhas e/ou fraturas;
atividades: ◊ a repetitividade de deflexões nos cursos fluviais
1 – Revisão, através da consulta da literatura afetados, aliada a uma constância no sentido
geológica e geomorfológica, dos conhecimentos já destas, deve expressar, em primeira análise, o
adquiridos sobre a natureza e idade das unidades sentido do movimento predominante nas trans-
litoestratigráficas, o arcabouço estrutural herdado corrências;
dos eventos tectônicos pré-cenozóicos, bem como ◊ as variações bruscas na orientação dos fluxos
sobre a configuração geomorfológica e estrutural da hidrológicos de um grupo de microbacias para
área da Plataforma Continental. Procurou-se, por outro devem indicar os limites (em caráter preli-
essa via, fazer uma síntese das hipóteses já emitidas minar) de blocos tectônicos, bem como das dire-
por outros pesquisadores sobre a neotectônica da ções de basculamento destes;
região e avaliar a sua pertinência, separando, em A partir desses critérios de interpretação, foi
meio aos argumentos utilizados, os indícios daquilo elaborado um primeiro esboço preliminar da organi-
que representa verdadeiras evidências. zação neotectônica da região.
2 – Uma vez adquirida a certeza de que pratica- 4 – A segunda etapa de interpretação morfotec-
mente toda a região é coberta por sedimentos da tônica foi desenvolvida com base em imagens obti-
formação Barreiras, tidos consensualmente como de das pelo satélite Landsat 5, sob forma de composi-
idade pliocênica, pode-se considerar que qualquer ções coloridas, sobre suporte de papel, na escala
controle estrutural bem caracterizado sobre feições 1:100.000.
morfológicas e/ou hidrográficas deve expressar as O tratamento dado a esses documentos, aplicado
conseqüências de atividade tectônica posterior à a todo o litoral baiano situado ao sul da foz do rio
instalação da referida cobertura sedimentar, sendo Jequitinhonha, consistiu no desenho, sobre suporte
portanto legitimamente neotectônica. Com base nis- de poliéster transparente, de todos os vales, a partir
so, realizou-se uma interpretação de caráter morfo- do delineamento de seus rebordos superiores. Apro-
tectônico, em duas etapas. veitando a oportunidade, estendeu-se esse mapea-
3 – A primeira etapa consistiu em análise da mento aos traçados dos paleocanais fluviais e falé-
rede de drenagem da região, extraída das cartas to- sias, bem como aos limites e orientações dos siste-
pográficas, na escala 1:100.000, para confecção de mas de cordões litorâneos. Objetivou-se, com isso, a
um esboço neotectônico preliminar. Para isso, utili- nalisar a influência da provável movimentação neo-
zaram-se os seguintes critérios de interpretação: tectônica sobre o desenvolvimento pós-pliocênico do
◊ o alinhamento significativo de um mesmo curso relevo, que, no caso em apreço, resumiu-se, a mon-
d’água ou de trechos de vários determina o traça- tante da linha de costa, ao entalhe de vales sobre a
do de falha importante; superfície plana da cobertura sedimentar.
◊ a repetitividade de trechos fluviais retilíneos ao Postulou-se, evidentemente, que traçados retilí-
longo de uma faixa de terreno bem delimitada no neos das bordas escarpadas dos vales, conformando
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alinhamentos significativos e/ou feixes bem delimi- 6 – Por fim, no objetivo de tentar a construção
tados, representavam os efeitos de um controle tec- de um modelo regional e definir a origem dessa ati-
tônico da morfogênese impresso na cobertura sedi- vidade neotectônica, procedeu-se a uma tentativa de
mentar pliocênica. À medida que a interpretação integração da organização neotectônica assim defi-
avançava, percebeu-se que vários dos alinhamentos nida, nos quadros tectônicos admitidos para as áreas
maiores estendiam, pelo lado oriental, às feições hi- continental e da margem oceânica.
drogeomorfológicas instaladas sobre depósitos cos- 7 – Com base no modelo preliminar, realizou-se
teiros marinhos e/ou flúvio-marinhos, e pelo lado uma campanha de levantamento de campo expedito,
ocidental, àquelas impressas sobre rochas do emba- durante a qual foram encontradas e analisadas evi-
samento pré-cambriano. Estava, portanto, permitida, dências da atividade neotectônica na região. Tratou-
por um lado, a extensão da análise neotectônica ao se de falhamentos afetando sedimentos do grupo
período holocênico e, por outro lado, o estudo das Barreiras, situados em locais previsíveis, em função
relações existentes entre a tectônica cenozóica e as do modelo. Essas evidências são citadas no texto
estruturas herdadas dos eventos tectônicos mais ve- deste relatório. No entanto, infelizmente, o programa
lhos, ou seja o estudo dos problemas de reativação. elaborado com vistas ao desenvolvimento dos le-
5 – A partir desse momento, estavam agrupados vantamentos de campo mais completos não foi leva-
os dados que permitiriam uma análise de caráter do adiante por falta de recursos.
global, usando-se o artifício da superposição dos Em conseqüência disso, resultou deste trabalho
esboços neotectônicos oriundos das duas interpreta- o esboço neotectônico proposto (enquanto primeira
ções (com base na drenagem e na morfologia), o aproximação, carecendo de maior confirmação
conjunto tendo sido superposto a uma base contendo apoiada em levantamentos exaustivos de campo)
a rede de drenagem principal (rios coletores) e os para a região dos Tabuleiros Costeiros do sul da
limites das três unidades estratigráficas fundamen- Bahia, situada entre a foz do rio Jequitinhonha e a
tais para a análise (Pré-Cambriano, formação Barrei- Ponta de Corumbaú (Figura 5.1). Os perfis geológi-
ras e Quaternário). Deve-se atentar para o fato de cos que acompanham este relatório (Figuras 5.2 a
que o denominado Quaternário refere-se, na realida- 5.5) representam os sedimentos da formação Bar-
de, quase exclusivamente a depósitos de idade holo- reiras com base numa interpretação derivando da
cênica. Além disso, na área de afloramento de ro- associação entre a topografia extraída da Carta To-
chas pré-cambrianas foram representadas as princi- pográfica do Brasil (1:100.000), a geologia extraída
pais falhas constantes dos trabalhos do Projeto Ra- dos mapas do Projeto Radambrasil (1981) e a tec-
dambrasil, no intuito de definir as relações funcio- tônica resultando do presente trabalho. Trata-se,
nais entre estruturas pré-cambrianas e estruturas ce- portanto, da representação de uma interpretação
nozóicas, através das soluções de continuidade espa- sem auxílio de dados de sondagem, evidentemente
cial e de correspondência em termos de direções. sujeita a revisões.
O resultado obtido dessa análise demonstra a tender o mapa em direção ao sul, até à região de Ca-
existência de várias evidências da atividade neotec- ravelas – Nova Viçosa, para mostrar as variações
tônica na região, que imprimiu um controle muito espaciais de estruturação neotectônica, apesar de um
forte sobre a morfogênese que se processou desde o comportamento regional aparentemente uniforme.
Plioceno, pelo menos, até os dias atuais. Esse con- As feições neotectônicas/morfotectônicas foram
trole da morfogênese gerou várias feições morfo- classificadas em cinco famílias e/ou tipos bem dis-
tectônicas que permitem proceder a uma classifica- tintos, quais sejam:
ção preliminar das estruturas neotectônicas e descri- • falhas de direção NW-SE
ção de suas características específicas. • falhas de direção NE-SW
Para facilitar a comunicação dessas informações, • grabens dos baixos cursos fluviais
elaborou-se um croqui, na escala 1:1.000.000, que • zonas de falhas de direção E-W
sintetiza os resultados obtidos na escala 1:100.000 • blocos basculados
(Figura 5.1). Aproveitou-se a oportunidade para es-
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40º 39º
16º 16º
Salto da
Divisa Itagimirim
Mogiquiçaba
[Link]
Cabrália
Eunápolis
Porto Seguro
Itabela
Guaratinga Trancoso
B
Caraíva
17º 17º
Barra do Caí
Itamaraju
Cumuruxatiba
Prado
Alcobaça
Teixeira
de Freitas
Ponta da Baleia
Caravelas
Quaternário Indiviso
Plioceno (Formação Barreiras)
Pré-Cambriano
ESCALA: 1:1.000.000
Nova Viçosa 0 10 20 km
39º
18º 18º
40º
SAADI/1997
42
Rio João de Tiba
Vila Santo André Rio Santo
Rio Trancoso Rio de Barra Rio Itaipe
Rio Gamurugi Antonio
Rio dos Frades Rio Buranhém
Escala Horizontal
2 0 2 4km
WSW ENE
Escala Horizontal
2 0 2 4km
43
W E
Monte Pascoal
BR-500
BR-500
BR-500
Córrego das Palmeiras
Ponta de
Rio Corumbau Corumbau
Rio Corumbau
Escala Horizontal
2 0 2 4km
SE
Córrego Furado
Rio do Queimado
Córrego do Ouro
Rib. da Imbaçuaba
Estrada Prado/
Cumuruxatiba
Oceano
Escala Horizontal
2 0 2 4km
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5.3.1 Falhas de direção NW–SE
Essas falhas apresentam-se como as mais evi- uma outra prova de constância. É necessário ressal-
dentes do ponto de vista de seus efeitos morfotectô- tar que essa direção geral é a das falhas impressas no
nicos. São caracterizadas por lineamentos muito embasamento pré-cambriano que aflora a oeste, o
fortes, representados por vales perfeitamente retilí- que sugere que os seus trechos situados no domínio
neos e profundos, assemelhando-se a canyons. São dos sedimentos pliocênicos constituem a expressão
também notáveis a continuidade e a persistência dos da reativação das estruturas antigas, com uma certa
traços morfológicos que denunciam sua existência. rigidez na preservação das direções originais. Isso
Parecem representar as estruturas provavelmente representa um indício de movimentação forte, que
as mais importantes, pois: conseguiu impor à cobertura sedimentar as caracte-
a – seus efeitos sobre os rios principais são dos rísticas genuínas das estruturas subjacentes.
mais expressivos (controle de trechos retilíneos, im- Notar-se-á que, na área situada a sul da Ponta de
posição de mudanças bruscas e drásticas de rumos, Corumbaú, essa família de falhas apresenta uma di-
entre outras anomalias); reção variável no intervalo N20W a N30W, em con-
b – seus traços persistem com a mesma expres- formidade com as direções impressas no embasa-
são tanto sobre a cobertura sedimentar, quanto sobre mento pré-cambriano. Trata-se, portanto, realmente
as rochas do embasamento; de um resultado de reativação de estruturas antigas.
c – elas interrompem claramente a extensão oci- Por fim, a análise das anomalias impostas ao
dental dos grabens que abrigam os baixos cursos dos comportamento da rede de drenagem, especialmente
rios principais; com relação à geometria das deflexões, sugere um
d – elas apresentam, individualmente, os traça- sentido de movimentação geral dextrógiro, apesar de
dos “seguros” mais compridos. que o caráter de falha normal está bem afirmado na
Essas falhas possuem uma direção que varia no maior falha dessa família, conforme segue na descri-
intervalo estreito de N35W a N40W, o que constitui ção específica.
Essa falha deve estender-se por uma distância nearidade dentro da cobertura sedimentar plio-
de pelo menos 140km, pois inicia-se, a sudeste, no cênica (15km só no médio rio Caraíva), além de
local denominado Barra do Caí, situado entre Cu- continuidade também perfeita a NW, nas rochas
muruxatiba e a Ponta de Corumbaú, e pode ser do embasamento. No trecho em que esta feição
estendida, no mínimo, até os arredores da cidade se relaciona com o médio rio Caraíva, o vale ge-
de Salto da Divisa, a noroeste (Foto 5.4). Sua di- rado assemelha-se a um verdadeiro canyon, o
reção varia entre N35W e N40W, apresentando qual é segmentado por um deslocamento sinis-
ligeira sinuosidade, que parece inclusive exercer tral devido à passagem de uma zona de falhas de
notável influência sobre os deslocamentos, ao direção E-W. Nesse trecho, também, as defle-
longo de seu traçado. Apresenta indícios de mo- xões fluviais continuam indicando movimenta-
vimentação dextrógira, associada a deslocamentos ção dextrógira. Porém, o deslocamento vertical
de falha normal. parece ter mudado de sentido, sendo o bloco NE
A falha apresenta três segmentos com caracte- levantado. O principal argumento para essa in-
rísticas diferentes: terpretação é o bloqueio da sedimentação aluvial
◊ Segmento SE, com extensão compreendida entre holocênica ligada aos afluentes de margem di-
a Barra do Caí e o rio Caraíva e direção N35W reita do rio Caraíva. Esse bloqueio é denunciado
impressa sobre sedimentos pliocênicos e quater- pela concentração de manchas de aluviões no
nários. As fortes deflexões nos rios do Queima- bloco SW. Destaca-se nesse bloco SW uma zona
do e Corumbau parecem indicar uma movimen- de deformação densa, apresentando formas rom-
tação dextrógira, enquanto a localização das áre- boédricas compostas por estruturas N40W e E–
as de mangue do rio do Queimado, no bloco NE, W. Interpreta-se essa zona como uma área abati-
indica um rebaixamento deste por deslocamento da sob forma de meio-graben extremamente
normal. fragmentado. O modelo deve ser o de uma falha
◊ Segmento Central, com extensão compreendida em flor negativa com a falha principal situada do
entre o rio Caraíva, a SE, e o rio do Peixe ou Bu- lado NE e falhas antitéticas mergulhando para
ranhém, a NW, e direção N40W. É nesse trecho NE, sendo as principais com direções N10W e
que o traçado da falha é o mais evidente, pois N60W (Figura 5.1). Na extremidade setentrional
imprimiu vales profundos e com perfeita retili- dessa zona, observa-se que a falha interrompe
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brutalmente a extensão para oeste do graben que Barreiras, na região de Eunápolis, gerando con-
aloja o baixo curso do rio dos Frades. tornos retilíneos e contornos angulares. Apesar
◊ Segmento NW, com extensão compreendida en- da maior indefinição de seu traçado em direção a
tre o rio Buranhém, a SE, e de forma menos ní- Salto da Divisa, ele foi estendido em razão do
tida, nas proximidades da cidade de Salto da Di- conhecimento que se tem dessa região. De fato,
visa, em Minas Gerais, com direção N35W. O no local onde a falha deve atravessar o rio Je-
traçado é indicado por uma série de trechos reti- quitinhonha, este apresenta uma série de ca-
líneos de vales encaixados, tanto na cobertura choeiras, corredeiras e retomada de dissecação
sedimentar pliocênica quanto nas rochas do em- novíssima, que expressam claramente a resposta
basamento. Nessas rochas, a falha segue perfei- geomorfológica a um falhamento acompanhado
tamente o rumo das falhas do embasamento. Por do abatimento do bloco NE e basculamento,
outro lado, ela controlou a erosão da formação para SW, do bloco levantado (bloco SW).
Essa falha estende-se numa distância mais mo- fato já observado no caso da falha Salto da Divisa –
desta de, aproximadamente, 40km na direção N35W, Barra do Caí, com o rio dos Frades. Em segundo
entre a localidade de Vale Verde a SE, no vale do rio lugar, o fato de, em torno da área de cruzamento
Buranhém, e os arredores da serra de Peixoto, a leste com a zona de falha E-W do rio João de Tiba, de
da cidade de Itagimirim. Seu traçado é marcado por senvolver-se, ao longo da falha Serra do Peixoto –
uma sucessão de trechos retilíneos de vales encaixa- Vale Verde, uma zona de deformação mais larga,
dos, com notáveis deflexões fluviais dextrógiras. As composta por romboedros formados por estruturas
mais expressivas são as que afetam o rio das Pedri- de direções N35W e E–W. Esse fato parece compa-
nhas, afluente do rio João de Tiba, numa distância de rável ao observado no segmento central da falha
7km, e o rio Santa Cruz ou João de Tiba. Salto da Divisa – Barra do Caí.
Dois fatos são ainda dignos de nota para essa O perfeito paralelismo de seu traçado com as
estrutura. Em primeiro lugar, o fato de a falha inter- falhas do embasamento, em sua parte setentrional,
romper de forma nítida a extensão para oeste do sugere que se trata da reativação de uma estrutura
graben que aloja o baixo curso do rio Buranhém, antiga.
Com uma extensão, na área mapeada, de apro- O segundo segmento situa-se a NW, entre os rios
ximadamente 40km, essa falha é composta por dois Santo Antônio e Jequitinhonha, com direção N40W.
segmentos. Seu traçado é marcado por uma série de trechos de
O primeiro, situado a SE, possui direção N35W vales retilíneos encaixados seja na formação Barrei-
e controla uma importante deflexão do rio João de ras, seja nas rochas do embasamento. Por outro lado,
Tiba, com o respectivo vale encaixado na formação é também notável o controle exercido sobre os con-
Barreiras. O fato notável dessa falha é que, confor- tornos erosivos da formação Barreiras e do próprio
me as duas precedentes, ela interrompe nitidamente vale do rio Jequitinhonha, na sua passagem. Esse úl-
a extensão para oeste do graben que aloja o baixo timo controle demonstra que se trata de uma estrutura
curso do rio João de Tiba. antiga, reativada durante o Plio-Pleistoceno.
Observações de campo
Falhamentos com direção NW-SE foram obser- associadas apresentaram direções variando entre
vados no campo, em vários locais e situações. N10W e N30W, com mergulhos de 85°.
No primeiro local, na BR-367, a meio caminho O segundo local é representado por feixes de fratu-
entre Porto Seguro e Eunápolis, os afloramentos dos ras, ou falhas (ausência de indicador para determinação
sedimentos da formação Barreiras, nos cortes da ro- de deslocamentos) afetando argilitos arenosos coesos,
dovia, exibem falhas que deslocam linhas de casca- na Praia de Curuípe. As direções variam entre N50W e
lho e lentes de areias. A feição mais notável é a de N70W, com mergulhos verticais. Apesar da dificulda-
uma falha em flor positiva, com deslocamento verti- de em determinar deslocamentos ou sentidos de mo-
cal de 1m por falhas de direção N55W e N75W e vimento, algumas feições sigmoidais associadas a es-
mergulhos de 80°. Uma série de falhas e fraturas sas estruturas sugerem movimentação transcorrente.
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5.3.2 Falhas de direção NE–SW
Essa família de falhas é, também, muito repre- SW, até ser interrompida pelo graben do baixo rio
sentativa da organização estrutural da região, apesar Jucuruçu. Ao longo desse percurso, e de NE a SW,
de possuir traços morfológicos com expressão me- ela controla o limite ocidental da planície flúvio-
nos acentuada. Na realidade, trata-se, a maior parte marinha do conjunto “rio Caraíva/córrego da Água
das vezes, de feixes de falhas e/ou fraturas com dire- Branca/córrego Grapiúna”; gera um pequena defle-
ções variando no intervalo N40E a N60E e largura xão no rio Corumbaú e reorienta o médio curso do
muito variável. Freqüentemente, o feixe é caracteri- rio do Queimado, numa distância de 10km. Deve-se
zado por uma ou duas falhas principais, relativa- ressaltar que todo esse traçado está impresso nos
mente bem marcadas na morfologia, associadas a sedimentos pliocênicos e que ela é recortada pela
uma série de lineamentos curtos mas extremamente falha Salto da Divisa – Barra do Caí.
repetitivos.
A expressão morfológica é representada por tre- 2 – A Zona de Falhas N60E de Trancoso
chos de vales retilíneos e encaixados, associados a
deflexões fluviais. No entanto, diferentemente da Trata-se de uma zona de falhas e fraturas com
família de falhas de direção NW-SE, os traços mor- comprimento máximo de 10km, situada nos arredo-
fológicos são individualmente muito mais curtos, da res da vila de Trancoso, entre o rio do Trancoso e o
ordem de quilômetro. A segunda diferença signifi- rio dos Frades. Os traços hidromorfológicos sugerem
cativa reside na largura do traço morfológico, que é, uma largura de até 5km e movimentação sinistrógi-
também, muito mais fino. Por último, deve-se res- ra. Seu limite ocidental é melhor definido por um
saltar que a geometria das deflexões fluviais e dos lineamento que se inicia na área da desembocadura
traços morfológicos indica, de maneira constante, do rio do Trancoso. Essa zona é brutalmente inter-
uma movimentação sinistrógira. rompida ao sul, pelo graben do baixo rio dos Frades.
De um ponto de vista global, pode se resumir
que as falhas com direção NE-SW são importantes 3 – A Zona de Falhas N50–60E de Santa Cruz
no contexto estrutural regional, com comprimentos Cabrália
individuais de, aproximadamente, 20 a 50km. Apa-
rentam caráter transcorrente sinistral e idade da úl- Trata-se de uma zona de falhas e fraturas com
tima movimentação mais antiga que a das falhas comprimento total de aproximadamente 75km, que
NW-SE, pois são recortadas por estas. interliga a linha de costa de Santa Cruz Cabrália, a
Por outro lado, a espessura reduzida do traço, NE, ao médio vale do rio dos Frades, onde ela é in-
associada à ausência de feições morfotectônicas in- terrompida pela falha Salto da Divisa – Barra do
dicadoras de movimentação vertical, sugere que se Caí, a leste da cidade de Itabela. Ela é composta, em
trate de falhas de contexto transpressivo, ou seja primeira análise, de três segmentos bastante dife-
“transcorrentes-inversas”. rentes.
As falhas determinadas pela análise morfotectô- ! Segmento NE: comporta-se como uma zona
nica, impressas na cobertura sedimentar pliocênica, muito larga (entre 4 e 10km), formando um le-
possuem um leque de direções variando entre N40E que aberto em direção a NE e delimitado por
e N60E, sendo que várias mostram um prolonga- falhas-mestres de direção N50E (a oeste) e
mento sobre o substrato pré-cambriano, o que per- N65E (a leste). Essas duas falhas parecem con-
mite associá-las às falhas classicamente reconheci- trolar trechos retilíneos da linha de costa a norte
das para esse substrato cujas direções variam entre e sul de Santa Cruz Cabrália. A zona é marcada
N30E e N60E. Poder-se-á, conseqüentemente, con- por uma infinidade de trechos retilíneos de va-
cluir que essa família de falhas corresponde à reati- les, geralmente curtos mas constantes em dire-
vação de estruturas antigas, possivelmente até de ção aos quais se associam deflexões com sentido
idade pré-cambriana. sinistrógiro. Esse segmento é limitado, ao sul,
Apesar da dificuldade, nas condições do conhe- pelo graben do baixo rio Buranhém.
cimento atual, em isolar sistemas de falhas específi- ! Segmento Central: zona de falhas e fraturas
cos nessa família, propõe-se, temporariamente, a comparável ao segmento precedente, no entanto
seguinte classificação para a região em apreço: com limites menos nítidos. Possui direção N60E
e extensão limitada a NE, pelo graben do baixo
1 – A Zona de Falha N40E de Caraíva rio Buranhém, e a SW, pelo graben do baixo rio
dos Frades. A falha central dessa zona apresenta
Estende-se numa distância aproximada de 50km, os clássicos traços morfológicos bem nítidos, os
da linha de costa de Caraíva, a NE, em direção a quais indicam uma movimentação sinistrógira.
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! Segmento SW: supõe-se que o ramo de direção rochas do embasamento, da mesma forma como
N60E, que compõe o desdobramento do graben ocorreu no trecho paralelo do rio dos Frades. O
do baixo rio dos Frades, próximo à cidade de prolongamento do traçado dessa falha corta a BR-
Itabela, seja uma conseqüência dessa família de 101 na área onde foi observada a falha inversa, com
falhas. Isso é argumentado pelo fato de que a direção N60E. Investigações mais detalhadas seriam
Zona de Falhas de Santa Cruz Cabrália, quando necessárias para verificar se se trata da mesma falha.
considerada no seu conjunto, apresenta influên-
cia sobre todos os grabens dos baixos cursos 5 – Observações de campo
fluviais; além do fato referido, limita o graben
do rio João de Tiba a leste e gera uma pequena Provável confirmação da movimentação inversa
digitação no rio Buranhém. pode ser observada in situ, num corte da margem
oeste da BR-101, a norte da cidade de Itabela, sobre
4 – As outras falhas a linha divisora das bacias hidrográficas dos rios
Buranhém e dos Frades (Foto 5.5). O corte, exposto
Várias outras falhas com direções contidas na para leste, exibe uma falha afetando os sedimentos
referida faixa ocorrem, isoladamente, na área interi- da formação Barreiras, com direção N60E, mergulho
orana e são assinaladas pelas já referidas feições hi- de 65° para SE. O provável deslocamento inverso
drogeomorfológicas, impressas tanto na cobertura visível no corte de estrada foi deduzido a partir da
sedimentar pliocênica, quanto nas rochas do emba- geometria de feições sigmoidais e drags que indicam
samento. Duas delas, as mais evidentes, foram ma- uma vergência para NW. No corte oposto, exposto
peadas; uma delas cortando obliquamente o vale do para oeste, afloram gnaisses kinzigíticos alterados,
médio rio das Pedrinhas, a outra controlando o tre- sobrepostos por sedimentos da formação Barreiras,
cho N60E do médio-baixo rio Buranhém. onde a presença de brusca descontinuidade lateral no
Nesse último caso, a dissecação atravessou a contato entre os dois tipos de materiais sugere a
cobertura sedimentar e escavou profundamente as existência de falhamentos sin-sedimentares.
Esse tipo de estrutura é proposto como resultado ! esses vales apresentam um traçado retilíneo em
de uma interpretação morfotectônica, constituindo, distâncias de dezenas de quilômetros;
portanto, uma hipótese que já fez vários adeptos, ! essa morfologia é impressa em sedimentos do
entre os quais Silva & Tricart (1980) e Mendes et al. tipo arenitos argilosos, sem que o perfil das es-
(1987). Deve-se ressaltar que essas feições morfo- carpas tenha sido amenizado pela erosão e o seu
tectônicas não são exclusivas dessa parte do litoral traçado tenha sido festonado pela dissecação;
brasileiro. No litoral oriental do Rio Grande do ! aliado a esse critério, há o fato de esses trechos
Norte, a mesma hipótese tinha sido posta por Salim de vales, contrariamente ao esperado, comporta-
et al. (1979). A existência dos grabens foi compro- rem-se como linhas dispersoras da drenagem se-
vada por Bezerra et al. (1993), com base no uso in- cundária;
tegrado de métodos geomorfológicos, geológicos e ! seus fundos são ocupados por sedimentos holo-
geofísicos. cênicos, de origem flúvio-marinha, denunciando
No caso da região em apreço, trata-se dos tre- uma provável subsidência contínua;
chos dos baixos vales dos rios João de Tiba, Bura- Do ponto de vista geológico, ressaltar-se-á a
nhém e dos Frades, com extensões respectivas de, constância na direção e a relação com as outras fa-
aproximadamente, 17, 30 e 35km e largura variando mílias de falhas. Nos rios dos Frades e Buranhém, a
entre 1 e 2.5km (Fotos 5.1 e 5.2). direção é N60W, com deflexão sinistrógira da ex-
Os critérios geomorfológicos que mais justifi- tremidade oeste relacionada com a interrupção ope-
cam essa interpretação são: rada pelas falhas NW–SE e, secundariamente, NE-
! vales muito largos, com fundos perfeitamente SW. No caso do rio João de Tiba, a direção é E-W,
planos e margens constituídas por escarpas ver- com interrupções dos dois lados operadas pelas fa-
ticais a subverticais; lhas NE-SW.
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5.3.4 Zonas de falhas de direção E-W
Essas estruturas são caracterizadas por feições hi- aos limites laterais dessa zona. Em seguida, es-
drogeomorfológicas conspícuas, no entanto relativa- tende-se para oeste, sofrendo vários desloca-
mente claras sobre a cobertura sedimentar pliocênica: mentos por falhas de direção NW–SE, o que
pequenos trechos de drenagem orientados e extrema- conforma uma sucessão de romboedros alonga-
mente repetitivos, contidos em faixas E-W bem deli- dos na direção E–W. Nesse trecho, que finda
mitadas que estreitam regularmente, à medida que se interrompido pela falha Salto da Divisa – Barra
estendem em direção a oeste, onde a influência do do Caí, ela possui uma largura média de 2km. O
substrato pré-cambriano fica cada vez mais forte. trecho ocidental inicia-se nessa última e prolon-
Uma característica permanente dessas faixas é a ga-se a oeste numa distância de 30km, contro-
ocorrência de formas romboédricas compostas pela lando o alto vale do rio Caraíva. Nesse percurso,
direção E-W e a direção da família de falhas que sofre efeitos de deslocamentos comparáveis aos
vier a ser cruzada, NE–SW ou NW–SE. do trecho oriental, o que desvia ligeiramente sua
direção para WSW–ENE. Nesse trecho, sob in-
1 – Caracterização das zonas de falhas fluência maior do substrato pré-cambriano, sua
largura diminui para uma média inferior a 1km.
Essas estruturas aparecem, na região em apreço,
em número de quatro, sendo de norte a sul: 2 – Observações de campo
! Zona de falhas do rio João de Tiba, constituindo
Essa família de falhas foi evidenciada, em nível
o prolongamento ocidental do graben corres-
de afloramento, em cortes de rodovia BR-101, entre
pondente. Estende-se da linha de costa até, pelo
as cidades de Itamaraju e Teixeira de Freitas, na
menos, cruzar a BR-101, próximo à vila de
projeção oriental do braço sul do rio Jucuruçu.
Mundo Novo, onde volta a controlar um trecho
O primeiro afloramento exibe uma série de cinco
E-W do rio João de Tiba.
falhas organizadas em sistemas de horsts e grabens,
! Zona de falhas do médio rio Buranhém, consti-
moldados no contato entre gnaisses alterados e se-
tuindo o prolongamento ocidental do graben
dimentos cenozóicos, provavelmente mais jovens
correspondente. Estende-se, igualmente à prece-
que a formação Barreiras (Fotos 5.6 e 5.7). Estes são
dente, pelo menos, até cruzar a BR-101, próxi-
constituídos por um nível basal de seixos subangulo-
mo à cidade de Eunápolis, onde vem a controlar
sos, sobreposto por areias argilosas com grânulos e
um trecho E-W do rio Buranhém.
pequenos seixos dispersos. Apesar das dificuldades
! Zona de falhas do médio rio dos Frades, cons-
de medição dos planos, inerentes à natureza do ma-
tituindo um dos prolongamentos ocidentais do
terial rochoso envolvido e do grau de ressecamento a
graben correspondente, rapidamente interrompi-
que foi submetido, os planos de falhas são subverti-
do pela falha Salto da Divisa – Barra do Caí.
cais e apresentam direção N100E.
! Zona de falhas do alto rio Caraíva, contraria-
O segundo afloramento, situado à margem es-
mente às precedentes, é independente de qual-
querda (norte) do braço sul do rio Jucuruçu, quando
quer graben consolidado e possui dois trechos,
este atravessa a rodovia, mostra a formação Barrei-
bastante diferenciados. O trecho oriental inicia a
ras afetada por falhamentos normais e falhas em flor
norte de Caraíva, num local onde a linha de
negativas, com direção variando entre N60E e N90E
costa apresenta uma pequena enseada com for-
e rejeitos métricos.
ma retangular, cujos ângulos retos correspondem
Por fim, deve-se ressaltar a importância da in- Uma análise detalhada dessas direções de fluxo
formação fornecida pelos blocos recortados nos ta- hidrológico, que são, conseqüentemente, interpretadas
buleiros pelos sistemas de falhas descritos. Trata-se como direções de basculamentos tectônicos (Fotos
de blocos crustais com formas romboédrica ou trian- 5.1 a 5.3), mostra que estas respondem, coletivamen-
gular, sobre os quais os fluxos de drenagem mostram te, a uma organização regional caracterizada por duas
variações repentinas de direção, marcadas, no mapa direções principais de inclinação opostas. Ao norte do
Geomorfológico, por sistemas de vales paralelos, graben do baixo rio Buranhém, os blocos são inclina-
cuja escavação foi controlada por níveis de base to- dos, globalmente, em direção a ENE, enquanto que, a
talmente diferentes. sul deste, a inclinação média é para SE.
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5.4 Interpretação Estrutural
A análise morfotectônica da região permitiu de- Esses dados permitem, em caráter preliminar,
terminar, numa primeira aproximação, várias estru- propor um campo de tensões definido por um eixo
turas neotectônicas caracterizadas por falhas e zonas compressivo de direção NW–SE e uma direção de
de falhas e fraturas, compondo uma organização es- distensão NE–SW, o que corresponde aos resultados
trutural, que ainda carece de melhor controle de encontrados em grande parte da Plataforma Brasilei-
campo e da concepção de um modelo explicativo ra (Mendiguren & Richter, 1978; Assumpção et al.,
global. 1985; Torres et al., 1990, Saadi 1993; Saadi & Tor-
Essa estrutura é composta por: quato, 1993, entre outros).
! falhas de direção N35–40W herdadas de estrutu- Quanto aos blocos basculados, o eixo composto
ras antigas do embasamento, provavelmente dex pelo graben do baixo rio Buranhém e a falha E-W,
trais-normais, que parecem ter apresentado a que o prolonga a oeste, comporta-se como um alto
movimentação mais antiga; estrutural, a partir do qual operou-se os bascula-
! falhas de direção N40–60E herdadas de es- mentos divergentes das áreas situadas a norte e sul.
truturas antigas do embasamento, provavel- Isso parece indicar a ocorrência de um soerguimen-
mente sinistrais-inversas, cuja última movi- to, que, no caso específico, poderia ser relacionado a
mentação parece ter sido posterior à das falhas um gradiente térmico elevado residual do vulcanis-
NW–SE; mo responsável pela formação do Banco Royal
! falhas de direção E-W interligadas a grabens de Charlotte, estrutura ígnea paleogênica da margem
direção N60W a E–W, mais novas de todas, pa- continental (Asmus & Guazelli, 1981; Guazelli &
recem estar em processo de formação e expan- Carvalho, 1981). Esse alto estrutural é adjacente a
são para oeste. Sua movimentação é ainda mal outro de origem e idade semelhantes, que é o Banco
definida, apesar de os grabens dos baixos cursos de Abrolhos, sendo os dois ladeados por bacias se-
fluviais, aos quais elas se interligam, denotarem dimentares do período Sul-Atlantiano, que possuem
um caráter distensional, pelo menos para os tre- espessuras de 4 a 5km, o que constitui um fator ge-
chos orientais. rador de desequilíbrios isostáticos.
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Foto 5.1 – Extrato de imagem Landsat (original: composição colorida na
escala 1:100.000), mostrando a região do baixo vale do rio Buranhém.
Observar a retilinearidade do vale largo com vertentes escarpadas, talhadas
em sedimentos pliocênicos. Por outro lado, tanto ao sul, quanto ao norte, a
drenagem cujas nascentes se localizam nas imediações das referidas
escarpas, apresenta direções centrífugas com relação ao vale. Isso é
indicativo de basculamentos das porções de tabuleiros que a suportam.
51
Foto 5.3 – Extrato de imagem Landsat (original: composição colorida na escala 1:100.000), mostrando o
baixo vale do rio Jucuruçu, situado a sul da região em apreço. Observar a repetição dos comportamentos
ilustrados pelas Fotos 5.1 e 5.2. Além disso, a área da confluência dos braços sul e norte do rio Jucuruçu,
quando analisada à luz das hipóteses e métodos utilizados neste trabalho, parece configurar uma estrutura
de junção tríplice.
Foto 5.4 – Extrato de imagem Landsat (original: composição colorida na escala 1:100.000), mostrando
grande parte da extensão da “falha Salto da Divisa-Barra do Caí”, com os efeitos morfogenéticos
descritos no texto. Observar as notáveis alterações morfohidrográficas resultantes de sua atividade pós-
Barreiras.
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Foto 5.5 – Corte à margem da BR-101, a
norte da cidade de Itabela, sobre a linha
divisora das bacias hidrográficas dos rios
Buranhém e dos Frades. A descontinuidade
oblíqua corresponde à interseção do plano
topográfico com o de uma falha inversa, nos
sedimentos da formação Barreiras. A direção
medida é N60E e o mergulho de 65° para SE.
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Foto 5.7 – Detalhe da Foto 5.6, mostrando o
deslocamento que pode ser medido através
da posição da camada de seixos.
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