Psicanálise Relacional para Psicólogos Clínicos
Psicanálise Relacional para Psicólogos Clínicos
3
APORTAÇÕES DO
PSICANÁLISE RELACIONAL
PARA OS PSICÓLOGOS
CLÍNICOS
NERI DAURELLA
Psicóloga especialista em Psicologia Clínica.
Psicanalista membro da SEP (Sociedade Espanhola de
Psicanálise), pertencente à International
Associação Psicanalítica (IPA). Membro da Seção
Espanhola da Associação Internacional para Relacional
Psicanálise e Psicoterapia (IARPP-E). Membro
honorário do Instituto de Psicoterapia Relacional (IPR).
Professora do Mestrado em Psicoterapia Psicanalítica da
Fundação Vidal i Barraquer (Universidade Ramon Llull)
ISSN 1989-3906
Conteúdo
DOCUMENTO BASE 3
Aportações da psicanálise relacional para os Psicólogos Clínicos
FICHA1
FICHA2 24
A entrevista de apego para adultos (Adult Attachment Interview, AAI)
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Documento base.
Contribuições da psicanálise relacional para os
Psicólogos Clínicos
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DO PSICANÁLISE RELACIONAL
O termo “psicanálise relacional” foi consensuado em uma reunião de psicanalistas norte-americanos coordenada por
Stephen Mitchell em 1983 em Nova Iorque (Bromberg, 2009). Escolheram este termo porque, primeiro, representava de
uma maneira clara e concisa a perspectiva nuclear que compartilhavam:
1º Que a mente humana, seu desenvolvimento normal, sua patologia e o processo de seu crescimento terapêutico se configuram
relacionalmente, através da relação com outra mente
2º Que era um termo não tão específico conceitualmente como para implicar adesão a uma teoria determinada.
E é que a perspectiva relacional, embora muitas vezes se apresente como uma escola norte-americana nascida na
década de 80 do século passado, não se identifica como tal escola, mas como uma tradição, uma tendência, dentro
do psicanálise, que remonta a mais de cinquenta anos antes, na Europa, e que não nasce de um único teórico ou de um
grupo homogêneo de teóricos. Segundo Bromberg, um dos assistentes à reunião em Nova York, "Freud, Klein, Ferenczi,
Fairbairn, Winnicott, Sullivan e Kohut são todas figuras parentais importantes, embora nenhum tenha autoridade parental.
(2009)
FOCADO
Formação Continuada a Distância
3
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Claro que esta síntese não inclui de forma alguma todas as complexidades e vicissitudes da evolução de Freud.
Sólo resume o que chamaríamos de sua 'teoria pulsional', sua segunda teoria, aquela que elaborou depois de abandonar seus
primeiras hipóteses, nas quais havia acreditado nas histórias de abuso sexual infantil que seus pacientes relataram
neuróticas e havia elaborado sua primeira teoria, chamada 'teoria da sedução', segundo a qual as origens da
psicopatologia se encontravam em experiências traumáticas na infância, ocorridas no seio das famílias. Quando
apresentou esta teoria sobre a etiologia da histeria em abril de 1896 na Sociedade de Psiquiatria e Neurologia de Viena,
não é de estranhar que, em plena época vitoriana, a ideia de que os pais pudessem ser recebida com grande escândalo
ser os responsáveis pelas perturbações emocionais de seus filhos devido a abusos relacionados à sexualidade.
Al cabo de pouco, Freud renunciaria à sua "teoria da sedução" (1897) e apresentaria a hipótese alternativa de que as
as causas da histeria não se encontravam tanto em fatos reais, mas nas fantasias de sedução das próprias pacientes,
que respondiam aos seus desejos inconscientes, passando a elaborar a hipótese do complexo de Édipo. Tem-se discutido
muito sobre os fatores que influenciaram essa mudança, mas não se trata de entrar aqui em uma análise especulativa a partir
do que sabemos atualmente sobre a pessoa de Freud. Para quem estiver interessado no assunto, é recomendável
ler e comparar duas biografias de Freud de épocas diferentes: a primeira biografia oficial escrita entre 1953 e 1957 por
o psicanalista britânico Ernest Jones e a mais recente publicada em 2014 pela historiadora francesa Elisabeth
Roudinesco.
FOCADO
4 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
As três séries complementares estão sempre presentes em toda conduta (normal ou patológica), mas pode
existir um predomínio de cada uma das séries.”(Bleger, 1963/1983, pp. 134-5)
Aqui vemos uma tentativa de Freud de superar a alternativa que o obrigava a escolher entre fatores endógenos ou exógenos.
na hora de explicar a psicopatologia de seus pacientes, usando uma linguagem mais compreensível para os psicólogos
contemporâneos que têm como referência um modelo bio-psico-social na hora de plantear hipóteses explicativas de
a conduta humana.
2. FERENCZI: "SEM SIMPATIA NÃO HÁ CURA (NO MÁXIMO INTELECÇÕES SOBRE A GÊNESE DO
PADECER).”(1932)
2.1. A recuperação do papel do trauma
Atualmente, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933) é considerado a segunda figura em importância do
psicanálise após Freud, especialmente como a base da tradição relacional que adota esta denominação nos últimos
30 anos. Este reconhecimento chegou tardiamente a um autor que desde sua morte até estes últimos anos esteve
bastante «desaparecido» dos círculos psicanalíticos, pouco citado na bibliografia e não estudado nos institutos
de formação de psicanalistas até que em 1985, data em que finalmente puderam publicar seu diário clínico (Ferenczi,
1932) e sua Correspondência com Freud (Ferenczi e Freud, 1992), ocorreu seu «redescobrimento», que se reflete em
congressos, publicações e abundantes referências à sua influência no psicanálise contemporânea (Daurella, 2000).
Ferenczi foi durante muitos anos o discípulo preferido de Freud, mas aos poucos foi se distanciando do Freud mais
especulativo e mais preocupado em preservar a pureza de seu método do que em buscar a eficácia terapêutica. Ferenczi
recupera o conceito de trauma como fator etiológico importante na patologia mental, mas em um sentido muito
mais amplo do que o da primitiva teoria freudiana da sedução. Em primeiro lugar, não está falando apenas do trauma
vinculado à sexualidade, mas também à hostilidade dos adultos na sua relação com as crianças. E não ignora o papel
da fantasia e do conflito edipiano da criança na gênese da patologia, mas considera que o erotismo infantil é
tierno e o erotismo do adulto é apaixonado, e que o trauma ocorre quando o adulto não desempenha sua função protetora
senão que utiliza a criança para seus fins passionais, não necessariamente em forma de abuso sexual explícito, mas de muito
diversas maneiras, que só têm em comum a característica de ignorar as autênticas necessidades da criança.
Não nega que as tendências eróticas das crianças se manifestam muito mais intensamente e precocemente do que se
pensava antes das descobertas de Freud, mas diz que, mesmo no que diz respeito aos temas sexuais, o que deseja
a criança é apenas o jogo e a ternura e não a manifestação violenta da paixão. E quando o adulto força prematuramente
suas sensações, a criança experimenta muito medo. De qualquer forma, tanto ou mais patogênico que este trauma por excesso
de paixão do adulto considera Ferenczi o trauma por defeito, por falta de desejo, o caso da criança que é um "hóspede"
não querido na família”. Em O menino não bem-vindo e seu impulso de morte (1929), referindo-se à teoria freudiana que
divida os impulsos em eros e tanatos, destaque como a criança indesejada pode perder precocemente o gosto por
vida e ser visto de fora como um ser carente de capacidade de adaptação, com uma fraqueza congênita da
capacidade de viver, quando talvez isso se deva a um trauma não tão evidente, melhor dizendo, a uma sucessão de
microtraumas: a que a criança percebe repetidas vezes, consciente ou inconscientemente, demonstrações de aversão, impaciência
e desgosto dos pais. Ferenczi assina a teoria freudiana das séries complementares, mas faz um aviso
sobre a possibilidade de subestimar o peso do fator traumático na patogênese e supor um fator constitucional
muito determinante quando os traumas não são muito evidentes na história do paciente.
Michael Balint (1896-1970), depositário direto do legado de Ferenczi, explicaria mais tarde muito claramente a ideia
central do seu mestre sobre o que ele considerava traumatizante:
A desproporção essencial entre a limitada capacidade do criança para gerenciar a excitação que ele tem e a
estimulação dos adultos, excessiva ou insuficiente, inconsciente, e portanto incontrolada, carregada de paixão
e simultaneamente de culpa. Para a criança não faz diferença que os adultos chamem essa estimulação de desconsiderada.
regime higiênico
o que lhes aprouver.”(Balint, 1949)
A mensagem principal de Ferenczi era ressaltar a discrepância que frequentemente ocorre entre as verdadeiras necessidades
do menino e as gratificações incontroladas (pelo fato de serem inconscientes) que os adultos responsáveis se permitem
de sua criação. Ferenczi, ao se referir às crianças traumatizadas, fala de medo, de falta de gosto pela vida, de
incapacidade de adaptação, do que, em uma terminologia atualmente muito em voga chamaríamos diminuição de
a resiliência.
FOCADO
Formação Continuada a Distância
5
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
FOCADO
6 Formação Contínua a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
FOCAD
Formação Continuada a Distância
7
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
pode superar a dificuldade que isso representa e se mantém na posição especular, permitirá descobrir os processos
psíquicos inconscientes do paciente.
E no que diz respeito à contratransferência, é o termo que Freud usou para se referir ao fenômeno que "surge em
o médico sob a influência do doente sobre seu sentir inconsciente”, e considerava recomendável “o reconhecimento de
esta contratransferencia pelo médico mesmo e seu vencimento"(Freud, 1910/1973b, p. 1566). As recomendações
técnicas de Freud aos analistas (tentar permanecer neutro diante da transferência dos pacientes e se esforçar por
identificar e vencer sua contratransferência) seriam questionadas por Ferenczi, muito comprometido com a função
terapêutica de seu ofício, e que abriria a porta para fazer variações da técnica padrão de acordo com as necessidades
de cada paciente.
Nos analistas do grupo independente da Sociedade Britânica é onde mais se aprecia o que poderíamos chamar o
“giro relacional”, no sentido de conceber cada vez menos a transferência como um produto exclusivo do paciente
diante da presença de um analista que funciona como um espelho, ver impossível e indesejável a pretensão do analista de
funcionar como uma tela totalmente em branco, e considerar a contratransferência como um fator terapêutico
determinante, revalorizando o papel dos afetos e das vivências emocionais no diálogo do inconsciente para
inconsciente entre paciente e analista.
FOCAD
8 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
FOCADO
Formação Continuada a Distância
9
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
acumulativo é a consequência das falhas na função da mãe como proteção contra as excitações durante
o curso total do desenvolvimento da criança, desde a infância até a adolescência, em todas aquelas áreas da experiência
onde a criança continua precisando da mãe como um eu auxiliar que apoie suas funções egoicas imaturas e instáveis.
É algo qualitativamente e quantitativamente diferente das grosseiras intrusões de uma mãe gravemente perturbada, que
têm sido abordadas com frequência na literatura psicanalítica em relação a crianças esquizofrênicas ou em delinquentes
que se comportam de maneira abertamente hostil e destrutiva. As lacunas que ele tinha em mente eram falhas por
inadaptabilidade da mãe às necessidades de apoio da criança. Não são traumáticas separadamente, possuem a qualidade
de uma «tensão», e não distorcem o desenvolvimento do eu ou a evolução psicosssexual, mas influenciam neles. Tais lacunas
se acumulam de forma silenciosa e invisível ao longo do tempo e através do processo de desenvolvimento. Daí sua
dificuldade para detectá-las clinicamente durante a infância. Gradualmente ficam incorporadas aos traços específicos
de uma determinada estrutura de caráter. Aqui ressoa o conceito de 'falsoself' de Winnicott: a criança não desenvolve
sua autêntica self. O principal processo psíquico implicado em tais relações colusivas é a identificação. Esta
a identificação permanece sendo essencialmente do tipo incorporativo e projetivo, interferindo na internalização e
a assimilação de novas representações de objeto, complicando assim a diferenciação e o crescimento
verdadeiros das estruturas psíquicas internas.
Masud Khan acrescenta que a fase em que a própria criança percebe de forma plena os efeitos
distorsionantes e desorganizadores desse vínculo colusivo com a mãe é a adolescência. Então a reação é uma
rejeição dramática da mãe e de todas as investiduras passadas dela. Isso leva, ou ao colapso do desenvolvimento
da personalidade, que deriva em inércia e futilidade, ou a um anseio apaixonado por novos ideais, objetos e interesses
yoicos.
FOCADO
10 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
As crianças são as da alimentação e da sexualidade, e passar a definir como fundamental a conduta de apego: qualquer forma.
de conduta que tem como resultado a conquista ou a preservação da proximidade com outro indivíduo claramente
identificado ao que se considera melhor capacitado para enfrentar-se ao mundo. Dado que seu ponto de partida para
desenvolver a teoria foi a observação do comportamento, muitos psicanalistas supuseram erroneamente que a teoria do
apego não era mais do que uma versão do behaviorismo. Bowlby reconhece que esse erro pode ter ocorrido porque se confundiram
os conceitos de "apego" e "comportamento de apego".
O papel dos pais é fornecer uma base segura a partir da qual a criança pode fazer saídas para o mundo
exterior e à qual pode retornar sabendo com certeza que será bem recebido, alimentado física e emocionalmente,
reconfortado se se sente, afligido e tranquilizado se está assustado. Ou seja, trata-se de ser acessível, estar preparado
para responder quando solicitado, e talvez ajudar, mas intervir ativamente apenas quando for evidentemente
necessário.
Segundo a teoria do apego, a principal fonte de ansiedade é a insegurança no apego. E é menos suscetível de ser
processada quando não é possível entendê-la ou refletir sobre ela e suas fontes. Em algumas famílias é impossível a
discussão aberta e sensata dos acontecimentos interpessoais. E a criança fica sozinha com ansiedades não processadas,
que acabam se tornando improcessáveis. E acaba obstruindo a capacidade psíquica de processar emoções. Ex. "Na minha família
não se dava nome às emoções. "Quando crescem, são incapazes de expressar seus estados afetivos.
Bowlby postula a existência de uma organização psicológica interna com uma série de características muito específicas
– que incluem modelos representativos do eu e da figura ou figuras de apego -, e considera sua teoria "uma
variante da teoria psicanalítica das relações objetais, derivada da escola húngara de psicanálise.
O conceito de modelos operativos internos é central na teoria do apego: são mapas cognitivos, representações,
esquemas ou guias que um indivíduo tem de si mesmo e de seu entorno, tornam possível a organização da experiência
subjetiva e da experiência cognitiva, além do comportamento adaptativo, e possibilitam a filtragem de informações sobre
de um mesmo ou sobre o mundo exterior.
A teoria do apego de Bowlby deu origem a uma grande quantidade de pesquisa empírica, sobre crianças e adultos, a partir
do conhecido experimento chamado “A situação estranha”, realizado por sua colaboradora na clínica Tavistock, Mary
Ainsworth e colaboradores, para tentar medir o apego de crianças de 1 a 2 anos em uma situação de laboratório. Este
o procedimento envolvia dois episódios de breve separação entre a criança e a mãe, para observar as reações do
criança durante a separação, e sobretudo no momento do reencontro com ela. Com base nesses experimentos
chegou-se a classificar os padrões de apego das crianças em quatro categorias:
Apego evitativo
Apego seguro
C: Apego ambivalente
Apego desorganizado
(Ainsworth et al., 1978; Main e Solomon, 1986)
E a partir dessa classificação, nos últimos 30 anos foram desenvolvidos métodos de avaliação de padrões de apego.
em diferentes momentos do ciclo vital, que refletem por sua vez os diferentes modelos operativos internos e que têm
também suas correspondentes aplicações clínicas. (Ver Ficha 2)
Como vemos, Bowlby já se inscreve em uma psicanálise plenamente relacional, embora sua teoria tenha sido apresentada em 1969.
1972 e 1980 com a publicação de sua trilogia Attachment and Loss, anos antes da reunião de Nova York (1983) em
a que se consensuou o nome de “psicanálise relacional”. E sua teoria trará novos desenvolvimentos à psicanálise, em
parte graças aos avanços produzidos nas neurociências, que vieram esclarecer o que mais recentemente se
ha denominado a "neurobiologia do apego" (Fonagy, 2001).
FOCADO
Formação Continuada a Distância
11
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
com os pacientes diferente do convencional estilo assimétrico e hierárquico, sugeriu a Clara que Ferenczi era o único
analista que lhe parecia confiável (Ávila Espada, 2013, p. 99).
Como diz Stephen Mitchell:
Thompson tinha um agudo senso da história das ideias psicanalíticas e reconhecia a forte afinidade natural
entre o redescobrimento de Ferenczi sobre a importância do trauma real e seu ênfase na centralidade da
relação entre o analista e o paciente; a abordagem inovadora de Sullivan sobre a esquizofrenia como um transtorno
dos sistemas familiares; e a realocação de Fromm da teoria da libido freudiana dentro de uma ampla
perspectiva marxista enfatizando a importância da cultura e da história (psicanálise humanista). A
A visão de Thompson levou à geração de uma tradição psicanalítica em desenvolvimento que enfatizava a
importância da interação desde os seus inícios (Mitchell, 1997/2015, p. 117)
Mas Clara Thompson é conhecida por duas contribuições principais:
4Por destacar a importância da análise do caráter, entendido como o conjunto de atitudes habituais desenvolvidas
dá-se no curso da vida como formas de enfrentar a vida, mais do que na busca das origens infantis do
transferência. Para ela o problema não são tanto os resíduos do passado, que saturam e distorcem o presente, se-
não as atitudes irracionais do presente que interferem em integrações mais racionais e saudáveis.
4Por seu estudo da psicologia da mulher, que compartilhou com Karen Horney, criticando ambas a visão falocêntrica.
ca de Freud, baseada na concepção da psicosexualidade feminina vigente em sua época, e constituindo-se em
precursoras da visão feminista atual. Entre seus escritos mais destacados contam-se Inveja do pênis nas mulheres
res(1943),Algunos efectos de la actitud despectiva hacia la sexualidad femenina(1950), yLos problemas de la fe-
minidad(1964)
FOCADO
12 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Em relação às motivações básicas das pessoas, Sullivan se diferencia claramente da proposta freudiana que
as sitúa nas pulsões sexual e agressiva, e fala de necessidades de dois tipos:
4A necessidade de satisfação (das necessidades fisiológicas, de contato emocional com o outro e intimidade, de exercer
cio intelectual das capacidades e funções da pessoa através da interlocução, etc.)
4A necessidade de segurança, que inclui a evitação da ansiedade e a manutenção da autoestima, o desejo
de pertença e de se sentir aceito.
Quando um paciente procura um psicoterapeuta, assim como quando inicia qualquer relacionamento, o faz com base
de alguns padrões mais ou menos desadaptativos, dependendo de suas experiências relacionais no passado. O que oferece
a situação analítica é a oportunidade de diferenciar o passado do presente. O paciente nunca responde diante de um
psicoterapeuta genérico, sempre responde a um psicoterapeuta em particular. O psicoterapeuta deve investigar os
mecanismos adaptativos que o paciente utiliza como "operações de segurança", para ajudá-lo a desfazer
mal-entendidos, a ir clarificando sobre-entendidos, a fomentar a auto-reflexão, sem impor um enquadramento a priori, mas
escolhendo-o com base nas possibilidades de cada pessoa e na relação que pode ser estabelecida com ela.
Assim, Sullivan identificou uma base interpessoal no sofrimento emocional durante as interações patogênicas.
tempranas e a infância do indivíduo. Etiologicamente relevantes, tais interações levam a dificuldades na vida
e poderiam ser tratadas de forma mais eficaz com uma abordagem interpessoal. De acordo com essa abordagem, o analista corrigiria a
antecipação do paciente sobre si mesmo, ou seja, sobre sua atuação como uma dessas figuras prejudiciais da vida
anterior do paciente. Finalmente, fundou-se um instituto sullivaniano, o Instituto William Alanson White, na cidade
de Nova York, e a partir daí começou a praticar e desenvolver a psicanálise interpessoal, que acabou formando a
chamada escola relacional.
4.3. O Instituto William Alanson White: o acesso dos psicólogos norte-americanos à formação psicanalítica
relacional
O Instituto William Alanson White também foi pioneiro na formação psicanalítica de psicólogos desde 1943.
seguido de perto pelo Centro de Pós-Graduação em Saúde Mental de Nova York, em 1949, onde se formaram Lachmann
y Stolorow, cujo corpo docente estava a cargo de Lewis Wolberg, ex-membro do Instituto Psicanalítico de
Nova Iorque, a acrópole da psicanálise clássica. No entanto, mais tarde, criaram um espaço de tratamento não
institucionalizado com pacientes externos e foram pioneiros na formação psicanalítica grupal, com uma relativa
abertura para a pluralidade de orientações teóricas. Ambos os institutos contavam com departamentos de psicanálise
infantil em contato direto com vários centros formativos da Sociedade Psicoanalítica Britânica. Outro instituto que
contribuiu para a diversificação das perspectivas foi o Instituto Pós-Doutoral da Universidade de Nova York, fundado
em 1961, com uma oferta de carreiras de formação freudiana, relacional e interpessoal para psicólogos. Na área de
A influência deste instituto formará muitos dos psicanalistas relacionais mais destacados, entre outros, Edgar A.
Levenson, Stephen A. Mitchell, Phillip M. Bromberg, Donnel B. Stern, Darlene Ehrenberg e Sandra Buechler.
Desde o final da década de 1980, os institutos da Associação Psicanalítica Americana abriram suas portas para os
profissionais clínicos não médicos e, graças a isso, conseguiram criar um bom número de institutos e sociedades
independentes da API em todo o país. Graças ao trabalho clínico, que contava com uma ampla variedade de pacientes
de idades e patologias distintas, e a chegada de psicólogos e outros profissionais clínicos não médicos à cena
estadunidense, conseguiu-se alterar o statu quo e foi possível expandir os limites conceituais da psicanálise clássica
(Veja o Dicionário Enciclopédico Interregional da API, 2019, p. 261).
FOCADO
Formação Continuada a Distância
13
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Se o analista oferece uma perspectiva sobre o que ocorreu e o que está acontecendo agora, quem é que decide que, de fato,
realmente ocorreu? O que acontece com a verificação? O que aconteceu é importante, este princípio continua sendo central e
diferencia a posição interpessoal de outras tradições, que colocam mais peso nos instintos e na fantasia. O
o interpersonalista considera o papel formativo dos acontecimentos reais mais do que o da realidade psíquica baseada
na fantasia. No entanto, com a extensão do princípio de participação no âmbito do perspectivismo, não está do
tudo claro quem decide o que aconteceu no passado do paciente e o que está acontecendo agora na situação analítica
(Mitchell, 1997/2015, p. 148).
Em um livro posterior, A ambiguidade da mudança (1983), Levenson apresenta o paciente como fundamentalmente
confuso, como resultado das mistificações, "verdades pela metade, enraizadas no terreno da informação omitida"
É preciso ajudar o paciente a desmistificar, mas o analista só pode experimentar as coisas no contexto de
sua própria experiência pessoal. Assim, a função do terapeuta não é explicar o conteúdo do que o paciente traz
(sonhos, material histórico inicial, transferência ...) mas ajuda a ampliar a consciência sobre os padrões que
se repetem em suas relações. Agora, no entendimento de que qualquer coisa que o paciente diga ao analista
está sujeita a um número quase infinito de perspectivas, “um verdadeiro Rashomon”.
Dice A. Liberman (2013) que para Levenson, o paciente é uma criança que aprendeu a evitar as experiências que
poderiam gerar uma ansiedade desorganizadora no outro ou nele mesmo, nos ambientes que lhe foram familiares,
e quando o analista lhe propõe uma mudança de perspectiva, talvez ele esteja aterrorizado pela possibilidade de ser expulso
do grupo se não coincide com as ilusões familiares.
Certamente, pertencer é um dos mais antigos e atraentes imperativos sociais; a expulsão é um equivalente a
a morte (Levenson, 1991, p. 513)
Como ganhar a confiança do paciente que foi ensinado a desconfiar dos estranhos?
4.3.2. Stephan Mitchell: a psicanálise relacional vista como a emergência de uma tradição
Stephan A, Mitchell (1946-2000) é reconhecido como o introdutor do termo “psicanálise relacional” em 1983, em
um livro escrito em colaboração com Jay Greenberg, Relações Objetais na Teoria Psicanalítica, para usar um termo-
ponte que incluísse as contribuições dos autores dos quais falamos até aqui, e alguns outros. O
o termo "psicanálise relacional" se aplicaria para referir-se à evolução no mundo da psicanálise desde um
modelo predominantemente intrapsíquico para outro que inclui o interpessoal e o intersubjetivo, e sublinha a
natureza social, interativa e interpessoal da mente.
Como diz Lewis Aron, coeditor com Mitchell do livro Psicanálise Relacional: O Surgimento de uma Tradição (1999),
diz sobre Mitchell:
Era prudente não reificar a psicanálise relacional como uma escola ou um sistema coerente, preferindo
ver isso como uma 'tradição dentro de uma tradição'.
E acrescenta muito depois uma observação muito interessante para o mundo psicanalítico:
Por mais que a abordagem relacional seja considerada uma escola, é a primeira escola psicanalítica que não se
se concentrou em torno de um único líder. Estou pensando, é claro, em Freud, Jung, Adler, Klein, Kohut,
Winnicott e Lacan. Parece-me que, comparativamente, a tradição relacional tem sido, desde seus começos, muito mais
pluralista e descentralizada. Acredito que isso tem a ver com a grande generosidade, o espírito de colaboração
e a ausência de uma preocupação obsessiva pela propriedade e prioridade das ideias que caracterizou Stephen
A. Mitchell. (Aron, 2015)
A repercussão da contribuição de Mitchell e do grupo de psicanalistas vinculados ao William Alanson White Institute
seria muito grande no psicanálise norte-americano contemporâneo a partir do aparecimento da revista Psychoanalytic
Dialogues: Uma Revista de Perspectivas Relacionais, em 1991.
Lo más característico de Mitchell es su actitud de diálogo permanente con sus pacientes, sus colegas y sus antecesores.
e de respeito pela capacidade de gerar significados subjetivos de suas experiências. Para ele, qualquer entendimento de
a mente, a própria ou a do outro, é pessoal. As conjecturas de cada analista sobre cada paciente não se derivam
simplesmente da aplicação da sua teoria, mas estão saturadas de suas respostas contratransferenciais. A ideia
tradicional de que o analista é essencialmente invisível para o paciente e que o analista que age adequadamente
compreende o paciente basicamente em termos desapegados responde a uma ilusão que serve para negar o impacto
pessoal do encontro de ambos.
FOCADO
14 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Mitchell questiona a pretensão de racionalidade e objetividade do analista que acredita saber mais do que o paciente sobre o
inconsciente disto e valoriza acima de tudo a atitude de permanente curiosidade, honestidade e compromisso emocional na
relação com este. Para ele, uma boa técnica analítica refere-se não tanto a interpretações corretas, mas a um
pensamento rigoroso, em um contínuo processo de reflexão e reconsideração. Seria um analista que, quando há um
estancamento no processo, fora capaz de dizer: “Parece que chegamos a um estancamento. Vamos tentar
compreender como chegamos até aqui.”(Mitchell, 1997/2015, p. 362)
4.3.3. Philip M. Bromberg: compreendendo o trauma e a dissociação com a ajuda da neurociência atual
Phillip M. Bromberg (nascido em 1931), outro dos integrantes do grupo formado no William Alanson White Institute
de Nova Iorque, sente-se muito afinado com a sensibilidade clínica de Ferenczi, mas com a vantagem de que nas últimas décadas
foram feitos uma série de descobertas no campo das neurociências que permitem compreender a base
biológica das intuições de seus antecessores: a descoberta de que além da memória explícita, declarativa,
existe a memória implícita, de procedimento (Milner, B., 1954); a descoberta dos neurônios espelho e seu papel
na comunicação humana (Gallese, V., e Geller, J. (2006); e os estudos sobre a maturação precoce do hemisfério
direito – o hemisfério dominante durante os três primeiros anos de vida no contexto da neurobiologia do desenvolvimento
do apego (Schore, A., 2011). Schore, neurobiológo que colabora frequentemente com Bromberg, propõe que, assim como
o cérebro esquerdo comunica seus estados a outros hemisférios esquerdos através de condutas linguísticas conscientes,
o cérebro direito também se comunica através da prosódia, dos movimentos faciais sutis, dos movimentos rápidos
dos olhos, a gesticulação, etc. seus estados inconscientes aos cérebros direitos que se prestam a recebê-las.
Bromberg interessa-se pelos efeitos do trauma "evolutivo ou relacional" que ocorre na infância, a maioria de
as vezes relacionadas ao apego e que, devido ao seu surgimento precoce, tende a ficar organizado de maneira mais
procedimental que simbólica e sua representação cognitiva está totalmente ausente ou, no melhor dos casos, é mínima.
Em seu prefácio à edição espanhola de sua obra A sombra do tsunami e o desenvolvimento da mente relacional (2011/2017),
refere-se ao mecanismo da dissociação como o mais habitual em pacientes traumatizados:
Aquilo que transforma um paciente adulto em um "paciente difícil" é, em grande parte, a unidade do eu com
os outros foram substituídos por uma estrutura mental dissociada projetada pelo cérebro para prevenir de forma
ativa o retorno da carência na regulação afetiva e a desestabilização do self. Dado que o evento
interpessoal original não pode ser lembrado como representação, seu resíduo é vivido, aqui e agora, como uma
sombra" persecutória. Esta sombra não conceptualizada do trauma potencial é o que conecta ao
fenômeno da dissociação com o qual um paciente é denominado, na teoria psicanalítica mais clássica, como
resistente" e, em algumas ocasiões, "inanalizável".(Bromberg, 2011/2017, p. 7).
Bromberg propõe que suas diferenças com a psicanálise clássica implicam uma verdadeira mudança de paradigma: a passagem
de uma psicologia unipessoal a uma psicologia bipessoal. E que essa mudança conceitual implica três mudanças clínicas
fundamentais:
4a mudança da primazia do conteúdo para a primazia do contexto
4da primazia da cognição à primazia do afeto, e
4o afastamento (embora não abandono) do conceito de "técnica".
O mais traumático é quando uma criança sofre uma falta de reconhecimento constante dos estados de si mesma, e os dissocia.
por sistema. Na fase adulta, para poder viver uma vida criativa, espontânea, estável e relacionalmente autêntica
requerirá uma dotação natural extraordinária e, provavelmente, uma relação curadora com alguma pessoa que permita
ao adulto utilizar sua dotação natural. Esta relação pode oferecer a restauração do sentimento de legitimidade diante do
direito de existir como algo mais que um objeto na mente do outro. Modestamente, Bromberg considera que essa
a persona muitas vezes é um terapeuta, mas isso não é obrigatório. (p. 61)
4. 4. A teoria da intersubjetividade: incorporando a teoria dos sistemas dinâmicos, intersubjetivos e não lineares
Robert Stolorow (nascido em 1941), doutor em Psicologia Clínica (Harvard) e em Filosofia (Califórnia), fundador do
Instituto de Psicanálise Contemporânea de Los Angeles, é o primeiro que estabelece as bases para integrar a psicanálise
contemporâneo com a teoria dos sistemas intersubjetivos, dinâmicos e não lineares.
Stolorow reconhece a importante contribuição de Von Bertalanffy (1968) e Waddington (1977) para a criação de um novo
paradigma científico a partir da investigação de fenômenos denominados sistemas dinâmicos, não lineares,
FOCADO
Formação Continuada a Distância
15
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
autoorganizadores, os caóticos. É uma pesquisa que se origina nos campos da física, da química e da
matemática, mas depois se aplica ao estudo de sistemas biológicos complexos: serve para buscar princípios comuns
subjacentes ao comportamento de fenômenos tão diversos como as reações químicas, as nuvens, as florestas, o desenvolvimento
dos embriões e das crianças. E parece-lhe uma fonte poderosa de novas metáforas para a psicanálise.
Fenómenos como o conflito, a transferência, a resistência e o inconsciente, nessa perspectiva, são entendidos como
propriedades emergentes dinamicamente de sistemas intersubjetivos, diádicos, não lineares e autoorganizadores. (Stolorow,
1997, p. 337).
Stolorow é um exemplo de psicanalista que está ciente dos desenvolvimentos das ciências cognitivas e incorpora isso
o que parece interessante para conceitualizar o processo de mudança e resistência à mudança na psicanálise.
Assim se refere ao trabalho de Thelen e Smith (1994), pesquisadoras do desenvolvimento que estudam "a natureza
exquisitamente dependente do contexto dos processos de autorregulação da criança na medida em que influenciam e são influenciados
por suas interações com seus cuidadores" e concluem que "o sistema criança-cuidador é um exemplo de forma emergente
dinâmica que não responde a um programa predeterminado” (p. 44). Essas pesquisadoras consideram que todo processo
de mudança em um sistema vivo consiste em passar do que denominam um estado atraente para outro, entendendo por estado
atrair a tendência a relacionar-se com base nos padrões característicos das primeiras interações no sistema
menino-cuidador. Um estado de atração seria um caminho neurológico bem estabelecido que se ativa facilmente em circunstâncias
similares, como o definem também Westen e Gabbard (2002).
É impressionante ver como Stolorow, utilizando conceitos mais modernos, segue o caminho iniciado por Ferenczi quando
se preocupava com a questão do trauma e da retraumatização. Ele também fala de um trauma bifásico na interação
com os cuidadores na infância:
Na primeira fase, a criança experimenta uma ferida, violação, rejeição ou desilusão em seu relacionamento com o cuidador.
e isso lhe provoca uma reação dolorosa. Na segunda fase, a criança anseia por uma resposta sintônica que possa
modular, conter e melhorar seu estado afetivo reativo de dor. Quando, em vez disso, a dor da criança não
encontra uma resposta sintônica, a criança percebe que seus sentimentos reativos dolorosos não são bem recebidos
ou danificam o cuidador e devem ser sequestrados defensivamente para manter o vínculo que lhe é necessário. Este
afeto abortado se torna uma fonte de conflito interno e de vulnerabilidade a estados traumáticos de
por vida. Além disso, a criança muitas vezes se convence de que seus sentimentos dolorosos e ameaçadores são
manifestations that there is something defective or inherently bad in him. (Stolorow, 1997, p. 344).
Para que o sistema analista-paciente não se torne uma repetição retramatizante, para poder desestabilizar o
estadoatractorinicial e oferecer novas possibilidades de desenvolvimento, a experiência de relação terá que permitir que
o paciente vai aumentando a confiança de que o analista será capaz de receber e conter suas reações emocionais
diante das experiências de se sentir ferido e decepcionado. O analista assim poderá ocupar na transferência o lugar das
figuras que anhelava e não teve, capazes de reconhecer e validar sua realidade psíquica.
Stolorow compartilha sua teorização intersubjetiva com Donna M. Orange, George E. Atwood e Bernard Brandchaft. Todos
eles compartilham a visão da transferência do paciente como um princípio organizador, mas nunca como algo que
possa ser reconhecido objetivamente, interpretado e separado das contribuições do psicanalista. E a
A contratransferência do analista é, assim como a transferência do paciente, a maneira como o analista organiza sua
relação com o paciente de acordo com todas as suas experiências e conhecimentos. Juntas, transferência e
A contratransferência forma um sistema intersubjetivo de influência recíproca.
Orange, Atwood e Stolorow (1997/2012) destacam os aspectos defensivos e ilusórios do que eles chamam de mitos
da neutralidade analítica: o mito da interpretação sem sugestão, o mito da transferência não contaminada, o mito
da objetividade e o mito da mente isolada para conceber o contexto da díada analisando-analista como um sistema
vivo e interativo. O aqui e agora inclui os mundos subjetivos interativos e as atividades organizacionais do paciente
y analista, incluindo as teorias do analista e os mundos culturais de ambos os participantes. Quando ocorrem
atascos no processo analítico, esses autores não pensam que “o paciente está se resistindo”, mas se perguntam como
o analista e o paciente co-construíram este “gargalo”. Não se perguntam apenas sobre a história do paciente e a
organização emocional que determina suas convicções, mas também sobre as suas próprias, assim como sobre os
compromissos teóricos que podem estar os prendendo em "pontos cegos" (pp. 135-6).
Brandchaft (2007) por sua parte, introduz o conceito de “sistema de acomodação patológica” quando no curso do
desenvolvimento se dá uma experiência continuada de apego traumático: quando a criança percebe que em seu contexto socio-
FOCADO
dezesseis Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
sentimentos, pensamentos e expressões determinados não só não são aceitos, mas conduzem a
reprovação ou rejeição. Ao longo de sua vida, este sistema de acomodação patológica guiará e limitará suas experiências
de relação, incluindo a relação com o psicanalista, e este deverá empregar ao máximo sua consciência reflexiva para
reconhecer e diminuir na medida do possível, suas próprias contribuições para a acomodação por parte do paciente.
(Coderch, 2014, p. 220).
4. 5. Daniel Stern e o Grupo de Boston para o Estudo da Mudança Psíquica (BCPSG): a pesquisa sobre o
conhecimento relacional implícito
Daniel Stern (1934-2012) e os componentes do Grupo de Boston para o Estudo da Mudança Psíquica se dedicaram
a estudar quais são os agentes terapêuticos que atuam no processo psicanalítico com base nas investigações
sobre a primeira infância do próprio Stern, de B. Beebe, E. Tronick e K. Lyons Ruth.
Este grupo elabora uma teoria da mudança psíquica que integra conceitos provenientes da pesquisa sobre a
primeira infância, a psicologia cognitiva, as teorias de sistemas e a psicanálise de adultos. Utilizando a distinção entre
os modos procedimental e declarativo do processamento da informação baseiam a teoria no modo procedimental
do "conhecimento relacional implícito", descrito por Lyons Ruth (Beebe, 1998).
Como diz Joan Coderch, para situar a contribuição do BCPSG, se as primeiras experiências de relação entre a criança e
o cuidador, tanto as positivas como as negativas, foram asimbólicas e não verbais, mas muito determinantes na
experiência do sujeito, só se poderá chegar a elas através da sintonização psicobiológica das mentes corporificadas
de paciente e analista, não apenas com o conteúdo semântico das palavras:
A mudança psíquica só pode ser alcançada como resultado da interação, implícita e explícita, entre os dois sistemas.
dinâmicos, intersubjetivos, adaptativos e não lineares que constituem paciente e terapeuta (Coderch, 2018, p. 56).
E aqui vem a contribuição do grupo de Boston: Desde que publicaram seu primeiro trabalho sobre os mecanismos não
interpretativos na terapia psicanalítica em 1989, contribuíram decisivamente para deslocar o papel de
interpretação e o insight como agentes da mudança terapêutica ao papel fundamental do encontro entre os
emoções do paciente e do analista como promotoras da mudança: a partir de então, no mundo psicanalítico, se debate
sobre o peso relativo da interpretação e da relação no processo de mudança.
Em seu trabalho de 2002, Explicando o implícito, examinam os micro-eventos do processo psicanalítico do mesmo.
maneira que os pesquisadores da relação mãe-filho (Stern, D. 1977), por meio de observações gravadas em vídeo,
em que se podem observar detalhes da linguagem corporal, os elementos expressivos faciais e gestuais, ritmos vocais
e prosódia em geral. Nos adultos, essa metacomunicação é transmitida principalmente por meio da linguagem,
mediante a escolha das palavras, o tom e ritmo de voz, os intervalos e a prosódia.
Coderch mais uma vez sintetiza muito bem a contribuição do BCPSG (Coderch, 2010, p. 298):
Os membros do BCPSG não abandonam os conceitos básicos da psicanálise tradicional em relação a
inconsciente dinâmico, a transferência e a contratransferência, mas julgam que este nível local da regulação
intersubjetiva é onde o conhecimento relacional implícito, que foi estabelecido de forma contínua e progressiva
desde o início da vida, é reorganizado por meio da interação paciente-analista de forma mais favorável
para ambos. E este, consideram, é o nível mais profundo da vida psíquica, do qual derivam as abstrações
generalizadas que denominamos fantasias, conflitos e defesas(2007, 2008)
FOCADO
Formação Continuada a Distância
17
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
FOCADO
dezoito Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Estamos falando dos fenômenos de responsividade que ocorrem na matriz relacional terapeuta-paciente.
onde a provisão e a frustração encontram um ponto ótimo de equilíbrio em cada momento da relação, entre
as necessidades do paciente e as possibilidades e limites do analista.
As vantagens de aplicar a teoria da especificidade no ambiente terapêutico seriam:
4Minimizamos os preconceitos teóricos
quatro Evitamos a retraumatização
4Nós nos acostumamos a usar uma abordagem multiteórica
4Reconhecemos que todas as interações têm potencial terapêutico
4Relacionamos a responsividade ótima e a espontaneidade
4Gerenciamos os desencontros e falhas de responsividade ideal
4Trasladamos esta perspectiva ao enfoque da supervisão. (Ávila Espada, 2005, p. 211).
Então, o analista que trabalha no registro da responsividade ideal teria alguma semelhança com a 'mãe
suficientemente boa” de Winnicott (1960/1993) no sentido de que estaria atento às sinalizações que dá o paciente
do que espera do terapeuta e suas reações às respostas deste. O terapeuta tem consciência de sua falibilidade,
das limitações de sua compreensão, percebe seus erros e tenta recorrer a todos os seus recursos.
REFERÊNCIAS
Ainsworth, M.D.S., Blehar, M., Waters, E. e Wall, S. (1978), Padrões de Apego, Hillsdale, NJ: Erlbaum
API (2019) Dicionário Enciclopédico Inter-regional de Psicanálise de a API URL
[Link]/IPA/Diccionario_enciclopédico_de_psicoanalise
Aron, L. (1996), Encontro de Mentes, Hillsdale, NJ: The Analytic Press
Ávila Espada, A. (2005), O acesso à mudança psíquica se dá pela relação, Intersubjetivo, 2 (7) 195-220.
Ávila Espada (2013), A tradição interpessoal. Perspectiva social e cultural no psicanálise, Madrid: Ágora Relacional
(Col. Pensamento relacional n.º 8)
Bacal, H.A. (1985), Responsividade Ótima e o Processo Terapêutico, Progr. Self Psychol. 1: 202-227.
português na Clínica e Pesquisa Relacional 11 (1), 2017
Bacal, H.A. e Herzog, B. (2003), Teoria da especificidade e resposta ideal. Um esboço, Psicologia Psicanalítica,
20 (4), 635-648.
Balint, M. (1968), A falha básica. Aspectos terapêuticos da regressão, Londres: Tavistock Publ.
Balint, M. (1949), “Sándor Ferenczi, obituário 1933”, Jornal Internacional de Psicanálise, 30, pp. 215-219.
Balint, M. (1957), O médico, seu paciente e a doença, Londres: Pitman Medical Publ.
o paciente e a doença.(1986), Buenos Aires: Ed. Livros Básicos
Beebe, B.(1998), Uma teoria procedural da ação terapêutica: Comentário do Simpósio “Intervenções que afetam
mudança na psicoterapia”, Jornal de Saúde Mental Infantil, Vol. 19(3), 333–340.
Bertalanffy, L. (1968), Teoria Geral dos Sistemas, Nova Iorque: Braziller
Bleger, J. (1963/1983), Psicologia da conduta, Buenos Aires-Barcelona: Paidós
Bollas, C. (1987), A Sombra do Objeto. Psicanálise do Não Pensado Conhecido, Nova Iorque: Columbia University
Imprensa
FOCADO
Formação Continuada a Distância
19
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Grupo de Estudo de Mudança de Boston (BCPSG) (1989), Mecanismos não interpretativos na terapia psicanalítica, Int. J.
Psicanal., 79: 519-532
BCPSG (2002), Explicando o implícito, Int. J. Psychoanal. 83: 1051-1062
BCPSG (2007), O nível fundamental do significado psicodinâmico, Int. J. Psychoanal., 88: 825-842
BCPSG (2008), Formas de significado relacional: Questões na relação entre os domínios verbal implícito e reflexivo,
Psicanal. Dial.,18: 125-148
Bowlby, J. (1969), Apego e Perda, Londres: Hogarth
Brandchaft, B. (2007), Sistemas de acomodação patológica, Psicanálise. Psicologia, 24: 667-687
Bromberg, P. M. (2009), Verdade, relacionamento humano e processo relacional interpessoal, Int. J. Psicanal. 90:347-361
Bromberg, P. M. (2011), A Sombra do Tsunâmi e o Crescimento da Mente Relacional, Nova Iorque: Routledge.
Espanhola (2017), A sombra do Tsunami e o desenvolvimento da mente relacional, Madrid: Ágora Relacional
Coderch, J. (2010), A prática da psicoterapia relacional, Madrid: Ágora relacional
Coderch, J. (2012), Realidade, interação e mudança psíquica. A prática da psicoterapia relacional II, Madrid: Ágora
Relacional
Coderch, J. (2014), Avanços em Psicanálise Relacional. Novos campos de exploração na psicanálise, Madrid: Ágora
Relacional
Coderch, J. (2018), As experiências terapêuticas no processo psicanalítico. Um estudo da mudança psíquica desde a
teoria dos sistemas dinâmicos, intersubjetivos e não lineares, Madri: Ágora Relacional
Daurella, N. (2000), O caso Ferenczi ou o retorno do reprimido, Intercanvis/Intercambios, n.º 5, pp. 7-13.
Daurella, N. (2012), Trauma e retraumatização. De Ferenczi a Fonagy passando pela teoria do apego e a neurociência,
Temasdepsicoaná[Link],n.º 3
Daurella, N. (2013), Falha básica e relação terapêutica. A contribuição de Michael Balint para a concepção relacional do
psicanálise, Madrid: Ágora relacional
Daurella, N. (2018), Transferência e contratransferência sob a perspectiva da psicanálise relacional: Em busca
da responsividade óptima,Aperturaspsicoanalí[Link], 59, pp. 1-21
Ferenczi, S. (1929), O menino não bem-vindo e seu impulso de morte, em Obras Completas, Vol. 4
Ferenczi, S (1933), Confusão de línguas entre os adultos e a criança. Em Obras Completas, Vol. 4, Madrid: Espasa Calpe,
1984
Ferenczi, S. (1997), Sem simpatia não há cura. O diário clínico de 1932. Buenos Aires: Amorrortu.
Ferenczi, S. e Freud, S. (1908-1933), Sigmund Freud e Sándor Ferenczi: correspondência completa, Madrid: Ed. Síntesis,
2001
Fonagy, P. (2001), Teoria do apego e psicanálise, Barcelona: Espax, 2004
Frankel, J. (2002), "Explorando o conceito de Ferenczi de identificação com o agressor. Seu papel no trauma, a vida
cotidiana e a relação terapêutica”, Aberturas psicanalíticas, nº 11, [Link]
Freud, S. (1897), Carta 69 (21 de setembro de 1897). Trechos dos Papéis de Fliess (1950), na Edição Padrão do
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 12 pp. 259-60), Londres: Hogarth Press, 1966
Freud, S. (1909), Psicanálise, em Obras Completas, II, Madrid: Biblioteca Nova 1973, pp. 1533-1563.
Freud, S. (1910), O futuro da terapia psicanalítica, em OC, II, Madrid: Biblioteca Nova 1973, pp. 1564-1570.
Freud, S. (1912a), A dinâmica da transferência, em OC, II, Madrid: Biblioteca Nueva 1973, pp. 1648-1653.
Freud, S. (1912b), Conselhos ao médico no tratamento psicanalítico, em OC, II, Madrid: Biblioteca Nueva 1973, pp.
1654-1660
Gallese, V. e Goldman, A. (1998), Neurônios-espelho e a teoria da simulação da leitura da mente, Tendências em Cognição
Ciência,2, 493-501
Gallese, V. e Geller, J. (2006), Neurônios espelho e sintonia intencional: Comentário sobre Olds, J. Amer. Psicanal.
Assn., 55: 48-57.
Gallese, V. (2009), Neurônios espelho, simulação corporeizada e as bases neuronais da identificação social,
Clínica e Investigação Relacional, 5 (1): 34-59, 2011
Greenberg, J. e Mitchell, S.A. (1983), Relações Objetais na Teoria Psicanalítica, Cambridge, MA: Harvard University
Pressione
Jones, E. (1953-57), A vida e obra de Sigmund Freud. Trad. espanhola em Madrid: Anagrama.
FOCADO
20 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Levenson, E.A. (1972), A Falácia da Compreensão: Uma Investigação sobre a Estrutura Mutável da Psicanálise, Novo
York: Basic Books, Trad. ao português como Requiem pelo Psicanálise, Barcelona: Kairód, 1974
Main, M. & Solomon, J. (1986), Descoberta de um novo padrão de apego inseguros-desorganizado-desorientado, em Brazelton,
T.B. & Yogman, M., Desenvolvimento Afetivo na Infância, Norwood, NJ: Ablex
Marrone, M. (2001), A Teoria do apego, uma abordagem atual, Madrid: Psimática, (2ª Ed., 2009)
Masud Khan, M. (1963), O conceito de trauma cumulativo, Estudo Psicanal. Criança, 18: 286-306.
Millner, B. (1954), citada em Coderch, J. (2010), A prática da psicoterapia relacional. O modelo interativo em
campo do psicanálise, Madrid: Agora Relacional, p. 39.
Mitchell, S.A. (1988), Conceitos Relacionais em Psicanálise. Cambridge: Harvard Univ. Press
Mitchell, S. (1997), Influência e autonomia em psicanálise, Madri: Agora Relacional, 2015
Mitchell, S.A. & Aron, L. (1999), Psicanálise Relacional: O Surgimento de uma Tradição, Hillsdale, N.J.: The Analytic
Pressione
Laranja, D., Atwood, G.E. e Stolorow, R. (1997), Trabalhando Intersubjetivamente. Contextualismo na Prática Psicanalítica
Hillsdale, NJ: The Analytic Press. Trad. Portuguesa, Trabalhando intersubjetivamente. Contextualismo na prática
psicoanalítica, (2012), Madrid: Agora Relacional
Rodríguez Sutil, C. (2010), Introdução à obra de R.D. Fairbairn. As origens da psicanálise relacional, Madrid:
Agora Relacional
Roudinesco, E. (2014), Sigmund Freud em seu tempo e no nosso, Paris: Ed. du Seuil. Trad. Castellana em Madrid:
Debate.
Sandler, J. e Fonagy, P. (eds.) (1997), Memórias Recuperadas de Abuso: Verdadeiras ou falsas, Londres: Karnac Books e Int. Univ.
Pressione
Schore, A. (2011), veja seu prólogo em Bromberg, P.M., A sombra do tsunami e o desenvolvimento da mente relacional,
Madri: Agora Relacional, pp. 18-55
Stern, D. (1997), Experiência Não Formulação: Da Dissociação à Imaginação, Hillsdale, NJ: The Analytic Press
Stolorow, R.D. (1997), Sistemas Dinâmicos, Diádicos e Intersubjetivos: Um Paradigma em Evolução para a Psicanálise
Psicologia Psicanalítica, 14, 337-346
Sullivan, H.S. (1940), Concepções da Psiquiatria Moderna, rev. 1953, Nova Iorque: Norton. Trad. Espanhola, Concepções
da Psiquiatria Moderna, Buenos Aires: Psique, 1959.
Thelen, E. e Smith, L. (1994), Uma abordagem de sistemas dinâmicos para o desenvolvimento da cognição e da ação, Cambridge, MA:
MIT Press
Thompson, C. (1964), Psicanálise Interpessoal, em Green, M. (ed.), Psicanálise Interpessoal. Os Selecionados
Escritos de Clara Thompson, Nova Yorque: Basic Books
Waddington, C. (1977), Ferramentas para pensar, Nova Iorque: Basic Books
Winnicott, D. (1949), Ódio na Contratransferência, Int. J. Psychoanal., 30
Winnicott, D. (1958), A capacidade de estar só, Int. J. Psychoanal. 39, parte V
FOCADO
Formação Contínua a Distância
21
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Ficha 1.
O grupo Balint como grupo de reflexão sobre os
aspectos emocionais e relacionais na prática
sanitária
Os grupos que atualmente são conhecidos como "grupos Balint" se diferenciam de outros grupos pelo seu método e por sua
contenido
a) O método: Trata-se de um grupo constituído por diversos médicos e um psicanalista no qual são apresentados casos de
prática médica e são comentados os aspectos psicológicos e relacionais envolvidos, aproveitando a vantagem que
da ao psicanalista sua formação específica e a que dá aos médicos sua formação e sua experiência clínica.
Não é exatamente um grupo didático (onde um atua como professor e os demais como discípulos) nem um grupo
psicoterapêutico (no qual um psicoterapeuta ajuda um grupo de pacientes a compreender seus problemas emocionais
para melhorar sua saúde mental), embora os participantes aprendam e melhorem sua saúde mental.
b) O conteúdo: Difere de outro tipo de grupos na medida em que não se ocupa apenas, nem basicamente, da psicopatologia ou da
psicodinâmica do paciente, nem das emoções ou conflitos dos médicos participantes, mas sim do psicanalista
convida esses a falar sobre as dificuldades que encontram na relação com seus pacientes, com as famílias de seus
pacientes e com os demais profissionais com os quais compartilham o caso (para evidenciar, por exemplo, o
fenômeno da lacolusão no anonimato: assim Balint chamava a conivência mais ou menos consciente dos diferentes
profissionais quando nenhum deles assume a responsabilidade da abordagem integral do caso e cada um se limita
a sua parcela desentendendo-se do resto).
O resultado mais importante dos grupos Balint costuma ser um aumento da sensibilidade dos médicos em relação ao que
os pacientes e familiares necessitam, tanto no nível consciente quanto no inconsciente, de uma mudança substancial em seu
atividade profissional. Os médicos chegam ao grupo com a “ideologia terapêutica” resultante de sua formação anterior,
muito mais centrada no biológico do que no bio-psico-social. Sabem muito bem que uma proporção considerável de
os sintomas pelos quais os pacientes consultam não têm sua origem em causas exclusivamente físicas, mas chegaram
à conclusão de que, diante dessa evidência, seu papel deve se limitar a usar seu bom senso, a uma tranquilização
superficial, a prescrever sedantes, ansiolíticos ou antidepressivos, e eventualmente encaminhar para profissionais especializados
em saúde mental.
Na minha experiência como coordenadora de grupos Balint, pude constatar como, apesar de tudo, quando se trata de médicos.
jovens, como pessoas e como profissionais, talvez ainda não tenham estruturado um sistema defensivo muito rígido, e ainda
podem se permitir duvidar. Quando um deles apresenta ao grupo um caso que lhe cria dificuldades, o primeiro efeito interessante
do grupo é que experimenta como aquilo que para ele parecia senso comum em sua maneira de intervir não é tão
comum: os diferentes participantes falam a partir de diferentes perspectivas, de acordo com suas diferentes sensibilidades e capacidades
pessoais, destacam aspectos que podem ter passado despercebidos e manifestam múltiplas identificações.
A função do psicanalista neste tipo de grupo é a de procurar recolher todos esses elementos e ajudar a pensar.
Não se trata de fazer interpretações nem de dar conselhos, mas sim de estimular os participantes a aumentarem sua função
reflexiva sobre a relação que está se dando com os pacientes, os familiares e/ou os demais profissionais com os quais
compartilham a atenção ao paciente, para que possam aumentar seu repertório na hora de enfrentar situações difíceis. Está
claro que a capacidade de se relacionar com o paciente de forma a resultar terapêutica/psicoterapêutica e não
iatrogênica se baseia em uma competência pessoal de cada profissional que não pode ser adquirida nos livros nem na
aplicação mecânica de protocolos. Mas o grupo ajuda a que se produza o que Balint chamava "uma modificação"
limitada, mas considerável, da personalidade dos participantes.
Para que o grupo funcione bem, é essencial que o psicanalista não dê espaço ao que o próprio Balint chamava de "a
esterilidade ambivalente da relação mestre-aluno”, que ocorre no trato entre profissionais adultos quando um dos
FOCADO
22 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
eles adotam um tom condescendente que estimula as defesas dos outros. Para que o grupo seja fresco e criativo,
trata-se de criar um clima de cooperação entre colegas de disciplinas diferentes, não hierárquico, onde possam
manifestar espontaneamente muitas das convicções implícitas dos participantes que contribuem para perpetuar
formas de exercer sua profissão frustrantes e exaustivas, sem se sentir julgado nem perseguido, mas sim acolhido e ajudado
a imaginar alternativas mais esperançadoras.
Quando Balint começou a trabalhar com esses grupos na Clínica Tavistock, em Londres (Balint, 1957), participavam de
oito a doze médicos gerais, todos eles com uma prática médica intensa e plenamente responsáveis pelo tratamento
de seus pacientes, coordenados por um psicanalista. Os grupos se reuniam semanalmente durante uma hora e meia ou
dos. E era proposto discutir um caso que preocupasse um deles: que lhe representasse um desafio, ou que lhe interessasse, tanto
se lhe parecia penoso, independentemente disso. O interesse pelo caso não se centrava essencialmente no detalhe dos sintomas ou de
a história, mas na relação médico-paciente, no que se passava entre eles no plano emocional. O papel do animador
do grupo era tratar de despertar o interesse dos médicos por essa abordagem e fomentar a participação de todos.
O médico – e qualquer profissional que se relacione com pacientes – deve fazer um trabalho duplo: mover-se entre a
identificação simpatizante e a objetividade, entre a compreensão emocional e a intelectual. A capacidade para fazer
Este trabalho dependerá em boa medida da personalidade do médico e do que ele pode obter de sua participação.
em grupos como os Balint. Não se trata de converter os médicos em psicanalistas, mas de retomar o diálogo entre
médicos e psicanalistas. E que estes possam ajudar os médicos a melhorar suas capacidades psicoterapêuticas, ou
simplesmente terapêuticas.
Atualmente, os grupos Balint costumam ser organizados não apenas com médicos, mas também com as equipas interdisciplinares que trabalham
na assistência primária, composta por médicos, enfermeiras e assistentes sociais, e a experiência de
a interdisciplinaridade tem muito mais vantagens do que desvantagens. Uma das disciplinas pendentes nas faculdades
de Medicina é que não se ensina aos futuros médicos a trabalhar em equipe, ou em rede, e a se relacionar com os outros
profissionais envolvidos nos casos, com o que há muito risco de que ocorram "colusões no anonimato", como
advertia Balint. E, no que diz respeito à interdisciplinaridade, é muito interessante a experiência de que o coordenador seja
um psicólogo clínico e psicanalista sem formação médica, porque esse fato contribui para conseguir um clima que permite
que cada profissional aporte sua perspectiva, reconhecendo até onde chegam seus conhecimentos e até onde não.
Outro mudança que vivemos atualmente, em comparação com a época de Balint, é a feminização que tem
experimentado a medicina. Atualmente, nas faculdades de Medicina há muito mais alunas do que alunos. E isso
tem contribuído para facilitar a comunicação nos grupos Balint: já sabemos que às mulheres nos permitiu mostrar
as emoções mais do que aos homens, e isso se torna evidente também nos grupos.
Os médicos contemporâneos (especialmente nossos atuais médicos de família) compartilham com os da época de
Balint algumas fontes de ansiedade a que se somam outras mais próprias da nossa época:
4A confrontação com o sofrimento humano: doença, invalidez e morte
4O trato com pacientes e familiares difíceis e pouco colaboradores (muito angustiados, exigentes, reivindicativos,
manipuladores, muito dependentes, ambivalentes, inadimplentes ...
4O medo de errar no diagnóstico ou no tratamento.
4A escassez de tempo (agora são sete minutos por paciente: um minuto a mais do que na época de Balint!) e a falta de
espaços para poder consultar e conter ansiedades
4O manejo de informação com mensagens que implicam dor
4Os déficits na formação recebida, mais centrada no diagnóstico de doenças do que na relação com a per-
sona enferma e seu entorno.
quatroAs pressões da instituição em que trabalha o médico, concebido agora como uma 'unidade produtiva'.
Como os grupos Balint ajudam os médicos de hoje em dia? Ao contrário de outros tipos de grupos ou oficinas, não
ensinam modalidades específicas de abordagem, não oferecem guias nem protocolos de atuação, mas sim que seu objetivo é a
compreensão dos aspectos emocionais que entram em jogo na relação do médico com o paciente, e também com
as famílias e os demais profissionais que intervêm na assistência. O médico vai reconhecendo mais seu próprio estilo
de respostas, suas capacidades e seus pontos fracos, em um clima de conforto, sem exigências perfeccionistas, e vai
notando como seus sentimentos e respostas aos pacientes estão se transformando em instrumentos para compreendê-los
em vez de ser fonte de estresse ou de comportamentos contraproducentes: os pacientes que se tornavam entediantes se tornam
interessantes e os pacientes difíceis se tornam um desafio motivador.
FOCADO
Formação Continuada a Distância
23
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
Ficha 2.
A entrevista de apego para adultos
Entrevista, AAI
UM EXEMPLO DE INSTRUMENTO PARA A AVALIAÇÃO DO MUNDO REPRESENTACIONAL DO ADULTO
ELABORADO A PARTIR DA TEORIA DO APEGO
Das diferentes entrevistas semi-estruturadas projetadas para avaliar os sistemas representacionais dos adultos
elaborados a partir da Teoria do Apego, a mais conhecida é a AAI, criada nos anos 80 na Universidade de
Berkeley por Mary Main e col. Mario Marrone diz em seu livro de referência em espanhol A Teoria do Apego: um en-
foco atual, que obteve aAAIde das mãos de John Bowlby em 1985 e desde então a tem utilizado como uma instru-
mente importante para seu trabalho clínico (Marrone, 2009, p. 129).
Trata-se de uma entrevista
4formulada inicialmente para estudar processos de transmissão intergeracional
4estruturada internamente em torno de temas de apego
4que inclui elementos de questionário estruturado junto a elementos de entrevista clínica
4e conta com um sistema para processá-la e poder avaliar os modelos operacionais internos e os processos metacognitivos
tivos associados com tais modelos (tal como estes se manifestam no uso da linguagem e na associação livre do en-
entrevistado
FOCADO
24 Formação Continuada a Distância
Conselho Geral da Psicologia da Espanha
A seguir, pergunta-se: Com qual de seus pais você se sentia mais próximo e por quê? Por que não existe esse sen-
sentimento com o outro progenitor?
A seguir: O que você fazia quando era pequeno se estivesse chateado ou preocupado? Para descobrir até que
ponto podia comunicar-se com alguém do seu entorno quando precisava de ajuda ou de uma resposta empática. Aqui tam-
Bem, pode-se pedir que ilustre com algum acontecimento específico: Alguma vez você esteve doente quando era pequeno?
Você se lembra do que acontecia?
Depois, sobre as experiências de separação e seu significado emocional: Quando foi a primeira vez que você se lembra de uma
separação sua de seus pais? Como você e eles responderam? Há outras separações que se destacam em sua memória?
E sobre as experiências de rejeição: Alguma vez você se sentiu rejeitado quando era pequeno?, complementado com perguntas
encaminhadas a ver se o entrevistado tem a capacidade de ver a situação exclusivamente do seu ponto de vista ou
o de outros.
E sobre as experiências de se sentir ameaçado. E sobre se contava com outros adultos a quem recorrer. E sobre se
houve mortes, e como processou os lutos.
E sobre se houve muitas mudanças no relacionamento com seus pais desde a infância até agora.
E sobre seus desejos para seus filhos, para que se realizem depois de vinte anos.
1. 4. Aplicações clínicas
Marrone nos lembra que Freud pedia ao paciente que praticasse a "associação livre" nas sessões de psicanálise.
sis, e todo paciente que comparece a uma sessão sabe que o objetivo da análise é falar sobre sua vida emocional e de rela-
ações íntimas, com os pensamentos, fantasias e sentimentos concomitantes.
Mas nem todos os pacientes são capazes de associar livremente, de cooperar com o psicanalista na busca de uma
narrativa coerente, nem todos correspondem ao tipo de apego seguro. E aqui surge o problema:
Os pacientes que podem utilizar melhor a associação livre são geralmente os menos necessitados de terapia. São os
pacientes que realmente podem associar. Sua narrativa tende a ser coerente e seu estilo é cooperativo. Outros pacientes,
em vez disso, têm maiores dificuldades para associar. Alguns apresentam uma produção e encadeamento de ideias,
imagens e sentimentos muito pobres. Então o terapeuta pode se sentir muitas vezes frustrado ou entediado. Outros pa-
cientes falam de maneira caótica, omitem elementos importantes para se fazerem entender e, ao mesmo tempo, fazem
digressões irrelevantes. Nesses casos, o analista pode se sentir saturado, sobrecarregado e com dificuldades para conter
e dar sentido a semelhante caudal de palavras (Marrone, 2009, p. 154)
Assim, o terapeuta que entende que seu paciente corresponde a alguns dos padrões de apego inseguro, coisa
bastante provável na clínica atual, não pode esperar processos de associação livre e cooperação na exploração
sem problemas, e deve promover o desenvolvimento da função reflexiva buscando caminhos específicos para as necessidades
dados do paciente cuidando sobretudo que a relação entre ambos ofereça uma experiência do que pode ser
uma base relacional mais segura.
FOCADO
Formação Continuada a DistÂncia
25