1.1.
Apresentação da Gramática
Segundo Franchi (1991), a gramática é apresentada como o estudo das regras e
estruturas que regem uma língua, abarcando tanto a forma escrita quanto a oral, e pode
ser vista de diversas formas: como um conjunto de normas para o uso correto da língua
(gramática normativa) ou como um estudo científico das estruturas linguísticas
(gramática descritiva).
1.1.1. Gramática Normativa
Conjunto de regras que devem ser seguidas. É em geral a definição que se adota nas
gramáticas pedagógicas e nos livros didáticos. Esses compêndios se destinam a fazer
com que seus leitores aprendam a “falar e escrever corretamente”. Apresentam um
conjunto de regras, que, se dominadas, produzem como efeito o emprego da variedade
padrão (escrita e/ou falada). Nessa perspectiva, dizer que alguém “sabe gramática
significa dizer que esse alguém conhece essas normas e as domina tanto nocionalmente
quanto operacionalmente” (Franchi, 1991)
Características:
Variedade da língua descrita: padrão (culta);
Tudo o que foge ao padrão é “errado” e o que atende a ele é “certo”;
Descreve os fatos linguísticos com base no uso consagrado pelos bons
escritores;
Concebe a gramática como algo definitivo e absoluto;
Principais argumentos para fundamentar e exercer o seu papel prescritivo: de
natureza estética, elitista, comunicacional, política, histórica;
São considerados erros enunciados do tipo: “eu vi ele sábado”; “os menino já
chegou”; “me empresta seu lápis”; “nois trabaia na pexaria”.
1.1.2. Gramática Descritiva
Conjunto de regras que são seguidas. O objetivo dessa gramática é descrever e/ou
explicar as línguas tais como são faladas. Nesse tipo e trabalho, a preocupação central é
tornar conhecidas, de forma explícita, as regras de fato utilizadas pelos falantes
(Franchi, 1991).
Há diferenças e semelhanças entre as gramáticas normativas e descritivas. A distinção
se processa em decorrência do fato de que as línguas mudam e as gramáticas normativas
continuam propondo regras que os falantes seguem raramente, ou não seguem mais: uso
do pronome vós; do mais que perfeito; dos futuros sintéticos; do infinitivo verbal com
“r”, do pronome reto ele (e flexões) como complemento verbal direto; etc.
A semelhança se dá porque as gramáticas normativas distribuem as palavras em classes
diferentes, quando distinguem partes da oração, ou quando segmentam as palavras em
radical, vogal temática e desinência; nesse caso, as gramáticas normativas são
descritivas, por isso elas se confundem. Mas, frequentemente, as passagens descritivas
das gramáticas normativas referem-se às formas “corretas” de uso da língua.
Por outro lado, a característica fundamental de uma gramática descritiva é não ter
nenhuma pretensão prescritiva. Esses estudos sobre a língua em uso são importantes
para o trabalho do professor de língua materna que pretende desenvolver a competência
comunicativa de seu aluno ou descrever-lhe como é e como funciona a língua que ele
utiliza ou levá-lo a observar esses mecanismos.
Usos que são considerados errados para a gramática normativa, não o são para a
descritiva, porque atendem às regras de funcionamento da língua em uma das suas
variedades. Quanto mais variedades forem descritas, melhor será a gramática (Franchi,
1991).
Nessa perspectiva, saber gramática significa ser capaz de distinguir, nas expressões
linguísticas, as categorias, as funções e as relações que entram em sua construção,
descrevendo a sua estrutura interna e avaliando a sua gramaticalidade.
Comumente, as gramáticas descritivas recebem nomes referentes às correntes
linguísticas segundo as quais foram construídas: estrutural, gerativa-transformacional.,
funcional etc.
Características:
Variedade da língua descrita: qualquer uma; - tudo o que atende às regras e
funcionamento da língua (forma – função – significado) de acordo com
determinada variedade é considerado gramatical;
Representantes dessa concepção: teorias estruturalistas que privilegiam a
descrição da língua oral, teoria gerativo-transformacional (que trabalha com
enunciados ideais, visando estabelecer um modelo geral, baseado em princípios
universais, do qual derivam as gramáticas de cada língua particular) e as teorias
variacionistas (que defendem que a variação e a mudança linguísticas são
influenciadas por aspectos tanto sistêmicos, internos à própria língua, quanto
externos, devido a pressões sociais).
São considerados fatos constantes o uso do “te” para se referir a “você”; uso de
“a gente” tanto na posição de sujeito: “a gente foi à festa”, quanto na posição de
complemento: “ela viu a gente”. Tais usos são vistos como problemas para a
gramática normativa.