Conexões Entre Afeto
Conexões Entre Afeto
Uberlândia
2022
MARIA PAULA DUTRA MARTINS
Uberlândia
2022
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MARIA PAULA DUTRA MARTINS
Banca Examinadora
Uberlândia
2022
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AGRADECIMENTOS
Agradecer, um ato que autoriza que o outro saiba como sua ação lhe afetou
Eu não poderia começar este ato sem priorizar a criança interior que vive em mim e que,
ao me mostrar como até hoje afeta meu eu adulto com suas experiências passadas, dores e
Agradeço à minha vó Altair que zelou desta criança mesmo nos momentos em que ela
acreditava estar sozinha. Essa mãevó que até hoje representa a palavra casa.
Agradeço ao meu pai Fabian por todo seu esforço em sua trajetória de vida para poder
A todos os meus amigos que me ensinaram muito, tanto sobre a vida quanto sobre mim.
À equipe da clínica Espaço da Criança que tem me acolhido desde o primeiro contato e
Ao João Luiz e ao Wesley por terem confiado em mim e me ajudado tanto nesta fase
A todas as crianças com possíveis diagnósticos de autismo que tem enchido meu
coração e me feito aprender muito sobre como nos relacionamos com o mundo.
minha experiência com o mundo e, até hoje, que geraram em mim uma experiência afetiva
positiva ou negativa. Tudo que me transpassou foi de extrema importância para que hoje eu
4
“Tu não és nada ainda para mim …E eu não tenho necessidade de ti. E tu
ti única no mundo…
não dirás nada. A linguagem é uma fonte de malentendidos. Mas, cada dia,
5
RESUMO
A Psicologia do Desenvolvimento Humano destaca a importância da dimensão afetiva para a
consolidação das mais importantes habilidades humanas. Esta abordagem compreende que no
Transtorno do Espectro Autista (TEA) um déficit na capacidade de conexão afetiva antecede
os sintomas característicos dos critérios de diagnóstico. Dentre os modelos interventivos que
atuam sobre este déficit afetivo primário se destaca o DIR/Floortime. Apesar deste programa já
ter se consolidado no campo internacional, ele ainda é emergente nas produções científicas
brasileiras, tornandoo pouco conhecido e de difícil acesso. As poucas produções existentes
sobre o modelo apresentam críticas que carecem de respostas fundamentadas. O objetivo deste
trabalho é compreender o papel do afeto para intervenção clínica no Transtorno do Espectro
Autista (TEA) a partir do modelo DIR/Floortime. A metodologia envolveu a revisão
bibliográfica narrativa para fundamentação teórica. Foi possível verificar que o afeto ocupa um
papel central no DIR/Floortime, sendo a base para a explicação quanto à gênese do autismo,
para a construção teórica do programa de intervenção e para fundamentar a prática dos
profissionais.
6
ABSTRACT
The Psychology of Human Development highlights the importance of the affective dimension
for the consolidation of the most important human abilities. This approach understands that in
Autism Spectrum Disorder (ASD) a deficit in the capacity for affective connection precedes the
symptoms characteristic of the diagnostic criteria. Among the intervention models that act on
this primary deficit, the DIR/Floortime stands out. Although this program has already been
consolidated in the international field, it is still emerging in Brazilian scientific production,
making it less known and accessible. The few existing productions on the model present
criticisms that lack reasoned answers. The objective of this work is to understand the role of
affection for clinical intervention in Autism Spectrum Disorder (ASD) from the DIR/Floortime
model perspective. The methodology involved a narrative bibliographic review for theoretical
foundation. It was possible to verify that affection occupies a central role in the DIR/Floortime,
being the basis for the explanation regarding the genesis of autism, for the theoretical
construction of the intervention program and to support the practice of professionals.
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SUMÁRIO
SUMÁRIO 8
INTRODUÇÃO 10
METODOLOGIA 13
CAPÍTULO 1 14
CAPÍTULO 2 24
DIR/FLOORTIME 24
CAPÍTULO 3 30
AFETO E DIR/FLOORTIME 30
REFERÊNCIAS 42
8
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INTRODUÇÃO
cultura ocidental. A dicotomia entre razão e emoção se faz valer até hoje dentro das
pergunto: O que aconteceria a toda sociedade ocidental se fosse dado como fato que até mesmo
a melhor tomada de decisão racional tem origem nas disposições afetivoemocionais? Que tipo
futuro?
Talvez uma das mais importantes observações para quem estuda o desenvolvimento
atípico é perceber que esta dualidade não pode ser concebida como sendo dissociada. Dentro
de comportamento etc.
acabaria por suscitar no Transtorno do Espectro Autista (TEA) e que os sintomas característicos
aquisição desta habilidade como meta primária (FioreCorreia & Lampreia, 2012).
11
(Oliveira, 2009; FioreCorreia & Lampreia, 2012) que destacam a falta de explicação dos
modos de operacionalização para estabelecer a conexão afetiva e a não atuação nos sintomas
conteúdo científico em nossa língua natal faz com que este seja, muitas vezes, incompreendido.
Em minhas pesquisas nos principais canais de periódicos de psicologia do Brasil, pude observar
que o uso deste modelo de intervenção ainda é emergente no Brasil, há uma carência em
crianças nascidas já é identificada dentro do espectro autista TEA (CDC Center for Disease
Control and Prevention, 2021). Se comparamos a coleta de 2014 desta mesma rede, o número
era de uma a 68.1 No entanto, ainda não se sabe se o aumento dos números se refere ao aumento
dos casos ou apenas à melhora na obtenção dos dados diagnósticos (Almeida & Neves, 2020).
1
Até a década de 1970 – 1: 25.000; Entre 70 80 – 1: 2.500; Entre 90 2014 1: 110
120 e variável até 1:59 (CDC www.cdc.gov/autism/data.html).
11
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De toda forma, os números são expressivos e o Brasil, apesar de estar evoluindo com
implementação de novos direitos às pessoas dentro do Espectro, ainda falha em dar uma
campo dos cuidados com as crianças autistas, pude notar que até mesmo os planos de saúde são
seletivos e autoritários sobre a decisão quanto a qual e como o tratamento deve ser aplicado.
Neste sentido, vimos que todo e qualquer recurso que venha ampliar o conhecimento e as
Diante deste cenário, este trabalho busca ressaltar o déficit primário do autismo ao
focalizar o afeto. Ele visa compreender o papel do afeto na/para intervenção clínica do
Para tanto, fazse necessário que tomemos como ponto de partida, no primeiro capítulo,
Também almejase que esse possa contribuir para pesquisas futuras e até mesmo que possa vir
12
13
METODOLOGIA
desenvolvido por meio de uma pesquisa básica descritiva bibliográfica. Ao discorrer sobre essa
importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema”.
Como elencado anteriormente, o tema desta pesquisa é a contribuição do afeto para intervenção
Para a obtenção dos dados, foi feita uma análise minuciosa das fontes documentais
obtidas pelo uso dos descritores postos de forma isolada: DIR, D.I.R., DIR/Floortime e
palavras autismo, conexão afetiva e desenvolvimento, desde que dessem o mesmo sentido ao
campo de busca.
português e boa parte possuía acesso restrito. Assim, foi necessário recorrer às teses e à
produção científica internacional. Em virtude do modelo ter sido construído por Stanley
Greenspan e Serena Wieder, suas principais obras foram exploradas. Como procedimento
metodológico foi feita uma revisão narrativa que incluiu leitura sistemática e fichamentos das
fontes consultadas.
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14
CAPÍTULO 1
construtivista social e o enfoque, antes puramente biológico, passa a confluir com os processos
social e os aspectos consequentes das interações sociais. Esta coesão que se estabelece se faz
Na década de 50, se estabeleceu um panorama em relação aos prejuízos sociais, já nos anos 70
e 80 sobreveio tratarse de um distúrbio cognitivo. No final dos anos 80 e início dos anos 90,
voltase ao posicionamento de Kanner e aos prejuízos sociais, por conseguinte apreendese que
(Lampreia, 2004).
14
15
palavra afeto visto que esta acarreta múltiplas interpretações. A concepção de Maturana (2001,
p.129) que o retrata como “disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de
ações”, ou a de Itskovich (2019, p.7) que afirma ser “a manifestação externa das emoções,
expressa principalmente em atos motores”, são as mais próximas empregadas para os objetivos
deste trabalho. Todavia, cabe lembrar que a expressão afetiva fornece uma estimativa precisa
de matizes e alcance do estado interno, posto que todo sistema relacional se apoia sobre
Itskovich, 2019).
Assim, para este enfoque, um desvio primário de causas biológicas não bem
Wetherby, 1998).
A comunicação não verbal tem ganhado atenção dos autores desta vertente e seu déficit,
15
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portanto, uma intenção comunicativa que se estabelece em uma tríade (Carpenter & Tomasello,
Cabe ressaltar que o apontar pode ser protoimperativo, utilizado para atender a um determinado
linguagem que, segundo eles, se estabelecem majoritariamente até os doze meses de idade e
podem aparecer escassas ou inexistentes no autismo, são elas: (1) troca de olhares para com um
objeto, (2) seguir o olhar do adulto visando encontrar seu foco de interesse, (3) atender ao
Lampreia (2004) reforça que os danos linguísticos no autismo envolvem, além das
interpretar a intencionalidade comunicativa do outro para si própria, ou seja, precisa ser capaz
de estabelecer uma atenção compartilhada em que o outro antecede a mesma (Carpenter &
Tal como elucida Oliveira (2009, p.24), “o engajamento afetivo é que permitirá que se
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Estas observações levam a crer que o bebê com risco de autismo apresenta prejuízos no
Hobson (2002) corrobora com Oliveira ao postular que há no TEA prejuízos inatos para
engajamento socioemocional.
das pessoas, Hobson (2002) constatou a existência de reações afetivas responsivas, indicando
uma capacidade inata do ser humano para a conexão afetiva, definida como capacidade de
Assim, para este autor, a conexão afetiva é o que permitirá diferenciar as pessoas das
coisas, sendo as pessoas inicialmente um “tipo de coisa” com a qual se pode sentir, compartilhar
ao bebê expressar até mesmo seus próprios afetos (Hobson, 2002, 1993).
Trevarthen e Aitken (2001) também constataram que as interações diádicas entre o bebê
e seu cuidador devem ser reconhecidas como a base dos precursores da linguagem, visto que as
intersubjetividade primária que se concretiza até os primeiros nove meses de vida. Os autores
que tais trocas são permeadas de volume afetivo ao repararem que o bebê capta diferenças na
17
18
como um precursor gestual e verbal conduzido pela ligação afetiva. Portanto, a imitação
antecede a atenção compartilhada e sua falta tornase também um sinal de alerta para o TEA.
próprio, o ambiente e suas relações. Há em sua Teoria do Desenvolvimento dos Sensos do Self
hierarquizado, apenas ilustra um fator conectivo entre bebê e seu cuidador, sem elencar as
experiências subjetivas e diferenciação do euambiente (Brazão & Rauter, 2014; Piaget, 1972;
Stern, 1985)
Stern (1985) caracteriza como “senso do self” a perspectiva subjetiva primária que
organiza a experiência social e por essa razão assume um papel central como fenômeno que
domina o desenvolvimento social inicial. Até os dois anos de uma criança, quatro sensos são
designam um contínuo funcional, dinâmico, evolutivo e não linear que após adquiridos atuam
simultaneamente.
No período entre 0 à 2 meses (senso de self emergente), Stern (1985) aclara que as
experiências infantis são mais unificadas e globais, concedidas por meio de sensações,
Desde que é introduzido à vida, o bebê está apto para perceber, atuar e sentir a si mesmo
18
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próprias ações e sentimentos do bebê, sendo que a única perspectiva que ele tem da vida é dada
pelo que agarra por sua atração ou desejo, assim como pelo que repele ou tenta se livrar. Tudo
Através de seus estudos experimentais, Stern (1985) conclui que, inicialmente, para o
amodais.
vida de transferir e integrar a experiência perceptiva de uma modalidade sensorial para outra.
Na relação interpessoal, essas qualidades são apreendidas pela percepção fisiognômica que
caracteriza a atração do bebê desde os primeiros dias de vida pela face humana, dando início às
Para Stern (1985), são os afetos de vitalidade que permitem a distinção entre o animado
afetos que se expressam como alegria, medo, raiva etc. São sentimentos capturados por termos
dinâmicos e cinéticos balançar, sumir, mexer etc. e por mudanças nos processos vitais, como
emoções etc. Cabe ressaltar que não é excluída a experiência direta oferecida pelos afetos
organização do self para amadurecer e vivenciar o período do 2° ao 6° mês, que Stern (1985)
19
20
aprendizagem, estão mais vigilantes, com maior atenção, há amadurecimento dos padrões
motores e maior inteligência sensóriomotora. O bebê adquire um novo senso de self (nuclear)
do mundo.
passa a regular os níveis de excitação corporal e os estados afetivos através da relação consigo
mesmo ou com algum objeto animado ou inanimado fora de si. Existe um elo indissociável
entre as experiências sensoriais e o afeto conectado à experiência que permite que as expressões
afetivas sejam sentidas. Existem, inclusive, sensações que só são vividas por meio das inter
de objetos, maior engajamento com as pessoas e, por conseguinte, maior sociabilidade (Stern,
Sobre as interações sociais, Stern (1985) notou que os bebês aparentam estar
É como se suas ações, planos, afetos, percepções e cognições pudessem agora ser
acionados e focados, por um instante, em uma situação interpessoal. Eles não estão
simplesmente mais sociais, ou mais regulados, ou mais atentos, ou mais espertos. Eles
parecem abordar o relacionarse interpessoal com uma perspectiva organizadora que faz
sentir como se agora existisse um senso integrado deles próprios como corpos distintos
e coerentes, com controle sobre suas próprias ações, posse de sua própria afetividade,
20
21
entendimento pleno do eu, mas a vivência de si e a vivência com o outro que motivará a
concepção de si.
Por volta do 7° ao 9° mês novas capacidades são adquiridas e, nos fundamentos de Stern
intencional do bebê e, portanto, é nesse ponto que desperta a tríade comunicativa (bebêpessoa
linguagem que se concretiza por volta do 18° mês de vida. As quatro experiências do self
como base para compreensão das capacidades que permitem o desenvolvimento de um eu
social, perceberemos que dentro do espectro autista estão pessoas que não puderam desenvolver
de forma harmoniosa os dois primeiros sensos do eu, o senso de um self emergente e o senso
Afinal, em muitos casos de TEA vemos a falta de integração dos aspectos sensoriais
21
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capacidades que geralmente se estabelecem nos primeiros sensos e que servem de base para
Isto evidencia que a capacidade de conexão afetiva pode ser utilizada como um sinal
Relacionamento). Todas as siglas foram traduzidas da língua inglesa (Leal, 2018; Guedes &
Tada, 2015).
Tais programas, por terem uma base desenvolvimentista, possuem alguns pontos em
2
Capacidade de inferir a respeito dos estados mentais dos outros por meio de uma
medida sistema de referências que viabiliza comparações entre nosso mundo interno, subjetivo
e o mundo externo, dos outros daquilo que os outros pensam, sentem, desejam, acreditam,
duvidam etc (Caixeta & Nitrini, 2002).
22
23
DIR/Floortime enfatiza este déficit primário como meta inicial. Para este modelo, o primeiro
elemento que deve se desenvolver é um senso de relação (FioreCorreia & Lampreia, 2012;
23
24
CAPÍTULO 2
DIR/FLOORTIME
idealizado por Stanley Greenspan e Serena Wieder, por volta dos anos 80, após mais de 25 anos
É um modelo abrangente que tem como principal objetivo permitir que as crianças
capacidades sociais, cognitivas e de linguagem. É utilizado tanto para avaliação quanto para
intervenção. Seu tripé constitutivo é dado pelas letras postas em sigla: D Desenvolvimento, I
infantil adotaram os marcos DIR como a medida do desenvolvimento socioemocional por meio
Colocase uma idade esperada para aquisição das habilidades dos estágios básicos de
alerta para a necessidade de estabelecimento destas estruturas para que a mente não funcione
24
25
Pelo fato do Transtorno do Espectro autista indicar uma disfunção principalmente nos
estágios anteriores à linguagem, apenas os 6 níveis básicos serão ilustrados a seguir com base
Fonte: Material confeccionado pela própria autora com base na elaboração de Greenspan e
Wieder (2006).
A “Autorregulação e Interesse pelo Mundo” é o nome dado para o primeiro estágio que
alerta para a necessidade do bebê de estar calmo, regulado e apto a prestar atenção e reter
informações das experiências que vivencia em si e com o outro. Tal estágio pode ser afetado se
5 meses, os bebês passam a expressar suas preferências afetuosas e o prazer que recebem de
seus cuidadores permite que comecem a reconhecer e decifrar padrões e organizar percepções
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26
com os cuidadores que estimulam a resposta do bebê. Este passa a transformar as emoções em
curiosidade e passam a fazer uso da imaginação, do faz de conta e dão melhor uso a linguagem.
senso de realidade.
anterior pode acarretar déficits nos estágios superiores e sintomas secundários, como a ecolalia
Muitas vezes é necessário voltar aos estágios mais básicos que apresentam “lacunas”
determinado nível, mas transita por eles, visto que estão interligados (Leal, 2018).
não apenas para o desenvolvimento emocional, mas também para o desenvolvimento cognitivo,
As individualidades são abordadas pela letra “I”. Nela estão incluídas as diferenças de
26
27
deve ser adaptada tendo como referência aspectos interdependentes singulares (Greenspan &
A família, a escola e todas as outras pessoas que fazem parte da rotina diária entram
como uma peçachave visto que as crianças que têm mais progresso são aquelas que estão
especificidades dessa rede para poder auxiliálos nesse processo (Greenspan & Wieder, 2000,
2006).
DIR seja trabalhado por meio de uma equipe multiprofissional, composta por especialistas das
terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, pedagogos, etc.). Estes últimos devem integrar seus
resultados (Chaim & Suassuna, 2016; Greenspan & Wieder, 2000, 2006).
dentro no modelo DIR. Consiste num modo de intervenção interativa, lúdica, espontânea,
criativa e, tal qual o nome indica, posicionada ao chão para que o adulto “desça” até a estatura
27
28
Greenspan e Wieder (2006) expõem que essa estratégia apresenta dois objetivos
principais. O primeiro é “seguir a liderança da criança”, e, para isso, usufruise dos interesses
naturais explicitados, seguese o que é por ela sugerido e juntase à criança em seu próprio
mundo para, a partir disso, elaborar uma série de oportunidades e desafios que venham auxiliá
interesses da criança. Tratase de um movimento interacional gradual que permite que a criança
deseje estar em uma relação, pois aquilo que vem sendo feito está de certa maneira se tornando
socioemocionais.
linguagem, cognição e habilidades sociais. Cabe frisar que alguns casos específicos também
precisarão de atividades relativamente estruturadas por determinado período. Outro alicerce são
coincide um ao outro. Por meio deste referencial, admitese ser possível influenciar
comunicar, mesmo para crianças com problemas graves, trabalhando com suas emoções ou
afetos. Também pode ser usado em adolescentes e adultos, sendo feitas as adaptações
28
29
Os marcos não consolidados podem ser adquiridos por meio de interações afetivas entre
a criança e os parceiros de brincadeira, que possuem um papel ativo para abertura de novos
desenvolvimento cerebral e a intervenção com uma criança com TEA deve ater, em primazia,
29
30
CAPÍTULO 3
AFETO E DIR/FLOORTIME
elencados (Aitken, Hobson, Stern, Trevarthen etc.), Greenspan (1997) também postula que as
interações afetivas surgem antes dos esquemas sensóriomotores de Piaget (1972), e que as
mesmo. Ele também concorda que é por meio dessas interações que primordialmente passamos
Afetiva (The Affect Diathesis Hypothesis). Para formular tal presunção, Greenspan (2001)
concluiu que este é necessário para fornecer intenção às ações e significado para as palavras.
Neste sentido, sua formulação sugere que o Transtorno do Espectro Autista envolveria uma
Considere uma criança de 14 meses que pega seu pai pela mão e o puxa para a área de
brinquedos, aponta para a prateleira e faz gestos para pegar um brinquedo. Quando
papai a pega no colo e pega o brinquedo, ele balança a cabeça, sorri e borbulha de prazer.
Para que essa interação social complexa e de resolução de problemas ocorra, o bebê
precisa ter um desejo ou desejo emocional (ou seja, intenção ou interesse afetivo) que
indique o que ele quer. A criança então precisa conectar seu desejo ou interesse afetivo
a um plano de ação (ou seja, um plano para obter seu brinquedo). Os afetos que dão
direção e o plano de ação juntos permitem que a criança crie um padrão de interações
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31
próprio corpo com padrões perceptivos motores rítmicos e mediados afetivamente. Logo, o
afeto investe não apenas na capacidade de se relacionar e de interações complexas para dar
2001).
estágio, os bebês apresentam padrões afetivos globais e/ou catastróficos. Nesta fase, os afetos
estão ligados aos sentidos e experiências fisiológicas. Com a adaptação aos sentidos, ao mundo
e à progressão das primeiras interações afetivas, passa haver um engajamento contínuo com os
do DIR/Floortime como inata ao ser humano. Por meio dela, os padrões perceptivos se tornam
pelos afetos intencionados nessas interações. O prazer gerado permite exploração do mundo,
motor síncrono no ritmo da comunicação afetiva da mãe por meio de voz, expressões faciais ou
8 meses, o bebê, que antes vivenciava apenas afetos ligados às experiências fisiológicas, passa
a experienciar afetos complexos como surpresa, alegria, medo, curiosidade etc. Ambas as
a formação simbólica primordial, passa a emergir entre 9 e 18 meses de idade. Os bebês passam
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32
relação às habilidades motoras, eles se utilizam de padrões que envolvem três ou quatro passos
para conseguirem algo desejado, passando a organizar emoções, desejos e a resolver problemas
Nesta fase é dada uma grande ampliação das habilidades de processamento viso
espacial, motora e sensorial. Quando a criança mostra intencionalidade, gera uma ação e obtém
um resultado, há um senso de um “eu” que atua sobre o mundo. Este é o quarto estágio, em que
Greenspan & Wieder (2006) colocam que, para compreender e usar palavras e
linguagem, as crianças devem primeiro ser capazes de se engajar em uma sinalização emocional
complexa que lhes permita separar ações de percepções e manter imagens em suas mentes. Ao
e ideias. Portanto, não há linguagem sem antes haver experiências emocionalmente relevantes.
no quinto nível.
Por fim, para que o sexto nível se consolide, a criança precisa ser capaz de conectar os
leva a outras habilidades superiores e atinge seu marco por volta dos 4 ou 5 anos.
com as externas e fazem distinções entre ambas. O investimento emocional das relações permite
que elas reconheçam as diferenças entre o que está dentro dela, suas fantasias, ideias e
32
33
sensorial e motora. A não integração refreia as possibilidades de interação com o mundo, perde
se momentos em que poderia estar criando vínculo com o cuidador (Greenspan & Wieder, 1997,
autoabsorção. O déficit na comunicação em díade torna difícil realizar sequências mais longas
usálas de forma fragmentada, e a ecolalia poderia vir a ser um possível sintoma (Greenspan &
poderia vir a ter reações emocionais exageradas ou evitação de situações sociais e emocionais
pela dificuldade de percepção e leitura errônea de interações sociais. Sendo assim, quando se
muitas vezes, são as consequências deste déficit de conexão afetiva que inferem “lacunas” na
indivíduo com risco de diagnóstico, visto que cada aspecto singular e experiência única com o
mundo resulta num perfil ímpar que exige a construção de metas de acordo com essas
33
34
maiores “lacunas” se encontram principalmente no nível quatro abaixo, ainda que de forma
multifacetada.
possível verificar quais habilidades cada criança adquiriu e quais precisam ser melhor
trabalhadas para consolidação de uma base que permita a diminuição dos sintomas e a emersão
dos próximos estágios. Por estas razões, o DIR/Floortime trabalha com o “High Affect” ou
“Afeto Elevado”, que se baseia no uso elevado de estimulação do afeto durante sua intervenção,
Para executar o “High Affect”, o especialista DIR deve, por meio de uma análise
cuidadosa, conhecer o perfil de processamento sensorial e motor da criança que virá a participar
desta mediação. Não é incomum que crianças dentro do espectro autístico apresentem
equilíbrio comprometidos. Em outras, atividades que exigem práxis serão as mais desafiadoras.
Geralmente há uma combinação específica de modulação que gerará um perfil único, este por
sua vez também sofrerá influência de outras características pessoais, como a personalidade
Cabe ao profissional verificar as diferentes maneiras que suas crianças atuam sobre as
sensações e interagem com o mundo e captar como a criança dá sentido, compreende, organiza
e responde a essas vivências. Neste sentido, o interventor DIR deve ser capaz de regular o “High
Affect” a ser emitido e adaptar as táticas utilizadas para poder expandilo. Esta decisão se
34
35
Os sentidos e as capacidades motoras devem ser aproveitados para atrair a criança para
desafios são inseridos. Porém, a todo momento o “Affect” adaptado se faz presente, este pode
ser expresso de diversas maneiras, por toque, expressão facial, canto, movimento etc.
variações a depender da criança que se faz presente. Para Itskovich (2019), o afeto elevado do
praticante tornase um fator compensatório que pode ativar a função insuficiente dos neurônios
espelhos de uma criança e estimular a neurocorreção. Cabe ressaltar que toda abordagem
Isto posto, verificase que o maior desafio de um praticante DIR é descobrir como
“cortejar” sua criança, expressão conotativa que Greenspan e Wieder utilizam e que implica a
uma intervenção sob medida. É provável que para aqueles que nunca experienciaram a prática
Na opinião de Oliveira (2009) o DIR/Floortime “carece em mostrar como deve ser feito
o desenvolvimento do engajamento afetivo, que técnica se deve utilizar para esta finalidade”.
FioreCorreia & Lampreia (2012) ratificam esta afirmação ao afirmarem que este modelo “parte
do prejuízo primário do transtorno autista, mas, além de não nos oferecer ferramentas para
sanarmos esse prejuízo, não trata adequadamente todos os prejuízos secundários do transtorno,
não mostra como executar o percurso dos níveis e não enfatiza os comportamentos da atenção
35
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Em relação à atenção compartilhada, esta crítica não pode ser fundamentada, pois se
este programa visa auxiliar a percorrer todo o percurso entre os estágios, todas as habilidades
dos estágios serão abarcadas, assim como a atenção compartilhada que se encontra no quarto
estágio. Já ao que tange as técnicas, mesmo após proferir o uso das técnicas do Floortime,
aprofundamento do “R”. Além disso, foi possível perceber que a prática do DIR/Floortime é de
Ainda assim, alguns caminhos foram oferecidos: a) Ver o que dá prazer à criança e
repertório de maneira gradual e dentro do que pode ser suportado; c) Uso de expressividade
facial geral em combinação com prosódia rítmica; d) Sintonizar respiração e voz ao ritmo da
“interferências”; f) Originar ações que gerem novas emoções na criança, ou seja, evidenciar
que há mais prazer quando se está com o outro; g) Uso deliberado da posição do próprio corpo
ferramentas que permitam a livre expressão, despertar a consciência corporal através das
atividades sensoriais, ser paciente e não levar ansiedade ao processo, confiar na capacidade de
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demanda. Também não é alinhado como proceder quando não há apoio multiprofissional ou
áreas do conhecimento, os profissionais que são formados nas principais universidades do país
Psicologia, por exemplo, a falta de domínio dos processos de integração sensorial, muito bem
Logo vemos que, para trabalhar com o DIR/Floortime, é necessário um grande processo de
aprendizagem e especialização.
Além disso, as poucas clínicas brasileiras que trabalham com o DIR/Floortime ainda
linguagem não pode emergir. Neste sentido, temos que valorizar o alerta do DIR/Floortime e
refletirmos sobre nossas propostas de intervenções atuais. Afinal, o foco deve ser o processo e
Em conclusão, todas essas pontuações permitem afirmar que o afeto ocupa um papel
37
38
caminha a passos lentos, e, portanto, tornase relevante que o campo científico integralize os
38
39
CONSIDERAÇÕES FINAIS
das características que podem ser apresentadas, demonstrando que apesar de possuírem a díade
diagnóstica em comum, cada pessoa dentro deste Espectro é única. Uma das propostas do DIR
é justamente levar a compreensão de que cada criança deve receber um tratamento que se atente
Este é um aspecto comum a todas essas crianças, a de que merecem ser enxergadas para
além do diagnóstico. E assim como todo e qualquer ser humano, precisam do afeto para
experienciar o mundo e sobrepor os desafios dados pela vida. Afinal, por meio dele,
construímos a consciência de nós mesmo e nos tornamos seres relacionais. Ao longo de nossa
trajetória textual apreendemos como este é necessário para a aquisição das habilidades básicas
Este trabalho surge do brilho do olhar trocado e presenciado pela autora em diversas
crianças no contexto clínico. Foi este brilho que a alertara para o fato de que a resposta estava
ali, na conexão do afeto. O relacionamento afetivo permite que os terapeutas descubram como
promover este brilho, sua conquista é o processo prazeroso que constrói a vontade de ofertarmos
o melhor de nós durante a intervenção. Para a criança, este vínculo fornece a base necessária
para novas possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem, ela deseja mais daquilo que o
interventor pode oferecer porque já vivenciou que esta experiência lhe dá prazer.
segundo plano. Estes acabam estando no processo, no entanto, o que se busca é o prazer da
relação e a aquisição de uma nova habilidade vem como consequência. Tal consideração está
desenvolvimento humano até então postos desanexados entre diferentes disciplinas que
39
40
culminou em sua sigla D.I.R. Por meio desta integração fomos apresentados à teoria do
para os relacionamentos.
ajudar a estabelecer esta conexão afetiva motivou o uso do “High Affect” adaptado ao perfil
possível responder a algumas críticas dadas a esta proposta de intervenção. Carolina Lampreia
é uma das autoras de maior destaque na literatura científica brasileira no contexto do autismo a
partir de um viés desenvolvimentista, sendo responsável por orientar as principais teses e artigos
da conexão afetiva antes dos aspectos pragmáticos da linguagem. Ao mesmo tempo, esta
proposta abrangente para compreensão das condições humanas uma vez que dá à dimensão
afetiva sua devida importância. No entanto, a falta de boas sistematizações em obras brasileiras
40
41
nos faz salientar a necessidade de que, em pesquisas futuras, este campo seja mais bem
Ademais pudemos notar que seus pressupostos poderiam ser adaptados ao serviço
empoderamento da rede de contato principal da criança, visto que os serviços públicos ainda
41
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REFERÊNCIAS
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