Da transmissão das obrigações
A transmissibilidade dos créditos
Transmissão a título universal- créditos e dívidas integrados num património
Transmissão a título singular- créditos e dívidas isolados
Os créditos e as dívidas podem ser objeto de transmissão por morte (ex.: 2024º) ou em vida,
em virtude da verificação de qualquer dos factos que produzem esse efeito, como a cessão
de créditos (art. 577º ss.), sub-rogação (art. 589º ss.), assunção de dívidas (art. 595º ss.) e
cessão da posição contratual (art. 424º ss.).
A cessão de créditos
Generalidades
Cessão de créditos- forma de transmissão do crédito que opera por virtude de um negócio
jurídico; é uma transmissão do lado ativo
O crédito é uma situação jurídica suscetível de transmissão negocial, sem que o devedor
tenha de dar o seu consentimento ou de alguma forma colaborar no negócio transmissivo.
Requisitos da cessão de créditos
Generalidades
Requisitos da cessão de créditos:
- negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou da parte do crédito
- inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão
- não ligação do crédito, em virtude da própria natureza da prestação, à pessoa do credor
Um negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou da parte do crédito
Este negócio jurídico pode consistir numa:
- compra e venda (art. 874º)
- doação (art. 940º)
- sociedade (art. 984º c))
- contrato de factoring: o credor transmite o seu credito a um terceiro (factor) para este o
cobrar futuramente ao devedor em seu nome, pagando em contrapartida o valor do crédito
descontado de uma renumeração pela sua prestação e riscos assumidos
- dação em cumprimento (art. 837º) ou pro solvendo (art. 840 nº2)
- ato de constituição de garantia: o crédito é transmitido para terceiro a fim de garantir a
cobrança de outro crédito deste sobre o cedente, devendo o cessionário retransmiti-lo
àquele logo que conseguir a cobrança do seu próprio crédito
A cessão de créditos é um efeito deste mesmo negócio.
É através do regime do negócio-base que se determinará qual a forma e o regime jurídico
aplicável à cessão de créditos (art. 578º nº1).
Há uma questão da admissibilidade da cessão de créditos futuros.
A lei prevê a prestação de coisa futura (art. 399º). Desde que esteja preenchido o requisito
da determinabilidade (art. 280º nº1), é possível a cessão onerosa de créditos futuros,
podendo estes resultar quer do negócio já celebrado ou ainda não celebrado.
É discutido na doutrina se, na cessão de créditos futuros, o crédito surge diretamente na
esfera do cessionário (teoria da imediação) ou vem a passar primeiramente pelo património
do cedente (teoria da transmissão).
Das normas 1058º e 821º resulta que, mesmo relativamente a relações já constituídas, é de
aplicar a teoria da transmissão. O cessionário só virá a adquirir o direito se o cedente, sem a
cessão, o tivesse igualmente adquirido, ficando assim o crédito sujeito ao mesmo regime
que aquele que teria na esfera do cedente.
Normalmente, é necessário, para a formação do negócio jurídico que serve de base para a
cessão de créditos, a declaração negocial do cedente e do cessionário. Contudo, não há
obstáculos para que a cessão de créditos resulte de um negócio jurídico unilateral nos casos
em que é admitido (art. 457º ss.).
A lei prevê esta situação no caso do negócio jurídico unilateral mortis causa, que é o
testamento (arts. 2261º e 2262º), mas também da cessão de créditos resultar de um
contrato a favor de terceiros (art. 443º nº2).
A inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão
Relativamente aos impedimentos legais temos como exemplos o direito de preferência (art.
420º) ou o direito a alimentos (art. 2008º).
A cessão de créditos pressupõe ainda que não tenha sido convencionado entre o devedor e
o credor que o crédito não seria objeto de cessão.
Esta estipulação pode ser feita expressa ou tacitamente.
É questionável qual o vício que atinge o negócio de cessão de créditos realizado contra esta
convenção.
Não parece que esta convenção coloque o crédito fora do comercio jurídico, apenas gerando
uma obrigação do credor não transmitir o crédito a outrem (a oponibilidade ao adquirente
depende do facto de este conhecer a convenção). Assim, só o devedor poderá reagir contra
o incumprimento dessa convenção, podendo inclusivamente optar por não o fazer,
reconhecendo a transmissão.
O crédito não esteja, em virtude da própria natureza da prestação, ligado à pessoa
do credor
Estão nesta situação:
- os créditos que se constituem para a satisfação das necessidades pessoais do credor (ex.:
2003º)
- os créditos de onde resulte uma dependência pessoal entre credor e devedor (ex.: contrato
de serviço domestico)
- os créditos em que se tomem em especial consideração as qualidades ou condições do
credor (ex.: prestação de serviço dos médicos)
Se, apesar disso, ela for realizada, deverá considerar-se nula (art. 294º).
Efeitos da cessão de créditos
Efeitos em relação às partes
A transmissão do crédito do cedente para o cessionário
Há uma diferenciação temporal na eficácia da cessão de créditos que, em relação às partes
opera no momento da celebração do contrato, mas em relação ao devedor ou a terceiros só
ocorre em momento posterior.
A transmissão não é imediatamente oponível a terceiro, já que a lei dispõe que a cessão só
produz os seus efeitos em relação ao devedor após a sua notificação, aceitação ou
conhecimento.
A transmissão pode ocorrer em relação à totalidade ou apenas em relação a parte do
crédito, sendo que neste ultimo caso, ambos os créditos terão o mesmo grau, pelo que
nenhum deles terá preferência no pagamento.
A transmissão das garantias e acessórios do crédito
A transmissão do crédito verifica-se com todas as vantagens e defeitos que o crédito tinha
(art. 582º).
As garantias transmitem-se ao cessionário, desde que o cedente não as reserve ao consentir
na cessão. Se tal acontecer, as garantias extinguir-se-ão, já que não ficarão a garantir
qualquer crédito.
Quanto aos privilégios creditórios (art. 733º ss.), a sua concessão atende especificamente à
causa do crédito, pelo que sempre que não constituam uma garantia inseparável da pessoa
do cedente, parecem ser transmitidos para o cessionário
Já em relação ao direito de retenção (art. 754º ss.), defende a maioria da doutrina que se
trata de uma garantia ligada intimamente à pessoa do cedente, pelo que só poderá ser
transmitida por acordo expresso entre cedente e cessionário.
A lei também considera admissível a cessão do penhor ou da hipoteca sem o crédito (art.
676º e 727º ss.) para garantia de outro crédito sobre o mesmo devedor, mas já não do
direito de retenção (art. 760º).
Para além das garantias, transmitem-se para o cessionário os outros acessórios do crédito.
Assim, se o crédito vence juros, o crédito dos juros vincendos se transmite para o
cessionário.
Relativamente aos juros vencidos, o artigo 561º determina a sua autonomia em relação ao
crédito principal.
Também as clausulas penais estipuladas por hipótese de incumprimento são transmitidas
para o cessionário.
Transmissão das exceções
A garantia prestada pelo cedente
A lei determina que o cedente tenha de prestar ao cessionário a garantia da existência e
exigibilidade do crédito ao tempo da cessão.
Além disto, ainda tem de assegurar a solvência do devedor.
Nesta garantia o cedente só responde uma vez comprovada a insolvência do devedor e
apenas nos limites do prejuízo sofrido pelo cessionário, limitando-se a ter de indemnizar o
prejuízo que lhe causa essa insolvência.
Obrigação de entrega de documentos e outros elementos probatórios do crédito
Efeitos em relação ao devedor
A notificação e a aceitação não estão sujeitas a forma especial (art. 219º), podendo
inclusivamente a aceitação ser efetuada tacitamente (art. 217º).
Se o devedor, antes da notificação ou aceitação, por ignorar a cessão de créditos, pagar ao
cedente ou celebrar com ele algum negócio relativo ao crédito, quer o pagamento, quer o
negócio têm efeitos sobre o crédito, podendo inclusivamente produzir a sua extinção, e
esses efeitos são oponíveis ao cessionário, exceto se ele demonstrar que o devedor tinha
conhecimento da cessão (art. 583º nº2).
É necessário que tenha ocorrido um conhecimento efetivo, não bastando o
desconhecimento por negligencia. Verificando-se, no entanto, esse conhecimento, ele terá o
mesmo efeito que a notificação ao devedor.
A posição do cessionário que veja o seu direito afetado resume-se à possibilidade de
instaurar uma ação de enriquecimento sem causa contra o cedente.
Efeitos em relação a terceiros
Em relação a terceiros, a cessão produz efeitos independentemente de qualquer notificação,
pelo que, a partir da sua verificação, os credores do cessionário podem executar o crédito ou
exercer a ação sub-rogatória.
Contudo, há um caso em que a eficácia de cessão em relação a terceiros depende da
notificação ao devedor ou da sua aceitação, que é a situação de o crédito ser cedido a mais
do que uma pessoa.
Aqui a lei determina que prevalece a cessão que primeiro tiver sido notificada ao devedor ou
por este tiver sido aceite (art. 584º).
Pode perguntar-se o que sucede se o devedor conhecer a prioridade da primeira cessão e
decidir aceitar a segunda. O artigo 584º resolve a questão da prevalência das cessões de
créditos, não com base na prioridade do negócio celebrado, mas na notificação que venha a
ser realizada ao devedor ou na aceitação da cessão por ele imitida.
A aceitação pelo devedor de uma das cessões só releva para a escolha do cessionário nos
casos em que o devedor desconhece a existência de várias cessões. No caso contrario, o
primeiro cessionário pode sempre, ao abrigo do 583º nº2, considerar inoponível a aceitação
da segunda cessão, demonstrando que o devedor conhecia a prioridade do negócio que este
celebrara.
A sub-rogação
Conceito de sub-rogação
Sub-rogação- situação que se verifica quando, cumprida a obrigação por terceiro, o crédito
respetivo não se extingue, mas antes se transmite por efeito desse cumprimento para o
terceiro que realiza a prestação ou forneceu os meios necessários para o cumprimento
A sub-rogação distingue-se da cessão de créditos, porque, enquanto a cessão tem por base
um negócio jurídico, a sub-rogação resulta de um ato não negocial, o cumprimento, sendo a
medida deste que determina a medida da sub-rogação (art. 593º nº1).
A sub-rogação é insuscetível de se verificar em relação a prestações futuras.
A garantia da existência e exigibilidade do crédito também não se verifica na sub-rogação.
Modalidades de sub-rogação
A sub-rogação pelo credor
A sub-rogação pelo credor verifica-se através da declaração deste de que pretende que o
terceiro que cumpre a obrigação venha, por virtude desse cumprimento, a adquirir o
crédito.
A sub-rogação pelo credor pressupõe dois requisitos:
- cumprimento da obrigação por terceiro
- a declaração expressa anterior do credor a determinar a sub-rogação
A declaração de sub-rogação pelo credor tem de ser expressa (art. 217º), embora para ela
não se exija forma especial (art. 219º).
Essa declaração tem de ser emitida até ao momento do cumprimento para evitar que a
obrigação se extinga em lugar de se transmitir.
A sub-rogação pelo devedor
A sub-rogação pelo devedor verifica-se igualmente através da declaração deste de que
pretende que o terceiro que cumpre a obrigação adquira o respetivo crédito.
Essa declaração também tem de ser feita até ao momento da obrigação, para evitar a
extinção da divida em lugar da sua transmissão.
A sub-rogação em consequência do empréstimo efetuado ao devedor
Neste caso, não é o terceiro que cumpre a obrigação, mas antes o próprio devedor. Contudo,
como este ultimo vem a efetuar o cumprimento com dinheiro ou outra coisa fungível
emprestada por terceiro, é admitida a sub-rogação, desde que haja declaração expressa, no
documento, do empréstimo, de que a coisa se destina ao cumprimento da obrigação e de
que o mutuante fica sub-rogado nos direitos do credor.
Uma vez que em consequência do mutuo o terceiro já adquire um crédito sobre o devedor,
não fazendo sentido que fique com dois créditos após a sub-rogação, esta substitui o
primeiro credito pelo segundo.
A declaração de sub-rogação tem assim neste caso que constar de um documento escrito.
A sub-rogação legal
A sub-rogação pode resultar de determinação da lei, independente, portanto, de qualquer
declaração do credor ou do devedor.
Esta situação verifica-se sempre que o terceiro tenha interesse direto no cumprimento, o
que sucederá sempre que:
- a não realização da obrigação lhe possa acarretar prejuízos patrimoniais próprios
- o cumprimento se torne necessário para acautelar o seu próprio direito
Efeitos da sub-rogação
Transmissão do crédito na medida da sua satisfação
Ocorre uma sub-rogação parcial sempre que o terceiro que cumpre a obrigação, não o faz
totalmente.
Neste caso, como a aquisição do direito de crédito só se verifica na medida da satisfação
dada ao direito do credor, o resultado é divisão do crédito em dois, um do credor originário
e outro do sub-rogado.
A lei vem prever que a sub-rogação não prejudica os direitos do credor originário (art. 593º
nº2), ou seja, que o crédito do sub-rogado não concorre com o crédito do credor originário,
uma vez que este crédito tem preferência sobre aquele, pelo que em caso de insolvência do
devedor, será satisfeito em primeiro lugar.
Transmissão das garantias e acessórios do crédito
A transmissão do crédito acarreta igualmente a transmissão de todas as suas garantias e
acessórios.
No caso de sub-rogação parcial parece que as garantias passarão a beneficiar ambos os
créditos, ainda que, por força da sua indivisibilidade, cada credor tenha de exercer o direito
real de garantia por inteiro, estabelecendo-se, no entanto, a preferência de acordo com as já
referidas regras do art. 593º nº2 e nº3.
A questão da transmissão das exceções
O artigo 583º apenas deve ser aplicável aos casos de sub-rogação pelo credor ou de sub-
rogação legal, aplicando-se este regime por analogia.
No caso de a sub-rogação provir do próprio devedor, já-lhe será, porém, vedada a invocação
de qualquer exceção que tinha contra o credor originário, a menos que a tivesse
comunicado ao terceiro antes de ele proceder ao pagamento.
Eficácia da sub-rogação em relação ao devedor e a terceiros
A sub-rogação deve ser notificada ao devedor, ou por este aceite, para que produza efeitos
em relação a ele, sob pena de não lhe ser oponível.
Caso o devedor, ignorando a sub-rogação, vier a pagar ao credor originário, esse pagamento
será eficaz perante o sub-rogado, restando a este apenas a possibilidade de instaurar uma
ação de enriquecimento sem causa contra o primitivo credor.
Em caso de vários pagamentos do mesmo crédito por terceiro, prevalece a sub-rogação que
primeiro for levada ao conhecimento do devedor ou que por este seja aceite.
Esta regra, no entanto, deve ser objeto de alguma restrição relativamente à sub-rogação
determinada pelo devedor, uma vez que, em relação a esta, faz pouco sentido a exigência de
qualquer notificação a ele pelo credor originário ou pelo sub-rogado, já que este pode
sempre provar que o devedor conhecia a sub-rogação, já que a determinou.
A assunção de dívida
Conceito e evolução histórica da assunção de dívida
Assunção de dívida- transmissão singular de uma dívida através de negócio jurídico
celebrado com terceiro
Modalidades da assunção de dívidas
Assunção interna e assunção externa
Na assunção interna (art. 595º nº1 a)), a transmissão de dívidas resulta do efeito conjugado
de dois negócios jurídicos:
- contrato entre o antigo e o novo devedor, determinando a transmissão
- negócio unilateral do credor a ratificar esse mesmo contrato
A ratificação pode ser tácita ou expressa e pode ser declarada a qualquer uma das partes.
Se não houver ratificação pelo credor, o negócio celebrado entre as partes vale como
assunção de cumprimento (promessa de liberação), vinculando-se, assim, o assuntor
perante o primitivo devedor a liquidar a dívida deste (art. 293º).
Uma vez realizada, a ratificação terá, em regra, eficácia retroativa, considerando-se a dívida
transmitida no momento da celebração do contrato.
Sendo a assunção liberatória, é manifesto que a retroatividade atribuída à ratificação tem de
ser plena, sendo assim naturalmente ineficazes os atos conservatórios do crédito, uma vez
que não foram dirigidos ao verdadeiro devedor.
Já relativamente à assunção cumulativa, a lei estabelece neste caso uma solidariedade
imperfeita entre antigo devedor e novo obrigado (art. 592º nº2), pelo que a interpelação
realizada pelo credor ao primitivo devedor terá os efeitos previstos no artigo 519º, não
sendo o novo devedor responsável naturalmente pelos danos moratórios imputáveis ao
primeiro devedor.
Na assunção externa, a transmissão da dívida resulta apenas de um único negócio jurídico:
- o contrato entre o novo devedor e o credor
Assunção cumulativa e assunção liberatória de dívida
A assunção cumulativa de dívida (art. 592º nº2) acontece quando o antigo devedor não é
liberado da sua obrigação, mantendo-se solidariamente obrigado perante o credor.
Na assunção liberatória de dívida (art. 592º nº2) verifica-se a extinção da obrigação do
antigo devedor.
Requisitos da assunção de dívida
O consentimento do credor
A existência e validade do contrato de transmissão
Não existem obstáculos legais à transmissão de dívidas futuras, desde que esteja preenchido
o requisito da sua determinabilidade (art. 280º).
Na assunção de dívidas futuras, adota-se a teoria a transmissão, segundo a qual a dívida
ainda vem a passar primariamente pelo património do transmitente e só depois ocorre a
mudança de devedor.
Regime da assunção de dívida
O regime especifico da assunção cumulativa
A solidariedade aqui consagrada não se ajusta ao regime legal da solidariedade perfeita,
constituindo antes um caso de solidariedade imperfeita.
O direito de regresso só se pode realizar num só sentido. Se o novo devedor efetuar ao
credor o pagamento, não lhe assistirá qualquer direito de regresso sobre o antigo devedor.
Se for o antigo devedor a efetuar esse pagamento terá direito de regresso sobre o novo
devedor pela totalidade do crédito.
Para além disso, na obrigação solidária, se o credor for impedido de exigir a prestação de um
dos devedores, por ele lhe opor um meio de defesa pessoal, não fica inibido de exigir a
prestação aos restantes. Já na assunção cumulativa parece claro que esse meio de defesa
aproveitará o novo devedor, extinguindo-se a sua obrigação.
O regime especifico da assunção liberatória
A solução do artigo 600º aplica-se quer a insolvência ocorra posteriormente à
assunção de dívida, quer já se verificasse naquele momento.
Transmissão das garantias e acessórios
A solução do artigo 599º nº2 diferencia-se em relação às garantias que já tivessem sido
constituídas pelo assuntor antes da transmissão da divida ou que resultem diretamente da
lei.
Os meios de defesa do novo devedor
Se o antigo devedor tivesse invocado previamente esses meios de defesa perante o credor,
parece que esta invocação continua a aproveitar ao novo devedor.
Cessão da posição contratual
Generalidades
Cessão da posição contratual- transmissão de uma situação jurídica correspondente ao
conjunto de direitos e deveres, faculdades, poderes, ónus e sujeições que resultam para
uma parte da celebração de determinado contrato
Requisitos da cessão da posição contratual
Um contrato a estabelecer a transmissão da posição contratual, celebrado entre o
cedente e um terceiro
Este contrato pode consistir:
- compra e venda (art. 874º)
- doação (art. 940º)
- sociedade (art. 984º c))
- dação em cumprimento (art. 837º) ou pro solvendo (art. 840º)
- ato de constituição de garantia
É manifesto que qualquer destes negócios que serve de base à cessão da posição contratual
tem necessariamente carater causal.
O consentimento do outro contraente
O consentimento pode ser prestado antes ou depois da celebração do contrato, sendo este
irrevogável.
A questão da inclusão da referida posição contratual no âmbito dos contratos com
prestações reciprocas
O artigo 424º parece restringir a cessão da posição contratual aos contratos com prestações
reciprocas, ou seja, aos contratos bilaterais ou sinalagmáticos.
Contudo, ao contrario do que a lei parece pressupor, não há razões para restringir a cessão
da posição contratual aos contratos bilaterais ainda não executados, sendo igualmente
admissível a sua celebração nos contratos unilaterais ou nos contratos bilaterais já
executados por uma das partes.
Efeitos da cessão da posição contratual
Relação entre cedente e cessionário
A cessão da posição contratual abrange os seguintes efeitos:
- transmissão da posição contratual do cedente para o cessionário
A posição contratual abrangerá todo o complexo de situações jurídicas de que era
titular o cedente em relação ao contrato, levando a que o cessionário adquira todos
os créditos, poderes potestativos e exceções e que fique vinculado pelas obrigações,
deveres acessórios e sujeições resultantes desse contrato.
Se o contrato era de execução continuada ou periódica, em princípio, a cessão da
posição contratual apenas abrangerá as situações jurídicas correspondentes ao
período de tempo posterior a celebração do negócio de transmissão.
Tem sido controvertida na doutrina a questão de saber se a cessão da posição
contratual pode abranger a transmissão da faculdade de anulação do negócio, no
caso de o cedente ter celebrado o negócio a que se refere a posição contratual
transmitida por erro, dolo ou coação.
A nossa doutrina sustenta que a posição contratual transmitida abrange o conjunto
de situações jurídicas constituídas pelo contrato, mas não pode abranger as
consequências dos vícios intrínsecos das declarações negociais, os quais se referem
ao momento da sua génese e que, por isso, não podem ser transmitidos ao
cessionário. Isto também é assim, pois esta anulação é uma faculdade inseparável da
pessoa do cedente.
Admite-se, porém, que o cedente se possa constituir em responsabilidade civil, ou
por ter tido culpa na celebração do contrato de cessão que veio a ser invalidade (Art.
227º), ou por abuso de direito (art. 334º), no caso em que o seu interesse na
anulação do contrato seja de muito menor importância do que o prejuízo causado ao
cessionário.
- garantia prestada pelo cedente relativamente à posição contratual transmitida
426º nº1- se essa posição contratual não existe ou se encontra na titularidade de
outrem que não o cedente, este torna-se responsável perante o cessionário; essa
garantia varia consoante o negócio que serve de base à cessão da posição contratual
seja uma compra e venda (art. 892º ss.) ou uma doação (arts. 956º e 957º)
No caso de ser uma compra e venda, o cedente terá de restituir ao
cessionário o preço da posição contratual transmitida (art. 894º) e responde
objetivamente pelos danos emergentes (art. 899º), podendo ainda constituir-
se em responsabilidade pelo incumprimento da obrigação de convalidação
(art. 900º nº1).
Havendo dolo da sua parte, o cedente responderá por lucros cessantes, que
podem ter por base o interesse contratual negativo (art. 898º) ou o
incumprimento da obrigação de convalidação, no caso de o lesado pretender
optar por essa solução (art. 900º nº2).
No caso de doação, o cedente não responde objetivamente pela existência da
referida posição contratual, apenas tendo de responder se se tiver
expressamente responsabilizado ou houver atuado com dolo (arts. 956º e
957º).
426º nº2- pode ser estipulada uma garantia relativamente ao cumprimento das
obrigações pelo contraente cedido; os termos dessa garantia resultarão
naturalmente do que se determinou no contrato de cessão
Relação entre o cessionário e o contraente cedido
Se após a transmissão o contraente cedido efetuar o cumprimento das suas obrigações ao
cedente, esse cumprimento não terá efeito liberatório, a menos que, tendo o contraente
cedido dado o seu consentimento antes da transmissão, não tenha ainda ocorrido a sua
notificação ou conhecimento.
A posição do cessionário perante o contraente cedido pode não coincidir integralmente com
a posição que anteriormente teve o cedente. Se esta tem lugar após ter sido cumprida
alguma das obrigações dele resultantes, é manifesto que o direito que por essa via se
extinguiu não pode já ser transmitido.
O facto de o contrato já ter sido integralmente executado não é obstáculo a que as partes
celebrem a cessão da posição contratual, uma vez que esta pode pretender abranger outras
situações jurídicas.
Pode questionar-se se o cessionário poderá invocar como fundamento do exercício dos
poderes potestativos da exceção de não cumprimento ou o direito de retenção, situações
que ocorreram anteriormente à cessão da posição contratual.
No caso da resolução do contrato, se estiver em causa o incumprimento de obrigações pelo
cedente, não poderá o contraente cedido exercer esses direitos perante o cessionário. Se se
tratar do incumprimento de uma obrigação duradoura, que persista após a cessão,
naturalmente que o contraente cedido poderá exercer perante o cessionário os direitos
correspondentes.
Relativamente às garantias das obrigações de que o contraente cedido é titular, parece que
se deverá aplicar analogicamente o regime do artigo 599º, ou seja, as garantias se manterão
se tiverem sido prestadas pelo cedente ou pelo cessionário, salvo se o contraente cedido
consentir na sua extinção.
Já se a garantia tiver sido prestada por terceiro, a regra será a sua extinção, salvo se o
terceiro tiver dado o seu acordo à transmissão da posição contratual (art. 599º nº2).
Quanto às exceções, refere o artigo 427º que a cessão da posição contratual não implica que
a outra parte conserve integralmente as exceções que possuía contra o cedente (ex.:
compensação), apenas passando a poder invocar contra o cessionário as exceções que
resultam da própria relação contratual.
Admite-se, porém, que o contraente cedido possa reservar outros meios de defesa de que
disponha como condição para consentir na cessão, caso em que o cessionário já saberá de
antemão que terá de contar com o exercício dessas exceções. Não havendo reserva, o
cessionário não poderá opor ao contraente cedido exceções resultantes do próprio contrato
que determinou a cessão da posição contratual (art. 598º).
Pergunta-se o cessionário pode opor ao contraente cedido a invalidade do próprio contrato
de cessão.
Se o contraente cedido tem que consentir na cessão para que ela tenha lugar, não se vê
como podem deixar de lhe ser aplicadas as disposições relativas à proteção do declaratório,
quer nos casos de reserva mental, quer nos casos de anulação do contrato por erro ou dolo.
Relação entre o cedente e o contraente cedido
A transmissão da posição contratual do cedente para o cessionário liberará, em principio,
aquele de todas as obrigações, deveres acessórios e sujeições emergentes do contrato.
Há, no entanto, algumas exceções a considerar.
Assim, se o cedente já tiver causado danos à outra parte no contrato em virtude do
incumprimento da obrigação principal ou de deveres acessório dele emergentes,
naturalmente que a obrigação de indemnização por esses danos se mantém na sua
titularidade.
Podem, porém, as partes estipular que a cessão da posição contratual se fará sem que o
cedente seja liberado das suas obrigações.
Essa exclusão da liberação do cedente poderá implicar que ele responda como fiador, como
principal pagador ou como devedor solidário.
Causas de extinção das obrigações diversas do cumprimento e
causas de extinção dos contratos
Dação em cumprimento e dação pro solvendo
A dação em cumprimento
Pressupostos da dação em cumprimento
Dação em cumprimento (art. 837º)- prestação de coisa diversa da que for devida
Realização de uma prestação diferente da que for devida
A prestação que o devedor realiza não coincide com aquela a que está vinculado, logo não
produz a sua exoneração ao abrigo do artigo 762º nº1.
Parece resultar do artigo 837º que a dação em cumprimento só se verifica com a efetiva
realização da prestação.
O acordo do credor relativo à exoneração do devedor com essa prestação
A dação em cumprimento pode ser realizada apenas por um dos devedores (art. 523º) e/ou
apenas por um dos credores (art. 532º).
Forma da dação em cumprimento
A dação em cumprimento não é sujeita a forma especial, nos termos gerais do art. 219º.
Excetua-se, porém, o caso de a dação em cumprimento abranger bens imóveis, caso em que
terá de ser celebrada por escritura pública ou documento particular autenticado. Esta
exigência é excetuada se as partes recorrerem ao procedimento especial de transmissão,
oneração e registo de imóveis.
Regime da dação em cumprimento
Invalidade da dação em cumprimento
Verificando-se a invalidade da dação em cumprimento, é manifesto que a relação
obrigacional primitiva continua a subsistir, salvo se tiver verificado um facto extintivo
autónomo (ex.: prescrição do crédito).
Dação pro solvendo
Dação pro solvendo (art. 840º)- execução de uma prestação diversa da devida para que o
credor proceda à realização do valor dela e obtenha a satisfação do seu crédito por virtude
dessa realização (ex.: venda do bem entregue)
Na dação em cumprimento é a atuação do devedor que vem a provocar a extinção da
obrigação, enquanto na dação pro solvendo essa extinção é desencadeada por atuação do
credor.
A dação pro solvendo pode ser por isso qualificada como um mandato conferido pelo
devedor ao credor, mandato esse que não poderá ser normalmente revogado pelo devedor,
salvo ocorrendo justa causa (art. 1170º nº2).
A consignação em depósito
Generalidades
Consignação em depósito (art. 841º)- possibilidade reconhecida ao devedor nas obrigações
de prestação de coisa de extinguir a obrigação através do depósito judicial da coisa devida,
sempre que não possa realizar a prestação com segurança por qualquer motivo relacionado
com a pessoa do credor, ou quando o credor se encontre em mora
Pressupostos da consignação em depósito
A consignação em depósito depende da verificação das seguintes circunstancias:
- ter a obrigação por objeto uma prestação de coisa, podendo ser uma quantia pecuniária,
ou uma coisa de qualquer outra natureza
- não ser possível ao devedor realizar a prestação por um motivo relativo ao credor
Regime da consignação em depósito
Generalidades
É possível distinguir três tipos de efeitos da consignação em depósito.
Instituição de uma relação processual entre o consignante e o credor
A consignação em depósito é necessariamente judicial, operando-se através de um processo
através do qual se avaliará da justificação da consignação em depósito e da sua idoneidade
(ser próprio) para extinção da obrigação.
O depósito só pode ser impugnado por três fundamentos:
- ser inexato o motivo invocado
- ser maior ou diversa a quantia ou a coisa devida
- ter o credor qualquer outro fundamento legitimo para recusar o cumprimento
No caso de o fundamento da impugnação improceder, é declarada extinta a obrigação com o
depósito.
No caso de a impugnação proceder o depósito é considerado ineficaz para extinção da
obrigação e, se o depositante for o devedor, ele é condenado a cumprir a obrigação. Neste
ultimo caso, o regime processual varia consoante o fundamento da impugnação seja o litigio
relativo ao objeto da prestação ou algum dos outros dois fundamentos de impugnação.
Na primeira situação, o credor tem que deduzir em reconvenção o seu pedido, levando a
procedência deste à condenação do devedor em completar o depósito no caso de a
prestação devida ser de maior quantidade, ou à ineficácia do depósito, se a prestação for
diversa, condenando-se o devedor no cumprimento da obrigação.
Na segunda situação, apesar de o devedor ser condenado ao cumprimento e a pagar as
custas do processo, o pagamento ao credor será efetuado pelas forças do deposito,
correndo, porém, por conta do devedor as despesas que o credor tenha que suportar com o
levantamento.
Instituição de uma relação substantiva triangular entre o consignante, o
consignatário da coisa devida e o credor
Temos exatamente:
- uma relação de cobertura entre o consignante e o consignatário
- uma relação de atribuição, consistente na obrigação que o consignante visa satisfazer
- uma relação de execução, através da qual o credor recebe o direito sobre o consignatário
Efeitos da consignação sobre a obrigação
Durante o decurso do processo, a obrigação persiste recaindo sobre o credor o risco da
perda ou deterioração da coisa, deixando a dívida de vencer juros, sempre que se verifique
ter o devedor motivo legitimo para proceder à consignação.
A compensação
Compensação (art. 847º)- quando duas pessoas estejam reciprocamente obrigadas a
entregar coisas fungíveis da mesma natureza, é admissível que as respetivas obrigações
sejam extintas, total ou parcialmente
Pressupostos da compensação
Existência de créditos recíprocos
Fungibilidade das coisas objeto das prestações e identidade do seu género e
qualidade
Não se exige que a quantidade seja idêntica. O facto de as dividas não serem de igual
montante determina apenas que a compensação seja parcial em relação à divida de
montante superior.
Por outro lado, o facto de ainda não estar determinada a quantidade devida não impede que
se opere imediatamente a compensação, averiguando-se posteriormente o montante em
que ela ocorreu.
Existência, validade e exigibilidade do crédito do declarante
Não pode ser efetuada a compensação se o crédito ainda não estiver vencido, ou se a outra
parte puder recusar o cumprimento (ex.: invocação da exceção de não cumprimento do
contrato (art. 428º ss)).
Existência, validade e possibilidade de cumprimento do crédito do declaratário
Regime da compensação
Se algum ou ambos os créditos vencerem juros, eles deixam de ser contados a partir desse
momento, como também não se tomará em consideração a mora do devedor ocorrida após
essa data.
Também a prescrição da obrigação não releva se ela ainda não tinha ocorrido no momento
em que os créditos se tornaram compensáveis.
Compensação convencional
Compensação convencional- compensação que, em lugar de ocorrer através de uma
declaração unilateral, resulta de um acordo celebrado entre as partes
Sendo este celebrado ao abrigo da autonomia privada, naturalmente que as partes já não
estarão sujeitas à maior parte dos pressupostos e limites estabelecidos para a compensação
legal.
Para esta compensação se exigirá apenas que ambas as partes disponham de créditos que
pretendam extinguir através do contrato.
Já não se admitirá, em virtude da restrição estabelecida à autonomia privada, a
compensação convencional de créditos impenhoráveis ou de créditos cuja compensação
envolva prejuízo para os direitos de terceiro.
A novação
Conceito e modalidades
Novação- extinção de uma obrigação em virtude da constituição de uma nova, que a
substitui; esta ainda pode ser:
- objetiva (art. 857º): a nova obrigação se constitui entre os mesmos
credor e devedor da obrigação antiga
Pode representar:
- uma mudança no objeto da obrigação
- alteração na sua fonte
- subjetiva (art. 858º): verifica-se mudança de algum dos sujeitos da
obrigação
Pode ocorrer:
- por substituição do credor
- por substituição do devedor
Terá sempre de haver uma intenção das partes de extinguir a anterior obrigação, criando
uma nova em sua substituição.
Na ausência deste elemento, o que as partes realizarão será apenas uma modificação ou
transmissão da obrigação primitiva.
Pressupostos da novação
Declaração expressa da intenção de constituir uma nova obrigação em lugar da
antiga
Só há novação se as partes exteriorizarem diretamente o animus novandi, o que implica não
se admitirem presunções de novação, nem poder resultar essa declaração tacitamente
através de factos concludentes.
Existência e validade da obrigação primitiva
A ineficácia da novação pode conduzir à aplicação de regimes diversos, consoante a nova
obrigação tenha ou não sido cumprida.
Caso ainda não se tenha verificado o cumprimento, poderá o devedor recusar a sua
realização, invocando para tanto apenas a ineficácia da novação.
Caso, porém, o cumprimento já se tenha realizado, terá o seu autor uma pretensão
restitutória. Se se verificar a sua inexistência, haverá que aplicar o regime da repartição d
indevido (art. 476º nº1). Ocorrendo a sua invalidade, ela será restituída com base no regime
respetivo (art. 289º ss.).
Constituição válida da nova obrigação
Regime da novação
A lei admite a possibilidade de as garantias serem reservadas para a nova obrigação, desde
que essa reserva seja efetuada por declaração expressa.
Admite-se que as partes convencionem a manutenção das exceções perante a nova
obrigação desde que tal seja claramente estipulado.
Nãos e deverá presumir essa estipulação, sem que ela apareça claramente demonstrada.
A remissão
Conceito de remissão
Remissão (art. 863º)- acordo entre o credor e o devedor pelo qual aquele prescinde de
receber deste a prestação devida
Pressupostos da remissão
São os seguintes os pressupostos da remissão:
- existência previa de uma obrigação
- contrato entre o credor e devedor pelo qual aquele abdica de receber deste a prestação
devida
A remissão reveste necessariamente caracter contratual, exigindo-se, portanto, para que
ocorra a extinção da obrigação, não apenas a declaração do credor de que abdica de receber
a prestação, mas também a aceitação dessa abdicação por parte do devedor.
São aplicáveis as normas que regulam a doação, designadamente:
- necessidade de aceitação em vida do remitente (art. 945º)
- possibilidade de revogação até esse momento (art. 969º)
- possibilidade de revogação por ingratidão do donatário (art. 970º ss.)
- influencia do calculo da legitima (art. 2162º)
- suscetibilidade de redução por inoficiosidade (art. 2168º)
- eventual chamamento à colação (art. 2104º)
Verificada a remissão, consideram-se naturalmente extintas todas as garantias que
asseguravam o seu cumprimento (art. 866º nº1).
A confusão
Conceito de confusão
Confusão (art. 868º)- extinção simultânea do crédito e da dívida em consequência da
reunião, na mesma pessoa, das qualidades de credor e devedor
Pressupostos da confusão
A confusão tem os seguintes pressupostos:
- reunião da mesma pessoa das qualidades de credor e devedor
- não pertença do crédito e da dívida a patrimónios separados
- inexistência de prejuízo para os direitos de terceiro
Regime da confusão
Se o regime aplicável for o da conjunção ou parciariedade, o que sucede é que se extinguem
as frações da obrigação em relação às quais ocorreu a confusão, não sendo afetada a
obrigação quanto aos seus restantes sujeitos.
Fontes das obrigações baseadas em gestão não contratada
Gestão de negócios sem contrato
Gestão de negócios
Pressupostos da gestão de negócios
A assunção da direção de negócio alheio
- a atividade de gestão de negócios e o tipo de atos que dela são objetos
Esta norma pressupõe a existência de uma atividade do gestor, designando a
expressão negócio precisamente os atos que dela são objeto, não podendo assim ser
considerada gestão de negócios uma conduta omissiva.
Já quanto aos atos que podem ser objeto dessa atividade, a lei não estabelece
qualquer distinção.
- a alienidade do negócio
É possível estabelecer uma distinção entre duas categorias:
- negócios objetivamente alheios: situações em que a gestão de negócios implica
uma ingerência na esfera jurídica do dominus
- negócios subjetivamente alheios: situações em que o gestor não efetua qualquer
ingerência numa esfera jurídica alheia, mas em que é possível visualizar, a partir da
sua intenção, que pretende atuar para outrem
A exigência de que a gestão se faça no interesse e por conta do dominus
- a utilidade da gestão
Nessa expressão não se abrange apenas a intenção de gestão, mas também a
utilidade da gestão.
Não se pode considerar atribuída ao gestor a possibilidade de exercer a gestão
quando não existe qualquer utilidade pata o dominus dessa gestão.
O artigo 340º nº3 só considera licitas as intervenções se estas se dão no interesse do
lesado e de acordo com a sua vontade presumível.
- a intenção de gestão
O animus deve ser primariamente entendido apenas como a intenção de atribuir os
efeitos do negócio a outrem.
A falta de autorização
O gestor não poderá recorrer à gestão de negócios se estiver autorizado ou vinculado por
negócio jurídico a exercer a sua intervenção (ex.: mandato), ou se a lei lhe impuser um dever
especifico de exercer a gestão (ex.: no caso dos pais em relação aos filhos).
Tratando-se de deveres genéricos de respeito ou de deveres penais de auxilio, não parece
que a sua existência possa excluir a aplicação do regime da gestão de negócios.
Deveres do gestor para com o dono do negócio
Não está legalmente consagrada uma obrigação de continuar a gestão.
O que sucede em caso de ocorrer contradição entre o interesse e a vontade do dominus?
Deverá prevalecer o elemento da vontade do dominus. Contudo, não pode ser levado longe
demais, já que a lei esclarece que a vontade do dominus deixa de relevar sempre que esta
seja contrária à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes.
A responsabilidade do gestor
O gestor deve ficar sempre sujeito à diligencia de um bom pai de família (art. 487º nº2).
Deveres do dono do negócio para com o gestor
Os deveres do dono do negócio em face do gestor variam consoante se trate de uma gestão:
- regular: gestão exercida em conformidade com o interesse e a vontade, real ou presumível,
do dono do negócio
- irregular: na gestão não foi respeitado o dever previsto no artigo 465º a)
No caso de ser regular, o gestor tem direito a ser reembolsado de todas as despesas
suportadas e indemnizado dos prejuízos que haja sofrido (art. 468º nº1).
Já se for irregular, o dono do negócio responde apenas de acordo com as regras do
enriquecimento sem causa (art. 468º nº2).
A posição do dono do negócio em face de terceiros
A gestão de negócios representativa
A atribuição de poderes representativos só pode ocorrer a posteriori, com eficácia
retroativa, por virtude de um negócio distinto da procuração, que é a ratificação.
Caso o negócio celebrado pelo gestor não seja ratificado pelo dominus, ele não produzirá
efeitos em relação a este, por ausência de poderes representativos, nem em relação àquele,
por não ser em seu nome que o negócio foi celebrado, verificando-se uma situação de
ineficácia absoluta.
O que sucede se alguma das partes veio a realizar uma prestação, contando com a futura
ratificação do negócio? A restituição das prestações é feita tendo em conta o
enriquecimento sem causa (art. 473º nº2).
A aprovação e a ratificação da gestão são atos diferentes, pelo que a realização de um não
implica a declaração tácita relativamente ao outro.
A gestão de negócios não representativa
A gestão de negócios não representativa é aquela em que o gestor atua em nome próprio.
A gestão de negócios alheios julgados próprios e a gestão de negócios impropria
A lei admite que o dono do negócio possa sujeitar a situação de gestão de negócios alheios
julgados próprios ao regime da gestão de negócios se proceder à aprovação da gestão.
Nesse caso o gestor adquirirá os direitos previstos no art. 468º nº1 e o dominus poderá
exercer contra o gestor as pretensões constantes no art. 465º.
A figura da gestão de negócios impropria corresponde à situação em que o gestor gere por
conta própria um negócio que sabe ser alheio.
A solução será a aplicação analógica do artigo 472º.
Responsabilidade civil por factos ilícitos
A responsabilidade delitual
Pressupostos genéricos da responsabilidade delitual
O facto voluntário do lesante
Não se exige o comportamento do agente seja intencional ou sequer que consista numa
atuação, bastando que exista uma conduta que lhe possa ser imputada em virtude de estar
sob o controle da sua vontade.
O facto voluntário do agente pode revestir duas formas:
- ação
- omissão
Para alguém ser responsável por omissão pelos danos sofridos por outrem exige-se,
para além dos outros pressupostos da responsabilidade delitual, um dever especifico
que torne um particular sujeito garante da não ocorrência desses danos.
A ilicitude
Generalidades
A ilicitude pode consistir na:
- violação de direitos subjetivos alheios
- violação de disposições legais destinadas a proteger interesses alheios
A duvida que se coloca reside em determinar se esse juízo de desvalor se refere em relação
ao comportamento do agente (teoria do desvalor do facto) ou se incide sobre o próprio
resultado (teoria do desvalor do resultado).
A teoria do desvalor do facto é a que corresponde à doutrina maioritária. A ilicitude
pressupõe uma avaliação do comportamento do agente.
A ilicitude por violação de direitos subjetivos
Esta modalidade de ilicitude tem como característica especial o facto de, ao se exigir uma
lesão de um direito subjetivo especifico, se limitar a indemnização à frustração das
utilidades proporcionadas por esse direito.
São abrangidos por esta modalidade de ilicitude:
- direitos sobre bens jurídicos pessoais: vida, corpo, saúde e liberdade
- direitos reais
- direitos de propriedade industrial
- direitos de autor
- direitos pessoais de gozo que atribuem ao seu titular a proteção possessória
- direitos familiares de natureza patrimonial
- direito à empresa
A ilicitude por violação de normas de proteção
Normas de proteção- não atribuem aos titulares desses interesses um verdadeiro direito
subjetivo, por não lhes atribuírem em exclusivo o aproveitamento de um bem
Esta categoria de ilicitude exige os seguintes prossupostos:
- não adoção de um comportamento, definido em termos preciso pela norma
- o fim dessa imposição seja dirigido à tutela de interesses particulares
- a verificação de um dano no âmbito do circulo de interesses tutelados por esta via
Neste caso será admitida a indemnização dos danos puramente patrimoniais.
Os tipos delituais específicos
Encontram-se espalhadas pelo Código diversas previsões delituais que permitem estabelecer
tipos delituais específicos, para além das categorias gerais de ilicitude:
- abuso de direito (art. 334º)
Estebelece a ilegitimidade do exercício do direito sempre que o seu titular exceda
manifestamente os limites impostos pela boa-fé, pelos bons costumes ou pelo fim
social e económico desse direito.
- não cedência em caso de colisão de direitos (art. 335º)
- ofensa ao crédito ou ao bom nome (art. 484º)
A afirmação ou difusão de factos falsos é sempre proibida.
Quanto aos factos verdadeiros, a sua divulgação poderá ser admitida, mas desde que
tal se efetue para assegurar um direito próprio ou um interesse público legitimo.
- responsabilidade por conselhos, recomendações e informações (art. 485º)
A responsabilidade do autor dos conselhos, recomendações e informações pelos
danos sofridos pelo seu recetor em três situações especificas:
- quando se haja assumido a responsabilidade pelos danos
- quando exista um dever jurídico de dar o conselho, recomendação ou informação e
se tenha procedido com negligencia ou intenção de prejudicar
- o procedimento do agente constitua facto punível
O que sucede se não se verificar qualquer destas três situações, mas o agente tiver
atuado com dolo, é a sua responsabilidade, pois qualquer atuação dolosa envolve
necessariamente responsabilidade por parte do agente relativamente aos danos
causados pela informação falsa.
As causas de exclusão da ilicitude
Há possibilidade de a violação ser efetuada licitamente, desde que o agente tenha atuado
no âmbito de uma causa de exclusão de ilicitude ou causa de justificação.
Estas causas são:
- exercício de um direito
Se alguém tem um direito subjetivo e o exerce não deve responder pelos danos dai
resultantes para outrem.
Existem limitações do exercício dos direitos subjetivos pelos institutos:
- abuso do direito
- colisão de direitos
O agente não deixa de responder por outros danos que provoque com a sua atuação.
- cumprimento de um dever
Vigorando para o sujeito o dever de adotar determinada conduta, este pode ver-se
forçado a acatá-la ainda que para isso tenha de infringir outros deveres relativos a
posições jurídicas alheias, e cuja infração normalmente acarretaria a ilicitude do
facto.
Neste ultimo caso estamos perante um conflito de deveres, que deve ser resolvido
dando preponderância ao dever que se considere de natureza superior.
Para haver exclusão de ilicitude é necessário que o dever seja efetivamente
cumprido. Se o agente em caso de conflito de deveres opta por não cumprir
nenhum, naturalmente que será responsável pelo incumprimento dos dois.
Para além disso, é necessário que a impossibilidade de cumprimento dos dois
deveres não resulte de uma culpa anterior do agente.
- legitima defesa
Pressupostos da legitima defesa:
- existência de uma agressão
- contra a pessoa ou património do agente ou de terceiro
- atualidade e contrariedade à lei dessa agressão
- impossibilidade de recurso aos meios normais
- o prejuízo causado pelo ato não seja manifestamente superior ao que pode resultar
da agressão
- ação direta
Pressupostos:
- esteja em causa a realização ou proteção de um direito subjetivo do próprio agente
- seja impossível recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais
- atuação do agente seja indispensável para evitar a inutilização pratica do direito
- o agente não exceda o que for necessário para evitar o prejuízo
- o agente não sacrifique interesses superiores aos que a sua atuação visa realizar ou
assegurar
- estado de necessidade
- consentimento do lesado (art. 340º nº1)
O consentimento poderá ser expresso ou tácito.
A culpa
A imputabilidade como pressuposto da culpa e o regime da responsabilidade dos
inimputáveis
É sempre que necessário que o agente conhecesse ou devesse conhecer o desvalor do seu
comportamento e que tivesse podido escolher a sua conduta.
A inimputabilidade verifica-se sempre que o agente seja menor de sete anos ou interdito por
anomalia psíquica (art. 488º nº2).
O dolo e a negligência
Dolo- intenção do agente de praticar o facto
Negligencia- não se verifica essa intenção, mas o comportamento do agente não deixa de ser
censurável
Se não existir uma atuação dolosa do agente, só haverá ilicitude se o agente violar um dever
objetivo de cuidado na lesão de bens jurídicos.
A negligencia tem as seguintes modalidades:
- negligencia consciente: o agente, violando o dever de diligência a que estava obrigado,
representa a verificação do facto como consequência possível da sua conduta, mas atua sem
se conformar com a sua verificação
- negligencia inconsciente: o agente, violando o dever de diligência a que estava obrigado,
não chega sequer a representar a verificação do facto
O dolo apresenta as seguintes modalidades:
- dolo direto: o agente quer a verificação do facto, sendo a sua conduta dirigida diretamente
a produzi-lo
- dolo necessário: o agente não dirige a sua atuação diretamente a produzir a verificação do
facto, mas aceita-o como consequência necessária da sua conduta
- dolo eventual: o agente representa a verificação como consequência possível da sua
conduta e atua, conformando-se com a sua verificação
O critério que deve ser adotado para distinguir o dolo eventual da negligencia consciente é o
da formula positiva de Frank. De acordo com esta, haverá dolo eventual se o agente, tendo
previsto o resultado da sua conduta como possível, conforma-se com esse resultado, não
alterando consequentemente o seu comportamento.
Critérios de apreciação e graduação da culpa
O critério de apreciação da culpa na responsabilidade delitual encontra-se formulado no
artigo 487º nº2.
Esse padrão abstrato não deixa de exigir uma analise das circunstancias do caso.
É importante distinguir:
- culpa grave: situação de negligencia grosseira, em que a conduta do agente só seria
suscetível de ser realizada por uma pessoa especialmente negligente
- culpa leve: a conduta do agente não seria suscetível de ser praticada por um homem
médio
Prova da culpa
Existem as seguintes presunções da culpa:
- danos causados por incapazes (art. 491º)
Estabelece-se uma presunção de culpa das pessoas a quem incumbe a sua vigilância,
podendo ser ilidida através da demonstração de que cumpriram o seu dever de
vigilância ou que os danos continuariam a produzir-se ainda que o tivessem
cumprido.
- danos causados por edifícios ou outras obras (art. 492º nº1)
Estes danos são causados devido a vicio de construção ou defeito de conservação.
Admite-se a possibilidade de demonstração de que os danos continuariam a
verificar-se, mesmo que se tivesse adotado a diligência devida.
- danos causados por coisas ou animais (art. 493º nº1)
Responsabilidade por culpa presumida por parte de quem tiver em seu poder coisa
movel ou imóvel, com o dever de a vigiar.
- danos resultantes de atividades perigosas (art. 493º nº2)
A qualificação da atividade como perigosa pode ser realizada pelo legislador ou pela
jurisprudência.
Causas de exclusão da culpa
A culpa pode ser excluída sempre que o agente se encontre em determinada situação que
afaste a possibilidade de a ordem jurídica estabelecer um juízo de censura em relação ao seu
comportamento.
Causas de exclusão da culpa:
- erro desculpável
A atuação do agente resulta de uma falsa representação da realidade, que não possa,
em face das circunstâncias, ser censurada (ex.: art. 338º).
- medo invencível
Sempre que a atuação do agente tenha sido provocada por um medo que ele não
conseguiu ultrapassar, sem que tal lhe possa, em face das circunstâncias, ser
censurado (ex.: 337º nº2)
- desculpabilidade
Embora não se verificando medo nem erro, em face das circunstancias do caso não
lhe fosse exigível comportamento diferente.
Concurso da culpa do lesado
A culpa do lesante pode concorrer com a existência simultânea de culpa do lesado,
entendendo-se essa, nos termos do artigo 487º nº2, como a omissão da diligência que teria
levado um bom pai de família, nas circunstâncias do caso, a evitar ou reduzir os danos
sofridos.
Tendo sido demonstrada a culpa do lesante aplica-se o artigo 570º nº1.
No caso de a culpa do lesante não ter sido provada, mas ser apenas presumida, excluirá o
dever de indemnizar (art. 570º nº2).
Para este regime se aplicar é necessário que a atuação do lesado seja subjetivamente
censurável em termos de culpa, não bastando assim a mera causalidade da sua conduta em
relação aos danos.
O dano
Definição de dano
Dano- supressão de uma vantagem de que o sujeito beneficiava
As vantagens que não sejam juridicamente tuteladas não são suscetíveis de indemnização.
Dano em sentido real e dano em sentido patrimonial
Dano em sentido real- o dano corresponde à avaliação em abstrato das utilidades que eram
objeto de tutela jurídica, o que implica a sua indemnização através da reparação do objeto
lesado (restauração natural) ou da entrega de outro equivalente (indemnização especifica)
Dano em sentido patrimonial- o dano corresponde à avaliação concreta dos efeitos de lesão
no âmbito do património do lesado, consistindo assim a indemnização na compensação da
diminuição verificada nesse património, em virtude da lesão
Danos emergentes e lucros cessantes
Dentro dos danos patrimoniais, podemos distinguir:
- danos emergentes: situação em que alguém em consequência da lesão vê frustrada uma
utilidade que já tinha adquirido
- lucros cessantes: situação em que é frustrada uma utilidade que o lesado iria adquirir, se
não fosse a lesão
Os lucros cessantes só se verificam se o lesado, no momento da lesão, for titular de uma
expectativa jurídica que lhe permitisse a aquisição de um beneficio. Não basta uma mera
hipótese de aquisição desse ganho.
Danos presentes e danos futuros
Danos presentes- já se encontram verificados no momento da fixação da indemnização
Danos futuros- caso contrário
Danos patrimoniais e danos não patrimoniais
Danos patrimoniais- correspondem à frustração de utilidades suscetíveis de avaliação
pecuniária
Danos não patrimoniais- frustração de utilidades não suscetíveis de avaliação pecuniária
A morte como dano
As ofensas de que resulte a morte de uma pessoa podem dar origem aos seguintes danos:
- a perda da vida da própria vitima
- danos não patrimoniais sofridos pelos familiares da vitima em consequência da sua morte
- no caso de a morte não ser instantânea, danos não patrimoniais sofridos pela vitima e
pelos seus familiares até à ocorrência da morte
O nexo de causalidade entre o facto e o dano
O problema do nexo de causalidade
O artigo 483º ao estabelecer que há indemnização pelos danos resultantes da violação
implica exigir que esse comportamento seja causa dos danos sofridos.
O problema que se coloca diz respeito aos limites em que se pode admitir esse nexo, já que
o facto pode ser causa do dano em termos muitos remotos, que tornam difícil
responsabilizar o agente por este.
Conceção relativa ao nexo de causalidade
Aplica-se a teoria do escopo da norma violada, que diz que para o estabelecimento do nexo
de causalidade é apenas necessário averiguar se os danos que resultaram do facto
correspondem à frustração das utilidades que a norma visava conferir ao sujeito através do
direito subjetivo ou da norma de proteção.
Os processos causais virtuais
Esta verifica-se sempre que o dano resultante da causa real se tivesse igualmente verificado,
na ausência desta, por via de outra causa, denominada a causa virtual.
A maioria da nossa doutrina orienta-se pela consideração como regra geral da irrelevância
negativa da causa virtual.
Responsabilidade objetiva e pelo risco
A responsabilidade pelo risco
O fundamento da imputação pelo risco
O nosso Direito veio adotar uma conceção restritiva da responsabilidade pelo risco,
consagrando taxativamente a sua admissibilidade apenas nos casos previstos na lei (art.
483º nº2).
Casos de responsabilidade pelo risco
A responsabilidade do comitente
No artigo 500º vem estabelecer-se a situação da responsabilidade do comitente.
A responsabilidade do comitente é uma responsabilidade objetiva pelo que não depende de
culpa sua na escolha do comissário, na sua vigilância ou nas instruções que lhe deu.
Essa responsabilidade objetiva apenas funciona na relação externa (do lesado com o
comitente), já que na relação interna (do comissário com o comitente) o comitente terá o
direito a exigir a restituição de tudo quanto pagou ao lesado, salvo se ele próprio tiver culpa.
Pressupostos:
- existência de uma relação de comissão
Comissão- tarefa ou função realizada no interesse e por conta de outrem, podendo
abranger tanto uma atividade duradoura como atos de caracter isolado e tanto atos
materiais como jurídicos
É necessário que a função praticada pelo comissário possa ser imputada ao
comitente, por os atos nela compreendidos serem praticados exclusivamente no seu
interesse e por conta sua.
- prática de facto danosos pelo comissário no exercício da função que lhe foi confiada
Desde que no exercício da função, a responsabilidade do comitente abrange também
os atos intencionais do comissário, ou praticados em desrespeito das instruções.
- desde que sobre o comissário recaia também a obrigação de indemnizar
Para a responsabilidade objetiva do comitente exige-se culpa do comissário.
A responsabilidade do Estado e de outras pessoas coletivas públicas
Aplica-se igualmente o artigo 500º quando o comitente seja o Estado ou outra pessoa
coletiva pública.
Danos causados por animais
Nada impede a cumulação da responsabilidade pelo risco do utilizador de animais e da
responsabilidade por culpa presumida do vigilante de animais.
Requisitos:
- utilização dos animais no próprio interesse: abrange o proprietário dos animais, mas
também todos os titulares da faculdade de utilização própria do animal, sendo que a
utilização por estes excluirá a responsabilidade daquele
- os danos resultem do perigo especial que envolve a utilização do animal
Danos causados por veículos
Danos causados por veículos de circulação terrestre
Pressupostos da responsabilidade pelo risco
A responsabilidade pelo risco recais sobre:
- aquele que tiver a direção efetiva do veiculo de circulação terrestre
Significa ter um poder de facto, ou exercer controlo sobre o veiculo,
independentemente da titularidade ou não de algum direito sobre o mesmo.
- utilizar no seu próprio interesse, ainda que por médio de comissário
Destina-se a excluir a responsabilidade objetivo daqueles que conduzem o veiculo
por conta de outrem
Casos de exclusão da responsabilidade
A responsabilidade pelo risco é excluída sempre que o acidente seja imputável ao próprio
lesado.
Isto significa que a sua conduta tenha sido a única causa do dano.
Se se verificasse a culpa concorrente do lesado com a culpa do condutor aplica-se o regime
do artigo 570º.
Na hipótese de, não se demonstrando a culpa do condutor, a culpa do lesado concorrer com
o risco próprio do veiculo, será excluída a responsabilidade do condutor do veiculo.
A responsabilidade será excluída sempre que o acidente seja imputável, nos mesmos
termos, a terceiro.
Caso haja culpa concorrente do condutor com a responsabilidade do terceiro, ambos
responderão solidariamente perante o lesado (arts. 497º ss.).
A responsabilidade pelo risco será excluída sempre que o acidente resulte de causa de força
maior estranha ao funcionamento do veiculo.
Beneficiários da responsabilidade
Relativamente aos beneficiários da responsabilidade pelo rico, a lei vem esclarecer que esta
tanto aproveita a terceiros, como às pessoas transportadas, abrangendo assim tanto os que
se encontravam fora do veiculo como dentro dele.
No caso de transporte por virtude de contrato, a responsabilidade só abrange os danos que
atinjam a própria pessoa e as coisas por ela transportadas.
No caso de transporte gratuito, a responsabilidade apenas abrange os danos pessoais da
pessoa transportada.
A lei vem ainda referir, no artigo 504º nº4, que são nulas as clausulas que excluem ou
limitem a responsabilidade do transportador por acidentes que atinjam a pessoa
transportada, o que a contrario parece permitir que no contrato as partes excluam ou
limitem a responsabilidade do transportador pelos danos que atingem as coisas
transportadas.
Danos causados por outros veículos
Danos causados pela utilização efetiva de instalações de energia elétrica ou de gás
A responsabilidade do produtor
Enriquecimento sem causa
O enriquecimento sem causa como fonte das obrigações
Os pressupostos do enriquecimento sem causa são:
- existência de um enriquecimento
- obtenção desse enriquecimento à custa de outrem
- ausência de causa justificativa para o enriquecimento
O artigo 474º institui a subsidiariedade do instituto sem causa.
Esta norma pretende estabelecer que a ação de enriquecimento seja o último recurso a
utilizar pelo empobrecido. Estar-lhe-á vedada a sua utilização no caso de possuir outro
fundamento para uma ação de restituição (ex.: caso de invalidade ou resolução do contrato),
no caso de a lei pretender que a aquisição à custa de outrem seja definitiva (ex.: usucapião e
prescrição) ou quando a lei atribui outros efeitos ao enriquecimento sem causa (ex.:
modificação do contrato ou alteração das circunstancias).
Modalidades de enriquecimento sem causa
O enriquecimento por prestação
Conceito e modalidades típicas
Enriquecimento por prestação- situações em que alguém efetua uma prestação a outrem,
mas se verifica uma ausência de causa jurídica para que possa ocorrer por parte deste a
receção desta prestação
O conceito de prestação tem os seguintes requisitos:
- elemento real consistente numa atribuição patrimonial que produza no recetor um
enriquecimento
- o incremento do património de outrem exigir uma consciência da prestação
- o incremento do património de outrem exigir a vontade de prestar
- a atribuição tem de visar a realização de um fim especifico
A ausência de causa jurídica para a receção da prestação realizada significa que haverá lugar
à restituição da prestação sempre que esta é realizada com vista à obtenção de determinado
fim, e esse fim não vem a ser obtido.
Contudo, existem diversas modalidades possíveis de não obtenção do fim visado com a
prestação.
A repetição do indevido
Pressupostos:
- realização de uma prestação com intenção de cumprir uma obrigação, em que:
- não existe uma obrigação subjacente a essa prestação
Se a obrigação que o solvens visou extinguir não se chegou a constituir ou já estava
extinta quando a prestação foi realizada.
A restituição é excluída perante a verificação de uma obrigação natural (arts. 402º ss.
e 476º proémio).
ou
- sem que esta tenha lugar entre o solvens e o accipiens
Existem duas opções:
- ex latere accipientis: a prestação é realizada a terceiro, e não ao seu verdadeiro
credor
- ex latere solventis: a prestação é realizada por terceiro, e não pelo verdadeiro
devedor
Uma vez que este recebe o que lhe é devido, torna-se difícil sustentar que se
deve obrigá-lo pura e simplesmente à restituição.
Essa restituição só é admitida nos casos referidos nos artigos 477º e 478º.
ou
- não tem de ser realizada naquele momento
A restituição da prestação por posterior desaparecimento da causa
No direito atual, o artigo 473º nº2 é aplicado:
- posterior extinção do direito da prestação já recebida
- restituição do sinal em caso de cumprimento do contrato ou sua extinção por
impossibilidade ou revogação (art. 442º nº1)
- restituição do título da obrigação após a extinção da dívida (art. 788º)
- restituição da prestação em virtude da extinção do contrato por impossibilidade casual da
contraprestação (art. 795º nº1)
A restituição da prestação por não verificação do efeito pretendido
Pressupostos:
- realização de uma prestação visando um determinado resultado
O resultado não pode respeitar ao cumprimento de uma obrigação ou não se esgote
nesse cumprimento.
- correspondendo esse resultado ao conteúdo de um negócio jurídico
- sendo que esse resultado não se vem posteriormente a realizar
O enriquecimento por intervenção
Conceito e situações abrangidas
Enriquecimento por intervenção- alguém obtém um enriquecimento através de uma
ingerência não autorizada no património alheio
Deve ser atribuída nesses casos ao titular uma pretensão à restituição do enriquecimento
sem causa, sempre que essa pretensão não seja excluída pela aplicação de outro regime
jurídico.
As hipóteses mais comuns do enriquecimento por intervenção reconduzem-se intervenções
em direitos absolutos:
- direitos reais
- direitos de autor e a propriedade industrial
- direitos de personalidade
A aplicação do enriquecimento por intervenção pode abranger posições jurídicas de outra
natureza:
- posse
- proteção contra a concorrência desleal
A aplicação do enriquecimento por intervenção vem a ser limitada a certas infrações:
- atos suscetíveis de criar confusão com o estabelecimento ou os produtos
concorrentes
- falsas informações realizadas com o fim de desacreditar o concorrente
- invocações ou referencias não autorizadas, com o fim de beneficiar do crédito ou da
reputação de um nome, estabelecimento ou marca alheios
- utilização de segredos negociais alheios
- “direito à empresa”
- oferta de prestações contra retribuição
O enriquecimento resultante de despesas efetuadas por outrem
O enriquecimento por incremento de valor de coisas alheias
Enriquecimento por incremento de valor de coisas alheias- alguém efetua despesas em
determinada coisa, que se encontra na posse do benfeitorizante ou, mesmo não se
encontrando na sua posse, ele acredita que a coisa lhe pertence; ainda se pode ocorrer uma
hipótese de enriquecimento por incremento do valor de coisas alheias, na situação de
alguém, embora conhecendo o caráter alheio da coisa, desconhece que se encontra a
realizar as despesas com materiais seus e não com materiais alheios
No caso dessas despesas determinarem a aquisição de um benefício por outrem, a nossa lei
admite várias situações em que se verifica uma obrigação de restituir.
Só pode recorrer à ação de enriquecimento se as despesas tiverem sido suportadas pelo seu
património.
O enriquecimento por pagamento de dívidas alheias
Enriquecimento por pagamento de dívidas alheias- o empobrecido libera o enriquecido de
determinada dívida que este tem para com um terceiro sem visar realizar-lhe uma prestação,
nem estar abrangido por qualquer uma das hipóteses em que a lei lhe permite obter uma
compensação por esse pagamento
Antunes Varela entende que, se o terceiro sabe que não é obrigado ao cumprimento e não
tem interesse em cumprir, não lhe assiste, tanto em relação ao credor como em relação ao
devedor, qualquer direito.
O enriquecimento por desconsideração de património
Enriquecimento por desconsideração de património- casos em que, com prejuízo para o
empobrecido, se verifica uma aquisição de terceiro a partir de um património que se
interpõe entre ele e o empobrecido (arts. 481º e 289º nº2)
Pressupostos:
- existência de uma pretensão contra o alienante
- a impossibilidade de satisfação dessa prestação, em virtude da insolvência do devedor ou
extinção do enriquecimento
- a alienação de bens para o terceiro constitua uma causa minor de aquisição (negócio
gratuito)
Pressupostos genéricos do enriquecimento sem causa
O enriquecimento
Exclui-se do âmbito deste instituto as vantagens obtidas à custa de outrem, que não sejam
suscetíveis de avaliação pecuniária, como sucede com os benefícios de cariz espiritual ou
moral.
São casos de enriquecimento:
- hipóteses que se reconduzam à aquisição de direitos subjetivos
- situações passivas de obrigações ou ónus reais
- obtenção da faculdade de disposição sobre um alheio
- obtenção da posse
- obtenção de vantagens patrimoniais não apreensíveis em termos materiais (ex.: prestações
de serviços)
A obtenção do enriquecimento à custa de outrem
A ausência de causa justificativa
A obrigação de restituição por enriquecimento sem causa
Agravamento da obrigação de restituir
O uso da expressão “também” no artigo 480º indicia que, para além dessa obrigação de
restituir provocar culposamente a perda ou deterioração do objeto que deveria restituir, o
enriquecido deverá indemnizar essa perda, obrigação que se cumula com a restituição do
valor limitado pelo seu efetivo enriquecimento.
Não parece que a alienação da coisa a restituir pelo enriquecido de má-fé o sujeite a
responder pelos ganhos resultantes dessa alienação, tendo antes por objeto o valor
correspondente à coisa alienada.
Existe ainda uma terceira possibilidade no artigo 480º que é o facto de o empobrecido ter
podido perceber frutos que apenas ele teria podido realizar, mas não o obrigado à
restituição, nem sequer um proprietário diligente.
Transmissão da obrigação de restituir
Pressupostos:
- o alienante se tenha constituído como enriquecido
- transmissão gratuita da coisa que devesse restituir
Na hipótese de o alienante estar de má-fé e o terceiro de boa-fé faz se uma comparação com
a situação da invalidade do negócio, onde o artigo 289º nº2 determina que, em caso de
alienação gratuita, sempre que não possa tornar-se efetiva contra o alienante a restituição
do valor da coisa, fica o adquirente obrigado em lugar daquele, mas só na medida do seu
enriquecimento.
Prescrição do direito à restituição
Se o empobrecido tiver conhecimento do direito que lhe compete e da pessoa do devedor o
prazo da prescrição é de 3 anos, mas nunca passando o prazo ordinário de 20 anos.