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O Que É Racismo Estrutural

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O QUE É RACISMO ESTRUTURAL?

Racismo estrutural é o termo utilizado para mostrar que o racismo está enraizado em nossa
sociedade, ou seja, no direito, na economia, na ideologia, na política. Ele se mostra a partir de
práticas, hábitos e falas cotidianas, tanto de forma consciente,
como inconsciente. Isso significa que, se o país onde vivemos
foi construído com base em ideais racistas, o racismo deixa
de se expressar como uma anormalidade e se torna um
componente significativo que escancara como as relações
sociais foram historicamente construídas em nosso país.
Desse modo, é imprescindível compreender como o
racismo se imbrica na ordem social, analisando-o como uma
questão estrutural. É o que explica o advogado, filósofo e
professor Silvio Almeida em seu livro Racismo estrutural, que
compõe a série Feminismos Plurais. A partir dessa leitura, que
aproveito para deixar como recomendação importante para
construirmos cada vez mais uma postura antirracista,
compreendemos que o racismo não tem a ver com
comportamentos individuais vinculados à maldade, mas ao
resultado do funcionamento normal de uma sociedade
fundada na hierarquia racial.

VAMOS ANALISAR UM EXEMPLO?


Quando uma empresa exige que uma mulher negra alise o cabelo para ser contratada, é
notável que houve racismo. Entretanto, para além da atitude da empresa, é importante observar
como esse caso se insere em um contexto maior que reverbera outros tantos casos parecidos. Não
se trata de relevar a atitude racista individual, muito pelo contrário: trata-se de puni-la,
compreendendo que ela se repete em outros locais e que, portanto, a punição sozinha não
consegue resolver o problema em sua totalidade.
No exemplo citado, para além da denúncia, é importante que a sociedade reflita sobre o que
faz com que cabelos crespos e cacheados sejam marginalizados. Afinal, crescemos em um país
que por muitos anos considerou cabelos com essas texturas como ruins. Essa constatação não é
biológica, nem universal: ela evidencia uma ideologia racista que impera no Brasil desde a época
da escravidão. É a partir da consciência que se tem desse contexto, portanto, que se pode pensar
em medidas que vão além da denúncia e que enfrentem, de forma eficaz, o racismo.

“O colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada. Uma ferida que dói sempre,
por vezes infecta. E outras vezes sangra”
Essa frase, que a artista e teórica Grada Kilomba escreveu em seu livro Memórias da
Plantação, ressalta que, mesmo após tanto tempo, as
consequências da colonização persistem. Para
entender o racismo incrustado na estrutura de nossa
sociedade, é necessário compreender como
chegamos até aqui.

Durante mais de três séculos de escravidão, pelo


menos 4,8 milhões de pessoas africanas foram
trazidas para o Brasil. Inicialmente, foram
escravizadas para trabalhar nos engenhos de
açúcar, principal produto de exportação da época. Com o passar dos anos, o comércio
transatlântico de africanos se tornou tão lucrativo que as pessoas trazidas para cá deixaram de ser
apenas mão-de-obra e se tornaram a própria mercadoria.

Pessoas foram escravizadas única e exclusivamente por conta de sua raça. Cor da pele,
textura do cabelo, local de origem, idioma e outros elementos culturais foram inseridos numa lógica
hierárquica na qual tudo o que remetia aos africanos passou a ser desvalorizado pelo sistema.

Uma série de preconceitos a respeito do continente africano que vinham sendo elaborados
desde a antiguidade e a necessidade de lucrar formularam a justificativa que os colonizadores
precisavam para fincar a escravidão na base de nossa história. Tal ideologia fez com que africanos
e afro-brasileiros fossem desumanizados e considerados, inclusive juridicamente, como coisas. A
partir dessa premissa racista, essas pessoas foram comercializadas como objetos, abdicadas de
direitos e tratadas como seres sem alma.

Como o historiador Boris Fausto aponta em seu livro História Concisa do Brasil, a escravidão
foi uma instituição nacional que se inseriu na sociedade e condicionou sua forma de agir e pensar.
Além disso, a falta de apoio ou indenização após a abolição da escravidão (considerada “uma
mentira cívica” pelo professor e ativista Abdias do Nascimento), a persistente perseguição a
pessoas negras e a falta de oportunidades explicam inúmeras desigualdades às quais essa
população é submetida atualmente.

“Sem terras para cultivar e enfrentando no mercado de trabalho a competição


dos imigrantes europeus, em geral subsidiados por seus países de origem e
incentivados pelo Governo brasileiro, preocupado em branquear física e
culturalmente a nossa população, os brasileiros descendentes de africanos
entraram numa nova etapa de sua via crucis. De escravos passaram a favelados,
meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas
esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de
comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura.”
(Abdias do Nascimento, no texto 13 de maio: uma mentira cívica, publicado em 2013 no portal Geledés)
FERIDAS ABERTAS: AS CONSEQUÊNCIAS DO
PASSADO EM NÚMEROS
O resultado da marginalização de pessoas pretas e pardas no decorrer da história pode ser
observado no cenário do mercado de trabalho, que reflete essas desigualdades até hoje. Afinal,
pessoas negras continuam sendo a maioria da população desempregada no Brasil. É o que mostra
a pesquisa divulgada em novembro de 2022 pelo FGV Ibre – Instituto Brasileiro de Economia da
Fundação Getúlio Vargas, coordenada pela economista Janaína Feijó. Com base em microdados
da última PNAD Contínua (IBGE), o estudo mostrou que, dos 9,5 milhões de desempregados
registrados no terceiro trimestre deste ano, cerca de 64,9% eram pretos e pardos. Além disso, o
levantamento revelou que pessoas negras:
• representam 61,3% dos trabalhadores que ganham até dois salários-mínimos;
• somam 24 milhões dos 39,1 milhões de trabalhadores que estão na informalidade;
• possuem rendimento médio de R$ 2.095, enquanto entre trabalhadores brancos e amarelos
esse número chega a R$ 3.533.

Indicadores de violência também revelam a estrutura racista brasileira. Em quase todos os


estados brasileiros, uma pessoa negra tem mais chances de ser morta do que uma pessoa não
negra. É o que revela a pesquisa Atlas da Violência, publicada em 2021 pelo Ipea – Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada. Segundo o estudo, a taxa de violência letal contra pessoas pretas e
pardas em 2019 foi 162% maior que a mesma taxa contra pessoas não negras. Além disso, pessoas
negras representaram 77% das vítimas de homicídios no país.
O relatório associa diversas causas a esses dados, dentre elas: as condições socioeconômicas
e demográficas às quais muitas pessoas negras são submetidas, limitando seu acesso a melhores
condições de vida; a reprodução de estereótipos racistas pelas instituições do sistema de justiça
criminal que fazem de pessoas negras o principal alvo de ações policiais; a ausência de políticas
públicas específicas que combatam as desigualdades sofridas por essas pessoas.

COMBATER O RACISMO DE FORMA EFETIVA


O panorama de desigualdade racial presente no Brasil não é de hoje, mas fruto de uma
sequência de medidas racistas, bem como a insuficiência de medidas antirracistas, no decorrer da
história do país. É possível concluir, a partir desse resgate histórico e análise de alguns dados
atuais, que a construção de uma sociedade mais igualitária não pode ocorrer somente por meio de
denúncias pontuais de casos de racismo.
Nesse sentido, é necessária uma reestruturação mais ampla, que implique em práticas
antirracistas no dia a dia de cada um de nós e em cada instituição. Alguns exemplos são a
implementação de leis como a Lei de Cotas, que reservou no mínimo 50% das vagas das
instituições federais de ensino superior e técnico para estudantes de escolas públicas (e, dentro
dessa porcentagem, uma parte para pessoas pretas, pardas e indígenas) e a Lei 10639, que
estabeleceu diretrizes para a inclusão da disciplina História e Cultura Afro-Brasileira no currículo da
rede de ensino.
É comum que digam que “a história cobra”, como uma forma de se ausentar das discussões e
mudanças sociais. Entretanto, se tem algo que a nossa sociedade demonstra diariamente é que a
última coisa que a história fez todo esse tempo foi cobrar. Somos nós que devemos participar dessa
profunda alteração social e o primeiro passo é se ver como parte do problema – e da solução. O
racismo não desaparecerá sozinho.

PROFESSORA ELIZANGELA BARBOSA – FILOSOFIA


BIBLIOGRAFIA
[Link]
estrutural/?gclid=Cj0KCQjwoK2mBhDzARIsADGbjerH5HrTqXkSy5tt65hMFDrhFztBB1lpzVtgDCJ6VcF9i8xmmGk2h2IaAuPOEALw_wcB

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