QUILOMBO MESQUITA: TERRITORIALIZAÇÃO E RESISTÊNCIA ÉTNICA
LONGO, Clerismar Aparecido
Mestre/Doutorando em História pela UnB
kalungascleris@[Link]
RIBEIRO, Maria do Espírito Santo R. C
Doutora em História pela USP
Professora na PUC-Goiás
mariarosacavalcante@[Link]
Resumo:
Este texto é resultado de uma pesquisa sobre o processo de territorialização da
Comunidade Quilombola Mesquita, situada no município de Cidade Ocidental, em Goiás,
e suas práticas, saberes e fazeres na manutenção de sua cultura, em especial na produção
do marmelo e da marmelada, tomada como um dos vetores de constituição da identidade
étnica do grupo. Movidos pelos desejos de liberdade e autonomia, africanos e
afrodescendentes que foram submetidos à escravidão nas minas de ouro em Goiás e em
outras regiões brasileiras, refugiaram-se nas matas onde se situa hoje a comunidade, lugar
onde formaram o Quilombo Mesquita. Após a abolição da escravidão e da escassez do
ouro, grande parte do contingente populacional de brancos migrou para regiões litorâneas
do Brasil e deixaram muitas das propriedades rurais abandonadas, o que representou, para
os quilombolas, a chance de conquistarem a sua autonomia, que historicamente tem sido
marcada por inúmeras intempéries, dado os valores negativos atribuídos pelos brancos
burgueses – monopolizadores do poder do estado e da economia – aos traços fenotípicos
e às peculiaridades culturais dos não brancos, empurrando-os à condição de vulneráveis,
minorizados e subalternizados, portanto sem direito de terem direitos.
Palavras-chave: Quilombo Mesquita; Territorialização; Resistência étnica.
A Comunidade Quilombola Mesquita é uma comunidade rural que fica à 8km do
que é hoje a Cidade Ocidental, próxima à cidade de Luziânia. Luziânia é a antiga Vila
Santa Luzia, que fui fundada em função da exploração do ouro, em 1746, pelo bandeirante
paulista Antônio Bueno de Azevedo. No decorrer dos três primeiros anos da fundação da
Vila, Santa Luzia recebeu um contingente populacional de pessoas vindas de Portugal e
de diferentes pontos do Brasil, ávidos por ouro. Famílias inteiras para lá migraram, o que
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sinaliza, naquele contexto, o desejo de ali permanecerem. Se estabeleceram ali senhores
escravagistas que trouxeram contingentes de negros para serem utilizados como mão-de-
obra escrava na mineração (BRAGA e MARTINS, 2011), estendendo àquele lugar a
ordem social escravocrata.
A Comunidade Quilombola foi fundada em 1770 por ex-escravos que se
rebelaram contra o sistema escravocrata e se refugiaram em áreas de difícil acesso
movidos pelo desejo de reconstruírem suas vidas em liberdade.
A comunidade foi batizada com o mesmo sobrenome do antigo proprietário das
terras onde se encontram hoje os quilombolas, conforme pesquisa realizada por André
Garcia Braga e Roberta Silva Martins (2011), para o relatório de identificação e
delimitação da Comunidade Quilombola Mesquita. De acordo com as entrevistas
realizadas para o laudo antropológico, há duas versões sobre a ocupação das terras pelos
quilombolas: em uma delas, afirma-se que o sargento-mor José Correia Mesquita doou
suas terras a três escravas de sua propriedade, dando, assim, origem ao povoado; em outra,
afirma-se que essas mesmas escravas arremataram a propriedade. Há um certo consenso
local de que as terras teriam sido doadas. O mito de origem da comunidade é construído
em torno desse evento. Sobre esse aspecto, pontua Braga e Martins (2011, p. 74-75):
(...) pouquíssimas associações nas lembranças dos moradores faz querer
remeter ao passado escravo. O mito de origem é o que marca a
descendência histórica narrada pela comunidade. Tudo e todos se
originaram a partir deste evento fundador. Não importa, de fato, a
condição dos diversos agentes e outros ancestrais. Todos são
descendentes das ex-escravas "abençoadas" com a doação. Diga-se,
todos possuem um passado associado à liberdade e à aquisição da terra.
(...)
O evento fundador é o que importa para a constituição da identidade do
grupo. Mesquita nasce em Mesquita. Seu mito de origem pode ser
considerado o real originário, sem qualquer ônus, para sua afirmação
étnica - mesmo que se busque um rompimento com o símbolo do
cativeiro, da escravidão. A partir da doação de terras a três escravas
emerge todo um grupo.
A memória que os quilombolas, enquanto grupo étnico, querem preservar, funda-
se nos desejos de liberdade, de construção da autonomia e do reconhecimento do direito
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de construírem as suas vidas a partir dos seus modos de pensar, de suas formas de
organização social, da sua ligação com a terra e dos significados que dão ao mundo. A
memória coletiva tem aqui papel fundamental na construção e afirmação da identidade
étnica dos mesquitenses. Quando interpelados sobre suas origens, tradições e identidades,
evocam lembranças que remetem sempre ao mito de origem - as três escravas que
herdaram as terras da fazenda Mesquita, momento a partir do qual se descortinam as
sonhadas liberdade e possibilidade de autonomia.
A memória que foi cultivada durante séculos de existência do Mesquita é
claramente, no sentido atribuído por Halbwachs (2013), seletiva. Ao reconstruírem seu
passado, cultivam em suas lembranças aquilo que foi significativo e que permanece como
valoroso para a comunidade, para a sua identidade e formas de organização singulares. O
cativeiro não costuma ser lembrado, exceto em momentos em que, para que seus direitos
sejam reconhecidos via políticas públicas, precisam evocar o passado em que seus
ancestrais foram submetidos ao cativeiro. Exceto nestas circunstâncias, a lembrança do
cativeiro é ocultada. Para os mesquitenses, eles não são descendentes de escravos, uma
vez que seus antepassados fugiram, e quem foge não é escravo.
A configuração móvel que foi se tornando o território dos quilombolas
mesquitenses foi e ainda é objeto de inúmeros conflitos, dadas as conjunturas políticas e
econômicas espoliativas e "agressivas" às singularidades étnicas dos povos africanos e
afrodescendentes que ali se organizaram enquanto quilombo. Um processo resultante dos
princípios, valores e regras eurocêntricos que ordenaram a colonização dos europeus
nessas terras, cujas ressonâncias encontramos ainda na atualidade.
Com o esgotamento das minas de ouro, que teve o momento mais crítico a partir
da década de 1770 (PALACÍN, 1994), grande parte dos citadinos de Santa Luzia
migraram para outras regiões face às condições econômicas precárias que se
configuravam em Goiás. A partir daquela década, sesmeiros abandonavam suas terras ou
as doavam aos seus escravos. Muitas fazendas foram abandonadas. O que para a elite era
decadência, para os negros que ali permaneceram representava uma espécie de ascensão
- a possibilidade de uso da terra e construção de sua autonomia -, porém, dentro de um
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quadro em que ainda coexistia relações de serventia com os fazendeiros que
permaneceram nos arredores. A cultura dos mesquitenses foi se constituindo de forma
híbrida, cujas características étnicas, ao mesmo tempo que se tornaram móveis, num
imbricamento entre saberes ancestrais e apropriação e ressignificação de aspectos
pertencentes a contextos religiosos (o catolicismo), políticos e econômicos aos quais
foram inseridos no curso de sua história, vem reafirmando-se por meio de características
e marcadores culturais singulares de constituição da identidade que os diferenciam dos
não quilombolas (BRAGA e MARTINS, 2017), amalgamando passado, presente e
expectativa de futuro.
A religiosidade tem como base o catolicismo popular, e as festividades religiosas
são realizadas com base no calendário católico: Festa do Divino Espírito Santo (15 a 30
de maio); Festa de Nossa Senhora D'Abadia (06 a 15 de agosto), com foliões, catira e
dança da raposa. A tradição no cultivo do marmelo, produção da marmelada e sua
comercialização contribuiu para uma certa autonomia dos mesquitenses, projetando-os
no mercado nacional ainda no período colonial, mas ao mesmo tempo eles eram
praticamente extorquidos pela cobrança de impostos. A produção e comercialização do
doce representa importante marco de resistência e de afirmação da identidade dos
mesquitenses, que desenvolveram uma sabedoria, uma ciência, no cultivo do marmelo e
na produção do seu doce (BRAGA e MARTINS, 2011), em território que se constituiu
por saberes e fazeres que deixaram ali suas marcas quilombolas. Esse território, conforme
identificado no laudo antropológico, ocupa uma porção de terras de 4.160 hectares, mas
grande parte dele foi fragmentado ao longo tempo, sendo ocupado por grileiros, posseiros
ou por pessoas que apresentavam registro de terra.
No início do século XIX, segundo Bertran (1988 apud BRAGA e MARTINS,
2011), se prolifera a apropriação de terras por meio da posse, alternativa contrária às
determinações legais, quando do estabelecimento da Coroa no Brasil, que tornou as terras
suas propriedades, podendo usá-las de acordo com seu interesse. Em 1850, foi criado o
Registro Paroquial, o que levou inúmeras pessoas a procurarem os cartórios eclesiásticos
para registrarem terras em seus nomes. Afirma Braga e Martins (2011, p. 90) que
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Com o Registro Paroquial, algumas porções de terras seriam requeridas
pelos negros como propriedade, mas como o registro de nascimento era
um privilégio de poucos, apenas os negros com situação legal, o que
incluía a carta de alforria, podiam fazê-lo.
Para os mesmos autores, o contexto político em que se deu os registros das terras
não deixou de trazer prejuízos mesmo aos quilombolas aptos a fazer o registro, os quais
viviam em semi-isolamento, e por não compreenderem muito bem a lógica e os princípios
institucionais que regiam os registros - estranhos a uma cultura com características étnicas
agráficas -, foram vítimas de extorsões que se davam por meio da falsificação da
documentação. Mesmo diante das dificuldades impostas, os nomes de negros que
ocupavam a fazenda Mesquita estavam associados à documentação, somado às tradições
orais que evocavam o passado de ocupação, organização social, relação com o lugar e sua
territorialização, a herança ou compra de terras pelas três escravas - estreitando vínculos
simbólicos entre histórias, saberes, fazeres, tradições e o território onde se tecia a
experiência quilombola - se tornaram pontos fulcrais a partir dos quais se buscou a
legitimação do território quilombola de Mesquita.
Mesmo antes do declínio do ouro, havia uma rede de solidariedade entre os
negros. Negros que fugiram do cativeiro, mesmo antes do declínio do ouro, se agruparam
aos negros alforriados, que posteriormente também aceitaram negros que vinham dos
arredores de Mesquita, impedidos de permanecerem em seus locais de origem. Nesse
sentido, Mesquita se tornou um espaço de conquista e de resistência coletiva. As
fronteiras étnicas eram delimitadas por um conjunto de características entre "os de fora",
que viam ali um conjunto homogêneo, e "os de dentro", que apesar da heterogeneidade e
complexidade das relações que ali se estabeleceram, e diante das conjunturas políticas
desfavoráveis a eles, reafirmaram-se por meio de determinados marcadores sociais e
características étnicas que substanciavam o direito à terra e de nela permanecerem.
Os agregamentos se davam por trabalho, casamento, trocas e outras
tantas formas de inserção comunitária. Esta fronteira é um dado
histórico, posto que em Mesquita só se aceitava negros até a segunda
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metade do século XX - representando também uma forma de
manutenção da terra por este segmento étnico. (BRAGA e MARTINS,
2011, p. 92).
Os negros ficaram sujeitos a diversas intempéries. Tiveram que deixar áreas que
passaram a ser ocupadas por grileiros. Outros continuaram em áreas em regime de
semisservidão ou uma espécie de escravidão velada. O sistema escravista foi extinto em
1888, porém o Estado não garantia ao negro o acesso à terra. O direito de permanecerem
em Mesquita foi objeto de uma luta contínua dos mesquitenses frente às condições
políticas e econômicas alheias a eles. Parte das terras que seriam de direito dos
quilombolas foram apropriadas por grileiros, o que significou uma perda inestimável.
A construção de rodovias e a chegada, em 1913, da estrada de ferro em Goiás,
ligando o estado ao sudeste brasileiro abriu possibilidades de comercialização para a
região (MARINHO e DANTAS, 2017). Esse período é marcado pela abundância na
produção do marmelo e do seu doce. Com a abertura de rodovias e da estrada de ferro,
cresceu a demanda pelo doce, que era vendido pelos quilombolas em Santa Luzia, de
onde era transportado para outras regiões do Brasil. A produção do marmelo e do seu
doce era encabeçada pelo líder comunitário Aleixo Pereira Braga. O sucesso no
empreendimento, que conferiu aos quilombolas autonomia, colocou Aleixo Braga numa
espécie de posição de herói, dada a sua força organizadora e de natureza coletiva, que
tinha na produção do marmelo e da marmelada um elemento de constituição da identidade
quilombola.
A memória dos quilombolas remete constantemente às lembranças dessas figuras
emblemáticas - as escravas "heroínas" e depois o líder comunitário. Aleixo Braga "é filho
de José Pereira Braga e de Maria do Nascimento que, por sua vez, segundo o mito de
origem, é a descendente direta de uma das três escravas que herdaram a terra. Ou seja,
Aleixo é neto de uma das 'heroínas fundadoras'" (BRAGA e MARTINS, 2011, p. 100).
O mito de origem fundado nessas figuras emblemáticas, associado ao sentimento de
pertencimento ao lugar, à tradição na produção do marmelo e marmelada – que é um
marco na afirmação do território -, à religiosidade popular, e às especificidades dos modos
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de organização social, vida familiar, trabalho etc funcionam como vetores de constituição
e afirmação da identidade mesquitense.
O modelo tradicional de produção era baseado em trocas intra-
familiares. O que estruturava essas trocas era a rede de reciprocidade
que se estabelecia entre os grupos domésticos. Não apenas o porco ou
qualquer mantimento era a forma de pagamento, mas a certeza de que
assim como se prestou um serviço a um familiar, certamente ele fará o
mesmo. As trocas e o trabalho coletivo eram os mantenedores desta
vida social e funcionavam como rodízio entre as terras de produção.
(...)
Outra forma tradicional de produção era a "meia". Usavam uma só terra
para cultivo e dividiam o que dela se extraía. No mesmo sentido,
trabalhar na "meia" para a família significava agregação de trabalho e o
uso comum das terras - ao contrário do que ocorria quando se trabalhava
na "meia" para um fazendeiro, que disponibilizava a terra para a
comunidade rural subordinando-os ao trabalho. (BRAGA e MARTINS,
2011, p. 100).
Assim, se tecia relações de reciprocidade, de confiança, em que todos se
beneficiavam, tendo a terra com um bem comum onde se constitui as relações que
inscrevem sentidos e demarcam o espaço de territorialização. O que é hoje o território
quilombola é apenas uma pequena parte de toda a extensão que ocuparam seus
antepassados. Dos 4.160 hectares identificados e delimitados pelo Incra, somente 761
hectares estão sob posse dos quilombolas.
Segundo Ribeiro (2014), a Lei de Terras teve impacto na reorganização dos
diversos grupos sociais e na configuração da malha fundiária do território. Alguns
quilombolas fixaram-se em áreas, cujas delimitações se estabeleceram dentro da
cosmologia mesquitense. Porém, grande parte das terras de direito dos quilombolas ainda
não foram regularizadas até o momento, ano de 2022, ficando esses grupos vulneráveis
às investidas externas.
Outros [quilombolas mesquitenses] se apossaram, ou mesmo receberam
doações de terras daqueles senhores que, desistindo do empreito,
largaram todo o resto. Muitos grupos foram e ainda serão vítimas de
despejos com a chegada dos reais ou supostos donos. E todos aqueles
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que desfrutavam da cercania de uma imensidão de terras presenciaram
as cercas subindo e delimitando propriedades no transcurso do século
XX. Assim as populações negras no rural goiano, adaptaram-se às
intempéries, criando as mais diversas estratégias de sobrevivência,
testemunhando uma série de modificações da sociedade da qual faziam
parte, mesmo enquanto segmento marginalizado.
Estes processos sofridos por elas ainda alcançam a atualidade já no século XXI,
por conta das pressões sofridas pelos investidores da agricultura extensiva e da
especulação imobiliária.
Referências
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