Fisiopatología – Gastrite e Úlcera Péptica
SP2 - Objetivo 2
1. Fisiologia normal da mucosa gástrica
● O estômago está constantemente exposto a um ambiente extremamente hostil: ácido
clorídrico (pH ~1–2), pepsina, sais biliares, agentes infecciosos e mecânicos.
● Para evitar autólise, existe um sistema de defesa chamado “barreira mucosa
gástrica”, composto por:
1. Muco e bicarbonato – esse muco secretado pelas células epiteliais de
superfície forma uma camada gelificada, que retém bicarbonato e mantém o
pH próximo à superfície epitelial próximo da neutralidade.
2. Prostaglandinas (PGs, especialmente PGE₂ e PGI₂) – estimulam secreção de
muco e bicarbonato, aumentam o fluxo sanguíneo da mucosa e promovem
renovação celular.
3. Fluxo sanguíneo adequado – garante oxigenação, nutrientes e remoção de
íons H⁺ que ultrapassam a barreira.
4. Renovação epitelial rápida – células epiteliais da mucosa gástrica têm
turnover rápido (~3–7 dias).
5. Junções intercelulares firmes – que impedem difusão retrógrada de H⁺.
Esses fatores agem sinergicamente; a perda de qualquer um pode predispor à gastrite ou
úlcera.
● Em outras palavras, esse equilíbrio entre fatores agressivos (ácido, pepsina, H.
pylori, AINEs, bile, álcool) e fatores protetores (muco, bicarbonato, PGs, fluxo
👉
sanguíneo, epitélio íntegro) é fundamental.
A úlcera ou a gastrite aparecem quando esse equilíbrio é rompido.
2. Mecanismos de lesão da mucosa
Fatores de desequilíbrio
2.1 Helicobacter pylori
● É a principal causa de gastrite crônica e úlcera péptica.
● Mecanismos de patogenicidade:
○ Urease → degrada ureia em amônia, que neutraliza o ácido ao redor da
bactéria, mas é tóxica para as células epiteliais.
■ neutraliza o ácido local com amônia.
○ Flagelos → permitem mobilidade no muco gástrico.
○ Adesinas → fixação ao epitélio.
○ Citotoxinas (CagA, VacA) → promovem lesão epitelial direta, aumento de
apoptose, alteração da proliferação celular.
○ Inflamação crônica perpetua dano epitelial a partir de uma resposta imune
ineficaz → neutrófilos e linfócitos liberam radicais livres e proteases, que
danificam ainda mais a mucosa.
● O resultado é:
○ hipersecreção ácida (mais comum em úlcera duodenal) ou
○ Atrofia mucosa (gastrite crônica com risco de metaplasia intestinal e câncer
gástrico).
Genética do hospedeiro (Robbins): polimorfismos de IL-1β e TNF-α → resposta
inflamatória mais intensa → maior risco de câncer gástrico.
2.2 Uso de AINEs
● A segunda grande causa de gastrite/úlcera.
● Mecanismo:
○ Inibição da ciclooxigenase (COX-1) → queda da síntese de prostaglandinas →
menor secreção de muco e bicarbonato, redução do fluxo sanguíneo, maior
suscetibilidade ao ácido.
○ Efeito tópico direto dos AINEs na mucosa gástrica, que aumenta a
permeabilidade ao H⁺.
2.3 Outros fatores
● Álcool – efeito cáustico direto na mucosa.
● Tabaco – prejudica a cicatrização e aumenta risco de recorrência.
● Refluxo biliar – sais biliares solubilizam fosfolipídios da barreira mucosa.
● Isquemia e estresse fisiológico intenso (choque, queimaduras graves – “úlceras de
Curling”, trauma craniano – “úlceras de Cushing”) → redução do fluxo sanguíneo
mucoso, hipoxemia, acúmulo de íons H⁺.
● Isquemia e estresse fisiológico intenso – choque, sepse, trauma.
Úlcera de Cushing
● Associada a trauma craniano → estimulação vagal → hiperatividade parietal →
hipersecreção ácida.
7.Úlcera de Curling
● Queimaduras graves → isquemia gástrica → redução de fluxo sanguíneo →
diminuição das defesas → necrose superficial → úlcera.
○
👉 Em pacientes críticos, úlceras de estresse são comuns → motivo da profilaxia com
Inibidores da Bomba de Prótons (iBps) em UTI.
●
3. Gastrite
3.1 Gastrite aguda
● Definição: inflamação aguda, geralmente transitória, da mucosa gástrica.
● Causas: AINEs, álcool, estresse, isquemia, H. pylori inicial.
● Morfologia: edema, hiperemia, neutrófilos na lâmina própria e no epitélio.
● Clinicamente: dor epigástrica, náuseas, vômitos; pode haver sangramento.
3.2 Gastrite crônica
● Definição: inflamação crônica persistente, com infiltração linfoplasmocitária.
● Tipos principais:
○ Associada a H. pylori → antral predominante; risco de úlcera duodenal,
metaplasia intestinal e adenocarcinoma gástrico.
○ Autoimune (gastrite atrófica) → anticorpos contra células parietais e fator
intrínseco → hipocloridria, hiperplasia de células G (hipergastrinemia), risco
de anemia perniciosa e carcinoma gástrico.
○ Química (biliar, drogas, álcool).
● Evolução: gastrite crônica → atrofia da mucosa → metaplasia intestinal →
displasia → adenocarcinoma gástrico.
Gastrite aguda vs crônica
● Aguda: neutrófilos, edema, hiperemia; geralmente reversível.
● Crônica: infiltração linfoplasmocitária, possível atrofia, metaplasia, risco de evolução
para câncer ou úlcera.
4. Úlcera péptica
"Aqui já não estamos falando apenas de inflamação, mas de uma lesão crônica profunda da
mucosa, que penetra através da muscular da mucosa, geralmente no estômago e duodeno.
Diferença entre erosão e úlcera péptica
● Erosão: perda superficial do epitélio, não ultrapassa a muscular da mucosa,
geralmente sangramento discreto.
● Úlcera péptica: lesão profunda que penetra a muscular da mucosa, com fundo de
tecido necrótico, fibrinoide e granulação; risco de complicações como perfuração ou
hemorragia maciça.
4.1 Definição
Lesão crônica escavada da mucosa do trato gastrointestinal exposta ao ácido e à pepsina.
4.2 Localizações
● Mais comuns: duodeno (primeira porção) e estômago (antro).
● Outras: esôfago (refluxo), locais ectópicos de mucosa gástrica (Meckel).
4.3 Fisiopatologia
● Desequilíbrio persistente entre agressão e defesa.
● No caso da úlcera duodenal:
○ Estímulo de hipersecreção ácida (freq. associada a H. pylori).
○ A mucosa duodenal sofre metaplasia gástrica → colonização por H. pylori →
inflamação → ulceração.
● Na úlcera gástrica:
○ Muitas vezes associada a diminuição da defesa da mucosa (AINEs, refluxo
biliar, gastrite atrófica por H. pylori).
● Morfologia: úlcera redonda/oval, bordas nítidas, fundo limpo com exsudato fibrinoide
e tecido de granulação na base.
4.4 Complicações da úlcera péptica
● Hemorragia (mais comum) → pode ser crônica (anemia ferropriva) ou aguda
(hematêmese, melena).
● Perfuração → dor abdominal intensa, peritonite.
● Penetração em órgãos vizinhos (pâncreas, fígado).
● Estenose pilórica → vômitos, distensão gástrica.
5. Conexões com farmacologia (Goodman & Gilman)
● Tratamento envolve:
○ Inibidores da bomba de prótons (IBPs) – bloqueiam secreção ácida.
○ Antagonistas H₂ – reduzem secreção ácida.
○ Erradicação do H. pylori – combinações de antibióticos + IBP.
○ Suspensão de AINEs, ou uso de protetores (misoprostol, análogos de PG).
○ Sucralfato – barreira protetora sobre a mucosa ulcerada.
Conclusão
"Então, resumindo: gastrite e úlcera péptica são manifestações do mesmo princípio
fisiopatológico: um desequilíbrio entre fatores agressivos e protetores da mucosa gástrica. A
gastrite pode ser aguda ou crônica, e a crônica pode evoluir para atrofia, metaplasia e até
câncer. Já a úlcera péptica é uma complicação crônica em que a lesão atravessa a mucosa e
pode gerar complicações graves. Helicobacter pylori e AINEs são os protagonistas, mas
vários outros fatores contribuem."
Questões
. Principais fatores de defesa da mucosa gástrica
● Muco e bicarbonato: formam uma camada protetora que neutraliza H⁺ próximo ao
epitélio.
● Prostaglandinas (PGE₂, PGI₂): estimulam secreção de muco/bicarbonato, aumentam
fluxo sanguíneo e renovação epitelial.
● Fluxo sanguíneo: mantém oxigenação, remoção de H⁺ e nutrientes.
● Renovação epitelial rápida: células epiteliais trocam-se a cada 3–7 dias.
● Junções intercelulares: impedem difusão retrógrada de H⁺.
Esses fatores agem sinergicamente; a perda de qualquer um pode predispor à
gastrite ou úlcera.
2. Diferença entre erosão e úlcera péptica
● Erosão: perda superficial do epitélio, não ultrapassa a muscular da mucosa,
geralmente sangramento discreto.
● Úlcera péptica: lesão profunda que penetra a muscular da mucosa, com fundo de
tecido necrótico, fibrinoide e granulação; risco de complicações como perfuração ou
hemorragia maciça.